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elon Iages lima

curso
de analise
volume 1

Décima Edição
F?,

Lima, Elon Lages, 1929 -


L697c Curso de anâlise. Rio de Iamtiro: Instituto de Matemátì
v. 1- ca Pura r: Aphcada, 2002

v.ilust. (Projcto Euclides)

Bibliografia.
ISBN 85-244-0118-4
1. Análise matemática. 2. Cálculo. I, Título. II. Série.

76-1001 17.CDD-517
18. -515
elon Iages lima
curso
de analise
volume 1
Décima Edição

NSTITUTO D
Copyright © 2002 by Elon Lagcs Lima
Direitos reservados, 2002 pela Associação Instituto
Nacional de Matemática Pura e Aplicada - IMPA
Estrada Dona Castorina, ll0
22460-320 Rio de Janeiro, RJ

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

Capa: Rodolfo Capeto e Noni Geiger.

Coleção Matemática Universitária


Comissão Editorial:
Elon Lages Lima (Editor)
Paulo Sad
S. Collier Coutinho

Títulos Publicados:
~ Análise Real, Volume - Elon Lages Lima
1

0 EDP: Um Curso de Graduação - Valéria Iório


0 Curso de Álgebra, Volume l - Abramo Hefez
0 Álgebra Linear - Elon Lages Lima
0 Introdução às Curvas Algébricas Planas -Israel Vainsencher
I Equaçöes Diferenciais Aplicadas - Djairo G. de Figueiredo e Aloisio Freiria Neves
0 Geometría Diferencial - Paulo Ventura Araújo
I Introdução à Teoria dos Números - José Plínio de Oliveira Santos
I Cálculo em uma Variável Complexa - Marcio G. Soares
0 Geometría Analítica e Álgebra Linear - Elon Lages Lima
I Números Primos: Mistérios e Recordes - Paulo Ribenboim

Distrìbuição:
IMPA
Estrada Dona Castorìna, 110
22460-320 Rio de Janeiro, RJ
e-mail: ddic@impa.br
http://www.impa.br

ISBN: 85-244-0116-9
CONTEÚDO

PREFÁCIO ....,..,.....,............,. _ _ VII

CAPÍTULO I 'CONJUNTOS E FUNCÓES _ _ _ _ 1

§1 Conjuntos _ ............ ..... _ _ _ _ _ _ _ 1

§2 Operaçöes entre conjuntos ..... _ _ 5

§3 Funçöes ................., _ _ 10
16
§4 Composição de funçöes _ _ _ _ _ _

§5 Familias ..._...,..... _ _ 19

Exercícios .._..._......._..,....._...............,_............... 23

CAPÍTULO II CONJUNTOS FINITOS. ENUMERÁVEIS E NÄO-


-ENUMERAVEIS .........___....._._..........__.. 25

§1 Números naturais __ ....._...,.......,_..


....._ ..... _ _ 26
§2 Boa ordenação e o Segundo Principio de Indução .,.. 30
§3 Conjuntos ?nitos e infinitos ...._....,..._.....,.... _ _ 33
§4 Conjuntos enumeráveis ....._._.._._.._._____._._ _ _ _ 38
§5 Conjuntos não-enumeráveis _._. 41
Exercícios .._.__. __.__.......____
_
_ _ _ 43

CAPÍTULO III NÚMEROS REAIS .___ 47

§1 Corpos ._____._._________._._ _ _ _ 49
§2 Corpos ordenados .__. _ _ _ 52
§3 Números reais __.___ _ _ _ 60
Exercícios ___.__._____.._._____..____.__.____._.____.__._.._______ 69

CAPÍTULO IV SEQÚÍENCIAS E SÉRIES DE NÚMEROS REAIS __._ 77


§1 Seqüências ___._. ___._._.___.______..._._____.______._.___
_
78
§2 Limite de urna seqüência ____.________.._______._._____.._ _ 83
§3 Propriedades arítméticas dos limites _ _ _ _ 89
§4 Subseqüências ____ _._. .____________ _ 93

§5 Seqiiências de Cauchy _________.. _ 98


§6 Limites in?nitos _________ _ _ _ 101
§7 Séries numéricas __.___ _ _ _ 105
121
Exercícios _______._.______ .____ ._____
_ _
_ _ _

CAPÍTULO TOPOLOGIA DA RETA


V _ _ _ _ . _ 127

§1 Conjuntos abertos ________._______. _ _ _ 128


§2 Conjuntos fechados .__._ _ _ _ 133
§3 Pontos de acumulação ____ _ _ _ 138
§4 Conjuntos compactos _ _ _
_ _ _ 142
Exercícios _________________ _ _ _ 147
_

CAPÍTULO VI LIMITES DE FUNCÓES .... _

§1 Delìnição e propriedades do limite ....


§2 Exemplos de limites ...,..................................
§3 Limites lateraxs..........................................
§4 Limites no inlìnito, limites infinitos, expressöes indeterminadas
§5 Valores de aderência de uma função; lim sup e lim inf ........
Exercíciox.............................,.,.............,...
CAPÍTULO vn FUNCÓES CONTÍNUAS _

§l A noção de função contínua .........


§2 Descontinuidades ........... . _ _ _ _ _ _ _ _ _

............
_ _

§3 Funçöes continuas em intervalos _

§4 Funçöes continuas em conjuntos compactos .... _

§5 Continuidade uniforme .......,.............. _

Exercícíos._.._._.__._ ......
CAPÍTULO V111 DERTVADAS . _ . .........4.......... _

§1 Delìnição e propriedades da derivada num ponto ..... _

§2 .................
Funçöes deriváveis num intervalo _

§3 Fórmula de Taylor ........,........ _ .

..,..
§4 Série de Taylor, funçöes analíticas _

\ Exercicios .............,..........,....... _

CAPÍTULO IX INTEGRAL DE RIEMANN _ _ _ _ _

§1 Integral superior e integral inferior ._.. _ _ _

§2 Funçöes integráveis .....___..___.._..._ _

§3 O Teorema Fundamental do Cálculo ___, _

§4 Fórmulas clássicas do Cálculo Integral __._ _

§5 A integral como limite de somas _...._._ _

§6 Caracterização das funçöes integráveis ._._ _

§7 Logaritmos e exponenciais _.__.__._,.._ _

Exercícios_.._...__. _..__ __.___ _

CAPÍTULO X SEQÚÉNCIAS E SÉRIES DE FUNCÓES ...._ _

§1 Convergência simples e convergencia uniforme _._.__. .

§2 Propriedades da convergêneia uniforme _____,_, _

§3 Sêries de potencias _.._.....__...._._. . _ _ _

§4 Funçöes analíticas ____ _

§5 Eqüicontinuidade ._.. _

Exercicios ________.._._.__ _

BIBLIOGRAFIA ____.._ .

ÍNDICE ALFABÉTICO __.. _


PREFÁCIO DA PRIMEIRA EDIGÃO

- What is jazz, Mr. Armstrong?


- My dear lady, as long as you have to ask that question, you will never
know it.

Esta é a primeira parte de um Curso de Análise. Nela se estudam as


funçöes reais de uma variável real.
A teoria é apresentada desde o começo. Não se faz uso de resultados
que não sejam estabelecidos no texto. Todos os conceitos introduzidos
são amplamente ilustrados por meio de exemplos.
Apesar disso, é conveniente que os leitores deste livro possuam ex-
periência equivalente à de dois semestres de Cálculo. Assim, terão alguma
familiaridade com os aspectos computacionais mais simples e com a inter-
pretação intuitiva de certas noçöes como limites. eontinuidade, derivadas,
integrais e séries. Essas idéias constituem os temas fundamentais do curso.
Elas são tratadas de modo auto-suficiente, mas a ênfase é colocada na
conceituação precisa, no encadeamento lógico das proposiçöes e na análise
das propriedades mais relevantes dos objetos estudados.
As manipulaçöes elementares e rotineiras com limites, derivadas, in-
tegrais, etc., embora necessárias, são deixadas de lado, pois as supomos
suficientemente exercitadas nos cursos de Cálculo.
Isso não signilica que menosprezemos os exercícios. Pelo contrário,
este livro contém várias centenas deles. Ler os enunciados de todos e
resolver quantos puder é uma tarefa essencial do leitor.
Matemàtica não se aprende passivamente.
Os exercícios ensinam a usar oonoeitos e proposiçöes, desfazem certos
mal-entendidos, ajudam a ?xar na mente idéias novas, dão oportunidade
para explorar as fronteiras da validez das teorias expostas no texto e re-
conhecer a necessidade das hipóteses, apresentam aplicaçöes dos teoremas
demonstrados e informarn o leitor sobre resultados adicionais, alguns
dos quais não liguram no texto apenas por urna questão de gosto.
Ao estudar o livro, o aluno está sendo conduzido pela mão do autor.
Os exercicios lhe fornecem o ensejo de caminhar mais solto e, assim, ir
ganhando independência. Para quem está convencido da importancia de
resolver os exercicios deste livro, um esclarecimento: eles variam miiito
em seus graus de diñculdade. Não se desencoraje se não conseguir resolver
alguns (ou muitos) deles. É que varios são dificeis mesmo. Volte a eles
depois, quando tiver lido mais do livro e se sentir mais con?ante. Aclio,
porém, que inclui exercicios “resolvíveis” em número suficiente para
satisfazer o amor-próprio de cada leitor.
No ?nal do livro, ha uma lista de referências bibliográficas. Elas
contêm material relacionado com os assuntos aqui tratados. A lista é
bastante seletiva., refletindo fortemente meu gosto pessoal. Nela foram
incluídos os livros que, no meu entendimento, melhor servem como leitura
colateral, esclarecendo, completando ou abordando sob outros aspectos
os temas estudados neste livro.
Ao adotar este livro num curso, o professor deve considerar a pos-
'sibilidade de omitir o Cap. I, que contém apenas generalidades sobre
conjuntos e funçöes. Se os alunos já estudaram antes estas coisas, 0 curso
pode iniciar pelo Cap. II, servindo o Cap. I apenas para recordar certas
deñniçöes, se necessàrio. Também o Cap. II pode ser omitido, se os alunos
já tiverem aprendido a teoria dos números naturais e as diferenças entre
conjunto ñnito, enumerável e não-enumeràvel (num curso de Álgebra,
por exemplo). Assim, para alunos com tal experiència, a leitura deste
livro pode começar no Cap. III, onde são introduzidos os números reais.
Uma palavra ao leitor: não se lê um livro de Matemática como se
fosse uma novela. Você deve ter lápis e papel na mão para reescrever,
com suas próprias palavras, cada de?nição, o enunciado de cada teorema,
veriñcar os detalhes às vezes omitidos nos exemplos e nas demonstraçöes
e resolver os exercicios referentes a cada tópico estudado. É conveniente,
também, desenhar ?guras, (principalmente gráñcos de funçães) a ñm de
atribuir significado intuitivo aos raciocinios do texto. Embora as figuras
não intervenham diretamente na argumentação lógica, elas servem de
guia à nossa imaginação, sugerem idéias e ajudam a entender os conceitos.
Ao terminar, tenho o prazer de registrar meus agradecimentos a
vârias pessoas, que contribuiram para tornar mais claro o texto em alguns
pontos, e livrá-lo de erros em outros: meu colega Manfredo P. do Carmo,
com espirito às vezes oposicionista, me obrigou a defender minha posição,
quando isso eraipossivel, e a ceder às suas críticas, quando procedentes;
o Professor Renato Pereira Coelho, com paciencia invulgar, apontou
vários deslizes e pontos obscuros, que procurei corrigir. Sou também
grato a diversos alunos do IMPA que leram a versão preliminar e notaram
erros Não podendo mencionar cada um, agradeço entre eles a Paulo
Villela e Maria Lucia Campos. Finalmente, sou grato a Solange de Azevedo,
que resolveu os exercicios e corrigiu alguns dos seus enunciados.

Rio de Janeiro, agosto de 1976.


Elon Lages Lima

Observação. As citaçöes bibliográ?cas são feitas no texto colocando-se o


nome do autor entre colchetes. Assim, por exemplo, [Hardy] signi?ca
uma referência ao livro de G. H. Hardy que consta da lista na página 339.

