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Senso comum + teoria fílmica = teoria fílmica do senso


comum?

David Bordwell
David Bordwell é professor e teórico de cinema. Autor de vários livros, entre eles "Figuras traçadas na luz", "A arte do
cinema: uma introdução", "Making meaning", entre outros.

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15/09/2015
Arquivado em: traducoes

Por David Bordwell

Tradução por Pedro Novaes

Neste texto, Bordwell discute nosso entendimento do processo de compreensão dos filmes pelo espectador, mostrando as
vantagens de uma abordagem cognitivista dessa atividade e da importância do uso do senso comum.

Originalmente publicado em davidbordwell.net em maio de 2011.

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Figura 1: A Nebulosa do Caranguejo

Comecemos com aquela que me parece a mais fascinante das perguntas: o que nos permite compreender um filme?

Deixemos de lado casos extremos como as abstrações de um Stan Brakhage ou as transmissões da Nebulosa de
Caranguejo pelo Telescópio Hubble (Figura 1) e nos concentremos em um protótipo: um filme cujas imagens em
movimento nos apresentam pessoas, lugares e objetos mais ou menos reconhecíveis no bojo de algo a que
intuitivamente chamamos de “história”. Em outras palavras, qualquer filme comum exibido em salas de cinema ou em
vídeo.

A captura de um código

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Figura 2: Cidade Nua (1948)

Figura 3: Cidade Nua (1948)

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Houve uma época em que os teóricos de cinema se interessavam de maneira expressiva pelo problema da compreensão.
O apogeu da semiologia fílmica, grosso modo ocorrido entre meados da década de 1960 e o fim da década seguinte,
trouxe vigorosas reflexões em relação à forma pela qual entendemos as imagens e damos sentido às histórias.

Uma das hipóteses mais ousadas era a ideia de que essa compreensão dependeria de códigos – relações regidas por
regras entre significante (um objeto material como uma imagem) e significado (um conceito). Dito de outra maneira, um
plano de um gato não somente exibia um gato específico, mas carregava o significado de “gato”.

Da mesma forma, compreenderíamos uma cena de perseguição por conhecer o código cinematográfico para esta ideia.
Em Cidade Nua (1948), vemos planos alternados em que dois homens correm e decodificamos a cena toda como um
perseguidor em busca de um perseguido.

A semiologia foi uma promissora tentativa de estudo da compreensão fílmica de maneira sistemática. Essa escola de
pensamento chamava nossa atenção para quanto e como a estrutura dos filmes comuns se devota a seu entendimento
pela plateia. Tudo o que compreendemos em um filme poderia ser visto como resultado da decifração de códigos, que
são regidos por regras e oferecem um cardápio coerente de alternativas.[1]

Para alguns pensadores, o conceito de códigos prometia dar substância à velha metáfora da “gramática
cinematográfica”. Apesar de diferenças cruciais, quem sabe os filmes não fossem de fato um tipo de linguagem
audiovisual dotada de sintaxe própria. E como a linguagem verbal sofre enorme variação entre sociedades, por que o
mesmo não poderia acontecer com os códigos da imagem e das narrativas. Assim como qualquer língua, talvez os
códigos do cinema precisassem ser aprendidos.

A pesquisa semiológica nos lembra sempre que o que parece natural não raro revela-se artificial e relativo em termos
sociais. Em outra cultura, o código das luzes de trânsito pode não empregar o vermelho, o amarelo e o verde, mas
quaisquer outras cores.

A noção de códigos, além disso, também se concatenava à visão emergente daquilo que um influente livro da época
denominava de “a construção social da realidade”[2].

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Membros de culturas sem cinema e televisão seriam capazes de reconhecer aqueles borrões na tela como pessoas e
ambientes? Os códigos estariam enraizados nos lugares mais profundos de nossa percepção?

Evidentemente, em algum momento, alguém teria que aparecer com a afirmação de que esquimós têm seis ou 30
palavras diferentes para aquilo que os americanos comuns chamam simplesmente de “neve”.[3]

Semiólogos ortodoxos são raros hoje em dia nos estudos de cinema. É difícil ver um pesquisador falando de códigos ou
levantando questões relacionadas ao entendimento dos filmes.

Não obstante, segue pairando no ar a ideia de que a expressão por meio de filmes seja um processo relativo, socialmente
construído e dependente de aprendizagem. Os estudiosos dos filmes, junto com a maior parte das humanidades, parecem
assumir que, à exceção de alguns aspectos pouco interessantes da criatura humana – geralmente resumidos na palavra
“fisiologia” –, a cultura explica tudo. Para além da divisão celular e da digestão, por assim dizer, tudo é cultural. A
busca de qualquer outro tipo de explicação está sujeita a rejeição.

Aquele velho show dos anos 80

No livro Narration in the Fiction Film (1985)[4], eu me perguntei como melhor explicar um aspecto específico do
cinema: o fluxo de informações da história, a que denominei “narração”.

Se a maioria dos filmes narrativos é feita para o desfrute de espectadores, sugeri que precisávamos estudar as estratégias
usadas pelos cineastas para se fazerem entender. A maioria delas, assim me parecia, explorava capacidades perceptivas
e cognitivas humanas bastante gerais.

A pesquisa da percepção nos anos 1970 foi dominada por uma escola de pensamento derivada, em última instância, do
grande psicofísico Helmholtz. A escola do “Novo Olhar” de psicólogos da percepção, como Jerome Bruner e Richard
Gregory, defendia a ideia de que os estímulos se apresentam a nossos órgãos sensoriais carregados de ruído,
incompletos e ambivalentes. Para decifrá-los, seriam necessárias faculdades de nível mais elevado.

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Figura 4: Ilusão de ótica: coelho ou pato?

Conhecidas ilusões como a do coelho e do pato (Figura 4) demonstravam que, quando não conseguimos decidir entre
duas configurações visuais, resulta interminável ambiguidade. O olho, como se dizia então, é parte da mente. Ver, em
sentido pleno, seria uma espécie de inferência da melhor explicação: o que pode haver no mundo exterior que produza
este padrão específico na retina?

A princípio, essa linha de pesquisa se encaixava com perfeição à emergente disciplina da ciência cognitiva. No começo
dos anos 1980, os cientistas cognitivos se concentravam sobretudo nas questões da linguagem, do raciocínio, da
aplicação de categorias e da tomada de decisão para a ação.[5]

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Como o pensamento do “Novo Olhar”, a ciência cognitiva encarava a atividade mental como uma interação quase
kantiana entre estímulos e estruturas conceituais, por vezes chamadas de “esquemas”, responsáveis pela interpretação
dos dados.

Essas estruturas poderiam ser genéricas ou especializadas, difusas (como, por exemplo, a habilidade para resolver
problemas) ou voltadas a um propósito único (como a habilidade para reconhecer rostos).

Uma vez mais, a inferência era o modelo, ainda que determinadas inferências mentais, como aquelas relacionadas à
visão, fossem entendidas como rápidas, automáticas e “encapsuladas em termos informacionais” – por ignorarem tudo
que não diz respeito a seu domínio[6].

Com o tempo, a visão inferencial se tornaria a base de uma abordagem computacional para a percepção e a cognição
que segue predominante até hoje na pesquisa psicológica.

Em que medida a teoria da percepção do “Novo Olhar” e a mecânica mental da ciência cognitiva se adequavam para
explicar nosso pensamento cotidiano?

