Você está na página 1de 4

ANO 1 NQ5

JUNHOj1993
Publicação Oficial do INSTITUTO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS CRIMINAIS

Justiça Militar só deve AO LEITOR


julgar crimes militares Se você é sócio do IBCCrim, já conhece o que ele vem propor-
Já aprovado na Câmara Federal, no dever militar em cujo efetivo cionando: o recebimento, mês a mês, dest Boletim (que agora soma
tramita no Congresso Nacional exercício deveria se encontrar o oito páginas - quatro das quais dedicadas à jurisprudência mais
projeto de lei, de autoria dos Depu- agente, e a qualidade militar do recente do País) e o desconto de 50% no valor da assinatura anual -
tados Hélio Bicudo e Cunha fato, constituido pela índole mili- quatro volumes - da Revista Brasileira de Ciências Crinuuais.
Bueno, que altera o art. 92 do Dec. tar do dever violado. Desta última, também publicação oficial do IBCCriDl e editada
Lei nO 100 I, de:! 1 de outubro de Com fundamento nestes parâ- pela Revista dos Tribunais,já estão nas livrarias o número especial
1969 (Código Penal Militar). O metros foi editado o Código Penal de lançamento - outubro/dezembro 92 - e o número I - janeiro/março
projeto suprime a letra ~r',do Militar de 1944 que, no seu art. 62, 93; em breve sairá o número 2, correspondente ao 2· trimestre de
inciso Il, do art. 92, que considera definiu os crimes militares em tem- 1993.
de foro castrense o delito cometido po de paz. O novo CPM, de 1969, O IBCCriDl, ademais, vem desenvolvendo intensa programação
, por~militaremsitua(jãodeativida- editado pela Junta Militar, repetiu o científico-cultural. No mês de maio, por exemplo, iniciou-se a
de ou assemelhado que, embora art. 62, agora como art.9" e, com a discussão da Reforma do Código Penal (parte especial), com o
não estando em serviço, use arma- finalidade de fortalecer o combate Desembargador Alberto Silva Franco, e recebeu-se a visita do
mento de propriedade militar ... ". à subversão, acresceu a alínea "f", Professor Auguslin Jorge Barreiro, que é catedrático em Madri e
Na justificat iva, asseveram seus estendendo a qualidade militar aos proferiu conferência sobre o tema "Reforrna Penal Espanhola- (ver
autores, a alteração possibilitará delitos cometidos com armamento noticiário incluso).
maior controle sobre a Polícia Mi- castrcnsc, até nas horas de folga. Se você ainda não é membro do IBCCrim, associe-se: inscreva-
litar, que vem caracterizando sua Destarte, os crimes impropria- se e passe a participar de todas as atividades da entidade. Basta
atuação por extremada violência, mente militares, além de aceitarem solicitar e devolver preenchida (sem nenhuma taxa extra) sua ficha
citando jornais que noticiam "urna de inscrição. Para maiores informações, telefone para (011) 37.6743.
os critérios "ratione loci, personae
morte a cada sete horas"; como et temporis", do CPM de 1944, E - muito importante - sempre será bem acolhida a colaboração
consequência de confronto com adotaram, também, o critério de que você enviar para a Revista ou para o Boletim- neste último caso
(dada a peculiaridade gráfica do mensário), no máximo, desejável,
policiais militares de São Paulo. A extensão pelo uso da arma, o
de trinta linhas.
impunidade tem como causa o jul- esdrúxulo critério da "rat ione
gamento de seus autores pela pró- legis".
pria corporaçâo (quatro oficiais e
um auditor civil integram o Conse-
lho de Justiça na Justiça Militar do
Estado).
Possibilitou-se, assim, a exten-
são do foro militara delitos comuns
(roubo, lesão corporal, homicídio),
desde que cometidos com arma da
o prêmio à delação
