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AS REVOLUÇÕES NA AMÉRICA LATINA

CONTEMPORÂNEA
EDITORA UEM/PGH/HISTÓRIA

Programa de Pós-Graduação em História


Coordenador: Prof. Dr. Lúcio Tadeu Mota
Coordenador Adjunto: Prof. Dr. João Fábio Bertonha
Secretária: Giselle Moraes e Silva

CONSELHO EDITORIAL

Alexandre Fortes (UFFRJ)


Angelo Priori (UEM)
Cláudia Viscardi (UFJF)
Carlos Alberto Sampaio Barbosa (UNESP)
Carlos Aníbal Sabino Campora (UFM, Guatemala)
Francisco Carlos Palomanes Martinho (USP)
Gilmar Arruda (UEL)
Lúcio Tadeu Motal (UEM - Coord. Editorial)
João Fábio Bertonha (UEM)
José Luiz Ruiz-Peinado Alonso (UB, Espanha)
Solange Ramos de Andrade (UEM)
Marcela Cristina Quinteros
Luiz Felipe Viel Moreira
(Organizadores)

AS REVOLUÇÕES NA AMÉRICA LATINA


CONTEMPORÂNEA

Maringá
UEM-PGH-História
2016
EQUIPE TÉCNICA
Apoio Técnico:
Rosane Gomes Carpanese
Revisão Textual e Gramatical:
Annie Rose dos Santos
Normalização Textual e Referências:
Rosane Gomes Carpanese
Projeto Gráfico, Diagramação e Capa:
Jeferson Gonçalves de Lima

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

As revoluções na América Latina contemporânea /


M454 Marcela Cristina Quinteros, Luiz Felipe
Viel Moreira (organizadores). – Maringá, PR:
UEM-PGH-História, 2016.
289 p. : il.

ISBN 978-85-88613-07-2

1. Revoluções - América Latina - História.


2.América Latina - Revolução. I. Quinteros,
Marcela Cristina, org. II. Moreira, Luiz
Felipe Viel, org. III. Universidade Estadual
de Maringá.

CDD 23.ed. 980.03

Ficha Catalográfica: Glaucia Volponi de Souza - CRB-9/12345

COPYRIGHT © 2016 PARA OS AUTORES


Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, mesmo parcial, por
qualquer processo mecânico, eletrônico, reprográfico etc., sem a autorização,
por escrito, dos autores.

EDITORA UEM/PGH/HISTÓRIA
Editora UEM/PGH/História
Universidade Estadual de Maringá
Av. Colombo, 5790 - Bloco H-12 - sala 16
CEP 87020-90 - Maringá - PR
Sumário
Apresentação ............................................ 9

Capítulo 1 - Colombia de un Siglo a Otro: Modernidad


Elusiva, Revolución, Contrarrevolución y
Procesos Políticos Inconclusos
(1853-1953) .............................................. 13
Rafael Rubiano Muñoz

Capítulo 2 - A Violência Política na História do


Paraguai (1904-1954).............................. 77
Marcela Cristina Quinteros e Luiz Felipe Viel Moreira

Capítulo 3 - Movimiento Peronista y Revolución ..... 131


Damián H. Antúnez

Capítulo 4 - Venezuela, Turbulências de uma


Economia Petroleira............................... 171
Gilberto Maringoni

Capítulo 5 - Pela Pátria e Pela Liberdade: A Nicarágua


e o Sandinismo no Século XX .............. 201
Raphael Nunes Nicoletti Sebrian

Capítulo 6 - A Revolução Boliviana ..........................249


Everaldo de Oliveira Andrade

Sobre os autores ...................................288


APRESENTAÇÃO

Uma introdução a este livro sobre “As revoluções na América La-


tina Contemporânea” é uma justificativa a limites conceituais e à escolha
de alguns casos. Na Europa Ocidental, as transformações que romperam
com o Antigo Regime, em fins do século XVIII, concretizaram-se em um
conjunto de revoluções ditas liberais. As mudanças lá operadas incidiram
no continente americano poucas décadas depois, amparando um processo
que culminou nas lutas de independência das colônias hispânicas. As rup-
turas na história ao longo do século XIX, com movimentos transgressores,
passaram a estar balizadas pelas ideias socialistas e comunistas no século
XX. Os países latino-americanos defrontaram-se com essas experiências,
e qualquer historiador claramente enumeraria, mesmo que de forma intui-
tiva e sem maior aprofundamento sobre o tema, os movimentos contempo-
râneos mais conhecidos:
A revolução mexicana, pelo fato de ter sido a primeira revolução de
cunho social a acontecer na América Latina, entre 1910 e 1917. Independen-
te do debate historiográfico atual, enfatizando ou negando seu aspecto re-
volucionário, tratou-se sim de uma revolução de caráter nacional, popular
e agrário e que, portanto, representou uma ruptura na história mexicana.
A revolução guatemalteca, de outubro de 1944, que depôs a prolongada
ditadura de Ubico (1931-1944), inaugurou uma década de mudanças sem
precedentes, inclusive uma ambiciosa reforma agrária até sua ruptura, em
1954, e tem que ser vista necessariamente dentro do contexto do início da
Guerra Fria e da influência dos interesses norte-americanos. A revolução
cubana de 1959, que animou amplos setores das esquerdas latino-ameri-
canas a tomarem essa opção como caminho ao socialismo pelo exemplo
de sucesso da luta armada em termos de estratégia política. Já a senda
democrática para o socialismo do Chile, iniciado em 1970, poderia se tornar
um novo modelo revolucionário, com forte apelo às sociedades de sólidas
tradições democráticas, mas foi truncada por um violento golpe de Estado,
em 1973. A revolução salvadorenha, da década de 1980, trouxe outro ele-

9
mento de análise imprescindível a ser levado em conta, e que é a figura da
Igreja Católica e sua ação pastoral desenvolvida sob a rubrica da Teologia
da Libertação, contribuindo para um poderoso movimento sociopolítico
que terminou em violência e mudanças geopolíticas regionais no contexto
de final da Guerra Fria.
O desenlace de impasses e disputas gestados muitas vezes em dé-
cadas de contradições nas sociedades latino-americanas, e que tem como
base as históricas injustiças e as profundas desigualdades na distribuição
da renda, nem sempre terminou em crises revolucionárias, como interpre-
ta a historiografia para os casos referidos. Entretanto, reformas e modi-
ficações econômico-sociais, de diferentes intensidades e marcadas pelo
signo da violência política, foram um denominador comum a quase todas
as histórias nacionais. E é dessas experiências, independente do potencial
transformador das estruturas sociais que puderam alcançar, que queremos
tratar neste livro com o estudo de alguns casos não tão conhecidos ao lei-
tor brasileiro.
No primeiro capítulo, o professor colombiano Rafael Rubino Munõz
justamente trabalha um período relativamente longo, um século. Em Co-
lombia de un siglo a otro: Modernidad elusiva, revolución, contrarevolución
y procesos políticos inconclusos (1853-1953), o autor, no marco de duas
conjunturas, a de 1863-1886 e a de 1934-1953, procura ver como se buscou
transformar as estruturas e as mentalidades do país. E isto ocorreu em um
campo minado, onde a oposição, a divergência e as diferenças se resolviam
mediante o extermínio, a cadeia ou o exílio. Um trabalho importante para
pensarmos a espiral que culminará nas lutas de guerrilha de esquerda a
partir da década de 1960.
A temática da violência política é que permeia o segundo estudo,
relativo ao Paraguai. Seus autores, a professora argentina Marcela Cristina
Quinteros e Luiz Felipe Viel Moreira, abordam em A violência política na
história do Paraguai (1904-1954), meio século crucial na história desse país
mediterrâneo, com seus cenários de guerras civis, golpes e “revoluções”.
Com o golpe de Estado de 1954, a violência ganhou uma nova roupagem,

10
institucionalizando-se no cotidiano da sociedade paraguaia, expressa no
mais longo governo militar da história da América, ultrapassando a própria
queda do ditador Stroessner, em 1989.
No terceiro trabalho, Movimiento peronista y revolución, o profes-
sor argentino Damián H. Antúnez propôs não trabalhar um “acontecimento
revolucionário em si”, ou um “ciclo revolucionário”, algo problemático na
discussão historiográfica argentina. O estudo de caso viria pelo “discurso
sobre a revolução” empreendido por um movimento político que foi um di-
visor de águas na Argentina contemporânea, o peronismo, no período que
vai de 1955 a 1976. A análise considerando o enlace do Movimento Pero-
nista e seus significantes “revolução, doutrina, povo, trabalhadores, pátria,
argentinos ...” procura ver como esse corpo discursivo ganhou novos sig-
nificados com o golpe de Estado de 1955, que depôs Perón quando de sua
segunda presidência.
O quarto capítulo é sobre a Venezuela, de autoria do professor Gil-
berto Maringoni. Em Venezuela, turbulências de uma economia petroleira,
o autor enfatiza a história econômica contemporânea desse país exporta-
dor de petróleo para podermos entender dois momentos de quase rupturas
estruturais, 1989 e 2002, e suas marcas na atualidade com o chavismo.
O quinto e o sexto estudos de caso, referentes à Nicarágua e à Bo-
lívia, retomam as revoluções paradigmáticas consagradas pela historiogra-
fia. Em Pela Pátria e pela Liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século
XX, o professor Raphael Nunes Nicoletti Sebrián analisa o movimento san-
dinista, projeto revolucionário que teve início nos anos 1920-1930 articu-
lando demandas nacionais e o combate ao imperialismo dos EUA. Como
processo revolucionário, e inspirado em Cuba, chega aos acontecimentos
de 1979, quando o movimento feito por guerrilheiros esquerdistas derrubou
a longa ditadura de Somoza, depois de haver liderado uma maciça insur-
reição popular. Sua vitória desencadeou uma série de lutas na década de
1980, em particular em El Salvador e na Guatemala, e tornou toda a região
da América Central o foco de combates internacionais entre revolucioná-
rios e contra revolucionários.

11
Por fim, o caso boliviano. O professor Everaldo de Oliveira Andrade,
em A revolução boliviana, aborda como a revolução de 1952 significou uma
mudança histórica para a Bolívia. E embora tenha alcançado desdobra-
mentos nos limites do reformismo nacionalista, o processo revolucionário
teve perspectivas socialistas concretas.
Assim, estamos frente a estudos diversos, de movimentos transfor-
madores e mesmo transgressores, que se deram não apenas em períodos
históricos relativamente curtos. Algumas experiências com potencial de
mudança das estruturas sociais de alcances limitados, mas que não deixam
de ser revolucionárias, pois a violência amparou minimamente alterações
no status quo. Talvez não possamos conceituá-las como as clássicas re-
voluções com “R” maiúsculo, mas identificá-las como revoluções de baixa
intensidade. O sociólogo jamaicano Stuart Hall, um dos fundadores da New
Left Review, em um comentário afirma que a única teoria que vale a pena
ter é aquela com a que se tem de lutar, e não aquela na qual falamos com
fluidez profunda. Creio que é um bom caminho ao pensarmos o conceito de
revolução, no qual não fizemos uma discussão nesta introdução, mas que
usamos como um grande guarda-chuva para tudo conter, começando pelo
próprio título do livro. Os autores em parte darão pistas, mas cabe a vocês,
leitores, também comprar essa briga.

Marcela Cristina Quinteros


Luiz Felipe Viel Moreira
(Organizadores)
1
12
1
Capítulo
COLOMBIA DE UN SIGLO
A OTRO: MODERNIDAD
ELUSIVA, REVOLUCIÓN,
CONTRARREVOLUCIÓN
Y PROCESOS POLÍTICOS

PRESENTACIÓN
INCONCLUSOS
(1853-1953)
Rafael Rubiano Muñoz

El presente capítulo tiene por objetivo cen-


tral hacer un análisis sobre los principales procesos
políticos de Colombia de un siglo a otro. Como se
observará, desde el momento de las independencias
hasta la primera mitad del siglo XX, los proyectos de
construcción nacional fueron dirigidos por las elites
militares, hacendarias, eclesiales, comerciantes, in-
dustriales y bancarias, quienes intentaron instaurar
algunos procesos de cambio y transformación, de
orden y de identidad, cuyas direcciones se movieron
en dos ámbitos que se pueden distinguir a través del
binomio de la revolución a la contrarrevolución.
As Revoluções na América Latina Contemporânea

En este capítulo el punto de partida es el año de 1853. A partir del


gobierno de José Hilario López (1849-1853) se realizaron algunas reformas,
de tinte liberal que transformaron el país. Las dos de mayor realce fueron,
el de la libertad de esclavos en 1851 y en 1853 se alentó la descentralización
política que se ejecutó en 18571. Se eligen estos años, porque fueron cru-
ciales en la conformación de la nacionalidad colombiana y desembocaron
en las transformaciones que diez años después, con la instauración de la
Constitución de Rionegro (1863)2, el país partía su historia en dos. Luego de
variadas guerras civiles y de la dominación de la casta militar independen-
tista, además de la sobrevivencia del modelo político colonial hispánico, de
las luchas entre las elites emergentes de hacendados y comerciantes, algu-
nos de los líderes del liberalismo llamados con burla como los miembros del
“Olimpo radical”, en contra del régimen que los precedían, establecieron
una nación Federalista y Moderna, progresista y ultraliberal.
Se organizaba la nación bajo la denominación de los Estados Unidos
de Colombia y se fundaba un régimen democrático y de derecho que ga-
rantizaba las mayores libertades, de movilidad, de trabajo, de pensamiento,
de opinión, conformaron un sistema laico y secular que se oponía o iba en
contra de un dominio político de castas, cerrado burocráticamente, protec-
cionista y eclesial. Era una postura política que insinuaba la formación de
un país orientado hacia la modernidad política y jurídica, que era impulsado
bajo los principios de Laissez faire y el Laissez passer, sistema frente al cual
se opuso una casta hacendaria, católica y de raigambre hispánica, conoci-
da como La Regeneración.
Tras la Constitución de 1863, en el país se establecieron algunas
reformas sociales y políticas que causaron algunas transformaciones en
ciertas de la nación, en las instituciones políticas y en la ciudadanía en ge-
neral, porque se pretendió cambiar las mentalidades de los habitantes en

1 Jaramillo Uribe, Jaime. “Etapas y sentido de la historia de Colombia”. En: Colombia Hoy. Bogotá:
Siglo XXI, 1978.
2 La Constitución de 1863 se conoce como la Constitución de Rionegro porque fue firmada en
la ciudad que lleva su nombre, en la región de Antioquia, ubicada geográficamente en la zona
central de los Andes.

14
CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

el territorio del país, superar el pasado católico e hispánico y constituir una


nación orientada al trabajo, la ética capital y la producción. Entre otros ob-
jetivos, se fomentó el desarrollo económico y se alentó el progreso cultural,
al decretar la educación laica y gratuita, aumentar la alfabetización e incor-
porar el país a las vanguardias y corrientes de pensamiento a nivel mundial.
Muchos de los presupuestos reformistas del liberalismo federal fue-
ron revertidos en dos años específicos, el de 1885 y el de 1886. Frente a
los líderes liberales se consolidó una elite conservadora – de hacendarios
y comerciantes también pero católicos – primordialmente una “casta de
notables y gramáticos”, quienes en primera instancia propiciaron una gue-
rra civil en 1885, que derrotaba y excluía a los sectores y grupos liberales
avanzados representativos del Federalismo e imponía un año después, una
Constitución, la de 1886, concebida como un instrumento jurídico político
que constituía un régimen centralista, autoritario y presidencialista, con
principios que se apoyaban en los ideales hispánicos medievales y en un
orden social ultrareligioso y católico en lo moral.
En Colombia se pasó entonces del liberalismo al ultracatolicismo en
dos décadas a finales del siglo XIX. No obstante, un siglo después, en 1953,
se produjo un golpe de Estado, abanderado por el general Gustavo Rojas
Pinilla. Después de dos décadas en que se procuró en el siglo XX de nuevo
transformar las estructuras y las mentalidades del país, desde 1934, con
el programa gobierno del líder populista liberal, Alfonso López Pumarejo
que se conoció como “La Revolución en marcha” (1934-1938; 1942-1945),
el entonces General Rojas, ocupó el solio presidencial, mediante un golpe
que algunos llaman de opinión, el 13 de junio de 1953. Pero el suceso políti-
co se desenvolvió tras un vaivén de confrontaciones ideológicas entre las
derechas, los liberales y las izquierdas.
La dictadura rojista se impuso bajo un ambiente de contrariedades,
de disputas y de odios enconados. El 9 de abril de 1948 se produjo el ase-
sinato del líder populista Jorge Eliecer Gaitán, se intensificó la guerra civil
y la violencia por el campo y las ciudades, con crímenes de Estado y con
el impulso de grupos armados extraestatales. La contienda que parecía

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As Revoluções na América Latina Contemporânea

irreconciliable, aumentó la discrepancia ideológica entre las izquierdas, las


derechas, los liberales y los conservadores y años después se consolidó el
régimen ultraconservador, protofascista y de derecha en el país, liderado
por Laureano Gómez en su presidencia de (1949-1951). En este entorno, la
persecución, el señalamiento, la vindicación, el destierro o el exilio fueron
recurrentes en un país donde la oposición y el debate abierto eran inexis-
tentes.
Bajo esas dos coyunturas, de un siglo a otro, son perceptibles varios
elementos de análisis que si se comparan con Latinoamérica, ofrecen algu-
nas claves para entender los principales procesos políticos de Colombia.
Lo primero, que de 1853 a 1953, el país se orientó hacia algunos intentos
de revolución, de reforma y cambio, y desde otro ángulo se precipitó hacia
un orden en que primó la contrarrevolución; primero bajo el régimen proto-
fascista de Laureano Gómez, contradictor y opositor de la “Revolución en
marcha” y luego bajo la instauración del golpe militar de Rojas Pinilla. Lo
segundo, como se reflexionará en este capítulo, en el marco de dos coyun-
turas; la de 1863-1886 y luego de 1934 a 1953, la democracia, las reformas
sociales, el progreso cultural, la modernidad, los derechos y las libertades,
la individualidad y otros factores como la integración social, la legalidad, la
seguridad social y personal se suspendieron o fueron eludidos o posterga-
dos, dejando algunos asuntos de la política del país inconclusos.
Lo que es notable, de un siglo a otro en Colombia, es cómo no se
ha podido consolidar la democracia como régimen o como mentalidad3. Es
muy notorio también que en el terreno de la integración nacional y en el
campo de lo ideológico político, la oposición, la divergencia y las diferen-
cias, se resolvían mediante el exterminio, la cárcel, el exilio o la violencia.
Otro de los elementos de análisis que surgen ante la interpretación de un
siglo de procesos políticos del país, es que la guerra ha sido un elemento
o un factor consustancial de la constitución de la identidad y de su nacio-
nalidad, y de otro lado, que la legalidad y la ilegalidad, la institucionalidad

3 Friedrich, Carl J. Democracia como forma política y como forma de vida. Madrid: Técnos, 1961.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

y las violencias, la democracia y la anarquía han convivido en lo que en los


últimos años se ha concebido desde la sociología política como el “Almen-
drón”4 o sea, una coexistencia del orden y la violencia, o de lo funcional
racional con formas de irracionalidad.
¿Pero bajo qué óptica analítica o bajo qué presupuestos de reflexión
es posible hacer comprensible ese largo siglo del país? Si se hace una revi-
sión de la producción historiográfica del país en ese siglo, se puede asegu-
rar que ha dominado la investigación positivista de la historia, toda vez que
ha sido preponderante la descripción empírica de los hechos, fenómenos,
actores y estructuras históricas, y ha sido menos visible la historia con in-
tención interdisciplinaria u orientada hacia la historia cultural en clave so-
cial o política. El dominio de la historia documentalista o archivística ha sido
prevalente en la interpretación de ese siglo del país e igualmente han sido
recurrentes algunos prejuicios que están ligados a análisis socioeconómi-
cos, a tendencias étnicas, o regionales o a disputas incluso intelectuales o
paradigmáticas.
No obstante, algunos esfuerzos individuales como el de Manuel An-
cízar5 en el siglo XIX o colectivos con la Nueva Historia de Colombia de
1982, han intentado brindar un panorama historiográfico del país bajo una
óptica heterodoxa e interdisciplinar, como lo revela Reyes Posada en el pró-
logo a una compilación de reciente data:
“El lector tiene en sus manos un compendio de ensayos elaborado a
partir de una significativa cronología sobre el desarrollo histórico de Colom-
bia desde tiempos inmemoriales hasta el presente… Se trata de un proyec-
to que tiene interesantes antecedentes en otros intentos antológicos, entre
cuyas tempranas manifestaciones puede mencionarse el objetivo final que
perseguía la Comisión Corográfica de mediados del siglo XIX – dirigida por
Agustín Codazzi-, que no era tan sólo levantar la carta geográfica del país
en cada una de sus regiones, sino también investigar sobre su historia y

4 Gómez Buendía, Hernando. ¿Para dónde va Colombia? Bogotá: Tercer Mundo, 1999.
5 Loaiza Cano, Gilberto. Manuel Ancízar y su época (1811-1882). Biografía de un político hispa-
noamericano del siglo XIX. Medellín: Clío, 2004.

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As Revoluções na América Latina Contemporânea

su cultura, sus recursos económicos y sus posibilidades de desarrollo, tal


como lo inició uno de sus principales colaboradores, Manuel Ancízar, en
La Peregrinación de Alpha, un escrito que se anticipó a las investigaciones
sociológicas de la segunda mitad del siglo XX”6.
Dichos esfuerzos han sido loables, tanto algunos del siglo XIX como
los que se han indicado del siglo XX. Pero no han podido escapar a la ca-
misa de fuerza de la cronología, la temporalización y la archivística o docu-
mentación. Igualmente han sido dominantes en la historiografía las ópticas
de la linealidad, por ejemplo la noción del cambio ha prevalecido y se ha
impuesto una concepción unilateral del tiempo histórico que se reafirma si
se revisan los contenidos curriculares de algunos programas de historia de
las universidades más prestantes en la nación, en la que se constata que es
poca o nula la enseñanza interdisciplinaria y se ha impuesto la especializa-
ción del oficio con muy poca interacción con las ciencias sociales.
Si bien, La Nueva Historia del Colombia, precedido de la publicación
en 1982 del Manual de historia de Colombia editado por el Instituto Colom-
biano de Cultura y Procultura, dirigido por el reconocido historiador Jaime
Jaramillo Uribe han sido dos de las obras más consultadas y difundidas, no
obstante, se puede considerar que ya han transcurrido más de tres déca-
das y que realizaciones similares no han aparecido en el horizonte del país.
Con todo, y ello es un punto de polémica y de discusión, hasta ahora la
historiografía colombiana se ha estancado en las herencias de una historia
regional y nacional, sin que se vea o se pueda atisbar en el horizonte, la
posibilidad de un diálogo histórico con latinoamericano.
Valga reiterar que los estudios históricos comparados son casi
inexistentes y es menester agregar que trabajos de investigación dirigidos
a emplear nuevas metodologías, a utilizar conceptos y categorías con rigor,
o a observar la historia contrastando épocas, tiempos, geografías, culturas
y sociedades no son usuales o corrientes. Así mismo, dirigirse a dialogar
o vincular la historia propia con contextos y temporalidades de América

6 Reyes Posada, Carlos José. “Prólogo”. En: Historia de Colombia. Todo lo que hay que saber.
Madrid: Taurus, 2006.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

Latina, son escasos y no pocos que se han realizado resultan extraños o


exóticos.
Todo lo anterior es inadmisible, en un medio continental como el de
América Latina en el que se ha erigido una tradición científica edificada por
hombres como Sergio Bagú7, José Luis Romero8, Rufino Blanco Fombona9,
Mariano Picón Salas10, Jorge Basadre11, Mario Góngora12, quienes no sola-
mente han logrado fundar las bases de una ciencia social latinoamericana,
también han acometido la investigación de nuestras sociedades con pro-
piedad y con solvencia, con una amplia visión interdisciplinaria entre otros
aspectos, que le ha dado independencia y autonomía frente a la domina-
ción científica centro europea, entre otras realizaciones. Sin embargo, esos
nombres reconocidos en el continente, apenas son leídos o nombrados en
nuestros medios universitarios, no son conocidos a profundidad y menos
aún se los tiene como objeto de continuo estudio en nuestro país.
Aludir a esta tradición latinoamericana es pertinente para situar los
problemas de la investigación histórica en Colombia. Como se puede co-
legir de lo anterior, la historia y la investigación historiografía en el país se
enseñan y se aprenden de espaldas a dicha tradición continental, por pre-
juicios arraigados en la concepción positivista ya señalada, pero con mayor
énfasis se debe a hábitos y rutinas de estudio arrinconadas por incomuni-
cación con otras ciencias sociales o por prejuicios regionales o culturales.
Sin embargo, el historiador argentino José Luis Romero refiriéndose

7 Bagú, Sergio. Economía de la sociedad colonial. Ensayo de historia comparada de América


Latina. Buenos Aires: El Ateneo, 1949 y Estructura social de la colonia. Ensayo de historia com-
parada de América Latina. Buenos Aires: El Ateneo, 1952.
8 Luna, Félix. Conversaciones con José Luis Romero. Sobre una Argentina con historia, política
y democracia. Buenos Aires: Sudamericana, 1986. Pp. 16-38; De historia a historiadores. Ho-
menaje a José Luis Romero. México: Siglo XXI, 1982 y Burucúa, José Emilio; Devoto, Fernando;
Gorelik, Adrián. Vida histórica, ciudad y cultura. Buenos Aires: Unsam, 2013.
9 Blanco Fombona, Rufino. Ensayos Históricos. Caracas: Biblioteca Ayacucho, 1981.
10 Picón Salas, Mariano. Viejos y nuevos mundos. Caracas: Biblioteca Ayacucho, 1983 y Europa-
-América. Caracas: Monte Ávila, 1996.
11 Basadre, Jorge. Perú: problema y posibilidad y otros ensayos. Caracas: Biblioteca Ayacucho,
1992 y La multitud, la ciudad y el campo en la historia del Perú. Lima: Huascaran, 1947.
12 Góngora, Mario. Historia de las ideas en américa española y otros ensayos. Medellín: Universi-
dad de Antioquia, 2003.

19
As Revoluções na América Latina Contemporânea

a su libro Latinoamérica: las ciudades y las ideas (1976), propuso la cons-


trucción de la historia de nuestro continente y para realizarlo sostuvo que
era imprescindible pasar de las historias patrias o nacionales cifradas en
hechos o acontecimientos, en personajes o fechas conmemorativas, y exi-
gió una manera de pensar la historia13, bajo una noción diversa del tiempo
histórico y con un ángulo que requería desmonopolizar la percepción his-
tórica del prejuicio positivista e iluminista14.
Para Romero por ejemplo, la primacía por reconstruir y capturar el
cambio dejaba de lado en el oficio del historiador la posibilidad de investi-
gar otros fenómenos, más lentos y perdurables, como aquellos vinculados
al no cambio. La posibilidad de investigar la larga duración y hacerla com-
prensible a través de temas o problemas disímiles que se pueden vincular
con problemas sociales y culturales era una de las tareas entre otras esen-
ciales de la mirada renovada del historiador latinoamericano.
En el 2009, se realizó un seminario en la Universidad de San Mar-
tín, Argentina, conmemorando los cien años del nacimiento de Romero. En
este evento se hizo una revisión y revaloración de la obra del argentino,
además de destacar sus aportes a la investigación científica de la historia y
a las ciencias latinoamericanas. Pero para poder enlazar los problemas que
venimos argumentando sobre la historia en Colombia, vale señalar como
lo hace Omar Acha en la única biografía intelectual existente de Romero,
que pese a que el argentino no dejó mucha información sobre sus obras y
personalidad intelectual, comenta Acha cómo fue que Romero introdujo
ante todo una novedad en los estudios históricos latinoamericanos y cómo
fue que logró construir una visión de la historia del continente desde la uni-
dad y a partir de unas percepciones que no se encasillaban en las historias
patrias o político nacionales, sino añadía las historias sociales y culturales
a la historiografía política.

13 Romero, José Luis. La Vida Histórica. Buenos Aires: Sudamericana, 1988. Pp. 79-82.
14 Romero, José Luis. Pensamiento Conservador (1815-1898). Caracas: Biblioteca Ayacucho, 1978.
Pp. 9-10 y Situaciones e ideologías en América Latina. Medellín: Universidad de Antioquia,
2001. Pp. 7-14.

20
CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

Agreguemos para el lector, como lo demuestra Acha en la biografía


sobre Romero, que podemos igualmente argumentar que las imágenes de
América Latina en el argentino no se produjeron en la cabeza propiamen-
te del creador, sino también, concurrieron sin duda, algunas experiencias
individuales que son obligadas para poder aproximarse comprensivamen-
te a sus esfuerzos de formación, así mismo de creación y de producción.
Son de resaltar con insistencia, los viajes15 que hizo, el exilio16, las redes y
sociabilidades intelectuales17 y una sed inquebrantable de conocimiento18.
Ahora bien, para quienes lo conocieron de cerca fueron ineludiblemente los
problemas argentinos19, los que en mayor medida alentaron su curiosidad
sobre los asuntos latinoamericanos. En la biografía intelectual de Romero
escrita por Omar Acha se indica esta circunstancia de modo constante en
todo el libro, por ello expresa que:
“La concepción historiográfica de Romero tuvo una expansión
propia, irreductible al devenir de la disciplina histórica en la Argentina de

15 La experiencia de viajero y transeúnte caracterizó en gran medida la reflexividad y la cons-


trucción analítica de sus obras; especialmente, el conocimiento de lo urbano, la colección
de planos y fotografías de las ciudades o las guías turísticas que coleccionaba y estudiaba e
incluso figuran las entrevistas con personajes de la vida cotidiana. véase también Botana R.,
Natalicio. “Una relectura de Latinoamérica: las ciudades y las ideas de José Luis Romero”. En:
José Luis Romero. Vida histórica, ciudad y cultura. Buenos Aires: Unsam, 2013. p. 187.
16 El desprecio, la marginalidad y la exclusión, fueron las notas circunstanciales de la obra de
Romero, más valoradas en su momento en el exterior que en la propia Argentina y toda Latino-
américa. La brumosa recepción en nuestro medio sobre su historiografía latinoamericana se
ha ido despejando en dos décadas paulatinamente. Tulio Halperin Donghi. “José Luis Romero:
Una cierta idea de la Argentina”. En: José Luis Romero. Vida histórica, ciudad y cultura. Buenos
Aires: Unsam, 2013. Pp. 14-15.
17 En su propio país, para utilizar una recurrencia metafórica, el exilio – por dentro – que se
expresó en cierto aislamiento en largos lapsos, explica lo que de algún modo experimentó
Romero, se prescindió de su creación, producción y estampa intelectual, que a contracara
fortaleció su unión y comunidad con pequeños grupos que rodearon su figura personal y su
proyecto historiográfico. Lo señala y reseña en detalle constantemente en su estudio de bio-
grafía intelectual Omar Acha. La trama profunda. Historia y vida en José Luis Romero. Buenos
Aires: El cielo por asalto, 2005. Pp. 43-83.
18 Sergio Bagú en su homenaje a Romero expone sobre las calidades y las cualidades del colega
argentino y compone su imagen como la de un intelectual humanista y socialista caracteriza-
do por “una inagotable sed de conocimiento”. “José Luis Romero: Evocación y evaluación”. En:
De historia e historiadores. Homenaje a José Luis Romero. México: Siglo XXI, 1982, pp. 27-28.
19 Blanco, Alejandro. “José Luis Romero y Gino Germani: la inmigración masiva y el proyecto
de una comprensión histórico-sociológica de la Argentina moderna”. José Luis Romero. Vida
histórica, ciudad y cultura. Buenos Aires: Unsam, 2013. Pp. 273-291.

21
As Revoluções na América Latina Contemporânea

entreguerras. Fue el suyo, más precisamente, el clima ideológico de una


nueva generación que advenía al ejercicio intelectual en una era de incerti-
dumbres. La exigencia romántica de vincular vida, historia y conocimiento
ante un mundo que había perdido inteligibilidad. La realidad había extravia-
do su aplomo y era imprescindible reorganizar desde parámetros diferen-
tes a los que proveía, hasta entonces, una cultura burguesa gobernada por
el cientificismo y el positivismo”.
Y agrega una vez más sobre esa experiencia donde el saber y el co-
nocimiento, la vida y la sensibilidad social están mediadas y no separadas,
se compenetran en la conciencia de la formación y de la labor intelectual,
con una capacidad sintética de unir ciencia y existencia cotidiana, como
muy pocos lo podrían hacer; por eso reitera Acha:
“Esta concepción de la historia obedecía a dos motivos fundamen-
tales. En primer lugar era una reacción a la práctica erudita que – como
ideal metodológico – preponderaba en la historiografía argentina. En se-
gundo lugar, como respuesta a la percepción de una situación crítica de
la cultura occidental y de la coyuntura política argentina, contexto en el
cual la historia podía funcionar como guía preferencial de ilustración hacia
tiempos mejores. Romero denostaba la historia fáctica, desinteresada de
su entorno y literariamente reseca, incapaz de insertarse activamente en la
vida y de autorizarse a intervenciones públicas”20.
De otro lado, en su diálogo con Félix Luna, de modo reiterativo des-
taca Romero su distancia con el documentalismo- el positivismo historio-
gráfico - del que rehuyó desde muy temprano, en los años 30 cuando era
estudiante en la Universidad de la Plata21, y a consecuencia de esta actitud,
ella le significó el desprecio cuando no el recelo y prevención de no pocos
de sus colegas y conocidos. Si soslayó el determinismo histórico – del posi-
tivismo y el marxismo dominantes en el discurso científico de la época, en
específico en Latinoamérica - que exigía el objetivismo empírico y enton-

20 Acha, Omar. La trama profunda. Historia y vida en José Luis Romero. Buenos Aires: El cielo por
asalto, 2005, p. 14.
21 Ob. Cit. Luna, Félix. Conversaciones, p. 17, Pp. 26-27.

22
CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

ces no se adscribió a una línea demarcada por los paradigmas en boga, fue
como lo muestra Acha en el desarrollo de su biografía intelectual del histo-
riador argentino, por su inusitada búsqueda de autonomía, independencia
y una cierta vehemencia intelectual22.
Contando con el esfuerzo de reconocidos latinoamericanistas, Ro-
mero fue heredero de los esfuerzos que a principios de siglo hicieron Juan
Agustín García23, José María Ramos Mejía24 y Jorge Basadre25. Como lo afir-
ma en el prólogo Rafael Gutiérrez Girardot sobre las obras de estos tres
historiadores sociales de América Latina:
“Las obras de Ramos Mejía, Juan Agustín García y Jorge Basadre
abrieron involuntariamente el camino hacia una nueva historia de Hispa-
noamérica, hacia una historia social. Tienen las virtudes y los defectos de
toda obra fundacional: imprecisión terminológica, manejo de conceptos
determinados por las corrientes de la época. Los historiadores que nos las
tuvieron en cuenta pasaron por alto una riqueza que ellos mismos les hu-
bieran correspondido rectificar, acrecentar y perfilar. Esa omisión es aún
recuperable. Pero la recuperación sólo es posible cuando se tenga una vi-
sión transparente de nuestro pasado cultural y de nuestra historia, es decir,
una visión que no sólo censure y que cuando lo haga no confunda la censu-
ra con la condena; una visión que no crea que la generosidad en la aprecia-
ción de una obra del pasado es necesariamente apología o ignorancia de
la última moda. Las creaciones literarias y científicas son inevitablemente
efímeras, pero el reconocimiento de la fugacidad no puede inducir a creer
que lo que es pasado para una o dos generaciones carece de suscitaciones
para las generaciones posteriores, de las que se supone que tienen una
perspectiva más amplia”26.

22 Ob. Cit. Acha, Omar. La Trama Profunda, p.16.


23 García, Juan Agustín. La ciudad indiana. Buenos Aires: Claridad, 1933.
24 Ramos Mejía, José María. Las Multitudes argentinas. Caracas: Biblioteca Ayacucho, 2009.
25 Basadre, Jorge. Perú: problema y posibilidad y otros ensayos. Caracas: Biblioteca Ayacucho,
1992.
26 Gutiérrez Girardot, Rafael. “Prólogo”. En: Antecedentes de la historia social latinoamericana.
Caracas: Biblioteca Ayacucho, 2009. p. 24.

23
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Estos precursores, citados por Romero en sus obras latinoamerica-


nas, abrieron la brecha y ampliaron el camino de la historia social del conti-
nente; se constituyeron incluso – como el mismo Romero – en un referente
para generaciones de estudiantes en los que la heterodoxia estimulaba
romper con las rutinas o hábitos de los oficios científicos enmohecidos y
deletéreos, hartos inmóviles y domados hasta la agonía. En los años 40 y
50, estas trayectorias como la que ya Romero consolidaba con sus estudios
sobre Grecia, Roma, el mundo medieval o el feudal y burgués, en la línea de
combatir el determinismo positivista o marxista en la historiografía, fructifi-
có con uno de los maestros de la sociología latinoamericana27, Sergio Bagú,
quien como colega de Romero que fuera en la Universidad de Buenos Aires
indicaba la necesidad de una historia latinoamericana sin fragmentaciones,
particularismos o fraccionada en regiones o países disgregados. Justamen-
te es importante recabar en esa percepción que será el derrotero principal
de la imagen de América Latina de Romero, por ello Bagú afirma que:
“El estudio de nuestros pueblos desde el ángulo de la historia com-
parada arroja una luz reveladora sobre sus problemas actuales, todos los
cuales tienen alguna lejana raíz pretérita. Es por ello que la mejor compren-
sión de un proceso histórico jamás deja de tener cierta proyección contem-
poránea. Por otra parte, el método comparativo, aunque a veces puntualice
diferencias más que semejanzas, vigoriza siempre el sentimiento de proxi-
midad entre los pueblos, en particular entre los que existe un obvio parale-
lismo histórico, como es el caso de los de América Latina”28.
Si lo que Argentina como problema histórico fue en Romero capital
y vital incluso, como a otros reconocidos historiadores latinoamericanos,
ya comentados arriba, se podría esgrimir que en Colombia, es cierto, el
país visto como problema histórico ha existido entre los científicos nativos
pero no hay un esfuerzo por acercar esos problemas nacionales del país

27 Bagú, Sergio. Economía de la sociedad colonial. Ensayo de historia comparada de América Lati-
na. Buenos Aires: El Ateneo, 1949 y Estructura social de la colonia. Ensayo de historia comparada
de AméricaLatina. Buenos Aires: El Ateneo, 1952.
28 Ob. Cit. Bagú, Sergio. Estructura social de la colonia, p. 9.

24
CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

en comunión con los asuntos latinoamericanos. Hemos pretendido en esta


larga presentación dejar algunos presupuestos analíticos de debate y de
discusión sobre la visión historiográfica de nuestro país, para que se pue-
da – según los lectores de este capítulo – comprender los planteamientos
analíticos y el contenido que se ofrece en este testimonio reflexivo e incitar
a establecer la comparación y el contraste.
En este escrito partimos de la sociología histórica. Si bien ha domi-
nado la cronología y el documentalismo, la archivística y una visión positi-
vista e iluminista de los procesos políticos de Colombia, no nos estancamos
ni quedamos en esos encuadres, por el contrario la meta es vulnerarlos
y superarlos. Es de ese modo que partimos precisamente de una hipóte-
sis de interpretación y se puede decir que en un siglo, Colombia pasó de
las constituciones y reformas constitucionales, a las guerras civiles; de la
confrontación de los partidos y fracciones de partidosa las disputas por la
construcción de la nacionalidad;de las contiendas económicas que iban de
la hacienda a la incipiente formación industrial abatallas por el control del
poder político; de la administración pública a las luchas por la ciudadanía,
en fin, a batallas por la educación, la prensa, la opinión pública, entre otras.
Elites y masas, partidos y líderes personales y caudillistas, burocra-
cia y ciudadanía, entre otros actores, se vieron implicados en las contiendas
por la construcción de la nación29, lo que incita a pensar que la integración
de la sociedad ni fue moderna, pero tampoco se acrisoló en lo tradicional;
o que se estableció un orden legítimo y una identidad o poder estatal; por
el contrario, se yuxtapusieron diversas formas de orden que mezclaron lo
legal con lo ilegal, lo armado con lo jurídico, y en ello es muy pertinente citar
a Hernando Valencia Villa, quien tituló uno de sus libros: “Cartas de bata-
lla”30, aludiendo a las luchas por las constituciones y el papel de la guerra
en ellas, a la idea de orden a través de las luchas armadas y civiles, entre

29 Vilar Pierre. “Pueblos, Estados, Naciones”. En: Iniciación al vocabulario del análisis histórico.
Barcelona: Crítica. 1982.
30 Valencia Villa, Hernando. Cartas de batalla: una crítica del constitucionalismo colombiano. Bo-
gotá: Universidad Nacional, 1986.

25
As Revoluções na América Latina Contemporânea

otras reflexiones. En últimas el lector de estas páginas podrá ver que lo que
es imprescindible aquí no es necesariamente la temporalización, sino más
bien, el modelo analítico e interpretativo que se utiliza para poder descifrar
un siglo del historia del país, como se verá a continuación.

COLOMBIA EN UN SIGLO: UNA MIRADA NO CONGELADA EN


EL TIEMPO, VICISITUDES Y ALTERNATIVAS DE ANÁLISIS A
TRAVÉS DEL LENTE DE LA SOCIOLOGÍA POLÍTICA

Frente a las interpretaciones históricas congeladas y petrificadas


en el tiempo, utilizaremos una interpretación sociológica que nos permita
trazar un horizonte analítico y desde ella, poder contribuir a reflexionar en
diálogo interdisciplinario sobre los momentos más significativos de un siglo
de vida política en el país. Es por lo anterior, que el objetivo central de este
capítulo se propone brindar ante todo algunas claves de reflexión sobre el
acontecer político colombiano eligiendo los procesos más representativos
de ese siglo pero sin limitarse a su descripción plana y llana, sino por el con-
trario, proporcionándole al lector algunas guías de análisis que serán com-
plementadas con una bibliografía básica y esencial acerca de dicha época.
Obviamente se corre el riesgo de la generalidad pero esta dificultad
se compensa, provocando al lector a construir un debate y una polémica
con la reflexión histórica que se aplica aquí, a partir de un esfuerzo reflexivo
socio-político, que intenta, más que reiterar duras certezas ya dichas por la
historia oficial, lo que se propone más bien es abrir nuevas preguntas y al-
ternativas, en el escenario de las vicisitudes históricas de la nación colom-
biana. En el sentido anterior, seguimos las huellas del sociólogo de la his-
toria latinoamericana Sergio Bagú31, tal y como él las ha planteado en sus
obras cuando admite que la sociología histórica pretende la reflexión, pero

31 Bagú, Sergio. Tiempo, realidad social y conocimiento. Propuesta de interpretación. México:


Siglo XXI, 1970. Prefacio y Turner, Jorge y Acevedo, Guadalupe. Sergio Bagú. Un clásico de la
teoría social latinoamericana. México: Unam- Plaza y Valdés, 2005.

26
CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

la orienta a hurgar sobre las estructuras sociales e históricas, buscando


siempre alternativas en la acción que tiene el hombre frente ala sociedad y
es esa es, entre otras, una de las misiones o tareas que tiene el intelectual
latinoamericano de hoy32.
El marco de este capítulo se sitúa del siguiente modo. El lector que
contemple mediante un grande esfuerzo, la vida política de Colombia del
siglo XIX al XX, con precisión de 1853 a 1953, notará que en un siglo, el
país pasó de un proceso radical de modernidad política propuesto por una
generación de hacendados y comerciantes profesionales33 - conocidos
como los liberales radicales y su proyecto de federalismo fue liderado por
los miembros que se denominaron “El olimpo radical”34 (1863-1885) - a un
régimen autoritario personalista, de raíces protofascistas, impuesto por el
gobierno del ultraconservador Laureano Gómez (1949-1953)35, quien se
inspiró en el modelo hispano católico impuesto por el general Franco en
España36.
En el lapso de cien años, es perceptible con todos los matices y las
variantes que implica para Colombia, observar como lo hizo Herbert Mar-
cuse para la vida política alemana, y por extensión para el contorno político
europeo de los años que fueron de 1920 a 1940, cómo fue que se presentó
la transición política en dos décadas, frente a las cuales, en los países cen-
troeuropeos se produjo la translación de la democracia burguesa liberal al
régimen totalitario.
Según Marcuse, de una visión del racionalismo histórico, burgués
y liberal se fue imponiendo una concepción fundada en el heroísmo,

32 Bagú, Sergio. Acusación y defensa del intelectual. Buenos Aires: Perrot, 1959. p. 40.
33 Palacios, Marco. Parábola del liberalismo. Bogotá: Norma, 1999.
34 Rodríguez Piñeres, Eduardo. El olimpo radical. Bogotá: Voluntad, 1950 y Mejía Arango, Lázaro.
Los radicales. Historia política del radicalismo del siglo XIX. Bogotá: Universidad Externado de
Colombia, 2007.
35 Henderson, James. Las ideas políticas de Laureano Gómez. Bogotá: Tercer Mundo, 1990 y La
modernización en Colombia: los años de Laureano Gómez, 1889-1965. Medellín: Universidad de
Antioquia, 2006.
36 Gutiérrez Girardot, Rafael. “Sobre la República Liberal”. En: Magazín Dominical de El Especta-
dor, marzo 27 de 1988 y Gómez, Juan Guillermo y José Hernán Castilla. “Notas sobre la Repú-
blica Liberal (1936-1950)”. En: Hispanoamérica: Imágenes y Perspectivas. Bogotá: Temis, 1989.
Prólogo, pp. 6-31.

27
As Revoluções na América Latina Contemporânea

el vitalismo y el telurismo, los que pasaron de la filosofía a la política, se


trasladaron como visiones de la vida a las acciones y estructuras políticas.
Variado en escenarios y actores, este paso político se experimentó en
nuestro país, tal y como lo analizó el sociólogo alemán Marcuse con las
respectivas similitudes y diferencias, cuando muestra cómo desde las
entrañas del pensamiento liberal burgués en el siglo XX y desde la Revolución
Francesa de 1789, emergieron unas actitudes autoritarias y de derecha que
condujeron en Europa en los años 30 a un proceso político que llevó del
“liberalismo al fascismo”37. Pero ese modelo interpretativo en términos del
análisis de coyuntura y de la reflexión sociopolítica, la empleó Karl Marx si
se revisan sus obras, La luchas de Clases en Francia y El Dieciocho Brumario
de Luis Bonaparte, en las que explica el fracaso de la revolución social y la
instauración de las dictaduras caudillistas militares y autoritarias.
Ahora, desde nuestra perspectiva, si se repara con cierta destreza
analítica, los años que van de 185038 a 188639, inicialmente, es posible ver
que en Colombia el país pasó de un liberalismo ilustrado y ultraprogresista,
a una sociedad que impuso un modelo hispánico, católico, presidencialista
y autoritario. Con lo anterior se puede deducir que se transitó de posiciones
de avanzada a un régimen de reacción, o sea, del liberalismo radical del

37 Marcuse, Herbert. “La lucha contra el liberalismo en la concepción totalitaria del Estado”. En:
Cultura y Sociedad. Buenos Aires. Sur, 1970.
38 Aunque como se ha introducido en este capítulo diferimos de los historiadores oficialistas,
documentalistas o positivistas, quienes le dan preponderancia a las fechas, es dado situar las
reformas liberales de los Radicales en el año de 1851, con exactitud bajo el gobierno de José
Hilario López al decretar en 1851 la libertad de la esclavitud. López Hilario, José. “Abolición
de la esclavitud. Ley del 21 de mayo de 1851”. España, Gonzalo. Los Radicales del siglo XIX.
Bogotá: Áncora, 1984.
39 Con la guerra militar y civil de 1885 que dio la victoria al partido nacionalista de la Regenera-
ción de Rafael Núñez y Miguel Antonio Caro frente a los liberales radicales defensores de la
Constitución Federal de 1863, se cerró el ciclo de reformismo y de revolución, de modernidad
política y se impuso un régimen retrógrado, tradicionalista y de restauración conservadora
que volvía al pasado e imponía una “utopía hacia atrás” que buscaba regenerar los valores,
las costumbres, las mentalidades y las prácticas políticas heredadas del mundo colonial es-
pañol, más aún propugnaba por imponer los ideales del mundo medieval católico español.
España, Gonzalo. La Guerra Civil de 1885. Núñez y la derrota del radicalismo. Bogotá: Áncora,
1985; Sierra Mejía, Rubén. Miguel Antonio Caro y la cultura de su época. Bogotá: Universidad
Nacional, 2002; Mesa Chica, Darío. Miguel Antonio Caro: el intelectual y la política. Bogotá:
Universidad Nacional, 2014.

28
CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

Federalismo a la Regeneración. Años después, en la trayectoria de los años


que van de la pérdida de Panamá (1903), pero en particular, de 193440 a
195341, de nuevo el país derivó, de la Revolución en Marcha al golpe militar
de Rojas Pinilla. No es inconcordante alegar, como se verá a lo largo del
capítulo, que el liberalismo social y de izquierda de López Pumarejo con la
Revolución en marcha, fue lentamente destruido por tendencias ideológi-
cas políticas que se fueron haciendo más radicales y que en esta segunda
coyuntura política, el país pasó del protofascismo de Laureano Gómez a
la dictadura militar de Gustavo Rojas Pinilla, en 1953. Marchó desde una
concepción política liberal a posiciones políticas derechistas y autoritarias.
En estas dos coyunturas es perceptible cómo se dio la conforma-
ción de grupos de derecha e izquierda en varias regiones del país y de qué
modo su incidencia en la vida política mediante la opinión pública o a través
de la conspiración de ocasión42 fue inesperada a veces, o manifiesta en
otras, ellos tuvieron también una resonancia que influyeron en la ciudad o el
campo atizando las rivalidades, la confrontación y las luchas incluso arma-
das. Se puede interpretar que en estos dos períodos, Colombia se inclinó
hacia los extremos, se polarizó y se constituyó un vaivén que giró entre la

40 Con el triunfo del líder popular liberal Alfonso López Pumarejo en 1934 se abría el camino de
la segunda modernidad política en Colombia, tras años de dominación y hegemonía conser-
vadora en el siglo XX. El proyecto político de López Pumarejo concebido como “la Revolución
en Marcha” buscaba construir un Estado Social de Derecho y liberal, integrando las masas a
una concepción moderna de la sociedad y de la vida política. Tirado Mejía, Álvaro. Aspectos
políticos del primer gobierno de Alfonso López Pumarejo. Bogotá: Tercer Mundo, 1995; Molina
Gerardo. Las ideas liberales en Colombia de 1935 a la iniciación del Frente Nacional. Bogotá:
Tercer Mundo, 1978; Sierra Mejía, Rubén. República Liberal: Sociedad y Cultura. Bogotá: Uni-
versidad Nacional, 2009.
41 Galvis, Silvia y Donadio, Alberto. El Jefe Supremo. Rojas Pinilla en la violencia y el poder.
Medellín: Hombre Nuevo, 2002; Serpa Erazo, Jorge. Rojas Pinilla. Una historia del siglo XX.
Bogotá: Intermedio, 2008;
42 Ayala Diago, César Augusto. El porvenir del pasado: Gilberto Alzate Avendaño, sensibilidad
leoparda y democracia. La derecha colombiana de los años 30. Bogotá: Universidad Nacional,
2007; Arias, Trujillo Ricardo. Los Leopardos. Una historia intelectual de los años 20. Bogotá:
Uniandes, 2007, desde las derechas; y desde las izquierdas véase a Molina, Gerardo. Las ideas
socialistas en Colombia. Bogotá: Tercer Mundo, 1987; El Marxismo en Colombia. Bogotá: Uni-
versidad Nacional, 1988.

29
As Revoluções na América Latina Contemporânea

democracia y el autoritarismo43. Con todo, desde la óptica de un siglo se


puede constatar que en dos periodos sucesivos dominaron las derechas
que precipitaron la hegemonía de regímenes autoritarios, caudillistas y per-
sonalistas en el siglo XIX con la Regeneración y en el siglo XX con Laureano
Gómez44, por ello es viable asentar que Laureano Gómez reanimaba el ya
aparente agotado modelo político intransigente de Miguel Antonio Caro,
porque:
“La obsesiva idea doctrinaria que fue elaborando a través de su lar-
ga y feroz lucha contra la República liberal, contra la secularización de la
sociedad y el intervencionismo reformista, pero sobre todo contra el pen-
samiento liberal, contra la tolerancia religiosa y la libertad de conciencia,
colocó a Laureano Gómez en una situación paradójica. En efecto, se vio
favorecido en cada crisis política y en cada perturbación de la sociedad ci-
vil en la misma medida que contra él se levantaban más voces señalándolo
como directo responsable o simple instigador tribuno de esos sucesos”45.
El abuso en el lenguaje político para turbar, pero sobre todo para
descalificar, para envilecer y para degradar al contrincante, para adjetivarlo
de manera negativa fue uno entre muchas de las acciones de los líderes po-
líticos de la época, de Silvio Villegas a Gilberto Alzate Avendaño; de Jorge
E. Gaitán a Eduardo Santos, de Laureano Gómez a Gustavo Rojas Pinilla y
de muchos otros más hasta la actualidad. La bandera del escarnio público
y del descalificativo sin argumentos ha constituido la normalidad de la cul-
tura política colombiana en más de un siglo. Ahora, el dominio de los extre-
mos tuvo sin duda variantes y variables desde la izquierda a la derecha o
viceversa.
Se puede añadir además, que en ese siglo, nuestra nación constru-
yó un país que eludía la modernidad política, o por lo menos no consolidaba

43 Lo que no fue exclusivo de Colombia, basta mirar los giros en la política latinoamericana de la
época, de las democracias a las dictaduras. Rouquié, Alain. A la sombra de las dictaduras: la
democracia en América Latina. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, Buenos Aires, 2011.
44 Gómez García, Juan Guillermo. “Laureano Gómez y la República Liberal”. En: Revista Investi-
gar, No. 3, Bogotá, Enero de 1990.
45 Gómez García, Juan Guillermo y Castilla, José Hernán. “Nota sobre la República Liberal”
(1936-1950)”. En: Hispanoamérica: imágenes y perspectivas. Bogotá: Temis, 1989. Pp. 26-27.

30
CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

los fundamentos específicos de esa propuesta cifrada en la democracia di-


recta y universal, por mencionar algunos de sus rasgos; por ejemplo, en un
siglo Colombia dejó en deuda los valores de una ciudadanía participativa,
interesada en el debate y los problemas públicos, una nación secularizada,
autónoma e ilustrada, y todos aquellos otros presupuestos que implicaban
el desarrollo o el progreso político de la sociedad, valga reiterar, los princi-
pios como la libertad, la igualdad y la justicia, entre otros, fueron esquiva-
dos y aniquilados sistemáticamente.
A lo anterior se añade que en un siglo es patente observar cómo
también en Colombia, la guerra y los diversos conflictos mediaban las diná-
micas políticas e incluso fueron los intermediarios de los variados gobier-
nos que se instalaron pero que no obstante la endeblevida republicana, se
veían a veces interrumpidos e inconclusos por esos sucesos. Esta otra ca-
racterística de la existencia política del país se puede explicar debido a que
dichos gobiernos culminaban a medias o no, sus propuestas y objetivos po-
líticos, o no se podían cumplir, porque o no finalizaban sus respectivos pro-
gramas de gobierno con los periodos presidenciales o una confrontación o
conflicto armado se atravesaba, obligando a recurrir a la excepcionalidad o
a los Estados de emergencia, de modo, que la temporalidad política de los
gobiernos fueron en muchos casos interrumpidos por diferentes aconteci-
mientos que se mostrarán en este capítulo.
Lo cierto es que la vida republicana y democrática ha convivido
hasta el día de hoy con las guerras civiles, con los conflictos armados y en-
trado el siglo XX, con la violencia rural y urbana, conformando un régimen
político que se ha visto endeble, complejo y en particular, muy contradicto-
rio o quizás para muchos incomprensible. Lo común ha sido la inestabilidad
o lo que otros expertos han llamado las “ciudadanías de baja intensidad”46,
el “almendrón colombiano”47 o un régimen de “equilibrio inestable”48. Con

46 Gómez Buendía, Hernando. ¿Para dónde va Colombia? Bogotá: Tercer Mundo-Colciencias,


1999.
47 O´Donnell, Guillermo. Contrapuntos. Buenos Aires: Paidós, 1997.
48 Mols, Manfred. La democracia en América Latina. Barcelona: Alfa, 1988.

31
As Revoluções na América Latina Contemporânea

todo, es manifiesto que la connivencia entre democracia y guerra, republi-


canismo y violencia, conflictos armados-civiles y elecciones democráticas
han sido fenómenos que como lo concibió en su libro titulado “orden y vio-
lencia”49, el sociólogo francés Daniel Pécaut, son opuestos necesarios que
no se contradicen y que por el contrario, hanconstituido el rasgo singular
o el sello particular de la vida política colombiana en su existencia como
nación en más de doscientos años de vida política.

DE LA INDEPENDENCIA A LAS REFORMAS DE MITAD DE


SIGLO. COMERCIO, MERCADO Y FEDERALISMO: EL PAPEL
DE LA MONEDA Y LA RETÓRICA, LAS DOS FORMAS DEL
PODER POLÍTICO EN COLOMBIA (1853-1885)

El periodo político que comprende los años que van de 1850 a 1885
en Colombia se denominó como la etapa del liberalismo radical. Esta época
se inspiró en un ciclo de reformas y revoluciones, en particular vinculadas
con la herencia de la Revolución Francesa y los movimientos populares de
1848 en Europa50. Fue un tiempo en que surgió una generación de políti-
cos, formados en la universidad y cuya mentalidad se movía entre el interés
de la ética del trabajo y la producción, el ascenso social y económico, la
actividad empresarial y la retórica de la literatura y la política, entre otros
aspectos. Frente al dominio militar de la casta de los líderes de las indepen-
dencias se alzó un sector de políticos cuyo liderazgo fue una nueva retóri-
ca, republicana y civilista y en particular la noción del esfuerzo individual y
la idea del poder antes que de la tierra el de la circulación de la moneda y
el papel del dinero.

49 Pécaut, Daniel. Orden y violencia: Colombia 1930-1954. Bogotá: Siglo XXI, 1987.
50 Para examinar de qué modo las ideas ilustradas, de la Revolución Francesa y de los movimien-
tos populares de 1848 influyeron en el pensamiento de los radicales es pertinente seguir a
Francisco Gutiérrez Sanín.Curso y discurso del movimiento plebeyo 1849-1854. Bogotá: Univer-
sidad Nacional-Áncora, 1995; Françoise-Xavier Guerra. Figuras de la modernidad. Hispanoa-
mérica siglos XIX-XX. Universidad Externado de Colombia-Taurus, 2012 y Modernidad e inde-
pendencias. Ensayos sobre las revoluciones hispánicas. México: Fondo de Cultura Económica,
2001.

32
CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

Dicha generación no constituía exclusivamente una casta militar


guerrerista como fueron los próceres gestores de la emancipación inde-
pendentista51, protagonistas y dirigentes de las riendas del poder político
y del Estado hasta muy entrado el siglo XIX. Los miembros pertenecientes
a esta generación fueron hijos de hacendados militares, se enrolaron en la
milicia, pero no constituyó ésta su única visión del mundo, porque se for-
maron en la universidad, realizaron actividades ligadas a la exportación de
recursos naturales – la quina, el tabaco, el café - fueron además aventure-
ros que impulsaron la colonización de las regiones del país – o conocieron
las diversas regiones de nuestro territorio – y especialmente viajeros. Se
desplazaron al exterior, con prevalencia hacia los Estados Unidos o Europa
que les fascinaban por ser centros de la civilización. Asumieron que sus as-
piraciones y las ambiciones de llegar al poder político e incluso su ascenso
económico y social sólo se podía propiciar a través del Estado, así también,
el reconocimiento y su ascenso social dependía de ubicarse en esta institu-
ción, pero ante todo, pensaron e hicieron de la política un arma a partir de
las variantes que le ofrecía una visión del mundo más amplia y universalista.
Esta generación era un grupo de procedencia regional, disímil, pues,
conformó una élite ligada al comercio y al mercado, que poco a poco fue
derogando, la hegemonía de la casta militar que heredó el manejo del poder
tras el proceso independentista, ocurrido entre 1808 a 182452. Los Liberales
Radicales como fueron conocidos emergieron como líderes que alentaron
la transformación del país bajo la bandera del Federalismo y sus proyectos
se orientaron a quitarle el poder a las castas y las burocracias que here-
daron su puesto tras la colonización hispánica. Su concepción política era
de carácter anti-beligerante y civilista; y su peculiaridad fue superar – o
desterrar - la herencia hispánica tras la conquista y la colonización, razón
por la cual, atacaron las bases todavía inoculadas en el país del régimen

51 Ocampo López, Javier. El proceso ideológico de la emancipación en Colombia. Bogotá: Planeta,


1999.
52 Palacios, Marco. Las independencias hispanoamericanas. Interpretaciones 200 años después. Bo-
gotá: Norma, 2009.

33
As Revoluções na América Latina Contemporânea

español en las costumbres y en las instituciones53, por ejemplo mediante la


desamortización de bienes de manos muertas, la libertad de esclavos y la
educación laica, entre otras reformas.
Su proyecto político reformista fue propio del liberalismo decimo-
nónico, que procuraba afianzar un Estado mínimo que pudiera garantizar
los lemas del Laissez Faire y del Laissez Passer54, para lo cual, buscó desar-
ticular todas aquellos obstáculos políticos, económicos, sociales y cultura-
les que convenían en mantener no solamente las instituciones del mundo
hispánico, sino igualmente sus pensamientos y mentalidades. Entre mu-
chos de sus objetivos, el Radicalismo liberal concebía un proyecto de mo-
dernidad fundado en las virtudes del trabajo, la producción y enfatizando
en la idea del individuo y la libertad, restringiendo la injerencia del Estado
en el mundo privado y dando las bases políticas para la iniciativa empresa-
rial privada y la movilidad individual.
Pero más allá del impulso de esos valores de la modernidad política,
del fomento del individuo y del mercado, de la libertad y de la descentra-
lización administrativa, de la secularización de la sociedad a partir de la
separación del Estado y de la Iglesia, de crear las condiciones para la au-
tonomía regional y además de fomentar una ciudadanía ilustrada, activa,
participativa y representativa, el modelo Federalista buscaba romper con la
dominación de las castas militares, ligadas al mundo terrateniente y feudal,
en particular vinculadas con el mundo católico o eclesial, y además, procu-
ró desmonopolizar el poder de la tierra de las manos del clero y la Iglesia55.
Aunque no se puede hacer una división tajante como lo presumen
ciertos historiadores oficialistas colombianos56, de liberales en contra de

53 Buisson, Inge; Kahle, Günter; König Hans-Joachim; Pietschmann Horst. Problemas de la forma-
ción del Estado y de la Nación en Hispanoamérica. Bonn: Internaciones, 1984.
54 Posada Carbó, Eduardo. El desafío de las ideas. Ensayos de historia intelectual y política en
Colombia. Medellín: Banco de la República-Eafit, 2003.
55 Mantilla, Luis Carlos. La guerra religiosa de Mosquera (1861-1878). Medellín: Universidad de
San Buenaventura, 2010.
56 Nieto Arteta, Luis Eduardo. Economía y cultura en la historia de Colombia. Bogotá: Áncora,
1983.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

conservadores, de rojos contra azules57, la etapa del Radicalismo liberal


oponía una concepción del mundo desde un proyecto político democrático
burgués y buscó fomentar la autonomía en todos los niveles, en especial el
de las soberanías regionales a través del Federalismo contra la centraliza-
ción y proteccionismo anclado en el pasado colonial hispánico, en los que
no se podía generar un proceso de acumulación del capital ligado a la pro-
ducción de la tierra y a la creación de una industria nacional. Si se revisan
las principales reformas de los liberales radicales, ellos buscaban desacti-
var las trabas estatales que impedían la acción y desarrollo del individuo,
además de suprimir los privilegios que la casta burocrática instalada en el
Estado – desde la conquista y la colonización española - imponía sobre los
individuos y los ciudadanos58.
En primera instancia, las reformas del liberalismo radical estaban
orientadas a transformar el país en términos formales, valga decir, desde
la institucionalidad jurídica y política, pero sin saltar de modo íntegro las
bases sociales de un tradicionalismo en los comportamientos y la cultura
política. Dirigida mediante una nueva generación que dio el paso de cau-
dillos militares ilustrados a profesionales educados algunos en universida-
des laicas, se insertaron al incipiente proceso del comercio, incentivaron
la consolidación de la modernización económica y jurídica, enlazados aún
con prácticas políticas que provenían de las relaciones todavía del mundo
político tradicional heredado de la colonización española59.

57 Una revisión al prejuicio oficial de la historia en que se colocan en las polaridades a los li-
berales y los conservadores, véase a Helen Victoria Delpar. Rojos contra azules: El partido
Liberal en la política colombiana, 1863-1899. Bogotá: Tercer Mundo, 1994 y Abel, Christopher.
Política, Iglesia y Partidos en Colombia, 1886-1953. Medellín: Faes, 1987.
58 Las principales reformas del liberalismo radical se orientaban a cambiar el sistema tratando de
crear las condiciones que permitieran el impulso del capitalismo, el desarrollo económico y ge-
nerar el crecimiento del país, su decisivo proceso de integración al orden mundial, con reformas
como el de los impuestos directos, suprimir la pena de muerte, también la cárcel por las deudas,
fomentar el matrimonio civil y el divorcio, impulsar la educación gratuita y laica, crear las bases
de la industria nacional por la iniciativa privada, ampliar el mercado y disminuir al Estado, supri-
mir el monopolio estatal de las aduanas, apertura a las creencias religiosas, libertad de imprenta,
pensamiento y opinión, autonomía local y descentralización administrativa, como las principales.
Gilmore, Robert Louis. El federalismo colombiano: 1810-1858. Tomo I y II. Bogotá: Universidad
Externado de Colombia, 1964.
59 Jaramillo Uribe Jaime. El pensamiento colombiano en el siglo XIX. Bogotá: Temis,. 1974.

35
As Revoluções na América Latina Contemporânea

El hito de este proceso político se estableció el 8 de mayo de 1863,


cuando fue promulgada la Constitución de Rionegro conformando los Es-
tados Unidos de Colombia, que planteaba de manera azarosa un proce-
so de cambio y de reforma, incierto por la oposición de las mentalidades
conservadoras vigentes, pero no por ello, un proyecto generacional polí-
tico de estirpe utópico y de avanzada. Fue a tal punto ultraprogresista la
constitución que se dice que Víctor Hugo la llegó a denominar una cons-
titución “Para Ángeles”60. En su intención era una constitución federalista,
que sellaba los variados intentos de reforma de 1853 y 185861, en los que se
proponía un país de regiones y se le daba preponderancia a las libertades
individuales y ciudadanas en su máxima extensión. Su concepción jurídica
y administrativa concebía la necesidad de transformar dos de las institucio-
nes consideradas como la herencia negativa de la colonización española;
por un lado, la centralización y su régimen proteccionista; de otro lado, la
casta burocrática y la coparticipación en el poder político de la Iglesia en
el Estado.
En términos generales, la constitución de Rionegro de 1863 podría
considerase como una arma jurídica que expresaba las contiendas entre
las elites y el manejo del poder político en Colombia, en la que se enfren-
taron dos tipos sociales; la hacienda militar independentista y la hacienda
comercial ilustrada, tal como lo señala Marco Palacios en su texto Parábola
del liberalismo62. Los liberales construyeron una ideología que se sinteti-
zaba en el ideario de una clase en ascenso nutrida en los postulados del
liberalismo del Laissez Faire, en los que se consideraba fundamental, al in-
dividuo y al ciudadano, por lo tanto proclamaba en general, los derechos y
garantías individuales, la abolición de la pena de muerte, la libertad de pro-
piedad, imprenta, domicilio, trabajo, enseñanza y credos, pero fundamen-
talmente restringía la centralización del poder como igualmente el poder
presidencial63.

