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DOSPRE-SOCRATICOS
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A IDADE MEDIA

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edições 70
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r JUAN MANUEL NA\ERRO CORDÓN
TOMAS CAI,VO MARTÍNEZ

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HISTORIA
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'Htulo original:
Hktoda de !a Fibse$a VOLUME
© do texto: Juan Manuel Cordón e Tomas Calvo Martínez, 1995
© das ilustrações(a cor na edição original); Grupo Anaya, S.A., 1995 DOSPRE-SOCRATICOS
© do conjunto: GRUPO ANATA, S.A., 1995
A IDADE MEDIA
Tradução da antologia de textos: Alberto Gomes;
do restante: Departamento Editorial de Edições 70
Revisão: Ruy Oliveira

Capa de Arcângela Marquês

Depósito legal n.' 124 969/98

ISBN97Z-4+09n-5

Todos os direitos reservados para a língua portuguesa


por Edições70, Lda

EDIÇOES
70,LDA
Rua Luciano Cordeiro, 123 - 2.' Esq.' 1050 Lisboa/ Portugal
Telefs.:3158752- 3i5 87 53
Fax:3i5 84 29

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incluindo fotocópia e xerocópia, sem prévia autorização do Editor.
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de procedimentojudicial

edições 70
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PROLOGO
A História da Filosofia que apresentamos bi pensada 5. Por último, e de acordo com as orientaçõesan-
e realizada de acordo com os seguintes critérios= teriores, pretendemos evitar uma Hfsfóna cüz
Ff/oscÚa como crónica das opiniões dos filósofos.
1.Procurou-sea harmonia entre o rigor, a pro- expressas em frases estereotipadas, muitas vezes,
fundidade e a extensão no tratamento das ques- quando apresentadasisoladasdo contexto filosófico
tões com a máxima clareza na exposição.A con- em que se encontram inseridas.
secução deste duplo objectivo só é possível
actuandoselectivamente.
Porisso, nestelivro não Somos de opinião de que uma f/zsfór/a da
se inclui indiscriminadamente
tudo o que os Ff/os(Úa, pensada de acordo com estescritérios,
pode constituir uma adequadarealização dos
filósofos disseram, mas tão-somente os problemas,
objectivos que Ihe cabe cumprir. Possibilitará,
e as respectivas respostas, que são relevantes
assim, assimilar o passado como raiz do nosso
no desenvolvimentohistórico do pensamento
presente, para se situar neste de uma forma crítica
ocidental.
e reflectida.
Do ponto de vista da sua estrutura formal, a obra
2. Em consonância com o ponto anterior, aHzkrónóz
apresenta as seguintes características=
dózH/osc@ízé concebida mais como história dos
problemas filosóficos do que como história dos 1. É composta por três volumes que correspondem,
filósofos. A exposição organiza-seem torno de três respectivamente, ao pensamento grego e medieval
núcleos temáticos fundamentais: problemas rela- (1.'), ao pensamento da Idade Moderna até Hegel
tivos à natureza, problemas sociais e problemas (2.'), e ao pensamento contemporâneo (3.'). Cada
antropológicos. um destes ciclos é precedido de uma introdução
geral, bem como de um quadro cronológico no qual
3. Partiu-sedo princípio de que a filosofia e os se registam, panoramicamente,junto com a
problemasde que ela se ocupa estão sempre cronologia dos filósofos e escolas, as datas dos
inseridos em determinadas coordenadas socio- acontecimentos políticos e culturais mais impor-
políticas e culturais. Atende-se, pois, de modo tantesdaépoca
explícito, às circunstânciashistóricas a partir das
2. Cada tema está dividido em alíneas e é precedido
quais a filosofia se apresenta, em cada caso, como
de uma introdução que brnece orientaçõessobre o
consciênciade umaépoca.
seu sentido e arma de desenvolvimento.

4. Em quarto lugar, pretende pâr-se continuamente


3. Dado que a exposição se centra nos problemas
em evidência a coerência interna que preside ao
íilosóãcos, não cabem nela notas biográficasnem
desenrolar da história do pensamento.Assim,em referências às obras dos autores abordados. Estas
cada período histórico, em cada tema, procuram informações são fornecidas em quadros separados.
fazer-se referências claras e essenciais à arma como

o problema da teoria em questão surge ou aparece, 4. Os textos que ilustram as teorias abordadassão
de novo, noutros momentos históricos. também apresentados em quadros separados.

E
PRIMEIRO
VOLUME

DOSPRE
SOCÜTICOS
 NADEMÉDIA
5. A parte final de cada volume inclui uma secçãode 2. O sexto capítulo inclui um quadro sobre
bibliografiafundamentalpara a ampliaçãoe RaimundoLula. A Filosofia surge na Grécia, aproximadamente nos começos do séc. VI a C Como as restantes
aprofundamento dos temas tratados. 3. O panorama do pensamento contemporâneo, culturas antigas, a cultura grega fundava-se no Mito transmitido e ensinado pelos poetas.
anteriormente exposto no 3.' volume e agora educadores do povo,, especialmente Homero e Hesíodo Através de complexas narrações e
Para além de uma profunda revisão do texto, doutrinas sobre os deusese os homens, sobre as forças que intervêm acthamentenos
apresentadoem dois capítulos: o capítulo 20,
relativamenteà edição anterior, esta edição apre- acontecimentos cósmicos e humanos, o mito oferecia respostas orientadoras acerca da natureza e
dedicado aos problemas da natureza e do
sentaasseguintesnovidades: destino do ser humano, acerca da origem e das normas da sociedade em que o indivíduo se
conhecimento; e o capítulo 21, que se debruça
sobreo novoconceitodarazão. encontrava inserido e acerca do aparecimento e estrutura do Cosmos No dealbar do séc. W a. C..
1.A filosofia grega, que anteriormente bra apenas
e em consonância com as proftJndas transformações de carácter cultural e social, as inteligências
tratada de forma temática em dois capítulos, é agora 4. No capítulo 20 aumentou-se a exposição
exposta mais alargadamente, abordando-se o seu mais desperta:sentiram a necessidade de substituir as explicações míticas por outro üpo de
sobre o pensamento de Popper e no capítulo 21
explicaçãojustificadade um modo racional Surgiu, assim,a Filosofia como propósito de
desenvolvimento histórico nos três primeiros aborda-sepela primeira vez a filosofia de racionalizar a interpretação do homem e do Universo, das relações dos homens enfie si e destes
capítulos. Marcuse
com a natureza. Se o Mito se caracterizava por dar resposta a todos os enigmas fundamentais
susceptíveis
de inquietaro homem,a Filosofia caracterizou-se, também, pela mdicalidade
das suas propostas. A atitude filosófica é radical num duplo sentido: na medida em que as suas
questões abarcama totalidade do real e na medida em que pretende atingir os princípios
explicativos últimos do real. Desde o seu nascimento, a Filosofia, enquanto atitude crítica e
racionalizadora,constituiu um elemento essencial-- se não mesmo o elemento essencial--
dinamizador da nossa cultura.

Nesteprimeiro volumeocupar-nos-emos da.história da filosofiadesde as suas origens até


ao final da Idade Média. Trata-sede um amplo períodohistórico de vinte séculos,no qual
deveríamosdistinguir por sua vez dois ciclos ou períodos distintos: o correspondenteà
Idade Antiga e o correspondente à Idade Média Esta divisão é, sem dúvida legítima No
entanto, existem razõesde carácter histórico e cultural que nos autorizam a considerar ambos
os períodos como pertencendo a um único ciclo filosófico. Em primeiro lugar, consideram
-se as relações entre o cristianismo e a fllosoâa. Por um lado, a assimilaçãoda fUosofia
grega pelo cristianismo realiza-sena Idade Antiga: quando o Império Romanoé deft
nitivamente derrubado, o pensamento cristão, de orientação grega. platónica, conseguira lá
uma implantação definitiva que culmina na obra de St.' Agostinho. Por outro lado, a Idade
Média prolonga e incrementa esta atitude assimiladorada filosofia grega por parte dos
pensadores cristãos: como teremos ocasião de comprovar, o pensamento medieval exprime-
se através de esquemas e conceitos gregos ' "''
Em segundo lugar, deverá ter-se em conta o carácter específico do pensamento do sé-
culo XIV, ou seja,do anal da Idade Média; a crítica desenvolvida, no século XIV, contra os sistemas
filosóficos medievais é, na realidade, uma critica dirigida contra os esquemas e conceitos gregos

UU:Ü'=::=::JÊ8i2iã5
F='m:1'3::Fu::;
E certo que o Renascimento verá um ressurgir dos sistemas filosóficos gregos, mas este ressurgir
-- aliásconjuntural -- arrutatá consigo uma interpretaçãoda filosofia grega, de sinal muito diferente
da interpretação medieval da mesma.
As forças que mais radicalmente influenciam a nossa cultum são a Filosofia Gregae o
Cristianismo. Hoje, poderemos ser gregos ou antigregos, cristãos ou anticristãos, mas de maneira
alguma bárbaros ou pagãos. O estudo da História do pensamento ocidental mostrar-nos-áa
profundaverdadedestaafirmação.
E E
QUADRO SINCRONICO QUADRO SINCRÓNICA

SÉCUI.O W a. C. SÉCULO
VI a.C. SECULOIVaC. SECUI.OIVaC.

585.Eclipse do Solanunciado 594. Legislação de Sólon, em 560. Nascimentode Buda. 399. Condenaçãoe morte de 371. Vitória de Tebas sobre 388. Representação da última
Arenas Sócrates. Esperta em Leuctra: fim da
porTales de Mileto. 550. Nascimento de Confúcio. obra, P/u/q de Aristófãnes.
hegemonia de Esparsa.
560-550.Maturidade
de Anaxi- 56G550. Começodo reinado de 525. Nascimento de esquilo. 387. Fundação da Academia de 35 1. Primeira a/bica de Demós.
mandrd. Ciro,na Pérsia. Platão. ienes.
359.AscensãodeFilipeao poder
515.500. Actividade poética de na Macedónia:começa a guerra
546. Maturidade de Anaximenes. 546.CiroconquistaSardes. 384. Nascimentode Aíistóteles. 3Z2. Morte de Demóstenes
Esquiloe Píndaro. contra Arenas que durará vinte
Xenófanesemigra para o sul de 348. Mortede Platão.
540.Fundaçãode Eleia. anos
ltália
532. Tirania de Policrates em 343. Aristóteles preceptor de 336. Morte de Alexandre. Des-
532. Pitágorasde Samosemigra
AJexandre Magno. membramento do Império de
paraosuldeltália.
515-500. Legislação de Clístenes 322. Mortede Aristóteles. Alexandre Mogno.
515-500. Nascimentode Parmé- em Arenas.
nides.Maturidadede Heraclito. 307-306.Epícuro
e Zenãofün
dam em Atenas assuas escolas.

SÉCULOVlaC. SECULOllla.C. SECUI.Ollla C. SECUIO 111 a. C.

499-480. Nascimentode Zenão 490. Primeiraguerramédica. 468. Primeirarepresentaçãode 272. Morte de Epicuro Monarquias helenísticas. Esplendorde Alexandriae Pér.
de Eleva.Nascimentode Anaxá- Batalhade Maratona. Soft)cães.
264. Morte de Zenão. gamo.
2112-205. Primeira guerra da Ma-
goras.} 460. Nascimento de Tucídides
480. Segunda guerra médica. Funcionamentodasquatroesco- cedónia entre Romã e Filipe V. 287.212. Vida de Arquimedes
470. Nascimento de Sócrates. las atenienses: Academia. Liceu.
451. Primeira tragédiade Eurí- 218-201.Segundaguerrapúnica. 254-184. Vida de Plauto.
Jardime Stop.
480-430. Actividade intelectual 477.Criação da liga pan-helé- pedes.
de Demócrito,...Protágoras e nica.
447-420. Construção da Acró-
Górgias. 461.Ascensãode Périclesao polede Atenas. SECULOllaC. SECULOlla.C
429. Nascimentode Platão. governo de Arenas. Reformas 423. Representaçãode .4s ]Vzz-
políticas de Péricles. uensde Aristóhnes.
427'Górgias é enviado a Arenas Funcionamentodas quatro es- 197. Segundaguerra da Mace
como embaixador de Siracusa. 431.Início da Guerrado Pelo- colas atenienses. dónia.
poneso 173.ExpulsãodosEpicuristasde 168. Terceira guerra da Mace
429. Morte de Péricles. Romã. dónia.

421. Paz de Nícias. 185-110. Sincretismo na escola 148. A Macedónio converte-se


estóica:Panécio de Rodei. em prownctaromana.
413. Derrota da expedição ateni-
ense à Sicília. í15. EmbaladaatenienseaRo- 146. Destruiçãode Corinto pe-
mã compostapeloschefesde los Romanos
404. Derrota da esquadraateni-
ensee fim da guerrade Pelo- escola:Carnéades(Academia), 144-143.Resistênciados Lusita
Critolau(Liceu)e Diógenes
de
poneso. Hegemonia de Esperta. nos a Romã, sob a chefia de Viriato.

E Babilónia (Stop).
133. Quedade Numância. E
d
+

QUADRO SINCRONICO QUADROSINCRONICO

FILOSOFA :ULTUM FILOSQFK

SlrULOI a.C. SECULOla.C. SECULO


W SlrULO N

Sincretismo entre as três escolas: 8885 e 81..64.Guerrasde 87-54.Casulo. Pensadores cristãos: 302-304. 1ÍJitce
cona os abtãcs. 313. á///o zÜ Mz'/ão

Platonismo,Aristotelismoe Estoi- RomãcontraMitrídates. 86-35.Salústio. 329-389. S. Gregório de Na- 306337. Constantino. 325. Concílio de Niceiacontra a
cismo. 64-17.TiroLívio. zianzo. heresiadeArio.
53. Tomada de Jerusalémpor
337-361.Constâncioll
135-50. Possidóniode Apameia Pompeioem Farsália 70-119.Virgílio. 333-395. S.Gregório de Nisso. 374. S.Ambrósio, bispo de Melão.
(estóico). 48. César derrota Pompeio em 65-8. Horácio. 361-363.Julião.
331.363. Platonismoanticristão=
108-68.Antíocode escalão(pla- 43-17. Ovídio. 381.Concílio de Constantinopla.
áá Açcaeínindp nácar p r'nmprn Julião, o Apóstata. 376-378. Os godos passam o
tónico). 0. Nmcimento deJesus Cristo. Danúbio. 391.Proibição geral do culto
106.43.Cícero. da guerra civil. 354. NasceSt.' Agostinho.
pagão;destruição do Serclpefo/z
70.Andrónico de Redesedita, 379. Teodósio, Imperador do de Alexandria.
Oriente.
em Romã,asobra de Aristóteles.
395. Morte de Teodósio; apa
SECUIO l SECUIO l raçãodos Hunos, pelo Danúbio
Alaricoeleito rei dosVisigodos

13 a.C.-54. Platonismojudaico. 27 a.C.-68 Dinastia Cláudia: Au. 33. Morte de Cristo.


Filon deAlexandria. gueto(27-14),Tibério(14-37), 35.ConversãodeS.Paulo.
SECIJIOV SECUIOV
50.125. Platonismomédio: Plu. Calígula(37-41), Cláudio(41-54), 79. Erupção do Vesúvio e des-
[arco. Neto (54-68). truiçãode Pompeia.
4-65. Estoicismo romano: Séneca. 79-96. Dinastia dos Flávios: Tito 82.Conclusãodo Coliseu. 410.485.Proclo. 406. Vândalos e Suevos cruzam o 451.Concílio deCaledónia:con
Reno rlPnaf'an rln mnnnRciçmn
50-125.Epicteto. (79-81), Domiciano (81-96). \Abala\HV UV AXAVRAV&XUAUARAVB
430. MorreSt.oAgostinho.
410. Saque de Romã por Alarico. 480. Nasce Cassiodoro.
Pseudo-Dionísio
Areopagita.
SECUIOH SECUIOH 453. Morte de Átila.
475. NasceBoécio.
69-122.Suetónio. 476. Fim do Império Romano
121-180. Estoicismo romano: 96-192. DinastiadosAntoninos 90-168. Ptolomeu. do Ocidente.
Marco Aurélio. Platonismo anta. Nervo(96-98),Trajano(98-117), 125-180. Apuleio.
493-494. Os Godos completam
cristão: Celso. Adriano (117-138), Antonino 125-192.Luciano.
aconquistade ltália.Teodorico
Pensadores cristãos: (138-161),Marco Aurélio(161- 129-201. Galeno. instala-se em Ravena.
105.165.S.Justino. 180), Cómodo (180-192)
155.220.Tertuliano.
150-215. Clemente de Alexan
dria. SECtllOW SECULOW

193-Z35. Dinastia dos Severos 526. Morte de Teodorico. 480.543.S. Bento


524. Boécio morre, condenado
SECUIO m SeptímioSevero(193-235),
Cara- SECUIO
m porTeodorico. 527.Justinianosobeaotronono 526-546. Construçãode S.Vital
cala(211-2 17), Heliogábalo(218-
Pensadores cristãos: 222), SeveroAlexandre(222-235). 529. Justinianoencerraasescolas Oriente. de Ravena.

Durante várias décadas sucedem. filosóficasde Arenas.


185-253. Orígenes. 244-261. Missões
maniqueiasno 589.Recaredoabjura o aria- 529. Conclusão de Monte
Neoplatonismo: -seimperadores
por brevesperío- Egipto. 560. Nasce S. lsidoro de Sevilha. nismo

B 203-270. Platina.
233-304. Poúrio.
dos.
287-305. Diocesano.
297. Edito contra os Mani-
queus.
569.NascimentodeMaomé. [i]
#
QUADRO SINCRONICO QUADRO SINCRONICO

FILOSOFIA POLITICA POLITICA

S]EUID VH \ SECUIO\U SECULOXH SEClanXH SECULOXH

636. Morre S. lsidoro de Sevilha. 634-650. OsÁrabesconquistam 632. Morte de Maomé. 1126-1198.FilosoâaÁrabe= Cruzadas Arte Romântica
aSíria,o Egipto,a Mesopotâmia
e Algazel,Averróis. 1125-1190.FredericoBarba
673-735. Beda, o Venerável. 653. Conversãodos Lombardos li63-i196. Construção de Nossa
Dirão.
ao Cristianismo. 1079-1142.Filosofia no .Roxa. Senhorade Paras.
698. lslamização do Norte de Ocidente: Abelardo, Escolade
Áfnca. Chartres.

SECUIO N4H SEI VIH 1100.1160. Escola de S. Vector,


Pedra Lombardo.

730-804. Renascimento
carolín. 711.7113.Conquista de Poitiers Início do Renascimentocaro-
gio.Alcuíno. pelos Árabes língio.
732.Batalhade Poitiers. 796-805.Construçãoda capela
palatina de Aix-la-Chapelle.
771-814. CardosMagno. SECULO
mH SECUIO mR

SECULO K SECA ün IX SECUIO K


1235.1284. Averroísmolatino: 1226-1270.SãoLuís, Rei de Arte gótica
Sigériode Brabante.
796-874. Filósofoárabe:Alkindi. 800. CoroaçãodeCMmMagno. 833. Abderremãol ampliaa mes- 1209. Fundaçãoda Ordem dos
1248.Conquista
de Sevilhapor Fransciscanos.
810-877. Filósob cristão:Escuto 843.TratadodeVerdun quitade Córdova. Augustinismo franciscano:
1221-1274.S.Boaventura. Fernandolll
Edúgena. 121S.Fundação
da Ordemdos
888. Cardos.o Gordo, é deposto: 1235-1316.RaimundoLuto. Dominicanos.
fim da dinastiacarolíngia. Dominicanos:
1274.Concíliode Lido
SECUIOX SECUIOX 1206-1280. Alberto Mogno.
1225-1274. SãoTomasdeAquino

870-950. Filósofoárabe:Alfarabi. 929. Proclamação


do califadode 910. Fundação do Mosteiro de
Século carecente de filósobs no. Córdova. Cluny.
táveisno Ocidente.
936. Otão,o Grande,é nomeado 960. O caliçaAlhaquémeampliaa SECUIOXW
rei da Alemanha mesquitade Córdova. SÉCULO
mV
999. Otão 1116xa a sua capital em 1236-1308.DunsEscoto
Romã. 1265-1321. Dente
Nominalismo: 1385.BatalhadeAljubarrota.
SECULOm SECUIOm 1295-1350. Ockham. 1378-14i4. Cisma do Ocidente. 1304-1371.Petrarca
1300-1358.Jogo Buridano. 1313-1375.Boccacio
980-1037.Filósofo árabe: 136Z.Nicolaude Oresme.
Reconquista
de Espinha. A Cbíznson de Ro/and (segunda
Aücena. l ní)2 N/InrtP
rlp Almanrnr metade do século).
Filósobs judeus: Avicebrão. 1054.Cismade MiguelCeru-
Maimónides. 1085.ConquistadeToledo. lário.
1099. Tomada de Jerusalém
B 1033.1109.Augustinismo:Santo
Anselmo. peloscruzados.
1084.Consagração
Marcode Veneza.
desço
E
rq] ASORIGENSDAFILOSOFIA.
LIJ OSPRÉ.SOCRMICOS
INTRODUCAO 1 0 APARECIMENTO DA FILOSOFIA E O PROBLEMA DA NATUREZA

1.1. Características gerais da cultura é extremamenteimportante, já que caberáaos


poetas e dedos o papel edu(noivo(e, de modo muito
Costuma dizer-se, com razão, que a âlosofia e a ciência surgem quando se abandona o mito, grega
particular,a Homero)
substituindo-o pela explicação racional. Utilizamos a expressão«explicação racional» para traduzir o
A primeira das perguntas que anteriormente
termo grego «logos».A filosofia surge, pois, quando o logossubstituio mito nafunçãode formulávamos(porque surge a filosofa na Grécia e
Homero era para os Gregos algo de muito diferente
do que é, hoje, para nós. Para nós, não passa de um
não noutra cultura?) não pode obter uma resposta poeta que nos brinda com narrativa extremamente
convivência social com M sun implicações de carácter político e moral.
taxativa. Ê, no entanto, possível salientar algumas belas, imaginativas e ilustrativas. Os Gregos api'en-
Este 8ci ito -- abandonodo mito, aparecimentoda explicado racionalou logos-- oconeu, na
circunstânciasque, certamente, influenciaram esse diam em Homero. A sua obra era como que o livro
cultura grega, por volta do século VI a. C. Duas questões se nos apresentam imediatamente: em facto. Pretendeu-se, frequentemente, explicar a ori- de leitura em que sucessivas gerações aprendiam:
primeiro lugar, por que é que este facto transcendentalteve lugar na cultura grega e não noutras
gem da filosofia pelo recurso à genialidade dos Gre- 1.a moral e o conjunto dos valoresacimadescritos;
culturas antigase porquê precisamentenestadata?Em segundo lugar, em que consistem o pensar gos.Pondode parte o génio grego(cuja origi- 2. a teologia. A organização social dos deuses -
racional(explicação racional/(Bos) que se Ihe opõe? SÓuma compreensão adequadadeste último, ou nalidadeé tão difícil de negar como difícil é explicar com Zcus como rei supremo -- e as suasarmas de
seja,do sentido e implicaçõesdo pensarracionalpermitirá compreender,a originalidadee vigor com em que consiste), deverão ser tomadas em conside- comportamento descritas por Homero corres-
que os filósofos gregos investigaram os problemas do universo físico, do homem e da sociedade. ração certas condições socioculturais que tornaram pondem totalmente à organização social e ao código
Este capítulo é dedicado às origens da filosofia e aos primeiros filósofos gregos, correntemente possível o aparecimento da filosofia na Grécia.
di moral da sociedade grega que anteriormente
lospté-socráticos.
descrevemos.A conduta dos deuses (roubos,
Na primeira pme abordaremos o aparecimento da explicação racional(/%os) em oposição ao mito Na
maisimportantes. 1.1.1. Empa píÉ-âlosóÊca adultérios, dolos etc.), que mais tarde viria a ser
segunda apresentaremos M ideias fundamentais dos filósobs pt
A Gréciaanteriorao aparecimento
da filosofia considerada imoral pelos filósofos, está de acordo
com a moral aristocrática a que já nos referimos;
caracteriza-se pelas seguintes circunstâncias:
3. além da moral e da teologia, os Gregos aprendiam
a) Em primeiro lugar, trata-se de uma sociedade de Homero tudo o que, na realidade, sabiam(ou
aristocrática,agrícolae gueneira(cadareino julgavam saber) sobre história, geografia, navegação,
deve defender a sua riqueza dos seus vizinhos). Isso artemilitar,cosmologia,etc.
implica uma determinada estrutura social e deter- Sabe-seque é escassaou nula a possibilidadede
minados ideais morais.
critica asdoutrinase osdogmasnassociedades
onde
A estrutura social é a de uma colectividade dividida
existem livros sagrados.Neste aspecto,porém, o
em duas classes:a nobreza, que vive despreo- carácter peculiar da cultura grega, que careciade livros
cupadamente em tempo de paz e que conduz o sagradose de uma organização sacerdotal que velasse
povo em tempo de guerra, e o povo, fundamen- pela ortodoxia, facilitou a crítica ao conjunto dos
talmente dedicado à agricultura e à criação de gado. ensinamento homéricos. E esta crítica que constitui o
No que diz respeito aos ideais morais, os nobres ponto de partidadafUosoâa
são os depositários únicos da virtude, sendo os
valores supremos a linhagem (bom é o de linha-
gem nobre, mau e vulgar o de linhagem plebeia), o 1.1.2.Etapa ÊlosóÊca
êxito (fracassaré vergonhoso; é-se castigado não
A partir do século Vll a. C., operou-se uma profunda
por ter agido ma] no sentido actualdo termo, mas
transformação na sociedade grega: o comércio as-
por se ter fracassado) e a fama. E facilmente com-
sume uma importância definitiva; aparecea moeda,
preensível que, numa sociedade assimestruturada,
as viagens proporcionam novos conhecimentos
não haja lugar para as ideias de justiça e direito,
técnicos e geográficos, o contacto com outras civili-
que implicam uma certa igualdade.
zaçõese formas de vida e novos conhecimentos de
A estrutura deste capítulo, dividido em duas partes, é:
b) Uma segunda característica própria da cultura etnologia.
1. 0 aparecimentoda 61osofiae o problema da natureza.
2. Os pré-socráticos. Modelos de explicação da natureza.
gregaé que carece de limos sagrados e de um
sistema educativo organizado. Estacircunstância
A sabedoria popular, representada pelos ensina-
mentos rotineiros dos poetas antigos, começa a ser E
O AS ORIGENS DA FILOSOFIA. OS PRÉ SOCRÀTICOS
Í'Õ APARECIMENTOP4FIQ$QF14
FQPBQPÇFM4
PA NAWRÇ;4
1.2.2.A explicação racional(ãWos) samenteio facto de serem homens. A essênciaé.
encarada como inequada pelas mentes mais Por mito deve entender-se, ainda, não só o conjunto de
portanto, o fundamento da unidade das coisashce
despertas:no que diz respeito à moral, os valores namtivas adicionais dos poetas,mas também uma Convém accntuar que a explicação racional(/«os) à multiplicidade dos seus estados e aparências,
bélicos e aristocráticos encontram-se desfasados,já atitude intelectual, algo como uma espéde de começa quando a ideia de arbitrariedade é defini- bem como hce à multiplicidade de indivíduos que
que asrelaçõescomerciais exigem novas normas de esquema mental subjacente a tais o(plicações. Sãovárias tivamente suplantada pela ideia de necessidade,ou dela compartilham.
justiça e de direito como base para as trocas; no que ascaracterísticas
especíHca
do mitoassimentendido, seja,quando se impõe a convicção de que as coisas
respeita à teologia homérica, o conhecimento de isto é, enquanto atitude intelectual pedante a realidade. acontecem
quando e como têm de acontecer. Conhecer ascoisas será,então, conhecer o que elas
outros povos origina a convicçãode que cadapovo Importa-nosconsiderahndamendmenteduas.Em verdadeiramentesão, o que têm de comum e
Esta convicção pode hoje parecer-nos elementar,
e cada raça representam os deuses de maneira peneiro lugar, as baças ruturãs(o fogo, o vento, etc.) mas constitui certamente uma das mais impor- permanente. Os Gregos estavam firmemente con-
diferente; em suma,abre-secaminho à convicçãode são personiâcadas e divinizadas no mito: tenta-sede vencidosde que, por muito útil que o conhe-
tantes, conquistas da cultura ocidental.
que a interpretação do Universo e da convivência deuses pessoas cuja preseng e actuação como tú se cimento sensível possa ser, os sentidos não bastam
Estaideiade necessidade
estáassociada
a um
humana deve assentar em bases inteligíveis e hz continuamentesenta no decurso dos aconteci- para nos proporcionar esse conhecimento. Pelo
racionais. conjunto de ideias que constituem o que podemos contrário, os sentidos mostram-nos uma multipli-
mentos. Em segundo luar e em consonânda com o alia denominar coordenadas ou esquema intelectual
O que atrás fica dito permite-nos compreender dois tenor, os Énómenos e acontecimentosdo Unhelx) de- cidade dc indivíduos, de aparênciase de estados
dentro do qual tem lugar a explicação racional na mutáveis e acidentais. Ê necessário um esforço
factos fundamentais:em primeiro lugar, que a pendem da vontade de um deus (ckE deusa em geral).
filosofia grega.
filosofia surge na Grécia como uma crítica da As consequênciasdaí decorrentes são facilmente intelectual, racional, para atingir o ser das coisas
sabedoria popular e rotineira, que pretende compreensíveis:os fenómenos naturais -- e bem a) A ideia de que as coisasacontecem como têm de Deste modo, e em correspondência com a duali-
suplantar; em segundo lugar, que a ct'ética ao mito assim a conduta humana, individual e colectiva -- são acontecerestá relacionadacom a ideia de dade anteriormente estabelecida(unidade e perma-
se ehctua em todas asdentes(moral, sociologia, em grande medida imprevisíveis, acontecem de permanênciaou constância. Tomemosum nência face à pluralidade e mudança), os Gregos
teologia, astronomia, cosmologia). Trata-se de uma modo arbitrário, no seu decursodependem da exemplo muito simples: a água comporta-se de estabeleceram ainda uma dualidade no campo do
ROvâvisão da realidade em toda a sua complexidade, vontadecaprichosada divindade. maneira constante (por exemplo, ferve e solidifica conhecimento:a razão face aos sentidos. A
uma visão que se esbrça por eliminar os pressu- sempre a determinadas temperatura); possui, pois, heterogeneidade do conhecimento racional relati-
postos irracionais do mito. É óbvio que, dentro destascoordenadas,é im- propriedades constantes e, por conseguinte, uma vamente ao conhecimento sensível revelou-se aos
possível haver ciência. A ciênciasó é possível maneira de ser constante ou permanente. Esta gregosfundamentalmente
no domíniodasmate-
enquanto procura das leis e das regularidades que maneira de ser constante ou permanente foi máticas. na descoberta da estrutura matemática
1.2. Mito e explicação racional IJogosl regem a natureza; ora, se por princípio se nega a denominadapelos Gregosessência(eídos).A subjacente ao real e na especificidade do raciocínio
própria existência de leis que regem o Universo, essência é o que uma coisaé apesardas suas matemático. A distinção entre os dois tipos de
1.2.10 mito como procederentãoparaasdescobrir? possíveis mudanças de aparência ou estado. A água conhecimento e a presença de ambos no homem
Convémassinalar,por outro lado, que o quadro do do nosso exemplo poderá apresentar-se em estado teria, por seu turno, importantes repercussoesnas
No parágrafoanterior, utilizámos a palavra pensamento mítico, que estamos a traçar, é em certa sólido ou líquido, etc., mas é sempre água. Ou seja, suasideiasantropológicas.O que foi dito pode
«mito»ao referirmo-nosà filosofiacomo crítica medida esquemático. A arbitrariedade no curso dos o homem apresentar-se-á sob diversas aparências, representar-se por meio deste gráRco:
do mito. Em geral, deve entender-se por mito o acontecimentos(sejam humanos ou cósmicos) tem idades, raças, culturas, etc., mas em todos estes
conjunto de narrativase doutrinastradicionais certas limitações mesmo no pensamento mítico. A casos trata-se sempre de homens
dospoetas(especialmente
Homeroe Hesíodo) própria actuação dos deuses está submetida a certas
Desta forma, o pensamento grego conseguiu
acercado mundo, do homem e dos deuses. forças de caráctercósmico, como o destino. Estas
estabelecer uma série de conceitos opostos dois a
Como conjunto destas narrativas e doutrinas, o brças são entidades mais ou menos imprecisas que,
dois, cuja trama constitui o sistema de coordenadas
mijo caracteriza-se por oferecer uma explicação ao contrário dos deusesa que anteriormente nos
da sua explicação da realidade. Por um lado, temos o
total, que forneça respostas para os problemas referimos, não são pessoais, mas abstractas. Contra o
que há de pennanente nas coisas hce ao que nelas
e enigmas mais prementes e fundamentais destino nada podem os homens, nada podem os
há de mutável, face aos seus diferentes estados ou
acercada origem e naturezado Universo, do deuses. Deste modo, o destino acaba por estabe-
lecer uma certa necessidade no acontecer universal. aparências;o permanente constitui, por seu turno, a
homem, da civilização e da técnica, da orga-
nização social, etc. Ao opor-se às explicações de essência (o que as coisas verdadeiramente são)
A filosofia por um lado criticara a arbitrariedade
face às suas aparências (o que as coisas parecem
carácter mítico, a filosofia não renunciara a esta das intervenções divinas a que acima nos rekdmos
dimensão de resposta última acerca da ser); por último, esta maneirade ser constanteé o
e, por outro, conservara esta ideia de necessi-
que existe de comum ou idêntico entre seres que

B
totalidade do real; pelo contrário, tal dimensão
constituirá um dos traços essenciaisdo
pensamento filosófico.
dade, despojando-a do seu carácter ilógico e
inescrutável e úrmando-acomoumaexigênciada
racionalidadedorsal.
apresentam aparências diversas: homens de raças e
culturas diferentes etc., têm em comum preci-
E
O AS OBIÇFN$P4FIbQ$Qf14:
Q$pRÇ$QÇB4TIÇQ$ 1 0 APARECIMENTO DA FILOSOFIA E O PROBLEMA DA NATUREZA

A busca do permanente e comum está associadaa É também ct)m frequência que o termo natureza
O mito de Prometeu Mas o sagazfilho de Jápeto ludibriou-o, escondendo adquire um segundo significado quando o utili-
uma segunda convicção fundamental: que todo o
Quando os deuses e os homens mortais se separaram numa cana oca o brilho intenso do incansável fogo
Universo se reduz, em última análise, a um ou zamosparareferir classesou conjuntos de coisas;é
em Mecona, Prometeu ofereceu um boi enorme que Quando Zeus altissonante viu que os homens possuíam
a poucos elementos. Estaconvicçãoconstitui outro o que acontece quando nos interrogamos acercada
dividiu com ânimoresoluto,pensandoenganara o brilho intensodo bgo, a suaalmahiiu-se de novo e o
dos pilares sobre os quais assenta a investigação natureza humana. Neste caso, natureza quer dizer o
inteligência de Zeus. De um lado, põs a carne, as seu coraçãoirritou-se. E imediatamente,
como
contrapartida para o logo, preparou unm desgraça racional acerca do Universo. Sem esta convicção, a que as coisas são, aquilo que(no parágrafo antc-
miudezas, a gordura, ocultando-as no ventre do boi; do
outro lado, com astúciafalaz,juntou os ossosdes- paraoscontem. ciência é igualmente impossível. rior) denominávamospor essência,o modo de ser
carnados do boi e dissimulou-os, cobrindo-os com Por vontade do Crónida, o ilustre Patizambomodelou E esta perspectiva que permite compreender a permanenteou constante
gorduraluzidia então em terra uma imagem com aparência de donzela originalidade e a transcendênciahistórica da interro-
Então o pai dos homens e dos deuses dirigiu-se a ele: casta.A deusa Arena de olhos glaucos deu-lhe uma íàixa gação dos filósofos gregos acerca da arcbé ou 1.3.1.Anatultza segundoosGitgos
«Filho de Jápeto, o mais ilustre de todos os deuses, e adornou-acom um vestidoresplandecente
de princípio ú[timo real.Comefeito,a partirdesta
amigo meu, repartiste os lotes tão parcialmentel» brancura; cobriu-lhe a cabeçacom um magníRcovelo perspectiva é possível compreender que a própria Estabelecidoeste duplo uso do termo (como
Assim falou Zeus, conhecedor dos desígnios imortais, bordado pelas suas próprias mãos; e rodeou os seus
interrogação
daarcbé ou princípio é muitomais universo na sua totalidade e como ser intrínseco
em tom de brincadeira. O astuto Prometeu respondeu- seios com deliciosa coroas de erva fresca inçada com
importante do que as variadas respostas que os permanente das coisas), salientaremos em seguida
.ihe com um leve sorriso e não ocultou a sua hlaz flores. .
filósofos gregos bum sucessivamente tentando. Há os aspectos que caracterizam a natureza) segundo a
astúcia: Logo que preparou o belo mal, em troca de um bem,
pessoas
de escassa
sensibilidade
históricaquese filosofiagrega
«Zeus,o maisilustre e poderosodos deusessem- levou-a para onde estavam os outros deuses e os
homens, engalanada com os atavios da deusa de olhos
limitam a sublinhar a ingenuidade de Talesde Mileto a) Em primeiro lugar, o conceito de natureza e
piternosl Escolheo lote que o coraçãono teu peito te
dita» glaucos, fUhado poderoso pai; e um espanto enorme se quando estearmava que a águaé o princípio último
isto é válido para a dupla acepçãoreferida está
Falou certamente com pensamentos falsos. E Zeus, apoderou então dos deuses imortais e dos homens de tudo o que é real.A respostade Talesnão é
sabedor dos desígnios imortais, reconheceu o logro; mortais quando viram o espinhoso engano, irresistível realmente importante. O que é notável e genial é que
mas o seu coração estava já a preparar desgraças para os paraos homens. E destadonzela que descende a estirpe este Hósoh fói o primeiro a formular ul pergunta em
homens mortais e ia dar-lhes cumprimento. dm mulheresfeminis 1. . .1. Foi uma grandecalamidade toda a sua amplitude e radicalidade.
Com ambas as mãos recolheu a gordura branca. As suas para os mortais, dado que a vida dos varões não se
entranhas irritaram-se e a cólera atingiu-lhe o coração conforma com a penúria funesta mas sim com a
quando viu os descarnados do boi e a fãlaz astúcia. Foi saciedade.

a partir daí que sobre a terra as tribos de homens Tal como nas colmeias abobadadas as abelhas 1.3. A natureza jpÀys;sl
queimam os ossosdescamados paraos imortais quando alimentam os zângãos,sempre ocupados com tarefas
fazem sacrifícios nos altares. E Zeus, pastor das nuvens, mesquinhas(durante todo o dia até ao põr-do-soí elas Nos parágrafos anteriores, procurámos evitar a
terrivelmente in(bgnado dissea Prometeu: ahdigam-se diariamente e fazem brancos favos de mel, utilizaçãodo termo «natureza».
Vamosagoratentar
«Filho dejápeto, conhecedor dos desígnios de todas as ao passo que eles aguardam nos favos recobertos e tornar claro o significado e importância desta ideia
coisas, amigo meu, certamente não te esqueceste lá da recolbeixno setauetttreo eqbrçoalheio). assim no pensamento grego, bem como a sua relação com
[ua hlm astúcias». também Zeus altissonante fêz com que as mulheres, o conjunto de conceitos já expostos que servem de
Assim falou Zeus colericamente, conhecedor dos sempre ocupadas com tarefas pemiciosas, fossem uma coordenadas à explicação racional ou /(egos.
desígnios imortais. E desde então lembrou-se sempre desgraçapara os homens mortais
deste logro e não deu a infatigável chamade fogo aos Comecemospor observarque de um modo geral
fresnoslos homensmortais que habitam sobrea termo Hesíodo,7b(49onla .natureza»
ou 'PZWszb,
possuiparaos Gregos,e para
nós, dois grandes usos ou acepções. Fala-sc
frequentementeda naturezacomo o conjunto de
seresque povoam o Universo,excluindo deste
b) Há, pois, essênciasou maneirasde ser que são mento voltará a fazer a si próprio a mesma conjunto as coisas produzidaspelo homem (mais
comuns a uma multiplicidade de indivíduos. Nesta pergunta sobre os indivíduos pertencentes a estes adiante veremos a importância desta excepção):
ideia se baseiaa actividade intelectual que consiste grupos. Talvez -- pensará minerais, plantas, assim, fala-se actualmente da degradação da
em classificar. Suponhamos agora que, baseando- animais e homens não sejam senão variedades ou natureza provocada pela actividade industrial
nos nestaideia, classificamosglobalmente os seres estadosdistintos de uma única substância,ou humana e da necessidadede protegê-la; na
do Universo agrupando-os em minerais, plantas, então o resultado de combinaçõesváriasde umas linguagem religiosa, diz-seque «anaturezainteira

B animais e homens. Deter-se-á aqui o entendi-


mentohumano?Decertoque não. O entendi-
tantas poucas
mentares.
substânciasprimeiras e ele- louva o seu Criador,, etc. Nesta acepção, a natureza
coincidecoma totalidade do Universo.
Terracota neolítica: O Pensador.Museu Nacional de
Hist6l'ia da Roménia,Bucareste. E
r'
O AS ORIGENS OA FILOSOFIA. OS PRÉ.SOCRÁTICOS
1 0 APARECIMENTO DA FILOSOFIA E O PROBLEMA DA NATUREZA
indissoluvelmente ligado ao conceito de neces- máquina presidirá à concepção do Universo na
sidade a que anteriormente nos referíamos. No modernidade); terá de conceber-sesegundo o -- são aquilo a partir do qual sc geram os seresdo A interrogação dos filósofos gregos acerca do
tocante ao Universo como totalidade, a necessidade modelode um organismovivo. Universo.O princípioassimconcebidoé a origem; princípio ou princípios da totalidade do real
traduz-se no facto de aquele ser um todo ordenado, -- são aquilo em que consistem os seres do Universo apresenta, pois, uma dupla característica: a sua
um Cosmos e não um Caos. Ora o Universo só (na hipótese de Tules,ascoisasnão só procedem da radicalidade, na medida em que pretende alcançar
poderia ser um todo ordenado se os diferentes seres 1.3.2. Natureza, essência, origem, causa água como são, em última análise, água). O princípio o princípio ou princípios últimos e originários e a
que o integram (os astros, a Terra, os elementos, os assim concebido é o permanente, o substrato sua universalidade, na medida em que aspira a
Passemos agora à segunda questão: a relação que
seres vivos) estivessem no seu lugar e se com- último; atingir o princípio ou princípiosde todo o real
estaideia de naturezamantém com o conjunto de
portassem da forma que lhes compete; é preci- -- são aquilo que é capazde explicar as diferentes Trata-se, portanto, de uma interrogação filosófica
conceitos que anteriormente considerámoscomo
samente a natureza dos diferentes seres (entendida transformaçõesdo Universo. O princípio assim ou, mais exactamente, da interrogação que dá início
a trama da explicação racional ou /egos. Tudo o concebidoéacausa. à filosofia
agorano seu sentido próprio e intrínseco) que
que até agora expusemos permite-nos com-
determina o seu lugar no Universo e a sua maneira
preender esta relação de acordo com as
de comportar-se.
observações
seguintes
b) A natureza não é algo estático e inerte. O Enquanto modo de ser próprio e permanentedas
Universo como totalidade revela uma ordem coisas,a naturezaidentifica-serealmentecomaquilo
dinâmica na qual os movimentos dos astros, as que denominávamosessência.Existe,no entanto
estações, as gerações dos seres vivos, etc., se uma importante diferença de matiz resultante do
sucedemordenadamente.A natureza é, pois, carácter dinâmico da natureza que assinalámos: a
dinâmica. Negara mudançae o movimentoé essência é a maneira de ser permanente das coisas
negar a natureza. Por isso, Aristóteles chamará por oposição aos seus aspectos variáveis e mutáveis;
apóyszX?ós
a Parménides,
isto é, negadorda a natureza é esse mesmo modo de ser permanente,
natureza, pois Parménides, como mais adiante mas só enquanto determina um certo tipo de activi-
veremos, negava a possibilidade do movi- dadesou operaçõespróprias
mento
Aplicando esta diferença ao quadro de oposições
c) A natureza implica, pois, movimento e exposto na secção1.2.2. diremos que, enquanto a
actividade, mas movimento e actividade essência prescinde dos aspectos mutáveis e
inti'ínsecos e próprios do ser natural. Este variáveis das coisas, a natureza explica pre-
terceiro e importantíssimo aspecto marcaa sepa- cisamente essas variações e mudanças. O
ração radical entre os seres naturais e os seres conceito de natureza estabelece,portanto, uma
artificiais ou artefactos, isto é, as coisas que são ponte entre os membros das diferentes opo-
produto do trabalho e da indústria humanos.Uma sições do gráfico a que nos referimos: é o
cadeira, enquanto cadeira, não possui propriedades permanente, mas enquanto explica as mudanças;
diferentes das que Ihe cabem por orça dos materiais é o que as coisas realmente são, mas enquanto
naturaisde que é feita. ParafraseandoAristóteles, fundamento do que parecemser; é o princípio de
O subsüactomaterial como arcbé
suponhamosque semeamoscadeirasde pinho. unidade capaz de gerar a pluralidade. Assim
interrogar-se acerca da natureza é interro- A maioria dos primehos 61ósohs pensou que os únicos princípios de rodas ascoisas eram de natureza material: todos
Nada crescerá, com certeza. Mas supondo que algo
gar-se sobre o que as coisas são para, a o sereseram assim constituídos, formando-se primeiro a partir disso e nisso se decompondo por último
crescesse,não cresceriam cadeiras (felizmente para no entanto a entidade por mais que assuasqualidades mudem. Esseera o elemento e o princípio que
os carpinteiros) mas pinheiros: estes têm uma partir daí, explicar os seusmovimentose constituía os seres, e por Isso pensaram que nada se gerava nem se destruía porque essa natureza se mantinha sempre
actividadeintrínseca e própria que uma cadeira -- processos. a mesma.Do mesmomodo não dizemosque Sócratesé uma entidade total quando se torna belo ou músico,ou que
ente artiRcial não possui. se destrói quando perde tais disposições(já que o sujeito, o próprio Sócrates,permanece); o mesmo acontece
A pergunta dos filósofos gregos é desde o primeiro relativamente a todas as outras coisas.
E precisamente por causa desta actividade intrínseca momento (desde Tales de Mileto) uma pergunta Por consegtlinte,deve bater alguma natureza, sqa uma ou mais de uma, a parir da qual tudo é gerado mas
e própria que caracteriza a natureza que o Universo pela natureza, pelapÉyszk.O princípio ou princípios o-se essa natureza

