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Ortónimo:

Diferentes momentos do processo poético: Página 31.


1º momento: o poeta sente a emoção real;
2º momento o poeta finge a emoção real através do pensamento;
3º momento: o conceito real de dor já não existe, pois é substituído pela emoção estética.

Isto: página 32:


O Assunto do poema é o fingimento e a criação artística; a racionalização dos sentimentos
(sentir com a imaginação, não usando o coração). Este porque muitos leitores interpretaram mal
o poema Auto psicografia, sendo que o titulo do poema “isto” querer dizer eu não minto.
Entre os versos 1 e 10 o poeta nega que finge ou mente e dá a justificação de que o que faz é a
racionalização dos sentimentos na busca de algo mais belo, mas incessível. Na ultima estrofe o
poeta dá o argumento de que ao escrever se distancia da realidade intelectualizando os
sentimentos, intelectualizando os sentimentos e elaborando uma nova realidade- a arte. O
mundo real (“terraço”) é o reflexo de (“sobre outra coisa ainda”) um mundo ideal (“essa coisa é
que é linda” - conceito oculto ou platónico, mundo que fascina o sujeito poético.
Todos os passos da poesia Pessoana- há que compreendê-lo- são terraços (como ele diz), são
passos intermédios entre uma coisa e o seu significado. Pessoa quer acima de tudo a verdade
das coisas, mas para a alcançar, e sabendo como é difícil, ele desenha graus, pouco a pouco,
para a atingir. Deste modo se pode perceber um pouco o porquê do afastamento das coias e
sobretudo o fingimento.
Nos vv. 11-15 há um ato de fingimento de pura elaboração estética e o leitor que sinta o que ele
comunica apesar de não sentir (sentir? Sinta quem lê).

Concluindo, O poema "Isto" apresenta-se como uma espécie de esclarecimento em relação à


questão do fingimento poético enunciada em "Autopsicografia" - não há mentira no ato de
criação poética; o fingimento poético resulta da intelectualização do "sentir" da racionalização.
Aqui, o sujeito poético vai mais longe já que, negando o "uso do coração", aponta para a
simultaneidade dos atos de "sentir" e "imaginar", apresentando-nos a obra poética como uma
espécie de síntese onde a sensação surge filtrada pela imaginação criadora. A comparação
presente na 2ª estrofe (vv.6-9) evidencia o facto de a realidade que envolve o sujeito poético ser
apenas a "ponte" para "outra coisa": a obra poética, expressão máxima e absoluta do Belo. Na 3ª
estrofe, introduzida pela expressão "Por isso" de valor conclusivo/ explicativo, o sujeito poético
recusa a poesia como expressão imediata das sensações. O sentir, no sentido convencional do
termo, é remetido para o leitor.

A Ceifeira: página 36:


Esta composição poética pode ser dividida em duas partes lógicas. Na primeira parte, constituída
pelas três primeiras estrofes, o poeta descreve a ceifeira e sobretudo o seu canto, canto
instintivamente alegre. Esta descrição seria objetiva, se o poeta não introduzisse aqui a sua
perspetiva: o canto da ceifeira era “alegre” porque talvez ela se julgasse feliz, mas ela era
“pobre” e a sua” voz cheia de anónima viuvez”. Por isso, “ouvi-la alegra e entristece”: alegra se
atendermos às razões instintiva da ceifeira, entristece se a virmos na perspetiva total do poeta.
Há, pois, já, nesta primeira parte um grau de subjetividade do poeta que vai adensar-se no
segundo momento. Na segunda parte, o poeta exprime a sua emoção perante a canção
inconscientemente alegre da ceifeira.
Podemos, ainda, subdividir esta segunda parte em dois momentos. Primeiramente, o poeta
lança um apelo à ceifeira para que continue a cantar a sua canção inconsciente, porque esta
emoção o obriga a pensar, e a desejar ser ela, sem deixar de ser ele, e ter a sua “alegre
inconsciência e a consciência disso”. Note-se que o poeta aspira ao impossível, pois ter a
consciência da inconsciência é deixar de ser inconsciente! O sujeito lírico, ciente desta
impossibilidade (a ciência pesa tanto!), lança uma apóstrofe ao céu, ao campo, à canção,
personificados, pedindo-lhes que entrem dentro dele, o transformem na sombra deles e o levem
para sempre.
Paira aqui aquela dor de pensar tão habitual nos poemas de Fernando Pessoa. Mais um
paradoxo do grande poeta, o qual tendo sido o que mais se serviu da inteligência, se sentiu um
ser torturado, por ser um ser pensante, daí a sua aspiração pela alegre inspiração da ceifeira .