60 Melo Jorge Orlando. “Del federalismo a la Constitución de 1886”. Nueva Historia de Colombia.
Vol. I. Historia Política. 1886-1946. Bogotá: Planeta, 2001. p. 18.
61 Ibíd., p. 19.
62 Palacios Marco. Parábola del liberalismo. Bogotá: Norma, 1999.
63 Palacios Marco. La clase más ruidosa y otros ensayos sobre política e historia. Bogotá: Norma, 2002.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

Además consideraban el progreso de la civilización como base para


la integración del país a partir de la ideología burguesa del trabajo y de la
producción, alentaron un ethos que se fundaba a través de la aplicación
de la ciencia y de la técnica, no de la teología y la filosofía tomista, a los
asuntos económicos y sociales, por tanto se esforzaron en introducir la
educación laica a partir de filosofías como la del utilitarismo de Destutt de
Tracy y Bentham que chocaban con las filosofías propiamente católicas y
no seculares.
Sus convicciones se centraron en la necesidad de proletarizar el
país mediante la descomposición de las instituciones coloniales, especial-
mente la mita y la encomienda, como igualmente señalaron que la herencia
española a través de la colonización había rezagado el impulso privado de
la empresa y era el legado más negativo frente a la integración del país
en el mercado mundial. Sus líderes concebían la urgencia de integración
nacional por la vía de la creación de industrias, a través de la aplicación de
la ciencia y la construcción de una sólida infraestructura, o sea, buscaron
potenciar un proceso de modernidad y de modernización al mismo tiempo.
Quizás uno de los mayores logros de la Constitución de Rionegro fue ga-
rantizar la controversia y el conflicto político que se expresaba en validar o
garantizar la oposición política, tal y como lo señala Jorge Orlando Melo en
su texto “Del federalismo a la constitución de 1886”, cuando afirma:
“La marcha real del país, por supuesto, sólo dependía parcialmente
del sistema constitucional adoptado. Los recursos económicos del país, las
relaciones con el mundo capitalista de la época, las tradiciones y prácticas
políticas, los conflictos entre grupos sociales y económicos, todo lo que se
quiera, configuraban un contexto que influía decisivamente sobre la forma
como marchaban las instituciones políticas y sobre la historia política na-
cional. Pero la Constitución era sin duda importante, pues definía canales
precisos a la controversia política, asignaba diversos poderes a los ciuda-
danos y era, ella misma, tema de una permanente controversia”64.

64 Ibíd., p. 20.

37
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Sin embargo, muchas fueron las contradicciones que no superaron


los liberales radicales, entre ellas, los privilegios del poder dada las relacio-
nes entre las clases y la burocracia; el fraude en el sistema electoral; las
disputas de las soberanías regionales; el pluralismo de una cultura anclada
en el mestizaje; las demandas de la economía mundial; la construcción de
comunidad política y la autonomía de las libertades individuales y civiles;
el control del contrabando, las armas y el problema del castigo y la pena
de muerte, entre otras. Estas contradicciones fueron aprovechadas por los
conservadores en la oposición, quienes alentaron soterrada o de frente a
través de la prensa y la opinión pública, el descrédito del proyecto radical
y alentaron la crisis que derivó en una guerra civil en el año de 1885, que
los derrocaba e instauraba el régimen conservador de la mano de Rafael
Núñez y Miguel Antonio Caro.
Núñez y Caro, concibieron su reforma política como Regeneración
y estos dos conservadores emprendieron el camino de una “disutopía”65
que consideraba entre muchos otros proyectos, la vuelta a la herencia es-
pañola, la centralización, la sacralización del país, la censura a la prensa, la
disminución de las libertades, la contención de la oposición política, como
también imponía un régimen presidencialista que limitaba la democracia
refrendada por los liberales a través de la Constitución de 1863. El 1ro. de
abril de 1878 Núñez quien fue liberal radical y adepto a las ideas positivistas
de la época, anunciaba su melancolía política, cuando siendo presidente
del Congreso resumía su visión de la época y del país bajo la fórmula: “Re-
generación administrativa fundamental o catástrofe”. Bajo el sino de esta
actitud misional, del más allá al más acá, Núñez y Caro emprendieron el
camino de la restauración radical del mundo político conservador en Co-
lombia.

65 Gutiérrez Girardot Rafael. Temas y problemas para una historia social de la literatura latinoa-
mericana. Bogotá: Cave-Canem. 1989.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

LA REGENERACIÓN: EL MODELO POLÍTICO HACENDARIO


Y SEÑORIAL DE LA ÉLITE DEL NOTABLATO. RETÓRICA
Y PODER DE LOS GRAMÁTICOS: AUTORIDAD, MORAL Y
ORDEN (1885-1904)

Las elites políticas se involucraron en una contienda que enfrenta-


ron no solamente dos proyectos políticos disímiles; el del Federalismo y la
Centralización, sino también se confrontaron dos valores de la vida que se
contraponían. Los liberales radicales se apoyaron en el ethos del trabajo y
la producción, se orientaron hacia el mercado, propusieron el camino del
esfuerzo y la realización individual como las bases sociales del poder – del
dinero y de la retórica -, y los conservadores apelaron al ethos católico li-
derado por los adeptos de la Regeneración, quienes apelaron a la obedien-
cia y a la sumisión de los ciudadanos, apoyados además en la herencia del
mundo cristiano medieval español. No obstante, entre los partidos hubo
mezclas de quienes siendo liberales defendían el proyecto conservador de
Caro o Núñez y aquellos otros, quienes siendo conservadores defendían las
ideas del liberalismo radical. O con el tiempo el liberal se tornó en conser-
vador o el conservador en liberal.
Dicho proyecto estaba encaminado a la salvación del alma y bajo
esta percepción de la sociedad se anteponía al individuo, la comunidad de
creyentes, y por encima de la felicidad y los placeres, del dinero y él éxito,
se colocaban los valores del sufrimiento, el sacrificio y la salvación del alma
antes que el cuerpo. Lo cierto es que en esta época de 1863 a 1886 se
confrontaron dos visiones del mundo, antitéticas e incompatibles, se tradu-
jeron en la elaboración y en la promulgación de las constituciones regentes
a mitad del siglo XIX, esto es, la de 1863, hiperliberal y moderna; la de 1886,
conservadora y ultra-católica, en el contexto de un sistema republicano su-
mamente endeble66.
Pero para descifrar la incidencia que tuvo la Regeneración como
régimen y como proyecto político cultural en el país, es necesario fijar la

66 Para un balance de lo que significaron esos dos proyectos políticos en el fomento de la beligeran-
cia y en el problema que implicaba proponer un régimen o sistema político republicano, véase a
Carlos E. Restrepo. Orientación Republicana, Vols. I y II. Bogotá: Banco de la República, 1972.

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As Revoluções na América Latina Contemporânea

mirada, antes que en el pensamiento y la obra de Rafael Núñez67 o Miguel


Antonio Caro68, o en la misma constitución de 188669, es preciso centrarse
en los acontecimientos políticos que van de 1885 a 1902, contexto en que
perdura la “restauración moral” propuesta por los conservadores ultramon-
tanos contra los impíos liberales y es obligado llegar hasta la “Guerra de los
Mil días”70 (1899-1902). Para entender en toda su dimensión y complejidad
las causas y las consecuencias de la Regeneración, es exigente ir de atrás
a adelante, de otro modo dicho, de la catástrofe armada ocurrida a finales
del siglo XIX.
En un libro central sobre la transición política de Colombia a finales
del siglo XIX que llevó a la Guerra de los Mil Días71, el profesor norteame-
ricano Charles Bergquist explica qué fue lo que precipitó el derrumbe del
régimen de la Regeneración, pero al mismo tiempo, da cuenta de cuáles
fueron las causas que condujeron a su auge y despliegue. Una de la tesis
que investiga Bergquist es que las relaciones entre las clases sociales y las
ideologías era contradictoria en el pensamiento y en la práctica, ya que
se pensaba una cosa y se practicaba otra frente a la política. El alto grado
de incoherencia y de contradicción entre ideología política y acción, entre
pensar la política y practicarla fue uno de los detonantes de los conflictos
y las contradicciones del sistema político del país en un periodo convulsivo
como fue el de la transición del liberalismo radical a la regeneración con-
servadora.
Una segunda tesis muy importante para Colombia desde la óptica
de Bergquist, quizás la más central del libro, es que la discordancia de cla-
ses debido a sus divergentes intereses sobre lo político y lo económico, o

67 Sobre la figura intelectual y política de Núñez, véase a Rafael Serrano Camargo. El Regenera-
dor, vida, genio y estampa de Rafael Núñez (1825-1865) (1866-1894). Bogotá: Lerner, 1973.
68 Díaz Guevara, Marco A. La vida de Don Miguel Antonio Caro. Bogotá: Instituto Caro y Cuervo,
1984 y Torres García, Guillermo. Miguel Antonio Caro. Su personalidad política. Madrid: Gua-
darrama, 1956.
69 Valderrama Andrade, Carlos. Miguel Antonio Caro y la Regeneración. Bogotá: Instituto Caro y
Cuervo, 1997.
70 Sánchez, Gonzalo y Aguilera Peña, Mario. Memoria de un país en guerra: los mil días, 1899-
1902. Bogotá: Planeta, 2001.
71 Bergquist, Charles. Café y conflicto en Colombia (1886-1910). La Guerra de los Mil Días, sus
antecedentes y consecuencias. Bogotá: Áncora, 1999.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

mejor, sobre el poder político y los vaivenes frente a las circunstancias eco-
nómicas, generaron conflictos insolubles, porque la posición de las clases
reñía a veces con quienes defendían su lugar desde las tradiciones y quie-
nes presionaban en su ascenso por romper con esas tradiciones y asentar
los valores de la modernidad. Una de las consecuencias de esta rivalidad de
clases, en sus ambiciones e intereses sobre el poder político o el económi-
co fue la lucha por la burocracia y por la administración pública del Estado,
por la adhesión mediante el soborno o la extorsión, las clientelas o los favo-
res, que se dio en términos de la cultura política y se practicó– en no pocas
ocasiones - a través de otorgar privilegios por lealtad o fidelidad, actitudes
que derruían los principios o los límites morales de la política.
En últimas, pues, el Estado era visto tanto como un botín económico
y como un escenario de oportunismos políticos, y fue inclusive percibido el
poder como un instrumento maleable de ambiciones personales y no como
el lugar público del debate de ideas, sino como el fortín de las ambiciones
particulares, de facciones, de bandos o de sectores. Muy claramente lo ex-
plica un análisis de la coyuntura política de 1886 a 1930, del sociólogo Darío
Mesa cuando afirma que los líderes del país pretendieron vincularse a la
civilización, a la modernidad y al capitalismo, cuando ni existían las condi-
ciones infraestructurales, ni políticas ni culturales; además asegura Mesa
que dichos líderes no tenían idea de la integración del país – lo conocían o
se imaginaban de modo vago qué era – no tenían los recursos racionales,
como datos, estadísticas e información de los territorios, y que sólo sabían
mantener el poder a partir de prebendas y de relaciones clientelares:
“La electrificación había empezado [comenta Mesa hacia 1880 en
Colombia] pero alrededor del ochenta por ciento de los tres millones de co-
lombianos vivía en el campo, en regiones económicamente separadas con
una sicología predominantemente regional. Era el terreno de los caudillos
de las guerras civiles y de los caciques lugareños. Los costumbristas podían
describirlos con antipatía y algunos editorialistas y pensadores radicales
podían abominarlos; pero allí estaban en ambos bandos, condicionados por
el atraso técnico, afincados en sus provincias, apenas con la conciencia
nacional que hacían posibles dos características de la nación embrionaria:

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As Revoluções na América Latina Contemporânea

lengua, territorio. Y, sobre todo, allí persistían como vínculos políticos, reli-
giosos, culturales, económicos de la gente del lugar con el aparato central
del Estado. No eran peculiaridad colombiana sino por el carácter: se dieron
siempre allí donde el territorio fragmentado no alcanzaba a construir un
mercado nacional ni un Estado que lo expresara y regulara. Los caudillos
y caciques fueron aquí, por eso, una necesidad social y expresión política
de las circunstancias materiales y estatales del país. Una necesidad y una
expresión, sí, pero sólo hasta el momento en que Colombia empezó a ex-
perimentar paralelamente la transformación de sus equipos productivos y
de la estructura del Estado”72.
De otro lado, el control del poder político se ejerció a partir de coa-
liciones, alianzas y prebendas determinadas por las guerras civiles, en un
vaivén en el que los líderes políticos y sus seguidores cambiaban de posi-
ciones políticas o de ideologías o incluso de convicciones según sus ape-
tencias y codicias, o a partir de sus intereses económicos que en la mayoría
de los casos, se debían a sus aspiraciones al ascenso social. De modo que
existía una semi-ética política con pocas limitaciones frente a los intereses
políticos, y esa semi-ética política se enlazaba según las conveniencias y
las oportunidades políticas con los deseos de poder económico o social.
Por ello es legítimo citar lo que comenta Jorge Orlando Melo para esta épo-
ca:
“Por lo tanto, las divisiones políticas escindían a los grupos sociales
más elevados. Comerciantes, propietarios rurales, productores de exporta-
ción o para el mercado doméstico, abogados, profesionales independien-
tes, artesanos: en cualquiera de estos grupos había liberales, independien-
tes o radicales, y conservadores. Lo que hace más confusa la situación es
que muchos de los comerciantes o propietarios rurales combinaban sus
actividades, de modo que sus intereses económicos y sus perspectivas
ideológicas respondían a actividades a veces contrapuestas”73.

72 Mesa, Darío. “La vida política después de Panamá, 1903-1922”. En: Manual de Historia de
Colombia. Tomo III. Bogotá: Procultura, 1982. P. 90.
73 Melo Jorge Orlando. “La constitución de 1886”. En: Nueva Historia de Colombia. Vol. I. Historia
Política. 1886-1946. Bogotá: Planeta. 2001. p. 46.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

Esta perspectiva de Melo, es similar al desarrollo investigativo de


Bergquist cuando analiza la Guerra de los Mil Días (1899-1902) y el derrum-
be de la Regeneración. El profesor norteamericano se enfoca para ello, en
la crisis de la Regeneración (1892-1904), luego observa las implicaciones
que tuvo dicha guerra, por ejemplo destaca la pérdida de Panamá para Co-
lombia en 1903 y finalmente, cierra su libro aproximando su reflexión en el
régimen que se conoció como “El Quinquenio Reyes” (1904-1910) dirigido
por Rafael Reyes. Sobre este gobierno dejaron testimonios de sumo valor,
el presidente antioqueño Carlos E. Restrepo (1910-1914), ya citado en sus
obras aquí, y el intelectual y reconocido letrado latinoamericano, llamado
“Maestro de América”, el otro antioqueño, Baldomero Sanín Cano, quien
en Ginebra junto al mismo Reyes hizo un balance de su gestión, y publicó
las reflexiones de ambos bajo el título Administración Reyes, (1904-1909)74,
impresos de los cuales luego hablaremos.
Es necesario insistir en las causas de lo que fue la Regeneración, sin
perder de vista el tiempo largo y sus consecuencias en las costumbres po-
líticas del país hasta el día de hoy. Existe un consenso en ciertos historiado-
res al observar cómo se ha constituido el poder político y de qué modo se
han definido ciertas características acerca del manejo del Estado. Algunos
coinciden en lo referido al modelo hacendario de tipo hispánico, que difiere
en absoluto del modelo hacendario, más bien feudal del mundo europeo75.
En otra publicación por ejemplo, bajo el modelo hacendario – pa-
ternalista y autoritario – ofrece en términos analíticos Fernando Guillén
Martínez76, lo que ha caracterizado la forma de constitución del poder polí-
tico colombiano desde su nacimiento republicano y a lo largo de los siglos
XIX y XX. Según su investigación, a través de esta experiencia, se practica
un modo de ejercicio del poder personalista, autoritario, patrimonialista y
es el que ha funcionado en el Estado, combinando prácticas tradicionales
con concepciones modernas que se han decantado en el presidencialismo

74 Sanín Cano, Baldomero. La Administración Reyes (1904-1909). Lausana: Jorge Bridel. 1909.
75 Góngora, Mario. Historia de las ideas en América Española y otros ensayos. Medellín: Universi-
dad de Antioquia, 2003.
76 Guillén Martínez Fernando. El poder político en Colombia. Bogotá: Punta de Lanza. 1979.

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As Revoluções na América Latina Contemporânea

como evolución sintética y desde la cual, se asientan las bases sociales de


las relaciones de prebendas y privilegios que definen las relaciones con-
sensuales o antagónicas de las ideologías y de los partidos políticos. En
síntesis, es el personalismo autoritario lo que ha dado los contornos del
Estado y del poder político del país.
Desde otro ángulo, guerra y política no se excluían y por el contrario
ellas expresaban el binomio de una manera de establecer el control por el
poder político que las elites – centrales y regionales – impulsaron en su
carrera de ascenso económico y social en dos siglos. Las guerras77 como
referente de construcción del Estado y la Nación han sido un componente
no circunstancial, sino más bien definitivo, empleadas por las elites colom-
bianas quienes han luchado o combatido con las ideas y las armas desde el
siglo XIX al presente78, bajo una mezcla peculiar de vida civil y militarismo.
A tal punto que se podría considerar que las constituciones se escribieron
dependiendo de quienes ganaran las contiendas bélicas, en lo que se ha
denominado como “Cartas de batalla” según la obra de Hernando Valencia
Villa, ya citado aquí.
De todos modos, valga reiterar que La Regeneración despegó a
partir de una guerra, la de 1885, pero sus antecedentes fueron varios, en
187179, en 187680 y en 187881. La de 1885, fue la que impulsó el sector de

77 Waldmann, Peter. Guerra civil, terrorismo y anomia social. El caso colombiano en un contexto
globalizado. Bogotá: Norma, 2007.
78 Orozco Abad, Iván. Combatientes, rebeldes y terroristas. Guerra y derecho. Bogotá: Universidad
Nacional, 1992.
79 Aparece el periódico El Tradicionista, editado por Miguel Antonio Caro, medio de opinión
ultraconservador dirigido contra el liberalismo. Caro, Miguel Antonio. El Centenario del El Tra-
dicionista. Bogotá: Instituto Caro y Cuervo, 1972.
80 Se precipita la guerra de 1876 entre liberales radicales y conservadores, que es objeto de re-
flexión estética y política en la conocida novela de Carrasquilla, titulada Luterito. Véase, Pérez
Aguirre, Antonio. “La guerra general. 1876 a 1877”. En: 25 años de historia colombiana. 1853 a
1878 del Centralismo a la Federación. Bogotá: Sucre, 1959. Pp. 396-412.
81 El 1ro. de abril de 1878, el liberal independiente Rafael Núñez, quien fue cónsul en Inglaterra,
luego asiduo adepto a la Regeneración conservadora expresaría la famosa frase que consoli-
daría su régimen autoritario, imponiendo una idea de orden moral contra el caos de las guerras
civiles y la anarquía según él, alentados por los liberales. Su manifiesto fue: “La Regeneración
administrativa fundamental o catástrofe”. Núñez, Rafael. La reforma política en Colombia. Bo-
gotá: Biblioteca Popular de Cultura Colombiana, 1945. Vols. 1 y 2.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

la hacienda señorial liderada por Miguel Antonio Caro y Rafael Núñez, e


impuso un régimen que se denominó “El poder de los gramáticos”82, como
lo investigó el historiador inglés Malcolm Deas. No obstante, si la de 1885
fue una guerra por el control del poder del Estado y fue una confrontación
que se escindida ideológicamente, debido a las discordias por la imprenta,
la educación y el papel de la Iglesia; la Guerra de los Mil Días – según lo
demuestra Bergquist - su base social y económica fue el manejo del papel
moneda y en especial la producción del café, paradójicamente en auge en
el mercado internacional desde los años 80 del siglo XIX. El apogeo del
café implicó – en su impulso - una reacomodación de las elites políticas
pues enfrentaba dos modelos o tipos sociales; la hacienda señorial de estir-
pe española y la hacienda comercial emergente de las burguesías liberales
o conservadoras de Antioquia y Santander. Muy bien lo hace notar Charles
Bergquist cuando señala:
“La historia política de la regeneración se entiende mejor si se la
mira contra el fondo de la expansión de la industria cafetera, de 1886 a
1896, y de su crisis subsiguiente, de 1896 a 1899. El fortalecimiento ideoló-
gico y material del partido liberal durante ese periodo, el distanciamiento
cada vez mayor entre los nacionalistas gobernantes y un ala disidente del
partido conservador que se llamó de los conservadores históricos, la ex-
plosividad de las medidas represivas del exclusivismo político de los nacio-
nalistas, el debate centrado sobre las políticas fiscales de la Regeneración
y las causas complejas de la Guerra de los Mil Días, son todos fenómenos
que sólo pueden explicarse adecuadamente a la luz del impacto político del
enorme crecimiento y posterior decadencia de la industria cafetera duran-
te los quince años de la Regeneración”83.
La discordia se precipitó debido al modo en que los conservadores
radicales, los miembros nacionalistas de la Regeneración, hispánicos y ul-
tracatólicos, ejercieron el monopolio y la dominación del poder político, así

82 Deas, Malcolm. Del poder y la gramática, y otros ensayos sobre historia, política y literatura
colombianas. Bogotá: Tercer Mundo, 1993.
83 Ob., Cit. Bergquist Charles. p. 71.

45
As Revoluções na América Latina Contemporânea

mismo la retórica política que se constituyó en un arma predilecta de los


bandos extremistas. El uso o abuso de escritos polémicos, de debate y con-
troversia a través de la prensa fue un instrumento de combate que enar-
decía los espíritus beligerantes y en particular fue la retórica ultra-católica
de Miguel Antonio Caro, su intransigencia e intolerancia la que generó las
desavenencias y desacuerdos e incluso fue su actitud política la que ati-
zó la conflagración bélica. Sectores de oposición tanto liberales radicales
como conservadores moderados, al ser excluidos y marginados del juego y
control del poder político se vieron en la necesidad de alzarse a través de
las palabras y luego con las armas debido a la sistemática persecución y
liquidación dentro del orden político respaldado por los líderes y dirigentes
de la Regeneración.
Además, excluidos y marginados, fueron literalmente sustraídos de
los cargos públicos de la administración del Estado, con una ferocidad e in-
tolerancia sin cuartel. Los gobiernos de la Regeneración (1886-1904), vieron
en los otros – los no católicos, los no conservadores y los no adeptos a la
nación restaurada – como enemigos absolutos. Según los ultra-católicos,
ellos – los otros - no tenían cualidades justas y menos humanas o políticas
y se pensó que eran sujetos que debían ser exterminados del territorio na-
cional. Por otra parte, los regeneracionistas se empeñaron en consolidar
una política de adhesión personalista que se fundaba primordialmente en
la fidelidad y la lealtad de la burocracia, de los ciudadanos y de los funcio-
narios públicos al caudillo presidencial que se tenía como héroe, salvador
o reencarnaba la figura de Jesucristo, o la del líder redentor, así aclamaba
Miguel Antonio Caro a Rafael Núñez.
La Regeneración utilizó la retórica católica y bajo su ropaje alentó
una política de exterminio que incluía su mantenimiento en el poder me-
diante el fraude electoral y la corrupción e incluso con la consigna de una
patria, una fe, una nación, un ciudadano, primordialmente católico y conser-
vador. Lo peculiar de la dominación y el control político de la Regeneración
fue aislar por todos los medios del espacio político a los liberales y combatir
las ideas del Laissez Faire, el federalismo, la descentralización administra-

46
CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

tiva, las libertades individuales y la secularización del país, o todas aquellas


ideologías que eran cercanas a la modernidad y la revolución política.
Su aislamiento se hizo mediante la restricción no solamente a través
de los cargos públicos sino mediante la censura a la prensa. De nuevo lo in-
dica Bergquist cuando afirma que las leyes promulgadas por los gobiernos
de la Regeneración estaban orientadas a desarmar no solamente al partido
liberal radical, sino también, a destruir sus ideas o políticas engendradas a
lo largo de dos décadas84. En este punto se distingue una diferencia entre el
Federalismo y la Regeneración; porque los conservadores nacionalistas se
dirigieron a destruir al opositor, y no fue así como lo asumieron los liberales
radicales, quienes respetaban la oposición.
Sin embargo, hay que señalar, por un lado, que los liberales radi-
cales pese a lo ejemplar de su constitución, la de 1863, en la que se ga-
rantizaban las libertades y la controversia política, fueron seducidos por
el fraude y la corrupción de manera ocasional y que los gobiernos de la
Regeneración utilizaron la fe y las creencias como actitudes políticas vin-
culantes para desterrar a quienes se les oponían, piénsese en los gobiernos
de Rafael Núñez (1892-1894); Miguel A. Caro (1892-1898); José Manuel Ma-
rroquín (1898; 1900-1904) y Manuel Antonio Sanclemente(1898-1900). Si
se pudieran establecer los puntos principales de las disputas entre liberales
– incluidos los conservadores históricos - y los gobiernos de la Regenera-
ción fueron los siguientes:
La vulneración frente a los derechos civiles y políticos;
La falta de garantías frente a la oposición política y los conti-
nuos fraudes del sistema electoral;
La endurecida censura a la prensa y los abusos en los impues-
tos a la exportación del café;
La emisión del papel moneda desde el gobierno.
El punto central de la chispa de la Guerra de los Mil Días fue inicial-
mente impulsado por Núñez, quien impuso en febrero 17 de 1888 una ley de

84 Ibíd., p.72.

47
As Revoluções na América Latina Contemporânea

censura a la prensa, en la que el presidente a discreción podía criminalizar a


los periódicos que iban contra el gobierno, contra el presidente y contra las
instituciones. Sin embargo, la ley 61 de mayo 23 de 1888, conocida como la
“Ley de los Caballos”, fue la más autoritaria de todas las leyes de la Rege-
neración, por cuanto otorgaba poderes extraordinarios al presidente, quien
podía considerar qué eran crímenes contra la sociedad y a quiénes se les
podía penalizar, encarcelar, desterrar o fusilar.
Una vez más, Bergquist describe bien esta ley y por ello dice que se
criminalizaba a: “las publicaciones que incitaran a desobedecer la ley, que
menoscabaran el respeto y la dignidad de las autoridades civiles y ecle-
siásticas, que atacaran la Iglesia, que incitaran a una clase social contra la
otra, o que impugnaran el sistema monetario. Las sanciones se clasificaban
desde leves hasta extremas: desde la prohibición de anunciar y vender la
publicación en la calles, hasta su suspensión permanente. Bajo este decre-
to fueron suspendidos varios periódicos liberales y desterrados sus direc-
tores”85.
Muchos fueron los encarcelados y desterrados de la nación. De
modo que bajo “la ley de los caballos”, se impuso la figura del autoritaris-
mo presidencialista, ya que, el mandatario podía reprimir a los ciudadanos,
remover el personal militar, inspeccionar las instituciones científicas y edu-
cativas, suspender cualquier tipo de actividad u organización considerada
revolucionaria o subversiva. La herencia ultramontana de la versión con-
servadora reaccionaria se expresaba en ese control presidencialista que se
imponía mediante un tipo de autoritarismo político, cuyos antecedentes se
hallaban en las discusiones de la “Asamblea Nacional Constituyente”86 de
1885 con la especial participación de Miguel Antonio Caro en la elabora-
ción de la Constitución de 1886.
El punto más álgido de la contienda de las dos elites en el poder se
registró a partir de la política económica de la Regeneración. La creación

85 Ibíd., p. 73.
86 Caro, Miguel Antonio. Discursos y otras intervenciones en el senado de la República. 1903-1904.
Bogotá: Instituto Caro y Cuervo, 1979.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

del Banco Nacional y la emisión del papel moneda87 por parte de los go-
biernos de la Regeneración, pusieron en jaque a la elite comercial del café y
a sus diversas representaciones políticas regionales, es decir a quienes se
denominaron como los liberales radicales y los conservadores históricos,
quienes se vieron vulnerados por los impuestos y por el cambio de moneda
que quebrantaba sus intereses en la exportación del café y en la importa-
ción de productos. Alteraban sus intereses económicos desde el poder po-
lítico y les generaba una crisis como una impotencia por verse desterrados
de la participación y de las decisiones desde el Estado.
No nos es dado ahondar en detalle en este aspecto, lo que se puede
colegir de los anteriores contenidos es que Colombia pasó de un proyec-
to político utópico fincado en el pensamiento liberal y los líderes que lo
auspiciaron concibieron las bondades de la modernidad política a partir de
los valores de la libertad pero en su afán por constituir esos ideales como
aspectos fundamentales de la idiosincrasia y mentalidad del país, chocaron
con otro país anclado en fuertes costumbres y creencias tradicionales. El
grado de coherencia entre el pensamiento y la acción política quedaron en
entredicho, porque si bien, se intentó reformar por la vía de lo jurídico políti-
co la sociedad, no se contaron con todas las condiciones culturales que ello
implicaba y no se propició el cambio que se esperaba en la misma dirección
y objetivos esperados, o sea entre lo político, lo económico y lo social. De
modo que entre los ideales y las prácticas políticas se generaron una va-
riedad de choques y contradicciones visibles que confluyeron en conflictos
insuperables y en la guerra en definitiva.
Por otra parte, la Regeneración significó una cabalgata hacia atrás
por cuanto, el proyecto político se centró de modo unánime en una moral,
la cristiana; en una autoridad, la divina; y en un orden social, el autoritario
y conservador. Se impuso un régimen presidencialista que borraba los al-
cances de la democracia logrados en la Constitución de 1863, por lo tanto,
en síntesis, la Regeneración fue un proyecto político que suprimió la liber-
tad e impuso la coacción y la censura; destruía el consenso para aplicar la

87 Kalmanovitz Salomón. “Miguel Antonio Caro, El Banco Nacional y el Estado”. En: Miguel Anto-
nio Caro y la cultura de su época. Bogotá: Universidad Nacional, 2002.

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As Revoluções na América Latina Contemporânea

intolerancia e estimulabala idea de amigo-enemigo. Además, liquidaba el


republicanismo porque empleaba una hegemonía y un poder político que
aniquilaba el adversario y la oposición política, en fin, sellaba su dominio
bajo la bandera de “vencer o morir”.
Al culminar el siglo, Colombia había transitado de una guerra civil
armada, producto de las desavenencias y de los desacuerdos acumulados
en un siglo que precipitaron la contienda militar, cerrando un ciclo en el que
como consecuencia, el país perdía Panamá (1903)88 y en contraste, subía
al poder el boyacense Rafael Reyes (1904-1909)89, quien plantearía un ré-
gimen de reconciliación nacional y una incipiente modernización de la so-
ciedad y el Estado, bajo la consigna “menos política más administración”90,
mejor dicho, “menos retórica y más acción”, pero que por los prejuicios he-
redados cerraría el Congreso e incitaría a establecer una dictadura moder-
nista imitando a su modo el protagonismo político que adquirió en México
Porfirio Díaz91, lo que una vez más, produjo varios conatos de conflicto ar-
mado, culminando de nuevo, un proceso político que quedaba inconcluso,
eso sí, en el que pervivían los vestigios de la Regeneración.

DEL REPUBLICANISMO, LIBERALISMO SOCIAL Y


PROTOFASCISMO A LA DICTADURA MILITAR. LA RELACIÓN
ELITES, MASAS Y REFORMAS POLÍTICAS EN EL SIGLO XX.
VIOLENCIA CIVIL Y TRANSICIONES INCONCLUSAS
(1910-1953)

En 1905 William Scruggs, un ex ministro de los Estados Unidos que


en el pasado había estado a cargo de las legaciones de su país en Caracas
y en Bogotá, reflexionaba sobre las “revoluciones” en la América Hispana.

88 Lemaitre, Eduardo. Panamá y su separación de Colombia. Bogotá: Biblioteca Banco Popular,


1971.
89 Vélez Ramírez, Humberto. “Rafael Reyes: Quinquenio, régimen político y capitalismo (1904-
1909)”. En: Nueva Historia de Colombia. Bogotá: Planeta, 2001.
90 Lemaitre, Eduardo. Rafael Reyes. Bogotá: Iqueima, 1952.
91 Sobre la referencia a comparar el quinquenio Reyes con el gobierno de Porfirio Díaz véase a
Caro, Miguel Antonio. Escritos Políticos. Bogotá: Instituto Caro y Cuervo, 1993, vol. 4.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

Éstas de acuerdo con Scruggs, tenían un significado peculiar y se desarro-


llaban de manera diferente que en otras partes del mundo. “En otras partes
del mundo”; decía el ex ministro, “las revoluciones tienen su origen en las
masas. Comienzan abajo y se extienden hacia arriba”. Y añadía: “pero en
Sur América, ellas casi siempre tienen su origen en una minoría: comienzan
en la cúspide y se extienden hacia abajo”. Mientras que en otros países
las revoluciones desataban cambios fundamentales en las formas de go-
bierno, en Suramérica éstas si acaso servían para redistribuir los cargos
públicos. Scruggs admitía algunas excepciones. Pero en sus conclusiones
generales no le reconocía grandes significados a la revoluciones de la Amé-
rica hispana. Éstas eran apenas “conflictos violentos y desordenados entre
políticos egoístas”92.
Lo cierto es que la Guerra de los Mil Días no fue una guerra pa-
laciega, se vieron involucrados amplios sectores bajos de la población e
incluso se puede afirmar que a través de ella, hubo inclusiones y ascensos
de las clases más bajas de la sociedad colombiana93. Como “guerra repa-
ración”94, la conflagración bélica reestructuró el juego de poder del siste-
ma político colombiano. La guerra propició no solamente la pérdida de un
parte de la soberanía nacional – Panamá – sino también, visibilizó igual-
mente la geografía del país y fomentó el ascenso de las elites regionales,
lo que se puede observar en los diferentes líderes políticos que dirigieron
el país en los sucesivos gobiernos: Carlos E. Restrepo (1910-1914)95; José
Vicente Concha (1914-1918)96; Marco Fidel Suárez (1918-1921)97; Pedro Nel

92 Posada Carbó, Eduardo. “Las guerras civiles del siglo XIX en la América Hispana”. En: Memo-
ria de un país en Guerra, p. 59.
93 Tamayo, Joaquín. La Revolución de 1899. Bogotá: Biblioteca Banco Popular, 1975.
94 Bobbio, Norberto. El problema de la guerra y la vía de la paz. Barcelona: Gedisa, 1982.
95 Nacido en Medellín en septiembre 12 de 1867 - muerto en julio 6 de 1937. Político y periodista
antioqueño, región cafetera del centro del país, realizó estudios de derecho que no culminó,
participó en la Guerra de los Mil Días. Ligado al partido conservador y perteneciente a la ge-
neración de la república conservadora.
96 Abogado y diplomático, presidente de la República durante el período 1914-1918, nacido en
Bogotá el 21 de abril de 1867 y muerto en Roma, el 8 de diciembre de 1929.
97 Político y estadista antioqueño, nacido en Hatoviejo, hoy Bello, abril 23 de 1855, muerto en Bo-
gotá, abril 3 de 1927, presidente de la República durante el período 1918-1921. El 10 de febrero
de 1918, a los 63 años, se verificaron las elecciones en las que Marco Fidel Suárez fue elegido
presidente de la República.

51
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Ospina(1922-1926)98; Miguel Abadía Méndez (1926-1930)99; Enrique Olaya


Herrera (1931-1934)100 a Alfonso López Pumarejo (1934-1938)101.
En 1904 subió al poder Rafael Reyes. Su programa “Más adminis-
tración, menos política”, trajo como consecuencia una variación sustancial
de la era política de la Regeneración, que si bien, finalizó con los últimos
gobiernos dirigidos bajo el mando de Miguel Antonio Caro hasta esa fecha
precisamente, lo cierto es que subsistió en Colombia hasta 1991, cuando
fue reformada en su totalidad la Constitución de 1886. Reyes ya se indicó
aquí propugnó por la inclusión política de las minorías liberales, la moder-
nización estatal y la integración nacional mediante instrumentos moder-
nos del país, una aceleración de la descentralización política del país y fue

98 Presidente de la República en el período 1922-1926, nacido en Bogotá, el 18 de septiembre de


1858, muerto en Medellín, el 1 de julio de 1927. El 7 de agosto de 1922 se posesionó, y su prin-
cipal preocupación fue modernizar e industrializar el país. Cuando llegó a la Presidencia, el caos
estaba en todos los sectores de la vida nacional y la incipiente clase obrera trataba de organizarse.
Su lema fue probidad y eficiencia, concentrando su interés en el manejo de los fondos públicos
99 Miguel Abadía Méndez fue el último presidente de la Hegemonía Conservadora, y perteneció a
la llamada generación de políticos gramáticos, que administraron el país basados en el poder de
la retórica y el dominio del lenguaje. Elegido presidente de la República para el cuatrienio 1926-
1930, llegó a la primera magistratura postulado como candidato único del partido conservador y
sin que el partido liberal participara en la contienda electoral. La negativa de esta última colectivi-
dad a contribuir con una cuota en el gobierno, convirtió a la administración Abadía en un gobierno
hegemónico.
100 Estadista boyacense nacido en Guateque, noviembre 12 de 1880 – muerto en Roma, febrero 18
de 1937, presidente de la República entre 1930 y 1934. A Olaya le correspondió orientar al país
hacia una política de concentración nacional y, al mismo tiempo, tuvo que afrontar el conflicto
con el Perú. En los dos primeros años de gobierno se manifestó la violencia en algunas regiones
de Colombia, en especial en Boyacá y Santander, inicialmente motivada por factores políticos.
El presidente Enrique Olaya Herrera culminó su mandato en 1934, y continuó su vida pública
como ministro de Relaciones Exteriores en 1935, en el gobierno del presidente Alfonso López
Pumarejo.
101 Alfonso López Pumarejo fue el estadista más importante del siglo XX en Colombia. Sus dos
gobiernos (1934-1938 y 1942-1945) lo fueron a nombre del partido liberal. Los gobiernos de
López Pumarejo representaron un importante avance para el país. En el primero, en 1936, se
aprobó una Reforma Constitucional, de corte intervencionista y contenido social, que permitió
un gran avance en la legislación y en la práctica política. En ese contexto, se escucharon los
reclamos del campesinado y se expidió la ley 200 de 1936, que tenía en cuenta la función social
de la propiedad. Se adelantó una vigorosa política educativa centrada en la educación pública,
y a la Universidad Nacional se la dotó de un campus moderno. Se reconocieron los derechos
civiles y sociales de la población y se avanzó en el viejo anhelo liberal de garantías y de respeto
para los diferentes credos. En un país en el que apenas comenzaba a desarrollarse la industria, se
adelantaron políticas para proteger el capital nacional y para reconocer al sector obrero como una
fuerza constitutiva de la sociedad. De allí, la política sindical y el régimen de seguridad social
que se concretó en su segundo gobierno.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

quien más acrecentó la infraestructura, así mismo, la explotación por em-


presas foráneas de los productos del país, principalmente el banano. Sin
embargo, la Regeneración no desapareció en su totalidad, pues sus huellas
quedaron profundamente delineadas en el alma y en la idiosincrasia de los
colombianos.
Al cumplirse el centenario de las independencias latinoamericanas
y con el mal sabor de la destrucción dejada por la Guerra de los Mil Días y la
pérdida de Panamá, las elites se enfrentaron al dilema de pensar la nación
y su integración en sentido moderno, pero los contornos de sus proyectos
habían cambiado, pues, la masificación urbana, el crecimiento demográfico
y la vinculación al mercado mundial, trastocaron los liderazgos así mismo,
las bases sociales de la unidad del país. Fue cómo en 1910, el antioqueño
Carlos E. Restrepo consignó dichas reflexiones en su obra Orientación Re-
publicana y su proyecto político se encaminó a orientar al país en dicha
dirección, lo que no fue exclusivo de Colombia sino también se amplió en
todo el espectro político latinoamericano102. ¿Pero cuáles eran los conteni-
dos y las propuestas de dicho proyecto denominado Republicanismo?
Carlos E. Restrepo asumió el poder presidencial, luego de la salida
del país de Rafael Reyes, quien abdicó y se instaló en Londres en 1909, de-
jando a la deriva el mando presidencial. A través de una Asamblea Nacional
Constituyente ocupó el solio presidencial y se dirigió a un programa que se
centró en la garantía de la oposición, la inclusión de las minorías políticas
y a la reforma constitución que restringía el poder presidencia y establecía
controles al poder ejecutivo. Lo que éste político representó fue el ascenso
de una dirigencia que tenía que pensar el país de modo diferente frente
alos utopistas liberales, a los retóricos de la gramática, y al empresario polí-
tico de “más administración”. La aparición de las masas por el tenue proce-
so de proletarización, la masificación y los conflictos sociales por el juego,
el alcoholismo, la criminalidad o la prostitución, serían fenómenos cruciales
que plantearon al Republicanismo la intervención del Estado en lo social

102 Aguilar, José Antonio y Rojas, Rafael. El Republicanismo en Hispanoamérica. México: Fondo
de Cultura Económica, 2002.

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As Revoluções na América Latina Contemporânea

que se consolidó hasta llegar a los liberales reformistas de Olaya Herrera y


de Alfonso López Pumarejo103.
El Republicanismo fue un programa político mediático que buscaba
en primera instancia desarmar literalmente el país, superar el bipartidismo
bélico y construir “Una nación a pesar de sí misma”104, para decirlo con la
investigación que elaboró David Bushnell. Pero para lograrlo era necesario
pensar la ciudadanía y limitar los equívocos que las constituciones anterio-
res, la de 1863, federal; y la de 1886, centralista y presidencial; dejaron en
las costumbres políticas del país, esto es, el excesivo abuso del poder po-
lítico y de la legalidad e igualmente, el uso oportunista de las tradiciones o
de los valores de la modernidad para alentar causas primordialmente beli-
cistas, o en no pocas ocasiones caudillistas, personalistas y partidistas que
derivaban en objetivos autoritarios y como sucedió al fin, en la violencia.
Bajo la bandera de la Reforma Constitucional de 1910, en un siglo
de vida independiente, la civilidad y la cultura de lo público que eran aje-
nas como virtudes a la cultura política del país, se convirtieron en ideales
principales. De otro lado, el equilibrio de poder y en especial la concepción
del control constitucional del poder presidencial se constituyeron en las
banderas fundamentales del gobierno de Restrepo. El Republicanismo se
pensó como una política institucional que debía practicar las virtudes públi-
cas y ello era exigencia para los líderes, los gobernantes y los ciudadanos.
A partir del anhelo de “reconciliación nacional”, una vez más y a través de
una concepción antibipartidista - tripartidista más bien-, porque el Repu-
blicanismo recogía las ilusiones de los sectores políticos pacifistas y con-
ciliadores, pretendió este régimen político solucionar los agudos y graves
problemas acumulados de Colombia en un siglo.
En síntesis, el Republicanismo de Carlos E. Restrepo se enmarcó en
objetivos políticos específicos y se propuso institucionarlo jurídica y polí-
ticamente. Bases claras y nuevo pactismo político, sin absolutismo, ni de-

103 Melo, Jorge Orlando. Colombia Hoy. Bogotá: Presidencia de la República, 1996.
104 Bushnell, David. Colombia: Una nación a pesar de sí misma. Bogotá: Planeta, 1996.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

magogia, ni dogmas fueron sus principios y convicciones. Estos principios


serían las claves de este nuevo empeño por la reconstrucción política del
país. Esa concepción de bases claras, de transparencia en el juego político,
de despolitizar la constitución, de modernizar el Estado, de racionalizar las
relaciones de los partidos con las masas, con “las ciudades masificadas”105,
desmonopolizar la política de actitudes y prácticas tendenciosas como el
fraude, la corrupción, los privilegios, el clientelismo fue el deseo de cons-
trucción del Republicanismo bajo un concepción de la política donde el de-
bate franco, la educación y el respeto por el adversario y el contradictor, se-
rían las bases del sistema político y la democracia en Colombia.Además se
propuso una modernización, con algunos tintes de modernidad política106.
Frente a la situación política del país, reconoció el Republicanismo
cómo el sectarismo político, la animosidad beligerante y la introyección del
dogmatismo o fanatismo partidista de los liberales y conservadores se ha-
bían impuesto y de qué modo la unilateralidad entre partidos y gobierno,
o mejor, la identificación uniforme entre burocracia estatal y el presidente
había sido lo que incrementó las disputas que conducían al desorden y la
violencia de nuestra nación. Con contundencia lo comenta Restrepo en un
ensayo programa del Republicanismo, por ello afirmó que:
“El espíritu sectario arrastra a los partidos, cuando están en la opo-
sición, a ser pródigos en promesas inconsideradas, para ganar popularidad
y conquistar el poder. De ahí que ellos no se pongan de acuerdo sobre sus
obras con sus palabras. Son unos en la oposición, donde prometen mucho,
y son otros en el poder, donde no pueden o no quieren cumplir todo lo
prometido. No es raro el caso de que ofrezcan una cosa y hagan exclusi-
vamente lo contrario. Casi todos los gobiernos de Colombia habrían sido
excelentes, si no se hubieran guiado por la política de partido; la oposi-
ción habría sido fecunda casi siempre, si el espíritu de secta no la hubiera
desnaturalizado con frecuencia; y apenas hay problema público que no se

105 Romero, José Luis. “Las ciudades masificadas”. En: Latinoamérica: las ciudades y las ideas.
Medellín: Universidad de Antioquia, 1999. Pp. 384-471.
106 Celis, Carlos Uribe. Los años veinte en Colombia. Ideología y Cultura. Bogotá: Aurora, 1984.

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As Revoluções na América Latina Contemporânea

hubiera resuelto si no lo hubiera estorbado el sectarismo. Es curioso notar


cómo surge éste y cómo se yergue en el seno de los partidos que son o
creen ser numerosos”107.
La concepción republicana se puede sintetizar en la alianza entre
el liberalismo económico en el que se consolida la sociedad del trabajo y la
producción, con la idea de un conservadurismo cristiano humanista, en el
que se le da prelación al ciudadano virtuoso, moral y cívico. Busca adecuar
el Estado al intervencionismo social y asistir al ciudadano desvalido para
integrarlo a los procesos de organización y modernización de la sociedad,
en medio de la estructura social escindida y estratificada del desarrollo ca-
pitalista se constituyó en una de las metas a cumplir por el gobierno de
Restrepo. También el Republicanismo buscó superar las contradicciones
de la modernización económica mediante la conjugación de liberalismo y
cristianismo, articulando al eje del progreso social el del progreso moral y
construir virtudes frente a lo público, restringiendo las ambiciones privadas
o particulares.
Lo cierto es que Colombia siguió postergando su experiencia de la
modernidad108 dejando en deuda la resolución de los problemas que como
cataclismo o como catástrofe se expresarían de manera más violenta y casi
insoluble en los gobiernos sucedáneos. La cuestión religiosa, la tierra, las
masas, el liderazgo, las elites, el partidismo, la nacionalidad, la burocracia, el
urbanismo, la mujer, las organizaciones obreras, la anomia, la criminalidad,
la educación, la economía, en fin, una variedad de problemas que serán los
desafíos de los gobiernos sucesivos y en particular para el líder liberal de
izquierda, Alfonso López Pumarejo, quien en su intento por resolverlos con-
flictos sociales desde la óptica racional y desde su concepción del liberalis-
mo social se vio sometido a la más ardua reacción conservadora de tintes
protofascistas, a través de los gobiernos de Eduardo Santos (1938-1942) y

107 Restrepo, Carlos E. “Programa del Republicanismo elaborado por Carlos E. Restrepo”. En: Car-
los E. Restrepo, el ensayista, periodista, hombre de hogar, gobernante, expresidente, ministro de
gobierno. Medellín: Gobernación de Antioquia, 1984. Pp. 190-191.
108 Jaramillo Vélez, Rubén. Colombia: la modernidad postergada. Bogotá: Temis, 1989.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

al final de Laureano Gómez (1949-1953), quienes con un acendrado estilo


derechista imponían la segunda Regeneración en nuestro país.
Para contemplar esta parte de la historia política del país se hace
necesario ir al final de la coyuntura, es decir, del liberalismo al fascismo,
de la Revolución en Marcha (1934-1938) propuesta por el gobierno liberal
de Alfonso López Pumarejo al golpe militar de Gustavo Rojas Pinilla (13 de
junio de 1953), golpe propiciado al entonces presidente Laureano Gómez.
Concebido en estos términos la coyuntura política ha de reconstruirse te-
niendo en cuenta que fue una etapa marcada por desacuerdos, conflictos,
beligerancias, ante todo, por las variadas formas de violencia, que cierra
un ciclo de frustraciones, de procesos políticos inconclusos y abre otro de
desesperanza y desilusión.
El 13 de junio de 1953109, un golpe de Estado propiciado por el Ge-
neral Gustavo Rojas Pinilla demostraba las incoherencias como las incapa-
cidades con que las elites políticas civilistas de Colombia habían liderado y
conducido el país en 50 años y revivían algunos de los slogans que parecían
ya muertos en el siglo XX, por ejemplo, el de la Regeneración110 o el de la
Revolución111. Lo más significativo fue que las ideas progresistas y moder-
nizantes de López Pumarejo vertidas en la Revolución en Marcha, se vie-
ron ahogadas por las actuaciones y el pensamiento de figuras como Jorge
Eliecer Gaitán, Eduardo Santos, Laureano Gómez y el mismo Rojas Pinilla,
que en su influencia pública, liquidaron las posibilidades del liberalismo y
empujaron al país a las tendencias autoritarias y de derecha.
De la euforia de los años 20, de la incipiente modernización de los
años 30 se dio un tránsito hacia la decadencia que se no se cerró en defini-

109 Azula Barrera, Rafael. De la Revolución al orden nuevo: proceso y drama de un pueblo. Bo-
gotá: Kelly, 1956.
110 Una segunda Regeneración, así podría calificarse el espectro político del gobierno de Laure-
ano Gómez y sus secuelas en la cultura y vida política del país.
111 Sobre las políticas culturales y el proceso de renovación mental del país véase, Gómez Gar-
cía, Juan Guillermo. “Nota sobre la República Liberal” (1936-1950). En: Colombia es una cosa
impenetrable. Bogotá: Diente de León, 2006. Pp. 39-86.

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As Revoluções na América Latina Contemporânea

tiva con la firma del Frente Nacional (1958)112, tras largos años de violencia
civil y política. Más aún, en un siglo las dirigencias, los líderes, los gobernan-
tes y las elites mostraban su incompetencia, su desidia e incluso su igno-
minia, en el intento de colocar al país por la senda del desarrollo de la mo-
dernización y la modernidad política. Justamente en 1959, un año después
de la firma del pacto nacionalista, reunía el poeta Jorge Gaitán Durán de la
generación de la Revista Mito (1955-1962), en una serie de cortos ensayos,
las causas y las consecuencias de ese desastre político que fue de 1934 a
1958 con el título singular de: “La Revolución Invisible. Apuntes sobre la crisis
y el desarrollo de Colombia”113.
El libro escrito mediante artículos y publicado en el año de 1959, en
el contexto del acontecimiento del Frente Nacional (1958) es un revelador
testimonio analítico que hurga en el fracaso del liberalismo de López, re-
flexiona sobre el acontecimiento del asesinato del líder popular Jorge Elie-
cer Gaitán (el 9 de abril de 1948) y profundiza en detalle sobre el ascenso
de Laureano Gómez y con él, la contrarrevolución de estilo facistoide– val-
ga decir franquista - que en consecuencia, en su impulso, alentó el golpe
militar de 1953. Gaitán Durán, poeta y fundador de la destacada Revista
Mito (1955-1962)114, revela mediante el análisis de coyuntura, las circunstan-
cias que indujeron al Frente Nacional y los variados antecedentes o móviles
que encausaron esta otra forma de violencia, la bipartidista institucional.
Incluso desenmascara las tramas que inclinaron al país a un liderazgo polí-
tico de posiciones autoritarias, personalistas y de derecha.
Incluso en su libro sostiene dos claves analíticas; la primera, que en
los años 30 al 50 se produjo un cambio en la relación clases sociales y po-
líticos en cuanto al liderazgo, que contravenía al de las elites tradicionales
y este suceso alentó nuevos conflictos; y la segunda, asegura que ha sido

112 Rojas Ruiz, Humberto y Camacho Guizado, Álvaro. El Frente Nacional: ideología y realidad.
Bogotá: Punta de lanza, 1970.
113 Gaitán Durán, Jorge. La Revolución invisible. Apuntes sobre la crisis y desarrollo de Colombia.
Bogotá: Ariel, 1999.
114 Polo Rivas, Carlos. Revista Mito: vigencia de un legado intelectual. Medellín: Universidad de
Antioquia, 2010.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

la exigua transformación mental y cultural del país en cuanto a las formas


de participación y de representación política, su escasa planificación del
desarrollo económico y cultural, y las inexistentes condiciones de integra-
ción nacional fueron los factores que han permitido el que sean lentos los
cambios y por lo tanto un tradicionalismo reaccionario fue el móvil de los
fracasos frente a la modernidad política del país.
El uso de una nueva retórica – del poder y del dinero – no iba en
concordancia con una transformación y una renovación del liderazgo po-
lítico de las elites, menos aún de las masas proletarias, con lo que en un
nuevo escenario político de masificación y urbanización se alentaron el
personalismo, el caudillismo y el autoritarismo político, en un país que re-
quería un proyecto de integración nacional y los canales de unas nuevas
formas de participación y representación política. Una vez más señala Gai-
tán Durán entonces que la política se canalizó sí, pero se hizo por las vías
de la intolerancia y de la exaltación y agitación de los mitos heredados de
la Regeneración, es decir, se propagó una vez más, el ideal de las relaciones
amigo-enemigo; o el de bandos irreconciliables, liberales o conservadores;
el de azules contra rojos; masones y herejes contra católicos o piadosos.
Bajo otra perspectiva, hace notar Gaitán Durán que las implicacio-
nes de las actuaciones y decisiones públicas, de Eduardo Santos, Jorge Elie-
cer Gaitán, Laureano Gómez y Gustavo Rojas Pinilla, pese a sus aparentes
diferencias ideológicas y políticas, significaron para el país su inclinación
hacia posiciones dictatoriales y autoritarias, que en últimas, derogaban las
incipientes reformas sociales y las bases que colocó la Revolución en Mar-
cha de López Pumarejo, con lo cual se producía el desmonte de los avan-
ces políticos del liberalismo social y el país derivaba hacia una nueva era
de la contrarrevolución, o para decirlo hacia una nueva Regeneración más
intransigente, más violenta y mucho más retrógrada que su original. Ello
fue posible, con el liberalismo nominal y la pausa colocada por el gobierno
de Eduardo Santos (1938-1942); por el acentuado populismo de derecha
del alumno de Enrico Ferri, Jorge Eliecer Gaitán, por el calco derechista y
la obcecación del franquista Laureano Gómez (1949-1952); y por el popu-

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As Revoluções na América Latina Contemporânea

lismo social, amago de imitación mediocre del modelo político de Perón en


Argentina, de Gustavo Rojas Pinilla con su dictadura militar.
Como lo revela muy bien un ensayo polémico, sobre la época de la
República Liberal que va de 1936 a 1950, el tránsito del liberalismo al fas-
cismo en Colombia se puede colegir si se revisan los discursos, las actua-
ciones y los liderazgos de los personajes centrales en esta época, porque:
“La imagen de oposición irreconciliable que después se fomen-
tó [En la historia oficial y a través de los historiadores] y que ha llegado a
santificarse, a saber, la oposición Gómez-Gaitán [Eduardo Santos] es otro
artificio. Hay que indicar que esta oposición es completamente inexacta y
sirve para desvirtuar lo que se ponía en juego en su desdichado comple-
mento: Gómez y Gaitán colaboraban en la formidable empresa de borrar
cualquier rastro de la presencia histórica-institucional, reformista y secular
de la República liberal. Actuaban libremente sobre sus despojos y contri-
buían a crear el ambiente mórbido que pocos años después pondría en es-
cena la tesis del contraterror legitimada por Silvio Villegas en su folleto No
hay enemigos a la derecha (1937). Esto es, la tesis de la resistencia contra
la organización proletaria estimulada por López Pumarejo y los comunistas,
a la que había que contrarrestar, apelando a los valores tradicionales de la
familia y la provincia, con una violencia rural sistemática y organizada. De
este modo se lograría alentar, por medio de una glorificación masiva del
odio, el círculo infernal de agresión y las respuestas, al parecer, cada vez
menos contextualizadas políticamente. Realmente Gómez y Gaitán contri-
buyeron a convertir los partidos tradicionales en una especie de clanes o
bandas inclinadas a un ciego y mutuo exterminio”115.
De otro lado, como consecuencia de la lucha contra el liberalismo
de López Pumarejo y su retractación en su segundo gobierno, la firma del
Frente Nacional en 1957 por Gómez en el exilio y por Lleras Camargo no
significó un nuevo orden racional de la política, porque este pactismo y no
contractualismo, demostraba todo lo contrario de la modernidad, esto es,

115 Gómez, Juan Guillermo y José Hernán Castilla. “Notas sobre la República Liberal (1936-
1950)”, p. 28.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

una contrarrevolución que se fundaba en la ambición personalista, el opor-


tunismo, la improvisación pero ante todo, el utilitarismo de las nuevas cla-
ses políticas en ascenso, que tras las banderas de la “reconciliación” o “de
la unidad nacional”, escondían sus intereses y sus vanidades personales,
sus codicias y vileza política, conformando un bloque de monopolios, el de
las clases burguesas y políticas tradicionales con el ascenso de las clases
bancarias y financieras.
Ya en las notas iniciales, en la presentación, presenta Gaitán Durán
su metodología en el análisis de coyuntura, colocando como punto central
de la observación analítica, los avatares de la realidad política del país entre
los años de 1930 a 1958, por eso aseguró que:
“Aquí lo sistemático reside en la descripción política y no en la uti-
lización forzosa de datos económicos, etnológicos, sociológicos y psico-
lógicos. Partí de la caída de la dictadura militar el 10 de mayo de 1957 y
de la elección de Alberto Lleras Camargo para hacer una comprobación
que de puro obvia resulta ponzoñosa: estamos en la fase postrera de la
transición del feudalismo al capitalismo, la cual no se reduce a una simple
asociación de intereses entre el presidente y los burgueses, sino exige un
proyecto concreto, basado en el conocimiento a fondo del país y centrado
en la industrialización y la reforma agraria. Pero los soportes - culturales,
técnicos, científicos – indispensables para coronar esta obra monumental
fueron barridos por la violencia y por la intromisión de las Fuerzas Armadas,
Edad Media ladina, en la vida nacional: nuestro proyecto encuentra pues el
vacío, causado por la tragedia colombiana cuyos tres actos duraron más de
diez años”116.
Ese cambio en el lenguaje lo hizo notar Gaitán Durán cuando afirmó
cómo esa herencia en el lenguaje empobreció aún más, el campo político
de Colombia; de hecho más empobrecido que lo que fue en el siglo XIX
por los políticos tradicionales, lo envileció aún más y los nuevos políticos,
los nuevos líderes populares tuvieron una injerencia ingrata, porque según
Gaitán Durán:

116 Ob. Cit., Gaitán Durán, La Revolución invisible, Pp. 13-14.

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As Revoluções na América Latina Contemporânea

“Frente a este lenguaje de nuestro tiempo, los discursos, los edito-


riales, los manifiestos de los sectores políticos que tradicionalmente han
dirigido la opinión colombiana son de una pobreza y un anacronismo ate-
rradores, siguen inmovilizados en el reino de los slogans, de las generalida-
des, del sentimentalismo, de la retórica. Esta notoria disparidad expresiva
no es gratuita. Explica por qué la presidencia de Alberto Lleras no ha sido
impuesta por los liberales y los desconcertados partidarios de Laureano
Gómez, sino por elites industriales y bancarias, cuyos intereses coinciden
hoy con los de las clases trabajadoras”117.
Esta coincidencia circunstancial, de las elites bancarias y financie-
ras, con el pueblo, con las masas proletarizadas, que en su ansia, o en su
anhelo, se vieron cautivadas con el nuevo ejercicio de pensar y hacer la
política, mediante la táctica y la estrategia, de la improvisación y el opor-
tunismo a través del lenguaje político utilizado desde los medios de comu-
nicación, fue según Gaitán Durán uno de los ejes que como consecuencia
dejaban el fracaso de proyectos políticos inconclusos y la manipulación de
la violencia mediante los medios masivos.

CONCLUSIONES

De la retórica liberal de López Pumarejo con su Revolución en mar-


cha, que era una retórica de la euforia reformista liberal, se pasó a otra retó-
rica retorcida; la de la “pausa” de Eduardo Santos, ambigua y ambivalente
en su actitud democrática, lo que en su cauce más aún torcido, se inoculó
en la retórica ecléctica popular y de derecha de Jorge Eliecer Gaitán, para
cerrar ese ciclo de discontinuidades, de procesos políticos inconclusos en
la que democracia y violencia convivían de modo íntegro, sin excluirse, has-
ta llegar la oportunidad a la ruidosa retórica populista católica y revanchista
de Laureano Gómez, entre 1949 a 1953. En este ciclo se impuso el miedo, el
terror y la venganza política como instrumento de dominio y persecución.

117 Ibíd., p. 21.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

No resulta paradójico, ni sorpresivo cómo la confluencia entre elites


y masas, entre líderes populares y pueblo, entre clases altas y bajas se de-
bió a la capacidad para utilizar un estilo del lenguaje político que no tiene
diferenciación, que destruye las contradicciones históricas sin distinción,
que mata la ilustración en las conciencias de clase porque uniforma y es
unilateral; porque la política se utilizó como arma para unir lo que es im-
posible de unir. De modo que con ello se creó una homogeneidad política
bajo las banderas de patria, o nación, o identidad, o pueblo, en la que ca-
ben todos los ciudadanos sin capacidad de diferenciación, de divergencia y
de confrontación. Esa fue una de las enseñanzas del fascismo colombiano,
unidimensionar el ámbito de la política, hacerlo unidireccional y homoge-
neizar mediante la exclusión, el exterminio y la vindicación.
La propaganda, el uso de los medios de comunicación, el consen-
so absoluto, el discurso político orientado a la agitación, la contienda, la
centralización política, la militarización, la falta de racionalidad en la buro-
cratización despiadada, la sospecha y el señalamiento, la movilización y la
segregación racial como esencias de la política, todos estos factores ge-
neraron una nueva época del terror estatal en Colombia que fascinaba por
su promesa de redención y de emancipación violenta, reeditándose entre
2002 al 2010. No cabe duda que en proporciones diferenciables, la lucha
contra la libertad y la utilización de la seguridad como instrumento de mo-
vilización y agitación popular, las promesas de revanchismo, la vindicación
en el espacio público político, se utilizaron de igual modo en aquellos años,
que contenían la posibilidad de la revolución social, de donde se desplega-
ba una mutación en la que el instrumento político del líder, los partidos y el
poder desde el Estado hacían de lo social, un medio para fines irracionales.
Así, se cumplió el tránsito del liberalismo al fascismo en nuestro
país como lo destacaba el profesor Gutiérrez Girardot en una entrevista
concedida en 1987 y publicada en 1988, cuando advertía que el fascismo
no fue una experiencia exclusiva de la Europa de los años 30 al 40, tendría
su correlato en la sociedad colombiana en las décadas que antecedieron
al asesinato de Gaitán en 1948. Lo señalaba Gutiérrez con las siguientes
observaciones:

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As Revoluções na América Latina Contemporânea

“De manera análoga sucede con una versión del liberalismo colom-
biano, inspirado por Eduardo Santos, que es un liberalismo que se muestra
identificado con unos ideales democráticos hacia el exterior, pero hacia
dentro es un liberalismo que mantiene la estructura social-feudal, jerárqui-
ca. Así, Santos suprimía las conquistas impulsadas durante la primera ad-
ministración de López Pumarejo. En esa medida se acercaba a su enemigo
más íntimo, Laureano Gómez. En esa situación se enfrentaron dos dogmas
y no dos posiciones políticas sustanciadas y racionalizadas. Y así, la élite
colombiana aplazó su experiencia de la modernidad y, en consecuencia, de
esta manera, alentó la violencia política”118
No obstante, a principios del siglo XXI, el fenómeno del populismo
de derecha se reeditaba en una figura antioqueña, el expresidente Álvaro
Uribe Vélez. Fue un fenómeno político – como muchos otros en Latinoamé-
rica, por ejemplo Fujimori, Chávez, Collor de Melo, luego, Evo Morales, Ra-
fael Correa, entre otros – en que globalización y populismo se engarzaban
con firmas de TLC (Tratados de Libre comercio en el presente siglo) y per-
sonalidades políticas que se semejaban al caudillo autoritario personal del
siglo XIX o XX. La “Seguridad democrática”119 de Uribe, emblemática con
tintes de heroísmo y de salvación se asentó en el sentir y el anhelo de los
colombianos, estableciendo una ligazón entre 1930 a 1958 y 2002 a 2010.
Este proceso político del Uribismo en realidad no fue una casualidad,
fue un proyecto político que guardaba sus profundas semejanzas con los
populismos de los años 40 y 50 en el país que se avivó antes del Frente Na-
cional. El de Uribe Vélez obviamente, es otro estilo de populismo bastante
peculiar por su lenguaje, sus imágenes y su impacto en la identidad o más
bien, en la sobre-identidad del pueblo colombiano. Es el estilo de populismo
renuente a la Ilustración, a la democracia como diferencia, a la alternativa
ideológica o a la confrontación. El uribismo mas mediático se dio, sin plaza
pública – masiva – pero eso sí, recobrando la unidad comunitaria y ante

118 Gutiérrez Girardot, Rafael. Magazín Dominical. En: El Espectador, marzo 27 de 1988.
119 De la Torre, Cristina. Álvaro Uribe o el neopopulismo en Colombia. Medellín: La Carreta,
2005.

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todo, con tintes de carácter fanático religioso, pero con mucha televisión y
radio, o con muchos medios electrónicos como la internet y la red.
La caída de la dictadura militar de Rojas Pinilla en 1957, no era episó-
dico, sino más bien, constituía el vaivén político en que se fueron definiendo
los rasgos de las formas de participación y de representación política en
esos años que en su vértigo vería por el cierre que generaba el espacio
político frente nacionalista el surgimiento de los grupos armados revolu-
cionarios, los que más adelante ya eran bajo la influencia de la Revolución
Cubana de 1959, comunistas radicales, con tintes románticos y proclives
a una revolución continental, que en su dinámica de violencia y de lucha
propiciarían con los años la aparición de los grupos armados contrarrevo-
lucionarios, los paramilitares que luego se enredaban con el narcotráfico
en un ambiente que parecía una turbulencia inmanejable e incomprensible,
desde 1960 hasta la actualidad. La firma de paz entre el actual gobierno
de Juan Manuel Santos y las Farc (Fuerzas Armadas Revolucionarias de
Colombia) de seguro no será garantía para clausurar las variados violencias
que han consumido al país.
De fondo entonces, fracaso partidista y nuevo caudillismo entrela-
zaban las viejas prácticas políticas con discursos innovadores frente a los
retos del siglo XX. La explicación del fracaso de los partidos y del caudillis-
mo se manifestaba en la laxa configuración social, en las amorfas bases de
las clases sociales de la sociedad colombiana, en la que si bien, a lo largo
del siglo XIX, las elites políticas se transmitían el poder mediante el otor-
gamiento de puestos públicos y a partir de una dominación burocrática de
estirpe clientelar-familiar, antiweberiana, ahora se hacía descarnadamente
con actitudes tecnocráticas y bajo el telón de lealtades clientelares moder-
nas.
Ahora los eventos de ascenso social y económico provocados por
una incipiente modernización industrial acentuaron el fenómeno del arri-
bismo que el mismo Gaitán Durán ubica como el suceso sociopolítico que
antecedía pero potenciaba la violencia bipartidista, retratado magistral-
mente por Jorge Eliécer Gaitán, Gabriel Turbay, Silvio Villegas y Laureano
Gómez. Por eso Gaitán Durán admite:

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As Revoluções na América Latina Contemporânea

“No me sorprende la mal disimulada exasperación que han causa-


do estas reflexiones sobre Colombia. Como anota Hernándo Téllez, a pro-
pósito de cierta revista que yo fundé hace tres años y que dicho sea de
paso fue la única publicación colombiana en protestar de modo inequívoco
cuando el Gobierno de las Fuerzas Armadas clausuró El Tiempo y El Espec-
tador: “Cuanto en estas páginas se ha impreso ha resultado sumamente
fastidioso e intranquilizador o incomprensible para la opinión vulgar y co-
rriente” (Mito, No. 18, p. 390). No podía esperarse otra cosa de un ambiente
en donde para “hacer carrera” hay necesidad de cumplir inexorablemente
determinados requisitos de servilismo, adulación e hipocresía y donde in-
genuamente las gentes confunden estos trámites, esta ascensión exacta y
previsible, con la política. Sin duda el fenómeno del arribismo se produce en
todas partes y no solo en el ajetreo electoral y administrativo, sino también
en la vida económica y en la vida cultural, pero aquí ha tomado en los úl-
timos tiempos características exacerbadas y mórbidas, cuyo estudio sería
interesante y tendría quizás que empezar por la influencia que la aguda
crisis de estructura del país y consiguientemente de los partidos políticos
ejerce sobre el trato social, sobre la comunicación en la existencia cotidia-
na. Resulta significativa la frase que un político de las nuevas generaciones
usa a menudo “Voy a cometer mi acto diario de abyección”, fórmula que
exhibe la decisión – en otros casos furtiva – de obtener a todo trance un
puesto de ministro, de parlamentario, de orientador de la opinión pública,
en fin, de ser alguien, de parecer. Su humor es una coartada; intenta cubrir
el desarrollo ético con el confort ambiguo y efímero del lenguaje”120.
Arribismo y abyección, sumisión, servilismo, adulación e hipocre-
sía, fundamentos de los políticos y de la política en Colombia, vaciaron la
frustración y el resentimiento político, en los odios caldeados a través de
la violencia política del país. Otro tipo de violencias se han gestado a lo
largo de los últimos tiempos, enmascaradas tras el ropaje del patriotismo
y del nacionalismo eufórico, con la exaltación del antagonismo no como

120 Ob. Cit., Gaitán Durán, La Revolución invisible, p. 16.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

consciencia histórica de las contradicciones sino más bien como producto


natural de las polarizaciones políticas.
Esta ha sido la peculiaridad del neopopulismo de derecha de Uribe,
es decir, su programa “corazón grande, mano firme” se orienta a desactivar
las razones históricas de las contradicciones y emplear mediante un len-
guaje cifrado, de predica canónica, de advertencia y de amenaza, lo que
le ocurrirá al país si sigue por el sendero de la controversia política, de la
confrontación y de la pluralidad ideológica, de la democracia activa. El Uri-
bismo como el populismo de los años 30 y 40, alienta la abyección, la sumi-
sión, la lealtad, la obediencia e incluso la intolerancia o la agresividad en la
política. Si se mira entonces en un siglo Colombia pasó de las reformas del
liberalismo radical (desde 1853, asentadas en la Constitución de 1863), a la
firma de un pacto, el del Frente Nacional, en 1958, por la vía de la muerte de
Gaitán en 1948 y por el rasero del golpe de Estado de 1953 de Rojas Pinilla,
antecedido por la dictadura civil de Laureano Gómez a un estado social
más pérfido y menos democrático y progresista hasta el día de hoy.
Por lo tanto y en el anterior sentido debemos recordar aquí una
nota al pie que subraya el destacado historiador argentino José Luis Rome-
ro, cuando nos invita a pensar en la misma dimensión de Marcuse, en parti-
cular en la inclinación del liberalismo al autoritarismo, además nos suscita a
reflexionar sobre este legado en el contexto político de nuestro continente
en dos siglos, del XIX al XX, y de allí hasta el día de hoy.
Por lo tanto, Romero nos incita a reflexionar en cómo ha sido viable
la dictadura con democracia, la democracia con la violencia, si se reparan
los cien años o en la actualidad, los doscientos cuatro años de vida inde-
pendiente de nuestro territorio, por eso y para ampliarlo, es mejor decirlo
con Jorge Luis Borges– el afamado escritor argentino - y es más adecuado
indicarlo cuando dice: los astros y los hombres vuelven cíclicamente; los
conservadores, los derechistas, los protofascistas vuelven cíclicamente:
“La democracia que tanto pregonan los ilusos, es un absurdo en los
países como los americanos, llenos de vicios y de donde los ciudadanos
carecen de toda virtud, como es necesario para establecer una verdadera

67
As Revoluções na América Latina Contemporânea

república. La monarquía no es tampoco el ideal americano: salimos de una


terrible para volver a otra y ¿qué ganamos? La república es el sistema que
hay que adoptar; pero ¿sabe cómo yo la entiendo para estos países? Un
gobierno fuerte, centralizador, cuyos hombres sean verdaderos modelos
de virtud y patriotismo, y así enderezar a los ciudadanos por el camino del
orden y de las virtudes. Cuando se hayan moralizado, venga el gobierno
completamente liberal, libre y lleno de ideales, donde tengan parte todos
los ciudadanos. Esto es lo que yo pienso y todo hombre de mediano criterio
pensará igual”121.

