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Domingo 3

setembro de 2017 www.atribuna.com.br E-1

RENOVAÇÃOURBANA
FALE COM A GENTE! A Região em Pauta
Texto e edição Gustavo T. de Miranda
e Marcelo Eduardo dos Santos. Este caderno é resultado do evento promovido por A
E-mail cidades@atribuna.com.br Tribuna. Ainda serão debatidos temas como Habitação,
Telefone 2102-7157 Saúde, Emprego e Empreendedorismo.

LUIGI BONGIOVANNI

Ocupar e proteger
Degradada, região central de Santos perde moradores, moradias e negócios.
Prefeitura busca uma solução em parceria com empresários.
E-2 Renovação Urbana A TRIBUNA
www.atribuna.com.br
Domingo 3
setembro de 2017

ROGÉRIO SOARES

A diáspora
santista
Estudo explica por que o Centro foi
deixando de ser a residência dos santistas

DAR VALOR
DA REDAÇÃO
No dicionário, o termo diáspo-
ra indica a “dispersão de um
povo, de uma comunidade ou “A gente deve pensar na
de alguns dos seus elementos”. cidade como um teatro. O
Em história, fala-se dela ao des- lugar mais caro do teatro é em
crever a dispersão do povo ju- frente ao palco. Todo mundo
deu, por exemplo. Guardadas quer ficar mais perto possível
as devidas proporções, Santos do palco. Pode ter alguém que
teve a sua diáspora e um dos prefira ficar perto da saída de
principais palcos dela foi a área emergência, próximo do
central, compreendida por bair- banheiro. Esses atributos
ros como Valongo, Chinês, o viram valor e quem consegue
próprio Centro, Vila Nova, Pa- acessar? Quem tem dinheiro,
quetá e Vila Mathias. quem chega antes, quem pode
Para se ter uma ideia, em comprar ingresso do cambista
1913 essa região da cidade con- ou quem tem algum subsídio.
tava com cerca de 68 mil habi- A gente precisa equilibrar isso.
tantes. Paulatinamente, os mo- É sempre um desafio”
radoresforam abandonando es-
sa localidade, partindo na dire- Camila Maleronka
ção da Zona Leste até a ocupa- arquiteta e urbanista
ção da orla propriamente dita.
Em 1950, o número de resi- FERNANDA LUZ

dentes no Centro caiu quase


pela metade, para 44 mil. Em
números mais recentes, o Cen-
so Demográfico do Instituto
Brasileiro de Geografia e Esta-
tística de 2010 contabilizava
que a população da área central
equivalia a 10% da população
santista de 60 anos atrás.
Os númerosforam apresenta-
dos por José Marques Carriço, Uma série de eventos tem contribuído para o esvaziamento dos bairros e fechamento de estabelecimentos comerciais na região central
professor de Arquitetura e Ur-
banismo da Universidade Cató-
lica de Santos (UniSantos), du- tos foi contribuindo para as so, a população começou a en- central. Na outra ponta, o êxo- mércio varejista diminuiu
rante o painel Radiografia da pessoas saírem (do Centro). O frentar os impactos da amplia- do ajudou a aumentar a quanti- 26,5% e o atacadista 35,0%
Ocupação do Centro de Santos loteamento e a drenagem pro- ção do Porto. dade de cortiços em 258%. na região. “Houve uma gene-
Através dos Anos, no evento A posta com o Plano de Sanea- As residências foram desapa- ralizada perda de dinamismo
Região em Pauta, promovido todo o abandono que vivem mento de Saturnino de Brito SEM POVO, SEM CASA recendo dos eixos viários. Para econômico na área. O Paque-
por A Tribuna nesta semana. esses bairros, que já foram íco- aconteceram junto com a im- À medida em que as pessoas Carriço, isso é uma contradi- tá e a Vila Nova perderam
O estudo, feito com base em nes da força econômica da San- plantação das linhas de bonde. foram se mudando para as Zo- ção: o Centro, hoje, é onde há mais empresas”, diz Carriço.
levantamentos de técnicos da tos estrela portuária, estrela do Tudo isso contribuiu muito pa- nas Leste e Noroeste, a degra- mais transporte disponível, po- Ainda falando em econo-
Secretaria Municipal de Desen- café e da riqueza nacional. ra criar oportunidades para as dação foi tomando conta. En- rém há menos residências. mia, houve uma redução de
volvimento Urbano de Santos, “A gente vai percebendo que famílias deixarem o Centro”, tre 1985 e 2014, o número de Há mais explicações para a 68,5% no número deestabele-
indica o cenário que sintetiza desde 1873, uma série de even- argumenta Carriço. Além dis- residências caiu 36% na área deterioração do Centro: o co- cimentos industriais.