Em Narration in Fiction Film (doravante abreviado como “NiFF”), tentei me manter relativamente cético em certas
questões, mas efetivamente sugeri que esses quadros psicológicos de referência tinham sua utilidade no estudo dos
filmes.

Em termos de percepção, filmes são ilusões, e não realidade. Cognitivamente, eles não são a confusão ruidosa e
surpreendente da vida, mas sim agregados relativamente simplificados de elementos, concebidos para serem
compreendidos.

Filmes são construídos para fazerem uso do pensamento, sobretudo o tipo de pensamento que vai “além da informação
dada”. [7] Narrativas fílmicas, como narrativas em qualquer mídia, abstraem e simplificam seus componentes do mundo
real para uma percepção sem ruído e nos convidam a completar a história com o que não é dito ou mostrado. Narrativas
são para a mente o que figuras em contorno são para os olhos.

NiFF portanto afirmava que um filme pode ser analisado como um conjunto de sinalizações que incitam extrapolações
inferenciais em diversos níveis – de percepção, de compreensão e de interpretação.

Em outras palavras, os filmes nos levam a aplicar esquemas, ou estruturas de conhecimento, àquilo que vemos momento
a momento na tela. Esses esquemas podem se embasar em conhecimento do mundo real ou em convenções fílmicas. Os
dois tipos, entretanto,problematizam a ideia de códigos.

As estruturas baseadas em conhecimento do mundo real não são necessariamente tão coesas quanto o conceito de
código sugere. Esses esquemas são também menos rígidos que o conceito tradicional de código – podem fugir a
alternativas binárias ou a escolhas regidas por regras. Certos esquemas são imprecisos, seus membros concebidos como
protótipos ou estruturas de tipo centro-periferia.

Para nós, portanto, um pardal é um pássaro prototípico, enquanto um pinguim ou um avestruz não o são. Esses dois
últimos podem representar protótipos para membros de outras culturas, o que todavia não invalida a afirmação de que
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determinadas categorias se organizam por critérios de proximidade, sem limites rígidos e precisos.

Certas convenções cinematográficas são definidas com mais exatidão. Uma cena pode se encerrar com um corte, um
fade, uma fusão, um efeito de wipe ou um chicote. Não há outras possibilidades.

Portanto, em algumas circunstâncias encontramos, sobretudo no interior de certas tradições cinematográficas, uma
espécie de menu de opções que poderia ser chamado de código.

Muitas convenções, entretanto, como aquelas que indicam o espaço geral de ação de uma cena, por exemplo, são menos
rígidas. Não há regra que determine que um plano geral deva ser seguido por um close, como se fosse uma preposição
que, na linguagem falada ou escrita, demanda um objeto.

Nenhum código determina que uma cena sensual deva ser feita em tons rubros ou acompanhada do som meloso de um
saxofone. Não obstante, confrontados com esses sinais, inferimos por probabilidade que a sedução está no ar.

Aparentemente, nem todas as convenções apresentam-se estruturadas. Em NiFF, analisei várias delas sob as rubricas
“causalidade”, “tempo” e “espaço”. Essas três categorias, afirmava, alicerçam as narrativas e a cognição humana, sendo
lógico que desempenhem um papel importante no nosso processo de entendimento das histórias.

Mais além, em NiFF, sugeri que as convenções que orientam nossas extrapolações inferenciais não flutuam soltas no
espaço. Há formas preferidas e recorrentes de articular escolhas para apresentar causalidade, temporalidade e
espacialidade. Esses “modos” incluem a narração “clássica” e a narração do “cinema de arte”, entre outras. Tal esboço
histórico ainda me parece válido e aparentemente tem sido útil para outros pesquisadores.

Em termos teóricos, todavia, há problemas em NiFF relacionados ao papel ali atribuído à inferência. Quando o escrevi,
eu tinha conhecimento dos trabalhos de J. J. Gibson e de sua insistência no fato de que nossa percepção evoluíra em
ambientes muitos distintos das informações imprecisas que, para os teóricos do “Novo Olhar”, disparavam a percepção.

No mundo tridimensional em que criaturas como nós vivem, os estímulos típicos não são parciais nem rarefeitos. Na
verdade, são quase sempre relativamente ricos e mesmo redundantes. Quando nos movemos pelo espaço, registramos
um fluxo ótico que indica o desenho das superfícies de forma bastante precisa, por exemplo.[8]

Em NiFF, tentei passar ao largo desse problema dizendo que, mesmo que a visão de Gibson em relação à percepção
cotidiana estivesse correta, os filmes não carregavam o mesmo arsenal de informação do mundo real. As imagens
fílmicas – bidimensionais, não raro em preto e branco – possuiriam, a princípio, o mesmo tipo de ambiguidade contida
na imagem coelho/pato. Em minha defesa, eu citava a incrível Sala de Ames como evidência de que, por seu aspecto
monocular, as imagens dos filmes seriam inerentemente ambíguas. [9]

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Figura 5: A Sala de Ames

Essa visão me parece hoje equivocada. Filmes, como o próprio Gibson apontara, eliminam a ambiguidade de suas
imagens, em larga medida, pela simples qualidade de seu movimento. Seria necessário, por exemplo, um esforço mental
hercúleo para conceber uma maneira alternativa de construir um plano normal de três sujeitos em uma sala.

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Cometi o mesmo erro dos teóricos do Novo Olhar: escolhi o protótipo errado. Da mesma forma que uma ilusão de ótica
não reproduz e não faz justiça à percepção num ambiente selvagem, a Sala de Ames é um exemplo fora do comum de
artifício cinematográfico, e não algo típico. Meus velhos amigos Barb e Joe Anderson tinham razão: Gibson detém o
melhor argumento[10] (o que, entretanto, não resolve a disputa entre as abordagens computacional/inferencial e
ecológica como melhor explicação da visão natural; nesse terreno, recolho-me a meu ceticismo de amador).

Eu me encontrava em terreno mais firme, penso, ao tratar a compreensão da narrativa como um tipo de processo
inferencial. NiFF, entretanto, leva o problema para uma direção problemática.

Tomar a compreensão narrativa como inferencial me levou a lançar mão da distinção formalista russa entre fabula e
syuzhet. Esses dois termos já foram usados de diferentes maneiras, mas o caminho mais sensato, parecia-me à época e
ainda hoje, é entender a fabula como a sequência cronológica e causal de eventos que podem ser apresentados pelo
syuzhet, isto é, a configuração de eventos no texto narrativo tal como a vemos.

A distinção é evidentemente uma ferramenta analítica útil para estudarmos como uma narrativa pode “deformar” a
história subjacente para fins estéticos. Em NiFF, entretanto, tratei-a como mais que uma mera ferramenta de análise.
Defendi que a diferença era real em termos psicológicos, entendendo que, à medida em que encontramos eventos no
syuzhet, tacitamente construímos também a fabula.

O processo seria paralelo e simultâneo: o espectador acompanharia não apenas o que acontece a cada momento na tela,
como também encaixaria esses estímulos num padrão cronológico de eventos da fabula. Parecia um claro exemplo da
combinação de estímulos vindos de baixo com a cognição chegando de cima.

Infelizmente, apontaram algumas pessoas, um processo assim é implausível. No fim das contas, tive que concordar.
Uma primeira razão é a de que não temos consciência da construção de uma fabula em nossas cabeças da forma como
podemos ter consciência, ao menos parcial, quando resolvemos palavras cruzadas.

