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CULTURA E VALOR

Ludwig Wittgenstein
(pedir livro)
BIBLIOTECA DE FILOSOFIA CONTEMPORANEA

Uma colecção que se pretende aberta a todas as correntes do pensamento filosófico actual, congregando os
autores mais significativos e abarcando os grandes pólos da filosofia actual: filosofia da linguagem,
hermenêutica, epistemologia e outros
BIBLIOTECA DE FILOSOFIA CONTEMPORANEA

1. MENTE, CÉREBRO E CIÊNCIA, John Searle


2. TEORIA DA INTERPRETAÇãO, Paul Ricoeur
3. TÉCNICA E CIêNCIA COMO «IDEOLOGIA», Jurgen Habermas
4. ANOTAÇõES SOBRE AS CORES, Ludwig Wittgenstein
5. TOTALIDADE E INFINITO, Emmanuel Levinas
6. AS AVENTURAS DA DIFERENÇA, Gianni Vattimo
7. ÉTICA E INFINITO, Emmanuel Levinas
8. O DISCURSO DE ACÇÃO, Paul Ricoeur
9. A ESSÊNCIA DO FUNDAMENTO, Martin Heidegger
10. A TENSÃO ESSENCIAL, Thomas S. Kuhn
11. FICHAS (ZE=L), Ludwig Wittgenstein
12. A ORIGEM DA OBRA DE ARTE, Martin Heidegger
13. DA CERTEZA, Ludwig Wittgenstein
14. A MãO E O ESPíRITO, Jean Brun
15. ADEUS À RAZÃO, Paul Feyerabend
16. TRANSCENDÊNCIA E INTELIGIBILIDADE, Emmanuel Levinas
18. IDEOLOGIA E UTOPIA, Paul Ricoeur
19. O LIVRO AZUL, Ludwig Wittgenstein
20. O LIVRO CASTANHO, Ludwig Wittgenstein
21. QUE É UMA COISA?, Martin Heidegger
22. CULTURA E VALOR, Ludwig Wittgenstein
Título original: Culture and Value

C Basil Blackwell 1980

Tradução de Jorge Mendes

Revisão, por comparação com o texto em alemão,


de Artur Morão

Capa de Edições 70

Todos os direitos reservados para língua portuguesa

por Edições 70, Lda.

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Direitos de Autor será passível de procedimento judicial.
Ludwig Wittgenstein

CULTURA
E VALOR

edições 70
PREFÁCIO

No material manuscrito deixado por Wittgenstein existem muitas notas que directamente não pertencem às suas
obras filosóficas, embora se encontrem dispersas e misturadas com os textos filosóficos. Algumas das notas são
autobiográficas, outras referem-se à natureza da actividade filosófica, e outras dizem respeito a assuntos de
carácter geral, tais como questões sobre arte ou religião. Nem sempre é possível separá-las nitidamente do texto
filosófico; contudo, em muitos casos, o próprio Wittgenstein deixou entrever essa separação - utilizando
parêntesis, ou
de outras maneiras.

Algumas notas são efémeras; outras, por outro lado - a maioria - têm um grande interesse. Por vezes, são
admiravelmente belas e profundas. Tornou-se evidente para os executores literários que uma parte das notas se
deveria publicar, e eu próprio fui encarregue de fazer e organizar uma selecção.

Tratava-se, incontestavelmente, de uma tarefa difícil; em


várias ocasiões, tive diferentes ideias sobre como levá-la a cabo da melhor maneira possível. Para começar, por
exemplo, pensei que as notas se podiam organizar conforme os assuntos nelas tratados - como «música» ,
«arquitectura», «shakespeare», «aforismos sobre sabedoria prática», «filosofia», etc. Por vezes, as notas
podem assim ordenar-se sem esforço; mas, geralmente, a separação do material por este processo daria
provavelmente uma impressão de artificialidade. Além disso, eu tinha pensado, durante um curto período de
tempo, em incluir material já publicado. Muitos dos «aforismos» mais impressionantes de Wittgenstein
encontram-se nas suas obras filosóficas - nos cadernos de apontamentos da primeira Guerra Mundial, no
Tratactus e
10
também nas Investigações. Gostaria de dizer que é quando se
encontram em tais contextos que os aforismos de Wittgenstein exercem, de facto, o seu mais poderoso efeito.
Mas precisamente por essa razão não me parecia correcto arrancá-los ao seu contexto.

Durante um curto período de tempo, pensei também não fazer uma selecção muito vasta, mas incluir apenas as
«melhores» notas. A impressão criada pelas boas notas só poderia ser enfraquecida, segundo pensava, por um
grande volume de material. Isso é, provavelmente, verdade - mas não me permitia confiadamente escolher entre
as formulações repetidas do mesmo, ou praticamente do mesmo, pensamento. Muitas vezes, as próprias
repetições pareciam-me estar relacionadas com a própria natureza do assunto.

Por fim, decidi-me pelo único princípio de selecção que me


parecia incondicionalmente correcto. Excluí da compilação as
notas de tipo puramente «pessoal» - isto é, notas em que Wittgenstein faz observações sobre as circunstâncias
externas da sua vida, sobre o seu estado de espírito e as relações com outras pessoas - algumas das quais estão
ainda vivas. Estas notas foram, de um modo geral, fáceis de separar do resto e o seu nível de interesse é diferente
do das notas aqui dadas à estampa. Só em alguns poucos casos em que as duas condições pareciam não estar
reunidas incluí, também, notas de natureza autobiográfica.

As notas publicam-se aqui segundo uma ordem cronológica, com uma indicação do seu ano de origem. É notável
o facto de praticamente metade das notas provir do período subsequente ao

acabamento (1945) da primeira parte das investigações filosóficas.

Na ausência de explicações adicionais, algumas das notas revelar-se-ão obscuras ou enigmáticas para um leitor
que não se

encontre familiarizado com as circunstâncias da vida de Wittgenstein ou com aquilo que ele lia. Em muitos
casos, teria sido possível fornecer comentários esclarecedores em notas de pé de página. Abstive-me, contudo,
com muito poucas excepções, de incluir comentários. Seria conveniente acrescentar que todas as

notas de rodapé são da responsabilidade do editor.


Prefácio 11

É inevitável que um livro deste tipo venha a chegar às mãos de leitores para os quais a obra filosófica de
Wittgenstein é, e continuará a ser, desconhecida. Isto não é necessariamente prejudicial ou inútil. Estou, no
entanto, convencido de que estas notas apenas se podem devidamente compreender e apreciar contra o

pano de fundo da filosofia de Wittgenstein e, além disso, que elas contribuem para a nossa compreensão dessa
filosofia.

Comecei a fazer a minha selecção a partir dos manuscritos nos anos de 1965-1966; pus em seguida o trabalho de
parte até
1974. O sr. Heikki Nyman ajudou-me na selecção final e na ordenação da compilação. Verificou também a
concordância exacta entre o texto e os manuscritos e eliminou muitos erros e lacunas do meu original
dactilografado. Estou-lhe muito grato pelo seu

trabalho, realizado com imenso cuidado e bom gosto. Sem a sua

ajuda, não teria sido provavelmente capaz de conseguir completar a compilação para ser impressa. Estou
também profundamente grato ao sr. Rush Rhees pelas correcções feitas ao texto por mim produzido e pelas
opiniões preciosas que me deu sobre questões de selecção.

Helsínquia, Janeiro de 1977

Georg Henrik von Wright


1914

Temos tendência para confundir a fala de um chinês com um gorgolejo inarticulado. Alguém que compreenda o
chinês reconhecerá, no que ouve, a língua. Muitas vezes, não consigo, analogamente, distinguir num homem a
humanidade.

1929

Considero nova a minha própria maneira de filosofar, e continuo ainda a pensar que assim é; é por isso que tão
frequentemente necessito de me repetir. Para uma nova geração, ela ter-se-à tornado uma segunda natureza e as
repetições parecerão maçadoras. Para mim as repetições são necessárias.

É bom que eu não me permita ser influenciado!

Uma boa parábola refresca o entendimento.

É difícil indicar um caminho a um míope, visto que não se

lhe pode dizer: «Olhe para aquela torre de igreja a dez milhas daqui e siga nessa direcção.»

Não há nenhuma confissão religiosa em que o uso incorrecto de expressões metafísicas tenha sido responsável
por tantos pecados como na matemática.

O olhar humano tem o poder de conferir valor às coisas; mas

também faz que elas se tomem mais caras.


14

1929

Deixa falar apenas a natureza e admite como superior à natureza unicamente uma coisa, mas não aquilo que os
outros possam pensar.

A tragédia encontra-se onde a árvore, em vez de se dobrar, se quebra. A tragédia é algo de não judeu.
Mendelssolui é, segundo creio, o mais trágico dos compositores.

Todas as manhãs é preciso atravessar de novo o cascalho inerte, de modo a atingir a semente viva e quente.

Uma palavra nova é como uma semente viçosa lançada à terra no campo da discussão.

Com a minha mochila filosófica cheia, apenas posso escalar lentamente a montanha da matemática.

Mendelssolm não é um cume, mas um planalto. O inglês que há nele.

Ninguém pode pensar por mim um pensamento, da mesma

maneira que ninguém pode por mim pôr o meu chapéu.

Quem ouve uma criança a chorar e compreende o que ouve saberá que aí dormitam forças anímicas, forças
terríveis, diferentes do que geralmente se supõe. Raiva profunda, sofrimento e

ânsia de destruição.

Mendelssohn é como um homem que só está bem disposto quando tudo é prazenteiro, ou como um homem que
só é bom quando se encontra rodeado por homens bons; não tem a integridade de uma árvore que se ergue
firmemente no seu lugar, seja
1929 15

o que for que se passe à sua volta. Também sou assim e tenho tendência a sê-lo.

O meu ideal é uma certa frieza. Um templo que proporcione um fundo para as paixões, sem com elas se imiscuir.

Muitas vezes, penso se o meu ideal cultural será um ideal novo, isto é, contemporâneo, ou se promanará do
tempo de Schumann. Tenho, pelo menos, a impressão de que ele dá continuidade a esse ideal, embora de um
modo diferente de como na

altura ele efectivamente se manteve. Isto é, a segunda metade do século dezanove foi excluída. Tratou-se, devo
dizê-lo, de um desenvolvimento puramente instintivo e não do resultado de uma reflexão.

Quando pensamos no futuro do mundo, temos sempre em

mente a situação que ele virá a alcançar se prosseguir na direcção em que o vemos agora mover-se; não nos
ocorre que a sua marcha é sinuosa e não em linha recta, e que a sua direcção, constantemente se altera.

Creio que a obra de qualidade austríaca (Grillparzer, Lenau, Bruckner, Labor) é particularmente difícil de
compreender. É, num certo sentido, mais subtil do que tudo o mais, e a sua verdade nunca mostra tendência para
a plausibilidade.

O que é bom é também divino. Por mais estranho que tal possa parecer, essa afirmação resume a minha ética. Só
algo de sobrenatural pode expressar o sobrenatural.

Não se pode levar os homens ao bem; apenas se lhes pode indicar o caminho para qualquer lugar. O bem reside
fora do âmbito dos factos.
16

1930

1930

Disse recentemente a Arvid’ depois de com ele ter visto um filme muito antigo: um filme moderno está para um
filme antigo tal como um automóvel actual está para um constituído há 25 anos. A impressão que nos causa é
igualmente ridícula e tosca, e os progressos conseguidos na produção de filmes correspondem aos
melhoramentos técnicos que observamos nos carros. Tal progresso não se equipara à melhoria - se é correcto
chamá-lo assim - de um estilo artístico. O mesmo, sensivelmente, deveria passar-se também com a moderna
música de dança. Uma dança de jazz, tal como um filme, deve ser algo susceptível de aperfeiçoamento. O que
distingue todos estes desenvolvimentos da formação de um estilo é que o espírito não desempenha neles
qualquer papel.

Disse em tempos, talvez acertadamente: a cultura antiga fragmentar-se-á e tornar-se-á finalmente um monte de
cinza, mas sobre as cinzas pairarão espíritos.

Hoje em dia, a diferença entre um bom e um mau arquitecto é que este sucumbe a todas as tentações, enquanto o
bom arquitecto lhes resiste.

Quer-se tapar com palha a fenda que se mostra na unidade orgânica da obra de arte, mas para tranquilizar a
consciência usa-se apenas a melhor palha.

Se alguém pensa ter encontrado a solução do problema da vida e se sente disposto a dizer a si próprio que agora
tudo é muito fácil, basta-lhe, para ver que está enganado, recordar-se de uma

Arvid Sjõgren, amigo e parente de L. W.


1930 17

época em que tal «solução» ainda não havia sido descoberta; teria sido também possível viver nessa altura, e a
solução agora encontrada pareceria fortuita relativamente a esse tempo. O mesmo se

passa com o estudo da lógica. Se existisse uma «solução» para os

problemas da lógica (filosófica), necessitaríamos apenas de ter em

conta que houve um tempo em que eles não estavam ainda resolvidos (e que também então as pessoas sabiam
viver e pensar).

Engelmann disse-me que em casa, ao remexer uma gaveta cheia de manuscritos seus, estes lhe parecem tão
excelentes que pensa que valeria a pena dá-los a conhecer a outras pessoas. (Diz que o mesmo se passa ao ler
cartas dos seus parentes já falecidos.) Mas quando pensa em publicar uma selecção desses manuscritos, as coisas
perdem o seu encanto e valor, o projecto toma-se impossível. Eu disse que tal se assemelhava ao caso seguinte:
nada há de mais extraordinário do que ver um homem, que pensa não estar a ser observado, a levar a cabo uma
actividade vulgar e muito simples. Imaginemos um teatro; o pano sobe e vemos um homem sozinho num quarto,
a andar para a frente e para trás, a acender um cigarro, a sentar-se, etc., de modo que, subitamente, estamos a

observar um ser humano do exterior, de um modo como, normalmente, nunca podemos observar-nos a nós
mesmos; seria como observar com os nossos próprios olhos um capítulo de uma biografia - isto poderia, sem
dúvida, ser ao mesmo tempo inquietante e maravilhoso. Estaríamos a observar algo mais admirável do que
qualquer coisa que um dramaturgo pudesse arranjar para ser representado ou dito num palco: a própria vida. -
Mas isso é o que vemos todos os dias, sem que tal nos provoque a mais ligeira impressão! Sim, mas não o vemos
nessa perspectiva. - Bem, quando Engelmann olha para o que escreveu e o acha extraordinário (embora não se
preocupe com a publicação de qualquer dos seus escritos), vê a sua vida como uma obra de arte feita por Deus e,
como tal, merecendo decerto ser contemplada, assim como qualquer vida e tudo o mais. Mas só o artista é capaz
de apresentar assim uma coisa individual de modo que ela nos apareça como uma obra de arte; é verdade que
esses manuscritos perderiam o seu valor
18 1930

se fossem examinados um a um e, especialmente, se fossem olhados desinteressadamente, isto é, por alguém que
não sente por eles, à partida, qualquer entusiasmo. A obra de arte obriga-nos - por assim dizer - a vê-Ia da
perspectiva correcta; mas na ausência da arte, o objecto é apenas um fragmento da natureza, como outro

qualquer; podemos enaltecê-lo com o nosso entusiasmo, mas isso não dá a ninguém o direito de com ele nos
confrontar. (Continuo a pensar num desses insípidos instantâneos fotográficos de um

fragmento de paisagem que tem interesse para quem os tirou porque estava lá e sentiu algo; mas qualquer pessoa
olhará para eles com frieza de um modo inteiramente justificado, até ao ponto em que é justificável olhar
friamente para uma coisa.)

Mas parece-me também que há outra maneira de apreender o mundo sub specie aeterni, para além do trabalho do
artista. É o

caminho do pensamento que, por assim dizer, voa sobre o mundo e o deixa tal como é - observando-o de cima,
em voo.

Leio no Peuple d'Israe1 de Renan: «0 nascimento, a doença, a morte, a loucura, a catalepsia, o sono, os sonhos,
tudo isso causava uma enorme impressão e, mesmo hoje em dia, apenas uns quantos têm o dom de ver
claramente que estes fenómenos têm causas na nossa constituição.» 1

Não há, pelo contrário, razão alguma para nos admirarmos com estas coisas, porque elas são acontecimentos de
todos os dias. Se os homens primitivos não podem deixar de se admirar com elas, muito mais tal acontecerá com
os cães e os macacos. Ou estar-se-á a presumir que os homens acordaram, por assim dizer, repentinamente, e
que, reparando pela primeira vez nas coisas que sempre tinham estado presentes, ficaram compreensivelmente
espantados? - Bem, na realidade, podíamos presumir algo deste tipo; não que eles tenham tido consciência destas
coisas pela primeira vez, mas que, de repente, comecem a sentir-se admirados com elas. Mas, mais uma vez, tal
nada tem a ver com o seu primitivismo. A menos que se considere primitivo não sentir admiraErnest Renan,
Histoire du Peuple Israel, vol. 1, cap. 111.
1930 19

ção pelas coisas, o que implicaria que as pessoas de hoje fossem na realidade os primitivos, assim como o pró
prio Renan, se ele pensa que a explicação científica poderia aumentar a admiração.

Como se o raio fosse mais trivial ou menos aterrador hoje em dia do que há 2000 anos.

O homem - e talvez os povos - para admirar, tem de despertar. A ciência é uma maneira de o voltar a fazer
adormecer.

Por outras palavras, é completamente falso dizer: os povos primitivos deveriam espantar-se com todos os
fenómenos. Embora seja talvez verdade que estes povos se admiravam com tudo o que os rodeava. - Presumir
que não podiam deixar de se admirar é uma superstição primitiva. (É supor que tinham de ter medo de todas as
forças da natureza, ao passo que nós não temos, evidentemente, que ter medo delas. Por outro lado, a experiência
pode ensinar-nos que certas tribos primitivas têm uma forte tendência para recear os fenómenos naturais. - Mas
não podemos excluir a possibilidade de povos altamente civilizados virem a estar de novo sujeitos a este mesmo
receio; nem a sua civilização nem o conhecimento científico os podem disso proteger. É , porém, verdade que o
espírito que hoje preside ao trabalho da ciência não é compatível com semelhante temor.)

O que Renan chama bon sens precoce das raças semíticas (uma ideia que me tinha também ocorrido há muito
tempo) é a

sua mentalidade não poética, que se orienta directamente para o

que é concreto. Eis o que caracteriza a minha filosofia.

As coisas estão mesmo à frente dos nossos olhos, nenhum véu as cobre.

Aqui se separam a religião e a arte.

Esboço de um Prefácio’ Este livro é escrito para os que compartilham do espírito que preside à sua escrita. Este
não é, segundo creio, o espírito da corrente mais importante da civilização americana e europeia. O espí-
20 1930
rito manifesta-se na indústria, na arquitectura e a música do nosso tempo, no seu fascismo e no seu socialismo,
Não se trata de um juízo de v al n- dizer que ele aceite o que hoje em dia passa por * como se
fosse arquitectura, ou que não se aproxime do que se chama música moderna com a maior suspeita (embora sem
compreender a sua linguagem), mas, por outro lado, o desaparecimento das artes não justifica que se julge
depreciativamente tal tipo de humanidade. Em épocas como esta, as naturezas genuínas e fortes põem de parte as
artes e viram-se para outras coisas e, de uma maneira ou de outra, o valor do indivíduo encontra forma de se
exprimir. Não evidentemente da mesma maneira que numa época de elevada cultura. Uma cultura é como uma
grande organização que atribui a cada um dos seus membros um lugar em que ele pode trabalhar no espírito do
conjunto; e é perfeitamente justo que o seu poder seja medido pela contribuição que consegue dar ao todo. Numa
época sem cultura, por outro lado, as forças tornam-se fragmentárias e o poder do indivíduo consome-se na
tentativa de vencer forças opostas e resistências ao atrito; tal poder não é visível na distância que percorre, mas
talvez unicamente no calor por ele produzido ao vencer o atrito. Mas a energia continua a ser energia, e embora o
espectáculo que a nossa época nos proporciona não seja o da formação de uma
grande obra cultural, com os melhores homens a contribuir para o mesmo fim grandioso, mas o espectáculo mais
impressivo de uma multidão cujos melhores membros trabalham com vista à realização de objectivos puramente
pessoais, mesmo assim não nos devemos esquecer de que o espectáculo não é o que interessa.

Compreendo, por isso, que o desaparecimento de uma cultura não significa o desaparecimento do valor humano,
mas apenas o desaparecimento de certos meios de expressar este valor. Contudo, mantém-se o facto de eu não ter
qualquer simpatia pela corrente da civilização europeia e não compreender os seus objectivos, se é que eles
existem. Assim, escrevo de facto para amigos dispersos pelos recantos do mundo.

É-me indiferente que o cientista ocidental típico compreenda ou aprecie, ou não, o meu trabalho, visto que de
qualquer modo
1930

21

ele não compreenderá o espírito com que escrevo. A nossa civilização é caracterizada pela palavra «progresso».
Fazer progressos não é uma das suas características, o progresso é, mais propriamente a sua forma. Ela é
tipicamente constructora. Ocupa-se em construir uma estrutura cada vez mais complicada. E até mesmo a
claridade é desejada apenas como um meio para atingir este fim, nunca corno um fim em si mesmo. Para mim,
pelo contrário, a claridade e a transparência são em si mesmas valiosas.

Não estou interessado na construção de um edifício, mas sim em ter uma visão clara dos alicerces de edifícios
possíveis.

Assim, não viso o mesmo alvo que os cientistas e a minha maneira de pensar é diferente da deles.

Cada uma das frases que escrevo procura exprimir tudo, isto é, a mesma coisa repetidas vezes; é como se elas
fossem simplesmente visões de um mesmo objecto, obtidas de ângulos diferentes.

Poderia dizer: se o lugar a que pretendo chegar só se pudesse alcançar por meio de uma escada, desistiria de
tentar lá chegar. Pois o lugar a que de facto tenho de chegar é um lugar em que já me devo encontrar.

Tudo aquilo que se pode alcançar com uma escada não me interessa.

O primeiro movimento liga os pensamentos uns aos outros numa série, o outro continua a visar o mesmo lugar.

O primeiro movimento é constructivo e apanha uma pedra a seguir a outra, o outro continua a segurar a mesma
coisa.

O perigo de um prefácio’ longo é o de que o espírito de um

livro tem de se mostrar no próprio livro e não pode ser descrito,

] Ver nota anterior.


22 1930

Se um livro foi escrito apenas para alguns leitores, tal será claro precisamente pelo facto de apenas um pequeno
número de pessoas o compreender. O livro deve separar automaticamente aqueles que o compreendem dos que o
não compreendem. Até mesmo o prefácio é escrito somente para aqueles que compreendem o livro.

Dizer a alguém algo que ele não pode compreender não faz sentido, mesmo que se lhe diga também que não será
capaz de o compreender. (Isso acontece frequentemente com alguém que se ama).

Se tiveres um quarto em que não queres que certas pessoas entrem, põe-lhe uma fechadura para a qual não
tenham chave. Mas não faz qualquer sentido falar~lhes disso, a não ser, claro, que pretendas que elas admirem
o quarto do lado de fora!

A única coisa honesta a fazer é pôr na porta uma fechadura que apenas seja notada por aqueles que a podem abrir
e não pelos outros.

Mas é correcto dizer que penso que o livro nada tem a ver

com a civilização progressiva da Europa e da América.

E que, embora o seu espírito apenas possa ser possível no

ambiente desta civilização, são diferentes os seus objectivos.

Tudo o que é ritual (tudo o que cheira, por assim dizer, a

sumo sacerdote) deve ser estritamente evitado, dado que imediatamente apodrece.

É evidente que um beijo também é um ritual e não é podre, mas o ritual é aceitável apenas até ao ponto em que
seja tão genuíno como um beijo.

Tentar tornar explícito o espírito é uma grande tentação.

