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OS SENTIDOS DO(S) DIREITO(S) EM AXEL HONNETH: das lutas por

reconhecimento à liberdade social


Ricardo Juozepavicius Gonçalves1

Resumo: Este ensaio aborda ideias iniciais e justificativas acerca do estudo dos sentidos
do(s) direito(s) nas obras Luta por reconhecimento e O direito da liberdade, de Axel
Honneth. Desenvolvemos o tema a partir da conexão entre as categorias centrais do
reconhecimento e da liberdade social – em que as instituições socais possuem função de
sustentar e promover relações de mútuo reconhecimento com a ambição de efetivar
liberdades sociais –, expondo um dos sentidos do direito em Honneth que pode ser
interpretado como um recurso prático ou médium que funciona como um equilíbrio entre o
“eu e o(s) outro(s)”, concepção não convencional na filosofia do direito e que possui
potencial para ser ampliada, fornecendo novos elementos para uma teoria crítica do direito.
Palavras-chave: Axel Honneth, teoria crítica do direito, reconhecimento, liberdade social,
direito, direitos.

Abstract: This essay deals with some initial ideas and justifications about the study of the
sense of law and rights in Axel Honneth's works Struggle for recognition and Freedom’s
right. We develop the theme from the connection between the central categories of
recognition and social freedom – in which social institutions have the function of
sustaining and promoting relations of mutual recognition with the ambition to realize
social freedoms –, exposing one of the meanings of law in Honneth that can be interpreted
as a practical or medium resource that functions as a balance between the "self and the
other(s)", unconventional conception in the Law philosophy which has potential to be
expanded, providing new elements for a critical legal theory.
Key words: Axel Honneth, critical legal theory, recognition, social freedom, law, rights.

Este ensaio apresenta as reflexões teóricas iniciais que estão sendo desenvolvidas
ao longo da pesquisa de doutorado denominada “O direito em Axel Honneth: elementos de


1
Doutorando (2018) e mestre (2015–2017) em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Faculdade de Direito
da Universidade de São Paulo, sob orientação do Prof. Dr. Samuel Rodrigues Barbosa.
uma teoria crítica do direito centrada na categoria do reconhecimento”, financiado pela
FAPESP (processo nº 2018/00924-1). A pesquisa em desenvolvimento visa contribuir para
o debate teórico acerca do significado e importância do direito na obra do filósofo e
sociólogo Axel Honneth, visando melhor compreender as escolhas que levaram ao autor a
abordar o tema do(s) direito(s) de forma tão central em sua teoria do reconhecimento e, ao
mesmo tempo, conceder tratamento tão diferenciado ao tema.
Em Luta por reconhecimento, Honneth elabora uma teoria social centrada na
categoria do reconhecimento, definindo três esferas do reconhecimento para a
autorrealização através da relações intersubjetivas, sendo uma delas a esfera dos direitos. O
significado dos direitos (no sentido de rights), neste momento, remete às lutas por
reconhecimento de direitos e das relações sociais que se referem sobre elas, que
constituiriam parte fundamental do processo de reconhecimento intersubjetivo, no sentido
de que a negação de direitos ou exclusão jurídica dificulta a capacidade do sujeito de um
entendimento prático de si mesmo como um sujeito de direitos livre e igual.
Neste sentido, a dimensão do reconhecimento dos direitos e das relações jurídicas
proposta por Honneth como condição para satisfação do autorrespeito, em que o sujeito é
reconhecido plenamente como autônomo e moralmente imputável, estaria intimamente
ligada com as experiências individuais de injustiça, desrespeito e violações ocorridas no
âmbito das relações jurídicas:
temos de procurar a segunda forma naquelas experiências de
rebaixamento que afetam seu autorrespeito moral: isso se refere aos
modos de desrespeito pessoal, infligidos a um sujeito pelo fato de ele
permanecer estruturalmente excluído da posse de determinados direitos
no interior de uma sociedade. De início, podemos conceber como
“direitos”, grosso modo, aquelas pretensões individuais com cuja
satisfação social uma pessoa pode contar de maneira legítima, já que ela,
como membro de igual valor em uma coletividade, participa em pé de
igualdade de sua ordem institucional; se agora lhe são denegados certos
direitos dessa espécie, então está implicitamente associada a isso a
afirmação de que não lhe é concedida imputabilidade moral na mesma
medida que aos outros membros da sociedade (Honneth 2009, p. 216).

Porém, o autor não dedica seus esforços neste momento para o caráter
institucional do direito, ou mesmo para um possível conceito de direito (no sentido de
law), ambos permanecem indeterminados em sua obra. O projeto de pesquisa visa
examinar, da forma mais isolada possível, o tratamento dedicado ao direito a partir da
teoria do reconhecimento de Axel Honneth, examinando a mudança teórica desenvolvida
em O direito da liberdade, em que o autor concebe a liberdade jurídica como sendo um
componente indispensável e necessário à efetivação da liberdade social, ao mesmo tempo
que expõe a sua preocupação com o excessivo “legalismo” e a “juridificação” das relações
sociais como sendo patologias intrínsecas do direito moderno.