121 Carta de Diego Portales a Francisco A. Encina, Lima de 1822, en: Situaciones e ideologías en
América Latina, p. 347.

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CAPÍTULO 1 | Colombia de un siglo a otro: modernidad elusiva, revolución, contrarrevoluc...

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75
2
2
Capítulo
A VIOLÊNCIA POLÍTICA NA
HISTÓRIA DO PARAGUAI
(1904-1954)

OBSERVAÇÕES INICIAIS SOBRE A


HISTÓRIA DO PARAGUAI
Marcela Cristina Quinteros
Luiz Felipe Viel Moreira

Houve alguma revolução de caráter nacio-


nal, popular e agrário no Paraguai, isto é, de cunho
social representando efetivamente uma ruptura na
história do país ao longo do século XX? Talvez a per-
gunta que anteceda é: como podemos definir uma
revolução? Esse debate é muito amplo. A história do
conceito é contraditória e foi usada pela primeira
vez em política para explicar uma situação comple-
tamente diferente do que entendemos hoje, ou seja,
a restauração da monarquia na Inglaterra do século
XVII. Somente com a Revolução Francesa adquiriu
As Revoluções na América Latina Contemporânea

o sentido que conhecemos atualmente. E foi ao longo do século XIX que


as “revoluções” concretizaram-se em um conjunto de movimentos liberais
que consolidaram os valores dominantes das burguesias nacionais euro-
peias. No início do século XX, com esse percurso perdendo protagonismo,
um novo processo revolucionário surgiu, agora sob inspiração de socialis-
tas e comunistas, levando a novas reformas nos sistemas político, social e
econômico.
Esse último ciclo se fez presente na história da América Latina ao
longo do século XX, com mudanças que ocorreram, em grande medida,
com a mobilização dos setores populares e com crises revolucionárias que
representavam o desenlace de impasses e disputas gestados, muitas vezes,
em décadas de conflitos e contradições. Esses movimentos transformado-
res que representaram rupturas na história latino-americana são o objeto
de estudo desta coleção1. Mas o conceito “revolução” também foi usado
para designar enfrentamentos políticos violentos diversos, sem transfor-
mações sociais que indicassem rupturas profundas. O termo foi utilizado
aleatória e abusivamente na história latino-americana. E a historiografia
paraguaia não se mostrou imune a isso.
A paradigmática revolução mexicana, no início do século XX, com
seu caráter “nacional, popular e agrário”, estabeleceu critérios que inega-
velmente não encontramos condensados em um único acontecimento da
história paraguaia contemporânea. Mas o largo ciclo de violência política
no Paraguai envolveu a participação de setores populares, tanto do campo
como da cidade, sem que isto tenha se traduzido, necessariamente, em
demandas abertas de uma reforma agrária. No entanto, em uma sociedade

1 A editora da Unesp passou a publicar, a partir de 2004, essas experiências revolucionárias


na Coleção Revoluções do Século 20, sob a direção de Emília Viotti da Costa. Para o âmbito
americano, foram feitos estudos de dez casos, considerados nessa perspectiva. As revoluções
mexicana, guatemalteca, salvadorenha, nicaraguense, cubana, boliviana e chilena qualquer
historiador claramente enumerariam dentro da proposta feita pela coordenadora da Coleção.
No estudo de outras três situações, Colômbia, Peru e Venezuela, já não existe um consenso na
historiografia para o uso do conceito de revolução. Assim, houve por parte dos historiadores
responsáveis um maior detalhamento, justificando a existência e o significado da experiência
revolucionária vivenciada nos respectivos países para fazer plausível sua inclusão na Coleção.

78
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

basicamente rural, a desigualdade e a falta de justiça se mostraram pre-


mentes, com alcances e desdobramentos que foram além dos limites de
um reformismo nacionalista, como o que ocorreu entre 1936 e 1937, após a
Guerra do Chaco.
Independentemente de uma pertinência teórica do “acontecimento
revolucionário em si” ou de um “ciclo revolucionário” do ponto de vista his-
toriográfico, é reveladora a percepção de um “discurso sobre a revolução”
em diferentes momentos da história paraguaia. Por exemplo, na guerra civil
de 1904, Cáceres Mercado observa os historiadores liberais descrevem
como el ascenso de una generación de líderes que querían llevar las riendas
de la nación hacia rumbos distintos a los que hasta ese momento llevaban
los gobiernos colorados (CÁCERES MERCADO, 2013, p. 17). Na tentativa
de realçar um marco de ruptura entre presente e passado, e de destacar a
importância dos acontecimentos nos quais uma das facções políticas saiu
triunfante, a historiografia paraguaia de cunho liberal leu a contenda como
uma mudança, não só de orientação política senão geracional, daí o insis-
tente uso do termo “revolução”.
Também é relevante a existência de um “discurso sobre a revo-
lução” a partir de um sujeito histórico como fonte enunciativa, como no
caso da figura do coronel Franco e do novo aparato político advindo das
mudanças operadas em fevereiro de 1936. O movimento rompia o tradi-
cional bipartidarismo da vida política paraguaia (liberais/colorados), enfa-
tizando um discurso cujos componentes estruturais (revolução, doutrina,
povo, trabalhadores, pátria, paraguaios), se bem que individualmente não
eram novidades no pensamento político paraguaio, coletivamente articu-
lados ganharam novos ares no contexto das influências internacionais do
corporativismo da década de 1930. Aqui o conceito de “revolução” ganhou
peso pelas transformações que se operaram na sociedade local, apesar
de ter sido seu desencadeador uma mobilização militar, o autoproclamado
Exército Libertador, sem a participação popular. Melhor seria se referir a
esses acontecimentos como golpe de Estado, mas inegavelmente 1936 foi
um ano que “virou a página”, como sugerem os historiadores paraguaios
(RODRÍGUEZ, 2011, p. 15).

79
As Revoluções na América Latina Contemporânea

No Paraguai, o uso da violência cumpriu um papel crucial dentro


do sistema político, ao ponto de ser um fio condutor de sua história con-
temporânea, com seus cenários de guerras civis, golpes de Estado e “re-
voluções”. Em boa parte deles, tratou-se de guerras civis prolongadas, com
a participação das forças militares e de setores populares na luta armada.
Esse foi o caso da guerra civil de 1904 ou a chamada Revolução Liberal de
1904. Na sequência, quando o golpe de Estado de 1908 gerou um período
caótico, que desembocou na chamada Guerra Civil do Centenário, de 1911-
1912, foi a segunda fase de violência extrema. Mais tarde, veio a guerra civil
de 1922-1923. Em 1936, deu-se o golpe de Estado ou a chamada Revolução
Libertadora. Com a longa ditadura de Higino Morinigo (1940-1948), a curta
e inebriante primavera democrática de 1946 desaguava em uma ressaca
política: a guerra civil de 1947. Por fim, o golpe de Estado de 1954 conduziu
o país à ditadura de Stroessner.
Neste capítulo, visamos mapear esse processo político no perío-
do de 1904 a 1954, no qual tanto o poder político de cada momento com
o suposto monopólio dos mecanismos de violência estatal, bem como os
grupos que procuraram provocar uma mudança política acreditaram na
eficácia desses métodos, muito mais do que a crença nos valores de uma
democracia. Uma instabilidade política que é anterior a 1904, cujos fios se
tecem já desde a queda do regime lopista, em 1870. Assim, é necessário um
olhar sobre esse passado para podermos entender o acionar dos atores
políticos participantes quando da passagem do século XIX para o XX.
Com o golpe militar de 1954, o permanente recredenciamento da
violência política ganhou novos contornos. A violência se institucionalizou
e espraiou no cotidiano da sociedade paraguaia, com uma herança lon-
geva, expressa na mais longa ditadura militar da história da América, ten-
do mesmo transcendido a própria queda de Stroessner em 19892. Nesse
âmbito, a chave para todas as possíveis leituras sobre essa ditadura nos
remetem a essa primeira metade do século XX.

2 Não consideramos aqui a etapa que segue a 1954. Sobre esse período, ver: LEWIS, 1986 e
NERI FARINA, 2003.

80
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

Este capítulo é um esforço de síntese, feito quase na forma de um


ensaio e com um claro fim pedagógico. Mas como trabalho de composição,
apresenta também ao público brasileiro a produção historiográfica para-
guaia mais significativa e recente, que trata dos ciclos da violência política
no Paraguai. Nos últimos anos, tendo como objetivo os festejos do Bicen-
tenário da Independência do Paraguai (2011), surgiu uma vasta produção
bibliográfica que reeditou textos esgotados e publicou várias coleções re-
lativas à história do país3. Somos devedores de toda essa produção, que
em maior ou menor medida segue e aprofunda o caminho aberto na déca-
da de 1990, de uma superação da influência nacionalista após a queda de
Stroessner. Uma historiografia da qual fazem parte não apenas historia-
dores, em um leque que vai de ensaístas a jornalistas – uma característica
ainda marcante do fazer história local. A nossa contribuição parte de uma
leitura que privilegia, em grande medida, o campo da política.
Mas o que era o Paraguai durante esse período a ser estudado? Em
termos conceituais, podemos pensar o país vivendo ainda em uma fase
oligárquica, no sentido de que suas elites políticas e também econômicas,
apesar de divididas ideologicamente, governaram sob formas democráti-
cas restritivas (DÍAZ DE ARCE, 1991). Mesmo que o grupo no exercício do
poder reconhecesse a legalidade da oposição e garantisse sua liberdade de
expressão, como aconteceu entre 1870-1936, a participação nas eleições
era limitada. O acesso ao poder foi dado em um sistema de votação diri-
gida, normalmente de opção única, e com base em uma tradição ou força
carismática de algumas lideranças. Entretanto, o conceito em questão limi-
ta a compreensão da complexidade da realidade social paraguaia. Melhor

3 Por um lado, antigas obras que estavam desaparecidas há muito tempo foram reeditadas,
principalmente as da geração de 1900, dos bacharéis de 1925 e, inclusive, as de uma geração
mais contemporânea, como a do historiador Alfredo Seiferheld. Nesse marco, apareceram
coleções como Biblioteca Bicentenario (Editora Servilibro) e da Colección Independencia Na-
cional (Intercontinental Editora). Por otro lado, o afã editorial trouxe a publicação de novas
coleções como a Colección La Gran Historia de Paraguay (El Lector), Páginas de Nuestra
Historia (Editorial Occidente), Colección Protagonistas de la Historia (El Lector), Colección
Bicentenario (CEADUC) e Colección Guerras y Violencia Política en el Paraguay (El Lector).
Também contam obras coletivas como a Historia del Paraguay (Taurus), além de livros e arti-
gos de paraguaistas.

81
As Revoluções na América Latina Contemporânea

seria nos referimos a uma democracia representativa débil que, como em


boa parte da América Latina, ao final desse período conheceu a passa-
gem para uma sociedade de massas e a ascensão dos setores populares.
Nesse contexto, o jogo político que contava com os adversários partidários
tradicionais do século XIX, os colorados e os liberais, entre as décadas de
1910 e 1920, agregou a socialistas e comunistas – ainda que muito peri-
fericamente – e depois aos febreristas/franquistas, concomitantemente à
difusão que se dava das ideologias totalitárias contemporâneas. No novo
cenário pós-1936, as práticas democráticas no Paraguai passaram a estar
pautadas por uma ideologia nacionalista, expressa em instituições que ra-
pidamente se metamorfosearam em autoritárias, entre elas as Forças Ar-
madas como nova expressão política.
Em fins de 1948, o intelectual e político peruano Luis Alberto Sán-
chez chegava a Assunção, após o asilo outorgado pelo então presiden-
te Juan Natalício Gonzalez. O censo nacional de 1950 dava ao Paraguai
uma população de 1.341.333 pessoas, das quais 75% viviam na área rural,
em ranchos simples nas estendidas regiões de campos e bosques, ou em
pequenas aldeias isoladas de tudo, com uma economia baseada em uma
agricultura de subsistência, na qual a tecnologia mais avançada estava re-
presentada pelo arado puxado por bois. Poucas eram as cidades além de
Assunção, apenas outras três delas tinham entre 10 e 20 mil habitantes:
Concepción, Villarica e Encarnación. Apenas Assunção, centro político,
econômico e cultural do país, e que contava então por volta de 200 mil
habitantes, era uma área urbana de relevância (NERI FARINA, 2013). As ob-
servações desse estrangeiro, nas memórias sobre sua passagem pelo país
à época, ajudam a qualificar um pouco esses dados estatísticos. Para Sán-
chez, às portas da segunda metade do século XX, Assunção não era uma
capital como as demais da América do Sul:

Difiere de todas ellas. Con excepción del edificio del Ban-


co del Paraguay, el de un Teatro-Casino, que se está cons-
truyendo; algunos departamentos, el del Asunción-Pala-
ce-Hotel, más ciertos edificios oficiales, el aspecto es de
una ciudad provinciana. No se trata de urbe, se trata de

82
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

agro. La sensación campesina surge de todos los detalles


imaginables. No sólo de la carreta halada por una yunta de
bueyes, aguijoneados por la picana del boyero; no sólo de
la abundancia de tipos descalzos, tocados con amplísimos
sombreros de palma; sino que hasta el ambiente respira
ruralidad (SÁNCHEZ, 1949, p. 45).

Poucos anos depois dessas apreciações de Sánchez, em 1952, o


paraguaio Gabriel Casaccia publicava a novela La Babosa. Ambientada na
localidade de Areguá, com menos de dez mil habitantes, seus personagens
expõem a decadência, tanto do ambiente físico quanto das relações hu-
manas. Os personagens se movem em um mundo onde é reveladora a falta
de incentivos de caráter cultural e artístico, a precariedade econômica e
os abusos, a religiosidade mal focada, o espírito de frustração e a apatia. A
trama, situada na década de 1940, também trata da temática da corrupção
generalizada, desonestidade que afeta todo o aparelho administrativo, do
pequeno empregado público aos ministros de governo. Tudo isso em um
quadro de instabilidade política que impõe aos personagens exílios internos
e externos. Qualquer um desses exílios eram verdadeiros infernos, dada à
falta de solidariedade. Areguá seria o microcosmos da nação, um espaço
sufocante ao qual estaria exposta a maioria dos paraguaios. A obra, metá-
fora da realidade para seu autor, tocava em chagas coletivas, agravadas
com os acontecimentos da guerra civil de 1947, que levou a deslocamentos
humanos sem precedentes na história nacional (CASACCIA, 2010)4.
Meio século antes, Rafael Barrett já visualizara a sorte dos menos
favorecidos no Paraguai. Em grande medida, ele via a geografia paraguaia
como uma prisão, com o sujeito desprovido de liberdade. Em El dolor pa-
raguayo, escrito em 1909, descrevia um país permanentemente imerso em
lutas fratricidas já na primeira década do século XX, que mais lhe pareciam
vendetas entre facções rivais. O livro foi uma denúncia social sem igual, um
ensaio sobre a realidade social paraguaia e sobre um Estado que, indepen-

4 A obra teve um imenso impacto no país, havendo um mar de críticas. Com seu autor já exilado
na Argentina, foi publicada em Buenos Aires. A primeira edição da novela no Paraguai só veio a
ocorrer depois da volta da democracia, em 1989. Para uma leitura crítica da obra de Casaccia,
ver: FEITO, F.; MÉNDEZ-FAITH, T., 2007.

83
As Revoluções na América Latina Contemporânea

dente das cores partidárias – em um passado oitocentista colorado ou em


um presente novecentista liberal – seguia usando a justiça para assegurar
seus interesses econômicos, em detrimento de uma cidadania inexistente.
A narrativa testemunhal, corroborada com outros informes, trazia à tona as
misérias sociais mais horríveis e frequentes e não se tratava da exceção,
senão da regra. Assim, convidava e desafiava os leitores a adentrarem nas
áreas dos ervais para conhecerem os mecanismos de uma escravidão mo-
derna:

No se le conchaba jamás al peón sin anticiparle una cierta


suma que el infeliz gasta en el acto o deja a su familia. Se
firma ante el juez un contrato en el cual consta el monto
del anticipo, estipulándose que el patrón será reembolsa-
do en trabajo. Una vez arreado a la selva, el peón queda
prisionero los doce o quince años que como máximo re-
sistirá a las labores y a las penalidades que le aguardan.
Es un esclavo que se vendió a sí mismo. Nada le salvará.
Se ha calculado de tal modo el anticipo con relación a los
salarios y a los precios de los víveres y de las ropas en el
yerbal, que el peón, aunque reviente, será siempre deudor
de los patrones. Si trata de huir, se le caza. Si no se logra
traerle vivo, se le mata (BARRET, 1978, p. 121-122).5

As obras de Barret e Casaccia tiveram o talento de pôr a descober-


to os problemas sociais de um Paraguai profundo e não deixam de situar
seus personagens próximos aos nossos marcos temporais. Nesse meio sé-
culo que vai de 1904 a 1954, os sujeitos históricos de Barret e Casaccia,
reais ou ficcionais, foram homens imersos em seus mundos de trabalho. As
atividades econômicas mais significativas estavam vinculadas à produção
de algodão, madeira, erva-mate, carne e, em menor medida, tabaco e fru-
tas cítricas. No entanto, a maior parte da agricultura do país consistia no
cultivo do milho, arroz, cana-de-açúcar e mandioca para o mercado nacio-

5 As denúncias sociais sobre a exploração humana em princípios do século XX, nessa região
mediterrânea, encontram na literatura um aporte fundamental para o historiador. Com o escri-
tor uruguaio Horacio Quiroga, temos viva a realidade desses trabalhadores. Contos como Los
mensú (1914), Una bofetada (1916) e Un peón (1918) nos trazem os problemas sociais na província
de Misiones (Argentina) envolvendo o tema da mobilidade na tríplice fronteira e o bilinguismo
(QUIROGA, 1992). Uma escravidão moderna em toda a região ervateira do cone sul que, mes-
mo entrado o século XXI, ainda se faz presente em denúncias atuais nos movimentos sociais.
Ver: REBOSSIO, 2015.

84
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

nal. No Alto Paraguai (Chaco), se elaborava o tanino, estrato retirado do


quebracho, usado pela indústria para se curtir peles e couros. Os poucos
potentados e suas expressões de riqueza, ou eram graças à pecuária, ao
comércio importador ou ao contrabando que se dava em grande escala.
E as alterações na ordem de importância dessas atividades econômicas
sempre estiveram vinculadas às demandas do mercado internacional.
Tudo passava por Assunção, que monopolizava a exígua produção
manufatureira do país, reduzida a pequenas fábricas processadoras de ali-
mentos, elaboração de tecidos rústicos, tijolos, telhas, cigarros ou de mó-
veis. As poucas condições de desenvolvimento do país podiam ser medidas
pela falta de investimentos básicos nos setores de comunicação, energia
elétrica ou mesmo no serviço de água potável (HERKEN KRAUER, 1984;
ASHWELL, 1989; 1996). Para fins da década de 1940, a comunicação se
dava prioritariamente através do rio Paraguai, havendo apenas uma estra-
da de ferro que ligava Assunção a Encarnação, no sul. Ao longo dessas
vias de comunicação é que se deram, no marco da violência política, os
enfrentamentos militares mais decisivos. O restante do país contava com
caminhos de terra unindo Assunção ao interior, mesmo com Concepción
e Villarica, cujo movimento dependia, em muito, das condições climáticas.
Essas estradas foram o cenário privilegiado da ação das montoneras (gente
a cavalo sob a liderança de um caudilho) nas guerras civis. Para a grande
massa camponesa, a vida cotidiana apenas acusava os efeitos dos intentos
de modernização, cujas influências se limitavam quase totalmente à capital
e onde em um pequeno, mas crescente número de trabalhadores urbanos,
deram-se os primeiros sinais de descontentamento real com a ordem exis-
tente.
Nessa sociedade com pouca dinâmica econômica, a fonte de em-
prego mais segura era a função pública, visto o salário estável e, nos es-
calões mais altos da burocracia, havia a possibilidade de incursionar em
alguns negócios ou na venda de influências. Assunção, centro da vida po-
lítica nacional, arrastava as ilhas regionais do interior, onde vivia a maior
parte da população, em todas as conjunturas de crises, através da figura de
suas lideranças locais, nomeadas pelo Ministro do Interior. Estas estavam

85
As Revoluções na América Latina Contemporânea

na polícia e na autoridade política local, controlando e informando à capital


– ao poder central, em um costume que remontava sem muita alteração ao
sistematizado pelo Ditador Rodríguez de Francia (1814-1840). Foram esses
caudilhos regionais, com vínculos sociais com os grandes caudilhos nacio-
nais da capital, que mobilizavam as massas partidárias quando necessário
e constituíam as montoneras nos levantamentos armados.
No Paraguai, a modernidade tardou em se configurar, sem transfor-
mações significativas nas pautas sociais e culturais ao longo do período dos
governos de Francia e dos López, pai (Carlos, 1844-1862) e filho (Solano,
1862-1870). Mais visível foi uma relativa modernização, com a importação
de tecnologia em larga escala, que veio a ocorrer com os López. Mas foi
uma modernização tendo em vista os objetivos militares imediatos do país,
no contexto das lutas de consolidação dos Estados nacionais do Rio da
Prata, e que culminou com a guerra contra a Tríplice Aliança (1865-1870).
Um processo que foi truncado, com o conflito causando um verdadeiro de-
sastre humanitário no Paraguai e prolongando uma sangria intelectual por
toda uma geração (LEWIS, 1992).
Em 1903, Cecílio Báez (1862-1941) publicava La tiranía en el Para-
guay, coleção de artigos escritos no jornal El Cívico desde o ano anterior,
em que abordava temas sobre educação e tirania (BÁEZ, 1993). Ao con-
siderar o povo paraguaio um dos mais atrasados e “cretinos” da América,
vinculava essa situação ao quadro da falta de instrução pública anterior
a 1870. A única opção disponível aos paraguaios teria sido o Catecismo
de San Alberto, que tratava da obediência cega ao poder6. Para o autor, o

6 Em 1784, José Antonio de San Alberto, bispo de Córdoba, publicou um catecismo para con-
trapor-se, no campo doutrinário, às inquietações causadas no Rio da Prata pela rebelião de
Túpac Amaru no Alto Peru (1780-1781). O Catecismo de San Alberto, como ficou conhecido,
foi rapidamente sancionado e imediatamente publicado em Madri em 1786 e tido como uma
refutação evangélica aos erros e excessos da Assembleia Nacional de Paris. Com o catecismo,
San Alberto se propunha inculcar nas crianças que o rei, dentro de seu reino, não reconhecia
outro superior que não Deus e que não estava sujeito ao povo. Passadas as lutas de indepen-
dência, este resquício doutrinário do absolutismo monárquico voltou a circular durante os go-
vernos de Francia e de Carlos Antonio López. Poucos meses após chegar ao poder, Francisco
Solano López reimprimiu o Catecismo de San Alberto, que foi utilizado nas escolas da capital
e povoados do interior até o final da guerra (1870). Na Advertência, o editor informava caber
aos professores esclarecer que onde aparecia a palavra “Rei” se deveria ler “Autoridade Su-
prema”, “Supremo Governante” ou outro equivalente. Ver: CATECISMO de San Alberto, 2005.

86
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

lento movimento para reverter essa herança pesada começou a ser dado
apenas com o fim da Guerra Grande. O balanço do estado intelectual do
país, que falava o guarani e vivia rodeado em uma concepção sarmientina
de desertos territoriais, segundo Báez, não era dos mais alentadores. A ele
e a sua geração, recairia:

Reparar lo perdido por la educación, por el trabajo, por la


práctica de la libertad, por el concurso del elemento ex-
tranjero, pero principalmente por la educación, para que
al rebaño humano reemplace un pueblo consciente de sus
derechos, que haga imposible la vuelta de las ominosas y
embrutecedoras dictaduras (BÁEZ, 1993, p. 43).

As expressões de modernidade no campo cultural paraguaio só


afloraram com o surgimento da chamada Geração do 900, a que se refe-
re Báez; um conjunto de intelectuais nascidos no pós-guerra, ao qual ele
também pertencia. Entretanto, nem todos comungavam unanimemente
do pensamento liberal positivista como o manifestado pelo autor, seu mais
ardoroso defensor no país. No campo da cultura, a mais significativa con-
traposição ao liberalismo positivista foi dada pelo revisionismo, movimento
que também nascia com essa geração e que teve como referente princi-
pal Juan O’Leary (1879-1969). Para todos esses intelectuais, a história foi o
campo privilegiado de análise e interpretação.
Um dos acontecimentos que marcaram época foi o embate ocorri-
do nos periódicos, em 1902 e 1903, entre Báez, o mais velho dessa geração,
e O’Leary, o mais jovem e seu antigo discípulo. A polêmica exteriorizou mais
claramente o acirramento da luta política, bem como deu o norte de como
os dois partidos tradicionais, Liberal e Colorado, viam a história recente do
país, tendo em vista um objetivo político futuro. Isto norteou a própria his-
toriografia paraguaia, pois a atuação intelectual e a ação política estiveram
unidas ao longo de todo o século XX. Báez, doutrinário do Partido Liberal,
formatava uma visão liberal da história, crítica do passado autocrático de
Francia e dos López. O’Leary, vinculado ao Partido Colorado, levantava a
bandeira de defesa desse passado, centrada na revalorização da figura de
Francisco Solano López, em uma revisão frente a prerrogativas impostas
pelos vencedores da guerra com a constituição liberal de 1870.

87
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Cecílio Báez e Juan O’Leary foram os ideólogos de duas tradições


políticas relativamente recentes. As origens de liberais e colorados remon-
tam a duas agrupações fundadas ainda em 1870, quando começava um
período de reestruturação nacional, respectivamente o Gran Club del Pue-
blo e o Club del Pueblo, professando ambas os mesmos princípios liberais.
Essa matriz derivou na fundação, em julho de 1887, do Centro Democrático,
logo denominado Partido Liberal, surgindo no mesmo ano a Associação
Nacional Republicana, mais conhecida como Partido Colorado (GOMÉZ
FLORENTÍN, 2011a).
A diferença entre ambos não residia em um campo da doutrina li-
beral, mas na sutileza de sua composição interna. Naqueles que se filiavam
ao Partido Colorado, uma tendência majoritária a um sentir nacional e a
uma pertinência popular com bases rurais, mesclavam-se mais claramente
com as figuras dos militares que lutaram ao lado de Solano López. Os que
se filiavam ao Partido Liberal estavam mais vinculados à influência estran-
geira, com base mais urbana, e contavam com maior presença de antigos
exilados do período lopista. E não deixavam de estar mais abertamente
próximos a princípios liberais, não apenas no campo político ou econômico,
mas também social, com a valoração do indivíduo frente ao coletivo. Um
liberalismo visto com a missão, segundo Cecílio Báez, de executar a “re-
generação” histórica do país, tendo como instrumento jurídico uma cons-
tituição liberal já existente, mas posta em prática pelos colorados segundo
seus interesses.
Uma fase de governos transitórios marcou os primeiros anos do
pós-guerra, com a presença, até 1876, em Assunção, de um exército de
ocupação brasileiro. A hegemonia política do grupo que conformaria o Par-
tido Colorado, iniciada já em 1877 e que governou o país por 27 anos segui-
dos, havia lidado ao longo de todo esse tempo com vários terremotos políti-
cos surgidos em seu próprio interior, vinculados a posições diversas quanto
a uma abertura democrática e uma política de conciliação com a oposição.
Setores próximos ao general Bernardino Caballero eram contrários, e os
do general Juan Bautista Egusquiza a favor. Mas o Partido Liberal também

88
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

continha suas divisões internas, com os chamados “cívicos”, e agrupava os


partidários de possíveis alianças com o Partido Colorado e os “radicais”,
contrários a qualquer tipo de acordo. As constantes decepções políticas
liberais das três últimas décadas do século XIX, dada a manipulação eleito-
ral, convenceram as lideranças do Partido de que o jogo democrático lhes
estava vedado e que só um levantamento militar bem organizado os levaria
ao poder.

FASES E FACES DE UMA VIOLÊNCIA POLÍTICA EM MARCHA

Após o fim da Guerra da Tríplice Aliança (1870), mais especifica-


mente a partir de 1877 até a “revolução de 1904”, o governo paraguaio ficou
sob a hegemonia dos homens que integrariam o Partido Colorado. Quando
da eleição do coronel Juan Antonio Escurra (para o período 1902-1906),
vinculado ao general Caballero (fundador do Partido Colorado), novas con-
dições se apresentaram. Dava-se início ao ocaso da hegemonia oitocen-
tista colorada, substituída por meio século de vaivéns políticos, inaugurada
pela “revolução liberal” de 1904 e concluída com a ascensão e consoli-
dação das Forças Armadas paraguaias como ator político central, em 1954.
Diferentes fases e faces da violência política se sucederam, com a partici-
pação dos partidos tradicionais (colorado e liberal) e de novos movimentos
(socialismo, comunismo, febrerismo/franquismo).
Entender o modo com que essas forças se enfrentaram e/ou entre-
laçaram abrem portas para a compreensão da aliança entre os colorados
e os militares após 1954. Muitos foram os embates ao longo desse meio
século de vida política nacional, porém escolhemos aqui os de maior sig-
nificação pela intensidade da luta armada como pelas mudanças operadas
a partir deles, genericamente denominadas “revolução de 1904”, “guerras
civis” de 1908 a 1911-1912 e de 1922-1923, “revolução libertadora de 1936”,
“guerra civil de 1947” e “golpe de 1954”.
No começo do século XX, o grupo do general Egusquiza, que na
condição de colorado moderado havia persuadido os demais generais so-

89
As Revoluções na América Latina Contemporânea

bre a necessidade de levar a cabo uma abertura democrática e uma políti-


ca de conciliação com a oposição, fora deslocado à força do poder (GON-
ZÁLEZ, 2011). Contudo, o debate entre Báez e O’Leary (1902-1903) havia
sinalizado o acirramento da disputa no campo intelectual. Em 1903, jovens
militares recém-formados em academias do Chile eram acusados de cons-
pirar contra o governo, com a participação de Alejandrino Escobar, filho de
um dos fundadores do Partido Colorado. Ainda que a dimensão das Forças
Armadas não fosse de grande envergadura, as armas e a organização mili-
tar faziam delas um fator decisivo na política.
Em 1904, quando o setor egusquicista acordou formar um “comi-
tê revolucionário”, unido às facções dos liberais, o desfecho para a “revo-
lução” estava pronto, com o Partido Liberal voltando a estar unido e o Parti-
do Colorado bastante dividido. Paralelamente, outro comitê revolucionário
formou-se na Argentina, responsável pela aquisição e transporte de armas
para o Paraguai. O responsável era Manuel J. Duarte, um paraguaio com o
cargo estratégico de Secretário do Arsenal da Marinha de Buenos Aires.
Ainda que as armas tivessem sido compradas pelos liberais na Europa, a
maior parte delas veio da Argentina, assim como o recrutamento de ho-
mens – havendo até mesmo a presença de oficiais da Marinha de Guerra
desse país. A própria esposa do presidente argentino, Susana Rodríguez
Viana de Quintana, nascida no Paraguai, havia aportado recursos para o
movimento (CABALLERO AQUINO, 1985; CÁCERES MERCADO, 2013).
No Paraguai, a luta na imprensa liberal começou guiada pela pena
do radical Cecilio Báez, que mostrava um país governado por corruptos.
Era recordada a venda de terras públicas realizadas na década de 1880 pe-
los colorados, o acerto com os detentores de bônus ingleses da década de
1870 e os tratados com a Bolívia, não ratificados pelo Congresso Nacional.
E não deixava de ser lembrada a “pouca cultura” do presidente Escurra e
seu limitado uso do espanhol, pois era o guarani sua língua materna e de
uso cotidiano.
O estalo do movimento armado aconteceu em agosto de 1904,
quando foi divulgado o “Manifesto” da insurgência, tanto civil como militar.
As acusações contra o “desgoverno” colorado e o esgotamento de todos

90
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

os meios pacíficos de diálogo serviram como justificativas da “revolução”


e do uso da violência. Os quatro meses de lutas se estenderam por todo o
país, envolvendo as montoneras lideradas por caudilhos colorados e libe-
rais. Em meio a derrotas militares por parte das forças governistas, também
ocorreram deserções de figuras iminentes, como o vice-presidente Manuel
Domínguez. Outro histórico líder colorado, o general Patrício Escobar, re-
nunciou como Ministro da Guerra quando seu filho Alejandrino se somou
aos rebeldes, sendo substituído na pasta pelo general Bernardino Caballe-
ro.
Quando em dezembro de 1904 iniciaram-se as conversações de
paz, as lideranças civis e os militares radicais Manoel Gondra e o capitão
Albino Jara se opuseram a um tratado, recomendando a ocupação de As-
sunção pela força. Mas a maioria do partido, controlada então pelos cívi-
cos, apoiava o final da guerra civil por meio de um pacto. Por trás dessa
disputa voltava a aparecer a divisão dos liberais, sempre latente. Os cívi-
cos, que haviam liderado a luta armada, se sentiam no direito de dispor do
novo governo que se estava gestando. Nesse grupo encontravam-se seus
mais antigos membros, homens que viveram fora do Paraguai mesmo antes
da Guerra Grande e que, quando dela participaram, o fizeram do lado das
tropas argentinas, no batalhão dos legionários. Pelo contrário, os quadros
“radicais” estavam integrados por uma nova geração, da qual participou
Cecilio Báez.
Com a assinatura do Pacto de Pilcomayo, no dia 18 de dezembro,
as forças cívicas do general Benigno Ferreira ingressaram em Assunção, e
no dia seguinte, em sessão do Congresso, Escurra apresentou sua renúncia
como presidente. O grande referente do Partido Colorado e maior caudilho
vivo, o general Bernardino Caballero, partia já ancião para a Argentina7.

7 Para a maioria dos atores políticos, o exílio tinha sua sede em Buenos Aires, como no caso
de Caballero. A partir de 1904, certa mobilidade envolveu também idas e vindas constantes
de grupos de exilados ao sabor das mudanças constantes do cenário político paraguaio. As-
sunção, centro político da nação, tem em frente a cidade argentina de Clorinda, província de
Formosa, bastando para isso cruzar o rio Paraguai. Para muitos, uma saída ligeira ao “exterior”
tanto quanto seu rápido retorno era a solução que estava ali à volta, a tão somente 4 km de
distância da capital.

91
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Os liberais se referem aos quatro meses da guerra civil como “revo-


lução” para enfatizar uma virada na história nacional. Assim, historiadores
liberais como Gomes Freire Esteves, que participou do movimento, enten-
diam os acontecimentos como uma guinada, não só de orientação política
como geracional. Era a entrada em cena da chamada Geração de 900, com
advogados recém-formados na única faculdade existente no país, e milita-
res recém-chegados do estrangeiro, que se opunham aos velhos militares
que tinham atuado na Guerra Grande (FREIRE ESTEVES, 1983).
A disputa entre o Brasil e a Argentina, por exercer sua hegemonia
na região, constitui a tela de fundo do conflito. A vitória dos liberais signifi-
cou a perda de presença do Brasil nos assuntos do Paraguai, que se man-
tinha desde o final da guerra, dada sua maior aproximação histórica com o
Partido Colorado. A derrota dos colorados representou, em contrapartida,
o aumento da influência argentina em todos os âmbitos, dada sua maior
identificação com os liberais, e se traduziu em maiores investimentos, tanto
com capitais próprios como britânicos, nas grandes empresas vinculadas
às atividades pecuárias, florestais e de comunicação fluvial, destacando-se
as de Carlos Casado e Nicolás Mihanovich. A influência brasileira seria re-
tomada apenas em 1954.
A partir de 1904, o chamado revisionismo histórico, defendido por
intelectuais vinculados ao coloradismo, tornou-se cada vez mais influente,
convertendo-se na história oficial do Paraguai após 1954. Durante a primei-
ra metade do século XX, construiu-se uma história patriótica, nacionalista,
centrada na transformação da figura de Francisco Solano López, de mons-
tro a prócer. Paulatinamente, foi incorporando diversos mitos fundadores
e heroicizando figuras como a do general Caballero, falecido em 1912. A
história revisitada passou a identificar as principais figuras históricas do
Partido Colorado como os heróis da nação. Enquanto as batalhas políti-
cas eram ganhas pelos liberais, o revisionismo histórico defendido pelos
colorados foi ganhando posições no campo ideológico (LANGA PIZARRO,
2001; BREZZO, 2007).
Em 1904, formou-se um governo de “conciliação” integrado por li-
berais cívicos – representados por Juan Bautista Gaona na presidência – e

92
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

liberais radicais – com Cecilio Báez como chanceler. A união entre ambos
os setores do liberalismo esteve a ponto de ser rompida em dezembro de
1905, quando da destituição de Gaona e sua substituição por Báez. Nas
eleições de 1906, assumiu a presidência o general Benigno Ferreira, dos
cívicos, mas contando com o voto das duas facções. Os colorados não tin-
ham fé na promessa de eleições limpas que fizeram os liberais, de modo
que recusaram apresentar candidato, adotando uma política de abstencio-
nismo para as eleições presidenciais e que, por diversos motivos, se man-
teve até 1927.
No governo de Ferreira (eleito para o período 1906-1910), as tensões
no partido governante permaneceram. Em 02/07/1908, se deu um pronun-
ciamento militar, com o acantonamento de Ferreira no palácio presidencial.
Após dois dias de combates nas ruas de Assunção, ocorreu a deposição do
presidente e a conformação de uma Junta Revolucionária, encabeçada por
Albino Jara e outros civis, vinculados aos liberais radicais. O principal efeito
desse levantamento militar foi a neutralização política dos cívicos, cujos
líderes se refugiaram em território argentino. O custo humano da revolta foi
de 150 mortos e mais de 300 feridos (BARRETO VALINOTTI, 2013, p. 26).
A chefia do Estado ficou a cargo do vice-presidente, Emiliano González
Navero, quem respondia aos radicais e que nomeou os integrantes da Junta
Revolucionária como seus ministros. Assim, as figuras de Manuel Gondra,
Eusebio Ayala, Eduardo Schaerer e Manuel Franco passaram a ser referen-
tes da vida política nacional nas três décadas seguintes.
A condenação ao movimento, tanto por parte dos colorados como
dos liberais cívicos, impulsionou uma forte repressão contra os opositores,
com expulsões do país e prisões, e a prorrogação do estado de sítio até fins
de março de 1909. Em setembro de 1909, os colorados exilados na Argen-
tina começaram a organizar a rebelião armada: em Buenos Aires se encon-
trava Caballero e em Corrientes, as montoneras dos caudilhos colorados
José Gill – filho do ex-presidente Juan Bautista Gill (1874-1877), Alejo Ra-
mírez, López Moreira e Romero Pereira. A imprensa paraguaia governista,
por sua vez, criticava o suposto apoio das autoridades brasileiras de Porto

93
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Murtinho (MS) e de alguns caudilhos cívicos aos insurgentes colorados. Ao


término do ano de 1909, o governo de González Navero já havia consegui-
do conter as montoneras, mas o país se encontrava em uma situação finan-
ceira desesperante e se confrontava com a perspectiva das novas eleições
que ocorreriam em fins do ano seguinte.
Para a nova corrida eleitoral, tanto cívicos como colorados estavam
excluídos do processo. A corrente dos radicais apresentou-se dividida. Por
um lado, Albino Jara – agora coronel e chefe do exército – e, pelo outro, o
líder histórico do Partido Liberal, Manuel Gondra, que acabou vencendo e
assumindo o mando em fins de 1910. Quando das comemorações do cen-
tenário da independência, em 1911, o Paraguai se submergia em sua etapa
mais anárquica, a chamada Guerra Civil do Centenário. Quando esta termi-
nou, em maio de 1912, haviam se sucedido seis governos.
Em novembro de 1910, no dia da posse do presidente, Jara se aquar-
telou, exigiu e obteve sua reposição como ministro de Guerra. Em janeiro
de 1911, respaldado pelo exército, encabeçou o golpe de Estado que levou
Gondra para o exílio na Argentina, e foi então nomeado presidente pelo
Congresso. Além do exército, Jara contava com o respaldo político de cí-
vicos e colorados, que passaram a integrar o novo gabinete. Desse modo,
os liberais radicais sofreram uma nova divisão, separados agora entre gon-
dristas e jaristas.
Uma nova emigração forçada levou setores radicais a cruzar a
fronteira. Os expulsos aglutinaram-se em torno das figuras de Gondra e
do ex-prefeito de Assunção, Eduardo Schaerer, e iniciaram uma campanha
militar. O Partido Colorado e os cívicos – que fundaram o Partido Liberal
Democrático sob a liderança de Antonio Taboada – pronunciaram apoio
militar ao governo jarista. A violenta repressão do novo mandatário durante
a guerra fez com que seus próprios aliados políticos obtivessem sua renún-
cia em julho de 1911, e partiu então para Buenos Aires com a promessa de
ser o candidato para as eleições de 1914. O Congresso, cuja maioria era in-
tegrada por colorados e radicais, elegeu o deputado radical jarista Liberato
Rojas, um dos antigos aliados, para substituí-lo.

94
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

Iniciou-se porém uma etapa ainda mais confusa. Em agosto de 1911,


o governo decretava uma lei de anistia aos exilados políticos, mas, em no-
vembro, os acontecimentos se precipitaram quando o Congresso decidiu
prorrogar o mandato de Liberato Rojas até o final do período presidencial
(1914), ao invés de chamar novas eleições presidenciais. Isto favoreceu
uma nova rebelião armada, liderada pelos radicais gondristas. O golpe que
permitiu a queda de Rojas favoreceu a nomeação do colorado Pedro Peña
pelo Congresso, em fevereiro de 1912. Este último teve de combater duas
insurgências simultâneas: ao norte do país, uma Junta Revolucionária, in-
tegrada por radicais gondristas, contava com 1.300 homens; e ao sul, os
radicais jaristas eram apoiados pelo Partido Liberal Democrático – antigos
cívicos. Nesse início de 1912, dado o confuso jogo de alianças e interesses
que se teceram, o Paraguai chegou a contar com três autoconsiderados
presidentes: Pedro Peña, Gondra e Jara.
A vitória militar dos radicais gondristas em 1912, tanto contra os
colorados quanto contra Jara, abriu finalmente um período de relativa es-
tabilidade na nova era liberal. Albino Jara, que iniciou e fechou esse ciclo
de instabilidade (1908-1912), morreu em combate (14/05/1912). Foi uma
guerra civil com inusitada violência, com a ação de montoneras atuando
em todo o interior do país, calculando-se 5 mil o número de mortos. Como
balanço do período, o Paraguai viu-se submerso nos ódios partidários, bem
como na bancarrota. Os jaristas desapareceram, os antigos cívicos perde-
ram protagonismo e os colorados continuaram com seu abstencionismo,
favorecendo a “estabilidade liberal”.
Para o período 1912-1916, foi eleito Eduardo Schaerer, visto no cír-
culo partidário como um homem prático. Este empreendeu a tarefa de mo-
dernizar a administração e utilizar os poderes do Estado para fomentar o
crescimento econômico, beneficiado pelo aumento da demanda exterior
com o início da primeira guerra mundial. Foram construídas várias fábricas
e a expansão das exportações trouxe consigo um período de prosperidade
sem precedentes (BREZZO, 2011).
Entretanto, novas divisões internas no radicalismo não ajudavam
a normalizar a situação política. Com os colorados se negando a partici-

95
As Revoluções na América Latina Contemporânea

par, buscou-se uma solução intermediária entre os grupos dominantes dos


dois ex-presidentes, Schaerer e Gondra. A indicação recaiu sobre Manuel
Franco (1916-1920), que comandava a Comissão Diretiva do partido. Na
presidência de Franco, ocorreram duas reformas políticas importantes. Em
1917, foi sancionada uma nova lei eleitoral, sobre as bases do voto secreto
e da lista incompleta, o que assegurava uma representação proporcional
dos partidos políticos no Congresso, bem como o registro civil de votantes.
Outra medida foi o estabelecimento do serviço militar obrigatório, o que na
prática deu-se parcialmente através do alistamento forçado dos soldados,
muitos “enganchados” por problemas com a lei.
Ao longo do governo de Franco, o país ainda se beneficiou com a
bolha de prosperidade impulsada pela grande demanda de carne do mer-
cado internacional. Mas já em 1918, com o fim da guerra, começava-se a
afrontar de novo os mesmos problemas estruturais, relacionados com sua
capacidade econômica, com uma débil moeda, a escassez de capitais, os
vazios na legislação agrária e a ineficiência da produção. E apesar das re-
formas políticas levadas a cabo, os colorados ainda mantinham seu abs-
tencionismo.
Em agosto de 1920, assumiu a presidência da república, pela segun-
da vez, Manuel Gondra (1920-1924), após vencer internamente o ex-presi-
dente Schaerer. O líder intelectual dos radicais formou seu gabinete com
as principais figuras do partido: Eligio Ayala em Fazenda, Eusebio Ayala em
Relações Exteriores e Patrício Guggiari em Interior – todos eles futuros
presidentes do país. O único político não presente era Schaerer, que pos-
suía um número significativo de partidários no Congresso. Sempre candi-
dato à presidência, Schaerer aceitou a candidatura de Gondra, mas impôs
Felix Paiva, seu cunhado, como vice-presidente e o coronel Adolfo Chirife
como ministro da Guerra e Marinha, conservando o controle da condução
partidária.
A caída da demanda e dos preços internacionais dos produtos bá-
sicos seguia afetando diretamente o Paraguai. Por isto, Eligio Ayala cen-
trou-se em ordenar as finanças públicas e corrigir corrupções financeiras,

96
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

em uma administração que foi bem sucedida em suas metas (SCAVONE


YEGROS, 2010). Mas politicamente, as disputas internas dos liberais radi-
cais voltaram a se reacender. Schaerer, ao se sentir deslocado da condução
partidária, patrocinou uma sublevação com a ocupação das dependências
do Departamento de Polícia da capital, em 29/10/1921. A não repressão
ao movimento por parte do ministro de Guerra e Marinha fez com que o
presidente renunciasse ao cargo no dia seguinte. As disputas das duas fa-
cções do partido impossibilitaram a formação de um gabinete, o que levou
o vice-presidente também a renunciar. A solução foi alcançada no início
de novembro, quando o Congresso designou como presidente provisório o
senador Eusébio Ayala.
Em abril de 1922, ao se inaugurarem as sessões do Congresso, o
presidente pediu ao legislativo a tomada de uma posição. A ala vinculada
a Gondra se mostrou inclinada a confirmar Eusébio Ayala na chefatura do
Estado até 1924, para terminar o mandato. Porém a ala vinculada a Schae-
rer decidiu acompanhar a proposta do Partido Colorado, que impôs a con-
vocação de novas eleições a serem realizadas em julho de 1922. Essa ala
lançava a candidatura de Chirife, a quem o governo opunha-se por ser um
militar em exercício de função.
Estavam dados os elementos para uma nova revolta, deflagra-
da quando o presidente e todo seu gabinete resolveram, em um primei-
ro momento, ir contra a decisão do Congresso. Os parlamentares emiti-
ram um manifesto e solicitaram que o exército se alçasse em defesa da
constituição. A retirada do veto e mesmo uma nova derrota simbólica no
Congresso quando a maioria colorada-schaerista no dia seguinte derru-
bou o expediente presidencial não frearam o levantamento militar sob o
comando dos coronéis Chirife e Pedro Mendoza. Logo, a Região Militar de
Concepción aderiu à revolta.
A maior parte dos oficiais com mando de quartéis se rebelou contra
o presidente da república invocando a carta magna. Entre estes, haviam
antigos jaristas e também oficiais identificados com os colorados, como
o Major Eugenio A. Garay – companheiro de Chirife e Mendoza na Escola

97
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Militar do Chile. As forças civis rebeldes foram lideradas pelos caudilhos


radicais schaeristas, bem como por caudilhos colorados, destacando-se
a montonera de José Gill. Forças militares e civis que haviam estado em
campos opostos quando da guerra civil de 1911-1912 agora lutavam unidas
(CABALLERO AQUINO, 2013).
Apesar do quadro militar adverso, o governo reagiu. O presidente
Eusebio Ayala recrutou e designou oficiais mais jovens, tendo conseguido
o importante apoio, pelo seu número de membros, da Liga de Operários
Marítimos. O comando militar ficou a cargo do coronel Manlio Schenoni,
que conhecia bem a Chirife; ambos estiveram juntos nas forças militares
gondristas quando dos acontecimentos de 1911-1912. Os oficiais que se-
cundaram o presidente teriam uma destacada atuação na futura Guerra do
Chaco e na vida política do país. Nessa lista estavam os oficiais José Félix
Estigarribia, Arturo Bray, Higino Morínigo e Rafael Franco.
Em junho de 1922, iniciaram-se os combates da nova guerra civil,
com as forças rebeldes não conseguindo conquistar a capital. Nos meses
seguintes, se livraram batalhas em toda a República, em grande medida
entre montoneras de ambas as partes. Mas do lado do governo, já se ia
gestando um operativo mais profissional, com o deslocamento de tropas e
armas de acordo com as necessidades. Entrado o ano de 1923, o país ainda
estava imerso na guerra, com um governo que tinha o controle da capital
e do Partido Liberal, e um Congresso que não se reunia desde maio do ano
anterior. Assim, decidiu-se pela candidatura do presidente em exercício,
Eusébio Ayala, para o próximo período constitucional que se iniciaria em
1924, o que levou este a renunciar para não presidir sua própria eleição,
sendo substituído pelo Ministro da Fazenda Eligio Ayala.
Passado quase um ano de enfrentamentos bélicos, em maio de
1923, as operações militares diminuíram em intensidade, e nesse mês fa-
lecia Chirife, comandante militar da rebelião (18/05/1923). Em julho, de-
pois de uma última frustrada tentativa rebelde de ocupar a capital, houve
uma dispersão dos sublevados, com os chefes do levantamento indo para
a Argentina à busca de proteção. A guerra civil terminava depois de 13 me-

98
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

ses. Mas ao contrário das sublevações anteriores, nas quais os envolvidos


nunca sofreram castigos severos ou duradouros, as lideranças liberais ven-
cedoras estavam dispostas a submeter os oficiais militares rebeldes à sua
autoridade civil. O delito de revolta levou à expulsão de um significativo
número de oficiais do exército, rompendo assim uma tradição de anistia.
Como sequela, a maioria dos chefes militares guardou ressentimentos con-
tra o Partido Liberal. Ainda mais que os caudilhos civis envolvidos tiveram
um curto exílio, voltando logo às suas atividades políticas e econômicas.
A Guerra Civil de 1922-1923 redundou na primeira subordinação
dos quarteis à autoridade civil na história constitucional paraguaia, que
durou até os acontecimentos de fevereiro de 1936. De qualquer manei-
ra, a guerra civil representou o fim do exército caudilhista, quer dizer, do
exército tradicional, que respondia às ordens de um caudilho e não das
autoridades nacionais (FLECHA, 1995; YORE, 1992). A reestruturação das
forças armadas, modernizando-as e profissionalizando-as, era uma neces-
sidade, tendo em vista a tensão crescente com a Bolívia por demarcações
territoriais pendentes. Uma Escola Militar havia sido criada em 1915, sob
a direção do coronel Manlio Schenoni. Mas o aperfeiçoamento de muitos
militares continuava sendo feito no exterior, principalmente no Chile, bem
como começavam a chegar “missões” estrangeiras de instrução ao próprio
Paraguai, destacando-se a francesa, que atuou de 1926 a 1929 (MENDOZA,
2011, p. 50).8
Ao mesmo tempo, o confronto entre uma visão liberal da história
e a revisionista defendida pelo coloradismo, centrada na revalorização da
figura de Francisco Solano López, teve para essa mesma época seus gran-
des desdobramentos. Quando das comemorações do cinquentenário do
fim da guerra (1920) e dos festejos pelo centenário do nascimento do ma-
rechal López (1926), o novo embate já não era eminentemente intelectual.

8 Cabe perguntar se esses militares foram influenciados pela inimizade entre o Chile e a Bolívia,
se receberam uma imagem do outro, o boliviano, como inimigo comum do Chile e do Paraguai
que influenciaria futuras decisões em relação ao conflito de 1932-1935, já que vários dos res-
ponsáveis pela Guerra do Chaco tinham passado pela academia chilena.

99
As Revoluções na América Latina Contemporânea

O coloradismo tinha o claro propósito de instalar a disputa na opinião pú-


blica como uma estratégia que visava recuperar a autoestima do povo, e ao
mesmo tempo, facilitava a adesão deste ao partido de Caballero.
Após a longa guerra civil de 1922-1923, as perdas e os gastos oca-
sionados foram compensados pela recuperação da economia a partir de
1923, como consequência da reativação econômica na Europa e do au-
mento dos preços internacionais das matérias-primas, ganhando impor-
tância o cultivo do algodão. O grupo vitorioso em 1923 estimou que havia
ferido mortalmente o caudilhismo e a ingerência dos militares na política
e que toda a transformação operada internamente no próprio partido go-
vernante tornaria possível concretizar as mudanças necessárias, dada uma
crise mais ampla que incluía as transformações da sociedade paraguaia,
no marco das mudanças operadas em toda a América Latina na década de
1920. Para o novo período presidencial, o Partido Liberal decidiu apresentar
a candidatura de Eligio Ayala, que havia conduzido à vitória do governo na
guerra civil, ficando descartada a de Eusébio Ayala.
Eligio Ayala (1924-1928) iniciava seu mandato constitucional com a
economia em crescimento e um partido forte e unificado, com total contro-
le do Congresso, pois os colorados também se abstiveram de participar das
eleições legislativas de 1923. Ao governar o Paraguai de 1923 a 1928, pre-
sidiu a recuperação do exército através da profissionalização com bolsas
no exterior para alguns oficiais e com a compra encoberta de armamentos,
além da ocupação militar de áreas do Chaco por meio de precários fortins,
pois a guerra com a Bolívia se apresentava como uma possibilidade real.
Com o abandono das políticas econômicas liberais ortodoxas, em 1926,
se sancionou a lei de criação e fomento da pequena propriedade agrope-
cuária, impulsionando a colonização; em 1927, se ditou uma lei sobre aci-
dentes de trabalho; e em 1928 se constituiu uma comissão parlamentar
para estudar o regime de contratação trabalhista nas zonas rurais. Toda
a ação de Elígio Ayala rompeu com os cânones das políticas econômicas
liberais tradicionais, porém as mazelas sociais arrastadas desde muito tem-
po atrás continuavam pendentes.

100
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

Para conquistar a paz política interna, decretou-se, em 1927, uma


reforma da legislação eleitoral, criando também a Junta Eleitoral Central
como garantia de eleições limpas. Estabelecia-se o sistema de votação por
lista completa, que impedia alterar os nomes e a ordem de colocação dos
candidatos propostos pelos partidos, bem como a representação propor-
cional limitada, em cuja virtude os cargos seriam distribuídos em proporção
aos votos obtidos somente entre as duas listas com maior número de sufrá-
gios – eliminando na prática as demais agrupações políticas não tradicio-
nais dos cargos eletivos (SCAVONE YEGROS, 2010).
A decisão de levantar a abstenção e participar das eleições le-
gislativas de 1927 provocou divergência dentro do Partido Colorado, que
se dividiu em setores a favor e contra o jogo eleitoral. Como resultado do
processo político, setores do coloradismo não só ocuparam cadeiras no
Congresso, senão que também decidiram apresentar um candidato para as
eleições presidenciais de 1928. Seria a primeira vez na história do Paraguai
que a presidência seria disputada realmente em eleições livres, e depois de
anos de abstenções, os colorados se viram empurrados a aceitar o papel
de minoria no Congresso.
Com a vitória de José P. Guggiari (1928-1932), o Partido Liberal
manteve-se no poder. Para a época, o país conhecia um incremento no
combate à atividade sindical, tanto na capital como no interior, ganhando
influência na classe trabalhadora e nos meios estudantis as ideias socialis-
tas e comunistas. Para o mesmo período, cobrava força um pensamento de
direita inspirado em processos políticos que tinham lugar na Europa e na
América, moldando um nacionalismo exaltado em setores da população,
especialmente entre os militares. Para muitos, inclusive colorados, os valo-
res individualistas da democracia liberal eram tidos como algo que não se
amoldava à “idiossincrasia” dos paraguaios, à qual consideravam herdeira
de ideais coletivistas. Somavam-se a isso as quebras institucionais de 1930,
que sacudiram a vida política dos grandes vizinhos, Argentina e Brasil, con-
duzindo à entrada em cena das Forças Armadas, reivindicando para si uma
função tutelar sobre toda a nação.

101
As Revoluções na América Latina Contemporânea

As críticas de partidos e grupos políticos opositores, tanto na im-


prensa como no Congresso, se agitaram com o recrudescimento dos atri-
tos fronteiriços na região do Chaco, acusando os governos liberais de não
preparar suficientemente o país diante da “ameaça boliviana”. As agitações
sociais e a descoberta de um complô contra o governo determinaram a
adoção de medidas repressivas, com a implantação do estado de sítio en-
tre setembro de 1929 e julho de 1930. A tudo isto, se agregou o estanca-
mento da economia como consequência da depressão mundial de 1929,
cujos efeitos para grande parte da população de campesinos autossufi-
cientes foram, entretanto, limitados.
Para uma gama de intelectuais paraguaios nacionalistas era ne-
cessário restituir a memória coletiva de um passado heroico e cheio de
grandeza. Uma história com ênfase no aspecto bélico, mais ensaísta que
erudita, que identificava como adversários o Partido Liberal, os historia-
dores liberais rio-platenses e as ingerências argentina e brasileira. A re-
construção da memória histórica, ativada pelos lopistas, contribuiu para
que a sociedade paraguaia manifestasse um forte sentimento identitário e
patriótico. Contraditoriamente, também foi uma ferramenta de eficaz ope-
ração e mobilização usada pelo governo liberal, dado o contexto do cres-
cente conflito que se avizinhava com a Bolívia.
Entrado o ano de 1931, se efetuaram as eleições de renovação parla-
mentária, com a participação de alguns setores do coloradismo, e reformas
legislativas de caráter social. Em junho, o governo remeteu ao Congresso
projetos para a criação do Departamento Nacional do Trabalho e a regula-
mentação dos direitos de associação e de greve. Também se sancionaram
leis sobre ensino profissional e assistência médica nos estabelecimentos
industriais, e sobre locação de serviços nos estabelecimentos agrope-
cuários do Alto Paraná, assim como o novo Código Rural. Mas a agitação
política não cedia, ocorrendo em abril o amotinamento de reservistas de-
vido às péssimas condições do serviço militar nas guarnições do Chaco.
As coisas saíram de controle no dia 23 de outubro de 1931, quan-
do uma manifestação estudantil que reclamava a defesa do Chaco diri-

102
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

giu-se ao palácio presidencial. O episódio, com mortes e feridos, foi muito


explorado pela oposição, com os colorados renunciando a seus mandatos
legislativos (VERÓN, 2013). Um papel de destaque coube à Liga Nacional
Independente, reduzida agrupação política de intelectuais nacionalistas,
criada em 1928 e liderada por Juan Stefanich, que exaltava o belicismo.
Em uma posição ideológica contrária posicionou-se o Partido Comunista
Paraguaio, mais crítico e pacifista, vendo o conflito que se avizinhava como
uma disputa entre povos irmãos, promovido por interesses imperialistas.
Apesar de todas as dificuldades, Guggiari pode concluir seu man-
dato, e com o abstencionismo dos colorados, as eleições de 1932 volta-
ram a ser um plebiscito para o candidato oficial Eusebio Ayala (1932-1936).
A guerra pelos domínios do Chaco boreal estalou a mediados de julho de
1932, mas a disputa era de longa data. Além da falta de delimitações defi-
nitivas de fronteiras, também entraram em jogo fatores econômicos em um
momento no qual a crise atingia ambos países.
Ao longo dos três anos de guerra internacional, os enfrentamentos
internos foram substituídos por uma trégua política acordada por todos os
partidos. A frente de batalha ficou a cargo do tenente coronel José Félix Es-
tigarribia, tendo sido importante o apoio material vindo da Argentina. Com
vitórias militares mais significativas por parte do exército paraguaio, em
junho de 1935 se subscreveu o Protocolo de Paz, pelo qual se acordou a in-
terrupção das hostilidades sobre a base das posições alcançadas por cada
um dos exércitos. Quando do final do conflito, havia morrido mais de 56 mil
bolivianos e 36 mil paraguaios (VERÓN, 2011; MENDOZA, 2013).
A guerra serviu para canalizar os ressentimentos das três décadas
sob governo liberal. Os militares nacionalistas acusavam os liberais de de-
bilidade diplomática e de não haver preparado o país para a guerra. Políti-
cos populistas e intelectuais reformistas acusavam o partido de descuidar
da reforma social. Alegavam que os estrangeiros eram os donos do país e
que a lealdade do liberalismo à doutrina do laissez faire não havia sabido
proteger o povo da exploração. Para os colorados, e até mesmo para fa-
cções dissidentes do Partido Liberal, o governo era uma oligarquia autori-

103
As Revoluções na América Latina Contemporânea

tária que se escondia através da retórica democrática e de eleições pouco


representativas.
Os paraguaios que tomaram parte na Guerra do Chaco voltaram à
normalidade de suas vidas, animados por ânsias de renovação e mais com-
prometidos ainda se consideraram os comandantes militares. Não obstan-
te, as esperanças de mudanças chocaram com a realidade de um Estado
sem condições financeiras. Assim, se dispôs a desmobilização de oficiais e
soldados, sem compensações e sem acompanhar sua reinserção na vida
civil, o que deixou a sensação que se estava cometendo uma injustiça. A
isso, se somaram as disputas no Partido Liberal e as eleições presidenciais
de 1936, a angustiosa situação econômica do país e os enormes problemas
sociais a serem resolvidos (SCAVONE YEGROS, 2010).
Em fevereiro de 1936, o executivo efetuou a detenção do coronel
Rafael Franco, chefe militar de prestígio na guerra, diretor da Escola Militar
e presidente da Associação Nacional de ex-combatentes, que exigia uma
reforma agrária para compensar os vitoriosos soldados-camponeses. A ex-
patriação de Franco para a Argentina, junto com outros oficiais acusados
de tramar contra o governo, acelerou os afãs conspirativos dos mandos
médios e da oficialidade jovem do exército. Sete meses depois do armis-
tício, em 17 de fevereiro de 1936, estalou o golpe militar. O general Estiga-
rribia, comandante em chefe das Forças Armadas, e o presidente Eusebio
Ayala, junto a outras personalidades, foram presos, tachados de traidores
e desterrados.
A autodenominada Revolução Libertadora foi um movimento es-
sencialmente militar, mas que contou com o apoio de civis de diversas ex-
trações e que concitou grandes expectativas na população. Imediatamente
foi anunciada a destituição das autoridades dos três poderes e Rafael Fran-
co foi designado presidente provisório da República. A constituição de 1870
seria mantida até a convocação de uma Convenção Nacional Constituin-
te. O novo gabinete ministerial estava integrado por militares e membros
de diversas tendências políticas, exceto liberais, cujas lideranças partiram
para o exílio (ARCE FARINA, 2013).

104
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

Mas em maio de 1936, os ministros civis – tanto os que mostraram


suas simpatias pelo fascismo como os socialistas – já haviam deixado seus
cargos. Em agosto, a decisão de conformar um partido oficial provocou a
renúncia do ministro da Agricultura, o colorado Bernardino Caballero, filho
do legendário fundador do Partido Colorado. O gabinete, sem a presença
dos partidos tradicionais, ficou sob a influência da Liga Nacional Indepen-
dente, liderada pelo chanceler Juan Stefanich. Em novembro de 1936, se
constituiu o partido “da Revolução”, com o nome de União Nacional Revo-
lucionária (UNR), os chamados febreristas, integrado por um arco político
amplo, até por liberais dissidentes. Pela primeira vez, não estavam na con-
dução política do país nem os liberais nem os colorados, ao mesmo tempo
em que o partido governista criado tentava organizar-se como uma nova
força política de alcance nacional. Porém, apenas uma minoria de ex-com-
batentes se filiou à UNR, e a fins de 1936, o governo Franco já havia perdido
quase todos seus partidários originais: a Liga resultou ser uma base política
demasiado estreita; as lideranças liberais estavam no exílio e os colorados
e comunistas estavam presos ou na clandestinidade.
O novo governo alterou de forma considerável as funções do Esta-
do, e efetivou uma intervenção mais direta na economia e na atenção aos
problemas sociais. Em junho de 1936, se estabelecia finalmente o Depar-
tamento Nacional do Trabalho, assim como o primeiro Código Trabalhista,
com o qual se consagraram os direitos de liberdade sindical, jornadas de
oito horas e pagamento de salários em dinheiro. Houve o reconhecimento
oficial e proteção aos sindicatos que já existiam, ao mesmo tempo em que
se fomentava a sindicalização dos trabalhadores de outras áreas, crian-
do-se a Confederação Paraguaia de Trabalhadores (CPT). Esses avanços
tiveram como contrapartida o aumento do controle oficial sobre a ativida-
de sindical. Criou-se o Ministério de Saúde Pública e se ditou o decreto-lei
de Reforma Agrária, com o executivo iniciando expropriações e assentan-
do famílias de agricultores (RODRÍGUEZ, 2011).
O governo também propulsou a denominada Restauração Histórica
Nacional. Em março de 1936, no aniversário de morte do Marechal López,

105
As Revoluções na América Latina Contemporânea

foram cancelados todos os decretos contra sua figura, e era reconhecido


como Herói Nacional Ímpar. Com a construção do Panteão do Heróis, no
centro de Assunção, ficou oficializado o culto patriótico aos governos de
Francia e dos López, e a partir de então, o revisionismo abria o caminho
para converter-se em histórica oficial anos mais tarde9.
A ascendência da Liga Nacional Independente no executivo, as
campanhas no exterior dos liberais tentando desprestigiar o novo gover-
no, as mobilizações ministeriais para deter as interferências militares e as
estancadas negociações diplomáticas para acordar uma paz definitiva
com a Bolívia pela Guerra do Chaco fomentaram um novo levantamento
de alguns setores das Forças Armadas. Em 13 de agosto, o coronel Ramón
Paredes, chefe militar do Chaco, em contato com líderes do Partido Liberal
no exílio, deslocou as tropas e ocupou Assunção, levando Franco e lide-
ranças febreristas à prisão ou ao desterro. A “revolução” havia terminado.
O governo foi derrotado por uma “contrarrevolução” liberal antes de terem
transcorridos 18 meses (SEIFERHELD, 2011).
Entretanto, os febreristas podiam afirmar que haviam rompido com
o passado ao substituírem as ideias liberais pelo culto ao nacionalismo, ao
colocarem em marcha a primeira reforma agrária séria do país e ao implan-
tarem os direitos do trabalhador. Houve, inegavelmente, uma mudança de
paradigma na política paraguaia.
A Guerra do Chaco (1932-1935) constituiu um parêntese no pro-
cesso de desmoronamento da ordem liberal. Para a época, o Partido Colo-

9 No novo clima ideológico que se consolidava, na busca da nacionalidade e suas origens, isto
é, da identidade, ganhou relevância o guarani, desvalorizado ante a considerada língua culta
– o espanhol. Na guerra do Chaco, estrategicamente o guarani foi imposto como língua única
de campanha e idioma da pátria – reconhecimento que nunca mais perdeu. E nessa guer-
ra consolidou-se o prestígio do poeta/cantor Emiliano Re. Suas composições patrióticas em
guarani foram musicalizadas e cantadas no fronte. Mas a influência do poeta foi muito maior
e, segundo Romero, fundamental para a difusão popular do lopismo: “Mientras que las obras
del historiador nacional don Juan E. O’Leary: ‘Nuestra epopeya’, ‘El libro de los héroes’ y ‘El
Mariscal Francisco Solano López’ llegaban solamente a los círculos intelectuales que podían
acceder a ellas, las composiciones patrióticas de Emiliano R. Fernández, cuyos versos exaltan
la memoria del mártir de Cerro Corá, alcanzaban a casi la totalidad de los ciudadanos que le-
ían ‘Ocara Poty Cue Mí’ la revista que era distribuída hasta en las aldeas y pueblos más lejanos
del interior del país y em donde se publicaban esas composiciones”. Ver: ROMERO, 200, p. 58.