O projeto adiciona, ainda, um corporação, mesmo sem vinculo nos crimes hediondos
parágrafo único ao artigo 92, com o nenhum à atividade castrense e au- A causa de redução da pena só
Notícia do jornal ~O Estado de
objetivo de não considerar militar, mentadas as hipóteses de ocorrên- recaia no caso de "quadrilha ou
S. Paulo- (caderno "Cidades", de
para fins penais, os mil icianos, cia pela permissão permanente, aos 19.5.93, pág. 5) relatou-nos a apro- bando-o Agora, no projeto, preten-
quando em atividades de policia- policiais militares, de uso da arma, de-se a alteração do § 4" do art. 159
vação, pela Câmara dos Deputa-
mento, restaurando o inteiro teor da mesmo fora de serviço. dos, de "projeto originário do Se- do Cód, Penal, admitindo-se a re-
sumula n2 :!97, do Supremo Tribu-
, nal Federal, revogada pela edição
A proposta legislativa procura
corrigir distorçôes causadas pela
nado, que reduz a pena de quem, dução da pena em qualquer hipóte-
tendo participado de um seqüestro, se, de quadrilha ou não.
da Emenda Complementar n" 7, de "longa rnanus" do legislador revo- o denuncie à autoridade, facilitan- A pretensão legislativa não é
'13/4/77. lucionário, inda mais quando o Su- louvável. Tanto que, já se encon-
do a libertação do seqüestrado-o
Os critérios distintos na classi- premo Tribunal Federal tem siste- Ao certo, a denominada "dela- trando em vigora inovação há qua-
ficação de crime militar sofreram maticamente salientado que "são a ção premiada- foi insiituida pela se três anos, não se tem notícia de
gradativa evolução no Direito pá- autoridade e a disciplina militar os lei n' 8.072/90, a chamada Lei dos nenhum caso de traição premiada.
trio.OAvison256,de 1884,adotou valores tutelados pela norma penal Crimes Hediondos, incidindo so- Ocorre que o delator sabe que,
como condição de sua tipificação militar". bre a extorsão mediante seqüestro descoberta a traição, fatalmente
os critérios "ratione rnateriae" e Aproximando-se a revisão cons- e quadrilha para fins específicos (arts, será executado pelos comparsas
"ratione personac", Em 1899,oCó- titucional, faz-se premente urna re- 7" e 8', par. único, da referida lei). ou, se preso, pelos companheiros
digo da Armada acolhia, apenas, o forma que possibilite a redcfinição Nesses casos, o legislador per- de cela, que não suportam traido-
critério "rat ione materiae", da competência da Justiça Mili- mitiu a redução da pena, de um a res.
No início do século, René tar apenas para os crimes propri- dois terços, desde que a delação E a norma não é pedagógica: ela
Garraud, cm "Traité Théorique ct amente militares, na esteira do enseje a libertação do seqüestrado ensina que trair traz benefícios.
Pratique dlnstrucrion Criminelle ensinamento do STF, que no lon- ou o desmantelamento da quadri-
et de Proccdure Penale", cd. 1909, gínquo ano de 1925 observava, lha (expressão da lei). (Damásto E, de Jesus)
:!2 v., sustentava que "o foro mili- como retrata Loureiro Neto, que
tar não é para o delito dos milita- crime propriamente militar é o
res, mas para os delitos milita- quesó pormilitarpodesercome- LEIA nesta edição, além do caderno de jurispru-
res". Da mesma forma, Pietro tido, isto é, o que constitui uma dência, comentário sobre a inconstitucionalidade
Vico ("Enciclopédia dei Diritto Infração espcciflca e funcional da
Penal c", 1917) conccuuavn os dois profissão de soldado" (HC nO do crime de sedução face à atual condição femini-
elementos deste delito: ~qualida- 68:!). . na, e análise crítica da eutanásia passiva.
de militar d" culpado, com base (Roherto Mauricio Genofre)
-----Conferências noIBCCrim---- Eterno Beccaria,

