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EMILY GARCIA1

COMENTÁRIOS PONTO A PONTO2:

A VERDADE E AS FORMAS JURÍDICAS, MICHEL


FOUCAULT

1
Currículo: http://lattes.cnpq.br/0419701660332718
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É proibido reproduzir, copiar, compartilhar, dividir ou qualquer outro ato que viole os direitos da autora, mesmo que sem fins
lucrativos, conforme Lei 9.610/1998.
4. FOUCAULT – DIREITO, PODER E VERDADE JURÍDICA. 4.1 O conhecimento como invenção. 4.2
Prática penal e formas de verdade. 4.3 Regime da verdade e poder político. 4.4 O inquérito nas práticas
judiciárias da Grécia Antiga. 4.5 A tragédia de Édipo e o surgimento do inquérito na Antiguidade. 4.6 O
sistema do inquérito e a descoberta judiciária da verdade. 4.7 O antigo Direito Germânico e o sistema de prova.
4.8 O sistema das provas no Direito Feudal. 4.9 O segundo nascimento do inquérito na Idade Média. 4.10
Direito e sociedade disciplinar. 4.11 Disciplina, prisão e panoptismo. 4.12 O criminoso como inimigo social.
4.13 O exame como forma de saber-poder. 4.14 Ciências do exame e sociedade capitalista.

4 FOUCAULT – DIREITO, PODER E VERDADE JURÍDICA

Michel Foucault (1926-1989) nasceu em Poitiers, na França, no dia 15 de outubro de 1926. Dedicou-
se principalmente ao estudo das relações de poder. Ao contrário de muitos filósofos, que se reservam aos seus
locais de trabalho, Foucault foi um verdadeiro ativista, envolveu-se em campanhas contra o racismo e pela
reforma do sistema penitenciário. E, como já era esperado, um dos livros de Foucault foi indicado para leitura
no edital para o concurso da DPE-SP. O examinador do concurso pesquisa em Foucault, logo esse é um
material de leitura obrigatória.
O livro A verdade e as formas jurídicas é composto por cinco conferências proferidas pelo autor na
PUC-RJ entre 21 e 25 de janeiro de 1973. Nestas conferências, antecipa-se conteúdos contidos no livro Vigiar
e Punir, de 1975, sendo possível observar o vínculo entre os sistemas de verdade, assim como de onde provêm
e onde se investem as práticas sociais e políticas.
No livro Foucault trata do conhecimento como invenção. Trata do nascimento do inquérito no
pensamento grego a partir da tragédia de Édipo, que se destaca como história do saber e ponto de emergência
do inquérito. Trata também da relação que se estabeleceu da Idade Média entre o regime da prova e o sistema
do inquérito. E, finalmente, aborda o nascimento do exame ou as ciências de exame que estão em relação com
a formação e estabilização da sociedade capitalista.

FOCO DO Mostrar como as condições políticas e econômicas de existência não são um véu ou um
AUTOR obstáculo para o sujeito de conhecimento, mas aquilo através do que se formam os sujeitos e
relações de verdade. Só pode haver certos tipos de sujeitos de conhecimento e certas verdades
a partir de condições políticas que são o solo em que se formam o sujeito, os domínios de
saber e as relações com a verdade.
4.1 O conhecimento como invenção.

A questão inicial posta por Foucault é a seguinte: Como se puderam formar domínios de saber a
partir de práticas sociais? Isto é, existe uma tendência, chamada ironicamente por Foucault de “marxismo
acadêmico”, de procurar a maneira pela qual as condições econômicas de existências podem encontrar na
consciência dos homens o seu reflexo e expressão. Essa tendência apresenta o defeito de supor que no sujeito
humano, sujeito de conhecimento, as formas do conhecimento são dados prévia e definitivamente e que as
condições econômicas, sociais e políticas apenas se depositam ou se imprimem nesse sujeito. Foucault busca
mostrar como as práticas sociais fabricam domínios de saber que fazem aparecer novos objetos, conceitos e
técnicas, além de fazer nascer formas totalmente novas de sujeitos. O próprio sujeito de conhecimento tem
uma história, assim a verdade também tem uma história.
O século XIX, para ele, formou um certo saber do homem – sobre sua individualidade, definição do
indivíduo normal ou anormal, dentro ou fora da regra -, saber esse que nasceu das práticas sociais do controle
e da vigilância e que não se impôs nem se imprimiu em um sujeito de conhecimento, mas fez nascer um novo
tipo de sujeito de conhecimento. Dessa forma, a história dos domínios do saber originados com as práticas
sociais exclui a ideia de um sujeito de conhecimento dado definitivamente, sendo esse o primeiro eixo da
pesquisa de Foucault.

HISTÓRIA DOS DOMÍNIOS DO SABER Exclui a ideia de um sujeito de conhecimento dado


ORIGINADOS COM AS PRÁTICAS SOCIAIS definitivamente

O segundo eixo é o metodológico, que trata da análise dos discursos. Conforme Foucault, há a tendência
de tratar os discursos como conjunto de fatos linguísticos que se conectam por regras sintáticas de construção.
Entretanto, teria chegado o momento de considerar o discurso como jogo estratégico – de ação e reação, de
pergunta e resposta, de dominação e esquiva, de luta.
O terceiro eixo trata da reelaboração da teoria do sujeito. Esse eixo definiria o encontro dos eixos
anteriores. A teoria do sujeito foi modificada e renovada ao longo dos anos por inúmeras teorias e práticas,
entre as quais, em primeiro plano, Foucault situa a psicanálise. A psicanálise foi a prática e a teoria que
reavaliou de maneira mais fundamental a prioridade conferida ao sujeito. A filosofia ocidental postulava o
sujeito como fundamento (núcleo) de todo o conhecimento. A psicanálise colocou em questão essa posição
absoluta do sujeito.
Dessa forma, a hipótese de Foucault é a de que há duas histórias da verdade. A primeira é uma história
interna de uma verdade que se corrige a partir de seus próprios princípios de regulação. Segundo Foucault, “é
a história da verdade tal como se faz na ou a partir da história das ciências”. A segunda é uma história externa,
que se forma em diversos lugares nas sociedades por meio de um certo número de regras de jogo, a partir das
quais se vê nascer formas de subjetividade. Nesse sentido, as práticas judiciárias parecem uma das formas
pelas quais a sociedade definiu tipos de subjetividade, formas de saber e, consequentemente, relações entre o
homem e a verdade.

HISTÓRIA Verdade que se corrige a partir de seus próprios princípios de regulação


INTERNA
HISTÓRIA Verdade formada em diversos lugares nas sociedades por meio de um certo número
EXTERNA de regras de jogo, a partir das quais se vê nascer formas de subjetividade

Consistem, para Foucault (2002, p. 11), na “maneira pela qual, entre os homens, se
PRÁTICAS arbitram os danos e as responsabilidade, o modo pelo qual, na história do Ocidente,
JUDICIÁRIAS de concebeu e se definiu a maneira como os homens podiam ser julgados em função
dos erros que haviam cometido, a maneira como se impôs a determinados indivíduos
a reparação de algumas de suas ações e a punição de outras”.

