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A Estética Estenopéica Revisitada

Maria Helena Saburido Villar1


Luciana Martha Silveira2
RESUMO
Este artigo pretende discutir o uso da câmera estenopéica e a mediação que se estabelece entre o
artista/fotógrafo e o processo envolvido no ato de fotografar com estes artefatos. Partindo da
premissa de que o resgate do uso desta técnica pelos artistas contemporâneos se dá no sentido de
questionar os padrões, rompendo com a homologia no processo da fotografia tradicional,
buscamos entender quais as principais características da fotografia estenopéica e as
possibilidades de intervenção criativa do artista nas diferentes etapas de produção das imagens.
A simplicidade do processo e as múltiplas possibilidades de construção da câmera aproximam o
fotógrafo do processo de realização da imagem. As relações de tempo e de espaço representados
na fotografia pinhole se transformam e acabam por promover uma desconstrução de conceitos,
como se para cada nova câmera construída fosse criada uma nova linguagem. A opção estética
do artista se inicia no momento em que ele constrói sua câmera. Na medida em que subverte o
padrão convencionalmente imposto ao aparato fotográfico o artista tem condições de utilizar a
fotografia estenopéica como forma de expressão alternativa e ferramenta de criação.

Palavras-chave: Fotografia Estenopéica; Pinhole; Fotografia Contemporânea; Arte e


Tecnologia.

ABSTRACT
This text intends to discuss the use of pinhole cameras as well as the mediation established
between the artist/photographer and the process involved in the act of photographing with these
devices. Leaving of the premise that some contemporary artists are rediscovering this technique
in order to question the standards, disrupting with the common praxis of photographic images
constitution, breaching with the homology of traditional photography, we attempt to understand
which are the main characteristics of pinhole photography and the possibilities of creative
intervention in the different stages of image production. The simplicity of the process and the
multiple possibilities of camera construction approach the photographer to the process of image
accomplishment. Time and space relations represented in pinhole photography are transformed
and finish provoking a deconstruction of concepts, as if a new language was created for each
new camera built. The artist’s aesthetic option begins at the moment he builds the camera. At
the same time the artist subverts the conventional pattern imposed to the photographic
apparatus, this artist has conditions to use the pinhole photography as an alternative expression
medium and creation tool.

Keywords: Pinhole; Contemporary Photography; Art and Technology.

1
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia Universidade Tecnológica Federal do
Paraná, PPGTE - UTFPR . e-mail: mhsvillar@yahoo.com.br
2
Prof.a Doutora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do
Paraná, PPGTE - UTFPR. e-mail: martha@utfpr.edu.br
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A Estética Estenopéica Revisitada

Do mito da caverna de Platão aos dias de hoje, a representação do mundo


através das imagens nos fascina não só pela magia da própria representação como pela
ilusão de realidade que por muitas vezes somos tomados. A fotografia, por sua gênese
mecânica, de certa forma enfatiza essa ilusão e traz consigo uma série de
questionamentos conceituais acerca da semelhança que a aparência de suas imagens
apresenta com a realidade.
Neste trabalho, discutiremos algumas questões no entorno da produção de
imagens através de uma técnica fotográfica específica, utilizada na segunda metade do
séc XIX pelos fotógrafos artistas do pictorialismo e resgatada pelos artistas
contemporâneos: a fotografia com câmeras de orifício, mais conhecida como fotografia
estenopéica ou pinhole (termo inglês para buraco de agulha).
Uma câmera estenopéica é basicamente um ambiente vedado de luz com um
pequeno furo de um lado e um material fotossensível do outro. A luz refletida pelos
objetos passa pelo furo e atinge a superfície sensível formando a imagem. No lugar das
objetivas das câmeras fotográficas tradicionais, temos apenas um orifício, denominado
estenopo, encarregado de formar a imagem. Depois de receber a luz, o material
fotossensível é processado quimicamente para fixar a imagem.
Partindo da premissa de que o resgate do uso da câmera estenopéica pelos
artistas contemporâneos se dá no sentido de questionar os padrões, rompendo com a
homologia no processo da fotografia tradicional, este artigo pretende discutir
inicialmente o uso de um determinado artefato tecnológico, com foco na mediação que
se estabelece através do processo envolvido no ato de fotografar com estes artefatos
desenvolvidos pela sociedade, pela cultura e pela história.

