Você está na página 1de 96

R'*c,o,oS

r'^ÉN0s
tANÇÀ
ÚITINTOS

*Josóclbbson Enerda BoÍrím


lmprsnsâ operária no arasil

deAndradeArruda
lúaÍ â Nâzarelh FeÍe ra
O mátodo júnguiano
Glâuco U son

Selmâ Calasans Rodr gues


Gramsci s a €6colâ
- Luna Galano Mochcovitch
34 Dim€n!õ63 3imbólicss da
parsonálid.d6

AR,EVOLIICAO '136
Carlos Byington
35 Estrutura da personslidads
Persona e sombrs
CâÍ os Bylngton
Grand.zâs . unidôdê3 dê
modida
- O Sist6mà lntêrnacionrl
do Lrnidad.s


É.

a
INI'DUSTR,IAL Romeu C Rochê Filho
Linguâgem ê ideologia

Conlrontos 6 contrastôs
z Fláv a d€ BaÍos Carone
lr 3s Ernost H6mingway
Ju ian Nazar o
I !40
NoÍma Musco Mendes
't
41 P€squisa da mcrcâdo
MâÍina RuitêÍ 6
SerióÍio Augusto de Abreu
142 Burgu.sia e capiialismo no
B.â3il
Anlonro Cêr os Mazzeo
t43 Sistemss dê comunicaçáo

Evolução biolôEic.
- Controvársiâ3
Celso Pledemonte de Lima

Pedro Pêulo Abr6u Funar

Coel Cãmp€dêll I
À,4aíia
Raquel Rapone Gâ dzlnsk
lnjoçõ.s
- Modos e mátodos
8r gitla PferfÍeí Caste lanos
Ecologia culrurÊl
Umâ antropologiâ dâ
Renare Brig xe Vienler

I - CultuÉs pró-colombianas
JoÍge Luiz FerÍe râ
í .'

RffiS
elose clobsmr
deAndradeArnda
ProÍessor TitulaÍ dê Históíia Modeína
de FFLCH da USP

m
Dlreçâo
Beniamin Abdala Junlor
SamiÍa YousseÍ CamPedelli
Preparação do toxlo
lvany Picasso Batista
CooÍdônaçáo do composlçáo
(P.oduçaolPlgln.çlo am Yid.o)
Nelde Hiíomi Toyota
CaPa
Ary Normanha
Antonio ublÍaiaÍa Domiêncio

rsBN 85 08 03082 7

1988
Todos os direitos ÍêsêÍvados
Editora Átice S.A. - Rua BeÍâo de lguape, 110
Tel.: (PABX) 278.9322 - Calxa Postal 8656
End. TelegÍáÍico "BomlivÍo" São Paulo
-
Sumário
1. O conceito de Revoluçáo lndustrial 1
O leque das explicações t
Continuidade e ruptura l3
O lugar da Revoluçào Industrial t7
Corte e recorte t9
2. Capital mercantil e manufatura:
a precondiçâo u
A preponderância do capital mercantil _24
As contradições da manufatura 27
As condições da superação 3l
3. Revoluçáo lnglesa e Revoluçâo lndustrial _tt
A nova estrutura do poder 33
A transformação agrária: os ceÍcâmentos _35
A conquista do mercado mundial 37

4. A grande transformação no processo


produtivo_39
Impasses teóricos: mercado e produção _39
A força do mercado interno 42
O papel decisivo do mercado externo _44
A transição da manufatura à maquinofatura _47
As duas vias de passagem 47
A introdução da máquina-ferramenta _4E
A revolução do processo produtivo í)
A transformaçâo do processo de trabalho _51
A questão das invenções e inovaçôes _54
A questão social e demográfica st
A questão dos capitais 60

5. A grande transÍormaçâo social u


As novas condições de vida &
A concentraçâo urbana e fabril 65
As condiçôes de vida nas fábricas óE
Os problemas imediatos da classe trabalhadora- ?0
A reaçâo da classe trabalhadora 74
A luta contrâ as máquinas- ?5
A Lei Speenhamland e o mercado de trabalho 76
Os movimentos luditas - 17
O movimento Swing e o carlismo 79
A questão da consciência de claise t2
6. Gonclusão t6
7. Vocabulário crítico 88

8. Bibliografia comentada 90
1
O conceito de
Revolução Industrial

Mesmo quando comparada à Revoluçâo Neolítica que


a antecedeu ou à "Revolução Energética" que se desenrolou
na esteira de suas transformações, até a propalada "Revolu-
ção Cibernetica" dos dias atuais, a Reyolz ção Induslrial foi
uma das mais importantes entre todas as revoluções verifica-
das no decurso do processo histórico. Isto porque transfor-
mou radicalmente a história mundial.
A industrializaçâo da Inglaterra no final do seculo XVIII
foi um fenômeno singular, unívoco. Trata-se de uma socie-
dade precocemente amadurecida para a assimilação do pro-
gresso técnico, processo este que se dá em condiçôes "capi-
talistas", plenamente realizado e isento de interferências por
parte de países previamente industrializados. Nestes teÍmos,
um exemplo ímpar e ao mesmo tempo clássico que nâo pode
erigir-se em "modelo" por esta mesma singularidade. Isto
é, nenhum outro processo de industrialização ulterior pode-
ria verificar-se nas mesmas condições.
A especificidade desta Revoluçâo Industrial tem que s€r
buscada no quadro mais amplo da formaçâo da sociedade
capitalista e, no plano mais restrito, das revoluçôes burgue-
sas do mundo ocidental. Neste prisma, a Revoluçâo [ndus-
t
trial o complemento direto da Revolução Inglesa do século
é
XVII, que cria as condiçôes básicas para a eclosão do ma-
quinismo no final do seculo XVIII, consolidando a ideia de
Revolução lnglesa como célula-mâe da Era das Revoluçôes
Burguesas, por destravar as forças produtivas rumo à Revo-
luçâo lndustrial. Lato sensu, a Revolução Industrial é a cul-
minância de um processo secular, com suas raízes fundidas
na crise do sistema feudal, que consolida o modo de produ-
ção capitalista, instaurando um sistema econômico-social,
com sua forma peculiar de Estado e ideologia específica. No
momento da Revoluçâo Industrial, cristaliza-se o capitalis-
mo e é nesta perspectiva que procutaremos delinear a eclo-
são da sociedade industrial, de modo a esubelecermos uma
relaçâo dialética entre a Revoluçâo [ndustrial e o capitalismo.

O leque das explicações


Arthur Young, em 1778, já falava de uma revoluçâo em
marcha. Até o século XVI[[ a expressão "revolução" era um
vocábulo da ciência astronômica. Claude Fohlen insiste que
a generalização do conceito é de origem francesa, citando o
jornal Moniteur Universel, de l7 de agosto de 1827, onde apa-
rece o título "Grande Revolution Industrielle". A pesquisa-
dora americana Anne Bezançon, no s€u artigo "The early use
of the term Industrial Revolution", p. 343-9, dedectou o uso
generalizado da palavra na segunda decada do seculo XIX,
na França. Foi, porém, entre os escritores socialistas da dé-
cada de 40 e, especialmente, em 1845, com a publicação por
Engels do livro A situação das classes trabalhadoras na In-
glaterra, que o termo adquiriu toda sua dimensão social da-
da a ênfase na emergência do proletariado industrial. De uma
forma mais generalizada, contudo, durante o seculo XIX, o
termo se definia mais por sua conotaçâo política do que
econômica.
9

No final do século XlX, a expressão deixou de ser utili-


zada esporadicamente, para se converter num tema central
à historiografia econômica. Em 1882, A. J. Toynbee, pro-
fessor da Universidade de Oxford, deu um curso sobre o te-
ma Lectures on the Industrial Revolution of the eighteenth
century in England, publicado posrumamente, em 1884. Ti-
nha início o debate em torno da Revolução Industrial de for-
ma mais acadêmica. Destaca o papel do aumento populacio-
nal, das transformações agrícolas, mas sobreleva a substitui-
ção das regulamentações típicas do sistema corporativo de
produção pela competição, sem a qual nenhum progresso po-
deria ser atingido. Uma explicação perfeitamente enquadra-
da no pensamento liberal. No mesmo ano de 1882, W. J. Ash-
ley centrava suas explicações no aumento populacional, re-
sultante das melhorias ocorridas na agricultura.
Esta mesma linha de explicações, que salientava o pa-
pel do crescimento demográfico na Revolução Industrial, te-
ve continuidade pelas decadas seguintes do século XX. Em
1932, E. Cilboy dctacava o crescimento populacional e a mo-
bilidade social aliados a uma alteração nos padrôes de con-
sumo, ao que A. H. John, em 1950, agregava as modifica-
ções na agricultura. P. Deane e W. E. Cole, em 1962, rejei-
tavam peremptoriamente o papel do comércio internacional
como promotor do desenvolvimento econômico, salientan-
do o papel do crescimento populacional e agrÍcola, no cres-
cimento industrial do século XVIII.
A ênfase no papel da agricultura é o tema centÍal dos
trabalhos de Paul Bairoch, especialmente no texto Reyolu-
ção Industrial e subdqenvolvimezÍo, onde estabelece uma re-
lação direta'entre os insutnos de ferro requeridos pela pro-
duçâo de arados e a dinamizaçâo industrial, ao mesmo tem-
po que explica os tropeçós àos países subdesenvolvidos no
plano da industrialização em virtude das características pe-
culiares de suas agriculturas.
As discussões em torno do papel da demoEafia e da agri-
cultura abriram novas perspectivas, que encaminharam o de-
l0

bate para a melhoria nos padrôes de consumo, que por sua


vez realçava a questão essencial da determinação dos salá-
rios reais, seu poder aquisitivo efetivo, a questão da poupança
e do investimento. Neste contexto, vinha à baila o problema
do proÍit inÍlatioz, ou seja, as possibilidades de ganho do ca-
pital ampliadas pela defasagem entre os salários pagos pelos
empresários e o custo das mercadorias produzidas, cujos pre-
ços eram inchados pela inflação, resultando numa margem
extra de sobrelucro apropriado pelos empresários. Tal me-
canismo econômico teorizâdo por Keynes foi utilizado em ter-
mos de aplicaçâo prática por J. H. Hamilton no estudo da
Revolução lndustrial do século XVIII.
Por outro lado, concomitantemente, corria outra linha
explicativa, já apontada por W. Cunningham, em 1882, se-
gundo a qual o avanço econômico da Inglaterra no século
XVIII se devia à expansão dos mercados e à acumulação de
capitais. Em 1905 surgia o clássico trabalho de Paul Man-
toux, la Révolution Industrielle au XVII siàcle. Essai sur
le commencement de la gronde industrie moderne en Angle'
terre, para quem a Revoluçâo Industrial foi um fenômeno
essencialmente comercial, tendo sido preparada e acompa-
nhada pela expansão do comércio e do crédito, sendo o sur-
gimento da maquinaria o resultado inevitável do desenvolvi-
mento comercial (op. cit., p. 117). Proposições estas reitera-
das em 1925 por W. Bowden, para o qual o século XVIII in-
glês se diferenciava do anterier, exatamente, pela maciça pro-
cura por mercadorias inglesas no plano do mercado interno
e externo, resultante do controle dos oceanos pelos ingleses.
Em 1931, A. Redford referendava estas afirmações, ao su-
gerir que a transformação tecnica foi a decorrência imediata
dos extensos mercados mundiais controlados pelo ingleses,
mercado este que E. Lipson, em 1949, matizou, definindo-o
em termos de mercado continental e colonial, especialmen-
te, America, África e Ásia.
Em 1963, P. Deane e H. J. Habakkuk rejeitavam dras-
ticamente o papel do crescimento populacional, das inova-
It

ções técnicas e do aumento da taxa de investimentos, como


promotores da Revolução Industrial, destacando o papel exer-
cido pelo comércio internacional como elemento dominan-
te. Se nos recordarmos que a mesma P. Deane, associada a
W. E. Cole, num texto de 1962, havia afirmado exatamenre
o contrário, concluímos não pela falta de firmeza na posição
dos debatedores, mas pela complexidade do fenômeno que
gera estas hesitações.
A tendência manifesta na historiografia era a eleição de
razões preponderantes, com uma alternativa, nâo menos di-
fundida, que era a somatória de todas as variáveis possiveis
e imagináveis. Exemplo bem característico desta rendência é
o pequeno, mas inquietante, livro de T. S. Ashton, de 1948,
para o qual "A conjugaçâo de oferta crescente de terra, tra-
balho e capital, tornou possível a expansâo da indústria; car-
vâo e vapor forneceram o combustÍvel e a energia para a pro-
duçâo manufatureira em larga escala; baixa taxa de juros,
alta de preços e elevada expectativa de lucro ofereceram in-
centivo. Mas atrfu e além destes fatores materiais e econô-
micos, estava algo mais. O comércio com o estrangeiro am-
pliou os horizontes humanos e a ciência a sua concepção do
universo: a Revoluçâo Industrial foi também uma revoluçâo
das idéias, em particular, a Riqueza das Nações inspirou no-
vas atitudes, e foi sob sua influência que a idéia de um volu-
me de comércio mais ou menos determinado, dirigido e re-
gulado pelo Estado, foi abandonada gradualmente e com mui-
tos retrocessos, em favor do progresso ilimitado numa eco-
nomia livre e expansionista" (The Industrial Revolution
1760-1830, p. 2l). O ecletismo de Ashton se completa de for-
ma cabal ao dizer: "Se procurarmos por um único fator em
funçâo do qual o passo do desenvolvimento econômico foi
acelerado na metade do século XVIII, seria para a baixa ta-
xa de juros pela qual o capiral poderia ser obtido que deve-
ríamos olhar"(ibidem). Nâo escapou, portanto, nem mesmo
a linha de interpretação ancagônica que procura realçar uma
t2

explicaçâo dominante. Interessante notar que esta forma de


abordagem aparece, recoÍrentemente, até mesmo em auto-
res com posição crítica em relação àrs interpretações mais tra-
dicionais, a exemplo de Valério Castronovo.
Segundo R. M. Hartwell, num preciso inventário das
"causas" da Rwolução Industrial, os historiadores e econo-
mistas identificaram uma imprecisa cadeia de fatores, mas
foram incapazes de determinar a impórtância relativa destas
forças, ou como elas operatam conj untamente num proces-
so de mudanças econômicas ("The causes of the Industrial
Revolution. An essay in methodology", p. l?9).
Uma terceira tendência veio juntar-se às anteriores, ou
seja, a tentativa, a nosso ver insuficiente para dar conta da
problemática, de dividir em fatores endógenos e exógenos as
condições determinantes da Revoluçâo Industrial. C. Fohlen
relaciona técnica e tecnologia, invenção e inovações, acumu-
laçâo de capital e investimentos e papel dos empresários co-
mo condicionantes inteÍnos; revolução agrícola, crescimen-
to populacional e ação do Estado, como determinantes ex-
ternos. Efetivamente, pouco resulta, pois tende a atomizar
o processo e, nestes tetmos, impede a apreensão da totalida-
de, único caminho pelo qual se poderia dar conta da ques-
tão. A mais, o que significa fatores internos e externos a um
determinado processo histórico? Se o crescimento populacio-
nal é considerado um fator externo, o trabalhador, essência
mesma deste crescimento, também o é?
A preocupaçâo dos economistas em estabelecer uma re-
lação entre a Revolução Industrial e o crescimento econômi-
co no mundo ocidental levou à utilização de conceitos cria-
dos pela moderna teoria econômica pÍua a tentativa de com-
preensão do processo de gestação industrial, daí resultando
as tentativas de equacionamento do problema em termos de
crescimento desequilibrado ot equilibrado. No primeiro ca-
so, um setor de ponta, dinâmico, ativa-se e aciona o restante
da economia, atraves de laços tradicionais e mecanismos de
l3

difusão técnica, que têm impacto geral sobre toda a econo-


mia. Um exemplo clássico seria a ativaçâo da indústria do
algodâo e seu impacto sobre o conjunto da economia ingle-
sa, acelerando o progresso técnico, a mineração, a siderur-
gia etc. No segundo caso, uma instituiçâo ou, mais propria-
mente, o Estado orientaria os investimentos em diferentes se-
tores da economia de modo a conseguir um crescimento equi-
librado.
Colocando-se estas questões, R. M. Hartwell pergunta
se, apesar da nâo ingerência do Estado inglês no processo de
industrialização, o crescimento econômico ali verificado no
século XVIII não teria sido equilibrado, considerando-se a
racionalização das atitudes sociais, participação crescente na
educação, disponibilidade de capitais, baixa taxa de juros,
flexibilidade no mecanismo de preços, suprimento de mão-
de-obra, de matéria-prima, melhores transportes e um certo
protecionismo às indristrias nascentes, tais como linho e seda.
Todas as dimensões até aqui analisadas não podem ser
consideradas como partes independentes e sim manifestaçôes
efetivas do próprio processo histórico, cujo núcleo precisa
ser captado numa dimensâo que não se reduza ao econômi-
co, mas que englobe a estrutura da sociedade na sua mais am-
pla significação. Nestes termos, sobreleva o papel da Revo-
luçâo lnglesa do século XVII, na preparaçâo dos pré-
requisitos fundamentais para a industrializaçâo. O equacio-
namento do tema nestes termos pressupõe, para além da aná-
lise das explicaçôes do fenômeno, a definição do processo em
termos do recorte histórico.

Corúinuidade o ruptura
Retomamos a historiografia da Revoluçâo Industrial,
agoÍa com vistas à demarcação do recorte do processo histó-
rico em questâo. Para muitos historiadores ou economistas
t{

voltados para o campo da história, não houve propriamente


uma Revoluçâo lndustrial e sim uma lenta evolução, que dá
seus primeiros sinais de alento nos fins da ldade Média e se
completa ao hnal do século XlX. Nesse caso nâo haveria mu-
danças abruptas, rupturas violentas, nem, muito menos, pro-
fundos conflitos e tensões sociais.
Esta perspectiva da Revolução Industrial, ou seria me-
lhor dizer da Evolução Industrial, surge de forma indelével
no texto de J. U. Nef, Iâe rise of Brttish industry, de 1932'
no qual identifica o industrialismo inglês com um longo pro-
cesso que remonta aos meados do seculo XVI e se estende
até o final do século XVIII e inícios do século XIX. Em 1948'
no já citado texto de T. S. Ashton, considera-se impróprio
o termo Revolução Industrial, pois as mudanças não teriam
sido apenas econômicas, mas também sociais e culturais, além
do que as mudanças repentinas não seriam atributo dos pro-
cessos econômicos, e o fenômeno chamado capitalismo -
que está identificado à Revoluçâo Industrial teve início
-
muito antes de l?60 e completou-se muito depois de 1830.
O economista Alfred Marshall, em 1949, corroborava
estas afirmações ao dizer: "Os quatro ou cinco decênios nos
quais se desenvolveu com maior intensidade a primazia da
Inglaterra se designam àrs vezes como os decênios da 'revolu-
çâo industrial', quando, na verdade, o que se verificou en-
Éo não foi uma revolução, senâo que simplesmente uma eta-
pa de uma evolução que vinha se desenrolando durante cen-
tenas de anos, quase sem interrupção" (Obras escogidas, p.
l?). Mais recentemente, Arthur Birnie na súa Histótia eco'
nômica da Europa conclui no mesmo sentido, afirmando que
a Revolução Industrial não foi súbita nem catastrófica. Foi
um movimento que se difundiu por um período de 150 anos
e suas origens podem ser claramente discernidas em forças
ativamente em ação desde o fim da ldade Média. Nem mes-
mo um historiador do porte de Paul Mantoux escapou a'o do-
mínio desta visão, pois, depois de afirmar que as mudanças
r5

havidas na Inglaterra foram tão velozes desde o seu início e


tiveram tais conseqüências que permitiriam compará-las com
uma revolução, volta atrás para afirmar que, por mais rápi-
da que pareça ter sido, a revolução estava relacionada com
causas remotzls.
Na década de 50 o termo revolução foi aprisionado na
contenda gerada pela guerra fria, o que levou o historiador
americano H. L. Beales a afirmar que ..o termo revolução
é sempre desconcertance. Nâo somente possui uma certa co-
notação vermelha, bem como sugere uma mudança sob pres-
são das condições estabelecidas. Conquanto o teimo revolu-
ção possa parecer apropriado no campo politico, parece ina-
propriado no campo econômico,' (The Industrial Revolution,
p. 2). Assim mesmo, entre os historiadores-economistas, o
termo foi reintroduzido com um significado especifico, re-
velador dos momentos decisivos no quadro do irescimento
econômico, que poderiam provocff mudanças estruturais na
sociedade. Alexander Cerschenkron, em 1957, afirmava que
se por "revolução" entendemos nada mais do que um salto
repentino para cima de todas as taxas de incremento da pro_
duçâo industrial, então, somente com grande dificuldade o
historiador da economia poderia ignorar a existência de re-
voluções industriais.
W. W. Rostow, na mesma epoca, identificava a revolu-
çâo como "um período no qual a escala da atividade produ-
tiva alcança um nível crítico e produz mudanças que levam
a uma maciça e progressiva transformação estrutural nas eco-
nomias e nas sociedades das quais fazem parte, mudanças de-
finitivas, mais qualitativas do que quantitativas', (..The take-
off into self-sustained growrh", p. 25). A revolução está, por-
tanto, identificada com o salto dos indicadores quantitativos
que revelam pontos decisivos no processo de crescimento eco-
nômico, a partir do que se poderia, na perspectiva de Ros-
tow, entender as mudanças qualitativas, propriamente sociais.
Desde 1946, com a publicação do livro de M. Dobb SÍz-
dies in the development oJ capitalism, que a perspectiva da
í
l6 I
t
i
,l
Revolução lndustrial nos padrões equacionados por Marx vi-
nha se renovando. Para Dobb, "no século XIX, o ritmo da
alteração econômica no referente à estrutura da indústria e
das relações sociais, o volume de produçâo e a extensão e a
variedade do comércio, mostrou-se anormal..' Uma era de
alterações técnicas que rapidamente aumentava a produtivi-
dade do trabalho, testemunhando tâmbem um aumento anor-
malmente rápido nas fileiras do proletariado" ' A essência da
transformaçào estava na alteração do caráter da produção"
(p. 25ó). O significado mais amplo da Revoluçâo lndustrial
tinha sido precisamente delineado por Marx, para quem esta
revoluçâo maÍcara a separação entre a propriedade e o tra-
balho e a concentração da riqueza imobiliária havia encerra-
do definitivamente a sociedade dominada ainda por formas
de propriedade e produção feudais, inaugurando uma nova
,o.i.d"a., com novÍls formas de propriedade dos meios de
produçâo, novas relaÇôes sociais decorrentes do processo de
produção caPitalista.
A historiografia sobre a Revoluçâo Industrial divide-se,
pois, em duas grandes ramificações que se desdobram, final-
mente, em três grandes vertentes. A perspectiva da continuü
dade, da rupturo quantitativa e da ruptura qualitativa' Evi-
dentemente, estas diferenças de perspectivas revelam diferen-
tes posicionamentos diante da própria história. Para os adep-
tos da continuidade o fluir histórico se daria sem cortes, sem
nrptuÍas evidentes, obscurecendo-se o papel das lutas de clas-
ses no "progresso" histórico. A rupturo qualitaÍiva,
pelo con-
trário, enfatiza exatamente os momentos de ruptura, de mu-
danças profundas nas relaçôes sociais que, por sua vez, de-
terminariam o salto dos indicadores quantitativos'
Maurice Dobb nega a possibilidade do desenvolvimen-
to econômico ser mensurado apenas e exclusivamente a par-
tir de agregados quantitativos, quaisquer que sejam eles, po'
pulação, produtividade, comércio exterior' divisão do traba-
iho ou e.toqr. de capital. Para ele, o processo histórico en-
l7

gendra pontos decisivos no curso do desenvolvimento eco-


nômico, nos quais "o ritmo se acelera além do normal, e nos
quais a continuidade é rompida, no sentido de uma mudan-
ça abrupta de direçâo na corrente dos acontecimentos', (Ca-
pitalismo, crecimiento económico y subdesarrollo, p. 2g).
Observadas em conjunto, as perspectivÍs de continui-
dade e ruptura quantiutiva revelam pressupostos subjacen-
tes, nem sempre visíveis à primeira visca. Já se observou que
para os adeptos da continuidade é evidence a recusa em ver
os grandes momentos de transformação, na medida em que
são acompanhados de convulsões sociais, de intensidade va-
riada. No fundo, sua visâo de história é o resultado de um
proceso cumulativo, gradual, lento, num fluxo entendido co-
mo natural. Na perspectiva da ruptura quantitativa, a rup-
tura é entendida em termos puÍamente econométricos, ocor-
rendo as revoluções nos momentos em que se adensam os vo-
lumes e as proporções. Nessa proposta rostowiana, percebe-
mos uma nitida compartimentação do real que privilegia uma
única evidência, bem como uma visão tecnocrática da histó-
ria, manifesta na sua concepçâo de desenvolvimento econô-
mico alcançado em ternos de quantidades de magnitude con-
siderável.