Sobre as reflexões metodológicas, Foucault afirma ser possível citar apenas um nome: Nietzsche. Em
Nietzsche, realiza-se a análise histórica da formação do sujeito e de um certo tipo de saber sem admitir a
preexistência de um sujeito de conhecimento. É citado o seguinte trecho, datado de 1873: “Em algum ponto
perdido deste universo, uma vez, um astro sobre o qual animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi
o instante da maior mentira e da suprema arrogância da história universal” (NIETZSCHE op cit FOUCAULT,
p. 13). Em 1873, predominava a ideia kantiana de que espaço e tempo podem preexistir ao conhecimento,
assim a ideia de que espaço e tempo não são formas de conhecimento, mas espécies sobre as quais o
conhecimento vem se fixar são inadmissíveis nessa época, o que mostra a insolência de Nietzsche.
É preciso se ater a utilização do termo invenção, que Nietzsche opõe a origem, assim, ao utilizar o termo
invenção (erfindung) é para não dizer origem (ursprung). As provas disso são diversas, mas Foucault destaca
algumas:

RELIGIÃO Afirmar que a religião tem origem em um sentimento metafísico significa dizer que a religião
já estava pronta. A religião não tem origem (ursprung), ela foi inventada (erfindung). Em
algum momento houve algum acontecimento que a fez parecer, logo foi fabricada.
POESIA Há quem procure sua origem, quando na verdade há somente uma invenção da poesia.
IDEAL Não tem origem, mas foi inventado, fabricado, produzido por uma série de mecanismos.

Nesse contexto, a invenção é tanto uma ruptura como um pequeno começo. A poesia, a religião e o ideal
foram inventados por obscuras relações de poder. O conhecimento também foi inventado, logo não tem
origem, não está inscrito na natureza humana. Para Nietzsche, o conhecimento é apenas o resultado do jogo,
do enfrentamento entre instintos, os quais por se chocarem chegam ao término de suas batalhas a um
compromisso em que algo se produz. Esse algo é o conhecimento.
Nesse sentido, o conhecimento não é instintivo, é contra-instintivo, assim como não é natural, mas
contra-natural. Esse é o primeiro sentido que pode ser dado a ideia de que o conhecimento é uma invenção e
não tem origem. Outro sentido seria o de que o conhecimento nem mesmo é aparentado na natureza humana,
não há nenhuma semelhança entre o conhecimento e as coisas que seria necessário conhecer. Ou seja, entre
conhecimento e mundo a conhecer há tanta diferença quanto entre conhecimento e natureza humana.
Assim, entre a natureza humana e o mundo há algo que se chama conhecimento, não havendo
semelhança entre ambos. O mundo não procura imitar o homem, ele ignora toda lei. É contra um mundo sem
ordem que o conhecimento tem de lutar. Não é natural a natureza ser conhecida. Assim, entre instinto e
conhecimento não se encontra continuidade, mas relação de luta, de dominação. Afirma Foucault (2002, p.
18) que “o conhecimento só pode ser uma violação das coisas a conhecer e não percepção, reconhecimento,
identificação delas ou com elas”.
Segundo Foucault, na análise de Nietzsche há uma dupla ruptura com a tradição ocidental. A primeira
é a ruptura entre o conhecimento e as coisas, pois na filosofia ocidental o que as unia era a ideia de Deus.
Começa, portanto, com uma análise como a de Nietzsche a ruptura da teoria do conhecimento com a teologia.
A segunda ruptura é entre o sujeito em sua unidade e soberania, pois se entre o conhecimento e os instintos há
somente ruptura, rompe-se com a ideia de unidade do sujeito.

Nietzsche - Ruptura entre o conhecimento e as coisas


- Desaparecimento do sujeito em sua unidade e soberania

Foucault levanta o seguinte questionamento: O que Nietzsche quer dizer quando afirma que o
conhecimento é o resultado dos instintos, mas não é o instinto nem deriva diretamente dos instintos? Como o
instinto, sem ter nenhuma relação de natureza com o conhecimento, pode fabricar/inventar um conhecimento
que nada tem a ver com ele? Responde a essa questão a partir do texto da Gaia Ciência, no qual Nietzsche
retoma a Spinoza, o qual dizia que se quisermos compreender as coisas é necessário que nos abstenhamos de
rir delas, de deplorá-las ou detestá-las.

SPIZONA Para compreender as coisas precisamos nos abster de rir delas, deplorá-las ou detestá-las.

Nietzsche discorda desse pensamento. Defende que compreender é o resultado de um jogo, de uma
composição entre rir, deplorar e detestar. Só compreendemos porque há por trás de tudo isso o jogo e a luta
desses três instintos (rir, deplorar, detestar), que possuem em comum o fato de serem uma maneira não de se
aproximar do objeto, mas de conservá-lo à distância, de se diferenciar ou se colocar em ruptura com ele. Esses
impulsos são todos da ordem das más relações. Atrás do conhecimento, portanto, Nietzsche não coloca a
afeição, mas o ódio, o desprezo ou o temor diante de coisas que são ameaçadoras e presunçosas.
Dessa forma, se esses três impulsos chegam a produzir conhecimento não é porque se apaziguaram,
como entende Spinoza, mas porque se confrontaram.

NIETZSCHE O conhecimento é a luta entre rir, deplorar e detestar as coisas.

Diante disso, não há no conhecimento adequação ao objeto, mas relação de distância e dominação.
Não há no conhecimento algo como felicidade e amor, mas ódio e hostilidade. Não há unificação, mas sistema
precário de poder. A filosofia ocidental sempre posicionou o conhecimento pelo logocentrismo, pela
semelhança, pela adequação, pela beatitude, pela unidade. Mas todos esses temas são agora postos em questão.
Compreendendo-se porque é a Spinoza que Nietzsche se refere, pois foi o filósofo ocidental que levou mais a
sério a ideia de unidade do conhecimento.

RESUMO: A conhecimento, assim como a verdade, não é um dado. É um construído pelas práticas sociais
de determinada época.

4.2 Prática penal e formas de verdade.

As formas jurídicas e sua evolução no direito penal são o lugar de origem de um determinado número
de formas de verdade. Foucault busca mostrar como certas formas de verdade podem ser definidas a partir da
prática penal, pois, segundo ele, o que chamamos de inquérito (enquete) é uma forma bem característica da
verdade em nossas sociedades. A origem do inquérito se encontra na prática política, administrativa e
judiciária. O inquérito apareceu no meio da Idade Média como forma de pesquisa da verdade no interior da
ordem jurídica: “Foi para saber exatamente quem fez o quê, em que condições e em que momento, que o
Ocidente elaborou as complexas técnicas do inquérito que puderam, em seguida, ser utilizadas na ordem
científica e na ordem da reflexão filosófica” (cf. FOUCAULT, 2002, p. 12).
No século XIX, foram inventadas, a partir de problemas jurídicos penais, formas de análise a que
nominaram de exame (examen), não mais inquérito. Essas formas de análise deram origem a áreas do saber
como a Sociologia, Psicologia, Psicopatologia, Criminologia, Psicanálise. Isto é, para Foucault, essas formas
nasceram umbilicalmente com a formação de um certo número de controles políticos e sociais oriundos da
formação da sociedade capitalista no final do século XIX.
RESUMO: A verdade jurídica é fruto do poder político, que muda, alterando-se as formas jurídicas.
4.3 Regime da verdade e poder político.