As idéias de um mestre ainda exemplo
no Direito Penal
Em conferência promovida pe- cogitação de ninguém estabelecer penas
lo IllCCrim e patrocinada pela além daqueles limites estabelecidos pela A monumental obra "Dos Delitos e das
APAMAGIS, no salão do Plenário do Constituição Federal" - que veta a pena de Penas", escrita pelo genial Beccaria, é tida
Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, morte e, já, a de prisão perpétua. como o marco do Direito Penal humanitá-
dia 30 de março (v. Boletim n2 3), o Minis- Equiparou a "delinquentes perversos" rio, lançando as bases decisivas para a
tro Evandro Lins e Silva (Coordenador da os chamados "justiceiros" e os membros construção de um novo Direito Penal, real-
Comissão de Reforma da Parte Especial do dos "esquadrões da rnorte?e grupos de ex- mente voltado à missão de regular a convi-
Código Penal) deixou assentes posicio- termínio. vência humana, através da defesa de bens
namentos que merecem registro, para fixa- E mais: paralelamente à Reforma - que jurídicos.
ção na memória dos interessados. sempre terá como ponto de partida e Todos os elogios e estudos de maior
Após equiparar a prisão a uma "jaula referencial obrigatório a Constituição de profundidade sobre a obra magna da histó-
reprodutora de criminosos", sustentou o 1988 e não deve ser vista como panacéia ria da literatura penal já foram feitos pelos
cabimento da pena da segregação em cela universal que estanque a criminalidade dou tos, poupando-nos de maiores obser-
somente aos deliquentes mais perigosos: ("irmã gêmea da rnarginalidade") - propôs, vações, não só por razões de espaço.
"a história da pena é o esforço constante necessária, a adoção de medidas que ate- O motivo de nossa lembrança do Mar-
para a sua abolição". nuem e mitiguem a fome. quês de Beccaria é sua importãncia para o
Salientou, a propósito, que "não está na (A.C.F.) momento histórico que atravessa o Direito
Penal, no Brasil, hoje: a proposta de um
novo ordenarnento da parte especial do já
cinquentenário Código Penal.
Brasil e Espanha revêem a sua legislação penal Esperamos que seja a reforma um grito
de liberdade através de novas idéias que,
No último dia 3 de maio abrimos ofici- muitas leis especiais estão sendo incorpo- ao contrário das atuais, venham a ter como
almcnte as discussões da Reforma do nos- radas ao Código, senão também porque há pedra angular a pessoa humana através do
so Código Penal - Parte Especial. Da con- necessidade de se protegê-Ia diante dos mais importante bem jurídico: a vida.
ferência de abertura se encarregou - e não novos ataques (ex.: manipulação genéti- Quando entrou em vigor a draconi
poderia ser de outro modo - o Des. Alberto ca). Outros pontos relevantes destacados Lei 8.072/90, tratando dos crimes hedion-
Silva Franco, que é Presidente de Honra foram: evitar, na medida do possível, tipos dos, já retroagimos exageradamente nas
do IllCCrim e Coordenador da I! Subco- penais abertos, diminuir os limites entre o idéias penais, caminhando na contramão
missão de Reforma do Código Penal. As mínimo e o máximo da pena cominada, da dogmática penal.
linhas preliminares da Reforma são as se- resgatar o valor "vida", ampliar as indica- Mesmo editada com base em valores
guintes: respeito às garantias constitucio- ções do aborto, regulamentar a eutanásia, constitucionais (CF, art. 52, XLIII), não
nais, o Código Penal deve ser o centro de as novas técnicas de reprodução humana podemos negar o caráter passional da lei,
todo o sistema, respeito ao Estado Demo- ele. Está sendo feito - concluiu o ilustre lançada "sob o impacto dos meios de co-
crático de Direito etc ... Quanto aos traba- conferencista - um trabalho sério, honesto municação de massa" (Alberto Silva Fran-
lhos da I! Subcomissão, ressaltou que o ser e moderado. co).
humano é a preocupação maior. Por enquanto, "ternos que conviver com
O capítulo pertinente aos Crimes contra o Direi to Penal". pois, parafraseando
a Pessoa será ampliado, não só porque No dia 21 de maio tivemos a grata Radbruch, ainda não encontramos algo me-
satisfação de receber o Prof. Dr. Agustin lhor que o Direito Penal.