106
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

rado já havia sofrido uma profunda mutação ideológica. No novo ideário do


partido, de 1934, redigido por Natalício González e Víctor Morínigo, os colo-
rados abandonavam os pressupostos clássicos do liberalismo político, mais
interessados agora em um Estado forte, guardião da sociedade, “protetor”,
ao “serviço do homem livre” nos termos de González, que não ocultava
suas simpatias pelo fascismo europeu – negadas mais tarde –, evidencian-
do o papel determinante do entorno mundial.
Em 1937, os comandos militares que se alçaram contra o governo
de Franco tinham como objetivo regularizar a situação institucional do país,
retomando os parâmetros institucionais da democracia liberal, anteriores à
guerra. Da mesma forma que o regime deposto, o governo provisório era
uma coalizão de elementos antagônicos. Ali estavam os velhos liberais e
muitos oficiais nacionalistas de exército que se desiludiram com Franco.
Também havia uma nova geração de liberais que levantavam as bandei-
ras de mudanças sociais e eram abertos ao apoio dos militares. Os pos-
tos no novo governo tiveram que ser designados com cuidado, a fim de
conservar o equilíbrio. Os velhos liberais elegeram Félix Paiva (1937-1939),
ex-vice-presidente, para o exercício da presidência provisória. Os jovens
liberais não tinham nenhum representante nos níveis mais altos do governo
e depositaram suas esperanças em Estigarribia, nomeado embaixador nos
Estados Unidos (MENDOZA, 2011).
As Forças Armadas mantiveram o monopólio da carteira de Defesa
e se reservaram o estratégico Ministério do Interior, tradicionalmente ocu-
pado por um civil. Cabia ao ministro do Interior um enorme poder, pois os
assuntos locais estariam em mãos de chefes políticos por ele nomeados.
A partir de então, setores nacionalistas das Forças Armadas sinalizavam
que não se retirariam aos quartéis nem deixariam de influir na gestão go-
vernamental. O representante da ala nacionalista nesse cargo-chave foi o
coronel Higinio Morínigo.
A restauração constitucional colocou parcialmente fim à restrição
da atividade política: não foram beneficiados comunistas nem febreristas,
que seguiam exilados ou atuando na ilegalidade. Restabeleceu-se a Junta

107
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Eleitoral Central, com representantes do liberalismo e do coloradismo, e a


convocação de eleições legislativas para o ano seguinte. Mas entre setem-
bro e dezembro de 1937, se registraram levantamentos de militares febre-
ristas, enquanto o país padecia um notório estancamento das atividades
produtivas e comerciais. Ainda durante o governo de Paiva, em julho de
1938, se alcançou um entendimento com a Bolívia, que permitiu a assina-
tura do Tratado de Paz que reafirmou o domínio paraguaio sobre a maior
parte do território em disputa. Porém o tratado foi repudiado por colorados
e febreristas, sinalizando que os limites haviam sido traçados um pouco por
detrás das linhas de batalha definitivas do exército paraguaio. Resolvido
esse tema crucial, o governo convocou eleições legislativas para setembro
de 1938, com a continuidade do abstencionismo colorado. O Congresso,
integrado exclusivamente por liberais, confirmou Félix Paiva como presi-
dente provisório até 1939.
A convenção do Partido Liberal para definir o nome do novo can-
didato mostrou suas divisões internas. Os velhos liberais civilistas queriam
que Gerónimo Zubizarreta encabeçasse a lista, enquanto que os novos
desejavam a candidatura de Estigarribia. A pressão dos militares reverteu
a decisão a favor deste último, que como embaixador ante o governo nor-
te-americano, havia formalizado acordos de ajuda financeira e de coope-
ração com os EUA. Isto permitiria neutralizar as simpatias e os apoios que
a Alemanha concitava, especialmente em uma parte do alto mando militar.
Era a confiança de que o novo chefe de Estado restabeleceria a disciplina
das Forças Armadas. Assim, em uma eleição sem oposição, a fórmula da ala
liberal mais jovem foi vencedora.
Apesar de seu grande prestígio, o presidente Estigarribia, eleito
para o período 1939-1943, não foi capaz de pacificar o país. Por um lado, os
velhos liberais estavam ciosos da sua proximidade com os jovens liberais, e
mesmo com o coloradismo. Por outro, os febreristas, que embora estives-
sem na ilegalidade, continuavam sua agitação contra o governo, conspi-
rando em determinados setores do exército. A integração do gabinete mi-
nisterial com jovens liberais e dois chefes militares despertou as primeiras
reações adversas. No Partido Liberal se objetou a decisão de continuar a

108
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

confiar o Ministério do Interior a um chefe de exército; representantes da


sociedade civil estavam decepcionados por haver somente representantes
do Partido Liberal no gabinete; e setores das Forças Armadas se encontra-
vam insatisfeitos com a volta desse partido ao comando da nação.
Um clima político denso marcou o início do novo governo. Apesar
de os militares nacionalistas sentirem preferência pela Alemanha, Estigarri-
bia se mostrava amistoso com os EUA e albergava a esperança de utilizar
a ajuda norte-americana como contrapeso à influência econômica argen-
tina. Contra o governo se formou uma aliança entre febreristas e um novo
movimento de intelectuais conservadores e antiliberais, cujo porta-voz era
o jornal El Tiempo – os tiempistas, que viam Estigarribia como “agente do
imperialismo ianque”.
Com a crescente agitação estudantil, em janeiro de 1940, o gover-
no dispôs a intervenção da Universidade Nacional como a prisão e depor-
tação do diretor do jornal El Tiempo. Os colorados suspenderam suas ne-
gociações com Estigarribia e mantiveram o abstencionismo. De qualquer
forma, em fevereiro de 1940, se ditou o Estatuto Agrário, instrumento jurídi-
co com que se pretendia afrontar o crucial problema da propriedade rural
– concentrada em poucas mãos, muitas delas estrangeiras –, reconhecen-
do sua função social. O novo estatuto abria a brecha para a expropriação,
quando necessária, mediante pagamento de indenizações.
O governo divisou a existência de uma conspiração ou, ao menos,
de inquietações militares por detrás das perturbações políticas; por tanto,
entendia como necessário um reajuste institucional sobre novas bases. Os
novos liberais, capitaneados por Justo Pastor Benítez, pediram a dissolução
do Congresso e o transpasso de todo o poder ao presidente. Em fevereiro
de 1940, passados 70 anos da promulgação da constituição de 1870, hou-
ve a determinação de estruturar uma nova ordem institucional. Se impôs
a dissolução do Congresso mediante a renúncia de todos os senadores e
deputados; se declarou a necessidade da reforma constitucional e o pre-
sidente Estigarribia assumiu a plenitude dos poderes públicos (CÁCERES
MERCADO, 2011). O novo gabinete ministerial ficou integrado por militares
e civis que assumiram cargos a título pessoal e não partidário.

109
As Revoluções na América Latina Contemporânea

O presidente esteve à frente do projeto de constituição, redigido


basicamente pelos ministros Justo Pastor Benítez e Pablo Max Ynsfrán. O
texto foi sancionado por decreto em 10 de julho de 1940 e ratificado logo
após por plebiscito. A nova constituição tendia a organizar um Estado for-
te, em que o presidente aumentava suas faculdades, podendo dissolver o
Congresso, decretar estado de sítio e ditar decretos-leis durante o recesso
legislativo. Se eliminava a vice-presidência e se criava um Conselho de Es-
tado como órgão assessor do executivo. O poder legislativo passaria a ser
unicameral. O Estado já não seria neutro, tendo atribuições para intervir
na vida social e econômica. A propriedade privada deveria cumprir uma
função social e se condenava à exploração do homem pelo homem.
O novo marco jurídico do país foi justificado como necessário em
conformidade com os novos tempos. A carta foi criticada pelos liberais or-
todoxos e tildada de fascista pela maioria do restante arco político, inclusi-
ve os colorados. Todavia, cabe observar que refletia uma inflexão ideológi-
ca do próprio Partido Liberal que se reestruturava, adaptando o exercício
do poder a um Estado fortalecido em suas funções. Mas em 07/09/1940,
Estigarribia faleceu em um acidente aéreo, abrindo-se enormes incertezas.
Quando da morte de Estigarribia, nem a Câmara de Representan-
tes nem o Conselho de Estado estavam conformados. Os máximos oficiais
militares se reuniram imediatamente para eleger sucessor, sem consultar
os liberais, impondo a designação do agora general Higinio Morínigo como
presidente interino. A partir de então, entrou em curso uma verdadeira
redefinição política. Antes de completar um mês, a presidência forçou a
renúncia dos jovens liberais do ministério, sua imediata prisão e posterior
expulsão do país, vindo posteriormente a fazer o mesmo com os velhos
liberais, bem como colocando o partido fora da lei. Durante os meses se-
guintes, Morínigo cuidadosamente buscou apoio nos quartéis. Os chefes
militares juraram lealdade ao governo, subscrevendo um documento em
apoio à estabilidade da chamada nova Ordem Nacionalista Revolucionária,
em oposição ao que consideravam a anarquia política produzida pelos po-
líticos profissionais do regime liberal. Assim, o governo integrou o Conselho
de Estado, mas não convocou eleições para a Câmara de Representantes.

110
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

Em junho de 1941, os tiempistas foram o único grupo civil desejoso


de trabalhar com o novo regime militar. Os colorados, ao terem rechaça-
do uma proposta de aproximação com o governo, sofreram restrições no
desenvolvimento de suas atividades, e os febreristas e os comunistas con-
tinuaram na ilegalidade. Ainda que os tiempistas fossem poucos, Moríni-
go os usou para atrair outros grupos, tratando-os prodigamente ao lhes
conceder vários ministérios e a presidência do Banco Central. Durante os
três anos seguintes, o tiempismo exerceu muita influência política, ainda
que nunca chegou a ser um movimento popular ou mesmo um partido. O
poder central estava em mãos dos militares, especialmente de uma facção
pró-nazista chamada Frente de Guerra (SCAVONE YEGROS, 2010).
Nos anos que se seguiram, foi imposto um governo autoritário,
fundado no apoio das Forças Armadas, com a oposição exilada e o estri-
to controle político interno. A economia havia crescido pelo aumento da
produção e das exportações diante da demanda internacional de produtos
provocada pela Segunda Guerra Mundial. O Estado assumiu a direção da
economia, dispondo sua intervenção na fixação do câmbio e dos preços
de produtos de primeira necessidade, assim como no armazenamento e
comercialização de produtos agropecuários. Em 1942, adotou uma nova
medida monetária, o guarani. Outras disposições beneficiaram o trabalha-
dor, como o salário mínimo e o seguro social obrigatório; no entanto, pouco
se avançou na redistribuição da propriedade rural.
Ao se aproximar a data para as eleições presidenciais, as Forças
Armadas proclamaram Morínigo como candidato. Em fevereiro de 1943, os
cidadãos foram convocados não para eleger o presidente, mas para ple-
biscitar sua reeleição. Quando do segundo mandato, diferenças entre os
tiempistas e o alto mando militar terminaram rompendo a estabilidade do
gabinete ministerial. As tensões estavam vinculadas aos desdobramentos
da guerra na Europa, particularmente quando o Eixo começou a perder te-
rreno. Os tiempistas estavam a favor de uma ruptura com a Alemanha, ati-
tude que os confrontou com o grupo da Frente de Guerra. Ante a disputa,
em março de 1944, Morínigo deslocou os civis do poder. A partir de então,

111
As Revoluções na América Latina Contemporânea

os tiempistas perderam relevância no cenário político nacional. A vitória da


Frente de Guerra foi efêmera, pois em agosto de 1944, chegou a Assunção
um novo embaixador dos EUA. Morínigo foi comunicado que a futura ajuda
norte-americana dependia da restauração da liberdade de imprensa, do
levantamento da proibição que pesava sobre os partidos políticos e da ce-
lebração de eleições legislativas limpas.
Com o final da guerra e com o novo ambiente político mundial, a
pressão dos Estados Unidos sobre o Paraguai para iniciar uma abertura
democrática aumentou. Ao final, o instinto de sobrevivência política e o
pragmatismo do presidente se impuseram. Depois de quase seis anos da
ditadura, em janeiro de 1946, Morínigo anunciou a decisão de iniciar um pro-
cesso de normalização institucional. Os acontecimentos que se seguiram,
quando os blocos fascistas foram removidos da esfera castrense, mostram
diferenças de posições dentro do exército. O chamado Grupo da Cavalaria
tinha intenção de organizar as “forças civis da revolução”, não se conten-
tando em presenciar o eventual processo de abertura política e deixá-lo
em mãos dos partidos tradicionais. Em maio de 1946, o general Machuca,
ao assumir o Comando em Chefe das Forças Armadas dava outro tom ao
falar da necessidade da construção de um exército apartidário. Ao presi-
dente já não era mais fácil administrar as diferenças dentro da caserna e
pôde continuar no cargo com o compromisso de proceder à abertura. Ini-
ciava-se a “primavera democrática” (GÓMEZ FLORENTÍN, 2011b e 2013).
A abertura democrática permitiu que os dirigentes políticos exila-
dos retornassem ao país, que se derrogasse o decreto de dissolução do
Partido Liberal e que os comunistas pudessem sair finalmente da ilegalida-
de. Em julho de 1946, um novo gabinete foi formado. O governo, agora de
coalizão, foi composto de três ministros do Partido Colorado, liderado por
Natalício González no Ministério da Fazenda; três da Concentração Revo-
lucionária Febrerista, a nova agrupação política de Juan Stefanich e vincu-
lada a Franco; e por dois militares.
Os partidos restabeleceram seus órgãos de imprensa, com todos
podendo livremente se manifestar. Com a reabertura da Junta Eleitoral

112
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

Central, se prepararam para as tarefas de organização e propaganda, com


vistas à anunciada Convenção Constituinte que se pretendia celebrar em
1947. A alteração do documento era vista como necessária, pois todos es-
tavam nominalmente de acordo que a Constituição de 1940 era “autori-
tária” para, na sequência, proceder a eleições gerais.
Depois de mais de quatro décadas, o Partido Colorado integrava
um gabinete. Porém as disputas por ocupar espaços na administração
pública e aproveitar os recursos estatais levaram ao enfrentamento dos
partidos que participavam do poder. E tantos estes como os que estavam
fora do governo cuidavam em cultivar relações com elementos militares,
em previsão de poderem vir a cumprir um rol fundamental nas definições
políticas que deviam dar-se nos meses seguintes.
Havia sinais de que as principais forças políticas não estavam dis-
postas a tolerar um regime democrático. O clero católico exigia que o go-
verno suprimisse a atuação do Partido Comunista. Os febreristas não des-
cartavam um golpe de Estado, pois Franco ainda contava com admiradores
nos altos postos militares e nos meios estudantil e sindical. Os periódicos
do Partido Liberal atacavam Morínigo e pediam seu derrocamento ime-
diato pelo exército. Os colorados, agora mais claramente divididos entre a
ala “democrática” e a dos guiones rojos, também mantinham posições di-
vergentes: a primeira, dirigida por Federico Chaves, tratava de sustentar o
governo de unidade; enquanto que os guiones rojos, encabeçados por Juan
Natalício Gonzalez, não aceitavam a paridade colorada com os febreristas
no gabinete.
As disputas dentro do governo de coalizão desembocaram na cri-
se de janeiro de 1947. Os ministros febreristas renunciaram a seus cargos
devido a diferenças surgidas quando da criação do novo Ministério do Tra-
balho e Previdência Social, cuja titularidade reclamavam, dada a base que
ainda tinha nos sindicatos (GONZÁLEZ DELVALLE, 1987). Não deixava de
ser um Franco pensando nos passos dados por um outro coronel, Juan Do-
mingo Perón, na Argentina. Também havia o descontentamento pela não
fixação de uma data para as eleições. Ante essa situação, em 11/01/1947 os

113
As Revoluções na América Latina Contemporânea

febreristas se demitiram do gabinete e pediram ao exército que assumisse


o poder. Morínigo respondeu declarando estado de sítio, prendendo e des-
terrando os líderes febreristas, liberais e comunistas.
As Forças Armadas obtiveram o compromisso do chefe de Estado
de demitir os ministros colorados e de conformar um novo gabinete exclu-
sivamente militar, que garantisse a neutralidade política até a instalação
da Convenção Constituinte. Mas Morínigo não cumpriu o acordo, contan-
do com o apoio das forças da Divisão de Cavalaria, da Escola Militar e da
Polícia da capital, além de setores do coloradismo. Em 13 de janeiro, inte-
grou um novo gabinete de civis colorados e militares. A decisão evidenciou
uma profunda divisão entre os militares e o início da consolidação do longo
poder por parte do coloradismo, através dos guiones rojos, a ala autori-
tária do partido. Os guionistas caracterizavam-se pela organização de uma
militância violenta, com o uso de tropas de choque paramilitar durante a
primavera democrática para afugentar seus adversários na rua, como para
dissolver concentrações de outros partidos, grupos estudantis e sindicais.
Assim, os avanços políticos, que vieram com a guinada democrati-
zante, foram rapidamente varridos por um processo encabeçado agora por
um governo militar-colorado. Em janeiro de 1947, a primavera paraguaia
dava lugar ao quente verão político, com a perseguição da oposição, e ten-
do como resultado a superpopulação da cadeia de Assunção. Mas no dia
07 de março, um grupo de oficiais febreristas atacou o quartel da Polícia
de Assunção, adiantando-se a uma conspiração programada por militares
próximos aos Partidos Liberal e Comunista. Imediatamente, se rebelou a
guarnição militar de Concepção. Em poucos dias, a maioria das unidades
militares do Chaco e do Paraguai oriental se uniu à sublevação. O governo
sofreu uma forte sacudida, dado que boa parte dos oficiais com mandos de
tropa apoiou a rebelião. Iniciava-se a mais sangrenta guerra civil do país,
fraturando a sociedade paraguaia.
A reação imediata daqueles que ficaram de fora da nova acomo-
dação, bem como a ação de uma oficialidade das Forças Armadas empen-
hada com o retorno democrático, transformou o inicialmente levante mili-
tar em uma guerra de amplas dimensões, a guerra civil de 1947. Os militares

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CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

rebeldes, que inicialmente pretendiam não politizar o movimento, se asso-


ciaram à Concentração Febrerista – encabeçada por Rafael Franco – e aos
Partidos Liberal – com suas montoneras no interior – e Comunista –, com
sua atuação clandestina na capital. Em oposição às acusações do gover-
no do caráter político da insurreição, a insurgência manifestava que suas
ações respondiam a uma renovação democrática, uma reação nacionalista
e institucionalista contra o que entendiam ser a coloradização da esfera
castrense assumida pelo governo de Morínigo.
O governo contou com a lealdade de uma parte menor de oficiais
das Forças Armadas, mas completou seus quadros com militantes colo-
rados, ex-combatentes na Guerra do Chaco, vindos para a capital desde
áreas rurais com seus dirigentes políticos locais (SCAVONE YEGROS,
2010). Denominados pinandís pelos porta-vozes do Partido Colorado, os
celebrados camponeses de pés descalços, apresentados por Morínigo
como os “verdadeiros herdeiros do Paraguai profundo”, foram decisivos
para a defesa da capital. No interior, as montoneras mais ativas eram filia-
das ao coloradismo. O governo logrou controlar estrategicamente a capital
e suas unidades militares: no norte do país, o comando ficou com o coronel
Francisco Caballero Álvarez, outro filho do fundador do Partido Colorado; e
a fortaleza de Humaitá, fundamental na Guerra do Paraguai, ficou a cargo
do coronel Alfredo Stroessner, que logrou deter a passagem de barcos que
ajudariam os rebeldes.
Em abril de 1947, Morínigo conseguiu conter a revolta da marinha,
destacando-se a colaboração dos guiones rojos, que desencadearam uma
onda repressiva em Assunção. As denúncias de abusos cometidos pelas
milícias paramilitares coloradas na capital aumentaram durante o mês de
maio, levando a uma radicalização da guerra civil. Entrado junho, a balança
da guerra começava a pender para o lado das forças governistas. Para isso,
foi crucial o apoio que Morínigo obteve da Argentina. Desejando vivamente
reduzir a influência norte-americana e trazer de novo o Paraguai para a
órbita de Buenos Aires, Perón proporcionou a Morínigo suficientes armas,
munições, caminhões e material médico para que a balança militar se in-

115
As Revoluções na América Latina Contemporânea

clinasse a seu favor. Já o exército rebelde, ao contrário, estava diplomática


e geograficamente isolado, não contando com ajuda externa. Ao mesmo
tempo, as negociações de paz eram boicotadas pelos guiones rojos, que
confiados na vitória final, rechaçavam um acordo.
Em agosto de 1947, a guerra civil caminhava para seu desenlace
com a vitória final do governo ao conseguir romper o cerco que os rebeldes
faziam a Assunção. Iniciava-se uma busca casa por casa de insurgentes e
simpatizantes na capital (novamente com a participação dos guiones ro-
jos), os aprisionamentos no Chaco e o exílio forçado de milhares de pa-
raguaios. Os acontecimentos de 1947 deixaram marcas de uma violência
política transcendental para o Paraguai moderno, com uma sangria econô-
mica e social que superava amplamente todas as guerras civis anteriores
somadas e um exército com enormes baixas em seus quadros superiores10.
O conflito também coincidiu com o começo da Guerra Fria, pelo
que os acontecimentos no Paraguai eram interpretados também sob a len-
te da suposta ameaça comunista com o que o governo dos EUA e seu alia-
do regional mais importante, Brasil, vissem com maus olhos a participação
de membros do Partido Comunista na rebelião. Esses interesses fizeram
com que não se importassem ante a atuação da Argentina. Para os EUA, o
governo de Morínigo era um aliado na luta contra o comunismo e como tal
devia ser protegido. Da mesma forma, redobrava uma aposta no papel do
Partido Colorado em todo esse processo. O mesmo movimento dava prio-
ridade à diplomacia brasileira, historicamente mais próxima do coloradismo
(MORA; COONEY, 2009).
A propaganda colorada cumpriu um papel importante na guerra ci-
vil e foi muito mais efetiva por parte do governo. Este assinalou uma Tríplice
Aliança franco-libero-comunista, evocando diretamente a guerra oitocen-
tista. O objetivo era construir a defesa do governo como um ato patriótico
frente a grupos em complô para a destruição da nação. Em contraposição

10 Autores calculam um número de aproximadamente 30 mil mortos, com 400 mil exilados. O
saldo da contenda divulgada pelo governo na época rebaixava esses valores respectivamente
para 15 e 300 mil (GÓMES FLORENTÍN, 2013, p. 96-97).

116
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

ao pedido feito pelo Partido Liberal de uma intervenção da comunidade


internacional no Paraguai, em defesa da democracia e oposição à ditadura
de Morínigo, o revisionismo defendido pelos colorados passou a ocupar-se
da defesa da “tradição nacional herdada dos López” frente ao “avanço das
tropas bárbaras de fora”. Eram enxergados como os eternos “legionários”,
os liberais do passado distante aos liberais contemporâneos; só que os no-
vos “legionários” eram aliados dos comunistas. Assim, a luta rendia uma fi-
delidade absoluta ao Partido Colorado, o qual se identificava com a grande
pátria paraguaia, equivalente direto de sua identidade política.
Se a primavera política (1946) e o seu verão (1947) foram curtos,
mais longo foi o seu pouco democrático outono, que se estendeu de 1947
a 1954, no qual não faltaram quebras institucionais com inúmeros levantes
militares. A vitória do governo na guerra civil de 1947, em grande medida,
foi devida à ação do Partido Colorado, que desde esse momento se mos-
trou decidido a assumir a direção política do país, usando a carta magna
de 1940 que tanto criticara em seu momento como autoritária. Ao mesmo
tempo em que se afiançava o poder político colorado como partido único,
se mantinha o estado de sítio e a imprensa controlada por censores oficiais.
O consabido exílio era o caminho obrigado para os opositores. Os termos
das disputas políticas construídas ao longo da história haviam se alterado
significativamente. Mas o percurso do Partido Colorado, o único que podia
atuar na legalidade, não foi tão simples.
Se em 1904, com a chegada ao poder do Partido Liberal, se seguiram
oito anos de uma profunda agitação institucional, dadas as disputas entre
cívicos e radicais no seio do partido (só superada com o final da guerra
civil de 1912), iniciou-se, em 1946, um novo período de oito anos de contur-
bação institucional, agora sob a liderança colorada que só terminaria com
o golpe de 1954. A conquista do poder não pôde dissimular as diferenças
internas que se acentuaram e foram fonte de permanente instabilidade. Fe-
derico Chaves, dirigente colorado tradicional, liderava o setor conhecido
como Democrático, enquanto Natalício González, escritor nacionalista, li-
derava os Guiones Rojos. Terminada a guerra civil de 1947, os democráticos

117
As Revoluções na América Latina Contemporânea

controlavam a estrutura partidária e os guiones, com laços históricos mais


estreitos com Morínigo, contavam com a vantagem da resolução favorável
do conflito e o respaldo das forças de segurança do Estado.
Conspirações no Partido Colorado e em suas facções, com o apoio
de comandantes militares, foram constantes. Em 1949, a sequência de
golpes internos gerou uma instabilidade inédita, tendo se sucedido no ano
nada menos que quatro presidentes: Juan Natalício González, Raimundo
Rolón, Felipe Molas López e Federico Chaves. Em julho de 1950, com a
eleição de Federico Chaves (1950-1953) iniciava-se um período de relativa
estabilidade, com o transpasso do poder para as mãos dos democráticos,
acompanhado de depurações internas. Na tríade governo, exército e Par-
tido Colorado, era a Junta de Governo do partido – seu Comitê Executivo
– quem cumpria o papel de órgão dirigente da política interna, em simbiose
com lideranças militares. A Junta de Governo aprovava até a nomeação dos
chefes militares: era a coloradização do regime de partido único que atingia
também as Forças Armadas (GONZÁLEZ DELVALLE, 2011).
Ao iniciar-se o segundo período presidencial de Federico Chaves
(1953-1958), divisões dentro do coloradismo e das Forças Armadas reavi-
varam o fantasma da instabilidade. O erro fatal do presidente foi a tentativa
de potenciar e ampliar o corpo de polícia como contrapeso ao exército. O
comandante das Forças Armadas, o jovem general Stroessner, começava
a conspirar com setores do coloradismo. Finalmente, o golpe de Estado de
1954 teve a presença de membros do Partido Colorado, que questionavam
a perda de autoridade do presidente devido a escândalos de corrupção.
Os altos mandos das Forças Armadas esperavam que Stroessner
assumisse a primeira magistratura para deter o descontrole imposto pelos
civis colorados desde 1947. E o general aceitou de bom grado a tarefa. A co-
loradização do regime de partido único, antes civil, passava a ser militar. Os
colorados eram agora os sócios menores que davam respaldo institucional
com seu apoio eleitoral bem como com a mobilização de aderentes. Ao re-
gime era proporcionada a base massiva de que gozaram poucos governos
militares na América Latina. A partir de então, o pêndulo se invertia: era a

118
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

cúpula militar que dava sua aprovação ou veto para a admissão de algum
líder civil à cúpula partidária11.
A chamada “revolução de 1904” marcou o fim de 27 anos contí-
nuos de governos colorados, dando início a uma nova etapa sob domínio do
Partido Liberal, que se manteria por 32 anos ininterruptamente no poder,
até a “revolução de 1936”. Uma restauração do poder liberal entre 1937 e
1940, um novo marco jurídico autoritário em 1940, uma longa ditadura mi-
litar entre 1940 e 1948, e o domínio colorado entre 1947 e 1954 constituem
outros 28 anos em que o poder foi mudando de mãos paulatinamente, com
a democracia representativa passando a estar subordinada a um naciona-
lismo autoritário em seus vários matizes. Foi um jogo político no qual pre-
valeceram os dois partidos políticos tradicionais. Outros atores, até então
coadjuvantes, haviam entrado na cena política na década de 1930 como os
novos partidos, grupos da sociedade civil e mesmo uma instituição do Esta-
do como as Forças Armadas. O golpe de Estado de 1954, com o surgimento
de uma ditadura militar respaldada institucionalmente pelo Partido Colora-
do, marcou o fim de 50 anos de turbulência política (1904-1954), mas não
da violência que se institucionalizou e foi necessária para manter o longo
regime ditatorial de Stroessner.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse rápido percurso pela primeira metade do século XX paraguaio


permitiu constatar que o uso da violência na história política do país foi
uma variável constante que permeou a definição dos diferentes governos
que se sucederam no poder como a também constante reconstrução dos
tradicionais partidos e das novas forças políticas que se delinearam entre

11 O liberalismo na doutrina partidária colorada foi perdendo espaço ao longo das décadas de
1930 e 1940 para o nacionalismo. A inflexão representada pelos acontecimentos de 1954, com
uma maior aproximação do Paraguai com os EUA e o Brasil, trouxe uma mudança ideológico
partidária, voltando o coloradismo a ressaltar seu conteúdo original (1887), isto é, liberal e
nacionalista (GÓMEZ FLEYTAS, 1995, p. 469).

119
As Revoluções na América Latina Contemporânea

1904 e 1954. Em um ensamblado extremamente complexo, a permanente


luta e a redefinição dos grupos de poder ao interior dos partidos políticos
desempenharam na releitura da história nacional uma arma ideológica es-
tratégica.
O ciclo de violência política considerado aqui permite identificar
várias fases, segundo a intensidade dessa violência que levou a enfrenta-
mentos armados envolvendo distintos tipos de atores; promoveu mudanças
nos governos nacionais como mutações ideológicas partidárias e permitiu
tanto o surgimento quanto a desaparição de atores sociais, militares e/ou
políticos. A envergadura dessa violência é palpável pela extensão no tem-
po (semanas, meses ou, incluso, anos), no espaço (não só nacional, como
internacional, envolvendo os paraguaios no exílio assim como os estrangei-
ros aliados do momento), pelas mudanças políticas (as ditas “revoluções”)
e pelo inevitável saldo de mortos, exilados e crises econômicas.
A primeira fase, a “revolução de 1904”, assim denominada pelos
seus protagonistas triunfantes que deslocaram os colorados da presidên-
cia do país, iniciou o século XX paraguaio com o movimento ascenden-
te dos liberais na política nacional. Mas contraditoriamente, os colorados
– supostamente em um movimento descendente – progressivamente se
consolidaram como depositários da história revisitada, patriótica, naciona-
lista que os levaria, 50 anos mais tarde, a dar legitimidade à ditadura de
Stroessner.
A autodenominada “revolução libertadora” de 1936 deu um giro na
política paraguaia, até então marcada pelo bipartidarismo. Os tradicionais
partidos Colorado e Liberal passavam a compartilhar a cena política com
novos movimentos: as Forças Armadas que surgiam como protagonistas e
não mais como coadjuvantes; os nacionalistas presentes nos partidos tra-
dicionais como nas Forças Armadas, também criaram seu próprio partido;
os trabalhadores urbanos encontravam-se melhor organizados, enquanto
o Partido Comunista consolidava-se como partido opositor.
Para chegar até a década de 1930 com esse cenário político mais
diversificado, atendendo não só a grupos diferenciados ao seio da elite oli-

120
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

gárquica, senão também a outros setores sociais e institucionais que soma-


vam-se à contenda política, houve dois grandes marcos que consolidaram
tanto a continuidade dos liberais no poder como redefiniram constante-
mente a luta pela liderança no interior do partido e as sucessivas alianças
ou não com os outros atores políticos que surgiam, principalmente com o
exército. Elas foram as guerras de 1908, estendidas até a de 1911-1912 e a
de 1922-1923.
As três décadas de hegemonia liberal foram o marco no qual o colo-
radismo oscilou entre a violência, o abstencionismo e a participação como
minoria no congresso. Seus intelectuais, contudo, foram os principais res-
ponsáveis pela mitificação do marechal Francisco Solano López e do he-
roísmo do povo paraguaio, como pela revalorização das raízes guaranis da
nação. A apropriação desses elementos e sua associação aos fundadores
do Partido Colorado, companheiros de armas de Solano López na Guerra
da Tríplice Aliança, permitiu identificar a história do partido com a história
nacional. A recuperação da autoestima nacional esteve diretamente ligada
à história do partido, pelo que o coloradismo, deslocado do poder, consoli-
dou-se ideologicamente.
As contas com o lento trânsito para a modernidade foram saldadas
de uma vez em 1936. A ação política de um exército agora profissional, con-
fiante de si dados os resultados da Guerra do Chaco, esteve influenciada
pelo influxo nacionalista, marcando o governo transformador de Franco e
mesmo o efêmero retorno liberal. A tímida e polêmica abertura democrá-
tica no final da ditadura militar de Higinio Morínigo levou ao maior enfren-
tamento armado do período analisado aqui. Como balanço da “guerra civil
de 1947”, alguns setores do exército foram afastados do poder enquanto o
Partido Colorado era o grande triunfador e os liberais saíam de cena.
Novamente, os colorados brindaram o suporte discursivo-ideológi-
co nessa luta contra uma suposta “invasão estrangeira” e foram os seus
grandes beneficiários: após a derrota na Guerra da Tríplice Aliança, tinham
denunciado os liberais que participaram na “legião” junto aos aliados con-
tra as forças de Solano López como traidores da pátria; agora, os novos

121
As Revoluções na América Latina Contemporânea

“legionários”, os liberais aliados aos comunistas, que solicitavam apoio in-


ternacional para derrotar a tríade conformada pelo governo nacional, as
Forças Armadas e o Partido Colorado, enxergados como os inimigos da
pátria.
Em uma sociedade cada vez mais complexa, a pouca disposição
dos vencedores de buscar um consenso político cobrou seu preço. A re-
cuperação do poder civil, mesmo que expressa em um único partido, foi
efêmera dadas as lutas intestinas do coloradismo, que desembocaram no
golpe de Estado de 1954 e na retomada do protagonismo das Forças Ar-
madas. O uso da violência em forma institucionalizada e legítima permitiu
às Forças Armadas paraguaias assumir o controle da cena política nacional
durante mais de três décadas após o golpe de 1954. Mas ela deixou de ser
um meio exclusivo para a conquista do poder e se converteu em uma moe-
da de uso corrente que filtrou todas as esferas da vida do povo paraguaio.
Ao longo desse prolongado jogo político de meio século, a políti-
ca paraguaia viu-se influenciada e pressionada tanto pelos seus vizinhos
sul-americanos como pelos Estados Unidos. A presença argentina na eco-
nomia e na política foi maior com os liberais no poder. A partir de 1936, as
alianças regionais se viram afetadas pelos conflitos bélicos internacionais e
pela indefinição política interna que permitiu o surgimento de novas forças
políticas. Assim, a indecisão de inclinar a balança a favor do Eixo ou dos
Aliados durante a Segunda Guerra Mundial viu-se rapidamente resolvida
diante da pressão norte-americana durante a Guerra Fria. Se bem a Ar-
gentina e o Brasil continuaram disputando o Paraguai como território de
influência econômica e política, a luta hemisférica impulsada pelos Estados
Unidos contra o comunismo se impôs como hegemônica.
Houve alguma revolução de caráter nacional, popular e agrária no
Paraguai, isto é, de cunho social que efetivamente represente uma ruptu-
ra na história do país ao longo do século XX? De fato, o uso da violência
cumpriu um papel crucial dentro do sistema político, ao ponto de ser um
fio condutor de sua história contemporânea, com seus cenários de gue-
rras civis, golpes de Estados e as chamadas “revoluções” de 1904 e 1936.

122
CAPÍTULO 2 | A violência política na história do Paraguai (1904-1954)

Todas essas mudanças, desenlaces de impasses e disputas gestadas em


décadas de conflitos e contradições envolveram a participação de setores
populares, com alcances e desdobramentos que ultrapassaram os limites
de um reformismo social formulado na década de 1930. As transformações
operadas não foram apenas políticas, e o ciclo de violência persistiu em
plena ditadura de Stroessner. A pergunta posta no início do trabalho, aqui
retomada, aponta à necessidade de um refinamento teórico que só supe-
rará o patamar em que se encontra se acompanhada de maiores pesquisas
empíricas, principalmente no campo da história social. Estudos desses ato-
res coletivos – camponeses, pinandís ou trabalhadores urbanos – que res-
paldaram partidos e instituições, bem como de seus líderes civis e militares.
Pouco sabemos dessas experiências, quer seja no mundo do trabalho ou
em seu vínculo com a política, como eventual militante político, montonero
ou mesmo soldado, e que inegavelmente ajudará a romper um discurso his-
tórico posto na ação de homens proeminentes.

123
As Revoluções na América Latina Contemporânea

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129
3
3
Capítulo
MOVIMIENTO PERONISTA Y

INTRODUCCIÓN
REVOLUCIÓN
Damián H. Antúnez

Abordar en la historia contemporánea


argentina la articulación movimiento social, revolución
y peronismo obliga a definir una temporalidad que
debe partir de los propios orígenes del peronismo
en el seno mismo del gobierno de facto de 1943-45.
A su vez, el final del recorrido será, necesariamente,
algo más arbitrario y, por tanto, discutible, ya que la
trayectoria misma del peronismo como movimiento/
partido político llega hasta la actualidad. Por tanto,
debe trazarse de alguna manera esa difusa frontera
que vincula historia contemporánea e historia actual
y que entronca con el golpe de Estado del 24 de
marzo de 1976.
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Se ha planteado entonces una definición temporal de un tercio de


siglo cuyas cotas -inicial y final-, vienen señaladas respectivamente por el
segundo y último golpe de Estado de la Argentina contemporánea. Este
desafío vuelve ineludible recorrer los senderos históricos transitados por
el Movimiento Peronista en ese tercio de siglo. Un recorrido que no deja
de hacer “camino al andar” y que dará forma al complejo mapa político
argentino de la segunda mitad del siglo XX.
Lo cierto es que la irrupción del Movimiento Peronista en la vida
política argentina envía sin más dilaciones a la entera historia política anterior
a los anales de la historia, aunque esta radicalidad del cambio histórico no
oculta ciertos elementos de contacto con el pasado político inmediato.
En este sentido, la mutua denegación de legitimidades que hasta 1943
protagonizaron radicales y conservadores, será también la nota distintiva
que escenifiquen a partir de 1945-46 peronistas y antiperonistas. Pero con
un matiz que no puede perderse de vista. La política argentina posterior a
1945 construye aquella antinomia, no como una mera contraposición de
dos actores con identidades políticas irreconciliables, sino antes bien como
un juego de antinomias que deja de tener una impronta exclusivamente
política para incorporar un mucho más nítido componente de clase.
Para el peronismo, la totalidad de la vida política nacional se inscribe
en la Comunidad Organizada; para el espectro antiperonista esa misma
Comunidad conforma la negación de una tradición demo-liberal fuera de la
cual se diluye el sentido clásico de la representación política que suscriben.
Esta tensión resulta clave para comprender el por qué de la resignificación
de los términos revolución o movimiento social como movimiento nacional
que lleva a cabo el peronismo y que es sistemáticamente negada por la
oposición política. Inclusive, si se toman prestadas las “botas de siete
leguas” de Hegel para atravesar la historia del peronismo y llegar a los
confines de la vida política de su líder y fundador, Juan Domingo Perón,
nos es posible apreciar cómo resuenan los términos doctrina, revolución
y pueblo en ocasión de su presentación del Modelo Argentino durante la
apertura de sesiones ordinarias del Congreso de la Nación del 1 de mayo
de 1974:

132
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

La conformación de nuestra doctrina, que pueden acep-


tar todos los argentinos, porque tiene caracteres de so-
lución universal -y que incluso, puede ser aplicada como
solución humana a la mayor parte de los problemas del
mundo como tercera posición filosófica, social, económi-
ca y política- constituyó la primera etapa de lo que podría
denominarse la “despersonalización” de los propósitos
que la revolución había encarnado en mí; tal vez porque
yo sentía desde mucho tiempo antes vibrar la revolución
total del pueblo, y estaba decidido, tal como lo expresé a
los trabajadores argentinos el 2 de diciembre de 1943 a
“quemarme en una llama épica y sagrada para alumbrar el
camino de la victoria” (PERÓN, 1974, p. 9-10).

En síntesis, estamos frente al desafío de conjugar los significantes


revolución y movimiento socio-político con la ayuda de otros dos significantes
que van dar sentido a los anteriores: Nación y pueblo. Una articulación a
la que el propio Perón -en sus escritos y discursos-, le dedicara especial
atención y que es posible seguir desde La Comunidad Organizada (Primera
edición: 1949), pasando por Conducción Política (Primera edición: 1951) para
llegar al ya referido Modelo Argentino (1974). Dicho de otro modo, Perón
revela la concepción justicialista de movimiento social en clave organicista,
entendida como la suma de componentes orgánicos y dinámicos de
una sociedad que, articulados por la idea de Nación, se vuelve un todo
superador. De este modo, el pueblo hace de esa sociedad una comunidad
organizada.
Ese corpus discursivo fue paulatinamente resignificado a partir
del golpe de Estado de 1955, una vez que el hecho peronista parecía
haber sido detenido, capturado -cuanto menos circunstancialmente-,
por el bloque opositor. Había llegado la hora de estudiar los orígenes del
peronismo, de aquello que había sucedido entre 1945 y 1955. De allí toda
una extensa bibliografía que conecta el fervor del combate político con el
trabajo académico nos lleva, en sus más variadas interpretaciones, por los
derroteros de los libros de época de Américo Gioldi, Jorge Abelardo Ramos
y Rodolfo Puiggros o, para el caso académico, a Gino Germani, Torcuato Di
Tella, Miguel Murmis y Juan Carlos Portantiero por mencionar sólo algunos

133
As Revoluções na América Latina Contemporânea

casos destacados1. De allí en adelante, la producción de estudios sobre


el peronismo se vuelve inconmensurable. No obstante, si de articulación
discursiva se trata, debemos rescatar el exhaustivo trabajo de Silvia
Sigal y Eliseo Verón titulado Perón o muerte. Los fundamentos discursivos
del fenómeno peronista, donde los autores se interesan en la posición
enunciativa de la figura de Perón en clave de conformación de sentido
del andamiaje discursivo del Movimiento Peronista y sus componentes
estructurales: revolución, doctrina, pueblo, trabajadores, patria, argentinos…
(1986, passim).
Sin embargo, si la posición enunciativa de Perón despertó su debido
tratamiento en el campo académico, menos atención mereció el estudio
del discurso al interior de ese Movimiento Peronista que, desde Argentina,
alzaba su voz para responder a los vencedores de septiembre de 1955;
allí, dónde también se debatía un ¿qué hacer? a partir del nuevo estado de
situación que suponía un peronismo derrocado, proscripto y con su líder
en el exilio. En este sentido, nos parece pertinente abordar la complejidad
de la relación “revolución-movimiento social” en el seno del peronismo
recurriendo -a modo de hilo conductor- al pensamiento de quién más
tempranamente contribuyera a la teorización del fenómeno peronista,
aún tratándose más bien -en términos althuserianos-, de una “teoría de la
práctica”: John William Cooke.
De esta forma, vamos a valernos de algunos párrafos de quien
fuera el principal teórico de lo que se iría conociendo como “peronismo
revolucionario” en pos de discutir la articulación de aquellos términos que
el propio Cooke utilizara para titular su último trabajo (1967) en el marco de
la Acción Revolucionaria Peronista: peronismo y revolución2. En cualquier

1 Para un análisis detallado sobre el estado de la cuestión sobre los orígenes del peronismo ver:
ANTÚNEZ, 2015.
2 La ARP (Acción Revolucionaria Peronista) es la corriente de opinión para la conformación de
un peronismo revolucionario que Cooke crea en 1963, una vez de regreso en el país luego de
su larga estadía en Cuba de alrededor de tres años. El propio Cooke definirá la ARP como “[…]
una organización creada y orientada para luchar contra la dependencia y la explotación por
medio de la lucha revolucionaria.” (1967, p. 226).

134
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

caso, no nos detendremos en 1968 cuando Cooke muere. Como se ha


dicho, extenderemos el marco de análisis temporal al final de la tercera
experiencia de gobierno peronista. Esto es, al golpe de Estado de 1976 que
derrocó a la presidenta María Estela Martínez -Isabel-, epílogo de lo que
fuera el peronismo en vida de Perón. En suma, estamos frente a un trabajo
de revisión histórica del papel desempeñado por aquellos actores políticos,
sociales, económicos y culturales que, en su dinámica histórica, han sido
parte estructurante del Movimiento Peronista. A saber: Trabajadores,
Industriales, Fuerzas Armadas (FFAA), Iglesia, Intelectuales y Juventud.
Esta operación va a permitir un acercamiento crítico a las perspectivas que
los términos revolución y movimiento social cobran en un tercio de siglo de
historia política argentina dominada por la omnipresencia del Movimiento
Peronista.

TRABAJADORES: COLUMNA VERTEBRAL DEL MOVIMIENTO

He preferido abordar la columna vertebral del peronismo a través del


apelativo trabajadores antes que utilizar los términos sindicatos, movimiento
sindical, movimiento o clase obrera, porque el sujeto por excelencia al que
apelara desde sus orígenes Juan Domingo Perón es el de trabajador. Desde
luego que aquel coronel que en octubre de 1943 se hiciera nombrar al
frente del antiguo Departamento Nacional del Trabajo para reconvertirlo
al mes siguiente en Secretaría de Estado y dotarlo de amplias y bien
definidas funciones en materia de regulación de las relaciones laborales,
comenzó su relación con los trabajadores argentinos encauzando una serie
de vinculaciones políticas con los dirigentes sindicales de entonces, hayan
sido estos de filiación socialista o comunista.
En el seno de un gobierno militar sin rumbo político, preso de
indisimulados enfrentamientos internos entre quienes sostenían una
posición de estricta neutralidad en referencia a la Segunda Guerra Mundial
respecto a otra que reclamaban la ruptura de relaciones con el Eje, el

135
As Revoluções na América Latina Contemporânea

autodenominado Grupo de Oficiales Unidos (GOU) protagonizó algo así


como una “revolución en la revolución”. Se trató de un grupo de oficiales
relativamente jóvenes -con preeminencia de coroneles- defensores de la
posición neutralista que acabó por hacerse con los principales resortes
políticos del gobierno. Entre ellos estuvo el Coronel Perón, quien a partir de
su nombramiento al frente del referido Departamento del Trabajo dotará a
la revolución de junio de algo de lo que carecía: algo parecido a un programa
político.
Un programa que tuvo la particularidad de construir por si mismo
un nuevo actor político que ingresaría de la mano del propio Estado en
la vida nacional: los trabajadores. Ahora bien, no se trataba de cualquier
Estado, de un Estado “teórico”, “a secas” y menos aún de ese Estado tan
recostado sobre los intereses de los sectores dominantes como el de la
etapa precedente; por el contrario, este era un Estado -cuanto menos en los
propósitos de Perón-, con pretensiones de arrogarse una nueva legitimidad
social como árbitro incuestionable de las relaciones de trabajo. Las reformas
sociales que el secretario de Trabajo y Previsión, Coronel Perón, pondrá en
marcha a partir del segundo trimestre del año 1944 -ya sea por el vuelco
del favor estatal hacia los trabajadores en las negociaciones colectivas de
trabajo o en los tribunales del nuevo fuero laboral-, refuerzan la idea que
ese papel arbitral implicaba un compromiso del Estado con la “era de la
Justicia Social” anunciada por Perón.
Esa era de la Justicia Social suponía a su vez un compromiso con
un programa económico industrializador en evidente ruptura con el clásico
modelo agro-exportador anterior a 1930. Dicho esto, ese compromiso
tuvo, en ocasión de conformarse el Consejo Nacional de Posguerra hacia
mediados de 1944, cuanto menos dos orientaciones contrapuestas. La
de los militares preocupados por el desarrollo de una industria pesada
nacional que asegurara al país la soberanía en materia de defensa y la que
preferentemente apostaba por consolidar una industria ligera que elaboraba
bienes a partir de materias primas de origen nacional, intensiva en mano
de obra, nacida al calor de las dislocaciones comerciales de la Segunda

136
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

Guerra. Perón nunca dejaría de enfatizar en el carácter estratégico de la


primera opción pero bien sabía que para evitar un retorno a la primacía
de la economía agro-exportadora debían sostenerse aquellas industrias
que la Guerra había potenciado. Además, de esas mismas circunstancias
habían nacido los nuevos sectores obreros que tan ligados estarían a la
consolidación del liderazgo político de Perón (TORRE, 1990).
Al abordar el liderazgo político de Perón podemos, de la mano del
último texto político de J. W. Cooke, La Revolución y el Peronismo, referirnos
al peronismo como a ese “hecho maldito de la política del país burgués”.
Pero, ¿a qué aludía o qué es lo que quería sintetizar Cooke en esa expre-
sión? La respuesta no acarrea demasiados problemas para Cooke cuando
sostiene que en la Argentina moderna nunca funcionó el sistema demo-
crático-liberal salvo en dos interregnos: durante los gobiernos radicales de
1916 a 1930 y durante el ciclo peronista de 1945-46 a 1955. Pero allí no
quedaría completa la respuesta si a ello no le sumamos la especificidad que
cobra el desarrollo político del decenio peronista:

A partir de 1945, el país realizó, bajo el liderazgo de Perón,


su proceso democrático-burgués, aunque en forma indi-
recta, como imposición de un frente antiimperialista cuya
base de apoyo estaba en la clase trabajadora, sectores
de la clase media y el sector nacionalista del Ejército
(COOKE, 1967, p. 222).

Aquí, el ex diputado peronista nos devela en forma condensada


quiénes son los actores sociales que dieron forma al Movimiento Peronista:
los trabajadores, un sector de las Fuerzas Armadas y como un desglose de
esos “sectores de la clase media” deberíamos poner de relieve a toda esa
compleja gama que nutre la producción industrial nacional (que va desde
el pequeño taller al empresario industrial nacional) y un amplio y subsidiario
sector servicios, no sin olvidar ese acotado núcleo de intelectuales en sus
orígenes vinculados al nacionalismo católico. Por cierto, Cooke no hace
mención directa a la Iglesia, institución con la cual el naciente peronismo
estrechó importantes vínculos y compromisos políticos, aunque también

137
As Revoluções na América Latina Contemporânea

parte de esos “sectores de la clase media” reportaban al influjo socializador


de la Iglesia.
Si este era el cuadro original de alianzas que dio origen a la revolución
justicialista de 1945-46, desde luego todo se quiebra hacia 1955 cuando en
palabras de Cooke las partes que completaban el elenco de esa comunidad
organizada, a partir de un movimiento nacional cuya columna vertebral
era la clase trabajadora, acaban por abandonarla a su suerte. Cooke no
duda en denunciar ese abandono; por ejemplo, por parte de un Ejército
que acuerda con el programa industrializador pero no con una política
social avanzada o con unas burguesías que si bien habían sido favorecidas
económicamente por el peronismo ahora reclamaban “aumentar las
cuotas de plusvalía” (1967, p. 122). En este sentido, cabe recordar el
derrotero final de los intentos de conciliación de clase obrero-patronal
en el seno del exitoso programa de estabilización económica de 1952 en
lo que dio a conocerse como el Congreso Nacional de la Productividad.
En ese marco, empresarios y trabajadores se comprometían a discutir
en un foro oficial los problemas propios del entorno productivo. Pero los
debates en el seno de dicho Congreso estuvieron más cerca del conflicto
que del acuerdo. Ocurre que las preocupaciones empresariales por la
productividad se traducían en demandas que chocaban con los intereses
de los trabajadores. Así lo reflejaron unos dirigentes sindicales peronistas
a quienes ni aún la obediencia al mando vertical del líder del movimiento
los autorizaba a transigir en el mantenimiento de las conquistas sociales
acumuladas. Además, hacia mediados de 1955, la encrucijada política
argentina no computaba en el terreno económico, sino en la más visceral
lucha política entre una oposición que iba sumando retazos sectoriales que
perdía el peronismo -desde la Iglesia, adhesiones empresariales o lo que
era más importante aún sectores desafectos de las FFAA- y un gobierno
que acusaba el desgaste de unas luchas cada vez más frontales que ponían
en entredicho ciertas lealtades (GERCHUNOFF; ANTÚNEZ, 2002).
Será entonces durante la larga marcha del período globalmente
conocido como resistencia -aquel que transcurre entre el derrocamiento

138
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

de Perón en 1955 y la reapertura política que conduce a las elecciones de


1973- cuando la idea de revolución se distancie de aquello que la asociaba a
una comunidad organizada. Por cierto, producto de una revolución animada
o controlada por un Estado dispuesto a satisfacer las demandas de los
trabajadores, puesto que el gobierno peronista ni se propuso ni mucho
menos creó un estado de clase.
El dispositivo político de los vencedores para procurar erradicar al
fenómeno peronista de la vida política nacional -con las debidas cuotas de
represión y violencia que aquello acarreó- propició, en el transcurso de la
década del sesenta, un complejo replanteo del lugar de los trabajadores
en la coyuntura institucional de un país signado por esa fórmula que
Eugenio Kvaternik (1990) caracterizara como “péndulo cívico militar”. En
otras palabras, en medio de un sistema político que alternaba gobiernos
militares (de facto) con breves períodos constitucionales que mantenían
una cierta ficción democrática -funcionamiento formal de las instituciones
republicanas y vigencia del régimen de partidos políticos pero con
proscripción del peronismo-, la dirigencia sindical peronista se encontró
ante una encrucijada política que reclamaba una definición: integrarse de
alguna manera o quedar desplazados del sistema.
Luego de poco menos de un quinquenio de resistencia espontánea
a los diversos intentos de “desperonización” de las masas -todos ellos
fracasados-, los sindicatos fueron recuperados por el gremialismo
peronista. Ahora bien, ya no se trataba de los dirigentes sindicales que
habían conducido la Confederación General del Trabajo (CGT) hasta 1955
puesto que en su gran mayoría estaban presos, exiliados o inhabilitados. De
este modo, cuando el nuevo gobierno constitucional presidido por Arturo
Frondizi (1958-62) cumplió con su promesa electoral de normalización de
la actividad sindical -una de las condiciones del acuerdo por el que Perón
diera la orden de votar a Frondizi-, una nueva generación de gremialistas
acabó por hacerse con el control de la CGT y con ella del aparato sindical
peronista.
Se trataba, fundamentalmente, de delegados gremiales de los
más diversos sectores tanto de la industria como de los servicios que

139
As Revoluções na América Latina Contemporânea

habían dado batalla en las fábricas y centros de trabajo para recuperar


el control de sus comisiones internas y gremios. Así, esta reagrupación
y reorganización de la fuerza sindical peronista trajo aparejada nuevas
modalidades de funcionamiento. Si se exceptúa un sector minoritario
que adoptará una posición más inflexible o intransigente con el gobierno
-cuyo hito referencial es la lucha por la defensa del frigorífico nacional
Lisandro de la Torre en 1959-, la mayor parte de esa dirigencia optó por una
posición que combinó demostración de fuerza y voluntad de negociación
con los poderes de turno (en ese orden). Este modus operandi del nuevo
sindicalismo peronista no tardó en generar profundas tensiones políticas
internas que, inclusive, requirieron el llamado al orden por parte de Perón.
El punto más álgido de estos entreveros ha sido sin dudas la defección del
líder metalúrgico Augusto Timoteo Vandor hacia 1965 -propulsor de un
“peronismo sin Perón”-, lo que obligó al líder justicialista a poner en marcha
un complejo operativo para desarticular la estrategia vandorista. Esto
ocurrió tanto desde la vía sindical -surgimiento de las “62 Organizaciones
de pié junto a Perón” en apoyo del titular de la CGT José Alonso- como
desde la política, con la desautorización de los denominados partidos “neo-
peronistas”.
No obstante estas profundas tensiones intraperonistas -finalmente
resueltas a favor de Perón-, tanto aquellos sindicalistas comprometidos
con Vandor como los que acudieron al llamado a filas de Perón, no dudaron
en apoyar en sus inicios el golpe de Estado de junio de 1966 que depusiera
al presidente constitucional Arturo Illia (1963-1966). Sólo un sector sindical
que al poco tiempo se develara minoritario, pero que ante la agudización
de los enfrentamientos internos se hiciera con el control de una de las dos
divisiones que acusaba la CGT al iniciarse el año 1968 -conocida como
CGT de los Argentinos-, optará por plantear una vía de oposición frontal al
régimen militar de entonces (ANTÚNEZ, 2015).
También en 1968, como ocurriera al iniciarse el gobierno de Frondizi
diez años atrás, el sindicalismo peronista se debatía entre integrarse al
sistema o ponerlo en cuestión; estereotipando el análisis, si se quiere,
entre reforma y revolución. El planteamiento no era nuevo. Al iniciarse 1964
Gustavo Rearte lo había planteado con su Movimiento Revolucionario

140
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

Peronista (MRP) y casi al unísono lo había hecho también John William


Cooke (finales de 1963) desde su corriente política Acción Revolucionaria
Peronista (ARP). Pero será recién en 1968, cuando comience a madurar en
el campo peronista la idea de revolución. Mil novecientos sesenta y ocho
fue también el último año de vida de Cooke y será por la vía de la CGT
de los Argentinos que buena parte de las copias mimeografiadas de sus
escritos lleguen a nuevos núcleos de militancia.
Desde su regreso a Argentina en 1963, Cooke se empeñó en
una decidida labor docente para hacer del peronismo un movimiento de
liberación nacional. Para Cooke el peronismo si bien representaba “[…] el
más alto nivel de conciencia al que llegó la clase trabajadora argentina”,
aún seguía siendo ese “[…] gigante invertebrado y miope” y entonces
resultaba imperioso “[…] elaborar una teoría adecuada a su situación real
en las condiciones político-sociales contemporáneas” (1967, p. 223).
En cualquier caso, la discusión sobre la vía revolucionaria en el
contexto argentino y latinoamericano excedía la apelación exclusiva a la
clase trabajadora. El contexto de las luchas del tercer mundo en aquellos
años, desde Cuba a Argelia, invitaba a la formación de ese movimiento
de liberación nacional como herramienta revolucionaria para un país que
era considerado “semicolonial”. En el fondo, lo que desde la perspectiva
de un frente de liberación nacional se planteaba era un conjunto de
reivindicaciones que no podían lograrse en el marco del institucionalismo
restringido que ofrecía la Argentina de entonces. Dicho de otro modo, un
Cooke que había leído a Gramsci en Cuba denunciaba una “crisis orgánica”
del sistema político burgués. Una crisis cuya más preclara expresión
era el propio Movimiento Peronista. En este sentido, Cooke no dudaba
en descalificar a la dirigencia sindical del momento al negar cualquier
posibilidad de salida a la crisis nacional por la vía de la democracia burguesa:

Si fuese [el Movimiento Peronista] como sus direcciones


burocráticas, no crearía ningún problema; pero detrás de
la mansedumbre de sus dirigentes está ese peligro oscu-
ro, que por instinto las clases dominantes saben que des-
bordará a los calígrafos que exhiben su dócil disposición
desde los cargos políticos sindicales. El régimen no puede
institucionalizarse como democracia burguesa porque el

141
As Revoluções na América Latina Contemporânea

peronismo obtendrá el gobierno, y aunque no formule nin-


gún programa antiburgués, la obtención de satisfacciones
mínimamente compatibles con las expectativas populares
y las exigencias de autodeterminación que son consus-
tanciales a su masa llevarían a la alteración del orden exis-
tente (COOKE, 1967, p. 224).

He aquí a un Cooke verdaderamente profético. Aquello de que el


régimen no puede institucionalizarse como democracia burguesa porque
entonces el peronismo accedería al gobierno, no es otra cosa que el dilema
del prisionero del régimen militar que se hiciera con el gobierno en 1966
bajo el pretencioso rótulo de Revolución Argentina. En cualquier caso, sólo
hicieron falta tres años para que comenzara la cuenta regresiva. En mayo
de 1969 el estallido social del Cordobazo hirió de muerte al gobierno del
Gral. Onganía cuando los trabajadores mejor pagos del país -los de las
industrias automotrices radicadas en las cercanías de la ciudad de Córdoba
- hicieron de sus desatendidos reclamos laborales una causa que sumó a
estudiantes y sectores sociales de la clase media hartos del autoritarismo
gubernamental3. Y como si este golpe político no hubiera bastado, un año
más tarde, hacía su presentación en sociedad el grupo guerrillero peronista
Montoneros con el secuestro y posterior asesinato del ex presidente
de facto Gral. Aramburu (1955-1958). A partir de entonces la suerte del
gobierno militar estuvo echada y sólo cabía buscar la mejor manera de
poner en marcha una salida electoral. Pero esto no sería novedoso si fuera
porque esta vez el peronismo sería de la partida, aunque el Gral. Lanusse
-último presidenta de la Revolución Argentina- haría todo lo que estuviese
a su alcance para evitar el triunfo electoral del peronismo y, por su puesto,
para que el General Perón no fuese candidato, como si de algo personal se
tratara.

3 El estallido social del Cordobazo se originó en los conflictos obreros del cinturón industrial
cordobés a partir de los reclamos de los trabajadores contra la negativa empresarial a elimi-
nar las denominadas “quitas zonales” en las empresas metalúrgicas y la derogación de la ley
del “sábado inglés” promovida por la automotriz IKA-Renault. Las “quitas zonales” eran unos
incentivos empresariales concedidos durante la presidencia de Illia a empresas metalúrgicas
que se radicaran en zonas específicamente delineadas en un programa de promoción indus-
trial que significaba descuentos salariales que reducían el salario neto del trabajador. El “sá-
bado inglés” responde al significado clásico del término, es decir, el trabajo de media jornada
del día sábado pagada como jornada completa. (Cf. GORDILLO; BRENNAN, 2008, p. 86).

142
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

En las elecciones del 11 de marzo de 1973 a Perón se le negó la


posibilidad de ser candidato por aquella paradoja de exigirle a un exiliado
residencia en el país. Por este motivo, el Frente Justicialista de Liberación
(FREJULI) llevó como candidato presidencial al entonces delegado de
Perón en el país, el ex presidente de la Cámara de Diputados de la Nación
(1948-1952) Dr. Héctor J. Cámpora.
La fórmula de campaña Cámpora al gobierno, Perón al poder, que
resumió de forma concisa y efectiva la estrategia adoptada por Perón para
hacer frente al cerco que los militares le interpusieron, fue de por sí una
afrenta a la estrategia de esa “camarilla militar” que actuaba como guardia
pretoriana del bloque en el poder que ahora no encontraba otra alternativa
que el repliegue. Los planes de los militares habían sido desbaratados
por un movimiento social que radicalizaba sus demandas con el correr
de los meses. Unas demandas que nos hablan también de un Movimiento
Peronista con una composición social renovada. En la propia campaña por
el retorno de Perón al país -ocurrido el 17 de noviembre de 1972- ya no sería
el sindicalismo en tanto columna vertebral del Movimiento quien llevaría
la voz cantante, si no antes bien la juventud. Aunque no una juventud a
secas, sino una juventud que se proclamaba “revolucionaria”. En suma, aún
cuando el sujeto revolucionario por excelencia seguía siendo, en teoría,
la clase obrera, tanto sus sectores más avanzados como los dirigentes
gremiales integrados al sistema -identificada como “burocracia sindical”-
se veía desbordada por esa juventud revolucionaria con pretensiones de
vanguardia esclarecida.
Ahora bien, el conflicto político que subyace del cuadro histórico
que atraviesa el efímero gobierno de Héctor Cámpora -duró apenas 48
días- para arribar a la tercera presidencia de Perón, pone de manifiesto
las contradicciones que emergen de las pretensiones revolucionarias de
la juventud radicalizada y del programa de “revolución en paz” del líder
justicialista. Dicho en otros términos, la rauda defenestración del sector
conocido como Tendencia Revolucionaria del Peronismo posterior a las
elecciones del 11 de marzo de 1973 fue paralelo al proceso de retorno
de Perón al poder, nuevamente recostado sobre su tradicional “columna

143
As Revoluções na América Latina Contemporânea

vertebral” -el movimiento obrero organizado-, que ahora formaba parte de


una corriente política más amplia denominada Ortodoxia Peronista4.

FFAA, IGLESIA E INDUSTRIALES EN LA COMUNIDAD


ORGANIZADA

Resulta cuanto menos paradójico que un emergente de las Fuerzas


Armadas y en particular del gobierno militar de la revolución del 4 de junio
de 1943 diera forma definitiva a su liderazgo político a partir del intento de

4 Téngase en cuenta que en este ensayo consideramos el término Tendencia entendido como el
apelativo de un amplio espacio político del Movimiento Peronista que reunía una combinación
de actores colectivos como las organizaciones guerrilleras ligadas al peronismo (que hacia
finales de 1973 ya quedarán condensadas en torno a Montoneros, salvo alguna fracción de
las FAP), el Peronismo de Base (PB), la Juventud Peronista (JP) de las Regionales y el resto de
las denominadas organizaciones de superficie de Montoneros o actores individuales como
políticos, intelectuales, sindicalistas denominados antiburocráticos, gente del mundo de la
cultura, periodistas o universitarios que adherían a lo que también se consideraba la izquierda
peronista. Podría decirse que se trataba de un nombre, una expresión que designaba a todo
ese conglomerado pero que no estaba escrito como tal en prácticamente ningún documento
político sino sólo en los periódicos y revistas políticas de la época y que, en un proceso casi
simultáneo, había sido adoptado por la propia militancia de ese espacio del peronismo revo-
lucionario. En algunos casos, para diluir o disolver en un campo menos preciso la militancia en
Montoneros, pero en otros, porque sencillamente se adhería de forma más o menos activa,
más o menos explícita, al amplio y diverso espacio político del peronismo revolucionario o
combativo. Por consiguiente, creí necesario ante todo aprehenderla sin desligarla de su gé-
nesis y desarrollo histórico en el terreno mismo de sus prácticas políticas y de sus estrategias
discursivas; es decir, considerar a la Tendencia, antes que en términos del resultado de un
contenido conceptual en sentido estricto (significado), en términos de ese nombre, esa expre-
sión (significante) que designaba un espacio de socialización política vinculado a Montoneros,
propio de una dinámica discursiva inscripta naturalmente en el plano de las prácticas políticas.
Al abordar al actor político Tendencia como esa expresión significante del amplio y complejo
magma del peronismo revolucionario no se puede más que ubicarlo, por su propia naturaleza
histórica, en relación directa con ese otro espacio político del Movimiento Peronista que, al
igual que aquella, no constituía una línea o una corriente interna partidaria con estructura
formal ni mucho menos sino, antes bien, era otra expresión significante que designaba a todos
aquellos actores ubicados normalmente en la denominada derecha peronista, pero que en
definitiva la desbordaba puesto que también podía comprender a los sectores centristas o
moderados del peronismo. Se trataba, ni más ni menos, que de su oponente por antonomasia:
la denominada Ortodoxia Peronista. Quedaba entonces perfectamente delimitado el campo
de juego que iba a estructurar el conflicto político interno del Movimiento Peronista (MP) del
período que transcurre entre la gestación de las candidaturas que lo llevarán nuevamente al
poder en 1973 y finales del año 1974. Será recién entonces cuando la actuación y relevancia
política de la Tendencia haya prácticamente desaparecido, recayendo sus despojos en el ac-
tor que lo nucleara hasta subsumirlo: Montoneros. Ver: ANTÚNEZ, 2015.