Gato que brincas na rua: página 37:

Pessoa inveja realmente "a sorte" do gato, que é a sorte de ser inconsciente e puder brincar sem
pensar em mais nada - brinca na rua "como se fosse na cama". O gato é "bom servo das leis
fatais", ou seja, cumpre o seu destino sem se opor minimamente a ele - cumpre o desejo mais
alto de Reis, que é o de sentir o destino como coisa inevitável enquanto se cumpre. O assumir
deste destino universal, que rege "pedras e gentes" é um motivo de alta nobreza. Mas o homem
é incapaz (a menos que seja "bruto") de ter esta atitude, porque alguns homens (como Pessoa),
não têm apenas os "instintos gerais", que regem o gato - que sente "só o que sente" e nada
mais.
A razão da inveja de Pessoa, mais do que inveja pela falta de preocupação, é inveja pela
simples felicidade que existe quando se vive plenamente as coisas sem pensar. "És feliz porque
és assim" é uma expressão de profunda miséria, de quem observa e tem a consciência plena
que é infeliz. Embora o gato seja apenas "o nada", ele é-o plenamente, enquanto Pessoa sente
que se conhece e conhece a sua situação, mas não consegue ser feliz assim.
O paradoxo pensar/viver parece aqui encontrar novo poiso privilegiado - Pessoa inveja a
felicidade alheia, seja de pessoas ou animais, porque a felicidade alheia é inatingível e baseada
em princípios que ele sente nunca poder alcançar. Sobretudo aqueles princípios de simplicidade,
acessíveis apenas aos "brutos", ou aos animais, como o pequeno gato que brinca tranquilo na
rua. Pessoa sabe que nunca poderá ser apenas um "bruto", muito menos um animal - é este
peso enorme que esmaga a sua esperança em ser feliz."
A dor de pensar:
Pessoa, buscou cobiçosamente a felicidade, contudo nunca a conseguiu encontrar. ‘’. Porque
cedo o torturou a fome inextinguível de conhecer; a inteligência discursiva só lhe deu a certeza
de que <<tudo é oculto >>’’ – ou seja ultrapassa os limites inteligíveis do Homem. Esta
consciência perturbava-o. E ansioso por alcançar a felicidade e a leveza de espirito tentava
permanecer ao nível do sensível e encontrar um ponto de equilíbrio entre
consciência/inconsciência, uma vez que o próprio pensamento corrompe a inconsciência,
inerente à felicidade de viver. Vive num constante sofrimento, causado pela vastidão dos seus
pensamentos e por uma consciência ativa.
Não sei se é sonho se é realidade: Página: 38:

O sujeito poético começa por afirmar a sua incapacidade para distinguir o sonho da realidade
(“Não sei se é sonho, se realidade, / Se uma mistura de sonho e vida.” – vv. 1 e 2). Essa
incapacidade torna o desejo de felicidade (“A vida é tão jovem e o amor sorri.” – v. 6) tão forte
(“É esta que ansiamos” – v. 5), que esta se presentifica (“Ali, ali” – v. 5), como se de uma
realidade táctil se tratasse (“Aquela terra de suavidade / Que na ilha extrema do sul se olvida.” –
vv. 3 e 4). Neste contexto, a “ilha extrema do Sul” (v. 4) simboliza precisamente a felicidade
ansiada, porém inacessível.
A primeira palavra da segunda estrofe – o advérbio “talvez” – anuncia o tom geral
desta parte do texto (de dúvida), bem como a impossibilidade de concretização do sonho
(“inexistentes”, “longínquas”) presente na terceira estrofe (vv. 17-18). Os paraísos imaginados
(“palmares inexistentes, / Áleas longínquas sem poder ser” – vv. 7-8) são uma forma de evasão
reconfortante dos crédulos (“Sombra ou sossego deem aos crentes / De que essa terra se pode
ter.” – vv. 9-10), mas apenas desencadeiam no sujeito poético dúvidas e ceticismo (“Ah, talvez,
talvez, / Naquela terra, daquela vez.” – vv. 11-12) e descrença na possibilidade de se ser feliz
(“Felizes, nós?” – v. 11). Assim, as imagens de felicidade (“sonhada” – v. 13; “Sob os palmares,
à luz da lua” – v. 15) e a consciência da realidade (“Ah, nesta terra também, também, / O mal
não cessa, não dura o bem.” – vv. 17-18), quando pensadas (“Só de pensá-la” – v. 13), perdem o
seu efeito balsâmico (“se desvirtua” – v. 13), pois causa dor (“cansou pensar” – v. 14) a
consciência do seu caráter ilusório (“Sente-se o frio de haver luar.” – v. 16).
Concluindo, o sonho é ilusão e a felicidade aí procurada (“ilhas do fim do mundo” – v.
19; “palmares de sonho” – v. 20) traz ilusões e desilusões (“Não é […]”; “Nem […] ou não”; “Que
cura a alma seu mal profundo, / Que o bem nos entra no coração.”). Ele está perto (“É ali, ali” –
v. 23), mas só pode ser alcançada no íntimo de cada um de nós (“É em nós que é tudo.” – v. 23;
“Que a vida é jovem e o amor sorri.” ¬ V. 24).
Sonho e realidade:

A dialética sonho/realidade surge em Pessoa aliada à angústia, tédio e frustração de viver, dada
a impossibilidade de materialização desse sonho de atingir o mundo inteligível a que o poeta
aspira. O sonho é, para Pessoa, uma forma de evasão, de esquecimento e até de refúgio
relativamente ao «resto» que «é só terra e céu», todavia «só de [sonhado] se desvirtua»,
revelando--‐se a materialização do sonho como um projeto falhado que lhe traz desilusão.
Assim, o poeta conclui que «é em nós que é tudo», relegando o alcance do sonho à viagem
interior, que o indivíduo faz para se conhecer, única possibilidade de atingir «essa terra de
suavidade», ou seja, o mundo inteligível. Concluindo, Pessoa é um ser atormentado pelo desejo
de atingir o sonho e a incapacidade da sua materialização o que o faz mergulhar no tédio e
frustração existencial.
Quando as crianças brincam: página 42:

O tema da infância é um tema recorrente na obra escrita com o próprio nome de Pessoa. É um
tema simultaneamente reconfortante e doloroso para Pessoa e é fácil de compreender porquê.
Fernando Pessoa viveu uma infância dita feliz até aos seus 6 anos. É com a morte do pai que a
unidade (e paz) familiar se quebra de modo definitivo e irreversível, culminando na traumática
mudança dos Pessoa para a distante África do Sul, tem o menino Fernando apenas 8 anos. Ele -
uma criança precoce, quiçá mesmo sobredotada - tinha uma consciência do que lhe estava a
acontecer e registou todos os pormenores dessa mudança na sua consciência. . Por isso a sua
infância é agridoce - se por um lado houve uma altura de verdadeira felicidade, a barreira dos 6
anos marca o princípio de uma tristeza imensa que sempre o acompanhará.
Análise:
O poema fala-nos da infância. O sujeito poético remete-nos para a alegria que rodeia as crianças
durante as suas constantes brincadeiras. Ele próprio, ao observar tamanha simplicidade e
magia, se deixa invadir por sentimentos agradáveis “Qualquer coisa em minha alma/Começa a
se alegrar”.
No entanto, esta alegria que o sujeito lírico sente, fá-lo lembrar-se da sua própria infância que,
por ter sido tão apagada de alegrias e brincadeiras, passa por nunca ter existido, algo que ele
frisa bem: “E toda aquela infância/ que não tive...”
Com uma pontinha de nostalgia, o eu poético termina com uma quadra mais complexa, mas que
se traduz simplesmente. Já que ele não sabe bem o que chamar à sua infância pobre em afeto,
se não se reconhece no próprio passado, nem sabe quem virá a ser no futuro – tudo o que ele
pode fazer é imaginar, adivinhar, ter uma visão, então, resta-lhe sentir a alegria e a felicidade
que lhe invadem o coração quando, no presente, observa as crianças contentes.