Pm-:r¬Ác1o DA sExTA EDrçÃo


As cinco ediçöes posteriores diferem da primeira pela correção de vários
erros tipográ?cos, pela modi?cação de dois ou três trechos obscuros e pelo
acréscimo de alguns exercícios. Manifesto de público meu agradecimento
aos leitores que me chamaram a atenção para esses pontos, destacando em
especial os professores Oclide Dotto, Claus Doering, Carlos Ivan Simonsen
Leal e Lino Sanabria. Agradeço ainda a boa acolhida que o livro recebeu
dos meus colegas que o adotaram. Espero que ele continue a gozar da
mesma con?ança e merecer a colaboração desinteressada e construtiva sob
a forma de sugestöes, críticas e reparos, com šfistas a aperfeiçoanientos
posteriores,

Rio de Janeiro, julho de 1989


Elon Lages Lima
CAPÍTULO r

CONJUNTOS E FUNGÓES

Introduziremos neste capítulo a linguagem de Conjuntos e Funçöes,


que será utilizada sistematicamente nos capitulos seguintes. Toda a Ma-
temática é, hoje em dia, apresentada nessa linguagem; assim imaginamos
que a maioria dos leitorcs já tenha certa familiaridade com o assunto.
Entretanto, não exigiremos conhecimento previo algum da materia.
O objetivo deste livro é estudar conjuntos de números reais e funçöes
reais de uma variável real. Os números reais serão apresentados no Cap. III.
Estes dois primeiros capítulos são preliminares. Por isso nos permitiremos
tratar aqui conjuntos e funçöes dentro do chamado “ponto de vista in-
gênuo”. Ou seja, adotamos um estilo informal e descritivo, em contraste
com o ponto de vista axiomático, segundo 0 qual deveríamos apresentar
uma lista completa de objetos não de?nidos e proposiçöes não demons-
tradas (ou axiomas), a partir dos quais todos os conceitos seriam definidos
e todas as a?rmaçöes provadas. O método axiomátioo será utilizado
substancialmente a partir do Cap. III. Aos leitores interessados em apro-
fundar seus conhecimentos sobre Lógica e Teoria dos Conjuntos, reco-
mendamos a leitura de [Tarski] e [Halmos], duas pequenas obras-primas
que contêm tudo o que um matemático precisa saber sobre esses assuntos.

§1 Conjuntos
Um conjunto (ou coleção) é formado de objetos, chamados os seus
elementos. A relação básica entre um objeto e um conjunto é a relação
de pertinência. Quando um objeto x é um dos elementos que compöem
o conjunto A, dizemos que x pertence a A e escrevemos

xeA.
Se, porém, x não é um dos elementos do conjunto A, dizemos que x não
p€TÍ€?Ce0 A É CSCICVCIHOS

x ¢ A.
Um conjunto›A tica definido (ou determinado, ou caracterizado) quando
se dá uma regra que permita decidir se um objeto arbitrario x pertence
ou não a A.
2 Curso de anålise

EXEMPLO Seja A o conjunto dos triângulos retângulos. O conjunto


1.
A está bem definido: um objeto x pertence a A quando
é um triângulo e, alérn disso, um dos seus ângulos é reto. Se x não for um
triângulo, ou se x for um triângulo que não possui ángulo reto, então x
não pertence a A.
Usa-se a notação

X={a,b,c,...}

para representar conjunto X cujos elementos são os objetos a, b, c, etc.


o
Assim, por exemplo, {1, 2} é o conjunto cujos elementos são os números
1 e Z »Dado o objeto a, pode-se considerar o conjunto cujo único elemento

é a. Esse conjunto é representado por {a}.


O conjunto dos números naturais 1, 2, 3 ,... será representado pelo
simbolo N. Portanto
N ={1,2,3,...}.

O conjunto dos números ínteiros (positivos, negativos e zero) será


indicado pelo simbolo Z. Assim,

Z={...,-3,-2,›1,0,1,2,3,...}.
O conjunto D, dos números racionais, é formado pelas fraçöes p/q,
onde p e q pertencem a Z, sendo q aë O. Em símbolos,

0={p/q; PEZ, qël, q#0}<

Lê-se: “Q é o conjunto das fraçöes p/q tais que p pertence a Z, q pertence


a Z e q é diferente de zero”.
A maioria dos conjuntos encontrados em Matemática não são de-
fìnidos especi?cando-se, um a um, os seus elementos. O método mais
freqiiente de de?nir um conjunto é através de uma propriedade comum
e exclusiva dos seus elementos. Mais precisamente, parte-se de uma pro-
priedade P. Ela deñne um conjunto X, assim: se um objeto x gom da
propriedade P, entäo x e X; se x não goza de P então x që X. Escrcve-se
X ;= {x; x goza da propriedade P}.

Lê-se: “X e o conjunto dos elementos x tais que x goza da propriedade P”.


Conjuntos u funçöos 3

Muitas vezes a propriedade P se refere a elementos de um conjunto


fundamental E. Neste caso, escreve-se

X = {x e E; x goza da propriedade P}.

Por exemplo, seja N o conjunto dos números naturais e consideremos


a seguinte propriedade, que se refere a um elemento genérico x G N:

“x é maior do que 5”.


A propriedade P, de um número natura] ser maior do que 5, delìne
o conjunto X = {6, 7, 8, 9, .}, ou seja,
. .

X={xeN; x>5}.
Lê-se: X é o conjunto dos x pertencentes a N tais que x é maior do que 5.
Äs vezes, ocorre que nenhum elemento de E goza da propriedade P.
Neste caso, o conjunto {x e E; x goza de P} não possui elemento algum.
Isto é o que se chama um conjunto vazio. Para representa-lo, usaremos
o simbolo ø.
Portanto, o conjunto vazxb ø é definido assim:

Qualquer que seja x, tem-se x ¢ ø.


Por exemplo, temos {x e N; < x < 2} = ø. E também, {x; x ;± x} = ø.
1

Dados os conjuntos A e B, dizemos que A é subconjunto de B quando


todo elemento de A é também elemento de B. Para indicar este fato, usa-se
a notação

AcB.
Quando também que A é parte de B, que A está incluída
A <: B, diz-se
em B, ou contido em B. A relação A <: B chama-se relação de inclusão.

EXEMPLO Os conjuntos numéricos N, Z e O, acima apresentados,


2.
cumprem as relaçöes de inclusão N c Z e Z <: Q. Abrevia-
damente, escrevemos N <: Z c Q.

EXEMPLO 3. Sejam X o conjunto dos quadrados e Y o conjunto dos


retângulos. Todo quadrado é um retângulo, logo X c K
Quando se escreve X c Y não está excluida a possibilidade de vir
aserX= No caso em que X C YeX ak Kdiz-se que Xéuma parte

própria ou um subconjunto próprib de Y.


4 Curso de análise

Atìrmar x eX equivale a a?rmar {x} c X.


A ?rn de mostrar que um conjunto X não é subconjunto de um con-
junto Y, deve-se obter um elemento de X que não pertença a Y Assim,
_por exemplo, não se tem Q C Z, pois 1/2 e Q e 1/2 não é inteiro.
Segue-se dai que o conjunto vazio ø
ê subconjunto de qualquer
conjunto X. Com efeito, se não fosse ø c X, existiría algum x e ø tal
que x ¢ X. Como não existe x e ø, somos obrigados a admitir que
øc X, seja qual for o conjunto X.

A relação de inclusão A c B é

Re?exiva -
A c A, seja qual for o conjunto A;
Ami-simétrica - se A c B e B c A, então A = B;
Transitíva -
se A c B e B c C, então A <: C.

A veri?cação desses três fatos é imediata.


Segue-se da propriedade anti-simétrica que dois conjuntos A e B
são iguais precisamente quando A c B e B c A, isto é, quando possuem
os rnesrnos elementos.
Lembremos que, sejam quais forem os signi?cados dos símbolos
E e D, o sinal de igualdade numa expressão como E = D signi?ca que
os símbolos E e D estão sendo usados para representar o mesmo objeto.
Em outras palavras, uma coisa só é igual a si mesma.
No caso de conjuntos, escrever A = B signi?m que A e B são o mesmo
conjunto, ou seja, que A e B possuem os mesmos elementos. Sempre que
tivermos de provar uma igualdade entre conjuntos A e B, devemos dc-
monstrar primeiro que A c B (isto é, que todo elemento de A pertence
neccssariamente a B) e, depois, que B c A.
Dado um conjunto X, indica-se com 9(X) o conjunto cujos elementos
são as partes de X. Em outras palavras, añrmar que A e 9(X) é o mesmo
que dizer A c X_ 9?(X) chama-se o conjunto das partes de X. Ele nunca
é vazio: tem-se pelo menos ø
e .^¶'(X) e X e .4*(X).

EXEMPLO 4, Seja X = {l, 2, 3}. Então

9'(X) = {ø, {l}, {2},Vj3}, {l, 2}, {l, 3}, {2, 3}, X}.
Sejam P e Q propriedades que se referem a elementos de um oerto
conjunto E. As propriedades P e Q de?nem subconjuntos X e Y de E,
asaber:
X= {xeE;xgoza de P} e Y={yeE;j/goza de Q}.
Coniuntos 0 funoöu 5

As a?rmaçöes “P implica Q”, “se P, então Q”, “P acarreta Q”, “P


é
condição su?ciente para Q”, “Q é condição necessária para P” têm todas
o mesmo signì?cado. Elas querem dizer que X c l? ou seja, que todo
objeto que goza de P também goza dé Q. Para exprimir este fato, usa-se
a notação

Também as añrmaçöes “P se, e somente se, Q”, “P é condição neces-


sária e suficiente para Q” têm todas o mesmo signi?cado; Querem dizer
que P => Q e Q = P, ou seja, que o conjunto X dos elementos que gozam
da propriedade P coincide com o conjunto Y dos elementos que gozam
de Q. A notação que exprime este fato é

P<=› Q.

§2 Operaçöes entre conjuntos


A reunião dos conjuntos A e B é o conjunto A U B, formado pelos
elementos de A mais os elementos de B. Assim, a?rmar que xeA UB
significa dizer que pelo menos uma das añrmaçöes seguintes é verdadeira:
x GA ou x e B. Podemos então' escrever:
= {x x e A
A U B › ou x e B}.
Ao contrário da linguagem vulgar, a palavra “ou” é sempre utilizada
em Matemática no sentido lato: ao dizer “x e A ou x e B” quer-se a?rmar
que pelo menos uma dessas duas alternativas é verdadeira, sem
ñcar
excluida a possibilidade de que ambas o sejam, isto é, de se ter ao mesmo
tempo xeA e xeB.

/ /\\
/ _ \
É I ) É
_` x\)
\

` AÉB 7

Na ?gura acima, onde A e B sãio discos, a reunião A U B é a párte


hachurada.
6 Curso de análise

Sejam quais forem os conjuntos A e B, tem-se A c A u B e B c A u B.


A interseção dos conjuntos A e B é o conjunto A n B, formado pelos
elementos comuns a A e B. Assim, afirmar que x EA rx B signi?ca dizer
que se tem, ao mesmo tempo, xeA e xeB. Escrevemos então

Ar\B = {x; xeA e xeB}.

EXEMPLO 5. Sejam A = {xeN; x 510} e B= {xeN; x> 5}. Então


AuB=N e AnB={6, 7, s, 9, 10}.