A pinhole na produção contemporânea


As anamorfoses das imagens cada vez mais manipuláveis caracterizam a
produção imagética contemporânea. Os artistas que utilizam as novas tecnologias
digitais, tanto na produção como na veiculação de suas obras, refletem em seus
trabalhos os rumos instáveis e complexos da vida atuais (MACHADO, 1997). As
fronteiras homem-máquina/arte-ciência diminuem progressivamente, evidenciando a
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interdisciplinaridade e a necessidade de mudar nossa forma de olhar as imagens,


provocando a geração de outras modalidades de leitura.
No contexto da fotografia, as múltiplas linguagens e tecnologias de produção de
imagens convivem ao mesmo tempo, entendendo essa convivência como um amplo
espaço de experiência sensível e de criação. A um novo recurso tecnológico se soma a
bagagem de experiência adquirida no contato com diferentes meios, procedimentos e
materiais. O fotógrafo alemão Jochen Dietrich (1965) ao trabalhar com a técnica da
pinhole recoloca esta questão:

Atualmente, a supremacia da imagem digital libera a fotografia para


uma pesquisa profunda acerca de suas condições, de suas capacidades,
de suas leis, de suas diferentes linguagens; em suma, ela redimensiona
as relações entre a realidade e o sujeito. Neste sentido, a câmera
obscura, como sistema paralelo à fotografia com lentes, pode
contribuir bastante para esta pesquisa ao pôr em questão todos os
preconceitos que temos a respeito das características da fotografia e
das mídias visuais em geral. (DIETRICH, 2000, p.140).

Neste contexto, o uso da câmera estenopéica tem sido resgatado como uma
opção de rompimento em relação à fotografia tradicional. Assim, os artistas vêm
buscando derrubar as fronteiras que limitam seus trabalhos, tanto como possibilidade
expressiva como em conceitualização teórica. Isso vem reforçar a postura de
rompimento com a técnica e a estética fotográfica praticadas convencionalmente.

