Você está na página 1de 4

A obra já inicia com a prisão de Joseph K.

, sem nenhuma explicação e de forma totalmente


arbitrária.

Neste ínterim lemos: “Não – retrucou o homem que estava junto à janela, deixando o seu livro
sobre uma mesinha e pondo-se de pé. – você não pode sair está detido” . Esta passagem descreve
a tentativa de Joseph em avaliar o que está acontecendo e como não encontra resposta coerente
alguma, tenta sair de casa.

Logo em seguida, o oficial que veio comunicar sua detenção o impede de sair do quarto. Diante
dessa situação, Joseph indaga: “por que estou detido?” . A resposta que escuta é simplesmente
injusta: “Não me cabe explicar isso. Volte para o seu quarto e espere ali. O inquérito está em curso,
de modo que se inteirará de tudo em seu devido tempo” .

À luz do Direito pátrio tais acontecimentos são recriminados. Leciona o artigo 282 do Código de
Processo Penal Brasileiro: “Á exceção do flagrante delito, a prisão não poderá efetuar-se senão em
virtude de pronúncia ou nos casos determinados em lei, e mediante ordem escrita de autoridade
competente”.

Coadunando com tal pensamento preceitua a Carta Magna de 1988: “O preso será informado de
seus direitos [...]” (Artigo 5º, LXIII) e um dos direitos que assiste aos presos é o direito de saber do
que está sendo acusado.

Prosseguindo na leitura deparamo-nos com uma crítica de Kafka ao sistema processual da época. E,
para nossa surpresa, ele já se queixava da morosidade dos processos, senão vejamos; “E quão
demorados são os processos deste tipo, especialmente nos últimos tempos!” . Faz-se mister relatar
que essa passagem percorre o ano de 1920.

A confusão jurídica da detenção de Joseph não para por aqui. Alguns trechos adiante lemos Joseph
clamar por respostas: “Que espécie de homens eram estes? De que estavam falando? A que
Departamento oficial pertenciam? Quem eram aqueles que se atreviam a invadir sua casa?” . E
ainda continua perguntando: “Mas, como posso estar detido? E desta maneira? Teriam de
responder – retrucou K. – Aqui estão os meus documentos de identidade; mostrem-me vocês os
seus, e, especialmente, a ordem de prisão” .

Se estivéssemos sob a égide da Lei Brasileira, tais perguntas jamais poderiam pairar no campo das
dúvidas. Nossa Carta Maior preconiza: “o preso tem direito à identificação dos responsáveis por
sua prisão ou por seu interrogatório policial”. (Artigo 5º, LXIV) e prossegue: “a casa é asilo
inviolável do indivíduo, ninguém podendo entrar nela sem consentimento do morador [..]” (Artigo
5º, XI). Assim também pontifica o CPP: “a prisão poderá ser efetuada em qualquer dia e a qualquer
hora, respeitadas as restrições relativas à inviolabilidade do domicílio”. (Artigo 283, CPP).

A insistência de Joseph K. em querer saber do que estar sendo acusado é algo predominante na
obra de Kafka. Tanto que se criou o estilo kafkiano de ser processado. Ser processado
kafkianamente é ser totalmente tolhido de qualquer preceito jurídico possível e conhecido.

Parece que no mundo onde vive Joseph não há vigilância aos princípios democráticos de direito.

E mais uma vez aparecem suas argüições: “Quem me acusa? Que autoridade superintende o
inquérito? Vocês são funcionários?.

Imaginem só, ser detido sem saber a causa e por pessoas que não demonstram a ordem prisional,
as suas credenciais , o crime cometido, o ofendido, e tudo mais que se leciona em um devido
processo legal.
Em certa passagem a personagem detida alega “Carece porventura de sentido chamar pelo
telefone um advogado, já que sou declarado detido?” .

Não só carece como é um direito inalienável de quem foi detido ou preso. Encontra-se
fundamentado em nossa Constituição no artigo 5º, LXII: “a prisão de qualquer pessoa e o local
onde se encontre serão comunicados imediatamente ao juiz competente e à família do preso ou à
pessoa por ele indicada”. E ainda defende o Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil em seu
artigo segundo, § 1º, que o advogado é essencial para a administração da justiça e tem importante
função social.

Destarte, mais um direito previsto em nossa legislação pátria foi sumariamente desprezado neste
título de Kafka.

Ultrapassada a fase da detenção de Joseph, o mesmo foi informado que deveria comparecer em
certo dia e local para ser interrogado por um Juiz de instrução. Nesse ínterim, a personagem então
aparece em um cenário semelhante a um fórum judicial, porém muito aquém de um recinto onde
se possa promover a Justiça.

Estando, então, diante do Juiz, eis que Joseph observa: “no pescoço deste, que se achava
tranquilamente sentado com as mãos no regaço olhando para baixo, o mesmo emblema” . Este
emblema é vislumbrado por Joseph em um partido político popular de sua região. Desta forma, o
Juiz então era parcial ou tendencioso às idéias de seus correligionários. Contraria frontalmente o
estabelecido em nossa Carta Magna no capítulo que regula o Poder Judiciário. Em seu dispositivo
95, parágrafo único, inciso III, a Constituição leciona: “Aos juízes é vedado: III – dedicar-se à
atividade político-partidária”.