NIRLEY SENA

O Centro perdeu a função. E agora? Abandonados,


imóveis tiram
❚❚❚ O esvaziamento e a deterio-
ração das áreas centrais aconte-
do casos como o da Água Bran-
ca, o da Faria Lima, o do Cen-
financiamento, para a implan-
tação de projeto urbano”, diz. vida do Centro
cem porque essas áreas têm tro, em São Paulo, e o da Linha No caso de São Paulo, por
perdido a função. A arquiteta e Verde, em Curitiba (PR).. exemplo, a Prefeitura instituiu ❚❚❚ Há pelo menos 107 imó-
urbanista Camila Maleronka, E por que é que o Centro um potencial construtivo adi- veis em ruínas na área central
que trabalha no desenvolvi- perdeu a sua função? Em qua- cional, deixando o mercado de Santos. A informação faz
mento de projetos de se todas as cidades funciona imobiliário construir mais e co- parte do estudo feito pelo ar-
requalificação urbana na Capi- assim: antes, era um lugar on- brando para construir além do quitetoJosé Marques Carriço,
tal, defende que é preciso dar de estava todo o comércio. limite. Esse dinheiro voltou co- em parceria com técnicos da
novo uso para renovar a região. “Agora tem o shopping, a inter- mo infraestrutura urbana. SecretariadeDesenvolvimen-
“A gente tem que falar de net”, argumenta a arquiteta. Para a especialista, antes de to Urbano de Santos. Entre
novos programas, novos usos Para ela, a operação urbana instituir uma lei de operação 1985e2014,houve reduçãode
que tragam de volta ao centro consorciada deve ser encarada urbana, é preciso começar res- 45% do número de terrenos
uma função, não só como sím- como um instrumento que ser- pondendo a essas perguntas: vazios e aumento de 115% de
bolo ou patrimônio, mas com ve para definir o programa de “quaissão as funções que o Cen- imóveisdesocupados.
gente circulando”, defende a intervenções e incentivos para tro deve abrigar? Que papel ele O aumento significativo de
técnica,que trabalha no escritó- a transformação e qualificação deve ter? A cidade é um conjun- imóveis desocupados se dá
rio P3Urb e dedica-se a pesqui- de áreas degradadas da cidade. to. Se eu quero que o mercado principalmente no Paquetá.
sar o instrumento da operação “É um instrumento de PPP vá para um lugar, preciso res- Para Carriço, esse fenômeno
urbana consorciada, estudan- (parceria público-privada), de tringir outro”, defende Camila. decorre do esvaziamento ge-
ral da área, puxado pela redu-
ção do uso residencial.
“Este uso é estratégico pois
COMO A REGIÃO FICOU onde sofre redução, o ter-
ciário vinculado ao consumo
das famílias tende a desapare-
cer ou se mudar”, argumenta.

ENTENDIMENTO
Para a urbanista Camila Ma-
leronka, não tem uma receita
de bolo para chegar à
requalificaçãourbanacom su-
cesso. “Acho que falta um en-
tendimento dos dois lados. O
urbanista é quase um antago-
nista do mercado imobiliário.
Falta mais conversa entre os
dois lados. Uma cidade com-
pletamenteflexível éineficien-
te. E uma cidade cheia de re-
gras restritivas é inviável”, diz.
Para ela, é necessário estar
no equilíbrio. “Se a gente vai
fazer uma conversa com oem-
presariadodo mercado imobi-
liário, a gente vai escutar que
o regramento é ruim. As cida-
des em que a gente gosta de
passear são extremamente re-
guladas, de maneira sensata”.
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CARLOS NOGUEIRA

NOVO CENTRO
Parque Valongo

PLANO MESTRE C
A
DA MACROÁREA
4,2
MILHÕES m²
Renovação urbana B Plano de
A Novo Valongo arborização
Qualificação e ampliação
B Novo Paquetá
de áreas verdes
Novo Centro D Vista panorâmica
Parque seria construído em área onde armazéns estão degradados Exemplo feito com base
C Recuperar o programa
“Alegra Centro” no projeto vencedor

