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ENTREVISTA VHILS

Vhils: “É preciso pensar a


cidade em conjunto,
porque ela é de todos e
para todos”
A nova exposição em Lisboa, a polémica do Porto, os desafios
urbanos e a popularidade aos 30 anos. Eis Alexandre Farto, ou seja
Vhils.

VÍTOR BELANCIANO • 9 de Fevereiro de 2018, 10010

Alexandre Farto rceia que por vezes o foco se desloque, incidindo


sobre as banalidades da fama, esquecendo-se as questões que a
sua obra tenta interrogar FERNANDO GUERRA

Inaugurou há uma semana, Intrínseco, a nova


exposição em Lisboa, na Galeria Vera Cortês,
de Alexandre Farto, ou seja Vhils. Na abertura
da mostra de novas peças do artista, que se
prolonga até 17 de Março, havia filas à porta.
Em 2014, no Museu da Electricidade, com
Dissecção, atraiu 67 mil visitantes. A
popularidade da obra, espalhada pelas ruas,
galerias, museus e bienais de muitos pontos do
mundo, é um facto. No entanto, sem a renegar,
nem sempre convive bem com essa reputação,
principalmente num meio pequeno como o
português. Receia que por vezes o foco se
desloque, incidindo sobre as banalidades da
fama, esquecendo-se as questões que a obra
tenta interrogar, num conjunto alargado de
reflexões sobre a condição urbana em contexto
urbano, como os desenvolvimentos globais na
sua relação com as identidades locais.

Ao lado de Banksy, JR ou Shepard Fairey é dos


artistas que opera em espaço público que mais
tem feito por questionar muitas das tangentes
em que operam – quais os limites da arte e
qual o espaço onde deve figurar? Quem dita o
que deve ou não ser aceite para ser exposto no
espaço público? Quais as fronteiras nem
sempre nítidas entre espaço privado e público?
Ou como operar na rua e no espaço tantas
vezes sacralizado da arte contemporânea,
ligado como está ao mercado do capital?
Alexandre Farto não tem respostas fáceis, mas
sente-se que é alguém disposto a não desistir
de encontrar respostas, ainda que sempre
transitórias. Não apenas por ele, mas por
outros artistas com um percurso com
características similares ao seu. Em 2016, em
Hong Kong, dizia-nos que aquilo que
aconteceu nos últimos dez anos foi uma
surpresa. Um dia estava a atravessar o Tejo,
fazendo a travessia entre o Seixal e Lisboa, e no
dia seguinte a atravessar continentes. Há dias
voltamos a falar com ele, a poucos meses de
mais uma aventura que terá a sua marca – a
abertura, mais para a Primavera, do Museu de
Arte Urbana e Contemporânea de Cascais.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA
Neste momento é a sustentabilidade do planeta que está em
causa. Esse é um dos desafios que o meu trabalho tenta
reflectir, até porque muitas das soluções que têm vindo a ser
encontradas — como a tentativa de substituir os combustíveis
fósseis — revelam afinal novos problemas
Alexandre Farto

A última vez que expôs em Lisboa foi em


2014, no Museu da Electricidade, e foi
um êxito de público. Depois teve uma
importante mostra em Hong Kong, que
se desenvolveu para Pequim e Macau.
Como viveu o regresso a um espaço
expositivo em Portugal?
Sentia uma grande vontade de voltar a
apresentar trabalho em Lisboa, reunindo num
espaço uma série de preocupações que já vêm
de trás. As questões da identidade na cidade já
estavam presentes na última exposição na Vera
Cortês, bem como no Museu da Electricidade.
Agora sinto é que essas inquietações acabam
por ter uma nova pertinência neste momento
em Lisboa, por causa das transformações, das
pressões e da gentrificação do espaço urbano.
No fim de contas o que faço aqui é criar pontes
com outras realidades, porque estes fenómenos
acabam por ser todos singulares, mas também
têm pontos de contacto, aconteçam eles em
centros urbanos portugueses ou noutros
horizontes. E isso porque os modelos de
desenvolvimento das cidades são muito
semelhantes em quase todo o mundo. Claro
que cada contexto é um universo por si só, mas
nas cidades asiáticas, em Miami ou em
Londres, as tensões e os conflitos decorrentes
da exclusão da malha urbana têm muitas
semelhanças, porque as lógicas económicas,
urbanistas e territoriais têm pontos em
comum, com o capital no centro de tudo isso.