144
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

una parte de sus camaradas de armas por apartarlo del poder. En otras
palabras, la crisis política que lo desplazó del gobierno en octubre de 1945
se convertía en el elemento decantador de una situación que reclamaba
definiciones. Entonces, la popular figura del Coronel Perón alcanzaba
estatura de liderazgo político entre los trabajadores fabriles y su apelación
-aunque aún sin que aparezca literalmente el término- a esa Comunidad
Organizada supuso la puesta en situación de un nuevo conjunto de valores
tendientes a incluir el mundo del trabajo en la vida política nacional. Una
inclusión que colocaba a los trabajadores no en un plano subalterno sino
netamente central.
Tampoco debe perderse de vista que la consagración de dicho
liderazgo supuso una tensión, una crisis y una resolución aparentemente
definitiva de una interna militar que lo encontró a Perón en el bando
vencedor. Esto quiere decir que ya desde 1944-45 la propia emergencia
del liderazgo político de Perón supuso un parte aguas para las Fuerzas
Armadas, por lo que su compromiso con el futuro líder justicialista tuvo
ante todo el sabor de un rápido proceso de recomposición interna.
En este sentido, debemos hablar de unas Fuerzas Armadas y en
especial de un Ejército cuya ala “liberal”, otrora vinculada al ex presidente
Gral. Agustín P. Justo (1932-38), perdía relevancia frente a un modelo que
hacía hincapié en la defensa de la soberanía nacional entendida en clave
de independencia económica, a partir del eje defensa nacional-industria de
base-autarquía económica. En ese contexto, Perón definió su propuesta
política para la campaña presidencial de 1945-46 en torno a lo que serían las
tres banderas históricas del peronismo: soberanía política, independencia
económica y justicia social. En suma, a los intereses propios de un vasto
sector de los militares nacionalistas de aquel entonces Perón le sumo un
componente que se revelará central: el de la justicia social.
La aparición de Perón en los balcones de la Casa Rosada aquella
noche del 17 de octubre de 1945 nos brinda una estampa que habla por
sí misma: las FFAA se rendían ante la candidatura de Perón y se avenían
a sostener esa nueva construcción política que el “Coronel del pueblo”

145
As Revoluções na América Latina Contemporânea

había venido tejiendo en poco más de dos años. A sus enemigos de nada
les había servido echarlo del gobierno, cuando diez días más tarde el propio
presidente Farrell mandara traerlo a la Casa de Gobierno ante la presencia
inquietante de la masa trabajadora que reclamaba su presencia5.
Frente al amenazador retorno de la “vieja política”, los militares
tomaron rápida nota que estaban indefectiblemente unidos a la suerte del
proyecto político de Perón. Un proyecto político que articulaba aquellas
premisas que vinculaban defensa, soberanía e industria con todas las
consecuencias que de ello se derivaba: arropar el paisaje económico que
dejaba la Guerra en términos de aceleración del proceso de industrialización
en las ramas denominadas “livianas”. En términos de distribución del
ingreso, se trataba de capitalizar al sector de las industrias de bienes de
consumo durables; para ello, las plusvalías del sector agropecuario debían
canalizarse hacia las industrias nacionales por la vía de créditos baratos
destinados a sustentar unas mejoras laborales sostenidas por el propio
Estado. A su vez, esos incrementos en el salario real de los trabajadores
industriales revertirían en el aumento de la demanda agregada de una
economía dispuesta a aceptar incrementos sucesivos de los medios de
pagos (circulante) para hacer frente a unas demandas insatisfechas por
años. Además, se suponía que aquel reservorio de demandas insatisfechas
repercutiría en un círculo virtuoso de crecimiento del producto nacional
al no traducirse -y esto ocurrió durante los tres primeros años del nuevo
gobierno- en inflación de precios.
He aquí entonces el mecanismo redistribuidor del ingreso nacional
que estuvo en el centro de la Comunidad Organizada ideada por Perón.
Ahora bien, esto implicó un profundo desplazamiento del eje del poder
social y económico de la Argentina de mediados de los años cuarenta. La
construcción política de la Argentina Peronista supuso un desplazamiento

5 Téngase presente que el 17 de octubre de 1945 es considerado como el hecho histórico que
le da nacimiento al Movimiento Peronista, en tanto que es la masa trabajadora reunida en la
Plaza de Mayo quien reclama la presencia de Perón ante la incertidumbre sobre su paradero,
luego de haber sido destituido ocho días atrás de los tres cargos que ocupaba en el gobierno:
vicepresidente, ministro de Guerra y secretario de Trabajo y Previsión. (Cf. JAMES, 1995).

146
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

real del centro del poder social, político y económico del campo a la
industria y con ello el encumbramiento progresivo de una nueva burguesía
industrial que relevaba a aquella vinculada con los negocios agropecuarios.
Pero esto no fue un mero recambio de élites, puesto que supuso un giro
de una economía vinculada a los mercados externos a otra implantada
en el mercado interno. Se había conformado una alianza de intereses que
unía a empresarios de unas industrias vinculadas al mercado interno con
obreros industriales y un Estado que garantizaba la equidad en el reparto
del ingreso.
Mucho se ha discutido sobre el verdadero rol del Estado en aquellas
circunstancias históricas. El peronismo no colocó sin más el aparato
burocrático del Estado al servicio de los trabajadores. La cuestión es más
compleja, puesto que el peronismo, recostado en los trabajadores urbanos
como base electoral por antonomasia, procuró conciliar sus intereses con
los de una burguesía industrial llamada a consolidarse para poder sostener
en el tiempo esa nueva conformación hegemónica.
El proyecto peronista de Comunidad Organizada se articulaba en
torno a un Movimiento Nacional en tanto plataforma política por excelencia
de los trabajadores argentinos, alejado de cualquier concepción vinculada
a la lucha o conflicto de clases. Justamente se trataba de promover una
conciliación de clases en el marco de un ambicioso programa de mejoras
sociales para la clase trabajadora. Y para esto era necesario un Estado
que garantizase esa equidad, para lo cual debía abandonar su anterior
rol prescindente y colocarse del lado más débil o más vulnerable de la
negociación capital-trabajo.
Pero el proyecto no acababa ahí. Una vez más, el Modelo Argentino
para el Proyecto Nacional de 1974 ordena aquello que fue desarrollándose
entre 1945 y 1955: además de los trabajadores organizados, era necesario
contar con una organización nacional de industriales y, desde luego,
convocar a los poderes fácticos que articulaban la sociedad como era el
caso de las FFAA y la Iglesia Católica. Todavía, en el ciclo peronista 1945-
55, no iba a hacerse tanto énfasis orgánico en el ámbito de la cultura y
menos aún en el sector de la juventud, puesto que, desde una perspectiva

147
As Revoluções na América Latina Contemporânea

sociológica, fue más bien un emergente del post peronismo (década del
sesenta en adelante).
No resulta sencillo condensar en unos pocos párrafos la compleja
relación de los dos gobiernos del General Juan Domingo Perón con la
institución de las FFAA. Ya hemos hablado de la participación de Perón en el
gobierno militar de la revolución del 4 de junio. También hemos destacado
que la victoria de Perón en las jornadas que culminaron en el 17 de octubre
de 1945 encolumnó por acción o por omisión a los militares detrás de su
candidatura, aún cuando institucionalmente las FFAA se presentaron
como garantes de la realización de elecciones limpias, promesa que
cumplieron escrupulosamente. Un cumplimiento que se tradujo además en
un programa que combinaba la vuelta a los cuarteles, el restablecimiento
de los principios de jerarquía y profesionalismo, con un respaldo implícito
a esos principios industrialistas que debían decantar en la prosecución de
una industria armamentística nacional.
Este rol profesional de la FFAA fue también sostenido inicialmente
por el nuevo presidente aunque no sin combinarse con una política destinada
a atraer su favor. Esto implicó una generosa concesión de beneficios tanto
en lo que respecta al nivel de remuneraciones y bienestar social como al de
compra de armamento y equipos. También Perón ratificó a dos ministros
militares del anterior gobierno -General Juan Pistarini en Obras Públicas y
General Humberto Sosa Molina en Ejército- y reservó el resto de las carteras
militares para hombres de sus fuerzas -Ministerio de Marina y Secretaría de
Aeronáutica- además de nombrar a militares en cargos de especial interés
para la institución armada como eran los casos de Yacimientos Petrolíferos
Fiscales o la Comisión Nacional de Energía (POTASH, 2002).
No obstante, como lo ha señalado reiteradamente un estudioso de
la historia de las Fuerzas Armadas en la Argentina contemporánea como
Robert Potash, aquella relación entre las instituciones militares y Perón de
“respeto mutuo y no interferencia” comenzó a abandonarse hacia 1949.
De aquí en más, se puso en marcha una política tendiente a peronizar las
Fuerzas Armadas en el marco de una Comunidad Organizada que debía
sumar a las organizaciones más relevantes de la sociedad al Movimiento
Nacional. Así lo ha explicado Robert Potash:

148
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

Con sus conceptos centrales de justicia social, indepen-


dencia económica y soberanía política incorporados al
preámbulo de la Constitución reformada [1949], los par-
tidarios del presidente se propusieron crear en varios
sectores de la sociedad organizaciones económicas, cul-
turales y sociales que proclamaran la aceptación de su
ideología, ahora llamada “doctrina nacional”, y se convier-
ten en parte del movimiento. Fue inevitable, tal vez, que
las Fuerzas Armadas se transformaran en blanco de esos
esfuerzos (POTASH, 2002, p. 104).

A partir de entonces, quienes venían desde tiempo atrás


cuestionando de forma más o menos disimulada el proyecto político
de Perón pasaron a la acción. En ese marco se encuadra la actividad
conspirativa cívico-militar que acabó en el frustrado golpe de Estado de
septiembre de 1951 encabezado por el General Benjamín Menéndez. Y si
hubo un cierto impasse al calor de la legitimación popular que le otorgara
a Perón su reelección en noviembre de 1951, a los tres años del inicio de
su segunda presidencia se desarrolló una crisis política que acarreó el
intento frustrado de magnicidio con el bombardeo a la Plaza de Mayo por
parte de aviones de la Marina de Guerra el 16 de junio de 1955. A partir
de entonces comenzaba la cuenta regresiva para el asalto definitivo por
parte de una oposición -política, militar, eclesial y, en parte, económica-
decidida a acabar por los medios que fueren necesarios con aquello que
dieron en llamar la “Segunda Tiranía”, lo que finalmente tendría lugar el 16
de septiembre de ese mismo año6.
Este proceso tuvo lugar en el marco de una crisis política que se
tradujo en la articulación de un importante polo opositor dónde los poderes
fácticos jugaron un rol central. En otras palabras, el derrocamiento de
Perón estuvo estrechamente vinculado a cierta pérdida de vitalidad de la
alianza sectorial que había dado forma a la Argentina Peronista. El éxito
del programa de estabilización económica de 1952 sobre las variables

6 Cabe aclarar que dicha apelación a la Segunda Tiranía, a la que acudieran los hombres de la
denominada Revolución Libertadora que derrocara al General Perón, procuraba trazar una
línea de continuidad histórica con el gobierno bonaerense del Brigadier General Juan Manuel
de Rosas (1835-1852).

149
As Revoluções na América Latina Contemporânea

fundamentales de la economía supuso la introducción de algunos principios


como el incremento en las tasas de ahorro interno o el mejoramiento de
la productividad de la economía que supusieron puntos de inevitables
desencuentros entre la CGT y la nueva organización de empresarios
industriales nacionales Confederación General Económica (CGE)7.
Prueba de ello fue el fallido esfuerzo gubernamental de 1954 por llegar a
acuerdos sectoriales que ataran el incremento de los salarios únicamente
a aumentos de la productividad a través del ya referido Congreso Nacional
de la Productividad y el Bienestar Socia.
Lo cierto es que en aquella crisis política que tomaba todo su vigor
a mediados del año 1955, a la pérdida de entusiasmo de quienes hasta
entonces ataron su prosperidad económica a la Comunidad Organizada o
a la posición subversiva de sectores militares y políticos de la oposición, se
sumaba un nuevo actor: la Iglesia Católica. Abundan los estudios y análisis
sobre el rol de la Iglesia en el período 1945-55 para explicar su paulatino
desplazamiento político desde un peronismo que validaba legislativamente
la obligatoriedad de la enseñanza de religión en las escuelas primarias
dispuesta por el gobierno militar de 1943-45 a otro que en 1955 la anulara
y sancionara una ley de divorcio. También es cierto lo que sostiene una
estudiosa del tema como lo es Lila Caimari (1995) respecto a las causas
que originaron el conflicto entre Perón y la Iglesia Católica cuando insiste
en que estamos frente a una superabundancia de hipótesis y, por tanto,
frente a ninguna que se imponga a las demás.
De todos modos, para identificar los rasgos más salientes del conflicto
Perón-Iglesia Católica es necesario retrotraerse a la primera presidencia
de Perón aunque, aparentemente, no se veían todavía síntomas de aquel.
Entonces puede advertirse que la intensa actividad gubernativa en materia
de acción social que imprimía un sello de identidad propio al justicialismo

7 Téngase presente que el programa de estabilización económica de 1952 sucede a lo que po-
dríamos denominar como el período clásico de la economía peronista cuyo apogeo abarca
el trienio 1946-49. En aquellos años el enfoque económico tiene un perfil nacionalista y la
conducción económica había sido confiada por Perón a un mediano industrial Miguel Miranda
(entre 1946 y 1948 presidente del Banco Central de la República Argentina y del Instituto Ar-
gentino para la Promoción del Intercambio). (Cf. GERCHUNOFF; ANTÚNEZ, 2002).

150
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

era progresivamente percibida como una “intromisión” en un terreno que


hasta entonces administraba la Iglesia. El propio culto a la personalidad del
presidente y muy particularmente a la de su esposa Evita -referente por
antonomasia de la política social justicialista-, comenzó a ser percibido en
los altos niveles del Episcopado argentino como peligrosamente lesivo para
sus intereses. De hecho, el impacto que tuvo para las masas la labor social
de Evita, recubierta de un discurso que no dejaba de denunciar el injusto
orden social de la “Argentina oligárquica”, descolocaba a una Iglesia pre
conciliar para quien la virtud caritativa no debía cuestionar la estructura
social. Pero, sobre todo, la Iglesia veía con creciente preocupación la
emergencia de una liturgia profana que invadía decididamente su espacio.
A esto se sumaba hacia 1950 el apoyo del gobierno a sectas o religiones
protestantes. También la incorporación al gobierno de figuras identificadas
como ateas o masones contribuyó a enfriar la otrora aceitada relación.
Pero el conflicto se oficializa recién hacia finales de 1954 cuando
el propio Perón denunciaba que detrás de la proliferación de asociaciones
de toda clase y color de pastoral católica se escondía una oposición con
intenciones golpistas. Lo que siguió no fue otra cosa que una escalada en
el conflicto. Ante aquella acusación presidencial, sectores importantes del
clero argentino deciden cortar definitivamente los lazos con el gobierno y
éste respondió con un paquete legislativo que incluyó las ya referidas leyes
de divorcio y de anulación de la enseñanza religiosa en las escuelas más la
equiparación de derechos entre hijos legítimos y naturales. Inclusive, había
comenzado a hablarse de una reforma constitucional que separara a la
Iglesia del Estado.
Frente a aquella artillería gubernamental la Iglesia reaccionó el 11
de junio de 1955 con una multitudinaria procesión del Corpus Cristi que
aglutinó a todo el arco opositor incluyendo aún a comunistas y referentes
laicistas de la Unión Cívica Radical, el Socialismo y otros partidos.
El gobierno respondió con la expulsión del país de dos obispos de la
Nunciatura a quienes se responsabilizó por una serie de incidentes durante
la manifestación. De inmediato, el conflicto político derivó en una veloz
escalada de violencia que incluyó el brutal bombardeo a Plaza de Mayo

151
As Revoluções na América Latina Contemporânea

de la Marina del 16 de junio (con un saldo de más de 300 muertos y 600


heridos) y aquello que se leería como la respuesta de grupos peronistas al
bombardeo: la quema de iglesias de la Capital Federal durante la noche
de esa desgraciada jornada. Posteriormente, a un frustrado impasse de
reconciliación nacional auspiciado por el presidente le siguió un retorno a
la línea dura -aquí es elocuente el discurso de Perón del 31 de agosto- lo
que a su vez daba paso al pronunciamiento del 16 de septiembre, antesala
del derrocamiento.
Hasta aquí las maltrechas relaciones entre el peronismo y estos
poderes fácticos al momento del inicio de esa larga marcha de la resistencia
peronista. No obstante, la escalada de conflictos que cristalizaron el quiebre
de la alianza sectorial originaria de la Argentina peronista daba cuenta de
la complejidad del fenómeno. Tanto entre los empresarios industriales
como en la Iglesia y hasta en las Fuerzas Armadas que derrocaron a Perón
subsistieron sectores que continuaron siendo leales al peronismo, aún
cuando desde el poder se lo intentó erradicar de la escena política y social
argentina.
En junio de 1956 se producía el levantamiento cívico-militar,
encabezado por el Gral. Juan José Valle, contra el gobierno que derrocó
a Perón. En rigor de verdad se trató de una sublevación de un sector
marginal del Ejército que no contó siquiera con el aval del propio Perón, mal
concebido y peor organizado. Aún así, su impacto político y su proyección en
el imaginario colectivo de un Movimiento Peronista que aún no acababa de
asumir el golpe que le supuso su desplazamiento del poder, fueron más allá
de cualquier previsión. El gobierno encabezado por el Gral. Aramburu tomó
la decisión de fusilar a sus responsables o cabecillas, lo que incluyó civiles y
militares. Si los fusilamientos significaron un súbito viaje retrospectivo a las
guerras civiles argentinas anteriores a la consolidación de la organización
nacional, los procedimientos implementados nos trasportan más bien a la
ficción del realismo mágico sudamericano si tenemos en cuenta que entre
los fusilamientos de civiles en los basurales de José León Suárez, hubo
“fusilados sobrevivientes” (WALSH, 1957).

152
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

En lo que concierne a los industriales, aquellos que habían


organizado la CGE vieron como el gobierno de la Revolución Libertadora
intervenía sus organizaciones y desconocía su personería jurídica. Se
trataba de una revolución en clave de golpe de Estado que escondía bajo
su misión “libertadora” una clásica restauración. Una vez más, la legitimidad
de la representación empresarial recaía en la Sociedad Rural Argentina
y en la Unión Industrial Argentina. En lo concerniente a la Iglesia, su
propia estructura y autonomía funcional hizo que las lealtades peronistas
-principalmente curas de parroquias y algunos casos de religiosos y
religiosas que participaron del gobierno en áreas como la educación y la
salud- fueran rápidamente olvidadas a cambio de un apoyo decidido al
nuevo elenco gobernante.
Sea como fuere y muy a pesar del deseo de los “libertadores”, el
peronismo no estaba acabado. El primer quinquenio posterior a su expulsión
del poder sería apenas un impasse, la “primera resistencia”, en una travesía
de casi dieciocho años para retomar el gobierno. Ahora bien, la historia
jamás es lineal y ésta no fue la excepción. Ya veremos como los cambios
sociales, económicos y culturales herederos de la “revolución justicialista”
acabarán por conformar un nuevo escenario político que adquirirá toda su
visibilidad al finalizar la década del sesenta e ingresar en la del ’70, dónde el
peronismo será la vanguardia política de la nueva situación. Y subrayamos
aquel adjetivo, porque los determinantes sociales, económicos y políticos
de la Argentina del inicio de la década del setenta distaban mucho de los
de 1955. En suma, el peronismo sería transformado, revolucionado por los
propios efectos de su “revolución justicialista”. Nuevos actores entraban en
escena y no justamente para ocupar un lugar secundario o subalterno en el
Movimiento. La incorporación de los jóvenes y los intelectuales en clave de
“vanguardia” perfilaron los nuevos desafíos políticos que debió enfrentar
tanto Perón y el Movimiento Peronista como, por añadidura, la Argentina
entre 1969 y 1973.
Nuevos actores y nuevos desafíos políticos que ya desde los últimos
años de la década del sesenta comenzaban a plantearse en términos de
“lucha armada”, lo cual nos conduce nuevamente a los últimos escritos
de quien -muy influido por su visión en primera persona de la Revolución

153
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Cubana- desde sus escritos explicó y legitimó la relación lucha armada-


movimiento peronista. Veamos entonces qué decía al respecto John William
Cooke en 1967:

Desde la lucha armada, Perón no es y no será un obstá-


culo, por cuanto existe una clara y necesaria continuidad
histórica entre el proceso iniciado bajo su liderazgo el 17
de octubre de 1945 con las banderas de justicia social, in-
dependencia económica y soberanía política, y el proce-
so revolucionario que hoy comienza a desarrollarse bajo
otras formas de lucha pero manteniendo e integrando
en un proceso superador las banderas iniciales (COOKE,
1967, p. 229).

JUVENTUD E INTELECTUALES: MOVIMIENTO PERONISTA Y


REVOLUCIÓN

Resulta imposible comenzar a hablar de juventud sin antes recordar


una suerte de axioma que el profesor Juan Carlos Torre repitiera una y
otra vez a quienes éramos sus alumnos del curso sobre “Problemas de
la acción colectiva”: la juventud es, desde una perspectiva sociológica,
una “creación” de los años sesenta8. Esto se conecta con el relato de una
experiencia de la que fuera protagonista otro profesor, en este caso el
filósofo dedicado a la historia de las ideas en Argentina, Oscar Terán, cuyo
testimonio resulta esclarecedor para comprender el modo en que la gesta
de la Revolución Cubana conjugó en las mentes de los jóvenes de los años
sesenta lo que hasta entonces se veía como dos elementos antitéticos: el
andamiaje teórico del marxismo y la práctica revolucionaria. En este sentido
cuenta Terán, en una publicación de hace una década, una experiencia que
sitúa en los años de Onganía (1966-1970) sobre una lectura colectiva del
entonces prohibido texto de Régis Debray ¿Revolución en la Revolución?
Se trataba en rigor de verdad de la lectura del texto en versión microfilm,
proyectado en una buhardilla del barrio porteño de Barracas que actuaba

8 Se trata del curso dictado durante el año 1998 por el sociólogo argentino Juan Carlos Torre,
especializado en el estudio sobre el sindicalismo peronista, en la Maestría en Historia de la
Universidad Torcuato Di Tella.

154
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

de habitación de un estudiante amigo y camarada -Javier- del por entonces


joven Oscar Terán.
Lo cierto es que Terán puntualiza el hecho contextual de la escena
que protagonizaron dos jóvenes estudiantes de la Facultad de Filosofía y
Letras de la UBA (Universidad de Buenos Aires) en plena dictadura militar de
Onganía imbuidos durante una tarde de verano de las palabras de un joven
intelectual francés que no actuaba como criterio de autoridad sino a través
del prestigio que la Revolución Cubana proyectaba. Pero más importante
aún para nuestro análisis del binomio juventud/intelectuales-revolución de
aquella escenografía epocal resulta el final de aquel encuentro que Terán
lo subraya de manera taxativa:

De manera que luego de varias horas de lectura forzada


(como quien dice de “macha forzada”), henchidos de un
novedoso y para esos días prácticamente exclusivo saber,
Javier me acompañó hasta la puerta de su casa. Quiero
repetir que era un bello domingo de verano, porque en-
tonces se entenderá mejor que era natural que por la calle
pasaran numerosas parejas de jóvenes rumbo al parque
cercano. La tarde se acercaba a su ocaso. Entonces Javier
me miró seria y fijamente y me dijo: “Pensar que no sa-
ben el mundo que estamos haciendo para ellos”. No se me
ocurrió responder nada -quizás porque estaba de acuer-
do con esa aseveración-, y sin embargo esa frase quedó
para siempre clavada en un rincón de mi cerebro (TERÁN,
2004, p. 14-15).

La frase resume magistralmente ese ascenso de la juventud como


actor social y político. Una juventud que vino de la mano de la reificación
de un nuevo tipo de intelectual, en cierto sentido, de un tipo de intelectual
muñido casualmente de una fuerte impronta “anti-intelectualista”. Se
trataba, claro está, de “hacer la revolución”. Una revolución preparada por
pocos para beneficio de muchos.
En aquella labor convergieron inclusive militares retirados que
por la vía del peronismo, como fue el caso del Mayor Alberte, impulsara
en un Congreso del Peronismo Revolucionario de 1969, una primigenia
Tendencia Revolucionaria Peronista. En esa línea, hubo inclusive jóvenes

155
As Revoluções na América Latina Contemporânea

católicos, curas tercermundistas y cadetes que cursaban los inicios de la


carrera militar que decidieron abandonarla para sumarse a esas nuevas
perspectivas, todavía poco unificadas, de finales de los años sesenta y
primeros dos años de la década siguiente de lo que se conocería como un
peronismo revolucionario en clave de lucha armada.
Tampoco faltó la contestación en la Iglesia post-Concilio Vaticano
II, cuando en paralelo a la Conferencia Episcopal Latinoamericana de
Medellín (1968) comenzara a articularse en nuestro país un Movimiento
de Sacerdotes para el Tercer Mundo (MSTM), donde su ala mayoritaria se
presentaba partidaria de las perspectivas revolucionarias del peronismo
de esos años. El propio Perón daba así, en marzo de 1969, la bienvenida
a los Sacerdotes del Tercer Mundo al seno del Movimiento, aunque no
sin beneficio de inventario a la luz del recordado conflicto que mantuvo
con la Iglesia Católica entre finales de 1954 y los momentos previos a su
derrocamiento en 1955:

En orden a nuestro deber para con el pueblo, cada uno


puede juzgar si alguien le ha ofrecido lo que nosotros en
nuestros diez años de Gobierno Justicialista, y en cuanto
a nuestro interés por la verdadera grandeza moral y ma-
terial de la Argentina, la historia no nos podrá ser esquiva
porque la realidad es la única verdad.
En tan afanosos empeños tuvimos en contra al Episco-
pado argentino que, ahora, un cuarto de siglo después,
parece que quiere rectificarse. En la pretendida apostasía
de las masas, la Iglesia tiene también su parte de culpa
porque, por intermedio de su jerarquía eclesiástica, olvidó
a menudo al pueblo para seguir a las oligarquías y a los
poderosos que no fueron precisamente los preferidos de
Cristo. O la Iglesia vuelve a Cristo o estará en grave peligro
en el futuro que se aproxima a velocidades supersónicas.
De estos simples hechos fluye la admiración y el cariño
que siento por los Sacerdotes del Tercer Mundo a los que
deseo llegar con mis palabras de aliento y encomio por-
que ellos representan la Iglesia con que siempre he soña-
do (BASCHETTI, 1997, pp. 613-614).

El año 1969 ilustró desde su inicio ese pretendido giro revolucionario


que Cooke preconizara hasta su muerte acaecida el año anterior. Al

156
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

Congreso del Peronismo Revolucionario del mes de enero se le sumaba


esta acogida de los Sacerdotes del Tercer Mundo por un Perón que ya
comenzaba a hablar de “socialismo nacional” y a partir del mes de mayo el
estallido social del Cordobazo en simultáneo con otros “azos” en Rosario y
Tucumán. Todo hacía ver entonces una luz al final del túnel de la dictadura
que, cuanto menos, anticipaba la salida de Onganía del gobierno. El
movimiento social contestatario de la Argentina de finales de la década
del sesenta comenzó a articularse en torno a un peronismo proscrito,
cuyas banderas eran levantadas ahora no sólo por los sindicatos (con sus
distintos niveles de combatividad) sino también y principalmente por una
ascendente Juventud Peronista que sumaba acción en la calle y discusión
teórica en los ámbitos intelectuales.
Ese peronismo joven que sumaba ahora a los hijos de la clase media
y media-alta de aquellos que tres lustros atrás, cuanto menos, aplaudieron
al “bando libertador”, emergía ahora con pretensiones de vanguardia.
Este concepto importado del corpus teórico práctico del marxismo-
leninismo sería más temprano que tarde parte del bagaje con el cual
sectores importantes de la juventud en proceso de peronización arribara al
peronismo. En otras palabras, esto significaba prepararse para “conducir”
junto a Perón. Ya veremos que esta pretensión estará en la base de los
grandes traspiés que esta juventud radicalizada cometerá en su relación
con el líder justicialista. Esto quedará plasmado cuando tomen forma las
organizaciones político-militares adscriptas a un peronismo dispuesto a
acelerar los tiempos para el retorno de Perón al poder.
Ese era el objetivo que perseguía Perón desde su exilio madrileño
con su bendición a las organizaciones político-militares del peronismo;
por el contrario, esa juventud radicalizada creyó o quiso creer que el
anciano líder justicialista auspiciaba un movimiento revolucionario en clave
socialista. En cualquier caso, la ya referida presentación en sociedad de
Montoneros en 1970 con el secuestro y posterior asesinato de Aramburu
(ex presidente y máximo referente de la Revolución Libertadora) significó
un golpe de gracia a la ya crítica situación política de la dictadura militar

157
As Revoluções na América Latina Contemporânea

que se añadía al impacto social de los sucesos del Cordobazo. Aún


cuando los jóvenes, en su mayoría provenientes de la Acción Católica, que
conformaron el grupo inicial de Montoneros fueron duramente reprimidos
al caer presos o ser abatidos en enfrentamientos con la fuerza pública
-al punto de haber estado próximo a sucumbir-, la organización logró
rearmarse. Los golpes iniciales sellaron su éxito al punto de convertirse en
la organización que logró aglutinar al resto de los grupos guerrilleros que
se proclamaban peronistas al avanzar el año 1972. Junto a Montoneros, la
izquierda revolucionaria que adscribía al marxismo-leninismo en el espejo
de la Revolución Cubana entraba también en su fase expansiva con la
fundación en 1969-70 del Ejército Revolucionario del Pueblo (ERP).
Sin caer en el sofisma latino del post-hoc, propter-hoc -considerar
que lo que sucedió antes es causa necesaria de lo que sigue-, debe
puntualizarse que el clima generado por la suma de una concatenación de
estallidos sociales y los efectos inmediatos de la estrategia gubernamental
de haber dejado “en suspenso” a la política, acabó estallando en clave de
organizaciones guerrilleras con sus respectivos programas revolucionarios.
En suma, una plataforma que no sólo colocaba a la dictadura en tiempo
de descuento para forzar una salida electoral sino que también facilitó el
regreso de Perón al país el 17 de noviembre de 1972.
Podría decirse que durante el mes en el cual Perón residió en
Argentina, la incertidumbre en torno a la actitud que tomaría el peronismo
de concurrir o no a los comicios quedaría develada en el sentido de la
concurrencia. Ya se ha hecho referencia a la intensa campaña que llevara a
cabo la Juventud Peronista -sintetizada en el popularizado slogan “Cámpora
al gobierno, Perón al poder”-para consagrar en los comicios del 11 de marzo
de 1973 a Héctor Cámpora como nuevo presidente. En estas circunstancias
Montoneros quedaba ubicado en el centro de esa potente amalgama del
peronismo revolucionario reconocida como Tendencia Revolucionaria del
Peronismo que permitía conjugar esa extraordinaria combinación de una
militancia movimientista-juvenil en expansión y una estructura celular
propia de una organización guerrillera. Ciertamente, el frente electoral

158
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

constituido en torno al Movimiento Peronista, FREJULI, triunfaba en las


urnas y el peronismo regresaba al gobierno.
Hasta aquí, parecía casi cerrado el ciclo iniciado en 1955 con el
derrocamiento de Perón; sólo faltaba, si se quiere, cumplir con el último
término del slogan, cuanto menos en la perspectiva de aquel sector “clásico”
del peronismo que por oposición a la Tendencia adoptaba el nombre de
Ortodoxia. Eso no era otra cosa que lo que reclamaba quienes despuntaban
como el eje más importante de aquella Ortodoxia, el sindicalismo peronista:
aquello de Perón al poder. Un poder que finalmente volvió a Perón, luego de
la renuncia del presidente Cámpora y de la convocatoria a nuevos comicios
en septiembre de 1973. El 12 de octubre, Perón se convertía nuevamente en
presidente de los argentinos.
Ahora bien, aquella salida del otrora delegado de Perón no fue una
mera operación de recambio nominal, siguiendo un guión preestablecido,
o por lo menos no fue concebido así para el sector del peronismo que
arropó la breve gestión de Cámpora: la organización Montoneros. Ya desde
los días posteriores al triunfo electoral, cuando se estaba organizando
la conformación del nuevo gobierno, tuvieron lugar las primeras
desinteligencias entre lo que genéricamente podemos considerar como
una Tendencia que reclamaba para sí lo que consideraba debía ser su cuota
de participación en el poder y un Perón que comenzaba a mostrar signos
de desaprobación hacia los jóvenes revolucionarios. El tema es complejo
y complejos son también los matices que componen los diversos grupos
juveniles que, desde el centro celular de la organización Montoneros, se
van expandiendo en capas que entretejen ese variopinto mapa de jóvenes,
intelectuales, profesionales de clase media y también de grupos de obreros
radicalizados -disconformes con el tradicional sindicalismo ortodoxo
peronista- que corporizaron la Tendencia Revolucionaria del Peronismo.
Una referencia especial merece la relación intelectuales-peronismo-
revolución. Sabido es que la mayor parte de los intelectuales, salvo ciertos
nombres que excepcionalmente se posicionaron con Perón desde 1945,
no fueron de la partida durante los diez años de gobierno justicialista. El

159
As Revoluções na América Latina Contemporânea

peronismo se valió de retazos de nacionalismo católico o de nacionalistas a


secas quienes gestionaron la política universitaria en particular y educativa
en general del decenio 1945-55. Es cierto que hubo nombres de prestigio
entre los escasos intelectuales que apoyaban lo que sus enemigos liberales
e izquierdistas denominaban “el régimen”; tales son los casos del literato
Leopoldo Marechal (nacionalista católico) o del historiador Ernesto
Palacios (nacionalista a secas), o de escritores del grupo Boedo como
César Tiempo o Nicolás Olivari o artistas populares como Enrique Santos
Discépolo, Discepolín. Pero, nuevamente, se trató de casos puntuales que
no conformaban un “bloque de intelectuales orgánicos” ni nada que se le
parezca.
La intelectualidad argentina de entonces (desde el liberalismo a las
diversas izquierdas) dio la espalda al peronismo en 1945 y con él a las masas
obreras a quienes consideraban víctimas de soborno o, peor aún, de una
gran estafa. Entonces la gradual reconciliación de algunos de ellos con el
peronismo durante los años sesenta junto a una nueva camada de jóvenes
que estaba finalizando por esos años sus estudios universitarios, animados
por la idea de movimiento de liberación nacional como precondición para
poner en marcha la revolución social, fueron las bases para operar un
vertiginoso proceso de “peronización”. Y también volvemos a repetirlo, ese
proceso lo hicieron de la mano de un planteamiento que les autoconfería,
claro está, el rol de vanguardia esclarecida. De allí que todos estos
movimientos hayan convergido más temprano que tarde en Montoneros,
para los casos de mayor compromiso con la “posición militarista”, o más
genéricamente en la Tendencia, si el compromiso tomaba un cariz más
ligado a la militancia social-movimientista.
Una vez que, hacia octubre de 1973, distintos retazos de las
organizaciones armadas peronistas más antiguas y otras más compactas
que provenían de la izquierda -fundamentalmente las Fuerzas Armadas
Revolucionarias (FAR)- se fusionaran con Montoneros tendrá lugar el
desarrollo del conflicto entre los jóvenes revolucionarios y Perón. Es
entonces cuando la fusión Montoneros-FAR deviene en la adopción del

160
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

corpus teórico marxista por los otrora militantes católicos. Los hitos son
bien conocidos: enfrentamientos en lo que pretendió ser el acto por el
retorno definitivo de Perón a la patria el 20 de junio de 1973; en septiembre,
el asesinato del secretario general de la CGT José Rucci atribuído -aunque
no reconocido oficialmente- a Montoneros; el cuestionamiento del
presidente Perón a los gobiernos provinciales cercanos a la Tendencia;
el recambio de autoridades universitarias consideradas ahora como
izquierdistas “infiltrados” en el Movimiento y, como broche de oro, aquel
discurso del primero de mayo de 1974 en el que Perón, desde los balcones
de la Casa Rosada, calificaba de “estúpidos” e “imberbes” a las columnas
de Montoneros que gritaban consignas críticas hacia su gobierno.
Sin lugar a dudas, aquella estampa del retiro de Montoneros de
la plaza quedaría grabada en el imaginario colectivo de los argentinos
como el certificado de ruptura política definitiva de una relación que
venía deteriorándose a marcha forzada. A partir de entonces y más aún
con el fallecimiento del presidente el 1º de julio de 1974, el derrotero de
la organización Montoneros -ya despojada de buena parte de lo que
se concentraba en torno a la Tendencia, fundamentalmente por la
escisión de lo que se conocerá como el sector JP Lealtad- no será otro
que un repliegue sobre su condición de célula guerrillera para pasar a la
“clandestinidad” el 6 de septiembre de 1974. En suma, quienes se habían
atribuido a sí mismos el papel de “vanguardia revolucionaria” del peronismo
se apartaban del Movimiento, aduciendo que, ya sin Perón, había dejado
de ser un instrumento válido para llevar adelante el proceso de “liberación
nacional y social”. Más aún, para Montoneros, el gobierno de la flamante
presidenta María Estela Martínez de Perón no tenía ya prácticamente nada
de peronista y si prácticamente todo de reaccionario y derechista.
Así las cosas, al promediar el año 1974, cualquier posibilidad de volver
a conjugar los términos revolución, movimiento social y peronismo había
desaparecido del escenario político argentino. Además, los enfrentamientos
facciosos al interior de un peronismo sin Perón no hicieron más que acelerar
el proceso de deterioro político que sufrió el débil gobierno de la viuda de

161
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Perón. Posiblemente, aquella conjunción entre revolución, movimiento de


liberación y peronismo fue interpretada de manera muy disímil por unos y
otros. De una parte, los jóvenes radicalizados se valieron de los términos
“socialismo nacional” del líder justicialista para promover un proyecto de
Estado socialista -tal vez “a la cubana”- que jamás estuvieron en los planes
de Perón. De otra parte, Perón se valió de esa expresión tan polisémica
para conjugar una relectura de la doctrina justicialista en clave del lenguaje
de esos años, posicionado fuera del poder. Una vez en el gobierno, Perón
develaba su proyecto político sin ambages: la “reconstrucción nacional”
por la vía de una remozada versión del modelo político organicista de
“comunidad organizada” teorizado en ese “Modelo Argentino” al que
hiciéramos referencia al comenzar este trabajo.
Ciertamente, la pretendida desilusión de Montoneros con el
programa de gobierno de Perón no puede ser leída más que como
una estrategia política para pelear esa posición de vanguardia a la que
aspiraban y que les fuera negada por el líder justicialista. Nadie se puede
llamar a engaño. Desde el inicio mismo del tercer ciclo peronista -y esto
comprende también la breve gestión presidencial de Héctor Cámpora-, el
programa socio económico expresamente articulado por la vía de un Pacto
Social CGT-CGE daba cuenta de un esquema de alianza de clases entre
el empresariado o burguesía nacional y el movimiento obrero organizado.
En este esquema, el ministerio de Economía fue reservado para el
máximo referente de los empresarios nacionales, José Ber Gelbard, y el
de Trabajo para un hombre del sindicalismo peronista que en este caso
recayó en el metalúrgico Ricardo Otero. En definitiva, se trataba de ampliar
la base productiva del país no sólo potenciando el mercado interno sino
procurando también ampliar mercados para nuestra producción industrial
por la vía de las exportaciones a países de incipiente o moderado desarrollo
económico, como era el caso de buena parte del entonces bloque de
países socialistas. Todo esto debía además conjugarse con un adecuado
programa de renovación e inversión en infraestructuras básicas, lo que dio
a conocerse como Plan Trienal.

162
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

En otras palabras, este programa pretendía consolidar un modelo


de crecimiento económico con equidad social que evitara la concentración
del poder en las élites tradicionales para potenciar la industria nacional y
dotarla a su vez de un potencial exportador como una vía de fortalecimiento
del eje social originario del peronismo: obreros industriales-empresarios
nacionales, librados de la dependencia del gran capital internacional.
Pero esto distaba mucho de la “revolución socialista” preconizada ya sin
tapujos por Montoneros una vez que el peronismo accediera nuevamente
al gobierno. En este sentido no se debe descuidar el flanco permanente de
ataque de Mario Firmenich, número uno de la conducción de Montoneros:
el Pacto Social, que denunciaba por anteponer los intereses del capital a
los del trabajo. Esto debe analizarse en conjunto con la descalificación de
Montoneros a la CGT, firmante del Pacto por la “parte sindical”, porque a
su entender no era otra cosa que una “burocracia sindical” que traicionaba
permanentemente a los trabajadores. Por último, no olvidemos que
Montoneros cuando se propuso hacer una demostración de fuerza en su
enfrentamiento con Perón no hizo otra cosa que avanzar hacia el asesinato
del secretario general de la CGT Rucci, el hombre de Perón en el Pacto
Social.
Lo cierto es que aquel Modelo Argentino desde el cual el anciano
líder justicialista pretendía condensar no sólo un programa político para el
momento actual sino también una suerte de legado político para la historia,
estaba muy alejado de los anhelos revolucionarios anticapitalistas de esa
juventud radicalizada, de los intelectuales que desde la izquierda recayeron
en el peronismo para encontrarse con las masas o desde una posición aún
más orgánica, de Montoneros. Para todo este núcleo, el triunfo electoral del
11 de marzo de 1973 no había significado la toma del poder; aquello estaba
aún pendiente. Además, el propio transcurso del gobierno justicialista les
mostraba que dicha toma no podía venir más que de un poder popular que
en palabras de Mario Firmenich surgía “de la boca de un fusil”. De allí el
pase a la clandestinidad de septiembre de 1974, sus operaciones militares
de 1975 y aquello de considerar el advenimiento del golpe de Estado del 24
de marzo de 1976 como un “cuanto peor, mejor”.

163
As Revoluções na América Latina Contemporânea

En definitiva, se apostó todo a una violencia presuntamente


vivificadora que conformó una espiral de pérdida de vidas, derechos
y resignación de espacios sociales y políticos de poder desde lo cual
operar el cambio social. Más bien se eligió todo lo contrario, reemplazar la
política democrática por la guerra. Pero en verdad, ¿se era consciente de
ello? Resulta difícil responder esto desde la actualidad; por tanto, parece
más aconsejable retornar a aquel escrito de ese teórico de la revolución
peronista en clave de lucha de clases, John William Cooke, que no vivió ni
para protagonizar ni para teorizar sobre lo que sucedió con posterioridad a
1968 y que consideraba que no cabía otra posibilidad que pasar a la acción
en tanto: “La posibilidad de la lucha revolucionaria solo puede demostrarse
a través de la lucha revolucionaria” (1967, p. 236).

HACIA EL FINAL

Cuando la presidenta Isabel Perón era trasladada al aeroparque


metropolitano en la madrugada del 24 de marzo de 1976 para ser detenida y
trasladada a una residencia militar en el sur del país, ya poco quedaba de un
Movimiento Peronista desgarrado por el desánimo y las disputas internas
de poder; pero menos aún quedaba de las aspiraciones revolucionarias o
del movimiento social que el peronismo supo edificar tan sólo un trienio
atrás. La Tendencia Revolucionaria del Peronismo se había desgajado entre
los que permanecieron en el Movimiento -una parte más que sustancial
de la militancia de base- y quienes cerraron filas con la orga (Montoneros)
para pasar a actuar en la clandestinidad.
Pero en el campo sindical no hubo tampoco unidad de acción.
Mientras que las ortodoxas 62 Organizaciones Peronistas orientadas
por el líder metalúrgico Lorenzo “Loro” Miguel permanecieron hasta el
final alineadas con la presidenta, los sectores denominados combativos
eran progresivamente apartados de la conducción de sus gremios, de
las comisiones internas de los centros de trabajo o cuando no eran

164
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

represaliados o directamente despedidos como producto de una “pinza”


entre la patronal y los referentes del sindicalismo ortodoxo.
En las universidades, la purga ya había tenido lugar desde finales
de 1973 y especialmente durante el transcurso del año siguiente. Ya nada
quedaba de la experiencia del Rector de la entonces Universidad Nacional
y Popular de Buenos Aires Rodolfo Puiggrós, ni de otras gestiones cercanas
a la Tendencia como la de Rodolfo Agoglia en La Plata o la de Holver
Martínez Borrelli en Salta para nombrar sólo un par de casos. Los jóvenes
radicalizados de la Juventud Universitaria Peronista y los intelectuales
comprometidos con este sector también debieron resignar el espacio
universitario, en algunos casos para reconcentrar su militancia por la vía
clandestina de Montoneros y en otros para buscar nuevos centros de
trabajo fuera del país.
No menor fueron las tensiones al interior de la Iglesia, dónde
las jerarquías dejaron librados a su suerte a aquellos curas y monjas
comprometidos con posiciones sociales o políticas radicalizadas. Además
la propia ruptura interna de la Tendencia, ocurrida entre marzo y mayo de
1974, dejó desamparados políticamente a no pocos sacerdotes del tercer
mundo. El caso más notorio y trágico fue el asesinato del padre Carlos
Mujica en mayo de 1974. En este mismo sentido, buena parte del trabajo
social-barrial de las distintas organizaciones de la Tendencia -tales son los
casos del Movimiento Villero, Movimiento de Inquilinos, etc.- quedó a la
deriva con posterioridad a la muerte de Perón.
Por cierto, la muerte de Perón significó también el principio del
fin para el eje matricial de su programa político de gobierno: el programa
económico conducido por el empresario de la CGE José Gelbard. Su viuda
y sucesora Isabel esperó al mes de septiembre para pedirle a Gelbard que
dimitiera. Una decisión política que significó en los hechos el final del Pacto
Social CGE-CGT. Y por tanto el alejamiento de la central de pequeños y
medianos empresarios de la industria nacional de las esferas del poder
gubernamental. Con esto se hacía visible el fracaso tanto de las perspectivas
revolucionarias en clave socialista de la juventud más radicalizada como

165
As Revoluções na América Latina Contemporânea

del programa de “revolución en paz” que el propio presidente anunciara en


el Congreso al presentar su Modelo Argentino para el Proyecto Nacional.
El desentendimiento entre ambas partes, posiblemente pueda deberse no
tanto a una incomprensión mutua como a la mutua pretensión de sumar a la
otra parte a su programa. En cualquier caso, ni uno ni otro logró plasmarse
en la realidad y el vacío a que dio paso la indefinición fue aprovechado por
los poderes fácticos más reaccionarios para acampar en el lugar.
Por último, el deterioro de la relación gobierno-FFAA fue en aumento
vis-à-vis de los desafíos guerrilleros de Montoneros y, en particular, del
ERP. Además el gobierno de Isabel no hizo sino profundizar la ruptura
del movimiento social del que se nutrió el peronismo que accediera al
poder en mayo de 1973. No sólo desoyó las demandas de los jóvenes,
de los estudiantes y de los trabajadores, al punto de tener que enfrentar
una huelga general por parte del sindicalismo ortodoxo en junio de 1975,
sino que desde hacía más de un año atrás daba rienda suelta al accionar
violento de la banda derechista comandada por el ministro de Bienestar
Social y secretario privado de Perón y de Isabel José López Rega. Esto se
sumaba a la autorización brindada por la presidente en enero de ese año a
las FFAA para aniquilar el foco subversivo que había instalado el ERP en la
provincia de Tucumán.
Ciertamente, el deterioro se volvió ya irremediable a partir del
segundo semestre de 1975 cuando al desafío de la huelga general, la
presidenta debió acceder a una de las exigencias centrales de la misma: la
renuncia del ministro López Rega. Ya sin su hombre de mayor confianza, sin
apoyos empresariales ni de sectores de la clase media urbana relevantes,
sólo le quedaba recostarse en la tan mentada columna vertebral del
justicialismo: el movimiento obrero organizado, a quien sus detractores por
izquierda denominaban “burocracia sindical”. También durante esos meses,
las FFAA comenzaron a organizar -con tiempo, por cierto- lo que para
buena parte de la sociedad argentina formaba parte ya de esa “crónica de
una muerte anunciada”: el golpe militar. En realidad, un golpe cívico militar
puesto que esta vez, más que nunca antes, buena parte de aquello que

166
CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

se desgajaba de la otrora alianza de clases multi-sectorial que condujo


nuevamente al peronismo al poder en 1973 era, por acción o por omisión,
recogida por las FFAA, cuanto menos como apoyos pasivos para sus planes
de futuro.
No obstante, las FFAA no pretendían recrear un movimiento social,
ni siquiera una alianza de clases; sólo buscaban neutralizar al cuerpo
social para, de la mano de los poderes fácticos más reaccionarios (Unión
Industrial Argentina, Sociedad Rural Argentina, sectores políticos de los
partidos tradicionales y hasta sindicalistas comprometidos con el golpe)
tomar el gobierno. La idea era imponer un programa que desarticulara ese
movimiento social y con él cualquier atisbo de pretensión contestataria,
reformista y, más aún, revolucionaria. Todo esto para eliminar de raíz del
escenario político argentino cualquier germen de convicción en torno
a aquello que sostuviera Cooke en cuanto a que toda “[…] posibilidad
de la lucha revolucionaria solo puede demostrarse a través de la lucha
revolucionaria” (1967, p. 236). En fin, para los militares de la dictadura que
se inauguraba en 1976, sólo la violencia de un Estado que acudía al terror
podía hacer de aquel objetivo la más fecunda realidad. Una realidad sin
revolución, sin movimiento social y, por supuesto, sin peronismo en clave
de Cooke.

167
As Revoluções na América Latina Contemporânea

REFERENCIAS

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CAPÍTULO 3 | Movimiento Peronista y revolución

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169
4
4
Capítulo

INTRODUÇÃO
VENEZUELA,
TURBULÊNCIAS DE UMA
ECONOMIA PETROLEIRA
Gilberto Maringoni

É possível que o ciclo de governos


progressistas na América do Sul – iniciado em 1998,
com a eleição de Hugo Chávez, na Venezuela –
esteja enfrentando uma crise com características
profundas em vários países. Os sinais mais evidentes
são as derrotas eleitorais dos governos da Argentina
– disputa presidencial – e da Venezuela – pleito
parlamentar – no final de 2015. Mas há marcas dessa
tendência no Brasil, no Equador e mesmo na Bolívia.
O que se denomina ciclo progressista, ciclo
reformista ou onda antiliberal envolve lideranças,
administrações e processos políticos distintos entre
As Revoluções na América Latina Contemporânea

si. Sua confluência reside mais na negação – pelo menos verbal – das
orientações chamadas genericamente de neoliberais, do que em afinidades
programáticas.
Essa vaga passa pelas vitórias eleitorais de Luís Inácio Lula da Silva
(Brasil, 2002), Nestor Kirchner (Argentina, 2003), Tabaré Vázquez (Uruguai,
2004), Rafael Correa (Equador, 2005), Evo Morales (Bolívia, 2005), Daniel
Ortega, (Nicarágua, 2006), Fernando Lugo (Paraguai, 2008) e de Michele
Bachelet (Chile, 2006 e 2014).
Apesar das diferenças, parece haver alguns pontos de toque
entre as turbulências que Argentina, Brasil e Venezuela, em especial,
vêm apresentando. Há escândalos de corrupção, disparada de preços,
acusações de autoritarismo, piora dos indicadores macroeconômicos e
queda na aprovação popular das administrações.
No entanto, esses são sintomas e não causas dos problemas. Suas
raízes não estão ainda totalmente evidentes.

AGENDA SOCIAL

Os governos dessa safra tiveram o mérito de colocar demandas


sociais no centro da agenda política. Nos casos argentino, venezuelano,
boliviano e equatoriano – diversamente do brasileiro –, a correlação de
forças se alterou em favor dos setores populares. Na Venezuela, Bolívia
e Equador, a chegada de novos governos foi marcada por alterações
institucionais que mudaram o panorama político.
A popularidade dos novos governos foi impulsionada por um
período de inédita valorização das commodities no mercado internacional,
especialmente entre 2004 e 2010. A alta foi motivada, como se sabe, pela
entrada da China – e, em menor grau, da Índia – como forte compradora
desses produtos, desde o final do século passado.
Os países da América do Sul passaram a ter balanças comerciais
superavitárias naquele período. A Argentina viu crescerem fortemente suas

172
CAPÍTULO 4 | Venezuela, turbulências de uma economia petroleira

vendas de trigo e carne. A soja, o milho, a carne e minérios in natura tiveram


efeito decisivo para o crescimento econômico do Brasil. No caso boliviano,
exportações de petróleo e minérios apresentaram efeito semelhante. O
petróleo venezuelano – que alcançou seu pico no mercado em meados de
2007 – possibilitou ao país não apenas dispor de um ingresso de moeda
forte que impulsionou uma série de obras de infraestrutura e programas
sociais, além de dar curso a uma ousada prática diplomática. A Venezuela
pode comprar títulos da Argentina, em plena crise dos anos 2003-2004,
rompendo um cerco de crédito que estrangulava a república do Prata.
Equador, Chile e Uruguai igualmente conheceram anos de bonança.
A expansão econômica permitiu uma forte ofensiva política por
parte dos distintos governos e um enfraquecimento relativo das oposições,
em geral compostas por forças de direita.
Tal aquecimento alavancou mercados internos, deu margem a
elevações generalizadas de salários, à queda nos índices de desemprego, ao
acesso à educação e à expansão dos serviços públicos. Além disso, os novos
governos deram curso a um processo democrático de integração regional,
norteado por argumentos que envolvem soberania, desenvolvimento,
distribuição de riquezas e tentativas de reconfiguração do papel do Estado.
Esse surto de prosperidade apresenta, no entanto, sérios limites.
Ele não mudou a posição tradicional dos países na divisão internacional do
trabalho. A América do Sul reafirmou suas características de exportadora
de produtos primários e importadora de bens industrializados. Em alguns
casos, essa marca se agravou, reforçando o papel periférico dessas
economias.
Isso pode ser constatado pela Tabela 1. Ela mostra o significativo
peso das commodities no valor total das exportações de alguns países.

173
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Tabela 1. Porcentagem de produtos primários no valor total das exportações (2013)


Argentina 66.9

Brasil 63.6

Bolívia 96

Chile 86.1

Equador 93.3

Uruguai 75.6

Venezuela 97.6

Fonte: Anuario Estadístico de América Latina y el Caribe, Cepal, 20141.

Com elevado grau de dependência na comercialização de tais


produtos, não é de se estranhar que a queda dos preços internacionais
deixasse mais clara a vulnerabilidade dessas economias.

O PESO DA CRISE

A crise de 2008-2009, que atingiu principalmente Estados


Unidos e Europa Ocidental, teve a característica de encolher mercados
consumidores de produtos industriais chineses – em especial bens duráveis
– e de atingir a própria economia do país asiático. Seu PIB, que chegou a
bater um crescimento anual de 14,2% em 2007 – em uma média ao redor
de 10% ao longo dos anos 2000-2010 – passou a crescer 7,7% em 2012 e
2013, baixando ainda para 7,4% em 2014, segundo dados do FMI. É possível
que se tenham taxas entre 6% e 7% em médio prazo.
A redução do ritmo de crescimento da China, no entanto, não é
fenômeno a ser examinado apenas de forma quantitativa. O governo local
parece estar realizando uma reforma de matriz keynesiana ao deslocar o

1 Disponível em: <http://repositorio.cepal.org/bitstream/handle/11362/37647/S1420569_


mu.pdf?sequence=1>. Acesso em: 14 mar. 2015.

174
CAPÍTULO 4 | Venezuela, turbulências de uma economia petroleira

polo dinâmico do desenvolvimento do setor externo para o mercado interno.


Isso implica expansão da massa salarial e aumento da demanda agregada
como forma de defesa contra uma demanda externa em contração.
A retração chinesa e de países centrais correspondeu também a
uma menor demanda por produtos primários, o que derrubou seus preços.
A cotação das commodities oscilou fortemente, como se pode ver pelo
Gráfico 1.

Gráfico 1. FMI – Indicadores de preços das commodities - 2005 = 100


Fonte: Fundo Monetário Internacional2.

O impacto nos balanços de pagamentos tem sido significativo.


Mesmo no caso venezuelano, onde as contas mostravam-se positivas até
2013, a queda é expressiva (Tabela 2).

2 Disponível em: <http://www.imf.org/external/np/res/commod/images/chart_lg.jpg,>. Acesso


em: 14 mar. 2015.

175
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Tabela 2. Balanço de pagamentos – Conta corrente em milhares de dólares


País 2011 2012 2013

Argentina -3712.9 -1166.8 -4813.4

Brasil -52473.50 -54248.7 -81108.30

Bolívia 76,6 1970 1172.80

Chile -3068.3 -9080.90 -9484.50

Equador -220.60 -163.4 -1192.2

Uruguai -1373.90 -2705.90 -3006.20

Venezuela 24387 11016 8000

Fonte: Anuario Estadístico de América Latina y el Caribe, Cepal, 2014.

As taxas de crescimento acabam por expressar tais situações,


nos casos das economias maiores, caso de Argentina, Brasil e Venezuela
(Tabela 3).

Tabela 3. PIB – Percentual de crescimento em relação ao ano anterior


País 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
 

Argentina 8.4 8.0 3.1 0.1 9.1 8.6 0.9 2.9

Brasil 4.0 6.1 5.2 -0.3 7.5 2.7 1.0 2.5

Bolívia 4.8 4.6 6.1 3.4 4.1 5.2 5.2 6.8

Chile 4.6 4.6 3.7 1.0 5.8 5.8 5.4 4.1

Equador 4.4 2.2 6.4 0.6 3.5 7.9 5.2 4.6

Uruguai 4.1 6.5 7.2 2.4 8.4 7.3 3.7 4.4

Venezuela 9.9 8.8 5.3 -3.2 -1.5 4.2 5.6 1.3

Fonte: Anuario Estadístico de América Latina y el Caribe, Cepal, 2014

176
CAPÍTULO 4 | Venezuela, turbulências de uma economia petroleira

O CASO VENEZUELANO

Detem-se na crise da Venezuela. Ela pode comprometer o processo


político iniciado em 1998. As projeções de crescimento do PIB para 2014 e
2015 são respectivamente –3.0 e –1.0, segundo o FMI3.
Ao longo dos últimos anos, a dependência do petróleo se acentuou
na economia local, conforme se verifica na Tabela 4, que exibe o total de
bens petroleiros como porcentual da pauta de exportações:

Tabela 4. Venezuela – Porcentual do valor dos bens petroleiros na pauta


de exportações
2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013

94.6 - 95.6 97.1 95.7 97.6 - -

Fonte: Anuario Estadístico de América Latina y el Caribe, Cepal, 2014.

O petróleo domina quase sozinho toda a pauta e deixa o país


submetido às oscilações do preço internacional do produto. A queda da
cotação do barril, a partir do início de 2012, acentuou as incertezas locais.
O Gráfico abaixo é baseado em uma cesta que envolve a produção
de 12 países, representando uma média de diversos tipos de óleo 4. A
redução dos preços em 2008 foi seguida de expressiva alta nos anos
seguintes, alcançando o pico de US$ 107,48, em 2011. Quatro anos depois,
o barril era comercializado por menos da metade desse valor.

3 IMF, World Economic Outlook, 2014. Disponível em: <http://www.imf.org/external/pubs/ft/


weo/2014/02/pdf/text.pdf>. p. 58.
4 Cotação médias das produções da Argélia, Angola, Equador, Irã, Iraque, Kwait, Líbia, Nigéria,
Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes e Venezuela.

177
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Gráfico 2. OPEP - Petróleo: preço médio anual


Fonte: OPEP5.

Qual a decorrência da combinação da queda das cotações e da


manutenção da economia de monocultura? Repete-se um detalhe da
Tabela 3 sobre o crescimento do PIB venezuelano.

Tabela 5. Crescimento da economia. Porcentagem sobre anos anterior


PIB 2006 2007 2008 2009 2020 2011 2012 2013

Venezuela 9.9 8.8 5.3 -3.2 -1.5 4.2 5.6 1.3

Fonte: Anuario Estadístico de América Latina y el Caribe, Cepal, 2014

Nos anos de 2014 e 2015, a economia se contraiu em termos reais.


Se se compararem os indicadores do gráfico 2 e da tabela 5,
observa-se que a sincronia é significativa. As taxas oscilam com os preços
do óleo.
A busca pela diversificação econômica e a redução da dependência
petroleira foram tentadas ao longo do último século. As iniciativas falharam,
pois há obstáculos objetivos a tais mudanças na economia local.
Vale a pena fazer uma breve recapitulação dessa trajetória,
envolvendo as opções políticas tomadas.

5 Disponível em: <http://www.opec.org/opec_web/en/data_graphs/40.htm>. Acesso em: 14


mar. 2014.

178
CAPÍTULO 4 | Venezuela, turbulências de uma economia petroleira

NÓ ESTRUTURAL

O grande nó estrutural da economia do país, há décadas, está na


forma de lidar com sua fonte maior de riqueza. Em uma economia periférica,
cercada por limitações políticas, econômicas, históricas, tecnológicas e
infraestruturais, o combustível não teve como propósito principal possibilitar
o desenvolvimento interno, mas de se constituir como parte das dinâmicas
econômicas dos países centrais.
A abundância natural conforma um regime extrativista e primário-
exportador, inibindo a diversificação produtiva. Em fases de baixas nos
preços, como se sucedeu na maior parte dos anos 1980 e 1990, a Venezuela
sucumbe em prolongadas crises.
A partir dos anos 2000, o tema ficou parcialmente encoberto pela
alta contínua das cotações internacionais. Inundada por petrodólares,
a economia venezuelana viveu uma bonança semelhante à já registrada
nos anos 1970. Isso tendeu a fazer com que a perspectiva de mudanças
do modelo, em busca da diversificação produtiva, fosse desestimulada.
Uma alteração nesse panorama só aconteceria se o Estado, através de
uma decisão política, tivesse força e decidisse intervir nas distorções
provocadas pelo mercado.

EXCEÇÃO CONTINENTAL

Entre as décadas de 1960 e 1970, diversos analistas políticos


afirmaram que a Venezuela se constituía em notável exceção democrática
em uma região marcada por ditaduras militares, instabilidades políticas e
crises crônicas nos balanços de pagamentos. O país atravessou aqueles
anos mantendo intactos o funcionamento dos três poderes, a realização
de eleições periódicas e um processo ascendente de prosperidade.
A expressão cotidiana de tais características estava no aumento da
expectativa de vida média da população, na expansão dos serviços públicos
e na consolidação do que poderia ser chamada de uma social democracia
moderna na periferia do mundo capitalista.

179
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Nas duas situações, o conceito de excepcionalidade venezuelana


serviu mais para encobrir do que para facilitar a compreensão da complexa
realidade do país. Acima de tudo, ela busca descontextualizar as dinâmicas
políticas, sociais, culturais e históricas locais e isolá-las de sua inserção
internacional. A exceção basta a si mesma. Ela não comporta relações de
nenhuma ordem, a não ser a de negação.
As supostas excepcionalidades são balizadas por pelo menos duas
grandes condicionantes. A primeira é a divisão internacional do trabalho
e o lugar ocupado pela economia venezuelana no contexto global, como
fornecedor de petróleo aos países centrais, em especial aos Estados
Unidos. A segunda, de ordem interna, é definida por uma economia de
enclave, que condena a Venezuela a padecer daquilo que Celso Furtado já
denominou de “subdesenvolvimento com abundância de divisas”6. As duas
matrizes desdobram-se em variadas características das relações entre as
classes sociais e nas disputas políticas nacionais.
A Venezuela vive do petróleo desde os anos 1920, quando teve
início a exploração comercial das imensas reservas situadas ao redor do
lago Maracaíbo, na região noroeste. Isso pareceu dar ao país a condição,
classificada pelo historiador Eric Hobsbawm, de viver como se tirasse um
bilhete de loteria premiado todos os dias7.
O que seria o passaporte seguro para uma rota de desenvolvimento
faz também a Venezuela apresentar “todas as características estruturais
de uma economia subdesenvolvida”8, nas palavras de Celso Furtado.

UMA COMPARAÇÃO

Embora os números sejam aproximados, a cadeia produtiva do


petróleo emprega direta ou indiretamente cerca de 100 mil pessoas
na Venezuela, diante de uma população de 30 milhões de habitantes.

6 Furtado, Celso, Ensaios sobre a Venezuela, subdesenvolvimento com abundância de divisas,


Editora Contraponto, RJ, 2008.
7 Hobsbawm, Eric, A era dos extremos, Companhia das Letras, São Paulo, 1996, p. 459.
8 Furtado Celso, op. cit., p. 123.

180
CAPÍTULO 4 | Venezuela, turbulências de uma economia petroleira

Diferentemente, por exemplo, da cultura cafeeira no Brasil, entre o final do


século XIX e as primeiras décadas do século seguinte, o petróleo tem um
efeito multiplicador relativamente pequeno na sociedade.
O café teve a característica de organizar todo um subsistema
econômico de negócios ligados à exportação, como obras de infraestrutura,
casas de financiamento, incentivos à comercialização, armazenamento,
embalagem, expedição e navegação. A crescente complexidade dos
negócios do setor criou uma teia de vínculos entre o setor produtivo rural,
os agentes de comércio nas cidades e o sistema portuário. Foi através do
excedente gerado pela produção do grão que se criaram condições para
o advento dos dois primeiros ciclos industrializantes no Brasil, iniciados
respectivamente em 1890 e em 1930.
No caso do petróleo, a difusão de riquezas pela economia acontece
em escala muito menor. Desde os primeiros tempos de exploração na
Venezuela, o ingresso de recursos é feito sob a forma de royalties lançados
diretamente nos cofres do Estado. A ação deste passaria a ser cada vez
mais decisiva como indutor e investidor na atividade econômica. Mesmo
quando as atividades de refino começaram a ser realizadas internamente,
a economia petroleira, como na maior parte dos países produtores, ficava
ilhada em uma economia com escassas opções de investimento e com
mercado interno diminuto e inelástico. A renda da exportação não se
desdobrava assim em um desenvolvimento significativo.

O CÂMBIO SOBREVALORIZADO

Uma disfunção econômica grave logo se manifestou: a


sobrevalorização da moeda nacional. O primeiro economista a perceber de
maneira mais profunda tal distorção foi Celso Furtado, em 1957, antes de
ela ser conhecida como doença holandesa.
Furtado detectou que o modelo, ao mesmo tempo em que poderia
possibilitar um grande salto no desenvolvimento, exibia grande fragilidade.
Caso não fossem alterados seus pressupostos básicos, ele não pararia em
pé.

181
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Tal avaliação é clara em suas palavras:

É interessante observar que o desenvolvimento venezue-


lano, ainda que se apresente em termos muito diferentes
do usual das economias latino americanas, criou proble-
mas que exigem soluções correntes nessas economias.
Com efeito, na quase totalidade das economias latino-a-
mericanas, os problemas mais fundamentais são escas-
sez relativa de capital e reduzida capacidade para impor-
tar. (...) Na Venezuela a situação é praticamente oposta:
o sistema tende a afogar-se em excesso de capacidade
para importar e de recursos financeiros. Mas esse mesmo
processo de afogamento criou o desequilíbrio fundamen-
tal entre o nível médio da produtividade e o dos salários
monetários – em relação aos países que concorrem no
mercado venezuelano. Este desequilíbrio está na raiz do
que chamamos as ‘peculiaridades’ do desenvolvimento
da economia deste país”9 (FURTADO, 2008, p. 56).

Quase três décadas depois, Furtado voltaria ao tema, em A fantasia


organizada: Todos os segmentos sociais se beneficiavam de alguma forma
de subsídio, o que tendia a criar um consenso legitimador da irracionalidade
econômica 10.
Esta é uma das contradições estruturais não apenas da economia,
mas da sociedade venezuelana: as distorções do modelo tiveram sempre
uma ampla legitimidade em quase todas as classes sociais. Apesar disso,
a dinâmica extrativista nunca foi totalmente controlada ou planejada pelo
Estado, mas seguiu os ditames da demanda externa.
O fato de o comércio petroleiro responder por mais de 95% do valor
total da pauta de exportações deixa o país permanentemente à mercê das
oscilações do mercado internacional.