Mais ainda, não é fácil ter acesso à fabula. Experimente parar um filme e tentar lembrar-se de toda a cadeia de eventos
que leva a seu momento presente. Ou, pior ainda, tente, ao final de um filme, pensar na fabula completa que
supostamente acabou de construir mentalmente. É quase certo que não conseguirá.

Como nossas memórias são reconstrutivas, e não fotográficas, criar uma fabula acurada é extremamente difícil. De
forma mais teórica, Julian Hochberg e Virginia Brooks propõem algumas razões pelas quais a representação mental do
espectador, na maior parte dos casos, não tem como refletir a estrutura subjacente de um filme.[11]

Acho que NiFF tocou num ponto válido: nossa compreensão das narrativas é com frequência inferencial e nós de fato
elaboramos em cima daquilo que nos é dado.

Hoje, entretanto, acho que a construção de inferências ocorre numa janela relativamente estreita de tempo, deixando
poucos rastros atrás de si. À medida que avançamos em um filme, o que se constrói em nossa memória é algo mais
precário, mais idiossincrático, distorcido por momentos mais intensos e mais sujeito a erros do que a fabula que um
analista poderia desenhar. Na verdade, são as limitações bastante reais de nossa memória que tornam possíveis
narrativas que levam o público propositalmente a fazer inferências equivocadas, como em Mildred Pierce (1945) e
outros filmes.[12]

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Não obstante, creio que o erro tenha sido produtivo. Por atribuir ao espectador a tarefa contínua da construção da
fabula, NiFF está em sintonia com uma premissa que me parece central: um sentido holístico da forma.

Mesmo que olhemos a narrativa com lupa de analista ou teórico, é importante considerar o desenho mais amplo da obra,
os princípios mais ou menos coerentes que governam o desdobramento da história.

Quando digo isso, tenho em vista questões como a progressão sutil dos objetivos dos personagens, motivos psicológicos
e mudanças de personalidade, tomada gradual de consciência, mudanças de ponto de vista, temas variados e repetidos, e
padrões mais nuançados de apresentação visual e sonora. Tentei mostrar a criação de considerável riqueza formal a
partir da operação dessas características em muitas escalas numa análise de Jerry Maguire (1996), por exemplo.[13]

Essas características no desenho dos filmes precisam ser explicadas, especialmente quando surgem em filmes populares
relativamente inócuos. Por que tantos filmes são organizados de forma mais coesa que necessária, tendo em vista as
drásticas limitações na atenção e memória dos espectadores?

Evidentemente, objetivos, temas e tudo o mais são elementos que buscam moldar, de alguma forma, a experiência de
quem assiste ao filme. Nós de fato os registramos em determinados níveis de consciência.

NiFF trabalhava com a ideia de um espectador demasiado consciente. Mesmo assim, entretanto, ao menos em termos
metodológicos, parece melhor apontar muito aspectos dos filmes aos quais um espectador pode responder, ainda que
nenhum espectador real capte ou se recorde de todos eles.

Sem dúvida, determinadas tradições parecem tentar construir narrativas mais densas, de forma que leitores ou
espectadores possam retornar ao filme ou livro e notar elementos que lhes escaparam de uma primeira vez.

Aqui, como em outros lugares, meu desejo em NiFF de mesclar a análise formal a uma análise da resposta do
espectador deixou algumas lacunas na teoria. Em certos aspectos, entretanto, é melhor ter mais a explicar (sobre a
arquitetura e detalhe dos filmes) do que menos. Essa é uma dinâmica que, tantos anos depois, ainda venho tentando
refinar.

Em larga medida, NiFF explicitamente deixa de lado as dimensões emocionais da narração. Essa opção se devia à
suposição de que a compreensão das histórias se daria de forma relativamente isolada da resposta emocional a elas.
Seria possível acompanhar uma história, eu afirmava, sem se deixar afetar sentimentalmente.

Tal ênfase era, uma vez mais, consistente com a ciência cognitiva dominante nos anos 1970 e 1980. O índice, por
exemplo, de The Mind’s New Science, manual de Martin Gardner, publicado em 1985, não traz um verbete para
“emoção”. Ainda assim considerei aquilo que a que poderíamos chamar de “emoções cognitivas”: curiosidade, suspense
e surpresa – todas elas invocadas pelo processo de narração.

Desde que o livro foi escrito, entretanto, a relação entre emoção e cognição tornou-se central para a ciência cognitiva e
foi explorada por diversos estudiosos dos filmes que trabalham num paradigma cognitivista[14]. Não é algo a que tenha
me dedicado pessoalmente, mas trata-se com certeza de um caminho de muita importância.

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Por fim, alguém poderia perguntar por que contrastar aqui a abordagem cognitiva de NiFF com a semiologia, que saía
de moda quando o livro foi escrito?

Todos sabemos que as abordagens dominantes que emergiam nos anos 1980 eram o Neomarxismo, a Psicanálise, os
Estudos Culturais e estudos da modernidade e pós-modernidade.

Eis minha resposta: essas perspectivas não têm nenhum papel em NiFF, ou neste ensaio, porque seus proponentes não
estavam interessados no processo de compreensão dos filmes.

Esses estudiosos focavam questões como a representação nos filmes de processos sociais, culturais e psicodinâmicos.
Tipicamente, suas perguntas eram respondidas por meio da interpretação de filmes individuais, procurando neles sinais
de processos mais amplos evidenciados pela teoria em tela[15].

Minha preocupação era explicar, e não teorizar. Eu buscava uma análise funcional e histórico-causal do porquê de certas
regularidades nas estratégias narrativas de várias tradições cinematográficas – e essa me parecia uma meta bastante
pertinente para a linha semiológica de análise.

Desde a publicação de NiFF, as análises cognitivas do cinema avançaram em paralelo à ciência cognitiva de modo geral.
Houve estudos neurológicos com espectadores de filmes, recorremos à psicologia evolutiva, vimos pesquisas sobre
padrões suprapessoais de percepção. [16] Todos esses caminhos me parecem fecundos.

Doravante, gostaria de esboçar algumas ideias que desenvolveria em uma nova e melhorada versão de NiFF. Elas se
embasam em nossa percepção das imagens, em psicologia intuitiva e inteligência social. Todas foram ao menos
parcialmente abordadas em trabalhos meus de anos recentes.

Cachorro!

Figura 6

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Usamos cotidianamente a expressão “ler uma imagem”. Mas será verdade que certas imagens – aquelas que o senso
comum declara como “realistas” – demandam de fato o mesmo tipo de decifração que a linguagem escrita? Quanto
dependemos de convenções aprendidas de representação para entender uma imagem?

Em NiFF, dei muitas voltas em torno do problema sem chegar a lugar algum. Ainda que aceitasse que certos aspectos da
percepção de imagens se embasassem em habilidades desenvolvidas na troca com o mundo, concedi alguma
importância ao aprendizado e familiaridade com um “mundo construído”.

Muito mais sutil é o incrível Visual Literacy: Image, Mind and Reality, livro de Paul Messaris de 1994[17]. Numa
revisão exemplar da literatura psicológica e antropológica, ele aponta que algumas convenções para a representação da
profundidade em imagens, por exemplo, podem não ser amplamente compreendidas.