II

No presente ensaio, objetivamos desenvolver as justificativas para realizar o


estudo proposto e esboçar as primeiras ideias que puderam ser extraídas do início da
pesquisa, objetivando responder as seguintes questões norteadoras: 1) Por que Honneth
dedica papel tão central ao direito em sua teoria do reconhecimento? 2) Ao mesmo tempo,
qual o motivo de sua abordagem – que denominamos de uma “abordagem não
convencional” – do direito? 3) E, por fim, qual o sentido de direito que é possível extrair
entre as duas obras de Honneth?
Diante das perguntas, justificamos a pesquisa a partir de três âmbitos diferentes:
1) Da forma como Honneth organiza seu pensamento acerca da motivação das lutas sociais
por direitos e por reconhecimento, é inevitável a necessidade de uma melhor compreensão
acerca da capacidade da “forma jurídica” e das instituições jurídicas de responder aos
pleitos sociais já advindos de experiências prévias de negação e exclusão; 2) A partir das
mudanças realizadas entre Luta por reconhecimento e O direito da liberdade, Honneth
permite compreender que a categoria do reconhecimento possui uma necessária conexão
com a categoria da liberdade social, no sentido de que esta última só poderia ser adquirida
através de instituições sociais que sustentam e promovem relações de mútuo
reconhecimento. Enquanto o reconhecimento é a chave para a gramática dos conflitos
sociais, a liberdade social é a ambição chave das lutas por reconhecimento nas sociedades
modernas (Zurn 2015, p. 10); 3) e, por último, apesar de tratar do direito (em ambos
sentidos, law e rights) em duas de suas obras de maior folego, os estudos sobre abordagem
do autor ainda são muito escassos, sendo a abordagem de Honneth, no mínimo, não
convencional para os estudiosos do direito, muito embora recentemente a categoria do
reconhecimento e as ambições de liberdades sociais possuírem intensa influência nos
debates sócio-jurídicos sobre lutas sociais e extensão de direitos, que atingem o Judiciário
brasileiro (como por exemplo recentes discussões acerca da legalização do aborto, cotas
raciais nas universidades, casamento homoafetivo, entre vários outros temas)2.
Além dessas questões norteadoras e justificativas, alguns problemas encontrados
na obra de Honneth, já mencionados por comentadores (ver por exemplo Zurn [2015] e
Schuereman [2017]), também fundamentam a importância de melhor compreender a
maneira com que Honneth manipula o tema do direito e dos direitos. Nosso objetivo neste
ensaio, portanto, será justificar o motivo pelo qual o direito em Axel Honneth tem uma
posição fundamental, não sendo manejado por simples oportunidade e possuindo sentido e
importância central na produção teórica do autor e em suas mudanças ao longo de sua
produção.

III

A motivação para a pesquisa, portanto, advém da constatação de que o significado


do direito em Axel Honneth, até o momento, permanece indeterminado. Apesar de
conceder importância ao tema em suas obras, o autor mobiliza o campo institucional do
direito de forma não convencional, deixando de lado os debates clássicos e recentes da
filosofia do direito, e também os debates acerca da função e significado do direito no
âmbito da própria tradição de pensamento da teoria crítica. Além disso, em Luta por
reconhecimento, Honneth apresenta a “esfera dos direitos” como sendo um dos campos
onde o reconhecimento social pode se efetivar, mas considerando o que chama de direito
mais como uma esfera social do que institucional e objetiva, não tratando de um conceito
de direito específico para melhor esclarecer seu entendimento sobre o tema. Já em O
direito da liberdade, em contraste com o posicionamento tomado em Luta por
reconhecimento, Honneth dedica boa parte da seção intitulada “liberdade jurídica” para
descrever e criticar alguns movimentos de “juridificação” ocorridos na Europa (Honneth
2015, p. 157-173), que estaria culminando com um processo de transformação e redução
de indivíduos na soma de suas reivindicações jurídicas (Honneth 2015, p. 185), ou seja, em


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Além disso, conforme Christopher Zurn, a amplitude e variedade das lutas sociais que podem ser analisadas
pela teoria do reconhecimento de Honneth também deve ser considerada para o seu potencial explicativo das
lutas sociais contemporâneas: “Enquanto Honneth concorda com autores como Charles Taylor e Iris Young
que o multiculturalismo e as políticas de identidade são formas importantes de luta por reconhecimento, o
modelo mais amplo de Honneth dá visibilidade a um escopo muito maior, atingindo a anti-violência, direitos
civis, e lutas por redistribuição econômica” (Zurn 2015, p. 59).
uma patologia social3 jurídica da modernidade, endereçando, neste momento, o campo do
direito muito mais ao arcabouço institucional, através da patologia social da
“juridificação”.
Estes são alguns dos aspectos para que o tema do direito e dos direitos
permanecesse, em certo sentido, indeterminado e passível de críticas em sua obra, sendo
que, aliados a estes fatores, Honneth também sustenta em recente artigo (Honneth 2017),
que se recusou deliberadamente a tratar o direito como uma área “compartimentalizada”,
considerando que o tema não pode ser visto como uma esfera própria e fechada na teoria
social, esclarecendo que o direto para ele é “onipresente” nas sociedades modernas,
disponível como sendo um “recurso prático e um médium compartilhado” para, dentre
outras funções, rejeitar demandas não razoáveis, justificar reformas sociais ou conferir
força às instituições para mudanças sociais recentemente implantadas. Sendo assim, em
sua visão, as outras esferas sociais estão inevitavelmente sempre conectadas ou muito
próximas ao direito (como instituição objetiva e como sentido subjetivo), não podendo
considerá-las como esferas “extralegais” (Honneth 2017, p. 128).