B não pode ser concebido, em geral, pelos Gregos


segundoo modelo de uma máquina (o modelo da
últimos (a água, o ar, etc.) são a natureza das coisas,
porque
Iã PRÉ.SOCRÁTICQ$, #QPFÇQ$
PÇ F PÇIÇ4Ç4Q
PANATUREZA 2 0S PRE-SOCRmICOS, MODELOS DE FXPLICAÇAO DA NATUREZA
realidade ou substância seja capaz de exercer afirmação de que este processo é necessário,
O tcma fundamental de que os primeiros filósofos, Exporemos de seguida os diversos modelos a que
recorreram. sozinha todas estas funções? alheio a qualquer arbitrariedade, e regular,
os pré-socráticos, seocupam é a naturezaouPZyds Os filósofos de Mileto -- Tales, Anaximandro e '.segundoa ordem do tempo»
Daí também serem frequentemente denominados
Anaxímenes - consideraramque era possível,
cosmólogos ou físicos (Aristóteles chamava-lhes 2.1. Natureza e substrato. A esteio de estabelecer um único princípio ou natureza. Talos
p@szêo{ ou seja, físicos,ou, se preferir, fUósobs da 2.2. Natureza e molemáticos.
Mileto de Mileto sustentou que esseprincipio é a água;
natureza). A sua actividade desenvolve-se durante o
Anaximandro considerou que tal princípio não pode A esmoa pihgórico
séculoVI e a primeira metadedo séculoV a.C. (ver Emboraa ideia de natureza@@sis)remete parao ser nenhuma das substâncias concretas que povoam
quadrocronológicoseguinte). Ospitagóricos
foramsobretudo
matemáticos
(«os
princípio(arcbé) e este aba.que as ideias de origem, o Universo, já que todas elas procedem desse
substrato e causa,não podemos deixar de levantar primeiros que fizeram progredir as matemáticas»
Nem todos os filósobs pré-socráticos propuseram o princípio; por isso chamou (W'eírom (o inde-
como diz Aristóteles) e a sua dedicação às mate-
mesmo modelo de explicação racional da natureza. uma séria questão: será possível que uma única terminado, o indefinido) ao princípio; Anaxímenes,
máticas exerceu influência definitiva na sua
finalmente, à semelhançade Tules, recorreu a uma
explicação acerca da origem da natureza (origem,
substânciadeterminadae afirmou que o princípio é
substratoe causa)do real. Observaram,com
o ar, do qual todos os seresderivam, atravésde
eíêito,como múltiplaspropriedades
e compor-
processos de rarefacção e de condensação.
QUADROCRONOLÓGICODASPRINCIPAISCO] Não se encontram quaisquer escritos de Tules ou de
tamentos dos seres reais podem ser formulados
É FILÓSOFOS GREGOSATÉ AO PERÍODO HELENÍSTICO Anaxímenes.Contudo e felizmente,um comen-
matematicamente
epartiram da hipótesedeque
todos os seres do Universo o que são e a sua forma
tarista de Aristóteles, Simplício (séc. VI d. C.),
Quando figure apenas uma data, esta é sempre aproximada e refere-se ao que os antigos de comportar-se -- são formuláveis matemati
transmitiu-nos as seguintes e preciosas linhas de
chamavam acmé, isto é, maturidade (idade de quarenta anos aproximadamente). camente.A partir de então,a ciênciabeneficiou
Anaximandro: «Ageração dos seresexistentes tem
continuamente desta hipótese, confirmando-a
lugara partir daquilo que conduz à suadestruição,
Os filósofos gregos até Demócrito e incluindo os sofistas, costumam denominar-sepré- sempre
como é justo e necessário.E indemnizam-see
.sacra/iras. Tal designação é pouco adequada, dado que alguns eleatas e pluralistas, bem pagam o seu castigo uns aos outros pelas suas Também a partir de então, estadócil submissãodo
como todos os sofistas, são contemporâneos, ou mesmo coetâneos, de Sócrates. Universo às matemáticasconstituiu motivo de
ofensas(ou injustiça:czdlêía) segundoa ordem do
tempo». Nestas linhas, surge poeticamente expressa reflexão. Porque é que os seres do Universo se
1. FILOSOFIAPRÉ-SOCRÁTICA ll. OSSOFISTASESÓCRATES a ideia de que o Universo constitui um processo em acomodam às matemáticas? Os pitagóricos
(segundametadedo séc.V a. C.) que a destruição de uns seres dá lugar ao surgir de consideraram como única explicação possível que os
(todo o séc. VI e primeira metade do séc. V
a.C.) Protágorasde Abdera(aprox. 490-410 a. C). outros seres opostos e vice-versa, bem como a princípios das matemáticas são também os
1, Filósofos de Mileto Górgias de Leontini(aprox. 48(»380 a. C.)
Talos(585a.C.) Sócrates( 469-399 a. C.)
Anaximandro ( 547a,C.) rales de Mileto Nascido na segunda metade da século Vll a. C. e que morreu em
lll.PLATÃOEARISTÓTELES séculoVlla.C.,desenvolveu agua meados do século VI. Foi também
Anaxímenes (525 a. C.)
(dos começos do séc. IV a. C. até ao final actividadeintelectual na primeira astrónomo, geómetra e geógrafo
2. Pitagorismo antigo
do mesmo) metade do século seguinte. Astró- (desenhouum mapado mundo)
Pitágoras
(530a.C.)
Alcméon de Crotona (500 a. C.) Platão(427-347a. C.) nomo (predisseo eclipsedo So] e escreveu unia obra que -- como
Aristóteles(384-322a.C.) ocorrido no ano de 585 a. C.), muitas outras dos filósofos pré-
3. Heraclito(530a.C.)
engenheiro e matemático(formu- .socráticos -- foi posteriormente
4. Xenófanes (530 a. C.)
5. Filósofos eleatas IV PERÍODO HELENÍSTICO lou o teoremaque tem o seu intitulada Acerca íü J\hfzzrem.
nome), Tulesé consideradoo De Mileto foi também Ana
Parménides
(470a.C.) (dos finais do séc. IV ao séc. l a. C.)
ZenãodeEleia(450a.C.) Estoicismo.Zenãode Cítio(aprox. 341-261
primeiro filósofo grego ao xímenes, um pouco mais
introduzirainvestigação
racional jovem do que Anaximandro
MelissodeSamos(445a.C.) a.C.)
acercado princípio ou arcbé da Sabemos muito pouco a seu
6. Pluraiistas
Epicurismo. Epicuro de Samos feaí respeito, salvo que escreveu
Empédocles
(450a.C.) (341-270a.C.) Compatrício, discípulo e sucessor também uma obra acerca da
Anaxágoras
(450a.C.) de'falesfoi Anaximandro,nas- natureza na qual expunha as
Leucipo (440 a. C.) Cepticismo. Pirro de Élis
E cido talvez nos últimos anos do suasteortas.
Demócrito (420 a. C.) (aprox. 360-270 a. C.)
r'
Ó ÀI ORIGENS OA FILOSOFIA. OS PRÉ.SOCRÁTICOS 2 Q$ P©.$QÇB4TIÇQ$, MOOELOS OE EXPUCAÇAO OA NATUREZA
O Universo é fogo(«este Cosmos, o mesmo de Parménides escreveu um Poemczque consta de uma
Pitágoras todos, não o fez nenhum deus nem nenhum introdução ou proémio e de duas partesperfei-
A sua maturidade situa-se por volta do fundou a sua escola. A sua figura gração,aüibuindoumaimportân- homem, massempre foi, é e será fogo eterno tamente distintas. Na primeira -- usualmente
ano 530 a. C. Nasceu em Somos, mas depressa se converteu em lenda. cia fundamental à suapurificação que se acende segundo a medida e conforme a intituladaVzada Vezzíade Parménides
expõea sua
emigrou para a Grande Grécia, Atrihlii.cp.]hp a in\rPnrãn da ráhiia atravésdo conhecimento e de um
medida se extingue», fg. 30); a lei que regeo concepção da realidade; na segunda -- intitulada yzíz
estabelecendo-se
em Crotonaonde de multiplicaçãoe do teorema sistema de vida rigidamente regu- Universoé a luta dos contrários(«a guena é o pai da OPznzcão expõe a origem e a configuraçãodo
que tem o seu nome. Visto que lado por proibições. No campo de todas as coisas e rei de todas as coisas, a Universo
nada escreveu, torna-se impos-político, apoiavam o partido
uns fez deuses e a outros fez homens», fg. 53);
síveldistinguirassuaspróprias dórico e exerceram o poder os contrários constituem, em última análise, uma
contribuições das da sua escola. durante muito tempo, até que, a a) Via da Verdade
A escola pitagórica foi uma meio do século V a. C., se veri- unidade profunda («Deus é dia-noite, Inverno- A doutrina de Parménides sobre a realidade. sobre o

comunidade singular de carácter ficou uma rebelião em que morreu .Verão,guena-paz,fartura-fome»,


fg.67);a que há ou existe, pode ser resumidaem duasagir.
religiosoe político.No a maior parte dos membros da
cientí6lco, harmonia que caracteriza o Universo («harmonia rnaçoes
campocientífico,cultivarames- escola.Alguns,comoFilolau,fugi- oculta,,, fg. 54), não é afinal uma harmonia estática, 1.A partir de uma única realidade é impossível
pecialmentea matemática,a ram e estabeleceram-seem Tebas. mas o equilíbrio dinâmico das tensões entre os que surja a pluralidade, contra o que afimlavamos
música e a astronomia. No âmbito Outros continuaram ainda por contrários, uma harmonia tensa«como acontece milésios(e que talvez os pictagóricos do scu tempo
religioso,afirmavama imorta- meio sécdo na Grande Grécia, até com o arco e com a lüa,, (fg. 51). discutissem, como insinuámos). Efectivamente,
lidade da alma e a sua transmi- à suadispersãodefinitiva. Ao procurar a ordem e inteligibilidade do real, não suponhamos que originalmente existia apenas águas
em seusaspectos estáticos mas no seu dinamismo, porque não continua a existir somente água?Se eldstia
não na identidade mas na contradição, na luta dos apenas água, esta não pôde gerar-se a partir de outra
contrários, Heraclito chamou pela primeira vez a substância(que, por hipótese, não existia) e muito
atençãoparaadialéctica. menos transformar-se noutra coisa ou desaparecer(o
princípios dos seres reais,e como os princípios das que poderia ímê-la desaparecer ou transformar-se, se
2.3. Natureza e logos. Heroclito e
matemáticas
sãoos números, aâmiaram que os Parménides além dela nada mais existe?).O que desde sempre não
2.3.2. Pannénides
números constituem a natureza do Universo. A existe nem existia, não pode originar-se;o que existe
partir desta afirmação,dedicaram-sea uma dupla Parménidesrepresenta um marco decisivo na desde sempre não pode ser destruído. O que existe,o
tarefa: por um lado, atribuir (por meio de pro- 2.3.1. Hemclito evolução da filosofia grega. De facto, como con- que é (o ente), é, segundo Parménides, não-en-
cedimentos em grande medida arbitrários) um sequênciada sua doutrina, a HilosoRia
da natureza gendrado, indestrutível, imutável, finito, compacto,
Heraclito é tradicionalmente considerado como o
número a cada coisa; por outro, e visto que os tomará um rumo e princípios totalmente diferentes. homogéneo, indivisível e esférico.
filósofo que aBrmou radicalmente que tudo muda e
números são muitos, perguntaram-sede que são
nada permanece, que o Universo, não é mais do que
constituídos e donde procedem os mesmos
contínuo devir no qual a lei da identidade a Parménides sua importância Hilosó6lca é enor- imóvel; na segunda, apresenta
números(o que equivalia a perguntar, como vimos, Nasceu nos Banaisdo séc. VI a. C. e a
identidade de cada coisa consigo mesma carece de me, uma vez que a sua obra diüde uma cosmologia de tipo tradi-
de onde procedem,em última análise,os seres
vigência, pois todas as coisas estão submetidas a cional, narrando a origem e
a tilosoEia prê-socrática da natu-
reais).
uma contínua transformação. Postas as coisas assim reza em dois períodos bem criaçãodo Universo.
definidos: o dos sistemas monis- O nome de Parménides está
Os números afirmavam procedemde dois tão simplesmente, Heraclito teria negado os
tas anterioresa ele e o dossis- associado ao do poeta Xenó-
elementos, o par e o ímpar. Os pitagóricos próprios pressupostos da explicação do real (o
adoptavam assim não uma explicação monista mas permanente face ao mutável, a unidade face à temaspluralistas,que Ihe são fanes. Teofrasto diz que Xenó-
posteriores. Talvez tivesse sido fanes -- que nas suas obras critica
dualista da natureza e conseguiram estabelecer uma pluralidade, o que é face ao que parece ser),
estabelecendo a absolutairracionalidadedo real. pitagórico na juventude energicamente a teologia mítica
série de oposições entre dois termos (par-ímpar, Escreveuum PoePzaem verso de Homero -- foi o mestre de
limitado-ilimitado, bom-mau, luz-obscuúdade, etc.), Estainterpretação da filosofia de Heraclito não é que--além do de Paiménides. Foram seus continua-
as quais mais não são do que aspectosou falsa,mas é sem dúvida unilateral. Tudo muda, com carácter alegórico-religioso dores Melisso e Zenão de Eleva,
concreções dos princípios originais propostos. efeito,maso devir não é inacional, caótico, já compreendia duas partes clara- tendo este último proposto
Talvez não sabemos -- os pitagóricos antigos se que se realiza de acordo com certas leis e pro- mente distintas: na primeira -- via argumentos para
tivessem perguntado se seria possível reduzir estes porções.A lei ou logos interno do devir universal daverdade-- expõeasuadoutrina demonstrar a impossibilidade da

B opostos a um único princípio odgina] do qual ambos


procederiam.
constitui o verdadeiro princípio explicativo do
Universo.
da realidade,do ente único e movimento
B
r'
o AS ORIGENS DA FILOSOFIA. OS PRE-SOCRATICOS 2 0S PRE-SOCRmlCOS,MODELOSDE EXPLICAÇÃODA NATUREZA

2. Juntamente com estas características ou pro- ou existirá, masnão existe?»(ík. Vl11,20), a razão interrogação. Desde então e até aos nossosdias têm Aceitando-se este princípio, não resta outra
priedades, Parménides dedzzz também que o que volta a afirmar necessariamenteo primeiro e exclui surgidorespostasmuito diferentesa estaquestão. alternati\ a senão afirmar que tudo existe desde
existe deverá ser único, isto é, uma única desse modo toda a existência passada ou futura, mas A diferença que Parménidesestabeleceuentre as sempre. Partículasdiminutasde todasassubstân-
realidade. não actual. Desta maneira, chega-seàs características duas vias(a da verdade e a da opinião) tevc grande cias existiam e existem sempre (nos homens
As consequências destas duas afirmações são da realidadeque acimaassinalámos.No raciocínio influênciano campoda teoria do conhecimento. predominam as partículas de homem, mas na
peremptórias e iniludíveis: se, por um lado, de uma de Parménides, o /(Wosrecai sobre uma noção for- l 'A razão, como reíérimos, exige que a realidade seja realidade do homem como aliás nos restantes
única realidade não pode surgir a pluralidade e se, mal e abstracta de ente, de realidade: formal, l única e imutável; contudo, os nossos sentidos, seres -- há partículas ou homeomerias de todas as
por outro, a razão nos força a aceitar a existência de porque se atende exclusivamenteao jogo lógico percepçoes e experiências mostram-nos :i..plura substânciasdo Universo: «tudo participa de tudo»,
uma só realidade não haverá outro remédio senão destanoção;abstracta, porque nelaseprescinde cidadee o .DQillDento. A partir de Pamiénides diz Anaxágoras) Estas inumeráveis partículas
declararque o movimento
e a pluralidade
são de todos os aspectos difêrenciadores dos entes configura-se, já 1lç um glQgggeânitivo, a opo- encontravam-seoriginalmente misturadasnuma
irracionais e ininteligíveis. Dentro das coordenadas reais. sição entre <iazãoje osjsentido$ entre o conhe- massa compacta e maciça, sem interstícios nem
da explicação racional expostas no capítulo anterior, cimento intelêãiiãrb o cõiiliêêiifiênto do visível. separação alguma. Toma-se assim possível explicar a
Parménideselimina a mudança ao afirmar o perma- b) Via da Opinião Apesarde o próprio Parménides não ter enunciado pluralidade, mas como se explica o movimento?
nente; elimina o que as coisas parecem ser (múlti- Esta doutrina de Parménides sobre a realidade explícita e literalmente esta oposição, a sua obra Como começou a mover-se esta massacompacta
plas e mutáveis) ao afirmar o que são (uma única (única, permanente, inalterável) mostra a impossi- contribuiu sem dúvida para a estabelecer. originária, de tal modo que as partículasse foram
realidade); elimina a pluralidade ao estabelecera bilidadede qualquermudançae, portanto,de separando e unindo para dar lugar aos diferentes
unidade; elimina, finalmente, o conhecimento qualquer processo de criação do Universo. Não seres? Anaxágoras recorre a uma causa exterior, o
sensível, sacrificando-o no altar da razão. obstante, na segunda parte do Poema, Parménides
2.4.0 ieconismo.Anaxágorose Demo entendimento, o Bons, que imprimiu a esta massa
crivo inerteum movimento de redemoinho.
Estavisão monista da realidade é, no entender de expõe uma cosmogonia segundo a qual o Universo
Paménides,uma exigência necessária da razão, teve origem em dois princípios: a claridade e a Depois de Parménides já não era possível O recurso de Anaxágorasao entendimentoabre
do Z(lhos. O raciocínio de Parménides recai sobre a escuridão. A existência desta segunda parte no regressara uma explicação monista da natu- perspectivas novas que mais tarde serão apro-
noção abstracta de o que existe, o ente, e desen- Poema provocou um grave problema de inter- veitadas por Platão e Aristóteles. Com Anaxágoras
reza, já que aceitar uma única realidadecomo
volve-se em dois momentos sucessivos.Em pri- pretação: de facto se a razão exige que a realidade origem, substrato e causaera condenar-sea não aparece pela palmeira vez de modo explícito a ideia
meiro lugar, a razão enfrenta-se com a disfunção: seja uma e imutável porque é que Parménides poder explicar nem a pluralidade nem o movi- de Deus como princípio que rege o Universo.Isso
«existe ou não existe (o que existe)?» fg. Vl11,15-16; recorrendo à mudança e introduzindo a pluralidade, mento. Por isso surgiram as filosofias pluralistas de parecia conduzir a uma concepção da Ordem do
face a esta disfunção, terá necessariamente de se dá ao trabalho de nos relatar como o Universo bi Universo como o resultado de uma Inteligência que
Empédocles,
Anaxágoras
e Demócrito.
afirmar-se que o que existe, existe, que o ente é. Em criado? Até mesmo os filósofos gregos profun- actuade acordo com fins, de maneiratal que o
segundo lugar, a razão enfrenta uma nova disfun- damente impressionados pelo rigor e pelo radica- resultado dos processos naturais seria sempre a
2.4.1 Anaxágoius
ção; «o que existe, o ente, existe ou será que existiu lismo da doutrina de Parménides k)rmularam esta consecução do melhor, da máxima perfeição e
Anaxágoras,como todos os pluralistas, aceita como beleza. O entusiasmo com que Sócrates acolheu a
evidente o raciocínio parmenídeo segundo o qual leitura da obra de Anaxágorasé-nos descrito num
A absoluta {dmtidade do
nenhuma realidade moda pode originar-se. diálogo de Platão, o ,f;éd07z,em que Sócrates
real consigomesmole-
vou Parménides a afir-
rllar que a realidade
única,compacta,dejbr- Demócrito
ma esléHca e {móue!, em NasceuemAbdera(Trácia)no que se recolhem mais de
mqestosa paz. ano 460 a. C., sendo portanto sessentaobras dedicadasa
Pelo centrado Pa7mé- contemporâneo de Sócrates.O temas éticos, físicos, matemáti

nides concebeuo real seu mestre foi Leucipo e os cos, !musicaise técnicos. Desta
imensa obra sobreviveram ape-
comoo resultadodeum nomes de ambos aparecem
associados
na criaçãodo ato- nas curtos fragmentos. As suas
equilíbriodinâmico,da mismo mecanicista.Demócríto teorias chegurum até nós funda-
!uta dos centrados,de mentalmenteatravésda ex
foi um escritor enciclopédico.
tensões opostas, como um Diógenes Laércio reproduz posição que delas fazem outros
arco tenso' (fragmento uma lista dos seus escritos em autores, sobretudo Aristóteles.
jo.
2 0S PRE-SOCRATICOS,
MODELOS DEEXPÇIÇAÇÃODA NATUREZA
O AS ORIGENSDA FILOSOFIA.OS PRÉ-SOCRÁTICOS
como modelo sempre disponível após um longo no Poemcz de Parménides. SÓ a razão nos
recorda: «Poisbem, em certa ocasião ouvi'a leitura separação,o que se interpõe entre eles?Não é período de obscurecimento voltando a ressurgir garante o conhecimento e nos revela os ver-
de um livro de Anaxágorasem que se dizia que o possívelcontestar que se interpõe algo real, pois com veemência a partir da Modernidade. dadeiros princípios das coisas, a verdadeira
Entendimento é o ordenador e causade tudo. Tai voltaríamosà situaçãoanteriormentedescrita:não O sistema atomista constituiu a última resposta realidade dos átomos e do vazio. Por sua vez, as
causaencheu-me de alegria e pareceu-me muito duas mas apenas uma única realidade contínua. do pensamento pré-socrático à doutrina de Par- qualidades que apercebemos por via dos
certo que o Entendimento fosse a causa de tudo. E Interpor-se-áentre elesalgode não-real?Mascomo ménides. No que se refere à teoria do conhe- sentidos (cores, odores, calor e frio, etc.) não
pensei que, a ser assim, o Entendimento Ordenador pode interpor-se algo que não seja real?Algo não cimento,Demócrito radicalizou a oposição são reais, não são propriedades reais dos
ordenaria todas as coisas e disporia cada uma de real é algo que não é, e portanto não pode dividir-se ente'ea razão e os sentidos, entre o conhe- átomos; são apenas impressões resultantes da
arma a alcançar o estado mais perfeito» (Féd07z, nem interpor-se. cimento intelectual e o conhecimento sensível, interacção dos átomos do nosso corpo com
97b), No entanto, Anaxágorassó de passagem uma oposição que como indicámos surgia já os átomos do exterior.
E perante este dilema que a audáciaintelectual dos
aborda este aspecto implícito na sua cosmologia, atomistas se manifesta. Entre a multidão de reali-
atribuindo de facto o papel fundamental na
dades (átomos), cuja existência pretendem esta-
construção do Universo ao redemoinho e, por
belecer, interpõe-se certamente algo, o vazio. Os
conseguinte, a forças de carácter mecânico. No atomistas concedem de boa vontade a Parménides
mesmo diálogo platónico, Sócratesexprime mais
que o vazio que separaos átomos não é real, se por
adiante a desilusãoque AnaxágorasIhe produziu: real se entende a matéria existente: somente os
«Mas,amigo, dve de abandonar a minha maravilhosa
átomos são reais neste sentido e o vazio pode muito
esperança quando, avançando em sua leitura,
bem ser caracterizado como não-ente por Parmé-
observei que este homem (isto é, Anaxágoras) não
nides; com efeito o vazio é algo real, se por real se
se serviado Entendimento, masrecorria a causas
entende o que efectivamente existe.
como o ar, o éter e muitas outras coisasestranhas.»
(98b). Juntamente com os átomos, o vazio hz parte da
A âlosoâa de Anaxágoras situa-se, pois, entre o naturezado Universo.O papel desempenhado
Hnalismo e o mecanicismo. pelo vazio é decisivo. Não só torna possível a
pluralidade como também o movimento.
Como vimos, Anaxágorasadmitira uma pluralidade
2.4.2. Demócrito de partículas originalmente misturadas numa massa
compacta. Não admitindo o vazio, estas partículas
Demócrito juntamente com o seu mestre,Leucipo ficavam..aprisionadas»
namassaorigináriacompacta
ofereceu uma resposta mais audaz e mais radical e inerte. Admitindo o vazio, os átomos podem
do que a de Parménides.Aceita também como mover-se livremente nele. A pergunta «porquê e
indiscutível a afirmaçãode Parménidessegundo a como se iniciou o movimento?»tem sentido no caso
qual a pluralidade não se pode originar de uma de Anaxágoras(iniciou-oo nom ou entendimento),
única realidade. Mais ainda, aceita que o real deve mas não tem qualquer sentido no atomismo: o
possuir as características estabelecidas pelo racio- movimento nãose iniciou em nenhum movimento,
cínio de Parménides: inengendrado, indestrutível, os átomos movem-se eternamente no vazio.
imutável, finito, compacto, homogéneo e indivisível.
Aceita todas as característicasexcepto duas: a O atomismo de Leucipo e Demócrito estabeleceu
esfêricidade (há átomos esféricos, mas também os definitivamenteuma concepção,um modelo
há de outras formas e figuras) e a unicidade. mecanicista da naturezalevadoaté às últimas
Segundo Parménides, não pode haver mais do que consequências:
o Universonão é presididopor
uma única realidade. Porquê? Suponhamos que plano algum traçado por uma Inteligência trans-
existem duas ou mais realidades, dois ou mais entes: cendente, e também não existe finalidade imanente
deverá forçosamente haver alguma separação real que forneça inteligibilidade aos processos naturais.

E
entre eles,pois, casocontrário, não seriam dum mas
uma única realidade contínua. Pois bem, argu-
mentava Parménides,se entre eles há realmente
O Universo é o resultado de uma necessidade cega
e opaca que para o homem acabapor confundir-se
com o acaso. O modelo mecanicista permanecerá
Esgotadej. libera: Osfilósdos. M1lsett das Beta;Mes, Santolner. E
r'
OSSOFISTAS.
SÓCRMESEPWÃ
INTRODUCAO l OS SOFISTAS

1.1. Características gerais da sofística a filosofa da natureza, a qual se mostrara incapaz


de produzir um sistema aceitável para todos. Mas há
Designa-se por «sofistas» um conjunto de pen- mais
sadores gregos que florescem na segunda metade
Tal atitude relativista e céptica não era apenasa
do séc.V a. C. e que têm em comum, pelo menos.
posição que um espectador da Hlosofiada natureza
dois aspectos relevantes: nos seus ensinamentos,
podia adoptar perante ela ao contempla-laa partir
incluem um conjunto de disciplinashumanistas
do exterior; era também a atitude onde o próprio
(retórica, política, direito, moral, etc.) e são os
desenvolvimentoda filosofia desembocaráa partir
primeirosprofissionais
do ensino(organizam
cursos
de dentro. Já assinalámos no capítulo anterior como
completos e por ensinar cobram somas conside-
o atomismo conduzia à negação da possibilidade do
ráveis). Ambos os aspectos carácter humanístico conhecimento da natureza: como conhecer ou
dos seus ensinamentos e institucionalização do
calcular as infinitas combinações e ligações possíveis
próprio ensino -- mostram claramente que os
de infinitos átomos movendo-se no vazio?O próprio
soâstastinham um projecto bem definido de
Demócrito chegaraa uma posiçãoresignadamente
educação, que rompia com o ensino tradicional
céptica: «averdade está no profundo». E visto que a
mas quc se mostrava já inadequado para as
verdade não é acessível ao homem, só nos restam as
exigências da época. As circunstâncias que rodeiam
aparências. Era este o clima intelectual no círculo de
o aparecimento do movimento sofista são parti-
Demócrito. E temos de anotar como pormenor
cularmente duas,uma filosófica outra político-so-
extremamente significativo que Protágoras, o
cial: a primeira [em a ver com o desenvolvimento
grande sofista, era conterrâneo de Demócrito e
das teorias físicas anteriores e a segunda com o conheciabema Hosofiadeste.Assimo relativismo
sistema democrático estabelecido em Alemãs.
Analisemo-las. (não há verdade absoluta) e o cepticismo (se há
verdade absoluta, é impossível conhecê-la) divul-
gam-se e generalizam-se como atitude intelec-
1.1.1.(b solistas e a $1(soíia anterior tual. Uma célebre e íêliz expressãodo relativismo é
a frase de Protágoras «o homem é a medida de
O desenvolvimento das teorias gregas acercado todas as coisas»; uma expressão desconcertante e
Universo até meados do séc. V a. C. (desen- crua do cepticismosãoas três afirmaçõesescalo-
volvimento que abrange os filósofos estudados no nadas de Górgias: «não há ser; se houvesse, não
capítulo anterior, desde Tales até Demócrito) poderia ser conhecido; se fosseconhecido, o seu
oferece-nos um espectáculo fascinante, sem dúvida, conhecimento não poderia ser comunicado por
mas também desencorajador.Antes de mais, meio da linguagem»
desanima e escandaliza a diversidade de teorias O texto de Górgias que acabámosde citar revela
opostas e incompatíveis que se opõem entre si: para uma ruptura radical com a filosofia grega anterior, e
uns,o princípioou arcbéé único(milésios),para posteriormente, para Platão e Aristóteles, a realidade
ouros,é múltiplo(pluralistas);
paraParménides,
o é racional; por isso, o pensamento e a linguagem
movimentoé impossível,ao passoque para acomodam-se a ela e são capazes de expressa-la
Heraclito o Universo é movimento e devir inces- adequadamente.A desvinculaçãoda linguagem
sante;este defenderá que o Universo é produto de relativamente à realidade constitui um pilar
O capítulo está organizado do seguinte modo: uma Inteligência(Anaxágoras), aquele afirmará que importante da sua interpretação do homem c da
1. 0s Sofistas. é o resultado de uma necessidade cega e ocasional realidade. Com efeito, se se renunciar à linguagem
2. Sócrates
3. Platão
(Demócrito),etc. Não é de estranharque este
espectáculo
criasseuma atitude céptica perante
como expressão maniíêstadora do real, a linguagem
acabapor converter-se num instrumento de E
Y'
Õ OS SOFIST l OS SOFISTAS
ateniense.O advento da democraciatrouxera con- 1.2. As intituições políticas e a moral Ruas experiências levaram os soâstas a abandonar a
manipulação, numa arma para con-vencer e
impressionaras massas,num meio eficazpara sigo uma notável mudança na natureza da liderança: tecidaheraclitianado zzomosvinculadoà ordem do
já não bastavaa linhagem, a própria liderança Entre asdoutrinas político-morais dos sofista, a sua
impor-se aos outros, se se dominar as técnicas Universo, fortalecendo neles a convicção de que as
política passavapela aceitaçãopopular. Numa aârmação mais característica e importante é a de
apropriadas.«A palavra é um poderoso tirano, capaz leis e as instituições são o resultadode um acordo
sociedade em que as decisões são tomadas pela que tanto as instituições políticas como as ou decisão humana: são assim,mas nadaimpede
-- escreve Górgias de realizar as obras mais
assembleia do povo e cuja máxima aspiração e o nomlas e ideias morais vigentes são conven-
divinas, apesar de ser o mais pequeno e invisível dos que sejam ou possamvir a ser de outra maneira.É
cionais.
triunfo e o poder político, depressase fez sentir a isto precisamenteo que significa o termo «con-
corpos. Com efeito, é capaz de apaziguaro medo e
eliminar a dor, de produzir a alegria e excitar a necessidade de estar preparado para isso. Qual era a vencional»: algo estabelecido por um acordo e que,
preparaçãoidónea parao atenienseque pretendia 1.2.1.Sentido do convencionalismo por conseguinte, nada impede que possaser de
compakão.»(E/«íode He/ena,8).
triunfar na política?Um político necessitava
indubi- outra maneira, se se julgar conveniente. O tcrmo
tavelmente de ser um bom orador para manipular 8 Na sua acepçãomais geral, o termo grego }zomos grego}zomospassou,
assima significar
o conjunto
1.1.2. Circunstâncias políticas e Hosofia massas.Necessitava,ainda, de possuir algumas significa a lei, o conjunto de normas políticas e de leis e nonnas convencionais, por oposiçãoao
Para o abandono da filosofia da natureza não ideias acerca da lei, acerca do que é justo e institucionais estabelecidasque uma comunidade termo pÉysís que exprimeo natural,as leis e
conveniente, acerca da administração e do Estado. humana acata e pelas quais se rege. Toda a comu- nomias alheias a qualquer acordo ou conven-
contribuíram só a circunstância filosófica assinalada
Este era precisamenteo tipo de treino que os nidade humana possui leis e instituições e é per- ção, e cuja origem é a própria naturezahumana.
no parágrab anterior, mastambém asnecessidades
ensinamentos dos sofistas proporcionavam. feitamente compreensívelque se interroguem
criadas pela prática democrática da sociedade
acerca de sua origem c natureza.
A primeira resposta a estaquestão fora dada pelo 1.2.2.(hiácu'mnvend(mal
damodal
pensamento mítico-religioso ao afirmar que asleis e
Os soBstas e a educação que é que seria melhor cada dia estandona sua Os sofistas defendiam o carácter convencional não
instituições procedem dos deuses.Em consonância
companhia, ele responderia que seria na arte de tocar
Quando nos sentámos, Protágoras disse:
flauta Assim, deste modo responde-nos tu, a mim e com a sua função racionalizadora,a filosofia só das instituições políticas mas também das nor-
-- Agora que todos estão presentes,Sócrates,podes
ao rapaz, quando perguntamos: depressa abandonou esta explicação mítica sobre a mas morais: o que se considera bom e mau, Justoe
retomar o que estavasa doer há pouco acerca do rapaz.
-- Hipócrates anda com Protágorase cadadia em que origem do zzomos.Assim, Heraclito já não vincula o injusto, louvável e repreensível, não é nxo, absoluto,
Respondientão:
convivecom ele torna-semelhor e progride em ?fomosà intervenção particular de qualquer divin- universalmenteválido e imutável. Parachegar a tal
-- Começarei, Protágoras, tal como há um bocado,
com o porquê do meu pedido Hipócrates,aqui relaçãoa quê,Protágoras? dade que fundara a cidade em questão num passado conclusão, os sofistas contavam com um duplo argu-
Depois de me ouvir, Protágorasdisse: remoto, mas vincula-o à ordem do Universo: a ordem mento: por um lado, a Mta de unanimidade acercado
presente, desejava muito a tua companhia pam saber o
-- Boa pergunta, Sócrates.Agrada-meresponder aos do Estado é pme de uma ordem mais ampla, a ordem que seja o bom, o justo, etc. (falta de unanimidade
que Ihe aproveitaria a convivência contigo E esseo
nossopedido que sabemfazer perguntasRecorrendoa mim, do Universo, e tanto aquele como este se regem, em que saltaà vista,não só comparando uns povos com
Protágorastomou a palavra: Hipócrates não terá de suportar o que sofreria no traio última análise, por uma única lei ou /cegos. os outros, mas comparando os critérios morais de
-- Se me acompanhares, jovem, cada dia comigo fará com qualquer outro soRsu, porque os outros oprimem
O terceiro grande momento do pensamento indivíduos e grupos diferentes dentro de uma mesma
de ti uma pessoa melhor. E cada dia te levará a um
os jovens. Com efeito, estes jovens fogem das
político-moral na Grécia(depois do mito e depois da sociedade); por outro, os sofistas costumavam
especializações técnicas mas eles reconduzem-nos de
progresso continuo até à perfeição racionalizaçãoheraclitiana) é constituído pela estabelecer uma comparação entre as leis e normas
novo contra a suavontade e iniciam-nos nasciências
Depois de oouvir, disse-lhe:
técnicas. ensinando-lhes o cálculo, a astro-nomia, a sofística. A filosofia está sempre indicada num marco morais vigentes e a natureza humana.
-- O que dizes, Protágoras, não é nada estranho mas
geometHa e a música -- e ao dizer isto dirigiu o olhar social, num conjunto de experiências de carácter A comparaçãoentre asnormasde condutavigentes
natural, dado que até tu(apesar da tua idade avançada
a Hipias Comigo, pelo contrário, aprenderá apenas sócio-político. No tempo dos sofistas, a experiência e a natureza humana tem sido de uma trans-
e da tua sabedoria)[e aperkiçoariasse alguémte
ensinasse algo que não soubesses. Mas suponhamos aquilo que quiser. O meu ensino consiste na boa sócio-política dos Gregos havia-se ampliado cendênciacapital na nossacultura. O que é verda-
que Hipócrates mudava repentinamente de dispo administraçãodos bens domésticospara se poder definitivamente, graças a três factores de deiramente absoluto, imutável (isto é, comum a
optimizar a direcção da casa,e nos assuntos políticos, considerávelimportância:em primeiro lugar, o todos os homens), é a natureza humana. Já vimos
sição e desejava a companhia desse outro jovem que
acaba de chegar, Zeuxipo de Heraclea e, do mesmo para se ser o mais capaz da cidade, tanto nas obras contacto contínuo com outros povos e culturas, o no capítulo anterior que estassão precisamenteas
como nas palavras. características da natureza entendida como aquilo
modo que recorreu a ti agora, escutassedele a mesma que permitiu verificar que as leis e costumes são
-- Então, digo eu, e segundo a tua exposição,parece- muitodistintosnasdiversascomunidades
humanas;
resposta que tu Ihe deste: que cadadia seaperkiçoaria que as coisas verdadeiramente são. E visto que a
mais e progrediria na companhia dele. E sealguém Ihe me que falas da ciência da política e pretendes tornar
em segundo lugar, a fundação de colónias por todo natureza é dinâmica, isto é, princípio das actividades
os homens em bons cidadãos?
perguntasse: «Aperfeiçoar-see pro-gredir em relação a e operações próprias de um ser, só será possível
-- Esse é o programa que eu professo, Sócrates.
o Mediterrâneo, pois cada nova cidade possibilitava
quê?»,Zeuxipo replicavaque seria na pintura, E, conhecer a natureza humana observando qual o
a redacçãode uma nova constituição;por último, a
tratando com Ortágoras, o rebano, se Ihe ouvisse as