INSTITUTO BRASILEIRO "' Jorge Barreiro, que é Catedrático de Di-


reito Penal da Faculdade de Direito da
Universidade Autônoma de Madri. Em sua
O Direito Penal do terror, existente no
tempo das "portas abertas", expresso sen-
sivelmente por Leonardo Sciacia, deve ser
DE CIÊNCIAS CRIMINAIS conferência, que agradou muitíssimo a to- banido, proibido num regime que se
(IBCCrlm) FUNDADO EM 14-10·92 dos os presentes, foi enfocado o tema da intitula democrático. Que venha uma re-
Diretoria do blênlo 93/94 Reforma Penal Espanhola, que está sendo forma penal urgente e necessária, trazendo
Presidente: Luiz Flávio Gomes discutida agora no Parlamento. Foram na essência a esperança de dias melhores
Secretário: Antonio Magalhães Gomes Filho mencionados os pontos mais salientes do para todos nós.
Secretário· Adjunto: Alberto Silva Franco Projeto de 1980, do Anteprojeto de 1983 e (Alexandre Rezende Grillo)
Tesoureira: Sylvia Helena de FlQueiredo Steiner do Projeto de 1992. Destacam-se: a função
Tesoureiro· Adjunto: Alberto Zacharias Toron de "ultima ratio" do Direito Penal, o valor
Suplentes: Alberto da Oliveira Andrade Neto. laís efetivo da sanção, o princípio da legalida-
Helena Oomingues de Castro Pachi e Roberto
Maurício Genofre
de, o sistema "nu meros clausus" para os LANÇAMENTOS
delitos culposos, a exclusão da responsabi-
BOLETIM IBCCrim lidade objetiva, a criação da prisão de fim
Comissão Redatora: Álvaro Busana. Ana Sofia
de semana, a suspensão da sentença, a - Damásio Evangclista de Jesus: "Lei
Schmidt de Oliveira. Oavid Azevedo.Edson Junji das Contravenções Penais Anotada", I" ed.,
criação dos delitos sócio-econômicos etc,
Torihara.Geraldo Sanches Carvalho. Helios Alejandro Saraiva, 1993.
Quanto ao aborto, continua o sistema de
Nogués Moyano e Mário de Oliveira Filho. - Jair Leonardo Lopes: "Curso de Direi-
Editor Responsável: indicações, sem a adoção do chamado to Penal" - (Parte Geral), I" ed., R.T., 1993.
Antonio Canos Franco (MTb. 7.863) "aborto econômico ou social"; a maiorida- - Juarez Cirino dos Santos: "Tecria do
Dlagramação, Composição, Montagem e de penal continua nos 16 anos. O Projeto de Crime", I" ed., Acadêmica, 1993.
Fotolito: Ameruso Artes Gráficas· tel. 215·3596 1992 recebeu severas críticas do Professor - Marcelo Fortes Barbosa: -Garantias
Impressão: Ativa Editorial Gráf.· tel. 2n·9181 Jorge Barreiro, porque foi elaborado de Constitucionais de Direito Penal e Processo
Tiragem: 1.500 Exemplares modo pouco transparente, não tendo as Penal", 1" ed., Malheiros, 1993.
classes jurídicas dele participado: é um _ Marco Antônio Marques da Silva: -A
Endereço para correspondência projeto com pouca reflexão, confuso e com Vinculaçâo do Juiz no Processo Penal", I"
IBCCrim, Rua Tabatinguera, técnica deficiente. O ilustre conferencista ed., Saraiva, 1993.
140, 132 andar, s. 1314 concluiu dizendo que o penalista precisa _ Marco Antônio Marques da Silva e
CEP 01020.901 - São Paulo - SP ser crítico e deve propor o Direi to Penal do Herminio Alberto Marques Porto (Coorde-
Te!. (011) 37-6743 futuro. . nadares): "Processo Penal e Constituição
(Luiz Flávio Gomes) Federal", I" ed., Acadêmica, 1993.
. ,
o crime de sedução é inconstitucional
ertos conceitos sobre a do milênio poderão ser considerados acha- condenada como ultraje. Um Código Penal

