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REFERENCIAL TEÓRICO

1.1 Pobreza e Vulnerabilidade Social

Na Administração Pública, entende-se por problemas complexos aqueles que


não podem ser solucionados a partir de estratégias lineares ou unissetoriais, e
demandam uma ação intersetorial do Estado – como é o caso da pobreza. Segundo
Gomes e Pereira (2005), a pobreza não tem uma única definição, mas ela se torna
evidente no momento em que uma parcela da população não possui renda suficiente
para ter acesso a recursos básicos – educação, saúde, alimentação, moradia, etc. –
para se ter uma vida digna, sendo, portanto, um problema que perpassa por diversas
áreas.

A pobreza tem uma série de implicações, e uma das mais notórias é a


vulnerabilidade social. Esse conceito surgiu com o esgotamento da matriz analítica da
pobreza pautada somente em termos econômicos, passando a discutir, ademais, os
fatores determinantes do processo de empobrecimento e seus impactos sociais de
modo a orientar a consolidação de políticas sociais (MONTEIRO, 2012). Sendo assim,
entende-se que a pobreza não é determinada por uma variável específica, mas por uma
multiplicidade de condições: “a vulnerabilidade não é uma essência ou algo inerente a
algumas pessoas e a alguns grupos, mas diz respeito a determinadas condições e
circunstâncias que podem ser minimizadas ou revertidas” (PAULILO e JEOLÁS, 1999
apud MONTEIRO, 2012).

Mauriel (2010) argumenta que a quebra da concepção economicista da pobreza


está em consonância com a Constituição de 1988, que frisa a primordialidade dos
preceitos de cidadania, para além do combate à pobreza em sua essência. A partir
desse momento, passam a ser enaltecidos no Brasil os vínculos entre políticas
econômicas e sociais, atentando para as especificidades de grupos que geram
vulnerabilidade social. A autora enfatiza que tratar aspectos econômicos como
determinantes para a condição de vulnerabilidade é um problema – e, até pouco tempo
atrás, a avaliação do bem-estar social se dava quase que exclusivamente pela variável
renda. É imprescindível levar em consideração outros tantos fatores que acarretam
essas condições, e que demandam a atuação de múltiplos órgãos governamentais.

Lopes (2008) vai ao encontro dessa visão ao dizer que a revisão teórico-empírica
da noção de vulnerabilidade social se desvinculou da esfera que gira em torno
estritamente do mundo do trabalho e da renda para um cenário ampliado de variadas
interações. São elas que revelam certas particularidades, recursos e capacidades que
podem colocar certos indivíduos e grupos em situação alheia ao sistema de
oportunidades dado pela sociedade, e, consequentemente, a um nível adequado de
bem-estar.

Dadas essas considerações, de acordo com Veiga e Bronzo (2014), é importante


verificar fatores que implicam a permanência ou não da condição de vulnerabilidade
social, o que é determinante para a elaboração de políticas públicas. As vulnerabilidades
transitórias estariam associadas a fenômenos conjunturais que podem ser solucionados
e, posteriormente, ter os recursos e as capacidades dos afetados recompostos.
Contudo, existem situações crônicas, que se caracterizam pela presença de
diagnósticos complexos, duradouros e persistentes de graves iniquidades sociais.
Nessas, faz-se necessária uma atuação por parte do Estado para além de políticas
redistributivas universais gerais, mas específicas para as características do grupo social
em questão.

REFERÊNCIAS

GOMES, M. A.; PEREIRA, M. L. D. Família em situação de vulnerabilidade


social: uma questão de políticas públicas. Ciência & Saúde Coletiva. Fortaleza: v. 10,
2005. p. 357-363.

LOPES, J. R. Processos sociais de exclusão e políticas públicas de


enfrentamento da pobreza. Caderno CRH. Salvador: v. 21, n. 53, 2008.

MAURIEL, A. P. O. Pobreza, seguridade e assistência social: desafios da política


social brasileira. Revista Katálysis. Florianópolis: v. 13, n. 2, 2010. p. 173-180.

MONTEIRO, S. R. R. P. O marco conceitual da vulnerabilidade social.


Sociedade em Debate. Pelotas: v. 17, n. 2, 2012. p. 29-40.

VEIGA, L.; BRONZO, C. Estratégias intersetoriais de gestão municipal de


serviços de proteção social: a experiência de Belo Horizonte. Rev. Adm. Pública. Rio
de Janeiro, 2014. p.595-620.