O desenho acima (Figura 6) é um exemplo clássico, interpretado por membros de algumas culturas africanas como um
caçador apontando sua lança para um elefante bem pequeno[18]. Isso sugere que algumas marcas de profundidade
pictórica exijam contato e treinamento reiterados. No que tange, todavia, ao reconhecimento de objetos conhecidos na
experiência do dia a dia, não parece haver problema. Os observadores africanos reconheceram o pequeno elefante como
um elefante.

Com imagens em movimento, a questão é ainda mais clara. Messaris não encontrou qualquer evidência de dificuldade
para reconhecer pessoas, lugares e objetos na tela entre indivíduos sem contato anterior com filmes – o que se soma a
pesquisas mais recentes realizadas por Stephan Schwan e Sermin Ildirar, que estudaram a primeira experiência de
adultos ao assistirem a um filme[19].

Na realidade, os três pesquisadores apresentam evidências de que mesmo algumas técnicas de edição são imediatamente
compreendidas por espectadores novatos.

Em relação à ideia de “linguagem cinematográfica”, as conclusões de Messaris são claras:

“O que distingue as imagens (incluindo os filmes) da linguagem verbal e de outros modos de comunicação é o fato de
que as imagens reproduzem muitos dos sinalizadores usados pelas pessoas em sua percepção da realidade física e
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social. Nossa habilidade para interpretar o que uma imagem representa se embasa essencialmente nessa propriedade, e
não numa familiaridade com convenções arbitrárias – que realmente desempenham papel crucial na interpretação da
linguagem, da matemática, etc.”[20]

A revisão levada a cabo por Messaris sugere que a compreensão das imagens se baseia em nossa habilidade para
identificar objetos e arranjos espaciais no mundo. Uma curiosa pesquisa com crianças parece reforçar esse ponto de
vista.

Em um famoso experimento, Julian Hochberg e Virginia Brooks não expuseram seu filho a imagens durante seus
primeiros 18 meses de vida. O garoto teve inevitável contato com outdoors e alguns livros com imagens, além de
rótulos de produtos, mas sempre que se via diante de uma imagem, os pais nunca a explicavam ou tentavam nomeá-la.

Com 19 meses, quando começava a nomear espontaneamente os objetos que via em imagens acidentais, “era evidente
que algum tipo de resposta dos pais para esta identificação se tornaria logo incontornável”.

Numa série de testes, foram mostrados ao menino desenhos com contornos de objetos e imagens de bonecos, sapatos,
caminhões de brinquedo, chaves e outros itens familiares.

Hochberg e Brooks concluem:

“Os resultados parecem mostrar claramente que pelo menos uma criança humana é capaz de reconhecer
representações imagéticas de objetos sólidos (algumas incluindo apenas contornos) sem qualquer treinamento ou
instrução específicos. Essa habilidade inclui certo nível daquilo que normalmente esperaríamos em termos de
separação entre figura e fundo e formação de contornos. No mínimo, é preciso inferir que exista uma propensão
natural a responder a certos traços formais de linhas sobre papel da mesma maneira que aprendemos a responder a
esses mesmos traços quando aparecem nos contornos das superfícies (…)

A completa ausência de instrução no presente caso (…) aponta para um mínimo irredutível de habilidade inata para o
reconhecimento imagético. Se for verdade que existem culturas onde tal capacidade inexiste, essa deficiência exigiria
algum tipo especial de explicação. Não se pode afirmar tratar-se simplesmente de falta de aprendizado da ‘linguagem
das imagens’.”[21]

Hochberg e Brooks utilizaram apenas fotografias. Ainda assim, certa vez seu filho vislumbrou um cavalo na TV e
gritou: “Cachorro!”.

E o que dizer das imagens em movimento?

Durante anos, com resultados ambíguos, psicólogos testaram a capacidade de bebês para reconhecerem expressões
faciais em fotografias e filmes.[22] Sua atenção pode ser capturada por estímulos externos desde muito cedo. As
crianças começam a controlar seu foco e concentração no segundo mês de vida. Aos sete meses, respondem com
precisão diante de fotografias ou imagens em movimento. É possível, entretanto, que o reconhecimento comece bem
mais cedo.

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Num engenhoso experimento, Lynne Murray e Colwyn Trevarthen instalaram câmeras de TV para que bebês de apenas
nove semanas e suas mães, separados em salas diferentes, se vissem através de monitores. O objetivo dos pesquisadores
era gravar as interações entre os dois e também experimentar diferentes tempos de respostas por meio de pausas e
replays.[23]

As conclusões de Murray e Trevarthen em relação à capacidade dos bebês para sincronizarem suas respostas com as
expressões maternas geraram debate considerável e novos experimentos[24].

Isso não é o que importa para nós, pesquisadores do cinema, entretanto. Relevante é o fato de que os bebês, em ambos
os casos, evidentemente reconheceram, tanto em tempo real, quanto fora de sincronia, as imagens em movimento das
mães.

O que, para Murray e Trevarthen, era um aspecto metodológico, para nós se torna evidência substantiva. Bebês
relativamente pequenos compreenderam as imagens em vídeo, ao menos até certo ponto, como representação da pessoa
mais familiar em suas vidas. Se realmente é preciso que bebês aprendam a reconhecer imagens, isso se dá de maneira
muito rápida.

Na verdade, parece mais adequado falar em “ativação” do que em aprendizado. Em circunstâncias normais de
desenvolvimento humano, basta a exposição a pessoas reais, lugares e objetos. O reconhecimento desses mesmos
elementos num monitor de imagens em movimento vem de brinde, uma hipótese coerente com a teoria da evolução,
como eu e outros autores já argumentamos em outros lugares.[25]

Psicologia Intuitiva: casos de sucesso

Figura 7: O Relógio Verde (1948)

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Há ainda muito mais a ser dito e estudado sobre a compreensão de imagens em movimento como representações de
objetos do mundo real, especialmente a respeito das pessoas. Agora, entretanto, quero voltar a determinadas questões da
narrativa que acabei por repensar desde a publicação de NiFF.

O reconhecimento dos conteúdos de imagens realistas, sugeri, depende bastante de nossas habilidades perceptivas
cotidianas. De maneira similar, as narrativas cinematográficas fazem uso de disposições e hábitos cognitivos
desenvolvidos no contexto do mundo real.

Isso não quer dizer que os filmes captem a realidade de uma maneira direta. Conforme veremos, há nessa questão
muitas chicanas e debilidades. Aqui, trata-se apenas de dizer que o trabalho dos cineastas se ancora na percepção
ordinária e na cognição. Sobre essa fundação, edifícios variados e mesmo fantásticos podem ser erguidos.

Suspeito que para a psicologia da narrativa seja central essa coisa enganosa chamada “psicologia intuitiva”, que invoca
o senso comum – o nosso hábito cotidiano de atribuir qualidades, crenças, desejos, intenções e questões semelhantes a
nós mesmos e às pessoas à nossa volta. Há considerável evidência de que muitos dos procedimentos essenciais do
raciocínio de senso comum sejam universais transculturais. [26]

Consideremos a nossa percepção de outras pessoas. Tendemos a formar conclusões de maneira rápida sobre aqueles à
nossa volta. Em um olhar, avaliamos a idade, o gênero, a raça e atributos pessoais (sandálias Birkenstock dizem uma
coisa, joias exuberantes, outra).

Com base em expressões faciais, gestos e voz, julgamos estados emocionais. Esse hábito evidentemente se transfere
para as histórias que mostram pessoas, ou ao menos criaturas que se assemelham a pessoas, como o Patolino, por
exemplo.