OCentro
do Concurso Inovador
Parque Valongo para o Terminal Ferry Jack
c Revitalizar o antigo cais e criar Layton e Harbour
Square Park-Toronto’s Quatro
pontos de atracação para passarelas serão
embarcações de transporte board, no Canadá construídas
público, esporte e lazer FASE 2 para ter acesso
VLT ao parque
Qualificar e criar
Novo Mercado C NOVO CENTRO E O PARQUE VALONGO Terminal
pontos de atracação
Constituição
e Paquetá
D Qualificar e diversificar de integração na para embarcações de
os usos no mercado Praça da República Senador Feijó

visto como um
Marquês de Monte Alegre Frei Gaspar transporte público,
e Museu Pelé e Museu do Café Ônibus + barca + táxi e Alfândega
esporte e lazer
Integração
Realinhar + bonde + ciclovia PIER
Armazéns
as linhas Recuperar os armazéns
A NOVO VALONGO Criação de estacionamento
Praça de
férreas do
7 8 com estabelecimento de

novo palco para


público integrado com Porto 1
usos compatíveis com o
o sistema de bonde Integração 1
2
3 4 turismo e lazer
Parque 4
Valongo Estacionamento
Conexão 2 3
público Integração entre os modais

a cidade crescer
Museu Estacionamento
Museu Pelé Hierarquização das vias e integração entre
Novembro público
do Bonde Rua XV de BONDE modais com qualificação e ampliação de

Av. Senador
Rua

to
Petrobras do Com calçadas e ciclovias
Estação

Ben

Rua da Co
ércio
Valongo Museu

São
Q1
Pelé

Rua
Rua Sen Museu do

Feijó

nstituição
. Cristia
Prefeitura quer fazer um parque em área Q2 no Oton
í
Petróleo
Santuário
Valongo
Áreas para
VLT
Hotel pedestres Bonde Ônibus
onde hoje há ruínas de armazéns do Porto Q3 Ibis
BONDE Rua João Pessoa
Vias de pedestres
Q4 EXISTENTES
DA REDAÇÃO ZonaEspecial deRenovação Ur- Vias de pedestres
A proposta para a reabilitação bana (Zeru), envolvendo qua-

to
PROPOSTAS
Áreas para

Ben
da região central de Santos, dras do Paquetá e do Valongo. Q5 Vias COMPARTILHADAS Ciclovia Pedestre Veículos
Centro
renovação urbana FASE 2

São
apresentada pela Prefeitura, de- A ideia da Prefeitura é flexibili- VLT
Estimular a moradia
NOVO MERCADO

Rua
pende do repovoamento de zar a legislação urbanística de D
diversificada, sendo Q6
áreas absolutamente degrada- maneira a deixar a área atrativa distribuídas em seis quadras Consolidar o centro
das, entre o Paquetá, que recebe para o investimento privado. com 100.000 m² Waves empresarial e hoteleiro,
impacto do Porto, e o Valongo. Por enquanto, o que o chefe como a Petrobas, o Hotel Ibis Espaço integrado Para turismo
O projeto foi exposto durante da Sedurb afirma é que a Admi- e Waves Qualificar e diversificar Criação de um estacionamento público
A Região em Pauta, pelos secre- nistração estuda os instrumen- os usos no mercado para facilitar o acesso a nova área
tário de Governo, Rogério San- tos que permitirão a concessão
tos, e pelo de Desenvolvimento de benefícios. Quando isso for
Urbano, Júlio Eduardo dos San- definido, a Prefeitura precisará B NOVO PAQUETÁ Integração
tos. Envolve uma série de inicia- enviar um projeto de lei à Câma- Ofertar vagas de estacionamento
tivas que levariam à criação de ra — a proposta só sai do papel Parque Valongo e integração com o bonde
uma operação urbana consor- com a aprovação do Legislativo.
ciada, em que o mercado imobi- Armazém 1
liário receberia incentivos para NOVO PALCO
Conexão FASE 2
VLT
investir nesses trechos. O que enche os olhos dos execu-
Em contrapartida, a Adminis- tivos municipais é a criação de
tração Municipal desenvolveria um parque que vai ocupar a Bunge Bunge
ações de requalificação. O pla- área dos armazéns 1 ao 8, com Outeirinhos
no prevê a duplicação do trecho 1.300 metros — sob domínio da BONDE Bacia do mercado
de mão-única da Avenida Con- Companhia Docas do Estado
selheiro Nébias, a construção de São Paulo (Codesp). Rua General Câ
mara Conexão
de um terminal intermodal li- Hoje, uma parte desse territó- Q3 Áreas para entre modais
Q2
gando ônibus, barcas e VLT, rio está literalmente em ruínas, Q1 renovação urbana Potencialização
criação de um plano de abrigando entulho. “O Parque Estimular a moradia das catraias para
diversificada, sendo distribuídas
arborização da área central, Valongo é a cereja do bolo. É em 12 quadras com 200.000 m²
o turismo e como
além da abertura de calçadões preciso convencer as pessoas a meio de transporte
exclusivos para pedestre e uso morarem lá, isso não rola se não Rua João Pessoa