C.U;]i~~:;,:~~~:~~::~~~~
... dos arqueológicos. elaborado à luz de uma Carta Magna que
Tendo em vista recente opinião publicada respeita, acima de tudo, os direitos humanos
neste Boletim sobre o crime de sedução, na e da Cidadania, não pode persistir na concep-
.•.. ';::,{{{::
antiga, as vezes na juns- qual persiste a idéia da conveniência da ção da mulher como propriedade do homem.
manutenção do tipo na reforma penal ora em A perda da virgindade deve ser entendida,
tt ::::::/:::::(\:?::r)::i::iiii::i:i: ~~~t:~~~s ~'r~~:\~~=r~;
curso por determinação do Ministro Maurí- para a mulher, como um ato de livre escolha
alguns cri mina listas necessitam urgente cio Corrêa, torna-se necessário, mais uma e como um direito inalienável seu, aos quais
reformulaçâo para adequação aos preceitos vez, esclarecer a posição das mulheres quan- sua honestidade, competência ou respeitabi-
constitucionais em vigor desde 1988. to a este delito específico, embora nossas lidade não podem estar vinculadas. As ex-
É, hoje, inquestionável a equiparação dos críticas não se restrinjam a ele. pressões "mulher virgem", "mulher hones-
direitos da mulher aos direitos do homem, O art. 217 do CP sujeita a reclusão de 2 a ta"ou "desonra própria" devem ser definiti-
nos termos da Carta Magna: 4 anos quem seduzir mulher virgem, menor vamente banidas do ordenamento jurídico.
- Art. 32 - Constituem objetivos funda- de 18 anos e maior de 14, e tiver com ela Trata-se de pseudo-proteção que, na realida-
mentais da República Federativa do Brasil: conjunção carnal, aproveitando-se de sua de, avilta a mulher, rouba-lhe o direito ao
(...) IV - promover o bem de todos, sem incxperiênciaou justificável confiança. Ora, próprio corpo e invade sua vida privada de
preconceitos de origem, raça, sexo, cor, ida- se a mulher está, hoje, definiti vamente equi- forma a retirar-lhe a independência. A honra
de e quaisquer outras formas de discrimina- parada ao homem em direitos e obrigações, da mulher é igual à honra do homem. A
ção." como já demonstrado, por que será que proteção à sexualidade da mulher deve ser
- Art. 52, I - homens e mulheres são iguais alguns juristas não conseguem compreender idêntica àquela destinada ao varão, sendo
em direitos e obrigações, nos termos desta o alcance da Constituição com relação à absolutamente ridículo, nos dias de hoje,
Constituição. " sexualidade? O art. 217 do CP, da forma querer insistir na existência de crimes se-
O Código Penal de 1940, à evidência, como está redigido, não protege a mulher de xuais nos quais a vítima só pode ser mulher.
reflete a condição feminina do começo do malefício algum, apenas reforça o escabro- Como integrante da Comissão de Reforma
século, quando à mulher era negado o exer- so entendimento de que às mulheres o sexo da Parte Especial do Código Penal instituída
cício da cidadania e sua subordinação ao é coisa proibida, um fator de decadência, pelo Ministro da Justiça, Maurício Corrêa,
homem era quase total. A mulher casada uma inabilitação para o casamento, uma posso informar que a 1" Subcomissão encar-
vivia em condições próximas à escravidão, perda de qualidade irreparável, uma conde- regada de rever os crimes contra os costumes
pois, confinada ao lar e alijada do mercado nação imediata à prostituição, um horror à - da qual fazem parte dr. Alberto Silva
de trabalho remunerado, era considerada sua reputação e uma vergonha para a família Franco, dr. Paulo Sérgio Pinheiro, dr. Jair
semi-incapaz para os atos da vida civil. Con- (principalmente para o pai da moça). Leonardo Lopes e eu --, tendo concluído a
vém lembrar, também, que o voto feminino As mulheres são iguais aos homens, é primeira etapa de seus trabalhos, já eliminou
só é possível a partir de 1934, seis anos antes preciso repetir. Vejamos o efeito dessa o crime de sedução (entre outras aberrações
da elaboração do Código Penal cuja Parte igualdade em sentido inverso: "seduzir ra- ainda presentes no CP), incluiu os crimes
Especial ainda vige. paz virgem, menor de 18 e maior de 14 anos, sexuais entre os crimes contra a pessoa e
Frente ao avanço incontestável da posi- e ter com ele conjunção carnal.;" equiparou a liberdade sexual feminina mas-
á

ção da mulher tanto na sociedade como na O preconceito e a desigualdade expressa- culina, não subsistindo nenhum delito, nesta
política e na legislação, os chamados "cri- mente condenados na Constituição de 1988 área, praticável exclusivamente contra a
mes contra os costumes" previstos noTítulo manifestam-se exatamente no momento em mulher. Mesmo porque, seria, como já é,
VI do CP transformaram-se em verdadeiras que a perda da virgindade dos meninos é inconstitucional.
peças de museu e, certamente, após a virada comemorada pela família e a da menina é (Luiza Nagib Eluf)