EXEMPLO Sejam A = {xe N; x > 2} o conjunto dos números na-


6.
turais maiores do que 2 e B = {xe N; x < 3} o conjunto
dos números naturais menores do que 3. Então A r\B = ø, pois não
existem números naturais x tais que 2 < x < 3. Assim os conjuntos A e B
são disjuntos. *
Relacionamos nas listas abaixo as principais propriedades formais
das operaçöes de reunião e interseção.

ul)Auø=A nl)Anø=ø
v2)AuA=A r\2)Ar\A=A
u3)AuB=BuA n3)Ar\B=BnA
\_›4)(A\_›B)uC=Au(BuC) n4)(AnB)r\C=Ar¬(BnC)
u5)AuB=A<=›Br:A" n5)Ar\B=A<=>AcB
U6)A<:B,A'CB'=› f\6)ACB,A'<:B'=›
=›AuA'f:BuB' =>Ar\A'cBnB'
u7)Au(BnC)= n7)An(B\_›C)=
=(AuB)r\(AuC) =(Ar\B)u(AnC)

Z
N
â.
O
V2

ZON
311(D
Qu
Conjuntos e funçöu 7

A demonstração de qualquer dessas propriedades se reduz ao manejo


adequado dos conectivos “e” e “ou”. Na realidade, podemos interpretar
as propriedades acima como regras formais para o manejo desses conec-
tivos. Demonstremos uma delas. a titulo de exemplo.
Vamos demonstrar U7. Primeiro provaremos que A u (B n C) <:
f: (A U B) rx (A U C). Ora, dado xeA u (B n C), tem-se x EA ou, então,
xeBr¬ C. No primeiro caso, vem xeAuBe xeA u C, donde xe(A uB)n
n (A U C). No segundo caso temos x e B e x e C. De x e B segue-se x e A U B
e de xeC conclui-se xeA u C. Logo, xeA UB e xeA u C. isto é, xe
e (A u B) n (A U C). Em qualquer hipótese, x e A U (B rx C) implica x e
E (A U B) f¬ (A o C), Isso quer dizer: A o (sn C)C(/414 B) f¬ (A U C). Agora
mostraremos que (A u B) n (A u C) <: A u (B rx C).A Para isto, seja xe
G (A u B) n (A U C). Então x G A U B e x e A U C. Dentro desta situação, liá

duas possibilidades: ou xeA ou x¢Á. Se for x¢A, então (como xsA u B


1: xeA U C) deve ser xeB e xeC, ¡sto é, xeBnC e, portanto, xeA u
U (B rw C). Se for x eA então evidentemente x e A u (B rw C). Em qualquer
hipótese, x e (A U B) n implica x e A u (B n C), ou seja, (A U B) n
(A U C)
n (A u C) c n
C), como queriamos provar.
A U (B
A d?erença entre os conjuntos A e B é o conjunto A~B, formado
pelos elementos de A que não pertencem a B. Em simbolos:

A-B= {x;xeA e x¢B}.

Na figura acima, onde os conjuntos A e B são representados por


discos, a diferença A -B é a parte hachurada.
Não se exige que B esteja contido em A para formar a diferença A ~B.
Quando A e B são disjuntos, nenhum elemento de A pertenoe a B, por-
tanto, A~B = A. Em qualquer caso, tem-se A -B = A -- (A n B).
Quando se tem B <: A,`a diferença A~B chama-se o complementar
de B em relação a A e escreve-se

A~B=|}A B.
VT

B Curso de análise

Freqüentemente, tem-se um conjunto E que contém todos os con-


juntos que ocorrem numa certa discussão. Neste caso, a diferença E-X
chama-se simplesmente o complementar de X e indica-se com a notação [¦ X.
Por exemplo, nos capítulos seguintes, estaremos estudando subcon-
juntos do conjunto IR, dos números reais. Dado X r: R, a diferença [R-X
será chamada o complementar de X e indicada pelo simbolo |¦ X, sem neces-
sidade de mencionar explícitamente que se trata de complementar em
relação a IR]
Con?rmando: se nos restringimos a considerar elementos perten-
centes a um conjunto básico E, então
xe?X-=>x¢X.
EXEMPLO 7. Sejam A = {xeZ; x 2 ~3} e {xeZ; x 5 2}. Então
B =
A-B = {xeZ; x 2 3} e B-A = {xeZ; x 5 ~4}. To-
mando Z como conjunto básico, então UA = {inteiros menores do que -3}
e [¦B = {inteiros maiores do que 2}.

A noção de dìferença reduz-se à de complementar, do seguinte modo:


dados A e B, contidos num conjunto fundamental E, relativamente ao
qual tomamos complementares, temos:
A-B=Ar\[}B.
Com efeito xeA-B<=>xeA e x¢B<›xeA e xe[}B¢=›xeA rw |}B.
Relacionarnos abaixo as prlncipais propriedades formais da operação
de tomar complementares. Os conjuntos A e B são partes de um conjunto
fundamental E, em relação ao qual estamos tomando os complementares.
C1)I¦([¦A)=A,
C2) ACB-=›[¦B<:[}A,
C3) A=ø<›[¦A =E,
C4) [}(AuB)=[¦An|]B,
CS) |](AnB)=[¦A\.1?B.
Demonstraremos estas cinco propriedades.
Cl) Temos xe[¦(|}A)-==›x¢[¦A¢>xeA. Logo |]([¦A) = A.
C2) Suponhamos A c B. Então um elemento xe[}B não pode per-
tencer a B e, com maior razão, não pertencerá a A. Logo x e [¦ B ==› x e [¦ A,
ou seja HB C [¦A. Reciprocamente, se temos [¦B c [¦A então, pelo que
acabamoside ver, deve ser [¦([¦ A) c [¦([¦ B). Usando C1, obtemos A c: B.
C3) A = ø<=›x¢A para todo -xeE<š›xe[¦A para todo xeE<=›
<=› [¦ A = E.
Conjuntos a funçöas 9

(?ÍComoAcAuBeBcAuB,segue-sedeC2 que|](AuB)c
c[¦Ae?(AuB)r:?B,donde [¦(AuB)c[¦An[¦B.SejaX=[¦Ar\[¦B.
TemosXc[¦AeXc[¦B_ Por C2, vem A<:[}XeBc[¦X, donde Au
uBc[}X.PorC2eC1,vemX<:[¦(AuB),istoé,[¦An[¦Bc[¦(AuB).
Concluimos que [¦(AuB) = [¦An|}B.
CS) Demonstração análoga a C4.

__
As propriedades acima mostram que, tomando-se complementares,
invertem-se as inclusöes, transformam-se reuniöes em interseçöes e vice-

_'
-VCFS8.

IIIIIIIIIIIIII
lIllIlIIiIlII
_ IIIV
III;
` II-
¦¦¦w|| b.f'¦¦¦¦
UIII
lIll_..lìllll
IIIIIIIIIIIIII
IIIIIIIIIIIIII
Na ?gura à esquerda, A é um disoo, contido no retângulo, que é 0
conjunto fundamental E. O complementar de A é a parte hachurada com
listras horizontais. Na ?gura da direita, A e B são discos. O complementar
de A é hachurado com listras horizontais e o complementar de B com listras
verticais. Então ?(A u B) é a parte quadriculada; enquamo [¦(A rx B)' é
a parte que tem alguma listra (vertical, horizontal ou ambas). Isto mostra
que [¦(A\_›B) = [¦An|¦B e [¦(AnB) = [¦Au[¦B.
Outra operação útil entre conjuntos é o produto cartesiano. Ela se
baseia no conceito de par ordenado, que discutiremos agora.
Dados os objetos a, b, o par ordenado (a, b) ?ca formado quando se
escolhe um desses objetos (a saber: a) para ser a prímeira coordenada do
par e (conseqüentemente) o objeto b para ser a segunda coordenada do par.
Dois pares ordenados (a, b) e (a', b') serão chamados iguaís quando suas
primeiras coordenadas, a e a', forem iguais e suas segundas coordenadas,
b e b', também Assim

(a, b) =(a', b')<=›a =a' e b =b'.


Não se deve confundir o par ordenado (a, b) com o conjunto {a, b}.
Com efeito, como dois conjuntos que possuem os mesmos elementos
são iguais, temos {a, b} = {b, a}, sejam quais forem a e b. Por outro lado,
pela de?nição de igualdade entre pares ordenados só temos (a, b) = (b, a)
1 0 Curso de análíse

quando a = b. Notemos ainda que {zg a} = {a}, enquanto que (a, a) é


um par ordenado legítimo.
O produto cartesiano dos conjuntos A e B é o conjunto A x B cujos
elementos são todos os pares ordenados (a, b) cuja primeira coordenada
pertence a A e a segunda a B. Portanto:

A >< B= {(a,b); aeA e beB}.


Quando A = B, temos o produto cartesiano A1 = A ›< A. O sub-
conjunto A c A ›< A, formado pelos pares (a, a) cujas coordenadas são
iguais, ehama-se a diagìmal de AZ.

B /-1x5 A

b - ---~ -†(0.b) 0' --


E

I L1 --
1

: =

a A a A

Na figura à esquerda, os conjuntos A c B são representados por seg-


mentos e o produto cartesiano A x B por um retângulo. Ã direita, temos
o quadrado A x A = A2, no qual se destaca a diagonal A.

EXEMPLO 8. Sejam A = {l, 2, 3} e B = {x, y}. Então A x B = {(1, x),


(L y), (Z X). (2, Y), (3, X), (3› Y)}-

EXEMPLO introdução de coordenadas cartesianas no plano faz


9. A
com que cada ponto seja representado por um par orde-
nado (x, y), onde x é sua abscissa e y sua ordenada..`Isto identìñca o plano'
com o produto cartesiano R2 = [R (R, onde IR é 0 conjunto dos números
><

reais.

§3 Funçöes
Uma funçãa f: A -› B consta de três partes: um conjunto A, chamado
o dominio da função (ou o conjunto onde a função é de?nida), um con-
junto B, chamado o contradomínio da função, ou o conjunto onde a função
toma valores, e uma regra que permite associar, de modo bem determinado,
Conjuntos e funçöos 1 1

a cada elemento xeA, um único elemento f(x)eB, chamado o valor


que a função assume em x (ou no ponlo x).
Usa-se a notação x›-› ƒ (x) para indicar que ƒ faz
corresponder a x
o valor (x).f
Muitas vezes se diz a “função f” em vez de “a função fc A -›B”.
Neste caso, ñcam subentendidos o conjunto A, dominio de L e o
conjunto B,
contradomínio de f
f
Não se deve confundir com f(xì ƒ é a função, enquanto que
f
(x) é
o valor que a função assume num ponto x do seu dominio.
A natureza da regra que ensina como obter 0 valor f(x)eB
quando
é dado xeA é inteiramente arbitrária, sendo
sujeita apenas a duas con-
diçöes:

1.3 Não deve haver exccçöes: a ?m de quef tenha o conjunto A como


f
dominio, a regra deve íornecer (x) para todo xeA;
2.“ Não deve haver ambigüidades:
a cada xeA, a regra deve fazer
f
corresponder um único (x) em B.

Vemos que não existem funçöes “plurívocas”. Pela


Z.” condição,
acima, se x = y em A, então, f(x) =f(y) em B.
Segue-se das consideraçöes acima que duas funçöes
g: A'-+ B' são iguais se, e somente se, A = A', B
f A ›-› B e
:

= B' eƒ(x) = g(x) para


todo x e A. Ou scja, duas íunçöes são iguais quando têm o mesmo
dominio.
o mesmo contradomínio e a mesma regra de correspondência.

EXEMPLO Sejam P o conjunto dos polígonos do plano, [R o con-


10.
* junto dos números reais e f: P_-› [R a função que associa
a cada polígono x sua área (x).f
EXEMPLO SejamA = B = Q.Tentemos definir uma funçãof: (LD -› Q,
11.
considerando a seguinte regra: a cada número xe Q. fa-
çamos corresponder o número ›f(x)eC> tal que x-f(x) =
1. Esta regra
não de?ne uma funçåo de Q em Q, pois; dado OGQ,
não existe número
racional algum y =f(0) tal que 0^ y i L Entretanto, se escolhermos o
o conjunto A = Q-{0} para dominio,'a mesma regra
de?ne a função
/'I A ~> Q, f(X) = 1/X-

EXEMPLO Sejam To conjunto dos triângulos do


12.
plano e IR* o
conjunto dos números reais positivos. Consideremos a
tentativa de de?nir uma função ft LR* -› T pela regra seguinte:
a cada
número real x > 0 façamos corresponder o triângulo ftx), cuja
área é x.
1 2 Curso de análise

Evidentemente, há, ambigüidades: dado um número real x > 0, existe


uma infinidade de triângulos cuja área é x. A regra não de?ne uma funçåo.

O gráfico de uma função f: A -› B é o subconjunto- G(f) do produto


cartesiano A B formado pelos pares ordenados (x, ƒ(x)), onde xeA
><

é arbitrário. Ou seja,

Gtf) = {(X, y)eA X B; y =f(X)}-

Segue-se da de?nição de igualdade entre funçöes que duas funçöes


são iguais se,e somente se, possuem o mesmo gráñco.
Para que um subconjunto G <: A B seja o gráfico de uma função
><

f: A -› B, é necessário e su?ciente que, para cada xeA, exista um único


ponto (x, y)e G cuja primeira coordenada seja x. Para funçöes f: A -› B,
onde A e B são conjuntos de números reais, esta condição signi?ca que
toda paralela ao eixo das ordenadas, traçada por um ponto de A, deve
cortar o grá?oo G num e num só ponto.