compartilhado de vias e a cons- tiver lazer. A gente tem mar dos Q4 Q5 Q6


FASE 2
trução de um parque público. dois lados da Cidade. Aqui no VLT
Poupatempo Tribuna
JúlioEduardo dos Santos esti- Centro, tudo está de costas para Square Moinho Novo calçadão
ma um perímetro de 320 mil a linha d’água, queremos mu- Com o novo projeto haverá uma integração entre o Mercado e a estação do VLT
metrosquadrados em que pode- dar isso”, diz Glaucus Farinello, Catedral Q7 Q8 Q9
riam ser erguidos empreendi- secretário-adjunto da Sedurb.
mentos habitacionais e comer- Júlio Eduardo admite que es- Cemitério
Fórum Paquetá
ciais. “As pessoas que vão morar te é um projeto de longo prazo.
no Centro é que vão dar vida “Temos possibilidade real de Nova rota
Criação de um novo
para essa área. Vão trazer a pa- transformação. O sucesso de- Expansão Q10 Q11 Q12 acesso para veículos
daria, o açougue, a escola”, diz. pende da pactuação da socieda- Abertura e ampliação do Integração de áreas
motorizados Criação de novas áreas verdes,
O primeiro passo para essa de, com a participação do em- viário com a duplicação
da Av. Conselheiro Nébias de lazer e de integração INFOGRAFIA MONICA SOBRAL/AT
transformação é a criação, no presariado. É um projeto da ci-
Plano Diretor do Município, da dade que pode demorar anos”.

DEBATES DO A REGIÃO EM PAUTA


“Desde 1922, o Paquetá sempre
FOTOS FERNANDA LUZ
“Se a gente comparar o boom
Para dar certo, renovação depende do VLT
ficou com as atividades mais que Santos teve nos últimos 15
impactantes. Isso ajudou a criar anos, o Centro só teve 5 ❚❚❚ Todo o desenho feito pelos do todas as pontas da Cidade”,
uma noção de muito impacto lançamentos. Da Petrobras, só técnicosda Prefeitura está estru- CONEXÃO argumenta o secretário de De-

4
nesse espaço. É muito difícil uma torre saiu. Nosso projeto turado com a expansão do Veí- senvolvimento Urbano, Júlio
acreditar que o setor tem quatro pilares: culo Leve Sobre Trilhos — mais Eduardo dos Santos.
imobiliário vai construir desenvolvimento econômico, especificamente à construção Para o arquiteto e urbanista
residência nesse trecho se a mobilidade, adensamento da segunda etapa, que envolve a José Marques Carriço, profes-
gente não enfrentar a questão sustentável e a requalificação ligação entre a Encruzilhada, sor da Universidade Católica de
dos impactos” urbana propriamente dita” indo na direção do Paquetá, pas- Santos (UniSantos), a Cidade
José Marques Carriço Júlio Eduardo dos Santos sando pelo Centro e Valongo. precisa se planejar com o objeti-
arquiteto e urbanista secretário de Desenvolvimento Urbano É por isso que a Administra- é o número de vo de concentrar mais morado-
ção aposta nesse Novo Centro. estações previstas na área que res ao longo do eixo do VLT,
“É o trecho que pode realmente compreende o Novo Paquetá no para todas as classes sociais.
ter maiorviabilidade. No Paque- plano da Prefeitura de Santos. Para “Isso pode promover a mistu-
tá, a população terá quatro esta- técnicos, a presença do VLT deve ser ra de usos na área Central. Os
ções, a Conselheiro Nébias, que um dos indutores do progresso. princípios necessários são com-
cruza a cidade de mar a mar. pactar, adensar com equidade,
Ali, são 200.000 metros qua- conectar, misturar, caminhar,
“Como vamos resolver esse drados de áreas para renova- da sonha com a possibilidade pedalar, usar o transporte públi-
problema? É o grande desafio. ção”, diz Glaucus Farinello. de ter um ramal de VLT ligando co e promover mudanças para
É preciso o romper o monólogo O próprio prefeito de Santos, a Encruzilhada à Ponta da incentivar o uso de transporte
que existe, uma cisão, de um Paulo Alexandre Barbosa, tra- Praia e um prolongamento, na sustentável”, afirma.
lado o mercado imobiliário, do balha crê que a Empresa Metro- Conselheiro Nébias com a Fran- O especialista defende que o
outros os urbanistas e politana de Transportes Urba- cisco Glicério, até a praia. “Pen- projeto priorize empreendimen-
planejadores. Uns se vêem nos (EMTU) agilize a continui- sandonessa perspectiva de futu- tos com comércio e serviço no
como bem. Outros são vistos dade da expansão do VLT. “O ro, a gente tem desenhadas as nível da rua e habitação em ci-
como os maus. Não há diálogo compromisso do Estado é de etapas 3 e 4. Elas foram objeto ma. “O pedestre não tem ne-
entre esses entes” licitar essa etapa já neste ano, de convênio onde o Estado se nhum obstáculo para entrar no
Alcindo Gonçalves para iniciar a obra em 2018”. compromete a dar apoio pra comércio. É tudo de bom”, asse-
engenheiro e cientista político Além disso, a Prefeitura ain- gente fazer essa conexão, unin- gura o professor universitário.
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Construção se interessa pela área