O funcionamento da câmera pinhole


A simplicidade do aparelho e a possibilidade de construção e transformação do
espaço e do tempo representados na fotografia pinhole acabam por promover uma
desconstrução de conceitos. Além disso, uma das características mais importantes da
pinhole é a ausência do fenômeno ótico da refração. Na câmera estenopéica, a luz que
chega até o material fotossensível para formar a imagem atravessa apenas um pequeno
orifício. A ausência de lentes ou sistemas óticos baseados em refração luminosa impede
qualquer correção ou compensação que, supostamente, conferem às câmeras
convencionais a fidelidade da imagem.
A imagem captada pela câmera de orifício não corresponde necessariamente à
visão do fotógrafo. Ao contrário, a ausência da objetiva e na maioria dos casos a
ausência de um visor para a pré-visualização da imagem, fazem com que o resultado
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seja em grande parte imprevisível. De certa forma a câmera deixa de ser uma prótese do
olho humano, e o “olhar” da câmera passa a ser tão importante quanto o do fotógrafo.
Com a fotografia pinhole, o fotógrafo se aproxima do processo de realização da
imagem. As possibilidades de construção da câmera são infinitas, pois pode-se usar uma
câmera convencional sem a objetiva, uma caixa de papelão, uma lata, um ônibus, uma
sala, enfim qualquer objeto ou ambiente vedado de luz. O material sensível pode ter
superfície curva, inclinada, redonda, pode-se inclusive utilizar múltiplas superfícies,
gerando imagens anamórficas. A estrutura espacial da câmera influencia a representação
espacial, fugindo do padrão clássico - da caixa retangular com um orifício central no
lado oposto ao material sensível delimitado por uma janela também retangular.
Essa multiplicidade de opções se amplia a cada pequena alteração da câmera, a
cada escolha do fotógrafo, distância do objeto, tempo de exposição, suporte sensível.
Seguir o mesmo caminho e tentar repetir o resultado será única e exclusivamente uma
escolha do fotógrafo. Ainda assim, podem aparecer aberrações e deformações
inesperadas, uma vez que a indeterminação e a descontinuidade são traços mais do que
presentes na fotografia pinhole. Cada percurso escolhido traz um resultado diferente.
Poderíamos dizer percursos e resultados infinitos, uma vez que posso construir uma
câmera com qualquer material, de uma casca de ovo a um pimentão ou um sapato, ou
mesmo usando a própria boca como câmera escura. A imprevisibilidade ou mesmo a
condição do acaso também são escolhas do fotógrafo. Ao optar pela técnica da
fotografia estenopéica ele sabe que estas são características intrínsecas ao processo.
Outras características presentes na fotografia pinhole contribuem para essa
imprevisibilidade. A luz que penetra a câmera forma imagem em todo o seu interior,
não há limitação de enquadramento – o limite é dado pela delimitação do material
sensível. Oticamente, existe a possibilidade de foco em todos os planos, a qualidade do
registro e do foco, irá depender da precisão e do tamanho do furo que vai ser
determinado pelo formato da câmera. Um furo muito pequeno não vai gerar uma
imagem de melhor qualidade, ao contrário, neste caso teríamos outro fenômeno ótico, a
difração, que provocaria outros tipos de distorção. O pequeno tamanho do furo faz com
que os tempos de exposição sejam bem mais longos do que na fotografia tradicional.
Dependendo do material sensível utilizado, este tempo é maior ainda (o uso de papéis
fotográficos, por exemplo). Assim, o registro da imagem não se limita ao apertar
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automático do botão. As frações de segundo dos registros proporcionados pelos


equipamentos fotográficos convencionais se transformam em longos minutos numa
câmera de orifício. Durante esse período, a luz se modifica, se movimenta, assim como
as pessoas. Esses longos tempos de exposição também podem ser conseguidos com a
fotografia tradicional, mas no caso da pinhole, são características quase que
determinantes do processo, é como se o tempo estivesse representado de forma mais
intensa, evidenciando uma sensação de desaceleração do tempo, num movimento
contrário a todo o desenvolvimento histórico da fotografia convencional.