Nietzsche afirma que o filósofo é aquele que mais facilmente se engana sobre a natureza do
conhecimento, pois pensa o conhecimento pautado na ideia de adequação, amor, unidade e pacificação. E,
como visto, conhecimento é fruto de luta, embate.
Dessa forma, se quisermos realmente conhecer o conhecimento devemos nos aproximar não dos
filósofos, mas dos políticos, devemos compreender quais são as relações de poder. É somente nas relações de
luta e de poder que compreendemos em que consiste o conhecimento.
Foucault, nesse ponto, faz a seguinte objeção a uma possível crítica, poderiam dizer: “tudo isso é muito
bonito, mas não está em Nietzsche; foi seu delírio, sua obsessão de encontrar em toda parte relações de poder,
em introduzir essa dimensão do político até na história do conhecimento ou na história da verdade, que lhe
fez acreditar que Nietzsche dizia isto”.
A essa objeção responde que escolheu o texto de Nietzsche não para mostrar que era essa concepção
nietzschiana do conhecimento, mas para mostrar que existe em Nietzsche um certo número de elementos que
põem a disposição um modelo para análise histórica do que chamaria de política da verdade. Há, nesse ponto,
que aproximá-lo de Kant para verificar todas as diferenças, pois a crítica kantiana colocava em questão a
possibilidade de um conhecimento do em-si, um conhecimento sobre uma verdade. No entanto, para Nietzsche
não há ser em-si, logo não pode haver conhecimento em-si. O conhecimento é resultado histórico e pontual
de condições que não são da ordem do conhecimento. O conhecimento é um efeito ou um acontecimento que
pode ser colocado sob o signo do conhecer.
Nietzsche, ao dizer que o conhecimento é sempre uma perspectiva, não quer dizer que seria uma
mistura de kantismo e empirismo, que se encontraria limitado no homem por um número de condições. Ele
quer designar o fato de que só há conhecimento sob a forma de um certo número de atos diferentes e múltiplos
entre si, atos pelos quais o ser humano se apodera violentamente de um certo número de coisas, lhes impõem
relações de força.

O conhecimento é sempre uma relação estratégica em que o homem se encontra situado. O


FOUCAULT caráter perspectivo do conhecimento não deriva da natureza humana, mas do caráter
polêmico e estratégico do conhecimento

É em razão disso tudo que em Nietzsche se encontra a ideia de que o conhecimento é simultaneamente
generalizante e particular, pois o conhecimento esquematiza, ignora as diferenças, assimila as coisas em si, e
isto sem nenhum fundamento em verdade. Afirma que é sempre algo que visa maldosamente e agressivamente
indivíduos, coisas e situações.
Assim, para Foucault, é em Nietzsche que podemos restituir um modelo que permite abordar o
problema da formação de um certo número de domínios de saber a partir de relações de força e de relações
políticas na sociedade.

4.4 O inquérito nas práticas judiciárias da Grécia Antiga.

O primeiro testemunho existente sobre a pesquisa da verdade no procedimento judiciário grego


remonta a Ilíada, de Homero. A Ilíada se trata de uma história da contestação entre Antíloco e Menelau durante
os jogos que se realizaram na ocasião da morte de Pátroclo. Entre esses jogos houve uma corrida de carros, na
qual havia um responsável por sua regularidade. A corrida inicia e Antíloco chega primeiro, ao que Menelau
contesta dizendo ao juiz que houve uma irregularidade. Curiosamente, não se remontam ao árbitro do jogo,
que seria uma possível testemunha, mas remontam ao duelo, no qual Menelau lança um desafio a Antíloco, o
qual renuncia à prova, reconhecendo assim que cometeu a irregularidade.
Tem-se, portanto, uma forma peculiar de produzir a verdade jurídica, que não passa pela testemunha,
mas por uma espécie de jogo, de prova, de desafio lançado ao outro adversário. No caso, se houvesse aceito o
desafio, a responsabilidade do que iria acontecer, a descoberta final da verdade, seria transposta aos deuses. E
Zeus, punindo o falso juramento, se fosse o caso, teria com seu raio manifestado a verdade. Essa é a arcaica
prática da prova da verdade, em que está é estabelecida por um jogo de prova. A prova é característica da
sociedade grega arcaica, que será reencontrada na Alta Idade Média.

PRIMEIRO TIPO DE Um procedimento sem juiz, sentença, verdade, inquérito nem testemunho
REGULAMENTO para saber quem disse a verdade. Confia-se à luta, ao desafio, ao risco que
JUDICIÁRIO cada um vai correr o encargo de decidir não quem disse a verdade, mas
quem tem razão.

Quando Édipo e toda a cidade de Tebas buscam a verdade não é este modelo que utilizam, como
veremos no próximo tópico é um segundo tipo de regulamento judiciário.

4.5 A tragédia de Édipo e o surgimento do inquérito na Antiguidade.

A tragédia de Édipo se trata de uma história em que pessoas – um soberano e um povo – ignorando
uma certa verdade, conseguem, por uma série de técnicas, descobrir uma verdade que coloca em questão a
própria soberania do soberano. É uma história, portanto, de uma pesquisa da verdade que obedece às práticas
judiciárias gregas. Por isso, o primeiro problema que surge é o de estabelecer o que era na Grécia arcaica a
pesquisa judiciária da verdade, que estudamos no item anterior.
Vimos que se tratava de um procedimento de pesquisa da verdade que obedecia a prática de
estabelecimento da verdade pela prova. Mas toda a tragédia de Édipo, embora siga alguns aspectos desse
procedimento, fundamenta-se em um mecanismo inteiramente diferente. Esse mecanismo obedece
inicialmente a uma lei que Foucault chama de lei das metades e prossegue para um novo personagem, que é a
testemunha. A testemunha por meio unicamente do jogo da verdade que ela viu e enuncia pode, sozinha,
contestar o rei.

LEI DAS É por metades que se ajustam e se encaixam que a descoberta da verdade procede em
METADES Édipo. Esta é a técnica jurídica, política e religiosa que os gregos chamam de o símbolo.

Procedimento de pesquisa da verdade que obedece exatamente às práticas judiciárias


gregas da época e se divide em três partes, três jogos de metades, que revelam o ciclo
SEGUNDO TIPO das relações de poder. O primeiro jogo de metades que se ajustam é o do rei Apolo e
DE do divino adivinho Tirésias – o nível da profecia ou dos deuses. Em seguida, a
REGULAMENTO segunda série de metades que se ajustam é formada por Édipo e Jocasta. Seus dois
JUDICIÁRIO testemunhos se encontram no meio da peça. É o nível dos reis, dos soberanos.
Finalmente, a última dupla de testemunhos que intervém, a última metade que vem
completar a história não é constituída nem pelos deuses nem pelos reis, mas pelos
servidores e escravos. O mais humilde escravo de Políbio e principalmente o mais
escondido dos pastores da floresta do Citerão vão enunciar a verdade última e trazer
o último testemunho