DOENÇA HOLANDESA

A supremacia quase absoluta do petróleo embute uma contradição


grande para outras atividades produtivas. Um dos fatores de tal inibição

9 Furtado, Celso, op. cit., Contraponto, RJ, 2008, p. 56.


10 Furtado, Celso, A fantasia organizada, Editora Paz & Terra, 1985, p. 195.

182
CAPÍTULO 4 | Venezuela, turbulências de uma economia petroleira

econômica não é fenômeno exclusivo local. Já foi classificado pelos estudos


econômicos pelo nome de doença holandesa.
O processo foi assim batizado por conta da descoberta de grandes
reservas de gás natural na Holanda, nos anos 1960. Apesar de a riqueza
natural ter possibilitado, como consequência inicial, uma grande entrada
de capitais, com correspondente aumento da renda média da população,
o impacto de tal situação não se deu por igual em toda a economia. Houve
uma pressão pela valorização da moeda nacional, o florim, em relação ao
dólar. Isso afetou as exportações de outras mercadorias de maior valor
agregado, isto é, de produtos industrializados, que se tornaram mais caros
em relação a outras moedas. A pressão sobre o câmbio também tornou as
importações mais baratas e tirou competitividade da indústria holandesa.
Apesar de os setores primários serem os responsáveis por produtos
de menor valor agregado, eles acabam por impor sua dinâmica sobre o
câmbio, pelo peso que representam na pauta de exportações de países
não industrializados. O caso do petróleo tem especificidades. Como lembra
o economista brasileiro Luiz Carlos Bresser Pereira, “Esse setor, por mais
amplo que seja no país, emprega pouca mão de obra, e como inviabiliza
o restante da economia de bens comercializáveis, acaba tendo efeitos
desastrosos sobre a economia do país”11.
A Venezuela representa um caso típico de doença holandesa. A
entrada de dólares na economia, fruto das exportações de petróleo, tende
a valorizar o câmbio e a desequilibrar outras iniciativas econômicas. As
tentativas de se alterar esse quadro, em outros tempos, acabaram em
fracasso.

AÇÃO DO ESTADO

A economista brasileira Denise Lobato Gentil, da Universidade


Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vê assim o problema das dificuldades da
industrialização nas condições venezuelanas:

11 Para uma reflexão mais ampla sobre a doença holandesa, ver Bresser Pereira, Luiz Carlos,
Macroeconomia da estagnação, Crítica da ortodoxia convencional no Brasil pós 1994, Editora
34, São Paulo, 2007, p. 120 a 131.

183
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Para superar o cenário de economia primarizada o Estado teria


de entrar produzindo em setores estratégicos e estimulando o capital
privado nacional a produzir de forma complementar. Tal escolha implica
políticas de subsídios, incentivos fiscais, oferta de crédito público a taxas
subsidiadas, estímulos ao avanço tecnológico e, do lado das estatais,
absorção de prejuízos por certo tempo. É necessário usar várias estratégias
para construir cadeias produtivas locais e superar barreiras inibidoras de
um processo de industrialização, como ausência de tecnologia disponível,
carência de capital acumulado em montante suficiente para os grandes
investimentos, tamanho reduzido do mercado e a ausência de força
de trabalho local qualificada. Além disso, a disponibilidade de divisas,
oriundas do petróleo, é um fator favorável. Ele viabiliza as importações de
bens de capital, insumos e matérias-primas necessários ao processo de
industrialização, reduzindo as fragilidades externas que normalmente são
entraves para as economias dos países periféricos12
O historiador norte-americano John V. Lombardi assinala que um
país dependente, como a Venezuela, fica com sua ação governamental
extremamente limitada quando tenta mudar os rumos de seu modelo.
Em uma dinâmica quase desesperada, o governo apóia o ciclo de
exportação (dependente do petróleo), a fim de gerar entradas suficientes
para fazer funcionar sua burocracia e, com o excedente, tenta melhorar a
sociedade e diversificar sua pauta de exportações. A economia de extração
(petroleira) o ata quase que por completo aos preços do mercado de
exportação, e estes flutuam em ciclos de curto prazo. Conseqüentemente,
o governo tem pouco tempo para atuar antes que os preços caiam e tenha
início um novo ciclo. Muitas vezes, solicita empréstimos para prolongar ou
acelerar o desenvolvimento e, ao fazê-lo, se torna ainda mais dependente
da economia de extração para gerar fundos que lhe permitam pagar a
dívida do País13.

12 Entrevista com Denise Lobato Gentil em 9 de julho de 2008.


13 Lombardi, John V., Prólogo, in La política venezolana en la época de Chávez, Nueva Sociedad,
Caracas, 2003, p.12-13.

184
CAPÍTULO 4 | Venezuela, turbulências de uma economia petroleira

A ÚLTIMA DITADURA

Como dito no início, a Venezuela dos anos 1960-80 escapou do ciclo


de ditaduras da América Latina. O último regime de força explícita vivido
pelo país foi a ditadura do general Marcos Pérez Jiménez (1948-1958).
Aconteceu ali uma das investidas mais ousadas na tentativa de
diversificação da matriz produtiva. Buscando materializar um projeto
desenvolvimentista baseado no Estado, seu governo promoveu, entre
outras iniciativas, a instalação de um complexo siderúrgico em Ciudad
Guayana, no Estado de Bolívar. A Sidor (Siderúrgica do Orinoco) funcionou
fortemente subsidiada, como forma de compensar a defasagem cambial,
até ser privatizada em 1997, durante o segundo governo de Rafael Caldera.
Em 2008, Chávez anunciou sua reestatização. A opulência petroleira
dos anos 1970 tornou as importações de produtos manufaturados muito
baratas e sufocou a expansão da Sidor e de outras indústrias.
Essa disfunção do próprio mercado se manifesta estruturalmente
na economia venezuelana com mais agudeza nos períodos de bonança
petroleira.
Com o fim da ditadura, foi firmado um acordo, denominado Pacto
de Punto Fijo, entre os partidos Ação Democrática (social democrata),
Copei (Social cristã) e União Republicana Democrática. De fora ficaram
os setores populares e a esquerda; esta era representada pelo Partido
Comunista da Venezuela (PCV), que tinha expressiva base social.
Em tempos de Guerra Fria, o Pacto estreitou ligações com os
Estados Unidos e colocou a Venezuela como uma alternativa política a
Cuba, no continente. Os poderes Judiciário, Legislativo e Executivo, em
todas as esferas de governo, ficaram seguros nas mãos das elites locais.
No início dos anos 1960, o país enfrentou uma séria crise econômica,
fruto da baixa relativa dos preços do petróleo e da inviabilização dos
investimentos industriais. O resultado foi uma aguda crise fiscal. Apesar
disso, o modelo garantiu o funcionamento de uma democracia burguesa
estável, sem necessidade das classes dominantes lançarem mão do recurso
de uma ditadura militar.

185
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Nada disso tiraria de cena as insuficiências estruturais do modelo. A


propensão a importar, a sobrevalorização da moeda nacional e a aparente
inesgotabilidade da riqueza do subsolo inibiram a diversificação do
parque produtivo. Aconteceu o que o economista chileno Jorge Ahumada
já apontava em 1957: “Houve uma dificuldade da mudança da estrutura
econômica venezuelana pela via da substituição de importações”14.
As iniciativas industriais, em sua maioria, se inviabilizaram. É
possível afirmar que a Venezuela saltou essa etapa histórica vivenciada
pelos maiores países da região.
Ao não viabilizar a etapa de substituição de importações, o país
viu florescer uma burguesia de médio porte fortemente vinculada ao
Estado. Ao contrário de Brasil, Argentina, México e Chile, não se formou ali
um empresariado liberal até os anos 1990, quando a desregulamentação
financeira levou os venezuelanos endinheirados a apostarem suas fichas
no modelo que se tornaria hegemônico após o Consenso de Washington.
O circuito do capital especulativo internacional passou a ser um ponto
de convergência das diversas frações das classes dominantes locais. O
neoliberalismo só se firmaria ali após a crise dos preços do petróleo nos
anos 1980.

CARGA TRIBUTÁRIA BAIXA

Os baixos ingressos fiscais – historicamente em torno de 10%


do PIB – foram compensados, ao longo de várias décadas, pela renda
petroleira. No período de 1974-1978, durante o primeiro governo de Carlos
Andrés Pérez, quando os preços internacionais tiveram forte alta, criou-se
a situação descrita pelo economista venezuelano Pedro A. Palma:

A maior disponibilidade de recursos e o convencimento


de que essa abundância se manteria ou se expandiria em

14 Furtado, Celso, Ensaios sobre a Venezuela, subdesenvolvimento com abundância de divisas,


Editora Contraponto, RJ, 2008, pág. 15.

186
CAPÍTULO 4 | Venezuela, turbulências de uma economia petroleira

um período prolongado levou as autoridades econômicas


do primeiro governo do presidente Carlos Andrés Pérez
(...) a conceber e implantar um ambicioso plano econômi-
co. Os objetivos principais desse plano eram o desenvol-
vimento acelerado das indústrias básicas (alumínio, aço,
eletrificação etc.) e o melhoramento e a ampliação dos
serviços públicos15.

Os chamados anos da Venezuela saudita aconteceram entre


1974 e 1982. A partir do ano seguinte, os preços conheceriam uma queda
acentuada, que se prolongaria até o final da década.

Tabela 6. Preços do barril do petróleo cru - Valores nominais em dólares


1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980

1,21 1,69 1,88 3,25 10,17 10,87 11,62 12,38 12,70 17,63 28,53

1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990

32,48 33,50 28,03 27,60 22,04 11,36 15,12 12,16 16,29 20,48

Fonte: AIE 16.

O auge da bonança petroleira durou dez anos. Começou em 1973,


quando os membros da Organização dos Países Produtores de Petróleo
(OPEP) pressionaram os preços, que praticamente quadruplicaram ao longo
desse ano e novamente triplicaram até o final da década, após a Revolução
Iraniana, em 1979. No caso venezuelano, em especial, havia a sensação de
que ninguém precisava pagar impostos para fazer o país funcionar. O fluxo
de petrodólares foi até mesmo maior do que a capacidade de a economia
absorver capital.
Esse período coincidiu com o primeiro mandato presidencial de
Carlos Andrés Pérez (1974-1979), lembrado pela população como “os bons
tempos”. Houve um redimensionamento do Estado, que expandiu seu papel

15 Palma, Pedro A., “La Economía Venezolana en el Período (1914-1988): ¿Ultimos Años de una
Economía Rentista?” In: Venezuela contemporanea (1974-1989), Fundacion Eugenio Mendoza,
Caracas, 1989.
16 Apud. Adelman, Morris Albert, The genie out of the bottle – World oil since 1970, MIT Press,
Cambridge, Massachussetts, 1996, p. 149.

187
As Revoluções na América Latina Contemporânea

de agente produtivo e permitiu que o país aumentasse sua presença política


no cenário internacional, através da participação decidida no movimento
dos países não alinhados e no chamado terceiro-mundismo.
Mesmo em tempos de bonança petroleira, as exportações
mostraram-se insuficientes para garantir o financiamento do Estado.
A disparada da dívida externa é uma das evidências disso. Os débitos
aumentaram em mais de vinte vezes entre 1973 e 1983. Esse fator mostra
que a poupança externa foi também fundamental no financiamento do
Estado.

Tabela 7. Dívida externa (Em bilhões de dólares – valores nominais)


1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983

1,2 1,1 1,5 4,9 7,2 11,0 15,0 16,7 18,9 19,8 27,5

Fonte: AIE 17. Banco Central de Venezuela e Ministério da Fazenda 18.

O aumento da taxa de juros nos EUA, em 1979, e a queda dos preços


do óleo, a partir de 1983, colheram a economia venezuelana em época de
forte vulnerabilidade. Somando-se a tais fatores, a quebra do México e do
Brasil, no bojo da longa crise da dívida externa que atingiu vários países
periféricos, completaram o mosaico de solavancos que deixou a Venezuela
não apenas com ingressos menores, pagamento do serviço da dívida mais
difícil, mas também fora da rota internacional de crédito.

ANOS DE QUEDA E DE FÚRIA

Um dia pode ser visto como síntese do fim da bonança, em uma


economia de monocultura: 28 de fevereiro de 1983.

17 Apud. Adelman, Morris Albert, The genie out of the bottle – World oil since 1970, MIT Press,
Cambridge, Massachussetts, 1996, p. 149.
18 Disponível em: <http://ance.msinfo.info/bases/biblo/texto/libros/PP.1989.c.1.pdf>. Acesso
em: 13 mar. 2015.

188
CAPÍTULO 4 | Venezuela, turbulências de uma economia petroleira

Nessa data, o Presidente da República, o copeiano Luís Herrera


Campíns (1979-1984), foi obrigado a desvalorizar abruptamente a moeda
nacional. Rapidamente, a cotação do dólar saltou de 4,70 para 7 bolívares.
Estima-se que US$ 8 bilhões tenham saído da Venezuela ao longo daquele
ano, em valores da época. O desemprego avançou aos saltos, dando início
a uma irreversível crise material e de valores.
Nos anos seguintes, até o final da década, a depressão econômica
se agravou. A Venezuela viu sua arquitetura de rentismo petroleiro desabar
de forma espetacular.
O marco da ruptura se deu em outro dia fatídico, exatos seis anos
depois: 27 de fevereiro de 1989. Nessa data, Caracas e as principais cidades
venezuelanas foram palco de uma imensa rebelião social. O processo ficou
conhecido como caracazo e encerrou um ciclo histórico. Quebrou-se
ali um pacto político, alicerçado no preço do petróleo, que possibilitou a
convivência entre dois partidos de centro-direita e a exclusão dos setores
populares da disputa política sem que a alternância no poder e os aspectos
formais da democracia liberal fossem colocados em questão.
A queda do PIB alcançou 8,1%. A excepcionalidade venezuelana,
com seu rastro de turbulências, caia ali sobre a realidade latinoamericana,
da qual as elites locais tentaram marcar distância. Diante de uma população
atônita e desesperançada, o poder e os serviços públicos ficavam inertes.
A sucessão de turbulências vivida até a eleição de Chávez, em 1998,
resultou em uma quebra dos padrões de convivência internos, construídos
ao longo de várias décadas.
Recapitula-se como se deu o desastre.

A VOLTA DE ANDRÉS PÉREZ

Em 4 de dezembro de 1988, Carlos Andrés Pérez fora eleito


presidente da República pela segunda vez. Mais do que ninguém, o líder
do partido Ação Democrática personalizava a prosperidade petroleira

189
As Revoluções na América Latina Contemporânea

vivida na década anterior e sua situação de crescimento econômico, altos


níveis de emprego e melhoria constante no padrão de vida da população.
Sua campanha e sua vitória se deram sob o signo da promessa de dias
melhores19. No entanto, a situação, do ponto de vista das contas públicas,
era preocupante. Como fruto da queda dos preços internacionais do
petróleo, as reservas do Banco Central, que em 1985 alcançavam US$
13,75 bilhões, despencaram para US$ 6,67 bilhões no final da gestão de
seu antecessor, Jaime Lusinschi. A inflação alcançava 40,3% ao ano, o
desemprego alcançava dois dígitos e o salário real havia despencado. Uma
aguda fuga de capitais completava o quadro20. Em 16 de fevereiro de 1989,
Pérez se dirigiu ao país para anunciar que o governo firmara um memorando
com o Fundo Monetário Internacional21. O objetivo era a liberação de um
empréstimo de US$ 4,5 bilhões. A contrapartida, concretizada no dia 25, um
sábado, era salgada: o pacote incluía a desvalorização da moeda nacional,
a redução do gasto público e do crédito, liberação de preços, congelamento
de salários e aumento dos preços de gêneros de primeira necessidade. A
gasolina sofreria um reajuste imediato de 100%. Isso resultaria, segundo
anunciado, em uma majoração de 30% nos bilhetes de transporte coletivo,
chegando, em alguns casos, a 100%. Nada disso fora ventilado durante a
campanha.

A IRA POPULAR

Antes das seis da manhã da segunda-feira, dia 27, começaram os


primeiros protestos. Ao longo daquele dia e dos subsequentes, a rebelião
tomou as ruas de Caracas e de outras cidades. Saques, barricadas e

19 Sonntag, Heinz e Maingón, Thaís, Venezuela: 4F-1992, Editorial Nueva Sociedad, Caracas,
1992, p. 63.
20 Fonte: Banco Central da Venezuela.
21 Ver López Maya, Margarita. Venezuela, la rebelión popular del 27 de febrero de 1989, resistencia
a la modernidad? In: Revista Venezolana de Economia y Ciencias Sociales, n. 5, abril: set. 1999,
p. 177-199.

190
CAPÍTULO 4 | Venezuela, turbulências de uma economia petroleira

enfrentamentos com as forças de segurança compuseram uma semana


violenta e sangrenta.
Familiares e grupos de direitos humanos conseguiram apurar um
total de 396 vítimas fatais. Os feridos contavam-se aos milhares e os
prejuízos materiais são quase impossíveis de serem estimados. Os centros
médicos contabilizaram um total entre 1 mil e 1,5 mil mortos22.
A crise econômica se aprofundou, com dramáticas consequências
sociais. A Venezuela encerrou aquele ano com uma queda de 8,1% no PIB
e uma taxa de inflação de 81%23. A parcela da população que vivia abaixo
da linha de pobreza aumentou de 15%, no final de 1988, para 45% dois anos
depois.
Quebrou-se, em fevereiro de 1989, a autoimagem que os
venezuelanos tinham de si mesmos. Nessa imagem, o país seria um modelo
de democracia e tolerância no continente, com suas eleições regulares,
suas instituições, seus direitos civis, seus partidos com sólidas bases sociais
etc. Rompeu-se um padrão de convivência construído ao longo de todo o
século. Os canais de mediação de demandas entre a população e o Estado
– partidos políticos e sindicatos – que durante décadas resolveram conflitos
variados, mostraram-se inúteis quando a crise tornou-se irreversível. A
engrenagem política que sobrevive ao Caracazo perde grande parte de sua
legitimidade.

OS ANOS CHÁVEZ

Quando vence as eleições, em 6 de dezembro de 1998, após mais


de uma década de crise aberta, Chávez se vê diante de uma sociedade
esgarçada e sem referenciais institucionais com credibilidade. O país se

22 Hellinger, Daniel, La política venezolana en la época de Chávez, Nueva Sociedad, Caracas,


2003, p. 48.
23 Dados retirados de Fundació Cidob. Disponível em: <www.cidob.org/bios/castellano/lide-
res/p-027.htm >.

191
As Revoluções na América Latina Contemporânea

arrastava em um caos econômico de proporções gigantescas, que gerou


em sua esteira crise social, política e institucional. A chegada do ex-militar
ao governo sacramentou a falência do sistema partidário, cujas raízes
haviam sido fincadas em 1958, após a queda do general Marcos Pérez
Jiménez.
Logo nos primeiros anos de seu governo, grande parte dos
meios de comunicação internacionais buscou classificá-lo como um
anacronismo folclórico em meio a um continente que empreendera
reformas modernizantes nas últimas décadas do século XX. Sua
retórica anti-imperialista, sua ênfase nacionalista e a ideia de alterar
as bases da institucionalidade vigente, através da convocação de uma
assembleia constituinte, seriam elementos de instabilidade preocupante.
Em uma palavra, Chávez era mostrado como mais demonstração da
excepcionalidade de seu país.
Sua trajetória não adveio diretamente dos acúmulos dos movimentos
sociais ou das forças políticas tradicionais. Chávez surgiu literalmente
como um outsider e como um subproduto do descrédito das instituições
políticas. Quando tenta tomar o poder através de um golpe militar, em 1992,
a imagem que ficara diante da população não era negativa. Era a de alguém
que desejava – de certa forma – moralizar o país. Poder-se-ia classificá-lo
– no final dos anos 1990 – como um salvador da pátria, figura recorrente
em momentos de crise aguda de dominação, em especial no continente.
Um salvador egresso dos escombros da excepcionalidade.

REARTICULANDO A OPEP

Logo após a posse, o objetivo do novo governo na esfera


econômica ainda não era claramente definido. Começavam a ser feitas
várias alterações na ordem institucional, com a convocação de uma
assembleia constituinte, ao mesmo tempo em que se buscava mostrar ao
mundo que isso respingaria muito pouco na esfera dos negócios. Chávez

192
CAPÍTULO 4 | Venezuela, turbulências de uma economia petroleira

sabia necessitar urgentemente de dólares para cumprir seus objetivos de


diversificar o aparato produtivo, impulsionar algum tipo de crescimento
econômico, sair da recessão, gerar empregos e fazer sua administração
decolar.
O primeiro lance audacioso do novo governo no plano econômico
foi promover, em Caracas, a II Cúpula de Chefes de Estado e de Governo
dos Membros da OPEP, entre 27 e 28 de setembro de 1999. Estiveram
presentes os presidentes da Argélia, Indonésia, Irã, Nigéria, Qatar, Emirados
Árabes, Arábia Saudita, Iraque, Líbia e Kwait.
A primeira e única reunião desse tipo havia sido realizada na cidade
de Argel, em 1975. O objetivo seria rearticular a Organização e recompor
os preços internacionais através da volta da política de cotas, que regulava
a produção diante da demanda. O produto enfrentava a maior baixa de
preços no mercado internacional desde 197224. Em março de 1999, o barril
estava cotado a US$ 8,8425.
No encontro, a Venezuela propôs o estabelecimento de uma banda
de preços, entre US$ 22 e US$ 28 o barril, variável de acordo com o volume
de produção obtido. A cota venezuelana situa-se ao redor dos 3 milhões de
barris diários.
A atuação da Venezuela, responsável na época por 4% da produção
mundial e por quase 10% da oferta da OPEP, foi decisiva. A Organização,
que perdera muito de sua importância política, praticamente renascia pelas
mãos de Chávez.
No início dos anos 2000, a ação foi reforçada por outro importante
fator no cenário internacional, como já mencionado: a entrada da China
e da Índia como grandes consumidores. Sem a descoberta de jazidas
significativas, a oferta mostrava-se com pouca elasticidade. A partir de
2003, com a quebra da produção iraquiana – quase equivalente à da
Venezuela –, motivada pela invasão estadunidense, os preços iniciaram
uma segura e constante rota ascendente.

24 Idem, p. 117.
25 OPEP, Annual statistic bulletin, 1999, p. 112 e 119.

193
As Revoluções na América Latina Contemporânea

DISTRIBUINDO PETRÓLEO

Hugo Chávez valeu-se dos preços internacionais excepcionalmente


altos, entre 2004 e 2008, para ampliar programas sociais, fortalecer o
poder de intervenção do Estado, reestatizar empresas antes privatizadas e
dar impulso à sua agenda internacional. Na disputa para retomar o controle
estatal sobre a produção interna, sofreu o golpe de Estado de abril de
2002. Vencendo a queda de braço com setores da direita, descolou-se da
ortodoxia liberal. Se se abstrair seu discurso, sua ação interna se mostra
como caudatária de uma espécie de desenvolvimentismo petroleiro.
Houve na conduta do mandatário venezuelano semelhanças com
as experiências capitalistas de fortalecimento do poder público, existentes
em parte do mundo industrializado nos anos 1930.
Foi sobre esse pano de fundo histórico, de extrema dependência
das oscilações do mercado mundial e das características da economia
petroleira, que se formara o Estado venezuelano ao longo do século XX e
sobre o qual se desenha a luta de classes no país.
Apesar de várias mudanças institucionais que impulsionou,
especialmente no âmbito social, Chávez não logrou mudar a lógica
rentista, diversificando cadeias produtivas e buscando industrializar o
país. Não se trata de uma insuficiência do líder falecido em 2013, mas de
obstáculos estruturais e de dificuldades objetivas surgidas no front político
que direcionaram a agenda pública para a resolução de questões que
colocavam em pauta a própria sobrevivência do governo.

CONCLUSÃO

A Venezuela enfrenta problemas conjunturais na esfera política que


estão firmemente alicerçados na posição ocupada pelo país na economia
mundial. Com um mercado interno pequeno em termos relativos, com
altíssima volatilidade na taxa de câmbio, taxa de juros reais negativos,

194
CAPÍTULO 4 | Venezuela, turbulências de uma economia petroleira

carência de investimentos internacionais e queda dos preços internacionais


do petróleo – cerca de 50% entre janeiro de 2015 e janeiro de 2016 –, o país
encontra-se diante de uma crise estrutural de graves proporções.
Os sintomas internos mais evidentes são dificuldades na
importação, falta de produtos de consumo básico nos mercados, aumento
da informalidade no mercado de trabalho e queda das expectativas de
retomada do crescimento.
As expressões desse quadro no terreno político são também sérias.
Nicolás Maduro elegeu-se presidente em abril de 2013, um mês
após a morte de Chávez, com uma diferença de menos de 1% dos votos em
relação a seu oponente, Henrique Capriles. O petróleo estava cotado a US$
105 o barril, mas vislumbrava-se uma trajetória descendente de preços. O
primeiro ano de governo foi marcado pela abrupta queda no valor do barril,
em uma economia fortemente atingida pela crise internacional. Dois anos
depois, a cotação do óleo venezuelano aproxima-se dos US$ 20 o barril.
A maior expressão das dificuldades evidenciou-se no mercado
paralelo do dólar, já bastante volátil depois de 2008. A escalada do câmbio
rompeu todos os diques impostos pelo controle definido em 2003 e por
tentativas posteriores de conter a especulação. No início de 2016, a
diferença entre as taxas oficial e paralela era de quase 35 vezes!
A escalada escancarou a redução drástica da entrada de moeda
forte na economia, alvejada pelo recuo nos preços do petróleo. Tendo
assumido incontáveis compromissos no financiamento do Estado, a
PDVSA reduziu investimentos em sua atividade-fim e começou a perder
capacidade de investimento.
A forte oscilação no câmbio contagia a taxa de inflação, gerando
turbulências na economia interna, como a escassez de bens nos mercados,
por força da queda das importações.
Com uma inflação anual que beirava os 150%, em 2015, e uma taxa
de juros básica em torno de 19%, o país apresenta juros reais negativos, o
que desestimula investimentos. Ao mesmo tempo, a dívida pública seguiu
uma escalada acentuada nos anos pós-crise. Em 2008, atingia 29,9% do PIB.

195
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Essa proporção elevou-se nos seguintes termos: 2010, 33,8%; 2012, 43,3%; e
2014, 49,8%. O país segue precisando urgentemente de uma entrada segura e
constante de dólares.
O governo evita dar curso a uma política de ajuste ortodoxo, com
compressão da demanda, via desemprego e defasagem salarial, que erodiria
sua base de apoiadores.
Sem possuir uma liderança à altura de Chávez, Maduro busca se
equilibrar em setores de peso na vida local, como as Forças Armadas e a
maioria situacionista na Assembleia Nacional. Mas se o presidente tem
responsabilidades na crise, nem de longe ele é o fator principal.
Apesar de todos os avanços nas áreas sociais, a Venezuela segue, há
80 anos, sendo exportadora de praticamente um único produto. É um país
potencialmente rico, escassamente industrializado, com uma agricultura
atrasada e incapaz de abastecer o mercado interno. Repetindo mais uma
vez, mantém-se sujeito às oscilações dos preços de seu praticamente
único produto exportável.
Assim, a derrota nas eleições parlamentares de dezembro de 2015
não é um ponto fora da curva no cenário do país caribenho. Trata-se de
equação de dificílima solução.
Este capítulo começou buscando estabelecer pontos de contato
entre as crises de Brasil, Argentina e Venezuela. São panoramas diversos.
O Brasil enfrenta um dramático processo de desindustrialização, fruto de
uma deliberada política de valorização cambial, estabelecida há mais de
uma década, com o objetivo de conter a inflação. A Argentina enfrentou
fenômeno correlato nos anos 1990. Os três apresentam baixa participação
da indústria de transformação no PIB, pauta de exportações dominada por
produtos primários e propensão a importar produtos industrializados.
Essa é a raiz das inquietações econômicas nos três países. Como
nas primeiras décadas do século XX, eles voltam a desempenhar um
papel subordinado na divisão internacional do trabalho, apesar das ações
soberanas que seguem praticando na cena global.

196
CAPÍTULO 4 | Venezuela, turbulências de uma economia petroleira

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199
5
5
Capítulo
PELA PÁTRIA E PELA
LIBERDADE:
A NICARÁGUA E O
SANDINISMO NO SÉCULO

INTRODUÇÃO
XX
Raphael Nunes Nicoletti Sebrian

Os esforços para a interpretação de


movimentos revolucionários, de suas causas e de
suas consequências costumam estabelecer, para
o pesquisador, pelo menos uma dificuldade crucial:
a produção bibliográfica a respeito mescla textos
acadêmicos àqueles elaborados por militantes, os
quais, vitoriosos ou não, expressam costumeiramente
leituras muito particulares e limitadas dos processos
e dos acontecimentos. Tal produção, muitas vezes de
tom memorialístico e apologético, desenvolvida por
herdeiros ou sucessores, precisa ser criteriosamente
apropriada pelos historiadores a fim de que não
sejam repetidas leituras simplificadas.
As Revoluções na América Latina Contemporânea

E há, ainda, os problemas advindos dos textos produzidos


por adversários dos movimentos revolucionários, os quais, em alguns
contextos – a Nicarágua é um deles –, são responsáveis pela criação de
perfis negativos duradouros dos líderes e dos grupos; são leituras capazes
de garantir, nacional e internacionalmente, o apoio ou o repúdio às ações
empreendidas. Se esses textos de apoiadores ou de adversários fornecem
informações de suma importância para a compreensão de problemas,
questões, temáticas, eventos, processos, nunca se pode esquecer que,
como toda produção humana, são marcadamente ideológicos.
Essas advertências, expostas de forma tão simplificada, são
fundamentais em diversos contextos, mas se tornam especialmente
relevantes quando se trata da história latino-americana e, no caso que
interessa neste estudo, da história da Nicarágua. O pequeno país da
América Central, cuja história, desde o século XIX, esteve marcada por
conflitos internos e por relações tensas e incontornáveis com os Estados
Unidos da América, vivenciou, nas primeiras décadas do século XX, a
ascensão de um movimento revolucionário: o movimento sandinista.
Representado naquele momento pelo Exército Defensor da Soberania
Nacional da Nicarágua, elaborou uma cultura política própria e apresentou
demandas duradouras, reivindicações capazes de mobilizar forças que,
aproximadamente 40 anos após o desaparecimento de seu líder – o
camponês Augusto “César” Sandino –, efetivaram uma revolução de cunho
popular de extrema relevância continental e internacional, a Revolução
Sandinista. Essas histórias e diversas memórias foram registradas por
sujeitos históricos durante décadas e esses materiais são, muitas vezes,
tratados como narrativas inquestionáveis.
Diante desses desafios, o propósito neste capítulo é, principalmente,
apresentar uma caracterização do movimento sandinista dos anos 1920-
1930, organizado em torno do Exército Defensor da Soberania Nacional da
Nicarágua, para, em seguida, comentar a apropriação e a ressignificação
da imagem e das propostas de seu líder, Augusto “César” Sandino, antes e
durante a ascensão da Frente Sandinista da Libertação Nacional (FSLN) e
da concretização da Revolução de 1979. O intuito é, portanto, tratar – em
argumentação não restrita aos aspectos acontecimentais e/ou processuais

202
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

– do sandinismo na Nicarágua do século XX enquanto projeto e processo


revolucionário, mostrando como o movimento articulou, ao longo do
século, demandas nacionais e o combate ao imperialismo dos EUA.
Começa-se por breves considerações acerca da história nicaraguense no
século XIX e início do XX, para evidenciar em relação a quais questões e
dilemas se estruturou o movimento sandinista. Espera-se que esta síntese
historiográfica – o propósito e ao mesmo tempo o limite do texto – sirva
para explicitar parte da complexidade da história daquele país no século
passado.

CONSIDERAÇÕES A RESPEITO DA HISTÓRIA DA NICARÁGUA


INDEPENDENTE (SÉCULOS XIX E XX)

A história da Nicarágua independente se caracterizou, desde o século


XIX, por processos e acontecimentos cujas motivações se relacionam à sua
posição geográfica no continente e às características do território. Em um
país localizado entre os Oceanos Atlântico e Pacífico, a comunicação entre
o Rio San Juan e o Grande Lago de Nicarágua despertou nos espanhóis,
desde o período colonial, a ambição de estabelecer uma ligação entre os
dois oceanos. Essa ambição se manteve, depois da independência, nas
relações com a Inglaterra e principalmente com os EUA.
Com a configuração e a expansão mundial do capitalismo no século
XIX e o declínio do poderio colonial da Espanha na América, a necessidade
de contar com vias marítimas economicamente mais viáveis e rápidas para
o transporte de matérias-primas fez com que a Inglaterra passasse a se
interessar pela construção de um canal interoceânico através da Nicarágua.
Essa questão estava intrinsecamente ligada aos interesses britânicos no
mar do Caribe, pois esse era, naquele momento, um espaço de disputas
entre europeus e o crescente poder estadunidense.
Assim, a partir do momento em que começaram a se delinear as
independências dos territórios sob o domínio colonial espanhol, em 1821,
a disputa entre Inglaterra e Estados Unidos afetou o curso da política
interna dos novos países. Anexados fugazmente ao império de Iturbide no

203
As Revoluções na América Latina Contemporânea

México, esses Estados recém-criados da América central ístmica logo se


proclamaram como uma República Federal Centro-Americana, nos moldes
da constituição política dos Estados Unidos, iniciando-se, em seguida, uma
sequência de guerras civis que tornou a República Federal um experimento
efêmero (TARACENA ARRIOLA, 1993).
No momento de sua ruptura com a Federação Centro-Americana,
em 1838, a Nicarágua empreendeu iniciativas em busca de interessados
na construção do canal interoceânico, atraindo, ao invés de capital e
tecnologia, ambições geopolíticas ainda maiores. Se havia apoiadores
entre os nicaraguenses, essas iniciativas contaram, desde o início, também
com o repúdio de segmentos da população nicaraguense, evidenciando
a heterogeneidade de interesses envolvidos. O país sofreu, ao longo do
século XIX, com as disputas internas, especialmente entre as cidades de
Granada, próxima da costa atlântica, e de León, na costa do Pacífico, ambas
fundadas pelos espanhóis durante o período colonial. As duas cidades, com
pouca comunicação entre si, organizaram sua vida econômica e política de
forma autônoma e independente, criando-se assim uma divisão ao mesmo
tempo rural e política, de maneira que ambas as cidades apareciam, após
a independência, como substitutas de um Estado nacional praticamente
inexistente e os conflitos entre elas se avolumavam1.

1 Tijerino (2002, p. 163) afirma que se deve abordar o tema da formação do Estado-Nação na
Nicarágua procurando ir além da explicação tradicional dada pela historiografia, que atribui
o surgimento de uma consciência nacionalista nicaraguense apenas a uma resposta à cons-
tante ameaça externa, derivada do interesse de diversas potências, em distintas épocas, em
controlar a estratégica rota interoceânica oferecida por sua singular geografia. Para a autora,
a relação entre o nacional e o estrangeiro não pode ser reduzida a uma simples reação em
cadeia de dominação e resistência, em que os únicos atores sociais visíveis são agressores
ou vitimas, e destaca a complexidade das relações entre os atores locais e os agentes das
potências externas, seus modos de cooperação, submissão e resistência sob diversos contex-
tos sociais, assim como apresenta os resultados imprevistos ou paradoxais das intervenções
estrangeiras na construção ideia nacional na Nicarágua.
Seu estudo revela o caráter complexo e paradoxal do processo de construção da identidade
nacional nicaraguense, contradizendo as narrativas que apresentam dita identidade como um
produto maduro, acabado, compacto, de uma sequência de choques entre patriotas e agres-
sores externos. A advertência é importante, pois neste estudo não há condições de discutir
detalhadamente as relações entre atores (indivíduos e/ou grupos) internos e externos e seus
efeitos para a história da Nicarágua. É possível apenas identificar e reafirmar esses acordos,
trocas e momentos colaborativos, para que a abordagem não reforce os maniqueísmos de-
nunciados por Tijerino.

204
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

O restante do país não era mais do que uma praticamente


inexplorada extensão territorial2, pois as únicas faixas de terra maciçamente
cultivadas eram as da costa do Pacífico, onde existiam os assentamentos
coloniais e onde também havia se congregado a maioria da população
mestiça e pobre que vendia sua mão de obra nas fazendas de anil e de
cacau, produtos introduzidos durante a colonização e, então, a base da
economia nicaraguense, junto com a exploração do gado.
Apenas em fins do século XIX, a Nicarágua passou a se integrar
de maneira mais estável ao mercado mundial, por intermédio do comércio
do café, depois de manter uma vinculação extremamente débil e irregular
com produtos de origem colonial como anil, algodão, ouro, prata, madeira,
açúcar, tabaco, entre outros. Mas antes da estabilidade, as disputas entre
comerciantes de Granada e produtores agrícolas de León adquiriam cada
vez mais conotação política, com a vinculação a partidos políticos.
Em meados do século XIX, em enfrentamentos que envolveram
interesses e participação da Inglaterra e dos EUA, os setores políticos
de León e Granada, em face da fraqueza do Estado nacional, aliaram-se
a estrangeiros, entre eles mercenários como William Walker; somente o
descontrole dessas alianças, com a tentativa de Walker de assumir a
presidência do país chancelada pelos EUA, uniram as forças divergentes
dos liberais e dos conservadores em prol do enfrentamento do inimigo
comum. Seis meses depois de Walker ter-se proclamado presidente da
Nicarágua, os exércitos centro-americanos, com o apoio da Inglaterra,
conseguiram derrotar os mercenários, que se retiraram sob a proteção dos
Estados Unidos. Ressalte-se que, apesar das expressões de intenso repúdio
aos invasores e da resistência às pressões da política externa dos EUA, a
identificação da “potência do Norte” com o ideal de progresso se conservou
praticamente incólume entre os setores políticos nicaraguenses depois da
chamada “Guerra Nacional Antifilibusteira” (TIJERINO, 2002, p. 170).

2 De acordo com Neiderling (1898 apud BARAHONA PORTOCARRERO, 1984, p. 377), por volta
dos anos de 1890, a população nicaraguense era de aproximadamente 400 mil habitantes,
distribuída muito irregularmente pelo território da Nicarágua, que atualmente conta com uma
extensão territorial de 130 mil quilômetros quadrados. Tradicionalmente, a população se es-
tabeleceu na região da Costa Pacífica e nas altas terras centrais, permanecendo a área mais
baixa próxima ao Mar do Caribe escassamente povoada até os dias de hoje.

205
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Nesse sentido, mesmo com a união em prol da expulsão de


inimigos comuns, não era possível reconhecer naquela conjuntura uma
reação defensiva frente ao mundo anglo-saxão e, mais especificamente,
em relação aos EUA que pudesse se traduzir na construção de uma
autoimagem a partir de valores hispano-americanos. Pelo contrário,
segundo alguns periódicos nicaraguenses daquele momento, a experiência
da guerra exigia, de maneira urgente, que fossem erradicadas as formas de
vida moldadas tendo como referência o período colonial.
Contudo, apesar de admirarem os valores e as oportunidades
representados pelos Estados Unidos, os governantes nicaraguenses não
podiam esquecer a possibilidade de serem derrubados de seus cargos
a qualquer momento e o temor de serem subjugados pelos EUA. Esses
temores da elite nicaraguense se viam agravados pelos artigos publicados
em periódicos europeus e estadunidenses nos quais se prognosticava a
absorção dos territórios do México, América Central e Nova Granada
pelos Estados Unidos devido à natural “decadência” dos povos hispano-
americanos (TIJERINO, 2002, p. 172).
As facções em disputa na Nicarágua firmaram então um acordo de
paz e permaneceram em uma longa trégua depois do fim daquela guerra.
Os políticos de Granada governaram o país por um período de quase trinta
anos, período que coincidiu também com trégua das investidas de outros
países com relação à questão do canal, na medida em que os Estados
Unidos estavam envolvidos internamente na Guerra Civil e a Inglaterra
encontrava-se às voltas com as lutas coloniais na África.
Por volta de 1870, o sistema capitalista mundial se expandiu e tal
conjuntura envolveu mais do que nunca os países centro-americanos
na produção de matérias-primas e alimentos para os países centrais. A
América Central produziu e exportou primeiramente café e, mais tarde,
bananas. No primeiro caso, como a produção de café requeria uma nova
ordem no campo, com a concentração da terra e a necessidade de mão
de obra abundante, essa nova ordem proporcionava aos grupos liberais
a oportunidade de derrubar os governos conservadores através de
“revoluções” chefiadas por militares, além de expropriarem as terras da
Igreja Católica.

206
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

No que se refere à produção de bananas, essa se realizou por


meio da ocupação de enormes porções de terra pelas companhias norte-
americanas que, até o início do século XX, cultivavam, exportavam e
comercializavam a fruta como, por exemplo, a United Fruit Company. As
plantações bananeiras chegaram a ser verdadeiros estados, com leis,
cidades, armazéns, moeda e forças policiais próprias, e os países onde
essas companhias se estabeleceram pouco receberam por conta da
presença delas em seus territórios.
Ademais, quando, por volta de 1870, o presidente Grant, dos EUA,
organizou uma expedição científica encarregada de identificar o local mais
conveniente para a abertura do canal interoceânico, intensificou-se entre
os governantes nicaraguenses a percepção dos Estados Unidos não mais
como uma ameaça, mas como um possível aliado frente a seus vizinhos
do istmo. A certeza de que o projeto para a construção do canal era uma
possibilidade em curto prazo fortaleceu a confiança da elite no futuro do
país. Uma das primeiras ações do presidente Pedro Joaquín Chamorro
y Alfaro, que governou entre 1875 e 1879, foi garantir a soberania da
Nicarágua sobre a rota canaleira, rechaçando os reclames de seus vizinhos
como, por exemplo, da Costa Rica. Nessa época, sucessivos presidentes
da Nicarágua se esforçaram para aprofundar os impulsos modernizantes. A
empatia com relação aos EUA cresceu e a elite começou inclusive a enviar
seus filhos para estudar nas universidades norte-americanas. Entretanto,
a possibilidade da guerra civil reapareceu, assim como recrudesceram os
conflitos, e, mais uma vez, foi adiada a execução do projeto do canal.
Seguindo uma tendência que se repetiu em outros países centro-
americanos, formou-se, primeiramente na Guatemala, um governo de
cafeicultores liberais ligados ao Exército e o seu correspondente provocou,
na Nicarágua, em 1893, a derrocada dos conservadores granadinos e o
estabelecimento de um governo militar liberal, com feições ditatoriais,
presidido pelo General José Santos Zelaya, que governou a Nicarágua
por dezesseis anos (1893-1909), durante os quais implementou medidas
visando ao progresso e à consolidação das fronteiras como, por exemplo,
a reincorporação do território que havia estado sob posse dos ingleses –
algumas porções da costa atlântica da Nicarágua. Entre seus planos nunca

207
As Revoluções na América Latina Contemporânea

deixou de estar a construção do canal, pois o presidente compartilhava


da ideia de que o progresso somente poderia ser estabelecido por meio
da inclusão do país no sistema capitalista mundial em expansão. Para ele,
como para outros, o canal seria uma fonte de riqueza e de transformação.
Zelaya trabalhou pelo desenvolvimento da produção cafeeira, fortaleceu
o aparato de Estado ­– criando o primeiro exército profissional na história
do país – e promulgou uma série de leis com o intuito de limitar o poder da
Igreja na sociedade.
No âmbito internacional, o governo de Zelaya coincidiu com o
processo de agravamento da luta entre as potências imperialistas pelo
repartimento do mundo em zonas de dominação que, em determinados
casos, adquiriram forma colonial ou neocolonial e, em outros, assistiram
à substituição de uma potência por outra, em algumas regiões. Como
exemplo disto, na América Central e no Caribe, ocorreu a derrocada da
Inglaterra e a posterior instauração dos Estados Unidos como potência
hegemônica.
A Doutrina Monroe, além disso, enquanto fundamento das relações
entre EUA e América Latina, começou a sofrer, em fins do século XIX,
alterações impostas pela nova etapa da expansão dos Estados Unidos,
simbolizada pela guerra contra Espanha pelo domínio de Cuba e pela
tomada do território do Panamá por Theodore Roosevelt, que separou
a área da Colômbia de maneira a garantir a construção de um canal
interoceânico. A Doutrina Monroe adquiriu, pois, os contornos da política
do Big Stick, sob a qual os estadunidenses ocuparam militarmente Haiti,
Santo Domingo, Cuba, Honduras, México e Nicarágua.
Ao perceber que os Estados Unidos não estavam mais interessados
em construir um canal através da Nicarágua em virtude do Panamá, Zelaya
procurou negociar uma concessão com outras potências estrangeiras,
buscando contatos sobretudo com a Alemanha e o Japão. Essa iniciativa
foi um dos motivos pelos quais ele foi forçado a deixar a presidência em
1909, com a subsequente ocupação da Nicarágua pela Marinha de Guerra
dos Estados Unidos, os marines.
A crescente hostilidade de Zelaya em relação aos EUA o colocou
sob a mira da recém-inaugurada Dollar Diplomacy, que transformou o

208
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

Departamento de Estado em um dos financiadores das forças locais. Os


marines passaram a ser a polícia desses interesses, garantindo a estabilidade
dos negócios bananeiros, administrados por empresas com expressivo
poder econômico e político que transformaram os países centro-americanos
no que se chamou pejorativamente de Banana Republics. Com a queda de
Zelaya, iniciou-se uma nova era de ocupação militar da Nicarágua pelos
Estados Unidos, acompanhada de expressiva dominação de atividades
econômicas estratégicas por parte de companhias estadunidenses. Desde
essa ocasião, aliás, com curtos períodos de ausência, as forças de ocupação
dos EUA permaneceram no país, sustentando com suas armas os governos
que se sucederam, até 1928; tais governos continuaram submetendo os
interesses nacionais aos estrangeiros em troca de privilégios para certas
elites nicaraguenses.
O momento culminante desse processo foi 1914. Com o início
da Primeira Guerra Mundial, as rotas comerciais europeias se viram
interrompidas, o que reforçou a dependência nicaraguense com relação aos
Estados Unidos e repercutiu inclusive no estilo de vida e nos costumes de
determinados setores da elite, inspirados nos correspondentes em vigência
entre estadunidenses. A oligarquia granadina, por sua vez, rechaçou
as inovações, abandonando os valores cosmopolitas e modernizantes
que vinham sendo gestados desde o século XIX e resgatando inclusive
postulados católicos destinados a frear a “imoralidade”.3

3 Um estudo de Michel Gobat, de 1999, citado por Tijerino (2002, p. 182), demonstra como a in-
gerência estadunidense, em interação com a dinâmica local, provocou um giro antiburguês em
um setor da elite até aquele momento caracterizado por sua valorização do desenvolvimento
empresarial e por seus valores cosmopolitas. Em resposta à intromissão dos agentes da Dollar
Diplomacy e à irrupção de práticas culturais inspiradas nos EUA, esse grupo desenvolveu uma
visão endógena da nação e passou a exaltar a santidade da vida rural. Essa visão foi assumida
com beligerância por um grupo de jovens intelectuais granadinos, o chamado “Movimento de
Vanguarda”. A intenção desse setor da elite de estabelecer uma aliança política com Sandino,
calcada nesse imaginário nacionalista agrário e endógeno, sem dúvida representa um dos
aspectos mais inesperados da intervenção militar estrangeira naquele período histórico. O
imaginário nacionalista, agrário e anticapitalista, gestado ao longo dos anos e defendido por
esse grupo, apresentava algumas afinidades com o programa de luta sandinista. Tal conver-
gência desembocou em um notável paradoxo: a tentativa – frustrada – de estabelecimento
de uma aliança política entre um setor da elite que solicitou a intervenção estadunidense em
1912 e o dirigente popular guerrilheiro que a combateu entre 1926 e 1934.

209
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Foi nessa circunstância de instabilidade que o General Emiliano


Chamorro, então embaixador do governo de Adolfo Díaz em Washington,
firmou com o Secretário de Estado Bryan um tratado – o Tratado Bryan-
Chamorro – que permitiria ao governo dos Estados Unidos a construção
do canal interoceânico e estabelecia a garantia do exercício da soberania
sobre as áreas do território envolvidas na construção e com a opção de
erguer bases navais no Golfo de Fonseca e nas Ilhas de Maiz. Além disso, os
EUA obtiveram através desse tratado uma garantia de que ninguém mais
poderia construir o canal, acordo estratégico, pois concluído o canal do
Panamá nesse mesmo ano, os estadunidenses não estavam interessados
em um novo empreendimento que demandaria muitos milhões de dólares.
Apenas entre 1923 e 1925 a presidência de Bartolomé Martinez
diminuiu a dependência dos EUA em algumas áreas, além de buscar uma
aliança com os liberais para se opor a grupos da oligarquia conservadora
granadina nas eleições que seriam realizadas em 1925; os Estados Unidos
haviam anunciado que, depois desse pleito, retirariam do país as forças de
ocupação, pois uma vez garantida a opção do canal através do Tratado
Bryan-Chamorro sua permanência não se fazia tão necessária.
A coalizão dirigida pelo presidente Martinez saiu triunfante das
eleições com a vitória de Carlos Solórzano, tendo como vice-presidente
Juan Bautista Sacasa, políticos respectivamente ligados aos partidos
conservador e liberal. Foi derrotado Emiliano Chamorro, que não se
conformou com a derrota para Solórzano. Os Estados Unidos aprovaram
a eleição de Solórzano, uma figura sem maior expressão, cujo medo de
governar sem o apoio dos marines o fez suplicar para que não deixassem
o país. Contudo, as forças de ocupação partiram em agosto de 1925, para
retornar poucos meses depois.
Chamorro conseguiu, através de um golpe, derrubar Solórzano em
outubro de 1925 e em janeiro de 1926 fez o Congresso Nacional proclamá-
lo (a ele, Chamorro) como Presidente da República. No entanto, ao
contrário do que ele imaginava, os EUA não referendaram nem apoiaram
seu governo imediatamente e representantes dos liberais reclamaram que,

210
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

de acordo com a constituição, a presidência caberia ao vice-presidente


Sacasa. Para amparar essa demanda, grupos liberais provocaram, na costa
atlântica, um primeiro levantamento, controlado e rechaçado por barcos
de guerra norte-americanos em maio de 1926. Todavia, a despeito de
promessas então recentes de respeito à soberania nacional alheia, os EUA
reconheceram tardiamente o governo Chamorro e buscaram mediar um
acordo de paz entre os representantes dos Partidos Liberal e Conservador.
Sem concretizar o acordo, os Estados Unidos obrigaram Chamorro a deixar
a presidência, apaziguando os ânimos e colocando em seu lugar Adolfo
Díaz.
Nesse cenário, os liberais promoveram um novo desembarque na
costa atlântica em agosto de 1926, com ajuda e armamentos provenientes
do governo do México, que estava naquele momento em disputa com os
Estados Unidos. Sacasa instalou um governo liberal em Puerto Cabezas
em dezembro e seu Ministro de Guerra, o General José Maria Moncada,
iniciou as operações de avanço do exército revolucionário dos liberais
em direção ao Pacífico, dando início ao que se costuma chamar de
“Guerra Constitucionalista”. A ajuda mexicana aos revoltosos serviu de
pretexto aos Estados Unidos para justificar seu apoio a Adolfo Díaz e para
mobilizar de imediato inúmeros barcos de guerra, realizando volumosos
desembarques de tropas destinados a criar obstáculos à marcha do
“Exército Constitucionalista”.
Rapidamente, a situação militar se deteriorou e a Marinha de
Guerra norte-americana percebeu que o Presidente Díaz não podia se
sustentar sem seu apoio; tropas de marines desembarcaram, em dezembro
de 1926, para cercar Sacasa e seus aliados. Em janeiro de 1927, os marines
ocuparam a costa do Pacífico, apoderando-se dos portos, da ferrovia e das
principais cidades. O “Exército Constitucionalista”, no entanto, marchava
pelas selvas, através das montanhas de Las Segovias, pelos planaltos de
Chontales e Boaco em direção ao Pacífico, e mesmo com a presença dos
marines, os avanços os levaram, no mês de abril de 1927, a estar em posição
para atacar prontamente a capital Manágua.
O presidente norte-americano Calvin Coolidge, naquele momento,
pediu a um amigo, o futuro Secretário de Estado Henry Stimson, para

211
As Revoluções na América Latina Contemporânea

que viajasse à Nicarágua e, com plenos poderes, resolvesse a situação


de qualquer maneira e a qualquer preço. Ele chegou ao país em fins de
abril de 1927 e, em 4 de maio, se encontrou com o General Moncada na
vila de Tipitapa, a poucos quilômetros da capital. Ofereceu a Moncada
duas alternativas: firmar um armistício, permitindo a Díaz continuar na
presidência até as eleições que se realizariam em 1928, com a supervisão
dos EUA e a proteção dos marines, os quais permaneceriam no país até
aquela data; ou, então, enfrentar as forças de ocupação que de imediato
entrariam em guerra com os rebeldes para desarmá-los.
Moncada escolheu a primeira alternativa, e retornou a Boaco para
reunir seu conselho de generais, apresentando-lhes o pacto firmado –
conhecido como Pacto Stimson-Moncada – e recomendando-lhes que
aceitassem a rendição. Em estando todos de acordo, seriam repartidos
postos públicos entre os chefes liberais guerrilheiros e a cada um seriam
destinados as mulas e os cavalos de sua coluna, remunerando-os também
com dez dólares por soldado. Exceto para Moncada o preço da rendição
não era elevado, mas mesmo assim, quase todos os comandantes
aceitaram, por meio de um telegrama que se transmitiu ao Comando Militar
estadunidense, em 8 de maio de 1927. Quase todos, menos um: o General
Augusto Sandino.

AUGUSTO “CÉSAR” SANDINO, O EXÉRCITO DEFENSOR DA


SOBERANIA NACIONAL DA NICARÁGUA E UM MOVIMENTO
REVOLUCIONÁRIO INTERROMPIDO

Augusto Nicolás Calderón Sandino4 nasceu em Niquinohomo, uma


vila do departamento de Masaya, a sudoeste de Manágua, em 18 de maio de
1895. Filho de Don Gregorio Sandino, um pequeno proprietário de terras, e

4 Não há, na bibliografia consultada, consenso a respeito do nome com o qual Sandino foi
registrado. A partir de diversas referências, acredita-se que deva ser este, ou talvez apenas
Augusto Nicolás Calderón, pois só passou a utilizar o sobrenome Sandino mais tarde, quando
foi viver junto ao pai.

212
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

de Margarita Calderón, empregada nas tarefas domésticas na casa daquele,


foi registrado por seu Don Gregorio em uma condição excepcional naquela
circunstância – contou com o reconhecimento paterno – e posteriormente
utilizou o nome “César”5 para ocultar o sobrenome Calderón, que utilizou
durante a juventude.
Durante sua juventude humilde, Sandino cresceu trabalhando
nas plantações de café e se confrontou com as desigualdades sociais,
econômicas, políticas e culturais do país, enquanto colaborava na
administração e ampliação dos negócios paternos. Com acesso apenas
a estudos elementares, conhecedor dos fundamentos da mecânica e de
princípios de administração e de comércio, desenvolveu-se em contato,
ademais, com diferentes concepções de Deus e de religião, posteriormente
amadurecidas durante sua passagem pelo México6.
A Nicarágua em que Sandino nasceu e cresceu era partícipe do
auge das exportações de café em toda a América Central. O tipo de vida
camponesa que conheceu em sua infância e juventude teve suas origens
no aparecimento dos primeiros projetos de latifúndios durante a década de
1870-80. Naqueles anos, várias leis agrárias iniciaram um lento e irregular
processo de liquidação dos ejidos indígenas, com o intuito de incorporar

5 Navarro-Génie (2001, p. 9), citando trechos de cartas e documentos, discorre a respeito da


peculiaridade da utilização do nome “César” por Sandino. Segundo o autor, as trocas de nome
– tanto quanto a criação e autoconcessão de títulos e patentes militares – ­ , para além das
questões pessoais – obliterar o sobrenome da mãe – são símbolos expressivos deste esforço
do líder revolucionário de “autoconstruir” sua imagem. Sandino iniciou a luta assinando “Au-
gusto C. Sandino”, alterou posteriormente para “Augusto ‘César’ Sandino” e, mais tarde, ainda
readaptou sua identificação mais uma vez, concedendo-a uma sonoridade mais “imperial”:
“Meu nome é César Augusto Sandino, mas eu tenho usualmente assinado como A. C. Sandi-
no”.
6 Selser (1979), Hodges (1988), Dospital (1994), Navarro-Génie (2001) e a maior parte dos pes-
quisadores e biógrafos de Sandino faz questão de enfatizar a importância da estada dele no
México – tanto em sua primeira passagem, no período anterior a 1926, quanto na segunda,
durante os anos de 1929-1930 – para a sua formação intelectual e política. O México foi onde
pôde assimilar noções fundamentais do comportamento dos revolucionários e se apropriar
de elementos de ideologias diversas, que contribuíram decisivamente para a sedimentação
de seu ideário revolucionário. Em terras mexicanas ele não apenas compartilhou de um am-
biente político eclético, impregnado por elementos de filosofia e religião, mas teve outrossim
suas primeiras experiências e impressões a respeito da Revolução Mexicana, extremamente
importantes para a posterior elaboração de um modelo de luta a ser utilizado na Nicarágua.

213
As Revoluções na América Latina Contemporânea

a agricultura nicaraguense às grandes correntes exportadoras. Os anos


de infância e de adolescência de Sandino coincidiram, enfim, com uma
nova etapa para a Nicarágua, que aprofundou a dependência externa e
exacerbou as desigualdades internas.
Por questões pessoais, Sandino, com 26 anos, deixou a região em
que vivia em direção à cidade de Bluefields e depois foi a Honduras, de
onde, posteriormente, partiu para o México. As referências a respeito de
sua localização em território mexicano não são muito precisas, mas sabe-
se que ele esteve empregado nos campos petrolíferos da cidade portuária
de Tampico; antes disso, teria trabalhado em minas de Durango e Hidalgo
e, em Veracruz, em uma casa de comércio. Também há registros – em sua
maioria sindicais – mostrando que, durante o período compreendido entre
agosto de 1925 e maio de 1926, permaneceu em Cerro Azul, servindo à
Huasteca Petroleum Company.
Naquele momento, o México se encontrava convulsionado pelas
consequências da guerra civil decorrente da Revolução Mexicana, ambiente
no qual Sandino teve suas primeiras experiências políticas mais diretas; a
partir do qual é possível rastrear algumas das ideias e discussões com as
quais tomou contato e que marcaram seu ideário. Em ambientes mexicanos
de enfrentamento anti-imperialista, de crítica aos EUA, de debates sobre a
nacionalização de riquezas petrolíferas, Sandino conheceu, por exemplo, as
ideias dos irmãos Flores Magón e de outros líderes próximos do anarquismo,
do comunismo e do socialismo, assimilando posturas antiautoritárias,
anticlericais e anticapitalistas. Passou a defender a justiça social e a
revolução proletária contra o capitalismo (HODGES, 1988, p. 6). Foi, muitas
vezes, ofendido por seus companheiros que o corresponsabilizavam pelos
acontecimentos na Nicarágua e o chamavam de “vendepátria”, “traidor
sem-vergonha” (SELSER, 1979, p. 27).
No México, Sandino também desenvolveu certa formação espiritual
e religiosa importante para a sua noção de política, simpatizando com
correntes religiosas que deram sustentação à Revolução Mexicana.
César Escobar Morales (apud HODGES, 1988, p. 6) registrou que, entre

214
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

1923 e 1926, Sandino atendeu aos convites dos maçons e participou de


algumas reuniões, apropriando-se seletivamente de algumas de suas
ideias revolucionárias. Assim como a maçonaria mexicana, o espiritualismo
mexicano também se caracterizou como uma seita organizada em templos
e lojas, como núcleos ou irmandades. Em 1925, Sandino conheceu algumas
pessoas com as quais passou a discutir diariamente a questão da submissão
dos povos na América Latina e as violentas intervenções dos EUA. Essas
pessoas eram espiritualistas e com elas Sandino adquiriu conhecimento
acerca desse movimento contracultural surgido no século XIX, crente na
unidade divina e na redenção humana no fim dos dias, tal como os maçons
(HODGES, 1988, p. 29-40).
Esse contato com os dois grupos foi significativo, sobretudo porque
ambos tinham por princípio valorizar a irmandade entre os homens, todos
filhos do mesmo “espírito sagrado”. Entretanto, “irmão” e “camarada”
eram termos usados também pelos anarquistas, socialistas, comunistas,
por conta de sua organização em estruturas sociais fraternais ou que se
pretendiam sem divisão de classes. Esse foi um denominador comum entre
as crenças políticas e espirituais adquiridas por Sandino, formadoras de
uma ideologia em que ele estabeleceu uma combinação peculiar entre
política e teologia e da qual estava munido quando retornou à Nicarágua,
em 1926.
Sandino foi cauteloso ao revelar suas convicções “teosóficas” em
público, preocupando-se em não afetar sua credibilidade política. Mas em
fevereiro de 1931, apresentou uma declaração pública de seu “anarco-
espiritismo” em seu famoso “Manifesto da Luz e da Verdade” (15/02/1931),
que aparentemente teve um efeito notável, passando de mão em mão
ao longo do crescimento da luta sandinista e atingindo os mais remotos
lugares da Nicarágua. Seus soldados reconheceram a espiritualidade do
“homem notável” que se tornou para eles um professor, além de seu general
(HODGES, 1988, p. 16).
Quando no fim de maio de 1926 regressou à Nicarágua, visitou
rapidamente a capital Manágua e continuou a viagem até a mina de San

215
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Albino. Começou a trabalhar, em San Albino, em minas de ouro, e ali


recrutou seus primeiros companheiros de luta. O regresso de Sandino
tem explicação: como expressou em famosa entrevista concedida a José
Román, nos seis anos de “exílio” seu desejo mais profundo era regressar
ao seu país, casar-se com sua prima e dedicar-se ao comércio. Além
disso, nessa mesma época, uma carta de seu pai o convidou a retornar.
Sandino ainda disse a Román que teria um outro motivo para seu retorno:
as reflexões junto aos seus companheiros mexicanos, os quais, ao ferir sua
honra, tinham feito com que decidisse combater em seu país (ROMÁN, 1983
apud DOSPITAL, 1994, p. 123). Ou seja, motivos pessoais, sentimentais e a
história política e econômica de seu país – compreendida por meio das
experiências no México – estimularam seu retorno.
A respeito da questão nacional, enfim, o que Sandino assimilou no
México foi – como ele mesmo disse em algumas de suas cartas, escritos e
manifestos – a atitude dos governantes daquele país, sua capacidade de
enfrentar a intervenção estrangeira e de fazer respeitar a Constituição. De
todos os governos nicaraguenses, apenas um havia adotado uma atitude
similar, o de Zelaya (1893-1909), enquanto os demais se submeteram às
regras estipuladas pelos governos dos EUA. Durante os anos de guerrilha,
Sandino sempre reivindicou que a construção de um Estado nacional
soberano da Nicarágua deveria repousar sobre um governo legalmente
eleito, respeitoso da Constituição, nacionalista e anti-imperialista. Essa era
a essência da luta política de Sandino (DOSPITAL, 1994, p. 128).
Consciente do atraso ao qual estava submetido seu país, Sandino
procurou propor os avanços sociais que havia experimentado no México,
referentes sobretudo à legislação social do trabalho. Mas o terreno social
no qual se desenvolveu a luta sandinista levou seu líder a reorientar seu
programa na direção das reivindicações camponesas e não das operárias,
de acordo com a realidade socioeconômica de Las Segovias.
A ideologia de Sandino foi, portanto, fundamentalmente eclética. Ele
combinou diversas tendências políticas para objetivos específicos e ainda
adicionou à sua concepção de anarquismo uma dimensão teosófica, vinda

216
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

de seu contato, em 1929, com o espiritismo de Joaquim Trincado, fundador


da “Escola Magnético-Espiritual da Comuna Universal”7. Na ideologia de
Sandino uniram-se, de maneira singular, as ideias anarquistas e comunistas,
com o que ele assimilou junto aos maçons, adventistas, vegetarianos,
budistas, espiritualistas e espíritas. Ainda que muitas vezes tenha procurado
manter seus críticos na mais completa ignorância, através da obscuridade
proposital de suas ideias, a incongruência entre determinados aspectos
presentes nas ideias de Sandino é inquestionável e tornou sua ideologia
por vezes inconsistente, mas não menos inconsistente do que a ideologia
de alguns de seus contemporâneos. De qualquer maneira, em meio ao
ecletismo e às diversas apropriações, o cerne era preciso: a defesa de uma
ordem nacional democrática e do combate ao imperialismo dos EUA.
Por isso, para além das idiossincrasias da ideologia cunhada por
Sandino – que neste estudo não são detalhadas –, suas ideias fundamen-
taram sua ofensiva para expulsão dos marines do território nicaraguense.
Capitaneando tropas organizadas de maneira muito específica, mantidas
coesas não só através da disciplina militar, mas também em virtude dos
elementos políticos, filosóficos e religiosos aqui referidos, logrou combater
as tropas estadunidenses de forma surpreendente. Essa resistência ferre-
nha, aliada a fatores externos específicos, constituiu-se num dos motivos
pelos quais o governo dos EUA decidiu retirar posteriormente os marines
da Nicarágua.
No momento em que se engajou nas fileiras do “Exército
Constitucionalista”, em outubro de 1926, Sandino contava, em sua tropa,
com cerca de 29 mineiros. Em março do ano seguinte esse contingente já

7 A “Escola Magnético-Espiritual da Comuna Universal” (EMECU) foi uma congregação pseu-


do-teosófica a qual Sandino pertenceu. Fundada na Argentina pelo eletricista basco Joaquim
Trincado, teve muito êxito no México. O contato de Sandino com a EMECU teve um impacto
profundo e duradouro em sua personalidade.
Trincado construiu um sistema especulativo detalhado, ao qual chamava “magnetismo espiri-
tual”, que era entendido como uma substância onipresente que governaria o universo. A dou-
trina foi nomeada por ele como o “espiritismo de Luz e Verdade”. Sandino estudou vários livros
de Trincado com muita atenção e compartilhava de seu ideal de criação de uma “sociedade
de ajuda mútua e de fraternidade universal”, que chegou a tentar implantar em Las Segovias,
depois dos acordos de paz, em 1933.

217
As Revoluções na América Latina Contemporânea

havia se convertido em tropas móveis estratégicas mais numerosas, que


conquistaram vitórias sobre os conservadores. Em abril de 1927, após os
combates de Las Mercedes e El Bejuco, as tropas sandinistas romperam o
equilíbrio militar, deixando o inimigo em situação francamente defensiva.
Sandino e as forças populares, no período entre 1926-1927, passaram
por uma riquíssima experiência militar que permitiu a todos se prepararem
melhor para a etapa posterior da guerra, iniciada com a capitulação dos
liberais. Adquiriram desenvoltura no trato com inúmeras questões ligadas
à luta, tais como: abastecimento, informação, medidas conspirativas,
noções de guerrilha, disciplina, estruturação e hierarquia militar, entre
tantas outras. As experiências junto à condução firme de Sandino em prol
das reivindicações de camponeses, de indígenas e mesmo de sujeitos que
viviam nas cidades foram alguns dos motivos através dos quais foi possível
enfrentar e vencer o inimigo, em superioridade numérica, bélica e material.
As tropas lideradas por Sandino experimentaram, tanto no combate
ofensivo quanto no defensivo, o contra-ataque de forças, a defesa, o ataque
e a tomada de posições, a luta em circunstâncias de encurralamento,
combates em linhas frontais, entre outros desafios. Suas forças dependiam
essencialmente de seus próprios esforços e recursos; armaram-se
fundamentalmente através da captura de armamentos durante o combate,
e puderam contar com comida e abrigo proporcionados pelo povo. Desse
mesmo povo surgiram os contingentes voluntários com os quais se formou
a tropa regular, no momento de independência das forças sandinistas com
relação às demais tropas liberais, e da criação do “Exército Defensor da
Soberania Nacional da Nicarágua” (EDSNN), em setembro de 1927.
Perante a superioridade bélica dos marines, Sandino e suas tropas
adotaram uma estratégia de resistência em longo prazo, que conferiu à
guerra um caráter eminentemente irregular, apoiada na ação das colunas
guerrilheiras que operavam nos diversos pontos do país. As frentes de
operações tornaram-se mais dispersas do que na guerra de 1926-1927, e o
combate desse momento se desenvolveu até alcançar, em 1933, formas de
uma guerra de movimento, na qual uma guerra de posições se tornou muito
difícil, senão impossível.