A produção estética na pinhole


De certo modo, a formação da imagem no processo da fotografia estenopéica,
está mais próxima da gênese automática defendida por Bazin (BAZIN, 1987) do que na
fotografia tradicional. Ainda dentro deste contexto, Peirce reforça a idéia de que não
existe nada entre o objeto e a sua representação, colocando a fotografia na categoria de
índice, ou seja, entre a fotografia e seu referente haveria uma conexão física, como uma
impressão digital que lhe confere uma correspondência ponto a ponto com a natureza.
(PIERCE, 2003 p. 65).
Apesar da câmera de orifício apresentar uma imagem que sugere essa
“objetividade essencial” - nas palavras de Bazin, algumas fotografias estenopéicas
parecem ter sido obtidas por processos sofisticados de manipulação e intervenção
digital, mesmo não havendo exatamente uma interferência (ao menos direta e física)
sobre o registro bruto efetuado pela câmera. A gênese fotográfica tradicional se
mantém: a luz refletida pelos objetos penetra numa câmera escura e, ao atingir um
material sensível, este se altera quimicamente e forma uma imagem. O resultado formal,
muitas vezes, ao invés de perpetuar o realismo especular a que estamos acostumados na
fotografia tradicional, se assemelha muito mais à linguagem estética dos novos meios de
manipulação digital.
Podemos encontrar nessas imagens características que percebemos em imagens
produzidas por artistas contemporâneos utilizando as mais diferentes tecnologias, desde
a fotografia eletrônica (still vídeo) até a manipulação digital. No entanto, ao invés de
interferências e manipulações sobre o registro bruto da câmera, na pinhole, o próprio
registro bruto pode apresentar essas características anamórficas e imprecisas, se
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distanciando ainda mais dos aspectos formais herdados do renascimento. Não são
intervenções/edições a posteriori, mas no próprio registro, no instante mesmo da
captação/registro da imagem, determinadas em partes pelo fotógrafo, no momento que
constrói a câmera e em partes pela imprevisibilidade intrínseca ao próprio aparelho
(pinhole).
As possibilidades de intervenção no registro da imagem nos levam diretamente
às idéias de Vilém Flusser com relação ao “branqueamento da caixa preta”. Ele discute
em seu livro Filosofia da Caixa Preta algumas questões relativas à produção de
imagens através da mediação de aparelhos de codificação, as quais ele chama de
imagens técnicas. Assim, a fotografia seria o primeiro e mais simples exemplo de
imagem técnica. Flusser questiona a aparente transparência das imagens técnicas já que
elas não são traduções automáticas do mundo físico, mas materializam os conceitos que
nortearam a construção dos aparelhos que as produzem. O usuário (fotógrafo), ao
utilizar esses aparelhos para obter as imagens técnicas sem conhecer seu funcionamento
interno, atua como um funcionário, lidando apenas com as opções disponíveis e
limitadas pelo programa da máquina. Para que esse funcionário possa conseguir novas
possibilidades, não previstas na construção do aparelho, ele precisa desvendar seu
programa, branquear a caixa. Desvendando o programa do aparelho, subvertendo as
funções da máquina, os chamados fotógrafos experimentais “Tentam, conscientemente,
obrigar o aparelho a produzir imagem (...) que não está em seu programa” (FLUSSER,
2002 p. 76).

Considerações Finais
Podemos considerar que talvez, ao mesmo tempo em que o artista/fotógrafo
constrói a câmera pinhole ele está desconstruindo a caixa preta de Flusser. Na medida
em que subverte o padrão convencionalmente imposto ao aparato fotográfico o artista
tem condições de utilizar a fotografia estenopéica como forma de expressão alternativa
e ferramenta de criação. Ele não depende mais das alternativas limitadas, oferecidas ou
impostas pelo mercado. A opção estética do artista já se expressa no momento em que
ele constrói sua câmera e determina formalmente suas características estruturais:
anatomia da câmera; formato da imagem; tipo de material fotossensível; quantidade de
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orifícios e sua conformação, entre outros, criando para cada câmera, um “sistema”
subjetivo, expressivo e único de constituição de imagens.
Com a câmera estenopéica o artista pode intervir criativamente em qualquer das
etapas do processo de produção das imagens, como se para cada nova câmera
construída fosse criada uma nova linguagem, reconstruindo nosso conceito de fotografia
e do fazer fotográfico.

REFERÊNCIAS

BAZIN, Andre. Qu’est-ce que lê cinema? Paris: Les Editions du Cerf, 1987.
Disponível em: <http://www.patotadalagoa.hpg.ig.com.br/textos/ontolog.doc>. Acesso em:
13 jan. 2005.

DIETRICH, Jochen. Câmara obscura: convidando o mundo a falar. In: SOUZA,


Solange Jobim e (org). Mosaico: imagens do conhecimento. Rio de Janeiro: Rios
Ambiciosos, 2000.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta. Ensaios para uma futura filosofia da
fotografia. São Paulo: Editora Relume Dumará, 2002.

MACHADO, Arlindo. Formas expressivas da contemporaneidade. In: Pré-cinemas &


Pós-cinemas. Campinas: Papirus, 1997.

PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. Título original – The collected papers of Charles
Sanders Peirce. Tradução: José Teixeira Coelho Neto. Editora Perspectiva. São Paulo,
2003. 3º edição.