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Introdução

A obra foi escrita por Lon L. Fuller, nascido em 1902 no Texas – EUA. Autor de
diversas obras, teve no livro O caso dos exploradores de caverna, um dos maiores
destaques no meio acadêmico. O autor foi filósofo do direito e professor nos Estados
Unidos escreveu originalmente essa obra em forma de artigo, que foi publicado na
revista Harvad Law School em 1949.
O enredo do livro ocorre em 4299 onde um grupo de 5 (cinco) exploradores amadores
de cavernas de rocha calcária saíram para a exploração de uma caverna deixando
avisado onde eles estariam e o local da caverna para que as pessoas mais próximas
soubessem onde estariam.
Já dentro da caverna, eles são surpreendidos com um deslizamento de pedras que
acaba por obstruir a entrada, deixando-os sem possibilidade de saírem lá de dentro.
Um dos grandes problemas era que eles possuíam poucos alimentos para
sobreviverem.
Como as pessoas foram avisadas e sabiam que eles tinham ido para essa caverna
em específico, acabaram ficando preocupadas com a demora dos exploradores em
se comunicarem e retornarem da exploração. Então eles fizeram uma suposição de
algo havia acontecido de estranho e foram até o local da caverna. Chegando lá
verificaram que a entrada estava bloqueada pelo deslizamento de pedras. O autor
conta que foi feita uma força tarefa com diversos trabalhadores para que fosse feito
uma nova entrada ou desobstrução da principal entrada no intuito de ter acesso ao
interior da caverna para resgatar o grupo de exploradores.
Houve alguns outros deslizamentos de terra, onde inclusive, 10 (dez) operários
morreram tentando salvar a vida dos exploradores. No vigésimo dia, depois de já
terem entrado na caverna, as pessoas descobriram que os exploradores tinham em
sua posse um rádio comunicador que podia enviar e receber mensagens. O contato
com o grupo de exploradores foi feito através desse meio.
Aqui começa o problema. Um dos personagens chamado de Roger Whetmore acabou
tomando a frente da situação e fazendo perguntas que deixaram o pessoal fora da
caverna preocupados. A primeira pergunta foi referente a quanto tempo seria
necessário que eles esperassem até que o resgate fosse feito. Foram informados que
o resgate a partir daquele dia - vigésimo – seriam necessários pelo menos mais dez
dias.
Eles então pediram que fosse perguntado ao médico se seria possível que eles
sobrevivessem mais dez dias sem comida, e o médico informa que não seria possível
viver tanto tempo privados de alimento. Roger Whetmore então questiona se eles
sobreviveriam por tempo suficiente no caso de comerem a carne de alguma pessoa
que estivesse presente na exploração, sacrificando-a. A contragosto o médico
responde que sim, seria possível que eles sobrevivessem alimentando-se da carne
de algum dos que estavam presos na caverna.
Com a resposta do médico, Roger questiona aos presentes se eles deveriam sacrificar
alguém para que o grupo restante sobrevivesse, mas o médico não respondeu,
nenhum governante e nem mesmo o sacerdote quis responder tamanho
questionamento. Então, diante dessa situação eles ficaram sem nenhuma resposta
externa.
Roger Whetmore possui um par de dados consigo e propôs aos amigos que jogassem
os dados, e assim, com o resultado, aderirem a ideia de quem deveria ser sacrificado
para alimentar os demais. Porém antes de começar o jogo e convencer os colegas de
que essa seria a melhor opção a se tomar, Roger desiste de prosseguir no jogo pois
decidiu pensar mais um pouco, no caso por mais uma semana. Diante da recusa de
Roger, os demais disseram que ele já tinha confirmado e que deveria jogar ou alguém
jogaria por ele.
Com isso, perguntado se faria alguma objeção ao fato de alguém jogar os dados no
lugar dele, não houve recusa por parte de Roger. Os dados foram lançados e Roger
foi o sorteado para ser sacrificado e alimentar os demais.
Mais tarde, já no trigésimo segundo dia, os quatro exploradores que restaram
alimentando-se da carne de Roger foram resgatados. Ao saírem, passaram por
tratamento médico e nutricional para se recuperarem do que passaram.
Com o término do tratamento, eles foram processados pelo homicídio de Roger
Whetmore. Em 1º instância foram condenados à morte por enforcamento, mas
recorreram pedindo a comutação da pena para prisão de 6 meses. Então o processo
foi para a análise de outros quatro julgadores que emitiriam um parecer a respeito da
condenação ou absolvição dos quatro exploradores que se alimentaram da carne de
Robert.