218
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

Em 1927, Sandino começou a delinear o núcleo central da força


guerrilheira que permitiu desenvolver a guerra de resistência, empreendendo
esforços para que todos os grupos se organizassem em torno do “Exército
Defensor da Soberania Nacional da Nicarágua”, e que aceitassem os mesmos
princípios gerais de estruturação e disciplina. O cargo máximo criado foi o
de “Chefe Supremo da Revolução”, que Sandino exerceu até sua morte, e
o organismo superior era o “Estado Maior” do Exército anti-imperialista.
Os outros cargos eram os de Chefes Expedicionários, Generais, Tenente-
Coronel, Coronel-Capitão, Major, Sargento-Major e outras patentes para
oficiais, chefes e soldados. Essa hierarquia se manteve praticamente
inalterada durante toda a guerra (ORTEGA SAAVEDRA, 1978, p. 46).
Essa estruturação se fez necessária, especialmente porque a
instabilidade do conflito requeria uma sólida e preventiva definição militar,
que pudesse garantir a continuidade das colunas em caso de baixa de seus
chefes. Em 1927, os exércitos inimigos armaram suas colunas obedecendo
às leis da guerra regular, o que foi aproveitado pelos sandinistas para causar-
lhes importantes danos. Naquele momento, Sandino realizou não apenas a
estruturação militar do movimento, mas também a política, o que se pode
notar através da criação do “Quartel General dos Defensores do Direito
Nacional” e da designação de chefes políticos para os departamentos sob
jugo sandinista.
Em 1929, os sandinistas já possuíam relativo controle militar em
quatro departamentos do norte do país: Nueva Segovia, Jinotega, Estelí e
Matagalpa. As zonas rurais estavam sendo dominadas, enquanto as tropas
governamentais e os marines, aliadas, mantinham seu poder nas principais
cidades e capitais departamentais. No ano de 1931, o exército de Sandino
controlou as áreas rurais de oito departamentos, com suas forças às portas
dos pontos urbanos, sempre dentro da estratégia de sitiar as praças de
povoados e cidades.
As colunas sandinistas operavam na costa atlântica, em cidades
e regiões como Chontales, Matagalpa, Jinotega, Estelí, Somoto, Ocotal,
Quilalí, Jícaro, León e Chinandega, cujos nomes se tornaram muito familiares

219
As Revoluções na América Latina Contemporânea

ao público leitor dos jornais brasileiros na época por conta da expressiva


repercussão do movimento sandinista na imprensa brasileira. (SEBRIAN,
2011) O Quartel General se encontrava no centro de oito departamentos
e desse local o desenvolvimento militar era dirigido estrategicamente com
grande precisão.
O “Exército Defensor da Soberania Nacional da Nicarágua”, a
despeito de constituir o cerne da luta político-militar, contou com a
participação de amplos contingentes populacionais na guerra, o que
permitiu manter uma retaguarda efetiva, tanto nas áreas paramilitares
como nas militares. Entre as tarefas paramilitares se destacavam a logística,
a espionagem e a informação; entre as tarefas militares executadas pelas
massas sobressaia a criação de destacamentos guerrilheiros de “tempo
incompleto”, ou também chamados “rebeldes de meio tempo”, ou seja,
com pequeno tempo de treinamento antes do combate. Foi notória,
outrossim, a integração de centenas de camponeses às forças guerrilheiras
regulares, para determinadas ações militares. As massas de camponeses
atuavam como apoio de ataque e se armavam rudimentarmente com o que
dispunham. Passado o ataque, desintegravam-se e regressavam às suas
casas, continuando com suas ocupações comuns (ORTEGA SAAVEDRA,
1978, p. 50).
No aspecto militar se conseguiu, com essa participação massiva
do povo, contar com uma maior força numérica, balanceando-se assim
favoravelmente o poderio e o volume de fogo que eram muito inferiores
aos do inimigo. Ademais, esse volume humano nas tropas era importante
psicologicamente, elevando a moral combativa sandinista e causando
maior impressão ao adversário. Tal incorporação das massas fortaleceu
os sandinistas, já que os permitia solucionar questões práticas como
transporte de armas, cuidado com feridos, assim como trasladar o que
era recuperado junto ao inimigo, fosse em matéria de armamento ou de
abastecimento em geral (ORTEGA SAAVEDRA, 1978, p. 52). Sandino
soube valorizar devidamente a participação popular na guerra e incentivou
para que o povo desenvolvesse toda e qualquer iniciativa no sentido de
combater o invasor.

220
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

No período compreendido entre os anos de 1927 e 1930, as forças


sandinistas passaram por um amplo e intenso momento de conflito militar
e se transformaram e se aperfeiçoaram até se encontrarem preparadas
para uma “guerra de movimento”, que refletiu com nitidez o salto militar
dado pelas tropas sandinistas depois de alguns anos de intensa atividade
guerrilheira, momento em que assumiram gradativamente feições de forças
regulares (ORTEGA SAAVEDRA, 1978, p. 61). Não obstante, ao mesmo tempo
em que já se podia perceber, em 1930-1931, uma força principal de tipo
regular, centro da dinâmica geral do resto das forças armadas sandinistas,
ainda que fortemente ligada à sua origem guerrilheira – de tropas móveis
estratégicas –, coexistiam as outras forças como “guerrilhas menores”, que
atuavam como auxiliares das forças principais, e se mantinha a luta das
guerrilhas locais, através dos rebeldes de meio tempo.
Nessa fase de “guerra de movimento” houve superioridade de
forças por parte dos sandinistas nas campanhas e batalhas, com relação
às fases anteriores – 1926-1927 e 1927-1930. Nota-se também uma maior
fluidez dos avanços e retiradas através de colunas de mais de 150 homens.
A luta era fundamentalmente ofensiva e as campanhas militares abarcavam
um raio de ação maior, penetrando nas linhas inimigas e não se reduzindo
somente às zonas ou linhas de operação principal.
A estratégia fundamental consistiu na ofensiva contínua, utilizando
todas as tropas, sem apresentar uma linha frontal de ataque, nem combates
por posições, quando se enfrentava forças em superioridade numérica
e de armamento. Nesse sentido, a guerra de posição ocupou um papel
secundário, enquanto a guerra de movimento, através das tropas principais
e por meio do enfrentamento irregular ágil, com grande mobilidade sobre
um terreno favorável, ante um inimigo vulnerável, com o uso de ataques
surpresa e contando com ampla informação e apoio das massas, constituiu
a modalidade principal da luta para desgastar o adversário, ampliar o
controle territorial e desenvolver o domínio junto à população (ORTEGA
SAAVEDRA, 1978, p. 63).
As colunas sandinistas que constituíam as tropas regulares
principais, em 1931, eram as seguintes: 1) Coluna do General Pedro

221
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Altamirano, em Jinotega, Matagalpa, Chontales e parte da costa atlântica;


2) Coluna do General Carlos Salgado, na costa atlântica, zona de “la
Mosquitia”; 3) Coluna do General Pedro Antonio Irías, ao norte de Jinotega;
4) Coluna do General Juan Gregorio Colindres, em Nueva Segovia e
Chinandega; 5) Coluna do Jefe José León Díaz, no sul e oeste de Nueva
Segovia, em Estelí, nas áreas contíguas ao departamento de León e
Chinandega; 6) Coluna do Coronel Abraham Rivera, ao noroeste da costa
atlântica; 7) Coluna de Ismael Peralta, adjunta à 5ª Coluna, de León Díaz; 8)
Coluna do General Juan Pablo Umanzor, em Nueva Segovia e Chinandega;
9) Coluna central, organizada no Quartel General, localizado no centro dos
oito departamentos, de onde Sandino coordenava a luta.
O fator moral, que constitui um elemento determinante em muitas
guerras, influenciou sobremaneira a vitória sandinista sobre o invasor
e seus aliados locais. O movimento sandinista levou às suas máximas
expressões a moral revolucionária do povo nicaraguense, que talvez
tenha sido o sustentáculo fundamental da guerra frente ao invasor. Além
disso, junto a essa combativa moral sandinista, desenvolveu-se uma moral
humana revolucionária que garantiu unidade não apenas entre as tropas,
mas também entre o povo em geral. A luta capitaneada por Sandino
recorreu às tradições anti-imperialistas e anti-estadunidenses gestadas no
seio do povo nicaraguense e conferiu a essas tradições melhor delimitação,
fortalecendo o fator moral e o orgulho nacional, representados pela luta
popular.
Com a partida das tropas de marines em 1933, motivada pelas
derrotas frente ao EDSNN, aos desgastes diplomáticos internacionais
dos EUA e ao início de uma reorientação nas relações interamericanas
com a Política da Boa Vizinhança, a contradição principal passou a ser
a coexistência das forças revolucionárias e das tropas “reacionárias”
locais, representadas pela Guarda Nacional, criada durante o período
de intervenção e treinada pelos EUA. O movimento sandinista, naquele
momento, procurava consolidar a vitória militar sobre os yankees, tanto no
plano político quanto no econômico, através de medidas governamentais.

222
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

Pleiteava garantir a soberania do país, liquidar os laços de dependência


econômica que se mantinham intactos apesar da retirada dos marines e
procurava desenvolver o programa de organização agrária iniciado durante
a guerra, dentre outros aspectos.
A correlação de forças no plano político era desfavorável para
Sandino e seus comandados. Não foi possível, por exemplo, levantar
a bandeira anti-oligárquica, devido à ágil manobra de aparentar a
restauração de um governo liberal. Por outro lado, fortalecia-se a Guarda
Nacional, no mesmo passo em que era fomentada a ideia do armistício,
para desmobilizar as massas armadas. A situação internacional tampouco
se apresentava favorável à luta sandinista, pois o foco central da atenção
mundial já começava a se deslocar na direção do “perigo fascista”, ao qual
os EUA não puderam deixar de enfrentar. Esse e outros fatores externos
reduziram a um problema estritamente local a situação da Nicarágua.
Os estadunidenses, ao saírem do país, deixaram uma situação em
que as forças de Sacasa continuaram combatendo os rebeldes sandinistas,
o que poderia produzir um enfrentamento militar nacional que permitisse,
caso houvesse interesse, uma nova intervenção estrangeira sob o pretexto
de extinguir a luta sandinista. O governo local foi amplamente reforçado por
grandes empréstimos dos EUA e as condições políticas, socioeconômicas
e culturais não permitiram que a população tivesse uma visão mais ampla
acerca da situação que o país estava vivenciando. Ou seja, o povo viu
a intervenção militar, mas não pôde compreender completamente a
intervenção política, econômica e até mesmo cultural. Isso enfraqueceu o
apoio às forças revolucionárias do EDSNN e Sandino soube compreender
a situação, percebendo que era necessário enfrentá-la no terreno político
institucionalizado. Afinal, no âmbito militar, a vitória contra a intervenção
armada havia afetado as forças sandinistas que, mesmo ainda numerosas,
encontravam esgotadas econômica e belicamente. Nessa situação se fazia
necessária uma retirada para tomar novo impulso. Contudo, essa retirada,
que deveria ser realizada em Honduras, foi impedida pela situação de
guerra do país vizinho.

223
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Essa conjuntura problemática levou, em 2 de fevereiro de 1933, à


assinatura dos chamados “Convênios de Paz” entre governo e sandinistas.
O perigo de uma possível nova intervenção dos EUA, a inexistência de
condições materiais para que as tropas sandinistas resistissem a ela e
também o receio de que o povo não fosse capaz de compreender e apoiar
uma nova guerra civil, tornaram os acordos a medida mais prudente a ser
tomada.
Essa situação político-militar conduziu a uma estratégia
revolucionária específica. O centro se deslocou das formas políticas
armadas para as formas políticas não-armadas. Sandino adotou uma
estratégia flexível, visando alcançar, através da luta política não-armada,
uma acumulação de forças humanas, políticas, materiais, militares,
tanto internas quanto externas, que permitissem, caso necessário, o
desencadeamento de uma guerra civil revolucionária para a tomada do
poder e ao mesmo tempo fornecessem maiores condições para enfrentar
uma nova intervenção armada dos EUA (ORTEGA SAAVEDRA, 1978, p. 71).
Em 1934, a situação para os sandinistas se tornou mais difícil. O
governo liberal descumpriu todos os acordos e realizou esforços sistemáticos
para que Sandino ficasse isolado. O armistício anteriormente assinado foi
violado constantemente enquanto o líder revolucionário procurou cumprir
o estipulado para evitar uma possível manobra do inimigo, que buscava um
pretexto como uma guerra local para uma nova intervenção imediata.
Apesar de certa desmontagem tática que realizou em suas forças,
Sandino manteve tropas armadas desde agosto de 1933 nas montanhas
e considerava as suas tropas um terceiro estado, oposto às forças da
presidência da República e às da Guarda Nacional. Contudo, as tropas
sandinistas eram visadas pelos inimigos e foram estabelecidos planos para
o seu aniquilamento. Os alvos para destruição eram: 1) a direção política
do movimento sandinista, muito vulnerável e muito reduzida, representada
em 1934 essencialmente pelo próprio Sandino; 2) a direção militar do
movimento, representada por Sandino e seu Estado Maior; 3) as bases
guerrilheiras sandinistas, naquele momento reduzidas basicamente ao

224
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

quartel central localizado em Wiwilí; e 4) os sandinistas restantes, depois


de executados os três primeiros alvos.
A tarefa revolucionária imposta ao movimento sandinista foi
bruscamente golpeada pela manobra inimiga que conseguiu, com os
assassinatos de Sandino, de Estrada e de Umanzor, e com os assassinatos
em massa nas montanhas forçar no movimento franco descenso e o
reduziu a uma situação militar geral de defesa passiva. Pode-se dizer que
entre 21 de fevereiro de 1934, data do assassinato de Sandino8, e o ano de
1937, quando Somoza García foi eleito presidente após o golpe de Estado
de 1936 contra Sacasa, foi empreendida uma campanha militar de cerco
e aniquilamento dos sandinistas restantes, culminando no assassinato do
General Pedro Altamirano. Nessa campanha, participou diretamente a
Guarda Nacional, aparato repressivo inicialmente chefiado por Anastasio
Somoza García, representante do prolongamento da intervenção dos EUA
no país. O mesmo Somoza que iniciou em 1937 uma dinastia e se manteve
no poder até 1979. Esses esforços de eliminação do movimento sandinista
interromperam uma potencial transformação revolucionária na Nicarágua,
mas não foram capazes de obliterar, nas décadas seguintes, as propostas
gestadas por Sandino e seus comandados.

OS USOS DE SANDINO: DA FORMAÇÃO DA FRENTE


SANDINISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL (FSLN) À
REVOLUÇÃO DE 1979

Após a morte de Sandino e dos comandantes sandinistas, bem como


de muitos guerrilheiros, o movimento sandinista, enquanto agrupamento

8 Na noite de 21 de fevereiro de 1934, após um jantar com o presidente Sacasa, no Palácio do


Governo, Sandino e seus generais Estrada e Umanzor foram presos por soldados da Guarda
Nacional, enquanto em outro lugar da capital, Sócrates, o irmão de Sandino que havia se en-
gajado em suas tropas, também foi sequestrado. A Guarda Nacional assassinou Sócrates de
imediato e durante a madrugada, num campo de aviação, acabou com a vida de Sandino e de
seus dois generais.

225
As Revoluções na América Latina Contemporânea

político e militar em atividade, atrelado ao EDSNN, desapareceu.


Fortaleceu-se, além disso, a construção de representações negativas de
Sandino e de seu exército, na tentativa de inibir possíveis herdeiros e/ou
continuadores. Aliás, mesmo antes do assassinato do líder revolucionário
nicaraguense, houve um esforço de diversos segmentos da sociedade
daquele país para construir representações de Sandino. Desde o início da
luta, tanto seus defensores quanto seus inimigos, como Anastasio Somoza
García, procuraram elaborar interpretações públicas da trajetória de vida
do “general de homens livres” e de suas concepções políticas.
A imagem pública de Sandino se tornou resultado não apenas
de suas ações, mas também de uma série de interpretações originadas
pelas mais diversas necessidades sociopolíticas. Ao longo do século XX,
atribuíram-lhe predicados dos mais diversos, desde o de “bandido” ao de
líder da luta antiditatorial; procuraram identificar em seu ideário tendências
comunistas e incontestáveis vínculos com o verdadeiro nacionalismo latino-
americano. Chegaram a chamá-lo de “calvário do povo nicaraguense” e
a equiparar sua importância à de Bolívar; acusaram-no de ocasionar a
intervenção estadunidense em seu país e transformaram-no em emblema
da unidade hispano-americana.
De acordo com Enrique Camacho Navarro (1991, p. 12), Sandino
representou, ao longo de uma importante etapa histórica do século XX, o
herói capaz de influir ideologicamente em diversas camadas sociais. Por
conta dessa característica, foi adotado como “bandeira” por determinados
setores políticos que buscavam beneficiar-se com a idealização do
personagem. Os nicaraguenses encontraram nele elementos explicativos
para os diferentes momentos e situações que viviam, por isso as
representações de Sandino tiveram diversos matizes. Mediante o emprego
de sua imagem, enfim, a história foi posta a serviço da política. Sendo assim,
é óbvio que se os problemas nicaraguenses se evidenciam no personagem,
os altos e baixos que sua imagem sofreu são indicadores de mudanças
desse país (CAMACHO NAVARRO, 1991, p. 12).
No momento do enfrentamento nacional e anti-imperialista de
Sandino e de seu exército, da resistência à presença dos EUA em terras

226
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

nicaraguenses entre 1926 e 1934 e de defesa da soberania nacional


da Nicarágua, o general foi considerado símbolo da luta dos povos
da América Latina. Ademais, nesse período, que compreende desde
o início da chamada “Guerra Constitucionalista” até o assassinato do
líder revolucionário, a sua presença está envolvida na disputa entre o
hispano-americanismo e o pan-americanismo. Por um lado, Sandino
representava uma burguesia nacionalista, oposta ou não ao imperialismo,
enquanto por outro personificava o “bandoleiro” intransigente, contrário
à política de “irmandade pan-americana” encabeçada pelos Estados
Unidos (CAMACHO NAVARRO, 1991, p. 12). Esse momento foi marcado
pela significativa repercussão da luta sandinista no plano continental e
extracontinental – inclusive no Brasil, como mostrou o estudo de Sebrian
(2011) –, o que tornou a situação gradativamente insustentável para o
Departamento de Estado dos EUA, razão pela qual os estadunidenses
teriam apoiado o atentado contra a vida de Sandino, ordenado pelo então
chefe da Guarda Nacional, Anastasio Somoza García.
Após a eliminação do líder revolucionário e de seu exército, Somoza
García dedicou-se a converter a figura de Sandino na de inimigo da pátria,
a pessoa que por sua atitude “traiçoeira, sangrenta e antipatriótica” foi
submetida à “força pura” do nacionalismo, supostamente representada
pelo chefe da Guarda Nacional. Esse foi apenas um dos mecanismos que
Somoza García e seus aliados utilizaram para invalidar a luta sandinista,
com o intuito de justificar sua trajetória e sua permanência no poder a
partir de um golpe de Estado (CAMACHO NAVARRO, 1991, p. 13).
Posteriormente, aos poucos, a figura de Sandino foi apropriada por
grupos adversários da ditadura da família Somoza – que permaneceu no
poder entre fins da década de 1930 e 1979 –, servindo como instrumento
de ataque político de partidos minimamente reformistas. Essa iniciativa
não teve êxito, em parte, pela forte investida da “historiografia somozista”
contra Sandino e, em parte, pela superficialidade da “historiografia pró-
sandinista”. No entanto, num período próximo ao advento da Revolução
Cubana ocorreu mais uma tentativa de recuperação de Sandino, como

227
As Revoluções na América Latina Contemporânea

o herói, o símbolo que deveria renascer. A partir dessa época, com o


início das ações que dariam origem, ulteriormente, à Frente Sandinista
de Libertação Nacional (FSLN), ocorreu um esforço de “resgate do herói
pátrio”, procurando integrar o pensamento deste a uma nova ideologia
renovada, o sandinismo, que alcançou a vitória como inspiração de um
movimento revolucionário no poder.
Nesse sentido, é importante compreender, mesmo que brevemente,
a formação da FSLN e as características principais da apropriação e da
ressignificação das propostas de Sandino pelo grupo que tomou o poder
em 1979 e governou a Nicarágua até 1990 (e que depois chegou ao poder
novamente, nos anos 2000)9. A FSLN começou a se configurar somente
nos anos 1950 a partir das iniciativas de indivíduos como Carlos Fonseca
Amador, o qual, em um momento de discussões sobre os rumos da política
em Cuba às vésperas da revolução de 1959 naquele país, “redescobriu”
Sandino, seus textos e suas ideias. Mas antes disso, mesmo sem o EDSNN,
as ideias de e sobre Sandino continuaram a circular na Nicarágua de
diferentes maneiras.
Entre o assassinato de Sandino e de seus principais comandantes,
em 1934, e o ano de 1961, quando a FSLN foi fundada, nota-se um processo
no qual não apenas se iniciou e se estabilizou a Dinastia Somoza, mas
também ocorreu o fortalecimento da imagem de Sandino, na Nicarágua,
como um bandoleiro – a imagem de bandoleiro foi criada entre 1927 e 1934,
pelo governo, pelos oligarcas e pelas forças estadunidenses no país –, em
uma campanha que, principalmente entre 1934 e 1956, conforme Camacho
Navarro (1991, p. 44), concentrou-se em minar o crédito de Sandino junto à
população nicaraguense, servindo-se, para tanto, da críticas aos aspectos

9 O objetivo neste estudo, em virtude de seus propósitos e de suas reduzidas dimensões, não
é oferecer uma história acontecimental do movimento sandinista dos anos 1920-30, da FSLN,
da Revolução de 1979, muito menos do governo que ela instaurou. Em relação aos aspectos
acontecimentais e processuais da trajetória de Sandino e do movimento sandinista nos anos
1920-30, ver Dospital (1994; 1996), Gobat (2005), Ramírez (1988), Sebrian (2011), Selser (1979)
e Vives (1986). No que diz respeito a esses mesmos aspectos para a FSLN e para a Revolução
Sandinista de 1979, ver, principalmente, Lozano (1985), Marega (1991), Rodrigues (1996) e Zim-
mermann (2006).

228
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

físicos e à formação cultural do EDSNN, visando caracterizá-lo “[...] como


um indivíduo de personalidade insignificante, como um ignorante e [...]
como um perturbado mental. A essas faltas contra o suposto ‘bandido’ se
soma a de ‘oportunista’ ligado ao comunismo estrangeiro que se ostenta
como dirigente de uma luta nacionalista” (CAMACHO NAVARRO, 1991,
p. 44, tradução nossa)10. Também são apresentados, na leitura oficial de
Somoza García expressa sobretudo em seu livro El verdadero o el calvario
de Las Segovias, de 1936, argumentos nos quais Sandino se torna apenas
um homem que buscava, “mediante falsos ideais de nacionalismo anti-
imperialista, benefícios econômicos pessoais” (CAMACHO NAVARRO,
1991, p. 45, tradução nossa).
Essa imagem, veiculada pelo livro de um dos assassinos confessos
de Sandino – Somoza García declarou publicamente seu envolvimento nos
assassinatos ainda em junho de 1934 –, não circulou sem oposição. Membros
do Partido Liberal Nacional (PLN), ao qual anteriormente pertencia Somoza,
e do Partido Conservador da Nicarágua (PCN) iniciaram, entre 1934 e 1937,
atividades anti-Somoza e se apropriaram, surpreendentemente, da figura
de Sandino contra os esforços do antigo líder da Guarda Nacional para
culpar o general e líder do EDSNN pela intervenção dos EUA e para se
consolidar, pessoalmente e como responsável pela Guarda Nacional, como
herói do nacionalismo nicaraguense (CAMACHO NAVARRO, 1991, p. 46).
O repúdio a Somoza García, portanto, não demorou a aparecer
após a morte de Sandino e continuou mais expressivo até a sua posse como
presidente em 1937. Integrantes do governo de Sacasa, vencido por um
golpe de Estado, e apoiadores de Somoza García começaram a se opor aos
seus desmandos políticos. Abelardo Cuadra, por exemplo, que colaborou
no assassinato, divulgou supostos dados (parcialmente desmentidos)
sobre o acontecimento que permitiram à população avaliar as atitudes de
Somoza García naquela ocasião. Sentindo-se, como outros, relegado pelo

10 Em virtude das reduzidas dimensões deste texto, todas as transcrições de textos em outras
línguas foram traduzidas para o português (com a devida indicação), sem a disponibilização
dos fragmentos nos idiomas originais.

229
As Revoluções na América Latina Contemporânea

antigo chefe da Guarda Nacional, que preferiu em seu governo dirigentes


civis do que militares – ele mesmo (Somoza García) não tinha origens nos
quadros das Forças Armadas –, Cuadra representou, como as apropriações
mencionadas do PLN e do PCN, não a revalorização de Sandino, mas tão
somente o combate à vitimização do líder revolucionário e o desejo de
retomada do poder político, sem qualquer mudança das estruturas sociais
ou econômicas. Enfim, as propostas revolucionárias, na segunda metade
dos anos 1930, não interessavam mais aos grupos políticos dominantes, de
oposição ou de situação.
O citado livro de Somoza García colaborou sobremaneira para
a construção de uma imagem negativa de Sandino. Resultante de uma
compilação de documentos tomados do arquivo de Sandino pela Guarda
Nacional, Somoza García garantiu, com o livro, que os textos não pudessem
ser acessados por seus adversários e ao mesmo tempo que a sua versão de
Sandino fosse supostamente chancelada pelo conjunto documental. Sabe-
se, conforme declaração de Cuadra citada por Camacho Navarro (1991, p.
50), que o livro foi efetivamente escrito pelo subtenente Domingo Ibarra e
pelo primeiro tenente Guillermo Cuadra e que esses não apenas destruíram
documentos como adulteraram o conteúdo daqueles que selecionaram.
Como diz Camacho Navarro (1991, p. 50, tradução nossa):

Além dos propósitos auto-exoneratórios da obra, Somoza


se propunha com ela a anular toda virtude, todo traço que
favorecesse a Sandino. Fazendo uso dos mesmos sím-
bolos da luta sandinista (a bandeira vermelha e preta e o
emblema do Exército Defensor da Soberania da Nicará-
gua), assim como dos documentos do guerrilheiro, Somo-
za qualifica aos primeiros [bandeira/emblema] de signos
de morte e extermínio e aos segundos [documentos] de
testemunho condenatório do “Calvário de Las Segovias”.

O livro, entre outras propriedades, praticamente justifica o


assassinato de Sandino por suas características pessoais, por suas ações
na juventude, por seus supostos desvios de caráter e por suas ações como
“fora da lei”, estendendo os “vícios” do líder aos seus seguidores. O Sandino
de Somoza García é um indivíduo “irresponsável, ignorante e agressivo”

230
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

(CAMACHO NAVARRO, 1991, p. 51, tradução nossa), e a circulação da


publicação a partir de fins dos anos 1930 praticamente associava aqueles/
as que eventualmente se interessassem pelas ideias e ações do EDSNN
aos traidores da Nicarágua, estimulando o desinteresse pelo movimento
sandinista desintegrado em 1934 e valorizando expressivamente as ações
da Guarda Nacional, a qual, afinal de contas, tinha, em meados da década
de 1930, Somoza García como seu líder.
Após a posse de “Tacho” – como era apelidado Somoza García –
como presidente em 1937, a oposição a ele se tornou menos significativa
e parte de sua legitimidade veio do reconhecimento de seu governo
pelos EUA, em um momento no qual os estadunidenses passaram a
aceitar, ao contrário do que havia pactuado em 1923, diversos governos
da América Central sem se importar com os meios pelos quais o poder
tinha sido assumido e consolidado. A resistência ao governo nicaraguense
vinda do exterior não era representativa e se concentrava em interesses
excessivamente personalistas, por isso, mesmo difundindo textos contra
o presidente, tal oposição não atrapalhou os planos de Somoza para a
criação de uma Assembleia Constituinte, em 1939, a qual reviu a carta
magna e permitiu a reeleição, garantindo o chefe da família no poder até
1947 (CAMACHO NAVARRO, 1991, p. 59-61).
As constantes apropriações de bens e de terras comandadas por
Somoza García tornaram a ele próprio, aos seus familiares e aos seus
aliados os indivíduos mais poderosos em termos políticos e econômicos
na Nicarágua dos anos 1940. O controle sobre as exportações e a inserção
dos negócios da agricultura em uma perspectiva capitalista mundial
garantiram que, durante a Segunda Guerra, algumas famílias passassem
a acumular fortunas em espécie e/ou em propriedades, entre elas a do
presidente. Nesse momento, de fins dos anos 1930 a fins da década seguinte,
Sandino teria sido praticamente esquecido, dentro e fora da Nicarágua
caso existissem apenas os protestos de estudantes nicaraguenses ou os
movimentos antiditatoriais de países próximos, mas o líder do EDSNN foi
lembrado pelos jovens da “geração de 1944”, ligados sobretudo ao Partido

231
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Conservador – os liberais se aliaram a Somoza – que reiniciaram, com


setores governistas reunidos na “Sociedade Pró-Investigação da Verdade
Histórica sobre o Sandinismo”, debates sobre o pensamento emancipador
de Sandino. Nesse sentido, o próprio governo, crítico às ideias de Sandino e
interessado em não permitir a sua propagação, garantiu certa identidade ao
pensamento político do EDSNN ao chamá-lo de “sandinismo” (CAMACHO
NAVARRO, 1991, p. 67-71).
Esses debates estimularam movimentos insurrecionais na
Nicarágua e mesmo os vários pactos entre liberais e conservadores, em
fins dos anos 1940 e início dos 1950, não silenciaram completamente as
ideias recuperadas. Reuniam-se oposicionistas para discutir e combater os
esforços de Somoza García, que, em 1955, tentou aprovar medidas para
permitir uma nova reeleição após um intervalo ausente. Entre os membros
dessa oposição estava o poeta liberal Rigoberto López Pérez, que atirou
em Somoza García em 1956, causando sua morte. Tachado de sandinista
pelos governistas, a atitude de López Pérez levou a novos esforços, em fins
da década de 1950, para sufocar qualquer intento de desenvolvimento de
ideias ou de movimentos de inspiração sandinista (CAMACHO NAVARRO,
1991, p. 75-77). No entanto, ocorreram tentativas de oposição armada,
como a guerrilha liderada por Ramón Raudales, em 1958, em um contexto
de discussão sobre a situação cubana e sobre as ditaduras na América
Latina que inspirou, por exemplo, a produção do importante livro de
Gregorio Selser, Sandino, general de hombres libres (1955) (CAMACHO
NAVARRO, 1991, p. 79-80). Enfim, como afirmou Matilde Zimmermann
(2006, p. 39), em fins da década de 1950, “muitos nicaragüenses estavam
com os olhos voltados para os acontecimentos em Cuba” e isso motivou
greves estudantis e de trabalhadores, entre outras iniciativas de oposição
ao governo do então presidente Luis Somoza Debayle, filho de “Tacho”,
cujo governo era garantido, em termos militares, pela Guarda Nacional
chefiada, desde 1945, por outro filho de Somoza García, Anastasio Somoza
Debayle, apelidado “Tachito”, que se tornaria presidente em 1967.
As experiências guerrilheiras e as variadas sublevações de oposição
a Luis Somoza entre 1958 e 1960, somadas ao entusiasmo que se espalhou
pelo continente em virtude da Revolução Cubana em 1959, começaram

232
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

a conformar um cenário, na Nicarágua, em que o uso de Sandino se


converteu, ao contrário das quase duas décadas e meia após a sua morte,
em parte de um projeto de transformação revolucionária. Chegou-se a
desenvolver iniciativas em parceria com o governo cubano, entre elas a
de “El Chaparral”, com o envolvimento direto do governo revolucionário
liderado por Fidel Castro (CAMACHO NAVARRO, 1991, p. 103), ação que se
costuma considerar como o primeiro momento da Revolução Sandinista de
1979 e que se pareceu com o assaltado ao Quartel Moncada, em Cuba, em
1953, inclusive na sua derrota, pois o movimento articulado em Honduras foi
massacrado pelas tropas do governo. Entre os combatentes estava Carlos
Fonseca Amador, jovem líder estudantil e membro do Partido Socialista da
Nicarágua (PSN), que, distanciando-se do partido por conta do exemplo
cubano, passou a defender o aprofundamento da iniciativa revolucionária
via luta armada (ZIMMERMANN, 2006, p. 42-44).
Fonseca é costumeiramente entendido como o primeiro a recuperar
o pensamento de Sandino em termos diferentes do que havia sido feito até
aquele momento e isso se fortaleceu em Cuba, no início dos anos 1960 –
ainda que tenha começado na Universidade, em León, cerca de cinco anos
antes, quando Fonseca e outros estudavam o pensamento de Sandino.
Ele e outros jovens nicaraguenses como Tomás Borge e Silvio Mayorga
tomaram contato com as ideias e as propostas do líder do EDSNN através
de revolucionários cubanos e de publicações, como, por exemplo, o citado
livro de Gregorio Selser (ZIMMERMANN, 2006, p. 44).
O advento da Revolução Cubana, em síntese, ao materializar
a possibilidade efetiva da transformação, estimulou a proliferação, na
Nicarágua (e em outros países latino-americanos), de grupos de oposição
dispostos a levar a cabo a revolução pela via armada. A primeira organização
revolucionária não-estudantil mais expressiva criada nesse novo momento
de mobilizações e de atividades políticas e militares contra o governo foi o
Movimento Nova Nicarágua (MNN), fundado em 1961, do qual faziam parte
os ex-líderes estudantis Carlos Fonseca, Tomás Borge e Silvia Mayorga,
além de trabalhadores e dois veteranos que combateram com Sandino
(ZIMMERMANN, 2006, p. 46). Em menos de um ano, o nome do movimento
foi alterado para Frente de Libertação Nacional (FLN) e, por sugestão

233
As Revoluções na América Latina Contemporânea

de Carlos Fonseca, os demais participantes aceitaram a denominação


Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) em 1963 para associar
efetivamente a sua luta à de Sandino (ZIMMERMANN, 2006, p. 46).
De acordo com Matilde Zimmermann (2006, p. 46-47), em meados
de 1963, a FSLN explicitou seu programa por meio de um manifesto da
liderança estudantil em Manágua. O texto continha os compromissos de:

[...] “lutar para resgatar as classes exploradas das garras


da oligarquia e do capitalismo... defender a justa distri-
buição das riquezas, erradicar o analfabetismo, criar um
novo sistema de educação... realizar uma reforma agrária
integral, a reforma urbana, a nacionalização das empre-
sas estrangeiras... lutar pela eliminação dos partidos tra-
dicionais, principais responsáveis pela tragédia do povo
nicaragüense... [e] repudiar o entreguismo aos Estados
Unidos” (ZIMMERMANN, 2006, p. 47).

Como se pode notar, os compromissos básicos de Sandino – a


busca de um governo democrático e soberano e o combate ao imperialismo
dos EUA – estão nesse manifesto de 1963. Esses membros da FSLN eram
indivíduos que priorizavam, inicialmente, as ações em detrimento do
planejamento de médio e longo prazo e que imaginavam, em princípio,
desenvolver ações parecidas às de Sierra Maestra, de focos guerrilheiros,
para alcançar os objetivos propostos. Ações armadas fracassadas ainda
em 1963, todavia, redimensionaram as possibilidades imediatas da FSLN.
Frente às suas limitações técnicas, táticas e de suprimentos, mas convictos
da possibilidade de realização de uma revolução em terras nicaraguenses,
persistiram na organização da Frente, em uma década de 1960 de
enfraquecimento do interesse pelas propostas revolucionárias em face de
expressivo apoio militar e econômico dos EUA aos governos na Nicarágua
por meio da “Aliança para o Progresso”. Os efeitos sobre a burocracia estatal
e sobre a educação se aliavam às iniciativas de combate ao comunismo e
ao exemplo da Revolução Cubana e, de maneira geral, o país cresceu, sem
diminuir a desigualdade (ZIMMERMANN, 2006, p. 48-49).
Em 1964, Carlos Fonseca foi preso, julgado e condenado. Graças à
expressiva pressão dos estudantes, permaneceu vivo e foi solto depois de

234
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

seis meses, mas muitos sandinistas foram mortos. Até 1966, a atuação da
FSLN se deu vinculada à coalizão legal e reformista chamada Mobilização
Republicana (MR), e às vésperas das eleições de 1967, quando “Tachito” se
candidatou à presidência, houve o distanciamento do MR e a reafirmação
da luta armada (ZIMMERMANN, 2006, p. 51). Seguiu-se um período
de intensa discussão, entre os líderes da FSLN, acerca da estratégia
revolucionária mais adequada, sempre na clandestinidade. Em 1968 e 1969,
a Frente conseguia atrair estudantes para suas fileiras, mas continuava a
perder líderes e membros por conta da repressão do governo e se resumiu,
em fins daquela década, a cerca de trinta membros efetivos ainda vivos
(ZIMMERMANN, 2006, p. 59).
No início dos anos 1970, a visão etapista da revolução, defendida
em certa medida por Carlos Fonseca, foi questionada em vários países
da América Latina. As ditaduras implantadas permitiram refletir sobre
os equívocos da aposta em uma revolução burguesa que antecederia a
revolução socialista. De qualquer maneira, a leitura de Fonseca a respeito
da revolução possível não se resumia a isso: ele também foi capaz, mais
efetivamente desde o início dos anos 1960, de compreender Sandino como
um “modelo, o arquétipo capaz de encarnar cabalmente a rebeldia contra
a ditadura e o capital estadunidense” (CAMACHO NAVARRO, 1991, p. 117). E
foi além da simples recuperação das ideias de Sandino: se apropriou delas
e as aproximou de outras matrizes de pensamento e de ação em pauta
naquela circunstância, como afirmou Donald Hodges:

Fonseca insistiu na vinculação entre os esforços contem-


porâneos do Marxismo-Leninismo, com o qual tinha con-
tato por influência da Revolução Cubana, com a antiga
luta de Sandino contra o imperialismo e a ditadura. Ele
[Fonseca] foi o primeiro Comunista na Nicarágua a inse-
rir-se na história nacional de seu país e na luta de Sandi-
no, em particular, a qual tomou como modelo para a nova
geração de revolucionários nicaraguenses. Ele quis que
o povo compreendesse que a nova luta a ser iniciada na
Nicarágua era “a continuação de uma guerra ainda incon-
clusa iniciada por patriotas e revolucionários do passado
sob condições específicas para aquela época” (HODGES,
1988, p. 166, tradução nossa).

235
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Hodges, que estudou detalhadamente os fundamentos intelectuais


da Revolução Sandinista de 1979, mostrou como Fonseca recuperou o
legado político de Sandino de duas formas principais:

[...] A primeira e mais urgente foi a organização de uma


antologia básica das ideias políticas de Sandino, prepa-
rada por Fonseca, seu Ideario político del General Augusto
César Sandino, chamada por [Tomás] Borge de Ideario
sandinista. O principal documento para a instrução dos
quadros da FSLN a respeito do pensamento de Sandino,
[esse texto] começou a circular quando a organização foi
fundada em 1961. Fonseca organizou o pensamento de
Sandino em seis eixos principais, guerrilha popular, pro-
grama social, política revolucionária, internacionalismo,
imperialismo e integridade moral. Há sobreposições con-
sideráveis e as razões para isso são obscuras, ainda que
haja uma aparente progressão da discussão de Sandino
acerca dos problemas imediatos da Nicarágua para ques-
tões mais abstratas. O patriotismo emerge como o amál-
gama que garante a unidade dessas ideias.
Complementando essa antologia, Fonseca escreveu uma
breve biografia de seu herói intitulada Sandino, guerrillero
proletário, finalizada rapidamente antes do início da se-
gunda operação armada da FSLN em 1966. Foi a primeira
biografia que se propôs a combinar o personagem pro-
letário e revolucionário à guerra pela libertação nacional
liderada por Sandino. Sandino é apresentado como um
trabalhador habilidoso, um mecânico por excelência, cujo
contingente original de guerrilheiros consistia de traba-
lhadores – os mineradores de San Albino. Mas sobreviver
no território requeria um detalhado conhecimento do ter-
reno e o apoio da população camponesa, então Sandino
expandiu seus núcleo originário de proletários para incluir
camponeses. Ainda que eles [camponeses] tenham pre-
dominado na composição social da guerrilha, Fonseca
acreditava que os componentes proletários originários
continuaram a moldar o programa social de Sandino. Aqui
temos o impulso intelectual da publicação e sua própria
justificativa para reviver a luta de Sandino pela libertação
nacional e social em conexão com o Marxismo de Lenin,
Castro, Guevara e Ho Chi Minh (HODGES, 1988, p. 166-
167, tradução nossa).

Portanto, a seleção do pensamento de Sandino operada por


Fonseca, que se tornou especialmente relevante para a imagem que a
população nicaraguense construiu do líder do EDSNN até a Revolução de

236
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

1979 e depois dela, estava ancorada nas concepções, nas preocupações


e nas necessidades da Nicarágua e da América Latina dos anos 1960,
sob inspiração de Cuba, da URSS e da China. Deliberadamente, observa
Hodges, a leitura de Sandino operada por Fonseca, representativa da
imagem que a FSLN enquanto grupo, forjou e disseminou do “general de
homens livres”, “recuperou apenas aqueles aspectos do pensamento de
Sandino considerados úteis na mobilização ideológica do movimento de
libertação nacional em torno do nome de Sandino” (HODGES, 1988, p. 167,
tradução nossa). Ou seja, os anteriormente mencionados fundamentos
anarquistas e comunistas de sua filosofia política foram obliterados tanto
quanto as suas confusas e ecléticas ideias teosóficas. Tal imagem distorcida
e lacunar de Sandino só foi revista pela FSLN nos anos 1980.
De qualquer maneira, a despeito das distorções e simplificações,
o exemplo de Sandino foi transmitido, por Fonseca e outros, mais
expressivamente a partir dos anos 1970, como parte do sandinismo. O
sandinismo contemporâneo da FSLN poderia ser sinteticamente definido,
de acordo com Hodges, como uma “fusão do pensamento revolucionário
marxista e da herança intelectual de Sandino” (HODGES, 1988, p. 173,
tradução nossa). É importante destacar que nem todos os sandinistas
eram ou se reconheciam como marxistas-leninistas, o que garantiu, de
acordo com Hodges (1988, p. 185-186), a convivência entre um sandinismo
orientado basicamente pela imagem e pelo exemplo de Sandino como
um homem do povo e outro sandinismo que se pretendia ser uma espécie
de adaptação do marxismo-leninismo à Nicarágua a partir de uma leitura
específica do pensamento de Sandino, visando a aceitação do comunismo11.
O objetivo principal da apropriação de Sandino por Fonseca e pela
FSLN – de suas ideias, de sua imagem, de sua herança –, observa Camacho
Navarro (1991, p. 130), era desnudar a opressão política e econômica à qual

11 Não é possível, aqui, detalhar todas as especificidades da combinação particular entre as


ideias de Sandino e as ideias marxianas, marxistas, leninistas, maoístas, gramscianas, além
de outras vindas de líderes latino-americanos como Fidel Castro, Che Guevara ou Mariátegui,
por exemplo, combinação que resultou no sandinismo da FSLN e que, obviamente, também
se alterou ao longo dos anos 1980, por conta das demandas apresentadas por outros grupos
sociais à FSLN no poder. Por isso, recomenda-se a leitura do estudo de Donald Hodges (1988).

237
As Revoluções na América Latina Contemporânea

eram submetidos os nicaraguenses há décadas e anunciar o reinício da luta


sandinista: “Carlos Fonseca estava convencido de que a luta revolucionária
e o conhecimento da atividade de Sandino revitalizariam a combatividade
do povo da Nicarágua [...]” (CAMACHO NAVARRO, 1991, p. 130, tradução
nossa). A FSLN, nesse sentido, conseguiu se identificar com a história
nacional por meio da recuperação do pensamento, dos ideais e da luta
de Sandino. Para Camacho Navarro (1991, p. 134, tradução nossa): “Esta
identificação com a raiz histórica da figura de Augusto C. Sandino por obra
de Fonseca Amador permitiu dar ao povo nicaraguense essa vontade e essa
mística de luta que se mantiveram ao longo das duas décadas anteriores
ao triunfo sobre a ditadura somozista”.
Em fins dos anos 1960, enquanto se fortalecia a repressão na
Nicarágua governada por “Tachito”, os líderes da FSLN que não estavam
presos viviam na clandestinidade. Fonseca, por exemplo, exilou-se na Costa
Rica no início de 1969 e de lá articulou a construção de um documento
base, chamado de “Programa Sandinista” e também conhecido como
“Programa Histórico”, elaborado a partir dos fundamentos ideológicos
antes comentados, o qual continha a plataforma que orientaria as ações
até a Revolução de 1979. Como explica Matilde Zimmermann:

O “Programa Histórico” convocava o povo da Nicarágua


para uma mobilização geral, em torno das treze tarefas
básicas da revolução. O ponto fundamental do documen-
to já era evidenciado em seus dois primeiros parágrafos,
em que se exigia a derrubada da ditadura e uma reforma
agrária radical. Prometia-se em seguida o estabelecimen-
to de um governo revolucionário que garantiria os direitos
democráticos básicos, expropriaria a propriedade da fa-
mília Somoza e seus cúmplices, e nacionalizaria os ban-
cos, o comércio exterior e os recursos naturais em mãos
de estrangeiros. Essas posições eram reforçadas por ou-
tras que incluíam pôr fim à interferência “ianque” nos as-
suntos internos da Nicarágua, e comprometiam-se em ex-
tinguir a Guarda Nacional e substitui-la por um “exército
do povo, patriótico e revolucionário”, além de uma milícia
popular. Depois disso, pedia-se a implantação imediata de
uma reforma agrária em ampla escala, incluindo maciça
redistribuição de terras entre aqueles que nela trabalha-
vam. Os pontos seguintes esboçavam programas sociais

238
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

e econômicos centrados nas necessidades da maioria


empobrecida. Conclamavam uma revolução na cultura,
na educação, na legislação trabalhista e na seguridade
social; e uma campanha destinada a erradicar a corrup-
ção da administração pública, dando um fim ao histórico
isolamento da região da costa do Atlântico e à “odiosa
discriminação” vivida pelos índios e negros; também con-
clamavam para a emancipação das mulheres, ao respeito
pelas crenças religiosas, a unidade do povo centro-ameri-
cano, a solidariedade para com todas as lutas antiimperia-
listas disseminadas pelo mundo todo e a veneração pelos
mártires sandinistas [...] (ZIMMERMANN, 2006, p. 62-63).


Nota-se, pela descrição de Zimmermann, a amplitude do
“Programa”, que propunha uma transformação estrutural do país, alterando
características presentes desde o século XIX que se fortaleceram e
aprofundaram ao longo da ditadura da família Somoza. O que se oferecia,
essencialmente, era uma revolução democrática e nacional. Junto a outros
textos da FSLN que enfatizavam a ação e a luta armada, esse “Programa”
definia as dimensões da luta necessária contra a dominação externa, pela
pátria e pela liberdade, como costumavam dizer.
No que diz respeito à luta armada, a partir de fins dos anos
1960 e início da década seguinte, o contato com a experiência cubana
foi fundamental. E houve divergências no encaminhamento das ações,
divergências que suscitaram a criação de três subgrupos no interior da
FSLN: “a Guerra Popular Prolongada (GPP); a Tendência Proletária (TP);
e a Tendência Insurrecional (TI) – os terceiristas. Essa divisão durou até
a véspera da revolução de 1979” (ZIMMERMANN, 2006, p. 65). Muito
resumidamente, os primeiros defendiam a organização a partir das guerrilhas
rurais, os segundos “enfatizavam a organização política legalizada dos
trabalhadores rurais e urbanos e, como a GPP, eram ativos no movimento
estudantil”, enquanto os ditos “terceiristas” defendiam “as ações militares
especialmente no campo, mas também contra alvos selecionados nas
cidades. Eram os mais favoráveis a alianças com as forças burguesas da
oposição”. Importantes foram também, naquele momento, as discussões
motivadas pela Teologia da Libertação, o que resultou, na primeira metade

239
As Revoluções na América Latina Contemporânea

dos anos 1970, na adesão de diversos padres ao movimento sandinista,


entre eles os irmãos Cardenal (ZIMMERMANN, 2006, p. 66-70).
Após um interregno sem ações de maior contundência e de
relativo anonimato, a FSLN, em 1974, tornou refém o ministro da Defesa
e conseguiu negociar com o governo, libertando diversos membros
prisioneiros. A resposta do governo nos anos de 1975 e 1976, com
contundente e brutal repressão a diversos setores da sociedade em
busca da desmobilização da FSLN, evidenciou a fragilidade do governo
mantido durante décadas por meio de acordos, de distribuição de poder
e das riquezas entre as elites, além de medidas assistencialistas para
os trabalhadores (ZIMMERMANN, 2006, p. 72). No mesmo ano de 1976,
Carlos Fonseca decidiu retornar à Nicarágua para tentar unificar as três
tendências divergentes, mas foi emboscado e assassinado em novembro
daquele ano. O ano seguinte foi muito ruim para a “Frente”, que de novo
estava reduzida a poucos combatentes, basicamente aos seus líderes, mas
crises externas e internas estimularam, em 1977, marcantes mobilizações
estudantis e de trabalhadores, forçando o governo a recorrer, cada vez
mais, à repressão contra as forças guerrilheiras dispersas. Esse processo
converteu, gradativamente, os sandinistas brutalmente reprimidos pela
Guarda Nacional em mártires e ampliou a identificação de diversos setores
da sociedade com a “Frente” (ZIMMERMANN, 2006, p. 77-78).
Quando, em 1978, o editor do jornal La Prensa e membro de uma
prestigiosa família da elite nicaraguense, Pedro Joaquín Chamorro, foi
assassinado, os protestos contra o presidente Somoza se avolumaram entre
empresários e demais membros das elites, que chegaram a pressioná-lo
a renunciar. Enquanto a crise política e a crise econômica pioravam, nos
anos de 1978 e 1979, a FSLN conseguiu, no interior do país, a sua expansão,
principalmente entre jovens, e intensificou as suas ações, configurando-se
um estado de guerra civil. O governo optou pela ampliação da repressão
e recebeu como resposta o crescimento da simpatia pela FSLN em
inúmeros grupos sociais, nas cidades e no campo. Em março de 1979, as
três tendências da FSLN se unificaram e criaram o Diretório Nacional,
responsável pela coordenação da ofensiva das tropas sandinistas, as quais
tinham crescido, mas ainda dependiam do apoio da população que não

240
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

se engajou diretamente na guerrilha (ZIMMERMANN, 2006, p. 85-89). Os


grupos sociais, afinal, tinham interesses diversos e enxergavam a revolução
como solução para demandas muito díspares e por vezes conflitantes. A
conjuntura, portanto, era complexa:

É no cenário dessa ordem política debilitada e carente de


opções programático-partidárias que o sandinismo che-
gou à vanguarda do movimento de libertação nacional,
venceu a guerra contra Somoza e assumiu o comando do
Estado, encaminhando um projeto abrangente e pouco
preciso de democratização sob a hegemonia popular. Se,
por um lado, o vazio de alternativas conferia à FSLN um
posicionamento privilegiado como liderança – condição
já bastante favorecida por haver conquistado o poder
pelas armas e mantido o pleno controle militar do país –,
por outro lado isso significava a necessidade de fortalecer
a base social da revolução, sem experiência participati-
va, desorganizada e com diferentes interesses, graus de
consciência e vontade política de mudança. Mais ainda,
significava lidar com outras forças representadas no go-
verno revolucionário, tolerando uma oposição cada vez
mais forte dos setores burgueses em luta para restituir a
supremacia política do capital, perdida na Nicarágua san-
dinista. Tratava-se, portanto, de caminhar num terreno
de antagonismos internos e externos ao bloco popular,
inerentes à árdua realidade que [...] coadunava uma re-
volução burguesa inconclusa e uma revolução socialista
incipiente (RODRIGUES, 1996, p. 369).

A tomada do poder, entre junho e julho de 1979, apenas iniciou


uma nova etapa de desafios vários para a FSLN. A Junta de Governo,
provisoriamente constituída por três membros da FSLN (Daniel Ortega,
Moisés Hassan e Sergio Ramirez), pelo industrial Alfonso Robelo e por
Violeta Chamorro, viúva de Pedro Chamorro, enfrentou as pressões
imediatas do governo de Carter, nos EUA, que queria apoiar a Guarda
Nacional e impedir a revolução, mantendo a guerra civil que, até aquele
momento, tinha vitimado cerca de 50.000 civis, assassinados por forças
governamentais. Emblematicamente, contudo, em 19 de julho milhares
de pessoas tomaram a capital e se espalharam pelo país para apoiar,
majoritariamente, os guerrilheiros que oficialmente ascenderam ao poder
naquela data.

241
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Sem forçar qualquer leitura teleológica ou apologética, percebe-


se como a Junta de Governo estava preocupada, inicialmente, em
executar o “Programa Histórico” e em promover, como observou Lygia
Rodrigues (1996, p. 366), a edificação de “uma sociedade democrática
e soberana perante a comunidade internacional, reafirmando a natureza
eminentemente democrática e antiimperialista que definiu sua trajetória
durante a luta contra Somoza”. Nesse sentido, após a Revolução de 1979:

[...] a diretriz básica do Estado revolucionário sinaliza-


va para a reconstrução do país por todos os segmentos
sociais imbuídos do propósito de recuperar a economia,
danificada pela guerra e pelos efeitos da crise em mar-
cha na época da ditadura. A revolução se propunha trans-
cender o subdesenvolvimento e a dependência externa e
implantar os canais para a vigência de uma democracia
participativa. De maneira que se optou por um sistema de
economia mista, com a presença preponderante do setor
privado, pelo pluralismo político e pelo não-alinhamen-
to internacional. Sem dúvida, a escolha desse caminho
respondia a três ordens de fatores, que não apenas de-
marcavam o perfil político-ideológico da transição, como
condicionavam na prática o encaminhamento imediato
das mudanças. A primeira refere-se à correção de forças
envolvidas de forma direta [...] no processo revolucioná-
rio; a segunda nos remete às limitações materiais geradas
pelo tipo de crescimento econômico vivenciado pelo país;
e a última centraliza-se na posição da Nicarágua sandi-
nista no quadro das relações internacionais, ressaltando
os desdobramentos do confronto com os Estados Unidos
(RODRIGUES, 1996, p. 366-367)12.

A precisa síntese ora transcrita elucida os desafios fundamentais


do governo sandinista a partir de 1979: no plano interno, especialmente
na economia, encontrar formas de efetivar as transformações necessárias
(e prometidas) sem se confrontar definitivamente com a estrutura da
propriedade privada e com parcelas das elites econômicas e políticas
nicaraguenses. Externamente, enfrentar a pressão crescente dos EUA
contra o governo da FSLN, não apenas no plano da diplomacia, mas
também em disputas armadas com os grupos e milícias de mercenários

12 Os detalhes das ações empreendidas na política, na educação, na cultura, nos movimentos


sociais, entre outros, podem ser melhor conhecidos em Zimmermann (2006).

242
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

contrarrevolucionários, os famosos “Contras”. Esse quadro gerava debates


sobre os caminhos a seguir na FSLN, entre os seus aliados imediatos e
mesmo entre entusiastas e apoiadores espalhados pelo mundo.
Aliás, no que diz respeito aos adversários externos, na primeira
metade dos anos 1980, o cenário internacional se tornou mais adverso à
estabilidade do governo sandinista, especialmente após a posse de Ronald
Reagan como presidente dos EUA e seu enfrentamento declarado contra a
FSLN em uma guerra civil bastante violenta que durou praticamente todo
o período de gestão da FSLN e fez parte da guinada agressiva na política
externa estadunidense (RODRIGUES, 1996, p. 371). Era efetivamente um
projeto contrarrevolucionário:

Denominada “guerra de baixa intensidade”, a estratégia


imperialista previa o ataque sistemático e concomitante
em diversos campos – econômico, militar, político, religio-
so etc. – de forma a transparecer uma luta interna contra
o pressuposto “despotismo comunista” e a induzir resul-
tados que comprometeriam o consenso popular e iso-
lariam o país do resto do mundo. Dos primeiros anos de
boicote econômico ao embargo total do comércio com a
Nicarágua (1985); do apoio a pequenos grupos armados
de refugiados à manutenção de uma guerra contra-revo-
lucionária que, até 1984, concentrava, no sul de Honduras,
cerca de onze mil guardas somozistas e mercenários; do
patrocínio à base oposicionista local, polarizada por se-
tores burgueses do COSEP, hierarquia católica e jornal
La Prensa, às ameaças de uma intervenção militar direta;
tudo isso compôs o panorama crítico instigado pela políti-
ca beligerante do Estado norte-americano (RODRIGUES,
1996, p. 371).

A despeito das inúmeras conquistas na economia, na política, na


cultura, na educação, na saúde, alcançadas desde os primeiros anos de
governo com a colaboração de voluntários internacionais – especialmente
cubanos –, os conflitos de classe, estimulados pelos EUA de diferentes
maneiras, atrapalharam o aprofundamento da revolução, principalmente no
que diz respeito aos direitos dos trabalhadores urbanos, dos camponeses,
das mulheres, dos indígenas e dos negros, ou seja, daquela parcela
majoritária da população que historicamente foi alijada do acesso às
riquezas e aos direitos.

243
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Em que pese todo o esforço da FSLN e de seus aliados, que


garantiram a defesa do anti-imperialismo e efetivaram algumas
transformações almejadas desde a luta de Sandino, “os prejuízos para a
transição democrática parecem óbvios”. Diz Rodrigues (1996, p. 372-373):

[...] No que se relaciona à sociedade política, o ultracresci-


mento das funções militares, a centralização dos proces-
sos decisórios e do planejamento econômico em volta do
Estado, o bloqueio de importantes canais de participação
sócia, além da censura e do controle de informações, re-
tardaram – ou, por vezes, distorceram – a superação da
herança autoritária e o amadurecimento das modalidades
consensuais de mando. Já o refreamento das atividades
sindicais, a debilitação do papel do governante das orga-
nizações populares e a abertura das forças de direita para
o exterior, em contraponto ao possível fortalecimento de
suas bases sociais internas, constituíram outras tantas
facetas de se fazer política num contexto de guerra, que
vieram a reiterar problemas crônicos de uma ordem civil
pouco desenvolvida (estruturas partidárias fracas, apatia
das massas, generalizado sentimento antiestado, proce-
dimentos conservadores e antinacionais das elites eco-
nômicas).
Ao lado disso, avolumaram-se as perdas materiais e hu-
manas da guerra, cujos índices numéricos [...] dão uma
idéia do custo político da agressão. Segundo os dados
do Instituto Nicaragüense de Investigações Econômicas
e Sociais, até maio de 1987, as vítimas da guerra chega-
vam a 1.418 pessoas e as perdas materiais somavam algo
em torno de onze mil vezes o valor anual das exportações
nicaragüenses. O embargo comercial a uma economia
agroexportadora e periférica; o recorrente desvio de re-
cursos, destinados à modernização econômica e aos
programas sociais, para a defesa militar; o ataque e des-
truição de centros produtivos e unidades de armazena-
gem agrícola; os assassinatos, seqüestros e emboscadas
praticados contra a população civil, sobretudo no campo;
todos esses foram acontecimentos difíceis de contornar
sem comprometer as margens de hegemonia de que o
sandinismo dispunha no início da revolução.

Em 1984, Daniel Ortega Saavedra foi eleito presidente. Os


antagonismos sociais, políticos e econômicos históricos se acirravam,
mesmo dentro de determinados grupos. Os ajustes realizados pela FSLN no
governo do novo presidente enfraqueceram a reforma agrária, diminuíram

244
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

os ataques à concentração de riquezas e de propriedades e sobretudo


fragilizaram as ações e políticas de massas, fraturando consensos
políticos até então garantidos pela “Frente”. As cisões internas na FSLN
começaram a causar tensões. E, o pior, frequentemente o governo tomou,
mesmo depois do enfraquecimento da guerra dos “Contras”, a partir de
1987, medidas que enfraqueceram os canais de participação democrática
efetiva, distanciando-se de suas bases sociais e se desgastando em termos
políticos. A derrota do sandinismo nas eleições de 1990, nesse sentido, foi
apenas um dos elementos de uma crise maior no projeto propugnado e
capitaneado pela FSLN.

CONCLUSÃO

Enfim, como se pretendeu mostrar, a revolução se concretizou em


1979 e levou o sandinismo, configurado como ideia e projeto ao longo de todo
o século XX, ao poder. Entretanto, os desafios da governança desviaram a
FSLN de alguns dos propósitos defendidos durante os anos de oposição
à Dinastia Somoza e o afastamento de algumas causas fundamentais
ou a deturpação de outras custaram aos sandinistas, àquela altura já
fragmentados em diversos subgrupos, a derrota nas eleições presidenciais
de 1990. O sandinismo retornou ao poder em outra conjuntura totalmente
diferenciada, novamente com Daniel Ortega, em 2007, após os governos
neoliberais de Violeta Chamorro (1990-1997), Arnoldo Alemán (1997-2002)
e de Enrique Bolaños Geyer (2002-2007).
Em 1979, em um momento de disseminação do autoritarismo em
toda a América Latina, ocorreu portanto uma revolução popular, nacional,
anti-imperialista e democrática em um pequeno país da América Central.
O grupo fundamental para a concretização dessa revolução, a FSLN, foi
orientado por ideias e propostas inicialmente gestadas, décadas antes,
por um camponês que queria seu país livre, soberano e independente,
interna e externamente. Se o sandinismo, ao chegar ao poder, enfrentou

245
As Revoluções na América Latina Contemporânea

as dificuldades e as limitações com as quais todo projeto alternativo de


política, de cultura, de economia e de sociedade se defrontou em terras
latino-americanas no século XX, ele representou, para o povo nicaraguense
e para outros povos latino-americanos desde então, a possibilidade da
conquista, mesmo parcial, de sua libertação e de sua autonomia através de
uma revolução popular. Por isso, o sandinismo, enquanto ideologia e projeto
político, cultural e social revolucionário marcante na história da Nicarágua
e da América Latina no século XX, merece ser estudado. Espera-se que
este texto contribua para que isso não se perca.

246
CAPÍTULO 5 | Pela pátria e pela liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX

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248
6
Capítulo
A REVOLUÇÃO BOLIVIANA

INTRODUÇÃO
Everaldo de Oliveira Andrade

A história boliviana, desde sua independência,


foi em grande parte uma trajetória em busca da
soberania nacional para o país e seu povo, o que
significou, em diferentes momentos, iniciativas
políticas pela reapropriação dos recursos naturais
para a maioria da população forjar um processo
autônomo de desenvolvimento econômico. Pode-se
afirmar que a nacionalidade foi construída a golpes
de força vindos de baixo, das camadas populares,
e ainda que limitadamente, se chocaram com os
grandes proprietários estrangeiros e seus interesses
no país. A revolução boliviana de 1952 nasceu
As Revoluções na América Latina Contemporânea

desses processos e se prolongou nas décadas seguintes. Os grandes


ciclos da história do país tiveram sempre relação com esses momentos de
mobilização política e social intensas.
Uma forte tradição histórica de bases populares e revolucionárias
se consolidou em torno dessas demandas como, por exemplo, as lutas pelas
nacionalizações de empresas mineradoras como um dos caminhos para
a resolução das demandas sociais, marcando a memória nacional desde
as primeiras décadas do século XX. Em 1937, ocorreu a nacionalização da
Standard Oil Co por força da crise política que advém da derrota boliviana
na guerra do Chaco (1932-1935). Um segundo momento – a nacionalização
da grande mineração de estanho em outubro de 1952 – esteve ligado
ao impulso revolucionário da insurreição operária e popular de abril de
1952. Um terceiro momento marcante ocorreu em 1969, no contexto dos
governos militares dos generais nacionalistas Ovando Candía e Juan José
Torres, quando é nacionalizada a Gulf Oil Co e em seguida discutida a
gestão operária da mineração estatal, agora no contexto da Comuna de La
Paz, de 1971. As nacionalizações ocorridas já sob o governo de Evo Morales
inserem-se certamente em outro ciclo agora em pleno andamento.

DA INDEPENDÊNCIA À INTEGRAÇÃO AO MERCADO


MUNDIAL

No final do século XVIII e começo do século XIX, os velhos


impérios coloniais da Espanha e Portugal nas Américas começaram a
desmoronar. A Bolívia, que naquela época era ainda conhecida como
Alto Peru, foi a primeira região a se levantar contra a Espanha, no ano de
1809, mas também foi onde ocorreu a última batalha pela independência
da colonização espanhola no continente. A independência se concretizou
somente em 6 de agosto de 1825, sob a liderança do general Sucre, depois
de uma longa série de combates contra as tropas coloniais. Simon Bolívar,
que participara ativamente da libertação das colônias, foi homenageado e
seu nome foi dado ao novo país que surgia.

250
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana


Na Bolívia, os séculos de colonização espanhola deixaram
marcas profundas em suas estruturas econômicas e sociais. A oligarquia
dominante, que herdou a direção do país em 1825, após as revoluções de
independência, não deixou de dar continuidade a esse legado de exclusão
das maiorias indígenas que habitavam os vastos campos gelados andinos e
as distantes fronteiras amazônicas. Em contrapartida, os elos externos da
economia mantinham a elite dominante profundamente ligada e submetida
aos interesses dos capitais internacionais. No final do século XIX, grandes
fatias do território do país permaneciam ainda fora do controle do governo
central. Existia uma frágil economia e um país dividido em muitas etnias
e culturas diferentes. O estado nacional em constituição era ainda muito
débil, e quando o país enfrentou os primeiros choques fronteiriços com
seus vizinhos e precisou se defender como um país soberano, não teve
condições de manter a integridade original do seu território. As perdas
territoriais sucessivas sofridas pelo Estado boliviano em seu primeiro
século de existência, como a derrota para o Chile e a perda da saída para
o mar na guerra do Pacífico (1879), a guerra do Acre e a perda dos ricos
seringais amazônicos em 1903 e, por fim, a perda de mais de 200 mil k²
para o Paraguai na guerra do Chaco (1932-1935), selaram a sorte da elite
dirigente mineradora e latifundiária.
Na passagem do século XIX para o XX, quando o capitalismo
consolidava sua fase imperialista e tratava de submeter o conjunto do
mundo às suas teias, a Bolívia foi enredada como fornecedora de um
novo produto: o estanho. A importância econômica da exploração desse
mineral tornou-se cada vez maior ao longo do século XX. Entre 1900 e
1929, as exportações cresceram cinco vezes e a participação boliviana
mais que dobrou, chegando entre 1918 e 1929 a quase um quarto da
produção mundial (BETHEL, v.6, p. 118). Até a nacionalização das minas,
em 1952, pouco se alterou o quadro concentrador da produção, o que, por
outro lado, criava laços de extrema dependência do país com o mercado
mundial. A pequena e a média mineração ocupavam um espaço secundário
no mercado monopolizado pelos três grandes magnatas do estanho

251
As Revoluções na América Latina Contemporânea

(Patiño, Rotschild e Aramayo). Essas crescentes exportações traziam


pouco retorno para o desenvolvimento da economia nacional. O poder dos
grandes mineradores, La Rosca como eram chamados, se estendeu para
outros ramos da produção e negócios e ganhou posteriormente dimensão
internacional. Patiño controlava o maior banco da Bolívia, possuía jornais,
ferrovias, fazendas, além de plantar sólidas raízes fora do país. Hochshild e
Aramayo tinham negócios que também se ramificavam pelo conjunto da
economia.
A queda internacional dos preços de estanho em meados da
década de 1920 provocou grande abalo nos orçamentos governamentais.
Em 1927, os preços caíram constantemente; nesse ano, a tonelada do
estanho estava em US$ 917; em 1929, baixaria para US$ 794. Foi nesse
momento que sobreveio a crise internacional de 1929. O governo de
Hernando Siles decretou estado de sítio no final de 1928 em uma tentativa
de conter as mobilizações políticas internas que cresciam e a deterioração
da economia (KLEIN, 219). Em meados de 1930, um levante impediu que
Siles prorrogasse seu mandato. Uma coalizão de partidos conservadores
lançou Daniel Salamanca candidato presidencial. Eleito, seu governo teve
que enfrentar o agravamento da situação interna.