E mesmas coisas que tu disseste e Ihe perguntasse em Platão, Prolágorm, 318A-19A. sua própria experiência de mudanças sucessivas de
constituição.
modo próprio e intrínseco de os homens se
comportarem. E
v'
2 SOCRATES
Q os sori$TA$,
$QÇB4Tç$
f pç4yg
A procura modo próprio natural de os chora quando sente dor e sorri feliz quando expe- Sócratespertenceu ao ambiente filosófico e cultural
homens se comportarem não é nada fácil, já que o rimenta prazer)e o domínio do mais forte(entre dos sofistasmascombateu-os energicamente. Com
os animais, o macho mais forte domina os outros) . partilha com eles o interesse pelo homem, pelas
nosso comportamento está condicionado pela
aprendizagem, pelas normas e hábitos que nos b- Quando vai contra as duas normas,a moral questões políticas e morais e pela vinculação destas
um inculcados ao longo da nossavida. O que é, vigente é antinatural. Nãosó é convencional(na aos problemas da linguagem. Distingue-se deles
então. o natural do homem? realidade, estaria correcto que a moral base fundamentalmente em três aspectos
De um modo geral, poderia responder-seque é o convencional, mas não antinatural se por exemplo as a) nãosefãzpagarpelo seuensino;
normas. não fossem um mero acordo mas um b) adopta um mé/odo totalmente oposto. Os
que Hcariase eliminássemostudo o que adquirimos
atravésdos ensinamentos
que nos foram incul- acordo conforme àsexigênciasda natureza; foi esta sofistas preferiam pronunciar longos discursos e
cados. Os sofistas, especialmente os da segunda a posição dos primeiros sofistas,como Protá- comentar textos de poetas e autores antigos
geração,
comoCaliclese Trasímaco,utilizaram
a goras), mas,além disso,é contrária à natureza, Sócrates recusa ambos os métodos: os longos
criançae o animalcomoexemplosdo queé a segundo os últimos e mais radicais sofistas discursos, porque impedem a discussão passoa
natureza humana, prescindindo dos elementos É fácil compreender a transcendênciadestas passo dm armações do orador, e os textos antigos
reflexões da sofística. Com elas inaugura-se o etemo porque não é possível interrogar os seus autores
culturais adquiridos. A partir destes dois modelos
deduzemque só há duasnormasnaturaisde debate acerca das normas morais, acerca da lei natu- para fornecerem esclarecimentossobre o que
comportamento:
a procurado prazer(a criança ral @@sls)e da lei positiva(zzomos). escreveram. Peranteestas objecções, é claro que o
Giutlio MazzaTti: A Verdade descoberta Feto Tempo.
único método válido paraSócratesserá o diálogo
Palácio Cal)odiferro Suada. Rama.
directo, no qual cada interlocutor pode replicar ao
outro c argumentar em defesa das próprias
posiçoes; comunidade humana. Em seu entender, torna-se
c) traz aos temas político-morais soluções radi- necessárioprocurar definir com rigor os conceitos
calmentenovas. morais (justiça, etc.).
Nos diálogos de Platão, vemos Sócrates a colocar
perguntas do género: que é a justiça?Que éa
2.1. Sócrates contra o relativismo moral piedade? Que é a moderação? etc. Normalmente
nestes diálogos não se chega a uma definição geral
Quandoanalisámos
anteriormente
a teoriacon- da virtude ou do conceito em questão; todavia a
vencionalista dos sofistas, sublinhámos como estes
discussão SCFVC
para evidenciar que os inter-
filósobs insistiamna faltade unanimidade
dos
locutores de Sócratescarecem,de uma noção,de
homens a respeito do que é justo e injusto, bom e um conhecimento coerente em assuntos de tão vital
mau, louvável e censurável. O relativismo, atitude
importância.
geral dos sofistas, ficava assim consagrado a res-
Convencionalidade
dasnomias morais segundo a lei da natureza, que não é, certamente,
0 igual àquelaque nóscriámos Os melhores e os mais peito dos conceitos morais.
É por isso que a lei considera injusto e
desejode ser superior à maioria,e é a isto que fortes de nós tomámo-los em pequenos, como aos Sócrates não concordava com este relativismo pois 2.2. Virtude e saber. 0 intelectualismo
leões, para os domar, e o-los à custade pensava que se cada um entende por justo e por
njustiça.Masa pp(»Na nízlz/reza,em moral
minha opinião, í&monsfra que élus/o qzzeo me/óor sortilégios e encantamentos, dizendo-lhes que a bom uma coisadiferente (quer se trate do prazer,
estejaacima do pior e o maisfovte acima do ttlais igualdade é que é bom e que nela consisteo belo e o do domínio do maisbate ou o que estáde acordo É, pois, necessário definir com precisão as virtudes e
caco Em muitos domínios, não só entre os animais justo Mas se apareceum homem suficientemente com a tradição, etc.), se, para cada um, os termos os conceitos, para restabelecer a comunicaçãoe
como entre as cidadese as raçasdos homens, é dotado para sacudir e quebrar estascadeiase se morais(bom e mau, justo e injusto) significam tornar possível o diálogo sobre temas morais e
evidente que é assim,que, na ordem da justiça, o mais libertar da sua prisão, sei que, depois de pisar a pés os coisasdiferentes,a comunicação e a possi- políticos. É necessário defina-los com exactidão,
poderoso deve dominar o mais fraco e gozar as nossos escritos, as nossas magias e os nossos bilidade de entendimento entre os homens além disso, por uma segunda razão: para Sócrates só
vantagens
da suasuperioridadeQueoutro direito encantos e leis antinaturais, se há-de erguer, na sua
torna-se impossível: comodecidirse umalei é se pode ser Justo quando se sabe o que é a justiça e
tinha Xerxes para vir fazer guerra à Grécia, ou o seu revolta, de escravoa senhor nosso, e então brilhará
justa ou não quando cada qual entende uma coisa só se pode agir bem quando se sabe o que é bom. A
pai aos Citas? E, como estes, podia referir um sem em todo o seuesplendor o direito da natureza.
diferente por «)usto»?
A tarefa mais urgente é isto chama-seintelectualismo moral, que pode

agem segundo a natureza da justiça e, por Zeus, Platão, Gó?gia$ 483c-84a


restaurar o valor da linguagem como veículo de
significaçõesobjectivase válidaspara toda a
definir-secomo adoutrina que identiÊca a virtude
com o saber. E
Q o$$QFl$TA$: FPÇ4TAQ
$QÇB4TF$ 2 SOCRATES
fazer bons edifícios. Portanto, aquele que, sabendo também suficiente para uma conduta vir-
Filho de um escultor e de uma herdado de sua mãe) consistia em fazerbem um edifício e o fãz ma] intencionalmente, tuosa. Portanto face ao caso hipotético apresen-
parteira, Sócrates nasceu em Are- fazer perguntas de maneira a que é melhor arquitecto do que aquele que o faz mal tado, Sócratesafirmaria, uma e mil vezes,que o
nas no ano 470 a. C. Não escreveu o interlocutor acabassepor extrair
porque não o sabe fazer bem. Não teremos de referidosujeitonãosczóia
raiz/mmfe
gaze
óg/ama(
nenhumaobra, talvez porque de si mesmo as formulações
concluir, analogamente,que aquele que ageinjus-
correctassobre o tema em embora pensasse que sabia: se verdadeiramente o
consideravaque o diálogo, a
tamente sabendo-o é mais justo do que aquele que soubesse, não poderia ter agido mal
comunicaçãodirecta e inter- questão. Cidadão exemplar, foi
o hz por ignorância?O senso comum e a sen- Portanto, ninguém age mal voluntariamente. O que
pessoal,
é o únicométodoválido acusadode impiedadee con-
denado à morte no ano 399 a. C. sibi[idade moral rebelam-secontra estaconc]usão age mal fá-lo sem querer. No intelectualismo
para a filosofa. São características
da sua forma de entender e inevitável. socrático pião bá / gar para as ideias de
Poderiater fugido,maspreferiu
praticaro diálogoa ironia e a obedeceràs leis da cidadee Sócrates propõe este paradoxo num diálogo pecado e cziOa. Aquele que age mal não é
maiêutica. A sua ironia exprime- morrer. Bebeu a cicuta depois de platónico, o H@zasMezzo6 com toda a crueza,mu verdadeiramente
culpadomasignorante.Um in-
.se frequentemente
na atitude conversar longa e tranquilamente também com ironia. A conclusãoé correcta (quem telectualismo moral levado até às últimas conse-
modesta do «sósei que nada sei»;a com os seusamigos sobrea sabe que comete uma injustiça é mais justo -- visto quências arrastada consigo a exigência de suprimir H
!naiêutica(arte que dizia ter imortalidade da alma.
que o sabe-- do que quem a comete semo saber); prisões: sendo efectivamente ignorantes, os crimi-
mas, precisamente porque o ê, apresenta um caso nosos deveriam ser enviados pala a escola e não para
teoricamente impossível: ninguém age mal o cárcere. No comp]exo e actual debate em torno
sabendoque agemal, já que o conhecimento desta questão, um intelectualismo radical conduziria a
(da virtude) é condição não só necessária, mas tomar partido por esta última posição.
Este modo de conceber a moral será chocante e exemplo, mas utilizaremos para isso um ofício,
rejeitável para muitos: estamos habituados a ver uma profissão simples que Sócrates refere
pessoasignorantes que, no entanto, são boas e frequentemente. Um sapateiro é aquele que faz
agem com rectidão, mesmo se não sabem definir o sapatos. (Fá-los bem, entenda-se; qualquer um
que é bom e o que é a rectidão; estamos igualmente pode tentar fazê-los,mascom certezaos fará mal.
habituados a ver pessoas instruídas mas com uma Sapateiro é aquele que os faz bem e quanto
conduta reprovável. O intelectualismo moral é melhor os fizer, melhor sapateiro será.) Pois bem, Injustiçavoluntária ignorância vem ao de cima É que nunca tenho, por
certamente chocante (Sócrates,como veremos. é evidente que só é capaz de fazer sapatos Sócrates:Então não se viu há pouco que os que assim dizer, a mesmaopinião que vocêssobre os
mentem voluntariamente são superiores aos que o mesmos assuntos. . . Ora, há maior prova de igno-
tinha consciênciadisso,e merecea penaanalisa-lo aquele que sabe o que é um sapato,quaisos
fazem sem querer? rância do que estar em desacordo com homens que
commaisprofundidade. materiais a utilizar e qual a forma de os reunir. são sábios?
Hípias: Ora, Sócratesl Então aqueles que ofendem
Comecemos por assinalar que os Gregos costu- Passemosagora ao âmbito da moral. Um homem
voluntariamente a justica, que voluntariamente Voltando à nossaconversa,não concordo com M tuas
mavamdistinguir dois âmbitos gerais no saber:o justo, diremos, é aquele que realiza acçõesjustas, premeditam e cometem malfeitorias, ser afirmações, contesto-as mesmo com todas as forças
saber teórico ou teorético (/beoríóz,é em grego dá conselhos justos, dita leis justas.Analogamente, melhores que os que assim procedem sem querer? Eu bem sei que isto acontece por culpa minha, por ser
contemplação, conhecimento meramente contem- segundo Sócrates,teremos de dizer que só é capaz Estesúltimos têm ainda uma atenuante de peso, se é exactamente aquilo que sou -- e mais não digol O
plativo)e o saberde tipo prático(orientados paraa de fazer leis, acções e conselhos justos aquele que por ignorância que vão contra a justiça mentem ou facto, Hípias, é que vejo as coisas totalmente ao
acção).Dentro deste último distinguiam, por seu sabe o que é a justiça. Por suposição, poderá haver fazem qualquer coisa de mal. . . Até as leis, como se contrário do que dizes: os que prejudicam os outros
turno, os saberesou conhecimentostécnicos alguém que actuejustamente sem saber o que é a sabe, são muito mais severas para os crimes e mentiras de prooósito, que vão contra a justiça,mentem
orientados paraa produção de objectos @oíésZs)
eo justiça, mas em tal suposição tratar-se-á de uma quando houve intenção de os cometer do que quando enganam e ocorrem voluntariamente em falta
não houve. -- esses, e não os que assim procedem sem querer, e
s bet orientado para a regulação da conduta atitude puramente casual. Também no caso das
SÓcraEes:
Estása ver, Hípias, como tenho razão ao dizer que são os melhores. Por vezes, contudo, até eu sou
@rm/s) individual e social (conhecimento polí- actividades técnicas pode acontecer acertar-se
que sou miudinho nas perguntas que hço aos homens da opinião contrária a esta e por aí ando às voltas com
tico-moral). A relaçãoentre estesdois tipos de sa- ocasionalmente. E assim como aquele que acerta
sábios?
.Talvezseja mesmoeste o único bem que a questão
-- evidentemente,
devidoa minhaigno-
ber foi analisadade modo muito diferente pelos ocasionalmente com um remédio para uma
possuo e o resto não valha um chavo. . Quando me rânciasNeste preciso momento, mesmo como se me
diversos filósobs gregos. Sócrates,por sua vez, doença não pode ser considerado médico, visto
confronto com a realidade dos factos, aí estou eu na viesse um acesso de têbre e fico em crer que aqueles
tomou sempre o saber técnico como modelo que desconhece o ofício, também não se pode berlinda, sem saber como avalia-losl Queres uma prova que incorrem voluntariamente em bica(em qualquer
para a sua teoria do saber moral. dizer que é justo quem realize acçõesjustas sem evidente? Sempre que converso com algum de vocês, tipo de faltam)são superiores aos que o fazem sem
Tomemoscomo ponto de partida asactividades saber o que é a justiça. homens prestigiados pelo saber, cuja sabedoria são os querer.

B de tipo técnico. Qualquer saber técnico (en-


genharia, arquitectura, etc.) poderia servir de
O intelectualismo moral conduz ao seguinte
paradoxo. Um bom arquitecto, é aquele que sabe
Helenos em peso a testemunhar,toda a minha Platão, H@imit4azo6 371E-72E
E
3 PLATAO
Q os sor[$TA$:
$QÇB4Tç$
f ey]4q
3.1. A constituição do Universo (como conhecer ou calcular asinHlnitase possíveis
trajectórias, combinações e colisões de in6lnitos
No pensamento de Platão confluem e conjugam-se o
átomos movendo-se no vazio?;b) por outro, visto
interesse tradicional dos pré-socráticos pela
que o Universo não é mais do que um produto
natureza (póysis) e as questões antropológicas, imprevisto e imprevisível destascolisões e combi-
éticas e políticas, suscitadas pelo sofismo, em espe-
nações,resultaque o cosmos,a ordem, provém da
cial por Sócrates, seu mestre. Começaremos pela desordem.
explicação platónica do Universo, assinalando a sua
ligação com as doutrinas pré-socráticas expostas no 1. A explicação platónica da natureza recusa este
capítulo anterior. último ponto de forma radical:a ordem não pode
ser o resultado casual da desordem. A ordem só
3.1.1. As causas do Universo pode provirde umainteligência ordenadora.
Platão regressa, pois, em grande medida a Ana-
No final do capítulo anterior assinalámosque o
xágoras,retendo a sua ideia de que há uma,
último grande sistema cosmológico do período pré-
inteligênciaordenadorae à qual Platãochama
.socráticofoi o atomismomecanicistaproposto por
demiurgo.
Leucipoe Demócrito.
PéHclesdirigittdo-se aos ate- Apesardo seu indiscutível brilhantismo, o atomismo 2. A Inteligência ordenadora ou demiurgo actua
niensesnacoiina ãePnyx. teve pouco sucessono pensamentogregosubse- sobre uma matéria eterna, caótica, que Platão
quente. Ê certo que Epicuro o adoptou maistarde, denomina de muitas maneiras utilizando diversas
no período helenístico, (como veremos mais no metáforas;por exemplo, chama-lhe'espaço'
próximo capítulo) , mas os, grandes Rlósofos gregos (chora) que nestecasoé obviamente,o espaço
- Platão e Aristóteles - rejeitaram-no energi- geométrico vazio,mas substrato material informe.
camente. Este substratonão é estáticonem inerte, mas
2.3. Virtude e felicidade aosseusconcidadãosé quenão há felicidade sem Estarecusa obedeceu sem dúvida aos dois tipos de dotado de movimentos caóticose inegulares.
virtude, ao passoquecom vii'tude pode haver e consequênciasque acarretava:a) por um lado, o Nesteponto, Platãoafasta-se dc Anaxágoras e
Sócratesexorta os ateniensesà virtude, pois háfelicidade. conhecimento da natureza tornava-se impossível aproxima-se do atomismo, ao admitir uma matéria
acredita que é o bem supremo para o ser
humano, superior até à própria vida. Na ÁPO/agia Nesta exposição destacamosduas doutrinas Platão
dc Platão, Sócrates pronuncia as seguintes moraisde Sócrates:o intelectualismomoral, e
Platão, o mais genial dos discípulos pressa se desenganou das práticas sessentaanos. Entre as duas via-
palavras: «Equivocas-te,amigo, se crês que assuas implicações de que «ninguém pratica o de SÓcratese ateniense como ele, políticas atenienses da sua época, gens, fundou em Arenasa suaAca-
qualquer homem, por pouco que valha, se dá ao mal voluntariamente»; e a tese de que a virtude nasceu no ano 427 a. C. Foaemente especialmente
depoisda conde- demia, onde juntamente com a
trabalho de consideraro risco de viver ou a morte,
é a condição necessáriae suficiente para a vocacionado para a política, de- naçãode Sócmtes.A partir de então, filosofia, se dedicavaespecial aten-
l pois quando age, apenas toma em consideração se felicidade. dedicou o seu esforço ante-lectual a çãoàs matemáticase à astronomia,
a sua acçãoé justa ou injusta, se é a acçãode um A estasduas teses poderíamos acrescentaro construir e fundamentar de acordo com um plano de edu-
homem bom ou mau».Nada é superior à virtude, teoricamente um modelo ideal de caçãoprogressiva.
princípio socráticode que nunca se deve
em nenhum caso, nem a vida, nem o próprio sociedade. Fez duas viagens à Sicília clarão escreveu numerosas obras, a
praticar injustiças, nunca se deve agir injus-
corpo, nem os bens materiais. tamente contra os outros, nem sequer quando com a pretensão de levar à prática o maioria delasem forma de diálogo.
seu modelo de sociedade, fmendo Entre ela destacam-se o/kzfqzzeíe, o
A consideração
davirtudecomobemmáximo,como nos tratam injustamente. Por via deste princí
com que os governantes se tornas- Fédon,a Replülica. o Pannéttidu, o
critério supremo para os nossos actos, nao e em pio Sócratesopunha-seexpressamente
à tradi-
sem filósofos, já que não podia fmer reCreIoe o 77meu.Na maior parte
Sócratesnenhuma forma de rigor ascéticoque cional lei do talhão«olho por olho, dente por
com que os filósofos gover-nassem. dos seus diálogos,o interlocutor
desvalorizaa felicidade, já que associaa virtude à dente», à institucionalização da vingança e da Fracassou em ambas as ocasiões: a principal é Sócrates,o que torna
felicidade. NaÁpo/agia de Platão, Sócrates também represália:nunca devemos retribuir o mal primeira vez com Dio-nísio l, difícil distinguir, entre as doutrinas
diz que a virtude não provém dn riquezas;bem pelo com o mal, nem a injustiça com a quando Platãotinha quaren-taanos de Sócrates e as de origem estri-
contrário: é a virtude que faz com que a riqueza,a injustiça de idade; a segundavez, com tamente platónica.Morreu aos

M saúde e outras coisas se tornem autên-ricos bens


para o ser humano. A última mensagem de Sócrates
Platão. Pedra 247 C-E Dionísio 11,tendo já mais de oitenta anos em 347 a. C. R
e) OS SOFISTAS,SÓCRATESE PLATÃO 3 PLATÃO
eterna e etcrnamente agitada de movimentos A constituição do Universo físico é narrada por por outro, o que ascoisasverdadeiramentesão, A cada uma destas formas de conhecimento
desordenados.Platão jamais cita, nominalmente, Platãono 71mez/em forma de mito. O carácter a sua essência, é a ideia ou forma da qual parti- correspondeum tipo de realidade:ao conhe-
Demócrito ou Leucipo, apesar de(ou precisamente mítico deste relato torna diHcilprecisar o signiâcado cipam. cimento intelectual correspondemas ideias,
porque) os ter constantemente presentes na sua de muitos aspectosda narração. realidades eternas e imutáveis; ao conhecimento
b) A causalidade aparece igualmente desdobrada: o
explicaçãodo Universo. E Aristóteles quem sublinha Um desses aspectos controversos é o da natureza do sensível correspondem as realidades do mundo
demiurgo é causaprodutora (causaeficiente ou
expressamente a vinculação de Platão aos atomistas demiurgo. Ê difícil decidir se se trata de um deus físico afectadas pela mudança e pela inconsistência
agente, dirá o aristotelismo), mas as ideias são
neste ponto: «Háalgunscomo Leucipo e Platão, que realmente actua sobre a matéria tomando como
também causa, causa não apenas formal mas 2. Em segundolugar, e de acordo com o que
que aârmam que a actividade existe desde sempre, modelo as ideias, ou se a sua actuação deverá ser acabámosde refêdr o mundo das ideias e o mundo
também exemplar dos seres naturais. Eviden-
já que desde sempre há movimento.», (4/e/cl8slca, interpretada alegodcamente,ou se se trata de uma
lemenle, uma interpretaçãoalegóricado demiurgo físico, sensível, repartem üntre si respectivamente as
Xi1, 6, i071b3t.) forma mítica de expressara acção das ideias levaria não sem razão a atribuir às ideias os dois
sobrea matéria. funções que assinalávamosno referido gráfico da
3. Além destes dois princípios inteligência
tipos de causalidade. pág.17.Assim,a)asideiassãorealidades
pedia
ordenadora e matéria eterna e eternamente em De facto, são as ideias que impõem à matéria uma
nestes e imutáveis, enquanto os seresdo mundo
movimento -- Platão estabelece um terceiro estrutura inteligível, uma consistênciae estabi-lidado c) Se tentarmos agora situar a doutrina platónica
dentro das coordenadas ou conceitos básicos da físico se caracterizampela sua mutabilidadee
princípio: as ideias, que se tornam necessáriasa que a matéria não contém em si própria. Assim, para
corruptibilidade;b) as ideias sãoo que têm de
partir do momentoem que se introduz uma citar apenaso início da constituição do Universo, os exp[icação racional(/egos) de acordo com o exposto
comum seres de aparências distintas mas da mesma
inteligência ordenadora. Com efeito, todo o ser quatro corpos elementares - fogo, ar, água, no capítulo anterior (ver gráfico da pág. 17),
essência: homens de raças distintas, de culturas
inteligente que realiza ou constrói algo -- e o terra--adquirem a sua consistência e facilmenteverificaremoso seguinte: diversas.etc., têm em comum o facto de todos
demiurgo é o construtor do Universo realiza-ode especificidade
quandoa matériase estrutura 1. Em primeiro lugar, Platão afirma radicalmente a participzem da essência, da ideia de«homem»; c) as
acordocom um planoou modelo. geometricamente em forma de sólidos regulares: heterogeneidade do conhecimento intelec- ideias são, portanto, princípio de unidade ante a
A função do demiurgo consiste em modelar as tetraedro(fogo), cubo (terra), octaedro(ar), e tual e do conhecimentosensível. pluralidade e dispersão do mundo físico.
essênciasou ideias na matéria o mais perfei- icosaedro(água). O espírito do pitagorismo é assim
No capítulo anterior vimos que esta distinção se
tamente possível. Seo Universo não é totalmente integrado
porPlatão.
(I'imeu,apersonagem
emcuja institui a partir da doutrina de Parménides,sendo
perfeito é porque a matéria introduz sempre um boca Platão coloca a narração cosmológica, é 3.2. O papel das ideias
recolhida e formulada por Demócrito. Platãoinsiste
factorde desordeme de indeterminação(Cf. apresentada como um sábio pictagórico.) emque apenas a razão (o conhecimentointe- Afirmámos acima que a doutrina central da filosofia
7'/meu, 50b-51b, 52a-53b). lectual),e não os sentidos é capaz de captar as platónica é a teoria das ideias. Salientaremosagora
A teoria dasideias 3.1.2. Platão e a explicação racional estruturas matemáticas,as essênciasinte- alguns aspectos e dimensões fundamentais desta
ligíveis,em suma,asideias. teoriacomplexa
Quando anteriormente nos referíamos à escola de
A doutrina central da âlosofia platónica é a teoria
Mileto (Capítulo 2.1) perguntávamo-nos se as três
das ideias. De um modo breve e categórico, esta
característicasque correspondem àplysis como
doutrinaconsiste
nadirmaçãodequeexistem
entidades imateriais, absolutas, imutáveis e princípio -- origem, substrato permanente e
causa-- podiam ser atribuídas uma única subs-
universais indepentes do mundo Bsico: por
tância ou realidade. A doutrina platónica atinge
exemplo,a justiçaem si, a bondadeem si, o
nesteponto uma complexidademaior. As ideias e o demiurgo segundo o modelo daquilo que se altera?Pois bem, se
homem em si, as entidades e proporções mate-
Com efeito, tudo se transforma [epela o Universoé belo e se o seu demiurgoé bom, é
máticas em si mesmas; delas derivam tudo o que é a) Paraos milésios,o substratopermanente (água,
acção de uma causa, pois nada pode assumir o devir evidenteque visou o modelo eterno; se fosse o
justo e bom, todos os homens, tudo o que é har- etc.) era simultaneamenteo materialde que as le lo de uma causa.Ora, toda a obra é ne- contrário(coisa que nem saberíamosenunciar), teria
mónico e proporcionado odstente no mundo físico. coisas são constituídas e o que as coisas verda- visado o modelo do que se altera. Assim, é bastante
lte bela se o demiurgo reteve aquilo que se
O termo«idei» não deve induzir em erro o leitor deiramente são, ou seja, a sua essência(as coisas não manteve sempre idêntico e se scrve de um tal objecto claro que se serviu do modelo etemo: na verdade, este
moderno.Não se trata de conceitos, de são maisdo que diferentes estadosou modificações como modelo para reproduzir as suasessênciase as mundoé a maisbeladascoisascriadas
e o seu
construções mentais, de objectos sem existência do substrato originário, seja este a água, ou o propriedades Pelo contrário, a obra não será bela demiurgo é a causamaisbenéílcaque existe Por
fora da mente que os concebe.Trata-se de indeterminado ou o ar). quando o seu criador se regulou pelo que se altera, conseguinte, um tal Universo foi criado de acordo com
realidades, mais ainda, das únicas reali- pois seMu-se de um modelo sujeito ao devir ( .). o que a lazão e a reflexão apercebem como mantendo-
A doutrina platónica separa nitidamente os dois E, tratando-se do Universo, qual dos modelos terá .seidênticoa si.
dades em sentido pleno, já que o que há de
aspectos: por um lado, o material ou substracto utilizado o seu arquitecto para o realizar? Fê-lo de
realidade no mundo físico deriva precisamente
E delas. a partir do qual se constituem as coisas é a
matéria informe e caótica nos seus movimentos;
acordo com o que se mantém idêntico e unir)rme, ou Platão, 77 zezl 270-291
Q os sorl$TA$:
$QÇB4TF$
f Fumo i' iiATÃO
3.2.1. OriWm da teor'ia das ideias assinalámos na alínea 2.1. deste capítulo, nos seus 3.2.2.Imitação e participação das ideias das coisas..?en$Í!:çis:
um triângulo(aideiade
diálogos Platão apresenta Sócrates sempre a colocar triângulo, o triângulo ideal) possui as propriedades
questõessobre uma virtude ou um conceito moral: Portanto, Platão «.separou»as ideias. Qual é o sentido que possui, independentemente de essaessênciase
A pergunta sobre a origem da teoria platónica das
o queé a justiça?,
o que é o valor?,o queé a desta separação e que relação existe entre M ideias e realizar ou não no mundo sensível, físico.
ideias não pode ser respondidade um modo
moderação?,etc. Quem formula uma pergunta deste asrealidadesindividuaisdo mundofísico? Mas se o ser das ideias não depende dos seres
definitivo e satisfatório. Na filosofia pré-socrática
encontramosjá elementosque Platãoincorporada tipo pressupõe que há alguma característicaou físicos, estes já dependem delas: uma figura é um
Em/bdm, um dos diálogos maisbelos e complexos
na sua teoria e que talvez tenham influenciado a sua conjuntode características
comuns e parti-culares
a triângulo na medida em que nela se realizaa ideia de
de Platão, apareceuma vasta referência às ideias,
formulação.Ê o casodasdoutrinasdospitagóricos todas as acções, instituições, etc., às quais se aplica o triângulo, uma acção é justa na medida em que nela
inseridas numa narração mítica que relata o destino
e de Parménides:os primeirosinsistiramnas predicado universal «justo» ou «válido» ou .êçontece a ideia de justiça, etc. Qual é, então, a
das almas. Neste mito, cada uma das almas é
estruturase relaçõesmatemáticascomoprin- «moderado», etc. relação dos seressensíveis com as ideias?NasSüãi
representada como uma carruagem dirjgjlb por um
Para Platão, essa característica (ou conjunto de obras Platão recorreu a dois termos para caracterizar
cípio de inteligibilidade do Universo, e na doutrina cocheiro e puxada por dois cavalos,um branco e
platónica os entes matemáticos são certamente características) que é comum e que não se esta relação: «imitação»(os seres sensíveisparti-
outro negro. As almas vão em majestosa procissão,
ideias. Quanto a Parménides, a sua distinção entre o identifica com nenhuma acçãojusta particular será culares imitaiíãiiiíêias) e «participação»(osseres
liderada pelos deuses,e ascendemà superücie exte-
que existe verdadeiramente(a realidadeimu- a ideia de justiça. Aristóteles, discípulo de Platão, sensívéii"j5ãrtiCülarêi
participam das ideias
rior do Universo, donde é poslÍllç!.çg!!!el1lplar as
tável, não engendrada e imperecível de que se ocupa salienta o facto de estas indagações socráticas correspondentes)
ideias,situada fora delinum lugar supraceleste.
a Uózcüz@rí&zde)e o Universomutável(cuja contribuírem para a origem da teoria das ideias, À imitação salienta que as ideias são modelos, são
génese é narrada na Vla cü Opzníão) encontra-se insistindo sobretudo no facto de que «Sócratesnão Esta «localização» das ideias é obviamente mítica e paradigmas que as coisas pretendem imitar, mas
também no pensamento platónico: as ideias são o separava os universais» (ou seja, não considerava não deve ser interpretada literalmente. O que Platão sem nunca os igualar plenamente: nenhuma esfera

que existe de verdade e possuem as mesmas os conceitos universais como realidades que pretendesignificarao afirmara sua«separação»
do física, de bronze ou madeira, é plena e perfei-
características
da realidade propagadapor existiam por si), e que «foi Platão quem os separou mundo físico é que o ser das ideias,.agua tamente esférica; só a esfera ideal o é. Deste modo,
Parménides. denominando-os ideias» (Me/ó!/hícíz Xl11, 4, verdade e a sua permanência não dependem as ideias são ideais que não chegam a cumprir-se
Também não podemos esquecer Sócrates. Como 1078b30).

0 intelectuale as mento, que a mente do filósofo revelaao maisalto


Então quando é que a mente (a alma) alcança a grau que ignora e escapa ao corpo em absoluto?
verdade?:- diz Socrates.-- Dado que se sen'e dos -- Com ceaezal
sentidos do corpo para examinar as coisas, é clara- -- A maneira mais pura para atingir o conhecimento
menteenganadapor eles. não será aproximar-se dos objectos somente através
rdadel do pensamento, na medida do possível, não recor- Tibaldi: Frescas
-- Por isso. não será sobretudo através do raciocínio rendo ao uso subsidiário da razão nem a qualquer daabóboda
matemático que a alma alcance uma visão dam de uma outra sensação,servindo-se apenas do pensamento da biblioteca
puro para tentar captar cada realidade? Essa maneira
do Mosteiro Real
Sim não será separar-se o mais possível dos olhos e dos
-- Por outro lado. o raciocíniomatemáticoé mais ouvidos e, a bem dizer, de todo o corpo, já que este deS.lourenço
do EscoHal.
perfeito quando a mente não é perturbada pelo que perturba a mente e a impede de alcançara verdade e a
ouve e vê, nem pela dor ou pelo prazer; pelo contrário, sabedoria? Não achas, Símias, que um tal homem é o Painelíatwal
deve procurar sempre isolar-se e despren-der-se do único que consegue alcançar a verdade, se é que que representa a
corpo; e só assim, sem qualquer contacto com o corpo, alguém o consegue? Filosofia, e detalhe
é que ela consegue alcançar a realidade. -- O que tu dizes,Sócrates,é incrivelmenteverda- da aból)och
-- Exacto
Não será nessa altura, quando procura o isola-
deiros
Platão, /Vcbn , 65B-66A.
Olhe aparece
a (hamática. E
Q os sorlsTA$:$QÇRATç$
f p 4T4Q
perfeitamente no âmbito do sensível.Além disso, 3.3. A doutrina platónica da alma A contemplaçãodasideias com o tempo, ama-o e, ao contemplar a verdade nutre-
Platão reconheceu a dificuldade de explicar de l Esse lugar supraceleste nenhum poeta daqui de baço -se e regozija-se,
até que em seu giro a revoluçãoa
maneira adequadaa separaçãodas ideias e a sua 3.3.1. Ideias gregas sobre a alma o cantou ainda nem jamais o fzá dignamente. Mm lá conduza ao mesmo ponto No circuito, contempla a
relação com os seres sensíveis. que se deve ter a coragemde dizer a verdade em própriajustiça,contemplaa sabedoria,
contempla
a
a) No pensamento grego, o tema da alma é tratado
de uma forma muito diferente da maneira como quaisquer
circunstânciae especialmente
quandose ciência -- não a que está sujeita à génese, nem a que
l fala da verdade--eiscomo ele é: o ser realmente difere conbrme se aplica a um ou outro dos objectos
3.2.3. O mundo dasideias muitos certamenteo fariam na actualidade.Esta
existente, que não [em forma, nem cor, nem se pode que nós agora chamamos seres, mas à ciência que se
discrepânciana forma de apresentaro problema Lacar,visível apenas ao piloto da alma, a inteligência,
O mundo ideal (a palavra«mundo»é obviamente aplica ao ser que verdadeiramente existe E, depois de
torna-se evidente pela simples observaçãode que aquele que é objecto do verdadeiro saber, é esseque haverde igual modo contemplado os outros seresque
metabrica) alberga ideias ou R)amasdos seres físicos
nenhum Blósoh grego negou a existência da habita tal lugar. E então a mente do Ser divino, porque são verdadeira realidades e de se haver saciado, desce
e também ideias matemáticas(todo o Universo mate- alma: mesmo os materialistasaceitam a sua alimentadapela inteligênciae pelo sabersem novamente ao interior do céu e regressa a casa.
mático é ideal). A esse mundo pertence também o
l existência,embora a consideremcomposta de mistura -- bem como a de toda a alma que cuide de
conjuntodosideais morais e políticos(bondade, Platão,,fVdlo 247C-E
átomos,como o rosto do real.O problema üinda- receber o que Ihe é conveniente --, vendo o ser em si,
justiça, etc.) aos quais a conduta individual e a orga-
mental paraos Gregosnão é a existência da
nização da convivência social se devem acomodar.
alma, mas a sua natureza(materialou não,
Para Platão as ideias não são um aglomerado
imortal ou perecedoira)
desconexo de essênciasque constituem um sis- Na actualidade muitos não aceitariam,com toda a
tema em que todas se ajustam e coordenam, numa
certeza, esta forma de encarar o problema: em suma,
gradação hierárquica cuja cúspide é ocupada pela
hoje é inconcebível que um materialista aceite a
ideia de bem. O bem como ideia primeira, como
existência da alma. Parao pensamento moderno, o
princípio supremo, é expressão da ordem, do
primeiro problemae fundamentalnãoé a discussão dois tipos de respostas mais ou menos dermosem que os filósofos gregos a colocam (a
sentidoe da inteligibilidadedo real.
da natureza da alma, mas a própria questão da sua tmprectsas: concepçãoda alma como princípio de vida) é fácil
O conhecimento das ideias e das suas relações existência. conceber que exista uma estreita ligação entrc alma
constitui o saber autêntico. Na Rq)zíó/ícóz, Platão 1) Alguns dos interrogados aludiriam ao facto de
estarvivos. ao facto da vida: não é, no Bm de tudo. a e corpo (como pode a alma não estar unida ao
insiste na dificuldade de se alcançareste conhe- b) A noção de alma, no pensamento grego, está
associadaa dois factos distintos, embora em certa almaque abandonao corpo à morte?A alma seria corpo se é cm virtude dela que o corpo vive?),mas
cimento e assinalaos passosa dar para o atingir:
torna-severdadeiramente
difícil, senãoimpossível,
primeiro o estudo das matemáticas; depois, e a medida relacionados entre si: por um lado a vida assimcomo que o princípio da vida, aquilo em
encontrar qualquer sentido paraa imortalidadeda
partir deste, já sepode iniciar o demorado estudo do e por outro o conhecimento inte-lectual. O virtude do qual um ser estávivo.
alma (que sentido pode ter uma alma separadado
sistema total de ideias, ascendendo até à cúspide das mesmo acontece na actualidade com a noção de 2) Outros aludiriam a actividadespsíquicassupe-
mesmas.até ao conhecimento do bem. A esta corpo se a sua única missão é fazer com que este
alma. Com efeito, se perguntássemos a pessoas riores, exclusivasdo homem: não é, ao fim e ao
viva?). Ao contrário, a aceitação da segunda noção da
ascensão,por via da qual se alcançaráum saber simples e não sofisticadas cultural-mente o que cabo,por ter uma alma que o homem se distingue alma-- como princípio do conhecimentorácio-nal--
pleno e absoluto,Platãodá o nome de dialéctica. entendem por alma, obteríamos provavelmente dos restantes animais? E como o homem se dis-
torna possível levantar a questão da imor-validade,
tingue do animal pelacapacidadede reflexãoe por embora dificulte muito achar uma expli-cação
possuir entendimento, a alma deveria entender-se satisíãtóriapara a união da almacom o corpo
comoo princípio do conhecimento racional. Estas duas concepçõessobre a alma podem
Não é difícil concluir da discrepância existente entre denominar-se, respectivamente,aristotélica e pla-
as consequênciasque derivam de uma e outra tónica da alma. ParaAristóteles, como veremos no
concepção da alma. Em primeiro lugar, se se aceitar próximo capítulo, a alma é fundamentalmente o
a primeira das concepções(a alma como princípio princípio da vida, enquanto que para Platão a alma é
Aideiadobelo da vida), terá de admitir-se que todos os seresvivos fundamentalmenteo princípio do conhecimento
O Belo não Ihe surgirá aos olhos sob a forma de um -lhe-áem si e por si,como forma únicae eterna,daqual possuem alma, não só os animais mas também as intelectual. E importante, no entanto, não esquecer
rosto, de mãos, do que quer que pertençaa um corpo; participam todas as outras coisasbelas por um plantas; se se adopta a segunda das concepções da (We 7ta filosofia grega nunca se produziu a
tão poucosoba forma de pensamento, de conhe- processo tal. que a geraçãoe a destruição de outros
cimentoou de qualquer coisa existente em algo seres em nada .a aumentam ou diminuem, e em alma (a alma como princípio de conhecimento separação radical e total etttre os dois modos de
racional), parecerá razoável aârmar que só o comem conszcürar óza/?#za.Nem Platãoignora a funçãovital
diversodele-- por exemplo, um ser vivo da terra, do
E
nenhum aspecto a afêcEam

B ceuou dequalquer outro sítio. Pelo contrário, surgir- Platão, Ba?zqzzele,211-A


possuialma .
Em segundo lugar, e colocando a questão nos
da alma. nem Aristóteles deixa de relacionar a
actividadeintelectual com o conceito de alma.
PIOS SOFISTAS.SÓCRATES
E PLATÃO 3 PLATAO
3.3.2.A alma no pensamento platónico conhecimentoracional,nemqualqueroutro conflito Platãoparticipa desta convicção socráticae, além 3.5. A ordem política
que não seja o que enfrenta a alma com o corpo. As disso, como indicámos qundo nos referimos à
a) O dualismo alma/corpo paixões, os prazerese os desejos, todos os apetites origem da Teoria das ideias(ver alínea 3.2.1.), Platão Platãoé antesde mais um pensadorpolítico. A sua
Como não podia deixar de ser, a concepção plató-
perturbadores e conflituosos são atribuídos ao atribuiu a estes conceitos ético-políticos o obra mais importante e mais conhecida, a RqpzZ-
nica da alma como princípio do conhecimento
corpo. Trata-se indubitavelmentede uma con- estatuto de ideias (a justiçaem si, a bondadeem b/icíz, debruça-se sobre o sistema político ideal
racional está estritamente relacionada com a teoria
cepçãoexcessivamente esquemáticae redutorado si, etc.) ideias (ou ideais) cuja realidadee validade
dasideias.Vimos antesque estateoria introduz um
psiquismo humano. Os desejos, os apetites e as objectiva é independente das opiniões que cada um
dualismo, uma radical separaçãoentre o âmbito paixões são na verdade fenómenos psíquicos e possater acercadelas. 3.5.1.Ajustiçano Estado
dasideias(o verdadeiro real) e o âmbito dos seres
não meramente corporais. Osconflitos decorrem no Partamos,pois, do facto de que é possível dellnir a
físicos submetidos à mudança e à decomposição. A teoria política de Platãocentra-seem dois
interior do nossopsiquismo. Justiçade um modo absoluto, de acordo com a
Este dualismo genérico está relacionado com o Platão teve consciência deste facto e nas suas obras princípiosfundamentaisque apresentamos de
convicção socrática e platónica. Como defini-la? Os
dualismo antropológico de Platão: a alma é dim das seguida:
maduras(R@zíó//ca, Pedra) adoptou uma con- sofistas tinham mostrado claramente o caminho:
ideias, pertence ao âmbito destas devido à sua
cepção mais complexa da alma,distinguindo nela analisando a natureza humana. Platãoaceitaa a)Conelação estrutural entre a alma e o
própria natureza,ao passoque o corpo pertenceao três partes(a sua terminologia é tão pouco rigorosa maneiracomo os sofistaspõem o problema, embora Estado. SegundoPlatão,o Estadopossuia mesma
mundo dos seres físicos.Ê na contemplação e no
que por vezeshla de três partes da alma e outras rejeite as conclusões das suas análises. estrutura tripartida da alma humana individual.
conhecimento das ideias que adequadamentese
de três almas). Com efeito, são três os grupos ou classessociais que
cumpre o destino das nossasalmas. Segundo os sofistas, recorde-se, as únicas leis
Estas três partes são a razão (alma racional), o compõem um Estado: os produtores(dedicados à
Estedualismo (almaeorpo) constitui a base funda- naturaissão a procura do prazer e o domínio do
ânimo(alma irascível, como por vezes é referida) e maisforte. Ora bem, no entender de Platãoesta actividade económica, à produção de bens e ao
mental da doutrina platónica acerca da alma. Assim: o apetite (alma concupiscível, como corrente- doutrina moral baseia-senuma análiseincorrecta da comércio);
os guardiãesauxiliares(dedicados
à
1) A alma, afim das ideias e como ela imaterial e mente se traduz). No apetite residem os desejos natureza humana: ao tomarem os animais e as deíêsa e à preservação da ordem, a tarefas militares
simples,é por naturezaimortal; irracionais e a procura do prazer, que se opõem à e policiais); e os governantes ou guardiães per-
criançascomo mode]os de comportamento natural,
razão.À razãocabecontrolar e ordenaro apetite. O feitos. Estas três classes sociais correspondem às três
2) A união da alma com o corpo não é um estado os sofistas prescindiam do aspecto mais carac-
essencialda alma mas um estado acidental e ânimo é a coragemou fôrça,que por vezç?cede às partesda alma: os produtoresao apetite; os
terístico do homem, a razãoquc nem a criança nem
transitório. Além disso, não só é acidental como exigências do apetite, apesar de poder--e guardiães auxiliares ao ânimo; e os governantes à
o animal a possuem). Uma análise da natureza
dever converter-se em aliado da razão na tarefa 1(1ZdLJ.
pode ser consideradaantinatural, já que o lugar humana que não tenha em devida conta a existência
de subjugare controlar as exigênciasdo apetite.
próprio da alma é, como dissemos,o mundo das da razão no homem, nem a sua qualidade de b) Princípio de especializaçãofuncional. De
A esta tripartição corresponde a imagem da
ideias e a sua actividade a contemplação destas; faculdadesuprema,não pode servir para definir acordo com este princípio, cada indivíduo e cada
carruagem que Platãoutiliza no mito do Pedra (a
3) Enquanto permanece unida ao corpo, a tarefa correctamentea justiça. grupo social deve dedicar-se à flmção ou tareÉi
que aludimos na alínea 3.2.2.): o cocheiro respon-
fundamental da alma é purificar-se e preparar-se sável pela condução simboliza a razão, o cavalo Paradefinir a justiça, -- e, além dela as restantes que Ihe é própria. Platãojustificaesteprincípio
para a contemplação das ideias.A noção de puri- negro e indisciplinado é o apetite e o cavalo branco virtudes morais --, é necessário analisar correc- não só com razões de carácter prático(os resultados
ficaçãoque tem origem e conotações de carácter e nobre simbolizao ânimo ou coragem. tamente a natureza humana. Anteriormente são melhores quando cada um realiza as tarefas em
religioso supõe que a alma se encontra num estado anotámos que a análiseplatónica do ser humano que se especializou),mas também com
de impureza. Ê legítimo então perguntar de onde distingue na alma três faculdades ou partes: A considerações teóricas: em qualquer sistema
vêm estas impurezas. Nas obras platónicas mais radi- 3.4. A ordem moral justiça consistirá na ordenação adequada complexo natural, seja este um organismoou um
calmentedualistas(comoo ciclo/z)arma-sequeas destas três partes da alma. Tal ordenação Estado, cada parte está naturalmente destinada a
impurezas vêm precisamente da influência do Perante o relativismo moral dos sofistas, Sócrates acontece quando cada parte da alma exerce a função realizar uma função especíHca.
corpo, das suas exigências e necessidades que se estava convencido de que os concez/os moríz/s que Ihe corresponde eposszza cz u/rrzzde qzze /be é Da conjunção destes dois princípios resulta a
impõemtirânicamente
à almaimpossibilitando-lhe
o podem ser ./&ózdos racionalmente mediante as pPópdíz.A prudência é avirtude própria da razão; concepção platónica da justiça, que é a mesma para
exercício do conhecimento intelectual. A alma, por definições rigorosas: ainda que por exemplo seja afortaleza ou valor é a virtude própria do ânimo;a o Estado e para a alma individual. De facto, a justiça
isso, opor-se-á ao corpo e às suas solicitações, pois é difícil de definir a justiça estapode ser definida; e a moderação ou temperança consiste em que o no Estado realiza-se quando cada um dos grupos
nisso que consiste a autêntica sabedoria. busca da sua definição constitui uma tarefa apetite e o ânimo se submetem aos ditames da sociaisrealiza a função que Ihe corresponde(espe-
indeclinável e urgente para todo o ser humano que razão,reconhecendo a estao papel directivo que cialização funcional) e a realiza de modo adequado,
b) As três partes da alma
não viva a sua vida irreflectidamente e para toda a naturalmente Ihe compete. SÓquando as suas partes pois possui a virtude que Ihe é própria: prudência

E O dualismo radical que descrevemos não reconhece


à alma qualqueroutra função específicado
sociedade que pretende estruturar-se de acordo
comuma ordemracional.
se comportam deste modo é que a alma, no seu
todo,éjusta e ordenada.
no caso dos governantes, fortaleza ou valor nos
guardiães auxiliares e moderação ou temperança E
e) OS SOFISTAS,SÓCRATESE PLATÃO PLATAO