Quando se choca com os limites da própria honestidade é como se os pensamentos entrassem em redemoinho,
num retrocesso infinito. Pode dizer-se o que se quiser, não se vai mais além.
1931

Há quem considere a música uma arte primitiva porque ela só tem poucas notas e ritmos. Mas só é simples à
superfície; a sua

essência, que torna possível interpretar o seu conteúdo manifesto, tem, por outro lado, toda a complexidade
infinita que é sugerida pelas formas externas de outras artes e que a música oculta. Ela é, num certo sentido, a
mais sofisticada de todas as artes.

Há problemas dos quais nunca me aproximo, que não se

encontram no meu caminho ou não fazem parte do meu mundo.

1930 23

Tenho estado a ler Lessing (sobre a Bíblia)’: «Junte-se a isto a roupagem verbal e o estilo... Todo ele cheio de
tautologias, mas

de um tipo que permite o exercício das nossas capacidades pelo facto de parecer por vezes dizer algo de
diferente quando, na realidade, diz o mesmo e noutras alturas parecer dizer o mesmo quando no fundo quer
dizer, ou é capaz de querer dizer, algo diferente».

Se não estou completamente seguro sobre o modo como começar um livro, tal deve-se ao facto de algo ser ainda
para mim pouco claro. Eu gostaria de começar com os dados originais da filosofia, com frases escritas e ditas,
com livros, por assim dizer.

E aqui confrontamo-nos com a dificuldade do «tudo está em devir». Talvez seja esse, precisamente, o ponto onde
se deve começar.

Se alguém está apenas avançado em relação à sua época, ela virá um dia a alcançá-lo.

‘ G. E. Le%sing, Die Erziehung des MenschengeschIechts. § 48-49 [A Educação do Género Humano].


24 1931

Problemas do mundo intelectual do Ocidente com os quais Beethoven (e talvez, até certo ponto, Goethe) se
defrontou, esforçando-se intensivamente por os resolver, mas que nenhum filósofo alguma vez enfrentou (talvez
Nietzsche por eles tenha passado). E talvez estejam perdidos para a filosofia ocidental, isto é, ninguém será aí
capaz de sentir e, portanto, de descrever o progresso desta cultura como epopeia. Ou, para ser mais preciso, ela já
não é uma epopeia, ou então só para quem a observe do exterior e foi provavelmente o que Beethoven fez com
presciência (como refere algures Spengler). Poderia dizer-se que a

civilização só antecipadamente pode ter os seus poetas épicos. Tal como um homem não pode descrever a sua
própria morte quando esta ocorre, mas apenas entrevê-Ia e descrevê-la como algo de futuro. Poderia, pois, dizer-
se: se pretendes ver uma descrição épica de uma cultura na sua globalidade, terás de considerar as

obras das suas figuras mais notáveis e, por isso, obras compostas quando o fim dessa cultura apenas podia ser
entrevisto, visto que mais tarde não haverá ninguém para o descrever. E assim não é de admirar que ele esteja
escrito na linguagem obscura da profecia, compreensível, de facto, apenas para alguns.

Mas não abordo estes problemas. Quando «desistir do mundo» terei criado uma massa amorfa (transparente) e o
mundo na sua enorme variedade será posto de lado como um quarto de arrumações sem interesse.

Ou talvez, para ser mais preciso: o resultado global de todo este trabalho é pôr o mundo de lado (atirar o mundo
na sua totalidade para o quarto de arrumações).

Neste mundo (no meu) não há tragédia, nem a infinita variedade de circunstâncias que dá origem à tragédia
(como seu resultado).

É como se tudo fosse solúvel no éter do mundo; não há superfícies sólidas.

O que isso significa é que a solidez e o conflito não se convertem em algo esplêndido, mas numa deficiência.
1931 25

O conflito dissipa-se sensivelmente da mesma maneira que a tensão de uma mola quando se funde o mecanismo
(ou se dissolve o mecanismo em ácido nítrico). Esta dissolução elimina todas as tensões.

Se afirmo que o meu livro se dirige apenas a um pequeno círculo de pessoas (se é que se lhe pode chamar um
círculo), não quero com isso dizer que acredite que tal círculo é uma élite da humanidade; mas inclui aqueles
para quem me viro (não porque sejam melhores ou piores que outros) porque constituem o meu

meio cultural, são, por assim dizer, os meus concidadãos, em contraste com os outros que para mim são
estrangeiros.

O limite da linguagem mostra-se na impossibilidade de descrever o facto que corresponde a uma frase (a sua
tradução), sem

repetir simplesmente a frase. (Isto tem a ver com a solução kantiana do problema da filosofia.)

Poderei dizer que uma peça de teatro tem um tempo próprio que não é um segmento do tempo histórico? Isto é,
posso nela distinguir um antes e um depois, mas não faz qualquer sentido para o problema se os acontecimentos
na peça ocorrem, por exemplo, antes ou depois da morte de César.

A propósito, a velha ideia em termos gerais a dos (grandes) filósofos ocidentais - era a de que existiam, em
sentido científico, dois tipos de problemas: problemas universais, grandes, essenciais, e problemas não
essenciais, acidentais, por assim dizer. Por outro lado, a nossa concepção é que não há, no sentido da ciência,
nenhum problema grande, nenhum problema essencial.
26 1931

A estrutura e o sentimento na música. Os sentimentos acompanham a nossa apreensão de uma peça musical da
mesma

maneira que acompanham os acontecimentos da nossa vida.

* seriedade de Labor’ é uma seriedade muito tardia.

* talento é uma fonte da qual constantemente brota água fresca. Mas esta fonte, se não for usada de uma maneira
correcta, perde o seu valor.

«0 que o homem inteligente sabe é difícil de conhecer». Terá o desprezo de Goethe pela experimentação
laboratorial, juntamente com a sua exortação para aprendermos com a natureza livre, algo a ver com a ideia de
que a hipótese incorrectamente interpretada é já uma falsificação da verdade? E estará ele relacionado com o
modo como estou agora a pensar iniciar o meu livro - com uma descrição da natureza?

As flores ou os animais que as pessoas consideram feios surgem-lhes sempre como artefactos. «Parece-se com
um ... », dizem elas. Isto esclarece o sentido das palavras «feio» e «bonito».

É delicioso o modo como as várias partes do corpo humano diferem na sua temperatura.

É humilhante ter de aparecer como uma câmara de ar vazia, simplesmente cheia pela mente.

Ninguém gosta de ter ofendido outrem; por isso, toda a gente se sente muito melhor se a outra pessoa não
mostrar que foi ofen

1 Josel` Labor (1842-1924). Compositor e organista, amigo da família Wittgenstein; trabalhou em Viena a partir
de 1868.
1931 27

dida. Ninguém gosta de enfrentar um leão ferido. Lembrem-se disso. É muito mais fácil evitar com paciência e
com tolerância a pessoa ofendida do que aproximar-se dela como amigo. É preciso coragem para o fazer.

Para tratar bem alguém que não gosta de nós, é não só necessário ter bom coração, mas também ter muito tacto.

Lutamos com a linguagem. Estamos envolvidos numa luta com a linguagem.

A solução dos problemas filosóficos pode comparar-se com

um presente num conto de fadas: no castelo mágico ele aparece encantado, mas se o vires no exterior, à luz do
dia, não é mais do que um vulgar bocado de ferro (ou algo do género).

O pensador assemelha-se muito ao desenhador cujo objectivo é representar todas as inter-relações entre coisas.

As peças musicais compostas ao piano, no teclado, as que são concebidas com caneta e papel e as que são
unicamente compostas com o ouvido interno, devem ser bastante diferentes no seu carácter e originar tipos de
impressões bastante diferentes.

Tenho a certeza de que Bruckner compôs imaginando apenas o som da orquestra, Brahms com caneta e papel. É
evidente que se trata de uma simplificação exagerada, Mas isto é uma

característica importante.

Uma tragédia podia de facto começar com as palavras: «Nada teria acontecido se não ... »

(Se ele não tivesse ficado preso na máquina pela ponta da sua roupa?)
28 1931

Mas é, sem dúvida, uma visão unilateral da tragédia pensar que ela mostra, unicamente, que um encontro
inesperado pode decidir a totalidade da nossa vida.

Penso que seria possível ter, hoje em dia, uma forma de teatro representado com máscaras. As personagens
seriam apenas tipos humanos estilizados. Pode ver-se isto distintamente nos escritos de Kraus. As suas peças
poderiam, ou deveriam, ser representadas com máscaras. Tal associa-se, naturalmente, a um

certo carácter abstracto, típico destas obras. E, tal como o vejo, o teatro representado com máscaras é, de
qualquer maneira, a

expressão de um carácter espiritual. Talvez pela mesma razão seja uma forma teatral que apenas atrairá judeus.

Frida Schanz:

Dia enevoado. O cinzento Outono visita-nos.

O riso parece ensombrado; o mundo está hoje tão silencioso como se tivesse morrido ontem à noite. Na sebe
vermelho-dourada amadurecem os monstros da névoa; e o dia jaz adormecido.
O dia não voltará a nascer.

Extraí este poema de um «Rõsselsprung» no qual evidentemente a pontuação não estava presente. Assim, não sei
se as palavras «Dia enevoado» são o título, ou se pertencem ao primeiro verso tal como o escrevi. E é estranho
como nos parece trivial o

poema se não começar com as palavras «Dia enevoado», mas

COM «0 cinzento». Isto altera o ritmo de todo o poema’.

‘ Variante no manuscrito: “0 ritmo inteiro do poema”.


1931 29

O que alcançaste não pode significar mais para os outros do que para ti.

Seja o que for que te tenha custado, será isso que eles te pagarão.

O Judeu é uma região deserta, mas por baixo da sua fina camada de rocha está a lava em fusão do espírito e do
intelecto.

Grillparzer: «É tão fácil ir à aventura por entre objectos grandiosos em regiões distantes e tão difícil alcançar a
coisa solitária que se encontra mesmo à nossa frente ... »

Que é que sentiríamos se não tivéssemos ouvido falar de Cristo?

Sentir-nos-íamos abandonados, sozinhos no escuro? Fugiremos a tal sensação da mesma maneira, simplesmente,
que uma criança lhe foge quando sabe que está alguém com ela no quarto?

A religião como loucura é uma loucura que brota da irreligiosidade.

Olho para a fotografia de salteadores Corsos e penso para comigo: estes rostos são demasiado duros e o meu
demasiado brando para que o cristianismo possa neles pôr a sua marca. Os rostos dos salteadores são medonhos
e, no entanto, eles não estão, por certo, mais afastados de uma boa vida do que eu; acontece apenas que eles
encontram a sua salvação num lado da vida que é diferente daquele em que eu a encontro.

Na sua boa música, Labor é completamente não romântico. Eis uma característica muito digna de nota e
significativa.
30 1931

Ao ler os diálogos Socráticos, tem-se a sensação de uma tremenda perda de tempo! Qual é o sentido destes
argumentos que nada provam e nada clarificam?

Parece-me que a história de Peter Schlemihl’ se deveria interpretar da seguinte forma: ele vende a sua alma ao
Diabo a troco de dinheiro. Em seguida, arrepende-se e o Diabo exige-lhe a sua sombra como compensação. Mas
Peter Schlemihl ainda pode escolher entre dar ao Diabo a sua alma e renunciar, juntamente com a sua sombra, à
vida em comunidade com outros homens.

No Cristianismo é como se Deus dissesse ao homem: Não representeis uma tragédia, isto é, não ponhais em
cena, na terra, o céu e o inferno. O céu e o inferno são um assunto meu.

Spengler poderia ser melhor compreendido se dissesse: Comparo diferentes épocas culturais à vida das famílias;
numa família há uma semelhança de família, embora uma semelhança se

possa também encontrar entre membros de diferentes famílias; a

semelhança de família difere de outras formas de semelhança desta e daquela maneira, etc. O que quero dizer é o
seguinte: têm de nos dizer qual é o objecto de comparação, o objecto de que deriva esta maneira de ver as coisas,
caso contrário a discussão será constantemente afectada por distorções. Pois quer se queira quer não,
atribuiremos as propriedades do modelo original ao

objecto que estamos a examinar à sua luz; e afirmamos com segurança «sertí sempre ... ».

Isto acontece porque queremos dar às características do modelo um ponto de apoio na nossa maneira de retratar
as coisas. Mas uma vez que confundimos o modelo e o objecto verificamos que nós próprios atribuímos de modo
dogmático ao

objecto características que só o modelo necessariamente possui.

Adalbert von Chamisso, A Estranha História de Peter Schleinffil.


1931

31

Por outro lado, pensamos que a nossa maneira de ver não terá a generalidade que pretendemos que tenha se
apenas for verdadeira para um dos casos. Mas o modelo deveria ser claramente apresentado enquanto tal, de
modo a caracterizar a discussão na sua globalidade e a determinar a sua forma. Isto faz dele o ponto focal e,
assim, a sua validade geral dependerá mais do facto de determinar a forma da discussão do que da afirmação de
que tudo o

que é apenas verdadeiro relativamente a ele será também atribuído a todas as coisas que estão a ser discutidas.

De modo análogo, a questão a levantar sempre que se fazem asserções exageradas e dogmáticas é esta: que é
que, realmente, há nisso de verdadeiro? Ou então: em que caso é que isso é realmente verdadeiro?

De Simplicíssimus: Enigmas da tecnologia (Cena: dois professores frente a urna ponte em construção.) Voz
vinda do alto: «Deixa ‘tar, pá, deixa ‘tar, ‘tou-te a dizer - depois damos-lhe um volta». - «É na verdade bastante
incompreensível, meu caro

colega, como é possível executar um trabalho tão complicado e preciso, com uma tal linguagem».

Diz-se muitas vezes que, em rigor, a filosofia não progride, que ainda nos ocupamos dos mesmos problemas
filosóficos de que já se ocupavam os Gregos. Mas os que o dizem não compreendem porque é que isto tem de
ser assim. O motivo reside no facto de a nossa linguagem ser a mesma e de continuar a conduzir-nos à
formulação dos mesmos problemas. Enquanto continuar a existir um verbo «ser» que parece funcionar como

«comer» e «beber», enquanto tivermos os adjectivos «idêntico», «verdadeiro», «falso», «possível», enquanto
continuarmos a falar de um fluir do tempo, de uma vastidão do espaço, etc., etc., continuaremos a tropeçar nas
mesmas perplexidades e a olhar espantados para algo que nenhuma explicação parece ser capaz de esclarecer.

E, além disso, isto satisfaz um desejo de transcendência, visto que na medida em que as pessoas pensam que lhes
é possível ver
32 1931

os «limites da compreensão humana», acreditam, evidentemente, que lhes é possível ver para além desses
limites.

Leio: «... os filósofos não estão mais perto do sentido de «Realidade» do que estava Platão ... ». Que estranha
situação. É extraordinário que Platão tenha chegado até onde chegou! Ou que não tenha podido ir além! Será que
isso se deve ao facto de ter sido tão inteligente?

Kleist escreveu algures’ que aquilo que o poeta mais gostaria de ser capaz de fazer seria comunicar pensamentos
sem recorrer a palavras. (Que estranha confissão.)

Diz-se com frequência que uma nova religião estigmatiza como diabos os deuses da velha religião. Mas na
realidade eles já então se tinham, provavelmente, tornado diabos.

As obras dos grandes mestres são sóis que nascem e se põem à nossa volta. Virá uma altura em que cada uma
das grandes obras que estão a declinar de novo se erguerá.

A música de Mendelssohn consiste, nos seus melhores momentos, em arabescos musicais. É por isso que
ficamos des~ concertados com qualquer falta de rigor na sua obra.

Na civilização ocidental, o Judeu é sempre avaliado por escalas que não se lhe ajustam. É claro para muitos que
os pensadores Gregos não eram nem filósofos nem cientistas no sentido ocidental, que os participantes nos jogos
Olímpicos não eram desportistas e não se ajustam a qualquer profissão ocidental. O mesmo se passa com os
Judeus. E ao aceitarmos as pala‘ Heinrich von Kleist, Carta de um Poeta a Outro, 5 de Janeiro de 181
1931 33

vras da nossa [língua]’ como os únicos padrões possíveis somos

constantemente incapazes de lhes fazer justiça. Assim eles são umas vezes sobrestimados, outras subestimados.
A este respeito, Spengler está certo ao não classificar Weininger como um dos filósofos (pensadores) do
Ocidente.

Nada do que fazemos se pode defender de uma maneira absoluta e definitiva. Apenas por referência a qualquer
outra coisa que não se ponha em dúvida. Isto é, não se pode oferecer qualquer razão para que ajam (ou tenham
agido) desta maneira, excepto que, pelo facto de o fazerem, ocasionam esta ou aquela situação, que tem que ser,
de novo, aceite como um fim.

O inexprimível (o que considero misterioso e não sou capaz de exprimir) talvez seja o pano-de-fundo a partir do
qual recebe sentido seja o que for que eu possa exprimir.

O trabalho em filosofia - tal como muitas vezes o trabalho em arquitectura - é, na realidade, mais um trabalho
sobre si próprio. Sobre a nossa própria interpretação. Sobre a nossa maneira de ver as coisas (E sobre o que delas
se espera).

O filósofo chega facilmente à situação de um gerente incompetente que, em vez de se dedicar ao seu trabalho e
de vigiar apenas com cuidado o dos seus empregados para ter a certeza que este é correctamente feito, toma
conta do trabalho deles até que um dia descobre estar sobrecarregado com o trabalho alheio enquanto os seus
empregados olham para ele e o criticam.

A ideia está gasta e já não é utilizável. (Ouvi em tempos Labor fazer um comentário semelhante acerca de ideias
musicais.) Tal como o papel de prata que, depois de amarrotado, nunca

‘ Conjectura dos organizadores.


34 - 1931

pode ser de novo completamente alisado. Quase todas minhas as

ideias estão um pouco amarrotadas.

Penso de facto com a minha caneta, pois é frequente que a

minha cabeça nada saiba sobre o que a minha mão está a escrever.

Os filósofos comportam-se muitas vezes como crianças que fazem garatujas ao acaso num bocado de papel e,
depois, perguntam ao adulto: «0 que é isto?». Aconteceu o seguinte: o adulto tinha desenhado várias vezes
imagens para a criança e dissera-lhe: «isto é um homem», «isto é uma casa», etc. E, em seguida, a

criança faz também alguns traços e pergunta: que é então isto?

Rarasey era um pensador burguês. Isto é, pensava com o

objectivo de esclarecer os assuntos de uma comunidade particular. Não reflectia sobre a essência do Estado - ou
pelo menos não gostava de o fazer -, mas sobre como este Estado poderia ser sensatamente organizado. A ideia
de que este Estado poderia não ser o único possível, em parte inquietava-o e em parte aborrecia-o. Ele queria
concentrar-se tão rapidamente quanto possível na reflexão sobre os fundamentos deste Estado. Aqui residia a sua
capacidade e o seu interesse; ao passo que a verdadeira reflexão filosófica o perturbava ao ponto de a ter posto
de lado e declarado trivial o seu resultado (se ela o tivesse).

Uma curiosa analogia poderia basear-se no facto de até mesmo o mais formidável telescópio ter uma ocular que
não é maior do que o olho humano.

Tolstoy: o significado (a importância) de uma coisa reside na sua possibilidade de por todos ser compreendido. -
Isto é verdadeiro e falso. O que torna uma coisa difícil de compreender se é algo significativo e importante - não
é a exigência de uma
1931 35

preparação especial qualquer em matérias abstrusas, mas o contraste entre a compreensão de tal coisa e o que a
maioria das pessoas quer ver. Por isso, as coisas que são justamente mais óbvias podem tornar-se as mais difíceis
de compreender. Há que superar não uma dificuldade do intelecto, mas da vontade.

Quem hoje em dia ensina filosofia não selecciona o alimento para o seu aluno com o objectivo de lhe adular o
gosto, mas para o modificar.

Eu não devia ser mais do que um espelho em que o meu leitor pudesse ver o seu próprio pensamento com todas
as suas disformidades para que, assim auxiliado, o pudesse pôr em ordem.

A linguagem arma a todos as mesmas ratoeiras; é uma imensa rede de caminhos transviados facilmente
acessíveis. E assim vemos os homens, um após outro, a andar pelos mesmos caminhos e já sabemos onde é que
tomarão um desvio, onde continuarão a andar em frente sem reparar na bifurcação, etc. etc. O que tenho de fazer
é, portanto, erigir postes de sinalização em todas as bifurcações em que há caminhos errados, de modo a ajudar
as

pessoas perto dos locais perigosos.

O que Eddington diz sobre a «direcção do tempo» e a lei da entropia resume-se ao seguinte: o tempo modificaria
a sua direcção se os homens começassem um dia a andar para trás. É claro que se pode fazer tal afirmação, se se
quiser; mas então deveria ser claro que nada mais se disse do que isto: as pessoas mudaram a direcção em que
andavam.

Alguém divide a humanidade em compradores e vendedores e esquece que os compradores também são
vendedores. Se eu de tal o lembrar, modificar-se-á a sua gramática?
36 1931

O genuíno mérito de Copérnico ou de Darwin não foi a descoberta de uma teoria verdadeira, mas de um novo e
fértil ponto de vista.

O que, segundo creio, Goethe realmente procurava não era

uma teoria fisiológica das cores, mas sim psicológica.

Uma confissão tem de ser uma parte da nova vida.

Nunca consegui, senão pela metade, exprimir o que quero exprimir. Na realidade, talvez nem tanto, apenas um
décimo. Isso ainda tem algum significado. Muitas vezes, a minha escrita não é mais do que uma «gaguez».

Entre os Judeus o «génio» só se encontra no homem santo.


O mais grandioso dos pensadores Judeus não passa de um talento (Eu, por exemplo).

Creio que há alguma verdade na minha ideia de que, de facto, apenas penso reprodutivamente. Não creio ter
alguma vez inventado uma linha de pensamento, tirei-a sempre de outra pessoa qualquer. Simplesmente me
aproveitei logo dela com entusiasmo para o meu trabalho de clarificação. Foi assim que me influenciaram
Bolumann, Hertz, Schopenhauer, Frege, Russell, Kraus, Loos, Weininger, Spengler e Sraffa. Poderá considerar-
se o caso de Brcuer e de Freud como um exemplo de reprodutividade judia? - O que invento são novas
comparações.

Na altura em que modelei a cabeça para Drobil o estímulo era também, essencialmente, um trabalho de Drobil, e
a minha contribuição foi, de novo, a clarificação, O que julgo ser essencial é levar a cabo, com CORAGEM, o
trabalho de clarificação: caso contrário, ele transforma-se apenas num jogo inteligente.
1931

37

O Judeu deve cuidar de que, em sentido literal, «todas as coisas sejam para ele como nada'». Mas tal é
particularmente difícil para ele, visto que, num certo sentido, nada tem de caracteristicamente seu. É muito mais
difícil aceitar de bom grado a

pobreza quando se tem de ser pobre do que quando também se poderia ser rico.

Poderia dizer-se (correcta ou incorrectamente) que o espírito Judeu não tem sequer a capacidade de produzir a
mais minúscula flor ou folha de relva; a sua maneira de proceder leva-o antes a
fazer um desenho da flor ou da folha de relva que cresceram no
solo do espírito de outrem e a apresentá-lo numa imagem compreensiva. Não se trata de salientar um defeito
quando tal se
afirma, e tudo corre bem desde que o que está a ser feito seja inteiramente claro. Só quando a natureza de uma
obra judaica se
confunde com a de uma obra não judaica é que há algum perigo, sobretudo se o autor da obra judaica também
cai na confusão, o que muito facilmente lhe pode acontecer. (...)
38 1931
O processo que leva ao nascimento até mesmo da mais pequena e mais insignificante folha de relva é algo com o
qual ele nada tem a ver e do qual nada sabe.

Uma imagem de uma macieira, por mais perfeita que seja, é num certo sentido infinitamente menos semelhante à
própria árvore do que a mais pequena margarida. E, no mesmo sentido, uma sinfonia de Bruckner está
infinitamente mais próxima de uma sinfonia do período heróico do que uma sinfonia de Maffier. Se a última é
uma obra de arte, então é uma obra artística de um tipo totalmente diferente (Mas este é, na realidade, um
comentário Spengleriano).