A exposição de Hong Kong reflectia dois


territórios demarcados. Duas cidades
numa só. Uma para quem tinha poder
económico e a outra ocultada nas
traseiras dos arranha-céus, a dos
excluídos do sistema. Essa desigualdade
gritante está também presente hoje em
Lisboa?
Sem dúvida. Isso sente-se na relação entre o
centro e a periferia. Essa dicotomia não é nova,
mas é claro que no contexto actual existem
cada vez mais sintomas dessa exclusão do
centro, embora nessa energia que alimenta
essa relação entre centro e periferia nem tudo
seja negativo. Mas especialmente em Lisboa e
Porto nota-se hoje um profundo processo de
transformação que merece ser reflectido.

Em termos de execução quais foram os


desafios desta exposição?
Parte das peças foram criadas no atelier,
através das várias histórias de sítios onde
trabalhei ao longo dos últimos anos, de Sidney
a Hong Kong ou Miami. Depois, todas as
camadas suplementares foram executadas na
galeria. A escolha do material – plástico
acrílico transparente – permitiu-me
representar toda a iconografia da cidade, ao
mesmo tempo que possibilita pensar também
sobre as questões ecológicas. Numa altura em
que a maioria da população mundial vive em
centros urbanos, tudo o que é feito à escala
global nesses meios acaba por ter impacto no
ambiente. Neste momento é a sustentabilidade
do planeta que está em causa. Esse é um dos
grandes desafios que o meu trabalho também
tenta reflectir, até porque muitas das soluções
provisórias que têm vindo a ser encontradas
para determinados dilemas – como a tentativa
de substituir os combusteis fósseis – revelam
afinal novos problemas, talvez porque o dilema
dos modelos de desenvolvimento são a sua
escala e massificação.

Nesses processos por vezes o que é local,


de pequena escala, tende a desaparecer.
Esta semana estreia em Portugal um
documentário da cineasta Agnés Varda
com o artista JR, com quem já
colaborou, onde isso também se reflecte.
Aliás o JR quando opera em espaço
público, fá-lo em lugares expostos aos
paradoxos da globalização, com uma
vertente de memória e resistência, que é
o que também pratica.
O nosso trabalho tem pontos de confluência é
verdade, nomeadamente o facto de tentarmos
dar visibilidade a situações que nem sempre
são apreendidas por uma larga maioria de
pessoas. Ele, através da sua acção, acaba por
chamar a atenção para uma série de lutas ou de
conflitos. E sim, essa carga de memória está
sempre presente, ao mesmo tempo que existe
uma atenção ao lado humano de todas essas
dinâmicas. Estou a fazer um trabalho agora no
Barreiro em que existiu primeiro um
levantamento histórico acerca da relevância da
indústria naquele território. Ali não me
interessa apenas a consciência do passado, mas
perceber até que ponto aquela memória fará
sentido na relação com o presente e até como
hipótese de futuro. E na verdade se não for
feito um trabalho de levantamento daquela
memória, de uma imensa riqueza, ela perder-
se-á. É aí que o meu trabalho se aproxima do
de JR, ao tentar trazer à superfície aquilo que
muitas vezes não é totalmente visível.

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Vhils: desencontro entre popularidade e fortuna crítica
A previsível popularidade que a exposição vai ter revela a capacidade comunicativa das obras de
Vhils. Mas não a sua pertinência artística.
Ler crítica