O lugar da Revolução Induatrial


Nâo se pode negaÍ que, numa certa perspectiva, existe
uma continuidade nos acontecimentos, pois não existe even-
to que não se possa ligar de uma maneira racional aos even-
tos anteriores e posteriores. Nessa medida, o devir histórico
é gradual e contínuo. Porém, se nos colocarmos no nível mais
profundo das estruturas, conseguiremos perceber as ruptu-
ras, as grandes transformações, que marcam os momentos
decisivos da história da humanidade, os momentos de tran-
siçào. Tais momentos se revelam, no nível dos eventos, por
l8

uma contraçâo do tempo histórico, isto é, pelo aceleramento


dos acontecimentos mais importantes que se sucedem numa
cadeia ininterrupta e avassaladora, demonstrando que, por
detrás das aparências necessárias dos eventos, as relações so-
ciais estâo em completa ebuliçâo. Era isto' pensamos' que
Eric Hobsbawm queria dizer ao afirmar que "o sintoma de-
cisivo da Revolução lndustrial é o salto brusco' imprevisto
e franco, de todas as curvas de indicadores econômicos cu-
jas estatísticas possuímos, e o fato de que por trás deste salto
o desenvolvimento continua com um ritmo novo e sem pre-
cedentes" (En torno a los origenes de la Revolución Indus'
trial, p. 26).
Ritmo novo e sem precedentes, qualitativamente distin-
to, diferente na sua própria natureza da estrutura dominan-
te no momento anterior. A ruptura não ocorre como o resul-
tado puro e simples da explosão de agregados quantificáveis,
num estágio de massa critica, mas sim porque este crescimento
revela transformações substanciais na estrutura da socieda-
de como um todo. Exclui-se, portanto, uma visâo parcelar
da história. Busca-se, pelo contrário, a captação do todo, ou
da forma pela qual as transformações sào frutos da dinâmi-
ca global da sociedade, alterando-a no seu conjunto. Assume-
se, pois, a impossibilidade de segmentaçâo da história, que
pressupõe a análise do processo histórico com base no con-
ceito de modo de produção.
Assim, a Revolução tndustrial pode ser mensurada a par-
tir de um crescimento evidenciado quântitativamente, porém,
tal crescimento e o sintoma de transformações mais profun-
das vividas pela sociedade inglesa na segunda metade do sé-
culo XVIII. A partir deste momento as relações sociais são
redefinidas em seu conjunto, os conflitos sociais são redese-
nhados num espaço determinado, cuja ultrapassagem signi-
ficaria uma nova ruptura, uma nova revolução. Nestes ter-
mos, a Revoluçâo Industrial é determinada e determinante
de uma sociedade com feições e estrutura completamente no-
l9

vas. A Revoluçâo Industrial é uma síntese que culÍnina um pe-


riodo de trânsição e dá nâscimento ao capitalismo pleno, su-
p€rando a fase de acumulaçâo primitiva do capital, nesta me-
dida é uma ruptura e uma consolidaçâo, porque consolida de-
finitivamente o modo de produçâo capitalista, modo de pro-
dução este que passa a estar identificado ao mundo da indus-
trialização. A Revoluçâo Industrial "completa o processo de
forma{ão do sistema de produçâo capitalista e maÍca uma eta-
pa decisiva de transição a partir de um estágio incomplao, pré-
capitalista, para um estado em que as características funda-
mentais do capiulismo se impõem: progresso técnico conti-
nuado, capitais mobilizados para o lucro, separaçâo mais cla-
ra entre uma burguesia possuidora dos bens de produção e dos
assalariados" (J. P. Rioux, A Revolução Industial, p.9).
A essência da transformação, segundo Marx, foi a subs-
tituição de ferramentas acionadas pela energia humana por má-
quinas movidas a energia motriz. "A máquina da qual parte
a revolução industrial substitui o trabalhador que maneja uma
única ferramenta por um mecanismo que, ao mesmo tempo,
opera com certo número de ferramentas idênticas ou seme-
lhantes àquela, e é acionado por uma única foÍça motú, qual-
quer que seja a sua forma... O aumento do tamaúo da
máquina-ferramenta e do número de instrumentos com que
opera âo mesmo tempo exige um motor mais possante que,
para vencer a própria resistência, precisa de uma força motriz
superior à força humana" (O capitol, Livro l, p. 428-9). Esta
mudança técnica faz-se acompanhar por uma mudança vital
nas relações sociais de produção, pois cria-se o trabalhador
coletivo no sistema de fábricas em substituiçâo ao trabalha-
dor parcelar da velha manufatura. Estava aí o ponto de vira-
gem decisivo, condiçâo mesma da Revolução Industrial.

Gorte e r€oorte
Tomando como ponto de partida a utilização de dife-
rentes formas de energia, numa perspectiva vulgar da com-
2l)

partimentação do processo da Revoluçâo lndustrial, adotou-


se a seguinte divisão: Primeira Revolução entre o final do sé-
culo XVIII e início do século XlX, definida pela utilização
da máquina a vapor e do carvão como combustível básico;
Segunda Revoluçâo, no final do século XlX, caracterizada
pelo motoÍ de cxplosâo e a utilização da energia elétrica; Ter-
ceira Revolução, em cuÍso no seculo XX, marcada pela di-
fusão da energiâ atômica. Chega'se mesmo a falar numa Re-
voluçâo Cibernética, resultante da difusâo dos computado-
res e da ciência da informática.
Grosso modo, portanto, a "primeira" e efetivamente
"única" Revolução lndustrial teve lugar entre 1750 e 1E50.
T. S. Ashton demarca entre os anos de 1760 e 1830' periodi-
zação que foi adotada de forma mais ou menos generaliza-
da. Contudo, os economistas e historiadores preocupados
com a mensuÍação do crescimento econômico, na linha da
história econômica quantitativa, procuraram determinar com
maior precisâo o momento do arra nque, o take'off, paÍa usar
a expressâo consagrada por W. W. Rostow, ou simplesmen-
te decolagem, termo preferido pelos historiadores franceses.
Rostow localiza no período que vai de t?90 a lEl5 um rápi-
do crescimento da produção, tanto na indústria quanto na
agricultura, um incremento substancial nas importações e ex-
portações, bem como a elevaçâo da taxa de juros e dos pre-
ços, com tendência à baixa dos sakirios reais (The British eco'
nomy of the nineteenth century, p. l3). Segundo W. Hoff-
man "o ano de 1780 é a data aproximada na qual a taxa per-
centual anual de crescimento industrial foi, pela primeira vez,
superior a dois, um nível no qual permaneceu por mais de
um século" (British industry, p. 30). Peter Mathias prefere
o ano de 1783, com o fim da Guerra Americana de indepen-
dência, momento no qual os valores relativos ao comércio
exterior cÍesceram significativamente. Com base nestes índi-
ces, o crescimento econômico concentrou-se em dois perío-
2t

dos: entre 1730 e 1760, quando o valor das exportações bri-


tânicas praticamente dobrou; entre 1785 e 1800, quando
verificou-se uma nova duplicação.
Com segurança, podemoe afirmar que os anos 80 assis-
tiram à mudança brusca na taxa de crescimento em diferen-
tes setorcs da economia, tais como o nivel de investimento
em transportes, ritmo de expansão do sistema bancário, ocor-
rência de invenções técnicas cruciais na tecelagem do algo-
dâo, na indústria metalúrgica e na produçâo de energia a
vapor.
O recorte histórico deste processo particular que foi a
Revolução Industrial, agora numa perspectiva que leve em
consideração as transformações qualitativas operadas no seio
da sociedade, de certa forma coincide com as delimitaçôes
realizadas por via da mensuraçâo quantitativa. para Marx,
a Revolução Industrial foi anunciada quando, em 1735, John
Wyatt inventou a máquina de har. Paul Mantoux assume a
demarcação inicial proposta por Arnold Toynbee, 1760, mas
restringe o marco final do processo aos primeiros anos do
seculo XIX. De fato, para Mantoux, nesse momento os gran-
des inventos técnicos, inclusive a própria máquina a vapor,
entram no domínio da prática; as fábricas já siio suficiente-
mente numeÍosas e, com exceção de detalhes, os instrumen-
tos silo próximos das indústrias modernas; tem início a for-
mação de grandes conglomerados industriais, surgindo o pro-
letariado fabril, com a destruição parcial das antigas regula-
mentações. A lei que inaugura a legislaçào das fábricas data
de 1802 (op. cit., p. 2l).
Há, pois, uma certa coincidência no nível da demarca-
ção cronológica, quantitativa e qualitativa, definindo-se uma
cronologia mais czrÍa para demarcar a Revoluçâo Industrial,
delimitada entre os anos de 1780 e l8@, no que diz respeito
à transformaçâo vital, momento alem do qual a estrutura mais
íntima da sociedade inglesa ctaria üsceralmente transforma-
da. Estes são, efetivamente, os anos "revolucionários".
22

Esta visão de Revolução Industrial, que rompe brutal-


mente com as antigas relaçôes sociais de produção, instau-
rando o domínio completo da máquina e do capiul sobre a
sociedade, está distante da visão romântica da Revolução In-
dustrial, preconizada, por exemplo, pelos Hammonds, que
a identificam com o materialismo e o barbarismo. Lewis Mun-
ford considera-a um verdadeiro retrocesso da humanidade
quando comparada aos idílicos momentos da ldade Média'
nos quais a produçâo artesanal era considerada a forma ideal
e estabilizadoÍa da condiçâo do homem, livre das desgraças
e pressões da sociedade industrial. Ou ainda, as visões mais
otimistas, presentes na obra de T. S. Ashton, para o qual os
males outorgados à Revolução lndustrial sâo anteriores a ela
que, pelo contrário, elevou o padrÍio geral de vida, nivelando-
o, ao mesmo tempo que evitou a catástrofe que resultaria do
crescimento demográfico sem a mudança revolucionária da
produção industrial.
Não menos distante das explicaçõ€s tecnicistas, que apa-
recem até mesmo em autores de peso como David Landes -
nos quais se dá à técnica a capacidade de transformar os di-
versos setores da produção num momento determinado -,
identificando-se o fluxo histórico com um caudal de inven-
ções e inovações aplicadas de forma intensiva ao
ptoc€sso pro-
dutivo. Tal como o fazem alguns desavisados que, ao remon-
tarem o processo de avanço tecnológico à primeira utiliza-
çâo do fogo controlada pelo homem ou à invenção da roda,
perdem de vista o elemento essencial da transformação so-
cial que ambienta as acumulações tecnicas, determinando não
apeÍras a sua gestação mas, e principalmente, o momento pro-
pício de sua utilizaçâo e efetiva apropriação pelo conjunto
da sociedade. Perde-se de vista, essencialmente, o câráter 8Ía-
dual e contínuo do progresso técnico, não havendo um só in-
vento que não se possa ligar a uma criação anterior e poste-
rior. Bem a propósito, Nino Salamone diz: "É claro que tu-
do isto não pode significar mais que a perda de conteúdo do
23

pÍóprio conceito de Revolução Industrial entre as mâos de


quem tenta defini-lo" (Causas sociois da Revolução Indus-
trial, p.16\.
Observações estas também cabíveis quando p€nsamos a
proposta de Revoluçâo Industrial entendida em termos de
continuidade, proposta esta que desvanece o conceito de Re-
volução lndustrial, aplaina o processo histórico. Não que se
pense aborrecida uma história sem revoluções; mas é impos-
sível negar o aceleramento do tempo histórico em pontos de-
terminados do processo. É óbvio que tais aceleramentos se
traduzem em alteraçiio de medidas, volumes, proporções, que
devidamente mensurados se constituem em excelentes indi-
cadores da transformação mais global operada no interior da
sociedade. Porem, nâo podem ser transformados em elemen-
tos explicativos em si, capazes de dar conta da totalidade das
mudanças, ate mesmo das mudanças qualitativas, pois isto
seria permanecer no nível mais imediato da manifestação do
fenômeno e nâo em suas determinações.
Não basta também partir de categorias explicativas de-
finidas o priori, mesmo que tal categoria seja o modo de pro-
dução, para que seja possível a apreensão da Revolução In-
dustrial, pois estaríamos privilegiando uma categoria lógico-
formal que estruturaliza o processo, idealiza-o no limite. É
necessário historicizar o conceito; enchê-lo de vida e, portan-
to, de concreticidade histórica.
)
Zt
Capital mercantil e
manufaturai a precondição

A fase que medeia entre a crise do sistema feudal e a


Revolução Industrial é dominada pelo capital mercantil, pe-
lo processo de acumulaçâo originária de capitais e a coexis-
tência de formas diversas e antagônicas de produção, dentre
as quais, a forma mais avançada é a manufatura. O conjun-
to destes elementos constitui a transição e a sua superação
seria condição sin e qua non para a passagem do modo de pro-
duçâo feudal ao modo de produçâo capitalista.

A preponderância do capital mercantal


Marx entende que o capital mercantil é um pressuposto
histórico à constituiçâo do modo capitalista de produção, pois
é condição necessária para a emergência do capital industrial,
ao mesmo tempo que guarda uma relaçâo de dominaçâo em
relação à esfera produtiva do sistema. Nestes termos, a ex-
pansão do capital mercantil agiliza a produçâo de valores de
troca, elemento precípuo da transformação da força de tra-
balho em mercadoria. Porem, a simples expansâo do capital
mercantil é insuficiente para revolucionar a esfera produtiva
25

sobre a qual se sustém, conservando um sistema produtivo


e um regime de trabalho com insuficiente base técnica à au-
todeterminação do modo de produção capitalista. De qual-
quer forma, a ação do capital mercantil estimula a produção
de mercadorias, acelera o processo de divisão sociãl do tra-
balho, ampliando a organização do sistema produtivo sem,
contudo, revolucioná-la. Em síntese, constituem faces de um
mesmo processo o desenvolvimento do capital mercantil, o
incremento da produçâo de valores de troca, a divisão social
do trabalho. Se, por um lado, ..o capital comercial acentua
a divisão social do trabalho e a especialização da produçào,
estes fatores, por sua vez, impulsionam a valorização do ca-
pital comercial, já que sua reproduçâo ampliada exige o cons-
tante incremento da produção mercantil" (Carlos Àonso B.
de Oliveira, Considerações sobre a formação do capitalismo,
p. 9). A extensâo e os limites da capacidade do capital mer-
cantil em transformar as antigas formas de produçâo, sobre
as quais se sustenta, dependem da natureza mesma destes mo-
dos de produçâo. Por isso, o capital mercantil tenderá a per-
meÍrr e articular as antigas formas de produção, assumindo,
destarte, uma posição reacionária, em termos do desenvolvi-
mento econômico, na medida em que se apega a seus privilé-
gios e lucros excepcionais. De elemento dinamizador do
sistema produtivo, o capital mercantil transforma-se em con-
dição de bloqueio do capitalismo.
Identifica-se a fase de preponderância do capital mer-
cantil com a acumulação primitiva de capitais. primitiva por-
que é a forma primeira, que antecede de imediato o modo
de produção capitalista, engendrando o trabalho assalaria-
do e o capital-dinheiro. Mas também pÍimitiva porque, se-
gundo Carlos Alonso, realiza-se de forma violenta, seja na
expropriação dos camponeses, das colônias via sistema colo-
nial e mesmo da mais-valia absoluta. No limite, violenta pe-
la inger&rcia coercitiva do Estado, que gaÍante a acumulação
do capital mercantil, que assegura a reprodução, mesmo nas
áreas de produçâo mais caracteristicamente capitalistas.
26

O capital mercantil gangliona um amplo y'on Í de mo-


dos de produção, na maior parte dos casos antagônicos em
sua própria natureza. Assim, é a coexistência do p«lueno pro-
dutor agrícola independente, dos pequenos rendeiros' dos
grandes rendeiros capitalistas que arregimentam o trabalho
assâlariado, o artesanato, o mestre-manufatureiro, a indús-
tria doméstica Qrutting'out ot Verlagl ott mesmo a manufá-
brica ou, propriamente, manufatura, com seu relacionamento
assalariado de produçâo. A articulação deste conjunto extre-
mamente heterogêneo, que envolve ainda as formas de pro-
dução dominantes na periferia do sistema, especialmente nas
áreas coloniais, onde preponderam formas compulsórias de
trabalho, é realizada pelo capital mercantil.
Para considerarmos apenas as formas de produçâo mais
diretamente ligadas à produção industrial, lembramos que o
artesanato corresponde à antiga indústria medieval integra-
da no sistema corporativo, na qual a unidade de produçâo
é familiat, possuindo o produtor os meios de produçâo, as
ferramentas, a mâtéria-prima e a oficina e uma rígida hie-
rarquia que vai dos jornaleiros - diaristas excepcionais -
aos mestres, passando pelos aprendizes e oficiais. Nesta for-
ma de produção o produtor não vende a sua força de traba-
tho, vende o produto do seu trabalho.
A forma mais avanÇada do mestre-manufatureiro apa-
rece onde quer que, pela dinamizaçâo do circuito mercantil,
a produção seja dinamizada a ponto de o mestre integrar um
número crescente de jornaleiros, assalariados, transformando-
senum pequeno empresário que assalaria trabalho fornecendo
os meios de produção, mas preserva as aparências da antiga
unidade doméstica de produçâo que dá ao conjunto produti-
vo uma certa solidariedade.
O comerciante-manufatureiro surge quando comercian-
tes, detentores de capital mercantil, investem na pÍodução'
permanecendo seu capital essencialmente comercial, não se
definindo como empresários produtores. Geralmente, come-
27

çam pelas etapas finais do produto, isto é, pelo tingimento


dos tecidos, penetrando progressivamente nas demais etapas
da produçâo, tecelagem, fiação, preparaçâo da matéria-pri-
ma, até assenhorear-se completamente da produção indus-
trial. Esta forma de produçâo, a manufatura, poderia estar
concentrada, com todos os trabalhadores reunidos sob o mes-
mo teto, a manufábrica, ou geograficamente dispersa, com
o fornecimento de matéria-prima e instrumentos indispensá_
veis à produçâo pelo comerciante-manufatureiro, que previa-
mente fixava o valor a ser pago pelo trabalho. Este era o novo
sistema domestico de produção, diferente do antigo modo do-
méstico de produçâo assentado na forma artesanal de pro-
duçâo ou no trabalho de mestres-manufatureiros. Guardamos
para o novo sistema doméstico a denominação putting_out,
correspondente ao sistema Verlo g, denominaçâo reconheci-
da na Alemanha.
A manufatura é a forma mais evoluída, mais acabada
e dinâmica no quadro do antigo sistema produtivo, mas não
era a forma mais generalizada, que correspondia à produção
artesanal. Mas é exatamente nesta forma mais progressista,
que tendia a dominar as demais, que centraremos a análise
em busca de suas contradiçôes mais intimas.