Empresários acreditam que empreendimentos populares podem ajudar a dinamizar região; Prefeitura precisa gerar segurança e lazer
ROGÉRIO SOARES
DA REDAÇÃO
Com os terrenos caros e escas-
sos em Santos, empresários da
construção civil buscam com
lupa áreas de Santos para no-
vos investimentos. O consenso
é de que a expansão possível
para o setor imobiliário santis-
ta hoje está no Centro, Paquetá
e Valongo.
Procuradas por A Tribuna,
três entidades do setor, a Asso-
ciação dos Empresários da
Construção Civil da Baixada
Santista, o Sindicato da Indús-
tria da Construção Civil (Sin-
duscon) e o Secovi (sindicato
das empresas de compra e ven-
da de imóveis) afirmam que a
região central é viável para resi-
denciais, desde que para a bai-
xa renda.
O diretor regional do Secovi,
Carlos Meschini, diz que os pro-
jetos viáveis para o Centro de-
vemter padrão econômico (me-
nores e mais baratos) ou serem
financiados pelo Minha Casa,
Minha Vida, que contam com
subsídios para a baixa renda.
Este último está condicionado
ao caixa do Governo Federal.
O diretor regional do Sindus-
con, Osmar Quaggio Gomes,
afirma que o Centro tem a van-
tagem de contar com a infraes-
trutura pronta e dar a chance
de morar perto do emprego, no
caso, para quem trabalhar no
comércio local.
Porém, alerta ele, é preciso
oferecer serviços para os mora-
dores, com supermercados e
padarias amplos e de boa quali-
dade que fiquem abertos até A cidade convive com uma situação de conflito: a região central ainda tem terrenos para a construção, porém degradação e abandono imperam nos bairros do entorno
tarde. Hoje os estabelecimen-
tos fecham entre as 18 e as 20
horas. “Essa população vai pa- cursos para a revitalização. É praticamente não mudou. EMPREENDEDORES
ra o Centro se tiver mais segu- preciso, diz Fernandez, fazer “O Valongo atraiu empreen- Gomes afirma que Santos tem EXPECTATIVA GARAGENS
rança e lazer também”. mais se o objetivo for atrair dimentos que apostaram nu- vários pequenos construtores
O presidente da Assecob, empreendimentos imobiliá- ma revitalização que não veio”, que investem em outras cida- “No contexto atual de crise, Carlos Meschini e Osmar Quaggio
Gustavo Zagatto Fernandez, rios para o Paquetá. afirma Fernandez. des por não conseguirem ban- não há chance de algum Gomes, diretores regionais
acha imprescindível um pro- Como medida de melhoria, car terrenos valorizados. projeto sair no mercado respectivamente do Secovi e
grama de revitalização para o NOVO VALONGO ele sugere a possibilidade da Para ele, se a revitalização (do Centro), mas poderia Sinduscon, criticam eventual
Centro se tornar viável para o Fernandez cita como exemplo RuaSão Bento, uma via espaço- sair do papel, não faltarão em- acontecer algo em um ou dois restrição de oferta de garagens em
setor imobiliário. “Será preciso que deve ser evitado o caso do sa que abriga a estação de trem presários para um segmento anos. Discutindo agora a empreendimentos no Centro.
um investimento indutor para Valongo. Com a chegada da e o Museu Pelé e termina no imobiliário que hoje inexiste revitalização, será possível Esses imóveis, se viabilizados,
atrair o mercado, que hoje está sededa Petrobras, obairro rece- cais, ter faixa para pedestres. em Santos, que é o da baixa comprar terrenos para serão voltados às famílias de baixa
em um fase difícil”. beu dois grandes empreendi- “É preciso ter segurança fora renda. “O Centro tem detalhes investimentos em 2020” renda. Para Meschini e Gomes,
De acordo com ele, não basta mentos– umedifício de escritó- do horário comercial (no Va- que inviabilizam o investimen- Carlos Meschini esse público também sonha com o
a Prefeitura destinar mais re- rios e um hotel – mas seu perfil longo)”, acrescenta. to e que precisam de solução”. diretor regional do Secovi carro na garagem.