A propósito, quando estive na Noruega durante o ano de


1913-14, tive alguns pensamentos meus, ou pelo menos assim me

parece agora. Quero dizer que tenho a impressão de que nessa

altura dei vida a novos movimentos do pensamento (mas talvez esteja enganado). Ao passo que agora pareço
apenas aplicar velhos movimentos.

Há algo de Judeu no carácter de Rosseau.

Diz-se por vezes que a filosofia de um homem é uma questão de temperamento, e nisso há algo de verdadeiro. A
preferência por certas analogias poderia olhar-se como uma questão de **CI-,neramento e está na base de muito
mais desacordos do que Loos, , afigurar-se. de Breuei judia? - O que
*/*
Na altura em este tumor como uma parte perfeitamente norera também, essencialpç)derá isto fazer-se, seguindo
uma ordem? contribuição foi, de novo, ‘a- à vontade, ter ou não ter uma concial é levar a cabo, com COk, ção:
caso contrário, ele transformj3,A, a história dos Judeus não gente. ---o a sua intervenção nos
1931 39

assuntos europeus efectivamente mereceria, visto que nesta história eles são olhados como uma espécie de
doença e anomalia, e ninguém quer pôr uma doença ao mesmo nível da vida normal [e ninguém quer falar de
uma doença como se ela tivesse os mesmos direitos dos processos corporais saudáveis (mesmo os dolorosos)].

Pode dizer-se: só pode encarar-se este tumor como uma parte natural do corpo se a sensação global do corpo se
modificar (se o sentimento nacional pelo corpo se modificar na totalidade). De outro modo, o melhor que se
pode fazer é suportá-lo.

Pode esperar-se que um indivíduo mostre esta espécie de tolerância, ou então que ignore tais coisas; mas tal não
se pode esperar de uma nação, visto que é precisamente o facto de não ignorar tais coisas que faz dela uma
nação. Ou seja, é uma contradição esperar que alguém conserve o seu sentimento estético anterior pelo corpo e,
simultaneamente, dê as boas vindas ao tumor.

O poder e a posse não são a mesma coisa. Embora as coisas possuídas nos tragam também poder. Se se diz que
os Judeus não têm qualquer sentido de propriedade, isso pode ser compatível
com a sua inclinação para serem ricos, pois o dinheiro é para eles uma espécie particular de poder, e não de
propriedade (eu não gostaria, por exemplo, que o meu povo se tornasse pobre, visto que desejo que tenha uma
certa quantidade de poder. Desejo também, naturalmente, que use esse poder de modo correcto).

Existe decididamente uma certa afinidade entre Brahins e MendeIssolin; mas não me refiro à que se revela em
trechos individuais das obras de Brahins e que fazem lembrar trechos de Mendelssohn - a afinidade de que falo
poderia expressar-se melhor dizendo que Bralmis faz de um modo completamente rigoroso o que Mendelssohn
fez apenas com medidas de rigor. Ou: Brahins é, com muita frequência, Mendelssohn sem as imperfeições.
40 1931

COM PAIXÃO

3 3 3

V LJ

4 VEZES

3 3 ETC

Deve tratar-se do fim de um tema que não consigo identificar. Veio-me à cabeça, hoje, enquanto estava a pensar
na minha obra filosófica e dizia para mim mesmo: «Eu destruo, destruo, destruo».

Disse-se por vezes que a natureza reservada e astuta dos Judeus é um resultado da sua longa perseguição. Isso é
certamente falso; por outro lado, é certo que apesar dessa perseguição eles só continuam a existir porque têm
uma inclinação para uma tal reserva. Tal como se poderia dizer que este ou aquele animal escapou à extinção
devido apenas à sua capacidade ou habilidade para se ocultar. É claro que não é intenção minha que tal possa de
algum modo servir como razão para elogiar uma tal capacidade.

Não há qualquer traço, na música de Bruckner, do rosto comprido e magro (nórdico?) de Nestroy, de Grillparzer
e Haydn, etc.; pelo contrário, o seu rosto é completamente redondo e cheio (alpino?), mais puro até do que o de
Schubert.

O poder que a linguagem tem de fazer que tudo pareça ser

o mesmo, o que é mais notoriamente evidente no dicionário e


1931 41

torna possível a personificação do tempo: transformar em divindades as constantes lógicas não teria sido algo
menos extraordinário.

Uma bela peça de vestuário transforma-se (coagula, por assim dizer) em vermes e serpentes, se aquele que a
veste olha presunçosamente para si mesmo no espelho.

O prazer que me dão os meus pensamentos é o prazer que me dá a minha própria e estranha vida. Será isto a
alegria de viver?

1932

Os filósofôs que dizem: «depois da morte, terá início um

estado intemporal», ou «no momento da morte inicia-se um estado eterno», não se apercebem que utilizaram as
palavras «depois», «no» e «inicia-se» num sentido temporal, e que essa temporalidade está embutida na sua
gramática.

Entre 1932-1934

Lembrem-se da impressão que nos provoca a boa arquitectura, a impressão de que expressa um pensamento.
Leva-nos a

querer responder com um gesto.

Não brinques com o que se encontra nas profundezas de outra pessoa!

O rosto é a alma do corpo.


42 Entre 1932-1934

É tão impossível ver-se, do exterior, o próprio carácter como

ver-se a própria letra. Tenho, com a minha letra, uma relação unilateral que me impede de a ver em pé de
igualdade com a letra de outros e de a comparar com as suas letras.

Em arte é difícil dizer-se algo tão bom como: nada dizer.

O meu pensamento, como o de toda a gente, tem a ele ligados os restos secos das minhas ideias (murchas)
anteriores.

A força dos pensamentos na música de Brahms.

O carácter humano de várias plantas: roseira, hera, relva, carvalho, macieira, milho, palmeira. Comparado com
as diferentes características que as palavras têm.

Se alguém quisesse caraterizar a essência da música de Mendelssohn, poderia fazê-lo dizendo que,
possivelmente, Mendelssohn não escreveu nenhuma música difícil de compreender.

Cada artista foi influenciado por outros e mostra traços dessa influência nas suas obras; mas para nós o seu
significado não é mais do que a sua personalidade. O que ele herda dos outros são apenas cascas de ovo. A
presença destas deveria olhar-se com indulgência, mas elas não nos proporcionarão alimento espiritual.

Por vezes, parece-me que já filosofo com gengivas desdentadas e que olho o falar sem dentes como a maneira
correcta de falar, como a maneira que mais vale a pena. Consigo detectar algo de semelhante em Kraus. Em vez
de o reconhecer como uma deterioração.
1933

43

1933

Se alguém diz, suponhamos, que «os olhos de A têm uma expressão mais bonita dos que os de B», eu diria, nesse
caso, que essa pessoa não está certamente a usar a palavra «bonito» para se referir ao que é comum a tudo o que
chamamos bonito. Está, pelo contrário, a jogar com a palavra um jogo com limites bastante estreitos. Mas o que
é que isto revela? Teria eu presente alguma explicação restrita, particular, da palavra «bonito»? De modo
nenhum. - Mas talvez não venha sequer a sentir-me disposto a comparar a beleza da expressão de um par de
olhos com

a beleza da forma do nariz.

Assim, talvez devêssemos dizer: se existisse uma língua com

duas palavras de modo a que não houvesse referência a algo de comum a tais casos, eu não teria dificuldade em
usar uma destas duas palavras especiais para o meu caso e a minha intenção não seria empobrecida.

Se digo que A tem os olhos bonitos, alguém pode perguntar-me: que é que há de bonito nos olhos de A, e eu
talvez responda: a forma amendoada, as pestanas compridas, as pálpebras delicadas. O que é que estes olhos têm
em comum com uma igreja gótica que também considero bela? Deveria dizer que me provocam uma impressão
semelhante? E se dissesse que em ambos os casos as minhas mãos se sentem tentadas a desenhá-los? Isso seria
de qualquer maneira uma definição restrita do belo.

Será muitas vezes possível dizer: procura motivos para chamares belo ou bom a algo e a gramática peculiar da
palavra «bom» tornar-se-á neste caso evidente.

1933-1934

Penso ter resumido a minha atitude para com a filosofia

quando disse: a filosofia deveria apenas escrever-se como uma


44 1933-1934

composição poética. Deve ser possível, segundo me parece, inferir daqui até que ponto o meu pensamento
pertence ao presente, ao passado ou ao futuro. Visto que estava por esse meio a revelar-me como alguém que não
consegue fazer totalmente aquilo que gostaria de ser capaz de fazer.

Se usares um truque em lógica, a quem poderás estar a enganar senão a ti próprio?

Nomes de compositores. Por vezes, tratamos o método da projecção como dado. Quando perguntamos, por
exemplo: qual o nome que se ajustaria ao carácter deste homem? Mas, por vezes, projectamos o carácter no
nome e tratamos este como dado. Nesse caso, temos a impressão de que os grandes mestres que conhecemos tão
bem têm exactamente os nomes que convêm à sua obra.

1934

Quando alguém vaticina que a próxima geração receberá estes problemas e os resolverá, trata-se geralmente de
um anseio, de uma maneira de se desculpar a si próprio por aquilo que deveria ter realizado e não realizou. Um
pai gostaria que o seu filho fosse bem sucedido onde ele não foi de modo a que o problema que ele deixou por
resolver encontre, no fim de contas, a sua solução. Mas o seu filho enfrentará um novo problema. O que quero
dizer é: um anseio de que a tarefa não permaneça incompleta veste o disfarce de uma predição de que a geração
seguinte progredirá em relação a ela.

A irresistível capacidade de Brahms.


1934 45

Se alguém está sentado, com pressa, num carro, empurrará involuntariamente, por mais que diga a si próprio que
não está a

empurrar o carro.

Nas minhas actividades artísticas não tenho senão boas maneiras.

1936

A estranha semelhança entre uma investigação filosófica (talvez especialmente na matemática) e uma
investigação estética (v. g. o que está mal neste trajo, como é que ele deveria ser, etc.).

1934 ou 1937

Nos dias do cinema mudo todos os tipos de obras clássicas eram tocadas como acompanhamento, mas Brahms
ou Wagner não.

Brahms não, porque é muito abstracto. Posso imaginar uma cena emocionante num filme acompanhada pela
música. de Beethoven ou de Schubert e poderia obter algum tipo de compreensão da música a partir do filme.
Mas tal não me ajudaria a compreender a música de Brahms. Por outro lado, Bruckner ficaria bom num filme.

1937

Se ofereceres um sacrifício e com ele te sentires satisfeito, tanto tu como o teu sacrifício serão amaldiçoados.
46 1937

O edifício do teu orgulho tem de ser desmantelado. E esse é um trabalho terrivelmente difícil.

Os horrores do inferno podem ser experimentados num único dia; é tempo de sobra.

Um manuscrito que se consegue ler fluentemente tem um

efeito muito diferente de um manuscrito que se pode escrever, mas que não se decifra facilmente. Fecham-se
nele os pensamentos como se de um pequeno cofre se tratasse.

A maior «pureza» dos objectos que não afectam os sentidos, os números por exemplo.

A luz que o trabalho irradia é uma bela luz que, contudo, só brilha com uma beleza real, se for iluminada por
uma outra luz.

«Sim, é assim» dizes, «porque é assim que deve ser!» (Schopenhauer: a verdadeira duração da vida é de 100
anos).

«Evidentemente, é assim que deve ser!» é como se se tivesse compreendido o desígnio de um criador. Alcançou-
se o significado do sistema.

Não perguntas: «Mas quanto tempo, de facto, vivem os

homens?», o que te surge agora como um assunto superficial; atendendo a que compreendeste algo mais
profundo.

A única maneira de defender as nossas asserções contra a distorção - ou de evitar o vazio das nossas asserções, é
ter uma

visão clara nas nossas reflexões do que é o ideal, isto é, um

objecto de comparação - um padrão, por assim dizer - em vez

de o transformarmos num preconceito com o qual tudo tem que


1937 47

se conformar. Isto é o que produz o dogmatismo em que tão facilmente degenera a filosofia 1.

Mas nesse caso como é que um ponto de vista como o de Spengler se relaciona com o meu? A distorção em
Spengler: o

ideal não perde nenhuma da sua dignidade se for apresentado

como o princípio que determina a forma das reflexões de uma pessoa. Uma medida sólida.

Os ensaios de Macauley contêm muitas coisas excelentes;

mas os seus juízos de valor acerca das pessoas são aborrecidos e

supérfluos. Sente-se vontade de lhe dizer: pára de gesticular! e

diz apenas o que tens que dizer.

Diz-se que os primeiros físicos descobriram repentinamente que tinham pouca compreensão matemática para
fazer frente à física; e pode dizer-se, quase da mesma maneira, que os jovens se encontram hoje numa situação
em que o vulgar senso comum

já não é suficiente para fazer face às estranhas exigências da vida. Tudo se tomou de tal modo complexo que o
seu domínio exigiria uma inteligência excepcional. Dado que a habilidade para jogar o jogo já não é suficiente, o
problema que continua a pôr-se é: poderá esse jogo ser agora na realidade jogado? E qual é o

jogo certo?

A maneira de resolver o problema que vês na vida é viver de um modo que faça que o que é problemático
desapareça.

O facto de a vida ser problemática mostra que o contorno da tua vida não encaixa no molde da vida. Portanto,
deves modificar a tua maneira de viver e, logo que a tua vida se encaixe no molde, o que é problemático
desaparecerá.

Mas não temos nós a sensação de que alguém que não vê qualquer problema na vida é cego para algo de
importante, precisamente para a coisa mais importante de todas? Não pretenderei

‘ Cf. Investigações Filosóficas, 1, § 131.


48 1937

dizer que um homem assim vive sem destino - cegamente, como uma toupeira, e que se pudesse ao menos ver,
veria o problema?

Ou não deveria eu antes dizer: um homem que vive correctamente não experimentará o problema como tristeza
e, portanto, para ele não será um problema, mas antes uma alegria; por outras palavras, para ele será um halo
resplandecente em torno da sua vida, não um fundo dúbio.

As ideias, por vezes, também caem da árvore antes de estarem maduras.

É importante para mim ir modificando a minha postura ao

filosofar, não permanecer muito tempo sobre uma perna, para não ficar perro.

Como alguém que ao subir a uma montanha anda para trás por um breve espaço de tempo de modo a
restabelecer-se e a esticar músculos diferentes.

O cristianismo não é uma doutrina, quero dizer, não é uma

teoria sobre o que aconteceu e virá a acontecer à alma humana,

mas uma descrição de algo que na realidade ocorre na vida humana. Pois a «consciência do pecado» é um
acontecimento real, e igualmente o desespero e a salvação pela fé. Os que falam de tais coisas (Bunyan, por
exemplo) estão simplesmente a descrever o que lhes aconteceu, seja qual for o modo de se expressar.

Quando imagino uma peça musical, como muitas vezes o faço todos os dias, arranjo sempre, assim o creio,
ritmicamente os meus

dentes. Já antes o notei, embora o faça, de um modo geral, quase inconscientemente. Mais ainda, é como se as
notas que imagino fossem produzidas por este movimento. Creio que este pode ser

um modo muito vulgar de ouvir música no íntimo. É evidente que posso também imaginar música sem mover os
meus dentes, mas nesse caso as notas são muito mais espectrais, mais enevoadas e

menos nítidas.
1937

49

No pensamento há também uma época para o cultivo e uma época de colheita.

O efeito de levar os homens a pensar em conformidade com dogmas, talvez sob a forma de certas proposições
gráficas, será muito peculiar: não estou a pensar nestes **dogruas como determinantes das opiniões dos homens,
mas antes como possibilitando o completo controlo da expressão de todas as opiniões. As pessoas viverão sob
uma tirania absoluta, palpável, embora sem

serem capazes de dizer que não são livres. Penso que a Igreja Católica faz algo bastante semelhante a isto. O
dogma expressa-se na forma de uma asserção e é inabalável, mas ao mesmo tempo qualquer opinião prática pode
ser, com ele, conciliável; em certos casos, como é evidente, mais facilmente do que noutros. Não se trata de um
muro que estabelece os limites daquilo em que se pode acreditar, mas sim de algo mais semelhante a um travão
que, contudo, serve na prática a mesma finalidade; é quase como se

alguém prendesse um peso ao teu pé para restringir a tua liberdade de movimentos.

O dogma torna-se assim irrefutável, para lá do alcance do ataque.

Se penso num assunto apenas para comigo e sem uma intenção de escrever um livro, saltito à sua volta; é a única
maneira de pensar que é em mim natural. Forçar os meus pensamentos a uma sequência ordenada é para mim um
tormento. Valerá sequer a pena tentar, nestas circunstâncias, fazê-lo?

Desperdiço uma quantidade indescritível de esforço na organização dos meus pensamentos, que talvez não tenha
qualquer valor.

As pessoas dizem, por vezes, que não podem fazer qualquer juízo sobre isto ou aquilo porque não estudaram
filosofia. Eis um

disparate irritante, porque o pretexto é o de que a filosofia é uma


50 1937

espécie de ciência. As pessoas falam dela quase como poderiam falar de medicina. Por outro lado, podemos dizer
que quem nunca

levou a cabo uma investigação de tipo filosófico, como, por exemplo, a maior parte dos matemáticos, não se
encontra equipado com os orgãos visuais adequados a este tipo de investigação ou pesquisa. Quase da mesma
maneira que um homem que não está habituado a procurar flores ou amoras, ou plantas na floresta, não
encontrará nenhumas porque os seus olhos não estão treinados para as ver e não sabe onde deve procurar. De
modo semelhante, alguém pouco versado em filosofia passa por todos os lugares em que se encontram
escondidas na relva as dificuldades, ao passo que alguém que com ela tenha contactado deter-se-á e pressentirá
que há uma dificuldade ali perto, embora ainda a não consiga ver. E não é motivo de admiração, para quem saiba
quão longamente até mesmo o homem que tem prática da filosofia e que sabe que há aqui uma dificuldade tem
que procurar até encontrar.

Quando algo está bem escondido é difícil de encontrar.

Pode dizer-se que as alegorias religiosas se movem à beira de um abismo. Por exemplo as de B[unyan]. Pois se
acrescentarmos simplesmente: «e todas estas armadilhas, areias movediças, falsos desvios, foram planeados pelo
Senhor da Estrada, e os

monstros, os ladrões e os assaltantes foram criados por Ele”, tal não é, certamente, o sentido da alegoria! Mas
uma continuação deste tipo é demasiadamente óbvia! Para muitas pessoas, incluindo eu próprio isto rouba o
poder à alegoria.

Mas mais especialmente se esta for - por assim dizer suprimida. Seria diferente se em cada momento se dissesse
muito honestamente: «Uso isto como uma alegoria mas reparem: não encaixa àqui». Nesse caso, não sentirias
que estavas a ser enganado, que alguém te estava a tentar convencer através de um embuste. Pode dizer-se por
exemplo, a alguém: «Agradece a Deus pelos bens que recebes, mas não te queixes do mal: como o farias,
certamente, se um ser humano te fizesse alternadamente bem e mal». As regras da vida vestem-se
cerimoniosamente de imagens.
1937 51

E estas imagens apenas podem servir para descrever o que temos de fazer, não para o justificar. Porque elas só
podiam fornecer uma justificação se fossem também válidas a outros respeitos. Posso dizer: «Agradece a estas
abelhas pelo seu mel, como se elas fossem pessoas amáveis que para ti o prepararam»; isso é inteligível e
descreve o modo como gostaria que te comportasses. Mas não posso dizer: «Agradece-lhes, pois repara como
são amáveis!»
- dado que no momento seguinte elas podem picar-te.

A religião diz: Faz isto! - Pensa assim! - mas não pode justificar isto e, se o tentar sequer, torna-se repelente;
porque para cada razão que apresenta há uma contra-razão válida. É mais convincente dizer: «Pensem assim! por
mais estranho que vos possa parecer». Ou: «Não queres fazer isto? - Por mais repugnante que seja».

Predestinação: só é permissível escrever assim debaixo do sofrimento mais terrível - e nesse caso significa algo
de todo diferente. Mas pela mesma razão não é permissível a alguém afirmá-la como uma verdade, a menos que
o diga em pleno sofrimento - simplesmente, não é uma teoria. Ou noutros termos: se tal é verdade, não é a
verdade que parece ser, à primeira vista, expressa por estas palavras. É menos uma teoria do que um suspiro ou
um grito.

No decurso das nossas conversas, Russell exclamava frequentemente: «A lógica é o inferno!» - E isto exprime
perfeitamente o sentimento que tínhamos quando pensávamos nos problemas de lógica; quer dizer, a sua imensa
dificuldade, a sua textura áspera e escorregadia.

Penso que a principal razão para nos sentirmos assim era o seguinte facto: cada vez que um novo fenómeno
linguístico nos

ocorria, podia mostrar, retrospectivamente, que a nossa explicação anterior era inexequível (Sentíamos que a
linguagem podia sempre fazer exigências novas e impossíveis e que isto tornava qualquer explicação fútil).
52 1937

Mas essa é a dificuldade em que Sócrates se enreda ao tentar dar uma definição de um conceito. Muitas vezes,
emerge um uso de uma palavra que parece não ser compatível com o conceito que outros usos nos levaram a
conceber. Dizemos: mas isto não é assim! - se bem que assim seja! e tudo o que podemos fazer é continuar a
repetir estas antíteses.

A nascente que corre suave e límpida nos Evangelhos parece escumar nas Epístolas de Paulo. Ou, pelo menos, é
o que a mim me parece. Talvez seja apenas a minha própria impureza que me

leva a vê~la com um aspecto turvo; pois porque não seria esta impureza capaz de poluir o que é límpido? Mas,
para mim, é como

se eu visse aqui a paixão humana, algo como o orgulho ou a cólera, que destoa da humildade dos Evangelhos. É
como se afirmasse aqui com insistência a sua própria pessoa, fazendo-o, além do mais, como um gesto religioso,
algo que é estranho ao Evangelho. Gostaria de perguntar - e que isto não se entenda como uma blasfémia: «Que
poderia ter Cristo dito a Paulo?» Mas uma réplica razoável seria: Que é que tens a ver com isso? Procura tornar-
te mais honrado! No teu presente estado, és totalmente incapaz de compreender o que possa ser, neste caso, a
verdade.

Nos Evangelhos - segundo me parece - tudo é menos religioso, mais humilde, mais simples. Lá encontras
cabanas; em

Paulo uma igreja. Lá todos os homens são iguais e o próprio Deus é um homem; em Paulo já há algo de
semelhante e uma hierarquia; honras e posições sociais. Isso é o que me diz, por assim dizer, o meu faro.

Sejamos humanos.

Acabei de tirar algumas maçãs de um saco de papel onde ficaram muito tempo. Tive de cortar metade de muitas
delas e

atirá-las fora. Mais tarde, quando estava a copiar uma frase que tinha escrito, cuja segunda metade era má, vi-a
de repente como

uma metade apodrecida de maçã. E é este o modo como as coi-


1937 53

sas se passam sempre comigo. Tudo o que comigo se cruza torna-se para mim uma imagem do que estou a
pensar na altura (Haverá algo de feminino nesta maneira de pensar?).

Ao fazer este trabalho dou comigo numa posição idêntica à de um homem que luta sem sucesso para se lembrar
de um nome; num caso destes dizemos: «Pensa noutra coisa que logo te lembrarás» - e de modo similar tive de
pensar constantemente noutra coisa de modo a permitir que aquilo que eu tinha durante tanto tempo procurado
me ocorresse.

A origem e a forma primitiva de jogo de linguagem é uma

reacção; só a partir daqui se podem desenvolver formas mais complicadas.