As contradições da manüÍatuÍa
A manufatura e uma forma mais evoluída porque in-
tensifica a divisâo do trabalho, desqualiÍicando-o relativamen-
te ao trabalhador do artesanato. Contudo, é ainda a partir
da habilidade dos trabalhadores parciais que determinará o
nÍvel técnico da produção, em função da proporcionalidade
das tarefas distribuídas entre os trabalhadores e o tempo so-
cialmente necessário à execução das tarefas. Implica, pois,
uma limitação técnica insuperável nos quadros da manufa-
tura. Nestes termos, já se produziu uma separaçâo entre o
2t

trabalhador e os meios de produção, já transformados em


capital. Porém, esta transformação é formal. O trabalhador
não está efetivamente submetido ao controle do capital. Ele
domina ainda os elementos objetivos do processo de produ-
ção, tem o controle dos instrumentos manipulados num tem-
po social por ele determinado. Cria-se, pois, um trabalhador
resistente, que impõe limites à reduçâo da força de trabalho.
Ainda mais, existe uma limitação orgânica, natural' para a
expansão da capacidade produtiva, o que impede o aumento
da produtividade. A exploração da força de trabalho exigia'
pois, a extração de mais-valia absoluta, restringindo'se a mais-
valia relativa, que demandaria a implantaçâo de um sistema
efetivamente capitalista. "O capital constante utilizado na
acumulaçâo cresce muito lentamente em relaçâo ao capital
variável. tsto signiFrca que a demanda de força de trabalho
no mercado cresce praticamente na mesma proporçâo que a
acumulaçâo de capital. Por isso mesmo, a manufatura e in-
capaz de destruir as formas pretéritas de organizaçâo da pro-
dução... pela incapacidade de proletarizar produtores inde-
pendentes... porque necessita de força de trabalho qualifica-
da" (Carlos Alonso B. de Oliveira, op. cit., p. 23). Disto tu-
do resulta um lento crescimento da composição orgânica do
capital.
Como o princípio característico da manufatura é a ex-
trema divisão do trabalho, resulta o isolamento das diferentes
fases da produção e a independência relativa entre os traba-
lhadores, pois, "para manter a conexâo entre as diferentes fun-
ções isoladas, é necessilrio o transpoÍte ininterrupto do artigo
de uma mâo para outra e de um pÍocesso para outro" (K.
Marx, O capital, Livro I, p. 395). Por esta Íazão, o problema
dos transportes passa a se constituir num sério entrave à ex-
pansâo da produção, do mesmo modo que a criação de tra-
balhadores especializados cria uma resistência no nível do
trabalho, zelosamente garantida por sete anos de aprendiza-
gem, responsável pela "insubordinação do trabalho".
29

A manufatura resulta, pois, numa inadequação comple-


xa. "Nâo podia assenhorear-se da produção social em toda
a sua extensão, nem revolucionáJa em seu cerne. Como obra
de arte econômica atingiu seu apogeu apoiada na extensa base
constituída pelos ofícios das cidades e pela indústria domés-
tica rural. Mas, seu estreito fundamento técnico, ao atingir
ela certo estágio de desenvolvimento, entrou em conflito com
as necessidades de produçâo que ela mesma criou" (idem,
ibidem, p. 395). "Em ourras palavras, no primeiro estágio
do capitalismo, o trabalho tradicional do anesâo é subdivi-
dido em suas tarefas constituintes e executado em série por
uma cadeia de trabalhadores parcelados, de modo que o pro-
cesso muda pouco; o que alterou foi a organizaçâo do traba-
lho" (Harry Braverman, Trabalho e capital monopolista, p.
t48). Fundamentalmente, estamos diante de um individuo que
domina o seu zrsÍer e controla os meios de produção mesmo
sem ter a sua propriedade e, por isso mesmo, determina o
curso do ciclo produtivo. Este controle é exercido de modo
objetivo, pois o limite da produçâo é dado pela capacidade
física do artesâo, e subjetivo, pois o trabalhador aciona o ins-
trumento que é uma extensâo de suas mãos, segundo sua pró-
pria vontade. Os limites naturais da força humana impõem
limites à produçâo, tanto no nível da procura por mercado-
rias, quanto da acumulação de capital, que é o cerne dinâmi-
co do sistema capitalista, cujas flutuações determinam uma
parada imediata no processo de desenvolvimento resultando,
portanto, numa crise.
As contradições se ampliam, pois, segundo Armando de
Palma, se o trabalhador tinha a cuscódia da matéria-prima,
a única forma disponível para o empregador controlá-lo se-
ria pagarJhe o minimo indispensável à sua subsistência. Do
contrário, se o remunerasse acima deste limite, os artesâos
tenderiam a diminuir o seu desempenho, caindo necessaria-
mente o nível de produtividade. Some-se a isto a tendência
dos produtores a incrementar os seus ganhos marginais pelo
30

roubo da matéria-prima fornecida pelo comerciante-manu-


fatureiro, utilizando-a em benefício próprio. David Landes
lembra, oportunamente, que durante o século XVIII
evidenciou-se um esforço do poder no sentido de conter o rou-
bo de matéria-prima, dando-se aos empresários e represen-
tantes do poder direitos especiais para revistar, apreender
mercadorias, para as quais seus possuidores não tivessem uma
adequada explicação, com severas penalidades para os infra-
tores (IIre unbound Prometheus, p.59).
No conjunto, resultava que o controle do empregador
sobre o trabalhador era maior num mercado recessivo. Nos
momentos de expansão da demanda, a indisciplina tendia a
agravar os conflitos endêmicos do sistema. Em primeiro lu-
gar, tendia a ampliar quantitativamente a produção pela in-
corporaçâo de novas áreas ao sistema produtivo, o que
esbarrava e(n obstáculos de natureza geográfica, pois os cus-
tos de produçâo tendiam a crescer aceleradamente quando
a ampliação da produção impunha a ultrapassagem de obs-
táculos naturais mais penosos, e isto levava à tentativa de au-
mentar a produtividade dentÍo da zona de operação. A
simples expansão geográfica envolvia, ademais, o aumento
do custo dos transportes. A compulsão do trabalho é prati-
camente impossível, pois o artesão é dono de seu tempo e pos-
sui uma concepção rígida do que significa uma vida decente
para a sua condiçâo social e, tâo logo atinja este limite, in-
terrompe o trabalho, usando o tempo livre em lazer. Assim,
"quanto mais altos os salários, menos tinha que fazer para
atingir este ponto" (David Landes, op. cit., p. 58-9). Veja-
se, pois, o entrave biisico da manufatuÍa: exatamente nos mo-
mentos em que as possibilidades de lucro aumentavam para
o empregador, cresciam suas frustrações por uma verdadei-
ra inversâo nas leis do comportamento econômico, pois a
oferta de trabalho diminuía na proporçâo que aumentavam
os preÇos e, portanto, as oportunidades de ganho. um exem-
plo de como o sistema produtivo assentado na manufatura
3r

apresentava um lento evoluir e podia, até mesmo, provccâr


uma crise gerâl do sistema é dado por A. D. Lublinskaya,
ao relacionar a inércia do sistema manufatureiro com a crise
geral do seculo XVII (La crisis del siglo XVII y la sociedad
del absolutismo, p. 87).

As condições da superação
Em que condiçôes se poderia superar estas graves contÍa-
diçôes do sistema produtivo manufatureiro? euais os impul-
sos necessários para transformar a estreita base tecnica da
manufatura? Eric Hobsbawm pro@ três condiçôes essenciais:
uma limitação extema para a expansâo dos velhos métodos (eia-
se manufatura) que tornavam difícil aumentar a produção além
de um certo ponto com os métodos existentes; uma perspecti-
va de expansâo do mercado, cão ampla que justiÍicàsse a di-
versificação e o aperfeiçoamento dos métodos antigos; uma
expansâo tâo rápida do mercado que a simples modiÍicaçào dos
antigos maodos de produçâo não lhe pudesse fazer frente (Ez
torno a los origene.s..., cit., p. 104).
Como bem lembra Nino Salamone, o que e significativo
na manufatura enquanto precondiçâo para o desenvolvimento
posterior é a sua maturidade ainda irlperfeita, enquanto modo
de produçâo capitalista, ou seja, a sua caracterizaçâo como mo-
do de produçâo dominante no seio de uma formação social de
transição. Constata-se, pois, uma não-correspondência no in-
terior da manufatura, entre ils relaçôes sociais e o desenvolvi-
mento das forças produtivas, pois, "na fase de trar»içâo há uma
antecipaçâo das relaçôes de produção (que no setor da manu-
fatura já sâo capitrliscas, embora só formalmente) relativamente
às forças produtivas, cuja estrutura e ainda condicionada, em
grande medida, pela forma das antigas relaçôes de produção,
em vias de desaparecimento" (C. La Grassa, Sulla formazione
sociale di transizione. In: In volore e formazione sociale.
Roma, 1975. p. 227).
-.
32

A readequaçâo entre as relaçôes sociais de produção e o


nivel de desenvolvimento das forças produtivas se dará com a
introdução das máquinas acionadas por energia não-humana
e não-animal, definindo-se a subordinação real do pÍodutor ao
dominio do capital. Neste processo de rearticulação das forças
sociais, encontra-se a trânsformação prévia da estrutura do Es-
tado, da ideologia de dominaçâo, das relações de propriedade
no campo e da diúmica do mercado mundial, consubstancia-
da na Revolução lnglesa do secr-rlo XVII.
3
Revolução Inglesa
e Revolução Industrial

A nova ostrutura do poder


A Revolução Inglesa de 1640 transformou a estrutura
política, social
e econômica da Inglaterra. Destruiu o antigo
aparelho de Estado, impondo limites ao poder do parlamen-
to, destruindo o Conselho Privado, a Câmara Estrelada, o
Tribunal de Alta Comissão e os poderes locais baseados nos
Juízes de Paz. Eliminou a autonomia financeira do poder real,
confiscando-lhes as propriedades e transformando o próprio
conceito de propriedade, surgindo então a noçâo de proprie-
dade individual e absoluta, baseada na noção de maior inre-
resse, atribuída à pessoa que detinha a propriedade, seu uso
efetivo, destruindo virtualmente a idenrificaçâo entre proprie-
dade real e propriedade pessoal.
O poder mudara efetivamente de mâos. Ele, que fora
exercido até t 640 pelo Rei em termos pessoais e pela aristo-
cracia por delegação, passava agora aos domínios da peque-
na nobreza rural, a gezrry, identificada com a burguesia
mercantil. Efetivamente, se a Revolução de 1640 lançou as
bases do poder político da burguesia, sem dúvida nâo lhe deu
34

o poder diretamente, pois o predomínio econômico da bur-


guesia desenvolveu-se, a princípio, sob o domínio político da
nobreza proprietária, para mais tarde a burguesia atingir o
poder sob a hegemonia da nobreza e, finalmente, chegar à
hegemonia do bloco do poder após 1832. O Parlamento "con-
centra por excelência o poder da fração hegemônica do blo-
co no poder, porque ele consegue igualmente' e ao mesmo
tempo, concentrar em si o papel político-ideológico do Esta-
do com relação às classes dominadas" (Nicos Poulantzas, O
Estado em crise, P. 21).
No plano ideológico, a Revolução Inglesa abriu espaço
para um novo comportâmento político dos puritanos, a emer-
gência do liberalismo, a afirmação do individualismo e o de-
senvolvimento da teoria do contrato social. Pela primeira vez'
num processo revolucionário, a burguesia tinha assumido o
poder e implantado seu projeto político, derrubando pela for-
ça o poder constituído, com o indispensável apoio
das mas-
sas rurais e urbanas, que se fizeram presentes nos momentos
mais agudos deste processo revolucionário.
A nível social, transformara-se radicalmente a velha aris-
tocracia, cujos bens foram confiscados ou severamente ta-
xados, obrigando-os a alienarem parte de suas antiSas
propriedades, das quais conservaram uma pequena porção.
O desenvolvimento econômico arrastou a antiga nobreza feu-
dal estimulando-a a produzir para o mercado, mercado este
sensivelmente dilatado no plano interno pela incorporaçào
definitiva da Escócia e da lrlanda, resultando numa radical
transformaçâo de seus horizontes mentais. O antigo clero an-
glicano, de tão fundamental importância para a sustentaÇâo
do absolutismo, foi privado de seus bens e, em decorrência,
de sua tradicional autonomia. A reconstituiçâo da hierarquia
anglicana é uma vitória dos presbiterianos contra o movimen-
to anárquico das seitas radicais. Trata-se, porém, de um no-
vo clero, um clero funcionário do Estado. As terras colocadas
35

à venda no mercado ou simplesmente hipotecadas expandi-


ram os horizontes econômicos d,a gentry, que poderia se lo-
cupletar ainda mais com o avanço dos cercamentos das ter-
ras. Este processo, contudo, não se faria sem enormes per-
das em termos de bens e de posição social para a antiga
yeomonry, a classe que efetivamente fez a revolução e que
por ela foi destruída. As leis de 1646, que aboliram os direi-
tos feudais, davam aos nobres proprietários direitos de pro-
priedade individual sobre suas posses. Em contraposição, as
leis de 1660e 1677 impediram aos copyholden e aos freehold-
ers o direito de confirmar suas propriedades, representando
uma verdadeira expropriaçâo. Somem-se a isto os efeitos dos
cercamentos e entenderemos o virtual desaparecimento da
classe dos yeoraea, mecanismo que redunda em proletariza-
çâo das relaçôes de produçâo nos campos ingleses. Nada mais
cristalino do que as disposições legislativas sobre a proprie-
dade no sentido de revelar o caráter social da Revoluçâo In-
glesa como Revoluçâo Burguesa.

A transÍoÍmação agrária: oa cercamentoa


Uma das manifestações mais fortes da nova configura-
çâo do poder, que resultava das relaçôes de classe posras pe-
la Revolução lnglesa, é o processo de transformaçâo da
estrutura agrária, uma verdadeira revolução na distribuiçâo
do poder fundiário que se seguiu à revolução, vulgarmente
denominada cercamentos (enclosnres), e que atinge o seu cli-
max exatamente nos decênios que precedem ao arranque in-
dustrial das duas décadas finais do século XVIII. De fato,
o antigo protecionismo dispensado pelos reis aos campone-
ses, impedindo os cercamentos, caiu por terra. Foram cerca-
dos os open Jields e as common lanó, criando-se em seu lugar
grandes propriedades nas quais se faziam investimentos ca-

pitalistas, proletarizando as relaçôes de trabalho no cam-


po, intensificando a divisão social da produção, dinamizan-
do os procedimentos técnicos. Este processo rompe a famo-
sa dualidade camponesa, isto é, a identificaçâo entre o tra-
balho artesanal, realizado nos campos, e o trabalho agríco-
la. A especialização do trabalhador na agricultura limita a
ofena de mão-de-obra para o artesanato e a manufatura,
constrangendo a oferta de produtos e determinando, em úl-
tima instância, a imperiosidade de mudança no modo de pro-
dução. Com a transformação na estrutura agrária rompe-se
o bloqueio estrutural, imanente desde o primeiro momento
da crise do sistema feudal e a emergência do capital mercan-
til, que resulura na crise de crescimento do seculo XVII, des-
travando as forças produtivas rumo à industrialização do
século XVIII.
O ônus social da partilha e expropriação é mais do que
evidente. Marx detecta aí, por volta de 1750, o completo de-
saparecimento da classe social que fora o sustentáculo da Re-
volução Inglesa. Tal classe, contudo, ao contrário do que
pensaÍa Marx, não se desloca imediatamente para os centros
urbanos engrossando o exército de trabalhadores industÍiais.
"A migração rural para as cidades da lnglaterra não foi cau-
sada pelos cercamentos das terras e as migrações patecem es-
tar relacionadas ao crescimento da populaçâo rural"
(Lawrence J. White, Enclosures and population movements
in England. Explorations in Entrepreneurial History, (l):185,
1968). O outro lado da história, seu contraponto necessário,
é a modernizaçâo da agricultura que passa a suprir a indús-
tria com alimentos e materia-prima, força de trabalho, terra
e capital, ao mesmo tempo que atua como mercado para os
produtos industrializados, constituindo-se no limite num po-
deroso elemento de formaçâo de capital para a economia
urbana.
37

A conquista do mercado mundial


Se de um lado a transformação da estrutura agrária cor-
respondia diretamente aos interesses da gezÍry, classe que efe-
tivamente apropriou-se da Revolução Inglesa, do outro, os
interesses da burguesia mercantil foram atendidos pela des-
truição dos privilegios corporativos, criando-se novas condi-
çôes para a expansão das atividades industriais nos centros
urbanos até entâo dominados pelas corporações. A elimina-
ção das companhias privilegiadas, com exceção da Compa-
nhia das Índias Orientais, inaugurava a preponderância do
princípio de liberdade de acesso a riquezas do mercado ex-
terno a todos os detentores de capital. Exatamente neste ponto
vislumbra-se o sentido social mais profundo da Revolução
lnglesa como Revoluçâo Burguesa. O Ato de Navegação bai-
xado por Cromwell em 165l
atos que se seguiram
- bem como todos os demais
continha o elixir detonante de uma
-
agressiva politica de expansâo rumo ao controle do mercâdo
externo. Destinado, inicialmente, a combater os holandeses,
sua finalidade última revelou-se muito mais arnbiciosa, pois
foi acompanhado por uma diplomacia eficiente, combinada
com guerras de conquista, que levaram os ingleses a um am-
plo assalto aos mercados mundiais e, sobretudo, coloniais.
Paradoxalmente, a rápida expansão da demanda no merca-
do externo, agora controlado pelos ingleses, coincidia com
a saturaçâo da capacidade produtiva a nível interno, em vir-
tude da ruptura da dualidade camponesa resultante dos cer-
camentos. Agravava-se, destarte, a contradição fundamental
que inviabilizava o aumento da produção na estrutura vigente,
sobretudo pela escassez de mâo-de-obra que tendia a fixar-
se como proletariado agrícola. Impunha-se a transformaçâo
da estrutura técnica da produção para atender as impulsões
do mercado mundial, conduzindo a Inglaterra, a curto pra-
zo, para a Revolução Industrial.
3t

Uma das mudanças mais significativas e caracterizado-


ras desse período é a alteração na composição da pauta de
exportaçâo e importação da Inglaterra, sobretudo sua com-
posição espacial. A Inglaterra desvincula-se gradativamente
do mercado europeu em direçâo ao mercado da África, Á'sia
e América, equivalendo dizer, rumo ao mercado colonial.
4
A grande transformação
no processo produtivo

tmpasses teóricos: mercado e produção


O problema central que se coloca na determinação da
gênese da RevoluçãoIndustrial é o da relação entre a impul-
sâo do mercado e a impulsão da produção. Esta questâo co-
loca problemas complexos, menos no nível teórico, que pode
ser abrangido com uma certa tranqüilidade, mas de difícil
equacionamento quando se passa ao nível propriamente his-
tórico.
Partimos da colocaçâo de Marx, quando pensa a rela-
ção polar entre produção e consumo, quando diz: "a produ-
çâo não cria somente um objeto pàra o sujeito, mas também
um sujeito para o objeto. Logo a produção gera o consumo:
l9) fornecendo-lhe a sua matéria; 29) determinando o modo
de consumo; 39) criando no consumidor a necessidade de pro-
dutos que começaram por simples objetos. Produz, por con-
seguinte, o objeto do consumo, o modo de consumo, o
instinto do consumo. De igual modo, o consumo engendra
a vocaçâo do produtor, solicitando-lhe a finalidade da pro-
duçào, sob a forma de uma necessidade determinada" (Con'
tribuiçao à crítica da economia política, p. 210). Vê-se' pois,
!()

um circuito integrado, que revela uma certa circularidade,


um movimento mais próximo do pendular, que realiza um
movimento completo quando parte da produção, e incom-
pleto, quando parte da circulaçâo.
Parece perfeito quando pensamos o capitalismo mono-
polista, o capitalismo maduro, no qual, indubitavelmente, a
produção cria o seu próprio mercado para sua realização, em
termos de movimento ampliado pelo processo de reproduçâo
das mercadorias, do próprio capital, equivale dizer, das con-
dições de reprodução. A relação de determinação se inverte
completamente, entreunto, quando passamos à fase pré-
capitalista. Com clareza, Marx diz: "Hoje em dia, a supre-
macia industrial traz a supremacia comercial. No período ma-
nufatureiro, ao contrário, é a supremacia comercial que
proporciona o predomínio industrial" (O capital, Livro I, p.
872). Noutro passo, retoma a mesma idéia, com mais vigor.
"O produto ai se torna mercadoria por meio do comércio. Aí
éo comércio que leva os produtos a se transformarem em mer-
cadoria; não e a mercadoria que, movimentando-se, forma o
comércio. Aí o capital mesmo apÍrece, primeiramente, no pro-
cesso de circulação. É no processo de circulação que o dinhei-
ro vira capital. É na circulaçâo que o produto se torna valor
de troca, mercadoria e dinheiro" (ibidem, Livro tll, p. 378).
Há, portanto, uma nítida clivagem entre dois momen-
tos distintos: antes da transformaçâo vital que revoluciona
o modo de produção, e depois. No primeiro momento o mer-
cado comanda a produção; no segundo, a produção coman-
da o mercado. Mas, há um terceiro momento, o momento
exato da transformaçâo, isto e, aqueles 20 anos decisivos nos
quais se dá a transformaçâo fundamental, que em nosso modo
de entender, parece orientar-se pelas determinantes do mer-
cado e não da produçâo, pois que esta ainda nâo se consti-
tuiu como modo de produçâo capitalista.
De uma forma candente, este problema perpassa a obra
de Eric Hobsbawm. Num texto de 196l diz que "sob as con-
4l

diçôes do desenvolvimento capitalista, antes da Revoluçâo ln-


dustrial, é mais viável que o impulso venha do exterior. Por
esta razão é cada vez mais claro que as origens da Revolução
Industrial na Grà-Bretanha nâo podem ser estudadas exclu-
sivamente em termos de história britânica" (En torno a los
origenes..., cit., p. 104). Segue-se uma brilhante demonstração
do papel desempenhado pela indústria do algodão, carro-
chefe da industrializaçào, nitidamente ligada ao mercado ex-
terno. Porem, em 1965, partindo de uma invocaçâo de Marx,
sugere que "a industrializaçâo capiralista somente pode ter
lugar, num certo sentido, quando a forma do consumo, quer
dizer, quando o mercado é função da capacidade produtiva,
ao invés da capacidade produtiva ser função do mercado"
("Recientes estudios sobre la industrialización en Cran Bre-
tanha", p. la9). Quando passa à consratação histórica, po-
rém, afirma que a industrializaçâo, em termos de empresas
privadas, somente pode ter lugar nas indústrias que já tenham
uma demanda reconhecida e preexistente. Somente quando
o mercado para tais indústrias se expande, de uma forma tí-
pica e a taxas determinadas, e que terão lugar as mudanças
revolucionárias. Conclui que seria praticamente impossível
pensar-se um país em processo de industrializaçâo, sem um
mercado externo amplo e em expansâo, definido por seu ca-
ráter exportador. E mais, que somente o estímulo do merca-
do externo cria condiçôes para a existência de um amplo meÍ-
cado interno, que produza para a exportaçâo, mas amplia
o mercado interno, que suporta o processo nos momentos
de retraçâo do mercado externo. Em 1968, sem qualquer re-
serva, passava a afirmar: "Entre 1700 e 1750 as indústrias
domésticas aumentaram suâ produção 790; as indústrias de
exportaçâo l79o;entre 1750e1770... outros 790 e 1890, res-
pectivamente. A demanda interna cresceu, mas a demanda
externa multiplicou-se. Se uma centelha era necessária, da-
qui ela se originou" (Industry and empire, p. 48). Evidencia-
se, pois, uma flagrante indecisâo, fruto, exatamente, da com-
plexidade que a questão revela.
42

A Íorça do mercado interno

Sem cair nessas vacilaçôes, M. Dobb remete a explica-


ção do arranque industrial para o mercado interno, afirmando
que a expansão do mercado foi o resultado conjunto das in-
venções, intensificaçâo da divisão do trabalho, aumento da
produtividade e crescimento demográfico. Em apoio desta po-
sição, alinham-se pesquisadores conceituados tais como R.
M. Hartwell, Paul Bairoch e Ralph Davies. Este último afir-
ma que o mercado externo teve importância no modesto cres-
cimento industrial que precede à revolução; sua contribuição
maior se dá após a industrializaçâo. Decisivo mesmo, para
ele, teria sido o papel das pequenas indústrias que desde os
inícios do século XVIII dedicavam-se à produção de quin-
quilharias de metal, manufaturas de linho e seda, louças,
construção naval, manufaturas de vidro e algodâo. A impor-
tância que se pretende conferir à indústria do algodão não
encontra respaldo na expansão do mercado externo, porque
suas exportaçôes em direção à África e Índias Ocidentais ocor-
reram num momento em que as dificuldades nas Índias im-
pediram o afluxo de tecidos para o Ocidente, entre 1750 e
1760. Tào logo se normalizou o mercado a tecelagem do al-
godâo feneceu. Pelo contrário, foi a indústria do algodâo que
cresceu à sombra do mercado interno, dinamizando, por sua
vez, a tecelagem da lã e as indústrias metálicas, antes mesmo
do mercado externo tornaÍ-se significativo. Foi no setor da
tecelagem de algodâo que se verificaram os inventos decisi-
vos de Hargreaves, Arkwright e Crompton (The Industrial
Revolution and British overseas trade, p.64). Eis o proble-
ma central, a relaçâo entre o avanço tecnológico e a indus-
trializaçâo, pois os inventos técnicos citados nâo revolucio-
naram as relaçôes de produçào, porque não trazem em si a
mudança<have que é o aparecimento da máquina-ferramenta
acionada a energia motriz. Os inventos citados sâo ainda acio-
nados pela energia humana e, em vez de revolucionarem o
43

sistema produtivo, contribuem para a cristalizaçâo do anti-


go modo de produção, assentado na manufatura. São má-
quinas simples que ampliam a capacidade fisiológica do
organismo humano.
A ênfase no papel decisivo do mercado interno foi de-
senvolvida por alguns autores, de forma mais sistemática.
Num artigo raro, E. W. Gilboy analisou o papel da deman-
da na Revoluçâo Industrial. Partiu do pressuposto que o al-
cance e a difusão às mudanças industriais nâo poderiam
ocorrer, a nâo ser em sociedades cujas demandas e consu-
mos padronizados tivessem passado por mudanças e reajus-
tamentos radicais. Tal sociedade seria caracterizada pela
mobilidade social entre as camadas, pela introduçâo de no-
vas mercadorias criadoras de novas necessidades, e por um
crescimento nos rendimentos reais da população como um
todo. Desta proposta teórica, a autora passou à constatação
de que, na [nglaterra, os salários reais, medidos em termos
de capacidade aquisitiva de artigos da dieta comum dos tra-
balhadores, aumentaram particularmente nas regiões indus-
triais, economicamente mais expansivas. A baixa dos preços
dos cereais ocorre de forma levemente acentuada na primei-
Ía parte do século XvIlI, invertendo-se a tendência na se-
gunda metade. Outros elementos, tais como a alimentação,
vestuário e condições gerais de vida dos trabalhadores, per-
mitem um ganho líquido em capacidade de consumo no fi-
nal do século. Assim, conclui que as "mudanças na demanda
desempenharam um importante papel nos inícios da Revolu-
çâo Industrial. Mudanças nos padrões de consumo, no cres-
cimento populacional e na mobilidade social. A elevação dos
salários reais prodigalizou um estímulo à expansão industrial
que não pode ser subestimado" (Demand as a factor in the
Industrial Revolution... In: R. M. Hartwell, org. The couses
oÍ the Industrial Revolution in England, p. 137).
Observamos, primeiramente, que as condições de sub-
sistência da população inglesa variaram, consideravelmente,
4

em termos espaciais e temporais. Considerando-se, especifi-


camente, o caso da região londrina, pode-se dizer que os sa-
lários subiram no fim dos anos 30 e fim dos anos 60. Além
disso, seu poder aquisitivo, expresso em cereais, aumentou
mais intensamente na primeira parte do século XVIII. Já no
norte do país, a tendência ascensional foi mais marcante no
início dos anos 60. Todavia, as crises cíclicas de seca e fome,
que se sucederam com uma c€rta regularidade durante o trans-
correr de todo o século XVlll, certamente erodiram os salá-
rios reais. Com certeza absoluta, somente se pode afirmar
que os salários reais subiram nos l2 anos anteriores a 1813,
portanto, no transcurso das guerras com a França. Além do
mais, devemos nos recordar que a elevação dos salários reais
não necessariamente precisa significar a ampliaçâo da deman-
da efetiva, pois, se o número de trabalhadores empregados
diminuir, contrai-se a massa global dos gastos de consumo
com a conseqüente retraÇão da demanda geral.