B B
NX) _ ¡X Nx” AXB AXB

¦
I
|
, A

E A A

Na ñgura à esquerda temos o gráfico de uma função


f: A-›B, A figura à direita mostra um subconjunto de
A >< B que não pode ser grá?co de uma função de A em B.

Uma função f: A ›¬› B chama-se injetiva (ou biuníuoca) quando, dados


f f
x, y quaisquer em A, (x) = (y) implim x = y. Em outras palavrasz quando
x se y, em A, implica f(x) ;éƒ(y), em B.
O exemplo mais simples de uma função injetiva é a inclusão i: A -› B,
deñnida quando A é um subconjunto de B, pela regra i(x) = x, para todo
x e A.
Uma função f: A-›B chama-se_ sobrejetiva (ou sobre B) quando,
para todo yeB existe pelo menos um xeA tal que (x) = y. f
Exemplos de funçöes sobrejetivas são as projeçöes 1:11 A ›< B -›A
e 112: A x B -›B, de um produto cartesiano A x B nos fatores A e,B,
Coniuntos e funçóes 1 3

respectivamente A primeim projeção, nl, é definida por rc,(a, b) = a,


enquanto a segunda projeção, 1:2 é deñnida por 1:¡(a, b) = b.
,

EXEMPLO f f
f: Z -›Z deñnida por (x) = xz. Então não é in-
13 Seja
Jetiva, pois f(~3) =f(3), embora -3 a? 3. Tampouoo f
é sobrejetiva pois não existe

xgl tal que xz = 41. Por outro lado, se
tomarmos g Z -› Z, deñnida por g(x) = 3x + 1, então g é injetiva_ De
fato , se g(x) = g(y) então 3x + l = 3y + 1, ou seja, 3x = 3y, donde x = y.
Mas g nao e sobrejetiva, pois não existe um inteiro x tal que 3x + 1 = 0,
por exemplo Finalmente, seja h: ÑÍ-› N de?nida assim: h(1) = 1 e, para
cada numero natural x > 1, h(x) é o número de fatores primos distintos
que entram na composição de x. Então h é sobrejetiva, pois h(2) = 1,
h(6)=, 2 h(30) = 3, h(210) = 4, etc. Mas é claro que h não è injetiva. Por
exemplo se x e y são dois números primos quaisquer, tem-se h(x) = h(y).

EXEMPLO veri?cação de que uma função é sobrejetiva implica


14 A
em demonstrar a existênclh de objetos satisfazendo certas
condiçoes Por exemplo, seja IR* o conjunto dos números reais positivos.
f
Consideremos a função f: [R -› |R*, de?nida por (x) = xl. Dizer que ƒ é so-
brejetiva sxgm?ca a?rmar que, para todo número real y > 0 existe algum
numero real x tal que y = xz, ou seja, que todo número real positivo y possui
uma raiz quadrada x. (Isto será provado quando estudarmos os números
ICHIS) Outro exemplo: seja p um polinômio não constante, de coeñcientes
complexos A cada número complexo z associemos o valor p(z) do poli-
nomio p Isto de?ne uma função pz C -› C, onde C é o conjunto dos números
complexos A añrmação de que p é uma função sobrejetiva é equivalente
ss
ao chamado Teorema Fundamental da Álgebra” (um teorema de Topo-
logia, segundo o qual todo polinômio complexo não constante possui
pelo menos uma raiz complexa). Com efeito, admitindo que pz C -› C
e sobrejetiva, dado OEC, deve existir algum zeC tal que p(z) = 0. Ó
numero z e portanto, uma raiz de p. Reciprocamente, admitindo que

todo polinomio não-constante possui uma raiz complexa, provamos que


p C -› C e sobrejetiva. Com efeito, dado ceC, a função z1-› p(z)-c é
um polinomio nao-constante, logo existe algum zo e C tal que p(z0) - c = 0.
Tem se p(z(,)
._ =,
c donde p é sobrejetiva.

Uma funçao f: A -› B chama-se b?etiva (uma b?eção, ou uma cor-


respondencia bmnívoca) quando é injetiva e sobrejetiva ao mesmo tempo.
A mais simples das bijeçöos é a função üientidade id A: A -> A, deñ-
mda por 1d_4(x) x, para todo xeA. Quando não houver perigo de con-
fusao escreveremos simplesmente id: A -›A, em vez de id A.

1 4 Curso de análìse

Por exemplo, dados arbitrariamente a, b em Q, com a # 0, a função


f: f
-›@, definida por (x) = ax + b, é uma bijeção. Com efeito, se
U
f(x) =f(y), isto é, ax + b = ay + b então, somando -b a ambos os mem-
bros, vem ax = ay. Multiplicando ambos os membros por 1/a, obtemos
x = y. Assim, f é injetiva. Além disso, dado yeQ qualquer, o número
racional x = (y~b)/a é tal que ax + b = y, isto é, f(x) = y, donde ƒ é
sobrejetiva.
Dadas uma função ƒ: A -›B e uma parte X c A, chama-se imagem
f f
de X pela função ao conjunto (X) formado pelos valores j`(x) que assume f
nos pontos xeX. Assim

f(X) = {f(X); XGX} = {J/GB; Y =f(X)› XGX}-


Evidentemente, f(X) é um subconjunto de B. Para que f: A -›B
seja sobrejetiva é necessário e su?ciente que (A) = B. Em geral, tem-sef
f
apenas ƒ (A) f: B. O conjunto (A) é chamado a imagem da função ƒ As
f
vezes também se diz que (A) é o conjunto dos valores def.
Dada uma função f: A -›B e indicando com X, K... subconjuntos
de A, temos

11) f(X U Y) =f(Xìvf(Y),


12) f(X f¬ Y) Cf(X)f¬f(Y),
I3) X c: Y»f(X) Cf(Y),
14) f(ø) = ø«
Demonstremos as duas primeiras destas relaçöes.

Il) Se então existe xeXu Ytal quef(x) = y. Se xeX,


yef(Xu Y),
f
temos y e (X ). Se, porém x e Y, temos y e f (Y). Em qualquer caso,
y ef(X) \_›f(Y). Logo f(X u Y) <:ƒ(X) uf(Y). Reciprocamente, seja
zeƒ(X) uƒ'(Y). Então zef(X) ou zef(Y). No primeiro caso, existe x e X
f
tal que z = (x). No segundo, existe ye Y tal que z = (y). Em qualquer f
hipótese, existe weX U Y tal que z = f(w). Assim ze (X U Y), isto é, f
f(X) uf(Y) cf(X U Y). Estas duas inclusöes mostram que f(X U Y) =
=f(X) Uf(Y)-
I2) Se yef(X n Y) então existe xeX rx Y tal que f(x) = y. Então
xeX e portanto yef(X). Também xe Y e portanto yef(Y). Logo
y€f(X)f¬f(Yì›
EXEMPLO 15. SejaIR? o conjunto dos números reais. De?nimosf: [R -› IR

f
pondo (x) = xl. Então a imagem de L ou seja, o con-
junto f([R), é o conjunto dos números reais 2 0. (Aqui estamos fazendo
Conjuntos e funçös 15

uso do fato, a ser demonstrado mais adiante, de que todo número real
positivo possuí uma raiz quadrada).

EXEMPLO f: A -›B uma função que não é injetiva. Então


16. Seja
f f
existem x ¢ y em A, com (x) = (y). Ponhamos X = {x}
e Y= {y}_ Tem-se X n Y= ø, logo f(X n Y) = ø. Entretanto f(X) n
n f (Y) = {ƒ(x)} não é vazio. Logo, neste caso, temos f(X n Y) aé
#f(X) f¬f(Y)-
porém, f: A -›B for injetiva, podemos provar que f-(X n Y) =
Se,
f f
(X)r\ (Y) para quaisquer X, Y contidos em A.
Com efeito, dado yef(X)nf(Y), temos yef(X) e yef(Y). Logo
existem x' GX e x” e Y com y =f(x') e y =f(x”). Comofé injetiva, deve
serjx' = x” e portanto x'eX n Y Seguefse que y = f(x') pertence e (X rw Y), f
o que mostra ser ƒ(X)r\f(Y) cf(Xr\ Y). Como a inclusão oposta e
sempre verdadeira, concluimos que f(X rw Y) = (X) n (Y).f f
Em resumo, a ?m de que se tenha f(Xr\ Y) =f(X)'nf(Y) para
quaisquer X, Y contidos em A, é necessário e su?ciente que a função
ƒ A -› B seja injetiva.
Dada uma função f: A -› B, consideremos um conjunto YC B. A
f f
imagem inversa de Y pela função é o conjunto `1(Y), formado por todos
os xeA tais que ƒ(x)eY Assim:

f'1(Y) = {XGA;f(XìeY}-
Note-se que pode ocorrer f`*(Y) = ø mesmo que Yc B seja um
subconjunto não-vazio. Isto se dá precisamente quando Yn (A) = ø, f
ISÍO é, quando Ynão tem pontos em comum com a imagem de Em par- f
f
trcular, não é sobrejetiva, Dado yeB, escrevemos f"(y) em vez de
ƒ “*({y}). Pode acontecer que f '1(y) possua mais de um elemento, pois f
pode não ser injetiva.

EXEMPLO Os subconjuntos do plano de?nidos em Geometría Ana-


17.
lítica por meio de equaçöm e desigualdades são imagens
rnversas de conjuntos. Por exemplo a reta que tem a equação ax + by = c
e o conjunto X = {(x, y)e R2; ax_+ by = c}. Consideremos a função
f: R2 -› IR, deñnida por ƒ(x, y) = a$cj+ by. Então a reta X é a ìmagem
rnversa do conjunto {c} por f, ou seja, X =f'1(c). Também a circun-
ferência cuja equaçãoé xl + yz = 1 (centro na origem e raio 1) é o con-
junto C = {(x, y)e IR2; x2 + yz = 1}. Tomemos a função g: R2 -› R,
de?nida por g(x, y) = xl + yz. Temos C = g`¡(1)_
11' Curso de anälise

Agora consideremos o disco D dé ¿centro na origem


e raio 1.
Temos D =|{(x, y)eIR2; xl + yz 5 1}. Seja g: R2-›
IR, ainda, a
função definida por g(x, y) = x2 + y¡. Tomemos
o intervalo I = [0, 1] =
= {te R; 0 5 t 5 l}. Então o disco D é a imagem inversa
do intervalo I
pela função gr D = g'¡(I).
As imagens inversas se comportam bem relativamente
às operaçöes
com conjuntos. Na relação abaìxo, Ye Z indicam
suhconjuntos de B.
Dada uma função f: A -›B, remos

Invl) f`*(Yv Z) =f_l(Y) Uf_1(Z)›


Inv2) f_`(Yf\ Z) =f_l(Y) f`\f_1(Z),
ÍIW3) fäli? Y) = ͦf`l(Y).
Inv4) Y C Z=f`1(Y) cf`1(Z),
Inv5) f`1(B) = A,
ÍHV5) f"(ø) = ø-
Vamos demonstrar as três primeiras.
Inv1)Temos xef"(YuZ)<›f(x)e YuZ¢>f(x)e
You f(x)eZ<=›
<=›xef"1(Y) ou xef`1(Z)~=>xef`1(Y)uf`*(Z)_
Inv2) xef`1(Yr\Z)¢›f(x)e YnZ<›f(x)eYef(x)eZ¢=›xef`*(Y)
9 X5f_1(Z)¢>XGf*1(Y) f¬f'1(Z)-
Inv3) xef'1(|] Y)¢=›f(x)e[¦ Y-=›f(x)¢Y~=>x¢f'1(Y)<›xe?f"*(Y).

§4 Composição de funçöes
Sejam f: A -› B e g: B -› C funçôes tais que o
dominio de g é igual
ao contradomínio de ¡Í Neste caso, podemos
definir a função composza
gøfz A -›. C, que consiste em aplicar primeiro
samente,
f e depois g. Mais preci-

(g<›f)(x) = g(f(x)) para todo xeA.


Dadasƒ: A -› B, g: B ¬› C e h: C -› D, vale a lei associativa
= h<›(g~›f):
(h= g)°f =
A -› D. Com eieito, para todo xeA, temos:

[(h° y)°f](X) = 01° 9)(f(X)) = h[9(f(X))] =


= h[(9°f)(X)] = [h°(9°f)](X)-
Observamos que, mais geralmente, basta que a imagem
f(A) da
f
função esteja comida no dominio de g para que
a de?nição (g<›f)(x) =
= g(f(x)) faça sentido e forneça a função composta
gvfz A -› C.
Coniunros e funçöus 17

Se ƒ: A-›B e gc B-›C são injetivas então g<›ƒ: A-›C é injetiva.