Reformulação da lei rompe com as normas


A recente lei 8.635, de /6 de março de •§ 3~) Em caso de condenação, ao tema do dia-multa, que obedece a parâmetros
/993, deu nova redação aos parágrafos /!1 e prolatar a sentença, o juiz determinará a inteiramente diversos, contidos em dispositi-
2"doarr. / 84 do Código Penal, que cuidado destruição da produção ou reprodução cri- vos da Parte Geral (art. 49 e ss.).
crime denominado "violaçâo do direito au- minosa." - (DOU. /7.3.93, p. 3.138) A partir de então, os tipos da Parte Espe-
toral", criando ainda o par. 3~ - ou seja Nâo há discutir, em face desse diploma cial do Código Penal não preceituam mais
(textual): legal, a propriedade ou a impropriedade valores de multa, referindo-se, apenas, quan-
•§ /!1) Se a violaçâo consistir em reprodu- das modificações, mas, apenas, lamentar a do o legislador entender necessário, â ex-
çâo, por qualquer meio, com intúito de lucro, carência absoluta de técnica na pressão "multa". Nessa linha de entendi-
de obra intelectual, no todo ou em parte, sem reformulaçâo legal do delito. mento, o preceito sancionatário do antigo §
autorização expressa do autor ou de quem o É, realmente, preocupante a piora dos IR do art. 184 estabelecia: • Pena - reclusão
represente, ou consistir na reproduçdo de textos legisla ti vos em geral.frente
à incom- de / a 4 anos e MULTA. ".
fonograma ou videofonograma, sem a auto- petência de seus autores e, mais preo- A lei nR 8.635/93 teve o condão - numa
rização do produtor ou de quem o represen- cupante ainda, afalta de assessoramento do época em que o processo inflacionário está
te: Presidente da República e do Ministro da atingindo limites insuportáveis - de ressus-
• Pena - reclusão de / a 4 anos, e multa de Justiça, que sancionam lei punitiva que citar a multa tarifada; e estatuiu, como pre-
dez mil cruzeiros a cinquenta mil cruzeiros. agride, de modo tão claro e expllcito, o ceito sancionatário, nos reformulados pará-
•§ 2!1) Na mesma pena do parágrafo ante- sistema referente à pena pecuniária adota- grafos do art. /84 do Cód. Penal, além da
rior incorrre quem vende, expõe ri venda, do, desde a Reforma de 1984 (lei n!17.209), pena privativa de liberdade, a multa de "dez
aluga, introduz no Pais, adquire, oculta, pela Parte Geral do Código Penal. mil a cinquenta mil cruzeiros ".
empresta, troca ou tem em depósito, com O chamado sistema tarifário - pelo qual É quase de não ser acreditado. Mas, como
intuito de lucro, original ou cópia de obra a pena de mu Ita, fixada emfunção de balizas se sabe, não é fácil trabalhar com a Lei
intelectual. fonograma ou videofonograma, determinadas, no minimo e no máximo, por brasileira ...
produzidos ou reproduzidos com violaçâo de valores em cruzeiros e cominada para cada
direito autoral. figura delituosa, -foi substituido pelo sis- (A.S.F.)
A eutanásia pasaiva no novo Cód. Penal
D
M::::
, proposta
comissão
Código
da Ii Sub-
de Reforma do
Pe.nal q~e a eu.t~-
níveis de qualidade diversos pois "nâo é um
processo contínuo. É, ao contrário, um aconte-
cer segmentado. A vida não é uma magnitude
adquiri-Ia. A omissão de terapia mostra-se intei-
ramente apropriada em relação a uma criança
que nasceu com anencefalia. A natural condena-

~~f~~Ijf.~~~~:
absoluta, mas a soma de períodos relativizados. ção à morte é inexorável e conservá-Ia viva
constitui prorrogar, desnecessariamente, a che-