O papel decisivo do mercado oxteÍno

Sem descuidarmos da importância do mercado interno,


que deve ser apropriadamente nuançada e à qual voltaremos
no passo seguinte desta análise, retomamos as consideraçôes
em torno da importância decisiva do mercado externo. W.
E. Minchinton fala do efeito multiplicador do comércio ex-
terior sobre a economia inglesa. Admite que, "por seus re-
flexos no suprimento de fatores de produção, na procura por
manufaturas inglesas, na alocaçâo de recursos financeiros e
industriais, no desenvolvimento urbano, na gestaçâo de ren-
das, o comércio exterior teve uma contribuiçâo necessária e
vital no sentido de impulsionar o crescimento econômico do
século XVllI" (The growth oÍ the Enelish overseas trade, p-
,M). Na mesma linha de argumentação, Deane e Cole afir-
mam a inequivocabilidade da determinância do mercado mun-
dial, visÍvel numa comparação entre o crescimento das indús-
45

trias ligadas ao setor exportador, as indústrias que produziam


para o consumo doméstico, a produção agrícola e â renda
nacional. O crescimento das indústrias ligadas ao mercado
interno foi apenas moderado, o mesmo sucede com a produ-
ção agricola. As indústrias de exportação, porém, tiveram
crescimento signiÍicativamente acelerado, com impulsão es-
tupenda no último decênio. A taxa de crescimento das indús-
trias de exportaçâo foi de 4,690 no período de 1780 a lg00
e o produto nacional cresceu 2,lgo. Como neste período o
crescimento dos demais setores produçâo interna e agrí-
cola foi levemente moderado,- deve-se concluir que o se-
-
tor exportador foi o maior responsável pelo acrescimo
significativo da renda nacional e, porranto, do take-off d,a
economia inglesa. Os produtos destinados à exportação tive-
ram uma taxa de crescimento espanÍosa, particularmente os
têxteis, com l4,lgo no período de 1780 a 1800, ferro e aço,
5,190 e outros metais trabalhados, em média, 5go.
Considerando-se a taxa de crescimento modesto da produ-
ção agrícola, o consumo no mercado interno teria que sofrer
sérias limitaçôes, nâo comportando o desenvolvimento ace-
lerado das forças produtivas que pudessem assimilar a pro-
duçâo doméstica (British economic grov,th, 1688-1959, p.
28-68).
Um exemplo marcante do dinamismo das indústrias li-
gadas ao setor exportador e a tecelagem do algodão. Segun-
do dados de Hobsbawm e possível concluir-se pela primazia
que esta indústria desempenhou na industrialização da Ingla-
terra. Enquanto as exportaçôes inglesas cresciam apenas mo-
deradamente, no perÍodo de 1750 a 1770, as exportações das
manufaturas de algodão aumentaram 90090. Ainda mais, é
preciso considerar que as estimativas sobre a produçâo de te-
cidos de algodão se baseiam, geralmente, nos índices de im-
portação da maréria-prima, esquecendo-se que os tecidos de
algodâo continham urdidura de linho e trama de algodâo,
resultando, portanto, que as importações da matéria-prima
6

cobriam apenas meude da quantidade realmente utilizada pe-


la produçâo. A importância desta indúscria na economia in-
glesa nâo parou de crescer. Era responsável por 590 da renda
nacional em t80l-1803 e 7,590 em lSll-1813, tendo substi-
tuido a lâ como primeira indústria britânica, superaçâo esta
que se deu, exatamente, no ano de 1802. Considerando-se a
totalidade da produçâo, a parcela correspondente ao algo-
dão era de 3690 em 1170, 40010 em t800 e 5090 em l8l l. Nâo
se pode esquecert evidentemente, que os produtos de algo-
dão destinavam-se ao mercado externo' especialmente áreas
coloniais e semicoloniais.
É necessário, contudo, superar esta clivagem entre mer-
cado interno e externo, pela qual perpassa um certo mani-
queísmo, alçando a questão para um patamar mais elevado,
isto é, uma diolética entre o mercado interno e colonial, na
determinaçâo da Revolução Industrial, no aceleramento dos
anos decisivos. Nessa perspectiva, nâo necessariamente se teria
que estabelecer uma cesura absoluta entre demanda interna
e mercado externo. Efetivamente, no plano da produçâo' nâo
há como geÍar as mercadorias para a exportaçâo sem a am-
pliaçâo da demanda interna, seja de fatores de produçâo, se-
ja de condições para a reprodução da própria força de
trabalho. Impensável a Revoluçâo lndustrial sendo determi-
nada pela pressâo do mercado externo, com um mercado in-
terno absolutamente estagnado ou recessivo. Inversamente,
não se pode pensar a industrialização da Inglaterra sem os
mercados consumidores das mercadorias que o mercado in-
terno produzia.
De uma forma mais ampla, entendemos que a supera-
çâo das contradiçôes presentes na manufatura foram agudi-
zadas pelo papel decisivo do capital mercantil na gestação do
mercado mundial. Ainda mais, que o processo de transmu-
tação tecnológica, que se consubstanciará no sistema fabril,
é sua criação. E, finalmente, se no capitalismo pleno a pro-
duçâo funda o seu próprio mercado, o mesmo não se pode
41

afirmar quando pensamos o momento mesmo da transfor-


maçâo, quando se revoluciona o antigo modo de produçâo,
quando, efetivamente, a pressào do mercado mundial deter-
minou o ritmo da transformaçâo da estrutura técnica da
produçâo.

A transição da manufatuÍa à maquinoÍatura


A transiçâo do anrigo modo de produção à moderna ma-
quinofatura faz-se por dois caminhos essenciais: o produtor
torna-se mestre-manufatureiro, e com isto comerciante e ca-
pitalista, opondo-se à economia de base narural e agrícola,
bem como ao trabalho manual organizado pelas antigas cor-
poraçôes, isto é, o artesanato propriamente dito; o comer-
ciante-manufatureiro apodera-se da produçào, mas preserva
o antigo modo de produçâo artesanal que se desenvolve a do-
micílio, o putting-ou! system. Neste caso nâo ocorre a revo-
lução do antigo modo de produção, apenas no primeiro,
quando temos, para usar a denominaçâo de Marx, a ,.via real-
mente revolucionária".

As duas vias de passagem

Comentando estas duas vias de passagem, Ciuliano Pro-


cacci diz que, na primeira, formam-se unidades de produção,
nos seculos XVI e XVII, fundadas no trabalho assalariado.
Tais empresas sào limitadas e surgem dos aÍtesãos diretamente
egressos do antigo artesanato: são camponeses isolados e ar-
tesâos. Constituem a parcela mais avançada da burguesia, os
mais diretamenre interessados na destruiçâo completa do mo-
do de produção feudal. Tratava-se de uma relaçâo direta en-
tre o empreendedor e o "trabalhador livre". Aqui, um pro-
dutor-capitalista, produzindo para o mercado que deseja am-
pliar, baixa os custos de produção, desliga-se da sujeição ao
,l
,a

capital comercial, ao mesmo tempo que procura suboÍdiú-lo ,:,,

ao capital industrial. Neste caso, o lucro já é plenamente capi-


talista, realizado sobre o trabalho excedente dos trabalhadores
"livres". No segundo cirso, os mercadores e os sêgmentos mer-
cantis controlavam e dirigiam a produçâo industrial na forma
existente. Aqui o produtor não es!á separado dos seus meios
t
de produçâo, encontra-se diante do mercâdortapitalista, o qual
produz dentro dos limites do universo mercantil, subordinan-
do sua atividade produtora à atividade mercantil, continuando
o capital comercial a dominar o capital industrial, verificando-
se um lucro de "alienação", típico do capital mercantil e da
sociedade feudal, que decorre da existência de diferalças no
mercado, por razôes particulaÍes, entre preços de compra e pre-
ços de venda (Do Íeudalismo ao capitalismo, p. 59\.
Estamos, neste caso, diante da grande transição. Não
se trata da transição do regime de trabalho servil para os pro-
dutores independentes, camponeses ou artesãos, trata-se, is-
so sim, da passagem dos produtores independentes, ou
formalmente subordinados ao capital, para a produção ca-
pitalista com subordinaçâo real dos produtores ao domínio
do capital. Completa-se assim a fase de transiçâo, superando-
se o predomínio do capital mercantil sobre o capital indus-
trial e, finalmente, encerrando a fase antropológica do capi-
tal, com a ultrapassagem da manufatura como modo de
produção dominante.

A introdução da máquina-ÍeÍÍamenta

Parafraseando Marx, na manufatura, o ponto de parti-


da para revolucionar o modo de produçâo é a força de tra-
balho. Na indústria moderna, o instrumental de trabalho.
Esta mudança essencial dá-se com a introdução da máquina,
em substituiçâo às ferramentas.
A máquina simples nada mais é do que uma combina-
ção de instrumentos. Paul Mantoux a define como um me-
49

canismo que sob o impulso de uma força motriz simples exe-


cuta os movimentos compostos de uma operaçâo tecnica, an-
tes efetuada por vários homens. A maquinaria desenvolvida,
contudo, apresentava três paÍes distintas: o motor, a tÍans-
missâo e a máquina-ferramenta ou miiquina de trabalho. É
desta pane da maquinaria, a máquina-ferramenta, que parte
a Revoluçâo Industrial do século XVIII. Ela se constitui num
mecanismo que, ao lhe seÍ transmitido o movimento adequa-
do, realiza com suas próprias ferramentas as mesmas opera-
ções mecânicas que eram, anteriormente, realizadas pelo
trabalhador, o artesão, com ferramenra( semelhantes. O nú-
mero de ferramentas com que opera simultaneâmente a
máquina-ferramenta extrapola a barreira orgânica que a fer-
Íamenta manual acionada por um artesão não pode ultrapas-
sar. O exemplo da máquina de fiar, denominada jenny, é
característico, pois, enquanto o artesâo manipulando uma roca
fiava apenas um fuso de cada vez, e apenas os exímios arte-
sâos eram capazes de fiar dois ao mesmo tempo, a spinning
Jerrnl começou fiando de 12 a 18 fusos de uma só vez.
Com a introdução da máquina-ferramenta, impõe-se a
substituiçâo da energia humana pela energia motriz,
tornando-se indispensável uma revoluçâo na produção de
energia, surgindo em decorrência a máquina a vapor. Quan-
do o homem passa a atuar apenâs como força motriz numa
máquina-ferramenta, ao inves de atuar com a ferramenta so-
bre o objeto de seu trabalho, pode ser substituído pela força
do vento, da água, do vapor, passando o emprego da ener-
gia humana a ser meÍamente acidental. Tal mecanismo de-
termina as grandes modificaçôes tecnicas realizadas num
mecanismo destinado, previamente, a ser impulsionado pela
força humana e a multiplicá-la. A máquina da qual nasce a
Revoluçâo Industrial substitui o trabalhador que manipula
apenas uma ferramenta, por um mecanismo que pode ope-
rar, concomitantemente, um determinado número de ferra-
mentas semelhantes, acionadas por qualquer tipo de energia
í)

motriz, independente de sua forma. Assim' a necessidade de


vencer a resistência iniciat do próprio mecanismo da máquina'
ferramenta exige uma energia muito superior à humana, im-
pondo um motor mais possante, com possibilidades ilimita-
das de ampliação da sua potência global. Esta invenção
estratégica, patenteada por James Watt em 1784, é a chama-
da máquina a vapor de movimento duplo, que transmitia um
movimento circular, e era capaz de gerar toda energia neces-
sária, consumindo apenas água e carvão e com uma potên-
cia que poderia ser inteiramente controlada. Eis uma diferença
substancial em relação às máquinas acionadas por energia hi-
dráulica, sujeitas ao fluxo da natureza, que impossibilitavam
o aceleramento ou a contençâo da energia produzida. Alem
do mais, criava-se um motoÍ que poderia ser facilmente des'
locado para qualquer lugar, que não dependia dos cursos de
água, permitindo a concentraçâo produtiva nas cidades, ao
inves de dispersá-la pelos campos. Esta forma de energia, por-
unto, nâo consolida a forma artesanal e manufatureira de
produçâo, como o fizeram os primeiros inventos' datados dos
meados do século XVtIt, especialmente a lançadeira volante
de J. Kay, de 1733.

A revolução do Ptocesso Produtivo

Revoluciona-se, por este meio, a produÇào. O processo


completo de produçâo, até entâo dividido e parcelado na ma-
nufatura, é agora executado por uma máquina-ferramenta.
Na manufatura, cada operação sucessiva na produçâo tinha
que ser executada manualmente pelos artesãos, trabalhando
isoladamente ou em grupo, com suas ferramentas. Na pro-
dução mecanizada, pelo contrário, desaparece este princípio
subjetivo da divisâo do trabalho, pois todo complexo da
produção e abarcado objetivamente, em todas as suas fases
componentes. Enquanto, na manufatura, o isolamento dos
processos parciais é um principio determinado pela própria
5l

divisâo do trabalho, na fábrica, pelo conrrário, impôe-se a


continuidade dos processos individuais, articulados de uma
forma racional.
Quando o pÍ@esso de mecanização ocorre em um dos
ramos da produção, ele se difunde paÍa outros ramos, espe-
cialmente naqueles setores indusriais nos quais haja isolamento
em vinude da divisão social do trabalho, de tal modo que ca-
da um produz uma mercadoria independente, mas que cons-
tituem, no conjunto, um pÍoc€sso global de produçâo. O
exemplo característico é o da tecelagem, que envolve o apri-
moramento na produção dos fios, o avanço das indústrias me-
cânicas para a produção das máquinas, o progresso da
metalurgia para produzir o ferro adequado, o desenvolvimento
da mineração para extrair o carvão mineral, o progresso das
experiências químicas para o aprimoramento das tecnicas de
branqueamento, estampagem e tinturaria, e, até mesmo, a in-
vençâo de instrumentos destinados a preparÍ[ a matéria-prima,
a exemplo do descaroçador de algodão, que, por sua vez, di-
nÍrmizou intensamente a plantaçâo de algodâo. Os efeitos mul-
tiplicadores se estendem para o conjunto da sociedade, pois
se revoluciona o processo social de produção, envolvendo, até
mesmo, a mudança acelerada no sistema de transportes.
A produção mecanizada, porém, depois de atingido um
certo nÍvel de desenvolvimento, teria que rernover a base ina-
dequada sobre a qual se assentava. O passo seguinte foi a in-
dústria moderna apoderar-se do seu próprio instrumento
característico de produção, isto é, a própria máquina, e pas-
sar a produzir mdquinas com máquinas. Somente assim su-
perou o descompasso em relação à sua própria base técnica,
ou seja, o fato de erigir-se sobre a manufatura.

A transÍormação do procesro de trabalho

Em suma, no sistema produtivo assentado nas máqui-


nas, define-se um organismo de produção inteiramente ob-
52

jetivo, que o trabalhador nâo amolda, pois encontra-o pron-


to, como condiçâo material de produção. Na cooperaçâo sim-
ples, e mesmo na cooperação fundada na divisão do trabalho,
a supressão do trabalhador individual pelo trabalhador cole-
tivo, vários trabalhadores realizando a mesma função é algo
mais ou menos excepcional. A maquinaria, de uma forma
geral, só funciona através do trabalho diretamente coletivi-
zado ou comum, tornando-se, o caráter cooperativo do pro-
cesso de trabalho, uma necessidade técnica imposta pela
natureza do próprio instrumental de trabalho.
Vimos, portanto, que enquanto na manufatura a revo-
lução operada no regime de produção tinha como ponto de
partída aforça de trabalho, na grande indústria foi o insÍru -
mento de Írobalho. Destarte, o trabalhador se encontra, tec-
nicamente, subordinado ao processo de produção, tornan-
do-se um simptes apêndice da máquina. "Na manufatura e
na indústria manual, o operário serve-se da ferramenta; na
fábrica serve à máquina. Ali os movimentos dos instrumen-
tos de trabalho partem dele; aqui é ele quem tem que servir
seus movimentos." Assim, completa-se a separação entre o
trabalhador e seus instrumentos de produçâo. Assiste-se a
uma desqualificaçâo do trabalho, dispensando-se o tempo de
aprendizado, e rebaixando-se o custo medio da força de tra-
balho, pela incorporaçâo do trabalho feminino e infantil. Na
medida em que a maquinaria aumenta a produtividade, con-
trai o tempo social necessário à realização do capital, amplian-
do, ilimitadamente, a possibilidade de extraçâo de mais-valia
relativa. Por este meio, a produção capitalista transforma a
produção de mercadorias em produção de mais-valia. Para-
lelamente, não se faz esperar o impacto sobre a antiga indús-
tria, aniquilada, mas sem ser destruída completamente.
Com o desaparecimento da subjetividade do trabalho,
sujeita-se o trabalhador ao capital, definindo-se a subordi-
naçâo real, por oposição à subordinação formal existente na
J

53

mânufatura, isto porque a natureza da maquinaria é um co-


rolário do desenvolvimento técnico, subtraindo seu controle
ao operador imediato. Assim, na transformaçâo da manufa-
tura, a função do capitalista é institucionalizada e, com ele,
o controle gerencial do rrabalho. De fato, desde o início do
capitalismo, a capacidade humana para controlar o proces-
so de trabalho, mediante a utilização da maquinaria, é di-
mensionada pelo gerenciamento, meio através do qual a
produçâo pode ser controlada, nâo pelo produtor direto, mas
pelos proprietários e representantes do cápital. Assim, ..a má-
quina oferece à gerência a oportunidade de fazer por meios
inteiramente mecânicos aquilo que, anteÍioÍmente, fizera por
meios organizacionais e disciplinares,' (Harry Braverman,
Trabolho e capital monopolista, p. 167-8).
Por que esta transformaçâo vital se deu na Inglaterra,
nos fins do século XVIII? David Landes avenra, aprioristi-
camente, o elevado nível de habilidade técnica, existente na
lnglaterra, mais do que em qualquer outro país da Europa,
na mesma época. A. H. John propõe uma hipótese mais subs-
tantiva, referindo-se ao fato de que "mesmo após os perío-
dos iniciais da industrializaçâo, a taxa de substituição dos
homens por máquinas refletia as flutuações dos salários ou
na demanda de salários; Ítssim, as manufaturas têxteis intro-
duziram equipamentos de flração e teares automáticos, res-
pondendo em larga medida às greves, ameaças de greves e
outras pressões à autoridade gerencial" (Aspects of English
economic growth. In: in economic history. Lon-
don, Carus Wilson, 1962. -. Essays
p. 373).
A tese das habilidades tecnicas é insustentável, pois não
se dá autonomamente. Muito pelo contrário, é produzida por
condições sociais determinadas. A relação com a escassez de
trabalho é mais proficua, mas também nâo é completa, pois
se a falta de trabalhadores excita o aprimoramento técnico,
também contrai o mercado de consumo interno e, para além
disso, o sistema capitalista, ao se constituir, dá à técnica uma
í
autopropulsão que a torna independente dos custos, das aco-
modações ou das oposições do trabalho. Mais construtivo é
remeter a questâo para as condigões específicas da Inglater-
ra, que se encontrava na oportunidade em condições de pro-
duzir, exatamente, aquelas mercadorias para as quais a
demanda externa era mais elástica.

A questão das invenções e inovações

O problema das invenções no século XVITI é complexo.


Primeiramente, nâo pode ser relacionado a progressos cien-
tificos significativos. Pelo contrário, foram mais o resultado
de problemas práticos colocados pela produção' Somente no
século XIX é que a ciência se apoderaria da tecnologia. Des-
se ponto de vista, foi pequena a contribuiçâo da educação
para o desenvolvimento tecnológico. Ashton procurou esta-
belecer uma relaçâo entre o ensino das seitas presbiterianas
muito mais científico e as invenções na Inglaterra, par-
- -
ticulamente, o ensino universitário nas universidades de Clas-
gow e Edinburgh. De uma forma geral, a educaçâo era
bastante limitada. A lei de 1807, que visava a ampliar a edu-
caÉo à maior parte da população, foi bloqueada pela Câ-
mara dos Lordes, por consideráJa perigosa para a ordem
social.
Por outro lado, é difícil pensar em melhorias tecnológi-
cas sem incorporaçâo de bens de capial havendo, pois, uma
estreita relação entre investimentos, acumulaçâo, progresso
técnico e crescimento da produçâo. Se o capital acumulado
era reduzido, o crescimento da produção teria que resultar
da melhoria do equipamento técnico, e isto envolve inven-
ções e inovaçôes. O grande problema é determinar por que
uma invençâo adequada foi conseguida num momento pre-
ciso, quais os conhecimentos dela resultantes e o momento
e a forma de sua incorporaçâo produtiva pelos empresários.
A resposta a tal questâo envolve a compreensão do clima so-
55

cial, nível de conhecimento, em suma, a interaçâo das ideias


fundamentais e as possibilidades técnicas, aliadas aos estímu-
los essenciais. O amplo Jront percorrido pelo avanço tecno-
lógico, setor têxtil, metalúrgico, mineraçâo, transportes, agri-
cultura, energia, evidencia um crescimento geral da poten-
cialidade do progresso técnico.
Algumas invenções importantes ocorreram antes de
1733, a fundição do ferro com coque, a máquina a vapor de
Thomas Newcomen e a lançadeira volante de John Kay. Po-
rém, a grande concentraçâo estrategica é posterior a 1768,
cobrindo especialmente os últimos 20 anos do seculo XVIII:
a spinning jenny, a water frame, a serra perfurante, a semea-
deira, a estampadeira, a máquina a vapor, a mule, a têcnica
da pudlagem, a malhadeira e o torno. Muitas destas inven-
çôes levaram muito tempo para difundir-se, mas o tempo en-
tre as invenções e a sua aplicação diminuiu consideravelmente.
O resultado de tais invenções combinadas foi o avanço ace-
lerado em três setores fundamentais: fundição de ferro, fia-
çâo do algodâo e produção de energia a vapor.
As inovações, menos dependentes do corpo social e mais
diretamente afetas à economia, sâo mais fáceis de analisar. De-
pendem de fatores apropriados do tado da oferta, a existên-
cia de mercados apropriados do lado do consumo, bem como
recuÍsos físicos e humanos. As vantâgens oferecidas pela [n-
glaterra eram consideráveis: uma economia mais liberal, uma
sociedade mais livre, maior segurança para a propriedade, para
as empresas, mobilidade social mais intensa, atitudes religio-
sas c políticas favoráveis, oposição às tradiçôes mercantilis-
tas, melhores comunicaçôes, constituindo-se no mercado mais
amplo e livre da Europa. A segurança para as invenções com
a gaÍantia das patentes teve um aspecto salutar. Entre 1760
e 1765 houve apenas t2 patentes por ano; de 1765 a 1783, 64;
de 1783 a 1802 houve 102 invenções patenteadas.
I
Fieção Tecelagem Eneryia Siderur0ia

1733- John Wyafl o LT 1733


- John Kay invon. 1712-Thomâs Nêwco- 1709- 1f íundiçáo de
wis Paul ta e lençadelÍa mên constról má. coque
1738- Máqulna do Íla, volante, quâdíu. qulna â vapoí pa.
dê pouca utlll. pllcendo o Í6ndi. Íe íuncionaÍ nas
dad6 mento des lle- mlnes de carvâo
dêiÍâs comuns
James Watt eper '1745 B6niamin Hunts.
1757
- Íeiçoa a máqulnâ
- man oblóm eço
1765
- James HergÍ6a. a vapoÍ, lntÍodu- no cadinho em
v6s invônla a pÍl- zindo o conden- ôslado llguido
m6iÍa máqulne sedor, a camlsa
de íleÍ lnlêÍmi. de vapoí em loÍ-
lenle, a splnnlng no do cilindro
ienny, que ptú
duzia 80 Íios poí
vez
1767
- Thomas Htghs
cÍla o uÍdidoí hi-
dráulico
let lnme
- rva.
- lios
Íeslstenlos conlinua
Fiageo Tecelegem Enepia Sideruryia

1769 RichaÍd AÍk.


- wÍight e John 1774 John Wilkinson
Kay lnvenlem o - desênvolve e
bâstidoÍ de pÍe. perÍuÍaçâo de
PaJO - wAler 1775 James Watt es.
lrcme - socia.so a Ma.
canhó6s

lhew Boullon pa.