Percebe-se, pelo quadro acima, que a enunciação da verdade passa dos deuses aos escravos, assim a
forma na qual a verdade se enuncia é alterada. Os deuses e o adivinho falam a verdade em forma de prescrição
e profecia; uma espécie de olhar mágico-religioso. Já os escravos podem testemunhar não em razão desse
grande olhar místico, mas pelo olhar de pessoas que viram e se lembram de ter visto com seus olhos humanos.
É o olhar do testemunho. E é a este olhar que Homero não fazia referência ao falar do conflito entre Antíloco
e Menelau.
É dessa forma que aparecerá em Édipo o modelo inquisitorial como um modelo de buscar a verdade
após o fato. Trata-se de olhar a cena e tentar buscar o que aconteceu. Em Édipo-rei teremos uma história do
saber e o ponto de emergência do inquérito. A peça desloca a enunciação da verdade do discurso profético e
prescritivo ao discurso de ordem retrospectiva, de testemunho.
Dessa forma, o ponto central é a queda do poder de Édipo: o desconhecimento de certas verdades
permitiu que Édipo se tornasse rei, mas a busca pela verdade trouxe a perda da soberania. Diante disso, o
ocidente acaba sendo influenciado pelo mito de que a verdade nunca pertence ao poder político, que este é
cego, ou como Platão defende mais tarde, que há uma antinomia entre o poder e o saber. Nietzsche procura
demolir este mito mostrando que por trás de todo saber e conhecimento, o que está em jogo é uma luta de
poder. Assim, o poder político não está ausente do saber, mas é tramado com o saber.
Em Édipo está caracterizado o personagem do tirano. O tirano grego não era aquele que simplesmente
tomava o poder, mas aquele que também tinha certo tipo de saber. Este é o caso de Édipo, que, por seu saber,
conseguiu resolver o enigma da esfinge. O saber de Édipo é o saber autocrático do tirano que, por si só, pode
e é capaz de governar a cidade. Para Foucault, Édipo representa o que chama de saber-e-poder ou poder-e-
saber.

ÉDIPO-REI: Esta dramatização da história do direito grego apresenta o resumo de uma das grandes
conquistas da democracia ateniense, que é história do direito de testemunhar, por meio do qual o povo se
apoderou do direito de julgar, de dizer a verdade, de opor a verdade aos seus próprios senhores e julgar
aqueles que os governam.

#OLHAOGANCHO: Kelsen quer o Direito como ciência, não como influenciado pelo poder, o que para
Foucault é impossível, porque o poder político é tramado pelo poder.

4.6 O sistema do inquérito e a descoberta judiciária da verdade.

A dramatização da história do direito grego presente em Édipo-rei apresenta o resumo de uma das
grandes conquistas da democracia ateniense, que é história do direito de testemunhar. Esse direito irá gerar
uma séria de formas culturais características da sociedade grega, que são:

1 – Elaboração de formas racionais da prova e da demonstração: como produzir a verdade, em que


condições, que formas aplicar. São elas, a Filosofia, os sistemas racionais e os sistemas científicos.
2 – Arte de persuadir: arte de convencer as pessoas da verdade que se diz. Tem-se aqui a retórica grega.
3 – Desenvolvimento de um novo tipo de conhecimento: conhecimento por testemunho, por lembrança,
por inquérito.

Dessa forma, houve na Grécia, por meio de uma série de lutas e contestações políticas, a elaboração
de uma determinada forma de descoberta judiciária da verdade, que constitui o modelo a partir do qual uma
série de outros saberes – filosóficos, retóricos e empíricos – puderam se desenvolver e caracterizar o
pensamento grego. A história do nascimento do inquérito permaneceu esquecida por um período, tendo sido
retomada, posteriormente, na Idade Média. No próximo ponto, estudaremos a forma jurídica que prevaleceu
durante esse período de esquecimento do inquérito.
4.7 O antigo Direito Germânico e o sistema de prova.

O Direito Germânico regulamentava os litígios nas sociedades germânicas no momento em que


entraram em conflito com o Império Romano. Nesse ponto, precisamos compreender as características e o
sistema de prova nesse Direito, que era muito próximo, em alguns pontos, do Direito grego arcaico. Era um
direito no qual o sistema do inquérito não existia, pois, os litígios entre os indivíduos eram regulamentados
pelo jogo da prova.

DIREITO Os conflitos eram regulamentados pelo jogo da prova. Não havia o sistema do
GERMÂNICO inquérito.

No Direito Germânico não havia ação pública, ou seja, não havia alguém encarregado de fazer
acusações contra os indivíduos. A ação penal era sempre caracterizada por uma espécie de duelo entre
indivíduos, famílias ou grupos, em que não havia intervenção de nenhum representante da autoridade. Só
havia dois personagens: aquele que se defende e aquele que acusa. Foucault destaca apenas dois casos em que
havia uma espécie de ação pública: a traição e a homossexualidade. Nesses dois casos, a comunidade
intervinha considerando-se lesada e exigia, coletivamente, reparação a um indivíduo.
Para que houvesse ação penal existiam três condições:

1° Existência de dois personagens.


2° Uma vez iniciada a ação penal, a liquidação judiciária deveria ser uma espécie de continuação da luta
entre os indivíduos. ATENÇÃO: Não se opõe aqui direito a justiça. O direito é uma maneira
regulamentada de fazer a guerra. É, portanto, a forma ritual da guerra. Entrar no domínio do direito
significa matar o assassino, mas matá-lo segundo certas regras e formas.
3° É possível chegar a um acordo, ou seja, interromper a hostilidade regulamentada. O Direito Germânico
oferece sempre a possibilidade de uma transação. Pode-se interromper a vingança com um pacto, caso
em que os adversários recorrem a um árbitro para que seja estabelecida uma soma em dinheiro que
constitui o resgate.

Percebe-se que o sistema que regulamentava os conflitos e litígios na sociedade germânica era
governado pela luta e pela transação. É, portanto, uma prova de força que pode terminar por uma transação
econômica. Trata-se de um procedimento que não permite a intervenção de um terceiro que procure dizer a
verdade. Foi desta forma que o Direito Germânico se constituiu antes da invasão do Império Romano.
4.8 O sistema das provas no Direito Feudal.

Antes da invasão do Império Romano, predominada o Direito Germânico. Todavia, após uma longa
série de peripécias, pelas quais o Direito Romano entra em cena, há o seu declínio e posterior retorno do
Direito Germânico. O Direito Romano cai por séculos no esquecimento, só reaparecendo no fim do século
XII e curso do século XIII.
Assim, o direito feudal é essencialmente de tipo germânico, não apresenta nenhum dos procedimentos
de inquérito, de estabelecimento da verdade das sociedades gregas ou do Império Romano. No direito feudal,
o litígio entre dois indivíduos era regulamentado pelo sistema da prova. Esse sistema era uma maneira de
provar não a verdade, mas a força, o peso, a importância de quem dizia.

DIREITO FEUDAL Regulamentação do litígio pelo sistema da prova.

Em primeiro lugar, havia provas sociais, que eram pautadas na importância social de um indivíduo.
Em segundo lugar, havia provas de tipo verbal, nas quais o indivíduo acusado deveria responder à acusação
com um certo número de fórmulas, sendo que ao pronunciá-las poderia fracassar ou ter sucesso. Em alguns
casos, fracassava não por ter dito uma inverdade, mas por ter pronunciado a fórmula de maneira errada, seja
por um erro gramatical ou por uma troca de palavras. A confirmação de que só se tratava de um jogo de
palavras pode ser retirado do fato que no caso de uma criança, de uma mulher ou de um padre poderia haver
a substituição por outra pessoa, a qual, mais tarde na história do direito, tornar-se-ia o advogado.

ADVOGADO Pessoa que devia pronunciar as fórmulas no lugar do acusado. Se ele se enganava ao
pronunciá-las, aquele em nome de quem falava perdia o processo.