(aceitaçãoda ordem social) por parte dos produ Estado é de carácter modal: promovera virtude e cerem a cidade chamando meu não ao mesmo
cores e de todos e de cada um dos grupos sociais. a justiça, tanto individual como socialmente. SÓ mas a cada coisa distinta», algo que poderia
deste modo será possível uma vida feliz (Platão acontecer se cada um possuísse«mulheres e filhos
3.5.2.O govemo do sábio comunga da convicção socrática de que a felicidade distintos»(R@z2ó/íca,464 C-D)
dependeessencialmente
da virtude)
De acordo com a filosofia platónica, à razão cabe
Partindo de uma concepção tão «moralizante»do Sãoestas as linhas fundamentais da utopia
por natureza govemar, tanto no indivíduo como
Estado, não admira que Platão conceda uma platónicada Repzíó//cíz.
Em obrasposteriores,
no Estado.As outra partes(apetite e ânimo na alma,
importância fundamental à educação,que será da em o Po/í/íco e ainda mais em as le/s, Platão
produtores e guardiães auxiliares no Estado) devem
submeter-se aos seus ditames de acordo com as competência exclusivado Estado.Dedicou muitas suavizou assuas opiniões, dado que chegara à
páginas à educação nas suas obras políticas, e na conclusão de que não é fácil encontrar
exigências da justiça.
Rq)z2ó/zca
surgeorganizada
em dois níveis: verdadeiros sábios governantes. O go-
Sob o ponto de vista político, isto configura um
a) No nível primário, comum a todos os cidadãos, a verno dos sábiosfoi substituído pelo
Estadoideal, utópico, que pode ser definido como o
educação consiste na ginástica e na música governo das leis, pelasubmissãorigorosa
govemo dos sábios. Todaa teoria política de
(«música»em sentido lato, incluindo também a arte dos governos ao ordenamento jurídico. No
Platão centra-se nesta convicção, expressando-a
e a poesia). Por meio de ambas as disciplinas entanto, Platão nunca renunciou a prin-
frequentementenassuasobras:«ogénerohumano
pretende-se educar não só o corpo mas também o cípios importantes: que à razão cabe gover-
só se libertará dos seus males quando os que são
carácter,inculcando nos cidadãoshábitos e opiniões nar (as leis são a expressão da razão e a sua
verdadeiramentefilósofos ocuparem os cargos
correctas. encarnaçãoé um conselho ou tribunal supre-
públicos, ou quando aquelesque exercemo poder
b) O segundonível, reservadoaosfuturos gover- mo), que o fim próprio do Estado e do
nos Estados se convertam, por especial favor divino, nantes. vai dos vinte aos trinta e cinco anos. Numa governo é tornar os seuscidadãosmelhores e,
em Hlósobs no verdadeiro sentido da palavra»
primeira fne consiste num estudo pormenorizado e finalmente, que a justiça é a condição
(Cb7'fúz
VII).
progressivo dos vários ramos das matemáticas, de iniludível paraa felicidade.
Por conseguinte, o governo deve ser entregue aos Giorgio de Cbirico. la orilh del Tesatia
modo a que na sua fase definitiva se possa abordar a
que sabem, aos sábios, aos filósofos. Este princípio
dialéctica, que culminará no conhecimento do
platónicobaseia-senuma identificação discu- bem
e
tível entre o saber teórico e o saberprático. Ao
expormos a hierarquização das ideias(ver a anterior
alínea 3.2.3.), salientámos que na cúspide de todas
elas se encontrava a ideia de bem, expressão da 3.5.4. Ouü'm medidas políticas
ordem, do sentido e da inteligibilidade de toda a A utopia platónica da Repzíó/ícacomporta ainda
realidade.O conhecimento do bem é a culmi- outras medidas radicais,cuja finalidade é também de
nação de todo o saber, quer teórico, quer carácter moral. Assim, Platão proclama a igualdade
prático: do saberteórico porque o conhecimento absoluta enfie homens e mulheres: ambosterão
do bem possibilita a captação da ordem e da a mesma educação e as mesmasoportunidades de
estrutura de toda a realidade; do saber prático chegar a guardiães auxiliares e governantes. Além
porque o conhecimento do bem proporciona as disso, suprime a família e elimina a
normas de toda a ordenação moral e política. O propriedade privada para os guardiães auxiliares e
sábio platónico é simultaneamentehomem de para os governantes (mas não para o grupo social
ciência e homem de Estado, e sob o seu governo dos produtores)
não há necessidadedc leis, já que o seu saber Estas duas últimas medidas não têm uma função
permite-lhe adoptar as disposições mais adequadas económica (como em certas utopias modernas e
para cada caso. contemporâneas),
mas uma função exclusi-
vamente moral: pretende-seevitar que o
egoísmo se apodere dos guardiães e dos

B 3.5.3. A educação
Platãopensaquea finalidade fundamental do
governantes, promovendo assim um sentimento
de comunidadeentre eles,evitandoque «dila- B
Y'
p51ARISTÓTELES.A
FILOSOFIA
b.XljÓPEXÍ000HELENÍSTICO
INTRODUCAO l ARISTOTELES

Numa célebre passagem da Me ílõ'saca (VI, 1, 1026a 1.1. Física aristotélica


13-26) Aristóteles divide as ciências teóricas em
física, matemática e teologia. A física, explica ele,
1.1.1.Natuitza e teleologia
ocupa-se de seres que possuem existência real e que
estãodotados de movimento; as matemáticas,por Ao estabelecerque o bem é a ideiaprimeirae o
seu lado, ocupam-sede entidades que não estão princípio supremo, Platão dera impulso a um
submetidas ao movimento ou a qualquer mudança modelo teleológico de interpretação da natureza: a
masque carecem de existênciareal; finalmente, a ordemdo Universonão é o resultadode forças
teologia ou filosofia primeira ocupa-sedaquela cegas que actuam mecanicamente, como defendia o
entidade ou entidades que possuem existência real mecanicismo
de Demócrito;pelo contrário,a
mas que não estão submetidas a movimentos ou racionalidade e a ordem do Universo provêm do
mudanças. facto de nele se encontrar realizado o bem e do
No entanto, a contribuição de Aristóteles no campo facto de tudo estar racionalmente disposto de tal
das matemáticas foi escassa, se exceptuarmos a sua modo que cada coisa atinge «o estado mais
crítica à concepção platónica dos objectos mate- perfeito», comodk Sócratesno /Vdolz
máticos como ideias ou realidades subsistentes. A Aristóteles, por seu turno, estava firmemente
sua contribuição noutros âmbitos do saber foi convencidode que todos os seres naturais
todavia brilhante e de grande influência histórica. tendem a alcançar a perfeição que lhes é
Ocupar-nos-emos
delesmaisà frente. própria: assim, por exemplo, um embrião realiza

Adstóteles
Discípulo de Platão e mestre de de abandonarAtenta,morriana
Alexandre Magna, nasceu em llhade Eubeiaaossessentae
dob
Estagim(Trácia) no ano 384 a, C. ancadeidade(mo322a.C.).
Aosdezoito anosfoi paraArenas, Conservam-se alguns fragmentos
vindo a ingressar na Academia dos seus escritos de juventude
platónica e nela permanecendo (diálogosde conteúdoe estilo
durmte vinteanos,atéà mole de platónico), bem como um núme.
Platão. Por causa desta, Aris- ro considerável de tratados com-
tóteles abandonou Arenas, ini- pletos cujo conjunto se denomina
ciando-se paraele urn período de corpzís ânsia/e/zcam. Os tratados
amadurecimento intelectual e de mais importantes são dedicados a
abandono progressivo da filosofia questões de lógica, de HUosoRta
da
platónica.No ano 335 a. C. re- natureza e biologia(os mais im-
portantes
gressa a Atenas e aí funda a sua descegruposãoaFinca
própriaescola,o Liceu Estese- eÁcmca (&zNlm), de ética(Eüca
gundo período de estadaem czAricó/Peco) e de política(Po-
Arenas,dedicadoao ensinoe à /í/lca). Do máximointeresseé
J investigação,
terminariacom a também a sua d4e/íláz'saca, obra
Este capítulo consta, poí'tanto, de duas partes:
morte do seu antigo discípulo, dedicada a questões de Oncologia
1. Ai'istóteles
2. A 6Hosofiado período helenístico.
]

Alexandre Magna. Um ano depois eTeologia-


E
«) ARISTÓTELE$, A FILOSOFIA DO PERÍODO HELENÍSTICO ARISTOTELES

um processo complexo de operações vitais Destemodo na RtlosoHiaaristotélicaa teleologia é Ecomo, segundo a terminologia de Aristóteles, o qualitativa(alteração) e local(deslocação,
(nutrição, crescimento, etc.) orientadas para a imanente, isto é, o bem/6impara que todos os que não é(mas pode ser) se encontra em potência transferência)
consecução da forma e perfeição característicasdo seresnaturaistendem é interior a si próprio, nãoé (a sementeé árvore em potência)e o que
c) Elementos que intervêm no movimento
adultode cadaespécie. mais do que a sua própria peúeição. actualmente é está em acto (a á'«ore é árvore em
Estaconvicção fundamental de que os seres naturais acto, actualmente, efectivamente), o movimento é Em qualquer mudança -- seja ela substancial ou
pendem a alcançar o seu próprio estado de peúeição assimexplicadoe definidocomoa passagem
ou acidental há sempre: 1) algo que permanece
foi elaborada por Aristóteles sob a influência dos 1.1.2. O moArimcnto trânsito da potência ao acto, como«actodo que através da mudança (precisamente aquilo que
seusestudosbiológicos. estáem potência enquanto tal» (isto é, enquanto muda, aquilo que fica afectado pela mudança);
Aristóteles dedicou-se longamente à biologia e não a) Possibilidade e definição do movimento estáempotência). 2) algo que desaparece, e; 3) algo que aparece
restam dúvidas de que os processos biológicos são Visto que a física se ocupa das substâncias dotadas em sua substituição. Suponhamos, por exemplo, o
b) Classesde movimento
os mais difíceis de interpretar de um modo de movimento, é natural que Aristóteles comecea caso da água que passa do estado líquido ao sólido
puramente mecanicista. Os processosbiológicos suaFz'ncczcom uma crítica a Parménidese com uma Uma vez garantida a possibilidade de movimento, da ao descer de temperatura: o que permanece ao
parecempresididospor uma6malidade intema defesada possibilidadedo movimento. mudança em geral, Aristóteles procede à classi- longo deste processo, o sujeito ou substrato da
que os orienta e dirige. O modelo aristotélico da Para Parménides, é impossível qualquer movi- ficaçãodo mesmo,distinguindo:1) a mudança mudança, será a água; o que desapareceno
naturcza baseadona biologia é, pois, um mento ou mudança, porque isso equivaleriaà substancial, ou mudançacujo resultadoé a processo é um estado da água, o seu estado
modeloteleológico. passagemdo não-serao ser.Aristótelesintroduz destruição de uma substância já existente; e 2) líquido; o que apareceem seu lugar é um novo
Aristóteles foi discípulo e colaborador de Platão aqui uma notável distinção. Tomemos aqui um mudança acidental, na qual não se gera ou destros estado,neste caso o sólido
durante vinte anos e jamais abandonou o espírito do exemplo simples. Uma pedra não é uma árvore, substâncias, embora estas sofram modificações Tratando-sedo movimentoou mudançaacidental
platonismo. Abandonou, issosim, a teoria das ideias nem uma semente é uma árvore, mas entre os dois em aspectosnão essenciaisdo seu ser, isto é (como no exemplo anterior), o que permanece
quando atingiu a maturidade intelectual. Tendo casosexiste uma diferença notável: a pedra não é sofrem modificações
acidentais porém, sem através da mudança não levanta qualquer pro-
negado a existência das ideias, já não podia conceber nem pode converter-se numa árvore, a semente ficarem afectadas na sua estrutura substancial. blema: são as substâncias naturais que perdem
o bem do mundo como uma realidadetranscedente. não o é, mas pode vir a sê-lo. Estritamentefalando, nem toda a mudançaé certos caracteres acidentais para adquirirem
ou seja,existente em si(ideia do bem). Em conse- Há pois, duas maneirasde não-ser uma coisa: um movimento:a mudançasubstancialnão o é. outros que não possuem. Maso que é aquilo que
quência,o bem passou a ser interpretado por não-ser absoluto (nem é nem pode ser) e um não- Apenas é movimento, em rigor, a mudança permanece (qual o substrato) nas mudanças
Aristóteles como o cumprimento da ten- -ser relativo (não é, mas pode vir a ser). O movi- acidental,que pode ser de três classes:quan- substanciais?São as substâncias,visto que a
dência que impele todos os seres para a mento é impossível no primeiro caso,mas não no titativa(aumento/diminuição no tamanho), mudança substancialé a sua geraçãoe destruição
sua própria perfeição. segundo.

A mudança e a composiçãomatéria forma Peloque Ricadito, é, pois, evidente que /zzdoo que é
gepúzdoé coznPosro. de um lado temos a coisa que se
Sese observar com atenção, é evidente também que as
gera e do outro aquilo em que a coisa se converte
Definição de movimento do alterável enquanto alterável; o crescimento e o substâncias -- e tudo aquilo que o é absolutamente --
Isto pode ser entendido de duas maneiras:como
Não há mudança fora das coisas. Na verdade, o que lto são o acto daquilo que é capazde se gera a partir de algum sujeito. Por conseguinte, bá
sujeito e como oposto. Chamo sujeito ao homem
muda acontece sempre de acordo com a substância,a crescer e decrescer (não há um termo comum para sempre algo que é o sQeito a partir do qual segwa o
que se torna sábio e que é o oposto de quem é
qualidade, a quantidade ou o lugar Ora, para além designar ambos); o nascimento é o acto daquilo que é que é gerável: por exemplo, da semente geram-se as
ignorante. O oposto é a falta de forma, de figura, a
destra coisas não há mais nada comum, algo que não gerável e corruptível; a locomoção do que é loco- plantas e os animais. E em relação às coisas que se
fdEade ordem, ao passoque o sujeito é o homem, a
sejasubstânciaindividual, quantidade, qualidade ou movível. geram absolutamente, umas fazem-no por trans-
pedraou o ouro.
qualquer dasrestantes categorias.Por conseguinte, Que o movimentoé isto, é evidenciadopelo formação, como a estátua a partir do bronze, e outras
Torna-seclaro,portanto, que (. .) tudo se geraa
nada se move ou muda fora das coisas referida. dado seguinte: com efeito, quando o ediflcável -- como por adição,como as coisas que crescem; outras por
partir de um sujeito e de uma forma. Com efeito, o
que não há nadadora delas ( ). tal -- se actualiza,vai-se edificando, e a edificação subtracção,como a estátuade Hermesa partir da
homem adequado provém de certo modo de
Depois de termos distinguido, dentro de cadagénero, consiste nisto. O mesmo acontece quando apren pedra, outras ainda por composição, como a casa;e
«homem» e de «instruído»: o conceito daquele pode
o que é acto(enteléquia)
e o que é potência,
o demos, curamos, giramos, saltamos, crescemos ou outras, enfim, por alteração, como as coisas que se
ser decomposto nos conceitos destes.
ntot;itnenlo é o acto(enteléquia) do qtle está enz env alteram na sua matéria. É evidente que todas as coisas

B PO/ê/zelacow !a/; por exemplo, a alteraçãoé o acto Arístóteles, Hsíca /a 1, 200b32 - 201 a 18. assim geradas o amem a partir de sujeitos Arístóteles, Fz'uca JI 7, 190bl-23
E
4 FlIQ$Qf14
O AKl$TQTFIF$: PQPÇBIQPQ
tlFÇFNl$TIÇQ l ARISTOTELES
A teoria aristotélica segundo a qual as substâncias final ou fim é a própria actualizaçãoda forma, de
Crítica das ideias platónicas seuser, dado que não são imanentes nascoisas que naturais são compostas de matéria e forma costuma modoque a espécieseperpetue.
Mas.acimade tudo, perguntar-nos:qual delasparticipam(. . .). denominar-se
hilemoríismo). Assim,o Êm nos processosnaturaisnão é mais do
é o contributo das formas para as coisas sensíveis, Além disso, as outras coisas não podem derivar das A matéria e a forma são causas das substâncias que a actualização das fobias nas substâncias:
quer para as que são eternas, quer para as formas formas, em nenhum dos sentidos usuais da palavra naturais, causas intrínsecas. A elas Aristóteles isto revela claramente como o modelo aristotélico é
que não são a causado seu movimento nem de «derivam,.E dizer que são modelose que asoutras acrescentacomo causas extrínsecas, a causa
coisas participam delas, é usar metáforas poéticas e
teleológico e como estateleologia é imanente, tal
qualquer mudança nessascoisas. Por outro lado, não
eficienteou agente produtor de movimentoe a como o afirmámosno início da nossaexposição
contribuem em nada para o conhecimentodas palavras vazias de significado.
sobreAristóteles.
causafinal ou fim, para a qual se orienta o
outras coisas (com efeito, nem sequer são a sua
substância, pois então existiriam nelas), ou para o Aristóteles, ]t@fó!/hca J19, 991 a 8-22. movimento ou processo.Sãoquatro, pois, ascausas
na âlosofia de Aristóteles.
1.2. As substâncias viventes. A alma
Este esquema das quatro causas pode parecer No capítulo anterior, referente a Platão,ao intro-
estranhoaosleitoresmodernos,acostumados
a
duzir o tema da alma (3.3.1.) distinguimosdois
chamar «causa»unicamenteàquilo que Aris- modos gerais de cancelar de conceber a alma --
O que permaneceé um substratoou matéria tóteles denomina «agente», a causa eficiente.
1.1.3. As quatro causas como princípio da vida e como princípio do
última (Aristóteleschama-lhemuitas vezes Parasecompreenderadequadamente
o sentido conhecimento intelectual e indicámos que
a) Por conseguinte,dado que na geraçãodas da teoHa aristotélica da causalidade, é preciso ter
maréHapr/mez7a). Esta matéria não temPel" sl AHstóteles assume a primeira destas concepções. É
substâncias naturais a matéria última adquire uma em conta as duas observações seguintes. Em
determinação alguma, é indeterminada, não é lógico que assim seja, dada a sua dedicação à
forma determinada, aquelas são compostas de primeirolugar,Aristótelesconsideracomocausa
nenhum ser em particular; e precisamente matériae ü)mia. biologia.ParaAristóteles,a alma é o pt'incípio
porque não é (em acto) nenhum ser em parti- todos os factores que são necessáriospara vital,é o princípioda vida.
A forma é a esúida(o que cada substânda é, o que hz
cular, pode ser (é em potência) qualquer ente ou explicar um processo ou movimento, todos a) Utilizando os conceitos básicos da sua filosofia
com que a matéria, que de,fmd é indetemlinada, seja
substância natural. os elementos que poderiam e deveriam unir-se Aristóteles define a alma como forma e como
precisamente essasubstância e não qualquer oum) e é
A matéria é, pois, potência. Na mudança substancial, pararesponder totalmente à pergunta porquê? acto. A alma é a forma do corpo (que é matéria) e
também a natureza das substâncias, isto é, aquilo que
a matéria última actualiza-se e adquire fomias ou No seu entender, nenhum processo fica satis- acto é a actualizaçãode um organismo: um orga-
determina assuas actividades específicas e próprias.
estruturas distintas; e segundo a estrutura que fatoriamente explicado a não ser que se espe- nismo possui potencialmente vida, é vivente em
Ê fácil reconhecer nas formas aristóteles uma
adquire em cada caso geram-se diferentes espécies cifique o substrato ou matéria afectada; a forma potência; a alma actualiza esta potencialidade
de substâncias. herançadas ideiasde Platãoque tambémpre- que esta adquire no processo; o agente que o
tendiam saber a essência e natureza dos seres fazendo que o organismo viva, que seja de facto
produz com a sua acção;e o fim a que tal vivente. A alma, diz Aristóteles, é «acto primeiro de
A partir de Parménides
e atravésde todosos naturais. h'lasAristóteles consideraque as ideias processo se destina. um corpo natural organizado» G4cerczz íüz Á/móz,ll,
esforços dos pluralistaspara explicar o platónicas são incapazesde desempenhar
1, 412b5)
estas funções. Como é que a ideia de «homem»
movimento, tinha ficado perfeitamente claro que b) Na medida em que a alma é forma e acto de um
pode ser a essênciados homens se se encontra b) Nos processos naturais a causa eRciente, a
o movimento só podia explicar-se admitindo corpo potencialmente vivo, ózz/7zzão
íüz óz/mae do
separada deles? hmla e o 6m coincidem. Tomemos o casotípico
algum tipo de realidade que permanecesse ao coco ucplica-se settt d©culdades especiais: não se
longo de todo o movimento. Platão procurou De acordo com a doutrina de Platão, não é possível da geração dos seres vivos. Os seres vivos
trata, como afirma Platão,de uma união acidental
afirmar que o fulano é homem; no máximo, engendram outros e graças a isso a espécie
esta realidade permanente nas ideias. Aristóteles ou antinatural, mas de uma união perfeitamente
situou-a no substrato ou matéria última. poderíamos afirmar que fulano participa da ideia perpetua-se
(eternamente,
pensava
Aristóteles).
A
natural e essencial,já quea almae o corpo(arma
de «homem». Ora, se não podemos afirmar que actividade geradora é uma actividade vital, ou seja, é
Em estreita relação com a sua concepção e matéria) constituem uma só substância: o ser
fulano é homem, então «homem» não é a essência própria e intrínseca aos seresvivos. Uma vez que a
teleológica da natureza e com a sua teoria do vivo. A contrapartida desta interpretação hiiemórÊca
de fulano, não é aquilo que fulano é. No entender natureza é princípio e causa das actividades intrín-
movimento como passagem da potência ao acto, da união da almae do corpo é a negação da imor-
de Aristóteles, as ideias também não podem ser a secasdo ser natural, temosde concluir que a
Aristóteles impulsionou uma mecânica e uma talidade da alma individual.
naturezadas coisas,já que o princípio que deter- actividade reprodutiva tem por princípio, por causa,
concepção do Universo(esférico, finito, geo-
mina as suas actividades próprias e intrínsecas não a natureza.A causa eficiente ou agente da c) Além da alma corruptível, que é forma e acto do
cêntrico) com grande influência histórica. Mais à
frente, no cap. 6, abordaremos de novo a mecâ- pode estar fora delas.A essência,a natureza, tem reprodução, é pois a natureza ou forma presente no corpo, Aristóteles admite a presençano homem de

nica aristotélica, quando nos referirmos à física de ser um princípio intrínseco das substâncias, progenitor.O efeito, por seuturno, é tambéma um entendimento incorruptível e imortal. A

B no séc.XIV. como acontece com as formas aristotélicas, mas


não com as ideias de Platão.
arma actualizada
no viventeengendradoque
pertence à mesma espécie do progenitor. A causa
este entendimento chama por vezes, «alma,,embora
se preocupe em nsinalar que se trata de '.ozz/ro /Üo B
O ARISTÓTFIF$:A fIÇQ$QF14
PQPFBIQPO
HELEN STICO l ARISTOTELES
turno, e lá no âmbito das substâncias,a oncologia princípio: cada ser é feliz realizando a activi
O conceitode alma qualidades
-- isto é, que tem vida-- o corpo não
Mstotélicadescobreumagradação de fomlas que dade que Ihe é própria e natural.
O que a opinião geral entende como substâncias são pode ser a alma, pois o corpo animado não é um
sobretudoos corpos, mais ttc os corpos atributo do sujeito mas, pelo contrário, é em si culmina na forma primeira e imaterial. Deste modo,
a oncologia aristotélica converge com a teologia. Este princípio, segundo o qual a felicidade consiste
naturais, pois estes são os princípios de todos os substrato e matéria. Assim, a alma é necessariamente
no exercício da actividade própria de cada ser, é uma
outros. Mashá corpos natural: que têm vida e outros substância, pois é calor/zza de um corpo }zafzlra/
que não a têm: e pol «vida»
entendemoso facto de se qteeposszíí a t;ida e/pzfalência Nuasa substância consequênciaquc deriva da concepção teleo-
1.4.Ética:felicidade e virtude lógica da natureza em Aristóteles. Com efeito se
alimentarem crescerem e envelhecerem por si formal é enreléquia,e por isso íz a/ma é a
l mesmos. Por conseguinte, todo o corpo natural que entetéquiade um tal corPO Lodo o ser natural tende a realizar determinadas
avida é substância,no sentido de substância
parücipadavida 1.4.1.Aconduü humana e a felicidade actividades, o seu exercício arrastará consigo a
composta. E
Edado
dad que se trata de um corpo com ceras Aristóteles, Ácmcízda A/lmza
& 1, 412 a 1-22 satisfação das tendências e, com isso, a perfeição
Na sua ética, Aristóteles parte do princípio de que
o fim último, a meta última de todos os seres e a felicidade. Pois bem, a actividade maisprópria
de a/móz»já que é incorruptível e, portanto, não conhecimento teórico culmina na contemplação da humanos é a felicidade. Com esta afirmação e natural do homem, aquela que corresponde
pode ser forma e acto de um corpo. Este enten- entidade ou forma primeira: Deus, princípio do todos os homens estarão certamente de acordo. mais adequadamenteà sua natureza,é a acti-
dimento não é pessoal,dado que é o mesmo movimento e da ordem do Universo. vidade intelectual. A forma mais perfeita de
sejaqual for o seu credoou convicção.O desa-
para todos os homens. Acasoé Deus?Comoestá felicidade seria portanto a actividade con.
cordo começa ao concretizar em que consiste a
presente no homem? Os escritos de Aristóteles não 1.3.2. A ontologia templativa.
felicidade. Trata-se de uma dificuldade séria para
nos permitem uma resposta definitiva a estas qualquer teoria moral: como determinar em que b) Mas Aristóteles sabe (Platão lá o havia
No âmbito do conhecimento teórico, Aristóteles
perguntas. consiste a felicidade?
atribui um valor fundamental a uma disciplina de sublinhado) que o homem não é só razão e
carácter geral cujo objecto de estudo é o real a) Perante esta pergunta há basicamente duas entendimento. Uma vida dedicada à contemplação

1.3. Da física à metafísica enquanto tal, «o ente enquantoente e as atitudes. A primeira consiste em deixar que cada só seria possível se o homem não tivesseneces-
propriedades que por si Ihe pertencem»(Me/ílri'nca, qual decida individualmente e a seu falante o que o sidades corporais, problemas económicos, inter-
IV, 1, 1003a 21-22). Não se trata de uma ciência ferências sociais, etc. Este ideal de felicidade e
pode fzer feliz: tal atitude renuncia à teoria moral,
1.3.1.A entidade primeira. A teologia particular que se ocupe de uma parcela da realidade, perfeição é, pois, uma aspiração praticamente
isto é, renunciaa encontrarum modelogene
masde uma disciplina que estuda«oque é»o ente ralizávelde felicidade,desinteressando-se
da irrealizável para a imensa maioria dos homens, e
Aristóteles estabelece,pois, a primazia da forma de um modouniversal. mesmo aqueles que podem dedicar-seà con
pergunta e sem tentar sequer responder-lhe.
sobre a matéria e também que, acima das formas templação, somente o podem fmer durante escassos
Apesar de ser o primeiro a ocupar-se explicitamente
realizadasna matéria, existem formas ima-
dela Aristóteles não atribui um nome preciso a esta Se, ao contrário, se adopta uma atitude teórica, períodos da sua vida. O homem não pode, pois,
teriais cuja instância suprema é Deus. Estabelece como faz Aristóteles, a pergunta só pode ser alcançaresta felicidade absoluta própria de Deus.
disciplina fundamental, (a partir de modernidade
igualmente a primazia do acto sobre a potência, respondida analisando a natureza humana. mas terá de contentar-se com uma felicidade
receberá a denominação de ontologia). E certo que
chegando também por esta via à afirmação da Como os sofistas,como Platão,como todos os limitada.
esta ciência geral não aparece expressamente citada
existência de uma realidade que é acto pleno filósofos gregos, Aristóteles volta-se para o estudo da A consecução desta forma atenuada de felicidade
na classificaçãoaristotélica das ciências teóricas
sem potência e, portanto, alheio a qualquertipo natureza humana, estabelecendo um segundo exige a posse de certos bens coí'poiais (saúde,
(física, matemáticas, teologia). No entanto, ocupa-se
de mudançaou movimento, já que este apenasse dela e das suasrelações com a teologia nos seus
pode produzir onde haja potência. E Deus, livros metafísicos
motor imóvel do Universo, princípio de todo o
A esta ciência correspondeo estudo das pro-
movimento que, por seu lado, não está subme- A felicidade: o âm último
priedades e dospüncípios totaisgerais que regmt o
tido a movimento algum. real dosquaiso maisimportanteé o princípio de Chamamos mais perfeito ao bem que perseguimos por contrário, desejamos ashonras, o prazer, o raciocínio
Com isto se atingem os limites da física que estuda não-contradição (uma coisa não pode ser e não si mesmo do que ao que se persegue por outra razão; e todas as virtudes por si mesmos(e ainda que delas
as realidades dotadas de movimento) para en ser ao mesmo tempo e no mesmosentido), a cuja e ao que nunca é escolhido em vez de outra coisa, mais nadaresultassedeseja-las-íamos
sempre);e também
[rarmos nos domínios da metafísica, (ciência que explicação e defesa Aristóteles dedica mais páginas do que aos que sãoescolhidos simultaneamente por si as desejamospara atingir a felicidade, pois acre
mesmos e por outro fim. De um modo geral, consi- citamos que elas nos tornarão felizes.Pelocontrário
estuda entidades reais imóveis) e da teologia do que qualqueroutro Htlósofo.
Ao estudar o real na sua totalidade, Aristóteles deramos perfeito que é escolhido por si mesmo e ninguém procura a felicidade por estasrazões,nem
(ciênciaque estuda a suprema realidade de todas razão.
nuncaporoutran geralmente por nenhuma outra
elas: Deus). Assim como para Platão, o conhe- mostra como a realidade básica é a substância
Assim acontece com a felicidade, pois escolhemo-la

B cimento da realidadeculmina na contemplaçãoda


ideia primeira,do bem, para Aristóteles, o
individual já que os acidentes pertencem às
substâncias e não existem separadas delas. Por seu
sempre por ela mesma e nunca por outra razão; pelo Aristóteles,Ífzca a Nzcómaco/, 7, 1097a 15-b7
ODOnEtlNigKg
l ARISTOTELES
facilitam a escolha mais correcta e conveniente exactamente o mesmo: é a justiça contratual homem é naturalmente socialequivaleà aârmação
económicos, etc.)
etc.) e exteriores (meios o correctoe conveniente que rege as trocas. A justiça geométrica exige de que o homem tende por naturezaà vida em
para cada caso; 3. assim
Sobretudo e em especial exig e a posse das comunidade.
consistesemprenum meio tempo entre acçoesou que os implicados recebam proporcionalmente
virtudes morais. atitlidpç p'VtíPH2S 4. finalmente, este meio-termo aosseusméritos, regendo a distribuição social de A vida comunitária, por seu lado, ocorre em níveis
deve ser estabelecido racionalmente. Daí a honrase pre-mãos. distintos: na família, na aldeia e, por fim, no Estado.
1.4.2. As virtudes morais O Estado (a polis) é a forma mais perfeitade
importância da prudência, a que nos referimos no
comunidade e só nele o homem pode alcançar a sua
Na sua reflexão sobre a virtude, Aíistóteles distingue parágrafo anterior: é a prudência, a sabedoria 1.5. Política. O cidadão e o Estado peúeição e viver numa vida plenamente humana
dois tipos de virtude no ser humano: as virtudes prática, que determina onde se encontra o meio-
intelectuais, que aperfeiçoam o conhecimento, e -termo razoável para cada tipo de acção e para cada 1.5.1.A sociabilidade. O Estado
asvirtudes morais, que aperfeiçoam o carácter, o casoparticular 1.5.2.Osregimespolíticos
modo de ser e de se comportar. As váriasvirtudes consistem portanto num melo- A grande contribuição de Aristóteles para o pen-
samento políticoconsistiuprecisamente
na sua A finalidade do Estadoé facilitar aos cidadãos,aos
[ermo justo entre duas posições extremas, em
insistência
em que a natureza humana é membros da comunidade política, o desenvol-
A expcessão«virtudeintelectual»pode parecer que uma é excessivae a outra pecapor defeito: por
estranha aos leitores modernos de Aristóteles, já conseguinte,o valor é algo de intermédio entre a
essencialmente social.Perante
cenasteoriasde vimento de uma vida excelente e virtuosa, além da
virtudes origem sofística, que consideravam a sociedade possibilidade de uma vida digna e feliz. Estas
que estamoshabituados a falar de temeridade cega e a cobardia; a moderação cons-
Paraseentendera titui o meio-termo entre o excessoe um ngor como um produto da convenção, Aristóteles arma condições são especificadasnas leis, particu-
apenasno âmbito da moral
que a sociabilidade é um traço ou dimensão larmente no regime político assumido constitu-
sentidode talexp cessãodevemoster em conta demasiado repressivo, etc.
essencialda natureza humana: «o Estado é algo cionalmente
que a palavragregaque se traduzpor «virtude»
asvirtudes inte- produzido pela natureza, e o homem é por natureza A ideia desenvolvida pelos sofistas de que os
(arelé) significaexcelência b) A justiça
regimes políticos, as constituições, são conven-
lectuais são excelênciase tornam o nosso Aristóteles concede um lugar de destaque à justiça,
um animal político», escreveAristóteles na sua
po/ílzcóz(1,2) . Na avaliação aristotélica da condição cionais, não sofreu posteriormente qualquer
conhecimento excelente,e as morais tornam o colocando-a ao lado da prudência(da qual depende
humana ressoam os ecos platónicos da concepção questionação radical. Também Aristóteles admite o
nosso carácter igualmente excelente. toda a actividade prático-moral). do homem como realidadeintermédia entre os seu carácter convencional.Com efeito, há um
Entre as virtudes ou excelênciasintelectuais Quando nos ocupámos da moral platónica vimos animaise Deus.A vida em sociedadeé impossível limite «natural» -- e portanto de carácter moral --
virtude
Aristóteles inclui uma de enorme importância para que para Platãoa Justiçanão era uma paraos animais e é desnecessária para Deus, que é para a convencionalidade e para as mudanças
particular ou uma parte da alma (ao contrário da auto-suficiente:«aqueleque não pode viver em constitucionais:
qualquer regime político deve
a vida prática: a prudência(que também poderia
prudência ou do valor), mas a ordem geral que sociedadeou nãotem necessidade disso,porqueé orientar-se para a realização da justiça e não
ser denominada «bom julgamento», ou ate
reina na alma quando cada parte realiza adequa- auto-suficiente,tem de ser um animal ou um deus» para o benefício particular, injusto, dos que
«sabedoria prática»). Como vimos, Platão concedia
damente a função que Ihe cabe. Em Aristóteles (Po/ífjca, 1, 2). Uma vez mais se manifesta a con- exercem o poder
à prudência um lugar proeminente na.suadoutrina encontramos uma noção semelhante: neste sentido. cepção teleológica da natureza que preside ao Aristóteles distingue três tipos de constituição, três
das virtudes, considerando-aa virtude própria da
razãoou entendimento, ou sela,da parte superior a justiça não é uma virtude particular mas geral, a pensamentoaristotélico. De facto afirma que o classesde regimes políticos tendo em conta o
virtude integral do homem que possui todas as
da alma. Em Aristóteles também ocupa um lugar
virtudes. Esta justiça geral, a que Aristóteles
destacado,já que Ihe cabe determinar ajuíza
chamaa justiça legal, consiste no cumprimento
demente o que é correcto e adequado no âmbito
das leis. Com efeito, o conjunto das leis deter-
prático daconduta. O homem,animal social
mina prudentemente os modos virtuosos de nos
comportarmos. A cidade é a comunidade peúeiu de várias aldeias que, Torna-sepois evidente que a cidade é alma das
a) O meio-termo justo
por assim dizer, têm como objectivo a suficiência e que coisasniaturaise queo homemépor naturezaultl
Além desta noção geral, Aristóteles refere-se à justiça
Aristóteles derme a virtude em geral como «um derivou das da vida mas que agora existe cz?z/ma/socíaÜ e quem é associampor natureza e não
como uma virtude particular, específica, que
hábito de escolher o meio-termo relativo a nós para tiver bem. Assim, as primeiras comunidades são por acaso,ou é um homemmau ou maisque
regula as relações interpessoaise que impõe um cidadepor natureza; porque a cidade é o fim delas, e a homem, como aquele que Homero repreende: «sem
próprios», um meio-termo que é «estabelecido
tratamento equitativo, de modo que cadaum receba naturezaé fim. Com efeito, chamamos natureza de cada tribo, semlei, sem lar»,porque quemé assimpor
racionalmente, ou seja,como seria estabelecido por
um homemprudente»(Erjca
óz/VÍcómaco
11,6, o que Ihe cabe.O tratamentoequitativopode coisa ao que cada uma é depois de ter nascido, quer natureza é também adepto da guerra, como uma
revestir-se de duas formas, que AristÓteles peçaisolada nosjogos.
1106b35-1107 a2)
De acordo com esta definição, asvirtudes ou exce- interpreta, respectivamente, como igualdade melhor é aquilo em função do qual existe algo e um fim.

B lências
moraissão:1.disposiçõesestáveis(epor
isso são denominadas «hábitos»); 2. que nos ,'''-"i'E,':,g:WI..:::i,l,i=s : e a suficiência é o melhor fim. Aristóteles, Po/írzcíz/, 2, 1252b-27-53 a7
O ARISTÕTELES. A FILOSOFIA DO PERÍODO HELEN ST CO 2 A FILOSOFIA DO PERÍODO HELENÍSTICO

número de cidadãos que governam: a monarquia governo do melhor ou melhores de entre os Comoacentuámosno início do segundo capítulo, A orientação do pensamento filosófico foi pode-
cidadãos.
(quandosóum governa),a ai'istocracia(o governo a partir dos finais do séc. IV a. C. produz-se no rosamünte influenciada pela segunda das con-
dos melhores) e a democracia(o govemo de todos Além disso,as três formas de governo podem pensamento grego uma nova viragem antropo- sequências que a nova situação política acarretou,
os cidadãos).Em princípio, qualquer uma destas perverter-se e isso acontece quando o poder não lógica, sendo o homem - e muito particular- como acima assinalámos:o ocaso político dos
formas pode ser consideradacolecta quando se orienta para a realização da justiça mas sim para o mente o tema moral -- o objecto central da estados gregos. As pequenas cidades-Estado (Polis)
o poder é exercido justamente. A democracia proveito de quem governa. Estastrês formas injusta reflexão filosófica. Destaque-sea propósito a haviam constituído a comunidade política funda-
correcta aproxima-se do ideal da justiça aritmética, de governo são, respectivamente,a tirania, a criação em Arenas de duas novas escolasque vêm mental, o único âmbito em que a vida política e a
ao passo que a aristocracia c a monarquia pendem oligarquia e a democracia degenerada,à qual se juntar-se à Academia platónica e ao Liceu aris- tntegraçao cívica eram possíveis e racionais para um
mais para a justiça geométrica, pois trata-se do pode chamardemagogia. totélico: o Jardim, fundado por Epicuro, e a Stop Grego. (Nas suas teorias e elucubrações,Platãoe
(de onde o termo «estoicismo»)fundada por Aristóteles nunca aceitaram outro tipo de orga-
Zenãode Cítio. nizaçãopolíticamaisampla.)
Para se compreender bem o pensamento do
Para os gregos a participação activa na orga-
período helenístico, devemos estudar três pontos
nização e destino da sua pr6priapolís era uma
fundamentais: em primeiro lugar, as circuns-
dimensão essencial da vida, e quandoa marcha
tâncias que acompanham e condicionam este
implacável da história acabou com a independência
novo deslocamento da filosofia para questões
das cidades e a organização e o destino das mesmas
morais; em segundo lugar, a significação que
deixou de estar em suas mãos, muitos Gregos
nestas escolas adquire o ideal de sábio; por
devem ter compreendido que o sentido dasua vida
último, as doutrinas fundamentaisdo epicurismo
estavadefinitivamente mutilado e que não tinham
e do estoicismo.
outro remédio senão procurar um novo sentidode
vida e novosideais.