Em trabalhos como o dele e o seu, de


forma mais ou menos directa, acabam
por estar implícitas críticas à sociedade
actual. Ao mesmo tempo estão inseridos
num contexto, como o da arte
contemporânea, altamente especulativo.
Como se gere essa aparente
contradição?
É importante encontrar uma maneira de estar
bem comigo mesmo e para isso acontecer
tenho consciência de como o sistema funciona
para o poder não só criticar, como tentar
subverter ou funcionar nos seus interstícios.
Nesse sentido utilizo de forma consciente os
vários mecanismos que o sistema tem para
sustentar o trabalho que produzo. Quando faço
trabalhos com um cariz mais comercial, sei que
é também isso que me permite depois
desenvolver outro tipo de actividades com
comunidades onde não existe financiamento e
para os quais consigo ter uma equipa de
pessoas a operar. É dessa forma que me
levanto todos os dias com entusiasmo,
tentando criar um equilíbrio entre o lado
comercial do mundo da arte e projectos como
os que fiz no Rio de Janeiro ou no Bairro 6 de
Maio, ou outros que vou fazendo em diferentes
zonas do mundo, que são tudo ideias postas em
prática sem financiamento.
A linguagem que tem adoptado
transporta uma forte identidade, é
reconhecível. É esse o desejo da maior
parte dos artistas, encontrar essa
singularidade. Mas quando se encontra
tão cedo esse idioma personalizado,
também se corre o risco de criar a
percepção de repetição junto de quem o
segue ou mesmo pairar a ideia de que
gera códigos de fácil comunicação. Isso é
algo em que pensa?
O que me preocupa é que aquilo que pretendo
comunicar consiga encontrar interlocutores.
De resto, não me sentiria bem se estivesse a
fazer algo com que não me identificasse por
inteiro. Ao longo dos anos tenho tentado que o
meu trabalho evolua ou se aprofunde,
pesquisando sempre mais. Sinto que sofreu
transformações que são naturais porque fazem
parte de um processo de maturação e reflexão
onde me ponho em questão. O que sinto é que
parte daquilo que pretendo reflectir nem
sempre é discutido abertamente e isso sim
deixa-me pensativo. Tenho consciência que
muito do processo desencadeado por mim
deste o início, tal como o fascínio que os
trabalhos podem criar em termos visuais,
muitas vezes impedem que se discuta o que ele
pretende transmitir. Mas não sinto que exista
um efeito de repetição. Agora desejo que o foco
seja direccionado para as questões importantes
que tento abordar. Pela insistência do trabalho
que tenho feito, espero que um dia essas
questões que tento reflectir tenham mais
centralidade.

A credibilização da arte urbana parece


ocorrer a duas velocidades. Por um lado
o universo canónico da arte tolera-a,
mas ainda não a aceita totalmente. Por
outro assiste-se a alguns efeitos
perversos da sua disseminação, como a
promoção de um tipo de muralismo
ornamental sem conteúdo e até a
aproveitamentos políticos na forma
como se deseja melhorar a imagem de
alguns bairros, sem que seja garantida a
qualidade de vida dos habitantes.
Tudo isso é verdade. Existem alguns
aproveitamentos políticos e haverá um excesso
de eventos relacionados com essas práticas,
mas também existem muitos bons exemplos de
como se pode operar. O que noto é que
claramente se abriu uma porta para que uma
série de artistas que começaram a operar no
espaço público validem o seu trabalho o que é
mais do que legítimo. Independentemente
desses desvios, tem-se vindo a conseguir que
uma série de artistas encontrem o seu espaço,
sendo parte da solução e não o problema, para
a forma como o espaço público é
experimentado. Nitidamente hoje existem
várias tribos urbanas que podem contribuir de
forma positiva para pensar a cidade,
estabelecendo pontes e diálogos que há dez
anos não existiam. A força da arte em espaço
público é essa – alertar e criar relações,
ligações e pontes entre pessoas e lugares muito
diferenciados, promovendo a compreensão e
até a auto-estima no caso de alguns lugares.
Agora, como é evidente, tudo o que se fica pela
mera fachada, não interessa muito. De
qualquer forma se estamos aqui a questionar
alguns destes processos é porque eles
levantaram questões, independentemente de
alguns erros. É preciso estar alerta, mas
também não devemos temer a hipótese do erro.
ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Quando os holofotes incidem em mim não me sinto muito


confortável. O meu foco é o trabalho. É isso que me move. A
possível popularidade não me diz muito
Alexandre Farto