Em terceiro lugar, havia as provas mágico-religiosas do juramento, nas quais pedia-se ao acusado que
prestasse juramento e, caso não ousasse ou hesitasse, perdia o processo. Finalmente, havia as provas corporais,
físicas, chamadas de ordálios, que consistiam em submeter a pessoa a uma espécie de jogo, de luta com seu
próprio corpo, para constatar se venceria ou fracassaria.

PROVAS: ESPÉCIES 1) Sociais; 2) De tipo verbal; 3) Mágico-religiosas; 4) Corporais (ordálios)

Todas essas provas, no fundo, tratam-se sempre de uma batalha para saber quem é o mais forte. No
sistema da prova judiciária feudal, trata-se não da pesquisa da verdade, mas de uma espécie de jogo de
estrutura binária. São características da prova judiciária feudal:
1- Estrutura binária: O indivíduo aceita ou renuncia a prova.
2 – A prova termina por uma vitória ou por um fracasso: Não existe sentença, existe simplesmente
vitória ou fracasso.
3 – A prova é de certa maneira automática: Não é necessário haver a presença de um terceiro para
distinguir os dois adversários. A autoridade só intervém como testemunha da regularidade do procedimento.
4 – A prova serve para estabelecer quem é o mais forte, que é o que tem razão: A prova não serve para
nomear/localizar aquele que diz a verdade, mas para estabelecer o mais forte. A prova judiciária é uma
maneira de ritualizar a guerra ou de transpô-la simbolicamente.

Dessa forma, a prova no direito feudal não tem uma função apofântica, de designar, manifestar, ou
fazer aparecer a verdade. A prova é um operador de direito e não um operador de verdade.
O sistema de práticas judiciárias do direito feudal desaparece no final do século XII-XIII e a segunda
metade da Idade Média assistirá à transformação destas velhas práticas e a invenção de novas formas de
justiça. O que foi inventado nessa reelaboração do Direito é algo que não concerne tanto aos conteúdos, mas
às formas e condições de possibilidade do saber. Essa modalidade de saber é o inquérito.
O inquérito apareceu pela primeira vez na Grécia e ficou encoberto depois da queda do Império
Romano durante vários séculos. O inquérito que ressurge nos séculos XII-XIII é bem diferente daquele visto
em Édipo. Será esse o tema que trataremos no próximo tópico: o segundo nascimento do inquérito na Idade
Média.

4.9 O segundo nascimento do inquérito na Idade Média.

A velha forma judiciária apresentada anteriormente desaparece devido aos traços fundamentais da
sociedade feudal europeia ocidental ser a circulação dos bens, a qual era pouco assegurada pelo comércio,
sendo assegurada através da guerra, da herança e das decisões judiciárias. Devido a isso, os detentores do
poder quiseram comandar as decisões judiciárias também a seu favor. A riqueza, portanto, é o meio pelo qual
se pode exercer tanto a violência quanto o direito de vida e de morte sobre os outros.
Há uma dupla tendência característica da sociedade feudal: a) concentração de armas em mãos dos
mais poderosos e b) as ações e os litígios judiciários eram uma maneira de fazer circular os bens. Diante disso,
compreende-se porque os mais poderosos procuravam controlar os litígios judiciários, impedindo que se
desenvolvessem espontaneamente entre os indivíduos.

ATENÇÃO: A existência de poder executivo, legislativo e judiciário é uma ideia recente que data mais ou
menos de Montesquieu. Aqui nos interessa ver como se formou algo como o poder judiciário .
Não existia na alta Idade Média o poder judiciário. Os conflitos eram resolvidos entre os indivíduos
por meio da constatação da regularidade do procedimento por um terceiro, que não influía no conteúdo do
litígio. Não havia poder judiciário autônomo, todavia, na medida em que a contestação judiciária assegurava
a circulação dos bens, o direito de ordenar e controlar essa contestação foi confiscado pelos mais ricos e
poderosos. Nesse momento, aparecem coisas totalmente novas em relação à sociedade feudal, ao Império
Carolíngio e às regras do Direito Romano:

1- Uma justiça que não é mais contestação entre indivíduos: os indivíduos deverão se submeter a um
poder exterior a eles que se impõe como poder judiciário e poder político.
2 – Aparece um personagem totalmente novo: o procurador: o procurador vai dublar a vítima, vai estar
por trás daquele que deveria dar a queixa. O soberano vem substituir a vítima.
3 – Uma noção absolutamente nova aparece: a infração: A velha noção de dano será substituída pela de
infração. A infração não é um dano cometido por um indivíduo contra outro; é uma ofensa ou lesão de um
indivíduo à ordem, ao Estado, à sociedade, à soberania e ao soberano. A infração é uma das grandes
invenções do pensamento medieval.
4 – O Estado, o soberano, não é somente a parte lesada, mas a que exige reparação: Exige-se a
reparação não só do dano feito a outro indivíduo, mas da reparação a ofensa que cometeu contra o soberano.
É assim que aparece, com o mecanismo das multas, o grande mecanismo das confiscações, que são um dos
grandes meios de enriquecimento do Estado.

É necessário explicar agora o estabelecimento da sentença, pois não será em igualdade que o acusado
e o procurador irão se defrontar. Aqui não se usa mais o mecanismo da luta, o modelo belicoso não pode ser
mais aplicado. Questiona-se: Que modelo, então, será adotado? Havia dois modelos para resolver esse
problema. Primeiro, o modelo intrajurídico e, segundo, o modelo extrajudiciário.
No modelo intrajurídico, presente no Direito Feudal e no Direito Germânico antigo, havia um caso em
que a coletividade poderia intervir, que era o flagrante delito. Todavia, esse modelo não podia ser utilizado
quando, o que é mais frequente, não se surpreende o indivíduo no momento da prática do crime. A questão
que surge seria como generalizar o modelo do flagrante delito e utilizá-lo no sistema do Direito que estava
nascendo, inteiramente comandado pela soberania política e pelos representantes do soberano político.
Preferiu-se utilizar, devido a isso, o modelo extrajudiciário, o qual possui uma existência dupla. Trata-
se do modelo do inquérito que tinha existido na época do Império Carolíngio. Nesse modelo, o representante
do poder chamava pessoas consideradas conhecedoras dos costumes, do Direito os dos títulos de propriedade
e as reunia, fazendo com que jurassem dizer a verdade. Em seguida, deixadas a sós, estas pessoas deliberavam
e, ao final, pedia-se a solução do problema. Este era um método de gestão administrativa. Esse procedimento
de inquérito administrativo possui algumas características importantes:

O poder político é o personagem essencial.


INQUÉRITO O poder se exerce, primeiramente, fazendo perguntar. Não sabe a verdade e
ADMINISTRATIVO procura sabê-la.
O poder, para saber a verdade, dirige-se aos notáveis.
Ao contrário do que se vê em Édipo-Rei, o poder consulta os notáveis sem
força-los a dizer a verdade. Pede-se que se reúnam livremente e que deem uma
opinião coletiva. Deixa-se que a coletividade diga o que considera verdade.