Nostalgia da infância:
Face à incapacidade de viver a vida, o “eu” refugia-se numa infância mítica, uma idade de
inocência, uma idade na qual ainda não se pensa e por isso tudo é possível. Esta felicidade que
as crianças experimentam, devido à sua inconsciência e à inconsciência das suas ações contrasta
com a infelicidade vivida pelo sujeito poético.
O sonho e a infância são os únicos momentos de felicidade para o sujeito poético, que ve neles o
paraíso perdido.
Recursos expressivos de Fernando Pessoa:

Hipérbato – consiste na separação de palavras que pertencem ao mesmo segmento por


outras palavras não pertencentes a este lugar:

. Autopsicografia – última estrofe

. Perífrase – consiste em utilizar uma expressão composta por vários elementos em vez
do emprego de um só termo:

. Autopsicografia – “Os que lêem o que escreve”

. Metáfora – consiste em igualar ou aproximar dois termos que pertencem à mesma


categoria sintáctica mas cujos traços se excluem mutuamente.

. Autopsicografia – “Gira, a entreter a razão/Esse comboio de corda”

. Ela canta, pobre ceifeira – “E há curvas no enredo suave”

. Aliteração – repetição do(s) fonema(s) inicial(ais) consonântico(s) de várias palavras


dispostas de modo consecutivo.

. Isto – “Eu simplesmente sinto/Com a imaginação/Não uso o coração”

. Ela canta pobre ceifeira – “limpo” e “limiar”


. Antítese – ou contraste, consiste na oposição de duas palavras, expressões ou ideias
antagónicas, no intuito de reforçar a mensagem.

. Isto – antítese: sentimento (coração) – pensamento (razão)

. Ela canta pobre ceifeira – “pobre ceifeira/julgando-se feliz”

. Adjectivação – utilização de quantificadores para atribuir qualidades a substantivos.

. Ela canta pobre ceifeira – “pobre”; “feliz”; “anónima”; “alegre”

. Comparação – consiste na aproximação entre dois termos ou expressões, através do

elemento linguístico comparativo, proporcionando o destaque do primeiro elemento ou


termo.

. Ela canta pobre ceifeira – entre o canto da ceifeira e o canto de ave

. Apóstrofe – ou invocação consiste na nomeação apelativa de chamar ou invocar pessoas


ausentes, coisas ou ideias.

. Ela canta pobre ceifeira – “Ó Céu! Ó campo! Ó canção!...”

. Personificação – consiste em atribuir propriedades humanas a seres inanimados ou


irracionais.

. Ela canta pobre ceifeira – “…tornai/Minha alma vossa sombra leve!”

. Pleonasmo – consiste na manifestação da redundância. Esta existe quando as

manifestações tomam a forma, a nível semântico, da repetição do mesmo significado


por dois significantes diferentes na mesma expressão.

. Ela canta pobre ceifeira – “Entrai por mim dentro!”

. Hipálage – consiste na transferência de uma impressão causada por um ser para outro

ser, ao qual logicamente não pertence, mas que se encontra relacionado com o
primeiro.

. O menino de sua mãe – “No plaino abandonado”

. Gradação – consiste na apresentação de vários elementos segundo uma ordenação, que


pode ser ascendente ou descendente.

. O menino de sua mãe – “Jaz morto, e arrefece/Jaz morto, e apodrece”

. Sinestesia – consiste na mistura de dados sensoriais que pertencem a sentidos


diferentes. Deste facto pode resultar uma expressividade muito original e inesperada.

. Ela canta pobre ceifeira – “A tua incerta voz ondeando”

Recursos expressivos de Cesário verde:


 «Ela apregoa, magra, enfezadita, / As suas couves repolhudas, largas.» («Num bairro
moderno»)- Antítese
 «[…] porque sinto / Que me tornas prestante, bom, saudável.» - Tripla adjetivação
 «brancuras quentes» («Num bairro moderno») Sinestesia
 «E, como as grossas pernas dum gigante, / Sem tronco, mas atléticas, inteiras, / […]
Duas frugais abóboras» («Num bairro moderno»)- Comparação.
 «Rez-de-chaussé repousam sossegados». («Num bairro moderno»)- Hipálage
 «Mas, fina de feições, o queixo hostil» («Cristalizações») Hipálage
 «Vê-se a cidade, mercantil, contente: / Madeiras, águas, multidões, telhados!»
(«Cristalizações») - Enumeração.
 «Apagam-se nas frentes / Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco» («O
sentimento dum ocidental») - Comparação
 «A noite pesa, esmaga.» («O sentimento dum ocidental») - Metáfora
 «Semelham-se a gaiolas, com viveiros / As edificações somente emadeiradas». («O
sentimento dum ocidental»)- Comparação.