IV

Através destas primeiras considerações, motivações, problemas e justificativas,


Honneth permite compreender que o tema do direito não pode ser observado seriamente
apenas de um ponto de vista positivista, legislativo ou judiciário. O direito constitui a
sociedade e é constituído por ela, e de forma extremamente complexa e plural, sendo
necessário não compartimentalizá-lo como saber único para melhor compreendê-lo. De
acordo com Honneth, o direito é, ao mesmo tempo, campo de lutas, disputas e resistências
sociais e também campo de “juridificação”, de conservadorismo, de violações. Ou seja, é
conectado com a prática e constitui um recurso ou médium sempre ligado a uma outra
gama de saberes e intenções sociais.
Entre Luta por reconhecimento e O direito da liberdade, é possível extrair um
entendimento mais preciso sobre o direito em Axel Honneth conectando o percurso teórico
das duas obras. É possível separar a esfera dos direitos (rights) e a instituição social do
direito (law), como consistindo em um dos pilares da abordagem de Honneth de como se

3
No sentido que Honneth esclarece: “podemos falar em ‘patologia social’ sempre que a relacionarmos com
desenvolvimentos sociais que levem a uma notável deterioração das capacidades racionais de membros da
sociedade ao participar da cooperação social de maneira competente” (Honneth 2015, p. 157).
motivam as lutas sociais nas sociedades modernas e quais são suas principais ambições. As
instituições seriam indispensáveis e necessárias para garantir reconhecimento e,
consequentemente, liberdade social. Os pleitos por direitos precisam ser efetivados e
garantidos através de instituições sociais concretas, mediante a “tradução” para a “forma
jurídica”, que permite uma lógica de luta já de início coletiva, e não individual como em
uma primeira análise pode parecer.
O direito em Honneth é um recurso prático/médium para garantir o reforço das
obrigações que temos perante a figura dos “outros generalizados”, e através deste reforço o
direito simultaneamente expressa um tipo específico de respeito a todos os sujeitos de
direitos. Os indivíduos que lutam por direitos, ganham respeito de serem tratados da
mesma forma que todos os outros membros da comunidade jurídica a que pertencem, ao
mesmo tempo em que cada um reconhece todos os outros como fazendo jus aos mesmos
direitos.

Um possível sentido de direito em Axel Honneth seria, portanto, o de um direito


voltado “ao(s) outro(s)”. Honneth permite uma compreensão de que sempre que uma luta
social invade a arena institucional relacionada com a efetividade, garantia ou adjudicação
de direitos, a luta toma invariavelmente proporções maiores, luta-se pelo reconhecimento
próprio, mas ao mesmo tempo também luta-se pelos “outros generalizados”.
Essa perspectiva do outro generalizado que é permitida pela forma jurídica produz
um tipo de “empatia” social prima facie, já que na pretensão de garantir reconhecimento
jurídico e autorrealização individual ou coletiva, também a luta é empreendida para que
outros também atinjam essa mesma condição assegurando direitos também a sujeitos
indeterminados. Neste sentido, a luta por reconhecimento de direitos motivada moralmente
através de experiências de desrespeito é também uma luta pela sociedade.
Desta forma, além da própria luta por reconhecimento de direitos possuir
potencial para efetivar ganhos em autorrealização e consequentemente em autonomia
daqueles envolvidos na luta, também possibilita um aumento da extensão de proteção de
direitos, na hipótese da conquista de direitos que a priori seriam apenas dos sujeitos
envolvidos. Honneth parece querer deixar claro a importância deste aspecto específico da
forma jurídica, sendo por este motivo que deixa o(s) direito(s) em plano privilegiado em
sua teoria da sociedade centrada na categoria do reconhecimento.
Portanto, nossa hipótese até o momento é que estudar o significado do direito na
obra de Axel Honneth permite desenvolver uma compreensão não convencional para a
filosofia do direito, observando-o como um fenômeno social revestido de diversas formas
– sendo apenas uma delas a institucional, ou a “forma jurídica” moderna ocidental – que
aparecem em relações intersubjetivas envolvem lutas por afirmação de direitos. Neste
sentido, manipular a categoria do reconhecimento no centro do entendimento de um
conceito de direito como “esfera institucional e social” é proveitoso para contribuir para
uma teoria crítica do direito que seja capaz de dar subsídios para o “redesenho” de
instituições centradas em um maior potencial democrático e deliberativo centrados na
categoria do reconhecimento.

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