Utilizou-se parte desse inquérito administrativo, mas somado a outro aspecto, razão pela qual o
inquérito teve uma dupla origem: a) origem administrativa: ligada ao surgimento do Estado na época
carolíngia e b) origem religiosa/eclesiástica: mais constantemente presente durante a Idade Média. É este
procedimento de inquérito que o procurador do rei – a justiça monárquica nascente – utilizou para preencher
a função de flagrante delito comentada anteriormente. O problema era saber como generalizar o flagrante
delito a crimes que não eram do campo da atualidade. Assim, o inquérito será o substituto do flagrante delito.
Nesse sentido, vale a pena citar o seguinte trecho:

Se, com efeito, se consegue reunir pessoas que podem, sob juramento, garantir que
viram, que sabem, que estão a par; se é possível estabelecer por meio delas que algo
aconteceu realmente, ter-se-á indiretamente, através do inquérito, por intermédio das
pessoas que sabem, o equivalente ao flagrante delito. E se poderá tratar de gestos, atos,
delitos, crimes que não estão mais no campo da atualidade, como se fossem
apreendidos em flagrante delito. Tem-se aí uma nova maneira de prorrogar a
atualidade, de transferi-la de uma época para outra e de oferece-la ao olhar, ao saber,
como se ela ainda estivesse presente. Esta inserção do procedimento do inquérito
reatualizando, tornando presente, sensível, imediato, verdadeiro, o que aconteceu,
como se o estivéssemos presenciando, constitui uma descoberta capita (FOUCAULT,
p. 72).

Pode-se tirar dessa análise as seguintes conclusões:

1 - Costuma-se opor as velhas provas do direito bárbaro ao novo procedimento racional do inquérito:
Para Foucault, o inquérito não é resultado da racionalização dos procedimentos judiciários, como se
costuma supor, mas é fruto de toda uma transformação política que tornou possível e necessária a utilização
desse tipo de procedimento. O inquérito na Europa Medieval é um processo de governo.
2 - O inquérito deriva de um certo tipo de relações de poder, de uma maneira de exercer o poder:
Introduz-se no Direito a partir da Igreja, sendo impregnado de categorias religiosas. O dano será uma falta
moral. Lesar o soberano e cometer um pecado são duas coisas que começam a se reunir.
3 – Reorganizou inteiramente todas as práticas judiciárias da Idade Média, da época clássica e até da
época moderna: O inquérito que aparece no século XII em consequência da transformação nas estruturas
políticas e nas relações de poder reorganizou inteiramente todas as práticas judiciárias da Idade Média, da
época clássica e até da época moderna.

O inquérito judiciário se difundiu em muitos outros domínios de práticas e de saber. Foi a partir dos
inquéritos judiciários conduzidos pelos procuradores do rei que se difundiu uma série de procedimentos de
inquérito e que os agentes reais conseguiram aumentar o poder real. A partir do inquérito que nasceu uma
forma regular de administração dos estados e nasceram ciências como a Economia, Política, a Estatística, etc.
Essas técnicas de inquérito se difundiram para domínios não diretamente ligados aos domínios de exercício
de poder: domínio do saber ou do conhecimento.
Diferentemente do inquérito, a prova tende a desaparecer. Só encontraremos seus resquícios na forma
da tortura, mas mesclada com a preocupação de obter uma confissão, prova de verificação. Assim, a prova
tende a desaparecer na prática judiciária e nos domínios de saber. Foucault indica dois exemplos: a alquimia
e a disputa (disputatio), que são duas formas de provas que desaparecem, demonstrando o triunfo do inquérito
sobre a prova, no fim da Idade Média.
O autor conclui que o inquérito não é absolutamente um conteúdo, mas uma forma de saber. É uma
forma política, uma forma de gestão e exercício do poder que, por meio da instituição judiciária, tornou-se
uma maneira, na cultura ocidental, de autentificar a verdade, de adquirir coisas que vão ser consideradas como
verdadeiras e as transmitir. É uma forma de saber-poder.

ATENÇÃO: Para Foucault, o inquérito, enquanto modelo de verdade, ultrapassa o próprio direito e se
espalha para toda ciência. O inquérito é uma forma de saber-poder.

4.10 Direito e sociedade disciplinar.


4.11 Disciplina, prisão e panoptismo.
4.12 O criminoso como inimigo social3.

3
Esses pontos serão tratados em conjunto para desenvolvimento na exata ordem em que Foucault trabalha cada um em sua
Conferência 4, estando todos relacionados.
Nesse ponto, Foucault pede para nos situarmos em fins do século XVIII e início do século XIX, que é
o período de formação da sociedade disciplinar. Sua formação pode ser caracterizada pela
reforma/reorganização do sistema judiciário e penal nos diferentes países da Europa e do mundo.
As transformações dos sistemas penais consistem, de um lado, na reelaboração teórica da lei penal,
que pode ser encontrada em Beccaria, Bentham, Brissot e em legisladores do 1° e 2° Código Penal francês da
época revolucionária. Segundo esses autores, o princípio fundamental do sistema teórico da lei penal é que
o crime/infração não deve ter mais nenhuma relação com a falta moral ou religiosa. Assim, o crime é a ruptura
com a lei civil. Para que haja infração é preciso que exista um poder político, uma lei e que essa lei tenha sido
devidamente formulada. Antes da lei existir, não pode haver infração.

FALTA Infração à lei natural, religiosa ou moral


CRIME/INFRAÇÃO Ruptura com a lei civil estabelecida no interior de uma sociedade pelo lado
PENAL legislativo do poder político.

Um segundo princípio é que uma lei penal deve apenas representar o que é útil para a sociedade.
Assim, não devem retranscrever em termos positivos a lei natural, religiosa ou moral. Segundo Foucault, “a
lei penal define como repreensível o que é nocivo à sociedade, definindo assim negativamente o que é útil”
(2002, p. 81). Um terceiro princípio se deduz dos dois anteriores: uma definição clara e simples do crime. O
crime é um dano social, não um pecado ou uma falta.
Como consequência, há uma nova definição do criminoso, como aquele que danifica, perturba a
sociedade (ponto 4.12 do edital). O criminoso é o inimigo social. É aquele que rompeu o pacto social, como
encontramos em Rousseau. Há, portanto, uma identidade entre o crime e a ruptura com o pacto social.
A ideia do criminoso como inimigo interno é uma definição nova e capital na história do crime e da
criminalidade. Questiona Foucault: Se o crime é um dano social, se o criminoso é o inimigo da sociedade,
como a lei penal deve tratar esse criminoso ou reagir a esse crime? Se o crime não possui mais ligação
com a falta, com a lei natural, divina, religiosa etc., se é visto como uma perturbação para a sociedade, então
a lei penal não pode prescrever uma vingança, a redenção de um pecado. A lei penal deve somente permitir a
reparação da perturbação causada a sociedade. Disso decorrem quatro tipos possíveis de punição:

1 – DEPORTAÇÃO: É a exclusão do espaço da legalidade daquele que rompeu o pacto social


2 – VERGONHA/ESCÂNDALO PÚBLICO: É a exposição ao público. Uma espécie de exclusão no
próprio local, é o isolamento no interior do espaço moral, psicológico, público. É a punição ao nível do
escândalo.
3 – TRABALHO FORÇADO: É a reparação do dano social.
4 – PENA DE TALIÃO: Consiste em fazer com que o dano não possa ser novamente cometido.
Todavia, diferente dos projetos apresentados, percebe-se que o sistema de penalidades adotado pelas
sociedades industriais foi inteiramente diferente do que havia se projetado, desviando-se dos princípios
teóricos de Beccaria e Bentham. O sistema de penalidades, acima exposto, não vingou: a) a deportação
desapareceu bem rapidamente; b) o trabalho forçado se tornou apenas simbólico; c) os mecanismos de
escândalo nunca chegaram a ser postos em prática e d) a pena de talião desapareceu, pois foi denunciada como
arcaica. Esses projetos são substituídos por uma pena que Beccaria havia mencionado e que Brissot tocou de
maneira marginal: a prisão.

