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Poética-musical?

Emmanuel Coêlho Maciel

Emmanuel Coêlho Maciel analisa a questão do


envolvimento entre música e poesia.
Até que ponto podemos afirmar que existe poética-
musical ou que uma melodia está carregada de poesia?

Dia desses encontrei-me casualmente com um jovem ex-aluno, músico, poeta,


compositor de música popular e cantor, que de chofre colocou-me a seguinte
questão, seria correto afirmar que existe uma "poética-musical" ou que
determinada melodia se acha carregada de "poesia"?

O assunto permitiu-me algumas divagações, mais etílicas do que propriamente


filosóficas, pois estávamos a saborear alguns chopinhos para enfrentar o forte calor
daquela despretensiosa tarde de verão. Mas, confesso, fiquei grilado com o assunto
e resolvi aprofundá-lo à minha maneira.

Inicialmente, precisei recorrer ao dicionário. Por poesia ele define:

1) Arte de criar imagens e sugerir emoções por meio de uma linguagem em que se
combinam sons ritmos e significados;
2) Caráter do que emociona e toca a sensibilidade; e por poética a "arte de fazer
versos".

Ora, a matéria prima do poeta é a palavra e toda a sua gama de expressividade e


inteligibilidade que possui dentro de determinado idioma. Já a matéria-prima do
músico é, puramente, os sons e ruídos, postos ritmicamente, como a palavra na
poesia, a serviço da emoção e da sensibilidade. Aliás, esses são atributos
imprescindíveis a qualquer obra de arte. Sem ela não há arte, pois arte que não
emociona, não é arte.

Na poesia as imagens são diretas, definitivas quanto aos sonhos e significados.


Quer dizer: O poeta, de posse de suas emoções, busca as imagens onde elas
estiverem, no sono que relaxa o corpo para se converter em sonhos leves,
reconfortantes, ou naqueles sofridos, tensos, em forma de pesadelo.

E o que são sonhos senão os desejos recalcados da vigília, às vezes carregados de


desconforto porque perpetuado na loucura de quem sonha?

Eles não vêm dos tempos dos deuses


não emanam dos poderes do ar
cada um cria os seus próprios sonhos...

Petronius Arbius, poeta romano


O tema do amor não correspondido, por exemplo, torna-se uma constante entre os
poetas do século XVI. A amada inatingível torna-se ainda mais remota, e o cortejo
se faz nos domínios dos sonhos.

Vem sono, e com a tua doce ilusão,


Envolve-me em prazer por um espaço!
E deixa que sonhos agradáveis entretenham
Todas as minhas fantasias.

Anônimo inglês

No pré-Romantismo europeu, entre os poetas, o sonho-pesadelo como tema é


inevitável. Aqui uma referência, a Revolução Francesa, feita por um poeta inglês.

Então, de repente, a cena


Mudou, e o sonho interrompido envolveu-me
Em longos discursos, em que me esforçava por defender
Diante dos tribunais injustos – com uma voz martelando,
Uma mente confusa, e uma sensação
Igual à morte – de deserção traiçoeira, sentida
No último refúgio a minha própria alma

De um brasileiro contemporâneo sobre o sonho–pesadelo

Do fundo do céu virá o sono,


E das gargantas de todos partirá o grito sem som
E tudo adormecerá,
As cabeças voltadas para o abismo

Augusto Frederico Schmidt

Contudo, o sono talvez seja o melhor refúgio:

Oh sono! Coisa suave


Amada de pólo a pólo!
Bendita seja Maria,
Enviou do céu o sono suave,
Que invadiu minh’alma

Coleridge

Ou talvez o deixar de existir:

Sonho não sei quem sou neste momento


Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento
Minha alma não tem alma

Fernando Pessoa
O sonho como afastamento das coisas:

Tudo é nada, e tudo


Um sonho finge ser,
O espaço negro é mudo
Dorme e ao amanhecer
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.

Fernando Pessoa

O sono bem-vindo, compensação pelas angústias e dores da vida moderna.

Na vida que a dor povoa,


Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir
Tudo vai sem sentir

Antônio Nobre, O sono de João

Poesia é isto: emoção e sensibilidade, através de palavras mágicas que criam


imagens, sons, ritmos e significados.

E a música?

Bem, a música, como a poesia e a dança foram, na Antigüidade grega, partes de


uma só unidade, conceituadas pela palavra "Musike". Estas artes das musas
(música, poesia e dança) foram, com o tempo, adquirindo características próprias e
se desmembrando uma das outras. Ainda na Grécia Clássica, a música evoluiu para
a arte dos sons, assumindo na Europa ocidental proporções renovadas através da
canção, da ópera e do Ballet. E mais, adquiriu uma faceta fenomenal, de
desenvolvimento técnico–estético, com o surgimento da música instrumental
erudita e/ou popular.