Ía a conslruçâo 1783 HenÍy Corl in.
1779 Samuel CÍomp. -
- lon comblna a
dâ máqulnâ â ve.
poí aplicávet à
venla o mélodo
de puÍiíicaçâo
valet lrcme de lndústrta têxflt de letrc, a pu-
H lohs com e 1785 Eclmund CaÍ1.
jenny d6 Har - wÍighl invonta o
dldgem

gÍêaves ô crie e lêaÍ mêcânlco,


tiâdelÍa lnloÍmi. com o quâl pro-
tenlo, a ,rure duz tecido liso
,792
- Williem K6lly in- do ospossuÍa
venta a ÍiadeiÍa conslderávêl
eulomálica - 1803
- HoÍrocks invonte
automatic mule o leaÍ aulomáli.
co dê leÍÍo
.J
58

Em suma, a questâo das invençôes técnicas não pode ser


equacionada em termos de um ato heróico, individual. As
invençôes somente são utilizadas e se difundem quando há
condições sociais para a sua apropriaçâo pelo conjunto so-
cial. Nestes termos, "não existe criação sem nada, que surja
como um milagre e cuja explicação seja o poder misterioso
da inspiração individual. A história das invenções não é tão-
somente a história das invenções senão, tambem, a de uma
experiência coletiva que resolve progressivamente os proble-
mas propostos por necessidades coletivas" (4. P. Usher' Iítb-
tory oJ mechanical invention, p. 251).
Mesmo o ritmo das invençôes é determinado socialmen-
te. Aparentemente, o processo é desequilibrado, na medida
em que a inexistência de um Estado planificador da econo-
mia deixa aos empresários a opção de assimilarem ou nâo uma
invenção. Tal opção, contudo, é determinada pelo próprio
ritmo das relações de produçâo, o que leva M. Dobb a afir-
mar que "em certa medida a revolução da técnica adquiriu
até um impeto cumulativo próprio, porque cada avanço da
máquina tendia a ter, por conseqüência, uma especialização
maior das unidades da equipe humana que a operava, e a di-
visão do trabalho, simplificando os movimentos individuais'
facilitava ainda outras invenções, pelas quais estes movimen-
tos simplificados eram imitados por uma máquina" (Á evo-
luçdo do capitalismo, P. 328).

A questão social e demográfica

Claude Fohlen considera reduzido o papel do Estado in'


glês no processo de industrialização. Tal afirmação é correta
se comparaÍmos o processo histórico inglês com as condiçôes
ulteriores verificadas na Alemanha, por exemplo, onde o Es-
tado toma a responsabilidade da industrializaçâo. Porem' se
pensarmos na estrutura de base, no plano das relações de pro-
priedade, no nível das relaçôes sociais, colocadas pelo Esta-
59

do inglês saido da Revolução Inglesa, temos que considerar


esta aparente ausência do Estado como uma atitude benéfi-
ca, porque deixava um espaço grande de liberdade de ação
para a iniciativa individual.
A estrutura peculiar da sociedade inglesa criava condi-
ções adequadas para a assimilação técnica. Uma parcela
maior dos rendimentos das camadas mais altas eÍa destina-
da aos investimentos. No nível das camadas mais baixas,
gastava-se menos em lazer e mais em bens de consumo. O sur-
gimento de empresários com iniciativa era o resultado das
forças sociais que racionalizaram e secularizaram as atitudes
humanas. Ashton mostra que as minorias religiosas prepon-
deravam entre os empresários: puritanos, quakers, presbite-
rianos, independentes. Uma razão era a etica puritana arrai-
gada e, de certa forma, a restriçâo que se fazia aos não-
conformistas, proibidos de ingressar nas forças armadas, nas
universidades e/ou nas atividades políticas, restandoJhes,
como alternativa, a ascensão através das atividades industriais
e comerciais. Obviamente, não se pode levar esta relação
ao extremo. Smelser demonstra que as seitas radicais esta-
vam em declínio no período de maior arranque da industria-
lização.
A questâo do crescimento populacional verificada no de-
curso da Revolução Industrial é difícil de ser compreendida,
pois os Íegistros das paróquias sâo incompletos pela total de-
sorganizaçâo. Muitas pessoas não eram enterradas em cemi-
térios oficiais, poÍtanto, seus nomes não constam dos regis-
tros, ainda mais, a lgreja Anglicana entrou tardiamente nos
distritos industriais. Habbakuk mostra que o crescimento da
produção estimula por sua vez a produçâo da mão-de-obra
barata, havendo casamentos mais precoces e aumento da ta-
xa de natalidade, baixando a idade dos casamentos de 27 pa-
ra 24 anos. Contudo, parece que o crescimento demográfico
deveu-se mais a uma redução da taxa de mortalidade do que
âo aumento da natalidade.
60

A questão dos capitais

Adam Smith partia do principio de que o fator determi-


nante do crescimento econômico é a taxa de formaçâo do ca'
pital, sendo, estâ tÍu(a, determinada pela uxa de investimen-
tos. De uma forma geral, quase todos os países atualmente
industrializados tiveram, no decurso de sua história anterior,
uma taxa de investimentos entre 5q0 e 1290, ou até mesmo
mais do que isto. Um dos problemas importantes que com-
põe este tema é a determinação da propensâo à poupança.
Talvez que poupanÇa e investimento resultem do crescimen-
to econômico e não o exPliquem.
No caso específico da Inglaterra, a questão inicial é a
definição do montante exigido para os primeiros investimen-
tos industriais. Alguns autores insistem na enorme varieda-
de de recursos que a industrialização exigiu. Outros' pelo
contrário, como Postan, insistem que o volume de capitais
exigido era extremamente reduzido. Esta última vertente é
aquela que tem hoje o maior número de adeptos. Assim, nesta
liúa de raciocínio, ÍlÍgumenta-se que o volume de capital acu-
mulado no século XVIII era bem reduzido, da mesma forma
que a taxa de acumulaçâo nâo cresceu significativamente no
mesmo período. A coincidência entre os momentos do arran-
que industrial e a intensificação das guerras, entre 1780 e 1800,
demonstram que o volume de capitais requerido era diminu-
to, ou não seria possível financiar ambos os empreendimen-
tos. A comparação entre os investimentos industriais e os
investimentos públicos atesta a exigüidade dos capitais reque-
ridos. Na indústria algodoeira, por exemplo, entre 1783 e
1802, investiu-se em torno de 8 milhôes de libras e 20 mi-
lhões na indústria metalúrgica, cifra considerada modesta
frente ao montante da divida pública, no mesmo período.
Mesmo os gastos de instalaçâo industrial eram modestos. Na
maior parte dos casos aproveitaram-se antigÍls instalações
religiosas.
6t

Em relaçâo à origem dos capitais, a questão é ainda mais


controvertida. Para Marx, foram impomanrcs elementos des-
se processo de acumulaçâo: Íls guerr:rs comerciais, o protecio-
nismo, os impostos pesados, a dívida pública e o sistema
colonial. Já nos referimos anteriormente à importância da con-
quista militar do mercado externo pelos ingleses no seu pro-
cesso de industrializaçâo. A dívida pública, montante dos
emprestimos contraídos pelo Escado junto aos credores den_
tro ou fora do pais, era financiada atraves do sistema tributá-
rio, mecanismo inseparável da dívida pública. Muitos capitais
forjaram-se na compra de bônus vendidos pelo Estado, ou ar-
rematando a arrecadaçâo dos impostos. O sistema protecio-
nista era inseparável do sistema colonial, meio atravéi do qual
o Estado garantia o fluxo de capitais originários das colônias
para a burguesia mercantil, da mesma forma que garantia
a
concentraçâo interna dos lucros, extraído das massas da po-
pulação através dos gastos públicos, para beneÍiciar a elite
mer-
cantil. O sistema colonial e considerado como uma poderosa
alavanca de acumulação primitiva do capital.
Tal tema tem sido objeto de acirradas discussôes. R. B.
Sheridan buscou uma relação direta entre a exploraçâo eco-
nômica das Índias Ocidentais Britânicas e o desenvoluimen-
to econômico da Inglaterra, no final do século XVIII. Suas
conclusôes foram refutadas por R. p. Thomas, para quem
a posse e o controle desta colônia em vez de acelerar o pro-
cesso econômico retardou, pois se os capitais canalizados para
as colônias fossem investidos na lnglaterra, teriam sido mais
produtivos. Richard Pares diz que ..desde que as colônias ab-
sorviam mais capitais do que poderiam obter, não poderiam
fazer muito para construir o capital inglês e, portanto, pro-
mover a Revolução Industrial... Os plancadores parecem ter
sido muito mais recipientes para o capital do que fontes para
sua produção" (The economic factors in the history of the
empire. The Economic History Review, 7(2):130, 193?). Além
do que, por uma razâo de prestígio social, os capitais origi-
62

nários do comércio mercantil e, principalmente, do tráfico


proprie-
de escravos, foram orientados para a aquisição de
dades agrícolas.
No sentido oposto' numerosos pesquisadores têm pro-
curado demonstrar a presença de capitais mercantis no setor
industriat, especialmente na cidade de Glasgow' François
Crouzet concluiu pela importância do capital de origem mer-
para o fato
cantil na Revoluçâo lndustrial, chamando atençâo
de que o processo de acumulação era contínuo, mas os
in-
in Industrial Re'
vestimentôs descontínuos (Capital Jormation
volution,p. 162 et seqs.). Concreumente, os lucros extraídos
pelo Estaáo através da circulação mercantil, expropriando as
garantiram so-
colônias através da politica de monopólios,
ganhos
berbos ganhos de monopólio no comércio colonial'
estesqui, associados aos impostos sobre a propriedade.agrá-
ria, garantiram os investimentos estrategicos em infra-
.rtrutur", tais como estradas, portos' canais'
Poucos capitais originários do setor agrícola foram in-
para is'
vestidos nas atividades industÍiais. Uma razão forte
preços
so foi a elevaçâo da renda da terra, resultante da alta de
na segunda metade do século XVIll, que tendeu a valorizar
as prãpriedades. Para alem disso, o capital agrário é sabida-
mente mais conservador. Talvez o mais profícuo fosse con-
siderar os reinvestimentos de capital originários da
própria
atividade industrial. Era um capital familial que limitava o
a distribuição de lucros, reinvestindo quase que
consumo e
a totalidade dos lucros, constituindo'se numa espécie de au-
tofinanciamento. Se nos lembrarmos da pequena quantida-
de de capitais exigidos, esm relação se torna mais ponderável '
Em termos de capital, nâo basta considerar suas fontes
de acumulação. Torna-se necessário um mecanismo eficien-
te de distribuiçâo, de circulação do capital, para que este se
torne acessível aos empresários. Na lnglaterra, desde 1694'
com a fundação do Banco da lnglaterra, organizou-se uma
espécie de Banco Central, que garantia os pequenos bancos
63

rura§, que, por sua vez, aceitavam fazer empréstimos de di-


nheiro contra garantia da produção. Entretanto, foi somen-
te após o ano de 1780, quando o processo de industriaLizaçâo
arrancava, que tais bancos passaram a ter importância pal-
pável. Segundo Ashton, os juros baixos prodigalizados pela
grande disponibilidade de capitais e a atraçâo dos capitais ho-
landeses foram fatores de destaque. pelos seus cáJculos, a taxa
de juros baixou de 890 para 390, entre l7l7 e 1760, o que,
certamente, favoreceu os trabalhos públicos, pois barateava
o custo do dinheiro para o Estado, permicindo expandir, fa-
voravelmente, a divida pública. Claude Fohlen afirma que
a origem externa dos capitais e certa, menos certa é a sua apli-
cação direta nas atividades industriais; mais correto seria
apegar-se à tese do autofinanciamento, auxiliado pelo mer-
cado de concorrência imperfeita, que criava zonas protegi-
das, nas quais os lucros médios estavam entre 20go e.40go.
Viu-se, pois, que os entÍaves manufatureiros foram su-
perados quando a pressão do mercado €xterno determinou
o processo de transformação nas relaçôes de produçâo, que,
por sua vez, dinamizaram os procedimentos tecnológicos, in-
crementaram o fluxo populacional, estimularam a revoluçâo
nos transportes e dinamizaram a produtividade agrícola, con-
solidando o sistema fabril e por decorrência o sistema capi-
talista.

I
t
5
A grande t
transformação social
í

Com a grande transformação verificada no sistema pro-


dutivo, a revoluçâo nas relações de produçâo' verificou-se um
progresso técnico acelerado e uma verdadeira revoluçâo no \
sistema social. De um golpe, a introdução da maquinofatura
polarizou a sociedade em burguesia e proletariado, eliminan-
ào a *ass" de camponeses e artesãos, que havia constituído
um importante segmento intermediário no corpo social, a yeo-
manry. Este processo que se inicia com os cercamentos do
século XVII completa-se com a Revolução lndustrial'

As novas condições de vida


O ritmo do crescimento populacional da lnglaterra fo-
Ía moroso até meados do século XVIII. Apesar dos dados
disponíveis nâo serem completamente seguros' são suficien-
tes pâra uma avaliaçâo aproximativa. Em 1700 haveria, na
Inglaterra e Pais de Cales, 5 milhôes de habitantes; em l?50'
6,5 milhôes; em 1800, 9 milhões e em l83l' l4 milhões, cifra
esta mais segura, pois nesta oportunidade tivemos um cen-
so. Portanto, somente na segunda metade do século XVIII, Ê
I
í
Í
65

a populaçâo aumentou 2,5 milhôes de habitantes, num cres-


cimento aproximado de 5090. Constatamos, com base nes-
tes dados, que o crescimento mais rápido não é anterior ao
arranque da industrialização. Segue-se a ele, ou, no mínimo,
é concomitante, o que é bastante razoável, pois seria impen-
sável a população crescer aceleradamente adiante da produ-
ção. Como seria possível sustentar este crescimento em tennos
de produçâo de subsistência?

fl A concentração urbana e íabrll

Não somente o ritmo do crescimento demográfico foi


alterado. Transforma-se completamente a densidade demo-
gráfica, alterando-se a paisagem urbana, com fortes deslo-
camentos populacionais, refletindo-se diretamente na paisa-
gem rural.
As aglomerações industriais eram um tanto difusas, a
princípio, porque as indústrias em torno das quais haviam
se formado não estavam ainda completamente consolidadas.
As primeiras fábricas dependentes da energia hidráuli-
ca tiúam que se estabelecer nas cercanias das cidades,
aproveitando-se para ali adquirir a subsistência necessária e,
eventualmente, vender os seus produtos. Considerando-se que
nos primórdios da industrialização os fios produzidos pelas
máquinas tinham que ser tecidos pelos tecelões dispersos na
zona rural, toÍnava-se impossível a concentraçâo total da
mão-de-obra em redor da fábrica.
A introdução da máquina a vapor altera completamen-
te este quadro. Independente do fluxo natural das correntes
de água, as máquinas poderiam concentrar-se nos centros uÍ-
banos mais populosos e, principalmente, nos pontos mais es-
tratégicos do ponto de vista da circulaçâo e dos transportes.
O desenvolvimento industrial desloca-se para o Norte da In-
glaterra. O Sudoeste, outroÍa próspero, entÍa em decadên-
cia. Seus tiabitantes tentam, sem êxito, aclimatar a indústria
óó

do algodão ao lado da indústria da lã. Crandes aglomera-


ções como Tiverton, cuja populaçilo se elevava a 9 000 habi-
tantes, têm-na reduzida para 7 000.
Surgem as grandes cidades como Manchester, cuja po-
pulação elevou-se de 30 000 habitantes em 1760 para 73 000,
em 1800. No século XIX, viajando pela lnglaterra, Tocque-
ville fez de Manchester uma sinistra descrição: "Trinta ou qua-
renta manufaturas se elevam no alto das colinas que eu estou
descrevendo. Seus seis estágios erguem-se no iu, seus imensos
limites anunciam à distância a concentra@o da indústria... Mas
como se poderia descrever o interior desses quarteirões colo-
cados ao acaso, receptáculos do vicio e da miséria, que envol'
vem e comprimem com suas medonhas voltas os grandes
palácios da indústria? Sobre um terreno mais baixo que o ní-
vel do rio, dominado por todos os lados por enoÍmes ofici-
nas, se estende em terreno pantanoso, com valas lodosas, que
não são secadas nem saneadas. Noutra parte, aparecem pe-
quenas ruas tortuosas e estreitas, margeadas por casas de um
único andar, onde há tábuas mal unidas e tijolos quebrados
como a última morada que possa ter o homem entre a miséria
e a morte. Entretanto, seres desafortunados que ocupam es-
ses redutos excitam ainda inveja entre alguns de seus seme-
lhantes. Sob essas miseráveis moradias encontram-se uma
Íileira de porões, os quais conduzem a um corredor semi-
subterrâneo. Em cada desses lugares úmidos e repelentes são
amontoadas, confusamente, 12 ou l5 criaturas humanas... Le-
vantai a cabeça, e a toda volta desse lugar vos vereis levanta-
rem-se imensos palácios da indústria. Vós ouvireis o ruído dos
fornos e os silvos do vapor. Estas vastas moradas impedem
o ar e a luz de penerrar nas habitaçôes humanas que elas do-
minam; aquelas lhes envolvem de um ruído contínuo... Uma
espessa e negra fumaça cobre a cidade. O sol aparece atraves
dela como um disco sem raios. É neste dia incompleto que se
agitam sem cessar 300 mil criaturas humanas" (A. de Tocque-
ville, @uvres complêtes, p. 79-8t).
67

Nada mais lúgubre, nada mais desumano. Eis o novo


habitat do proletariado nascente. A fase idílica do trabalho
no campo, da dualidade camponesa, havia passado. O ritmo
inesperado e impetuoso da expansâo urbana nâo fora acom-
panhado por adequados serviços urbanos. A produçào e o
transporte de alimentos certamente declinou em muitas das
grandes cidades, até o advento da estrada de ferro.
A emergência do sistema fabril revoluciona completamen-
te as estruturas de produção que permaneciam na sua reta-
guarda: a manufatura se transforma constantemente em fá-
brica, o artesanato em manufatura e, finalmente, os resqui-
cios do artesanato e do trabalho doméstico transformam-se,
rapidamente, em antros de miséria onde campeia livremente
a exploraçâo capitalista. Esta tendência foi o que Marx desig-
nou "a generalizaçâo da lei fabril" para toda produçâo so-
cial. Contudo, este avanço dominador das máquinas somenle
se completaria entre os anos de 1820 e 1830. Até lá, em torno
dos grandes centros produtores, multiplicou-se o número de
artesâos pre-industriais, de determinados tipos de trabalhadores
qualificados, número esre que tendia a se ampliar nas épocas
de conflitos militares. A indústria a domicílio converteu-se nu-
ma especie de seção externa da fábrica, como lembra o pró-
prio Marx, "alem dos trabalhadores fabris, de manufatura e
dos artesâos, que concentra em grande número num mesmo
local e comanda diretamente, o capital pôe em movimento,
por meio de fios invisíveis, um grande exercito de trabalhado-
res a domicílio, espalhados nas grandes cidades e pelo interior
do pais. É o caso da camisaria dos Tittie em Londonderry,
Irlanda, que na fábrica propriamenre emprega I 000 trabalha-
dores e, espalhados pelo campo, 9 000 trabalhadores a domi-
cílio" (Karl Marx, O capital, Livro I, p. 528).
O fenômeno dominante, porém, era a concentraçâo fa-
bril, fenômeno este que nâo escapou à argúcia dos contempo-
râneos, como bem o demonstra este texto de 1823, de Cuest,
no qual diz: "É curioso que quando a fabricaçào de algodão
6t

apenas começava, todas as operações, desde o preparo da


matéria-prima, até sua transformaçâo em tecido, se comple-
tavam sob o teto da cabana do tecelão. O progresso da manu-
fatura determinou que o fio seria fiado nas fábricas e seria
tecido nas cabanas. Na época atual, quando a manufatura che-
gou à sua etapa de maturidade, todas as operações voltam a
realizar-se num único edificio, recorrendo-se a meios superio-
res e máquinas mais complexas. A cabana do tecelâo, com suas
toscas colunas para urdir e cardar, e tornos manuais e teares
imperfeitos, era uma amostÍa em miniatura de uma fábrica
dotada de teares a vapor. Estes gigantescos edifícios de ladri-
lho que se levantam nos subúrbios de todas as grandes cida-
des manufatureiras, ao sul de Lancashire, que se projetam alérn
de 25 metros de altura, que chamam a atençâo e excitam a
curiosidade dos viajantes, desempeúam agora funções que
antes empregavam aldeias inteiras. Nas fábricas dotadas de tea-
res a vapor o algodão é cardado, torcido, Í'rado e convertido
em mercadoria e, num destes edifícios, se realiza a mesma pro-
porção de trabalho que antes ocupava todo um distrito" (Apud
Ctough e Moodie, Histoio económica de Europa, p. E3-6).

As condigões de vida nas Íábricas

A vida nas fábricas era odiosa. A disciplina intolerável.


