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TENENTE EDIVALDO FARO

ESTRUTURA FORMAL DO PROCESSO PENAL.

INTRODUÇÃO

Em princípio, um processo judicial estruturado em termos de partes processuais,


pressupõe a existência de um conflito de interesses, submetido pelo titular do interesse
supostamente ofendido à decisão imparcial do juiz, supõe uma lide e a discussão de
direitos subjectivos pelos titulares da relação controvertida. É entretanto, o que sucede
no processo civil.

Mas no processo penal não está em causa, o confronto de direitos subjectivos


privados. O que está em causa é o interesse social protegido pela norma penal, isto é, o
interesse do próprio Estado, independentemente de saber se o facto que é objecto do
processo (crime) ofendeu também interesse particular. Deste modo, não se justifica um
processo penal estruturado a partir de «partes» interessadas.

O processo penal seria um processo sem partes. O MºPº (ou acusadores nos
termos em que a lei o permite) e o arguido ou réu seriam, tal como o juiz, simples
sujeitos processuais, que se limitavam a colaborar na investigação e na descoberta da
verdade objectiva, com vista à realização do fim do processo, isto é, à concretização do
direito penal, mediante a individualização da pena.

O MºPº, na instrução preparatória, tem que efectuar não só as diligências que conduzem
à prova da culpabilidade do arguido mas também as que concorram para demonstrar a
sua inocência e irresponsabilidade (art.º 12º, § 1.º do Decreto-Lei n.º 35.007); deve
abster-se de acusar, se verificar que não há crime ou que a prova não é suficiente (art.º
25º e 26º); e até interpor recurso, no interesse da defesa (art.º 647º/1 do CPP).

RELAÇÃO JURÍDICA PROCESSUAL

O processo penal se desenrola como uma sucessão de actos ou actividades


processuais, desde a denúncia do facto criminoso até ser proferida sentença, e desde a
investigação e a formação consequente do corpo de delito até à discussão da causa e o
julgamento final.

Em todas as fases processuais vemos estabelecerem-se relações entre um órgão


que é emanação do poder do Estado, o Tribunal e determinados sujeitos, a que
chamamos partes processuais, o arguido ou réu, por um lado, e o MºPº ou acusador
particular pelo outro. Mas não só, outras relações se estabelecem quer entre o tribunal e
muitos outros intervenientes processuais, testemunhas, declarantes, peritos, etc.., quer
entre estes e as partes, cada um com as suas posições, os seus deveres e poderes
jurídicos, o seus direitos e as suas obrigações.

No processo penal, a relação jurídica nuclear é estabelecida entre o arguido e o


Estado, representado este, seja pelo juiz seja pelo MºPº. São estes os principais sujeitos

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a que correspondem posições jurídicas estabelecidas no processo penal. Sujeitos a que


correspondem posições e poderes e deveres próprios. Os do tribunal (juiz), formando
aquilo a que se chama jurisdição ou poder de julgar, os do MºPº (ou nos crimes
particulares, os do assistente), o direito de acção penal ou de acusação, e o do arguido
ou réu, o direito de defesa.

SUJEITOS PROCESSUAIS, PARTICIPANTES E PARTES


PROCESSUAIS

Nas relações processuais há que distinguir os sujeitos dos simples participantes


processuais.

Sujeitos, em sentido amplo, são pessoas entre as quais se estabelecem as


relações jurídicas processuais.

Em sentido estrito e técnico, que é o que agora nos interessa, sujeitos processuais
são apenas «aqueles participantes a quem competem direitos e deveres processuais
autónomos», no sentido de que, através das suas próprias decisões, podem determinar,
dentro de certos limites, a concreta tramitação do processo. Entretanto, são sujeitos
processuais:

- O JUIZ, titular da jurisdição (o poder de julgar);

- O MºPº ou ACUSADOR PARTICULAR, titular da acção penal ou da


acusação;

- O ARGUIDO ou réu, titular do direito de defesa, que conduzem activamente


o processo, cuja actividade lhe imprime ou pode imprimir uma direcção.

Todos outros intervenientes, declarantes, testemunhas, peritos, inclusivamente os


próprios funcionários, colaboram no processo mas não têm poder sobre ele, não
possuindo capacidade para determinar seu resultado. Estes são simples participantes
processuais.

Nos crimes particulares, é sujeito também o acusador particular que, embora


titular de um interesse ofendido, não é titular, todavia, de um direito de punir que só ao
Estado pertence. Quer dizer, o réu é punido não pela consideração do interesse
particular e concreto ofendido, mas pela do interesse público e geral lesado.

Para ser parte no processo penal é preciso possuir personalidade judiciária


(susceptibilidade ou capacidade abstracta para ser parte). Na posição de acusado só a
têm, em princípio, as pessoas físicas. A capacidade judiciária é outro dos requisitos para
ser parte. Consiste na capacidade em concreto para intervir num processo. Para acusar
têm-na todos os que possuírem capacidade de exercício ou estiverem representados
(representação legal). Do lado do arguido, não têm capacidade processual, os
inimputáveis penais (incapacidade insuprível).