UMA QUESTÃO DE PATRIMÔNIO


A tensão entre proteção e construção
❚❚❚ Criado para estimular a vel de verticalizar até 35 me- ção. Não dá para continuar
requalificação da região cen- tros de altura. Não foram (verti- do jeito que está”.
tral de Santos, o Alegra Centro calizados) porque os lotes do Chegar a um consenso não
precisa entrar em uma nova Centro são pequenos. Aqui pre- é simples. A arquiteta e urba-
“etapa”.É oque defendem espe- cisa convencer vários proprietá- nista Camila Maleronka acre-
cialistas que participaram dos rios”, explica o especialista. dita que não tem uma receita
debates promovidos por A Re- O secretário de Desenvolvi- de bolo, mas concorda que
gião em Pauta, nessa semana. mento Urbano de Santos, Júlio falta um entendimento. “O ur-
Para o engenheiro e cientista Eduardo dos Santos, espera en- banistaé quase um antagonis-
político Alcindo Gonçalves, contrar um instrumento legal ta do mercado imobiliário.
coordenador do Instituto de para resolver essa questão na Falta mais conversa entre os
Pesquisas A Tribuna (IPAT), lei. “A gente vai ter de solucio- dois lados. Uma cidade com-
prédios sem nenhum valor his- nar isso se quiser o sucesso”. pletamente flexível é inefi-
tórico e cultural precisam ser ciente. E uma cidade cheia de
demolidos. “A gente viveu mo- MAIS RÁPIDO regras restritivas é inviável”.
mentos positivos da economia Carriço defende a criação de Enquanto nãohouver diálo-
que poderiam ter gerado resul- mecanismos de facilitação da go, situações como a do Ale-
tado para o Centro”, opina. aprovação de projetos. “Isso é gra Centro Habitação se repe-
Para José Marques Carriço, ótimo,desde quesejam garanti- tirão: zero resultado. “A lei
professor de Arquitetura e Ur- das regras básicas e que não não tem instrumento de fi-
banismo da UniversidadeCató- haja descaracterização do en- nanciamento. Não tem incen-
lica de Santos, o problema vai torno. Os órgãos de proteção tivos para proteção. A gente
além da proteção. “Há 150 imó- precisam conversar com aque- teria de ter financiamento
veis protegidos em que é possí- les que decidem sobre a habita- mesmo”, diz Carriço.

DEBATESNO AREGIÃOEM PAUTA


FOTOS FERNANDA LUZ
“As pessoas carecem de “Estamos desenvolvendo uma “O Centro é a região em que
projetos que promovam a série de iniciativas que visam a há o maior número de
qualidade de vida (nos estimular a renovação urbana empregos da Baixada
cortiços). É muito difícil pensar na cidade, especialmente Santista. Eles estão aqui. O
em medidas arquitetônicas de aquilo que a gente está nosso projeto pretende
alta tecnologia se não tiver chamando de Novo Centro. consolidar o polo de
melhoria de qualidade de vida Isso envolve a ampliação e desenvolvimento
e autoestima daquela renovação de diversas leis. A educacional e tecnológico na
população. Se eu não primeira é o Plano Diretor. região. Uma grande
enfrentar o ciclo de pobreza Também modificaremos a Lei quantidade de faculdades
dessa região, nada vai mudar de Uso e Ocupação da cidade, e está nesse eixo, que também
nessa região degradada a ideia é que a gente possa abrigará o Parque
arquitetônica e socialmente” eliminar exigências no Centro, Tecnológico, que está sendo
para estimular o comércio” construído para o futuro”
Ricardo Andalaft
coordenador do curso de Arquitetura e Paulo Alexandre Barbosa Rogério Santos
Urbanismo da Unimonte prefeito de Santos secretário de Governo
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ENTREVISTA

Fabrício De Francisco Linardi. urbanista, mestre em renovação urbana.