O trabalhador no sistema artesanal ou doméstico era dono de
seu tempo, n,Íio apenas dos meios de produção. Trabalhava
apenís paÍa garantir a sua sobrevivência, o restante do tempo
dispendia em lazer. Com poucos dias de trabalho semanal, em
geral três ou quatro, este limite era atingido, sobrando-lhe dois
ou três dias para descanso ou bebedeiras, sua forma mais apre-
ciada de lazer.
Na medida em que a mecanizaçâo nivela por baixo a ha-
bilidade necessária dos trabalhadores, tornava-se possível in-
coÍporar, com facilidade, trabalho feminino e infantil. Isto
significava tambem baixar o custo de remuneraçâo do traba-
69

lho. A tecelagem exigia pouca força muscular e os dedos finos


das crianças adaptavam-se, perfeitamente, à tarefa de atar
os fios que se quebravam em meio à trama. Sua debilidade
física era garantia de docilidade, recebendo apenas entre I /3
e I /6 do pagamento dispensado a um homem adulto e, mui-
tas vezes, recebiam apenas alojamento e alimentação. Os con_
tratos que prendiam os pequenos trabalhadores à fábrica eram
em geral de sete anos, a mesma duração da antiga aprendi-
zagem. Os patrões compromedam-se a dâr-lhes formaçâo pro-
fissional, educação religiosa e moral. A maior pam; destes
infelizes era contratada nas paróquias,
iunto aos responsá-
veis pelas casas assistenciais, que livravam-se, por est;
meio,
das despesas de sustento, diminuindo os encargos que pesa_
vam sobre a comunidade local, na medida em que diminuía
o imposto dos pobres, que sobre eles recaía. Muitos pais
recusavam-se a permitir que seus filhos fossem remetidos às
fábricas nestas condições, porém, as aperturas financeiras
levavam-nos a abandonar qualquer tipo de restrição.
A descriçâo da vida destes p€quenos trabalhadores, de
ambos os sexos, é dantesca. Trabalhavam até lg horas por dia,
sob o látego de um capataz que ganhava por produção. Os
acidentes de trabalho eram freqüentes, má alimentaçâo, falta
de higiene, de ar ou de sol, imoralidade e depravação, nos alo-
jamentos. As fâltas eram punidas com cilstigos terríveis.
Chegava-se ao limite de limar os dentes, como contâ p. Man-
toux, reproduzindo a história do aprendiz Robert Blincoe.
O trabalho feminino era igualmente muito importante.
A Tabela l, relativa ao número de estabelecimentos industriais
têxteis de algodão, entre I787 e 1835, dá uma idéia da sua evo-
luçâo, do seu deslocamento geográfico, do número de estabe-
lecimentos parados e em funcionamento, bem como o núme-
ro de trabalhadores do sexo masculino e feminino. Constata-
seque, em 1835, do total de 221 169 empregados, 129 2g3 eram
mulheres, contra 100 886 homens, rçresentando, poÍtanto,
mais de 5090 da mâode-obra empÍegada na indústria têxtil
70

do algodão. Obviamente, o trabalho na fábrica teria que des'


viar as mulheres dos afazeres domésticos e, principalmente'
da guarda e educaçâo das crianças, o que de certa forma ex-
plica a generalização do uso de narcóticos para entorpecer os
recém-nascidos e dispor as mulheres para o trabalho'

Os problemas imediatos da classe trabalhadora

As dificuldades da classe trabalhadora eram enormes, des-


de as mais simples, como por exemplo ser obrigada a fazer
suas compras na loja do patrâo, recebendo seus pagamentos
em mercadorias miúdas, ou ser obrigada a morar em casas for-
necidas pela fábrica, contra o pagamento de pesados aluguéis,
até os problemas mais graves, tais como: a
jornada de traba-
lho, inexistência de seguro para o trabalho, baixos salários e
flutuação dos emPregos.
Referindo-se ao trabalho nas manufaturas metálicas em
Birmingham, Marx diz que, em serviços pesados, havia mais
de 30 000 crianças e l0 000 mulheres. Nas olarias o trabalho
entre maio e setembro começâva às cinco da manhã e termi-
nava às oito da noite, ou quando a secagem se fazia ao ar li-
vre entre quaüo e nove horas. Nestes trabalhos empregavam-se
crianças de 6 e, até mesmo, 4 anos de idade. Citando o relâtó-
rio Saunders, de 1844, diz: "Entre as operárias, há mulheres
que trabalham muitas semanas seguidas, com exceção de al-
guns dias, de 6 da manhã até meia-noite, com menos de 2 ho-
rírs para as refeiçôes, de modo que, em 5 dias na semana, só
dispõem de 6 horas das 24, a fim de ir para casa, dormir e
voltar" (O capital, Livto I, p. 460).
Os acidentes de trabalho mais comuns ocorriam com os
menores que, durante as horas intermináveis que ficavam so-
bre as máquinas, muitas vezes sustentados por uma perna-de-
pau, pois que seu pêqueno tamanho não lhes permitia atingir
o cimo dos altos teares, as crianças adormeciam e tinham seus
dedos estraçalhados pelas engrenagens dos teares. O número
7t

TABELA 1
FábÍlcaô de algodão nâ GÍã.Brotânha cntÍê í7AZ o íA3S

t 7E7
,835

Empega.to3
I
PaÂdas fotal
aaôalo llascullno
Be.kahlÍe ....... ......... ... 2
Ch€shi.ê...................... E 1og , r5 5r6 r5 996 3Í 5í2
Cumb€íáÍú ........... Í3 626 1 032 1 436
OeÍbyshi.e............... ... 12 93 3 1 705 6 860 r r 56!i
Ouíham................. ...... I 9 24 33
Lancashiíe............ . .... @3 32 60 r51 62 26. t22 a15
Lêicattêa6hiae... ......... 1 6 325 N? 592
Midd1e9sx.................. . 7 217 r33 350
Nottlnchamshi.e... .... 17 20 181 1 2Â2 1 723
Staf foÍdsht.ê............... 7a9 1 209 2018
W€stmor1and...............
Yoakghi.e... ............ ....
;
11 r26 5 187 5 724 11 21r
Rêsto da lnolateí.a... 6
Total da loolaterra..... I t9 I 07 I
tste of Mân.................. 1 : EE 266 94 861 183127

GE1e9......................... .. 4 5 .52 @€ 1r51


Escócia................ .... .. 19 r59 r0 529 22Ét 32 580
Totat da G.â.B.elanhâ r«| t 2tr5 12 99 267 'tt7 6n 2t6 AsE
1.1anda............... ....... .. 28 r 6ilg 2 6?2 4 3fi
TOTAL 11:l 1 263 42 t@ú6 t 20 2&t 22t 169
Foato:8uin, R Slatigtica oí êotton t.adê. tEal. tÍ Engtish Htsto cat Oocutuen§l
1763.1&|2. LondÍ€s. 1959. v. Í1. p.26

de acidentes ocorridos nâo tem paralelo na história da ma-


quinaria. Num único estabelecimento industrial, de estomen-
tar o linho, entre 1852 e 1856, houve seis casos de morre e
60 mutilações graves. Não havia qualquer indenização pelos
membros amputados, muito menos para os dias de paralisa-
çâo das atividades.
O antigo artesão que combinava a atividâde artesanal
com a agricultura, produzia o sustento indispensável à so-
brevivência. Ao ser deslocado para o sistema fabril perde es-
ta garantia básica fundamental e tem que trabalhar para
atingir o mesmo limite de subsistência. A mecanização des-
qualificou o trabalho, tornando-o mais uniforme, ao mes-
72

mo tempo que o aceleÍamento do ritmo da produção com a


máquina tendia a dispensar mão-de-obra em termos qualita'
tivos e quantitativos. O mesmo Cuest, já citado, faz as se-
guintes digressões sobre o tema: "Um excelente artesão
manual de aproximadamente 25 ou 30 anos poderia tecer duas
peças semanais de tecidos para camisas e' no mesmo tempo,
um tecelão de 15 anos será capaz de produzir, com um tear
a vapor, sete peças similares. Uma fábrica provida de 20 tea-
res a vapor, com a ajuda de 100 pessoas, de menos de 20 anos
e de 25 homens, tecerá 700 peças por s€mana' de comprimento
e qualidade que foi descrito antes. Para fabricar 100 peças
similares por semana à mão, seria necessário empregar pelo
menos 125 teares... Se temos um homem de idade madura,
que seja um excelente tecelão, para fabricar duas dessas pe-
para en-
çÍrs poÍ semana é preciso ainda deixar uma margem
fermidades e outros acidentes. Assim, se necessitariam 875
teares manuais para produzir 700 peças por semana; e se cal-
cula que os tecelões com seus filhos, os velhos e os incapaci-
tados que dependem deles, representam uma média de duas
pessoas e meia por tear; se pode afirmar que se o trabalho
reatizado em uma fábrica provida de duzentos teares a va'
por fosse realizado por tecelões manuais, o mesmo propor-
cionaria ocupação e sustento para mais de 2 00 pessoas" (op.
cit., p. 83-6).
O progresso tecnológico e seu impacto sobre o mercado
de trabalho tenderia a ser cada vez mais intenso. Em 1820
um trabalhador acionava um tear, em 1E80 acionava cinco
teares; em 1836 eram necessários três trabalhadores pâra ca-
da mil fusos, em 1E96, apenas um. O impacto sobre os salá-
rios foi imediato. Em 1764 uma fiadora ganhava de l0 a 15
pennies por dia, em 1780 entre 3 e 5. No mesmo período, o
salário de um homem foi rebaixado de l7 pennies para l0
pennies por dia. Por esta razâo, aliada à ampliação do volu-
me produzido, é que os lucros se elevam apesar da redução
dos preços dos produtos. O preço da libra-peso do fio de al- \<
73

godão era 38 shillings em I786, baixando para 2 shillings e


ll pence em 1832. A tonelada de ferro custava, em 1750, l8
libras e em 1820, apenas 8 libras. Porém, em relaçâo ao cus-
to da matéria-prima, foram os seguintes os lucros na indús-
tria do algodão (ver Tabela 2).
TAEELA 2

Ano Matéria-prlma Preço Lucto

178/. 2 sh. 10 sh. ê 1Í d I sh. e 1Í d


1812 Í sh.6d 2sh. e 6d Í sh.
Í832 7,5 sh. ÍÍ sh. 3d

A situaçâo dos trabalhadores era, acima de tudo, muito


instável. Para tanto contribuía a concorrência do trabalho
feminino, infantil e dos emigrantes, estes últimos, sobretu-
do, na indústria da construçâo civil. Uma razão mais impor-
tante ainda era a flutuação decorrente das paralisações
periódicas da produção. Marx afirma que nos primeiros 45
anos da indústria têxtil algodoeira britânica, de 1770 a 1815,
verificaram-se apenas cinco anos de crise e estagnação, mas
é necessário considerar que neste período a Inglaterra tinha
o monopólio mundial desta indústria. Hobsbawm lembra que
é bem outra a configuração do período seguinte. Em 1842
foram despedidos 2/3 dos trabalhadores de Boulton; 2090 dos
trabalhadores de Nottingham tiveram o mesmo destino. Es-
tas Ílutuações cíclicas eram decorrência dos desajustes entre
o sistema produtivo e as condições de consumo que eram,
essencialmente, mundiais. Tão logo foram superados os im-
passes com a consolidaçâo do sistema produtivo, a contradi-
çâo estabeleceu-se, entâo, entre as condições de produção dos
bens de produção e dos bens de consumo.
Por todas estas razôes, a situação do operariado era de
um déficit orçamentário consrante, o que se traduz, imedia-
tamente, numa redução da vida média, que na década de 1840
era duas vezes maior entre os trabalhadores rurais. O famo-
74

so relatório de 1796, Manchester Board oJ Healrà, do Dr.


Percival, dá um quadro negro da condiçâo de saúde da clas-
se operária, afirmando que: as pessoas empregadas nas ma-
nufaturas de algodâo estão sujeitas a febres contagiosas de
rápida difusão; sâo debilitadas pelo vapor ou ar impuro; o
trabalho à noite e as longas jornadas diminuem a longevida-
de; não recebem instrução, nem educação moral e religiosa.
Concluindo pela necessidade de se estabelecer um regime mais
razoável e humano.
Quais as alternativas restantes para a camada trabalhado-
ra? A primeira, praticamente impossível, seria ascender à con-
dição de camada empresarial. A segunda alternativa, deixar-se
dominar, pois o que poderiam fazer "diante da catástrofe so-
cial que nào conseguiam compreender, empobrecidos, explo'
rados, jogados em cortiços onde se misturavam o frio e a
imundície, ou nos extensos complexos de aldeias industriais de
pequena escala, mergulhavam na total desmoralizaÉo... O al-
coolismo em massit, companheiro quase invariável de uma in-
dustrialização e de uma urbanizaÉo bruscas e incontroláveis...
O infanticidio, a prostituição, o suicídio e a demência têm sido
relacionados com este câtaclismo econômico e social... O mes-
mo se deu em relaçâo ao aumento da criminalidade e da vio-
lência crescente e, freqüentemente, despropositada que era uma
especie de ação pessoal cega contra as forças que ameaçavam
engolir os elementos passivos... A difusâo de seitas e cultos de
cariíter místico e apocalíptico durante este período indica uma
incapacidade semelhante em lidar com os terremotos da socie-
dade que destroçavam üdas humanas" (E. Hobsbawm' á era
das revoluções, p. 223-5).

A reagão da classe trabalhadora


Excluídas as hipóteses da ascensão, da fuga e alienação
restava, ao proletariado industrial, a revolta.
75

A luta contra as máquinas

A luta contra as invenções e inovações ressoa durante


todo o periodo manufatureiro. Numerosos atentados foram
praticados contra mercadorias, inventos e inventores. Com
a introduçâo da máquina, os trabalhadores passam a com-
bater os instrumentos, que configuram materialmente o pró-
prio capital. A máquina economiza mâo-de-obra às expen-
sas do trabalhador. Ao baixar os preços amplia o consumo,
dinamizando a produçâo que por sua vez volta a dinamizar
o mercado de trabalho. Os trabalhadores, porém, pensam em
termos imediatos, a redução do trabalho, do salário, enfim,
da própria subsistência. Muitos inventores foram persegui-
dos depois da destruiçâo de suas máquinas. Outros, como
Lawrence Earnshaw, tomaram pessoalmente a iniciativa de
destruir as máquinas que haviam inventado, para nâo tirar
o pâo aos pobres. A primeira lei contra a destruição de má-
quinas data de 1769, o que por si só demonstra a gravidade
do problema. Definia, para os culpados, a pena de morte.
Tais medidas, porém, nâo impediram a açâo dos revol-
tosos. Thomas Bentley descreve, em I779, as destruições em
Boulton: "Quando chegamos a Boulton... encontramos no
caminho várias centenas de homens, ... que iam destruir as
máquinas e que fariam o mesmo por todo o país. ... No mes-
mo dia, após o meio-dia, uma grande fábrica situada perto
de Chorley e organizada segundo o sistema de Arkwright, um
dos proprietários, foi atacada por eles... Dois dos assaltan-
tes foram mortos no local, um afogado e muitos feridos. A
multidâo não possuía armas de fogo e não esperava tão ca-
lorosa recepçào... Estes oito mil homens marcharam ao som
do tambor, com a bandeira desfraldada, sobre a fábrica de
que eles haviam sido rechaçados no sábado. Eles encontra-
ram lá Sir Richard Clayton à testa de uma guarda de 50 in-
válidos. Que poderia fazer este punhado de homens face a
milhares de furiosos? Eles se retiraram e ficaram como es-
76

pectadores, enquanto a multidâo destruía totalmente instru-


mentos avaliados em mais de l0 000 libras. Foi assim que pas-
sou a segunda-feira; pela manhã, escutamos seus tambores
numa distância de 2 milhas, um pouco antes de chegar a Boul-
con. Sua intençâo declarada era apossar-se da cidade, em se-
guida de Manchester e de Stockport e marchar sobre a cidade
em direção a Cromford, de destruir as máquinas, não somente
nestes diferentes lugares, mas em toda a Inglaterra" (Carta
de Thomas Bentley, 9 de outubro de 1779).
Nada mais explícito e empolgante, o espetáculo da massa
enfurecida. A repressão, contudo, nâo se fez esperar. Veio
pronta e violenta, terminando com o enforcamento dos líde-
res do movimento. Os anos 60 foram marcados por violen-
tas revoltas nas regiões portuárias e mineiras.

A Lei Speenhemland e o meÍcado de trabalho


A crise de penúria que atingia as camadas populares era
violenta e praticamente eliminava as distâncias entre a po-
breza e a indigência. Eram atingidos os camponeses afeta-
dos pelos cercamentos, os artesãos da pequena indústria rural
e os trabalhadores das oficinas ou das fábricas. Tudo isto,
associado ao medo de um motim popular, inspirado nas idéias
"sediciosas" da Revolução Francesa, aturdia a genÍry. O re-
sultado foi a Lei Speenhamland, de 1797, que transformava
o sistema assistencial com base nas casas paroquiais e na Lei
dos Pobres. Por esta lei ficava determinado que se um ho-
mem não fosse capaz de, por seus próprios meios, manter
a subsistência, a sociedade era responsável pelo complemen-
to. Derrogava-se, por este modo, todo sistema que havia si-
do montado desde o seculo XVI, a Lei dos Pobres, de 1601,
que representava a consolidaçâo das leis produzidas entre 1536
e 1597, pelas quais combatia-se a mendicância e a vagabun-
dagem, compungindo os marginalizados ao trabalho mediante
exíguos salários e violentas ameaças de punições, que iam da
n
marca a ferro até a mutilaçâo. Os indigentes e desampara-
dos que nâo conseguissem se sustentar, seriam recolhidos a
uma workhouse e mantidos pelas contribuiçôes pecuniárias,
o imposto dos pobres, que recaía sobre todos os cidadâos vá-
lidos da comunidade. Os pobres de uma paróquia eram, pois,
responsabilidade da própria paróquia. pelo,4cl of Settlement,
de 1662, ficavam proibidos de se deslocarem de uma paró-
quia para outra, para que a Íesponsabilidade de sua manu-
tenção não fosse garantida por quem nâo tinha a obrigaçâo.
No fundo, o aparente altruísmo da camada dominante
escondia uma necessidade vital do capital. A disponibilidade
ampla e total da mão-de-obra para evitar escassez e a exis-
tência de mercados privilegiados bem como a consêqüente alta
dos salários, que daí adviria. para ranto, a massitrabalha-
dora não poderia estar fixada nas paróquias. Assim, a Iei
Speenhamland autorizava os indigentes válidos a receber o
socorro das paróquias, sem serem obrigados a entÍar nas
workhouses locais, que ficavam reservadas para as crianças,
velhos e inválidos. Efetivamente, o que se fez foi ampliar a
participaçâo da sociedade como um todo, na manutenção do
exército de trabalhadores, favorecendo a classe dos capita-
listas que poderiam manter baixos os salários p"gor, pôi,
diferença, indispensável para atingir o limite de subsistência,"
seria suprida pela assistência pública. Estas leis, contudo,
eram ainda um mero paliâtivo, no sentido da criação de um
mercado de trabalho completamente livre, pois representava
uma tentativa de manter a mão-de-obra no campo e impedir
o seu fluxo para os centros urbanos. Somente em 1g34, com
a nova Lei dos Pobres, é que tal intento seria plenamente
atingido.

Os movimentos íuditas

Estes movimentos estavam muito distantes das arregi-


mentações maciças de camponeses, uma tradiçâo que ecoa-
7t

va distantemente, oriSinária das iacqueries medievais


(E' P'
Thompson, Whigs and hunters, p. 23-5)' Muito mais
freqüentes do que as disputas trabalhistas eram os motins de
fome, freqüentes em épocas de crise de aprovisionamento,
especialmente do pâo, envolvendo as classes dos pequenos
consumidores e assalariados em geral, rurais ou urbanos'
Ceorge Rude constatou, entre l?30 e 1795, 275 motins
provocados pela falta de alimentos e 375 de outras categorias'
ielacionados nos jornais ingleses. Suas caracteristicas
fundamentais eram: métodos de ação direta e violência contra
a propriedade, seleção dos alvos preferidos, combustâo
.rioniân.u e fluxo determinado pelo costume' lideranças
que
constituídas dentro do movimento e composiçâo social
incluía pequenos proprietários' cottagers e tecelões' Nas
cidades uma mistura de assalariados, artesâos, criados'
para
aprendizes e até mesmo comerciantes' E, finalmente'
càmpletar o padrâo das insurreições pré-industriais, Ceorge
Rudé destaca a predominância da tendência apolítica e
tradicionalista no caso dos motins de fome, localizados na
zona rural, em contraposiçâo a pequenos laivos de ideologia
burguesa, nos motins urbanos, o que Thompson chamou de
"reúelião, mas rebeliâo em defesa dos costumes" (Ideology
and popular Protest, P. 136-44).
Sob o impacto da Revolução Francesa e da Revoluçâo
Industrial, os movimentos sociais do século XIX adquiriram
novos contornos. Primeiramente revelam a marca deixada pe-
la Revolução Francesa, a noçâo de Direitos do Homem e So-
berania Popular, redesenhados no formulário denominado
jacobinista. De 1830 em diante, transfigura-se o caráter do
movimento, com a emergência contundente dos novos pro'
tagonistas, o proletariado fabril das novas fábricas urbanas'
Rudé definiu, grosso modo, cinco estágios neste movimento
gerat: 1793-1800, cobre os anos de guerra, marcados pelas
ionspirações jacobinas em grandes cidades industriais e mo-
tins àe fome em Londres e outras regiões; lSll-1815' cobre
19

a fase final da guerra, marcado pelo movimento ludita;


l8l5-1822, marcado pelos protestos gerais em grandes cida-
des, centros de indúscria declinante e motins de fome disper-
sos em várias rcgiões; 1829-1832, o mais turbulento de todos,
marcado por mudanças decisivas nos distritos manufaturei-
Íos e uma arÍemetida final dos movimentos sediciosos nos
distritos rurais do Sul da Inglaterra; 1830-1840, marcado por
três grandes estágios do movimento cartisto.
Em l8l t explodiu com violência o movimento /udira,
denominaçâo que vem de Ned Ludtam, levando o terror aos
distritos industriais do centro da Inglaterra. Eric Hobsbawm
distingue dois tipos de movimentos de quebra de máqui-
nas. O primeiro tipo não contém uma hostilidade direta con-
tra as máquinas, trata-se de um subterfúgio para fazer pres-
sâo contra os empregadores ou trabalhadores extras. Tinha
suas origens nas primeiras manifestações contra as máqui-
nas e não se dirigia apenas contra elas, atentava contra a
propriedade privada dos empregadores, como forma de pres-
são. O segundo tipo é a manifestação direta contra a máqui-
na, especialmente contra as máquinas que economizavam
mâo-de-obra. Contudo, algumas observações devem ser fei-
tas: "Primeiro, esta hostilidade nâo era nem tâo indiscrimi-
nada nem tào específica como se tem presumido muitas vezes.
Segundo, com exceções locais ou regionais, ela foi surpreen-
dentemente fraca na prática. Finalmente, ela de maneira al-
guma se restringiu aos trabalhadores, mas foi partilhada pela
grande massa da opinião pública, inclusive muitos indus-
triais" (Os trobalhadores, p. 17-20). E. P. Thompson foi um
dos primeiros a chamar atençào para a inserçâo do ludismo
dentro de um movimento mais geral em prol de reformas par-
lamentares.