Para acompanhar uma história, é preciso designar certas qualidades aos personagens. Quando nos apresenta um
personagem, uma narrativa fílmica simplesmente utiliza nossas habilidades cotidianas, de forma a construir impressões
rápidas, mesmo que – ou sobretudo se – lançando mão de estereótipos.
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Essas impressões podem ser confirmadas, testadas ou abandonadas à medida que a história se desdobra, mas nossos
hábitos velozes e injustos de percepção interpessoal fornecem um ponto de partida.

Também obtemos prazer da leitura mental. Atribuímos crenças, desejos e intenções a nós mesmos e a outros.

Se quero um hambúrguer, paro em uma lanchonete e como um. Respondemos a nossos desejos com base em crenças a
respeito do mundo, sobretudo, neste caso específico, a crença de que posso comer um hambúrguer naquele local.

Tudo isso talvez ocorra sem um raciocínio explícito, mas em retrospecto é sempre possível criar uma pequena narrativa
dotada de coerência causal. Dessa mesma forma, interpretamos as ações dos outros.

Se um amigo me diz que quer um hambúrguer e o vejo caminhar em direção à lanchonete, infiro que ele esteja agindo
com base em suas crenças e desejos. Essa inferência pode evidentemente ser desmentida. Eu poderia descobrir mais
tarde que ele na verdade fora comprar um milk-shake ou paquerar a garçonete. Mesmo a reavaliação da inferência,
entretanto, demanda o mesmo procedimento (“Arrá! Ele na verdade queria um milk-shake ou então sair com a
garçonete!”).

Todas as histórias nos exigem a aplicação daquilo a que Daniel Dennett chama de “posição intencional” ou o que muitos
apenas conhecem como senso comum[27].

No começo de O Relógio Verde (1948), vemos George Stroud se esgueirando por um corredor enquanto tenta não ser
visto por um guarda. Ele se esconde atrás de um pilar e deixa que o sujeito passe antes de ouvirmos sua voz over: “Ufa!
Essa foi por pouco.” Ele segue pelo corredor olhando nervosamente para trás enquanto a narração continua: “E se eu
entrar no relógio e o vigia estiver lá?”.

Da aparência despenteada e movimentos furtivos de George, e também dos comentários que reproduzem seu fluxo de
consciência, não é difícil inferir o que ele pensa (que está sendo perseguido) e seu desejo (esconder-se). Passaremos, em
acordo com isso, a julgar suas ações futuras como causadas por sua intenção de evitar ser pego à medida que seus
planos e história pretérita nos são detalhados em maior profundidade.

A centralidade dos objetivos dos personagens no cinema clássico – algo a que Kristin Thompson e eu temos dado
importância neste site e em nosso trabalho de pesquisa – combina com a tendência de nossa psicologia intuitiva de
entender as ações como resultados de desejos calcados em crenças dos personagens.

As teias de intenções podem se tornar bastante complexas – pense em todas as crenças e desejos em jogo em O
Poderoso Chefão, por exemplo. Não obstante, somos experts em deslindá-las porque intuitivamente esperamos que as
situações sociais revelem aquilo que as pessoas buscam.

Para voltar aos bebês, parece que eles também conseguem desde cedo fazer leituras mentais. Crianças de um ano de
idade atribuem intenções a geringonças robóticas que emitem bipes e se movem como se tivessem objetivos.[28]

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Há gigantescos debates filosóficos em torno desse componente crença-desejo da psicologia intuitiva[29]. Ele realmente
explica algo ou seria apenas uma ideia vazia?

Não precisamos, entretanto, nos preocupar com sua veracidade. O que importa é que os cineastas recorrem a ele e os
espectadores seguem suas pistas. Os contadores de histórias são psicólogos práticos, usando (geralmente no bom
sentido) nossos hábitos mentais para produzir experiências.

Não obstante, há também maneiras importantes pelas quais a psicologia intuitiva nos desnorteia. E os filmes também as
exploram.

O lado negativo da Psicologia Intuitiva

Figura 8: Êxtase de Amor (1947)

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Em “Tudo é Óbvio* (*Desde que Você Saiba a Resposta)”[30], Duncan J. Watts aponta como um dos problemas na
psicologia clássica baseada no binômio crença-desejo sua concepção voltada a explicar o comportamento individual em
circunstâncias concretas. Quando nos movemos para escalas maiores, essa abordagem não serve para explicar grandes
tendências.

Um evento de proporção, como a recente recessão ou a diminuição da violência no Iraque, pode ser atribuído, de forma
ligeira, a decisões tomadas por Bush ou Obama ou ao General Petraeus. Mas, na verdade, as causas de macroeventos
como esses são quase certamente complexas, múltiplas e invisíveis. Tendemos, nesse sentido, a aplicar hábitos de
percepção interpessoal a eventos que ocorrem numa escala muito além da do comportamento individual.

O livro de Watts é uma contribuição à “Errologia”, o estudo da tendência a superestimarmos nossas capacidades,
incorrermos em erros lógicos simplórios e a agirmos de forma inconsistente.

Essa área de pesquisa se enraíza nos estudos de heurística e tendências levados a cabo por Daniel Kahneman e Amos
Tversky[31]. A racionalidade, conforme postulada por filósofos e economistas, parece ser um dom raro.

Vejamos um exemplo hoje clássico:

“Linda tem 31 anos, é solteira, extrovertida e muito brilhante. Ela se formou em filosofia. Durante sua graduação,
Linda se preocupava bastante com questões como discriminação racial e justiça social, participando também de
protestos antinucleares.”

Então, o que é mais provável?

1. a) Linda trabalha como caixa em um banco.;

1. b) Linda trabalha como caixa em um banco e é feminista.

A maioria das pessoas aponta a opção B como mais provável, mas está errada. O acréscimo de uma segunda condição à
primeira torna a segunda afirmação menos provável. Se as pessoas raciocinassem com base em lógica formal,
reconheceriam isso como uma falácia da conjunção, isto é, a suposição de que condições específicas são mais prováveis
que uma única condição geral.

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Da mesma forma, o agente racional tão amado pelos economistas revela-se, no fim das contas, movido não apenas pelo
ganho, conforme demonstra o Jogo do Ultimato.

Verônica tem 100 dólares e Betty não tem nada. Segundo as regras, Verônica deve oferecer a Betty uma parte do
dinheiro. Se Betty recusar a oferta, nenhuma das duas recebe nada.

Ora, se Verônica é um agente racional, deve oferecer a Betty o mínimo possível, de forma a maximizar seu próprio
ganho. E Betty, que começou sem nada, deve aceitar mesmo a mesquinha oferta de apenas um dólar, já que a deixa em
situação melhor do que antes.

Não obstante, em experimentos feitos no mundo inteiro, os jogadores na posição de Verônica tendem a oferecer uma
divisão equânime de 50-50. De forma ainda mais surpreendente, os que jogam na posição de Betty tendem a rejeitar
ofertas menores que 30 dólares, deixando ambos os jogadores sem nada.

Evidentemente, o jogo traz a baila crenças sociais em relação àquilo que é justo, assim como leituras mentais da parte
de Verônica (“Se eu oferecer pouco, ela pode querer se vingar e eu fico sem nada”).

Fatores como esses levam o comportamento dos jogadores a se distanciarem de uma estrita racionalidade econômica.
Os economistas e psicólogos que reconhecem essas pressões “previsivelmente irracionais” criaram uma disciplina
chamada “Economia Comportamental”.