Interessante é que o ilustre jurista Cesare Beccaria em sua obra “Dos Delitos e das Penas” chama a
atenção para este fato: “Deve-se, igualmente, dar menos crédito a um homem que faz parte de
uma ordem, ou de casta, ou de sociedade privada, cujos usos e máximas são geralmente
desconhecidos, ou não são idênticos aos dos usos comuns, pois, além de suas próprias paixões,
esse homem ainda tem as paixões da sociedade da qual é membro” .

O segundo capítulo que narra o pseudo exame conjeturatório de Joseph, encerra deixando-nos boa
margem para contestar e afirmar que não houve no decorrer do processo da personagem nenhum
formalismo; a presença marcante de um juízo de exceção terminantemente vetado em nossa
Constituição(art. 5º, XXXVII); e a total ausência dos princípios do Devido Processo Legal(art. 5º, LIV)
e do Juiz Natural (art. 5º, LIII).

O Capítulo quinto desta obra comentada é intitulado “o acoitador” e nestas páginas Kafka descreve
uma verdadeira cena de escárnio e humilhação com as vítimas da tortura. Inclusive em uma obra
escrita por Kafka na mesma época “A Colônia Penal”, também representa a descrição completa da
carnificina e do vilipêndio à dignidade humana, nas torturas da máquina conhecida como “rastelo”.

No andamento do processo de Joseph K. a personagem, juntamente com seus prepostos, deparam-


se com obstáculos injustos e desumanos. Diante de seu processo nem ele nem ninguém pode ter
acesso aos autos, justamente para que não soubesse nada esclarecedor que fornecesse subsídios
para elaborar a defesa.

Vejamos o que ele exclama: “De modo que os expedientes da justiça e, especialmente, o escrito de
acusação eram inacessíveis para o acusado e o seu defensor, o que fazia com que não se soubesse
em geral ou ao menos com precisão a quem devia se dirigir a demanda” .

Ora, nós advogados possuímos direitos de vistoriar os processos, é assim que nos presta guarida o
Estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil, em seu artigo 6º.
E prossegue: “no curso das declarações do acusado, as perguntas que se lhe formulavam revelavam
com alguma claridade ou então permitiam adivinhar de que coisas era acusado e os motivos em
que se fundamentava a acusação. ”.

Que espécie de justiça era essa? Obrigava o acusado a adivinhar o motivo de sua acusação,
detenção, julgamento, humilhação, etc.. Não se pode olvidar que desde a Declaração Universal dos
Direitos Humanos, esses processos nefastos devem ser banidos da face da Terra.
E o pior estava por aparecer: “no fundo a lei não permitia nenhuma defesa” .

Roma há milênios hasteia a bandeira do direito inegável de defesa. Nem mesmo o pior criminoso
poderia ser julgado sem defesa em plagas romanas.

Joseph K., a personagem acusada de algo que nem sabe, comenta que não era permitido aos
advogados presenciarem os interrogatórios. Em solo tupiniquim tal proibição é afronta aos direitos
dos advogados e dos cidadãos e, com certeza, esses direitos são protegidos pela manta segura da
Constituição Federal e leis apartadas.

Assim preconiza o Código de Processo Penal Brasileiro: “O acusado que comparecer perante a
autoridade judiciária, no curso do processo penal, será qualificado e interrogado na presença de
seu defensor, constituído ou nomeado”.

Será considerado objeto de nulidade processual aquele processo que não funciona a defesa.

Certa ocasião, no bojo das páginas desta obra, em um diálogo de Joseph e um conhecedor daquela
justiça, lemos a seguinte passagem: “Você acaba de me dizer que com a justiça não valem de modo
algum argumentações ou provas” .

A Constituição e todos os diplomas legais processuais dedicam páginas extensas a temática


“provas”.

No nosso direito não é só permitida como essencial a um julgamento justo da querela.

Na fase decisória do processo ocorre “as sentenças definitivas da justiça não somente não se
publicam, mas nem mesmo são acessíveis aos juízes. ”

A sentença, neste modelo judiciário do livro, fere frontalmente o princípio da publicidade e da


motivação das decisões. Com fulcro em nossa Carta Magna asseveramos: “Todos os julgamentos
dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de
nulidade [...]”.

Em palavras epígonas destes comentários da obra “O Processo” de Franz Kafka, iremos relatar
algumas missivas em tom de críticas sobre a justiça daqueles dias.

Kafka demonstrando conhecer as teorias de Cesare Lombroso, jurista versado em Criminologia e


autor de diversas obras, escreve em sua obra supracitada, exemplos de processos que foram
julgados a favor do acusado por conta de sua fisionomia e deixa a personagem principal, Joseph,
exasperado em saber se irá ou não ter um fim justo do seu processo por causa de seus lábios.

As teorias de Lombroso que influenciaram o estilo “lombrosiano” de analisar criminosos, hoje não
mais possuem a força que tinham a época de Franz Kafka, que conhecia por ser estudioso do
direito. Porém mesmo em período hodierno há seguidores da hipótese de Lombroso: “ladrão com
cara de ladrão”.
Outra peculiaridade do escrito de Kafka se dá na sua descrição do que seria para ele uma petição
formalizada por advogados: “um documento cheio de erudição, mas a verdade carecia de
substância. Antes de tudo, havia nele muito latinório, que eu não compreendo; depois, ao longo de
páginas e páginas, apelos gerais à justiça; e, por fim, um estudo de casos jurídicos de outros
tempos que deviam ser semelhantes ao meu.”

Possuía a mesma feição que ainda hoje perpetua em nossas escrivaninhas ou laptops.