Desenvolvimento
O Presidente da corte Truepenny, C.J. inicia concordando que a decisão em primeira
instância foi exagerada, levando em conta que os exploradores encontravam-se em
uma situação extraordinária. O juiz, por ser positivista, não enxerga uma maneira justa
de resolver o caso sem ser obedecendo estritamente a lei, que falava que “qualquer
um que, de própria vontade, retira a vida de outrem, deverá ser punido com a morte.”
Considerando que a situação dos réus era um caso muito específico, sugere que o
chefe do Executivo conceda a clemência aos réus, sendo essa uma “saída” jurídica
para o caso.
O juiz Foster, J. não vai na mesma linha de pensamento de Truepenny, e diz que a lei
nesse caso não se submete ao Executivo mas sim, à “Lei Natural”. Essa última diz
respeito ao fato de que quando presos dentro da caverna os exploradores agiram
conforme as possibilidades psíquicas e emocionais envolvidas. Nesse caso, a Lei
positivada extra caverna, não seria adequada ao caso e sim a Lei Natural do instinto
de sobrevivência à qual estavam submetidos naquele momento. Foster ainda diz que
se dez trabalhadores morreram ao tentar salvar cinco, seria cabível um morrer para
salvar quatro. Decide então pela absolvição dos réus.
O juiz Tatting, J. abdica-se de votar, pois considera que sua moral o impede de julgar
um caso como esse.
Para o juiz Keen, J. critica Foster ao dizer que não convém a juízes legislar, uma vez
que eles devem seguir a lei escrita e, desse modo, assegurar a estabilidade jurídica.
Esse é o típico discurso de um juiz positivista. Logo, apegado a ideia de que seus
princípios morais não devem se sobrepor à Lei positivada, condena os réus.
O julgador Handy, J. resolve emitir seu parecer de acordo com uma consulta à
população sobre o caso. O caso repercutiu socialmente e 90% da população decide
pela absolvição dos réus, e essa foi a sua decisão.

Conclusão
Diante da divisão da corte e empate no julgamento, foi decidido que a decisão em
primeira instância seria aplicada e os quatro exploradores foram enforcados no dia 2
de Abril de 4300 às seis horas da manhã.
Pode-se ver que a obra explora uma questão jurídica e complexa que é a dificuldade
de se tomar uma decisão acertada e proferir um julgamento. A obra traz uma
interessante questão que é a comparação entre o direito positivo e o natural que traz
desafios e dificuldades advindas muitas vezes pelas diferentes interpretações dos
casos.
No Brasil, o Código Penal possui em seus artigos 23 e 24, excludentes de ilicitude,
que no caso apresentado na obra seria o estado de necessidade, que traz situações
que inicialmente vedadas pela legislação tornam-se toleradas se forem o único meio
para garantir a vida no momento.
Com isso, observa-se que o julgamento deve levar em consideração não somente a
Lei positivada, mas outras situações e fatos externos para se tentar chegar à justiça.
O direito não está preso à uma “regra única” que se amolda perfeitamente a todos os
casos e, exatamente por isso, necessita de uma análise personalizado ao caso
concreto para melhor adequação da Lei.

Referências bibliográficas

FULLER, Lon L.: “O Caso dos Exploradores de Cavernas”. Trad. bras. de Plauto
Faraco de Azevedo. Porto Alegre: Fabris, 1976.