Também a composta de funçöes' sobrejetivas e sobrejetiva. Em particular,
a composta de duas bijeçöes é uma bijeção. Estes fatos são de veri?cação
imediata.
Por outro lado, qualquer função ƒ: A -›B pode ser escrita como
composta ƒ = h<›f¡ de uma função injetiva h com uma função sobrejetiva.
f
Basta considerar fl: A -› f (A), definida por f¡(x) = (x), e a inclusão
h: ƒ (A) -› B.
Também podemos escrever qualquer função ƒ: A -› B como composta
ƒ = n°F de uma função sobrejetiva 1: com uma função injetiva F. Basta
tomarF:A -› A B,ondeF(x) = (x,f(x))e1z:A ›< B -› B,comn(x,y) = y
><

(segunda projeção).
Sejamf: A ~› B e g: B -› C funçöes. Dado X c A, tem-se (g°f)(X) =
= ø(f(X))- Se Z C C, 1611105 (9°f)“(Z) =f"(ø“(Z))-
Provemos esta última relação. Para xeA, temos:

>¢Gf“(9“(Z))<>f(X)Gø"(Z)¢>9(f(X))EZ<>
<=>(9°f)(>¢) G Z@ X G (9°f)' 1(Z)-

A restrição de uma função f: A -› B a/um subconjunto X c A é a


função ƒ|X: X -› B, de?nida por (f| X)(x) =f(x) para todo xe X. Con-
f
siderando-se a inclusão i: X -› A, temos |X = foi: X -› B.
Dado X C A. se g: X-›B é a restrição de uma função f: A -›B
ao conjunto f
X, diz-se também que é uma extensãn de g. Estender uma
função g: X -› B ao conjunto A :› X é, portanto, obter uma funçãof: A -› B
f
que coincida com g em X, isto é, tal que [X = g. Evidentemente há,
em geral, diversas extensöes da mesma função g.
Um grande número de problemas matemáticos importantes se re-
duzem a estender uma ou vârias funçöes de tal modo que as extensöes
satisfaçam a certas condiçöes adicionais (continuidade, analiticidade, etc.).
A função que se deseja estender é chamada a “condição de contorno”.
Dadas as funçöes f: A -› B e g: B -› A, diremos que g é urna inversa
f
à esquerda para quando gwf = id Á: A -› A, ou seja, quando g(f(x)) = x
para todo x e A.
Por exemplo, sejam A o conjunto dos números reais 2 0 e IR o con-
junto de todos os números reais. Consideremos f: A -› ER, definida por
f(x) =x2, e g: [R-›A, definida por g(y)=`/; se y 2 0 e g(y) = 0 se
y < 0. Para ,todo xeA, temos g(f(x)) = g(x') = \/3:7 = x. Logo go/ =
= id ¿ e, portanto, g é uma inversa ã esquerda de ¡Í Note-se que qualquer
função h: IR -› A, tal que h(y) = J;
para y 2 0, é uma inversa à es-
1 8 Curso de análise

querda de ƒ (A de?nição dos valores h(y) para y <“Ó pode ser qualquer,
sem que ?que afetada a igualdade hof = id A).
Uma função f: A -› B possui inversa à esquerda se, e somente se, é
ínjetiva.

Demonstração. f f
é injetiva, para cada ye (A) existe um único xeA
Se
f
tal que y = (x). Escrevamos x = g(y). Isto de?ne uma
f f
função g: (A) -› A tal que g( (x)) = x para todo xeA. Completamos a
de?nição de g: B -›A pondo, por exemplo, g(y) = xo (elemento que ñ-
xamos em A) para yeB~f(A). Obtemos gr B-›A tal que g°f= idA.
Reciprocamente, se existe g: B ~› A tal que g«›f= idA emão, dados x', x"
em A, f(x') =f(x”)=> x' = g(f(x')) ¿ g(f(x”))= x”, e, portanto, é iri- f
jetiva.
~Uma função g: B -›A chama-se inversa à díreíta de uma função
f: A¬ B quando føg = ida: B -›B, ou seja, quando f(g(y)) = y para
todo y E B.
Por exemplo, seja f: N -› N definida por f(1) = e, se x > 1, f(x) =
1

= número de fatores primos distintos que entram na composição de x.


De?namos gc N -› N pondo g(y) = menor número natura] que é 0 pro-
duto de y fatores primos distintos. Então, para todo número natural y,
temos f(g(y)) = y. Logo fo g = idN fe, portanto, g é uma inversa à direita
f
para Outras funçöes h: N -› N poderiam ser de?nidas com a proprie-
f
dade oh = idN. Por exemplo, poderiamos por h(y) = `menor número
natural divisível por 13 que é o produto de' y fatores primos distintos.
Uma função f: A -› B possui inversa à direitdse, e somente se, é sobre-
jeriva.

Demonstração. Seja ƒ: A -›B sobrejetiva. Então, para cada yeB, o con-


junto ƒ`1(y) não é vazio. Escolhamos, para cada yeB,
f
um xeA tal que (x) = y e ponhamos g(y) = x. Isto define uma função
gr B -› A tal que f(g(y)) = y. Logo g é uma inversa à direita de ¡Q Reci-
procamente, se existe gc B-›A com f?g = id, então, para cada ye B,
f
pondo x = g(y), temos (x) = f(g(y)) = y. Logo é sobrejetiva. f
Uma função g: B -› A chama-se inversa da função ƒ: A -› B quando
gøf= idA eƒog =~idB fisto é, quando g é inversa à esquerda e à direita
para f
Por exemplo, seja a um número racional ¢ 0 e deñnamos f: Q -› 0
pondo f(x) = ax. A função g: Q -› Q, de?nida por g(x) = šv é inversa def.
Outro exemplo: dada uma função arbitrâria f: .A ¬› B, seja G(f) o
f
gráñco de (Lembremos que G(f) é o subconjunto de A ›< B formado
Conjuntos e fun?es 1 9

pelos pares ordenados (x, ƒ(x)), onde x percorre A.) Delìnimos uma função
F: A -› G(f) pondo F(x) = (x, f(x)). Seja 1:2 G(f) -› A deñnida por
1z(x, f(x)) = x. (Evidentemente, rr = 1z,|G(j) é a restrição a G(f) da pri-
meira projeção nl: A B -› A.) Então Fon = idam e n<›F =
>< id,
como
se vê facilmente. Portanto rr é inversa de F.
Segue-se das duas proposiçöes anteriores que uma função f: A -› B
possui inversa se, e somente se, é uma bijeção.
Ao contrario das inversas de um só lado, se urna função f: A -› B
possui uma inversa, ela é única.
Com efeito suponhamos que g: B -›A e h: B -› A sejam ambas in-
versas de /Q Então h = h°idB = h<›(ƒ°g) = (h=f)°g = idA°g = g.
O leitor atento terá notado que provamos acima um pouco mais do
que enunciamos, a saber: se ƒ possui uma inversa à esquerda. h, e uma
inversa à direita, g, então h = g e ƒ tem uma inversa.
f
Escreveremos '12 B -› A para indicar a inversa da bijeção fx A -› B.
f
Evidentemente, se A -› B e g: B --› C såo bijeçöes, tem-se (g<›f)' =
: 1

=f'1t›g'1,

§5 Familias
Uma familia é uma função cujo valor num ponto x se indica com L
em vez de f (x).
Passemos às deñniçöes formais.
Seja L um conjunto, eujos elementos chamaremos de índices e repre-
sentaremos genericamente por Ã.
Dado um conjunto X, uma famílüz de elementos de X com índices
em L é uma função x: L-› X. O valor de x no pomo ,leLserá indicado
com o simbolo x , em vez da notação usual x(,l). A família x é representada
,

pela notação (x,)¿E ou simplesmente (xl) quando não houver dúvida


,_

sobre o conjunto de indices L. H V V

Tomemos, por exemplo, L = {1, 2} como conjunto de indices. Dado


um conjunto X, uma familia de elementos de X com indices em L é uma
função x: {1, 2} -› X. Os valores desta função nos pontos e 2 são re-
1

presentados por x1 e xz. Obtém-se assim um par ordenado (xl, xz) de


elementos de X. Reciprocamente, todo par ordenado (xl xl) de elementos
,

de X é uma familia x: {1, 2} -› X. Em suma, os pares ordenados de ele-


mentos de X são as familias de elementos de X com indices no conjunto
L= {1, 2}. Ou seja, o produto cartesiano X2 = X x X é o conjunto
das funçöes (familias) x: {1, 2} -> X. Mais geralmente, dados os conjuntos
20 Curso de análíse

X1 e X2 , 0 produto cartesiano X1 >< X1 é o conjunto das familias x: {1, 2} -›


-›X1 UXZ tais que x1eX1e xZeX2.
Quando L = {1, 2, ..., n} é o conjunto dos números
naturais desde 1
até n, uma família x: L-› X chama-se uma n-upla de
elementos X. Uma
n-upla x = (x,),s,_ é comumente representada pela
notação x = (xl ,..., xn).
O elemento xí é chamado a i-ésima coordenada
da n-upla x = (xl ,..., xn).
Seja (A ¿)¿€ uma família de conjuntos
,_
com índices em L. (Isto quer
dizer: a cada Á el. fazemos corresponder um conjunto
A Ã.) A reunião dessa
família é o conjunto dos elementos que
pertencem a pelo menos um dos
conjuntos AÄ. Ela é representada pela notação U
A¿ ou, simplesmente,
ÃEL
U A ¿_ Assim

U AÄ = {x; existe ¿GL com xeA¿}.


ÃEL

Ainda em Outras palavras, u A ¿ é o conjunto dos elementos


que pertencem
a algum A Ã.
Analogamente, a interseção da familia (A¿)¿ê,_ é
o conjunto dos ele-
mentos que pertencem simultaneamente a todos os
A Á. Notação: H Al
ÃEL
ou simplesmente rw A, Portanto,
H AÄ -= {x; xeA¿ para todo ÄeL}.
ÄEL

Quando L = {1, 2,. . _ , n}, escreve-se

UA,= U Ai=A,o...oA",
¡EL Í=1

?A,= ñ A¡=A¡r¬...r\A,,.
¡EL í=l
Uma família com índices no conjunto N = {1, 2 ,... dos
números }
naturais chema-se uma seqüêncím Assim, uma seqüência
x = (x,,)"SN =
= (x¡, x2 ,..., xn ,... ) de elementos de um
conjunto X é uma função
x: N -› X, onde o valor x(n) é indicado
pelo símbolo xn e chama-se o
n-ésimo termo da seqüência.
Dada uma seqüência de conjuntos (A,,),,eN, sua reunião
e sua inter-
seção são representadas por

U A,,= O A,,=A¡uA2u...uA,,u...
»SN -=1
?NAn= ñ1A,,=A¡nA2r¬...r\A,,r\...
PIE U:
Coniuntos e iunçöm 21

EXEMPLO 18. Para cada ne N, consideremos 0 conjunto

An = {-n, ~n +1, .... ~1, 0, 1,...,n-1, n}. Então


O A" = Z e ñ An = {-1, 0, 1}, como se vê facilmente.
n=1 n=1

Dada uma familia (A ¿),E L de subconjuntos de um conjunto funda-


mental E, tem-se

e |}(uA¿)=n[¦A¿
[¦(r¬A¡)= u[¦A,.
Com efeito, dado xeE, temos sucessivamente

xe[](u A¿)<=›x¢uA¿-»não exiske /IGL tal que xeA,<=›


¢›x¢A¿ para todo ÄeL<=›xe[¦A¿, para todo Â.eL¢>xer¬[¦A¿.
Isto prova a primeira iguaidade. A segunda é conseqüência, levando-se
em conta que U[¦X = X. Com efeito, se escrevermos [¦A¿ = BÃ, temos
EB, = A ,. Logo

ÚUW AA) = mr* GBA) = BEN BA) = UB; = V EA;-

EXEMPLO família de subconjuntos de um con-


19. Seja (A¿)¿E,_ uma
que uA¿ = E equivale a dizer que,
junto E. A?rmar
para todo elemento xeE existe, pelo menos, um ¿GL tal que xeÁ¿›.
Seja B, = [¦A¿. Tem-se U A, = E se, e somente se, a interseção dos BA
é vazia, isto é, n B, = ø. Com efeito, pelo que vimos rw B, = [¦(u A Â).