A linguagem - gostaria de o dizer - é um aperfeiçoamento, «no princípio era a acção»

Kierkegaard escreve: Se o Cristianismo fosse tão confortante e acolhedor, por que motivo teria Deus posto em
movimento, nas suas Escrituras, o Céu e a Terra e proferido ameaças de castigos eternos ? - Pergunta: Mas então
porque é tão obscura a Escritura? Se queremos avisar alguém de um perigo terrível, fá-lo-emos propondo-lhe um
enigma cuja solução é o aviso? - Mas quem é que nos diz que a Escritura é, de facto, obscura? Não será possível
que fosse, neste caso, essencial «propor um enigma»? E que, por outro lado, a apresentação de um aviso mais
directo tivesse, necessariamente, um efeito errado ? Deus permite que quatro pessoas relatem a vida do Deus
feito homem, em cada um dos casos de maneira diferente e com inconsistências - mas não poderíamos dizer: é
importante que tal narrativa não seja mais do que medianamente plausível de um ponto de vista histórico, de
modo a que este aspecto não se olhe como o essencial, o decisivo? De modo a que a letra não possa ser, mais
fortemente do que é com Goethe, Fausto, parte
54 1937

veniente, objecto de fé e o espírito possa receber o que lhe é devido. Isto é, o que deves ver não pode ser
comunicado, nem mesmo pelo melhor e mais rigoroso historiador; isso também te pode dizer o que te deve ser
dito (Da mesma maneira que, em termos gerais, um cenário medíocre pode ser melhor do que um

cenário sofisticado, árvores pintadas melhores do que árvores reais, porque estas podem distrair a atenção
daquilo que é importante).

O Espírito põe nas palavras o que é essencial, essencial para a tua vida. Tu deves apenas ver claramente o que
também claramente se mostra nesta representação (Não tenha a certeza de até que ponto tudo isto está
exactamente presente no espírito de Kierkegaard).

Na religião, cada nível de devoção deve ter a sua forma apropriada de expressão que não tem qualquer sentido
num nível mais baixo. Esta doutrina, que significa algo a um nível mais alto, é desprovida de toda e qualquer
validade para alguém que se encontra ainda no nível mais baixo; só a pode compreender erradamente e, por isso,
estas palavras não são válidas para uma tal pessoa.

A doutrina paulina de predestinação, por exemplo, é, ao meu

nível, um disparate repulsivo, irreligiosidade. Por este motivo, não é conveniente para mim, visto que o único
uso que poderia fazer da imagem que me é oferecida seria um uso errado. Se é uma imagem boa e religiosa,
então é-o para alguém a um nível bastante diferente, alguém que a deve usar na sua vida de uma maneira de todo
diversa daquela em que a posso usar.

O cristianismo não se baseia na verdade histórica; oferece-nos antes uma narrativa (histórica) e diz-nos: agora
acredita! Mas não: acredita nesta narrativa com a crença apropriada à narrativa histórica; mas sim: acredita,
correndo todos os riscos, o que apenas podes fazer como resultado de uma vida. Tens aqui uma

narrativa, não tenhas para com ela a mesma atitude que tens para com outras narrativas históricas! Constrói para
ela um lugar
1937 55

completamente diferente na tua vida. - Não há nisso nada de paradoxal!

Ninguém pode dizer de si próprio com verdade que é lixo. Porque se o digo, embora possa ser verdade num
sentido, não é uma verdade pela qual eu próprio possa ser penetrado: caso contrário, teria ou de enlouquecer ou
de me modificar.

Por estranho que pareça, poder-se-ia, historicamente falando, demonstrar a falsidade dos relatos históricos dos
Evangelhos e, apesar de tudo, a fé nada perderia por este motivo: não, contudo, porque ela respeite as « verdades
universais da razão»! Mas antes, porque a demonstração histórica (o jogo de demonstração histórico) é
irrelevante para a fé. Esta mensagem (Os Evangelhos) é apreendida com fé (isto é, com amor) por homens. É
esta a certeza que caracteriza esta forma particular de persuasão, e

nenhuma outra.

A relação de um crente com estas narrativas não é nem relação com a verdade histórica (probabilidade), nem tão-
pouco relação com uma teoria constituída por «verdades de razão». Tal género de relação existe. - (Temos
atitudes totalmente diferentes mesmo para com diferentes espécies do que chamamos ficção!)

Leio: «Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor a não ser através do Espírito Santo»’. - E é verdade: não posso
chamar-lhe Senhor; porque tal não me diz nada. Poderia chamar-lhe «o modelo ideal», até mesmo Deus; ou
antes, quando ele assim é chamado, consigo compreendê-lo; mas não consigo pronunciar a

palavra «Senhor» com sentido. Porque não acredito que ele virá julgar-me; porque isso nada me diz. E só
poderia dizer-me algo, se vivesse de um modo completamente diferente.

1 Coríntios, 12.
56 1937

O que é que me faz até sentir inclinação para acreditar na Ressurreição de Cristo? É como se eu brincasse com o
pensamento. Se ele não tivesse ressuscitado, então ter-se-ia decomposto no

túmulo, como qualquer outro homem. Está morto e decomposto. Nesse caso, é um professor como outro
qualquer e já não pode ajudar; e, de novo, somos órfãos e nos encontramos sós. Temos assim de nos contentar
com a sabedoria e a especulação. Estamos numa

espécie de inferno onde não podemos fazer mais do que sonhar, cobertos como que por um telhado e separados
do céu. Mas se vou

ser REALMENTE salvo - necessito de uma certeza - não de sabedoria, de sonhos ou de especulação - e esta
certeza é a fé. E a fé é a fé naquilo de que necessita o meu coração, a minha alma, e não a minha inteligência
especulativa. Pois é a minha alma

com as suas paixões, por assim dizer, com a sua carne e sangue, que tem de ser salva, e não a minha razão
abstracta. Talvez possamos dizer: Só o amor pode acreditar na Ressurreição. Ou: é o

amor que acredita na Ressurreição. Poderíamos dizer: o amor

redentor acredita até na Ressurreição; apoia-se com firmeza até

mesmo na Ressurreição. O que combate a dúvida é, por assim dizer, a redenção. A adesão a ela deve ser a adesão
a esta crença. Assim o que tal significa é: deves, primeiro, ser redimido e apoiar-te na

tua redenção (agarrar a tua redenção) - em seguida, verás que te estás a agarrar a esta fé: mas tal só pode
acontecer se o teu peso já não assentar na terra, mas se te suspenderes do céu: Então tudo será diferente e não
será de «espantar» que possas fazer coisas que agora não podes fazer. (Um homem suspenso assemelha-se a um

homem em pé, mas o efeito recíproco das forças nele presente é, contudo, bastante diferente, de modo que pode
agir de uma

maneira inteiramente diferente da de um homem que está em pé.)

Nada podes escrever sobre ti que seja mais verdadeiro do que tu próprio és: eis a diferença entre escrever sobre ti
próprio e

escrever sobre objectos externos. Cada um escreve sobre si próprio de acordo com a altura a que se encontra.
Não te encontras sobre umas andas ou numa escada, mas sobre os teus pés descalços.
1938

57

1938

A ideia de Freud: Na loucura a fechadura não é destruída, apenas mudada; a velha chave já não a consegue abrir,
mas ela poderia ser aberta por uma chave idealizada de modo diferente.

Pode dizer-se que uma sinfonia de Bruckner tem dois inícios: começa uma vez com a primeira ideia e, em
seguida, com a

segunda. Estas duas ideias estão uma para a a outra, não numa

relação de parentesco de sangue, mas como homem e mulher.

A nona sinfonia de Bruckner é uma espécie de protesto contra a nona sinfonia de Beethoven, e torna-se assim
tolerável, o que não poderia ser se fosse uma espécie de imitação. Está relacionada com a nona sinfonia de
Beethoven sensivelmente da mesma maneira que o Fausto de Lenau se encontra relacionado ao Fausto de
Goethe, isto é, da mesma maneira que o Fausto Católico se encontra relacionado ao Fausto do Iluminismo, etc.,
etc.

Nada é mais difícil do que não nos iludirmos a nós próprios.

Longfellow:

Nos dias primevos da arte, Os construtores forjavam com o maior cuidado Cada mínima e invisível parte, Porque
os deuses estão em todo o lado.

(Isto poderia servir-me de divisa.)

Fenómenos aparentados à linguagem na música ou na arquitectura. Irregularidade significativa- por exemplo, no


Gótico

(estou a pensar também nas torres da Catedral de São Basílio).


58 1938

A música de Bach assemelha-se mais à linguagem do que a de Mozart ou a de Haydn. Os recitativos dos
contrabaixos no quarto movimento da nona sinfonia de Beethoven. (Compare-se também a observação de
Schopenhauer sobre a música universal composta para um texto particular)’.

Na filosofia o vencedor da corrida é aquele que consegue correr mais lentamente. Ou: o último a atingir a meta.

1939

Psicanalisar-se é, de certa forma, como comer o fruto da árvore do conhecimento. O conhecimento adquirido
levanta-nos (novos) problemas éticos; mas não contribui em nada para a sua solução.

1939-1940

Que falta à música de Mendelssohn? Uma melodia «corajosa»?

O Antigo Testamento visto como o corpo sem cabeça; o

Novo Testamento: a cabeça; as epístolas dos Apóstolos: a coroa

sobre a cabeça.

Quando penso na Bíblia Judaica, no Antigo Testamento apenas, sinto vontade de dizer: o corpo (ainda) não tem
cabeça. Estes problemas não foram resolvidos. Estas promessas não foram cumpridas. Mas não me é necessário
pensar uma cabeça com uma coroa.

‘ Schopenhauer, “A metafísica da música”, em O Mundo como Vontade e Representação, capítulo 39.


1939-1940 59

A inveja é algo de superficial - isto é: a cor característica da inveja não se torna mais intensa - a emoção mais
intensa tem uma cor diferente (Isso, claro, não torna a inveja menos real).

A medida do génio é o carácter - embora o carácter, por si só, não seja equivalente ao génio. O génio não é o «
talento mais o carácter», mas o carácter que se manifesta sob a forma de um talento especial. Assim como um
homem manifestará coragem ao

saltar à água para socorrer alguém, outro manifesta-la-á escrevendo uma sinfonia (Eis um exemplo fraco.)

Não há mais luz num génio do que em qualquer outro homem honesto - mas ele possui um tipo particular de
lentes que lhe permitem concentrar essa luz num ponto candente.

Porque é que a alma é agitada por pensamentos inúteis? No fim de contas eles são inúteis. Bem, ela é agitada por
eles. (Como é que o vento pode agitar a árvore quando não é mais do que ar? Bem, agita-a, e não o esqueças.)

Ninguém pode expor a verdade se ainda não a conhece a fundo. Não a pode expor; mas não porque não seja
ainda suficientemente inteligente.

A verdade pode apenas ser exposta por alguém que se sinta relativamente a ela como em sua casa; não por
alguém que ainda vive na falsidade e passa desta à verdade apenas numa ocasião.

Contentarmo-nos com os louros obtidos é tão perigoso como

descansar quando se caminha na neve. Passamos pelo sono e

morremos.

Um exemplo de quão incrivelmente frívolos sãos os desejos é o desejo que tenho de preencher por escrito, tão
rapidamente
60 1939-1940

quanto possível, um belo caderno de apontamentos. Nada daí obtenho; não o desejo porque, digamos, seja uma
prova da minha produtividade; nada mais é do que um anseio de me libertar sem demoras de algo familiar;
embora, assim que me liberte, tenha de começar um novo e repetir todo o processo.

Poderia dizer-se que Schopenhauer é inteiramente um espírito rude, isto é, embora tenha subtileza de espírito, a
um certo

nível esta esgota-se repentinamente e, então, ele é tão rude como

os mais rudes. Onde começa a genuína profundidade, termina a

de Schopenhauer.

De Schopenhauer, poderia dizer-se: ele nunca procura a sua consciência.

Sento-me na vida como um mau cavaleiro num cavalo; devo o facto de não ser cuspido neste preciso momento à
boa natureza do cavalo.

Se a arte serve para «despertar sentimentos», será que a percepção que dela temos por via sensorial se deve
incluir entre

esses sentimentos?

Creio que a minha originalidade (se essa for a palavra correcta) pertence mais ao solo do que à semente. (Talvez
eu não tenha uma semente minha.) Semeiem uma semente no meu solo e ela desenvolver- se-á de uma maneira
diferente da que apresentaria em qualquer outro solo.

Penso que a originalidade de Freud também era deste tipo. Sempre acreditei - sem saber porquê - que o
verdadeiro gérmen da psicanálise proveio de Breuer, e não de Freud. É claro que a semente de Breuer só pode ter
sido muito minúscula. A coragem é sempre original.
1939-1940 61

Hoje em dia as pessoas pensam que os cientistas existem para as instruir; que os poetas, os músicos, etc., existem
para lhes proporcionar prazer. A ideia de que estes tenham algo para lhes ensinar não lhes ocorre.

A execução de um trecho musical ao piano é uma dança dos dedos humanos.

Poderia dizer-se que Shakespeare mostra a dança das paixões humanas. Por este motivo, tem de ser objectivo; de
outro modo não mostraria a dança das paixões, mas falaria dela. Mas mostra-no-la numa dança e não de modo
naturalista. (Fui buscar esta ideia a Paul Engelman.)

Até mesmo uma obra de arte superior tem algo a que se pode chamar «estilo», algo também a que se pode
mesmo chamar «maneirismo». Elas têm menos estilo do que as primeiras palavras de uma criança.

1940

O que o ponto de vista causal tem de insidioso é levar-nos a dizer: «É claro que tinha de acontecer assim». Ao
passo que devíamos pensar: poderia ter acontecido assim e também de muitas outras maneiras.

Será que se olharmos para as coisas de um ponto de vista etnológico, isso quer dizer que consideramos que a
filosofia é etnologia? Não, apenas significa que estamos a adoptar uma posição totalmente exterior, de modo a
sermos capazes de ver as coisas com maior objectividade.
62 1940

Aquilo a que me oponho é ao conceito de uma exactidão ideal que nos seja dada, por assim dizer, a priori. Temos
diferentes ideais de exactidão em diferentes épocas; e nenhum deles é superior.

Um dos métodos mais importantes por mim utilizados é o de imaginar um desenvolvimento histórico das nossas
ideias, diferente do que de facto ocorreu. Se o fizermos, vemos o problema de um ângulo completamente novo.

Muitas vezes, dizer a verdade é apenas ligeiramente mais desagradável do que mentir; é quase tão difícil como
beber café sem açúcar em vez de café com açúcar; e, contudo, eu ainda sinto uma forte inclinação para mentir.

Em toda a grande arte há um animal SELVAGEM: domesticado. Tal não acontece com Mendelssohn, por
exemplo. Toda a

grande arte tem como pano de fundo os impulsos primitivos do homem. Eles não constituem a melodia (como
acontece, possivelmente, em Wagner, mas são o que confere à melodia a sua profundidade e vigor.

Neste sentido pode chamar-se a Mendelssohn um artista «reprodutivo».

No mesmo sentido: a casa que mandei edificar para Gretl’ é o produto de um ouvido incontestavelmente sensível
e de uma boa educação, uma expressão de elevado discernimento (de uma

cultura, etc.). Mas falta a vida primordial, a vida selvagem que luta por se manifestar. Assim poderiam dizer que
não é saudável (Kierkegaard). (Planta de estufa.)

Um professor pode obter bons resultados, até mesmo resultados surpreendentes, dos seus alunos e, contudo, não
ser um

‘ A irmã de W., para quem ele mandou construir uma casa na Kundmanngasse, n.’ 19, em Viena.
1940 63

bom professor; pois pode acontecer que, enquanto os alunos se encontram sob a sua influência directa, ele os
faça subir a um

nível que lhes não é natural, sem alimentar as capacidades para o trabalho apropriadas a este nível, ocorrendo de
novo um declínio imediato destas, logo que abandona a sala de aula. Talvez seja o que acontece comigo; pensei
por vezes que era assim. (Quando o próprio Maffier regia os seus estudantes nos ensaios obtinha execuções
excelentes; a orquestra parecia deteriorar-se de imediato quando ele próprio não a regia.)

«A finalidade da música: comunicar sentimentos». Em ligação com isto: podemos dizer correctamente: «a cara

dele tem a mesma expressão que anteriormente tinha», embora a

medição tenha produzido diferentes resultados nas duas ocasiões.

Como é que usamos as palavras «a mesma expressão facial»? Como é que sabemos que alguém está a usar
correctamente estas palavras? Mas será que eu sei que estou a usá-las correctamente?

Poderia dizer: «0 génio é o talento usado com coragem».

Procura ser amado sem ser admirado.

O que é merecedor de admiração e faz que valha a pena viver a vida não é o medo, mas o medo dominado. A
coragem, e não a inteligência ou mesmo a inspiração, é o grão de mostarda que se converte numa grande árvore.
Enquanto houver coragem há uma relação com a vida e com a morte. (Estava a pensar na

música de órgão de Labor e de Mendelssohn.) Mas não ganhas coragem para ti próprio reconhecendo a falta dela
em qualquer outra pessoa.

Por vezes, uma expressão tem que ser afastada da linguagem para limpeza, podendo, em seguida, voltar à
circulação.
64 1940

Quão difícil, penso, é ver aquilo que está mesmo à frente dos meus olhos!

Não podes não querer desistir da tua mentira e, não obstante, dizer a verdade.

Escrever com o estilo correcto é como pôr a carruagem bem assente nos carris.

Se neste momento esta pedra não se move e está firme, desloca primeiro algumas das pedras que a rodeiam.

Tudo o que pretendemos fazer é, se a tua carruagem está mal assente sobre os carris, voltar a pô-la na via.
Conduzi-Ia, depois, é algo que deixamos para ti.

Tirar a argamassa é mais fácil do que remover uma pedra. Bem, tem de se fazer uma coisa antes de se poder
fazer a outra.

1941

O meu estilo é como uma má composição musical.

Não peças desculpa de nada, não esqueças nada; vê e diz como de facto é; mas deves ver algo que lance uma
nova luz sobre os factos.

As nossas maiores imbecilidades podem ser muito sensatas.

É incrível como pode ser útil uma nova gaveta quando instalada de modo apropriado no nosso arquivo.
1941 65

Deves dizer algo de novo e, contudo, tudo o que dizes deve ser velho.

De facto, deves limitar-te a dizer coisas velhas - e, não obstante, o que dizes deve ser algo de novo!

Diferentes interpretações devem corresponder a diferentes aplicações.

Um poeta tem também de perguntar constantemente a si próprio: «mas será que o que estou a escrever é
realmente verdadeiro?» E isto não significa necessariamente: «será assim que as

coisas se passam na realidade?».

Sim, tens de juntar bocados de material velho. Mas de modo a conseguires um edifício.

Á medida que envelhecemos, os problemas passam-nos de novo por entre os dedos, tal como acontecia quando
éramos novos. Não se trata apenas de não os conseguirmos partir, pois nem sequer os conseguimos segurar

Os cientistas têm uma atitude curiosa: «Ainda não sabemos isso; mas é possível sabê-lo; é apenas uma questão
de tempo até que o saibamos!» Como se tal fosse evidente.

Podia imaginar alguém que pensasse que os nomes «Fortnum» e «Mason» se ajustavam um ao outro.

Não exijas muito e não tenhas medo de que aquilo que exiges com justiça se transforme em nada.

As pessoas que perguntam constantemente «porquê?» são como os turistas que estão diante de um edifício a ler
um guia e

estão tão ocupados com a leitura histórica da sua construção, etc., que isso os impede de ver o edifício.
66 1941

O contraponto pode ser um problema extraordinariamente difícil para um compositor; nomeadamente, o


problema: que atitude deverei adoptar, dadas as minhas inclinações, relativamente ao contraponto? Ele pode ter
descoberto uma atitude convencionalmente aceitável e, contudo, sentir ainda que esta não é, propriamente, a sua.
Que não é claro o que o contraponto devia para ele significar. (Estava a pensar, a este respeito, em Schubert; no
facto de ele querer ter lições de contraponto já perto do fim da sua vida. Penso que a sua intenção pode ter sido,
não tanto aprender apenas mais um contraponto, mas determinar as suas relações com ele.)

Os temas de Wagner poderiam considerar-se como frases em prosa musical. E tal como existe uma «prosa
rimada», também estes temas se podem combinar numa forma melódica, sem que constituam uma melodia. O
drama Wagneriano não é tanto drama quanto uma colecção de situações entrelaçadas como um fio que, por seu
lado, é apenas inteligentemente tecido e não inspirado, como o são os temas e as situações.

Aceita a natureza e não o exemplo dos outros como guia!

Os filósofos usam uma linguagem que já se encontra deformada, como que por sapatos muito apertados.

As personagens de um drama suscitam a nossa simpatia; são como as pessoas que conhecemos, muitas vezes
como as pessoas que amamos ou odiamos: as personagens da segunda parte do Fausto não despertam de modo
nenhum a nossa simpatia! Nunca nós sentimos como se as conhecessemos. Desfilam perante nós

como ideias, não como seres humanos.


1942

67

1942

O matemático (Pascal) que admira a beleza de um teorema na teoria dos números é como se admirasse um belo
fenómeno natural. É maravilhoso, diz ele, as admiráveis propriedades que os números têm. É como se estivesse a
admirar as regularidades numa espécie de cristal.

Poderia dizer-se: que leis maravilhosas imprimiu o Criador nos números!

Não podes construir nuvens. E é por isso que o futuro com que sonhas nunca se realiza.

Antes de haver aviões, as pessoas sonhavam com aviões e com aquilo a que se assemelharia um mundo onde
eles existissem. Mas assim como a realidade de nenhum modo se assemelhou a esse sonho, também não temos
qualquer razão para pensar que o futuro se virá a transformar no que agora sonhamos. Pois os nossos sonhos
estão cobertos de lantejoulas, como os chapéus de papel e os fatos de fantasia.

Os livros científicos populares dos nossos cientistas não são fruto de um trabalho árduo, mas sim do repouso nos
louros obtidos.

Se já tens o amor de uma pessoa, nenhum sacrifício por ela será demasiado; mas qualquer sacrifício para o
comprares é muito elevado.

Tal como há uma diferença entre o sono profundo e o sono

pouco profundo, há pensamentos que ocorrem a uma grande profundidade e pensamentos que se agitam perto da
superfície.
68 1942

Não podes arrancar a semente à terra. Tudo o que podes fazer é dar-lhe calor, humidade e luz; depois ela
crescerá. (Não deves sequer tocá-la a menos que o faças com cuidado).

O que é bonito não pode ser belo.

Um homem está prisioneiro num quarto se a porta não estiver trancada e abrir para dentro, enquanto não lhe
ocorrer que é preferível puxá-la a empurrá-la.

Ponha-se um homem numa atmosfera imprópria e nada funcionará como devia. Todo ele parecerá adoentado.
Devolva-se o

mesmo ao seu meio natural e tudo desabrochará e parecerá saudável. E se ele não estiver no seu meio próprio?
Bem, nesse caso

terá apenas de tirar o melhor partido do facto de aparecer no

mundo como um estropiado.

Se o branco se transforma em preto, algumas pessoas dizem: «Na sua essência trata-se ainda do mesmo». E
outras, se a cor fica um grau mais escura, dizem: «Mudou completamente».

A arquitectura é um gesto. Nem todo o movimento intencional do corpo humano é um gesto. Nem tão pouco se
concebem como arquitectura todos os edifícios construídos de um propósito.

Combatemos de momento uma tendência. Mas esta esvanecer-se-á, será superada por outras, e então a tendência
contra a qual argumentamos já não será compreendida; as pessoas não entenderão a necessidade de dizer tudo
isto.

Procurar o erro num argumento duvidoso e esconder o dedal.


1943 69

1943

Supõe que há dois mil anos alguém inventou a forma

e afirmou que um dia ela seria a forma de um meio de locomoção.

Ou talvez: que alguém teria construído o mecanismo completo de uma máquina a vapor sem ter qualquer ideia
de que, ou

como, ele poderia ser usado para mover qualquer coisa.

O que consideras como uma dádiva é um problema para resolveres.

O génio é o que nos faz esquecer o talento do mestre.

O génio é o que nos faz esquecer a habilidade.

Onde é escasso o génio pode revelar-se a perícia. (A abertura dos Mestres Cantores).

O génio é o que nos impede de perceber o talento do mestre.

Só se pode ver o talento onde o génio é escasso.

1944

Tranquilidade nos pensamentos: eis ao que aspira alguém que filosofa.