2.1. Novas circunstâncias sociopolíticas Tanto o epicurismo como o estoicismo pre-


tendemrespondera estanecessidade. A liberdade
As circunstâncias que deram origem ao período
social, política e cívica irremediavelmenteper-
helenístico períodode características
muito
didaset'ásubstituída pela liberdade individual,
peculiaresem todos os âmbitos da cultura -- são por
dapessoa quese basta asiprópria.
certoconhecidas.
O vastíssimo
impérioque Ale
xandre forjou e as monarquias imediatamente Nestesentido Epicuro é radical:o homemsábio não
nascidas da sua fragmentação ocasionaram, entre intervém na política, desinteressa-sedela, refugia-se
outras,duas notáveisconsequências:
abriram na sua vida privada em companhiados amigos
g:andes áreas geogláÊcas à cultura helenística (epicurismo a comunidade de amigos substitui a
e acabaram com a estrutura política dos comunidadepolítica e Epicuro tributou um
estadosgregos. verdadeiro culto à amizade e dedicou-lhe as suas
mais apaixonadas e líricas palavras: «atravésdo
A primeiradasconsequências
apontadas
tornou
mundo vão bailando suas danças os coros da
possível a extensão da cultura grega até outras
amizade,que a todos convida a levantar e a
áreasgeográficas em que floresceria com pujança.
proclama-la três vezes bem-aventurado»).
Alexandria e Redes depressa superaram Arenas
em todos os ramos da cultura e do saber, excepto Neste aspecto o sábio epicurista diferencia-sedo
no ensino da retórica e da filosofia. Arenas sábio estóico: segundo o estoicismo, o sábio inter-
continuou a ser a sede central da filosofia, não só vém de facto na política, mesmo quando a sua
porque aí continuavam abertas as escolas autêntica liberdade seja pessoale interior. Epicuro
fundadas por Platão (a Academia) e por preparavaos seus discípulos para viverem em
Reltibrandt: Adstótelescontemplando o bu.sto Aristóteles (o Liceu), mas porque ali se fundaram comunidades apolíticas de amigos; o estoicismo
de Homero. Meiropolitatn Mmeum ofNetc'
Hora.
mais duas escolas, o Jardim de Epicuro e a Stop
de Zenão.
preparava-os para se converterem em políticos
austerose rígidosfuncionários. m
2 A FILOSOFIA DO PERÍODO HELENÍSTICO
l estóico -- não concederá perdão a ninguém, pois atribuída à sabedoria e que o ideal humano seja
Epicuro uma comunidadede amigose quem perdoa sugere que aquele que cometeu a precisamenteo sábio.
Nasceu em íamos no ano341 a. C. uma verdadeira seita entre cujos falta não é responsávelpor ela (. . .) também não
Aos dezassete anos foi pam Arena membrossecontavamhomens terá clemência, pois a clemência implica o perdão
cumprir n servi.'o militar Mais e mulheres, livres e escravos. do castigo justo e a ideia de que os castigos
2.3. Principais doutrinas
tarde e após dez anos dedicados Morreu ern Arenas,aos setenta
anosdeidade previstos na lei são excessivamenteduros, etc. » O objectivo fundamental das duas escolas-- como iá
ao estudo da âlosoíia,começou a (Pelosvistos, os estóicos não eram partidários da
ensinar, em Mitilene, de onde T)P sf'lls escritos conservam-se assinalámos
-- é a moral,isto é, a ordenaçãoda
amnistia nem do indulto). O epicurista, ao
provavelmentefoi expulso (310 várias cartas(a maisimportante é conduta humana de tal modo que seja possível
No contrário, mostra-sesempre inclinado à clemência alranrnr l ima áridafpjiv
a C.) e, depois em Lâlnpsaco a Capta a Me teceu), máximas
ano306a.C regressou aAtenas, morais e outros fragmentos («o sábio diz um texto epicurista castigara Segundo Epicuro, a felicidade consiste na
onde fundou a sua escola, deno- EPict encontrariaum continua. por vezes os seus servos, mas estará sempre consecução do prazer sabiamente adminis-
minada Tardam.Era simultanea- dor notável no poeta e filósofo l disposto a sentir compaixão e a perdoar»). trado bem como o afastamento da dor. Parao
mente uma escola filosófica, latino Lucrécio.
estoicismo, por sua vez, a autêntica felicidade só
pode consistir na virtude, no autodomínio e
2.2.2. O ideal do sábio e o intelectualismo
fortaleza de ânimo, que tornamo sábioimper-
moinl
turbável face à desgraçae ao destino
2.2. O ideal do sábio bem compreendida pelos movimentos religiosos e
Ao propor os paradigmasde virtude, a igreja Ambas asdoutrinas pretendem fundamentar-senum
políticos que pretenderam anuir os homens. A igreja
católica fala do santo, ao passo que as escolas conhecimento da natureza, tanto da natureza
No parágrafo anterior referimo-nos à atitude que o católica, por exemplo, canoniza santos como modelos
helenísticas falam do sábio. Esta diferença não é entendida como a totalidade do Universo, como da
homem sábio adoptaria perante certas circuns- a imitar
meramente terminológica, mas o reflexo de duas naturezahumana
tâncias, segundo o epicurismo e o estoicismo. Estas duas formas de moral não se excluem, antes
formas diferentes de conceber a virtude. A moral a) O epicurismo adopta a interpretação hedo-
Vamos agora tentar esclarecer o significado que o se complementam.Sócratesconstituiu um modelo
cristã não é uma moral intelectualista: a virtude não nista que já encontráramos cruamente formulada
ideal do sábio adquire neste período. vivo de virtude para muitos Gregos da geração
é uma questão de saber ou de ignorância. Ao em certos sofistas: a lei fundamental da natureza
seguinte (Platão apresenta-ocomo paradigma de
contrario, o epicurismo e o estoicismo continuam humana é a procura do prazer.
homem e cidadão) e Aristóteles -- sem se referir a
2.2.10idealdosábioe amoíal patadigmáíim nenhuma personagemreal e concreta -- alude em a tradiçãointelectualistasocrática:a virtude O estoicismo, ao contrário, interpreta a natureza
identiHíca-se com o saber. Daí a importância humana fundamentalmente como razão: viver de
muitas ocasiões, à conveniência de agir como o
Ao longo da história da ética, podemos faria «um homem honesto»em tal circunstância
distinguirduasmaneiras
de proporasdoutrinas Quando não se tem um modelo histórico real a
morais, a que podemos chamar teórica e que deitar mão, o maislógico é criar o protótipo, Nascido em Córdova no começo as doutrinasdo estoicismoan-
paradigmática.
imaginar um modelo ideal. Foi o que epicuristase da nossa era, Lúcio Ànio Séneca tigo. A sua atenção deteve-se
Podedizer-se que a moral teórica é a que expõe estóicosfizeram. foi educado ondeviveu essencialmente
emRomã, em questõesde
as suas normas e as deduz a partir de certos Estóicos e epicuristas deixaram-nosbrilhantes a maior parte da sua existência. A tipo prático, desinteressando-se
princípios. Este tipo de moral encontra-se, como retratos do sábio ideal e da atitude e compor- suavida políticaconheceuflu- em grande medida dasdoutrinas
vimos. nos sofistas. em Sócrates, Platão e Aristóteles, tamento de um homem verdadeiramentesábio.Os tuações notáveis, sofrendo primei- lógicas e físicas da Stoa. Aliada a
retratos das duas escolasapresentam certos traços ro uma condenação sob Calígula e estemoralismopuro, é de des-
que se esforçaram por deduzir certas normas a partir
do estudo da natureza humana. Mas a moral é um genéricoscomuns: só o sábio é feliz, o sábio depoisum prolongadodesterro tacar a sua tendênciapara se
sob Cláudio. Depois de ser tutor e afastar do panteísmo e se apro-
assunto fundamentalmente prático e assim muitas caracteriza-se
pelo seuautodomínio, constância
conselheiro de Nero, foi acusado, ximar de uma concepção peíso-
vezesa teoria não chega para leva o ser humano a e simplicidade, etc. nalista de Deus. Esta caracterís-
no ano 65, de conspirar contra ele.
comporta-se de determinada maneira (costuma-se Existem no entanto traços notoriamente opostos em
Suicidou-se, então, por mandado tica fez aparecer a lenda de um
dizer que um exemplo move mais do que cem ambos os ideais, por exemplo, o alheamento do Imperador.Emborao seu Séneca cristão, que tecia mantido
conselhos). epicudsta em relação à política(«o sábionãose pensamento RUosóficodenoEe um correspondênciacom S. Paulo.
Surge por isso a moral a que chamamos para- esforçarápor dominar a arte da retórica e não certo ecletismo(comum,aliás, As suasprincipais obras são os
digmática, que consiste em propor modelos intervirá em política, nem desejaráser rei») e a sua desta época), Séneca Ensaios Jforaís e as Camas
nos HHósofos

M ou exemplosa seguir
A importância psicológica de tais modelos foi sempre
atitude face à clemência: o estóico é intran-
sigente até ao extremo («o sábio -- diz um texto
defendeu em suaslinhas mestras Morais.
B
q
rZ CRISTIANISMO
EFILOSOFIA.
e) ARISTÓTELE$, A FII:Q$QFIA DO PERÍODO HELENÍSTICO WSANTO AGOSTINHO
acordo com a naturezaé viver de acordo com os de Demócrito. O conhecimento da naturezainte-
INTRODUCAO
ditames da razão. ressa-oapenasna medida em que pode contribuir
b) Quanto à naturezaentendida como a totalidade para a felicidade do homem, libertando-o dos três
do Universo,Epicuro adopta o atomismo de grandes temores que frequentemente o impedem
Demócrito, mas com uma notável diferença: o de gozar a vida: o temor do destino (já assinalámos
movimento natural dos átomos é a queda em ver- que ele não existe), da morte (porquê temê-la, se a O encontro entre cristianismo e Hiloso6lapode considerar-se de duas maneiras distintas. Em primeiro
tical. e todos os átomos caemà mesmavelocidade. alma composta de átomos -- é mortal e com cla lugar pode ser encarado como con&ontação entre duas atitudes possíveis perante os problemas
Como é possível então que os átomos choquem e se tudo acabapara o homem?) e dos deuses(estes não suscitados pelo ser do homem e do mundo: a atitude que se baseiana fé e a atitude que se baseianos
combinem? se ocupam dos homensnem interferem mini- equívocosda razão. Considerado desta forma, o encontro entre cristianismo e filosofia, entre as
Epicuro aârma que em certos átomos por vezes se mamente nos assuntos humanos). exigências da fé e as imposições da razão, é inevitável e perene na nossa cultura, não terminou nem
produz um movimento anómalo de desvio impre- O estoicismo voltou-se em grande medida nunca terminará enquanto um e outra existirem. A 61osoRainterpelara sempre o cristianismo e este será
üsívele casual. para a HHosofiade Heraclito e pregou o mais obrigado a deHlnir-seao responder à filosofia. Na época contemporânea, esta contínua interpelação
Esta engenhosa teoHa era muito útil a Epicuro, dado rigorosodetemiinismo.Tudoestádeterminado
e atingirá momentos de máxima radicalidade no pensamento de autores como Maa, Nietzshe e Freud.
que Ihe permitia explicar três aspectosfunda- nada pode fmer-se para mudar o rumo dos Maso encontro entre cristianismoe filosofiapode, em segundolugar, analisar-secomo um
mentais do seu sistema: acontecimentos. Tal como aquele que, nadando acontecimento concreto de primeira grandezaque teve lugar durante o pet'iodohistóí'ico
1. a possibilidadede que os átomos choquem e se contra a corrente, só conseguecansar-see acaba conespondente ao Império Romano. Naquele tempo, o cristianismo defrontou-se com a filosofia
combinemparaformarmundos; sendo arrastado por ela, também o néscio que se grega. O triunfo do cristianismo é habitualmente explicado como o resultado de certas condições
2. a liberdade humana (movimentos imprevisíveis rebela contra o destino só cncontra desespero e económicas, políticas, etc., do mundo antigo. Estes condicionamentos são reais e é muito razoável tomá-
dos átomos que compõem a alma humana); sofrimento. A verdadeira sabedoria consiste em los em consideração. Mas o triunfo do cristianismo deve-se também, em grande medida, ao cacto de uma
3. a ausência de determinismo no Universo (o aceitar o destino serenamente e sem espavento, minoria de cristãos cultos ter aceitado o repto dos filósofos e ter tentado estar à sua altura. E difícil
destino não existe, já que os acontecimentos sabendo que é o melhor para o homem, já que o imaginar seo cristianismo, religião de gentes humildes e das camadassociais maisbaixas,teria triunfado
dependem desses movimentos casuais e impre- Universo é regido por Deus e o destino é provi- se não fosse o esforço intelectual deste punhado de cristãos cultos.
visíveis. dência. Este é o preceito fundamental da razão para A primeira pme da nossa exposição é dedicada à apresentação das características e dos resultados desta
Como filósofo da natureza, Epicuro é certamente o estóico, imperturbável e impiedoso como o pró- confrontação histórica entre o cristianismo e a filosofa grega. Na segunda parte ocupar-nos-emos de
medíocree careceda vocaçãoe do gosto científico prio destino. St'Agostinho, pensador cuja obra constitui o culminar da filosofia cristã de inspiração platónica.

Cosmologiaestóica
Ta! como Heraclito, Zenão diz que o fogo é o ele- original é como uma semente que comporta em si
mento de todas as coisas e que os seus princípios as razões e as causasde todas as coisas que se
são a matéria e Deus Este último aspecto produzirão, que se produzem e que se produziram.
aproxima-o de Platão:lNa verdade, Zenão afirma A concatenaçãoe sucessãodestascoisas constituem
que ambos os princípios (o activo e o passivo) são o destino,a ciência,
a verdade
e a lei fatale
corpóreos, ao passo que Platão afirma que a inevitável. Deste modo, todas ascoisas encontram-
-se absolutamente bem ordenadas no cosmos, tal Este capítulo consta das seguintes partes
causa produtiva primeira é incorpórea. Afirma
1. A con&ontação do cristianismo com a âHoso6ia
também que após certos períodos de tempo o como numa cidade bem governada
cosmos é fatalmente destruído na sua totalidade 2. O apogeu do platonismo cristão: St.' Agostinho

B pelo fogo para depois se formar de novo O fogo Eusébio(VSFI,98) 3. Augustinismo e platonismo medievais
© CRISTIANISMO E FILOSOFIA. SANTO AGOSTINHO l A CONFRONTAÇÃO DO CRISTIANISMO COM A FILOSOFIA

PRINCllUIS CORRENTESFEOSÓHCAS.(PERÍODO HELENÍSTICO . FIM DO IWÉmO ROMANO)


1.1. 0 cristianismo
faceà filosofia
grega criticou insistentemente como absurda e ridícula.
Tal anúncio era incompatível com a imutabilidade
1.1.1.A fé crbtá e a história divina, com a sua impassibilidade e peúeição(como
pode Deus ser dectado por sofhmentos e dores?) e
O cristianismo trouxe consigo doutrinas radical- com a sua dignidade (como pode Deus encarnar
mente novas, alheias a tudo quanto os filósofos precisamente numa personagem insignificante e
gregos haviam domado. Uma delas é a doutrina da obscura?), além de que supunha em Deus uma
criação, a que mais adiante nos referiremos. Outras
Espeusipo predilecção inexplicável por uma raça, um lugar do
das características que distinguem radicalmente o mundo habitado e um momento da história humana
(Academiamédia:
cristianismo de todos os sistemasfilosóficos gregos (porquê precisamente judeu e porquê neste
é a referência essencial da sua doutrina à história. O momentoda história?).
Tímon de Fliunte Crisipo cepticismo)
cristianismo põe Deus em relação com a Tão-pouco as doutrinas religiosas conhecidas
história. ofereciam um precedente equiparável. Ê certo que
(Sincretismo) (Terceira A filosofia grega havia posto Deus em relação entre as crenças religiosas populares existiam
Diógenes com o cosmos, com o Universo, seja como inteli- histórias de deuses que haviam sido esquartejados e
de Babilónia: cepticismo) gência ordenadora(Anaxágoras, Platão), seja como mortos, mas a diferença com o cristianismo era
Panéciode Redes motor e fim (Aristóteles), ou como razão cósmica excessiva:em primeiro lugar, tratava-sesempre de
(estoicismo).
Seo cristianismo
setivesse
limitadoa atentados sofridos por esses deuses, sem que eles
(Sincretismo) (Sincretismo) propor uma teoria na qual Deus fossesimplesmente própriososdesejassem,
enquantono cristianismoé
Antíoco de a origem do Universo, certamente seteria esfumado Deusquem decide e aceitao seu próprio sacrifício;
de Apameia e fundido com outras correntes do pensamento em segundo lugar, o cristianismo indicava um
antigo. O cristianismo põe Deusem relaçãocom a momento histórico preciso, ao passo que as
história num duplo sentido: histórias e crenças não-cristãs situavam tais factos
ESTOICISMO
a) Em primeiro lugar, na medida em que Deus é num tempo mítico e não num momento histórico
providente e se ocupa directamente dos assuntos datávelcom precisão.
humanos e da marcha da história. Esta doutrina não
Téon de Esmima
Fílon de é, no entanto, a mais de6midora nem talvez exclusiva
Alexandria do cristianismo. Também os estóicos aârmavam que
Deus é providente, mesmo quando identi6lcavama
Epicteto Máximo de Tiro 1) Apologistas providência com o destino (como acentuámosno
MarcoAurélio Plutarco capítulo anterior, o estoicismo é rigidamente deter-
2) Escola de minista) e mesmo que Deus não fosse para os
Alexandria estóicos um ser pessoal mas a razão do Universo.
» Clemente b) Mas o cristianismo anunciava algo ainda de mais
» Orígenes surpreendente. Não somente que Deus se ocupa
providentemente da história humana, mas que Deus
Julião iliib>3) Capadócia tinhaentradonela.Deustinha-sefeito homem
S. Gregário de
num lugar e num momento bem determinados e
Nazianzo;
precisos. Este facto histórico constitui o centro da
S. Gregário
história: toda a história - desde a criação do mundo
de Nissa
até ao juízo final -- adquiresigni6tcaçãoe sentido à
luz deste facto.

A notícia de que Deus se tinha feito homem e havia

B NOTA: Setassimples: correntes que influenciam outras; setasduplas: obras polémicas contra o ci.istianismo.
morrido crucificado pelos Romanosnunca foi nem
podia ser assimiladapela filosofiagrega,que a Mitlais: Casto em casa de seuspais. E
ACONFRONTA AO DO CRISTIANISMO COM A FILOSOFIA
© ÇRISTIANISMO E FILOSOFIA. SANTO AGOSTINHO
humana susceptíveisde entrarem em choque com A ideia de criação acentuavao poder limitado de
Osestóicose a providência asteoriasfllosóHtcas
gregas. Deus, ao mesmo tempo que proporcionava novos
Segundo a opinião de alguns, é uma mera presunto mesmomodo, ascoisasconformesà providência
caminhos à filosofia: assim, o desenvolvimento do
estabelecer qualquer dúerença ente a providência e o provêm do destino, como afirma Crisipo. Outros. a) Monoteísmo.A 6Hosofia grega nunca
destino, dado que na realidade são a mesma coisa. À pelo contrário, como Cleantes,afirmam que também atingira o monoteísmo em sentido estrito. Ê conceito de contingência, isto é, a armação de que
prooidência seria a uo?ttadede Deus e, por sua uez, as coisas que provêm do poder da providência se certo que se aproximarade forma notável de todos os seres excepto Deus são contingentes, que
es/a z;ofzfadeé a série das cazzsm. Por ser vontade, é sucedem fatalmente; mas o facto de acontecerem posições monoteístas com Platão, com Aristóteles e existem mas podem não existir, são por si
fatalmentenão quer dizer que provenham
da indiferentes à existência ou não-existência
providência; por suavez, chama-sedestino à própria sobretudo com o neoplatonismo. No entanto, nunca
série de causas.Assim, também provém da provi- providência se pronunciara de modo definitivo e rotundo e, no
dência aquilo que é conforme ao destino; do Calcídio,
Conzmlánoczo77mezz,
144. c) Omnipotência. A ideia de Deus omnipo-
conjunto dos sistemas vigentes no Império Romano tente está vinculada ao monoteísmo e ao
(aristotelismo, platonismo, estoicismo), costumava
criacionismo: Deus só pode ser criador se for
haver sempre lugar para a pluralidade dos deuses do
omnipotente e só pode ser omnipotente se for
1.1.2. Cristianismo e venlade posto: que nenhuma delas possuia verdade e que culto, etc., abaixodo Deus supremo, o que era
todas se encontram num plano de igualdade no único (como é que a pluralidade de deuses pode-
afirmado por todas as escolas.
Deus falara aos homens, segundo a mensagem riam ser omnipotentes?).
que respeita aos seus fundamentos e critérios de Face ao monoteísmo vacilante ou ao politeísmo
cristã. Primeiro, através de certos homens no Antigo
lustiHlcação.
No cristianismoa ideia de omnipotênciaestá
manifesto dos filósofos, os cristãos defenderam
Testamento, e depois Ele mesmo, directamente também ligada à ideia de milagres.Eis um ponto em
O cristianismo negavaos dois pressupostos citados. sempree de comia radical a existênciade um
encarnado em Cristo. Esta circunstância fazia com
Ao afirmar-sede origem divina, a verdadecristã
que o cristianismochocavafortementecom a
único Deus. Nestaspolémicas, asargumentações
quc o cristianismo apresentasseuma atitude perante Hiloso6tagrega. Com efeito, e como vimos já ao tratar
apresentava-se
como a verdadee, por conseguinte, racionais a favor do monoteísmo foram sempre mais
a verdade muito diferente da atitude da Hlloso6ia do conceito grego de natureza, para os Gregos, a
situavao seu fundamento e critério de justificação vigorosas, o que permitiu que a teologia cristã aca-
nessa epoca. ordem do Universo caracteriza-se pela sua necessi-
num plano distinto e superior ao das doutrinas bassepor impor a sua supeúoddade relativamente a dade: os acontecimentos no Universo acontecem
a) Em primeiro lugar, a filosofia grega caracteriza-se filosóficas com que tinha de dialogar. Estaatitude este ponto.
como têm de acontecer e é isso precisamente que
por insistir nos limites do conhecimento humano. desagradava
aosfilósofose parecia-lhesprimitiva e
insultuosa, acostumados como estavam a considerar b) Criacionismo. Segundo
o cristianismo,
Deus fz com que o Universo não seja um caosmasum
Raramenteum filósofo pretendeu ter alcançadoa
verdadeabsolutae total. (O único casotalvezsejao que uma teoria deve ser discutida serenamente e criou o mundo a partir do nada.A ideiade cosmos. E certo que os filósofos gregos admitiram
não a ser defendida fanaticamenteao ponto de se criação é também uma ideia estranha à 6llosofia que o curso natural dos acontecimentos sequebrava
de Parménides. Mas Parménides é um dos primeiros
morrer e ser mártir por ela. Foi a conservaçãodesta grega. Desde Parménidesque a impossibilidade por vezes. Mas em tais casos era sempre para mal,
Htlósofose depois dele surgiram múltiplas teorias dana'l nriapm q monstros e a mal-formacões. A
de que algo pudesse surgir do nada absoluto foi
atitude que permitiu que o cristianismonão se
nÕVÜ H #4AVAb Ü

que, ao contradizê-lo e ao contradizerem-se entre si,


desmoronassenem acabasse por se confundir com sempre consideradacomo um princípio racional possibilidade de uma intervenção arbitrária e
puserama claro a ingenuidade de Parménidesao
as escolasfilosóficas,num sistemasem contornos inquestionável. frequente de Deus no Universo parecia-lhes
crer que havia alcançado a verdade absoluta e total).
Esta convicçãoda impossibilidade de um conhe- precisose proprtos
cimento absoluto e total da verdade estavamuito
espalhada entre os filósofos nos tempos do Império
i.i.3. o« eailaFm&lkw A imutabilidadede Deus
Romano.
Acho que dei uma resposta adequada a essas de átomos e são susceptíveis de dissoluçãodevidos
Ao proclamarque possuíaa verdade reveladapelo
Embora o cristianismo não sejauma filosofia nem se objecçõesao expor o sentido em que se diz na essa composição, e por isso esforçam-se por eliminar
próprio Deus o cristianismo vinha chocar com a os átomosque contêmaérmensde destruição.
proponha dialogar em pé de igualdadecom os Escritura que Deus «desce»aos assuntoshumanos.
atitude moderadados filósofos sobre o assunto.
sistemas 6ilosóHtcosdesse tempo, o conteúdo da íé Paraisso não é precisoque Deus sofra Lima Quandose dá a conflagração
do mundo,até a
transformação, como crê Celso, ou que mude de bem essênciado próprio deus dos estóicos(por ser
b) Alémdestaaceitaçãodos limitesdo conhe- cristã incluía doutrinas que podiam apresentar-se
cimento humano, a filosofia grega da época como respostas aos problemas tradicionalmente para mal, de virtude para vício, de felicidade para corporal) é inteiramente compostapelo princípio
miséria, de óptimo para péssimo. Continua imutável regulador; masvolta a ser praticamentecorpo-
caracteriza-sepor se ter acostumado à pluralidade enfrentados pela filosofia (a origem do mundo, a
na sua essência e desce aos assuntos humanos através ral quando se dá um novo reajustamentodas
de escolas filosóficas. No Império Romano coe- natureza do primeiro princípio do real, a essência e
destino do homem. o fundamento das normas dos recursos da sua providência. Por conseguinte, coisas. Com efeito, os próprios estóicos foram
xistem o platonismo, o aristotelismo, o estoicismo
demonstrámos
que as Sagradas
Escriturasrepre- capazesde compreender aldeia da natureza
e o epicurismo. Entre os três primeiros houve um político-morais, etc.) . Desde as primeiras páginas sentam Deus como imutável em expressõescomo divina. aue é ao mesmo tempo incorruptível,
diálogo constante e um notável processo de uni- dos seus livros sagrados, desde o Génesis, fornece- «Tuéso mesmo»e «Eunãomudo»(Ps.101,27;Ma1.
3, simples, sem composição e Indivisível.

E ficação. Ora, o diálogo entre doutrinas diferentes


só é possível quando se aceita um duplo pressu-
-se uma narração da origem do mundo, uma
imagem de Deus e uma descrição da natureza
6). Pelo contrário, os deuses de Epicurc compoem-se Orígenes(s. llD, 6onfrcz 6eZso, 4, 14.
M
'H

BI)CR STIANISMQ FfII:Q$QF14:


$4NTQ
4GOSTINnO
I A CONFRONTAÇÃODO ÇBISTIANISMOCOM A FILOSOFIA
sentido.
fim dos tempos, os corpos ressuscitarão. desse modo na principal corrente filosófica e
atcntâr contraa ordem e a racionalidade.
Os acolhendo em si elementos das outras duas escolas.
pensadores cristãos tiveram de usar da máxima Estaúltima afirmaçãorevelava-se
particularmente b) A concepção cristã do homem comportava ainda
uma importante novidade no campo da teoria A partir do século 111d. C., o neoplatonismo é a
cautela no que se refere aos milagres, procurando estranha para o pensamento grego. Alguns Gregos
moral. Como já vimos, a filosofia grega é basi- única doutrina vigorosa e com lilósobs de categoria.
não cair nos excessosem que facilmente caía a haviam concebido o acontecer universal como um
camente intelectualista no que diz respeito à moral. Na realidade, a história da filosofia grega desde o
maioria dos crentes. processo cíclico. De acordo com esta ideia um
A moral cristã não é intelectualista No intelec- século111até ao século VI mais não é do que a
d) Patemidade divina. Deus que segundoo período esgotava-se
e começavaoutro da mesma história do neoplatonismo. Daí que, com razão,se
tualismo, o pecado não é mais do que ignorância; no
cristianismo se havia feito homem para salvar os duração no qual os acontecimentos do período an- tenha afirmado que o neoplatonismo foi o único
terior se repetem,e assimo que aconteceuao longo cristianismo, o pecado não é ignorância mas o
homens -- é pai, de acordo com a doutrina cristã interlocutor de nível com que os pensadores
resultado de dois factores: a maldade humana que
A filosofia grega nunca ousara formular semelhante de um período volta a acontecer no seguinte: os cristãos tiveram de defrontar-se.
homens voltam a viver a mesmavida com o mesmo inclina ao pecado e a liberdade do indivíduo que
aârmação.O único filósofo grego que remotamente cede a tal inclinação. Ganham assimsentido pleno e
se aproximou desta ideia foi Platão, que em dado corpo e no mesmo sítio, uma e outra vez. Estateoria
não tem, no entanto, nada a ver com a doutrina dos dramático as ideias de culpa e arrependimento, de 1.2.2 Platonismo e neoplatonismo
momento qualifica o demiurgo como «paie feitor
pecado eredenção.
cristãos: para os Gregos, não se trata da ressurreição
de tudo» (rímezz, 28c). Estaexpressão platónica Em sentido estrito, denomina-seneoplatonismo a
está no entanto muito longe da afirmação cristã: dos mortos mas de voltarem a nascere a viver a
corrente filosóâca de carácter platónico que tem
em primeiro lugar, não passade uma expressão mesmavida. Segundo a teoria gregados ciclos, a
origem no século111com a obra de Plotino
de benevolência do demiurgo; em segundo lugar, história repete-se; segundo o cristianismo, a his-
1.2. As doutrinas filosóficas no Império Plotino é, pois, o fundador do neoplatonismo.
não se aplica à relação específica de Deus com o tória acabaquando se dá a ressurreiçãofinal.
Romano O neoplatonismo, por sua vez, prolongar-se-iaem
homem, masà sua relação ou atitude genérica com Ao conceber a história como um processoque se
diferentes lugares, durante os séculos seguintes
o Universo. repete ciclicamente:os Gregosinterpretavam-na
Neoplatónicos importantes são: em Romã, o
como um processo fechado em si mesmo, no qual
1.2.1.As quatro escolasde Hosoíia geg. discípulo e biógrafo de Plotino, Porfírio; na Síria,
não é possível a irrupção de nenhum facto extra-
1.1.4.Ctistianbmo e concq)ção do homem Jâmblico; em Pérgamo, Edésio da Capadócia
histórico que Ihe dê sentido. O cristianismo,
Referimosjá que durante o Império Romanose (desta escola neoplatónica dc Pérgamo depende
a)A concepçãocristã do homem incluía três porém,ao aânnar que Deus entrou na história mantêm em vigor as quatro grandes escolas gregas
concebea história como um processo linear Julião, o Apóstata, o último polemistaanticristão);
elementos fundamentais: que o homem ü)i feito à de filosofia: platonismo, aristotelismo, estoicismo e em Arenas e já no século V, Proclo (a escola de
imagem de Deus, que a alma é imortal e que, no aberto no qual Deus inompe, dotando a de epicurismo. As três primeiras opõem-se radical- Atenas exercerá uma notável influência no
mente ao epicurismo, pois consideram-no ateu e platonismocristãomedieval)
licencioso.(Em sentido estrito, o epicurismo não é
Feitas estas precisões de carácter histórico, recor-
ateu,pois admite a existênciade deuses,nem tão-
demos resumidamentecertos aspectosda filosofia
pouco licencioso, pois defende o prazer moderado
de Platão,cuja discussãopromoveria importantes
e sensato; mas ao admitir deuses que não têm
desenvolvimentosna corrente platónica e no neo-
relaçãoalguma com o Universo e ao proclamar o
platonismo. Platão distinguira dois mundos, o
princípio de que o prazer é o fim último, o epicu-
mundo inteligível, o mundo das ideias,e o mundo
rismo perdeu qualidade em muitos dos seus
sensível, construído à imitação daquelas. Acima das
adeptos, e daí que viesse a converter-se no símbolo
ideias, como ideia suprema e princípio primeiro,
do ateísmo e da libertinagem.) Para além da Platão colocara a ideia de bem. Era fácil identiRcar
oposição comum ao epicurismo, as outras três
Deus com esta ideia de bem, princípio primeiro e
escolassofreram um processode aproximação
realidade suprema. Mas além dos dois mundos,
mútua claramenteobservávela partir do sécu-
MigueIAngelo: sensívele inteligível,Platãointroduzirao demiurgo
lola.C. Filósofos influentes no processo de
Criaçãodos no seu sistema,o Deusque constrói o mundo sen-
aproximação entre as escolas foram o estóico
astrose dos sível tomando como modelo as ideias
Possidónio de Apameia (séc. ll-la. C.) e o
Nesta construção teórica havia aspectosque não
platónicoAntíoco de Áscalon (séc.l a. C.).
CapelaSistina, estavam perÉéitamente claros(já aludimos a isso ao
cidadedo Neste processo de sincretismo, a corrente pla-
tónica conseguiu ser mais forte, convertendo-se
expor a teoria platónica da origem do Universo);
importava suscitar certas interrogações que não E
]

l A CONFRONTACAO DO CRISTIANISMO COM A FILOSOFIA

do /aros no pensamentojudaico-platónicode Fílon. limitar-nos-emos a sublinhar a importância da sua


Mas é importante assinalar a notável semelhança doutrinada emanação.
Plotino
Nasceu no reputaçãoe o respeito que ins-
emLicópolis(Egipto) entreo começodo quartoEvangelho e o pen- O neoplatonismo encontrava-se perante o mesmo
ano de 204 Na sua juventude foi Dirou aos seus contemporâneos. A samentode Fílon: «No princípio» -- diz o Evan-
problema que o cristianismo: como surgiu a plura-
sua obra, as Ezzéadas,é um gelho, de S.João «era o /egos lo termo gregofoi
discípulo deAmónio SacasPartiu lidade do real, se originariamente não existe mais do
para o Oriente com a expedição
conjunto de lições ditadas por traduzido por 'verbo' ou 'palavra'l. Tudo foi feito
que um princípio único, Deus, o Uno? Perante esta,n
militar de Gordiano,a fim de Platina e organizadas pelo seu dis- por Ele e sem Ele nada se fez do que foi feito.» pergunta só duas soluções são possíveis:ou os
:amar contacto com a Hiloso6la cípuloe biógrúo PorHrio.Filósofo
e místico, Plotino faleceu aos restantes
seresprovêmde Deus(emanatismo)
ou l
indiana e persa. No regresso esta-
sessentaecincoanosdeidade,na
b) Plotino (séc.m d. c.) procedem do nada (criacionismo). A diferença
beleceu-seem Romã, onde ensi- Dois séculosmaistarde, o fundadordo neo-
naria filosofia durante vinte e Campónia.Com ele morreu o últi- entre as duas respostas é subtil, mas de grande
platonismo propunha um sistemanllosófico-religioso importânciateológicae filosófica,já que o cria-
cinco anos. Foi grande a sua mo dos grandesfilósofosgregos.
que explica como todas as realidades procedem
sucessivae descendentemente do Uno e como se
cionismo implica a aHinnaçãoda radical
diferença entre Deus e os demaisseres,ao
produz o regresso até ele. Tal como no sistema de passoque o emanatismo implica uma con
Fílon de Alexandria, do princípio supremo ou Uno cepção panteísta do real. O criacionismo acentua
qual a totalidade do real constitui uma cadeia procedeimediatamente o pensamento(/aros. a contingência do criado ao estabelecer o nada
haviam ficado suficientemente esclarecidas, como as
em que não falta nenhum elo, uma sucessão ?loas);
porsuavez,do pensamento provémaalma como pólo oposto e ponto de referênciado seuser,
seguintes: universal e assim sucessivamente, num processo
semhiatos de realidadescuja perfeição diminui enquanto o emanatismo sublinha a necessidadedo
1. Que relação existe entre o bem e o demiurgo? de descida(e, portanto de degradação) que conduz
à medida que o seu lugar na escalase afasta do emanadoa partir do princípio primeiro
São duas realidades distintas, ou temos antes de
até à matéria, o último elo na cadeia do real.
princípio primeiro. Entre Deus, o Uno, e o Faceao neoplatonismo, o cristianismo não deixou
pensarque se trata de uma só e mesmarealidade,
mundo sensível há, portanto, realidades espi- Plotino é sumamenteimportante pelos múltiplos nunca de afirmar a teoria criacionista, interpre-
alegoricamente apresentada no 7'ímez{ através da
rituais intermédias. Aparecedeste modo um aspectos da sua filosofia, alguns dos quais teremos tando a criação através do conceito platónico de
Rgurado demiurgo?
conjunto de doutrinas que em alguns aspectos ocasião de referir ao expor St.' Agostinho. Por agora, participação
2. Onde se situa o mundo inteligível, o das ideias? se tornou útil ao cristianismo para a formulação
Não sela lógico supor que n ideias,os arquétipos do das suas ideias teológicas, lá que noutros
real, estãopresentes numa mente, talvez a divina? aspectoso cristianismo se opas radicalmente a
n
3. Como é que a partir de um princípio unico, elas, como veremos.
supremo (o bem, Deus), se originou a pluralidade 1 0 Uno e a inteligência
a) Fílon de Alexandria(séc. l d.C.)
dos seres materiais e imateriais? l Como é que a inteligência contempla e, em suma, dela. Assim, a inteligência é engendrada depois do que
A.obra do judeu platónico Fílon foi de enorme é mais perfeito que ela, mas ela é o mais perfeito dos
l como é que subsiste e como nasceu do Uno para o
A corrente platónica defrontou-se com estas três transcendênciahistórica. A realidade supremaou contemplar? A alma está convencida de que é assim seresjá que todos vêm depoisdela. Assim,por
questões.A atitude perante a última delas -- origem princípio primeiro é Deus, o Deus de Moisés,que necessariamente,mas aspira a compreender este exemplo, a alma é palavra e acto da inteligência, do
do resto dos seresa partir do princípio supremo, Fílon identifica com o bem platónico. O mundo problema (que o Uno é uma unidade) que os sábios mesmo modo que a inteligência é palavra e acto do
Deus. o bem -- será decisiva para a contestação das sensível não procede directamente de Deus, de l discutem desde antigamente: como é que qualquer Uno. Mas a palavrada alma é confusae, por
outras duas. Com efeito, os platónicos e acordo com o princípio das realidades intermédias a l tipo de pluralidade, díade ou número recebeu conseguinte, na medida em que a alma é uma imagem
existênciae por que é que o Uno não permaneceuem da inteligência a alma deve contempla-la; do mesmo
neoplatónicosinsistiamna transcendênciado que nos referíamos no parágrafo anterior. De Deus
si mesmo, tendo antes originado esta multiplicidade modo, a inteligência deve contemplar o Uno a âimde
princípio supremo, situado para além de toda a procede imediatemente o /ocos (o termo grego
realidade. O abismo entre este principio supremo ' que vemos na realidade e que atribuímos a Ele? ser inteligência E contempla-o sem estar separada
«logos» pode traduzir-se por «razão», «pensamento»
Todos os seres criam quando atingem a suaperfeição. d'Ele, já que vem imediatamente a seguir a Ele e não há
cuja transcendência
Plotino sublinha,denomi- ou «palavra»).No /ocos encontram-se as ideias ou E assim,o que é extremamente perfeito cria eterna- nada entre eles, assim como não há nada entre a
nando-o Uno, o Uno -- e o mundo sensível pode ser arquétiposdas coisas,e por sua vez é ele que fm o mente algo eterno; mas cria algo inferior a si. O que inteligência e a alma. Tudo o que é criado desejae ama
transposto estendendo-seuma ponte de realidades mundo. Torna-se fácil compreender que o /ocos de podemos dizer então acercado que é mais perfeito? o seu progenitor, especialmente quando o criado e o
intermédias, cada vez mais afastadas daquele que Fílon fala é simultaneamente
o demiurgo Que nada provém d'Ele a não ser aquilo que só Ele progenitor estão sós; e quando o progenitor é o mais
princípio(maisimperfeitas,
portanto)e cadavez platónico e a mente em que se encontram as ideias supera em perfeição. Sendo assim, depois d'Ele e em perfeito, o criado está necessariamentecom ele, só
mais próximas do mundo sensível. platónicas segundo lugar temos a inteligência: a inteligência estando separados na medida em que são distintos

E Na concepção neoplatónica da realidade cumpre-se


o denominado princípio de plenitude, segundo o
Não é muito importante saber como as restantes
realidades imateriais e materiais se originam a partir
contempla-o e só precisa d'Ele; mas Ele não precisa Plotino, Elzéada Qz{/7zra,1,7.
E
ACONFRONTA- ÃO DO CRISTIANISMO COM A FILOSOFIA
$4NTQ
I© CRISTIANISMO FFI}Q$QF14: AGOSTINHO
neoplatonismo reinterpretaria a doutrina do
1.3. formulação de um plotonismo cristão A origem da alma ser? Ou aqueles que, disso estando conscientes. não
demiurgo em termos de emanação, mas o
O encontrodo cristianismo
coma HllosoHta
grega Um corpo pode provir de outros corpos dado que a na sua inteligência o momento ou a
pensamento cristão podia também tomar a amboscontribuem com algo; masa alma não pode maneira de produzir isso? Assim, é evidentemente
permitiu-lheformularum corpo doutrinalcujos liberdade de reinterpretá-lo, não em termos de provir de outras almas,porque nadapode provir de que não são os pais que fornecem a alma mas o
conceitos foram basicamente platónicos. Não podia emanaçãomasde criação. um ser subtil e rel. Por conseguinte, a alma único e mesmo Deus, Pai de todas as coisas. SÓEle
ser de outro modo, por duas razõesfundamentais: é obra de Deus (.. .). Os seresmortais só podem possuio princípio e o modo do seunascimento.Ele
e) Por último, tanto Platão(ao situar a ideia de bem
em primeiro lugar, porque a corrente platónica -- engendrar uma natureza mortal. Como é que pode- é o único autor
acima e mais além das outras ideias) como o
definitivamente impulsionada pelo neoplato- mos considerar pai a pessoa que não tcm consciência
nismo -- era então a mais vigorosa e dominante; neoplatonismo (ao insistir na transcendênciado
de que transmite ou insufla uma alma do seu próprio [actâncio(s.]]]), ])e opg 19,]ss
bem, do Uno) ofereciam fórmulas vigorosasque o
em segundo lugar, porque era a que oferecia mais
pensamento cristão soube aproveitar para expümir
pontos de contacto com a doutrina cristã. Desta-
o monoteísmo. naturalmente atraída: de acordo com as ideias o estadonatural e definitivo da alma sejao de
caremos em seguida alguns destes pontos mais im-
portantes. Fora da corrente platónica, a teologia cristã recorreu expostas por Sócrates no Fêdon, a vida não é senão uma existência desencarnada.(Já assinalámos no
por vezes à filosofia estóica para a formulação da um período de puriâcação e preparação para a segundo capítulo que para Platãoa união da alma
doutrinada providência,com ascorrecçõesneces- existência posterior à morte. Esta concepção da alma com o corpo é um estado não apenas acidental
1.3.1.geologia sáriase que já anteriormente apontamos. era perfeitamente assimilável para o pensamento mas inclusivamenteantinatural para aquela.)
cristão,tendo contribuído paraconfigurar a tensão Alguns pensadores cristãos parecem esquecer
No que se refere à teologia, a filosofia platónica inerente ao cristianismo cntre duas atitudes: a por vezes estas duas peculiaridades da doutrina
oferecia numerosas possibilidades à formulação das
1.3.2. Antropologia
atitude de fuga do mundo e a atitude de com- cristã e as expressõesque utilizam dão fre-
ideias cristãs.
promissocomele. quentemente a impressão de serem mais plató-
a) Importa notar, em primeiro lugar, a afirmação Também no campo da concepção do homem o nicasdo quecristãs.
c) Por último, Platãoexpuseraatravésde mitos que
platónica
daadstênciade outro mundo alémdo platonismo era a filosofia mais afim às doutrinas
cristas. as almas são julgadas depois da morte e premiadas e
mundo sensível:o mundo das ideias.Jávimos como
castigadas,de acordo com a conduta observadaao
as ideias,na evoluçãoposterior do platonismo, se
a) Em primeirolugar,Platãohaviadefendidoa longo da vida. E certo que o cristianismocom-
situavam na mente divina, o que facilitou ainda mais imortalidade da almaatravésde diversosargu- portava uma ideia totalmente estranha ao
a assimilação cristã desta teoria. mentos na sua obra /;édofz. Estesargumentos sebo platonismo: que além do juízo pessoaldepois da
b) Em segundo lugar, podemos apontar a aRrmação recolhidos e utilizados de bom grado pelos filósofos morte haverá um juízo universal no Hm dos tempos,
platónicade que estemundo, o mundo sensível, cristãos.Existia porém um ponto de discrepância. no ocaso da história. Alguns pensadorescristãos
foi feito à imagem e semelhança das ideias. O ParaPlatão,como para todos os filósofos gregos, pretenderam ver na doutrina estóica da coníla-
mundo como vestígio ou marca de Deus será uma tudo o que é imortal (isto é, o que não tem fim) é gração universal um antecedente da concepção
expressãopermanente do cristianismo. também não-engendrado(isto é, não tem começo) cristã do fim do mundo: segundo o estoicismo, o
As almas existem desde sempre e para sempre, Universo termina violentamente pelo fogo e então a
c) Anotemos, em terceiro lugar, a doutrina platónica
sofrendo sucessivasreencarnações.O cristianismo razão dos sábios reunir-se-á e reintegrar-se-ána
da participação, segundo a qual tudo o que há de rmãoUniversal
aceita a imortalidade da alma, mas nega a teoria da
real nos seres sensíveis em última análise participa
da autêntica realidade, as ideias. Ao formular o preexistência e da reencarnações.Quanto à origem
A interpretação HlosóÊca da alma por parte do
da alma, nos primeiros séculos a filosofia cristã
conceito de criação, os filósofos cristãos servir-se-ão pensamento cristão revela-se assim funda-
mostrou-se muitas vezesvacilante (St.' Agostinho
desta ideia de participaçãopara sublinharem a mentalmente platónica. Existeno entantoum
defendeu o traducianismo, teoria segundo a qual a
contingência do criado(o criado é, mas pode não aspecto da concepção platónica do homem que não
alma dos filhos provém da dos pais), embora
ser: não possui o ser por si mesmo, mas recebe-o e parece facilmente compatível com o cristianismo: a
acabasse por se impor a afirmação de que as almas
participa dele) e a sua dependência do Criador. relaçãoda alma com o corpo. A incompatibilidade
são criadas directamente por Deus.
d) Em quarto lugar, os cristãos acreditamter com o platonismo procede de dois elementos
b) Além disso, Platão insistira em que o verdadeiro especíâcos da doutrina cristã: em primeiro lugar, é o
encontradoa ideia de criação prefigurada no
demiurgo de Platão.Ê certoque o demiurgo lugar e destino da alma não se encontra neste homem completo e não apenasa alma que foi feito

E platónico não é criador em sentido estrito, mas


apenasordenador;e é certo tambémque o
mundo mas no mundo das ideias, ao qual pertence
pela sua própria natureza e para o qual se sente
à imagem de Deus; em segundo lugar, a douthna da
ressurreiçãodos corpos não permite afirmar que Vwonês:A dialéctica. Palácio Bucal ãe Vmeza. H
2 0 APOGEU DO PLATONISMO CRISTÃO. ST.' AGOSTINHO
por princípio submetidaa nenhuma autoridade RlosoEarsobre elesA verdadeira tarefa seráentão. no
estranha a ela própria, como poderiam ser os artigos entender de St.' Agostinho, procurar esclarecere
de uma fé religiosa;por outro lado, a limitação da compreender o homem real, recorrendo paratal à
razão humana obsta à racionalização dos conteúdos força da fé e ao esforço da razão.
específicos, dos dogmas, da lé religiosa.
b) Do ponto de vista histórico-cultural,sãoduas as
Estas duas ideias autonomia da razão. circunstancias que certamente contribuíram para
estruturar a filosofia augustinianacomo um todo em
finitude ou limitação da razãohumana são
que não se distingue o que é dado pela fé e o que é
carac-terísticas
da filosofiacontemporânea.
Como
deduzido pela razão: por um lado, a forma como o
veremos oportunamente, o conflito entre a fé e
cristianismo se defrontou COma filosofia; por outro,
razão começará a partir do séc. XIII. A moder-
o próprio carácterda filosofianeoplatónica,
que
nidade proclamara de forma definitiva a auto
influenciou poderosamenteSt.' Agostinho.
nomia da razão.Ê de notar, além disso, que a
afirmação da autonomia da razão não implica 1. No tocante à primeira das circunstâncias
necessariamente a aârmação da sua finitude nem indicadas, já dissemos que o cristianismo se
da sua inRinitude:tanto Kant como Hegel apresentou como um sistemade doutrinas, como
defendem a autonomia da razão; no entanto, um conjunto de afirmaçõesacercade Deus,do
como veremosa seu tempo, Kant afirma a homem e do mundo, que em alguns aspectos era
finitude e limites da razão humana, ao passo que equiparável a certas teorias dos filósofos e, noutros
Hegelproclamaa suainHinitude. aspectos, era incompatível com estas. Os pole-
mistas anui-cristãos(Censo,Porfírio, Julião)
atacavamas diferentes afirmaçõesdo cristianismo
2.1.2. adiem da atitude augustiniana sem se preocuparem com distinguir quais eram
St.' Agostinho não traça portanto fronteiras precisas artigos de fé e quais poderiam considerar-se como
entre a íé e a razão, entre os conteúdos da revelação
pertencendo ao âmbito do que pode ser anali-
cristã e as verdades acessíveisao conhecimento sado mediante a razão: tanto procuravam refutar
o monoteísmo radical dos cristãos como
puramente racional.Por maismetodologicamente
deficiente que possa ser, temos de salientar que tal argumentarcontra a divindadede Cristo. Os
atitude não é arbitrária, mas tem origem tanto em pensadores cristãos, por seu turno, considera-
ram que a sua missão consistia em tornar as
consideraçõesde tipo teórico como em condicio-
St.' ,0

namentos de carácter histórico-cultural. afirmaçõescristãsracionaise inteligíveis,sem