Dada uma função fr A -› B, consideremos uma familia (AÄ)¿e,_ de


subconjuntos de A, e uma família (B")uêM, de subconjuntos de B. Tem-se

fw A» = Ufvm,
fm A» C f¬f</41),
f¬<u B,› = ~f'*(B,›,
f¬<«¬ B» = nf-*<B,›.
Provemos a primeira e a última dessas a?rmaçöes. Dado y e B, temos:

yef(uA¿)¢›existe xeuA¿ tal que y =f(x)¢.›


<›existem ¿GL e xeA,, com y=f(x)¢›
¢>existe ÄeL tal que yef(A¿)¢›
°YeUf(AA)-
22 Curso de análise

Dado xeA, temos


xef`1(r\Bu)¢>f(x)enBu-=>f(x)eBu para todo ;4eM¢
<›xef'1(Bu) para todo ,ue M<› xe n/"1(Bu).
Anoção de familia permite considerar produtos cartesianos de uma
quantidade arbitraria de conjuntos.›_
Dados os conjuntos A1,...,A", seu produto cartesiano A \= A1 ›<
>< >< An = H Ai é q conjunto formado por todas as n-uplas a =
í=1
=(a1 ,..., an) tais que al eA¡ ,..., an GA".
Em outras palavras, A1 x x A" é o conjunto de todas as funçöes
a: {1,2, ..., n}-›A1uA2u...uAn tais que a(i)=a¿eA¡ para i=
= 1, 2 ,..., n.
Esta de?nição estende a do produto cartesiano A B. ><

Quando A1 = = An = A, 0 produto cartesiano A x A de ><

n cópias de A e indicado com A”. Ele consiste em todas as funçöes


az {1, 2 ,..., n} -› A, ou seja, de todas as n-uplas de elementos de A.
No produto cartesiano A = A1 >< >< Amdestacam-se as projeçöes

11:12/1 ›<›A¡, nz: A -› A2,.`..,n,,: A -›A,,. A i-ésima projeção ni:


A -›A¿
é de?nida pondo-se 1r,(a) = ai = i-ésima coordenada de n-upla
a =
=(a1 ,..., a,_).Dadosa=(a¡, ..., a,,)eb =(b, ,..., b,,)emA1 ›< >< A",

tem-se a = b se, e somente se, †c¡(a) = †r¡(b) para cada i = 1 ,..., n.


Seja X c A1 ›< >< A" . Os elementos x = (xl ,..., xn)deXpossuem

n coordenadas. As funçöes f: X -› B, definidas em X, podem ser pensadas


como funçöes de n variáveis (a primeira variável estando em A1 , a segunda
em AZ, etc.) Em particular, introduzindo-se coordenadas cartesianas no
plano, este se identi?ca com o produto cartesiano R2 = R R. As funçöes
><

f: X -› R, de?nidas em subconjuntos X c RZ, são as funçöes reais de


duas variáveis reais.
Dada uma família de conjuntos (A¿)¿ê ,_ , seu produto cartesiano

A = 1'[ A,
› Ag.
é o conjunto das familias (al)/,EL tais que, para_ cada ÃG L, tem-se a e AÃ.
Em outras palavras, A é o conjunto de todas as funçöes az L-› u A,
tais que a(Ä) = a¿eA¿ para cada Äe.L.
As projeçöes 1I Â: A -› AÄ são definidas por 7E¿(ü) = al. Cada pro-
jeção rr, é uma função sobrejetiva. Dada uma função f: X -›I`lA¿, de um
conjunto qualquer X no produto cartesiano dos A/1, obtém-se, para cada
le L, uma função?: X -› A¿,dada por@ = nløƒ Assirn,f(x) = (j1(x))¿eL
para cada x e X. Reciprocamente, se é dada, para cada à e L, uma função
Conjuntos e funçöes 23

fl X-›A¿, então existe uma única fx X -›l'lA¿ tal que f, = rr¿=›f para
f
cada }.eL. Basta pôr (x) = ( ¡Q(x))¿s,_ para cada xeX. As funçöes f,
chamam-se as coordenadas de jï
No caso particular em que todos os conjuntos A, são iguais ao mesmo
conjunto A, escreve-se AL em vez de H Al. AL é portanto o conjunto de
, ÃGL
todas as funçöes de L em A.
Destaca-se, em especial, o produto cartesiano de uma seqüência de
conjuntos Al, A2,....A,,,..., o qual é representado pelas notaçöes
HA": ñA"=A1><A2><...›<An><._.
|I'EN II=l
Os elementos deste conjunto são as seqüências a = (al, a2,...,a,,,...)
sujeitas a condição de ser an EA" para todo ne N.

EXERCÍCIOS
Dados os conjuntos A e B, seja X um conjunto com as seguintes pro-
priedades:
I.” X :› A e X : B,
Z.” se Y:›A e Y:›B então Y:› X.
Prove que X = A UB.
Enuncie e demonstre um resultado análogo ao anterior, caracteri-
zando A rw B.
Sejam A, B f: E. Prove que A rw B = ø se, e somente se, A c: UB.
Prove também que A U B = E se, e somente se, [¦A <: B.
Dados A, B c E, prove que A <: B se, e somente se, A r\[¦B = ø.
Dê exemplo de conjuntos A, B, C tais que (A U B) rw C aé A U (B rx C).
SeA,X C EsãotaisqueA r\X = øeAuX = E,provequeX = [¦A_
Se A c B, então, B n (A U C) = (B rw C) u A para todo conjunto C.
Por outro lado, se existir C de modo que a igualdade acima seja sa-
tisleita, então A <: B.
Prove que A = B se, e somente se, (A rw [¦B) U ([¦A nB) = ø.
Prove que (A~B) U (B-A) = (A U B)-(A r\B).
Seja AAB = (A -B) u (B~A). Prove que AAB = AAC implica B = C.
Examine a validez de um resultado análogo com n, u ou em vez de A. ><

Prove as seguintes afirmaçöes:


a) C=(A C)u(B C);
(AUB) >< ›< ><

b) (AnB) C=(A C)r¬(B C);


›< >< ><

c) (A~B)><C=(A><C)~(B><C);
d)ACA',BCB'=>A ><B<:A' ><B'.
Curso de análise

Dada a função ft -› B: a) prove que se tem f(X- Y) :›f(X)~ƒ(Y),


A
A; b) mostre que se f for
sejam quais forem os subconjuntos X e Yde
f
injetiva então ƒ (X - Y) = f (X) A (Y) para quaisquer
X, Ycontidos em A.
se, f(A4X) =
Mostre que a função fc A -+ B é injetiva se, e somente
=f(A)-f(X) para todo X C A. todo X <: A;
Dada a função f: A -› B, prove: a)f'1(f(X)) :> X para
X para todo X c A.
b) f é injetiva se, e somente se, f"(ƒ(X)) =
Dada f: A -›B, prove: a) para todo Z c B, tem-se f(f'1(Z)) c Z;
para todo Z <: B.
b) f é sobrejetiva se, e somente se, f(f'*(Z))
= Z
com as
Dada uma família de conjuntos (A¿)¿E,_, seja X um conjunto
seguintes propriedades:

1.“) para todo Ã.eL, tem-se X :› Al;


2.“) se Y D AA para todo ÄGL, então Y :› X.

U A¿.
Prove que, nestas condiçöes, tem-se X = Ã.eL
caracteri-
Enuncie e demonstre um resultado análogo ao anterior,
zando Ñ Al.
¿EL
X <: Y=>f(Y) cf(X) e
Seja f: 9'(A) -› 9'(A) uma função tal que
° f(f¬ XA) = Uf(X›)-
f(f(X)) = X- PIOW que f(UX1)= f¬f(X;) A].
[Aqui X, Ye cada X A são subconjuntos de
Dadas as familias (A¿)¡EL e (B,_)uEM, forme duas familias com indices
em L >< M considerando os conjuntos
V

(AA V B;.)u,,.›eL ›< M e (AA n B,,)¢1.,¢›eL ›< M'

Prove que se tem

(uA,)f~(uB..)=
¡EL peu
U
o1,;t›@¡.›<u
<A;f~B,›-

H A, u (Ã Bu = Q (AÂUBM).
¡eL ¡ASM (Â,¡¡)eLXM
N.
Seja (A¡¡)[,vnEN uma familia de conjuntos com indices em
X N
N ><

Prove, ou disprove por contra-exemplo, a igualdade


no ao tn no

¡QI (DI AU) _ fol (ig AU)


bijeção entre .97(A x B; C)
Dados os conjuntos A, B, C, estabeleça uma
e .9'(A; .9'(B; C)).
CAPÍTULO II

CONJUNTOS FINITOS, ENUMERÁVEIS


E NÃO-ENUMERÄVEIS

De posse dos conceitos gerais e dos fatos básicos a respeito de con-


juntos e funçöes, vamos aplica-los, neste capítulo, para estudar as noçöes
de conjunto ?nito e conjunto in?nito.
Deve-se a Cantor a descoberta fundamental de que ha diversos tipos
de in?nito, bem como a análise desses tipos.
Para os nossos propósitos, é necessârio apenas distinguir, quanto
ao número de elementos, três tipos de conjuntos: os ñnitos, os enumeráveis
e os não-enumeráveis. Aos leitores interessados em mais informaçöes
sobre números cardinais de conjuntos, recomendamos [Halmos] ou a
memória original [Cantor]
A noção de conjunto enumerável está cstreitamente ligada ao con›
junto N dos números naturais. Por isso iniciaremos este capitulo com uma
breve apresentação da teoria dos números naturais a partir dos axiomas
de Peano.
Os axiomas de Peano exibem os números naturais como “números
ordinais”, isto é, objetos que ocupam lugares determinados numa se-
qüência ordenada: é o primeiro número natural, 2 é o número que vem
1

logo depois do l, 3 vem em seguida ao 2, etc. Mas os números naturais


também podem ocorrer como “números cardinais”, isto e, como resul-
tado de uma operação de contagem, em resposta à pergunta: quantos
elementos possui este conjunto?
No §2, empregamos os números naturais para a contagem dos con-
juntos ?nitos, mostrando como eles podem ser considerados como números
cardinais e completando, portanto, sua descrição.
Na Ámemória original [Dedekind], cuja leitura recomendamos, o
conjunto N dos números naturais é definido a partir da teoria dos con-
juntos e os axiomas, hoje conhecidos com 0 nome de Peano, são demons-
trados como teoremas. Esta maneira de obter os números naturais pode
ser encontrada na exposição recente de [Halmos] Do ponto de vista
de Peano, os números naturais não são de?nidos. É apresentada uma
lista de propriedades gozadas por eles (os axiomas) e tudo o mais decorre
dai. Não interessa o que os números são; (isto seria mais um problema
ñlosóñco) o que interessa e como eles se comportam. Embora os axiomas
26 Curso de anålise

por ele adotados já fossem conhecidos por Dedekind, tudo indica que
Peano trabalhou inclependentemente. De qualquer maneira, o mais im-
portante não são quais os axiomas que ele escolheu e sim a atitude que
ele adotou, a qual veio a prevalecer na Matemática atual, sob o nome de
método axiomático.
Uma exposição sistemática dos sistemas numéricos utilimdos na
Anàlise Matemática pode ser feita a partir dos números naturaisjatravés
de sucessivas extensöes do conceito de número: primeiro amplia-se N
para obter o conjunto Z dos números inteiros; em seguida estende-se Z,
passando-se ao conjunto Q dos números racionais, deste se passa para
o conjunto IR dos reais e, dai, para o conjunto C dos complexos. Essa
elaboração, embora instrutiva, é um processo demorado. Os leitores
curiosos poderão consultar o clássieo [Landau], o mais recente [Cohen
e Ehrlich], ou os primeiros capitulos de [Jacy Monteiro], onde
os sistemas
numéricos são encarados sob o ponto de vista algébrico,

§1 Números naturais
Toda a teoria dos números naturais pode ser deduzida dos três axiomas
abaixo, conhecidos como axiomas de Peano.
São dados, como objetos não-de?nidos, um conjunto N, cujos ele-
mentos são chamados números naturaís, e uma função s: N -› N. Para
cada n e N, o número s(n), valor que a função s assume no ponto n, é cha-
mado 0 sucessor de n.
A função s satisfaz aos seguintes axiomas:

Pl. s: N -› Em outros termos: dados m, ne N, s(m) =


N é injetiua.
= s(n) = m = Ou,
n. em palavras, dois números que têm o mesmo su-
cessor são iguais.
P2. N - s(1\|) consta de um só elemento. Ou seja, existe um único número
natural que não é sucessor de nenhum outro. Ele se chama “um” e é re-
presentado pelo simbolo 1. Assim, qualquer que seja n e N, tem-se l 96 s(n).
Por outro lado, se n qé 1 então existe um (único) nee N, tal que s(n0) = n.
P3. (Principio da Indução) Se X <: N é um subconjunto tal que 1eX
e, para todo neX tem-se também s(n)eX, então X = N.