i~i~~~~
É algo, pois, carente de unidade. Enquanto a tese
idealista vê na vida uma unidade ôntica e gada irreversível da morte. Em não poucas situ-
valorativa, o critério da qualidade sustenta ações, a interrupção de terapia, por sua vez, põe
logicamente que as diferenças entre os distintos termo, na medida em que a vida é mantida, median-
defensável na medida em que se desloca, pouco perí odos da existência humana pedem dar lugar te medidas instrumentais, a uma existência fictícia.
a pouco, o eixo do conceito de vida de uma a valorização ético-jurídicas diversificadas" Não, há., portanto, nenhuma razão técnica ou
posição de valor absoluto para a de um valor (ob. cit., p. 226). deontológica que exija a perpetuação de providên-
relativo. A noção clássica dá à vida um caráter Na linha desse entendimento, a questão da cias médicas carentes de sentido curativo.
sagrado e intangível. Por esta concepção, desde eutanásia passiva mostra-se em perfeito ajuste. A omissão ou a interrupção de terapia não
a fecundação até a morte, a vida possui "um Se a vida está sendo mantida através de instru- pode ser, contudo, um ato unilateral do médico.
sentido único e um valor absoluto. E idêntico o mentos (ventilação assistida, reanimadores, tra- Algumas cautelas mostram-se imprescindíveis.
valor da vida embrionária ou fetal, da criança, tamento em unidades de terapia intensiva etc.) a Assim, a situação do paciente deve ser atestada,
do adulto e do velho. As exteriorizações vida não é um dado de realidade, mas um mero quanto à iminência ou inevitabilidade da morte,
fenomênicas da vida são ontológica e artifício. Não há cogitar de sua mantença, e ri por dois outros médicos, e a omissão da terapia
axiologicarncnte não essenciais. Em nenhum omissão ou a interrupção da terapia não pode ou o desligamento de equipamentos devem ser
caso, deixam de indicar significativamente o acarretar a criminalização do médico. "O médi- precedidos de prévia permissão do cônjuge ou
substrato ôntico unitário subjacente" (Angel co não é obrigado ao prosseguimento 'ad infini- companheiro em união estável e, na falta, de
Torto Lopez, "Reflex ión crítica sobre el proble- tum' de um tratamento artificioso. A omissão é, parentes sucessivamente indicados e, ainda, de
ma de Ia eutanásia" - "Estudios penales y no caso, conduta adequada ao ordenamento ju- autorização judicial, na forma explicitadano texto.
criminologicos", XIV, p. 223 - Universidad de rídico- (id. ib., p. 235). Somente com o atendimento de todas essas exigên-
Santiago de Cornpostela, 1991). Bem por isso, o § 6" do art. 121 exclui de cias é que a conduta médica guarda licitude.
Essa postura tem sofrido, no entanto, críticas i1icitude a conduta de médico que omite ou
severas por seu dogmatismo e por seu caráter interrompe terapia que mantém, de modo posti- . (Alberto Silva F)'ánco)
nitidamente metafísico, cedendo lugar, de modo ço e inútil, a vida de uma pessoa que, segundo as (Nota: A parte Inicial deste coment~'
cada vez mais crescente, ao princípio da quali- pautas médicas vigentes, já perdeu irremedia- alusiva ao bomicídio piedoso, roi publíead
dade de vida. A vida humana tem, em verdade, velmente a consciência ou nunca chegará a número anterior do Boletim) ,

~ A EDrTORA COM MAIOR NÚMERO DE PERiÓDICOS JURíDICOS


I ti r Obras Indispensáveis .
REVISTA DE REVISTA BRASILEIRA DE REVISTA Revista de Direito
ciência.
PROCESSO criminais
DOSTRIBUNAIS . ~ercancil
_1· ia __ 'V0 .111II3 Industrial
N"88 ANO 17
ABRIL..JUNHO 1992 REVISTA Econ&mico
DOS TllBUNAIS
PubIIc:aç6o 0flctaI do CADEANOa DI! DIREITO TRlI!IUT4RIo c Financeiro
INSTTTlITO BRASILEIRO DE I!FlNAHÇ •••• 1'U8UC ••••
REVISTA clbtctAS CRIMINAIS
DA
PROCURADORIA-GERAL
DA
REPUBLICA REVISTADEDIREITOCIVlL
t,'"1 • OUTINOVIDEZ 1992
REVISTA IMOBlu.úJO.,.,GMnOH
EM'~