Nasceu em Tagaste (Numídia) no ana
abandonouna juventude.Estu- Hipona,quandoo ImpérioRo-
mano, caída Íá Romã, se destruía contudo se preocuparemcom estabelecerdis-
354. Filho de pai pagão e mãe cristã, foi dou gramática e literatura latinas. a) Do ponto de vista teórico, a atitude augustiniana
Dos vinte e um aos vinte e nove definitivamente. tinções que os seus opositores não estabeleciam
por esta educado no cristianismo, que Deixou uma obra ingente na qual acercada fé e da razão provém da sua convicção de A preocupação dos platónicosanui-cristãos
em
anos ensinou retórica em Cartago,
Duranteestaépocaprofessoua sedestacam assuasobraspolé- que a vqdade é úr®a SÓ há uma verdade, a que se mostrarasirracionalidadesdo cristianismoe o
micas contra o maniqueísmo e o encontra no cristianismo, e interessa ao homem esforço dos cristãos em mostrar a aceitabilidade
RllosoHla
maniqueia,
contraaqual
os grandestrata- alcança-la
e esclarecê-la
por todos os meios racional deste, não deixaram margem para a
maistardenassuas pelagianismo
polemizaria De
Contra Académicos possíveis.Consideremosum exemplo tomado da
obras.Jáem Milho, o convívio com distinção entre razão e fé.
Santo Ambrósio levou-o a Genesi ad Litteram eA Cidade de antropologia. De acordo com a antropologia cristã o
conveúer-se ao (386). Deus. bem como as suascélebres homem é um ser caído e redimida, um ser que, de 2. Houve um segundofactor cultural que favoreceu
Nesta época, leu Platina, na versão Confissões. O platonismo augus- Facto,se acha elevado a uma ordem sobrenatural. de maneira decisiva a atitude augustinianade não
latina de bário VictorÍno. No ano tinianodominarátodaa filosofia
Que interesse haverá em estabelecer uma distinção estabelecerdistinçãoentrc razãoe fé: a própria
medieval até ao séculoXlll
388 voltou a África, sendo sucessi- entre o homem em estado natural e o homem natureza da filosofia neoplatónica. A 6ilosoHia
vamente bispo auxiliar e titula de quandosurgeo outro grande
elevado à ordem sobrenatural, entregando aquele à neoplatónica considerou sempre que o enten-
Hipona Morreu no ano 430 pensador da cristandade, Tomas
enquanto os vândalos situavam deAquino.
filosofia e este à fé?Se efectivamente não existe um
homem puramentenatural, que sentido tem
dimento pode conhecer a realidadedivina e as
demais realidades imateriais: não discutiam os E
2 0 APOGEU DO PLATONISMO CRISTÃO.ST.' AGOSTINHO
I© CRISTIANISMO FFILOSOFIA. SANTO AGOSTINHO
como em St.' Agostinho, a interiorização, o Não é difícil reconhecer neste processo a influência
Rilósofosneop latónicos acerca da natureza do Uno, 2.2. Antropologia em St.' Agostinho debruçar-se sobre si, é o ponto de partida de da doutrina platónica das ideias. Tal como Platão.
acerca da p rocedência do zoomou/ocos a partir da um processo ascendente que leva o homem St.' Agostinho reconhece que as ideias,que são o
Uno,etc.? 2.2.1 Autoüanscendâi(iae coche(imento para além de si mesmo. «Seao voltares-teparati autêntico objecto de conhecimento, são imutáveis e
A filosofia platónicaprocessava-se
de cima para mesmo» acrescenta St.' Agostinho, «verificasque a necessárias. Como Platão, St.' Agostinho atribui um
baixo,a partir de um reino de realidadesimateriais, O pensamento augustiniano parte de um apelo à [ua natureza é mutável,transcende-tea ti mesmo;
lugar neste reino inteligível às ideias de ordem lógica
o que supõe que estassão objecto próprio e interiorização: «Não saias fora, volta-te para ti mas não esqueças que neste transcender-se é a alma e metafísica (verdade, falsidade, semelhança,

/ adequado do conhecimento humano. SÓ será


sível traçar limites à razão (e deste modo
delimitar a parte dos conteúdos da fé religiosaque
mesmosa verdade habita no homem interior, (Z)a
re/@iáo perdczde/xn,39, 72). O ponto de partida
raciocinante quem te transcende; caminha, pois,
para onde se acende a própria luz da razão.»O
unidade, etc.), às ideias de ordem matemática
(números, figuras) e às ideias de ordem ética e
para a busca da verdade não se acha, pois, no exte- processo que leva o homem para além de si próprio estética (bondade, beleza,etc.). Como Platão,St
Ihe é acessível)se se partir da convicçãode que o rior. no conhecimento sensível,masna intimidade é assimum processode auto-transcendência. Agostinhoreco?111lece
que, dadaêjya necessidade
e
edifício do conhecimento se constrói de baixo para da consciência, na experiência que o homem possui l imutabilidade,as ideias não poãêi'mr o seu
cima, isto é, a partir do conhecimento das realidades Mas como é possível que o homem vá além de si
da sua própria vida interior. A seguinte afirmação fundamento na alma humana. Seguindo as evo-
sensíveis. mesmo e se transcenda?O último texto que citamos
aponta para um sentido idêntico (Co/zfréz.Aca- luções do platonismo a que anteriormente nos
Será essaa tarefa que Tomas de Aquino em- indica claramente o modo como esse processo
démicos, 111,14, 31): «Sequeres saber onde o sábio referimos, St.' Agostinho situa o fundamento e lugar
ocorre. O primeiro passoconsiste em o homem
preenderá no século XIII. E tal tarefa só poderá ser encontra a sabedoria, responder-te-ei: em si das ideias na mento djyDa, em Deus, realidade
levada avante substituindo a teoria platónica do verificar que ã:iiãfrópria natureza é mutável e que,
mesmo.» imutável e verdade absoluta. Eis o segundo
conhecimento por uma teoria do conhecimento de apesar disso, encontra verdades imutáveis em si.
.!nomeçto no processode.autotraQ$çendência,
o
Esta exigência de interiorização possui sem dúvida verdades que, portanto, possuem caracteres supe- -......................- l /

orientação aristotélica, como veremos no próximo que leva o homem até à verdade absoluta, parããém
ressonâncias
platónicas.Tanto no neoplatonismo riores à natureza da alma. Trata-se de ideias que o
capítulo. de si mesmo:«As ideias são formas arquetípicas ou
homem encontra em si e que Ihe são superiores.
essências
permanentese imutáveisdascoisas,que
não foram formadas, mas que, existindo eterna-
mente e de maneira imutável, estão contidas na
Neoplatonism oe IÇão contemplaa belezade uma alma?Volta-te para ti
O conselhomais\ 'erdadeiro mesmoe contempla.E senãoviresa belezaem ti inteligência
divina»(Ácerccz
dasideias,
2).
quepoderiaser-nos
dado
próprio, faz como o escultor com a estátua qu
e se
é fugir paraa pátria querida Masem que é que As ideias estão em Deus como arquétipos ou
tomai.á bela: tira aqui, lamaali, cuspadeste lado, alisa do
consiste esta fuga e como se realça esu ascensão? modelos das realidades mutáveis. Como é que o
Tomemoso exemplode Ulisses,que foge da en outro, até que se comece a entrever uma bela nlgura. homem conhece a alma humana, as ideias?St.'
contadora Cercee de Calipso e se nega a permanecer Do mesmo modo, liberta-te do supérfluo, indirecta o
Agostinho respondeu a estapergunta por meio da
com elas apesar do prazer dos seus olhos perante finta queestátorto purânicao que é tenebroso e torna-o
sua.!çQli! d4.$uminação segundoa quala alma
beleza sensível A nossa pátria está ali dela luminoso, e continua a esculpir a tua própria estátua
conheceasverdadeiliiHEãfêispor umailuminação
descendemos e nela está o nosso pai. Em que consiste até resplandecer o esplendor divin odavirtude,atéque
divina.
a moderação suba a um trono sagrado. SÓconseguirás
então esta viagem e esta fuga? Não se trata de leva-la a
ver isto quando fizeres esta transformação e dentro de A teoria originou as mais diversas interpretações
cabo com os pés, pois os pés apenas nos levam de uma
ti não restar nada que te impeça de alcançares esta Alguns pretenderam VCF nela uma posição
terra para outra. Também não se trata de preparar uma
carruagem ou uma embarcação; pelocontrário, {rata- unidade contigo mesmo; quando não houver no teu ontologista, segundo a qual o entendimento vê as
interior mais nada estranho e sejasunicamente uma luz verdades em Deus. Esta interpretação não parece,
se de abandonar todas estascoisas e afntar os olhos
delas,comose os olhos e fizéssemos verdadeira.não uma luz de tamanhoou forma no entanto, aceitável,já que St.' Agostinho insiste
mensuráveis que cresçam e diminuam indefinida em quc a alma conhece asverdades em si mesma.
despertar aquela outra visão que todos temos mas que
mente. rna uma luz absolutamente incomensurável.
poucos usam Esta teoria augustiniana deve certamente ser
Emqueé que consiste esta ulsão que conte/np/a o maior que todas as medidas e superior a todas as interpretada em função da Hllosofiaplatónica. De
ílzlenor?Quandodespertamos, não quantidades. Quando conseguires isto, transformam-te
facto, encontram-senela três importantes ele-
em visão:confia na tua condição e iá não necessiurás
olhar para os objectos luminosos. Do mesmo modo,
devemos acostumar a alma a contemplar em primeiro MmaMBMW --o únicoolho
atentamentee vê: este é, com efeito
mentosda tradiçãoplatónica:
1. A comparação utilizada por Platão na RePzíó/zcóz
usar asactividades
belase depoisasobrasbelas,
aquelasque os homens bons criam e não aquelas que capaz de contemplar a grande Beleza. (508 e ss.),segundo a qual a ideia de bem é como o
asartes produzem. Em seguida devemos contemplar a
alma dos que amem obras belas. Mas como é que se Plotino,Elzéac&z
Pnmelrn, VI.
Bouicetti: St.' lgoslinbo nta su.lacela. Galeria dos vícios,
Florença
Sol do mundo inteligível. (Ao comparar a ideia de
bem com o Sol, Platãoqueria dizer que tal como o E
T'
$4NT9
©ÇBl$TI i$PQ l\Q$QF14: 4Ç91111W
A interiorizaçãoaugustiniana A verdadee Deus
duvidosa, transcende-te, mas lembra-te de que a tua verdade; mas ela permanece sempre igual a si, não
Tudo lembra à alma a primeira beleza abandonada e Por conseguinte, não negaíás a existência da verdade
nem diminuindo quando a distinguimo:
até os seuspróprios vícios a impelem para ela A alma, dotada de razão,te transcende. Por conseguinte,
incomutável, que contém em si todas as coisas que são melhor ou pior; ela é íntegra e inalterável, alegrando
sabedoria de Deus estende-se a todos os confins e dirige os teus passospara a luz: só o bom pensador incomutavelmente
verdadeiras;
tambémnãopodeis
pode alcançara verdade;a verdadeé a própria metada com a sua luz aquelesque se voltam para ela e
atravésdela o Supremo AHíRícecoordenou todas as dizer que ela é própria e exclusivamente tua, minha ou castigando com a cegueira aqueles que se afastam dela
suasobras com vista à beleza. E por isso esta bondade dialéctica racional e ninguém consegue chegar a ela de qualquer outro homem, dado que, por vias
não inveja qualquer beleza, seja ela elevada ou a mais através do discurso. Contempla-a como a harmonia
maravilhosas, como sefosse ao mesmo tempo uma luz
Tinhas dito que, se eu te demonstrasse que havia algo
ínfima, pois provém unicamente dela; e assim, mesmo superior possívele vive em conformidade com ela. muito secreta mas visível, ela apresenta-se e oferece-se
superior à nossa inteligência, coMessaíim que essealgo
quem se aíasu da verdade é sempre acolhido por Confessa que não és a verdade, pois ela não se procura
em comum a todos aquelesque conseguemver as era Deus, se não houvesse algo mais superior. Aceitei a
alguma representaçãodela Questiona o que é que a si mesma; mas tu alcançasse-apela investigação, sem
verdades incomutáveis. Deste modo, e sendo pertença [ua confissãoe disse-teque, com efeito, bastava
aprisiona no prazer corporal: só encontrarás percorrer qualquer espaçoe apenasmunido do recto comum de todos os seres racionaise inteligentes, demonstrar isso porque, se há algo supremo, será
inconveniência e uma contrariedade que origina a dor, espiritual, a fim de chegares à identificação do homem
como poderá esta verdade pertencer, como coisa precisamente Deus; e se não o houver, também esta
mas se fores congruentealcançarás
o deleite interior com o seu hóspede, com elevado deleite
própria, à natureza de qualquer deles? ( . .). verdade é Deus. Quer exista ou não algo supremo, não
Reconhece. pois, qual é a suprema congruência. Não espiritual e não com a fruição carnale baixa. Todavia, também esta verdade seria mutável se fosse poderás negar a existência de Deus, que é a questão
[e dispersei e entra dentro de d, porque é no homem igual às nossas inteligências mutáveis A nossa razão que nos propusemos abordar e discutir.
interior que reside a verdade; e se a tua natureza 6or St.' Agostinho, l)a vwdadeíra Re/@lão, 39, 72
revela-se mutável ao ver graus de visibilidade nesta
St.' Agostinho, Z)o lzure ÁTÓj/Ho 11,12, 33-4 e 15,39

Sol torna as coisasvisíveis ao ilumina-las isto é, fm. uma atitude de procura constanteque o leva a não podes chamar tua, nem minha, nem de homem
com que ascoisaspossamser vistas,também o bem autotranscender-se,a procurar para além da si 2 a.:i31ogioe anlropologio
em st.' algum, visto que está presente em todos e a todos se
ilumina as ideias tornando-as inteligíveis, isto é, próprio. Esteimpulso de autotranscendência
não oferece
porigual»(DoZzure
Áróífr/o,2, 12,33).A
Na secção anterior expusemos as raízes antro-
fmendocomque possamserentendidas.) acontece apenas no âmbito do conhecimento, pois natureza das ideias, o seu carácter imutável
também se realiza nQ âmbito da vontade. Na reali- pológicasdo pensamentoaugustiniano,tomando
2. O neoplatonismo situou as ideias na mente divina; contrasta com a mutabilidade da natureza humana e
como ponto de partida a.@terjglização e a auEo-
deste modo, a função iluminadora corresponde a dade, para sermos pre(iiiõ;;ilêçêããmog falar de um remete para uma verdade imutável, «Averdade na
único movimento de autotranscendência
que se transcendência.Na realidããê''i o processo que
Deus,à mente ou verbo divino. qual pela qual e em virtude da qual é verdadeiro
indicálnus Jase encontram inseridastanto a teologia
3. O neoplatonismo estabelecera um escalona- exerce, tanto no conhecercomo no querer, na tudo quanto é verdadeiro em qualquer sentido»
como a concepção augustiniana do homem
mento do real desde Deus até à matéria, em procura'da próliiiij51êhitude e renciuaue. (So/j/Ógzzjos,1, 1, 3). Daí que, ao tentar definir o
conformidade com o princípio da plenitude. St. O homem procura a felicidade. Alguns filósofos, atributo fundamental de Deus, St.' Agostinho insista
Agostinho aceita este escalonamentocomo prin- 2.3.1.A adstência de Deus na imutabilidade como seu atributo primeiro
como os epicurigiãi;ãõêõlõêarem a felicidade no
cípio de plenitude e de acordo com ele insiste em próprio corpo, «põem a esperança em si mesmos» Dada a sua preferência pela via da interioridade. é seguindo nisso uma evidente orientação platónica.
quea parte superior da alma, o espírito, está No entanto, pensa St.' Agostinho, © criatura racional
em contacto com Deus, embora a sua parte infe- lógico que St.' Agostinho não se preocupe com
(. . .) íoi feita de tal modo que ela própria não pode formular argumentaçõestomadas da realidade
rior esteja em contacto com o corpo, com o mundo 2.3.2.Anüopologia
ser o bem que a faça feliz». Por isso mesmo, o ser exterior, do Universo, para demonstrar a existência
sensível: a alma é «vizinha de Deus». (St.' Agostinho a) Natureza da alma
humano vê-se obrigado a autotranscender-se, já que de Deus. Nas suasobras há certamente referências à
utiliza esta expressão, que aliás está em Plotino, o o só pode dar felicidade ao homem e isso. ordem do Universo como prova da grandeza do seu A antropologia augustiniana está fortemente
qual se refere à «vizinhança da alma relativamente ao segundoSt.' Agostinho,não é senãoDeus..A Criador e também existem referências (cf. l)a impregnada de platonismo
que é superior a ela»,E?zéczíZw
V, 3.) Estavizinhança felicidade encontra-se no amor a Deus, no reino de Doufnzzíz Clísfã, 1, 7, 7) ao argumento usualmente Existem no homem duas substânciasdistintas: uma
explica que a iluminação é algo de perfeitamente Deus, prometido aos cristãoscomo prémio paraa
natural e de acordo com a naturezahumana. denominado de consenso, isto é, ao facto de que a material e outra espiritual. Propriamente falando, o
tensão e para os esforços realizados durante a vida. maioria dos homens coincide em aceitar a existência
Recorde-seo texto que propúnhamos ao explicar a homem não é o seu corpo nem tãopoucoo
Ao ocupar-sedo tema da felicidade e do amor, de Deus.No entanto,St.' Agostinhonão se conjunto de corpo e alma, mas apenas a sua alma: «o
autotranscendênciado homem: «Caminhapara
St.' Agostinho prescinde,como é habitual nele, preocupa com formular estas provas de modo
onde se acendea própria luz da razão». homem é uma alma racional que se serve de um
de qualquer distinção entre razãoe fé, entre o sistemático.
corpo mortal e terrestre». Na alma, por sua vez, St.
naturale o sobrenatural,
relacionandoa expe- A autêntica prova augustiniana da existência de Deus
2.2.2.Autoüanscendêndae vontade Agostinho distingue dois aspectos,a razão inferior e
riência humana da procura da felicidade com a parte das ideias, dos seus caracteres de
M Segundo St.' Agostinho, o homem caracteriza-se por concepção cristã da mesma. imutabilidade e necessidade, daquela verdade «que
a !@ãosuperior.A razão inferior tem tomo
objecto itiência, isto é, o conhecimento
das m
o CRISTIANISMO 1111goriA. SANTO AGOSTINHO 2 0 APOGEU DO PLATONISMO CRISTÃO.ST.' AGOSTINHO
realidadesmutáveise sensíveis,
o conhecimentodo sobre a liberdade no contexto moral, principal- A experiência cristã da liberdade é, além disso, uma 2.4. 0 Estado e a história. A cidade de
/ nossoambientefísico,de modo a podermosobviar
às nossasnecessidades.
A razão superior tem
como objecto a sabedoria, o conhecimento do
mente por causado seu intelectualismo, o qual,
como no momento próprio analisámos,os levou a
identiÊcar o ma] moral com a ignorância: aquele que
experiência dramática, já que a liberdade se
encontra(+11121amente
ameaçada:pela cçl11BWãoda
nê!!!!!çza, que o inclihã bay o mal, e pela força da
Deus

2.4.1.Ahistória e a
inteligível, das ideias, com o fim de podermos age mal não o Emporque escolhe livremente realizar graça,que o impçjg.114rao bêm. Com efeito, a
elevar-nos até Deus. E nesta razão superior, próxima uma conduta reprovável, mas porque a sua doutrina cristã ddpecado original)ransmitido a toda St.' Agostinho pode ser consideradocomo o
de Deus,que tem lugar a iluminação. ignorância o induz a crer que tal conduta é melhor. a humanidade
pãieiiêlêfãi;5êõnclusão
de que o primeiropensadorqueanalisousistematicamente
o
Os Gregos não experimentaram o drama da homem -- dada a desordem da sua natureza caída -- sentido da história universal.St.' Agostinhoé, pois,
Tudo isto é, basicamente, platonismo. Atento às
liberdademoral. qu©e não é livre de fmer o bem. A doutrina cristã da um filósofo da história, na medida em que pretende
exigênciasda fé cristã, St.' Agostinho nega a pre-
existência e a reencarnaçãodas almas.A necessi- grau!>lo contrário, parecelevar à conclusão de que ir além dos puros factos para tentar interpreta-los e
A afirmação da liberdade e a sua experiência é um t) homem tocado pela graça quase não e livre de encontrar-lhes um sentido. Como no resto do seu
dade de tornar inteligível a doutrina cristã da
elemento fundamental da antropologia cristã. O Eaero mal. ?ÍZe r». Ó \.l Ó. pensamento, asreflexões de St.' Agostinho não são
transmissãoda culpa original levou St.' Agostinho a
defendero traducianismo, argumentandoque as homem é livre para aceitar ou'iiãã aceitar a >'' Óc4'''#W estritamente filosóficas neste caso: enfrenta a
Peranteesteconflitoda liberdadeTopblágíanismo história e o seu sentido como cristãoe, portanto, a
almasdos filhos provêm dasdos pais.Não parece, /' mensagemdo cristianismo.O homemé livre de
r salvar-seou condenar-se. E certo que de acordo optara por minimizara inclinaçãodo homem parao sua filosofia da história é teologia da história,
contudo, que St.' Agostinho chegassea estar simultâneae indistintamente
com a formulação de St.' Agostinho a vontade mal e por essemeio acabar por negar a necessidade
absolutamente convencido de qualquer das teorias
tende necessariamentepara a felicidade; e é certo da graça, chegando a uma posição segundo a qual o São duas pelo menos, as circunstâncias que mo-
que os filósofos do seu tempo apresentavamsobre
o tema. também que o único objecto adequado para a homem é capazde fmer o bem por si próprio. St. tivaram as reflexões de St.' Agostinho, acercado
felicidade humana é Deus. de acordo com a Agostinho opas-se energicamente ao Pelagianismo, sentido da história universal. Em primeiro lugar, que
b) A liberdade e o problema do mal autotranscendênciaa que acimanos referimos. O sem por isso negar a liberdade radical do homem. o cristianismo,como lã acentuáramosna secção
1. Enquanto religião de salvação,o cristianismo homem carece, contudo, de uma visão adequada anterior, concebe a história como o cenário onde
2. Estreitamente relacionadacom o tema da liber- Deus se manifestaao homem e onde tem lugar o
trouxera consigo uma concepção do homem que !çus, e daí que Ihe seja possível dirigir-se a
dade é a questão da origem e natureza do mal. A drama da salvação.Não é pois de estranhar que fosse
nada tinha a ver com o platonismo nem com a bens mutáveis, em vez de tender para o bem
filoso6Jagrega em geral. O cristianismo trouxera para imutável. Em tal caso, o homem afasta-sedo existênciado mal no mundo(males físicose mal um pensador cristão o primeiro a considerara
o primeiroplanoa liberdade individual como autêntico objecto da sua felicidadee é responsável moral ou maldade humana) é um dos temas que mais história como um todo dotado de um sentido
possibilidade de escolha entre o bem e o por tal alheamento,que é o resultadoda sua profundamentetem preocupadoo pensamento unitário profundo. Mas além disso, e em segundo
religioso de todos os tempos. Não é Deus, em última lugar, asreflexões de St.' Agostinho foram motivadas
mal. Os filósofos gregos apenas haviam reflectido própria decisãolivre.
análise, o responsável pela existência do mal? ime-diatamente pela queda do Império Romano
Esteproblematambémpreocupouprofundamente que, desde Virgílio, havia sido consideradocomo
St.' Agostinho que na juventude procurou encontrar deHl-nitivoe eterno. Estefacto histórico de primeira
uma solução aderindo ao maniqueísmo, doutrina grandezaconstituiu um estímulopara a reflexão
segundo a qual existem dois princípios, um do bem, sobre a história e o Estado.
O mal: pi'ovação outro do mal. Posteriormente abandonou a
Masjá que não podeis libertar-vosdestes ardis, atentam possa causar dano Mas esta natureza (à qual se causa explicação maniqueísta e abraçou a explicação de
dano pela privaçãode algum bem) não é o mal 2.4.2. As duas cidades
na simplicidade e clareza da doutrina católica. Esta Plotino, segundo a qual o mal não é algo positivo,
distingue entre o bem em maisalto grau e por si mesmo supremo, nem o supremo bem, dado que pode ser não é uma realidade positiva, mas uma privação. Õ A perspectiva adoptada por St.' Agostinho perante a
(ou seja,por essência e natureza) e o bem que o é por desapossadadele; e se é boa, não o é por essência mas
uma carência de bem. Não sendo algo de positivo, história é primordialmentemoral. Visto que a
pois este recebe o bem do supremo bem. por participação. Não é boa naturezaporque, se é autêntica felicidade do homem consiste no amor a
algo de real, não pode ser atribuído a Deus, nem é
sem se alterar nem perder nada. Este bem por criada, a sua bondade vem de outra parte. SÓDeus é o
sequer necessárioatribuí-lo, como os maniqueístas, Deus e a maldade consiste em afmtar-se d'Ele, para
participação
é a criatura,que é apenascapazde supremo bem e tudo o que faz é bom, mas não igual a
Ele. Haverá alguém de tal modo insensato que sustente a uma causaou princípio do mal. Estadoutrina r situar o objecto da felicidade em bens mutáveisé
impedelções: estas nãosãodaautoriade
que as obras são iguais ao artista e as criaturas ao (talvez insatisfatória, como qualquer outra que l preciso considerar dois grandes grupos ou cate-
Deus, pois Ele é o autor da existência e, por assim dizer,
Criador? Oh maniqueusl, não estareis a fmer dema- pretenda conciliar racionalmente a existênciado mal l gorias de homens: aqueles que «se amam a si
da essência.Atente-se nesta palavra, pois só ela nos
siadas exigências? ainda quereis algo mais claro e com a bondade divina) foi unanimemente aceite l mesmos até ao desprezo por Deus» e aqueles que
fornece a chavedo enigma do mal; corri efeito, e /cinge
de ser utm essência. o ttta{ é cota !oda a oodade uma explícito? pelos teólogos cristãos e é substancialmente idêntica l «amama Deus até ao desprezo por si próprios». Os
à que no séculoXVll o filósofo racionalistaLeibniz l primeiros constituem a cidade terrena, os segun-
pnuação, implicando portanto uma naturezaà qual St.' Agostinho, Dos Cosfzz77zes
dos Ha/z@zíeus.1] , 4, 6
apresentara. dosa cidadede Deus. M
tÜRISTIANISMO E FILOSOFIA. SANTO AGOSTINHO
3 AUGUSTINISMO E PLATONISMO MEDIEVAIS
É Hcü cair na tentação de identificar a cidade terrena presidirá às relações Igreja-Estado durante a Idade 3.1.0 augustinismo demente do que conhece as realidades corpóreas
com o Estadoe a cidade de Deuscom a Igreja. No Média. exteriores. Esta dirnaação está também presente em
A transmissão da filosofia de St.' Agostinho durante
entanto, não parece ser este o sentido da teoria b) A teoria augustinianapode considerar-se,em St.' Agostinho, que como atrás expusemos, utiliza o
os séculosseguintes originou um conjunto de teses
augustiniana.Visto que os critérios utilizados são de segundo lugar, como uma minimização do papel caminho da interiorização, o conhecimento de si
do Estado. Estaminimizaçãodo Estadohavia-se ou afirmaçõesfundamentaisque dão forma à
carácter moral, as duas cidades encontram-se mesmo pela alma, como ponto de partida mais
tornado necessáriano tempo de St.' Agostinho. corrente denominada augustinismo. Algumas
misturadas em qualquer sociedade ao longo da idóneo do que o conhecimento da realidade
dessastesesestãoexplicitamente formuladasem St. corpõreaexterior.
história e a separaçãodos cidadãosde uma e de Com efeito, a adopção do cristianismo como religião
Agostinho outras só de um modo implícito,
outra terá lugar apenasno fim dos tempos.No oficial pelo Império Romano,juntamentecom a
desenvolvidasem contacto com outros filósofos, c) No âmbito da ética, o augustinismo manteve a
entanto, é certo que St.' Agostinho insiste na crença na indestrutibilidade deste, levara muitos
como o árabeAvicena (séc.X]), mastodasem ptjmazia da vontade sobre o entendimento, do
impossibilidadede queo Estado,qualquerEstado, cristãos à convicção de que o Estado era um
conjunto constituem uma espécie de marca de querer sobre o conhecer. Esta tese exercerá uma
realize autenticamente a justiça, a menos que a sua instrumento essencial para os planos divinos na notável influência em todas as discussões éticas
escola, presente na filosofia medieval. Nos dois
acçãoseja informada pelos princípios morais do história. É esta convicção que St.' Agostinho
últimos séculosda Idade Média, o augustinismo tcve medievais e o seu influxo far-se-á notar amplamente
cristianismo. Segundo este ponto de vista, a teoria pretende destruir, reduzindo o Estado ao seu papel no século )(IV e nas doutrinas de Lutero e Calvino.
os seus principais defensoresnos filósofos da
augustinianado Estado pode dar lugar a duas de mero organizador da convivência, da paz e do
Ordem Franciscana. As teses principais do augus- d) No que se refere ao conhecimento,o augus-
interpretaçõesdistintas: bem-estartemporais.
tinismo são as seguintes:
a) A teoria pode interpretar-se,em primeiro lugar, Assumida num primeiro momento pelos pen- tinismo mantém a teoria augustiniana da ilumi-
comoumafundamentação teórica da primazia sadores cristãos e tendo culminado em St. a) No tocante às relações entre Fé e Razão, o nação e a tese de que é mediante ela que a razão
Agostinho a orientação platónica dominará Augustinismo conservou a posição augustiniana dc humana, conhece as verdades universais, imutáveis
da Igreja sobre o Estado. Visto que a Igreja é
amplamente o panorama intelectual do Ocidente até que ambas colaboram solidária e conjun- e eternas.
depositária, na história, das verdades e princípios do
cristianismo, é a única sociedade perfeita e, ao século XIII. Nesta secção daremos algumas tamente na explicação e esclarecimento da
e) Por último, no campo da oncologia o augus-
portanto, superior ao Estado. A Igreja deve dar, indicações acerca desta corrente de carácter verdade cristã. Recordemosque St.' Agostinho
não estabeleceu fronteiras entre fé e razão. Einismo caracteriza-se por uma dupla afirmação: o
moralmente,forma ao Estado. Esta orientação platónico.
exemplarismo (as ideias como arquétipos ou
considerando que esta serve aquela e aquela ilumina
exemplaresde tudo o que existe)e o hilemor-
esta. A subordinação da razãoà fé foi lapidarmente
Bsmo e a pluralidade de formas, tese defendida
expressapor St.' Anselmo (séc.XI), na famosa
posteriormente a St.' Agostinho.
frase 'crecZo zzfí?z/e//{«m»(«creio para entender»,).
Ao expor a filosofia aristotélica,dissemosque o
b) No âmbito da antropologia, o augustinismo hilemoí'fismo é a teoria que explica a estrutura
conservou-sefiel ao dualismo platónico de St. interna das substâncias sensíveis, recorrendo à
Asduascidades Agostinho, estabelecendo que a alma e o corpo são composição dos elementos ou princípios, matéria e
Dois amores fundaram então duas cidades: a terrena -- o botaram netlt !be dão graças couto Deus, e por isso substânciasdistintas e quc o homem é «umaalma forma. O augustinismo distingue-sedo adstotelismo
o amor-próprioe desprezoa Deus;e a celestial-- o o seupensamento
desvanece-se
e o seucoração imortal que se servedo corpo mortal e terreno».A em dois aspectosimportantesda teoria. Em
amor a Deus e desprezo por si 1641. A primeira glorhca- ignorante obscurece-se.
To atando-se
por sábios,o primeiro lugar, segundo Aristóteles só as subs-
alma possui um conhecimento directo de si mesma,
.sea si mesmae a segundaa Deus, porqueaquela que significa uma sabedoria enganada pela soberba,
conhece-sea si própria melhor e mais adequa- tâncias sensíveis são compostas de matéria e forma,
procura a glória dos homens e esta guia-se por Deus, !armaram-seignorantese Irattsfortttarmn a glória
que é o testemunho da sua consciência. A primeira Incorruptívelde Deusà sentelbançada imagem
compraz-se na sua glória e a segunda diz ao seu Deus: ;owuptíuel do homem, das at>es,dos quadrúpedes e
Vós sois a tn tuba glóHa, Senhor, e !euattlais-me a das seWenfes.Levaramos povo a adorar tal
cabeça. Na terrena, os príncipes e as nações avassaladas simulacro, indo à frente ou seguindo-os,e pies/araz7z
encontram-se sob o jugo da concupiscência do poder cu!!o à criatura e não ao Criador bendito para
sempre. Pelo contrário, na cidade celeste não há Tudo o que é criado se compõede matéria e de ao anjo, não Ihe querendo atribuir o que é de Deus
1651,e na celestial impera a caridade mútua, com os
governantes aconselhando e os súbditos obedecendo. sabedoria
humanamasa piedade
queoriginao culto pela reverência que tenho por Ele. Mas na verdade
legítimo ao Deus verdadeiro, na expectativa de um A quinta divisão é simples e composta; mas também assim parece ser, porque Boécio diz que "a forma não
Aquela ama a sua própria força e os seus potentados, e
esta diz ao seu Deus:Apto-/e a 7'í, Se/zbocque €1szz prémio na sociedade dos santos, dos homens e dos aqui existem muitos erros, como dizer que qualquer pode ser sujeito»; e assim nada acontecia ao anjo, nem
nãos, a fim de que Deusseja inteiro eln todasas criatura é simples; porque então seria acto puro, o que tristeza nem alegria.
zfnba./órfã/eza.Na cidade terrena os lábios do
corsas. só é próprio de Deus. E é perigoso atribuir à criatura o

E
homem só procuramos prazeresdo corpo ou da alma,

E ou ambos, e assim os que chegam a conhecer Deus tzão St.' Agostinho,Á Czdczde
de l)eza, XIV, 28 que é de Deus(a simplicidade); porque esta atribuo-a SãoBoaventura,Cb/anõessob'e o HÉ 4.
© CRISTIANISMO EFILOSOFIA. SANTO AÇQ$11NHg 3 AUGUSTINISMO EPLATONISMO MEDIEVAIS
lá que as substâncias imateriais são formas puras; 3.2. Santo Anselmo e o argumento lgnoíância e conhecimento de Deus
para o augustinismo, todas as substâncias, ontológico Temos de perguntar-nos também como chegamosao cimento e da ignorância. E sobre Ele temos com-
excepto Deus, são compostas de matéria e conhecimento de Deus, que não é inteligível nem preensão, discurso,ciência, tacto, opinião, imagnação,
comia: mesmo as substâncias espirituais (os anjos, St.' Anselmo de Cantuária(séc.m) é o maisimpor- sensível, nem é também nenhum dos seres que nome e tudo o mais, quando Ele não é compreenshel,
na religião cristã) são compostas dc matéria e forma. tante dos pensadores pertencentes à corrente existem. Se Deus é incognoscível e excede o pensa- expressávelou mutável ( .).
embora se trate de uma matéria espiritual. (Evi- augustinianaaté ao século Xlll e o autor da frase mento e a razão,não o conheceremos nós a partir da E Deus é tudo em todas as coisase nadaem nenhuma
dentemente, esta antrmaçãoperegrina [em uma .credo uf zn/e// gózm»a que já nos referimos atrás ao sua própria natureza, uma vez que, de entre todos os coisa.E conhecemo-Loa partir de tudo e de nada(. . .).
função mais teológica do que filosófica. Pretende tratar das relaçõesentre íé e razão no augustinismo. seres,provámos d' Ele e contemos certas imagens e ) coltbecimento totaisdivino de Detls é o conbe-
sublinhar-se a diferença radical entre o ser divino e Toda a sua obra é uma amostra interessante da semelhançados seusparadigmas
divinos?E que assim, címenloA)r me/o cüziPzorápzc/a, atravésde uma união
os restantes seres: visto que Deus se caracteriza pela conforme a nossa capacidade, vamos ascendendo por com Ele que estápara além da razão:Isto ocorre quando
correntc augustiniana.No entanto, St.' Anselmo
um caminho progressivo até a Ele, que está além de a razãose afmta de todos os seresexistentese também
sua simplicidade mais absoluta, todos os restantes passou à história da HUosofiafundamentalmente por
todos os seres, negando e excedendo todas as de si própria e se une aos raios esplendorosos,sendo
seresterão de ser em alguma medida compostos. [er sido o primeiro a formular uma prova da exis- propriedades reais,e indicando Deus como a causade então iluminada de todos os lados na profundidade
Existe além disso uma segunda diferença entre o tência de Deus a partir da própria ideia de toda elas? inescrutáveldasabedoria.
augustinismo e o aristotelismo: segundo Aristóteles, Deus. Trata-se da argumentação habitualmente Por conseguinte, conhece-se Deus em toda as coisas e
cada substância possui unicamente uma forma; designadapor «argumento ontológico», o mais em nenhuma delas; conhecemo-Loatravésdo conhe- Pseudo-Dionísio,
OsAxomes
Z)iui7zos
segundo o augustinismo, nas substânciashá plura- célebre, o mais controverso e o mais estimulante de
lidade de formas. Filósofos como S. Boaventura todos os argumentosque se propuseram para
(séc.XIII), o catalãomaiorquinoRaimundo Lulo demonstrara existênciade Deus.
separado do seu contcxto religioso a fim de analisar coisadefine-se por um conjunto de propriedades
(séc.Xlll-XIV) e Duns Escoto (séc. Xlll-XIV) St.' Anselmo formula-o no Prof/ogíozz do seguinte o seu va]or estritamente nl]osófjco,o que nos ]cvâ a ou características; suponhamos, por exemplo, que
defenderam o pluralismo das formas. modo: todos os homens (incluindo o néscio, que outro tipo de considerações.Que valor probatório o homem se define como um «viventesensitivo
em seu coração afirma que Deus não existe) têm possui o argumento ontológico?Uma série de racional»; suponhamos agora que a espécie
uma ideia ou noção de Deus, entendem por «Deus» 6llósofos(entre elesTomas de Aquino e Kant) humana se extingue, que não existem homens: a
um ser tal que é impossível pensar noutro maior do rejeitaram tal argumento por considerarem que definição de homem continuará a ser a mesma,a
que ele; ora bem, um ser semelhante tem de existir nele se dá um passoilegítimo da ordem do existência ou não-existência de homens não afecta
não só no nosso pensamentomas também na pensamento para a ordem da existência real. em nada a definição da sua essência
realidade, já que no caso contrário seria possível Em que consiste a ilegitimidade de tal passo? Segundo Kant, a existência não pertence à definição
pensar outro maior do que ele (a saber, um que
O argumento parte certamente da ideia de Deus. de nenhum ser, o que vai contra a provade St
existisse realmente) e cairiamos portanto em Anselmo.
contradição; logo, Deus existe, não só em pensa- Paramaior clareza,reformulemos o argumento da
mentomastambémna realidade. seguinte maneira: Deus é por definição (ou an-
tes, a ideia de Deus é a ideia de) um ser que O argumento ontológico foi refutado na Idade
O argumento ontológico coloca-nosdois tipos de
considerações.Em primeiro lugar, não é fácil possui as perfeições em sumo grau; pois bem, Média por Tomas de Aquino. Com certas
existir é uma perfeição e portanto a existênciafaz variantes na Formulação, foi aceite e defendido no
determinar o significado que St.' Anselmo atribui a
esta argumentação. Provavelmente não a consi- parte das perfeições divinas; logo, Deus existe séculoXVll pelosfilósofosracionalistas
(Des-
realmente. cartes, Espinosa, Leibniz). Foi posterior-
deravauma prova de carácterestritamente lógico-
mente rejeitado por Kant depois novamcnte
racional, desligada da sua fé cristã. O argumento O argumento é falaz, segundo Tomas de Aquino, aceitee defendido por Hegel. No nossoséculo,
deve certamente ser considerado sob o ponto de porque se partimosda essência pensada de foi e é actualmente objecto de controvérsia,
vista da relação entre íé e razão que é característica Deus, só podemos concluir da sua existência
dn allol lctiniçmn especialmente
entre os pensadores
perten-
pensada, mas não da sua existência real, fora do centes à HlosoHlaanalítica. O seu estudo contri-
St.' Anselmoparte da sua crença na existência pensamento. Segundo Kant, a falácia do argu-
necessária de Deus, e a razão é utilizada neste buiu para a discussãodo sentido e naturezadas
mento reside (entre outros defeitos) em supor proposiçõesanalíticas,bem como para a
argumento para tornar inteligível este carácter que a existênciatorna mais perfeita uma
necessário
daexistênciadivina. discussãodos diferentes sentidos do predicado
coisa, que a existência é uma perfeição. «é».Esteargumento constitui, pois, um capítulo

B Miniatura medieval: AlegoHa da obra de Ralhando Ora bem, mesmo que St.' Anselmo não o considere
desligado da fé, o argumento foi historicamente
Segundo Kant, a existência não acrescenta qual-
quer perfeição a uma coisa. A essência de uma
fundamental da tradição filosófica.
E
Y »

rH S.TOMASDEAQUINO
hI)CRISTIANISMO Ç FII:Q$QF14:
$4NTQ
4Ç:OSTINHO b-aEOAPOGEUDAESCOaSTICA
3.3. OuMS fonbs do plobnismo medieval obras não é o discípulo de S. Paulo mas um
filósofo que as compôs nos fins do séc. IV. Nelas INTRODUÇÃO
A filosofia de inspiração platónica expandiu-se na
Idade Média fundamentalmente devido à influ-ência se percebe a inHuênciado neopla-tónico Proclo
e autoridade de St.' Agostinho. Existiram no entanto (séc. IV) e, por conseguinte da escola Até ao séculoXlll, o pensamentono Ocidente caracteriza-se
pelo predomínio absoluto dafilosofia de
outras fontes de penetração platónica indepen- neoplatónicade Arenas. inspiraçãoplatónica. Paraessepredomínio contribuíram não apenasa obra de St.' Agostinho,
A contribuição mais importante da obra do Pseudo- continuada no augustinismo, e a influência do Pseudo Dionísio Areopagita, mas também o
dentes de St.' Agostinho. A mais importante de
-Dionísioé a teoriadenominadateologia negativa. desconhecimento quase total da 6Hosofiade Aristóteles durante este longo período Da obra aristotélica
todas foi a obra de um filósofo de identidade
desconhecida, o Pseudo-Dionísio. Deus está para além do ser e da realidade (nisto eram conhecidas apenas algumas partes da lógica, graças às traduções e comentários realizados por
Boécio(séc. V VI) denominado«o último dos 6llósofosromanos»Não se conheciaa suafísicae muito
seguea doutrinaneoplatónica
da transcendência
do
As obras deste platónico cristão (especialmente menos as suasteorias fundamentais acerca da metafísica,da antropologia e da teologia.
os seustratadosOs]Vomesl)íufnos e 7'eo/orla Uno, que segundo Plotino «estápara além da rea-
lidade») e assim não nos é possível conhecer posi- Atravésde uma série de vicissitudesa que adiante nos referiremos, no séc Xlll a Europaentrou em
MÜ/íca) gozaramde grande autoridade durante a contacto com a RHosofia
aristotélica. Traduz-seAristóteles, lê-se Aristóteles com avidez e comenta-se.O
tivamente o que é, mas só negativamente o que
Idade Média, pois pensava-seque o seu autor era século Xlll é o século do aristotelismo. Torna-sehoje difícil compreender a perturbaçãoque o
nao e.
Dionísio, o discípulo de S. Paulo. Tanto os aüstotelismo produziu então no pensamento europeu, mas essaperturbação foi realmente notável: o
teólogos orientais como os ocidentais apelaram As obras do Pseudo-Dionísio foram traduzidas para
Papapreveniu energicamente contra o aristotelismo, os augustinianos combateram-se ferozmente, o
para a sua autoridade em apoio de determinadas latim no séculoIX por Escoto Eriúgena, outro dos
bispo de Pauiscondenou-o vezessem conta. Apesarde tudo, Tomas de Aquino insistiu em assimila-lo,
doutrinas teológicas. No entanto, o autor destas grandes 6llósofos medievais. construindoum sistemaaristotélicocristão.
A propagação da concepção aristotélica veio remover a concepção augustiniana tradicional das relações
entre fé e razão, dando lugar a um movimento, o avenoísmo latino, que reclamou a autonomia da
razão face à fé Na primeira parte deste capítulo ocupar-nos-emos da recepção do aristotelismo no
Ocidente Na segundaparte exporemosaslinhas fundamentaisdo sistemade Tomasde Aquino.