O movlmento Swing e o cartismo


Na década de 30, o movimento social adquiriu uma am-
plitude maior abrangendo a agitaçâo social nas zonas rurais
m

caracterizada pelo Slriag - e urbanas industriais, onde


-frutificavam as reivindicaçô* cartistos.
O Swlng, como já dissemos, foi um movimento rural.
Estendeu-se de 1816 a 1844, com seu ponto de culminância
em 1830, quando atingiu pelo menos 20 condados ingleses,
sem ter, porém, estabelecido ligaçôes com as rebeliões nas
minas, nas fábricas e nas cidades. A sua denominação vem
dos folhetins e cantigas populares, impressos para venda nos
mercados rurais, que se referiam aos movimentos sediciosos
rurais, remetendo-os sempre à responsabilidade de um pre-
ter.§o Capitão Swrng. Trata-se dos últimos estertores da luta
travada pelos trabalhadores rurais contra a situaçâo de pe-
núria e degradação em que se encontravâm. O impacto das
transformações econômicas no campo destruíra o campesi-
nato rural, transformando-o em proletariado agrícola. Este
proletariado, sujeito aos fluxos e reÍluxos do mercado de tra-
balho, sobrevivia gtaças ao auxilio assistencial das paróquias.
O objetivo fundamental de sua açâo política nâo era revolu-
cionfuio; seu propósito essencial era econômico. Lutavam por
salários mais altos, melhores empregos e mais adequada as-
s:istência social. Seus objetivos mais amplos eram a defesa dos
direitos costumeiros dos pobres rurais e a restauraçâo de uma
ordem social estável.
Hobsbawm e Rudé, que empreenderam a primorosa aná-
lise deste movimento, destacam que seu asp€cto mais extraor-
dinário foi a solidariedade demonstrada pelos patrões para
com sêus próprios empregados.
Seus métodos de ação eram os mais variados. Recorriam
à caça ilegal, destruíam as debulhadoras, ateavam incêndios,
até mesmo contra os proprietários rurais pobres. Predomi-
navam, no movimento, os camponeses ou trabalhadores ru-
rais, quase sempre conduzidos por homens de outras profis-
sões ou de outros grupos sociais. Extremamente importante
era a atuação dos homens de ofício, do campo ou da cidade,
especialmente os ferreiros, carpinteiros e artesâos, que se no-
tl
tabilizavam no ato de destruir as máquinas pela sua habili-
dadê manual. Ligavam-se aos revoltosos pelos laços da vida
comunitária sendo, alem disso, os indivíduos mais instruÍdos,
de melhor nível cultural, que se incumbiram da difusâo das
idéias sediciosas quando os folhetos começaram a circular nas
aldeias. "Aproximaram-se de um movimento nacional, tão
esponcâneo e organizado quanto podia ser uma insurreiçâo.
Por isso os limites de sua propagação nâo correspondem aos
da organização ou da ideologia, mas sim da estrutura econô-
mica" (Hobsbawm e Rudé, Capitão Swing, p. t7-2! e2,r'l-56).
O avanço das conquistas trabalhistas fora bastante len-
to até entâo. A Lei das Associaçõu de 1800 proibira as reu-
niões, numa clara fobia ao ide.irio produzido pela Revoluçâo
Francesa, sendo extensiva aos patrões e empregados. euan-
do, em 1824, foi derrogada a Lei das Associações, o movi-
mento trabalhista em prol dos salários e da limitação da
jornada de trabalho a l0 horas diárias crescia de intensida-
de. Em meio a estas questões fundamentais, a massa traba-
lhadora via-se envolvida no movimento pela abolição das lets
dos Cereais, que no fundo representava uma disputa entre
o capital mercantil e o capital industrial, advogando os in-
dustrialistas a livre importaçâo de cereais que baixaria o cus-
to de reproduçâo da força de trabalho, possibilitando uma
política de baixos salários.
O movimento cartisto dos anos 30, na medida em que
visava a reformas parlamentares, contribuiu de forma signi-
ficativa para a arregimentaçâo da classe operária, em termos
de reivindicaçôes nacionais. O movimento desse perÍodo não
pode ser simplesmente classificado como um movimento de
classe operária, tanto em sua composição quanto em seu pro-
grama de ação e ideologia e, muito menos, em sua ação con-
creta. Tratava-se de uma frente comum a todos os setoÍes
sociais que representavam o trabalhador pobre e, espccial-
mente, o trabalhador urbano. Suas experiências forjadas nas
lutas anteriores deram-lhes instrumentos de açâo vigorosos:
t2

o sindicato, as sociedades de auxílio mútuo e, acima de tu-


do, a solidariedade e a greve. Sua meta principal, contudo,
era um novo tipo de Parlamento a ser eleito pelos trabalha-
dores, e composto por seus próprios representantes, que fos-
sem capazes de conquistar, para a classe trabalhadora, bene-
ficios sociais.

A questão da consciôncia de Glasse


Os movimentos da classe trabalhadora rural e urbana
trazem à baila uma questão crucial: a questão da consciência
de classe do proletariado inglês do século XIX. Sobre esse
tema não há consenso na literatura especializada.
Para certos autores como M. Dobb, "a capacidade de or-
ganização duradoura ou de adotar políticas a longo pr.tzo con-
tinuava sem desenvolvimento e o horizonte do interesse tendia
a ser o ofício e mesmo a localidade, em vez da classe: a sobre-
vivência das tradiçôes individualistas do artesão e mestre com
a ambição de tornar-se um p«lueno empregador mo§üou-se por
muito tempo um obstáculo a qualquer crescimento firme e ge-
ral do sindicalismo, quanto mais da consciência de classe" (z{
evolução do capitalismo, p. 325). Está presente nesta formula-
qâo a idéia de que o ofício e o localismo da produção perma'
necem, o que dá embasamento às aspirações empresariais dos
mestres de ofício. lsto se explica pelo fato de que o sistema pro-
dutivo, em termos maquinofatureiros, úo se encontrava ain-
da plenamente consolidado. Pelo contrário, úo apenas sub-
sistiam as antigas formas artesânais e manufatureiras de pro-
dução, quanto ainda evoluíam revivificadas pelo novo sistema
energetico. Resulu, no conjunto, uma grande heterogeneida-
de, pois coexistiam e se inter-relacionavam a antig indústria,
a maqünofatura e mesmo alguns setores mais avançados da
indústria de ponta, múto especialmente, a indústria pesada, que
ensaiava seus primeiros pÍrssos no horizonte da industrializagão.
E3

Neste contexto, sobreleva a posição de George Rude, pa-


ra quem, "durante todo este período, digamos a partir de
1820, alguns grupos de trabalhadores, em certas partes da In-
glaterra, caminhavam à frente e outros permaneciam atrás;
freqüentemente, o novo e o velho eram encontrados dentro
do mesmo movimento político, precariamente equilibrados"
(ldeology and popular protest, p. 154). Entretanto, ainda que
heterogêneo, a existência do proletariado recoloca a questâo
do conflito num patamÍu superior. Por isso, para Hobsbawm,
o que há de realmente novo no movimento operário dos iní-
cios do século XIX é que "os pobres não mais se defrontam
com os ricos. Uma classe especifica, a classe operária, traba-
thadores ou proletários, enfrentavam a dos patrões ou capi-
talistas" (A era das re'voluções, p. 230). Nesse enquadra-
mento, E. P. Thompson atribui uma certa uniformidade ao
movimento trabalhista, desde as manifestações do século
XVIII, marcadas pelo jacobinismo, ate o cartismo do século
XIX. Procurou demonstrar que, apesar do seu enraizamen-
to na velha cultura, tais movimentos eram parte de uma cria-
çâo racional, historicamente progressista, da moderna classe
trabalhadora (The moking of British working class). A exis-
tência ela si da classe trabalhadora já era um pressuposto da
sua existência para si. Este posicionamento funda-
menta-se na noção de consciência de classe atribuída, envol-
vendo direção e sentido específicos, revelando, no fundo, uma
certa inspiraçào lukacsiana.
Neste mesmo universo teórico fundam-se as análises de
John Foster. Para ele, a consciência de classe operária não
pode estar simplesmente relacionada ao advento de uma no-
va ideologia, mas sim a uma mistura de idéias radicais e de
açâo militante. Com base na análise de três cidades indus-
triais nos anos 30 e 40, Oldham, South Shields e Northamp-
ton, conclui que somente em Oldham os trabalhadores
atingiram o que se poderia denominar por consciência de clas-
se. Isto se explicaria pelo fato de que, enquanto em South
t4

Shields e em Northampton os trabalhadores limitaram sua aÇão


política ao interior das fábricas, em Oldham combinaram-na
com uma militância politica mais ampla, com vistas a eleger
representantes paÍa o governo local e para o Parlamento. Ain-
da que tenha se utilizado das categorias de Lukács, Foster
imprimiu-lhes um significado próprio, na medida em que pa-
ra ele a consciência e a falsa consciência dependem das cir-
cunstâncias e flutuam historicamente. Isto é, Foster empiriciza
a consciência de classe que em Lukács é estrutural.
Tais conclusões são vistas com restrições por Careth
Steadman Jones e Craig Calhoun. Para o primeiro, Foster
somente poderia definir a consciência de classe a partir de
uma análise efetiva dos objetivos políticos e sociais presen-
tes na ação desses trabalhadores. Para o segundo, Foster em-
basa sua análise muito mais na forma do que no conteúdo
das reivindicaçôes, tornando-se difícil, seniio quase impossi-
vel, a apreensão da consciência de classe (Outcast London
e The question oJ closs struggle, respectivamente). A isto
poder-se-ia aduzir que Foster confunde o conteúdo das rei-
vindicaçôes com a aparência por elas assumida. Ao identifi-
car a consciência com o alcance político das reivindicaçôes,
revela certa ingenuidade. No fundo, o que está por detrás é
uma visão de processo polÍtico inscrito nos limites da demo-
cracia liberal.
A análise da consciência de classe nâo pode ser descola-
da das condições históricas específicas vivenciadas pela clas-
se como um todo. Nâo se caracteriza a consciência de classe
usando-se como critérios quer o âmbito das reivindicações,
queÍ o seu sentido político explícito. A consciência de classe
deve, antes, ser buscada no caráter dos movimentos e no con-
teúdo de suas reivindicações. Vale dizer, e preciso captar em
que medida eles interpretam os reais interesses da classe tra-
balhadora, naquele momento histórico preciso.
Seriam os parâmetros atuais válidos para pensar-se o
problema da consciência de classe naquele momento, quan-
t5

do a classe trabalhadora estava ainda na sua infância? Nâo,


pois não se pode pensar a consciência de classe aplicando as
categorias estruturais sob a forma de modelos. É preciso
construíJas e movê-las no processo histórico. Assim, tam-
bem nâo é o grau de homogeneidade na atuaçâo política da
classe que lhe confere um nivel superior ou inferior de cons-
ciência. Mesmo em nossos dias, a açâo do proletaÍiado nâo
tem, necessariamente, se pautado pela homogeneidade, des-
tacando-se, muitas vezes, no seu interior setores mais avan-
çados do que outros. Tais vanguardas costumam ter um papel
importante na luta operária. Na Inglaterra daqueles anos em
que se desenvolviam as forças produtivas capitalistas, se es-
truturavam a classe e a luta operária, o descompasso tendia
a ser maior. A análise desse descompasso é que nos permite
compreender os matizes da consciência e as possibilida-
des de ação dos trabalhadores ingleses no processo da Revo-
lução Industrial.
6
Conclusão

A Revolução lndustrial traz consigo, portanto' um mun-


do de transformações vitais, dentre as quais destacamos: a
aplicação de descobrimentos científicos e de novos avanços
tecnológicos industriais; concentração das unidades produ'
tivas; expansâo sem precedentes da produção em setores es-
tratégicos; racionalização da estrutura da populaçâo ativa do
país; superação das precedentes relaçôes de produçào nas ci-
dades e nos campos; exasperada tendência à urbanizaÇâo;
aparecimento de grupos cada vez mais numerosos de empre-
sários industriais de diversas extrações sociais; surgimento de
uma nova classe política que assume a direção do Estado, no
qual o bloco do poder é constituído por forças progressistas,
tendencialmente unitárias e forças conservadoras com múl-
tiplos interesses a nÍvel municipal e regional; apariÇâo da eco-
nomia clássica na economia política e, sobretudo, a emer-
gência e formaçâo de um proletariado de massas com sua es-
pecífica consciência de classe.
A apreensâo desse processo histórico panicular que é a
Revolução lndustrial impôe o abandono de uma visâo com-
partimentada do real pois, se a sociedade é a unidade do múl-
tiplo, o que se deve buscar é um conjunto dialeticamente
t7

coordenado, e a análise de seus componentes só pode ser de-


senvolvida tendo em mente o objetivo final que é a recom-
posiçâo das partes e não o seu definitivo isolamento no seio
das especializações disciplinares.
A Revoluçâo lndustrial parece, então, constituir uma es-
pecie de revolução histórica resultante da evoluçâo do modo
de produção capitalista. Pela primeira vez, o desenvolvimento
das forças produtivas possibilita, em determinadas condições
das relações de produção, que o desenvolvimento da indús-
tria se manifeste e se ponha em marcha numa multiplicidade
de frentes, sem interrupção, sem solução de continuidade.
De fato, a Revolução Industrial somente ganha concre-
tude quando referida à plena constituição da sociedade capi-
talista na lnglaterra. Trata-se de uma síntese histórica que
encerra o período de transição do feudalismo ao capitalis-
mo, completa a fase de acumulaçâo primitiva do capital, en-
cerra a etapa de preponderância do capital mercantil sobre
a produçâo e abre espaço para o início de um momento ulte-
rior, durante o qual a indústria se converte nessa "determi-
nada produção que decide sobre todas as coisas".
7
Vocabuliírio crítico

Capital mercanÍr7: forma primária do processo de acumula-


ção capitalista, correspondente à fase de acumulação ori-
ginária, na qual o capital comercial subordina a produção.
Caracteriza-se pela reduzida imobilização de capital fixo
e a maior importância do capital circulante, o que explica
a enorme resistência em adentrar a produção, satisfazendo-
se em controláJa sem subordiná-la intrinsecamente.
Cercamentos: processo de transformação da estrutura fun-
diária ocorrido na Inglaterra entre os seculos XVI e XVIII.
Os cercamentos do século XVI provocam êxodo rural pe-
lo deslocamento da população dos campos de cultivo pa-
ra constituiçâo de campos criatórios. No século XVIII, os
cercâmentos significam a integração das antigas e tradi-
cionais posses camponesas, bem como das terras coleti-
vas, a uma moderna propriedade num mecanismo de
verdadeira expropriação, sem significar, necessariamente,
êxodo rural.
Continuidade: opôe-se ao conceito de ruptura. Quem pensa
a história em termos de continuidade raciocina em termos
evolutivos, como se as coisas se dessem de uma maneira
gradual e contínua, dando maior relevo aos eventos do que
t9

às estruturas. Pensar em termos de ruptura é estar à bus-


ca dos momentos decisivos, nos quais ocorrem mudanças
fundamentais, mais qualitativas do que quantitativÍls.
Mudanços qualitotivas: mudanças essenciais que se operam
no interior do pÍocesso histórico. Referem-ie às liniras de
força da história, mais profundas do que contingentes, se
bem que o contingente nâo possa ser dãsprezadol sim en-
tendido como manifestação mais visÍvel, as escumas flu-
tuantes que refletem a pulsação das vagas oceânicas.
Mudanças quantitativosi mudanças que podem ser mensura-
das, avaliadas, pesadas, contadas. Sâo importantes indi-
cadores capazes de identificar, num dado momento, :rs
mudanças qualitativas que se operam mais profundamen-
te no interior do processo histórico.
Revolução Burguesa: revoluçôes que consolidam o universo
burguês, que transformam a ideologia burguesa na ideo-
logia dominante. Nâo necessariamente têm que ser revo-
luções feitas e conduzidas pela burguesia, mas precisam
consolidar a propriedade burguesa e criar condições para
que ela se desenvolva.
Revoluçdo Indusffioli processo acelerado de transformação
da estrutura produtiva realizado pela Inglaterra entre l7g0
e 1800. Representa a separação definitiva dos trabalhado-
rcs de seus meios de produçâo, a sua transformaçâo em
proletários. Tal processo se caracteriza pela substituição
das ferramentas pelas máquinas e da energia humana pe-
la energia motriz. Em suma, a passagem do modo de pro-
duçâo doméstico ao fabril.
Revolução Inglesa: primeira Revolução Burguesa da Europa
Ocidental. Antecipa em 150 anos a Revolução Francesa
e, nestes termos, a Era das Revoluçôes. Representa a des-
truição do Estado Absolutista e a criação de condições para
o avanço do capitalismo industrial na Inglaterra. Deste
ponto de vista, a Revolução Inglesa e a Revoluçâo lndus-
trial repÍesentam duas faces de uma mesma moeda.
8
Biblioerafia comentada

Textos clássicos
Derxe, P. A Revolução Industrial. Trad. port' Rio de Ja-
neiro, Zahar, 1969. Abordagem pouco crítica mas assen-
tada em pesquisas acadêmicas sobre as várias revoluçôes
que compuseram a chamada Revolução Industrial'
Dosg, M. A evolução do capitalismo. Trad. port' Rio de Ja'
neiro, Zahar, 1965' Estudo clássico sobre o processo de
formaçâo, desenvolvimento e crise do sistema capitalista,
na perspectiva do materialismo dialético.
FoHrer.r, C. Qu'est-ce que la Révolution Industrielle? PaÍis,
Science Nouvelle, l97l . Excessivamente analítico' mͧ uma
boa sÍntese sobre os vários problemas historiográÍ-rcos que
envolvem a análise da Revoluçâo Industrial'
Hoeseewn, E. En torno a los orígenes de la Revolución In'
dustrial. Trad. esp. Buenos Aires' Siglo Veintiuno, l97l '
Três ensaios compôem este livro, dentre os quais o texto
relativo à Revolução Industrial, que é extremamente re-
velador. Uma análise mais ampla aparece em Da Revolu-
ção Industrial ao imperialismo. Trad. port. Rio de Janei-
ro, Forense-U niversitária, 1978.
9r

Mrrr.rroux,P . La revolución industrial en el siglo XVIII.


Trad. esp. Madri, Aguillar, 1962. Um dos melhores estu-
dos sobre a Revolução lndustrial, ainda nâo superado, ape-
sar de sua primeira ediçâo datar de 1906.
Mnnx, K. Cooperação e divisão do trabalho e manufatura.
In: O capital. Trad. port. São Paulo, I971. Livro
I, caps. l l e 12. Texto essencial para a constituição do mo-
do capitalista de produção, a passagem do artesanato e ma-
-.
nufatura à grande indústria.

Toxtos modemos
Denr.re, P. & Cor-e, W . A. British economic gtowth,
1688-1959; Trends and srructure. Cambridge, 1962. Aná-
lise da Revoluçâo Industrial diluída no processo de cresci-
mento da economia inglesa, numa perspectiva bastante
conservadora mas substantiva.
FrrNr.r, M. W . Origins of the Industrial Revolution. Londres,
l!Xó. Um pequeno texto de síntese mas bastante inovador.
Fr-ouo, R. & Mc Clos«sv, D., eds. The economic history oJ
Britain since 1700. Cambridge, Cambridge University
Press, 1981. 2 v. Fundamentado na análise quantitativa,
o texto contribui para a destruição do mito da "acelera-
ção da Revoluçâo Industrial".
H,,inrwerr, R. M., org. The causes of the Industriol Revo-
lution in England. Londres, Methuen, 1967. Coletânea de
vários autores que procuram explicar as origens da indus-
trializaçâo inglesa escudados em pesquisas particulares.
Hrr-r-, C. Rejormation to Industrial Revolution. Harmonds-
worth, Pelican, 1975. Texto fundamental no estabeleci-
mento de conexões entre o processo revolucionário inglês
do século XVII e a Revoluçâo lndustrial.
Lnuoes, D. S. Iâe unbound Prometheus; Technological
change and industrial development in western Europe from
1750 to the present. Cambridge, Cambridge University
92

Press, 1969. Análise densa e crítica sobre as mudanças tec-


nológicas ocorridas na Europa a partir da Revolução In-
dustrial.
Mernns, P. The Jirst industrial natioa; An economic history
of Britain 1700-1914. Londres, 1972. Estudo sobre a Re-
volução lndustrial inglesa inserida no bojo do processo de
crescimento econômico, embalado pelas teorias desenvol-
vimentistas.
Mo«yn, J., ed. The economics oJ the Industrial Revolution.
Londres, 1985. Coletânea de ensaios que discute as cau-
sas da primazia inglesa, as condiçôes do crescimento eco-
nômico e o debate sobre os ganhos e perdas em termos
de padrões de existência.
Txe Frmr International Conference of Economic History.
Estocolmo, 1960. Reunião de textos de excelentes especia-
listas na temática da Revoluçâo Industrial.