70 1943

Por que motivo não haverei de empregar expressões de um

modo incompatível com o seu uso original? Não será isto o que Freud, por exemplo, faz quando chama a um
sonho de angústia um sonho de realização de um desejo? Onde reside a diferença? Numa perspectiva científica,
um novo uso é justificado por uma

teoria. E se esta teoria é falsa, o novo uso alargado tem de se

abandonar. Mas, em filosofia, o uso alargado não se apoia em

crenças verdadeiras ou falsas sobre os processos naturais. Nenhum facto o justifica: Ninguém lhe pode fornecer
qualquer apoio.

Dizem-nos: «Compreendes esta expressão, não é verdade? Bem, também estou a usá-la com o sentido que
conheces.» [E não: «... com aquele sentido particular.»] Isto equivale a tratar o sentido como um halo que rodeia
a palavra e que esta retém em qualquer tipo de aplicação.

O filósofo é quem tem de curar em si mesmo muitas doenças do intelecto, antes de poder aceder às noções do
senso comum.

Se na vida estamos rodeados pela morte, também na saúde do nosso intelecto estamos rodeados pela loucura.

Querer pensar é uma coisa; ter talento para o fazer, outra.

Se a doutrina de Freud sobre a interpretação dos sonhos tem algum valor, este reside no facto de mostrar quão
complicado é o modo como o espírito humano representa os factos em imagens.

Tão complicado e irregular é o modo da representação que dificilmente lhe poderemos continuar a chamar
representação.
1944 ou mais tarde 71

1944 ou mais tarde

A minha exposição será difícil de seguir: porque diz algo de novo, mas também porque tem a si agarradas as
cascas do velho ponto de vista.

Entre 1941-1944

Será que o que leva um homem a enlouquecer é algum anseio frustrado? (Estava a pensar em Schumann, mas
também em mim próprio.)

Cerca de 1944

Será revolucionário quem a si próprio conseguir revolucionar-se.

O que está imperfeito deverá ser mantido imperfeito.

Um milagre é, por assim dizer, um gesto feito por Deus. Tal como um homem tranquilamente sentado faz um
gesto impressivo, Deus deixa o mundo seguir suavemente o seu curso e, em seguida, acompanha as palavras de
um santo com uma ocorrência simbólica, um gesto da natureza. Um exemplo seria, ao falar um santo, as árvores
à sua volta curvarem-se numa vénia. Ora, será que eu acredito que tal acontece? Não.

A única possibilidade de eu acreditar num milagre neste sentido consistiria em ser impressionado por uma
ocorrência deste tipo particular. De maneira a dizer: «É impossível ver estas árvo-
72 Cerca de 1944

res sem sentir que elas respondiam às palavras.» Tal como poderia dizer: «É impossível ver o aspecto deste cão
sem perceber que está vigilante e cheio de atenção àquilo que o seu dono está a fazer». E posso imaginar que o
simples relato das palavras e da vida de um santo consiga levar alguém a acreditar nas informações relativas à
vénia das árvores. Mas não sou impressionado deste modo.

Quando cheguei a casa esperava uma surpresa e, como não a encontrei, fiquei, é claro, surpreendido.

As pessoas são religiosas ao ponto de acreditarem que nem

sequer são imperfeitas, mas doentes.

Qualquer homem de uma decência mediana se considera extremamente imperfeito, mas um homem religioso
considera-se um desgraçado.

Vá lá, creiam! Não faz mal algum.

Crer significa submeter-se a uma autoridade. Depois de te teres submetido, não podes em seguida, sem te
rebelares contra ela, pô-la primeiro em dúvida e voltares de novo a considerá-la aceitável.

Nenhum grito de sofrimento pode ser mais intenso do que o

grito de um homem.

Ou seja, nenhum sofrimento pode ser maior do que o que um único ser humano pode padecer.

Um homem é, pois, capaz de um tormento infinito e, por isso, pode também necessitar de um auxilio infinito.

A religião cristã é apenas para quem necessita de um auxílio infinito, isto é, exclusivamente quem sente um
tormento infinito.

O planeta inteiro não pode ter um sofrimento maior do que uma única alma.
Cerca de 1944 73

A fé cristã - tal como a vejo - é o refúgio neste extremo sofrimento. Quem se encontra em semelhante tormento e
tem o dom de abrir o seu coração, em vez de o contrair, aceita no seu coração os meios de salvação.

Quem, no arrependimento, abre assim o seu coração a Deus na confissão, revela-o também a outros homens. Ao
fazê-lo, perde a dignidade que acompanha o seu prestígio pessoal e assemelha-se a uma criança. A saber, sem
posição social, dignidade ou diferença relativamente aos outros. Um homem só se pode abrir aos

outros em virtude de uma espécie particular de amor. Um amor que admite, por assim dizer, que todos somos
crianças perversas.

Também poderíamos dizer: O ódio entre homens provém de nos separamos uns dos outros. Porque não
queremos que alguém nos olhe para o íntimo, dado que o que aí há para ver não é bonito.

Deves, evidentemente, continuar a sentir vergonha do que tens dentro de ti, mas não deves sentir vergonha frente
aos teus semelhantes.

Nenhum sofrimento pode ser maior do que aquele de que padece um ser humano. Pois, se um homem se sente
perdido, esse

é o maior sofrimento.

Cerca de 1945

As palavras são acções’.

Só um homem muito infeliz tem o direito de se compadecer de alguém.

Não é necessário enfurecer-se, mesmo com Hitler; muito menos com Deus.

1 Cf Investigações Filosóficas, 1, § 546.


74 Cerca de 1945

Depois de alguém morrer vemos a sua vida a uma luz conciliadora. A sua vida surge-nos suavizada, nos seus
contornos, por uma neblina. Para ele, contudo, não houve suavização, a sua vida foi recortada e incompleta. Para
ele não houve reconciliação; a

sua vida é estéril e desgraçada.

É como se eu me tivesse perdido e perguntasse a alguém o

caminho para casa. Ele diz que mo vai mostrar e acompanha-me ao longo de um caminho agradável e tranquilo.
Este finda de repente. E então o meu amigo diz-me: «Agora, tudo o que tens a fazer é procurar o caminho para
tua casa a partir daqui.»

1946

Serão grandes todos os homens? Não. - Então, como podes tu esperar vir a ser um grande homem! Por que
motivo te deverá ser concedido aquilo que não é concedido ao teu vizinho? Com que propósito? Se não é o teu
desejo de ser rico que te leva a

imaginar que és rico, deve ser algo que observas ou experimentas que to revela! E que experimentas tu (para
além da vaidade)? Simplesmente que tens um certo talento. E a minha presunção de ser uma pessoa
extraordinária está comigo há muito mais tempo do que a minha experiência do meu talento particular.

Schubert é irreligioso e melancólico.

Pode dizer-se que as melodias de Schubert estão cheias de climaxes, e o mesmo não se pode dizer das melodias
de Mozart; Schubert é barroco. Podes indicar passagens particulares numa

melodia de Schubert e dizer: vejam, esta é a parte essencial desta melodia, é aqui que o pensamento chega ao um
cume.
1946 75

Podemos aplicar às melodias dos diversos compositores o

princípio de reflexão: cada espécie de árvore é uma «árvore» num

sentido diferente da palavra. Isto é, não te deixes enganar pelo facto de dizermos que todas elas são melodias.
São estádios ao

longo de um caminho que conduz de algo a que não chamarias uma melodia a algo de diferente, a que
igualmente não chamarias uma melodia. Se olhares para as sequências de notas e

mudanças de tonalidade, todas estas entidades parecem estar ao

mesmo nível. Mas se considerares o contexto em que existem (e, por conseguinte, o seu significado), sentir-te-ás
inclinado a dizer: neste caso, a melodia é algo bastante diferente do que é naquele outro caso (entre outras coisas,
tem aqui uma origem diferente e desempenha um papel diferente).

O pensamento procura o seu caminho para a luz.

Jukundus observa em O riso perdido’ que a sua religião consiste em saber - agora que as coisas lhe correm bem -
que a sua sorte poderia sofrer uma viragem para o pior. Isto é, de facto, uma expressão da mesma religião que
encontramos no dito «0 Senhor o deu, o Senhor o tirou».

Compreender-se a si mesmo correctamente é difícil, visto que uma acção a que se possa ter sido impelido por
motivos bons e generosos é algo que também se pode fazer por cobardia ou

indiferença. É certo que se pode agir de tal ou tal maneira por amor genuíno, mas também por falsidade, ou
insensibilidade. Assim como nem toda a brandura é uma forma de bondade. E só se eu fosse capaz de mergulhar
na religião é que estas dúvidas poderiam ser mitigadas. Porque só a religião teria poder para destruir a vaidade e
penetrar em todos os recantos.

‘ Título de uma obra de Gotti`ried Keller.


76 1946

Se estás a ler algo em voz alta e queres ler bem, acompanhas as palavras com imagens vivas. Pelo menos isso
passa-se com frequência. Mas às vezes «Para Corinto, vindo de Atenas ... » 1 o que importa é a pontuação, isto é,
a tua entoação precisa e a duração das tuas pausas.

É extraordinário quão difícil é para nós acreditar em algo cuja verdade não é fruto de uma descoberta nossa.
Quando, por exemplo, ouço a expressão da admiração por Shakespeare de homens distintos ao longo de vários
séculos, nunca consigo libertar-me da suspeita de que enaltecê-lo tem sido algo de convencional; ainda que diga
a mim próprio que as coisas não se passam assim. É necessária a autoridade de um Milton para realmente me

convencer. Aceito como verdadeiro o facto de ele ter sido uma pessoa íntegra. Mas não quero com isto dizer,
claro, que não acredito que um milhar de professores de literatura esbanjou e ainda esbanja uma enorme
quantidade de enaltecimento de Shakespeare, sem compreensão e por razões erradas.

Difícil é agarrar a dificuldade profundamente. Pois se ela for apreendida perto da superfície permanece
simplesmente como era. Tem de ser arrancada pela raiz; e isso implica que comecemos a pensar nestas coisas de
uma nova maneira. A mudança é tão decisiva como, por exemplo, a do modo de pensar alquímico para o modo
de pensar da química. A nova maneira de pensar é o que é difícil de estabelecer. Uma vez estabelecida a nova
maneira de pensar, os velhos problemas desaparecem; na realidade, torna-se difícil retomá-los. Pois residem na
maneira como nos expressamos e, se nos vestimos com uma nova forma de expressão, os velhos problemas são
postos de parte juntamente com as roupas velhas.

O medo histérico da bomba atómica que presentemente se

tem, ou em todo o caso se expressa, quase sugere que por fim se

Goethe, Die Braut of Korinth. [A Noiva de Corinto]


1946 77

inventou algo de realmente salutar. O pavor dá pelo menos a

impressão de ser um medicamento amargo realmente eficaz. Não posso evitar pensar: se aqui não houvesse algo
de positivo, os

filisteus não fariam tanta algazarra. Mas talvez se trate também de uma ideia infantil. Porque, de facto, tudo o
que posso querer dizer é que a bomba apresenta um panorama do fim, da destruição, de um mal, - da nossa
repugnante e ensaboada ciência. E este não é decerto um pensamento desagradável; mas quem é que sabe dizer o
que viria depois da destruição? As pessoas que agora fazem discursos contra a produção da bomba sã o
certamente a

escumalha dos intelectuais, mas tal não prova de modo algum que o que abominam deva ser bem acolhido.

O homem é a melhor imagem da alma humanal.

Antigamente as pessoas iam para o convento. Seriam estúpidas ou insensíveis? Bem, se elas achavam que lhes
era necessário adoptar tais medidas de modo a serem capazes de continuar a viver, o problema não pode ser um
problema fácil!

As comparações de Shakespeare são, no sentido vulgar, más. Mas se, apesar de tudo, são boas - e não sei se o
são ou não devem ser uma lei para elas próprias. Talvez a sua sonoridade, por exemplo, lhes confira
plausibilidade e verdade.

Pode ser que o essencial em Shakespeare seja o seu à-vontade e a sua autoridade, e que tenhas de o aceitar
exactamente como ele é, para seres capaz de o admirar convenientemente, assim como aceitas a natureza, por
exemplo uma paisagem, exactamente como ela é.

Se tenho razão no que a isto respeita, tal significaria que o

estilo da sua obra completa, isto é, de todas as suas obras, é o que há de essencial e o que tudo justifica.

Cf. Investigações Filosóficas, 11, iv.


78 1946

O meu fracasso em compreendê-lo poderia nesse caso explicar-se pela minha incapacidade em lê-lo facilmente.
Ou seja, tal como quando se observa uma paisagem magnífica.

Um homem vê o que tem, mas não o que ele é. O que é pode comparar-se com a sua altura acima do nível do
mar, o que não podes, na maioria dos casos, calcular sem hesitações. E a grandeza, ou a trivialidade, de uma obra
depende do lugar em que se encontra o homem que a fez.

Mas podes igualmente dizer: nunca será grande quem se

engana a respeito de si próprio: se lançar poeira aos seus próprios olhos.

Quão pequeno é um pensamento necessário para preencher uma vida inteira!

Tal como um homem pode passar a sua vida a viajar em

torno de um mesmo país e pensar que nada mais há para além dele!

Vês tudo numa perspectiva (ou projecção) estranha: o país pelo qual continuas a viajar surpreende-te porque
parece enormemente grande; os países que o rodeiam parecem todos pequenas regiões fronteiriças.

Se quiseres ir mais fundo não necessitas de viajar para longe; de facto, não precisas de abandonar as tuas
cercanias mais imediatas e familiares.

É muito singular a nossa inclinação para olhar a civilização


- casas, árvores, carros, etc. - como responsável pela separação do homem relativamente às suas origens, ao que
é sublime e

eterno, etc. O nosso meio civilizado, juntamente com as suas

árvores e plantas, surge-nos, por isso, como se estivesse embrulhado de um modo reles em celofane e isolado de
tudo o que é grandioso, de Deus, por assim dizer. Trata-se de uma imagem singular que se nos impõe.
1946 79

A minha «proeza» assemelha-se muito mais à de um matemático que inventa um cálculo.

Se as pessoas não fizessem por vezes coisas disparatadas, nada de inteligente alguma vez se faria.

O puramente corpóreo pode ser misterioso. Comparem o

modo como se retratam os anjos e os demónios. Os chamados «milagres» devem com isto relacionar-se. Um
milagre deve ser, por assim dizer, um gesto sagrado.

O modo como usas a palavra «Deus» não mostra a quem te referes - mas antes aquilo a que te referes.

Numa tourada, o touro é o herói de uma tragédia: Enlouquecido, primeiro, pelo sofrimento, morre em seguida de
uma

maneira lenta e terrível.

Um herói olha de frente a morte, a verdadeira morte, não apenas a imagem da morte. Um comportamento
honroso numa

crise não significa que se seja capaz de representar bem o papel de um herói, como no teatro, mas antes que se é
capaz de olhar de frente a própria morte.

Um actor pode desempenhar urna'série de diferentes papéis, mas no final é ele próprio que, como homem, tem
de morrer.

Em que consiste: seguir, compreendendo-a, uma frase musical? Contemplar um rosto sendo sensível à sua
expressão? Absorver a expressão do rosto?

Pensa no procedimento de alguém que desenha um rosto de uma maneira que mostra a compreensão da sua
expressão. Pensa no rosto do desenhador, nos seus movimentos; o que é que revela que cada traço que faz é
ditado pelo rosto, que nada no seu dese-
so 1946

nho é arbitrário, que ele é um instrumento admiravelmente afinado?

Será isso de facto uma experiência ? O que quero dizer é será que se pode dizer que isto expressa uma
experiência?

Mais uma vez: o que é seguir, compreendendo-a, uma frase musical, ou tocá-la com compreensão? Não olhes
para ti próprio. Considera antes o que te leva a dizer, de uma qualquer outra pessoa que é isso que ela faz. E o
que é que te leva a dizer que ela faz uma experiência particular? Será que, de facto, alguma vez chegamos a dizer
isto? Não seria mais provável que eu dissesse de alguém que estava a ter um grande número de experiências?

Talvez devesse dizer, «ele está a experimentar o tema de um modo intenso»; mas considerem como é que isso se
manifesta.

Poderia ter-se de novo a ideia de que a vivência intensa de um tema «consiste» nas sensações dos movimentos,
etc., com que o acompanhamos. E isso (de novo) parece ser uma explicação tranquilizadora. Mas tens alguma
razão para pensar que é verdadeira? Como, por exemplo, uma lembrança desta experiência? Não será,
novamente, esta teoria apenas uma imagem? De facto, não é assim; a teoria não é mais do que uma tentativa para
ligar os movimentos expressivos a uma «sensação».

Se me perguntares como é que experimentei o tema, talvez venha a responder: «Como uma questão», ou algo do
mesmo tipo, ou o assobie de modo expressivo, etc.

«Ele vive o tema de um modo intenso. Algo acontece dentro dele enquanto o ouve.» O quê, exactamente? Não
será que o

tema sugere algo para além de si? Mas é óbvio! Tal significa: a impressão que me provoca está relacionada com
coisas no seu meio, como, por exemplo, com a existência da língua alemã e a

sua entoação; mas isso significa com todo o âmbito dos nossos jogos de linguagem.
1946 81

Se digo por exemplo: aqui é como se uma conclusão estivesse a ser esboçada, como se alguém estivesse a
exprimir concordância, ou como se isto fosse uma resposta ao que surgiu antes, - a minha compreensão
pressupõe a minha familiariedade com conclusões, expressões de concordância, respostas.

Um tema apresenta, tal como um rosto, uma expressão. «A repetição é necessária.» Em que medida é ela
necessária? Bem, canta-o e verás que só a repetição lhe confere o seu

extraordinário poder. - Não temos uma impressão de que já existe, na realidade, um modelo para este tema e que
o tema apenas se lhe aproxima, lhe corresponde, se esta parte for repetida? Ou terei que proferir a inanidade:
«Soa ainda mais belo que a

repetição»? (Vê-se, a propósito, o papel idiota que a palavra «belo» desempenha em estética.) Apesar de tudo,
não há qualquer paradigma além do próprio tema. E contudo há, de novo, um paradigma para além do tema: a
saber, o ritmo da nossa linguagem, do nosso pensamento e do nosso sentir. E, ademais, o tema é uma parte nova
da nossa linguagem; incorpora- se-lhe; aprendemos um novo gesto.

O tema interage com a linguagem. Semear ideias é uma coisa, colhê-las é outra. Os dois últimos compassos do
tema «A morte e a donzela», o C-3; é possível compreender que, inicialmente, é uma figura convencional,
corrente, antes de compreender a sua expressão mais profunda. Isto é, antes de compreender que o que é banal
surge aqui pleno de significação.

«Até à vista!»

«Um mundo inteiro de sofrimento está contido nestas palavras.» Corno pode ele estar contido nelas? - Está-lhes
ligado. As palavras são como a bolota da qual pode crescer um carvalho.

Esperanto. A sensação de repugnância que temos ao proferir uma palavra inventada com sílabas derivadas
também inventadas. A palavra é fria, falha de associações e, contudo, joga a «língua-
82 1946

gem». Um mero sistema de sinais escritos não nos repugnaria tanto.

Seria possível atribuir preços aos pensamentos. Alguns custam muito, outros pouco. E como é que se pagam os
pensamentos? A resposta, penso, é: com coragem.

Se a vida se torna difícil de suportar pensamos numa alteração da situação. Mas a mudança mais importante e
eficaz, a mudança da nossa própria atitude, dificilmente nos ocorre, e a decisão de dar um tal passo é-nos muito
difícil.

O estilo de escrita de alguém pode não ser original na forma


- como o meu - e, contudo, as palavras podem ser bem escolhidas; ou, por outro lado, pode ter-se um estilo que é
original na forma, um estilo que brota com frescura do nosso íntimo. (Ou, claro está, também pode ser apenas
uma espécie de remendo feito sem cuidado a partir de velhos pedaços de fragmentos).

Creio que uma das coisas que o Cristianismo afirma é que as boas doutrinas são todas inúteis. Importa, sim,
mudar a vida (ou a direcção da tua vida).

Afirma que toda a sabedoria é indiferente; e que não é mais fácil usá-la para pôr a vida em ordem do que forjar o
ferro quando este está frio.

Uma boa doutrina não tem necessariamente de nos agarrar; podemos segui-Ia, como se faz com uma receita do
médico. Mas então necessitamos de algo que nos estimule e nos faça tomar uma nova direcção. - (É assim que
eu entendo.) Uma vez tomada a nova direcção, há que nela permanecer

A sabedoria é fria. Em contrapartida, Kierkegaard. chama à fé uma paixão.


1946 83

A religião é, por assim dizer, o fundo tranquilo do mar no

seu ponto mais profundo, que permanece calmo por mais altas que sejam as ondas à superfície.

«Nunca antes acreditei em Deus» - compreendo isto. Mas não: «Antes, nunca acreditei verdadeiramente n'Ele.»

Tenho frequentemente medo da loucura. Terei alguma razão para supor que este medo não brota, por assim dizer,
de uma ilusão de óptica: tomar algo por um abismo aberto a meus pés, quando não se trata de nada desse tipo? A
única experiência por mim conhecida que mostra que não se trata de uma ilusão é o caso de Lenau. O seu Fausto
contém pensamentos de um tipo com que também estou familiarizado. Lenau coloca-os na boca de Fausto, mas
eles são decerto os seus próprios pensamentos sobre si mesmo. O importante é o que Fausto diz da sua solidão,
ou isolamento.

O seu talento também me surpreende pela sua semelhança com o meu: muito joio - mas alguns belos
pensamentos. As narrações no seu Fausto são todas más, mas as observações são, muitas vezes, verdadeiras e
notáveis.

O Fausto de Lenau é digno de nota pelo facto de o homem apenas lidar com o Diabo. Deus não se mexe.

Bacon não foi, do meu ponto de vista, um pensador arguto. Teve visões grandiosas e, por assim dizer, amplas.
Mas se é apenas isto o que alguém tem, não pode deixar de ser generoso nas suas promessas e insuficiente no
seu cumprimento.

Alguém pode imaginar uma máquina voadora sem ser muito preciso sobre os seus pormenores. Pode imaginá -la
com uma aparência exterior muito semelhante à de um avião verdadeiro e descrever graficamente o seu
funcionamento. Nem sequer é óbvio
84 1946

que uma fantasia como esta seja inútil. Talvez venha a estimular noutros um trabalho de tipo diferente. Assim,
enquanto estes últimos fazem os seus preparativos, com muito tempo de antecedência, por assim dizer, para
construir um avião que de facto venha a voar, essa pessoa ocupa-se a imaginar como terá de se parecer esse
avião e o que será capaz de fazer. Isto nada diz do valor de tais actividades. A do sonhador pode ser inútil - mas

as dos outros também.

A loucura não deve olhar-se como uma doença. Por que motivo não se poderá ela olhar como uma mudança -
mais ou menos repentina - de carácter?

Toda a gente é desconfiada (ou a grande maioria é), muito provavelmente mais acerca dos parentes do que dos
outros. Terão alguma razão para a desconfiança? Sim e não. Podem aduzir-se razões, mas não convencem. Não
poderia acontecer que um

homem se tomasse repentinamente muito mais desconfiado dos outros? E porque não muito mais reservado? Ou
desprovido de amor? Não será que as pessoas ficam assim, mesmo no curso vulgar dos acontecimentos? Onde
reside aqui a fronteira entre a vontade e a capacidade? Será que nunca mais desejarei abrir o meu coração a
alguém, ou será que não o consigo ? Se as pessoas são prudentes, mesmo na vida diária, porque não se tornariam
- talvez repentinamente - muito mais prudentes? E muito mais inacessíveis?

Uma observação num poema é exagerada se os aspectos intelectuais se expuserem nuamente e não forem
vestidos a partir do coração.

Sim, uma chave pode ficar para sempre no lugar em que o serralheiro a deixou, e jamais ser usada para abrir a
fechadura para a qual ele a forjou.
1946 85

«É tempo de compararmos estes fenómenos com algo diferente» - pode dizer-se. Estou a pensar, por exemplo,
nas doenças mentais.

Com as suas pseudo-explicações extravagantes (precisamente porque são brilhantes), Freud prestou um mau
serviço. (Agora qualquer idiota tem à mão estas imagens para «explicar» os sintomas da doença.)