Portanto, a psicologia intuitiva tem suas próprias distorções. As pessoas acreditam que Lisa é uma caixa de banco e
feminista porque seu perfil se encaixa no estereótipo de uma feminista. Esse tipo de raciocínio é por vezes chamado de
“heurística de disponibilidade”, nossa tendência a aplicar o exemplo mais à mão a uma dada situação. Há também, nesse
caso, um “viés confirmatório”, o hábito de buscar apenas evidências que confirmam as ideias em direção às quais já nos
inclinamos.

Se já decidi que quero um iPad, tenderei a desconsiderar todos os comentários críticos que encontrar sobre o aparelho.
Se acredito em astrologia, estarei inclinado a me lembrar somente de todas as vezes em que meu horóscopo pareceu
predizer o que aconteceu e a desconsiderar a quantidade muito mais numerosa de vezes em que tenha falhado.

Watts também aponta a natureza reconstrutiva da memória como mais uma causa de distorções. Tendemos a reorganizar
nossas lembranças do que ocorreu à luz das circunstâncias presentes.

Uma das minhas distorções favoritas, nesse sentido, é o “efeito de primazia”, já discutido em outro texto no meu blog.
Em termos lógicos, a ordem em que elementos nos são apresentados em uma lista não deveria afetar o que pensamos
deles. A realidade, entretanto, demonstra o contrário.

Tomemos as três filhas do magnata do cinema honconguês Leonard Ho. Qual dos três nomes não combina com os
outros dois?

Maisy, Daisy e Pansy.

É
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É evidentemente Pansy quem está fora de compasso, pois seu nome não rima com os das irmãs.

Vejamos, não obstante, os nomes em ordem inversa:

Pansy, Daisy, Maisy.

Quem destoa agora é Maisy, cujo nome não corresponde a uma flor na língua inglesa.

O primeiro item de uma lista tende a servir como referência para a avaliação dos que se seguem. Sempre me chateou
que um escritor tão brilhante quanto Donald Westlake seja relegado às prateleiras mais baixas das livrarias, enquanto
mercenários como Jeffrey Archer se beneficiam do efeito de primazia.

As narrativas manipulam de forma reiterada nossas tendências psicológicas. Por isso, assim que nos decidimos que
George Stroud se encontra realmente fugindo de alguém em O Relógio Verde, tudo o que ele faz tende a confirmar essa
crença.

Os cineastas exploram esse viés confirmatório. Da mesma forma, o desenho do syuzhet faz uso do efeito de primazia. O
filme começa em meio a uma crise, com George fugindo dos capangas de seu chefe. Em seguida, a narrativa faz um
flashback até o início da ação, quando ele tenta escapar ao presunçoso controle de seu patrão tirando férias havia muito
prometidas à família.

O prólogo nos deixa atentos a qualquer coisa que possa colocar Stroud em perigo, e rapidamente imaginamos que ele
acabe não saindo de férias. Se o filme começasse com os eventos mais prosaicos do início da fabula, não esperaríamos
pelo mergulho de Stroud em uma situação tão crítica. O prólogo, ademais, sinaliza também a importância do relógio
como uma força sinistra e do tempo como um tema recorrente no filme.

Alternativamente, as narrativas podem perturbar nossas inclinações, como quando nos forçam a reavaliar nossas
impressões iniciais de um personagem.

Somos obrigados a tanto, por exemplo, com Danny Ciello, nos momentos finais de O Príncipe da Cidade (1981). O
filme usa o efeito de primazia e a heurística de disponibilidade para retratar o tira católico fustigado pela culpa que
decide se endireitar.

O viés confirmatório nos mantém simpáticos a ele o filme inteiro. Tudo parece evidência de que Danny seria somente
uma vítima honrada. No final, entretanto, surge uma questão: poderia Danny ser mais corrupto do que antecipáramos?

Meier Sternberg descreve esse processo como “a ascensão e queda das impressões iniciais”, algo dependente não raro
do poder do efeito de primazia.[32] No limite, um filme narrativo pode tentar evitar a formação clara de primeiras
impressões, algo que ocorre em “filmes de arte” como em Na Cidade de Sylvia (2007).[33]

Por vezes, um aspecto da psicologia intuitiva pode socorrer outro. Watts aponta, por exemplo, que o Jogo do Ultimato
não apresenta as mesmas respostas em todas as sociedades.
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Em experimentos com a tribo Machiguenga, do Peru, o jogador que detinha o dinheiro tendia a oferecer apenas cerca de
um quarto do total, e quase todas as propostas eram aceitas – isto é, as partes foram “mais racionais” segundo o padrão
dos economistas. Mas é aqui que entra a psicologia calcada no binômio crença-desejo.

Na sociedade Machiguenga, os laços primários se dão com a família imediata. Outros membros da comunidade têm,
dessa forma, um status inferior. Por isso, o jogador com dinheiro não se sentia obrigado a uma divisão justa, e o que
recebia se sentia feliz com qualquer quantia. Quando entendemos isso, a estratégia Machiguenga ganha sentido.

Algo similar ocorre nos filmes de fantasia e ficção científica. Quando entendemos as regras e etiqueta singulares da
Escola de Hogwarts ou da Matrix, padrões familiares de crença-desejo-intenção assumem seu lugar.

A psicologia intuitiva nos leva além do nível puramente perceptivo com que comecei, fazendo-nos adentrar o terreno da
inteligência social. A leitura mental exige que detectemos, por vezes com base em pistas muito sutis, o que o
comportamento de outros indivíduos expressa ou sinaliza. Em outros textos, discuti essa questão em casos relacionados
ao comportamento dos olhos – piscadas e sobrancelhas, especificamente.

Há muito mais, entretanto, a se discutir em relação às formas pelas quais o cinema mobiliza nossa inteligência social
para o entendimento das narrativas.

Por vezes, a narrativa facilita nossas vidas, expressando-se de forma redundante e clara. Em outras, o filme nos devolve
problemas, dificultando o entendimento das intenções e reações dos personagens, como com o enigmático veterano de
guerra de Henry Fonda em Êxtase de Amor (1947).

O conceito de inteligência social me parece bastante útil para explicar um tipo de narrativa fílmica que se tornou
proeminente desde os anos 1990 a que chamo de “narrativa de rede”.

Esses contos sobre “graus de separação” fazem uso de nossa habilidade socialmente cultivada para estabelecer conexões
entre indivíduos com base na proximidade, no parentesco ou no fato de se conhecerem, aproveitando-se também da
tensão criada pelo grau de consciência do espectador a respeito disso[34] – algo que poderia igualmente ser chamado de
“efeito novela”.

Esses filmes, não obstante, quase sempre simplificam a vasta complexidade das redes sociais do mundo real. As redes
em filmes como Simplesmente Amor (2003) e A Terra do Sol (2002) tendem a ser simples e expostas com redundância.
Filmes narrados de maneira mais elíptica, como The Terrorizers (1986), de Edward Yang, ou Forest (2003), de Benedek
Fliegauf, podem exigir um discernimento mais agudo e um reordenamento posterior das conexões entre os personagens.