PRISÃO: Não pertence ao projeto teórico da reforma da penalidade do século XVIII. Surge no início do
século XIX, como uma instituição de fato, sem quase justificação teórica.

Além da prisão, a legislação penal também irá sofrer uma inflexão com relação ao que estava
estabelecido na teoria. A legislação penal vai se afastar da ideia de utilidade social e passará a buscar a
adequação ao indivíduo, como exemplo temos a organização das circunstâncias atenuantes, que aparece nas
reformas da legislação penal na França e demais países europeus entre 1825 e 1850.
Além disso, a legislação penal se propõe cada vez menos a definir de modo abstrato e geral o que é
nocivo à sociedade e se direciona ao controle, a reforma psicológica e moral das atitudes e do comportamento
dos indivíduos. Toda a penalidade do século XIX passa a ser um controle não sobre o que os indivíduos
fizeram, mas sobre o que poderão fazer, sobre a virtualidade do comportamento. Com isso, aparece a grande
noção da criminologia e da penalidade desse período, que é a noção de periculosidade.

NOÇÃO DE PERICULOSIDADE: O indivíduo deve ser considerado pela sociedade ao nível de suas
virtualidades e não ao nível de seus atos.

Por fim, para assegurar o controle dos indivíduos a instituição penal não pode estar inteiramente nas
mãos de um poder autônomo, que é o poder judiciário. Chega-se assim à contestação da separação de poderes
atribuída a Montesquieu entre poder judiciário, executivo e legislativo. Para efetivo controle é preciso a
separação desses poderes. É dessa forma que em torno da instituição judiciária se desenvolve uma série de
instituições de controle, que irão enquadrar os indivíduos ao longo de sua existência, são elas as instituições
pedagógicas, como escolas, psicológicas ou psiquiátricas, como hospitais, asilo, polícia etc.

TODA ESSA REDE DE UM PODER QUE NÃO É O JUDICIÁRIO DEVE DESEMPENHAR UMA
DAS FUNÇÕES QUE A JUSTIÇA SE ATRIBUI NESTE MOMENTO: Corrigir as virtualidades dos
indivíduos.
Entra-se, assim, na idade chamada por Foucault de ortopedia moral, que se trata da forma de sociedade
chamada de disciplinar (ponto 4.10 e 4.11 do edital), a qual se contrapõe as sociedades penais até então
conhecidas. É a idade de controle social, a qual, segundo Foucault, foi prevista, de certa forma, por Bentham.

ATENÇÃO: Bentham foi quem apresentou o modelo desta sociedade da ortopedia generalizada: o
Panopticon.

O panóptico é uma forma de arquitetura formada por um edifício em forma de anel, no meio do qual
havia um pátio com uma torre no centro. O anel se dividia em pequenas celas que davam tanto para o interior
quanto para o exterior, o que permitia que o olhar do vigilante atravessasse a cela. Tudo o que o indivíduo
fizesse estaria exposto ao olhar do vigilante. Essa forma de arquitetura foi pensava para valer para escolas,
hospitais, prisões, casas de correção, hospícios, fábricas, etc.
O panóptico é a utopia de uma sociedade e de um tipo de poder que é a sociedade que atualmente
conhecemos. Este tipo de poder pode receber o nome de panoptismo, que é o que reina na sociedade
disciplinar. O panoptismo é uma forma de poder que repousa não mais sobre o inquérito, mas sobre o que
Foucault nomeia exame, conforme estudaremos no próximo ponto.

4.13 O exame como forma de saber-poder.

O inquérito era um procedimento pelo qual se procurava saber o que havia ocorrido. No panóptico não
há mais inquérito, mas vigilância, exame. Não se tratará, portanto, de reconstituir um acontecimento, mas de
algo ou alguém que se deve vigiar sem interrupção. O panoptismo é uma forma de poder que se exerce sobre
os indivíduos em forma de vigilância individual e contínua. Possui um tríplice aspecto: vigilância, controle e
correção. Trata-se de vigilância permanente sobre os indivíduos por alguém que exerce sobre eles um poder,
por meio do qual se tem a possibilidade tanto de vigiar quanto de constituir, sobre aqueles que vigia e a respeito
deles, um saber.
Esse saber terá por característica não mais determinar o que ocorreu, mas determinar se um indivíduo
se conduz ou não como se deve. Esse novo saber não se organiza mais em torno do que foi feito e de quem
fez, não se ordena em termos de existência ou não existência. Ordena-se em torno da norma, em torno daquilo
que é normal ou não, correto ou não, do que se deve ou não fazer. Esta é a base do poder, a forma de saber-
poder que irá dar lugar ao que chamamos ciência humanas: Psiquiatria, Psicologia, Sociologia etc.

4.14 Ciências do exame e sociedade capitalista.


O panoptismo se opõe à a teoria penal legalista, que tem por maior expoente Beccaria. No panoptismo
a vigilância sobre os indivíduos se exerce ao nível do que se é, não do que se faz, mas do que se pode fazer.
Deixa-se de considerar a natureza jurídica. Observa Foucault que a teoria legalista foi duplicada, em um
primeiro momento, e, depois, encoberta e obscurecida pelo panoptismo. Como justificativa desse
acontecimento apresenta dois autores: Giulius e Treilhard.
Giulius escreveu um tratado em 02 volumes intitulado Lições sobre as Prisões, no qual discorre sobre
a descoberta da arquitetura moderna, que se contrapõe a da civilização grega. Na civilização grega a
preocupação era como possibilitar que a punição fosse um espetáculo acessível ao maior número de pessoas
possível. Já na arquitetura moderna, o problema é o inverso, pois busca-se que o maior número de pessoas
seja oferecido como espetáculo a um só indivíduo encarregado de vigiá-las.

GIULIUS: Estava se referindo ao problema de uma arquitetura não mais do espetáculo, como a grega, mas
de uma arquitetura da vigilância.

Além de Giulius, Treilhard também observou esse fenômeno da inversão do espetáculo em vigilância
ou do nascimento de uma sociedade do panoptismo. Escreveu que o procurador não deve ter por função apenas
perseguir os indivíduos, mas, principalmente, vigiá-los antes mesmo que a infração fosse cometida.
Assim, questiona-se: Em que consistia e, sobretudo, para que servia o panoptismo? Foucault
afirma que o modelo de fábrica-prisões foi a realização do sonho de patrão ou do desejo capitalista. Foi uma
utopia realmente realizada e não somente na indústria como em uma série de instituições que surgiram na
época. Todavia, com o tempo, não se mostrou viável nem governável, pois a carga econômica dessas
instituições se revelou muito pesada. O modelo de fábrica-prisão desapareceu, mas as funções que
desempenharam foram conservadas. Assim, asseguraram-se técnicas laterais ou marginais para assegurar, no
mundo industrial, as funções de internamento, de reclusão, de fixação da classe operária. Foram tomadas
medidas como a criação de cidades operárias, de caixas econômicas, de caixas de assistência, etc.
Dessa forma, a pergunta que precisaria ser respondida, seria a seguinte: A que é que visava esta
instituição da reclusão em suas duas formas: a forma compacta, encontrada no início do século XIX, e
em seguida a reclusão em sua forma mais branda, encontrada em instituições como a cidade operária,
caixa econômica e de assistência, etc.? Segundo Foucault, à primeira vista, está reclusão moderna do século
XIX aparece como herança da técnica francesa do internamento e do procedimento de controle inglês.
Assim, poder-se-ia e dizer que a reclusão do século XIX é uma combinação de controle moral e social,
nascido na Inglaterra, com a instituição propriamente francesa e estatal da reclusão em um local. Entretanto,
o fenômeno do século XIX se apresenta como uma novidade em relação a esses modelos de controle e
reclusão, pois, na época atual, todas essas instituições – fábrica, escola, hospital psiquiátrico, hospital, prisão
– tem por finalidade não excluir, mas fixar o indivíduo. Fixá-los ao aparelho de produção, de transmissão do
saber, de correção e de normalização dos indivíduos. São formas de controle que se encarregam da dimensão
temporal da vida dos indivíduos.