Miniatura medieoa!;
Estas duas partes têm os títulos seguintes:
Representação
simbólica
1. 0 aristotelismo e a luta pela autonomia da razão.
da Cidadede Deu.s,
deSt.'Agostinho.
2. Síntese de al'istotelismo e platonismo em Tomas de Aquino
E
1 0 ARISTOTELISMOEA LUTAPELAAUTONOMIA DA RAZÃO 1 0 ARISTOTELISMOE A LUTAPELAAUTONOMIA DA RAZÃO
1.1. 0 aristotelismo no Ocidente platonizado é Avicena (séc.X). Posteriormente
Avenóis
(séc.XI), Averróis escrevecomentáriosàsobras de
Arruinado o Império Romanoe finalizada a Idade NasceuemCórdova,naEspalha plidão do seu labor de comentador
Aristóteles, eliminando todas as excrescências
muçulmana,em i126 e morreu como a qualidade do mesmo
Antiga, o Ocidente perdeu todo o contacto com a platónicas e dando-nos um aristotelismo puro. em Marrocosem 1198.Junta- valeram-lheo sobrenomede «Co-
maioria das obras filosóficas gregas. Esta perda de Averróis foi o maior comentador de Aristóteles. mente com Avicena,é o mais mentador,. A sua influência no
contacto e a consolidação do platonismo cristão Ocidenteno séculoXlll foi decisiva,
A penetração da filosofia grega através dos árabes importante dos filósofos árabes.
(graçassobretudo à monumental obra de St. Contrariamente aos demais filó- Além dos comentários a Aristóteles,
Agostinho) marcarama evoluçãoda filosofia na constituiu um estímulo para o Ocidente. No século
sofos árabes,que cultivaram uma escreveuoutras obras que conse-
Europa durante os oito séculos seguintes. Xll inicia-se no Ocidente uma intensa actividade de
filosofia platonizante ou um aris- guiram notáveldifusão,como o seu
Entretanto tivera lugar um acontecimento de tradução. Traduzem-se directamente do grego para totelismoplatonizado,Averróis escrito polémico Z)esfm/ção da
primeira grandeza:a pregação de Maomé e a o latim, as obras de Aristóteles além das obras e cultivouum aristotelismopuro, Desfmiçáo (contra a obra de Al-
consequente expansão vertiginosa da con- comentários dos Hllósofosárabes. liberto de aderências platónicas. gmeÀ
, Destmição dosFilas(2fos),e
quista árabe. Os árabes conquistam a Síria e Escreveu três sériesde comen- um livro sobre as generalidadesda
entram aí em contacto com certos redutos da tários a Aristóteles(menores, medicina, conhecido na Idade Mé-
1.2. 0 averroísmo latino
cultura gregaclássica.Um grupo de cristãostradu- médios e maiores). Tanto a am- dia sob o título latino de Co//@e/.
zirá para sírio alguns textos originais de filósofos Paria, com a sua Universidade, era no século Xlll a
gregos. Primeiro do sírio e depois também directa- capital intelectual da Europa. A Universidade foi
mente do grego, traduzem-se para o arábico as obras perturbada com a chegadada obra aristotélica em
de Aristóteles e os comentários feitos pelos grandes versão integral e com a chegada dos comentários de
comentaristas gregos, na sua maioria neoplatónicos. Averróis, que ofereciam um aristotelismo puro.
Cria-se assim uma 6llosoâa árabe aristotélica. Gerou-se deste modo um movimento aristotélico nenhum demiurgo a que se pudessedeitar mão e Estavam as coisas neste pé quando os averroístas

Inicialmente, os árabesadoptam um aristotelismo conhecidopor averroísmolatino. interpretar em termos criacionistas. Segundo lançaram a sua terceira afirmação, a teoria da dupla
Aristóteles Deus é o motor imóvel que move verdade, a saber: que há duas verdades, uma
muito platonizado.(O que não é de estranhar: O averroísmo distinguiu-se por três aâmiaçóes
eternamente um mundo eternamente existente, teológica ou da k, e a outra filosóHca ou da razão: M
dissemosno capítuloanterior que o neoplatonismo ou teses, duas das quais eram de origem aristotélica
assimilara muitas teses do adstotelismo e acabamos e contrárias à doutrina cristã. mas que não o fez nem sequer o conhece. (De afirmações de que a alma é imortal e de que o
acordo com Aristóteles, Deus não conhece o mundo é criado são verdadeiras de acordo com a lé;
de dizer que grandes comentadores gregos de Em primeiro lugar,a etemidade do mundo, que
mundo. Deus conhece-sea si mesmo e a sua asafirmaçõesopostasde que a almaé corruptível e
Aristóteles foram neoplatónicos; os árabes estu- parecia atentar abertamente contra a afirmação cristã
actividade consiste exclusivamente neste conhe- o mundo é eterno são igualmenteverdadeiras,mas
daram Aristóteles através destes comentários.) O de que o mundo 6oicredo por Deus. Contrariamente
cer-sea si mesmo.) de acordo com a razão e a 6ilosoHia.
representante máximo do aristotelismo árabe à filosofia platónica, na RHosofiade Aristóteles não há
Também aristotélica, a segunda tese do averroísmo A teoria da dupla verdade proposta pelos
averroístas era uma tentativa deseperada de
é que a alma individual, a alma de cada
defender a autonomia da razão perante a íé. Como
homem não é imortal masperecível e corru-
Boécio ptível. SÓo intelecto está presente em todos os acentuámos no capítulo anterior, ao ocupar-
Mânlio Severino Boécio, o último dutor e comentarista das obras homens,mas é único e o mesmopara toda a mo-nos do pensamento de St.' Agostinho, a
dos BHósofos
romanos,nasceuno lógicas de Aristóteles e como humanidade. (No capítulo acerca da alma em subordinaçãoda razão tinha o seu principal ponto
ano 470. Ocupou cargospolíticos criador de uma parte notável do Aristóteles, vimos como este admite -- além da de apoio na convicção de que a verdade é única;
importantes durante o reinado do vocabulário filosó6tcolatino. Ter- visto que a verdade é única e está contida na
alma corruptível, que é acto e forma do corpo --
ostrogodo Teodorico. Caído em mos como «acto», «potência, um entendimentoque não é forma e acto do doutrina cristã, à razão só resta o papel de
desgraça, morreu decapitado «princípio», «universal», «aciden- esforçar-se por tornar inteligível o que pre-
corpo, e perguntávamos: acasoserá Deus?Averróis
apósum longo período de cárcere te)>,{(con te»,"sujeito»,etc., viamente se crê. Sobesta perspectiva,é fácil com-
ein Pavio. foram introduzidos por ele ao interpreta que não é Deus maso entendimento
que corresponde à esfera da Lua, a esfera celeste preender como a atitude dos averroístasconstituía
Boécio é uma figura de singular traduzir os termos gregos corres-
uma resposta frontal à teseaugustiniana.
Importânciacomo Ü pondentes. Escreveu também imediatamente próxima da Terra.) Ê fácil observar
uma obra intitulada Da colzso- até que ponto esta negação da imortalidade da Os averroístas foram condenados e o seu repre-
filosofia grega ao Ocidente medi-
eval. Nesta função lação pela.pios($a, dutan\e a alma é contrária à doutrina cristã: negue-sea sentante máximo -- Sigério de Brabante foi
destaca-seduplamentecomo tra- sualongaestadana prisão. imortalidade da alma e o drama cristão da salvação
Leráperdidotodo osentido.
expulso da Universidade de Parise condenado a
prisãoperpétua.
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6 S. TOMAS DEAQUINO E O APOGEU DA ESCOLÁSTICA 1 0 ARISTOTEllSMO EA LUTAPELAAUTONOMIA DA RAZÃO
1.3. O aristotelismo de Aquino o seu sistemase articule por meio de conceitos e 1.3.2.geologia perfeição (a imperfeição implica potencialidade
esquemas aristotélicos, que Aquino aceita e incor- relativamente às perfeições que não se possuem).
Tomas de Aquino nunca aceitou estas teses a) Tomas de Aquino aceita, em primeiro lugar, a
porano seupensamento. Tomas de Aquino aceita igualmente a concepção
averroístas: demonstraçãoaristotélica da existência de
Deus,baseadano movimento,entendidoeste aristotélica de Deus como acto de pensamento,
a) Sobrea eternidadedo mundo,teve muito como pensamento cujo objecto é Ele próprio, como
cuidado em acentuar que, em seu entender, nem o 1.3.1. Ontologia e cosmologia como passagem da potência ao acto. Esta demons-
pensamentoautopensante
sistema aristotélico implicava necessariamente a traçãoaristotélicaconstituia primeiradascinco
Neste âmbito, Tomas de Aquillo adopta as seguintes «vias» tomistas. Neste último ponto, porém, Tomas de Aquino
eternidade do mundo, nem o conceito cristão de teses aristotélicas, todas elas já exposta no capítulo
Sob a influência de Aristóteles, Tomas de Aquino introduz uma notável correcção ao aristotelismo.
criação exclui a possibilidade de que o mundo seja anterior.
demarca-se notoriamente da corrente augustiniana Aristóteles explicara que Deus se conhece a si
eterno; segundo Aquino este pode ser cterno e
a) A teoria do movimento: denlnição
do mo- no que se refere à prova da existência de Deus. O próprio, que sua vida e felicidadeconsistemem
criado.
vimento em termos de potênciae acto, ante- augustinismo achavaa via da interiorização mais conhecer-sea si mesmo e que não conhece nada
b) Quantoà imortalidadeda alma,Aquino rein- doddade deste relativamente àquela(«nada passada adequada; Tomas de Aquino considera mais ade- fora d'Ele, visto que é auto-suficiente. Deus, segun-
terpretouAristóteles,afirmandoque o enten- potência ao acto a não ser sob a acção de algo que quado partir do conhecimento que a experiência do Aristóteles, não conheceo mundo. A diferença
dimento imortal de que aquele falavanão é único esteja já em acto), e classificação do movimento em radical entre a teologia de Aristóteles e a de Tomas
sensívelacercado Universo nos proporcionou. O
para todos os homens, mas sim a faculdade superior mudançasubstancial(geraçãoe corrupçãodas augustinismo partia da imutabilidade e necessidade de Aquino provém de que esteaceita a criaçãodo
da alma, que é imortal. substâncias) e mudanças acidentais (quantitativa, das ideias que o homem descobre dentro de sua mundo por Deus, e aquele não. Segundo Adstóteles
c) A terceira aHlrmaçãoaverroísta, a dupla verdade, qualitativa e local). almamutável;Aquinoparteda mutabilidadee (e este foi um dos pontos de controvérsiaaverroís-
tornava-se desnecessária neste caso concreto, uma contingência dos seresdo Universo. ta), Deus não criou o mundo, o mundo é eterno,
b) A composiçãohilemórâícadas substâncias
vez negadas as outras duas. Deus é somente o princípio do movimento do
naturais, isto é, a teoria de que as substâncias b) Quantoà maneirade conceberDeus,Aquino Universo e o Rimpara que estese orienta. Segundo
Aquino combateu-a, não por considera-ladesne- naturaissão compostasde matériae forma. aceita a teoria aristotélica que o define como acto Tomas de Aquino e de acordo com o cristianismo.
cessária mas por a considerar inadmissível. Opondo-se à corrente augustiniana, Tomas de puro, sem qualquer tipo de potência ou poten- Deus criou o mundo. Deus,então,conhece-o
Aquino demarcou-seclaramente dos averroístasnos Aquino é 6telao aristotelismo, afirmando que há só
cialidade. A sua actualidade é assim interpretada conhece-o, conhecendo-se a si mesmo. em si
pontos contrários à fé cristã. A sua atitude perante a uma forma substancial e que as substâncias como a raiz da sua imutabilidade(se o movimento é
filosofia de Aristóteles foi no entanto totalmente mesmo; e, assim,Tomas de Aquino pode mantera
imateriais são formas sem qualquer tipo de matéria. passagemda potência ao acto, Deus terá de ser doutrina aristotélica de que a actividade de Deus
positiva. Estavaconvencido de que as linhas gerais
c) A distinção entre substânciae acidentes:as imutável, visto que é acto sem potência) e da sua consiste em conhecer-se a si mesmo.
do sistema de Aristóteles eram compatíveis com a íé
cristã e que, além disso, proporcionavamuma
substâncias
naturais compostasde matériae
forma são por sua vez sujeitos de outras formas
interpretação valiosa e aceitável da realidade em si
acidentais
mesma. E certo -- teremos ocasião de comprova-lo
maisadiante-- que a interpretação
tomistada d) A teoria das quatro causas(material,
formal, Deus,motor imóvel
estrutura da realidade é de inspiração platónica e eficiente e final), com a consequente interpretação A existênciade Deus pode ser demonstrada de cinco potência, só o podendo ser relativamentea uma
não aristotélica. Isso não é, porém, obstáculo a que teleológica da natureza. maneltas. A pHttieira e a anais evidente é a que se sucessãode coisas É impossível que qualquer coisa
óaseza/z0 71zou/mento.
Os nossossentidoscom- possa mover-se por si mesma. Portanto, tudo o que se
provam com clarezaque no mundo há coisas que se move é movido por outra coisa.Masse a coisa que se
A crítica al ao aristotelismo Daqui resulta uma outra cegueira,a da unidade da movem. Ora, tudo o que se move deve o seu mo- move é também ela própria movida por outra coisa,e
Todos os doutores gregos, como Gregório de Nessa, vimento a outra coisa. Com efeito, tudo quanto se esta por outra coisa e assim sucessivamente,não se
razão,porque postular que o mundo é eterno leva
Gregório de Nazianzo, Damasceno, Basílio, e todos os move é potência relativamente ao agente do seu mo- pode continuar assim até ao inHlnlto,pois nessecaso
necessariamenteao seguinte: que as almas são em
vimento; por outro lado tudo o que se movc é acto. nunca haveria um motor primeiro, pois os motores
comentadores árabes, afirmam que Aristóteles parece número infinito, se os homens forem inâlnitos; que a
ensinar erros sobre a etemidade do mundo, o que dá alma é corruptível ou que existea lo para pois movecé passarda potência ao acto, e só chega ao intermédios só se movem por virtude do motor
origema umacegueira
tripla e à obscuridade;
e acto o que é acto; por exemplo, o fogo é um corpo primeiro, como a varasó se move se impulsionadapela
outro corpo; ou, enfim, que o entendimentoé o
segundo eles, o próprio Aristóteles sentiu isto nas quente em acto e faz com que a madeira passea ser mão. Deste modo, [em de haver um motor primeiro
mesmc em todos, um erro que se atribui a Aristóteles
palavras que proferia. Pam Aristóteles o mundo nunca de acordo com o «Comentador». quente em acto quando antes era apenu quente em que não seja movido por nenhum outro: um [a] ser é o
teve começo, e nisso contradizia P]atão, que parece ter De acordo com estesdois erros, não existe felicidade potência, conferindo-lhe assim movimento e alte- que todos entendem por Deus.
sido o único que ensinou ter havido um começo dos nem castigo depois destavida. rando-a Por conseguinte,não é possívelque numa
:empos. Ora, isso repugna à luz da verdade. mesma relação uma coisa seja simultaneamente acto e S. Tomas de Aquino, Sz/ma Teo/(ágzca/, q. 2, art. 3
São Boaventura, 6o/açóes soóle o /íexanzeron, 6
T
o S. TOMAS DEAQUJNQ E O APOGEU DA ESCOLÁSTICA 2 SÍNTESEOE AKj$TQTF;Pino
E PLATONISMO EM TOMAS OEAaulNO
1.3.3.Antropologia 1.3.4.Ética 2.1.Fé erazão seu objecto adequado é precisamentea realidade
sensível
Tomas de Aquino aceita a definição aristotélica da Aquino aceitao princípio aristotélicode que o fim A chegadado aristotelismo ao Ocidente e a teoria
A concepção aristotélica do conhecimento im-
alma como princípio de vida, como forma e acto último do homem é a felicidade, bem como o averroístâ da dupla verdade haviam imposto aos
plicava uma dupla consequência:em primeiro lugar,
do corpo. Isso leva-o a admitir a concepção princípio de que a felicidade perfeita consiste na pensadores cristãos a imperiosa necessidade de
que o edifício da 6iloso6iasehá-de construir de baço
hilemórficado homem.Peranteo platonismo contemplação,
naactividadedo conhecimento. Esta repensar o problema das relações entre razão e íé
para cima, a partir do conhecimento das realidades
augustiniano,
segundoo qualalmae corpo são aceitaçãodo conceito aristotélico da felicidade em basesdiferentes das do augustinismo. Neste
duas substâncias distintas e acidentalmente sentido, a tentativa protagonizada por Tomas de sensíveis; em segundo lugar, quc a noção que seja
revela-nosoutro ponto importante de gastamento
possível obter acerca de Deus terá por força de ser
unidas,e portanto o homem é a alma,Aquino em relaçãoao augustinismo.Com efeito, a afirma- Aquino é, sem sombra de dúvida, a mais notável de
imperfeita e analógica, ou seja, baseada na analogia
afirmaque o homem constitui uma única ção de que a felicidade reside no conhecimento quantaso pensamento cristão produziu.
que possa estabelecer entre 8 realidades limitadas e
substânciacujosprincípiosconstitutivossãoa supõe a primazia da razão sobre a vontade, face ao
imperfeitas que nos são conhecidase a suacausa.
alma e o corpo. voluntarismo augustiniano que defendia a primazia 2.1.1.Os limites da !múo . A lé infinita, cujo ser é em si mesmo inacessívelà razão
A antropologia aristotélica implicava a negação da davontadesobrearazão.
A teoria aristotélica do conhecimento constituiu um humana.
imortalidade da alma (ponto também de Juntamente com a doutrina do fim último, Tomas de
O conhecimento natural acercade Deus.do homem
controvérsiaaverroísta).Tomasde Aquinode- Aquino aceitaa ideia de que as normas morais se ponto de partida e um instrumento poderoso para
marca-sede Aristóteles no tocante à imortalidade reexaminar a questão das relações entre razão e fé. e do Universo [em, pois, certos limites, dentro dos
baseiam na natureza humana e, portanto, que o
Ao analisaros condicionamentos
da atitude quais a razão pode mover-se com maior ou menor
da alma. Neste domínio, volta-se para Platão, conhecimento desta,concebida teleologicamente, é
augustiniana sobre este assunto, acentuámos no acerto. A fé cristã, porém, proporciona noções, para
tentandouma difícil síntesede platonismoe o ponto de partida paraa formulação da lei moral
aristotelismo. natural. capítulo anterior que a concepçãoplatónicae além de tais limites, acercada naturezade Deus e
neoplatónica do conhecimento se inclinavaa a6rmar acerca do destino do homem. Estas noções
que o objecto próprio e adequado do nosso reveladasao homem são concebidas,assim,como
conhecimento sãoas realidades imateriais: a algo de gratuitamente acrescentado à razão humana,
alma conhece-se a si própria; o conhecimento que algo que a não vem suprimir masaperfeiçoa-la,do
tem de si própria é melhor e mais perfeito do que o mesmo modo que, na expressãode Tomas de
que possui sobre as coisas sensíveis exteriores; e Aquino, a ordem sobrenatural cristã não vem «eli-
através de um processo de elevação pode, a partir minar a natureza, mas aperfeiçoa-la». Trata-se, pois,
de si própria, acederao conhecimentodos de duas ordens que em princípio não têm motivo
seres imateriais superiores. Esta concepção do paraentrar em conflito.
conhecimentoimplicava,como vimos, que os
sistemasneoptatótticos se processassemde cima 2.1.2.Co11teúdos
da17izão
e(talé
pózraócz&o,a partir do princípio supremo(Bem ou
A distinção entre conhecimento racional e noções
Uno), percorrendo o caminho descendente do real,
até aos últimos escalões. da fé não deve no entanto interpretar-se como se
entre ambos não existisse qualquer elemento em
A teoria aristotélica adoptada por Tomas de Aquino comum:existemconteúdosda razãoque em
dá-nos uma interpretação radicalmente distinta. definitivo não o são da fé e existem conteúdos da fé
Segundo Aristóteles o nosso conhecimento parte que não o são de modo algum da razão, mas exis-
dos sentidos,tem origemnos dadosque a tem também verdades que pertencem aos dois
experiênciasensívelnos fornece, e daí que o âmbitos. No que se refere aos respectivos con
objecto proporcionado ao nosso entendi- teúdos, fé c razão delimitam dois conjuntos com
mento não sejam as realidades imateriais mas uma zona de intersecção. Para citar apenas dois
o ser das realidades sensíveise materiais. É exemplos, a esta zona de intersecção pertencem, na
certo que o intelecto, no entender de Tomas de opinião de Aquino, a afirmaçãode que o mundo é
Aquino, é imaterial e, portanto, enquanto enten- criado e a afirmação de que a alma humana é imor-
dimento, tem por objecto o real sem limitação tal: o discurso racional pode alcançaro conheci-

E Sassetta: Tomas de Aquillo oravtdo. Moeu de BelasAHes de Budapeste.


alguma; mas enquanto entendimento humano, isto
é, enquanto intelecto ligado à experiência sensível, o
mento de ambas as verdades que são conhecidas
também pela fé cristã. E
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O S. TOMAS PEAQUINO E O APOGEU DA F$COLÁSTICA 2 SÍNTESE DE ARiSTOTEllSMO E PIATONiSMO EM
A existência de conteúdos comuns à fé e à razão 2.1.3.(blabotaçãoda lazão«)tn alé também não é possível demonstrar racionalmente o St.' Agostinho), a fé serve à razão de norma ou
suscita algumas questões de grande interesse. Em contrário, isto é, que o mundo não terá sido criado critério exttínseco. Assim,no casode a razão
A fé e a razão constituem assim duas fontes distintas
primeiro lugar, que sentido [em a existência de tais no tempo.
de conhecimentos que muim vezes inbrmam sobre chegar a conclusões incompatíveis com a fé, tais
conteúdos comuns a ambas. Tomas de Aquino conclusões
serãonecessariamente
falsase o filósofo
parcelas diíêrentes da verdade e, às vezes, informam c) Finalmente, muitos dados científicos ou contri-
justiãca a sua existência aduzindo razões de carácter
circunstancial e de carácter estrutural: circunstan-
sobreos mesmosconteúdos.Comofontes de buições da filosofia podem ser úteis para o escla. terá de rever os seus raciocínios, as suas premissas e
informação, são ambas autónomas e independentes. recimento dos artigos da fé. A existência
da consistêncialógica a fim de lhes corrigir as defi-
cialmente, é conveniente que certas verdades ciências. Deste modo, a fé é critério extrínseco e
Na opinião de Tomas de Aquino, porém, a razão teologia é portanto a prova mais real da ajuda que a
acessíveisà razão sejam também impostas pela negativo para a razão: extrínseco, porque se trata de
autoridade da fé, já que muitos homens carecem de
pode prestar e presta uma apreciávelajuda à razãopodedaràfé.
fé. Esteserviçoou ajuda torna-sepatentena uma tonta de conhecimento diferente; negativo,
tempo e preparação filosófica e, não sendo pela lé, porque o filósofo não pode apoiar-sepositivamente
não lhes seria possível aceder ao conhecimento das construção da teologia como ciência. Com efeito, a
geologia recebe da razão: 2.1.4. Coral)omçãa da íé cmn a lazão nos dados da revelação nem utiliza-los como ponto
mesmas; também é conveniente, estruturalmente.
de partidaparaassuasconclusões.
dada a possibilidade de errar que ameaça de arma a) Em primeiro lugar, os seus procedimentos de Mas não é só a razão que presta auxílio à fé, pois O compromisso elaborado por Tomas de Aquino
constante a razão humana. Em segundo lugar, a ordenação cientíÊca, de arma a que a teologiase também esta, no entender de Tomas de Aquino, entre a razão e a lé revela uma atitude perante a razão
existência de verdades comuns à íé e à razão torna
possaconstituir num sistemaorganizadode presta os seus serviços àquela. Visto que não há que poderíamos qualificar de moderadamente
manifestoque a distinçãoentre estasé uma proposições. dupla verdade e que os artigos da fé cristã contêm optimista. Aâna] de contas, a autonomia concedida à
distinção entre duas antes de conhecimento. Isto é afirmaçõesde verdade indubitável (como crente, razãoé limitada, e não poderia ser de outro modo.
importante no momento de distinguir a teologia da b) Emsegundolugar,assuasarmasdialécticas Tomas de Aquino compartilha ambas as teses com tratando-se de um cristão profundamente crente.
filosofia: uma e outra distinguem-se primordial- para combater adequadamente as afirmações dos
mente, não pelos seusconteúdos (dado que alguns filósofos que contradizem os artigos da fé. Tome.
são comuns a ambas), mas pela forma de acesso aos mos o exemplo da eternidade do mundo: a razão l/étdadesdeiazãoedelé estudadaem úlUmo}tlgarno emino dafilosofia.SÓ
mesmos.Com efeito, a teologia recebeos seus não pode demonstrar que o mundo terá sido criado Há pok ditas apécies de verdades divinas: ulm pode atingirmos esm vêNade divina com imensa esforço e
conteúdos da fé, enquanto a razão os fornece à no tempo, mas pode ajudar a teologia fazendo vcr nr alcmçadapelo exucÉcioda mzãa e a Quem apHcaçãa,e ceíEarnente serão poucos os que qu«em
filosofia. que, contrariamente ao que pensamalguns filósobs, ultrapassa a opacidades da razão humma, mas ambas assumire$iatarei pot amor à dêncü, w bem que
se apresentam aoh(mem como objecto de E. Iremm Deus tens colocado M alnílados homens o desejo de
ocupar-nos prMekamente da verdade acessívelpeia alcançar
am verdade(. . .).
razão,a iím de responder à(peles {:üe,sob o pretexto O {erceim hconveMenle deve-se ao facto de que a
da força da razão, julgam $ ínúcil a uansmissão da investigaçãohunlam (ü muita vezesem erro por
verdadepor inspiraçãosobrenatuíaí. debilidadede julgamentoda nossainteiigêndae
Se ©ta verdade fosse deixada open ao exercício da devido à confusão das imagens. Muitos ainda Eêm
tufão, daí Ksultaíiam üês hconçenlenta. a prtmeim é dúvidas sobre aquib que é demonstrado com absolun
que poucos homens teriam cmhecimenta de i)eus. A verdade, porque desconhecem o valor da demons-
Tomasde Aquino tual em Paris, em contínua
Nascidode uma nobre família polémica com os averroístase verdade é o !hto de uma hveMgação diligente e isso traçãoe porque m pretemamenlesábiosensinar
não está ao alcance da maioria dos homens por três doutihas diversas. Também, por vens, ergue muiüts
napolitana
(1224),ingressou
aos com os 6anciscanos augustinistas
date anos na Ordem dos Domi- Morreu em hlarço de 1274,quan-
fmões: l)rimeim, alguns são desüados do saber pela verdades
demomtradasehEloduzemalgona$bb
dispwições do $eu temperamento, e assim nenhum que não são demonsuradu mm que se aceitam lmr
nicanos.No ano seguintetrans- do ia a caminhode piãopara
deles atin#Ha esn auge da ciência htimma que é o qualquer razão pmüvel ou so$stica tida coma
feriu-se para Pauis,a fim de con- participarno Concílio. conhecimento de i)eus. b necessidade domésticase demomuação. Por isso hi necessário aprennur aos
tinuaros seusestudos.Estudou Dentre as suas obras destacam-
fâíniliares são também um obstácüo pam outKüs:cenas homens. pela via da fé, o garmEe da certeza e uma
emColóniade 1248a 1252sendo -seuma multidão de comentários
homens estão encmegados da adMíbtmçã) dos bens verdadepuraquintoàscoisas
de Deus.
discípulo de Alberto Magro. Após a obras de Aristóteies, de Boécio e
tempoíab e não têm tempc} pam se dedicaremao A miseücórdia divina íbi smdaveímente pooüdente ao
agraduação
emPaís(1256),
a sua do Pseudo-Dionísio;opúsculos
conhecimento de í)eus. Pza outros, o obstáculo é a impor como & aqiliio que ambém é acessível
pela
actividade docente e de investi- como o Do ente e da essênciae ,
preguiça; ora, é evidente que tudo o que a í2zão pode razão, de modo a que, sem dúüd© e sem erros, toda
gaçãorepartiu-seentreestaUni- sobretudo, a Szzplza
7êo/%zca e a
versidade e diversos locais de junta contraos Gelltios.
À.sua descobria' sobre l)eus eüge preüamentejÊváãos possamhdmenle [er acaso ao conhecimento
de
conhecimentos. Abas,quasetoda a reflexo Hosólica
ltália. Desde 1269 até 1272 filosofia presidiu e continua a pre-
tende pam o conhecimenlode l)eus, e é por bso que a
desenvolve intenso labor intelec- sidir ao pensamentocatólico.
metaHsica, que se ocupa do aludo das coisas dhhas, é S,Talhas
deAquho,St{/mza
Cbmlm (;e? ü&1:c.4.
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l© S. TOMAS pl AQUINO E O APOGEU 0A ESCOLÁSTICA
2.1.5. Demonstraçãoda exktàida de mesma por meio de um processo de interiorização 3. a afirmaçãode que é impossível uma série
As bases da abordagem tomista das relações
que permite alcançar o conhecimento da sua infinita de causas (não pode haver uma série
entre razão e fé são as que, no fundamental,
existência a partir da compreensão da ideia de Deus infinita de seresque movem outros e que também
presidiram à atitude posterior do pensamento Como crente e como filósofo, Tomas de Aquino
cristão e da teologia: autonomia da razão (argumento ontológico de SantoAnselmo). sejammovidos por outros, etc.);
considera que uma das tarefas fundamentais da
como fonte de conhecimento e impossibi- razão consiste em demonstrar a existência de Faceà correnteaugustiniana,
Aquino distinguedois 4. a aÊíímação da existência de Deus(logo, há
lidade de conflito real e definitivo entre as tipos de verdades: as que são evidentes em si um motor primeiro, que estáimóvel, que é Deus,
Deus. E a esserespeito duas questões se colocam:
mesmas e para nós, e as que, sendo evidentes etc.)
descobertas desta e as exigências da fé cristã. a) E necessát'io demonstrar a existência de Deus?
em si mesmas,não o são para nós. Ao primeiro
Todo o conflito aparenteentre ambasprocederá b) E possível demonstrar a existência de Deus? A primeira via, que é a mais genuinamente
de erros da razãoou de uma deficiente inter- grupo pertencem as proposições cuja verdade se
a) A primeira questão pode parecer-nos actual- torna patente mediante a simples análise dos aristotélica (e cujo texto inserimos na pág. 93),
pretação dos conteúdos da íé religiosa. Tomas de
mentc ociosa:claro que é necessário demonstrar a conceitos: assim,a proposição «o todo é maior do partedo actodo movimento paraconcluirpela
Aquino tomou em consideração apenas a existência de Deus como motor imóvel.A
existência de Deus, dado que isso está longe de ser que qualquer uma das suaspartes»é evidente para
primeira possibilidade(a origem do conflito está segundaparte do facto de que há causas
nos erros da razão): é lógico que assim fosse, evidente e incontroverso. Com efeito, paraAquino nós pois para captar a sua verdade basta-nos
causadasque culminamna existênciade uma
dados os condicionamentos culturais da época. A a pergunta não é ociosa tendo em conta o contexto compreender os conceitos de «todo» e de «parto».Já
religioso e intelectual que enquadra o seu pen- a proposição «Deus existe» pertence ao segundo
causa não-causada. A terceira (inspiradano
partir da Idade Moderna, porém, e uma vez filósofo árabe Avicena) toma como ponto de
samento: por um lado vive no seio de uma tradição grupo: é evidente em si mesma,mas não para nós,
constituído o método científico, os teólogos partidaquehá serescon-tangentes (quepodem
em que a crença religiosa vigora plenamente e que pois carecemos de uma compreensão adequadada
optaram frequentemente pela segunda das existir ou não) e chega à afirmaçãode que há um
seexpressa na convicção de que «o conhecimento natureza divina. Daí que seja necessário demonstrar
possibilidadespropostas (a origem do conflito ser necessário(que não pode dekar de existir). A
da existência de Deus encontra-se naturalmente a existência de Deus.
provém de uma deficiente interpretação dos quarta (de ascendência platónica) postula que há
imbuído em todos os homens» (São Jogo
conteúdos da fé cristã): a interpretação da Bíblia seres mais ou menos peúeitos, de que há graus de
Damasceno); por outro lado, e tal como vimos no b) Quanto à segunda questão, Aquino responde
foi obrigada a variar substancialmente,em peMeição, e conclui afirmando que deve haver um
capítulo anterior, a corrente augustiniana insistiu em que é possível demonstrar a existência de lkus desde
11 especialna teologiaprotestante.
que a alma humana pode encontrar Deus em si que procedamos adequadamente, ou seja, desde ser sumamente perfeito. Finalmente, a quinta, em
que se parta dos seres do mundo, considerados como ponto de partida a ordem que se manifesta
como efeitos, até chegar a Deus como a sua no comportamento natural dos serespara terminar
causa. Este tipo de demonstração,que vai do efeito afirmando a existência de uma inteligência orde-
nadora.
à causa,chama-sea posledod(isto é, «apartir do
que é posterior-, pois qualquerefeito é posterior à
sua causa. A demonstração inversa, que vai da causa
ao efeito, denomina-sea pNod. ou seja,«apartir 2.2. Antropologia e conhecimentointelecNal
do que é anterior'; mm estaforma de demonstração
A tcrtcÍ :pia alguma cois<começasse a exístirge. consequen é excluída por Aquino no caso da existência de
A terceira via comideao ser powíve} ou contingente temente, abafa não haverá nada, o que é eüden Deus).
2.2.1.A mtlopologh tomista
e o $er necessário, de acordo coo a seguinte temente falso. Por conseguinte, nem todos M seres Aquino reuniu elementosdo aristotelismo,do Nas páginas anteriores já nos referimos aos aspectos
formulação: na natureza há coisas que podem exista são possíveis ou contigente$, e entre eles deve
platonismoe de outrasfontes e propôscinco mais importantes da antropologia de Tomas de
OUnão eüstif, porque certa será criam-se e outros forçosamente haver um que sela necessário. Mas Q
argumentos (cinco vias, como lhes chama) cuja Aquino:
destroem-se, havendo pob a possibilidade de que sef ecessádo;oücontém emsi mesmos {@ãõdüsua
necessidade ou õão; â Êem,Sé a Éüa üewssidade análise levaria à afirmação de que Deus existe. Essas
existam ou não. No entmto* reveja-seimposlvel que a) Afirma a imaterialidade do entendimento e,
Ms seres urüam mistido sempre, dado que, se têm depender de outra(como vimos êm relaçãoàscausa cinco provas possuem uma estrutura similar e cada
portanto, da alma.Em virtude da sua imateria-
a possibilidade de não ser, não devem Eermistido Cadentes), não é possíve!acetw uma série indefinida uma se desenvolve em quatro fases sucessivas
lidade, o entendimento tem por objecto o ser do
num certo tempo.Om, se todas as coisa têm a de coisas necessárbs; e poí isso deve f{ seguintes:
real, de todo o real, sem limitação alguma
possbilidade de pão serem, deve [er havido um existir algo qw seja necessário por sí mesmo e que
empa em que nenhuma existia.M $e isto:,& matenha eü: $i ã causa da $üa necessidâde*sendo 1.a verificação de um facto da experiência b)Mas o entendimento no homem acha-se
\ eílhde, também não dweda wistir nada agora, pois pomnto a causadas necessidadesde todos m outros («vemos»que há coisas que se movem, etc.) ; vinculado essencialmente a um corpo material
o que existe só começa a existirem vhude do que já à esseáerêbamamosDew. 2. a aplicação do princípio da causalidade ao dotado de determinados órgãos de conhecimento
existe; e afim, se nada exÍstb, era impossível que Tomas de Aquillo. ü//m Teo&8üü Z, q, 2, ar{. 3. Factoverificado(«tudo o que se moveé movido por
outra coisa».etc.):
(sentidos). Esta vinculação do entendimento
humanoao corporadicana união substancial B
'v
entre corpo e alma defendida por Tomas de Aquino, homem e estabeleçamosa seguinte proposição: o
homem é um animal inteligente e livre. Esta OcoahecMento
da hdividllal
contra o augustinismo, baseando-sena teoria
hilemórfica de Aristóteles. Daí que o entendimento proposição não se refere a nenhum homem em OÊnosc} ai/e7Mf zeniü:l ?z@ ,f){lE&éc:anóeca''m enleüdef
Ee© formashtehgívd$meSMO
humano, não enquanto entendimento mas en- concreto e, contudo, é válida para todos os seres -ealidadn ntoeriak siWt4lares em {)rtnieiro lugar e depor de u abstrair,a nãoscrquesevoltepaa as
ilã#pç@//2@âE. E Mo poque n© realidades material o imagens: nestas apercebeas Ê)rmH inteiigívds, como
quanto humano, tenha por objecto não o ser de humanos, para todos os homens. O conceito de
plííldpio da shguiaridade é a nllatériãií)dMduã. {)(mo
homem(como o conceito de árvore, como todos os ü$semas
eml)e Á#fzaa.,assim,
er ende dhectamente
tudo o que é real, maso ser dasrealidadesmateriais dose anteriormente, o nmso entendimento entende
sensíveis. conceitos)é universal. Gunhena] por meio da fornuasinteligíveis,:eindi-
absuahdo de td nllatéría a fonliia inteligível; por wa rectamente 8 coisas singulares coKespondentes às
Contrariamente ao que se passacom os nossos vez+
©qie w &üai danatédahdiüdüa!é Ünimú
c) A vinculação do entendimento humano a um i ageü$@g date mõdó $ül:©ui2 wea prOPaiÇâo:
conceitos, as nossas percepções sensíveis nao Pm conseguinte, o nosso atendimento só conhece SÓeata é homem
corpodotadode órgãosde conhecimento
(sen- são universais: ninguém viu ou veráo homem ou dkeeümeli@ w univemgb
tidos) impõe que o conhecimento intelectual a árvore. Existem homens concretos e árvores No mtaMa, }mdeconbetwo stvlgular
comece com o conhecimento sensível e que não
determinadas, mas não existem o homem ou a paemeio da reâexão.Como amos altas, não pode S. Tomas de Aquho, Süi la 7i:K&âgfm 4 q. 86, m. }
possaser exercido sem o concurso deste: o en- árvore. (Platão pensavaque o Homem e a Arvore
tendimento elabora os conceitosa partir dos universais existiam de facto, mas muito poucos
dadosfomecidospelapercepçãosensível. De uma maneira geral, os filósofos que admitem que da segunda capacidade do entendimento( o enten-
estarãode acordo com ele neste ponto.) Os nossos
o nosso conhecimento começa com os sentidos, dimento possível): o conhecimento, mediante a
sentidos põem-nos em contacto com objectos
individuais. admitem também a abstracção como processo de formação de conceitos universais.
2.2.2.O conhecimento intelectual formação dos conceitos. Existem porém diferenças c)S.Tomas
afirmaque aquilo que o en-
O problema da formação dos conceitos é, pois, o
entre os vários filósofos na explicação deste pro- tendimento conhece primária e directamente
O último dos aspectosapontados o enten- problema de como se passada individualidadedas
percepçõessensíveisà universalidadedos con- cesso. Na filosofia de Aquino, a abstracção explica-se é o universal. SÓde forma indirecta e secundária
dimento forma os conceitos a partir da experiência
do seguintemodo é que o entendimentoconheceos seresna sua
sensível -- levanta o problema de saber como é ceitos.Terá de admitir-se que o entendimento
possível passar das representações sensíveis aos possui a capacidadede extrair de algum modo os a) De acordo com o que acabámosde dizer, ele individualidade,
ao desviar,por assimdizer,o seu
conceitos, uma vez que estes possuem carac- conceitos a partir dos dados fornecidos pelo distingue no entendimento uma dupla capacidade, olhar para as imagens particulares. O processo é o
terísticas radicalmente diferentes daquelas.Ana- conhecimento sensível.Como é sabido, esta ou actividade: por um lado, a capacidade abstmctiva, seguinte: suponhamos que vai ali um indivíduo
lisemo-lo. capacidade costuma designar-se capacidade ou seja, a capacidade de universalizar, de caminhando e gesticulando: 1) os sentidos per-
Os conceitos caracterizam-sepor ser uni- abstractiva e a actividade correspondente abs- converter em universais as representações sensíveis
cebem uma figura de determinadas dimensões.