A ironia na música. Por exemplo, nos Mestres Cantores de Wagner. Incomparavelmente mais profunda no
fugato, no primeiro andamento da Nona. Há aqui algo de análogo à expressão da ironia amarga da palavra.

Eu poderia também ter dito: o desfigurado na música. No sentido em que falamos de fisionomias desfiguradas
pelo sofrimento. Quando Grillparzer diz que Mozart apenas tolerava o que é «belo» na música, penso que ele
quer dizer que Mozart não tolerava o que é deformado, assustador, que na sua música nada há que corresponda a
isto. Não estou a dizer que tal seja de todo verdadeiro; mas mesmo supondo que o seja, é ainda um preconceito
da parte de Grillparzer pensar que, de direito, não deveria ser de outro modo. O facto de a música ter alargado, a
partir de Mozart (e, naturalmente, sobretudo através de Beethoven), o alcance da sua linguagem, não deve nem
elogiar nem deplorar; mas foi assim que as alterações ocorreram. Há algo de ingrato na atitude de Grillparzer.
Quereria ele um outro Mozart? Seria imaginável que um tal ser tivesse composto? Poderia imaginar Mozart, se o
não tivesse conhecido?

O conceito de «belo» originou também, a este respeito, uma

série de disparates.

Os conceitos podem mitigar ou agravar os disparates; alimentá-los ou limitá-los.


86 1946

Ao olharmos para os rostos sorridentes dos imbecis, podemos talvez pensar que eles não sofrem realmente; mas
sofrem, simplesmente não no mesmo lugar dos mais inteligentes. Não têm, por assim dizer, dor de cabeça, mas
tantos e diferentes sofrimentos como qualquer outra pessoa. Nem todo o sofrimento requer, no fim de contas, a
mesma expressão facial. Um homem de grande elevação moral comportar-se-á de maneira diferente de mim
numa aflição.

Não posso ajoelhar-me para rezar, porque é como se os meus

joelhos estivessem perros. Tenho medo da dissolução (da minha própria dissolução), se me tornasse mole.

Mostro aos meus alunos pormenores de uma imensa paisagem, na qual lhes é impossível ser versados.

1947

A visão verdadeiramente apocalíptica do mundo é a de que as coisas não se repetem. Não é absurdo acreditar,
por exemplo, que a era da ciência e da tecnologia é o princípio do fim da humanidade; que a ideia de um enorme
progresso é uma ilusão, bem como a ideia de que a verdade será finalmente conhecida; que nada há de bom ou
desejável no conhecimento científico e que a

humanidade, ao procurá-lo, está a cair numa armadilha. Não é de modo algum óbvio que as coisas não sejam
assim.

Os sonhos de um homem praticamente nunca se realizam.

Sócrates contínua a reduzir o sofista ao silêncio - mas terá a razão do seu lado, quando o faz? Bem, é verdade
que o sofista
1947 87

não sabe aquilo que julga saber; mas isso não é nenhuma vitória para Sócrates. Não se trata de um caso de: «
Vês! Não o sabes!» Nem sequer, triunfantemente, de: «Por conseguinte, nenhum de nós sabe nada!»

A sabedoria é fria e, nessa medida, estúpida (A fé, pelo contrário, é uma paixão). Poderia também dizer-se: A
sabedoria apenas te oculta a vida. A sabedoria é como a cinza fria e cinzenta que cobre as brasas incandescentes).

Não tenhas medo de dizer disparates! Mas deves prestar atenção ao teu comportamento absurdo.

Os milagres da natureza. Poderia dizer-se: a arte mostra-nos os milagres da natureza. Baseia-se no conceito de
milagres da natureza (0 desabrochar da flor. Que tem ele de maravilhoso?) Dizemos: «Olha, ela já está a
desabrochar!».

Só por acidente os sonhos de um homem acerca do futuro da filosofia, da arte, da ciência, se tornam verdadeiros.
O que ele vê no seu sonho é uma extensão do seu próprio mundo, portanto, TALVEZ o seu desejo (ou talvez
não), mas não a realidade.

Também o matemático, pode, como é evidente, maravilhar-se com os milagres (o cristal) da natureza; mas
poderá tal acontecer quando se tornou problemático o que ele efectivamente contempla? Será isso de facto
possível, enquanto uma neblina filosófica encobrir o que é digno de admiração ou já admirado?

Eu poderia imaginar que alguém admirasse não só as árvores verdadeiras, mas também as sombras ou reflexos
que elas projectam, tomando-as também por árvores. Mas se ele disser a si próprio que estes não são, no fim de
contas, realmente árvores e

vier a sentir-se perplexo sobre o que realmente são ou sobre a sua


88 1947

relação com as árvores, então a admiração sofre uma rotura que importa, primeiro, sarar.

Por vezes, uma frase só se pode compreender se for lida no tempo certo. As minhas frases são todas para ler
devagar.

A «necessidade» com que a segunda ideia se segue à primeira: (A abertura do Fígaro). Nada mais tolo do que
dizer que é «agradável» ouvir uma depois da outra. Mesmo assim, o paradigma segundo o qual tudo é correcto é,
com certeza, obscuro. É o desenvolvimento natural. Fazemos gestos com as mãos e sentimo-nos inclinados a
dizer «Claro!». Ou poderíamos comparar a transição a uma transição semelhante, à introdução de uma nova

personagem numa história por exemplo, ou num poema. É deste modo que a peça se ajusta ao mundo dos nossos
pensamentos e sentimentos.

As pregas do meu coração querem sempre juntar-se e, para o abrir, teria, uma e outra vez, de as romper.

O filme tipicamente americano, ingénuo e simplório, pode dada a sua parvoíce e até mesmo por meio dela - ser
instrutivo. Um filme inglês, pretensioso e autoconsciente pode nada ensinar. Aprendi muitas vezes uma lição de
um filme americano simplório.

Será que o que faço vale de facto o esforço? Sim, mas apenas se uma luz vinda de cima incidir sobre o que faço.
E se tal acontecer - porque hei-de preocupar-me se os frutos do meu labor me virão, ou não, a ser roubados? Se o
que escrevo tem de facto algum valor, como é que alguém poderia roubar-me o valor? E se a luz vinda de cima
não estiver presente, não posso, aconteça o que acontecer, ser mais do que hábil.
1947 89

Compreendo perfeitamente que alguém possa considerar odioso que lhe seja disputada a prioridade de uma sua
invenção ou descoberta e queira defender essa prioridade «com unhas e dentes». Mesmo assim, não passa de
uma quimera. Parece-me, certamente, muito reles, e demasiado fácil, a troça de Claudius sobre as querelas entre
Newton e Leibniz acerca de quem tinha sido o primeiro; mas, apesar de tudo, é verdade, segundo penso, que tal
discórdia brota apenas de fraquezas más e é alimentada por pessoas VIS. O que é que Newton teria perdido
exactamente se tivesse reconhecido a originalidade de Leibniz? Absolutamente nada! Teria ganho muito. E,
contudo, quão difícil é reconhecer algo deste tipo: alguém que o tente sente~se como se estivesse a confessar a
sua incapacidade. Só as pessoas que te apreciam e ao

mesmo tempo gostam de ti, podem facilitar-te semelhante comportamento.

Trata-se, claro está, de inveja. E quem a sente deveria dizer sempre a si próprio: «É um erro! É um erro!»

Toda a ideia que muito custa traz no seu séquito um grande número de ideias baratas; entre estas há até algumas
que são úteis.

Por vezes, estas ideias lobrigam-se da mesma maneira que um astrónomo vê estrelas a grandes distâncias (Ou,
em todo o caso, parece ser assim).

Se tivesse de escrever uma boa frase que acidentalmente viesse a consistir em duas linhas rimadas, seria um
disparate.

Há muito a aprender com a má teorização de Tolstoy acerca

do modo como uma obra de arte comunica ‘um sentimento’. Poderia chamar-se não exactamente a expressão de
um sentimento, mas pelo menos uma expressão de sentimento, ou uma

expressão sentida. E também se poderia dizer que, até ao ponto


90 1947

em que as pessoas a compreendem, «ressoam» em harmonia com ela, são-lhe sensíveis. Poderia dizer-se: a obra
de arte não tem como finalidade comunicar outra coisa excepto ela própria. Tal como ao visitar alguém, não
pretendo apenas levar a pessoa a ter sentimentos deste ou daquele tipo; o que sobretudo quero é visitá-Ia,
embora, é claro, gostasse também de ser bem recebido.

E é de todo absurdo dizer que o artista pretende que os sentimentos que teve ao escrever sejam experimentados
pelos outros na leitura. Posso pensar presumivelmente que compreendo um

poema (por exemplo), que o compreendo como o seu autor o desejaria, mas o que ele possa ter sentido ao
escrevê-lo não me diz qualquer respeito.

Assim como não sou capaz de escrever poesia, também a

minha capacidade para escrever prosa se estende apenas até este ponto, e não além dele. Há um limite
absolutamente definido para a prosa que sou capaz de escrever e é-me tão impossível ultrapassá-lo como
escrever um poema. É esta a natureza do meu equipamento; e é o único equipamento que possuo. É como se

alguém dissesse: Neste jogo só consigo atingir um grau tal e tal de perfeição, não sou capaz de ir mais além.

Talvez toda a gente que realiza um trabalho importante tenha uma ideia imaginativa - um sonho - de como
poderá ser o seu

desenvolvimento futuro; mas, mesmo assim, seria extraordinário que as coisas tivessem realmente de vir a ser
conformes ao sonho. Hoje em dia, evidentemente, não é fácil acreditar nos próprios sonhos.

Meusche escreve algures’ que até mesmo os melhores poetas e pensadores escreveram coisas medíocres e más,
mas separaram o que é bom. Não é exactamente assim. É verdade que um jardineiro, no seu jardim, tem, ao lado
das rosas, o estrume, o lixo

1 Humano, demasiado humano, 1, § 155.


1947 91

e a palha, mas o que os distingue não é apenas o seu valor, é sobretudo a sua função no jardim.

O que parece uma má frase pode ser o gérmen de uma boa frase.

A faculdade do «gosto» não consegue criar uma nova estrutura, apenas pode fazer ajustamentos a uma que já
exista. O gosto desaperta e aperta parafusos, não constrói uma nova máquina.

O gosto faz ajustamentos. Dar à luz não é da sua conta.

O gosto torna as coisas ACEITÁVEIS. (Por esta razão creio que o grande criador não tem qualquer necessidade
de gosto; o seu filho vem ao mundo completamente formado.)

Polir é, às vezes, uma função de gosto, e às vezes não. Eu

tenho gosto.

Até mesmo o gosto mais refinado nada tem a ver com o

poder criativo.

O gosto é um refinamento da sensibilidade; mas a sensibilidade nada faz, é puramente receptiva.

Não sou capaz de decidir se o gosto é tudo o que tenho, ou

se também tenho originalidade. Consigo perceber claramente o primeiro, mas não a outra, ou apenas muito
indistintamente. E talvez seja este o modo como as coisas têm de ser, e apenas podes ver o que tens, não o que
és. Alguém que não minta é já bastante original. Porque, ao fim e ao resto, a originalidade digna de ser

almejada não pode ser uma espécie de truque inteligente, ou uma

peculiaridade pessoal, por mais distintiva que possa ser.


92 1947

De facto, o começo de uma boa originalidade é não querer ser algo que não se é. E tudo isto já foi dito antes e
muito melhor por outras pessoas.

O gosto pode ser encantador, mas não arrebatar.

Um estilo velho pode traduzir-se, por assim dizer, para uma linguagem mais recente; executá-lo de novo, por
assim dizer, num ritmo mais apropriado à nossa época. Fazer isto é, de facto, apenas reproduzir. É nisso que
consiste o meu trabalho de construção.

Mas o que quero dizer não é que se deva dar a um estilo velho uma indumentária moderna. Não se pega nas
velhas for~ mas, arranjando-as de modo a adequarem-se ao último gosto. Não, na realidade, fala-se a velha
linguagem, talvez inconscientemente, mas fala-se de uma maneira que é apropriada ao mundo moderno, sem de
alguma forma estar necessariamente de acordo com o seu gosto.

Um homem reage assim: diz «Não, não tolerarei isso!» e resiste. Talvez isto suscite uma situação igualmente
intolerável e talvez nessa altura a força para qualquer revolta ulterior esteja esgotada. As pessoas dizem: « Se ele
não tivesse feito aquilo, o mal teria sido evitado». Mas o que é que justifica isso? Quem é que conhece as leis
segundo as quais se desenvolve a sociedade? Tenho a certeza absoluta de que elas são um livro fechado, mesmo
para o homem mais inteligente. Se lutas, lutas. Se tens esperança, tens esperança.

Podes lutar, ter esperança e até mesmo acreditar sem acreditar cientificamente.

Ciência: enriquecimento e empobrecimento. Um método particular põe de lado todos os outros. Comparados
com ela, todos
1947 93

parecem insignificantes@ quando muito, estádios preliminares. Deves recorrer directamente às fontes originais
para os veres

todos lado a lado, tanto os esquecidos como os preferidos.

Serei o único a não conseguir fundar uma escola ou tal nunca acontecerá com um filósofo? Não consigo fundar
uma escola porque não quero, na verdade, ser imitado. Em todo o caso não quero ser imitado por aqueles que
publicam artigos em revistas filosóficas.

O uso da palavra «destino». A nossa atitude para com o

futuro e o passado. Até que ponto nos consideramos responsáveis pelo futuro? Quanto especulamos sobre o
futuro? Como é que pensamos sobre o passado e o futuro? Se algo indesejável acontece, perguntamos: «De
quem é a culpa?»; dizemos: «Alguém deve ser culpado»; ou: «Foi a vontade de Deus», «Foi o destino»?

Assim como levantar uma questão, insistir em obter uma resposta ou não a levantar expressam uma atitude
diferente, um

outro modo de vida, assim o mesmo se pode dizer de expressões COMO «É a vontade de Deus», ou «Não somos
senhores do nosso destino». O que esta frase realiza, ou em todo o caso algo de semelhante, poderia também ser
levado a efeito por uma ordem! Inclusive, uma ordem que dês a ti próprio. E, inversamente, pode expressar-se
uma ordem, por exemplo «Não te queixes!», como a afirmação de uma verdade.

O destino é a antítese da lei natural. Uma lei natural é algo que se pretende sondar e utilizar, o destino não.

Não tenho de modo algum a certeza de desejar mais a continuação do meu trabalho por meio de outros do que
uma

mudança do modo de vida das pessoas, que tornasse supérfluos todos estes problemas. (Por esta razão nunca
poderia fundar uma escola).
94 1947

O filósofo diz «Olhem para as coisas desta maneira!», mas, primeiro, tal não garante que as pessoas venham a
olhar assim para as coisas e, em segundo lugar, o seu conselho pode chegar muito tarde; é, além disso, possível
que um tal conselho não possa, em qualquer caso, alcançar seja o que for e que o impulso para semelhante
mudança no modo como as coisas se percebem tenha de vir de outro lado qualquer. Por exemplo, não é de modo
nenhum claro que Bacon tenha posto algo em movimento, para lá da superfície dos ânimos dos seus leitores.

Nada me parece menos provável do que o facto de um cientista ou matemático que me lê vir a ser seriamente
influenciado na maneira como trabalha. (A esse respeito as minhas reflexões são como os avisos nas bilheteiras
das estações ferroviárias inglesas i: «Será, de facto, necessária a sua viagem?» Como se alguém que tal lesse
pensasse:« Vendo bem, não»). O que aqui se torna

necessário é artilharia de um tipo completamente diferente daquele que a minha posição me permite utilizar. O
máximo que posso esperar alcançar, como efeito, é estimular, primeiro, a

escrita de uma quantidade de coisas sem valor e vir assim talvez estimular alguém a escrever algo de bom.
Nunca deverei esperar mais do que a mais indirecta influência.

Por exemplo, não há nada mais estúpido do que a tagalerice sobre a causa e o efeito nos livros de história; nada é
mais estouvado, menos bem pensado. Mas quem lhe poderia pôr um fim, só com dizê-lo? (Seria como se
pretendesse mudar, falando, o

modo de as mulheres e os homens se vestirem.)

Lembra-te de como se dizia da execução musical de Labor: «Ele está a falar.» Curioso! O que é que nesta
execução nos lembrava tão intensamente a fala? E quão notável é o facto de não

‘ Durante e logo a seguir à 11 Guerra Mundial.


1947 95

considerarmos acidental a semelhança com a fala, mas algo de importante, de grande! À música, pelo menos a
alguma música, gostaríamos de a considerar uma linguagem; mas, evidentemente, a outra música, não. (Sem que
isto implique qualquer juízo de valor!).

O livro está cheio de vida - não como um homem, mas

como um formigueiro.

Continua-se a esquecer a necessidade de ir direito aos fundamentos. Não se põem os pontos de interrogação bem
no fundo.

As dores de parto no nascimento de novos conceitos.

«A sabedoria é cinzenta.» A vida e a religião, por outro lado, estão cheias de cor.

A ciência e a indústria, e o seu progresso, podem vir a ser a

coisa mais duradoira no mundo moderno. Provavelmente qualquer especulação sobre um futuro colapso da
ciência e da indústria não é, por enquanto e por um longo período de tempo, mais do que um sonho; talvez a
ciência e a indústria, responsáveis por misérias infinitas no decorrer do tempo, venham a unir o mundo
- quero dizer, a condensá-lo numa única unidade, em que decerto a paz será a última coisa a habitar.

Pois a ciência e a indústria decidem guerras, ou pelo menos

assim parece.

Não te interesses por aquilo que, presumivelmente, ninguém, excepto tu, compreende!

Os meus pensamentos movem-se provavelmente num círculo mais estreito do que suspeito.
96 1947

Os pensamentos vêm lentamente à superfície, como bolhas (por vezes, é como se pudesses ver um pensamento,
uma ideia, como um ponto indistinto, longe, no horizonte; e, em seguida, aproxima-se frequentemente com uma
ligeireza surpreendente).

Acredito que a má organização da economia por parte do Estado alimenta a má organização económica nas
famílias. Um trabalhador que esteja constantemente pronto para a greve não educará tão pouco os seus filhos no
respeito pela ordem.

Que Deus conceda ao filósofo discernimento relativamente ao que se encontra diante dos olhos de toda a gente.

A vida é como um caminho ao longo do cume de uma montanha; à esquerda e à direita há encostas traiçoeiras
por onde podes escorregar sem seres capaz de parar, quer numa direcção quer noutra. Continuo a ver pessoas que
escorregam assim e digo «Como é que em semelhante situação um homem se pode ajudar!» E tal significa:
«negar o livre arbítrio». Eis a atitude expressa nesta «crença». Mas não se trata de uma crença científica, e nada
tem a ver com convicções científicas.

Negar a responsabilidade equivale a não chamar as pessoas à responsabilidade.

O gosto de algumas pessoas está para um gosto educado tal

como a impressão visual recebida por um olho míope está para a

recebida por um olho normal. Onde o olho normal verá algo de nitidamente articulado, um olho deficiente verá
uma mancha confusa de cor.

É difícil não mentir, para alguém que sabe muito.


1947 97

Tenho tanto receio de que alguém toque piano em casa que, quando isso acontece e o tinido pára, tenho uma
espécie de alucinação de que o som persiste. Posso ouvi-lo claramente, embora saiba que se trata apenas da
minha imaginação.

Surpreende-me que uma crença religiosa possa ser apenas algo idêntico a uma decisão apaixonada por um
sistema de referência. Pois, embora seja crença, é, na realidade, um modo de vida, ou um modo de avaliar a vida.
É uma apreensão apaixonada desta concepção. A instrução numa fé religiosa deveria, pois, assumir a forma de
uma exposição, de uma descrição, desse sistema de referência, e ser ao mesmo tempo um apelo à consciência. E
as duas deveriam, no fim, levar a que o próprio aluno, por si mesmo, deitasse a mão, apaixonadamente, ao
sistema de referência. Seria como se alguém me revelasse, primeiro, o desespero da minha situação e, em
seguida, me mostrasse os meios de salvação até que, por mim mesmo, mas de nenhum modo conduzido pelo
meu instrutor, eu corresse para ela e a alcançasse.

Talvez um dia esta civilização produza uma cultura. Quando tal acontecer existirá uma história efectiva das
descobertas dos séculos 18, 19 e 20, que será profundamente interessante.

No decurso de uma investigação científica dizemos toda a

espécie de coisas; fazemos muitas afirmações cujo papel na investigação não compreendemos. Pois nem tudo o
que dizemos serve um propósito consciente; as nossas línguas continuam apenas a

mexer-se. Os nossos pensamentos seguem rotinas estabelecidas, passamos automaticamente de um pensamento a


outro de acordo com técnicas que aprendemos. E chega então a altura de passar em

revista o que dissemos. Fizemos uma série de movimentos que não favorecem o nosso objectivo ou que até o
dificultam e agora temos de clarificar filosoficamente os nossos processos de pensamento.
98 1947

Parece-me que estou ainda muito longe de compreender estas coisas, muito longe de saber o que faço e o que
não necessito de discutir. Continuo ainda a ficar enredado nos pormenores, sem saber se deveria falar de tais
coisas; e tenho a impressão de percorrer talvez uma grande região apenas para um dia a excluir da consideração.
Mas até nesse caso estas reflexões não deixariam de ter valor; a saber, enquanto não se moverem apenas em
círculos.

1948

Quando filosofas, tens de descer ao caos primordial e sentires-te aí como em casa.

O génio é o talento em que o carácter se exprime. Devo, portanto, dizer que Kraus tinha talento, um talento
excepcional, mas não génio. Há decerto momentos de génio tais que, apesar da grande instilação de talento, não
notas o talento. Um exemplo: «Pois o boi e o burro também podem fazer coisas ... »’. É notável que isto é, por
exemplo, muito mais grandioso do que qualquer coisa que Kraus tenha alguma vez escrito. Não é um mero
esqueleto intelectual, mas um ser humano completo.

É também por isso que a grandeza do que um homem escreve depende de tudo o resto que escreve e faz.

Num sonho e mesmo muito tempo depois de termos acordado, as palavras que nele aparecem podem
impressionar-nos pela

sua enorme significação. Não poderemos estar sujeitos à mesma

ilusão, quando acordados? Tenho a impressão de que por vezes

‘ Georg Christoph Lichtenberg, Timorus, Prefácio. A frase completa reza

assim:” Pois o boi e o burro também podem fazer coisas, mas, até agora, só o

homem nos pode dar uma garantia.”


1948 99

estou sujeito a tal nos tempos que correm. Os loucos parecem frequentemente ser assim.

O que aqui escrevo pode ser material fraco; bem, nesse caso não sou capaz de trazer à luz as coisas importantes e
grandes. Mas ocultas nestas observações fracas estão grandes possibilidades.

Numa carta (a Goethe, segundo penso)’ Schiller fala de uma

«disposição poética». Julgo saber a que é que ele se refere, creio estar eu próprio familiarizado com isso. É uma
disposição de receptividade à natureza, em que os pensamentos parecem tão vívidos como a própria natureza.
Mas é estranho que Schiller não tenha produzido algo melhor (ou pelo menos assim me parece) e, por isso, não
estou inteiramente convencido de que o que produzo numa tal disposição valha de facto alguma coisa. Pode
acontecer que o que confere aos meus pensamentos, nestas ocasiões, o seu brilho, seja uma luz que neles incide
por trás. Que eles mesmos não brilhem.

Onde os outros avançam, fico eu parado.

(Para o Prefácio. )2 Não é sem relutância que trago este livro a público. Cairá em mãos que, na sua maioria, não
são aquelas em que eu gostaria de o imaginar. Possa ele em breve - eis o

que lhe desejo - ser completamente esquecido pelos jornalistas filosóficos e, deste modo, ser talvez preservado
para um leitor melhor.

Só de quando em quando, é que uma das frases que aqui escrevo dá um passo em frente; as restantes são como a
tesoura do barbeiro, que a tem de manter em movimento a fim de com ela fazer um corte no momento exacto.

‘ Carta a Goethe, 17 de Dezembro 1795.

