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DIA INTERNACIONAL DA MULHER: O QUE SE “COMEMORA”?

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Leonellea Pereira2

Todos os anos, o dia 08 de março é explorado pelo comércio como uma data para vender
eletrodomésticos, flores, chocolates e outros presentes ditos “femininos”; “parabenizar” a mulher e tocar à
exaustão a música clichê Mulher, sexo frágil, de Erasmo Carlos. Mas você conhece o real sentido desta data?
Não se estuda na escola que as mulheres tiveram participação significativa na Revolução Francesa de
1789, reivindicando, dentre outras pautas, a participação feminina nos espaços de poder e decisão, o acesso à
escola e ao trabalho. Neste contexto, não se pode esquecer a escritora Marie Gouze, mais conhecida como
Olympe de Gouges, que em 1791 lançou a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, contrapondo a
recém lançada Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que não incluía a mulher como sujeito de
direitos. Este livro causou imensa polêmica na França e levou a autora a ser condenada à guilhotina em 1793.
Mais à frente, com as transformações sociais em torno da Revolução Industrial, outras reivindicações
foram agregadas à pauta desta luta. As mulheres foram incluídas no mercado de trabalho, mas em vez de
terem condições semelhantes às dos homens, tinham cargas horárias exaustivas, recebiam salários menores,
além das condições insalubres a que eram expostas, da violência e do assédio sexual por parte de operários e
patrões. Sem contar que permaneciam com toda a responsabilidade sobre o trabalho doméstico e de cuidados
com a família, como ocorre com grande parte das trabalhadoras em todo o mundo até hoje.
Reproduz-se há mais de um século a história que em 08 de março de 1857 ocorreu a primeira greve
estadunidense conduzida exclusivamente por mulheres que lutavam por melhores condições de trabalho.
Conta-se que as 129 tecelãs que participavam da manifestação foram violentamente refreadas pela polícia.
Refugiando-se, as operárias abrigaram-se na própria fábrica, que foi trancada e incendiada. Sem qualquer
chance de se livrarem das chamas, morreram asfixiadas e carbonizadas.
O que vem sendo constatado em diversas pesquisas é que a dirigente socialista Clara Zetkin propôs a
data na II Conferência Internacional de Mulheres, ocorrida em 1910 na Dinamarca, em homenagem às tecelãs.
A partir daí o 8 de março passou a ser celebrado em todo o mundo como um dia para a reflexão sobre a luta
das mulheres por melhores condições de vida e trabalho. A data só foi oficializada pela Organização das
Nações Unidas – ONU em 1975, mas já era legitimamente celebrada pelo movimento de mulheres no mundo
inteiro.
A história do incêndio de 1857 teve origens, provavelmente, em pelo menos três fatos, dois deles
ocorridos em Nova York. O primeiro foi uma longa greve de costureiras que durou de 22 de novembro de