“Aquestãoé:qualéavontadedaCidade?”
ARQUIVO PESSOAL

DA REDAÇÃO concretizaram, como o Porto daumaestratégiademobili-


A requalificação de um espaço Maravilha, no Rio de Janeiro… dade, outra para novos eixos
urbano não depende exclusiva- Nenhuma cidadevai ter a chan- viários, para instalação de
mente do poder público. A opi- ce que o Rio teve. Também não sistemas de transportes e ta-
nião é defendida pelo pesquisa- acho que seja uma boa referên- rifas. Tudo isso a partir de
dor Fabrício de Francisco Li- cia para Santos ou qualquer um objetivo simples e claro
nardi, mestre em Urbanismo outro lugar. A força que fize- para todo mundo. Se eu tra-
pela Pontifícia Universidade ram para ter aquela interven- balho no norte e moro no
Católica de Campinas. Para o ção no Rio também está vincu- sul, tenho que demorar 20
urbanista, o poder público é só lada à propaganda daquilo. O minutos no máximo. Isso
mais um agente dinamizador que se fala daquilo não é real- coordena e dá as diretrizes
das ações. “Ele que vai orques- mente o que se vê na prática. dasestratégias.
trar o negócio. De maneira ne- Quase dois anos depois, a gen-
nhuma, deve ser autônomo ou te começa a ver que nem tudo é Como estudioso, arriscaria
solitário nessa questão”, fala tão maravilhoso quanto foi o um diagnóstico para o caso
em entrevista para A Tribuna. projetado. O projeto foi, sim, específico de Santos?
O especialista, que fez parte dos maravilhoso. Ma a retirada da Seique Santos temum gran-
seus estudos na Ecóle Nationa- Vila Autódromo foi problemá- de problema geográfico,
le Supérieure d’Architecture de tica, até por causa de uma su- por ser uma ilha, tem um
Paris, na França, acredita que posta especulação imobiliária. espaço limitado, a ilha está
é fundamental ter participa- A gente está falando de trans- toda ocupada. Fatalmente,
ção popular, com questiona- formação urbana e, por isso, a vai ser necessário trabalhar
mentos ou pedido de transfor- gente precisa entender quem a reconstrução da cidade, a
mações, e do empresariado. “O são esses atores, os valores e conversão.Já nãohá nenhu-
problema é equalizar, tornar interesses por trás. Por mais ma possibilidade pensar
esse interesse pelo espaço em bonita e midiática que tenha em novas ocupações. Nisso
uma força equilibrada”, ponde- sido, não consideraria a inter- estão em jogo muitas ten-
ra. Na semana que passou, ele venção do Rio como uma possi- sões. Às vezes, é muito mais


visitou Santos para dar uma bilidade para cidades peque- uma questão política do
aula a estudantes universitá-
rios da Unimonte e falou com a
nas e médias. Há soluções mais
baratas, viáveis e realmente Asestratégias vêm co- empresariado também tem
que participar, até porque tem
que propriamente técnica.
Do ponto de vista técnico, a

