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João Pereira Coutinho

(/colunas/joaopereiracoutinho/)

Saudades das cavernas


Os reacionários que enchem a boca com a história
desconhecem-na grosseiramente

30.abr.2019 às 2h00

EDIÇÃO IMPRESSA (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/fac-simile/2019/04/30/)

O tempo é dos reacionários. Falo daquelas "mentes naufragadas", de


que falava Mark Lilla (https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/03/esquerda-deve-tirar-
foco-da-pauta-identitaria-para-ser-eleita-diz-mark-lilla.shtml) no seu livro, e para as quais o

presente em que vivemos é tão precário, tão imundo, tão cruel que
o melhor é retornar ao passado.

Antigamente, dizem eles, tudo era mais simples, mais ordenado,


mais perfeito. Como os revolucionários que tanto abominam, os
reacionários são iguais a eles e podem estar à esquerda e à direita,
entre ateus ou fervorosos crentes.
Podem ser ambientalistas radicais (não confundir com cientistas)
que, seguindo uma criança sueca aparentemente perturbada (Greta
Thunberg (https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/02/adolescente-provoca-greves-pelo-
mundo-as-sextas-feiras-pelo-clima.shtml)), defendem um retorno às cavernas para
salvar o planeta.

Podem ser nacionalistas extremistas que desprezam a democracia


pluralista e sonham com formas autoritárias de política.

Angelo Abu/Folhapress

Sem esquecer o pessoal das arábias, que procura recriar, pela força
das bombas e das decapitações, um novo Califado.

É contra essa moda que se insurge o filósofo francês Michel Serres


em ensaio recente. Serres, do alto dos seus quase 90 anos, publicou
"Antes é que Era Bom!" (edição portuguesa pela Guerra & Paz),
ensaio de uma ironia fina, no qual a autobiografia se mistura com a
filosofia. Antes é que era bom?
Sem dúvida, escreve Serres. Para ficarmos apenas no século 20, esse
tempo arcádico para onde os reacionários querem voltar, havia
grandes estadistas, como Hitler ou Stálin, Mao ou Pol Pot.

E havia também paz, muita paz, ao contrário das barbáries de hoje.


Como não recordar, com um sorriso nostálgico, os anos de 1914 ou
1939? Como esquecer os piqueniques em Hiroshima ou Nagasaki?
Como não sonhar com os tempos felizes no Gulag ou em
Auschwitz?

Mas Michel Serres não se fica pela grande história. A pequena


também tem espaço nas suas meditações rezingas. Vejamos.

Antigamente, quando tudo era bom, vivia-se longamente até aos 35


ou 40 anos —e uma família tinha que ter cinco filhos, às vezes mais,
na esperança de conservar dois.

Não havia problemas na previdência social porque, em rigor, não


havia previdência social. Nem previdência social, nem água
encanada, nem sistema de descarga, nem antibióticos, nem
anestesia. Uma ida ao dentista era uma experiência deliciosa.

E se o leitor, indignado, acusa Michel Serres de não ser sensível às


tribulações do presente —o ambiente, a condição da mulher, a
alimentação artificial, as redes sociais—, o pobre filósofo não tem
defesa possível para cada um desses males.

A revolução industrial ou o regime de semiescravidão em que


viviam as mulheres não têm paralelo com a trágica situação atual.

Redes sociais? O mundo era sem dúvida melhor quando as


comunicações duravam semanas (e não segundos) —e as viagens
duravam meses (e não horas).
E sobre os produtos naturais que era possível consumir diretamente
da origem, sem controle sanitário de qualquer espécie, Michel
Serres, filho de agricultores, suspira: era diarreia em família seis
vezes por ano! Que interessava a febre aftosa quando era possível
beber leite acabado de mungir de uma vaca bucólica e enferma?

Eu sei, eu sei: nunca devemos confundir progresso material com


progresso moral. Se, como dizem os hipocondríacos, a saúde é uma
fase transitória que não augura nada de bom, o momento que
vivemos no Ocidente, de relativo conforto e acalmia, um dia será
recordado como um "intermezzo" na história da humanidade. E
essa história, como alguém dizia, sempre foi a história dos crimes
contra a humanidade.

Mas, por outro lado, como negar que esse "intermezzo" existe? E
que, material e até moralmente, nunca estivemos tão bem --na
longevidade, na alimentação, no trabalho, no lazer? E até na
política, sim, sobretudo quando nos comparamos com os
desgraçados fantasmas que cresceram e morreram às ordens de
Lênin, Franco ou Ceausescu?

Os reacionários que enchem a boca com a história desconhecem-na


grosseiramente. E eu, depois de ler Michel Serres, imagino como
seria terapêutico construir uma Disneyland só para eles —um
resort gigantesco onde, voluntariamente, os reacionários poderiam
experimentar os prazeres do passado com que tanto sonham.

Viveriam 24 horas sob vigilância policial. Trabalhariam a terra com


as mãos, ou com instrumentos tão rudimentares como as mãos, e
não com as frescuras da tecnologia. Os cuidados de saúde estariam
a cargo de um barbeiro —ou, então, de um médico especializado em
sangrias ou lobotomias.
E as mulheres reacionárias, especialmente elas, viveriam
submetidas aos caprichos dos pais, dos maridos, dos irmãos, sem
direitos cívicos de qualquer espécie. Se estivessem em plena
menopausa, era hospício para elas.

Ah, já me esquecia: a alimentação seria "autêntica". Como negar aos


nostálgicos os prazeres de uma boa diarreia?

João Pereira Coutinho


Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

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