Esteve no centro de uma polémica no


Porto, por causa de uma anunciada
intervenção num edifício do arquitecto
Agostinho Ricca. Ficou a ideia que o
processo foi mal conduzido, com erros
de avaliação da Câmara Municipal e do
atelier de arquitectura que o convidou,
mas no espaço público acabou por
apenas se discutir a sua hipótese de
intervenção e até a arte urbana em
geral, como se fosse essa a questão
central, num assunto com tantos
vectores. Como é que olha para isso?
É verdade, o processo foi muito mal gerido
deste o início. Acima de tudo o que senti é que
a partir de determinada altura não foi criado
qualquer espaço para se discutir a ideia ou até
o que se poderia fazer naquele cenário. A
intenção inicial era trabalhar num espaço que
se queria reactivar e que estava ao abandono
há algum tempo, operando a partir da sua
memória e história. Às tantas, durante o
processo, até eu me comecei a colocar questões
pela relevância daquela obra. E a partir desse
momento deixou de fazer sentido fazer a
intervenção dada a discussão que se gerou.
Mas fiquei triste pela forma como o processo
foi orientado e também por não se ter
produzido um clima de abertura para o
diálogo. E foi pena porque o que aconteceu ali
vai repetir-se noutros contextos. Continuo a
achar que é importante que num processo
deste género sejam ouvidas um número
alargado de vozes, entre elas a dos artistas que
intervêm no espaço urbano porque – reitero –
o que eles desejam é dialogar. O contrário disto
não me parece nada produtivo. Interessa
sentar à mesma mesa arquitectos, políticos,
urbanistas, artistas e comunidade. No discurso
que passou para fora senti que a arte é vista
como mera ferramenta para a arquitectura e
isso é algo que não me deixa confortável.
Pensar a cidade deve ser um processo o mais
colectivo possível, para o qual deve contribuir
gente credível com história mas também
agentes emergentes, como os skaters por
exemplo, que contribuem de uma outra forma
para que as cidades sejam um organismo vivo
em constante transformação onde apetece
mesmo estar. É preciso pensar a cidade em
conjunto, porque ela é de todos e para todos.

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As cidades, como a arte, seja ela urbana


ou outra qualquer designação que
inventamos para tentar ordenar a
realidade, é feita de tensões
permanentes. Como é que se encontram
pontos de equilíbrio?
Gosto de arte e cidades por isso, pela procura
de uma certa estabilidade no meio dessa
mutabilidade, dos vários usos e apropriações, e
parece-me que é dialogando que se encontram
equilíbrios. No caso da arte em espaço público
foi feito um trabalho nos últimos dez anos que
não vai voltar atrás. A energia criativa que
existe na rua não deve ser perseguida, mas sim
integrada. Por vezes essa energia acaba por se
dissipar apenas por não existir interlocução. E
é uma pena porque essas novas energias
apenas desejam uma melhor cidade. O que
aconteceu no Porto teve, pelo menos, o efeito
de levantar algumas questões. Talvez seja
necessário existir alguém que pensa a
intervenção no espaço público de forma global,
medindo os impactos.

Não existem muitos casos em Portugal


de alguém do universo da arte
contemporânea, aos 30 anos, alcançar
um nível de popularidade como o seu.
Com a notoriedade, por norma, expõe-se
também mais e surgem anticorpos.
Como vai administrando tudo isso?
Quando os holofotes incidem em mim não me
sinto muito confortável. O meu foco é o
trabalho. É isso que me move. A possível
popularidade não me diz muito. Tento, isso
sim, lidar o melhor que sei com os desafios e as
responsabilidades que se apresentam à minha
frente. Nos últimos anos aconteceram muitas
coisas na minha vida. Nem sempre estamos
preparados para elas, mas aceito isso e vou
tentando gerir os momentos. Para além do meu
trabalho individual, o que me tem dado mais
prazer é criar estruturas que consigam dar
visibilidade e criar diálogo com outras pessoas
das artes, da música e da cultura em geral.
Existe uma nova geração de artistas e activistas
que merecem afirmar-se e fazer a sua vida à
volta do que gostam de fazer. E não é só
importante ter acesso a galerias ou festivais,
como também a colecções e instituições
portuguesas. Se o meu trabalho tem alguma
repercussão é para isso que é canalizado, para
essa tentativa de atribuir visibilidade a todas
essas subculturas da arte ou da música, seja
através da galeria Underdogs, do festival
Iminente ou de outras plataformas. Sinto-me
próximo de todas essas manifestações, devo-
lhes o que sou hoje. Sim, existe o meu trabalho
pessoal, mas também há uma comunidade de
artistas à minha volta e nunca o esqueço.

vbelanciano@publico.pt

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