O Principio da Indução pode também ser enunciado da seguinte


maneira:
Conjuntos finitos, enumeráveis e nio-onumen-¡veis 27

Seja 9 uma propriedade referente a números natura.is_ Se 1 gozar


da propriedade 97 e se, do fato de um número natural n gozar de 9 puder-se
concluir que n + 1 goza da propriedade 9, então todos os números na-
turais gozam dessa propriedade.
Uma demonstração na qual o axioma P3 e empregado, chama-se
uma demanstração por indução.
Para dar \1m exemplo ,de demonstração por indução, mostremos
que para todo ne N, tem-se s(n) sé n. Com efeito, seja X = {ne N; s(n) 9€n}.
Tem-se l e X, pois 1 não é sucessor de número algum, em particular l sé s(1).
Além disso neX =› n si s(n) => (pela injetividade de s) s(n) ai s[s(n)] ==›
= s(n)eX. Assim, neX ==› s(n)eX. Como 1eX, segue-se do axioma P3
que X = N, ou seja n aé s(n) para todo ne N.
O Principio da Indução é muito útil para demonstrar proposiçöes
que se referem a inteiros. Ele está implícito em todos os argumentos onde
se diz “e assim por diante”, “e assim sucessivamente” ou “etc.”.
Não menos importante do que demonstrar proposiçöes por indução
é saber de?nir objetos indutivamente

As definiçöes por indução se baseiam na possibilidade de se iterar


uma função f: X -›X um número arbitrârio, n, de vezes.
Mais precisamente, seja f: X -Í X uma função cujo dominio e con-
tradominio são 0 mesmo conjunto X. A cada ne N podemos, de modo
único, associar uma função f": X -› X de tal maneira que fl = e *W = f f
=ƒ<›f". Em particular, se chamarmos 2 = s(l), 3 = s(2), teremos fz =
=f=›? f3 =f°f°?
Numa exposição sistemática da teoria dos números naturais, a exis-
tência da n-ésima iterada ƒ" de uma função fr X -› X é um teorema, cha-
mado “Teorema da De?nição por Indução”. Não daremos sua demons-
tração aqui. Apenas observaremos* que não nos seria possivel, a estas
alturas, definir f' simplesmente como f°f°~~~°f (n vezes) pois “n vezes”
é uma expressão sem sentido no contexto dos axiomas de Peano, já que
um número natural n é, por enquanto, apenas um elemento do conjunto N
(um número ordinal), sem condiçöes de servir de resposta à pergunta
“quantas vezes'?”, até que lhe seja dada a condição de número cardinal.
Admitamos portanto que, dada uma função f: X -›X, sabemos
associar, de modo único, a cada número natural ne N, uma função
f": X-› X, chamada a n-ésima iterada de? de tal modo que fl =f e
Á/'s(n) =f°fn.
Vejamos um exemplo de de?nição por indução. Usando as iteradas
da função s: N -› N, definiremos a adiçãa de números naturais. Dados
pvlí

28 Curso de análise

m, ne N, sua soma m + ne N é de?nida por


m + n = s"(m)_

Assim, somar m com 1 é tomar 0 sucessor de m enquanto que, em geral,


somar m com n é partir de m e iterar n vezes a operação de tomar o su-
cessor. Em outras palavras, temos, por deñnição:
m + 1 = s(m),
m + s(n) = s(m + n).
Assim, se quisermos, poderemos dispensar a notação s(n) para indicar
0 sucessor de n e usar a notação definitiva n + 1 para representar esse
sucessor. Isto será feito gradativamente. Com a notação definitiva, a
última das igualdades acima lê-se:

m+(n+1)=(m+n)+1.
Vemos que a própria de?nição da soma m + n já eontém uma indicação
de que ela goza da propriedadc associativa. Provaremos agora, em geral,
que se tem:
m+(n+p)=(m+n)+p,
quaisquer que sejam m, n, p e N.
A demonstração da propriedade associativa se faz assim: seja X o
conjunto dos números naturais p tais que m + (n + p) = (m + n) + p,
quaisquer que sejam m, ne N. Já vimos que 1eX. Além disso, se peX,
então,
m+(n+s(p))=m+s(n+p)=s(m+(n+p))=
=s((m+n)+p)=(m+n)+s(p).
(No terceiro sinal de igualdade, usamos a hipótese peX e nos demais a
definiçäo de soma.) Logo, peX => s@)eX. Como 1eX, concluimos, por
indução, que X = N, isto é, m + (n + p) = (m + n) + p, quaisquer que
sejam m, n, pe N.
As propriedades formais da adição são relacionadas abaixo:

Associatividade -
m + (ri + p) = (m + n) + p;
Comutatividade -
m + n = n + m;
Lei do corte-m+n=m+p=n=p;
Tricotomia -
dados m, ne N, exatamente uma das três alternativas se-
guintes pode ocorrer: ou m = n, ou existe peN tal que
m = n + p, ou, então, existe qeN com n = m + q.
Ooninntos finitos, enumaráveis e não-enumaráveis 29

Omitimos as demonstraçöes dessas propriedades, que são feitas por


indução.
A relação de ordem entre os números naturais é definida em termos
da adição. Dados os números naturais m, n dizemos que m é menor do
que n, e escrevemos
m < n,
p e N tal que n = m + p. Nas mesmas condiçöes,
para significar que existe
dizemos que n é maior do que m e escrevemos n > rn A notação m S n
significa que m é menor do que ou igual a n.
A relação < goza das seguintes propriedades:

-
Transitividade se m < n e n < p então m < p.
Tricotomia - dados m, n, exatamente uma das alternativas seguintes pode
ocorrer1oum=n, ou m<n ou n<m.
Monotonicidade da adição -
se m < n então, para todo pe N tem-se
m + p < n + p.

Provemos a última: m < n significa que existe q e N tal que m + q = n.


Então (m+p)+q=n+p, e, portanto, m+p<n+p.
Observemos que m < n significa que, para um certo p-EN, temos
n = s"(m), isto é, n é o sucessor do sucessor _. do sucessor de m.
.

Introduziremos agora a multiplicação de números naturais.


Assim, como a soma m + n foi definida como o resultado que se
obtém quando 9 itera n vezes, a partir de m, a operação de tomar o sucessor,
definiremos o produto m-n como a soma de n parcelas iguais a m, ou
melhor, o resultado que se obtém quando se adiciona a m, n~1 vezes, 0
mesmo número m.
Em termos precisos, para cada me N, seja fm: N -› N a função de?-
nida por fm[p) = p + m. (Ou seja, fm é a função “somar m”). Usaremos
esta função para deñnir a multiplicação de números naturais.
O produto de dois números naturais é de?nido assim, m- l = m
C m'(H + 1) = (f,,.)"(m)-
Em palavras: multiplicar um número m por I não o altera. Multi›
plicar m por um número maior do que 1, ou seja, por um número da forma
n + 1, é iterar n-vezes a operação de somar m, começando com m Assim,
por exemplo, m'2 =fm(m) = m + m, m-3 = (f,,,)2(m) = m + m + m.
Lembrando a deñnição de (fm)", vemos que o produto m n está de- f

?nido indutivamente pelas propriedades abaixo:


m~1=m,
m-(n+1)=m-n+m.
30 Curso de anållse

produto deve gozar da proprie-


última xualdade acima já sugere que
o
A
dade distributiva
m~(n+p)=m¬n+m-p.
dos números pe N mis
Demonstrernos este fato. Seja X o conjunto
quais forem m, neN. Acabamos
.
de
que (m + n)-p = m-p + n -p sejam
X, ooncluiremos que
observar que leX. Alem disso, se pe
(m+n)-(p+1)=(m+n)-p+m+n=m-p+n~p+m+n=
=m~p+m+n~p+n=m-(p+l)+n¬(p+1).
a delìnição de produto,
(Nas igualdades acirna usamos, sucessivamente, da adìção
a comutatividade
a hipótese de que pe X, a associatividade
e

e, novamente, a de?nição de produto).


/

X = N, ou seja, (m + n)~p = m'p


+
Segue-se que p + 1eX. Assim,
+ n-p, quaisquer que sejarn m, n, pe
N.
da multiplieação são:
As principais propriedades

Assocíatívidade - m- (n~p) = (m-n)- p;


Comutatívidade - m- n = n- m;
Lei do corte-m-p =n~p=›m=n;
Distributiuidade - m(n + p) =
m- n + m~p;
Monotonicidade - m < n==›m-p < n-p.

Omitiremos as demonstraçöes.

§2 Boa ordenação e o Segundo Principio


de lndução
Diz-se que um número
Seja X um conjunto de números naturais.
mínimo de X) quando se tem
peX é 0 menor elemento de X (ou elemento do conjunto N
o menor elemento
p 5 n para todo ne X. Por exemplo, 1 é
razão, qualquer que seja X c N
de todos os números naturais. Com maior
X.
com leX, 1 é o menor elemento de
elementos de
Dado X c N, se peX e qeX são ambos os menores
X então p 5 q e q 5 p = q. Assim, o menor elemento de um
p, donde
conjunto é único.
o maior ele-
Analogamente, se X c N, um número peX chama-se
quando se tem p 2 n para todo
mento de X (ou elemento máximo de X)
Cnniunros finitos, enumeräveis e não-enumeráveis 31

neX. Nem todo conjunto de números naturais possui um elemento má-


ximo. Por exemplo, o próprio N não tem um maior elemento já que, para
todo neN tem-se n +1> n.
Se existir o elemento máximo de um conjunto X C N, ele é único.
Com efeito, se peX e qeX são ambos máximos então p 2 q e q 2 p,
donde p = q.
Um resultado de grande importância, até mesmo como método de
demonstração, é o fato de que todo conjunto não-vazio de números na-
turais possui um menor elemento. Este fato é conhccido como o Principio
da Boa Ordenação.

TEOREMA 1 (Principio da Boa Ordenação). Todo subconjunto não-vazio


A C N possui um elemento
mínimo.

Demonstração. Usando a notação I" = {pe N, É p 5 n}, consideremos


1

o conjunto X C N, formado pelos números neI\| tais


que In C N ~A. (Assim, dizer que neX signi?ca afirmar que n¢A e que
todos os números naturais menores do que n também não pertencem a A.)
Se tivermos 1eA, o teorema estará demonstrado pois 1 será o menor
elemento de A. Se, porém, for 1¢A então 1eX. Por outro lado, temos
X qé N. (Pois X C N-A e A 1+ ø.) Assim, X cumpre a primeira parte
dá hipótese de P3 (contém 1) mas não satisfaz à conclusão de P3 (não é
igual a N). Logo não pode cumprir a segunda parte da hipótese. Isto quer
dizer: deve existir algum neX tal que n + 1¢X. Seja a = n + 1. Então
todos os inteiros desde até n pertenccm ao complementar de A mas
1

a = n + 1 pertence a A. Desta maneira, a é o menor elemento do con-


junto A, o que demonstra o teorema.
Do Principio da Boa Ordenação decorre uma proposição conhecida
como 0 Segundo Principio da Indução, que demonstraremos agora.

TEOREMA 2 (Segundo Principio da Indução). Seja X C N um conjunto


com a seguinte proprieda-
de: dado ne N, se X contém todos os números naturais m tais que m < n,
então neX. Nestas condiçöes, X = N.
Demonstração. Seja Y = N ~X. A?rmamos que Y = ø. Com efeito, se Y
não fossc vazio, existiría um elemento minimo p e Y Então,
para todo número natural m < p, seria meX. Pela hipótese feita sobre X,
teriamos peX, uma contradição.
32 Curso de análise

O Segundo Principio da Indução oonstitui um método útil para


demonstração de proposiçöes referentes a números naturais. Ele também
pode ser enunciado assim: Seja .W uma propriedacle relativa a números
naturais. Se, dado neN, do fato de todo número natural m < n gozar
da propriedade 9 puder ser inferido que n gom da propriedade 9”, então
todo número natural goza de 9.