mosuporte de umgran-
Reportagem sobre problemas transformadoras, no sentido interesse nessas transforma- reconversão de áreas degra-
urbanísticos e possíveis solu- do cotidiano das cidades, em ções. O problema é equalizar, dadas no Porto tem um mi-
ções para a Cidade. “Há mui- que a cidade fica melhor. tornar esse interesse pelo espa- lhão de possibilidades. Ago-
tas estratégias. O que talvez de-
fina uma boa é a definição de A operação consorciada do Rio
deplano. Eleé omaisdifícil, ço em uma força equilibrada. ra, do ponto de vista políti-
co ou da transformação so-
um objetivo. Qual é a vontade
da cidade? Juntando todos os
tem vários gargalos, como a
compra dos Cepacs pela Caixa porquetemqueser duradouro Tem aumentado bastante ini-
ciativas de placemaking e de
cial que envolve aquilo ali, é
muito complexo. É preciso
interesses e agentes, qual é o
objetivo para daqui a 20 anos
Econômica Federal...
É claro que vai ter gente que de- ede longoprazo. Épreciso ser espaços compartilhados...
Há muitas estratégias. O que
entender quem são os agen-
tes envolvidos nessa discus-
para essa população. Aí sim, a
gente traça uma resposta”.
fendeetemquemodeia.Deuma
certa maneira, é uma forma de
viabilizar uma transformação
suprapartidário,temquecon- define a estratégia é a escolha
do objetivo. Qual é a vontade da
cidade?Juntandotodosos inte-
são. Tem, lógico, o poder
público, os empresários, o
funcionamento do Porto,
Seu mestrado se baseou no es-
tudo da requalificação urbana
grande. Mas do jeito que tem
sido feito, São Paulo, Rio de Ja-
seguir,pormaisquese troque resses e agentes, qual é o objeti-
vo para daqui a 20 anos para
que é o maior do País. A
gente podia falar: vamos fe-
de Sorocaba. Quais os pontos
positivos dessa experiência?
neiroeRecifesãoasgrandescida-
des que estão fazendo essa estra-
degestãoe de partido,queseja essa população? Aí sim, a gente
consegue traçar uma estraté-
char o porto, transferir tu-
do para Itajaí. Mas essa não
Em Sorocaba, a mudança posi-
tiva investiu na preparação da
tégia. Se a gente for analisar ago-
raosresultadosdissonão sãotão umplano,de fato, da cidade gia. Caso contrário, fica uma
estratégia vazia, em que a gente
é uma solução viável. É difí-
cil de aplicar isso.
cidadeparanovasdinâmicaseco- positivos. É uma transformação não sabe para onde está indo.
nômicas. Teve uma proposta de em alta velocidade, mas não Esse é, talvez, um dos maiores As discussões sobre o porto
relocar a área industrial da cida- quer dizer que seja bom. A gente problemas brasileiros. A gente são complexas?
de, ampliação do perímetro ur- temsentidoagentrificação,atro- Latina que mostram alguns si- rios fragmentos da cidade recu- está sempre importando tecno- Qual é a melhor solução pa-
bano com outras ocupações na ca das pessoas, por causa do alto nais positivos são Bogotá e Me- perados, com obras muito me- logia. O planejamento é uma raoretroportoouparaopor-
borda,ecom isso veioa proposta custo, a pessoa não consegue se delín. Nessa última década, a nores e impactos econômicos tecnologia. Normalmente, a to degradado? É cultural? É
de reestruturação dos eixos viá- manter no emprego, não conse- Colômbia tem se destacado co- menores, que atendem o dia a gente vê propagandas políticas transformar em um grande
rios do escoamento de produ- guecustearoaluguel,comavalo- mo exemplo. Não é só a adoção diadacidade. dizendo que vamos fazer o que polo de turismo? É ampliar
ção. Foram construídas três rização. do modal. O que eles têm mos- Barcelona fez, o que o Rio fez. o porto e se transformar no
grandes avenidas, que ligam as trado é o pensamento em rede. Arequalificação urbana depen- Mas ninguém pergunta exata- maior porto do mundo? Es-
duas rodovias (Castelo Branco e Aqui na Baixada, a gente tem Abicicletanão éumpensamen- de só do poder público? menteoquese fez,por quê. sa é uma das discussões
Raposo Tavares). Elas fazem es- visto as pessoas indo para o to sozinho. Tem a bicicleta, as Pelo contrário. O poder públi- mais importantes, porque é
sas conexões ligando o parque extremo da região... bibliotecaspúblicas,oTransmi- co é só mais um agente, dinami- Dê um exemplo... ela que vai definir estraté-
tecnológicoeoaeroportodacida- Isso tudo está relacionado com lenio(sistema detransportepú- zador. Ele que vai orquestrar o Lembro de uma propaganda, gias. As estratégias vêm co-
de, que fica bem no meio. Com a dinâmica urbana de Santos. blico metropolitano de veículo negócio. De maneira nenhu- achoqueera Boston, quedesen- mo suporte de um grande
isso, toda produção fica estrutu- E isso implica influência em leve sobre pneus de Bogotá) e ma, deve ser autônomo ou soli- volveu uma estratégia a partir plano. Ele é o mais difícil,
radanosentidodeserumchama- tudo: mobilidade, as dinâmi- todaumarededeespaçospúbli- tário nessa questão. É funda- de um objetivo. O deles era porquetemqueserduradou-
riz para novas empresas para se cas de consumo, o valor do cafe- cos integrados. É uma rede de mental a participação popular, assim: você demoraria até 20 ro e de longo prazo. É preci-
estabelecer na cidade. Isso tem zinho é sintomático. pensamentos. Em vez de pen- seja com questionamentos ou minutos para chegar em casa, so ser suprapartidário, tem
sidoumanovaprática. sar uma cidade pontualmente, participação mesmo, com a so- saindo de qualquer lugar. Ven- que conseguir, por mais que
Há um modelo de intervenção como se fez no Rio de Janeiro, licitação detransformações vin- do assim, o objetivo parece setroquedegestãoedeparti-
Às vezes, as pessoas tendem a a ser seguido? eles fragmentaram esse pensa- das de baixo, da mesma forma meio besta ou amplo demais. do, que seja um plano, de
comparar com ações que se Algumas cidades da América mento e explodiram. Tem vá- como as elites econômicas. O Mas a partir dele foi desenvolvi- fato,da cidade.
E-8 Renovação Urbana A TRIBUNA
www.atribuna.com.br
Domingo 3
setembro de 2017

Espaço Cerâmica
São Caetano do Sul

A Sobloco desenvolve projetos que revitalizam espaços


urbanos, transformam cidades e valorizam as pessoas.
Reinventar tecidos urbanos para criar polos de desenvolvimento sustentável é uma das matérias mais complexas do setor imobiliário,
o que exige daqueles que se habilitam neste campo a mais alta especialização e capacitação. A Sobloco destaca-se como uma empresa
de grande know-how no setor de planejamento e desenvolvimento urbano, com diversos projetos premiados, reconhecidos nacional e
internacionalmente. Com inovação, criatividade e responsabilidade social e ambiental, a Sobloco tem criado comunidades vibrantes, com
excelente qualidade de vida, onde as pessoas têm orgulho de viver.

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