Além do mais a música fascina e enfeitiça as pessoas, exercendo efeitos


psicológicos que vão dos mais nobres sentimentos aos mais baixos instintos, da
mais elevada veneração religiosa a mais torpe e brutal sensualidade. Em seu seio
reside a mais bela variedade de gêneros, rica em estilos e formas: canção
moderna, pop; forró; coral religioso gregoriano; dobrados militares; canção de
amor; jazz, ópera, sinfonias, todas reveladoras do grupo étnico social a que
pertencem.

Do ponto de vista da evolução da arte musical no Ocidente, creio que o período


"Romântico" do século XXI foi o mais importante, por ter revolucionado as relações
sociais e posto à tona a classe burguesa de um lado e, do outro o proletariado. Com
isso forçou uma nova forma de vida, criou uma nova filosofia e uma nova arte. Já
que os valores político-sociais anteriores não faziam mais sentido. A humanidade
ingressava na era da Revolução Industrial.

E foi exatamente o que aconteceu com a música. Uma nova tendência estética,
entre outras, se firmou (Não tão nova assim, anteriormente Vivaldi (1880-1743) e
Tartinni (1962-1770), já haviam experimentado no concerto As Quatro Estações e
na Sonata para Violino El Trino Del Diabo, respectivamente. Trata-se da "Música de
Programa" ou "Descritiva", em que o compositor utiliza-se de uma motivação extra
musical, de ordem psicológica, e procura com sua música "descrever" cenas
pictóricas ou poética através de efeitos sonoros, melódicos, tímbricos e/ou
harmônicos. São notáveis, nessa linha, a Sonata ao Luar de Beethoven (1970–
1827); a Sinfonia Fantástica de Berlioz (1803-1849); os Poemas Sinfônicos de Litz
(1811-1886) e Ricardo Straus (1864-1949) e de inúmeros compositores da
chamada Escola Nacionalista, inclusive brasileiros. Também as Pequenas Peças para
piano de Schumann (1810-1856); Os Quadros de Uma Exposição de Mussorgsky
(1835-1881) e a magistral La Cathédrale Engloutie de Debussy (1862-1918).

No entanto, a música em si (sons, ritmos e silêncio) é incapaz de nos dizer alguma


coisa ou por outra, as motivações psicológicas de quem a ouve e que determinam
as "imagens" e as "emoções". Daí, a importância do "Programa" (ou de texto) no
processo da indução do ouvinte, neste tipo de música.

Na canção é diferente. O compositor ao musicar um poema busca fidelidade aos


versos, não só quanto à interpretação simbólica do texto, mas também, quanto à
prosódia musical, de tal maneira que melodia e poesia (ou poesia e melodia) se
fundem em uma só unidade. É o que ocorre com as grandes emoções ou obras
operísticas, conhecidas. Ao ouvirmos determinada melodia assobiada por alguém,
lembramo-nos, de imediato, da sua letra. E se ouvirmos a sua letra declamada por
alguém, com certeza lembraremos da sua música e, talvez, até solfejamos com
entusiasmo. É o caso da canção de Pixinguinha, para darmos um só exemplo,
"Carinhoso". Aqui sim, e em outras canções onde exista perfeita unidade entre letra
e música, a existência daquilo que poderíamos chamar de "Poética-musical".

Sobre o autor:

Emamnuel Coêlho Maciel nasceu no dia 16 de outubro de 1935, no bairro Lagoinha,


Belo Horizonte, MG. No Rio de Janeiro, foi bolsista do Instituto Nacional de Estudos
Pedagógicos, cursando o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico.
Em 1963, assumiu uma vaga de professor da Prefeitura do Distrito Federal. Foi
requisitado para a Universidade Federal do Piauí, ingressando em 1976,
participando da fundação do Departamento de Educação Artística. Em 1977,
tornou-se coordenador do Setor de Artes.
Professor, violinista, compositor, arranjador, folclorista e maestro, Emmanuel
Coêlho Maciel costuma encantar a platéia nas felizes noites em que apresenta uma
peça.
Enquanto morou em Brasília, regeu a Orquestra Sinfônica de Cordas, participou de
quartetos, trios, fundou corais escolares, fez arranjos de músicas populares para
festivais estudantis da canção, participou da orquestra "Ars Brasiliense" e foi até
produtor de TV.
Foi ainda fundador e vice-diretor da Escola de Música de Brasília.
O maestro compôs em 77 uma peça camerística dedicada ao campus universitário.
Chama-se "Ininga". É uma peça para quatro instrumentos: violino, viola, violoncelo
e piano.
Ganhou três prêmios nacionais de composição, pelo Instituto Nacional de
Música/Fundação Nacional de Arte, com as obras "Os sapos" (1981), "Ema-
Seriema" (1982) e "Módulos" (1983).
Compôs, entre outras, as obras "Quarteto para Flautas Transversais", "Estudo
Fugato" e "Quase Andante". Possui diversos trabalhos inéditos, como "Peça
Orquestra"(1983), "Reis Pastorinhas" (1990) e "Cadernos de Solfejo Modais e
Tonais" (1990). O compositor destaca ainda a "Sonata Duo" (1964), "Musik'A2"
(1986), "Aknathon" (1967) e "Dança e Langoroso" (1963).