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Texto publicado na Revista Meio – Edição nº 12, fev-mar/2015, Irecê – BA.
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Mestranda em Estudos Interdisciplinares sobre Gênero, Mulheres e Feminismos - PPGNEIM/UFBA. Especialista em
Ciências Penais pela Universidade Anhanguera-UNIDERP/Rede LFG. Especialista em Políticas Públicas em Gênero e
Raça da Universidade Federal da Bahia - UFBA. Graduada em Direito pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB.
Advogada (OAB/BA). Vice-Presidente da OAB - Subseção Irecê - Seccional Bahia. Advogada e Mediadora Judicial do
CEJUSC/FAI em Irecê. Professora da Faculdade Irecê – FAI. Contato: leonellea@hotmail.com
1909 a 15 de fevereiro de 1910. No segundo, em 25 de março de 1911, durante um incêndio, causado pela
falta de segurança nas péssimas instalações de uma fábrica têxtil, foram registradas as mortes de 146 pessoas,
sendo 125 mulheres. As portas da fábrica estavam fechadas para que as operárias não se dispersassem na hora
do almoço. Esse incêndio foi, evidentemente, descrito pelos jornais socialistas, numerosos nos EUA naqueles
anos, como um crime cometido pelos patrões, pelo capitalismo. E no terceiro, em 8 de março 1917,
considerada por alguns historiadores como uma greve espontânea, trabalhadoras do setor de tecelagem na
Rússia paralisaram suas atividades e pediram apoio aos metalúrgicos.
Mais à frente, no início do século XX, mulheres de vários países se organizaram em torno da
reivindicação por sua participação política, no chamado Movimento Sufragista. Em 1928, no estado do Rio
Grande do Norte já era permitido o voto feminino, mas apenas em 1932 foi conquistado o direito ao voto para
as mulheres em todo o Brasil. Mas havia restrições: a obrigatoriedade alcançava apenas as mulheres
assalariadas, e, aquelas que fossem casadas, necessitavam da autorização do marido. Infelizmente, a
participação política das mulheres ainda é extremamente reduzida, visto que mesmo representando 52,13% do
eleitorado do país, ainda ocupam poucos espaços de poder e decisão.
No Brasil, a luta das mulheres conseguiu mais espaço institucional com a criação da Secretaria
Especial de Políticas para Mulheres da Presidência da República, com status de Ministério, como também das
Secretarias Estaduais. Na Bahia, a SPM foi criada em 2012 e vem realizando diversas ações importantes em
parceria com o Governo Federal em várias cidades do estado. Além disso, vem publicando periodicamente
editais que trazem a oportunidade para que organizações não governamentais possam realizar projetos
concentrados em seus territórios e municípios voltados à questão das mulheres. Destaca-se, no Território de
Irecê, os projetos Violência contra a mulher: vamos meter a colher e Ser Tão Mulher I e II, executados,
respectivamente pelas entidades Centro de Assessoria do Assuruá – CAA e Centro de Desenvolvimento
Socioambiental Barriguda, com atenção especial às mulheres agricultoras. Isso é resultado da cobrança da
sociedade civil organizada e do movimento de mulheres em torno das pautas de autonomia e igualdade no
mundo do trabalho urbano e rural, cidadania, educação inclusiva e não sexista, saúde, direitos sexuais e
reprodutivos, enfrentamento à violência doméstica e familiar, valorização do trabalho doméstico, prevenção
ao tráfico de mulheres, além do enfrentamento ao racismo, lesbofobia e violência simbólica.
No que tange o enfrentamento à violência doméstica e familiar, a cearense Maria da Penha Maia
Fernandes tem sido um importante símbolo. Foi através da sua luta pessoal que o Brasil foi punido perante a
Corte Interamericana de Direitos Humanos, sendo obrigado a editar uma lei específica para coibir todos os
atos de violência contra a mulher. A Lei nº 11.340/06 leva o seu nome e já é bem propagada pela população
por conta das várias campanhas de divulgação.
Não temos nada contra as flores, os chocolates ou quaisquer outros presentes. Mas é importante que se
saiba que muito sangue, suor e lágrimas já foram derramados para que nós hoje possamos ao menos discutir e
enfrentar a desigualdade de gênero sem sermos condenadas à guilhotina. Há hoje outras “guilhotinas”, por
vezes disfarçadas e silenciosas, para serem vencidas. Por isso, valorize a mulher que há perto de você (mãe,
esposa, filha, irmã, avó, tia, prima, amiga, colega de trabalho, vizinha ou desconhecida) para que ela se
empodere e tenha força para enfrentar todas as batalhas que o mundo impõe pelo simples fato de terem
nascido mulheres. Antes das flores, queremos respeito aos nossos direitos!

TROCANDO EM MIÚDOS

Feminismo: quer dizer igualdade entre homens e mulheres. Não pretende colocar os homens na condição de
oprimidos, mas trazer às mulheres as condições necessárias para viver em condição de igualdade. Não é o
contrário do machismo!
Machismo: comportamento que oprime e agride tudo que não é considerado masculino ou que atente contra o
poder do homem. A discriminação contra as mulheres (e também contra homossexuais) ocorre através de
diversas formas de violência (física, psicológica, moral, sexual, patrimonial e simbólica).
Patriarcado: cultura que coloca o homem em condição de evidência e a ele reserva o poder de decisão sobre
todas as coisas importantes, tanto socialmente quanto internamente na família.
Empoderamento: processo pelo qual a mulher alcança poder pessoal para tomar as rédeas da sua vida nos
campos econômico, sociocultural, familiar/interpessoal, político e psicológico.
Violência doméstica: qualquer ato que cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual, dano moral ou
patrimonial ocorrido na casa da vítima, por parte de alguém da família ou numa relação íntima de afeto.
Lesbofobia: todas as formas de opressão sofridas por mulheres lésbicas.
Sexismo: ideia que privilegia um gênero em detrimento do outro. Normalmente se apresenta como exclusão
ou desvalorização do gênero feminino.
Gênero: construção social dos papéis identificados como masculinos e femininos. Não tem ligação com o
sexo biológico do indivíduo.