2 Para as Investigações Filosóficas.


100 1948

Enquanto continuar a deparar com problemas em regiões mais remotas, aos quais não posso responder, é
compreensível que não consiga ainda descobrir o meu caminho nas regiões que são menos remotas. Pois, como
poderei saber que o que aqui se opõe a uma resposta não é precisamente o que me impede ali de dissipar o
nevoeiro?

As passas podem ser a melhor parte de um bolo; mas um saco de passas não é melhor do que um bolo; e alguém
que esteja em condições de nos dar um saco cheio de passas não pode, todavia, fazer um bolo com elas, para não
falar de algo melhor. Estou a pensar em Kraus e nos seus aforismos, mas também em mim mesmo e nas minhas
observações filosóficas.

Um bolo não é, por assim dizer, passas secas e mirradas.

As cores estimulam-nos a filosofar. Eis o que talvez explique a paixão de Goethe pela teoria das cores.

As cores parecem presentear-nos com um enigma, um

enigma que nos estimula - que não nos altera.

O homem pode considerar todo o mal que há em si como uma ilusão.

Se é verdade que a música de Maliler não tem valor, como creio que acontece, então a questão é o que penso que
ele deveria ter feito com o seu talento. Pois é bastante óbvio que é necessário um conjunto de talentos muito
raros para produzir esta má música. Deveria ele ter, digamos, escrito as suas sinfonias para depois as queimar?
Ou deveria violentar-se a si mesmo não as escrevendo? Deveria tê-las escrito e ter percebido que não tinham
valor? Mas como é que poderia tê-lo percebido? Posso percebê-lo, porque posso comparar a sua música ao que
os grandes com-
1948 101

positores escreveram. Mas ele não o podia ter feito; porque, embora talvez alguém a quem tal comparação
ocorreu pudesse ter dúvidas sobre o valor do seu trabalho, em virtude de ter visto que a sua natureza não é a dos
outros grandes compositores, tal ainda não significa que reconhecesse a sua falta de valor; pois ele pode sempre
dizer a si mesmo que embora seja, de certeza, diferente dos restantes (que não obstante, admira), o seu trabalho
tem um diferente tipo de valor. Poderíamos talvez dizer: se ninguém que tu admiras é como tu, então
provavelmente acreditas no teu próprio valor, porque tu és tu. Até mesmo quem luta contra a vaidade se iludirá
ainda, se a sua luta não for inteiramente bem sucedida, sobre o valor do seu próprio trabalho.

Mas o maior perigo parece residir em colocar o próprio trabalho, de uma maneira ou de outra, na situação de ser
comparado, primeiro por si próprio e, em seguida, por outros, com as

grandes obras dos tempos passados. Deveria afastar-se do pensamento essa comparação. Pois se as condições
presentes são de facto tão diferentes do que em tempos foram que nem sequer se pode comparar o género a que o
trabalho de alguém pertence com

o de obras anteriores, então também não é possível compará-las no tocante ao seu valor. Eu próprio incorro
continuamente no erro

a que me estou a referir.

Conglomeração: o sentimento nacional, por exemplo.

Os animais acorrem quando são chamados pelos seus nomes.

Exactamente como os seres humanos.

Faço um sem número de perguntas irrelevantes. Se ao menos

lograsse abrir caminho através desta floresta!

Pretendo, de facto, que a minha copiosa pontuação abrande a velocidade da leitura. Pois gostaria de ser lido
devagar. (Tal

como eu próprio leio).


102 1948

Creio que Bacon se atolou na sua obra filosófica; e é também este o perigo que me ameaça. Ele tinha uma
imagem nítida de um

grande edifício que, contudo, se desvanecia quando procurava descer aos pormenores. Era como se os seus
contemporâneos tivessem iniciado a construção de um grande edifício, a partir dos alicerces; e como se ele, na
sua imaginação, tivesse visto algo de semelhante, uma visão de um edifício igual, até mesmo, talvez, uma visão
mais grandiosa do que a dos que o construíam. Para que tal acontecesse, precisava de ter um pressentimento do
método de construção, mas nenhum talento para a construção. O pior, no

entanto, foi que ele lançou ataques polémicos contra os verdadeiros construtores e não reconheceu as suas
próprias limitações, ou

então não o quis fazer.

Mas, por outro lado, é extremamente difícil discernir estas limitações, isto é, descrevê-las claramente. Ou, como
se poderia dizer, inventar um estilo de pintura capaz de representar o impreciso. Quero continuar a dizer a mim
próprio:

«Certifica-te de que pintas, de facto, apenas o que vês!»

Na análise freudiana, o sonho é, por assim dizer, desmontado. Perde completamente o seu sentido original.
Poderíamos concebê-lo como uma peça representada num palco, com um enredo que é por vezes bastante
incompreensível, mas também por vezes

totalmente inteligível, ou que aparenta sê-lo; poderíamos, nesse

caso, imaginá-lo dilacerado em pequenos fragmentos e atribuído a cada um destes um sentido completamente
novo. Ou poderíamos concebê-lo da seguinte maneira: desenha-se uma imagem numa grande folha de papel que,
em seguida, é dobrada de tal modo que os bocados que não correspondem uns aos outros na imagem inicial
surgem agora lado a lado, formando uma nova imagem, a qual pode ou não fazer sentido. (A segunda situação
corresponderia ao sonho manifesto, correspondendo a primeira imagem ao «sentido latente do sonho»).

Ora, posso imaginar alguém a exclamar, ao ver a imagem desdobrada: «Sim, é essa a solução, foi o que eu
sonhei, menos
1948 103

os hiatos e as distorções». Semelhante reconhecimento é que justamente transformaria a solução em solução. É


como procurar uma palavra quando estás a escrever e dizer de seguida: «É esta, esta expressa o que eu tinha em
mente!» A tua aceitação atesta que a palavra foi encontrada e, por conseguinte, que era aquela que procuravas.
(Neste caso, poderíamos de facto dizer: não sabemos do que é que andamos à procura até o encontrarmos - o

que é idêntico ao que Russell afirma sobre o desejar).

O que é intrigante num sonho não é a sua conexão causal com acontecimentos da minha vida, etc., mas antes a
impressão que dá de ser um fragmento de uma história - sem dúvida, um fragmento muito vívido - cuja parte
restante permanece obscura (Sentimo-nos dispostos a perguntar: «Donde provém então a figura e em que é que
se converteu?»). Mais, se alguém me mostra agora que esta história não era a correcta; que, na realidade, se
baseava numa história de todo diferente, de modo que posso exclamar desapontadamente «Ah, então era
assim ?», é realmente como se tivesse sido privado de algo. A história original desintegra-se certamente, agora
que o papel é desdobrado; o homem que vi foi extraído daqui, as suas palavras dacolá, o ambiente circundante
no sonho de um outro qualquer lugar; mas mesmo assim a história do sonho tem encantos que lhe são próprios
como um

quadro que nos atrai e nos inspira.

Pode decerto dizer-se que a contemplação da imagem onírica nos inspira, que apenas somos inspirados. Pois se
contarmos

a outra pessoa o nosso sonho, a imagem não irá geralmente inspirá-la. O sonho afecta-nos tal como faz uma ideia
plena de possíveis desenvolvimentos.

Entre 1947-1948

A arquitectura imortaliza e glorifica algo. Por conseguinte,

1 onde nada há para glorificar, não pode haver arquitectura

‘ Diversas variantes nos manuscritos.


104

1948

1948

Cunha uma moeda de cada erro.

A compreensão e a explicação de uma frase musical. - Por vezes, a explicação mais simples é um gesto; noutra
ocasião pode ser um passo de dança, ou palavras que descrevam uma dança. Mas a compreensão da frase não
será a vivência de algo enquanto a ouvimos? Qual é então o papel desempenhado pela explicação? Devemos
pensar nela, ao ouvir a música? Será que imaginamos a dança, ou seja o que for, enquanto ouvimos? E se o
fizermos, por que motivo se deverá chamar a tal um ouvir música com compreensão? Se o que é importante é
ver a dança, seria preferível fazer isso em vez da música. Mas tudo isto é má compreensão.

Dou a alguém uma explicação e digo-lhe «É como se ... »; em seguida, ele diz: «Sim, agora compreendo-o», ou:
«Sim, agora vejo como se deve tocar.» É da maior importância que ele não tenha sido obrigado a aceitar a
explicação; não é como se lhe tivesse, por assim dizer, dado razões conclusivas para pensar que esta passagem se
deveria comparar com aquela ou com outra. Não lhe explico, por exemplo, que de acordo’ com coisas ditas pelo
compositor se supõe que essa passagem representa isto ou aquilo.

Se perguntar agora: «Então o que é que experimento efectivamente ao ouvir este tema e ao compreender o que
ouço? como réplica, nada me ocorre, excepto trivialidades. Imagens, sensações de movimentos, recordações e
coisas do género.

Talvez diga: «Acompanho-o», mas o que é que isso significa? Poderá significar algo como: faço um gesto dentro
do tempo, acompanhando a música. E se chamarmos a atenção para o facto de que, na maioria dos casos, tal só
acontece até um ponto muito rudimentar, obteremos provavelmente como resposta que tais movimentos
rudimentares são acompanhados por imagens. Mas suponha-se que presumimos mesmo assim que alguém

1 Texto pouco claro.


1948 105

acompanha a música em toda a sua extensão com movimentos; até que ponto é que isso significa que ela é
compreendida? Quererei eu dizer que os movimentos que a pessoa faz constituem a

sua compreensão; ou as suas sensações cinestésicas? (Que sei eu

acerca destas?) - O que é verdade é que em determinadas circunstâncias tomarei os movimentos que tal pessoa
faz como sinal da sua compreensão.

Mas (se rejeito as imagens, as sensações cinestésicas, etc., como uma explicação) deveria dizer que a
compreensão é uma vivência específica que não pode ser objecto de análise adicional? Bem, isso interessa desde
que não signifique forçosamente que se trata de um conteúdo vivencial específico. Pois na realidade estas
palavras levam-nos a pensar em distinções como as

que existem entre ver, ouvir e cheirar.

Como explicaremos então a alguém o que «compreender música» quer dizer? Especificando as imagens, as
sensações cinestésicas, etc. experimentadas por alguém que compreende? Mais provavelmente, chamando a
atenção para os movimentos expressivos. E haveria, de facto, que perguntar qual a função desempenhada aqui
pela explicação. E o que significa compreender, o que significa compreender música. Pois alguns diriam:
compreender significa: compreender a própria música. E, nesse

caso, teríamos de perguntar: «Bem, pode ensinar-se alguém a

compreender música?», porque esse é o único tipo de ensino que se poderia considerar uma explicação da
música.

Há uma certa expressão característica da apreciação da música, ao ouvi-Ia, ao tocá-la, e também noutras alturas.
Por vezes, gestos constituem parte desta expressão; noutra ocasião, tratar-se-á apenas do modo como um homem
toca, ou cantarola, a composição, ou de vez em quando, das comparações que faz e

das imagens com as quais, por assim dizer, ilustra a música. Alguém que compreenda a música ouvirá de modo
diferente (por exemplo, com uma expressão facial diferente), falará de modo diverso do de alguém que não a
compreenda. Mostrará que compreende um tema particular não apenas nas manifestações que acompanham a
sua audição ou execução desse tema, mas na sua

compreensão de música em geral.


106 1948

Apreciar música é uma manifestação da vida da humanidade. Como é que a poderíamos descrever a alguém?
Bem, suponho que teríamos, primeiro, de descrever a música. Em seguida, podíamos descrever o modo como os
seres humanos se comportam diante dela. Mas será isso tudo o que necessitamos de fazer,

ou é igualmente necessário ensinar-lhe a compreendê-la por si próprio? Bem, levá-lo à compreensão ensinar-lhe-
á num outro

sentido o que é a compreensão, mais do que uma explicação que tal não consegue. E ainda, induzi-lo à
compreensão da poesia ou

da pintura pode contribuir para a explicação do que está implicado na compreensão da música.

Na escola, as nossas crianças aprendem já que a água consiste nos gases hidrogénio e oxigénio, ou o açúcar no
carbono, hidrogénio e oxigénio. Quem tal não compreenda é estúpido. As questões mais importantes são
ocultadas.

A beleza de uma figura em forma de estrela - uma estrela hexagonal, digamos - é prejudicada se a olharmos
como simétrica relativamente a um eixo dado.

Bach disse que todas as suas realizações eram apenas fruto da diligência e do trabalho. Mas semelhante
diligência requer humildade e uma enorme capacidade de sofrimento, portanto, força. E quem, em seguida,
consegue expressar-se de um modo perfeito, fala-nos justamente a linguagem de um grande homem.

Penso que o modo como as pessoas são hoje educadas tende a diminuir a sua capacidade para sofrer.
Presentemente, uma

escola considera-se boa «se as crianças se divertem». E esse não costumava ser o critério. Além disso, os pais
querem que os seus

filhos cresçam como eles (só que mais), mas sujeitam-nos, contudo, a uma educação muito diferente da deles. -
A resistência ao sofrimento não é muito cotada, porque não deve haver sofrimento; de facto, está fora de moda.
1948 107

«A perfídia das coisas» - Um antropomorfismo desnecessário. Poderíamos falar de uma maldade do mundo;
poderíamos facilmente imaginar que o diabo criou o mundo, ou parte dele. E não é necessário imaginar que o
espírito do mal intervenha em

situações particulares; tudo pode acontecer «de acordo com as leis da natureza»; trata-se apenas de que todo o
plano das coisas visa desde o início o mal. Mas o homem existe neste mundo, onde as coisas se despedaçam,
fluem, são causa de todo o mal imaginável. E, evidentemente, ele próprio é uma dessas coisas. A «perversidade»
das coisas é um antropomorfismo estúpido. Porque a

verdade é mais séria do que esta ficção.

Um expediente estilístico pode ser útil e, contudo, posso ser

impedido de o usar. O «corno que» de Schopenhauer, por exemplo. Ele tornaria, às vezes, a expressão muito
mais confortável e

clara, mas se alguém a sente como arcaica, não a pode usar, nem

deve também descurar esta sensação.

A fé religiosa e a superstição são muito diferentes. Uma resulta do medo e é uma espécie de falsa ciência. A
outra é uma confiança.

Seria quase estranho se não existissem animais com o psiquismo das plantas. Isto é, com um psiquismo
deficiente.

Penso que se poderia considerar como uma lei básica da história natural que onde quer que algo na natureza
«tenha uma função», «sirva um propósito», possa também ele mesmo encontrar-se em circunstâncias em que não
serve qualquer finalidade e, inclusive, é «disfuncional».

Se os sonhos protegem por vezes o sono, podes contar com o facto de às vezes o perturbarem; se a alucinação do
sonho serve

por vezes um propósito plausível (de realização imaginária do


108 1948

desejo), conta também com o facto de ela fazer o contrário. Não há uma «teoria dinâmica dos sonhos»

Onde reside a importância na descrição precisa de anomalias? Se a não consegues fazer, isso mostra que não
sabes utilizar os conceitos.

Sou demasiado brando, fraco e, portanto, demasiado preguiçoso para alcançar algo de significativo. A aplicação
ao trabalho dos grandes homens é, entre outras coisas, um sinal da sua força, abstraindo da sua riqueza interior.

Se Deus escolhe realmente os que se devem salvar, não há razão para que não os venha a escolher segundo a
nacionalidade, a raça ou o temperamento. Ou para que a escolha não encontre expressão nas leis da natureza.
(Ele foi decerto capaz de escolher de modo que a escolha siga uma lei).

Li excertos dos escritos de S. João da Cruz nos quais ele diz que as pessoas caíram no abismo porque não
tiveram a boa sorte de, no momento exacto, encontrar um director espiritual sensato.

E como se pode então afirmar que Deus não põe as pessoas à prova para além das suas forças?

Sinto-me aqui inclinado a dizer que os conceitos distorcidos provocaram muitos males; mas a verdade é que não
sei exactamente o que suscita o bem e o que origina o mal.

Não nos devemos esquecer: até as nossas dúvidas mais refinadas, mais filosóficas, têm um fundamento
instintivo. Por exemplo, a expressão «Nunca sabemos ao certo ... ». Acesso contínuo a ulteriores argumentos.
Deveríamos considerar as pessoas a quem não conseguíssemos ensinar isto como mentalmente inferiores.
Incapazes ainda de formar um certo conceito.

‘ Freud.
1948 109

Se os sonhos nocturnos têm uma função semelhante à dos devaneios, uma parte do seu propósito é preparar uma
pessoa para qualquer possibilidade (incluindo a pior).

Se alguém pode acreditar em Deus com absoluta certeza, porque não noutras almas?

Para mim, esta frase musical é um gesto. Insinua-se na minha vida. Adopto-a como minha.

As infinitas variações da vida são essenciais à nossa vida. E também mesmo ao carácter habitual da vida. A
expressão consiste, para nós, [na]’ incalculabilidade. Se soubesse exactamente como é que certa pessoa faria
esgares, se movimentaria, etc., não existiria qualquer expressão facial, qualquer gesto. Será isso, contudo,
verdade? Posso, no fim de contas, ouvir repetidas vezes

uma peça musical que conheço (inteiramente) de cor; ou poderia até ser locada numa caixa de música. Os seus
gestos seriam ainda para mim gestos, embora soubesse sempre o que estava para vir a seguir. De facto, poderia
até continuar a surpreender-me. (Num certo sentido).

O pensador religioso honesto é como um funâmbulo. Aparentemente, caminha quase só pelo ar. O seu apoio é o
mais reduzido que imaginar se pode e, todavia, é realmente possível caminhar por ele.

Fé inabalável (por exemplo, numa promessa). Será ela menos segura do que estar convencido de uma verdade
matemática? Mas tornará isto os jogos de linguagem mais semelhantes?

Conjectura do compilador,
110 1948

É importante para a nossa consideração que haja seres humanos acerca dos quais alguém pressinta que nunca
saberá o que neles ocorre. Que nunca os compreenderá. (As mulheres inglesas aos olhos dos europeus).

Penso que é importante e notável o facto de um tema musical alterar o seu carácter se for tocado em tempi
(muito) diferentes. Uma transição da quantidade à qualidade.

Os problemas da vida são insolúveis à superfície e só podem resolver-se na profundidade. São insolúveis nas
dimensões de superfície.

Numa conversa: uma pessoa atira uma bola; a outra não sabe se deve atirá-la de volta ou atirá-la a uma terceira
pessoa, ou

deixá-la no chão, ou apanhá-la e pô-la no bolso, etc.

Num período mau a tarefa com que se defronta um grande arquitecto (Van der Nüll) é completamente diferente
da de um

bom período. Não há que se deixar seduzir pela terminologia corrente. Não se aceite a comparabilidade, mas
antes a incomparabilidade, como algo natural.

Nada é mais importante para nos ensinar a compreender os

conceitos de que dispomos do que a construção de conceitos fictícios.

«Pensar é difícil» (Ward). Que significa isto realmente? Por que motivo é difícil pensar? - É quase como se
dissesse: «Olhar é difícil». Porque olhar atentamente é difícil. E é possível olhar atentamente sem ver com
clareza seja o que for. Olhar pode fatigar, mesmo quando nada se vê.
1948 111

Quando não consegues desenredar um emaranhamento, o mais sensato é reconhecê-lo; e o mais honrado é
admiti-lo. [Anti-semitismoi

O que deverias fazer para remediar o mal não é claro. O que não deves fazer é claro em casos particulares.

É estranho que os desenhos de Busch possam frequentemente denominar-se «metafísicos». Haverá então um
modo de desenho que é metafísico? - «Visto contra o pano de fundo do eterno» poderia dizer-se. Contudo, estes
traços só têm um tal significado no contexto de uma linguagem completa. E é uma linguagem sem

gramática; não poderiam aduzir as suas regras.

Já velho, Carlos Magno tentou aprender a escrever, mas sem êxito; e, da mesma maneira, alguém pode fracassar
ao tentar aprender um modo de pensar. Nunca chega a ser fluente nele.

Uma linguagem em que se fala com o andamento preciso e

que, por isso, se pode falar também de acordo com o metrónomo. Não é evidente que a música, como a nossa,
deva ser executada, pelo menos de passagem, ao metrónomo. (Tocar o tema da 8.’ Sinfonia2 exactamente pelo
metrónomo).

Com pessoas que tivessem todas os mesmos traços fisionómicos, já não saberíamos como lidar com elas.

Inclusive, a expressão ousada e clara de um pensamento falso é já um ganho significativo.

Só quando se pensa mais loucamente do que os filósofos se

consegue resolver os seus problemas.

Cf. Tagebücher, 7. 10. 1916. [Diários] De L. van Beethoven.


112 1948

Imaginem alguém que observa um pêndulo e pensa: Deus fá-lo mover-se desta maneira. Bem, não terá Deus a
liberdade de agir de acordo com um cálculo?

Um escritor muito mais talentoso do que eu teria apenas um

talento menor.

Dizer, quando se trabalha, «Vamos agora acabar com isto», é uma necessidade física dos seres humanos; e que se
tenha repetidamente de pensar face a tal necessidade, no acto de filosofar, toma este trabalho tão árduo.

Tens de aceitar os defeitos do teu próprio estilo. Quase como

as deformidades do teu próprio rosto.

Desce sempre dos montes estéreis da sensatez para os vales verdejantes da tolice.

Tenho um daqueles talentos que constantemente tem de fazer da necessidade uma virtude.

A tradição não é algo que um homem possa aprender; não é um fio que possa retomar quando lhe apetece; tal
como uma pessoa não pode escolher os seus antepassados. Quem não possui uma tradição e gosta de ter uma é
como um homem apaixonado infeliz.

O enamorado feliz e o apaixonado infeliz tem cada qual o seu ‘pathos’ próprio.

Mas é mais difícil ser um enamorado infeliz do que um apaixonado feliz.


1948 113

Moore remexeu um ninho de vespas filosófico com o seu paradoxo; e a única razão pela qual as vespas não
fugiram no

momento exacto foi por serem demasiado indolentes.

Na âmbito do espiritual, o projecto de uma pessoa não pode em geral ser continuado por outra, nem o deverá ser.
Estes pensamentos fertilizarão o solo para uma nova sementeira.

Então és um mau filósofo, se o que escreves é difícil de compreender? Se fosses melhor, tornarias fácil de
compreender o que é difícil. Mas quem é que diz que isso é possível?! [Tolstoi]

A maior felicidade do homem é o amor. Supostamente, dizes do esquizofrénico; ele não ama, não consegue
amar, recusa-se a amar: qual é a diferença?!

«Ele recusa-se a ... » significa: está em seu poder. E quem quer dizer isso?!

Bem, de que tipo de coisa se diz que «está em meu poder»?


- Afirma-se tal quando se quer fazer uma distinção. Consigo levantar este peso, mas não o vou fazer; não consigo
levantar aquele.

«Deus assim o ordenou, por conseguinte, deve ser possível fazê-lo.» Isso não significa nada. Não há nisso
qualquer «por conseguinte». Quando muito, as duas expressões poderiam significar o mesmo.

Neste contexto, «Ele assim o ordenou» significa aproximadamente: Ele punirá quem o não fizer. E nada daí se
segue sobre o que alguém pode ou não fazer. E esse é o significado da «predestinação».

Mas tal não quer dizer que seja correcto afirmar: «Ele pune-te, embora não possas fazer as coisas de outra
maneira.» Talvez,
112 1948

Imaginem alguém que observa um pêndulo e pensa: Deus fá-lo mover-se desta maneira. Bem, não terá Deus a
liberdade de agir de acordo com um cálculo?

Um escritor muito mais talentoso do que eu teria apenas um

talento menor.

Dizer, quando se trabalha, «Vamos agora acabar com isto», é uma necessidade física dos seres humanos; e que se
tenha repetidamente de pensar face a tal necessidade, no acto de filosofar, torna este trabalho tão árduo.

Tens de aceitar os defeitos do teu próprio estilo. Quase como

as deformidades do teu próprio rosto.

Desce sempre dos montes estéreis da sensatez para os vales verdejantes da tolice.

Tenho um daqueles talentos que constantemente tem de fazer da necessidade uma virtude.