Movimento opeÍáÍio
CnruouH, C. The question of class struggle. Chicago, 1982.
Estuda os processos ideológicos da classe operária numa
vertente oposta a Thompson, cujas fontes acoima de se-
rem excessivamente literárias e culturais.
FosrEn, J. C/ass struggle and the Industrial Revolution;
Early industrial capitalism in three English towns. Lon-
dres, 1975. Procura as raízes da luta de classes em três di-
ferentes cidades inglesas afetadas pela Revolução
lndustrial.
Hosssr,wr,r, E. Os trabalhadores. Trad. port. Rio de Janei-
ro, Paz e Terra, l98l . Coletânea de ensaios sobre a histó-
ria do operariado, cobrindo do fim do século XVIII à
Primeira Guerra Mundial, que de certa maneira tem sua
continuidade em Mundos do trabalâo, Rio de Janeiro, Paz
93

e. Terra, 1987, onde surgem novos


estudos sobre a histó-
ria operária. Em parceria com George Rudé, escreveu
tÍLm_
bém Capitão swrzg, Rio de Janeiro, paz'e Teni,-lgg2,
uma tentativa de reconstrução do universo mental
expres-
so no movimento radical denominado Slyrng, que
tev; sua
culminância nos anos 30.
JoNrs, G. S. Outcast London; A study in the relationship
between classes in victorian society. Londres, 1970. pene-
trante estudo sobre a condição operária nos subúrbios
lon_
drinos.
Tnouesoru, E. p . A formaçdo da classe opertíria
inglesa.
Trad. port. Rio de Janeiro, paz e Terra, igAZ. 3 r.
i.*to
fundamental sobre o universo cultural e ideológico
daclas_
se opereiria inglesa. Em Senhores e caçadores.irad.
port.
Paz e Terra, 1988, o autor revolve os violentos
.orilito,
no_ século XVIII inglês, revelando
o lado ,.social,,da lei
e do direito.
e Fandamntos sio Íruto dc uE lrlbdho
editoÍirl
As xi|es hincipios ligrdos ros cunicutos
inlrnso e reslistr, e rpresetrlrm llvros intimlmeole
'"ali""ã,*J ii."riarà.il sempre etrborrlos 9or rul,res repÍescntâtiv.s de
e inreEadôs.r9 E-nsin9 sup.eÍior do Prrs'
-'''"* -'ioon.ç"õüüi.iot' volumes dr síie Fundomenlos'
dllei;?lti.il
ltmbéú os

ffi
ÂARIE

CadêÍno do síáhsê literâtl3

2 Novas liçôes dê âná16ê snlátrca


Nnano da G nê Ku.l ê
3 Iempos da llt6raluta brasrlêÍâ 20 ConslruçÕes bíasrlêÍas
c dôdan'â
Benênn abílale Juntot at cáhà çalvtia aut)na &
se,; úa Yausse I C ênqe dê||i
MEha Lúcie MonIes
21 Érstônô da liíg!à Porruguosâ
Elaano.e Motb MaB Sê.ulo xll e século xv 34 So€ologl3 do negro brasibno
5 Lnerarurâ inltôrrl brâsrlena
Oswêtdo Cêsch1n
: islón. & hBrórɧ
22 HrslOna Oa lnguá PorlÚguêsú
ME..sa Latott & Regina Zlbeman ll Sécuro xv ê mêâdos oo Dlôí§támenlo d€ e^sL^o
6 hrctôçào ao rcalro
Dutcê de Fanâ Pat{a
36 SociologÉ da socologla
7. Estónas ê1r cahas OctavÉ lanht
HislóÍÉ & antoioqLa
23 HEtÓíâ da língua Poíuguesa 37 a loímácão do tslâôo
llL Sêounda meÉdê do PopulÉra nâ AmÚica Latna
Mana AParccda Sânnlh sêculixvl e século xVll
I ReÍlêrõês sobre . âíe
SêoEmunda S?na
38 hlrodução â lro3olÉ da ade
S No munóo dâ êscnra
24 Hl;rôr'â da llngua Poíuguee
lV Sécur'o xvlll 39 HEIÔriâ qeral e do BÍas{
Llrnâ o€60€clrva PslcolnguEncô qolêndo Mo.el hnto
F.andsco lqlés@s
25 Hislóna d. llngLrâ PÔruglosá 40 Ciâsso§ socÉi§ e moÚmênto
10 Lrnguagêm ê sscola V. Sêculo xlx
uro oorso€ctrvô sctc â
Nitcs Sa.t'Anna Ma4ns
2ô Hisróriô da lj.gua oonuguesa al E3iéircâ da Íê.spção € hrstüLa oê
1! Psr&loo€ d arêncEl
Dânts MDtotB Leie Ednh hmntel hôrc Resfi€ Zil@Ínan
z7 Àún,n'sr,açao asrategra 42 Leturâ
flávta dê ga(rcs Caonê LuÉ Gêj
Porspecnvãs
13 Lier.rurâs al.Eânôs Úe
28 A ÍaEéd'â Eslruturâ Ú 'nrêíd6crol'naíes I
exPÍessâo Poriu9úesà Regna Ztbenêã EzeqÚtet

tidiâ M nz da Costa &


f dê 1lva lotgs I
14. flomancê iÉPaÔo_amêr cano 43 A natureu â e ô lÔglcã do
M-ús Lura Rnzet Benédtos
29 O;,onáno de rêorê dâ 'àrarüa Roben L HêttÚonor
Linouâs êmcoilãlo M ,a Ô §'on'lrado no vorbo nglês
GeohEY N Lêêch
Anà C.tsona LoPes
Feàtndo ladtb I 30 lntrôduÇáo à e(onom'a
mund16l co.lêmporânsà Reví,onA
l6 a prárE8 óa rêPodâgem
RÉrtú Kotscha
3l O têmoo na nêíalrva
46. Drámãlursrâ - CoÔs uçáo dô
^oudd1
17 À llnoua ê3crtu no B,âsü
Ft1't; Pilêntal PtôIo
32 Clsssss. Íegmss e Éeolog6s á7 Âs í'ouras de lúguag€m
l8 Cuhüíâ brasd€ra Eobn Henry Srcut Aobcho de Ohtqn BraFdao
Têmãs ê 3iluêções 33 AIDS 48 Dr.êÍo e Jusnçâ â tuncão socr'
lrma êsll.lêq 3 Pêía a
19 Pânsâmonro 9êóagôeÉo êssslência de eôÍermagêm Jo;ê Ec,uêtdo Íanê lo.9 /
t
SÉRIE

I PÍódia, p..arrs. a Ch. - Aííonso âo ,n.tatlliragarlt


- Sarría Ciathúo r 4i
mano oe sant anná t 2. Íaoala do cotío P.bralh..lttgu{am Erana oe lao,
- Nad|a Ealrella 6orr.b r 3 a pa.adlr{aín .a CasÍo t 46 Té.b d.-th...rd. Êô
- Bêlh tlíâ,r t 4 o íoEo oaít. vo .. t, berro Âcizelo de Soüra r 47 Soêiadâd..
9,, CtuâP'nn, Mo,aes Le,te r 5 A C.ônlca do A.nho O.ama PórhÉ - Cíô Flámr
- JO.ge 0e sá r 6 Vaaaoa. tona,.hmoa .'on S Cdídoso a 48 Lqlaa C!raEn...r
- Noíma 6otdsre,ô r 7 Crotbftoalra..- no Xo.abía - Manuêt Cc(e,à dêÀnd.à.-
l(lna - Je5qs Ân!ôa'o Ourgaô r I 8anún. r 49 A lheu.e.lh thiart - Oomiélo
llcr - Hodolío ttar' & Joáo WandêÍtev Proenca Fího r 50 oatrr looa.lo _ Hâ
Ge.ard, t s aír.rqub..ocrraheút tt r 5t FanFctivaa fa-
teínaldo la,alb r l0 FronirEia do iESa -í(c,r M Monleío
tó.i:õ da aducTlo - Êr,ans gaa,
no.tc.t[-lcaíx, - Ma4hà stêrírbêÍô . Ie'reía fooes r 52 CamíEtEaaa Maí.
I I ftínor d. ttt.íaau.â tEbr. ú,,a qa,'dá Íriar,a Mcuía r 5l Raolo. ao..
t 'sâ cevas<o & val(eí Le, ,s s.oúE,,i r I ) nhtçlo .rÊci.t . Rcoerro uoiaro co,ia:
Tócalca d. coírtnh+lo ercritr rr,Aoi. t 54 Oaapothrho alala.acld,o - F.ancrs-
Brrtslen r t3 O ca.tr.? ao{t td.fuclô (:o JoséCala2ans Falccn r 55 CoíEo.rrâa.
do&aaa - Fáo,oLucas r t4 Aaat-r.ti.?: cb v€ôal - Mar.a Âoáíec,da 8âcceoâ r
a lL.atrra da orarcaalo - Múnrz S,,,1Íé r 56 Cdtrunic.çlo c anltrrr hro..tía -
15 O algíE - rsaac Eostern r t6 Ad.â. VÍgí'o Noya P,nro r 57 Cd|êaho dâ m..
ça - Mr|a1câícÉ Me.oàs r t; Lhgrra. .i. - Pedrc [Í.a r 5E Llr..ars.. co.iro..
gilr| a pa.auaato - Ad'lson CrtetL r ]Â aada - Tan.a Franco Carvarnat r iq
Pra uma nova gÍamútlca do poítuouâs - 6ocbdd.a Ule.n.. Atc,da flü Rarnos
MánoA P(r,1, r ,9 A r.t.lbv.t _ _ Sá r 60 odaíolr.lrc haaaihao a yrníúa.da
ÍriÍâ ío,'sssr Campqdefl. r 20 Apoa..I. Luc,a Hetena r 6 t Paíadraoana da [.
,lca 5areL, Je Ahe'da Caíà r 2l tarattx?a hÍanao-iryanl
Íhéde r 62 Ct rÍúab.- rs.ac:osren
Son,a Sa,omáô
Pa.Íodoa fta.l|ba L n,à Cade,na,r.ll r
22 hídrúalc.. aôcbád. - Anion,ô \, -
t 63 O.ara - Faroa a atgnfli:adoa . pe
coláu Yoüssat & V,cenre Pdl Éeínar,,lê2 r .lro câsrío t 64 a ag.andl2agam do ato.
23 Crpaço a.omrytca - Â1tc,],o D,máq r An'ono ran,Jreüi. Janô r 65 Crnavat_
24 O lr-ói Fiávo F <otie r 25 !io- ca.Ítwaaa - Jose cartos sebe t 66 o...
nho a lqrcuaa - Jos4 Robeí(o Worít t 26 aI RaÍúblka - Ham,rron M MônrÉÍ,r .
E,lúÉ.L g.amaric. Or.r.to? Ltô.d.. 6 / Comgrudq a ao.ho
.L? - Eran,rdc 8€chir.a t 27 irodotoot - Um. aclc..
hgL.. - í{oç6a. i[.ortrtó.i.. - Maíihn çlo a ltngü. Erucr-.a - Cr.\linâ p C
Mãíqqes M lsabet L de Matros & vvês de
srenbe.q r 28 lnict Co a múd,c..rodr. ld Tàíle t 68 Od,o caCtalta da o.odir.
h. ô...Li. Wa oenv, Caroas r 2-9 àr. ç4o..{.|êqhú.. - A,,olardo UTteliô dí
Inírra aL notba - N son Lao€ r 30 OrveÍa r 69 Caaama.io, ríno. a d.t b
Co.r.ho d. p.irsôt7ia - Ad,tsón ô.áô.t, noocLhÍ. C.btb - Êonãldô vá,ôÍi< ;
qo & ou.val Noq,JeÍa a 3l O hcolúcan.
;o m-rbrrlo . têía da ..votqc&
la - um aftrdo crítlco - AtÍ.edo Nafíât rl.L - Ecteí sad6í r 7t p..êidôàr -àtdô.
Nero r 32 A hbr..t
Êàmàde,n r 33 O úaôáon - ZaLaí6 Bo.oê Ar, ana. - S,moôê Ca.neío Matdo^ado t 72
Latha côlollLl - Cro Ftama,rrn S^.rú.i,
A.agdü - frá!.oR (hole r 7l Cd..
50 r 34 th..da . José Giltheímr Câô
Caíc,o cancl a SamEada - Máivna MúsÀàt r
7a Oí.h. d. r..duçIo A t.oíbn Ea.
ror Magnan, t 35 Í.oÍa d. hÍo.nl.êtô rrca - trosemàÍy Aío|c -r 75 llbió.i..tô
- lsaac Êpsre,n r 36 O.íú..fo - SàÁ"à ,hoYhl.oto opaíarlo no &Úl - lnronro
Nâtr'd de Mêsou'ra r 37 Llníraíafi i|.- Paúlo Herende r 76 Í{qraoaaa
rg.aL|oou es r 77 ô.rr..LrE- - Má.,i
Mànúêr
ndlltic. - Ndson taqê r 38 O írrdilb-
.t|o: acqúahaa a raairrada - ham,rton M oa de vás€oncelos Reooucas t 7g no.
MonrêÍo t 39 A ctaLdlErtado fidgr - manlhõO - Ad,rson C(e r r 79 Haohm
Ldo Hamanon 5 câídoso r 40 í{agrhu- bucd - Go.q,ode M(herr Càíto5 Ed;á.dô
da - ur6 a a(ri5oa - (àDenoere Munãl Au. E M,(hel N,cotau yousser t gO
gâ r 4l lmlranaa laíhlnin.- - ou'.írâ pactoa aconôahicoa da aaÉacto - Lâdr3
Sch.oedeí Bu(oôr r 42 Saro a dolaaoaô. rau OowDo. r 8t €.êôt Í{oy;
^.-
êia - rcáfl ÍOa r 43 m{a a ÍEraaaü. - Cr,sr,ânô
D,6'0íS, r 82 lninrr Ca conrr.cfo -
ao magbo Pauiâ Monre.o I 44 A L'J? Anrôn,o Ma,cusch, ,8j O €satào F..
ó..at de Abíêu oallari r 84 ltr- dndueí r 133 Gaamacl a a aacoL - Lu'
- Dalmo
- Francrsco Joté Calazans Falcon Àr-ciuno uocncorncn t 134 ottl.o.6aa t,
mhitíro
.lnàaac..da p.íaaíú*r.d. -CâÍlo§By,ng
I
r 8á Conaüulç6aa - Cel,a Cal?ão Cqú'' t 35 Êri.vira d. 9..aoa&.ó.
no & MdÍ'à L'Jc'a Monles r 86 Lltaattv.a ron I -
lnL.ail - Vot da aranoa - Malir José Pa' Plaonr a aomb.a - Caílos Bving(on t
to & t\tàí,r Rosa O Or,;e,a r g7 A ltl.' 136 6.Íidarl. unldd.. (,. m.dllâ -
om - Eduêído t\e,!á Jr r 88 Í«Lü O Sbtdna l.rarÍ.d.!al da 1rí5.d.. - Ro_

Érh.l - MaíoaíÉa Bas,l'o r 89 A Pollr! meuC Êocha.F'lho r 137 Lhíir.Ísn.


ê,.it .n h...bL (1822.19861 - Ama Eaoa4h - Josê Lu,z É'oín r 138 Suho.'
do Lur Cervo & Clodoaldo Aueno r 90 dln&ao a êooadaíuç& - ConíÍonlol a
CÉíga & Íq - 6dDêílo (ob€í Coíêá t catiÚt.. - FlávÉ de Bádos Catooe r
91 8oalE, ffilc-, c.a., htiEar, - Â.' 139 E.raar l.l..lrirgütY - Júl,an Na.aÍú
r,ndo C Pmenta r 92 Hbló.L da lhÍa' r I40. Roô. R.9rÊllcán. - NoÍmá Mus'
tr. aLín! - [loà He,sê & 8uú Rohl a 93 co Meôcl€s l 141 Par4uba da harcado
ilbró.ia do úabcho - caílos Robe(o de .- [{aíma RurteÍ E Seítóí'o aqqusto de
bt.e,ra t 94 l{arLmo - "O T.hn,o da Ab.eu t I42 Bügú..a.. caÍit lbíno Íro
Voa a(." - Alcí tenharo r 95 Fâacl..' B.aal - anlono CaÍlos Maz2eo t 143
mo l.l|IE - AnqeD [.eôro r 96 Aa lÍo' 8liín.r da êo.wrrtcaéo PoFL. - Jo'
o.r - '_u,. Ca,6s Socha r 97 Po..a rerh M. Luíeâ r !44 Êuolt4lo blógi.
Éhnrl - Marra da 6róí,à BoÍd,n' r 98 ca - Coail.oyaílLl - Cêlso Predemon(e
Pacto a aalaàI2aCo @nànêa - Ped.o de L'mâ r 145 - Ped.o Pau_
Scuro Nero r 99 CatÍlêa do .ddao - Ml r 146 E ê...
lo ÂbÍeu Funarr ^rqu.oaog[a - P.oU.'
ma ôa lúa9halltaçao - Maí.a Coê',
chel Ncolau Youssel, CaÍlos Eduaado ALn
& 6ÉÍ0ó de MÉhel' r l0o L.l§Í! llr ÍÉ' CâmoÉdel & Raouel Farjone Ga'd2,ns,r r
147 lllhê6.. - Uodoó a marodd - 8í''
I
iavÍaa-- Lucíê<,a D'Alêsno Ferrara t l0l
O Oato íÉ lnríirh qhh - Câíos Ro' o«ra Ptã,ticr Calrellanos t 148 Ecdoeb
bêíro F NooueÍa r 102 Pak,ola.aeaaa - áIll,al - Um. ant ogoloíb it müdaílí.
zâcàí,a goíÀe Al, namaoam r 103 Ocdr' - Renàte Bí'o(te v,ertreí t 149 líEaa a
rô .L adâ.-- Nellv Novaes Coelho t lO4 .atacaa - cuhsaaa !.é.cololhblfL! -'
Gria taó.bo do rtÍahaltsÍo, - M,rram Jo.oe Llrr Feíeíc t 150 O _anráCantaínanao
.emre . tO5 Elrú.yLta - O dlíogo co.' mdibY.l - líé5 C há:-ú & Âeq'.d
íyal - C.€m'lda de Aíáúlo Medrna t 106 de Luca r lâl o ÍoítÚnca prca.aaêo -
Oqllornbot - RaaàtaíEh - aaa.aYbmo Maío Gon!árer r 152 HlÍó.b óo &aal
- Clôv,s Mouíâ r tO? R.ça - Coacalro aacimaa - sonià 8eq,nâ de Menilonca &
. l,acqxcaho - :l,ane A2a!édo t 108 VÍoúra !ta,,à tcnre: r 153 HLl&b da
Cinrlanrtraa - R.lhÚr. íràlhca cúru' múi-. - O. ldad. d! Pad.! a ldda tto t,
.âl .- Rau, Lody t log Aôo{çlo..aío.' noat - valdlí Montana.r r 154. Póa'
mr.o.ffa - Mánuel Coíe'a de Andíacle nroda.nlarno a lh-tlt a - Oomico PÍoen
r llõ Po.ir. ilhlcÉa da C..loa Orum' câ F, ho r 155 id(. d Oo? Elc.. .1c...
íroâd óa Aíú.É - Rrú de Cassiá 8á.bo â.aolv.ndo d[hr/dad.ô - Étaná valdés
sa t lll Clrítra a momagttl - Ecluardo Lópe2 & Solanqe Maíques Rollo r t56 O
Lêone & Mana Oo.a Mo'r.êo r I 12 O.ítrÔ' íIo.daata.. qr.aLo..ílqral - Manuel
<raêL - OêcÍ) Saes t 113 O tarbo h' Coíera de Anõíade r 157 A OrarÍa na
gLr - T.o.b . Fótlê. - vane. L€rl.s Gódâ Adha - Maícos alvrto Pe.e(a de
S,ouêÍa r l14 OaacoÔ.lnanaot a colona' Sou2â r 158 lnrÍoótrÉo a d.Íiat gb -
Ú;ao - .lanÉe ÍheodoÍo oa S'lva r I 15 Renara Paiiotl,nr r 159 A p..q!à. at hb-
O. Joto Vl: o. b.ridd.r d. Lrar.Fnd&r' ú.a - Maí'a do Pilar de A.aúp Vte(a, Ma
cL - Le'la líe2an Ah.anl' t I 16 Cacta_ .É do ÊosáÍo dâ cunha Pe'(olo & Yâfa
vldlo arag.a no 8,óI - Suelv RoDlei Êers Ma.rá A'rn Khou.y t 160. A Ravo&éo ln' t?
d€ ôuê.íô, r ll7 Arú.oamo a antÊoa' úrúüÚ - José Jobson de Anóíâde ÀÍ!óa
rhdEdL.no - G'qsepornâ Sle.ía t ll8 r 16l ArnaogoaoÍÊa a9lada :- Frans
ll í.hlçÍh na ãroF ltrôdarlla - teu,a de Moonen t 162 O conroLro d. CdlíD -
Merlo e Soura r I 19 Funç6.a d.lhes.' frankl'n Goldgrub r 163 A. C.úrda. -
í.rtr - Sam(aChalhub r 120 Cljod. il' José Êobêr(o Mello a l6a RaE-rúao|o
d. - âlot a ,ltílEa - Thares dê azeveoo oaídca - Celso Fe{nend€s Campdonqo t
r |2l TaLrrato. P.bm&a - Mun'r j65 G.ogalhlc. do &aal - Manuet Co.'
Sodré r 122 Cuhv.a poqí.. no &..a - íerâ de Andíâd€ r 166 OanÍolÍt.a.5t ã.
MaÍcos Ayálâ & Ma.€ lgnes Novâts AYala t
123 O€.írvolirtníllo d. P..adi.l5.d.
- anoét,ca Soáíês
r.ltirnor
Schúbeíl t
r 167 An&a da h.
a lara da aÍoano - Pedío
(õaôa - RooeÍ_
:!
- 8hboroa. ÍqLtlíE. - CâÍlos 8y,nq' 168 A,a<L
to Loba(o co..êâ r 169 a ÍEi. Fítrrgra-
ã!
ton r 124 llrlFddamo gaacc.oaiano - €o
No.beÍro LiJ'r Guâíinello t 125 P.rlodo li_ a. íb mundo - Silvo €lia t 170 E{
lóólacoa - João dâ Peíha r 126 O.0o' cfigÚí.rld thíÍbtbo. - NellY cãvalno
voa blsaí6 - Ma.,a Sonsoles Gúeíras t r I 7l O cotElrô d. 9-{ra. - tlelson TT I
127 Abdbb - Anton,o Toíes Monlêne' dê Casr.o SenÍe r 172 lnbLfao el.lih
oÍô r 128 Co.rE ad.l.. ó Saiaa - Ed,
íatoo tu Soa,e.tura r 129 Aôrtrlo. -
- Zelh de Almek,âCa.doso r 173. CrFa.'
a6aa domalbaa a cdtraíútoaraa - Stel'
E.;
€neldâ 8ômÍim r 130 lmp.!ú. op..arb la Oíwe,rêr Tagn'n r 174. O ..Íaço E I
aro &ül - Ma.É Nâ2a.eh Fe(eiía t l3l ürõrE - RobeÍio Lobalo Coíêa t 175
O.narodo tstrgdaíÚ - Glauco Ulson t
jl32 O r.nla.l-o - SelTa Côlasáns Fo
Ac.oru.do íaÍlc. rll vlgd - amn' @
il
I
\

r60 O p6n3ámcnto madlàval


lsBN 85 0B 03082 7
lnês C. lnácio 6
Tanrã Regina de Lucâ
161 O romEnc. picarosco
MaÍio González
162 Hi.ró.iâ do 8r.3il rcc.nl.
Sornâ Reqrna de lúendo 0 ur,or aborda os anos revolucionários, que
I Vrgín â Mâriâ Fônres
153 ll.tóri. d. lnúJca
têm na base a Bevolucão lnglesa do sécrrlo XVll
Or ld.d. ds P.dra à
ldâd. do nock
e, no topo, a Revolução Industrral do século
xvil t.
Pót-mod€rnismo a lit67
oomlcic' PrL,enÇâ Frho A Revolucão Burguesa situa-se como pre.
Malo or Do7 Etc.. Eic.
Rêsolvsndo diíic condicão para a Revolucão Econômica, e esta, a
E[ana Vâldés Lópêz &
Solânoe Marquês Rdlo
chamada Revolução lndustrial, somente ganha
OÍ{oÍda3taaâqu.rlão
r.gion!l
significado profundo desde que referida à plena
Manuel CoÍrera de Andrad6 consolidaÇão da sociedade capitallsta na
A gu€r.a n€ Gíáci. Anrig.
Môrcos Alvrlo Pêrâ ra de lnglaterra Completa-se nesse período a Íase de
Sorrlô
lntroduçlo à dr.mlturgig acumulacão primitiva do capital, encerrando a
Renala Pallolt ni
A parqui3a ôm históia8
etapa de preponderância do capital mercantil
sobre a produção e consolidando o processo de
do FosáÍo dá Cun
i\,4ôÍrâ
Perrcto I J
transicão do Íeudalismo ao capitalismo.
Yâra Mana Aun (houry ' José Jobson de Andrade Arruda é proÍessor
A Revoluçlo lndurtrlel
Jose Jobson de Andrade titular de Historia IVoderna da Universidade de
AntÍopologll apllcrda São Paulo. Publicou, pela Editora Atica, O Brasil
O complêro dê Édipo
no comércio cr:lonial, História antiga e
Fíânklrn GoldgÍub medieval e História moderna e contemporânea
As Cruzadr6
lose Robêrrô Mêll.r
Bopr..cnrsÇàopolhica I
Ce so Fern.rfldes L.),,p, onqp
165 Gsopolliica do Brâ6rl t
MJnrer Co,Íe,a.!â Andíêdê I
Gõnsros lir.rârior I
Angelica Soa,es I
Anâlisé d6 invêstimênrôs .
tara de,6roÍno
PrLl, Lr Sr:h!oerr
-4lerb' /c ,;alzr€stz.1t, rclune
nobêrto Lobato Co,Íêa
A llnqua portuquôr. no
Economia História Política Sociologia
Sílvrc Ella
170 Empróstimo. lingültticos
Nelly Cârvalho 9atrtwdr«w/a,,*A
171 O cotidiâno dr p.tquisa
Nolson de Castro SenÍa
172 lnlclâção ao tatim
Administração Antropologra Artes
Zelia de Almerda CàÍdoso Ciências Civilizacão ComunicaÇões Direrlo
r73 Erprâssôâs idiomáric.3 .
Educação Enfermagem Estética Farmácia
Slella OÍtweileÍ Tâgnrn
't74 O capâÇo uôano
FilosoÍia Geografia Lingüístlca Literatura
Robeno Lobaro CoÍrêa
Ac.ntuação gráíic. .m
IVedicina Odontologia Psicologia Saúde
vigor
Amini Boarnarn Hâuv