REVISTADO
DOS TRIBUNAIS
MINISTÉRIO PÚBLICO
RIoGr_doSUI ••• 28 57
ANO U JULH().SETEMIRO/Utl
......•••
ANOIa·nVEREIAO DE 1_
*a#"·!"'I.+ VOI.. •••
• DNft'OOOCGIIU~
· oo.~.c:owruAORDa"..,-rÂMl
· AIIlD~"IJDAOI"'MLQU"..aa.t
_ aACOI08TINIÇAo
REVISTA DE DIREITO DO
SYNTHESIS',"~
OIlEITO 00 TRAIW.HO •••• TERtAL E
DIREITO REVISTA TRABALHO PROCESSUAL
DOS TRIBUNAIS REVISTA SEMESTRAL.'
DO CONSUMIDOR Dezembro • 11~ .,... 80.
15112
.•• ,-ouTtl cu...o •••• ··
3 UM TEIIA EII fOCO:
COIfTRI8U1ÇAo CONFEDERAmA
JllISTt'nJTO B!lASILEIRO DE
POLITICA
CÁDEIINOSOI DlIlEIfO
CClNSlTIIICIONAE âNCIA POtInc:A • .lURISPRU~NC1A
EDITORA r1i'iI
E DIREITO DO CONSUMIDOR
.NOnC1ÁRIO REVISTA DOSTRIBUNAIS
IHSlITIJTOlRASlLEIRO DE DlIIEIIO • QALERIA DE JURISTAS Rua Conde do Pinhal, 78180· Centro· SP
SEl'EMBROIDEZEMBRO-lfn CIONSIItIJCIOtW Tel.: 37·2433· FAX: 37·5802

OUTROS ESTADOS ·CURmBA ·PA.: ASSIS MAROUES TEL. 25H1n - AV. CANDlDO DEABREU. 691 ·CEP. 80530-000· FlORIANÓPOlIS· SC.: MARCA DISTRIBUIDORA - TEL. 23-4843· RUAJOSEJAQUES.
58· CEPo88020-080 • PORTO ALEGRE ·RS.: - CALLAGE & FILHOS· TEL. 228-6816 - RUA DOS ANDRADAS. 533 - CEPo 90020-001 -BELO HORIZONTE· MG.: PRO LIVRO· TEL 295-2393· AV. AUGUSTO DE
LIMA, 1645 . ÇQNJ.603· CEPo 30190-000. - CAMPO GRANDE· MS.: SÓ LIVRO COM: REPRES .• TEl. 386-6010· RUA GUASSU, 564· CEPo 79065 - CUIABÁ· MT.: COMERCIALJANINA· TEL. 321·8195· RUA
ANTONIO JOAO, 270 - CEPo 713030- VITORIA· ES.: LlVRARIACAPIXABA - TEL 223-4301 - RUA DUOUE DE CAXIAS. 115· CEPo 29010·120· BRASILIA E TOCANTINS • CULTURAL BRASILlA· TEL 223·1604
- SCS • QUADRA 1 . BLOCO E - N'30 -S/608 - CEP 70303·900 • RIO DE JANEIRO· RJ.: RT.RIO _ TEL 221·mO . RUA DA ASSEMBLEIA, 34 ·5' ANO. CEPo 20011·000 • MANAUS· AM.: KENNEDY - TEL 234·
2795 • RUA LAURO CAVALCANTI. 251 - CEPo 69020·230 • FORTALEZA· CE.: J.L. GOMES. TEL 221. 4228 ·RUA METON DE ALENCAR. 803· CEPo 60035-160 - GOIANIA· GO· LIVRARIA 3 PODERES - TE. 225·
2626 ·2256316· RUASEIS. 101 . LOJA 2· CENTRO -CEP.· 745\0 -REClFE. PE. ·ARI VlEIRA. mSTA. LIVROS· TEL. 222-6861 (RECADOS) RUARIACHUELO, 453 -CEPo 50050400· BElEM· PARA·ALBESA
- COM. REPRES. TEL. TRAV. FRUTUOSO GUIMARÃES. 727· CEPo 66017·170 _SALVADOR .Bo\.: LUIZANTÓNIO LYRIO BARRETO - TEl. 321-3279 RUA TUIUTI. 17ô· APT' 301 • PORTO VELHO • RONDONIA
- RONDOLEX - TEl. 221.(J166 AV. 7 DE SETEMBRO. 1083· SALA 38· CEPo 7B900-000. VITÓRIA DA CONQUISTA· BAHIA· SR. ANTONIO DE SOUSA FIGUEIREDO RUA 2 DE JULHO, 159 - CEP.45100-000.