A tradição não é algo que um homem possa aprender; não é um fio que possa retomar quando lhe apetece; tal
como uma pessoa não pode escolher os seus antepassados. Quem não possui uma tradição e gosta de ter uma é
como um homem apaixonado infeliz.

O enamorado feliz e o apaixonado infeliz tem cada qual o seu ‘pathos’ próprio.

Mas é mais difícil ser um enamorado infeliz do que um apaixonado feliz.


1948 113

Moore remexeu um ninho de vespas filosófico com o seu paradoxo; e a única razão pela qual as vespas não
fugiram no

momento exacto foi por serem demasiado indolentes.

Na âmbito do espiritual, o projecto de uma pessoa não pode em geral ser continuado por outra, nem o deverá ser.
Estes pensamentos fertilizarão o solo para uma nova sementeira.

Então és um mau filósofo, se o que escreves é difícil de compreender? Se fosses melhor, tornarias fácil de
compreender o que é difícil. Mas quem é que diz que isso é possível?! [Tolstoy

A maior felicidade do homem é o amor. Supostamente, dizes do esquizofrénico; ele não ama, não consegue
amar, recusa-se a amar: qual é a diferença?!

«Ele recusa-se a ... » significa: está em seu poder. E quem quer dizer isso?!

Bem, de que tipo de coisa se diz que «está em meu poder»?


- Afirma-se tal quando se quer fazer uma distinção. Consigo levantar este peso, mas não o vou fazer; não consigo
levantar aquele.

«Deus assim o ordenou, por conseguinte, deve ser possível fazê-lo.» Isso não significa nada. Não há nisso
qualquer «por conseguinte». Quando muito, as duas expressões poderiam significar o mesmo.

Neste contexto, «Ele assim o ordenou» significa aproximadamente: Ele punirá quem o não fizer. E nada daí se
segue sobre o que alguém pode ou não fazer. E esse é o significado da «predestinação».

Mas tal não quer dizer que seja correcto afirmar: «Ele pune-te, embora não possas fazer as coisas de outra
maneira.» Talvez,
114 1948

no entanto, se pudesse dizer: neste caso a punição é infligida em

circunstâncias em que não seria lícito que ela fosse infligida por homens. E, então, o conceito de «punição»
muda inteiramente. Pois agora já não é possível usar as velhas ilustrações, ou então têm de se aplicar de um
modo muito diferente. Considera uma alegoria do tipo The Pilgrims Progres 1 e repara em como nada é certo em
termos humanos. Mas não será ela correcta? Ou seja: não se poderá aplicar? De facto, tem sido aplicada. (Nas
estações de comboio há mostradores com dois ponteiros; mostram a hora de partida do próximo comboio.
Parecem relógios, mas não são; têm, porém, um uso que lhes é próprio.) (Deveria ser possível descobrir uma
melhor analogia.)

A quem se incomodar com esta alegoria, poderá dizer-se: aplica-a de um modo diferente, ou então deixa-a em
paz! (Mas a

alguns causará mais confusão do que ajuda.)

Deixa ao leitor tudo o que ele pode fazer sozinho.

Quase todos os meus escritos são conversas privadas comigo mesmo. Coisas que a mim próprio digo face a face.

A ambição é a morte do pensamento.

O humor não é uma disposição, mas uma maneira de olhar para o mundo. Por isso, se é correcto dizer que o
humor foi exterminado na Alemanha Nazi, tal não significa que as pessoas não estivessem bem dispostas, ou
algo do género, mas algo de mais profundo e mais importante.

Duas pessoas riem juntas, digamos, de uma anedota. Uma delas utilizou certas palavras um tanto fora do vulgar
e agora

‘ A clássica obra de John Bunyan (1628-88), que nela descreve em termos alegóricos a vida cristã.
1948 115

ambas irrompem numa especie de balidos. Isso poderia parecer muito extraordinário a um visitante que viesse de
um meio totalmente diferente. Para nós, porém, é inteiramente aceitável. (Testemunhei recentemente esta cena
num autocarro e consegui pôr-me na posição de alguém a quem isto não fosse familiar. A cena impressionou-me
como se fosse totalmente irracional e como as respostas de um animal estranho.)

1949

O conceito de «festa». Associamo-lo a divertimento; numa outra época pode ter estado ligado ao medo e ao
pavor. O que chamamos «espírito» e «humor» não existia, sem dúvida, noutras épocas. E ambos estão
constantemente a mudar.

«Le style c’ est V homme», «Le style c'est Vhomme même».


a primeira expressão tem um laconismo epigramático barato.
a segunda versão, a correcta, abre uma perspectiva de todo diferente. Diz que o estilo de um homem é a imagem
desse homem.

Há observações que semeiam e observações que colhem.

As relações entre estes conceitos formam uma paisagem com

que a linguagem nos presenteia em inúmeros fragmentos; juntá-los é-me demasiado difícil. Consigo apenas fazer
um trabalho muito imperfeito.

Se me preparar para uma qualquer eventualidade, podes ter a certeza de que ela não ocorre. Se as circunstâncias
forem apropriadas.

É difícil conhecer algo e agir como se não se conhecesse.


116 1949

Há, de facto, casos em que alguém tem o sentido do que pretende dizer muito mais claramente presente na sua
consciência do que lhe é possível expressá-lo por palavras. (Tal acontece-me com muito frequência). É como ter
uma imagem de um sonho muito claramente presente à consciência, mas sem conseguir descrevê-lo a outra
pessoa a fim de lhe possibilitar vê-lo também. Na realidade, para o escritor (eu próprio), é como se,
frequentemente, a

imagem estivesse por trás das palavras, de modo a que estas parecessem descrever-ma.

Um escritor medíocre deve acautelar-se contra a substituição muito rápida de uma expressão rude e incorrecta
por uma correcta. Ao fazê-lo, mata a sua ideia original que, pelo menos, era

ainda um rebento vivo. Agora está murcha e já nada vale. Pode, se quiser, atirá-la para o monte do lixo. Ao passo
que o pequeno e miserável rebento ainda valia alguma coisa.

Unia razão para os autores se tornarem datados, embora em tempos tido tenham alguma importância, é que os
seus escritos, quando reforçados pela sua moldura contemporânea, falam fortemente aos homens, enquanto sem
este esforço as suas obras morrem, como se tivessem sido privadas da iluminação que lhes dava a sua cor.

Há alguma relação entre isto e a beleza das demonstrações matemáticas, tal como a experimentou Pascal. Nesta
intuição do mundo, as demonstrações tinham beleza - mas não o que as pessoas superficiais chamam beleza.
Ora, um cristal não é belo numa qualquer «moldura», embora talvez pareça sempre atractivo.

É estranho que épocas inteiras não se consigam libertar da atracção de certos conceitos, o conceito «belo» e
«beleza», por exemplo.

O meu próprio pensamento sobre a arte e os valores é muito mais desiludido do que teria sido possível aos
homens de há 100
1949 117

anos. Todavia, tal não quer dizer que seja mais correcto por causa

disso. Significa apenas que, no primeiro plano do meu espírito, tenho exemplos de degeneração, que no deles
não estavam presentes.

As preocupações são como as doenças; tens de as aceitar: a pior coisa que podes fazer é revoltares-te contra elas.

Sofres também ataques delas, desencadeados por causas

internas ou externas. E nessa altura só tens de dizer a ti próprio: «Outro ataque.»

As questões científicas podem interessar-me, mas de facto

nunca me prendem. Isso só acontece com questões conceptuais e

estéticas. No fundo, é-me indiferente a solução dos problemas científicos; mas não a de problemas de outra
espécie.

Inclusive, quando não se pensa em círculos, pode ainda, por vezes, atravessar-se a passo largo o matagal de
problemas até se

entrar em campo aberto e, noutras ocasiões, vaguear por caminhos tortuosos, ou em zig-zag, que não conduzem
de modo algum a campo aberto.

O sábado não é somente o tempo de descanso, de relaxamento. Deveríamos contemplar os nossos trabalhos de
fora, e não apenas de dentro.

Eis o modo como entre si se deveriam saudar os filósofos: «Devagar, devagar!»

O que é eterno e importante está muitas vezes oculto ao homem por um véu impenetrável. Ele sabe: há algo ali
por baixo, mas não o vê. O véu reflecte a luz do dia.
118 1949

Por que motivo não poderá um homem tornar-se desesperadamente infeliz? É uma das suas possibilidades.

Para um filósofo, cresce mais erva nos vales da tolice do que nos montes estéreis da sensatez.

A temporalidade do relógio e a temporalidade na música. Não são de modo algum conceitos equivalentes.

Tocar guardando estritamente o compasso não significa tocar de acordo com o metrónomo. Mas é possível que
um certo tipo de música se execute de acordo com o metrónomo. (Será o tema

a de abertura «do segundo andamento» da 8. Sinfonia deste tipo?).

Poderia explicar-se o conceito das punições do inferno, sem

utilizar o conceito de punição? Ou de bondade divina, sem utilizar o conceito de bondade?

Se quiseres obter o efeito exacto com as tuas palavras, certamente que não.

Suponhamos que se ensinava a alguém: há um ser que, se fizeres isto ou aquilo, ou viveres desta ou daquela
maneira, te conduzirá a um lugar de tormento eterno, depois de morreres; a

maioria dos homens acaba ali, um número menor acede a um lugar de felicidade eterna. - Este ser seleccionou de
antemão os que devem ir para o bom lugar e, visto que apenas os que viveram um certo tipo de vida vão para o
lugar de tormento, ele também planeou antecipadamente a vida destes. Qual poderá ser o

efeito de semelhante doutrina?

Bem, ela não se refere à punição, mas a uma espécie de necessidade natural. E se tivesses de expor a alguém as
coisas a esta luz, ele apenas poderia reagir com desespero ou incredulidade a uma tal doutrina.

Ensiná-la não constituiria uma educação ética. Se quisesses educar alguém eticamente, embora continuando
ainda a ensinar-
1949 119

-lhe essa doutrina, terias de lha ensinar depois de o teres educado eticamente, apresentando-a como uma espécie
de mistério incompreensível.

«Ele escolheu-os, na sua bondade, e punir-te-á» não faz sentido. As duas partes da proposição correspondem a
duas maneiras diferentes de olhar para as coisas. A segunda parte é ética, a

primeira não. Tomada em conjunto com a primeira, a segunda é absurda.

É por acidente que «quietação» rima com «agitação». Mas trata-se de um feliz acidente, e podes descobrir este
feliz acidente.

Na música de Beethoven surge pela primeira vez o que se pode chamar a expressão da ironia. Por exemplo, no
primeiro andamento da Nona. E há nele, além do mais, uma ironia terrível, talvez a ironia do destino. A ironia
reaparece em Wagner, mas desta vez empregue no modo cívico.

Poderia, sem dúvida, dizer-se que tanto Wagner como

Brahms, cada um de maneira diferente, imitou Beethoven; mas o

que nele era cósmico, toma-se neles terreno.

As mesmas expressões ocorrem na sua música, mas obedecendo a leis diferentes. De facto, na música de Mozart
ou Haydn, o destino não desempenha qualquer tipo de papel. Não é dele que se ocupa esta música.

Tovey, esse idiota, diz algures que tal, ou algo de semelhante, se deve ao facto de Mozart não ter tido acesso a
literatura de um certo tipo. Como se alguma vez se tivesse provado que a música dos mestres é o que é graças
apenas aos livros. A música e os livros estão, certamente, relacionados. Mas se Mozart não encontrou nenhuma
grande tragédia no que leu, significará isso que não a encontrou na sua vida? E será que os compositores nunca
vêm nada a não ser pelos óculos dos poetas?
120 1949

Só num contexto musical muito particular existe algo como

o contraponto a três vozes.

A expressão suave na música. Não deve caracterizar-se em termos de graus de intensidade e dos tempos. Tal
como uma

expressão facial suave não se pode descrever em função da distribuição da matéria no espaço. Na verdade, nem
sequer se pode explicar por referência a um paradigma, visto que há um sem

número de maneiras de tocar a mesma peça musical com expressão genuma.

A essência de Deus garantiria a sua existência - significa isto que, de facto, não se trata aqui de uma existência.

Não se poderia também dizer que a essência da cor garante a sua existência? Em contraste, digamos, com
elefantes brancos. Pois o que na realidade tal significa é: não consigo explicar o que é a «cor», o que a palavra
«cor» significa, excepto com a ajuda de uma amostra de cor. Assim, não há neste caso uma explicação do tipo
«corno seriam as coisas se as cores existissem».

Poderíamos agora dizer: pode haver uma descrição de como

seriam as coisas se existissem deuses no Olimpo, mas não: «corno seriam as coisas, se existisse Deus». E dizer
isto é determinar mais precisamente o conceito «Deus».

Como é que nos ensinam a palavra «Deus» (isto é, o seu

uso)? Não sou capaz de fornecer uma descrição gramatical completa de semelhante uso. Mas posso, por assim
dizer, fazer algumas contribuições para uma tal descrição; posso dizer muito sobre ela e talvez, na altura própria,
reunir uma espécie de colecção de exemplos.

Lembrem-se, a este respeito, de que, embora talvez gostássemos de fornecer as descrições do uso das palavras
num dicionário, tudo o que de facto fazemos é apresentar alguns exemplos e explicações. Mas lembrem-se
também de que não é necessário mais do que isto. Qual seria o uso que poderíamos dar a uma descrição
muitíssimo longa? Bem, nada com ela poderíamos fazer, se se tratasse do uso das palavras em línguas que já
conhecíamos.
1949 121

Mas o que aconteceria se encontrássemos uma tal descrição do uso de uma palavra assíria? Em que língua?
Numa qualquer outra língua, digamos, que já nos fosse familiar. As palavras «por vezes» ocorrerão
frequentemente nesta descrição, ou «frequentemente», ou «geralmente», ou «quase sempre», ou «quase nunca».

É difícil fazer um quadro adequado daquilo a que se poderia assemelhar uma tal descrição.

E, no fim de contas, o que basicamente sou é um pintor e

também, frequentemente, um mau pintor.

Que acontece quando as pessoas não têm o mesmo sentido de humor? Não reagem umas às outras
convenientemente. É como

se entre certos homens existisse o costume de um atirar a outro uma bola, que deve ser por este agarrada e
atirada de volta; mas alguns, em vez de a atirarem de volta, põem-na nos seus bolsos.

Ou como será para alguém não conseguir abarcar o gosto de outra pessoa?

É verdade que podemos comparar uma imagem firmemente enraizada em nós a uma superstição; mas pode
também dizer-se que temos sempre de chegar a um terreno firme (seja uma imagem, seja outra coisa qualquer),
de modo que a imagem que se

encontra na raiz de todo o nosso pensamento seja respeitada e não tratada como uma superstição.

Se o Cristianismo é a verdade, então toda a filosofia a seu respeito é falsa.

A cultura é uma observância. Ou pelo menos pressupõe uma observância.

O relato de um sonho, uma mistura de recordações. Estas formam, com frequência, um todo significativo e
enigmático. Formam, por assim dizer, um fragmento que provoca em nós (por
122 1949

vezes) uma impressão intensa, de modo que procuramos uma

explicação, conexões.

Mas porque é que estas recordações nos ocorrem agora? Quem o poderá dizer? Pode acontecer que estejam
relacionadas com a nossa vida actual e, por isso, também com os nossos desejos, medos, etc. «Mas quererá s tu
dizer que este fenómeno só pode existir neste contexto causal particular?» Quero dizer que não faz,
necessariamente, sentido falar de uma descoberta da sua causa.

Shakespeare e o sonho. Um sonho é inteiramente falso, absurdo, composto e, todavia, é ao mesmo tempo
inteiramente verdadeiro: elaborado desta estranha maneira provoca uma

impressão. Porquê? Não sei. E se Shakespeare é grande, como se

diz que é, então deve ser possível dizer a seu respeito: está tudo mal, as coisas não são assim - e ao mesmo
tempo, contudo, está tudo inteiramente certo de acordo com uma lei que lhe é própria.

As coisas também se poderiam pôr nestes termos: se Shakespeare é grande, a sua grandeza revela-se apenas na
colecção completa das suas peças, que criam a sua própria linguagem e o seu próprio mundo. Por outras
palavras, ele é de todo irrealista. (Como um sonho).

1950

Nada há de injurioso em dizer que o carácter do homem pode ser influenciado pelo mundo exterior (Weininger).
Pois isso apenas significa que, como o sabemos por experiência, os homens mudam com as circunstâncias. Se se
perguntar: Como poderia o

homem, o seu elemento ético, ser forçado pelo ambiente? - A resposta é a seguinte: embora ele possa dizer «
Nenhum ser humano tem de ceder à compulsão»,estará, no entanto, a agir sob tais circunstâncias de tal ou tal
maneira.

«Tu não TENS de, posso mostrar-te uma outra saída (diferente), mas não a aproveitas».
1950 123

Não acredito que Shakespeare se possa pôr a par de qualquer outro poeta. Não será ele, mais do que poeta, um
criador de linguagem?

Eu só conseguiria admirar Shakespeare; nunca de fazer algo com ele.

Tenho uma profunda desconfiança perante a maior parte dos admiradores de Shakespeare. A infelicidade está,
creio eu, no

facto de ele ser único, pelo menos na cultura ocidental, de modo que, ao situá-lo, só incorrectamente se pode
situar.

Não é como se Shakespeare retratasse bem tipos humanos e

fosse, no que a tal respeita, fiel à vida. Ele não é fiel à vida. Mas tem uma mão tão ágil e as suas pinceladas são
tão pessoais que cada uma das suas personagens parece significativa, vale a pena olhar para ela.

«0 grande coração de Beethoven - ninguém poderia falar do «grande coração de Shakespeare». «A mão á gil que
criou novas e naturais formas linguísticas» afigurar- se-me-ia mais perto do alvo.

O poeta não pode, de facto, dizer de si próprio: «Canto como

cantam os pássaros». Mas talvez Shakespeare pudesse de si ter dito isso.

Um e o mesmo tema são diferentes em carácter se tocados num tom menor ou num tom maior, mas é de todo
errado falar, em termos gerais, de um carácter da tonalidade menor. (Em Schubert, a tonalidade maior soa
frequentemente mais triste do que a

menor.) E, de modo semelhante, penso que é vão, e em nada


124

1950

ajuda à compreensão da pintura, falar das características das cores individuais. Quando se fala assim apenas se
têm presentes, de facto, aplicações especiais. O facto de o verde ter este ou aquele efeito como cor de uma toalha
de mesa, o vermelho outro, não permite qualquer conclusão sobre os seus efeitos numa pintura.

Não creio que Shakespeare tivesse sido capaz de reflectir sobre o «destino do poeta».

Nem poderia ter-se considerado a si próprio como um profeta ou um professor da humanidade.

As pessoas olham para ele maravilhadas, quase como se se

tratasse de um fenómeno natural espectacular. Não têm a sensação de que tal as leva a contactar com um grande
homem. Mas com um fenómeno.

Acredito que, para se desfrutar de um escritor, há também que gostar da cultura a que ele pertence. Se esta se
considerar indiferente ou desagradável, a admiração arrefece.

Se quem acredita em Deus olha em redor e pergunta: «Donde vem tudo o que vejo?», «Donde vem tudo isto?»,
não anseia por uma explicação (causal); a sua pergunta é, no essencial, expressão de um certo anseio. Ele
expressa uma atitude face a todas as explicações. Mas como é que tal se manifesta na sua vida?

É a atitude que toma a sério um certo assunto e, em seguida, para lá de um certo ponto, já não o tem por sério,
mas sustenta

que há uma outra coisa que é ainda mais importante.

Alguém pode, por exemplo, dizer que é muito grave que este ou aquele homem tenha morrido antes de ter tido a
possibilidade de acabar um certo trabalho; e, contudo, num outro sentido, não é isso que importa. Nesta ocasião
usam-se as palavras «num sentido mais profundo».

Em rigor, gostaria de dizer que também aqui as palavras que dizes ou o que pensas ao proferi-Ias não são o que
de facto interessa, tal como a diferença por elas produzida em diferentes momentos da tua vida. Como posso eu
saber que duas pessoas se referem ao mesmo quando cada uma delas diz acreditar em
1950 125

Deus? E o mesmo se aplica à crença na Trindade. Uma teologia que insiste no uso de certas palavras e
expressões particulares, proibindo outras, não torna nada mais claro (Karl Barth). Gesticula, por assim dizer,
com palavras, porque pretende dizer algo e não sabe como o exprimir. A prática confere às palavras o seu
sentido.

Uma prova da existência de Deus deveria realmente ser algo por meio do qual alguém se poderia convencer a si
mesmo de que Deus existe. Mas creio que aquilo que os crentes, que apresentaram tais provas, quiseram fazer
foi fornecer à sua «crença» uma análise intelectual e um fundamento, embora eles próprios nunca

viessem a acreditar através de tais demonstrações. Talvez se pudesse «convencer alguém de que Deus existe»
mediante um

certo tipo de educação, configurando a sua vida de tal ou tal maneira.

A vida pode educar-nos para a fé em Deus. E são também as experiências que o fazem; mas não me refiro a
visões e a outras formas de experiência dos sentidos que nos mostram a

«existência deste ser», mas, por exemplo, a sofrimentos de vários tipos. Estes nem nos revelam Deus do mesmo
modo que a experiência dos sentidos nos revela um objecto, nem dão origem a

quaisquer conjecturas a seu respeito. As experiências, os pensamentos - a vida pode impor-nos este conceito.

Talvez ele seja então semelhante ao conceito de «objecto».

A razão pela qual não compreendo Shakespeare é que pretendo descobrir simetria em toda a assimetria.

As suas peças não me suscitam a impressão de pinturas, mas

antes de enormes esboços; como se tivessem sido rabiscadas por alguém que, por assim dizer, se pode permitir a
si próprio seja o

que for. E compreendo como tal se pode admirar e chamar-lhe arte superior, mas não gosto dela. Assim, se
alguém fica sem fala perante essas peças, consigo compreendê-lo; mas quem as admira
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como se admira, digamos, Beethoven, parece-me não compreender Shakespeare.

Uma época interpreta falsamente a outra; e uma época mesquinha interpreta erradamente todas as outras à sua
própria e sórdida maneira.

Não nos é possível de forma alguma imaginar o modo como Deus julga um homem. Se Ele tomar em
consideração a força da tentação e a fraqueza da natureza, a quem poderá condenar? Mas, sob outros aspectos, a
resultante destas duas forças é simplesmente o fim para o qual o homem foi predestinado. Foi criado de modo a
que a acção combinada das forças o fizesse ou levar a melhor ou a sucumbir. E essa não é de todo uma ideia
religiosa, mas algo mais semelhante a uma hipótese científica.

Por isso, se pretendes ficar na esfera religiosa tens de lutar.

Olha para os seres humanos; cada um é um veneno para o

outro. Uma mãe para o seu filho, e vice-versa, etc. Mas a mãe está cega e o mesmo se passa com o filho. Talvez
tenham consciências culpadas, mas que bem lhes faz isso? A criança é cruel, mas ninguém lhe ensina a ser
diferente e os seus pais estragam-na com o seu estúpido afecto; e como poderão eles, ou o seu filho,
compreender isto? É como se todos fossem cruéis e inocentes.

Fez a filosofia algum progresso? Se alguém se coça no local onde tem comichão, teremos de ver algum
progresso? Não se tratará de uma coçadela genuína ou de uma comichão genuína? E não poderá esta reacção a
uma irritação prolongar-se durante um longo período de tempo até se descobrir uma cura para a comichão?
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Deus pode dizer-me: «Estou a julgar-te de acordo com as palavras da tua boca. As tuas próprias acções fizeram-
te estremecer de repugnância, quando noutros as viste. »

Será este o sentido da crença no Diabo: que nem tudo o que nos surge como inspiração provém do que é bom?

Não podes avaliar-te correctamente se não fores perito nas

categorias, (0 estilo da escrita de Frege é por vezes notável; Freud escreve de maneira perfeita e é um prazer lê-
lo, mas a sua escrita nunca é notável)’.

‘ Cf. Zettel, § 712. [Fichas]


Impressão e acabamento da PRINTEFóLIO - Artes Gráfica,,, Lda.

- para EDIÇÕES 70, Lda. em Março de 1996

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