A GUERRA DO CHACO E O PERÍODO PRÉ-REVOLUCIONÁRIO

Depois de 1929, a Bolívia entrou em recessão, não conseguindo mais


exportar como antes os minerais dos quais dependia a economia nacional.
O desemprego e a alta dos preços dos alimentos fizeram a insatisfação
popular crescer. Com a crise de 1929, abalou-se todo esse frágil equilíbrio.
As fricções entre os grandes mineradores e o Estado tornaram-se mais
frequentes, fragilizando a manutenção da estabilidade política. Os setores
da pequena-burguesia que se expandiram no impulso do setor minerador-
exportador sofreram ainda mais esse impacto, vendo ruir o principal polo
com certo dinamismo na economia, que permitia um limitado nível de

252
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

ascensão social. O restante da população vivia, em sua esmagadora maioria,


ainda fora de qualquer relação política ou institucional com o Estado e o
mercado. Mesmo as concentrações de mineiros ainda eram, na década de
1920, pequenas e compostas de massas semi ou recém-proletarizadas.
Essa situação começou a ameaçar o próprio governo de Daniel
Salamanca. Greves e manifestações de rua e um fervilhar de novas
organizações políticas de oposição vinham incomodando crescentemente
a elite dirigente. A queda do preço do estanho, principal base da economia
do país, provocou sucessivas crises fiscais e pode ser vista como uma das
motivações para o aceleramento do conflito com o Paraguai. A guerra do
Chaco (1932-1935) foi em grande parte motivada pelas necessidades do
governo boliviano criar uma saída política externa para dispersar a oposição
política. A velha elite perdeu espaço na condução do Estado para frações
militares reformistas como o governo de German Busch e acelerou-se
um processo de crise da economia nacional e o surgimento de um forte
movimento político nacionalista e mobilizações operárias que mudariam os
rumos econômicos do país.
A guerra do Chaco, além de consequências econômicas gerais
sobre as finanças do país, gerou ao seu final um impacto político e
econômico maior quando o governo boliviano decidiu nacionalizar a
multinacional estadunidense Standard Oil. A exploração do gás e petróleo
na Bolívia, até então uma atividade de pouca projeção, passou a ganhar
maior relevância econômica. Entre 1880 e 1890, ocorreram as primeiras
descobertas de petróleo no país. Em 1912, foi formada uma empresa
entre Luiz Valdez e Percival Farquhar, antigo empreendedor da ferrovia
Madeira-Mamoré, para explorar novas jazidas. Em 1920, o governo abre
novos territórios para concessões a empresas estrangeiras, prevendo-se o
pagamento de 15% de royalties ao Estado pelo total da produção. Em 1937,
a Standard Oil é finalmente confiscada por violação de contrato e fraude
nos pagamentos de royalties, mas a principal motivação foi sua falta de
compromisso com o esforço de guerra do país. Foi o período do chamado
“socialismo militar”, em que governos militares nacionalistas ensaiaram um

253
As Revoluções na América Latina Contemporânea

conjunto de medidas de reformismo social e econômico que desagradaram


a antiga camada dirigente do país.
As vésperas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), aconteceu
uma reviravolta na política boliviana. Os políticos ligados aos grandes
mineradores voltaram ao governo através do general Enrique Peñaranda,
que ganhara as eleições de 1939. Durante o novo governo (1939-1943),
foram desfeitas as poucas reformas sociais e nacionalistas realizadas
pelos antecessores. Mas o movimento sindical se fortalecera e novos
partidos políticos ligados ao operariado, estudantes e camponeses,
surgiram. Peñaranda teve que enfrentar uma oposição cada vez mais forte
e articulada às suas medidas.
Com o início da Segunda Guerra Mundial, o novo governo,
pressionado pelos estadunidenses, ofereceu o precioso estanho boliviano a
preços baixíssimos. Os minerais bolivianos eram importantes na produção
de armas e equipamentos de guerra. Os bolivianos, mesmo longe dessa
guerra, foram obrigados por seu governo a se sacrificar, porque segundo
o governo Peñaranda, a venda dos minérios a preços baixos era uma
forma de contribuição para a vitória dos aliados na guerra. Os prejuízos
econômicos para a enfraquecida economia da Bolívia foram gigantescos.
Foram impostas longas jornadas de trabalho e baixíssimos salários aos
trabalhadores, o que provocou uma crescente revolta e mobilização
política entre eles. A Bolívia sentiu dolorosamente os efeitos da guerra.
Os subsídios aos preços dos minérios destinados aos aliados submeteu o
pequeno país a um pesado esforço econômico. Embora as exportações
tivessem aumentado, os controles de preços e os atrasos no recebimento
dos pagamentos representavam menos receita extra. Como forma de
combater a queda dos preços, as companhias dobraram a produção entre
1938 e 1942 e aumentaram em 40% a força de trabalho. Ao final da guerra,
o Estado estava em séria crise financeira e os acampamentos mineiros com
enormes concentrações operárias subremuneradas (DUNKERLEY, 1987,
p. 23-24). As condições de ritmo intenso de trabalho nas minas durante
o período da Segunda Guerra Mundial elevaram a níveis insuportáveis a

254
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

exploração dos trabalhadores mineiros e a deterioração de suas condições


de vida. Em 1945, a produção boliviana de estanho chegou a cobrir 42,87%
da produção mundial, no entanto os preços subsidiados provocaram
perdas de divisas estimadas em US$ 500 milhões (VIRREIRA, 1979, p. 141-
145). As empresas procuraram repassar essas perdas para os empregados,
visando cortar despesas que aumentassem os custos de produção.
Muitos operários moravam dentro de minas abandonadas, em condições
absolutamente subumanas.
Para o governo, qualquer iniciativa que reivindicasse melhoria nas
condições de vida era simplesmente considerada um ato de traição ao
esforço de guerra. Foi por isso que em 1942 uma pacífica manifestação
de trabalhadores mineiros na mina de Catavi, uma das maiores do país, foi
selvagemente reprimida pelo exército, com centenas de mortos. Esse fato
teve uma profunda influência negativa na sociedade boliviana da época. O
governo de Enrique Peñaranda ficou sem saída para se justificar e passou
a ser visto aos olhos dos bolivianos como um capataz, um serviçal dos
interesses dos Estados Unidos, disposto a sangrar seu próprio povo para
fornecer estanho barato. Milhares de bolivianos começaram a se mobilizar
e a defender a nacionalização das minas como forma de o país controlar
suas riquezas. Foi nesse ambiente que a militância sindical se articulou. Em
1943, foi fundada a FSTMB, Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros
da Bolívia, desde então uma poderosa e estratégica organização na vida
econômica e política do país.

Nas fazendas, igualmente ganhavam força movimentos de
camponeses pedindo terras para plantar e o fim da exploração que os
fazendeiros provocavam. O trabalho gratuito dos camponeses era ainda
utilizado pelos grandes fazendeiros como no período colonial, e na Bolívia
tinha o nome de “pongueaje”. Durante quatro a cinco dias por semana, os
camponeses eram obrigados a trabalhar nas terras ou na casa do fazendeiro;
no restante da semana, trabalhavam plantando e colhendo em pequenas
parcelas de terras para seu próprio consumo. A brutalidade e violência
dos fazendeiros e o isolamento dos camponeses em grandes fazendas,

255
As Revoluções na América Latina Contemporânea

muitas vezes distantes umas das outras, dificultavam a resistência contra a


exploração do trabalho gratuito.
Essa mobilização das camadas populares no início dos anos 1940
foi em grande parte alimentada pelo surgimento dos partidos políticos de
oposição como o POR, Partido Operário Revolucionário, o PIR, Partido da
Esquerda Revolucionária, e o MNR, Movimento Nacionalista Revolucionário.
Esses novos partidos e os sindicatos procuravam representar os operários,
camponeses e classes médias que se opunham ao governo do general
Peñaranda e suas medidas. O POR seguia as ideias do revolucionário
russo León Trotski e defendia a necessidade de uma revolução socialista
sob a liderança dos trabalhadores operários como vanguarda da maioria
nacional. O seu principal líder era Guillermo Lora. Através da influência
desse partido, no 4º Congresso da Federação Nacional dos Mineiros, foi
aprovado o principal documento que inspiraria a revolução boliviana, as
Teses de Pulacayo, que defendiam profundas mudanças na sociedade
boliviana, procurando ser uma resposta à situação do povo boliviano e ao
desprezo com que eram tratados pelos governantes:

“[...] Não podemos nem devemos nos solidarizarmos com


nenhum governo que não seja o nosso próprio, ou melhor,
operário. Não podemos dar esse passo [apoiar o governo]
porque sabemos que o Estado representa os interesses
da classe social dominante. [...] Sabemos claramente que
nossa libertação será obra de nós mesmos e que para
conseguir esta finalidade, não podemos esperar colabo-
ração de forças alheias às nossas. [...] Os revolucionários
devem encontrar-se em toda parte onde a vida coloque
as classes em situação de luta. (PULACAYO, 8 nov. 1946).

No começo de 1945, o novo governo do militar nacionalista de


Gualberto Villaroel passa a implantar medidas de contenção de gastos
e controle da economia, que desagradaram setores importantes do país.
O tímido controle dos impostos pagos pelas grandes mineradoras e as
pequenas reformas sociais iniciadas por Villarroel tentavam criar uma
maior margem de manobras, com uma ampliação do leque de apoio ao
governo, para a recomposição do aparelho de Estado. No entanto, os
grandes barões do estanho estavam acostumados a eleger e a destituir

256
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

presidentes e era-lhes inadmissível qualquer traço de independência


do governo. Villarroel tornar-se-ia então célebre ao tentar conciliar o
irreconciliável: ampliar limitadamente alguns direitos sociais e preservar
os interesses da grande mineração. Provavelmente, não tinha dimensão
do real poderio que desfrutavam os grandes mineradores do país e do
grau de radicalização que se apoderava do movimento operário. Entre
os novos partidos que disputavam espaços na vida política e sindical, o
MNR, (Movimento Nacionalista Revolucionário), de origem pequeno-
burguesa e ideologia nacionalista, integrou seu governo. O PIR, (Partido
de Esquerda Revolucionário) com uma orientação stalinista, atacou
Villarroel e se aliou aos setores mais conservadores alinhados com os EUA.
Seguia as orientações de Moscou e acabou entrando em decadência após
se associar aos governos anti operários na repressão aos movimentos
grevistas dos mineiros. Tentando construir um governo de equilíbrio com
tímidas reformas, Villarroel caminhava literalmente sobre o fio de navalha
da história boliviana. Foi derrubado por um golpe militar.
Seguiu-se um período de instabilidade política no país no imediato
pós-Segunda Guerra, marcado por governos militares e crescentes
mobilizações políticas de massas. Greves gerais e enfrentamentos de rua
tornavam-se cada vez mais constantes. As eleições presidenciais de 1951,
vencidas pelo candidato do MNR Victor Paz Estenssoro, foram repudiadas
por um novo golpe militar. O MNR, agora um partido de massas, preparou
um golpe com apoio militar para assumir o poder em 9 de abril de 1952.
Porém as mobilizações populares ultrapassaram as expectativas mais
conservadoras, abrindo uma situação histórica absolutamente inédita na
história do país.

A REVOLUÇÃO DE 1952

O golpe aconteceu na manhã de 9 de abril de 1952. Dois mil policiais


e algumas dezenas de partidários do MNR tomaram o palácio presidencial
e os principais pontos estratégicos da capital La Paz. Em Oruro, outra

257
As Revoluções na América Latina Contemporânea

importante cidade do país rodeada por grandes minas de estanho, o golpe


também se iniciou com sucesso. Mas no final do dia 9, as forças governistas
se rearticularam. La Paz foi cercada e em Oruro os militares que apoiavam
o golpe mudaram de lado. Siles Suazo, líder do MNR, propôs a rendição.
O golpe fracassara, contuto os combates de rua com forças populares
continuavam.
No dia 10, o golpe militar se transformou em revolução, pois o
povo tomou o movimento para si. Os quartéis e delegacias policiais de La
Paz e Oruro foram tomados e as armas distribuídas para os improvisados
batalhões populares. O MNR perdeu o controle da situação e o comando das
iniciativas. Em La Paz, o dia 10 de abril foi palco de uma dura batalha. Sete
dos mais equipados regimentos do exército cercaram e bombardearam a
cidade, mas a capital permaneceu impenetrável. Barricadas fechavam as
ruas. Dos casebres e becos estreitos dos bairros populares os rebeldes
respondiam atirando. O exército se perdia dividido pelas estreitas e
lamacentas ruas de La Paz. Soldados desistiam da luta e entregavam suas
armas. Lutavam contra um exército invisível, que atirava de todos os lados,
de todas as casas, de todas as janelas. No final desse dia, um trem com
centenas de mineiros ainda atacou o exército pela retaguarda desde a
região de El Alto, onde havia uma base militar. O quartel-general das tropas
governistas próximo a La Paz foi tomado e os generais fugiram. Em Oruro,
no mesmo dia 10 ocorreu a maior batalha da revolução. Nas planícies que
circundam a cidade, as divisões do exército também foram vencidas por
tropas improvisadas de mineiros e camponeses. Cerca de 300 pessoas
caíram mortas nesse combate. Em Cochabamba e outras cidades do país,
as notícias da queda de La Paz e Oruro neutralizaram a resistência do
governo. O exército fora desarticulado pelo movimento revolucionário.
Victor Paz Estenssoro, principal liderança do MNR, voltou do exílio
para assumir o poder em nome da revolução, e depois de ter-lhe sido
negada a presidência do país, ganha nas eleições de 1951. A população
sentia-se vitoriosa, desejava respostas rápidas para suas reivindicações,
queria a distribuição de terras, a nacionalização da mineração do país, o

258
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

fim definitivo do exército, o direito de todos votarem. O MNR pretendia,


quando muito, introduzir algumas reformas nacionalistas na economia do
país, mas eram contrários a mudanças radicais. Havia de fato um hiato
entre as expectativas revolucionárias das massas e os projetos do partido,
que pretendia assumir esse poder que estava sendo concedido. Essa
situação se tornou rapidamente explícita quando, logo após a insurreição,
a reivindicação de nacionalização de toda a mineração, com controle
operário e sem indenizações, se popularizou. Na década de 1930, a maior
parte das organizações de esquerda e sindicatos já havia começado a
estabelecer essa reivindicação em seus programas. Mas o MNR tinha
posição de apenas ampliar o controle e a fiscalização sobre a grande
mineração. A questão da mineração foi um dos primeiros obstáculos a ser
enfrentado pelo novo governo. De orientação moderada e reformista, o
MNR buscava controlar a revolução dos rumos socialistas defendidos pelos
setores operários influenciados pelos trotskistas do POR, que ganhavam
terreno.
Em 18 de abril de 1952, apenas uma semana após a vitória da
revolução, os operários e camponeses fundaram a Central Operária
Boliviana, sob a liderança dos sindicatos mineiros. A iniciativa de fundar
a COB coube ao POR. Desde sua fundação, os principais sindicatos e
movimentos camponeses do país se dirigiram para a nova central, que se
transformou no grande centro popular da revolução boliviana, com maior
poder que o próprio governo. A disputa entre o MNR e o POR aprofundou-
se após a vitória da revolução boliviana. Os dois partidos defendiam
propostas diferentes para impulsionar o processo revolucionário. Paz
Estenssoro, do MNR, esperava que a nomeação de ministros operários e
algumas concessões mais radicais em seu programa original afastassem
o perigo de uma radicalização da revolução e diminuíssem a influência do
POR. Por outro lado, o POR pretendia transformar a COB em um ponto de
partida para o governo revolucionário de operários e camponeses e afastar
Paz Estenssoro da presidência. Nas primeiras semanas da revolução,
essa perspectiva não estava descartada e de fato vigorou um período de

259
As Revoluções na América Latina Contemporânea

dualidade de poderes entre um núcleo radical na COB e os moderados no


governo do MNR. A revolução, na verdade, não havia ainda terminado e
seus rumos futuros estavam em disputa. Buscando selar essa fratura que se
abria entre o governo de Victor Paz e a autoridade política da COB, o MNR
propôs um cogoverno em que o partido dividiria o poder com ministros
indicados pela própria central sindical. Se por um lado representava a
inegável força política do movimento operário, por outro lado, era uma
engenhosa armadilha para impedir que uma possível radicalização
socialista prosperasse e permitisse a plena independência do movimento
revolucionário. Juan Lechín, então o principal líder mineiro, se tornou Ministro
da Mineração do governo revolucionário. A própria criação e consolidação
da COB, Central Obrera Boliviana, nos primeiros dias pós-revolução, deu
um impulso ainda maior ao movimento de ruptura revolucionária, que via
nas nacionalizações uma de suas principais motivações. A pressão política
tornou-se cada vez mais intensa para o MNR, com assembleias e passeatas
que obrigaram o governo a se posicionar rapidamente sobre as exigências
de nacionalização das grandes mineradoras.

A NACIONALIZAÇÃO DAS GRANDES MINAS DE ESTANHO

A nacionalização da grande mineração foi a iniciativa mais


importante da revolução de 1952. Desde o momento em que a Bolívia passou
a depender da exportação do estanho surgiram propostas de aumentar o
controle da mineração. Como a produção era controlada por três grandes
mineradores, os governos da Bolívia raramente tentaram enfrentar esse
poderio. A proposta defendida desde 1943 pelos mineiros e pelo POR exigia
que o controle das minas passasse aos próprios mineiros. O primeiro número
do jornal da COB, o Rebelión, informava: “A COB defende a ocupação
das fábricas e das minas pelos trabalhadores, como uma alternativa para
prevenir a sabotagem e a desocupação... nacionalização das minas sem
indenização e sob controle operário. O povo boliviano não pode arcar com
o peso que significaria o pagamento de fabulosas indenizações”.

260
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

O governo de Paz Estenssoro discordava. Propunha apenas


um controle maior e mais taxações sobre os grandes mineradores. Para
ganhar tempo, Estenssoro tratou de habilmente dizer que a questão da
nacionalização exigia um estudo sereno em vista de sua complexidade e
do fato de que 20% dos acionistas de Patiño serem norte-americanos (
DUNKERLEY, 58-59). No dia 13 de maio de 1952, o governo decidira criar
uma comissão com a finalidade de estudar as possibilidades técnicas da
nacionalização. Na realidade, seu objetivo era muito mais político do que
simplesmente técnico, visava desarmar o movimento de massas, de forma
que a decisão não fosse tomada no ponto mais alto de pressão política
contra o governo, o que ocasionaria maiores concessões. A postergação da
nacionalização permitiria ainda limitar as reivindicações originais e radicais
do movimento sindical. Embora a nacionalização de toda a mineração
pudesse se inserir na perspectiva nacionalista do MNR de desenvolvimento
capitalista baseado no intervencionismo estatal, as mobilizações de massa
abririam uma dinâmica de luta política que dificilmente o MNR conseguiria
controlar plenamente. Mesmo sendo um reivindicação de caráter anti-
imperialista, poderia abrir uma dinâmica política sob a direção do operariado
mineiro, capaz de colocar abaixo todo o sistema baseado na propriedade
capitalista no país. Deter essa possibilidade era prioridade para o MNR.
Assim, dias depois, Juan Lechín e Mario Torres, sindicalistas mineiros do
próprio MNR, foram incorporados à comissão e as reivindicações da COB,
como nacionalização sem indenização e controle operário da gestão,
passaram ao âmbito das negociações de bastidores. Foi facilitado ao
governo o trabalho para desarticular politicamente a radicalização, que
apontava para a expropriação das minas sem indenizações e com controle
operário pleno.
A primeira medida prática contra os grandes mineradores só foi
tomada em julho de 1952, quando o novo regime declarou o monopólio
da exportação de minerais pelo Estado através do Banco Mineiro. Embora
fosse uma medida de certa forma coerente com a trajetória nacionalista
da qual o MNR procurava se referenciar, foram necessários meses para

261
As Revoluções na América Latina Contemporânea

se realizar. Limitou-se a resgatar os princípios que originaram a criação


do Banco Mineiro pelo ex-presidente German Busch na década de 1930.
Mais do que isso, a medida tinha a finalidade de fortalecer os setores de
pequenos empresários mineradores dos grandes monopólios. O princípio
da medida era fortalecer a capacidade de investimento do Estado de
acordo com a perspectiva do núcleo dirigente do MNR, de controlar mais
do que nacionalizar a grande mineração.

As pressões dos Estados Unidos também cresceram com
ameaças de não comprar os minérios bolivianos caso as minas fossem
nacionalizadas. Procurando se equilibrar entre as pressões dos mineiros e
dos EUA, o governo decretou, em julho, o controle sobre as exportações
de minérios. No dia 2 de outubro de 1952, foi criada a estatal Comibol,
Corporación Minera de Bolivia, com a finalidade de explorar e comercializar
os minérios. A postergação dessas medidas permitiu que os grandes
mineradores se preparassem para a nacionalização e sucateassem suas
instalações. No dia 7 de outubro, as empresas de Patiño, Hothschild e
Aramayo foram ocupadas pelo Estado, e no dia 31, foi assinado o decreto de
nacionalização. Esse decreto tinha muitos limites ao não afetar as médias
e pequenas mineradoras, que passariam a receber incentivos do Banco
Mineiro, representando claramente uma solução de compromisso entre as
reivindicações da classe operária e os temores da pequena burguesia, já
que não atendia plenamente nenhum setor. Preservava um setor privado
na mineração ao mesmo tempo em que concedia um poder limitado aos
sindicatos mineiros (LORA, 1979, p. 249-254).
A situação da grande mineração em 1952 não era nada animadora.
Muitas minas exploravam veios antigos, com maquinarias defasadas
tecnologicamente. A preocupação central do MNR era evitar um possível
rompimento traumático com os interesses dos EUA, algo que não
desejavam, e um boicote econômico. Os preços internacionais estavam em
um período de depressão após a guerra da Coréia, compondo um conjunto
de fatores que fragilizaria o governo frente às negociações internacionais
com os antigos proprietários. Por esse motivo, uma das primeiras medidas

262
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

do líder do MNR Paz Estenssoro, depois de tomar posse, foi nomear um


embaixador para tranquilizar Washington em relação à mineração.
Além das dificuldades conjunturais da economia internacional
e nacional, a recém-fundada Comibol logo também foi vitimada pelos
desvios burocráticos do regime do MNR, pelos favorecimentos pessoais e
corrupção que se ampliou. O governo dos EUA também manteve pressão
constante para que a Bolívia saldasse completamente as indenizações
aos magnatas dos minérios. A importação de novos equipamentos esteve
sempre condicionada ao pagamento de indenizações. Sendo os EUA o
principal comprador de minérios bolivianos, só firmaram um novo contrato
com a COMIBOL em 10 de julho de 1953, depois de acertado o montante
das indenizações a serem pagas. Por outro lado, o MNR recusara-se a
diversificar a exportação para outros países como forma de dissipar as
pressões estadunidenses. Outro dado que ajuda a construir uma explicação
para o recuo das empresas nacionalizadas relaciona-se às inconsistências
da política econômica do MNR, que em seu projeto de diversificar a
economia desviou exageradamente recursos da mineração para a indústria
petrolífera e outras atividades econômicas em detrimento da modernização
técnica da Comibol, o que trouxe efeitos negativos rapidamente para esse
setor.
A nacionalização das minas foi certamente uma grande conquista
da mobilização revolucionária de 1952, em particular para os mineiros,
ainda que não tenham sido atendidas todas as suas reivindicações. O
controle das minas pelos próprios trabalhadores não foi conquistado,
algo só possível em um governo operário e socialista. Para o país, a
nacionalização representava uma possibilidade inédita de desenvolvimento
econômico. A exploração dos recursos naturais por empresas estrangeiras
parecia ter chegado ao fim com a criação da Comibol. O movimento
dos mineiros, suas passeatas e comícios pararam. O governo de Paz
Estenssoro, sem a pressão constante dos mineiros, parecia em melhores
condições de controlar as ações mais radicais. A enorme indenização aos
antigos proprietários sufocou as finanças do país. Além disso, um boicote

263
As Revoluções na América Latina Contemporânea

internacional dos grandes mineradores fez o preço do estanho baixar,


trazendo graves prejuízos à Bolívia. Os grandes magnatas do estanho não
queriam entregar tão facilmente aquela que fora sua galinha dos ovos de
ouro. Novos obstáculos surgiam para impedir mudanças na economia do
país.

A REFORMA AGRÁRIA DE 1953

A revolução iniciada nas cidades em abril de 1952 ampliou-se


para os campos nos meses seguintes e ganhou um grande impulso e
radicalização. Nessa época, a maioria da população boliviana ainda vivia
da agricultura. A Federação dos Camponeses de Cochabamba tornou-se
no começo de 1953 o centro da revolução camponesa em andamento.
O presidente da Federação, José Rojas, era militante do POR e propunha
que os camponeses ocupassem diretamente a terra e expulsassem os
fazendeiros. Para se protegerem e se organizarem, os camponeses iniciaram
a formação de sindicatos e grupos armados. Muitas fazendas começaram
a ser incendiadas e vários proprietários foram mortos. Os membros do
MNR à frente do governo eram contrários a essas propostas e começaram
a combater as propostas do POR e a perseguir seus partidários. Antigos
aliados na luta contra a ditadura, o POR e o MNR lutavam agora entre si
pelo controle da revolução também no campo.
Finalmente, o decreto de reforma agrária foi assinado em 2 de
agosto de 1953 em um grande comício em Cochabamba, centro da rebelião
camponesa. A distribuição de terras atendeu apenas parte dos camponeses,
porque não foram distribuídas terras suficientes. Grandes fazendas com
pouca produção não chegaram a ser tocadas. Os direitos usurpados
das antigas comunidades indígenas foram esquecidos. Para conseguir
terras era preciso aliar-se ao governo e ao seu partido. Os camponeses
que concordassem com o governo recebiam verbas para plantar e
equipamentos; os líderes dos sindicatos muitas vezes eram corrompidos

264
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

pelos membros do MNR com promessas de empregos e presentes. Aqueles


setores que não concordavam eram reprimidos pela polícia, presos, e os
dirigentes sindicais perseguidos. Essas medidas ajudaram o MNR a colocar
sob seu comando o movimento camponês.
O projeto final elaborado pela Comissão de Reforma Agrária
representou uma vitória política fundamental para o MNR. Seu conteúdo
consagrou uma visão de desenvolvimentismo capitalista que incentivava
a grande empresa agrícola e reconhecia, através das indenizações aos
proprietários, o pleno direito de propriedade. A reforma atingia assim dois
objetivos básicos do MNR: do ponto de vista econômico, dar uma base
racional para o desenvolvimento da agricultura empresarial, e do ponto de
vista político, converter o camponês em base social defensora do novo
regime (MALLOY, 264-266.). A legislação, embora previsse a pequena e
média propriedades, ignorou a propriedade coletiva e comunal dos índios,
o que tornou o minifiundismo uma tendência e um obstáculo ao avanço
da economia no campo. O decreto-lei de 02 de agosto de 1953, previu o
pagamento das terras sob a forma de títulos e não estabeleceu um limite de
área inafetável. A área de lotes distribuídos ficou em média 33 ha e gratuitos.
No período de 1953 a 1962, foram distribuídos aproximadamente 4 milhões
de hectares, 13% da área agrícola e beneficiando 133 mil proprietários. Isso
representou 23% da população ativa na época (LAHMEYER LOBO, 1970,
p. 72-74).
Os resultados econômicos da lei de reforma foram limitados. Nas
regiões de grande parcelamento de propriedades, houve uma grande
queda da produção. No Oriente, na região da cidade de Santa Cruz de
la Sierra, a médio prazo estabeleceram-se grandes empresas agrícolas
rentáveis. Os projetos de colonização da região de Santa Cruz foram
objetivados também para aliviar a pressão demográfica e reivindicativa
das grandes concentrações do altiplano e no sentido de criar um novo
polo que desenvolvesse a economia empresarial. Por outro lado, o
ultrafracionamento da terra em algumas regiões, a falta de incentivos e
tecnologia, isolamento social e econômico da maioria dos camponeses

265
As Revoluções na América Latina Contemporânea

levaram a uma situação de produção em pequena escala e pouco produtiva.


Nesse sentido, mesmo os objetivos de desenvolvimento capitalista do
campo não foram atingidos como se esperava. Em sentido geral, podemos
afirmar que o decreto de reforma agrária tinha mais um caráter político e
reacionário que progressista, pois objetivava principalmente impedir que
ocorresse uma distribuição massiva de terras e uma apropriação coletivista
do processo pelo movimento camponês. A essência da lei de reforma
agrária foi impedir um impulso revolucionário no campo, respondendo com
uma reforma de tipo liberal conduzida para frear uma camada de pequenos
proprietários independentes e organizados e proteger os interesses
dos grandes proprietários. Outro aspecto a acrescentar é que a reforma
permitiu também combater os processos autonomistas que o movimento
indigenista ensaiava desenvolver.

O FMI

A política econômica desenvolvida pelo MNR, que inicialmente


refletia as pressões do movimento revolucionário, foi progressivamente
se liberalizando. A partir de 1956, com o enfraquecimento da militância
trotskista que pressionava pela radicalização socialista da revolução, o
FMI retomou as pressões para o governo pagar os débitos atrasados. Os
empréstimos, alimentos e assistência técnica ajudaram a consolidar a
ala moderada no poder e forneceram uma base material para corromper
boa parte do movimento social que se erguia. O que inicialmente era uma
política de estatização dos setores básicos da economia como base para
o desenvolvimento nacional foi substituído pela liberalização econômica,
enfraquecimento do setor estatal e apoio crescente a economia privada.
Como contrapartida às ajudas econômicas, o governo teve que pagar um
alto preço. Além de indenizar os grandes mineradores, o governo boliviano
retomou o pagamento de dívidas com os EUA que não eram pagas desde
1929.

266
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

A economia boliviana era altamente dependente dos Estados


Unidos em 1952, país para o qual se dirigiam 66% de suas exportações e
provinham 41% de suas importações. Do total de dívida externa do país,
cerca de 60% eram com os EUA. A extrema fragilidade e dependência da
economia boliviana também podiam ser atestadas pelo fato de que 97%
dos produtos exportados em 1952 eram compostos de minerais, sujeitos
a flutuações e manipulações dos mercados internacionais (PANDO, 1984,
p.78-80). O violento processo inflacionário após 1952, que fora inicialmente
combatido com a adoção de câmbios diferenciados para baratearem
produtos alimentícios, terminou por incentivar uma rede de corrupção entre
os quadros dirigentes do MNR. Mais do que isto, esse período assistiu a uma
violenta corrosão salarial e ao crescimento de uma burguesia parasitária
em torno do aparelho de Estado. Entre 1945 e 1950, o PIB teve crescimento
de 0%, e entre 1950 e 1955, teve taxa negativa de 0,8%. O custo de vida
disparou: para um índice 100 em 1945, atingiu 188 em 1950 e disparou para
2525 em 1955 (BETHELL, 2008, p. 106).
Tentando enfrentar a situação de descontrole inflacionário, o
governo decretou o primeiro plano de estabilização econômica em maio
de 1953, refletindo um claro alinhamento com as diretrizes estadunidenses.
A sua principal medida foi estabelecer uma paridade fixa do peso boliviano
com o dólar e congelar os salários depois de um pequeno aumento. As
consequências mais imediatas foram o surgimento de um mercado paralelo
nutrido pelos câmbios diferenciados e o encarecimento dos gêneros
alimentícios. A crise econômica, ao invés de ser contida, se generalizou.
Entre 1955 e 1961, o custo de vida cresceu 800% em La Paz (LOBO, 1970, p.
78.). O deslocamento ideológico do regime correspondeu ao fortalecimento
e rearticulação da nova burguesia, que se beneficiava, juntamente com os
EUA, da crise econômica.
Coerente com a nova orientação econômica, o governo promulgou,
em 1956, um novo Código do Petróleo, que depois de 15 anos de controle
estatal, reabria a exploração para empresas estrangeiras. Além de significar
uma clara reorientação das propostas originais defendidas pelo MNR,

267
As Revoluções na América Latina Contemporânea

era reflexo direto das pressões estadunidenses que ganhavam força e se


aproveitavam da delicada situação financeira do país. Rapidamente, grandes
empresas petrolíferas dividiam o território boliviano. Socialmente, esse
conjunto de medidas criava uma estrutura material para uma recomposição
sob novas bases, da burguesia e pequena burguesia. Por outro lado, a
classe operária era enfraquecida e desorganizada economicamente.
A revolução boliviana, em um primeiro momento, conseguiu afastar
a burguesia formada pelos grandes mineradores e fazendeiros. Mesmo
com a vitória popular, o destino da revolução não estava traçado. Entre
os partidos que apoiaram a revolução existiam muitas diferenças, que
foram transformadas em luta aberta. O MNR não defendia uma revolução
sob a liderança operária e camponesa. Propunha medidas para controlar
os capitalistas estrangeiros no país, mas o poder deveria ser mantido nas
mãos dos grandes proprietários. O POR pretendia ir muito além, propondo
uma revolução em que os trabalhadores operários e os camponeses
assumissem o poder. Propôs a ocupação direta das terras pelos camponeses,
nacionalização de todas as minas com controle operário, formação de um
exército revolucionário e que o poder do país fosse exercido pela COB e
não pelo MNR.

O governo, pressionado pelas mobilizações dos mineiros e
camponeses e temendo distanciar-se desses setores e se isolar, foi
obrigado a atender parte das propostas do POR, como a reforma agrária e
a nacionalização das minas. Mas realizou essas propostas de forma parcial
ou sem procurar questionar o regime da propriedade privada. Ao mesmo
tempo, os partidários do POR eram cooptados pelo regime ou na maior
parte presos sob a alegação de agirem para enfraquecer as conquistas
da revolução. Na verdade, eram presos simplesmente por terem ideias
diferentes e não concordarem com as medidas do governo. Com a prisão
de muitos “poristas”, o POR foi se enfraquecendo e chegou a dividir-se em
1954, com uma de suas alas recebendo cargos no governo e na COB e
aderindo ao MNR. Guillermo Lora permaneceu à frente do POR nos anos
seguintes.

268
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

A revolução boliviana de 1952 não se aprofundou em suas


perspectivas nacionalistas e democráticos originais, muito menos as
socialistas, e pouco a pouco deu passos para trás. A vontade de tornar a
Bolívia um país independente e soberano foi substituída pelo domínio cada
vez maior dos Estados Unidos sobre os assuntos do país. O governo de
Victor Paz Estenssoro pediu a ajuda dos Estados Unidos para reorganizar
as Forças Armadas que a revolução derrotara. As milícias operárias
e camponesas surgidas em 1952 foram desmobilizadas. Novas áreas
mineradoras e de petróleo foram abertas às empresas multinacionais.
A partir de 1954, grupos de técnicos e economistas norte-americanos
passaram a supervisionar a economia do país em troca de empréstimos
à Bolívia. A burguesia boliviana tomou a revolução nacional das mãos das
lideranças operárias e populares e restabeleceu o domínio dos Estados
Unidos sob os destinos do país. Esse processo, porém, não estava terminado.
A experiência popular se incorporou para resisitir e retormar esse mesmo
rumo revolucionário nos anos seguintes.

A DÉCADA DE 1960 E A NOVA CONJUNTURA DA ECONOMIA


MUNDIAL

A desestabilização econômica e política vivida pela Bolívia de


meados da década de 1960 em diante estava inserida em um contexto
político e econômico mais amplo, derivando-se daí as grandes linhas
do período histórico posterior. Na América Latina, os desequilíbrios das
economias centrais abriu espaço para que prosperassem modelos e políticas
econômicas nacionalistas, reformistas e de orientação desenvolvimentista.
De certa forma, a revolução de 1952 foi parte desse processo mais amplo.
O novo arranjo econômico implicava necessariamente uma repactuação
do poder, inclusive entre os setores das burguesias latino-americanas.
Um grau maior de flexibilidade e autonomia dos governos em relação ao
imperialismo estadunidense exigia alianças mais sólidas com os setores

269
As Revoluções na América Latina Contemporânea

populares. E era esse modelo político - base dos governos nacional-


populistas das décadas de 1950-1960 como o MNR boliviano - que
era posto em questão. Devemos acrescentar que se tratava ainda, no
campo mais político, de barrar as repercussões da Revolução Cubana de
1959 no continente. Assim, as limitadas medidas de soberania nacional
conquistadas pelo movimento de massas com a Revolução de 1952, como
a nacionalização das minas, o controle das jazidas de gás e petróleo e a
reforma agrária foram alvejadas pelos EUA e seus aliados locais.
O reordenamento econômico implicava retomar conquistas sociais
das classes trabalhadoras e espaços de soberania nacional estabelecidos
no período pós-Segunda Guerra. Esse era o caso específico da Bolívia. De-
vemos recordar que o MNR já buscava desmontar as principais mudanças
estabelecidas logo após a estabilização do processo revolucionário, como
mencionamos. No entanto, o MNR estava muito associado no imaginário
popular boliviano e nas relações sociais com setores dos movimentos orga-
nizados com a própria revolução. Por outro, perdia rapidamente o controle
sobre os setores operários mais organizados decisivos da política nacional,
como os mineiros da COB e os sindicatos camponeses ligados aos milita-
res. De fato, o MNR perdia sua maior densidade política e seu lugar como
amortecedor social dos conflitos.

O GOLPE MILITAR DE 1964

O período de governos do MNR alçados com a revolução de abril


de 1952 terminou brutalmente com o golpe de Estado de 4 de novembro
de 1964, liderado pelo general René Barrientos, vice-presidente do país e
egresso das fileiras do próprio MNR. O golpe, embora fosse uma operação
de controle militar, teve amplo apoio civil, que refletia a desagregação do
núcleo original do MNR. Entre muitos setores militares mais conservadores,
o golpe foi visto como um acerto de contas entre civis e militares do MNR.
Barrientos foi apoiado por uma ala do MNR liderada por Siles Suazo,

270
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

além de outros partidos, como o PRIN de Juan Lechín, o PRA (Partido


Revolucionário autêntico), o PDC (Partido Democrata Cristão) e as forças
já tradicionalmente contrárias ao regime do MNR, como o partido de
extrema direita FSB (Falange Socialista Boliviana) e Partido Liberal que
formaram um “Conselho Democrático do Povo”. O volúvel dirigente Juan
Lechín chegou a ser levado nos braços de uma multidão ao palácio para
saldar os golpistas.
No novo governo, envolveram-se vários partidos como o PSD,
Partido Social Democrata, PDC, PIR e que formam a FRB, Frente de la
Revolución Boliviana, em 16 de dezembro de 1965, para preparar a disputa
das eleições, os quais constituíam pequenos agrupamentos em torno de
personalidades isoladas agora agrupadas. Barrientos impulsionou ainda
um braço civil do regime, o MPC, Movimiento Popular Cristiano, buscando
uma base civil própria de articulação política. As iniciativas da ditadura
militar apoiavam-se internamente em um pacto que se estabeleceu entre
os militares e as principais organizações camponesas do país nos últimos
anos dos governos do MNR, produto da “Ação Cívica” das Forças Armadas.
O chamado pacto militar-camponês deu sustentação de massas aos
militares, o que lhes permitiu enfrentar e neutralizar o sindicalismo mais
mobilizado com relativo êxito. O pacto militar camponês tratava de nivelar
os opositores com suborno e perseguições aos dirigentes que insistissem
em manter-se independentes. No entanto, o jogo de forças ainda não
estava definido mesmo no interior do novo exército, que naquele momento
concentrava as principais linhas de força e as divisões de interesses
entre a própria burguesia boliviana. Barrientos não conseguira controlar
plenamente a situação de desequilíbrio das principais forças sociais e
políticas. Sua orientação de confronto e repressão aos mineiros provocara
resistências mesmo entre os militares que temiam pela preservação do
exército e tinham muito presente o fantasma de 1952.
O regime do general Barrientos e sua política econômica
correspondiam à necessidade de um novo arranjo político para satisfizer
o novo pacto econômico proposto pelo imperialismo. Barrientos entregou
os setores mais rentáveis da economia nacionalizada para empresas

271
As Revoluções na América Latina Contemporânea

estrangeiras, praticamente retornando à situação anterior à revolução


de 1952, de saque sistemático dos recursos naturais e humanos do país.
Desencadeou-se uma ampla abertura da economia nacional e as novas
concessões de exploração de jazidas minerais foram transferidas às
multinacionais (DUNKERLEY, 1987, p. 114-117). O enfrentamento político
com os mineiros e demais setores politizados da classe operária boliviana
tornou-se inevitável, pois se tratava de aplicar uma política econômica que
se chocava com a revolução de 1952.
Externamente, o apoio ao golpe foi ainda mais importante. O
governo de Barrientos, além de atacar as limitadas conquistas democráticas
do regime iniciado em 1952, estreitou ao máximo os laços de dependência
com os Estados Unidos, demonstrando que o principal apoio político do
governo militar encontrava-se de fato fora das fronteiras nacionais do país.
Esse apoio torna-se explícito nas eleições de 3 de julho de 1966, respaldadas
pela OEA, e que foram destinadas a legitimar a ditadura militar1.
Entre as primeiras medidas tomadas por Barrientos, foi ressuscitada a
reacionária Constituição de 1945, escrita sob o domínio das oligarquias do
estanho. O governo da início a um período de reação violenta contra os
movimentos sociais organizados. Os decretos de maio de 1965 rebaixaram
em 40% os salários dos mineiros e reorganizaram a Comibol, a Corporación
Minera de Bolivia.
A resistência ao novo governo partiu de diversos polos e foi tratada
brutalmente pelos militares. Um efêmero Comitê Revolucionário do Povo
foi formado unificando diferentes tendências políticas oposicionistas logo
após o golpe de 4 de novembro, sem que conseguisse se consolidar. A COB
quase de imediato se retirou desse organismo. A ação dos mineiros ganhou
força após os ataques aos seus direitos, desencadeados por Barrientos.
Em maio de 1965, os mineiros saíram às ruas em mobilizações que abriram
uma combativa greve geral que se irradiou dos centros mineiros para La
Paz. Como parte desse momento de atividades, os operários das fábricas
da região de Pura Pura também se mobilizam e reivindicam liberdade

1 Em 1967, o regime adere formalmente ao FMI, e em fevereiro de 1968, é permitida a exporta-


ção de gás pela Gulf Oil, multinacional norte-americana.

272
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

aos dirigentes da COB e melhorias salariais. As lutas sociais começavam


a retomar a iniciativa e os dispositivos militares se reorganizam para
enfrentá-los.
Novas medidas repressivas são tomadas em junho de 1965.
Proíbem-se as reuniões sindicais nos locais de trabalho e o posicionamento
dos sindicatos sobre problemas políticos nacionais. Mas a resistência dos
mineiros se intensifica, demonstrando a ousadia dos trabalhadores para
enfrentar o governo militar e defender suas condições de vida. Um dos
acontecimentos mais eloquentes ocorreu em 18 de setembro de 1965,
quando cerca de 200 mineiros atacaram a sede da polícia de Llallagua
com dinamites para tomar armas. O exército foi obrigado a se deslocar
da cidade próxima a Catavi para reprimi-los, porém outro contingente
mineiro atacou o próprio quartel das tropas. Em todos esses combates
morreram 82 pessoas e 200 ficaram feridas, em sua maioria mineiros.
Como consequência, várias lideranças políticas são perseguidas, presas e
exiladas. Juan Lechín, apesar de inicialmente ter apoiado o golpe, é exilado
no Paraguai. Milhares de mineiros são demitidos e as tropas militares passam
a ocupar de forma permanente as minas, até então núcleos principais de
resistência e mobilização oposicionista. A COB, os sindicatos e os partidos
de oposição são postos na ilegalidade. A sede da COB é ocupada pelo
exército e a proibição de greves decretada.
Um grupo de partidos de esquerda articula-se nesse período
como Codep, Consejo Democratico del Pueblo, e lança um manifesto
em 31 de dezembro de 1965 para “lutar contra a opressão militar e com o
propósito de conseguir o exercício pleno da democracia”. Composto pelo
PRIN, o MNR (setor Alderete), PCML, grupo Espártaco e POR - Vargas - ,
chamou a abstenção nas eleições de julho de 1966 (LORA, Contribuición
a la Historia Politica de Bolivia, vol. 2, 406-409). Durante o ano de 1966,
a partir da articulação dos trabalhadores em fábricas se constituiu um
“Comitê de Defesa dos Trabalhadores” para cobrir a ausência da COB,
que estava proscrita, e o controle governamental sobre os sindicatos. Nas
minas ocupadas organizavam-se sindicatos clandestinos sob duríssimas
condições. E Barrientos é proclamado presidente nas eleições de 1966,
apoiado pela “Frente da Revolução Boliviana”.

273
As Revoluções na América Latina Contemporânea

O MASSACRE DE SAN JUAN E A GUERRILHA DE CHE

As mobilizações contra o regime militar que se instalava ocorreram


no mesmo período em que a guerrilha de Che Guevara agia no país. De
março a outubro de 1967, a guerrilha agiu isoladamente na região oriental
da Bolívia. Guevara entrou no país em novembro de 1966 e a CIA2 alertou
o governo boliviano quatro meses depois. A guerrilha era uma ação de
efeitos políticos internos muito mais perigosos do que propriamente uma
ameaça militar. Embora isolada no Oriente, interagiu politicamente com a
mobilização dos mineiros. Estes, por exemplo, aprovaram na clandestinidade
a doação de um dia de trabalho para ajudar a guerrilha. Na mina Siglo XX,
os mineiros declararam “território livre”. O panorama das lutas sindicais
e populares mudara de fisionomia. Os partidos comunistas – stalinistas
e maoístas – boicotaram a guerrilha e ajudaram a isolar politicamente o
grupo guevarista. Muito embora o movimento operário boliviano possuísse
já uma tradição de resistência armada com suas milícias sindicais surgidas
em 1952, não deixaram de reconhecer o sentido libertário do esforço de
Che Guevara.
Esses movimentos colocaram em alerta todo o governo militar.
Barrientos reagiu e decretou estado de sítio3. A guerrilha dera um excelente
pretexto para Barrientos atacar o coração do movimento operário e núcleo
mais articulado e experimentado de resistência ao governo. No dia 3 de
junho de 1967, é decretada uma greve de 24 horas em Catavi e Siglo XX para
que se organizasse uma passeata para a cidade de Oruro. O alto comando
militar decide então preparar um ataque militar minucioso e sigiloso para
quebrar o coração da mobilização em andamento. A resposta da empresa e
do governo seguiram implacáveis. Foi fechada a Mina de Catavi e demitidos

2 A ação da CIA durante o governo Barrientos foi determinante. O cel. Fox, adido militar no país,
agiu junto com Barrientos no golpe de 1964. Nos anos seguintes, multiplicaram-se missões
militares dos Estados Unidos no país e o envolvimento direto no assassinato de Che Guevara.
O caso mais notório foi a confissão pública, em 1968, do ministro do Interior Antônio Arguedas
de que ele era agente da CIA.
3 Luiz PERICÁS, Che Guevara e a luta revolucionária na Bolívia, p. 211-221.

274
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

todos os 2000 mineiros. O governo decretou a Lei de Segurança de Estado.


O deputado oposicionista Marcelo Quiroga Santa Cruz foi preso com
outros parlamentares e levado para uma base militar na selva amazônica.
Desbaratada a resistência inicial dos mineiros, tudo foi concentrado em
esmagar os guerrilheiros de Che Guevara isolados no Oriente. As forças
da guerrilha contavam com 52 combatentes (ELN – Ejercito de Libertación
Nacional), dentre os quais poucos lograram sobreviver. Che Guevara foi
capturado em 8 de outubro de 1967 e assassinado no dia seguinte. O
desmantelamento da guerrilha e a morte de Che Guevara tiveram enorme
repercussão interna no país. Toda uma geração de jovens da pequena
burguesia urbana foi atingida por esse fato. O ELN prosseguiu atuando e
em 1968 lançou um documento intitulado “Voltaremos às montanhas”. Mas
no ano seguinte Inti Peredo, principal dirigente, é capturado e morto sob
tortura, o que desarticularia por um período a organização4.
Em 1969, o general Barrientos morreu em um acidente aéreo, o
que facilitou o caminho para os militares nacionalistas dispostos a uma
flexibilização política que permitisse seguir o regime militar. O general
Ovando Candia (1969-1970) representava uma fração do exército disposta
a implantar políticas de controle e nacionalização dos recursos naturais.
Um dos objetivos era retomar o pleno controle das jazidas de gás e
petróleo e buscar apoio social de setores populares. O documento básico
de orientação do novo governo, conhecido como “Mandato Revolucionário
de las Fuerzas Armadas”, de 26 de setembro de 1969, fornecia as diretrizes
do grupo militar nacionalista ao propor o desenvolvimento de uma suposta
terceira via, “nem socialista, nem capitalista” para a economia. Foi elaborado
a partir daí um plano intitulado “Estratégia para o desenvolvimento nacional”
com o objetivo de industrializar a Bolívia. A proposta de nacionalização
da Gulf Oil continha em seu bojo, portanto, não apenas uma medida de
caráter conjuntural, mas uma avaliação de maior fôlego sobre os resultados
das medidas econômicas anteriores e uma perspectiva concreta futura,

4 Entrevista com Antônio Peredo, La Paz, 17-07-2001.

275
As Revoluções na América Latina Contemporânea

influenciada pelos debates desenvolvimentistas da Cepal à época. Era


realizado um balanço dos resultados negativos do Código de Petróleo de
1955, que previa uma divisão dos ganhos com a extração dos recursos
que trazia grandes prejuízos ao país. Em 17 de outubro de 1969, a empresa
petrolífera Bolivian Gulf Oil foi nacionalizada.

A COMUNA DE LA PAZ DE 1971

A abertura política arrancada de Ovando favoreceu uma rápida


rearticulação das organizações operárias, que terminaram por impedir
naquele momento a ascensão da linha dura do exército. Abriu-se um
ambiente político novo de debates e elaboração de alternativas para
o desenvolvimento do país e as nacionalizações voltaram à pauta de
debates. Em 6 de outubro de 1970, uma tentativa de golpe dos setores
mais reacionários do exército, dirigidos pelo general Miranda, fracassa.
Com a queda do governo Ovando, em outubro de 1970, enfraquecido pela
ala menos flexível do exército, sucedeu-lhe o general Juan José Torres,
apoiando-se em um poderoso movimento social comandado pela COB e
partidos de esquerda. Uma greve geral fora decretada pela COB, que foi
convidada a dividir o governo com o general. Depois de intenso debate,
os sindicalistas recusaram a proposta, temendo repetir a experiência de
cogoverno de 1952. Em contrapartida, a central sindical lança-se, com o
apoio de alguns partidos políticos, à constituição do “Comando da COB
e do Povo”, que originaria a Assembleia Popular ou Comuna de La Paz.
O objetivo era se aproveitar das debilidades e divisões entre os militares
para avançar uma alternativa independente de poder operário e popular.
De fato, era uma tentativa de retomar sob uma base política superior a
experiência da revolução de 1952, principalmente o lugar da COB como
parlamento operário-popular.
Com a formação da Assembleia Popular, abre-se uma nova
dinâmica política no país. O governo do general Torres, embora contasse
com a simpatia de amplos setores do movimento sindical, é rivalizado

276
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

crescentemente pelo desenvolvimento da Assembleia Popular e


desestabilizado pelos setores mais à direita dentro do próprio exército. Em
1° de maio de 1971, é inaugurada a Assembleia Popular em La Paz, com
deputados eleitos em todo o país e diretamente pelos sindicatos, partidos
operários, organizações camponesas e da juventude. A declaração final no
1º de maio definia a Assembleia Popular como “órgão de poder da classe
operária e das massas bolivianas”. Mais do que isso, afirmava constituir uma
“frente antiimperialista revolucionária dirigida pela classe operária” com o
objetivo de garantir “o triunfo da revolução boliviana e seu entroncamento
no socialismo e na materialização da liberdade nacional” (Declaración de la
Asamblea Popular, 1° de maio de 1971).
Torres era um rebento tardio do desenvolvimentismo nacionalista.
É a partir dessas diretrizes que elaborara seu “Plano Global”, o qual incluía
um projeto de desenvolvimento mineiro industrial e agrário. A virada da
situação política e econômica internacional dava-se no período 1968-1970,
anos de grandes transformações estratégicas dos centros econômicos e
financeiros capitalistas. O conteúdo do “Mandato das Forças Armadas”
propunha um modelo de desenvolvimento econômico que combinasse
três formas de propriedade: a estatal, a proteção da indústria nacional
e a estrangeira, quando contribuísse para o desenvolvimento nacional.
Segundo a concepção de Torres, nos países semicoloniais só o exército
possuiria organicidade para defender o país da exploração imperialista
(DUNKERLEY, 1987, p. 114-117). O Plano Global de Desenvolvimento
previa a articulação dos setores de extração de jazidas minerais com uma
política de desenvolvimento industrial do país. Por outro lado, os operários
mineiros, muito ativos politicamente e influenciados pelos trotskistas do
POR, debateram no contexto da Comuna uma proposta para aprofundar
a gestão estatal da mineração de maneira a geri-la sob o controle dos
trabalhadores. Tratavam-se de propostas de ruptura que devem ser
contextualizadas historicamente e que demarcaram a busca de alternativas
de desenvolvimento econômico ao capitalismo atrasado do país.
O projeto econômico e político de Torres era, mesmo se insuficiente
para os objetivos socialistas em debate na Comuna, incompatível com os

277
As Revoluções na América Latina Contemporânea

novos interesses hegemônicos dos Estados Unidos na América Latina, e


sofreu desde o início severa oposição. Ao mesmo tempo, é preciso recordar
que o nacionalismo econômico boliviano o aproximava das medidas
tomadas nesse mesmo momento por Salvador Allende no Chile e Juan
Velasco Alvarado no Peru. Muito provavelmente a subida dos socialistas
ao poder no Chile, em 1970, e as medidas nacionalistas e concessões
democráticas de regimes militares no Peru e Bolívia eram reflexo das
dificuldades e impasses para se estabilizar um projeto pontual de soberania
nacional sob a hegemonia dos Estados Unidos nos regimes da região. A
possibilidade de um governo socialista saído da radicalização das forças
populares em torno da Comuna de La Paz durante o governo de Torres era
vista pela reação como um perigoso impulso à radicalização dos regimes do
Chile e Peru e fonte de desestabilização para as ditaduras policial-militares
do cone sul.
Em contraposição às iniciativas de Torres, um projeto de participação
dos sindicatos mineiros na administração das minas começou a ser debatido
nos sindicatos a partir de abril de 1970. O projeto da FSTMB defendia a
total integração da indústria mineira desde a fase de extração, fundição
até a comercialização como uma das formas de recuperar e reorganizar o
complexo mineiro. Segundo a proposta, o controle da corporação mineiro-
estatal seria feito através de conselhos de produção, que funcionariam com
a participação de um delegado das minas, um delegado dos engenheiros
e outro da superfície. Por sua vez, funcionariam comissões de minas, de
engenharia e a de superfície. Toda essa estrutura seria subordinada a um
diretório local. O órgão superior da Comibol seria um diretório composto
por três diretores do governo e três dos operários e pelo gerente geral.
O gerente seria eleito pelo diretório de uma trina composta pela proposta
da direção executiva da FSTMB (JORNAL PRESENCIA, 01 jul. 1971). Foi
constituída uma comissão de trabalho como produto do debate sobre o
controle da mineração com membros da Federação dos Mineiros e partidos
políticos para preparar um projeto de estatização de todos os meios de
produção do país (LORA, tomo 2, 1900-1923, p. 486). O projeto não chegou

278
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

a ser colocado em prática, pois um novo golpe militar, desfechado em 19


de agosto de 1971, liderado agora pelo coronel Hugo Banzer, conseguira
derrubar Torres e fechar a Comuna de La Paz.

DA CONTRARREVOLUÇÃO BANZERISTA À DIFÍCIL


REDEMOCRATIZAÇÃO

A ditadura de Banzer prolongou-se de 1971 até 1978 e legou


uma instabilidade política e desarticulação econômica no país que
atingiu níveis alarmantes nos anos seguintes. Sua política econômica de
internacionalização da economia não permitiu à Bolívia desenvolver-se
beneficiando-se dos atrativos preços do petróleo e gás da década de 1970.
O sociólogo boliviano Aldo Durán Gil chega a caracterizar esse período
como uma crise de acumulação, contestando a tese de que o fundamento
do atraso teria sido resultado de uma dilapidação irresponsável de
capital pela burguesia boliviana. Para Durán Gil, a análise do processo de
acumulação e sua crise deve levar em consideração as condições políticas
e ideológicas em que se dá aquele. Desta maneira, a acumulação e sua
crise foram caracterizadas na década de 1970 pelos seguintes fatores:
• A relativa expansão foi realizada basicamente com investimentos
do Estado, e foi insuficiente para transformar as estruturas
econômicas do país, tendo como principal consequência a
transferência maciça e acelerada de recursos ao setor privado;
• O estado militar teve um papel crucial nesse processo acelerado
de acumulação de capital, através de um esforço grande dos
setores mineiro e agrário exportador;
• O Estado substituiu o papel dos bancos no investimento dos
setores produtivos e “improdutivos” dominantes;
• A crise de acumulação foi agravada pela preponderância do
capital financeiro dos EUA nos setores chave da economia do
país (DURÁN GIL, 2003, p. 191-193).

279
As Revoluções na América Latina Contemporânea

Entre os anos de 1970 e 1975, a extração do petróleo e gás


bolivianos cresceram de 5,7% para 31,6% em participação, atingindo cerca
de 1/3 das exportações do país. Em 1972, Banzer publica uma nova lei de
hidrocarbonetos que permite a exploração de empresas estrangeiras sob
a cobertura de contratos com a YPFB. O Estado permanece proprietário
das fontes, recebendo 50% dos benefícios, e a YPFB mantém o monopólio
do transporte, refino e exportação. Essa situação permaneceu estável
até a década de 1990 (POMPEAU, 2005, p. 202). A produção aumentou
um pouco até 1976, depois começou a cair por falta de investimentos em
exploração de novas jazidas. Em 1988, a produção de barris de petróleo/
dia caiu para 21.000 contra 47.000 em 1973. Os efeitos da crise mundial dos
anos 1970 tiveram profundo impacto na economia local, que não entrou em
colapso por conta da produção nacional.
Entre 1978 e 1982, a Bolívia mergulhou em uma situação de
caos político e grande instabilidade com governos que se sucediam
rapidamente, golpes e contra-golpes militares, ampliação do narcotráfico
e aumento exponencial da pobreza. As antigas forças políticas perdem
espaço e capacidade de articulação e surge um forte movimento
indigenista e camponês. Em 1982, o novo governo do presidente Siles
Suazo do MNR busca implementar um plano de estabilização econômica
liberal que enfrenta grande resistência dos setores sociais populares.
A situação econômica do país era catastrófica e iria piorar. A inflação já
superara 1.000% ao ano e o PIB caíra 0,9% em 1981 e em 1982 caiu mais
8,7%. Durante a sua conturbada gestão, foram tentados seis planos de
estabilização que não detinham a crescente inflação e mantinham aberto o
déficit por conta da brutal dívida externa. A hiperinflação começou em abril
de 1984, sendo detida parcialmente por medidas emergenciais. Em janeiro
de 1985, estava em 68,8% ao mês; em fevereiro, chegou a 182,8%.
Nas eleições de julho de 1985, outro antigo líder do MNR, Victor
Paz Estenssoro, torna-se presidente pela quarta vez. Durante seu primeiro
governo, em 1952, foi levado a nacionalizar a grande mineração após vigorosa
pressão dos mineiros da COB. Uma difusa memória revolucionária de 1952

280
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

estava ainda associada ao seu nome e ao passado do MNR. A ideologia


do nacionalismo emenerrista, embora fosse de um lado forte obstáculo
ao desenvolvimento e consolidação de partidos operários e socialistas de
massa, ligava-se à revolução de 1952 e dificultava a imposição de um plano
de ajuste econômico liberal. Era necessário ao velho núcleo conservador
do MNR, agora alinhado ao neoliberalismo de Margareth Tatcher e Ronald
Reagan, o desmonte dos setores políticos e econômicos que concentravam
a principal herança revolucionária de 1952, a classe operária organizada em
torno da mineração nacionalizada e as organizações agrupadas em torno
da COB.
Em 29 de agosto de 1985, foi baixado o decreto 21060, portador da
Nova Política Econômica do MNR sob o comando de Victor Paz. Tratava-
se de um plano de ajuste estrutural acordado com o FMI e os EUA, que
provocou imediata recessão econômica e desemprego (CANO)5. Tratava-
se de um verdadeiro plano de guerra contra o povo boliviano. Após
aprovação dos EUA, foi discutido a portas fechadas pelo novo governo de
Paz e os chefes militares, e continha entre suas principais medidas:
• um aumento de sete vezes no preço da gasolina;
• restrição da expansão monetária;
• liberação dos mercados de produtos e dinheiro, com autorização
para abertura de contas em dólares;
• flexibilização do mercado de trabalho facilitando as demissões,
além de anulação da indexação dos salários e congelamento
dos salários do setor público;
• fechamento de 18 das 23 minas da Comibol. Os grandes centros
da mineração estatal são privatizados e os efeitos sociais são
devastadores: pelo menos 27.000 operários demitidos, 65%
dos trabalhadores do setor público.

5 Os planos de ajuste tiveram efeitos devastadores na América Latina nos anos 1980. A taxa
média anual de crescimento do PIB foi de 0,6% entre 1980 e 1985, subindo para 1,9% no
quinquênio seguinte. A participação da região nas exportações mundiais caiu de 5,5% para
3,9% entre 1980 e 1990, no entanto isto não impediu a enorme sangria de recursos via dívida
externa. No mesmo período, a transferência líquida de recursos atingiu US$ 198,3 bilhões e a
dívida saltou de US$ 166,6 em 1979 para US$ 443,0 bilhões em 1990.

281
As Revoluções na América Latina Contemporânea

A COB organiza uma greve geral de mais de duas semanas e


paralisa o país. Os mineiros organizam uma marcha a La Paz, mas são
detidos pelo exército a 100 quilômetros da capital e forçados a retornar em
trens para Oruro. É a última grande batalha unificada da resistência mineira
antes do desmantelamento da Comibol. O governo, prevendo a reação dos
trabalhadores, é implacável. É decretado estado de sítio, toque de recolher
e a prisão e deportação para a Amazônia de 179 dirigentes sindicais.
Perseguidos, com seus líderes presos, sufocados economicamente - suas
famílias sofrem com a falta de salários e comida -, começa o grande êxodo,
a dispersão do setor mais politizado e organizado da classe operária
boliviana. Milhares de famílias migram para a zona rural ou para a periferia
dos grandes centros urbanos.
Paralelamente à crise momentânea do movimento operário
sob o fogo do neoliberalismo, um novo sistema de governo parecia
se consolidar a partir de 1985. Eram partidos moderados, ligados aos
setores da burguesia, que se alternaram no poder em quatro processos
eleitorais consecutivos: 1985, 1989, 1993 e 1997. Tratava-se, sob o véu da
consolidação de uma aparente democracia moderna, de um verdadeiro
pacto que excluía os setores populares, indígenas e operários através da
organização de coalizões parlamentares e governamentais. Grande parte
da nova população mobilizada pelos movimentos sociais era composta por
fugitivos da recessão econômica da década de 1980. Os governos desse
período, porém, não dão trégua. Sob o governo de Jaime Paz Zamora,
antigo dirigente de esquerda (MIR), agora convertido ao neoliberalismo,
são aprovadas novas medidas para incentivar as privatizações e capitais
estrangeiros. Um Novo Código de Mineração é aprovado em 5 de abril de
1990 e tenta reordenar a produção sob controle privado.
Sanchez de Lozada (1993-1997), ex-ministro da Economia de Paz
Estenssoro em 1985 e agora presidente, aprofunda o curso liberal do
regime. São aprovadas sete novas leis visando acelerar as privatizações
e ao enfraquecimento da previsível resistência popular: reforma do
poder executivo, participação popular, capitalização das empresas

282
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

estatais, reforma educativa, descentralização, lei de terras e lei dos


hidrocarbonetos. A chamado “política de capitalização”, uma forma velada
de privatização, favorecia as empresas multinacionais sob o pretexto de
atrair investimentos ao setor de energia. Foram privatizadas dez empresas
em cinco anos, com a entrada de US$ 1,6 bilhão no país, sendo 51% para
as empresas de hidrocarbonetos, 37% para telecomunicações, 6% para
eletricidade e 5% para transportes. A concentração de poder econômico
aumentou brutalmente e calculava-se que existiam, além das empresas
privatizadas, cerca de cem outros grupos econômico-financeiros mistos
entre estrangeiros e nacionais, cerca de quinhentas empresas médias e
pequenas na indústria e comércio e, 500 mil microempresas, com menos
de quatro pessoas por estabelecimento. Os bancos espanhóis Santander
e Central Hispano passaram a controlar mais de um terço dos ativos
financeiros do país, incluindo a administração dos fundos de pensão
(GAMBINA, 2002, p. 53).
A vitória na chamada Guerra da Água ocorrida em Cochabamba
de dezembro de 1999 a abril de 2000 - quando movimentos sociais
paralisaram o país exigindo o fim da privatização da água pela empresa
multinacional Bechtel - permite afirmar que um novo ciclo de mobilizações
antiliberais ganhara a ofensiva e retomava a perspectiva e memória das
nacionalizações da revolução de 1952. Em 20 de setembro de 2003, mais
de 500.000 pessoas se manifestam em todo o país contra o projeto de
exportação das fontes naturais através do Chile, episódio conhecido como
Guerra do Gás. Foi o mesmo movimento político desencadeado em 2002
que ganhava contornos cada vez mais dramáticos. A tensão cresceu em
fevereiro de 2003, e em outubro o exército se enfrenta com os habitantes
da cidade de El Alto, ao lado da capital La Paz. O enfrentamento une
camponeses, indígenas, membros do sindicalismo da COB, desempregados
e excluídos de todo tipo. São formadas barricadas que bloqueiam a capital
e marchas se sucedem para pressionar o governo. A onda de mobilizações
alcança as comunidades e cidades do altiplano e os departamentos de
Oruro e Potosi.

283
As Revoluções na América Latina Contemporânea

O presidente Lozada renuncia no dia 17 de outubro e o vice-


presidente, Carlos Mesa, assume o governo se comprometendo com a
realização de um referendo sobre o gás. Esse referendo sobre a gestão
dos hidrocarbonetos de julho de 2004 teve resultados incontestáveis: dos
4,4 milhões de eleitores submetidos a cinco questões, os resultados foram:
mais de 80% dos votantes aprovaram a revogação da lei de 1997; mais
de 90% aprovaram a recuperação pelo estado boliviano da propriedade
dos hidrocarbonetos; mais de 85% se pronunciaram pela reativação da
empresa pública de hidrocarbonetos; mais de 60% pela utilização do gás
como fonte estratégica para obter acesso à soberania da Bolívia ao oceano
pacífico; enfim, mais de 65% aprovaram a exportação do gás. Carlos Mesa
tentou distorcer os resultados desse plebiscito. A lei adotada em 17 de maio
de 2005 descartava a nacionalização e se limitava a aumentar a taxação
sobre o valor declarado dos lucros das grandes empresas. Mesa é obrigado
a renunciar em 9 de junho de 2005 e Eduardo Rodrigues, presidente da
Corte Suprema, assume o governo em um mandato tampão até as eleições
marcadas para dezembro do mesmo ano. A vitória de Morales por maioria
absoluta dos votos e o decreto de nacionalização das empresas de 1º de
maio de 2006 refletiam uma longa tradição histórica de lutas populares
do povo boliviano e numerosas batalhas recentes em defesa da soberania
nacional da Bolívia que estiveram no centro das preocupações.

CONCLUSÃO

A revolução boliviana de 1952 foi o marco central de abertura


da história contemporânea do país. Continha em seu bojo um projeto
nacionalista de soberania nacional, mas também uma perspectiva de
ruptura socialista inédita na América Latina protagonizada por uma
importante vanguarda de militantes operários das grandes minas de
estanho. A presença desse setor obrigou a liderança pequeno-burguesa
do MNR a ir muito além de suas vagas e limitadas pretensões reformistas.

284
CAPÍTULO 6 | A revolução Boliviana

Esses limites terminaram por permitir que as forças sociais conservadoras


se rearticulassem através do golpe militar de novembro de 1964. A comuna
de La Paz de 1971 foi uma tentativa do movimento operário e camponês
de retomar sob um novo patamar a revolução de 1952, interrompida por
um novo e ainda mais brutal golpe militar. A retomada dessa longa e rica
tradição revolucionária e popular do povo boliviano foi provavelmete
em parte reativa sob uma nova configuração social e econômica com a
ascensão dos governos de Evo Morales nos anos mais recentes.

285
As Revoluções na América Latina Contemporânea

REFERÊNCIAS

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SOBRE OS AUTORES

Damián H. Antúnez
Profesor adjunto de Historia Social y Económica Argentina de la Universidad
Nacional de Río Cuarto (UNRC). Doutor em História pela Universidade de
Salamanca (Espanha).

Everaldo de Oliveira Andrade


Professor na área de História contemporânea da Universidade de São
Paulo. Doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo.

Gilberto Maringoni de Oliveira


Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC.
Doutor em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo.

Luiz Felipe Viel Moreira


Professor Associado de História da América na Universidade Estadual de
Maringá (UEM). Doutor em História Social (USP).

Marcela Cristina Quinteros


Licenciada em História pela Universidad Nacional de Córdoba (Argentina).
Mestre e Doutoranda em História Social (USP).

Raphael Nunes Nicoletti Sebrian


Professor de História da América na Universidade Federal de Alfenas
(Unifal-MG). Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo
(USP).

Rafael Rubiano Muñoz


Profesor Titular da Facultad de Derecho y Ciencias Políticas. (Universidad
de Antioquia). Sociólogo y Magister en Ciencia Política. Doutorando em
Ciencias Sociais (Flacso-Argentina).