Há outro aspecto da psicologia intuitiva, essencial à narrativa, mas negligenciado em NiFF, que merece mais estudos: a
resposta emocional. Em especial, alguns psicólogos apontam para o caráter contagioso das emoções. Bebês sorriem
possivelmente como parte de uma estratégia evolutiva para despertar em nós o desejo de cuidar deles (mesmo recém-
nascidos cegos sorriem, provando que não se trata de um aprendizado com base na observação).

Alguns pesquisadores sugerem que nossa capacidade de empatia depende de células “espelho” em fina sintonia para
responder a movimentos e emoções de outras pessoas e permitir até mesmo um certo grau de imitação[35].

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Os neurônios-espelho de certos macacos disparam não apenas quando veem um colega pegando uma caneca, mas
também quando assistem à mesma ação em um filme (mais uma evidência de que as imagens não demandam o
aprendizado específico de um código).

1. S. Ramachandran sugere que os neurônios-espelho podem explicar o fato de um recém-nascido também colocar a
língua para fora se sua mãe faz o mesmo, uma possível resposta inata[36].

Se essas suposições sobre neurônios-espelho em humanos se revelarem corretas, podemos chegar à conclusão de que o
cinema, com sua capacidade para capturar gestos e as sutilezas das expressões faciais, é um meio ideal para detonar
reações involuntárias (cinestésicas, emocionais) que, por sua vez, podem ser aproveitadas para fins narrativos.

Fontes incomuns de senso comum

Pode ser dito que essa linha genérica de raciocínio leva a observações relativamente superficiais. Afinal, que espectador
não percebe que George Stroud está tentando fugir dos guardas em O Relógio Verde?

Em contraposição, acho que quando passamos de momentos específicos para a avaliação da construção de padrões em
diferentes escalas, começamos a perceber que nem tudo é tão óbvio. Era essa a tarefa básica de NiFF.

Concedo, entretanto, que nosso ponto de partida possa parecer bastante trivial. Em realidade, NiFF e outros de meus
escritos já foram acusados do pecado de postularem uma “teoria cinematográfica do senso comum”.

Não deixa de ser verdade. As humanidades têm, de modo geral, por seu lado, pecado na busca de explicações
rebuscadas para o funcionamento da arte, da literatura e da música. Sobretudo nas análises literárias, interpretações
inventivas – com frequência embasadas em livre associação, jogos verbais e pontos de discussão pinçados de
pensadores favoritos – recebem mais atenção que explicações mais plausíveis.

Em vários lugares, já defendi explicações empíricas e naturalistas como a melhor opção para dar resposta a problemas
de média escala e mesmo a questões maiores, inclusive a de como compreendemos um filme.

Nem sempre nossas respostas precisam ser contraintuitivas. Dizer que a observação de imagens mobiliza nossas
habilidades de observação do mundo pode não surpreender muita gente, mas é quase certamente verdadeiro.

Provavelmente contraintuitivas são as descobertas dos mecanismos que embasam a percepção. Ou o senso comum
prediria que forma, cor, movimento e localização espacial de um objeto são analisados por vias distintas dentro do
sistema visual? Eu pessoalmente considero essa ideia mais excitante que qualquer trocadilho pós-moderno ou jogos de
palavras.[37]

Mais importante, podemos abraçar o senso comum em um metanível. Reconhecer que ele é uma peça importante da
compreensão narrativa torna-o também um objeto a ser analisado.

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Podemos compreender melhor o entendimento dos filmes se reconhecermos aquilo que é intuitivamente óbvio, para
então perguntarmos o que, nos filmes e em nossa constituição psicológica e social, torna algo óbvio – e esses fatores
podem não ser óbvios em si mesmos.

Em outras palavras, precisamos entender melhor o funcionamento do senso comum, e de como os filmes se beneficiam
dele e jogam com ele. Esse entendimento pode, por fim, forçar-nos a aceitar a experimentação empírica, o pensamento
evolutivo e a pesquisa neurológica – abordagens que a maioria dos pesquisadores nas humanidades vê com
preocupação.

Com tanta preocupação, na verdade, que muitos não reconhecem explicações naturalísticas como teóricas em nenhum
sentido. Para eles, as únicas teorias válidas são Grandes Teorias. Esforços como o que acabo de sugerir são condenados
simplesmente por expressarem desdém ou suspeita da teorização. Tal objeção, entretanto, débil desde sempre, já foi
posta de lado em 1996, nas frases iniciais que Noël Carroll e eu escrevemos para nosso Post-Theory: Reconstructing
Film Studies:[38]

“Nosso título pode levar a conclusões erradas. Este livro fala do fim da teoria no cinema? Não. Ele é sobre o fim da
Teoria, e o que pode e deve vir depois disso.[39]

Essa introdução e muitos dos textos incluídos no livro ventilam argumentos em favor de uma visão da teorização como
uma atividade que apresenta questões suscetíveis de serem pesquisadas e constrói respostas mais ou menos plausíveis –
algumas de senso comum, outras não, e algumas que analisam isso a que chamamos de senso comum.

De forma irônica, da mesma forma que a interpretação de filmes pode ser passível de análise de um ponto de vista
cognitivo, uma surpreendente porção da Grande Teoria parece se embasar nos tipos de esquema e atalhos de psicologia
intuitiva que encontramos no cotidiano. Mas esse é um ensaio completamente diferente.

***

[1] A análise mais influente e ainda bastante elucidativa desse código é “A Grande Sintagmática do Filme Narrativo”,
de Christian Metz [publicado no Brasil pela Editora Vozes em Roland BARTHES (2009), Análise Estrutural da
Narrativa]. As considerações mais gerais de Metz sobre os códigos cinemáticos podem ser encontradas em
“Linguagem e Cinema”, publicado no Brasil pela Editora Perspectiva.

[2] Thomas LUCKMAN e Peter BERGER. “A Construção Social da Realidade”. Publicado originalmente em 1967;
editado no Brasil pela Vozes.

[3] Sobre essa pérola do folclore das humanidades, ver “The Great Eskimo Vocabulary Hoax and Other Irreverent
Essays on the Study of Language”, de Geoffrey Pullum (Chicago University Press, 1991).

[4] Em tradução livre, “A Narração no Filme de Ficção”, livro seminal de Bordwell publicado em 1985 e que
permanece inédito no Brasil.

[5] Ver Howard GARDNER, “A Nova Ciência da Mente: Uma História da Revolução Cognitiva”, publicado no Brasil
pela Edusp.
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[6] A expressão (“informationally encapsulated”, no original) aparece em “The Modularity of Mind”, livro seminal de
Jerry Fodor, lançado em 1983 (não publicado no Brasil).

[7] Essa frase se tornou uma espécie de slogan para a escola de psicologia do “Novo Olhar”. Ver Jerome BRUNER,
“Beyond the Information Given: Studies in the Psychology on Knowing” (não publicado no Brasil).

[8] J. J. GIBSON, Perception of the Visual World, artigo publicado originalmente em 1950.

[9] Sobre a Sala de Ames, ver William H. ITTELSON, “The Ames Demonstrations in Perception, together with an
interpretive manual by Albert Ames, Jr.”. Aqui, podem ser vistos vários vídeos que empregam os princípios da Sala de
Ames. De maneira interessante, vários dos comentadores em off nesses vídeos supõem que conhecimento prévio,
expectativas e outros fatores cognitivos influenciam a percepção, indicando que a psicologia do “Novo Olhar” segue
sendo um paradigma dominante para pesquisadores da percepção.