RECLUSÃO DO Exclui os indivíduos do círculo social


SÉCULO XVIII
RECLUSÃO DO Liga os indivíduos aos aparelhos de produção, formação, reformação ou
SÉXULO XIX correção de produtores. Trata-se, portanto, de uma inclusão por exclusão

Foucault passa a nomear a reclusão do século XIX de sequestro. Assim, opõe a reclusão do século
XVIII ao sequestro do século XIX, pois nesse período aparece algo novo, que é uma série de instituições –
escolas, fábricas, etc. – que não é possível definir se fazem ou não parte do aparelho do Estado. Mais do que
instituições estatais ou não estatais o que existe é uma rede institucional de sequestro, que é intraestatal. Assim,
para que servem essa rede e essas instituições? Estas instituições pedagógicas, médicas, penais ou
industriais tem o controle do tempo dos indivíduos. São instituições que se encarregam da dimensão temporal
da vida. Assim, são necessárias duas coisas para que se forme a sociedade industrial: a) tempo dos homens
para ser colocado no mercado e b) oferecer esse tempo aos que o querem comprar em troca de salário.

ATENÇÃO: Na sociedade feudal e nas sociedades primitivas o controle do indivíduo se fazia pelo fato de
pertencerem a um determinado lugar. Já na sociedade moderna que se forma no século XIX à pertinência
espacial é praticamente irrelevante, o mais importante é que os homens coloquem à disposição o seu tempo.

No decorrer do século XIX, uma série de medidas serão adotadas visando suprimir as festas e o tempo
de descanso. Surge a necessidade de controlar as economias do operário. Decorre daqui a criação, na década
de 1820 e sobretudo a partir da década de 40 e 50, de caixas econômicas, caixa de assistências, etc., que
permitem drenar as economias dos operários e controlar a maneira como serão utilizados. Afirma Foucault
que, desta forma, não somente o tempo do dia de trabalho do homem será controlado, mas sua vida inteira. É
assim que, sob a forma destas instituições aparentemente de proteção e segurança, que é estabelecido um
mecanismo pelo qual o tempo inteiro da existência humana é posto à disposição de um mercado de trabalho e
das exigências do trabalho. A primeira função, portanto, destas instituições de sequestro é a extração da
totalidade do tempo.

#OLHAOGANCHO: REFORMA DA PREVIDÊNCIA E TEMPO DE VIDA DO TRABALHADOR:


Procure analisar essa perspectiva de Foucault com base das atuais propostas de reforma da previdência.
A segunda função é o controle dos corpos. Essas instituições possuem a curiosa característica de
controlar até mesmo a moralidade dos trabalhadores. Trata-se não somente da apropriação do tempo, mas de
controlar, de formar, um determinado sistema, o corpo do indivíduo.
A terceira função é a criação de um novo tipo de poder, que tem por características ser um poder
econômico, político, judiciário e epistemológico. Poder econômico porque oferece um salário. Poder político
porque as pessoas que dirigem estas instituições se delegam o direito de dar ordens. Poder judiciário, pois tem
o direito de punir e recompensar. Além disso, é um poder epistemológico, pois constitui um saber técnico – o
trabalho do operário é assumido em um certo saber da produtividade – e constitui um saber de observação –
um saber que nasce da observação dos indivíduos, da sua classificação e análise.

FUNÇÕES DAS INSTITUIÇÕES DE SEQUESTRO 1- Controle do tempo


2 – Controle dos corpos
3 – Criação de um novo tipo de poder

Para terminar, Foucault apresenta três conclusões. A primeira é a conclusão de que a partir de toda
essa análise ele entende explicar o aparecimento da prisão. Segundo ele, a prisão se impôs porque era a forma
concentrada de todas as instituições de sequestro criadas no século XIX. A prisão, na sociedade do panóptico,
exerce uma função muito mais simbólica do que econômica, penal ou corretiva. Ela é a imagem da sociedade
transformada em ameaçada. Ela emite o discurso de ser fruto de um consenso social e o discurso de que a
melhor prova de que não estamos na prisão é o fato de ela existir como instituição separada das outras.
Dessa forma, ao mesmo tempo que a prisão se inocenta de ser prisão, por se assemelhar com todo o
resto, ela inocenta todas as outras instituições de serem prisões. E é essa ambiguidade da prisão que garante
seu sucesso.
A segunda conclusão é a de que a afirmação de que a essência concreta do homem é o trabalho é algo
incorreto, porque para que os homens sejam colocados no trabalho é preciso uma operação de um poder
político para que a essência do homem possa aparecer como sendo o trabalho. Foucault não concorda com a
análise tradicionalmente marxista de que o sistema capitalista que transforma este trabalho em lucro, em
sobrelucro ou mais-valia. De fato, o sistema capitalista penetra muito mais profundamente em nossa
existência, mas para haver sobrelucro é preciso haver sub-poder. A ligação do homem ao trabalho é política.

ATENÇÃO: Esse sub-poder a que se refere Foucault não se trata de um aparelho de Estado, nem da classe
no poder, mas do conjunto de pequenos poderes, de pequenas instituições situadas em um nível mais baixo.

A última conclusão de Foucault é a de que este sub-poder provocou o nascimento de uma série de
saberes, que se multiplicaram nestas instituições de sub-poder fazendo surgir as chamadas ciências do homem
e o homem como objeto da ciência. Estes saberes e estes poderes se encontram fortemente enraizados nas
relações de produção e não só na existência do homem, pois para que existam as relações de produção que
caracterizam as sociedades capitalistas é preciso haver estas relações de poder e estas formas de
funcionamento de saber.

ATENÇÃO: Poder e saber se encontram firmemente enraizados. Eles não se superpõem às relações de
produção, mas se encontrar enraizados naquilo que as constitui.

É dessa forma que o inquérito e o exame são formas de saber-poder que funcionam ao nível da
apropriação de bens na sociedade feudal e ao nível da produção e da constituição do sobrelucro capitalista.

SISTEMA CAPITALISTA E TRABALHO: O sistema capitalista penetra profundamente em nossa


existência, com um conjunto de técnicas políticas e de poder pelo qual o homem encontra-se ligado ao
trabalho. Dessa forma, a ligação do homem ao trabalho é política, sendo operada pelo poder.

Espero que tenham gostado do material e


se encantado com o que Foucault expõe nesse
livro! Desejo um ótimo estudo e muito foco nessa
reta final para DPE-SP! Até a próxima, pessoal!