versais. Tomemos, por exemplo, o conceito de tracção. parüculzes; por outro, a capacidade de conhecer cores, etc., agitada por movimentos peculiares;
universalmente. (Esta segunda capacidade de- 2) isso é registado na imaginação; 3) o enten-
pende obviamenteda primeira: o entendimento só dimento -- na suafunçãoabstractiva-- universaliza
o
conteúdo dessaimagem; 4) o entendimento na
poderá conhecer universalmente se for capaz
de universalizar os dados da experiência sensí- sua função cognoscitiva formula o conceito de
vel). Numa terminologia bebida em Aristóteles homem. O entendimento conhece, pois, primária e
directamente, a essência humana universalizado e
e que parece estranhaaos ouvidos actuais,Aquino
denominaestascapacidades,
respectivamente,
en- não o indivíduo humano, que constitui o ponto de
tendimento agente e entendimento possível. partida do processo. O conhecimento do indivíduo
pelo entendimento realça-se de modo secundário e
b) As percepções sensíveis que constituem o indirecto quando o entendimento volta o olhar para
ponto de partida de todo o processo-- deixam na a imagem reconhecendo nela o indivíduo a partir do
imaginação ou memória uma imagem ou qual se absEraiuo conceito universal
representação particular. (Novamente a termi- d)A teoria de S.Tomassobrea abstracção
é
nologia tomista nos parece estranha neste ponto: congruente com a sua teoria acercado princípio
designa a imaginação por Extasia, às imagens chama de individuação. O entendimento agente actua
«fantasmas».)A capacidade abstractiva ou enten- como vimos sobre a imagem particular (por
Miniatura medieva!. dimento agente actua sobre estas imagensou exemplo, a imagem de Sócrates) ímendo sobressair
Aula unir;ersitária em fantasmas,despojando-as dos seus elementos os aspectos essenciais, a essência (no nosso
Bologtta. individuais e desta forma toma possível o exercício exemplo, a essência humana) despojando-a,por
'v
0 S. TOMAS DE AQUINO EO APOGEU DA ESCOLÁSTICA 2 SÍNTESE DE ARISTOTELISMO E PLATONISMO EM TOMAS DE AQUINO

assimdizer, dos elementos individuais (no nosso 2.3. A estrutura da realidade


l,ei gaíefal € ieí eterna mmeim da }ei eterna,a saber:enquanto,por Chita
exemplo, tudo o que não pertence à essência
Na secção 1.3. deste capítulo, pusemos em relevo Como já dísemm a leí é regra e medida e pode dessaId, M coiros tenderem para os seusprópdw actos
humana como tal, mas a Sócrates em particular). A
essênciaé idêntica em todos os indivíduos da as teses mais importantes que Tomas de Aquino ênconífaí.!@ no sujeito dé dun maneira; ãmo ao e Rns. cliatum {zdona}, entre toda as omm, está
adoptou de Aristóteles e indicámos em seguida sqeit0 2cüvo, que regue e mede; ou como no sQeito submetida à providência diviníede umíêmaneim
mesma espécie: a essência humana é a mesma em
que no sistema tomista existem certos elementos passivo,
reguladoe
medido;
porque{ma coisapmidpa especW, pob pamdpa dose pr(widên(ü e é pmüdente
todos os homens e daí que o conceito «homem» seja
não-aristotélicos. Podemos agora acrescentar que de unxlaKgra e de Bola medida mquamo for regubda e sabre si e para os ouirw. Assim, participa da razão
aplicável a todos. Embora não se trate de duas medi(h por eia.Afim. de acordocom o exposta,e eterna: esta hçlína-o naturalmente para a acçãoe fim
o mais importante e genuíno da metafísica tomista
realidades ou coisas distintas e separáveis, imporá adequada. (cama-se le} naMraí a esa palticipago da
não procede de Aristóteles masde uma reflexão dadoque todasM coisa wbmetidasà pr(widênda
distinguir em cada indivíduo a essência-- que cóatummdaltd nia!ü gema.
profunda sobre o conceito cristão de criação, in- dhha são regulada e medidas pek tei «ema, dorna se
partilha com todos os indivíduos da mesma espécie evidente{Wetoda cok pmidpam de alguma
terpretado platonicamente como participação. $.'ramasdeAquino,
Sàíiw7êo/égua1-11,
9.91,at, 2.
- e os elementos estritamente peculiares e
exclusivosdecadaindivíduo. Já no capítulo anterior, ao referirmo-nos a Plotino,
chamámos a atenção para a transcendência
Deste modo de entender a essência surge, para
filosófica da doutrina cristã da criação,com- da realidade:um homemé um animalracional compostos de essência e existência joga per-
Tomasde Aquino,o princípio de individuação.
O que é que faz que a essência- una e idêntica --
parando-acom a doutrinaplotinianada ema- (essência) e é fácil concluir que esta definição nada feitamente com o seu carácter contingente: con
nação. A doutrina da criação, dizíamos, acentua a [em que ver com o íàcto de existirem homens ou tangentes são aquelas realidades que existem, mas
se multiplique e se individualize em cada membro
da espécie?O que é aquilo que torna Sócrates,
radical diferença existenteentre Deus e os não: ainda que se extinga a espécieo homem podem não existir, o que significaque a sua
restantesseres,que são contingentes, isto é, continuará sendo «animal racional». essência não pertence necessariamente à sua
Platão, etc., em indivíduos distintos, embora
existem, mas poderiam não existir. S. Tomas não se limitou a atender a esta distinção existência, e, por conseguinte, são compostos de
possuindoa mesmaessência? SegundoS.Tomas,
conceptual entre a essência e a existência: utilizou-a essência e existência. SÓ num ser necessário (que
o princípio da individuação é a matéria concreta, A contingência dos seres criados levou Tomas de
como peça fundamental do seu sistema. Vamos não pode deixar de existia, isto é, Deus, a essência e
que é distinta em cada membro da espécie: não a Aquino a reparar numa diferença que qualquer
expor em seguidaa formacomo incorporaesta a existência,o que é e o existir, se identificam
matéria «em geral» (todos os homens possuem o pessoa cuidadosa nota ao fiar das coisas: a diferença
distinção no seu sistema metafísico.
mesmo tipo de tecidos, órgãos materiais, etc.; a entre o que as coisassão(essência)
e o facto de
matéria «em geral» não individualiza), mas a existirem ou não (existência). 2.3.2. A exbtênch cojtlo «acto de sen:
matéria concreta, que é diferente em cada indi- De facto, asperguntas que é um homem? e existem 2.3.1 deaisên(ü e adstênda
Composição
víduo. homens? correspondem a dois aspectosdiferentes Estadistinção com que a própria linguagem nos
Todos os filósofos cristãos -- e também os
brinda -- entre o que as coisas são (essência)e o
neoplatónicos se preocuparam continuamente facto de existirem (existência) é interpretada por
com pâr em destaque o que mais radicalmente S. Tomas através dos conceitos aristotélicos de
distingue Deus, o princípio primeiro, das restantes potênciae acto: a essênciaé potência(pode ser ou
realidades existentes.Os neoplatónicos haviam existir), a existência é acto, isto é, actualiza esta
estabe[ecido uma distinção radical ao a6rmar que o capacidade
de ser ou existirque é própria da
princípio primeiro se caracteriza pela sua absoluta essência.
simplicidade (daí que o denominassem Uno), A existênciaé pois caracterizadacomo acto da
enquantoasdemaisrealidadessecaracterizampor essência. Ora, a cada essência corresponde um
serem compostas.Este critério foi aceite pela tipo de existência determinada. Existir, para um ser
O su' como actoepardcipação Tai comc}o que {em íbgo e não é o fogo ulá acho por lilosoíia cristã e a tradição augustiniana firmava que vivo, é viver; para um animal existir é sentir(isto é,
(, . .) Porque a existênda é a actuddade de quãquer paKlcipação, também o qzle !em wMémfa e lüo ê a
todas as realidades, excepto Deus, são compostas de ter vida sensitiva,já que o animal sedeâne como ser
forma QUsaturem, já (We nãa haveria bondade ou uistêmia é sw Olti cdsnpor
matéria e arma. Tomasde Aquino aceitao critério vivo sensitivo, é essa a sua essência); para um
bümmya(@$ delãaa$%ãogeüÉ
i em*A$ Idé©eü aç e (a ü $uã wsêndai é* ãóéé idem
da composição, mas não aceita a fórmula au- entendimento existir é entender.
qltalqtm a®êwü djjt:ralteeda sm essêftdatm com üfícasse com a suâ exbEência, seria wn ser poí pani-
gustiniana. (Como bom aristotélico aceita a Estacircunstância -- evidente para Tomas de Aquino
e/a z }lzeslza m/açiioE gm o$aüo rem :a cipüçãoe não por essência,e poí mnseguhte não
seda o $er primeiro. b a seria um absurdo.}.ogo, existência de formas imateriais.) Segundo ele, a -- de que a cada tipo de essênciacorresponde um
polénrza. M© cano em Deus não há qualquerespécie
nãa:séiXus éüs ã sênciaéomatutbém Úa composição que radicalmente distingue as reali- grau diferente de existência ou ser, obriga-nos a ser
de pmencWidade, como vimos, da(Widecora (BK a
existêücii dades criadasé a composição de essência e cautelosos quando utilizamos a palavra «existência»
©sêncianão é n'Eie caiu dbtiua da exbtênc@ por existência.
cclmeguiüte,a sua6sência é a sua píóplia eMstên(}a. S. Tomas de A(@no, Süfm 7i?oàá©ca J, q. 3, aü 4
A afirmaçãode que todos os entescriadossão
no contexto da sua filosofia. Quando habitual-
mente falamos de «existência»,costumamos M
O S. TOMAS DFAQylNQFQAPQÇFyP4F$ÇQbAqlÇ4: 2 SÍNTESE DE ARISTOTELISMO E PLATONISMO EM TOMAS DE AQUINO

interpretar o significado desta palavra de modo numapedra.A perdição com que se realiza em 2.4.Ética e política onde se encontram a perfeição e a plenitude
cada caso depende da essência,da potência ou humanas.
unívoco: a pedra existe, a árvore existe, o animal e
o homem existem e para nós isso significa que capacidade do seu ser. TomasdeAquino conclui 2.4.1. Conceito de lutuítza htunana Estaorientaçãodá origem a uma ética dos nns, a
podemos tropeçar neles, que estão aí no mundo, destas considerações que o ser de Deus não tem uma ética baseada na perfeição ou cumprimento das
Como já vimos antes Tomas de Aquino aceita do
que existem, tanto a pedra como o homem. Para qualquerlimitaçãoe inclui toda a perfeiçãopossível, exigênciasda naturezahumana. Tomas de Aqui-
aristotelismo, que a felicidade é o fim último do
Aquino, as proposições «a pedra existe» e «a já que nenhuma essêncialimitada o coarcta: a llo, seguindoAristóteles,adere a esta concepção
homem, que o conhecimentoda naturezahumana finalista, teleológica, da natureza.
árvore existe» não significam exactamente o essênciaé o seu ser e é, portanto, o próprio ser
subsistente. permite especificar um conjunto de normas morais
mesmo,pois existir é o acto da essência,e a
ique constituem a lei natural. Continuando a tradição 2.4.2. 11xistênda da Id. natural
essênciada árvore e da pedra são distintas. Por
filosófica grega, Tomas de Aquino regressa à análise
isso em vez de falar de existência seria mais 2.3.3.Actodeserepaiticipação da natureza humana. De acordo com a teleologia aristotélica, Aquino
correcto falar de ser; seria mais correcto não só
Seessência e ser se identificam em Deus, o mesmo afirmaque o homem,à semelhança
de qualquer
conceptualmente mas também terminologi- As reflexõesdos Gregosem torno da natureza
não acontece com os entes criados, que são outro ser natural, possui certas tendências enrai-
camenle, já que S.Tomas utiliza as palavras humana como fonte de normas de conduta haviam
compostos de essência e ser. Os entes criados zadasna suanatureza.O termo «tendência»
não
«essezzlía»
e «esse»(«sse»,como é sabido, é o tomado claro que háduasarmas fundamentaisde a
participam do ser em grausdistintos, segundoa deve induzir em erro; esta palavra adquire õequen-
infinitivo que equivale a «ser»).Deveria portanto interpretar:a concepçãomecanicista e a con-
capacidade de ser das suas respectivas essências. temente, em psicologia, um sentido mecanicista,
falar-sede «seD,e de «actode seD». cepção finalista. Efectivamente,a interrogação
S. Tomas recorre assim ao conceito platónico de como impulso ou predisposição que determina a
sobre a natureza como norma de conduta pode
Por conseguinte o acto do ser desdobra-se em participação. Embora habitualmente se diga (e não conduta do indivíduo. Neste caso, como é óbvio,
fazer-sede duasmaneirasradicalmentedistintas.
diíêrentes níveis de perfeição, em graus mais ou sem razão) que Aquino é aristotélico, é no entanto deve entender-se não como pulsão mascomo linha
menos pedêitos, segundo as essências que em cada necessário afirmar que a inspiração mais profunda Em primeiro lugar pode-se perguntar, como o de conduta orientada para um fim específico.
caso actualiza: o acto de ser é mais perfeito num do seu pensamento não é aristotélica, mas platónica, fberam os sofistase, depois, Epicuro, o quc é que de A natureza humana possui certas tendências. Isto é
entendimento do que num animal; maisnum animal neoplatónica. facto, leva os homens a agir. A resposta adequadaé algo que o homem tem em comum com os outros
11 do que numa planta; mais numa planta do que sem dúvida que o que, de facto, move os homens é
a consecução do prazer e o afastamento da dor. Esta
seresnaturais, já que a existência de fins é um traço
específico da natureza como tal, e não exclusi-
resposta baseada numa interpretação mecanicista vamente da natureza humana.
da natureza -- dá origem a uma ética dos móbiles, a
Ora, o homem distingue-se dos demais seres
uma ética que procura descobrir os móbiles ou
naturais pela sua racionalidade, porque só ele é
impulsos que facticamentedeterminam a conduta
humana. l capaz de conhecer as suas próprias tendências e,
jportanto, só ele pode deduzir certas nomias de
Em segundo lugar a interrogação sobre a natureza :onduta orientadas no sentido de dar-lhes o
humana como fonte de normas de conduta pode cumprimentoadequado.
formular-se inquirindo qual o fim para cujo cum- Demonstra-seassim, na opinião de Tomas de
primento o ser humano está orientado; foi essaa Aquino, a existência da ]ei natura]: como ser racional
linha seguida por Platão e desenvolvida por que é, o homem pode formular certas normas de
Aristóteles. Neste caso, não se trata de saber o que conduta, (!ggçglg2Êgm as exigências da sul121épria
é que de facto leva o homem a agir, mas de descobrir natureza

ki moú! € diíeíto expwemu. Por mweguinte. qualquer leí hwnma terá


Coma Smm Agostinho diz, «aiei que 11ãoé justa, Mo carácter de }ei dade que derme da }ei da miuraa; e $e
A. d{ Buonaiuto.
prece qüe seja ]ei». Portanto a força da }et depende do © alistar nalgum ponto da ki natural lã não será td mw
Auemóis.l)etalbe do
seu grau de liistiça. Á lustig da coisa humanasé con!:1lpçãoda leí.
rriudo de S. Tomas. proporciona! à sua mnhrmídade à nona:nada razÉlo.E
Sa7tta Mana Nomeia, a primdía nooíRada razãoé a lei natural,como já S. 'hmás de Aquillo, üffm 7boí@ím 1-1{, q. 9S, art, 2.
F/orença
kÍi:ÜMÁS DF AQUiNO E O APOGEU DA ESCOLÁSTICA 2 SÍNTESE OE ARI$TQTFI:I$MQ
F;PÇ4TQNI$MQ
ÇMTOMASOE AQUILO
2.4.3.Conteúdoda Id natural orientadora da conduta para todos os homens, os exigência moral e é também o fundamento do por uma lei moral que respeita a sua liberdade. A
seus preceitos terão de ser facilmente cognos- direito.
O conteúdoda lei naturaldeduz-seportanto do fundamentação teológico-religiosa leva S. Tomas
cíveis, de modo que todos os homens possam
repertório das tendências naturais do homem. a considerar a lei natural como a parte da lei
estar a par deles. Relativamenteàs outras duas etcrna que se refere especificamente à conduta
Tomas de Aquino põe em evidência a existênciade
propriedades, a universalidade e a imutabilidade 2.4.6.A lei natural e a oMem do Universo humana
trêsordensdetendência:
da lei natura são dadas pelo conceito de natureza, A lei natural,enquantoprincípioordenadorda
a) Enquanto substância (e, portanto, do mesmo entendida como aquilo que é comum a todos os conduta humana, não é algo desligado da ordem
modoque qualqueroutra),o homem tende a homens, apesar das diversidades culturais, raciais, geral do Universo em que o homem está inserido. O conceito da lei natural, enquanto ordenação
conservara sua própria existência.O cum- etc., e como aquilo que permanececonstante A totalidade do Universo encontra-se submetida a racional da conduta humana baseadanas
primento desta tendência impõe o dever moral de através das mutações históricas, etc., a que o ser uma ordenação, que S. Tomas, de acordo com as solicitações da natureza, gozou de indubitável
procurar a conservaçãoda vida. humanoestásubmetido.
exigências da doutrina cristã da criação, atribui a prestígio no pensamento ocidental. Na Idade
Deus como causacriadora do Universo. Esta orde- Moderna
-- e muito especialmente
no Ilumi-
b) Enquantoanimal(e, por conseguinte,
como
todosos outrosanimais),o homem tende a nação divina do Universo recebe o nome de lei nismo este conceito bi retomado, embora com
2.4.5.1,einatuiü e ]ei positiva etema (conceito que se encontra em St.' Agos- base numa concepção diferente da natureza e
procriar. Desta tendência é possível deduzir certas
normas de conduta relativas à consecução do íim da Tomas de Aquino formula as relações entre a lei tinho e que procede,em última análise,de prescindindoda sua fundamentação
teo-
natural e a lei positiva (as relações entre pXysis e Heraclito). lógica. Na sua brmulação tomista, a teoria da lei
procriação e cuidado dos filhos;
lzomos) de um modo sistemático e preciso: A lei edema é definida por Tomas de Aquino como a natural constituiu e continua a constituir o eixo
11 c) Enquantoser racional,o homem tende a l.Em primeiro lugar, a lei positiva é uma «razãoda sabedoriadivina enquanto orientadora de fundamental da doutrina moral católica
conhecer a verdade e a viver em sociedade.(A
exigênciada própria lei natural. Comefeito,a todos os actos e movimentos». Ora, esta ordenação Combatida pelo relativismo sofista,a teoria da lei
sociedade implica a ordenação racional da con- geral do Universonão regulade igual forma o
lei natural impõe a vida em sociedadee estasó é natural hi também radicalmente criticada no
vivência com vista à consecução de certos fins e, possível com base em normas legais que regulem a comportamento humano e o dos restantes seres
pensamento contemporâneo pelo historicismo
portanto, é algo especificamente humano, que não
convivência.
A positivanão é, pois, o mero re- naturais. O comportamento destes é regulado («ohomem não tem natureza,tem história»,diz
pode confundir-se nem identificar-se com a manada sultado de uma imposição caprichosa por parte dos através das leis físicas a cujo cumprimento não Ortega y Gasset) e pelo existencialismo, que
ou com o rebanho.) Destas tendências derivam as mais fortes ou de um arbitrário convénio entre podem subtrair-se,pois carecem de liberdade. O negaram a existência no homem de uma natureza
11 obrigações morais de procurar a verdade e respeitar iguais, mas algo exigido pela própria naturezado homem, ao contrário, é um ser livre e daí que a sua tal como é concebida por estateoria.
as exigências da justiça.
homem enquanto ser social. conduta seja ordenada, não por leis físicas, mas
Este quadro cinge-se exclusivamente a preceitos
2.Em segundolugar,a lei positiva constitui um
morais de carácter geral, devendo ser poste-
prolongamento da lei natural; o seuconteúdo
riormente particularjzados. E nessa particularização
particulariza as normas morais naturais, as quais,
que surgem os maiores problemas desta teoria. Por dadas as suas características. não descem à orde-
exemplo: até onde vai a exigência natural de con-
nação pormenoijzada da convivência humana
servara própria existência?E lícito pâr a vida em
perigo em caso de guerra? Que pensar da greve da 3. Por último, as exigências da lei natural
fome? etc. Perguntas análogas podem fazer-se a deverão ser respeitadas pela legislação
respeito dos restantespreceitos primários contidos positiva. A lei natural constitui assima norma ou
Leinaturaleleipositiva casaneste ou naquele modelo de casa.Analogamente,
na dedução geral de Tomas de Aquino. marco que assinalaos limites dentro dos quais se As coisaspodem derivar da lei natural de dois modos algumascoisas derivam dos princípios comuns da lei
organizarámoralmentea convivênciahumana. primeiro,do mesmomodoqueasconclusões são natural por meio de conclusões. Assim, o princípio
Esta forma de interpretar as relações entre a lei derivadasdos princípios;segundo,por meio da «nãomatarás»pode ser derivado como uma conclusão
2.4.4.Propriedades
da lei naüual determinação, do mesmo modo que as determina- do princípio «Não prejudicarás o teu semelhante»
natural e a lei positiva torna manifesto que Tomas
ções de certas noções comuns, O primeiro modo é Outras coisas são derivadas por determinação: por
Visto que a lei moral natural se deduz das ten- de Aquino não concebe o mundo do direito e o
semelhante ao das ciências, porque se tira conclusões exemplo, a lei natural impõe um castigo a quem peca;
dências da própria natureza, o seu conteúdo mundo da moral como dois reinos desligadose in-
demonstrativas dos princípios. O segundo assemelha porém, que se deva castigar ou aplicar uma pena é uma
deveráser evidente, universal e imutável. A dependentes.O direito está inserido na moral -se aos procedimentos das artes, em que as formas determinação
dalei natural.
primeira destas propriedades, a evidência, é e o ponto da inserção é precisamente a ideia genéricasse concretizamem algo particular:por

M exigida pela função que Ihe cabe desempenhar na


lei natural: uma vez que deverá ser norma objectiva
de justiça. Efectivamente,a justica como exi-
gênciade dar a cada um o que Ihe pertence, é uma
exemplo, o arquitecto concretiza a forma genérica de S. Tomas de Aquillo, Su#za 7êo/égfca / iC q. 95, ârt. 2.
l OS LIMITES DA RAZÃO E A PRIMAZIA DA VONTADE
1.1. Duns Estofo e Guilherme de Ockham reside no facto de Escoto ser franciscano e, como
INTRODUCÃO
tal, ligado à tradição augustiniana.(No capítulo
No panoramafilosófico do séculoXIV desta-
terceiro frisa-mos que o augustinismo seria a
O título deste capítulo utiliza o termo«crise» para caracterizar a filosofia do século XIV. Trata-se. cam-se as figuras de dois franciscanos, Escuto e
corrente filosófica aceite pelos franciscanosno
Ockham. Existem certos pontos de coincidência
efectivamente, de um período histórico de crise, nos diferentes sentidos da palavra Crise, em primeiro séculoXlll). O sistema filosófico de Duns Escoto
entre ambos: como veremos, algumas das teses
lugar, no sentido de crítica: os filósofos do século XIV-- e de modo muito especial o mais pode ser analisado a partir da dupla perspectiva do
desenvolvidas por Ockham estão já esboçadas
representativo de todos, Ockham -- submetem à ct'ética aspróprias basesde toda a fHosofiaanterior. aristotelismoe do augustinismo.
em Escola. Os pontos de coincidência entre eles
O século )(IV é, em segundo lugar, um século de crise, entendendo por essetermo aquele estado de
são no entanto menores do que os pontos de
coisasem que uma situação se precipita para dar lugar a uma nova situação. Estaprecipitação a) O conhecimentodasrealidadessingulares
discrepância.
ocorre num duplo âmbito que convém destacar. Apesar de entroncar na tradição augustiniana,
Escoto abandonou algumas teses do augustinismo,
Em geral, o século XIV assiste ao desmoronamento das estruturas político-religiosas da Idade Média
cristã: a harmonia do duplo poder (o político do Imperador e o religioso do Papa) deteriora-se 1.1.1. A 61osolia de Escoto entre elasa da Iluminação,um abandonoque
obedece sem dúvida à influência do Aristotelismo.
definitivamente Por um lado, o Império desmembm-senuma multidão de Estadose principados que
Para começar, assinale-seque Escoto nasce na o qual explicava o conhecimento das verdades
reclamam a sua própria soberania; por outro, o Cisma do Ocidente divide a Igreja e os concílios da
segundametade do séculoXlll e morre logo no e essênciasuniversaispor meio da abstrac-
épocavêem surgir a luta entre os que defendem a autoridade do Papasobre o concílio e os que
dealbar do século XIV (1308). E pois um filósofo ção. Seguindo Aristóteles no fundamental Escoto
declaramser partidários da superioridade do concílio sobre o Papa Os dois poderes não só se
cujo pensamento mantém ainda a marca carac- admiteque o conhecimento do universalse efectua
desagregam, como até se confrontam entre si.
terística dos pensadoresdo século Xlll: o sis- por meio de um processode abstracçãoa partir do
No que diz respeito à íilosoâa, o século XIV representa não só a queda das grandes síntesesfilosóRco- conhecimento
das realidadessensíveis,
e nisto
tematismo, ou seja,o empenhamentoemconstruir
-cristãs, elaboradas sobre bases gregas, mas também a aparição de ideias novas, cujo desenvolvimento um sistema filosófico sólido e coerente, susceptível coincide basicamente com Tomas de Aquino.
conduzirá, em alguns aspectos,à Idade Moderna. de explicar a totalidade do real. A sua mente é No entanto separa-sedeste no que diz respeito ao
primariamente consfml/ua. Como Tomas de Aqui- conhecimentodas realidadessingularesque
no, constrói um monumental sistema, vigoroso e segundo S. Tomas, não são conhecidas directa-
original; como S.Tomas,esforça-sepor assimilar mente pelo entendimento. Escuto não partilha
todos os aspectosdo aristotelismo que Ihe parecem desta opinião e afirma que o entendimento
dignos de ser assimilados. conhecedirectamente as realidades indivi-
O sistema produzido por Escoto é sem dúvida duais (este indivíduo, aquela árvore concreta,
muito diferente do de Tomas de Aquino, etc.) por meio de uma intuição imediata
criticando-o e contradizendo-o muitas vezes.Uma confusa. O entendimento capta pois, abstracti-
das raízes da diferença existente entre ambos vamente o universal (e nisto coincide com Tomas

DunsEscoto
Nasceu na Escócia em 1266 e cedo ingressou na Ordem fran- subdezadasanálises
valeu-heo
ciscana.
Realizouos seuses- cognome de «Doutor Sub-
tudos em Cambridge,Oxfbrd e til».O seu sistema meta6-
Paria, sendo posteriormente sico--recolhido e conservado
professornestasduas últi- na tradicão escolásticaesco-
mas universidades. Morreu Eista-- é o último dos grandes
em plenamaturidade,
coma sistemas âlosóficos medievais.
idade de quarentae doisanos Entre as suas obras desta-
Estecapítulo divide-se do seguinte modo:
1. 0s limites da razão e a ptÍinazia da vontade. (1308j}.Apesar disso, Escoto cam-se:Ordí7za/!o((»us oxo-
2. Guilhemte de Ockham e a crise da tradição filosófica. deixou uma produção notável, niense) e Reportada pari-
M 3. As contribuições físicas dos cientistas do séc. XIV. em extensão e qualidade.A sien,sia(Opusparisietw)
l

(3 çuiLHERME OE OCKnAM E A CRISE ESCOLÁSTICA l OS LIMITES DA RAZÃO E A PRIMAZIA DA VONTADE

dominantes na época, mas ele próprio constitui uma partir de fora da filosofia(por submissão da razão a
Guilherme de Ockham Bíblia e d8 ünle/zças de Pedra envolvido na luta entre o Impe- síntese, um sistema (em cuja exposição não outras instânciasestranhas),mas não pode ser
Nascido na última década do Lombardo.Algumas das suas rador e o Papa,tomando partido entraremos).A atitude de Ockham,cuja actividade bloqueadaa partir de dentro dela própria, ou seja,
séc.Xlll, ingressou
muitojovem dou-tinas foram denunciada em activo pelo Imperador Luís da intelectual enche a primeira metade do século ){lV, de acordo com as exigências que a sua própria
na Ordemfranciscana..Estudou 1323, em Avinhão, aonde se Baviem.Quandoestemorreu em é radicalmente diferente. Ockham é antes de mais naturezaimpõe
em Oxford, onde fói Leitor da deslocou o próprio Ockham no 1347, Ockham procurou recon- um crítico demolidor de todos os sistemasfilo- Além disso, a atitude crítica ante os sistemas fUosóficos
anoseguinte,parasedefênderda ciliar-secom a Igreja, embora não sóficos precedentes,do aristotelismo,do augus-
saibamos $e a se
do século Xlll não recebeu impulso apenas da
acusação. O processo durou Einismo, dos sistemas tomista e escotista. Filosofia, mas ainda, e em segundo lugar, da própria fé
vários anos e não chegou a con- chegou a produzir formal-
mente.Morreu dois anos mais O critidsmo, uma nova maneira impulsionada cristã, a qual, em muitos casos,viu nestesgrandes
cluir-se, quiçá porque Ockham
fugiu de Avinhão em 1328, unin tarde (1349) em Munique. por Ockham de praticar a filosofia, é a atitude sistemas um perigoso inimigo. Efectivamente, eram
do-se aos franciscanos«espiri- Além dos seus escritos polémicos
característica e generalizada no século XIV. O seu muitos os que pensavamque a assimilação
do
tuais,-na interpretação da pobreza contra o Papa,Ockhamescreveu florescimento sem dúvida foi favorecido pelas aristotelismo e do averroísmo contaminava
evangélica,o que implicava uma numerosas obras teológicas e circunstânciassociopolíticasa que aludimos na perigosamente a fé com excrescências
estranhasde
crítica radical ao Pontifica filosóficas. Merecem destaque o introdução do presente capítulo. Importa porém origem grega e muçulmana.
Esta atitude de
do. Excomungado nesse mesmo Comentado às se?ife#ças e a ter em consideração outras razões estritamente desconfiança perante a filosofa e, anal de contas,
ano pelo Papa, Ockham viu-se Sumia totius logicae. filosóficas que estimularam o seu desenvol- da lazão favoreceu o florescimento da mística.como
vimento. O criticismo do séculoXIV é, em primeiro altemativacontra o racionalismoRlosófico.O século
lugar, uma consequência da nova visão da filosolla XIVcaracteriza-se
pelapreeminência
do aiticismo
surgida no século Xlll com base no descobrimento no campo filosófico e do misticismo no campo
de Aquino) e directamente,intuitivamente, o superior a ele. Com efeito, o entendimento não é
individual (e nisto discorda totalmente de do aristotelismo.Depois de séculos de augus- religioso.
l livre paraadmitir ou não asverdadesque capta(por
Aquino). exemplo, o entendimento não pode discordar de [inismo, entrara-se pela primeira vez em contacto
com um sistema que nadadeviaao cristianismo nem
um teorema quando capta a sua verdade): o
b) A primazia da vontade e a liberdade à Bíblia, um sistema que não dependia de forma
entendimento é certamente uma potência natural, a 1.2.Limitesda razão e âmbito da fé
vontadenãoo é. alguma da revelação judaico-cristã, mas que aparece
Apesar de rejeitar algumas teses características da como resultado da razão, funcionando por si mesma O problema das relaçõesexistentes entre a razãoe a
corrente augustiniana, Escoto mantém algumasdas e à margem da fé. Esta circunstância favoreceu fé -- cuja eclosão teve lugar no século Xlll com base
Conhecimentodirecto,intuitivo, dasrealidades
suas afirmações fundamentais, por exemplo, o amplamente a ideia de que a razão e a Filosofia são na aparição em cena do aristotelismo -- continua a
individuais por parte do entendimento; primazia autónomas
pluralismo das formas e a primazia da vontade sobre ser uma questão fundamental no pensamento do
da vontade sobre o entendimento assente na
o entendimento.Estaúltima tese baseia-senuma
A concepção da Filosofia como disciplina autó-noma século XIV. O averroísmo defendera que razão e fé
liberdade como essênciadaquela: eis as duas
análise da vontade que terá uma importância favoreceupor seu turno o criticismo: a Filosofiaé podem proporcionar inbrmações diferentes mas
afirmações em que Escoto se pode considerar
decisiva no pensamento do século XIV. Para essencialmentecrítica, revê os seus pressupostos e também contraditórias acerca dos mesmos conteú-
um precursor de Ockham; o terceiro ponto em
compreender o pensamento de Escutosobre este condusões; e esta tareíà lítica poderá ser bloqueada a dos(imortalidadepessoal,origemdo mundo)
assunto será conveniente, uma vez mais, o recurso a que Escoto se antecipa a Ockham é o respeitante
aos limites da razãoe à sua relação com a fé. A
uma comparação entre este e Tomas de Aquino.
isso nos referiremos mais adiante
Aquino estabeleceque a vontadesc caracterizapor
ser uma espécie de apetite ou tendência; enquanto Serápossívelprovar de forma razoávelque a (. . .) Em relação ao segundo, afirmo que czz;olz/adeé
potência natural, a vontade tende necessariamente vontade origina livremente os seus actos de livre e que nenhuma razão comegueprovar isso
1.1.2.O cdtidsmo de Ockham modo ehctivo?
ao bem e à felicidade; enquanto vontade, tende demonsrrczl/uamen/e, lá que qualquer razão que
(. ..) Nesta questão exporei primeiro o que é que pretendesse prova-lo comportaria alguma afirmação
livremente aos bens particulares.Esta análise é É inegável que com Escoto aparece uma atitude
entendo por liberdade e em segundo lugar debruçar- tão ou maisd do que a própria con
rejeitada por Escoto. Onde não há liberdade, não há abertamente crítica relativamente às grandes sín-
.me-ei sobre a questão. clusão.Contudo pode ser conhecidade modo
vontade em sentido estrito; portanto, o que Tomas teses filosóficas vigentes no século X]]](augus- evidenteatravésda
Quanto ao primeiro, chamo liberdade ao poder pelo com efeito, o homem
de Aquino denomina «vontade como potência tinismo, arístotelismo, tomismo): a sua posição ante qual eu posso, indiferente e contingentemente, sabe que por mais que a razão Ihe date algo a vontade
natural» não é, estritamente falando, vontade. A asduas questõesa que nos referimos em epígrafe estabelecer coisas distintas, de modo que posso ou não humanapode ou não querer fazê-lo.
vontadecaracteriza-se
por serlivre.A essênciada anterior é disso prova evidente.No entanto, a causar o mesmo efeito sem efectuar mudanças em

B vontade é a liberdade e, precisamentepor isso,a


vontade é mais perfeita do que o entendimento e
atitude crítica não exclui em Escola uma vocação
sistemática.Escoto critica as síntesesfilosóficas
nadaexceptonaquelapotência. Ockham,
Qzlod.1,questão16.
l

10 GUILnERME PFQÇIÇt14M
F4 ÇBI$F
F$ÇQÇ4$TIÇ4 l os LIMITES
OALAZÃO
f APKlnAziÁbiVÕiiiii
Tomas de Aquino recusou que tal situação pudesse atributos divinos como a omnipotência, a imen- 1.3. Voluntarismo divina
sidade, a omnipresença,a justiça, a misericórdia e são assim porque Deus o quis masDeus
realmente produzir-se: visto que a verdade é única, podia [er querido de outra maneira. Se tivesse
a razão e a fé não podem sustentar afirmações a providência na sua acepção cristã, não podem ser Os preceitos morais têm a mesmasorte que o tcma
de Deuse o temada alma.Tomasde Aquino querido, porque é que Deus não poderia ter criado
incompatíveis. Nos âmbitos em que uma e outra se demonstrados por procedimentos filosóficos e
aceitara que todos os mandamentos do Decálogo um mundo em que o roubo e o adultério fossem
pronunciam, os seuspronunciamentos terão de ser exclusivamente racionais: pertencem ao âmbito
permitidos? Mais ainda. acrescenta Orkhnm
brçosamente harmónicos e coerentes. dafé sao acessíveis ã razão, por serem preceitos da lei
Ockham é mais radical ainda. Não só os atributos natural. Escola limita a afirmação de Aquino aos tivessequerido porque não poderia Deus ter
O compromisso que Tomas de Aquino elaborou
dois primeiros preceitos, isto é, àqueles que criado um mundo em que o ódio a Deusnão fosse
entre ambasincluía, como frisámosno capítulo mas também a própria existência de Deus é proibido mas recomendado?
11 anterior, a afirmação essencial de que uma e outra indemonstrável pela razão. Ockham chegaa prescrevem as obrigações do homem para com
Deus. Para Ockham, nenhum dos mandamen-
lll
possuem conteúdos comuns: razão e fé delimitam esta conclusão a partir da sua maneira peculiar de Com estas considerações, Ockham não pretende
dois conjuntos com uma zona de intersecção cujos interpretar a causalidade,o conhecimento que o tos é de lei natural: Deus poderia [er criado um certamente combater a ordem moral estabelecida
elementos pertencem a ambas. A tese de que alguns homem tem das causase dos efeitos.Que os mundo no qual o ódio a Deus não fosse pecado por Deus: assim foi imposta por Deus e o homem
mas virtude
conteúdos são comuns a ambasimplica que a razão fenómenos possuem causas,é inegável. no entender não pode altera-la. O que Ockham pretende é
pode pronunciar-se sobre certos artigos de fé. Isto de Ockham.Este princípio geral não basta no Esta forma de interpretar a moral do cristianismo é sublinhar a omnipotência e a liberdade divã.
supõe evidentemente um risco: que a razão venha entanto para determinar a causa em cada nas. A sua posição é o resultado de levar às
consequênciado voluntarismo teológico defen-
a pronunciar-se
contraos artigosda fé, como caso.Suponhamos que analisamosa dilataçãode dido por ambos.Parao compreender adequa- últimas consequências o primeiro artigo do
aconteceu com os averroístas. No entanto, possui um metal. O princípio geral de que os fenómenos damente, será útil recordar o modo como os Credo:«Creio em Deus todo poderoso».A
uma vantagem indubitável e de grande alcance, possuem causasgarante-nos que tal dilatação tem gregos encaravam o problema das normas liberdade divina não está submetida a nenhuma
que a razão não se desvincula da fé, nem a teologia uma causa, mas não nos serve para decidir qual morais. Estassão o resultado da natureza ou então regraou necessidade.
da filosofia; têm sentido um tratado filosófico de seja exactamente a causa neste caso.SÓ a o resultado de uma convenção. Parte das leis do
O voluntal'esmo teológico é a aplicação radical ao
Deus (demonstração de sua existência e atributos) observaçãonos permite saberqual a causaconcreta Decálogo segundo Escola, e todas, segundo casode Deus da tese que defende que a vontade, é
em harmonia com a teologia revelada; têm de cada fenómeno. No nosso exemplo, a obser- Ockham, não são naturais, nem imutáveis por- superior ao entendimento e que a sua essência é a
sentido uma antropologia e uma ética filosóficas vação de que a dilatação se segue ao calor permite- tanto. Sãoconvencionais.Sãoo resultado de uma liberdade. Esta tese foi lá anteriormente analisada
(imortalidade da alma, lei natural), concordes com nos saber que este é a sua causa. convenção, não de uma convenção humana mas ao refêdrmo-nos a Duns Escoto
a fé e a moral cristãs (o decálogo). Ora,esta demonstração da causalidade torna
O pensamento do século XIV elimina esta zona de impossível a demonstração da existência de
intersecção entre a razão c a fé. Se para S. Tomas, Deus: podemos estar seguros de que há uma causa
uma e outra são fontes de informação diferentes, primeira da qual provém o Universo, mas, ao carecer
em alguns casos proporcionam informações da observação necessária,não podemos concluir
comuns, para Ockham trata-se de fontes distintas, definitivamente que tal causa seja o Deus criador
com distintos conteúdos também. As proposições que é objecto da fé cristã. Com suas concepções
que Tomasde Aquino consideravacomunsa acerca da relação entre causas c efeitos e do nosso
ambas são agora declaradas racionalmente inde- conhecimento da mesma, Ockham adianta-seàs A alma: & e conhecimento
discorda segundo a razão natural. E também não
monstráveis e, portanto, exclusivamente objecto teorias empiristas modernas e é possívelconsiderá- Se por alma se entender uma forma intelectiva
pode ser provado pela experiência, lá que apenas
de fé religiosa.O âmbitodo acessoda razãofica -lo como um precursorde Hume. imaterial e incorruptível, inteiramente presente em
experienciamos pela intelecção, volição e outros
qualquer corpo e em qualquer parte deste, nem o
deste modo extremamente reduzido. Este pro- actossemelhantes.Quem discorrer segundo a razão
cessolimitador do alcance da razão culmina em b) O mesmo processo de limitação do alcanceda raciodnio nem a experiência nos permitem saber com
apoiada pela experiência, diria que se trata de acções
razão observa-se nos temas respeitantes à segurançase essaforma existe em nós. se a nossa
Ockham e tem um predecessor em Duns Escoto e operações causadase recebidas naquela arma, por
antropologia. Duns Escoto afirmara que não são actividade intelectual pertence a essa substância ou se
ürtude da qual estabeleceriaassimque o homem se
como já indicámos.
demonstráveiscertos atributos que a antro- [a] almaé forma do corpo Não me preocupamas distingue dos seres irracionais Se bem que, de
a) No tocante ao tema de Deus, já Duns Escoto pologia cristã reconhece à alma: é o caso da exposições de Aristóteles acerca disto pois sempre acordo com a fé e a verdade, esta seja a alma
espiritualidadee da imortalidade.Como no me pareceu hesitante. Mantemos, no entanto intelectiva e forma incorrupdvel, no entanto aquele
nega que vários atributos divinos sejam estrita-
estas três afirmações.exclusivamente pelafé.
mente demonstráveis. A razão pode certamente tema de Deus, Ockham vai ainda mais longe do diria que é forma extensa,corruptível e gerável E
(. .) Eevidente
que isso não pode ser demonstrado,
demonstrar a existência de Deus. e Escuto brmulou que aquele,afirmandoque nem sequer a pois a razãoque pretendo prova-lo comportará
não parece que a experiência permita concluir doutra

D provas de indiscutível interesse e originalidade


relativamente à maneira de põr o problema. Mas
existência da alma é demonstrável,
sentido estrito, pela razão.
em elementos
que suscitarão a dúvida a quem quer que l,questão lO.
a GUILHERME DE OCKHAM E A CRM ESCOLAST CA 2 GUILHERME DE OCKHAM E A CRISEDA TRADIÇÃO FILOSÓFICA

2.1. Princípio de individuação e nomina- considerar


o problemado princípio da indivi-
Entendimento e vontade lismo duação: o que é que leva a essênciahumana,
41.Mas cada uma destas potências tem em si um vontade -- é um princípio livremente activo. Por qualquer essência a individualizar-se e a realizar em
modo próprio de começar o entendimento manihsta- conseguinte, a vontade não pode ser naturalmente
diíérentes indivíduos? Tomas de Aquino, como
.sena naturezae por isso,quando comparadocom o activa, maisdo que a natureza -- enquanto princípio 2.1.1. As essências e individuação vimos, respondia que aquilo que individualizaa
seu acto, é natureza; no divino, o Filho manifesta-se na diferente da vontade -- pode ser livremente activa.
natureza,embora o seu princípio produtivo seja a 43. Então questiona-se: se a acção da vontade é mais
Ao expormosno capítuloanteriora teoriado essência,o seu princípio de individuação, é a
matériaconcreta
memória. Pelo contrário, a vontade tem um modo determinada pelo facto de estar necessitadae não conhecimento, frisámos que Tomas de Aquino
tanto pela natureza, a que se deve então o facto de a reconhece ao universal uma dupla preeminência Duns Escuto admite também a existência deste
próprio e livre de causar as coisas.Quando a
vontade se aHaao entendimento(na produção de um vontade não actuar naturalmente, embora actue sobre osindivíduos. problema e considera que o princípio de indi-
mehcto, por exemplo), diz-seque tudo é produzido necessariamente? viduaçãoé uma brmalidade última que denomina
Resposta: todo o agente natural é absolutamente
a) Preeminência
no âmbito do conhecimento
livremente e segundo um propósito ou intenção, .estidade»isto é, formalidade que faz que isto seja
intelectual, enquanto o entendimento só conhece
porque a intençãoé o princípio superior e imediato da primeiro, ou é posterior por algo anterior natu: isto, que esteindivíduo concreto sejaesteindivíduo
directamente o universal e indirectamente os
produção extrínseca.Se alguma potência naturalmente ralmente determinado para a acção. Deste modo, a concreto e nao outro.
activa se alia algumas vezes cona a vontade, a acção que vontade nunca poderá ser o agente absolutamente indivíduos graças a uma espécie de reflexão sobre as
Ockham rejeita o problema do princípio de
deriva do princípio naturalmente activo é propriamente primeiro. Embora também não possa ser deter- imagens particularesl
individuação por o considerar falso, um pseudo-
natural;usamosd potência livrementepois o acto na minada naturalmente por urn agente superior, a
b) Certaprimaziano âmbito da realidade. Esta problema que tem origem numa confusão.Com
sua todidade subjaz à vontade, e asim diz-se que vontade é de a maneiraactivaque se determina a si
primazia no âmbito da realidade não significa que eíêito, o problema do princípio de individuação
actuamoslivremente de acordo com a potência mesma à acção(quando quer algo necessariamente,
S. Tomas admitisse a existência de essências provém da consideraçãode que a mesmaessência
superior(. . .) por exemplo A); todavia,o seuquerer não é causado
42.Conclusão: a vontade nunca é um princípio naturalmente pelo que causaa vontade -- embora o universais (o homem, a árvore, etc.) como fizera se encontra multiplicada nos diferentes indivíduos
natural, mesmo que a sua acção possa sofrer a causassenaturalmente --, mas, uma vez accionado o Platão.Tomas de Aquino nunca admitiu este a essênciade Sócratesé a mesmaque a de Platão,
concorrência de algum princípio naturalmente activo acto primeiro pelo que é causado, a vontade, abando- exagero platónico. Mas mesmo que aos nossos que a de todos e de cada um dos homens.No
que Masseper se -- segundo uns, o objecto; segundo nada a si mesma, determina-se a ul querer, possuindo conceitos universais não correspondam na realidade entender de Ockham, isto é um erro monumental: a
outros, o entendimento. Ser naturalmente activo e ou não contingentemente um dado querer. essências universais, como as ideias de Platão, a essência de Sócrates é somente a essência de
ser livremente activo são diferenças primeiras do universalidade
do conceitotem fundamentona Sócratese não se distingue em absoluto do próprio
princípio activo, e a vontade -- e por Isso se chama DunsEscoto,Qzzesrões
Quod/ióéfíca$questão16,$ 3 realidade: a essência ou natureza, que é a mesma em Sócrates. a essência de Platão é somente a essência
todos os indivíduos a que o conceito se aplica; por de Platão, etc. Não há pois uma essênciamul-
exemplo,ao conceitouniversalde homemcor- tiplicada em diferentes indivíduos, mashá tantas
responde na realidade a essênciahumana, a qual se essênciascomo indivíduos. E como a essênciade
encontra multiplicada nos indivíduos humanos e é a Sócratesse identifica totalmente com o próprio
mesma em todos eles. Sócrates e como em geral a essência de um
Admitir que a essência humana se encontra mul- indivíduo se identifica totalmente com o indivíduo
tiplicada nos indivíduos humanos levava a em questão, a pergunta «a essênciaé individual em

Contra o princípio de individuação acrescenta, também o comum não pode tornar-se


(.. . .) Em primeiro lugar demonstrarei esta conclusão= singular por algo que se Ihe acrescente;!ogo, o
que qualquer coisa é singular por si mesma.E singular é singular por si mesmo e não por algo
argumento do seguinte modo: a singularidade acrescentado
convém de modo imediato àquele do qual é (, ,.) Assim,toda a coisaexterior à Mente será
singularidade; logo, não pode convir-lhe por algo por si mesma. E não é necessário
distinto; logo, se algo é singular, é singular por si procurar uma causa da individuação, a não ser causas
mesmo. Além disso, a relação que o universal tem extrínsecas
e intrínsecasquandoo+indivíduoé
com o ser universal é a mesma que o singular tem composto:com maisíwâo

Im
com o ser singular; logo, assim como o singular não como é possívelque algo seja
pode tornar-se universal ou comum por algo que se OCkham, / 9zzf. 9.6, par. 2.
T

(aÇUILHERME OE OCKHAM E A CRISE ESCOLÁSTICA PÇQÇIÇHAMFA ÇBI$ÇPATMPIÇÃO FILOSÓFICA


? ÇUIItIFBMF
que garantiam aos gregos a racionalidade, a Evidentemente, pode fazer-seao nominalismo de
Contraosarquétipos efeito, a criatura é conhecida pelo princípio intelec- ordem,a permanência
do Universo. Ockham a seguinte pergunta: como é que o
Esta descrição dos argzlé/@os é esclarecida por tual activo e Deus tem isso em consideração para a
Ockham pensava que a concepção grega da conceito de homem é universale aplicávela todos
Sénecana ÉPÜ/o&z6á na qual, depois de enumerar M produzir racionalmente.Por muito que Deus
essência e da natureza anulava ou, pelo menos. os homens se entre eles não há identidade de
quatro causasde AristoEeles,diz o seguinte: «aestas conheça a sua própria essência, estaria a criar de
acrescentaPlatão a causaarquetípica, à qual chama modo desconhecido e não racionalmente, se não punha em perigo a liberdade e omnipotência essência?A esta pergunta responderam os nomi-
«ideia«,e que é aquilo que o artíãce contempla a fim conhecesseo que vai criar; por conseguinte, não divinas. Eliminadas as ideias exemplares, eli- nalistas do séc. )(IV -- e de outros séculos: o conceito
de fazeraquilo que pretende ( .)». Estaautoridade criará por meio de uma ideia. Logo, considera minavam-se as essências como algo de con- de homem é aplicávela todos os homens, não
afirma que as ideias são determinados arquétipos realmente a criatura propriamente criável e, consi- sistente e imutável. Com estasficava eliminada a porque os homens possuam a mesma essência, mas
conhecidos e que quem asconhece pode criar algo derando-a,pode
cria-la. essênciahumana e, portanto, o fundamento porque as diferentes essenciasdos diferentes
real a partir da suacontemplação (. . .) Muitas consequências decorrem do que fica possívelde umalei morale natural. indivíduos se parecem üntre si. Sócratesparece-se
(. . .) Mas esu descrição não concorda com a essência dito (. . .). Em primeiro lugar, as ideiasnão estão em Em oposição àpZyszsconcebida pelos gregos, com Platão em múltiplos aspectose daí que
divina nem tem qualquer relação com a razão, mas Deus subjectiva e realmente mas apenas objecti- Ockham concebe um Universo onde só há possamosdizer «Sócr