[10] Os argumentos de Gibson em relação aos filmes encontram-se em “The Ecological Approach to Visual
Perception”. Ver também Joseph D. ANDERSON, em “The Reality of Illusion: An Ecological Approach to Cognitive
Film Theory”, e os artigos compilados em “Moving Image Theory: Ecological Considerations”, editado por Joseph D.
Anderson e Barbara Fisher Anderson. Estivesse eu mais atento, também deveria ter considerado os argumentos de “A
Psychology of Picture Perception”, de John M. Kennedy.

[11] Julian HOCHBERG e Virginia BROOKS, “Movies in the Mind’s Eye”, em In the Mind’s Eye: Julian Hochberg on
the Perception of Pictures, Films, and the World, editado por Mary A. Peterson, Barbara Gillam, e H. A. Sedgwick.

[12] Ver o ensaio “Cognition and Comprehension: Viewing and Forgetting in Mildred Pierce,” parte do meu livro
“Poetics of Cinema”.

[13] Ver meu livro “The Way Hollywood Tells It: Story and Style in Modern Movies”.

[14]Exemplos importantes incluem “Emotion and the Structure of Narrative Film: Film as an Emotion Machine”, de Ed
Tan; “Moving Pictures: A New Theory of Genres, Feelings, and Cognition”, de Torben Grodal; “Passionate Views:
Film, Cognition, and Emotion”, editado por Carl Plantinga e Greg M. Smith; “Film Structure and the Emotion System”,
do mesmo Greg M. Smith; e “Moving Viewers: American Film and the Spectator’s Experience”, também de Carl
Plantinga.

[15] Em outro livro, tentei demonstrar como interpretações guiadas por teorias, assim como interpretações que não o
eram, poderiam ser objeto de análise retórica e cognitiva. Ver “Making Meaning: Inference and Rethoric in the
Interpretation of Cinema”.

[16] Para uma discussão mais detalhada dessas tendências, ver este texto no meu blog.

[17]N.T.: Em tradução livre: “Alfabetização Visual: Imagem, Mente, Realidade”; Paul Messaris é professor e
pesquisador de cinema na Universidade da Pensilvânia: https://cinemastudies.sas.upenn.edu/people/PaulMessaris.
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[18] Ver William HUDSON, “Pictorial Depth Perception in Subcultural Groups in Africa”, emJournal of Social
Psychology 52 (1960), 183-208, e “The Study of the Problem of Pictorial Perception among Unacculturated Groups”,
emJournal of Psychology 2 (1967), 89-107.

[19] Ver Stephan Schwan e Sermin Ildirar, “Watching Film for the First Time: How Adult Viewers Interpret Perceptual
Discontinuities,” Psychological Science 21 (2010): 970–976. Acesso online: http://pss.sagepub.com/content/21/7/970.

[20] Ver Paul Messaris, “Visual Literacy: Image, Mind, and Reality” (Boulder: Westview, 1994), 165.

[21] Julian Hochberg e Virginia Brooks, “Pictorial Recognition as an Unlearned Activity: A Study of One Child’s
Performance,” em In the Mind’s Eye, 64.

[22] Para uma revisão dos primeiros experimentos, ver Charles A. Nelson, “The Perception and Recognition of Facial
Expressions in Infancy,” em “Social Perception in Infants”, editado por Tiffany M. Field e Nathan A. Fox (Norwood,
NJ: Ablex, 1985), 101–125. Experimentos mais recentes sobre cognição em crianças são confrontados com teorias
“populares” da mente, física e campos correlatos no livro de Steven Pinker, “Como a Mente Funciona”, publicado no
Brasil pela Companhia das Letras.

[23] Lynne Murray e Colwyn Trevarthen, “Emotional Regulation of Interactions between Two-month-olds and Their
Mothers”, em Social Perception in Infants, 177–197. Ellen Dissayanake propôs uma teoria fascinante sobre a origem da
arte com base em interações mãe-criança; ver “Art and Intimacy: How the Arts Began”.

[24] Ver, por exemplo, Phillipe Rochat, Ulric Neisser e Viorica Marlan, “Are Young Infants Sensitive to Interpersonal
Contingency?”, em Infant Behavior and Development 21, 2 (1998): 355–366.

[25] Ver Anderson, “Reality of Illusion”, capítulos 3–5; ver também meu ensaio “Convention, Construction, and
Cinematic Vision,” em Poetics of Cinema, 57–82.

[26] Para um resumo, ver Donald E. Brown, “Human Universals” (Philadelphia: Temple University Press, 1991), 130–
140.

[27]Daniel C. Dennett, “The Intentional Stance”.

[28] Alison Gopnik, “The Philosophical Baby: What Children’s Minds Tell Us about Truth, Love, and the Meaning of
Life” (New York: Farrar, Straus and Giroux, 2009), 98.

[29] Para um gostinho de alguns desses debates, ver Barry Loewer e Georges Rey, eds., “Meaning in Mind: Fodor and
His Critics” (Cambridge: Blackwell, 1991), sobretudo o texto de Daniel C. Dennett, “Granny’s Campaign for Safe
Science,” 87–94 e a resposta de Fodor: “The enormous practical success of belief/desire psychology makes a prima
facie case for its approximate truth” (277). Em tempo, é preciso deixar claro que uso o termo “intenções” neste texto em
um sentido não técnico, e não em sua conotação filosófica como nas referências de Fodor a “estados intencionais”.

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[30] N.T.: Publicado no Brasil pela Editora Paz e Terra.

[31] Ver Daniel Kahneman, Paul Slovic e Amos Tversky, eds., “Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases”
(Cambridge: Cambridge University Press, 1982).

[32] Meir Sternberg, “Expositional Modes and Temporal Ordering in Fiction” (Bloomington: Indiana University Press,
1978), 99–102. De forma mais geral, boa parte de “Narration in the Fiction Film”, incluindo sua abordagem da
curiosidade, do suspense e da surpresa, deve muito ao livro de Sternberg, um trabalho pioneiro da moderna narratologia.

[33] Discuto um pouco aqui as táticas de narração de Príncipe da Cidade e, de forma um pouco mais extensa, aqui, uma
sequência crucial de Na Cidade de Sylvia.

[34]“Mutual Friends and Chronologies of Chance,” em Poetics of Cinema, 189–250.

[35]Ver Giacomo Rizzolatti e Corrado Sinigaglia, “Mirrors in the Brain—How Our Minds Share Actions and
Emotions”.

[36]V. S. Ramachandran, “The Tell-Tale Brain: A Neuroscientist’s Quest for What Makes Us Human”.

[37]Ver Margaret Livingston e David Hubel, “Segregation of Form, Color, Movement, and Depth: Anatomy,
Physiology, and Perception,” em Science 240 n. 4853 (06/05/1988): 740–749. Disponível em
http://www.sciencemag.org/content/240/4853/740.abstract.

[38] Em tradução livre: “Pós-Teoria: Reconstruindo os Estudos de Cinema”, não publicado no Brasil.

[39]“Introduction,” em Post-Theory: Reconstructing Film Studies, editado por David Bordwell e Noël Carroll
(Madison: University of Wisconsin Press, 1996), xiii. De forma mais geral, quase tudo o que aponto nesse ensaio online
já foi dito de maneira mais clara no artigo pioneiro de Carroll, de 1985, “The Power of Movies.” Ver CARROLL,
“Theorizing the Moving Image” (Cambridge: Cambridge University Press, 1996), 78–93.

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13/05/2019 Revista Janela

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