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O JUIZ (arts. ° 174 à 184 CRA)

Magistrado que tem por função ministrar a justiça. O juiz no exercício das suas
funções tem de realizar os interesses de todo o povo, decidindo com imparcialidade,
com justiça e fundamentando as suas decisões.

 O juiz participa activamente na produção da prova e tem poderes para instruir


autonomamente em busca do seu esclarecimento, realizando-se assim um
processo de estrutura basicamente acusatória, integrado com o princípio da
investigação judicial.

 A legitimação dos juízes para o exercício do poder jurisdicional passa pela sua
neutralidade política.

 A fundamentação das decisões dos tribunais é outra das exigências da sua


legitimação.

 A independência e a imparcialidade dos juizes são pressupostos da boa justiça e


da liberdade.

 A verdadeira garantia da realização da justiça passa pelo escrupuloso respeito


pela lei, pelo rito processual e pelos princípios éticos da função.

 Os juizes são irresponsáveis pelas suas decisões (art. 179°/3 CRP e art. 8°/1
EMJMºPº)

MINISTÉRIO PÚBLICO (art. 185° à 191º CRA e 4º e ss Estatuto do MP)

O órgão do Estado ao qual compete representar o Estado e defender os interesses


que a lei determinar, participar na execução da política criminal definida pelos órgãos
de soberania, exercer a acção penal e defender a legalidade democrática.

 O MP dispõe de autonomia funcional e de autonomia orgânica necessária


a garantir aquela.

 O MP, como magistratura autónoma constitucionalmente estabelecida


encontra-se, no exercício da acção penal, sujeito entre outros ao princípio
da legalidade e da busca da verdade material, o que o obriga a investigar.

 O princípio do direito a um justo processo a decorrer num prazo razoável


é uma condicionante imperativa da actividade do Ministério Público.

Função do Ministério Público

No processo penal a função do MP traduz-se na prossecução penal, ...

que se efectiva através ...

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- da investigação dos crimes,

O MP funciona como uma autoridade judiciária, por conseguinte a investigação


não se destina a alicerçar a posição do acusador, mas sim a descobrir a verdade dos
factos.

- do exercício da acção penal

O exercício da acção penal esgota-se com um acto processual, a acusação ou a


introdução do processo em juízo.

- da representação da acusação no processo em juízo,

especialmente na audiência de julgamento.

... Daqui decorre a ...

legitimidade para interpor e sustentar recursos

ARGUIDO (art. 251º e ss CPP)

Noção de suspeito

Toda a pessoa relativamente à qual exista indício de que cometeu ou se prepara


para cometer um crime, ou que nele participou ou se prepara para participar.

Conceito de arguido

A pessoa que é formalmente constituída como sujeito processual e relativamente


a quem corre processo como eventual responsável pelo crime que constitui objecto do
processo.

 O arguido está defendido por um corpo de direitos fundamentais que a todas as


autoridades incumbe acatar.

 O simplesmente suspeito deverá requerer a constituição como arguido, ou como


tal ser constituído oficiosamente, para que possa ficar ao abrigo do estatuto do
arguido, após a referida constituição.

 O silêncio do arguido não pode ser interpretado como presunção de culpa; o


arguido presume-se inocente.

 A lei não estabelece qualquer sanção para o arguido que, prestando declarações
sobre os factos que lhe forem imputados, falte à verdade.

ASSISTENTE (arts.º 19º à 21º CPP e arts.º 4º e 5º do Dec.-Lei 35007)

É o sujeito processual que intervém no processo como colaborador do Ministério


Público na promoção da aplicação da lei ao caso concreto e legitimado em virtude da
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sua qualidade de ofendido ou de especiais relações com o ofendido pelo crime ou pela
natureza do crime.

OFENDIDO: É o titular do interesse que constitui o objecto jurídico imediato da


infracção, do interesse que a lei quis especialmente proteger com a incriminação, desde
que maiores de 16 anos; o ofendido não é sujeito processual, excepto se constituir
assistente.

LESADO: Sendo aquele que sofreu danos com o crime, pode coincidir e coincide
muitas vezes com o ofendido e, por isso, pode também constituir-se assistente, não
por ser lesado mas por ser ofendido.

QUEIXOSO: Aquele que é titular do direito de queixa. O queixoso independentemente


de se constituir ou não assistente, tem o poder a todo o tempo, até à publicação da
sentença da 1ª instância, pôr termo ao procedimento, desistindo da queixa, desde que
não haja oposição do arguido.

Em razão da sua qualidade de lesado pode apenas intervir no processo como parte civil,
no pedido de indemnização.

O queixoso não é sujeito processual enquanto não seja constituído assistente.

O assistente não intervém pessoalmente no processo, contrariamente ao arguido; a sua


intervenção há-de ser sempre feita através de mandatário judicial: advogado ou
advogado estagiário.