EXEMPLO 1.Um número natural p chama-se primo quando p #1 e


não se pode escrever p=m-n com m<p e n<p. O
chamado Teorema Fundamental da Aritmética diz que todo número
natural se decompöe, de modo único, como produto de fatores primos.
A demonstração utiliza o Segundo Principio da Indução. Com efeito,
dado ne N, suponhamos que todo número natural menor do que n possa
ser decomposto como produto ,de fatores primos. Então, ou n é primo
(e neste caso n é, de modo trivial, um produto de fatores primos) ou então
n = m^k, com m < n e k < n. Pela hipótese de indução, m e k são pro-
dutos de fatores primos. Segue-se que n também o é. Pelo Segundo Prin-
cipio da Indução, concluimos que todo número natural é produto de
números primos. Omitimos a demonstração da unicidade.
Encerraremos este parágrafo falando do método geral de deiìnição
por indução.
Seja X um conjunto qua1quer,'I`rata-se de definir uma funçãof: N -› X.
Suponhamos que nos seja dado o valor f(1) e seja dada também uma
regra que nos permita obter f(n) desde que conheçamos os valores (m), f
para todo m < n. Então existe uma, e uma só, ƒunção ƒ: N -›X nessas
condiçöes. Este é 0 método geral de definição por indução (ou por recor-
rência).
A añrmação acima constitui um teorema, cuja demonstração reduz-se
à iteração de uma função auxiliar. (Veja [G1eason], p. l45.) Daremos
aqui apenas alguns exemplos Outras deiìniçöes por indução serão vistas
no §3, logo a seguir.

EXEMPLO 2.Fixado ae N, deñnamos uma função ƒ: N -› N, indutiva-


mente, pondo f(1) =a e f(n + 1) = a~f(n). A função f
cumpre então f(2) = a~a, f(3) = a' a-a, etc. Logo f(n) = a". Acabamos
de de?nir,por indução, a n-ésima potência do número natural a. Note-se
que, neste caso, temos apenas a iteração da multiplicação por ar isto é,
a forma mais simples de de?nicão por indução. Os exemplos seguintes
requerem a forma geral, isto é, não se reduzem imediatamente â iteração
de uma função dada.
Conjuntos finitos, enumeráveis e não~enumeráveis 33

l;XEMPLO 3. Seja (pz N -+ Nafunção definida indutiwamcntc por <p(l) : I

e cp(n +1)=(n + 1)-q›(n). Então <p(1)=1, z¡›(2) = 2-1,


42(3) = 3~2' 1, etc. Assim, 1,/›(n) = n'(n~l)...2~ 1, ou seja. <p(n) = ri! é
o fatorial de n.

EXEMPLO 4. De?namosf: N -›0 indutivamente pondof(l) = 1,/`(2) = 1

= 1/2 e, em g?ìfêli. fm + 2) = ?ïágf-Íl=En1ã0¡>(3) =

= 3/4. f(4) = 5/8, etc. Cada valor f(x)_ para n > 2, é a média aritmética
dos dois valores anteriores de f.

EXEMPLO 5. Asoma al + + un de uma n-upla de números naturais


al ,..., an é de?nida indutivamente assim: a¡ e al + az
já se conhecern Supondo que já se saiba somar n números quaisquer,
pöe-se. por definição, a, + + añ, = (al + + an) +¢1»+1. A pri-
meira vista, não se vê aqui a definição de uma função f: N --› X. por in-
dução. Na realidade, porém¬ a soma de n números naturais (n fixo) é uma
funçâo an: N" -› N. O que se acabou de definir indutivamente foi a Íunção
ƒ: n -› an. (Qual é o contradominio X de f'?]

EXEMPLO Também o produto al -al


6. an de uma n-upla de números
^ _ _ _ -

naturais é de?nido indutivamente: al e al -az são co-


nhecidos. Pöe-se (a¡ ›a2~...~a,,H) = (al ral-.__-an)-an? _

§3 Conjuntos finitos e infinitos


Neste parágrafo. indicaremos pelo simbolo In o conjunto {1_....n}
dos números naturais desde até n. Mais precisamente, dado n e N, temos
1

In = {peN; 15 5 [1 n}_

Um conjunto X chama-se jìnilo quando é vazio ou quando existe.


para algum neN, uma bijeção

tpï I" -› X.

No primeiro caso. diremos que X tem zero elementos. No segundo caso,


diremos que ne|\| é o número de elementos de X, ou seja, que X possui
n elementos.
34 Curso de análise

Os seguintes fatos deoorrem imediatamente dasdeñniçöes:


a) cada conjunto In é ?nito e possui n elementos;
b) se f: X -› Ye uma bijeção, um desses conjuntos
é ?nito se, e somente
se, o outro é.

Intuitivamente, uma bijeção (pz In -›X signiñca uma contagem


dos
elementos de X. Pondo q›(l) = xl, 40(2) = xz ,..., ço(n) = xn,
temos
X = {x1 xl ,..., x"}. Esta é a representação
,
ordínária de um conjunto
?nlto.
Para que o número de elementos de um conjunto não seja uma noção
ambigua, devemos provar que se existem duas bijeçöes qa:
In ~›X e
1//: Im -› X, então m = n. Considerando
a função compost:-1 ƒ= 1//'løøpz
In ¬› Im, basta então provar que se existe uma
bijeção f: I" -› Im, então
tem~se m = n. Para ?xar idéias, suponhamos m
5 n. Dai, Im c I". A
unicidade do número de elementos de um conjunto ?nito será,
portanto,
uma conseqüência da proposição mais geral seguinte:

TEOREMA 3. Seja A CIn. Se existir uma büeçãoƒ: I" -› A, então A = I".


Demanstração. Usaremos indução em n. O resultado é
óhvio para n = 1.
Suponhamos que ele seja válido para um certo n e
consi-
deremos uma bijeção f f
Inu -› A. Ponhamos a = (n + 1). A restrição
:

defa In forneoe uma bijeção f': I” -› A-{a}. Se tivermos A~{a} c In,


então, pela hipótese de indução, concluiremos que A~{a}
= In, donde
a = n +'1 e A = Inn. Se, porém, não for A~{a}
c I", então deve-se
ter n + 1eA-{a}. Neste caso, existe peln? tal
queƒ(p) = n + 1. Então
de?niremos uma nova bijeção g: I” +1 -›A pondo g(x)
e x aë n + 1, enquanto g(p) = a, g(n
f
= (x) se x aš p
+ 1) = n + 1. Agora, a restrição de
g a I, nos dará uma bijeção g': In -›A-{n +
-{n + 1} c In. Logo, pela hipótese de indução, A-{n + 1} = In, A-
1}. Evidentemente,
donde
A = IH1. Isto conclui a demonstração.

coROLAR1o 1. Se existir uma büeção f: Im -› In então m


= n. Conse-
qüentemente, se existem duas büeçöes I//:I,, -› X e
(pz Im -›
-› X, deve-se ter = n.m
De fato, podemos supor, para ?xar as idéias, que m
5 n. Então Im c In
Tomando-se A = Im no Teor. 3, obtemos Im = In e, portanto, _

m = n.
COROLÁRIO 2. Não pode existir uma büeção ƒ: X -› Y de um conjunto
finito X sobre uma parte própria Y c X.
Conjuntos finitos, onumeráveis e não-enurneráveis '35-

De fato, sendo X ?nito, existe uma bijeção (pz In -› X. Seja A = cp" *(Y).
Então A é uma parte própria de In e a restrição de rp a A lorneoe uma bi-
jeção øp': A -› Y.

X+›Y
</› fa'
I"›--- g----›A

composta g = (1/7,)71°f°(/¡Z In -› A seria então uma bijeção de In


A
sobre sua parte própria A, o que contradiria o Teor. 3. Logo não existe
a bijeção ?
TEOREMA 4. Se X é um conjunto ?nito então todo subconjunto Y<: X
/inito. 0 número de elementos de
é Y não excede 0 de X
e só é igual quando Y = X.
Demonstração. Basta provar 0 teorema no caso em que X = In. Isso é
claro para n = 1 pois as únicas partes de Il são e 11. ø
Suponhamos o teorema demonstrado para In e consideremos um sub-
conjunto Y c Inn. Se for Yc I" então, pela hipótese de indução, Yserá
um conjunto lìnito cujo número de elementos é 5 n e, portanto, 5 n + 1.
Se porém, n + le Y então Y- {n + 1} c I” e conseqüentemente (salvo
no caso trivial Y= {n + 1}) existe uma bijeção W: IP -› Y- {n + 1}, com
p 5 n. De?niremos então uma bijeção tp: Ip? -› K pondo rp(x) = lIl(X)
para xelp e (p(p + 1) = n + 1. Segue-se que Yé finito e seu número de
elementos não excede p + 1. Como p 5 n, temos p + 1 5 n + 1. Resta
apenas mostrar que se Yc In tem n elementos então Y= In. Isto porém
é claro pois, pelo Cor. 2 do Teor. 3, não pode haver uma bijeção de In
sobre uma sua parte própria Y.

COROLÁRIO fc X -› Yuma função ínjetiva. Se Y for ?níto então


I. Seja
X também será. Além dísso, o número de elementos de X
não excede o de YÍ

f
De fato, delìne uma bijeção de X sobre sua imagem (X), a qual é f
finita, por ser uma parte do conjunto ?nito Y. Além disso, 0 número de
f
elementos de (X), que é igual ao de X, não excede o de Y.

COROLÁRIO 2. Seja g: X -› Y uma função sobrejetíva. Se X for ?nito


então Y também será e 0 seu número de elementos não
excede o de X. '
36 Curso de análise

De fato, como vimos no Cap. I(§4) g possui uma inversa à direita,


isto é, existe uma função ft Y-› X tal que gof = idy. Então g é inversa
à esquerda de fe, portanto,fé uma função injetiva de Yno conjunto ñnito X.
Segue-se do Cor. 1 que Yé ñnito e seu número de elementos não excede
o de X.
Um conjunto X chama-se infinito quando não é ñnito. Mais expli-
citamente, X é in?nito quando não é åazio e, além disso, seja qual for n e N,
não existe uma bijeção (pz In -› X.
Por exemplo, o conjunto N dos numeros naturais é in?nito. De fato,
dada qualquer função ga: In -› N, seja p = <p(l) + + <p(n). Então p >
> para todo x e I", donde p¢ 1p(I,,). Logo, nenhuma função (pz In -› N
q›(x)
e sobrejetiva.
Outra maneira de veri?car que N é inñnito é considerar o conjunto
[P = {2, 4, 6 ,... } dos números pares e de?nir a bijeção f: N -› IP, onde
ƒ (n) = 2n. Como [P é uma parte propria de N, segue-se do Cor. 2 do Teor. 3
que N não é ñnito.
Os fatos que acabamos de estabelecer para conjuntos ?nitos fomecem,
por exclusão, resultados sobre conjuntos inñnitos. Por exemplo, se ƒ X -› Y :

é injetiva e X é in?nito, então Y também é. Dada f: X -› Ysobrejetiva,


se Y é in?nito, então X é in?nito. Ou então, como acabamos de usar,
se X admite uma bijeção sobre uma de suas partes próprias, então X é
infinito. (No § seguinte, mostraremos que a recíproca também vale.)
Outros exemplos de conjuntos in?nitos são Z e Q, pois ambos
contêm N. Segundo uma proposiqìo devida a Euclides, o conjunto dos
números primos é inñnito. Caracterizaremos agora os subconjuntos ?-
nitos (e portanto os inñnitos) de N.
Um conjunto X <: N chama-se limitado quando existe um pe N tal
que p 2 n seja qual for neX.

TEOREMA 5. Seja X c N não-vazío. As seguintes a?rmaçães são equi-


valentes:
(a) X é finito;
(b) X é limitado;
(c) X possui um maior elemento.

Demonstração, Provaremos que (a)=> (b), (b) => (c) e (c) =› (a).

- Seja X = {x1 ,..., x,,}. Pondo p = xl + + x,,, temos


(a)=› (b)
p > x, para todo xeX, logo X é limitado.
(b) =› (c) - Supondo X C N limitado, segueese que o conjunto A =
= {pe N; p 2 n para todo neX} é não-vazio. Pelo Principio da Boa
Coniuntos finitos, enumerávcis u não-onumeråveis 37

Ordenação, existe po GA, que é o menor elemento de A. A?rmamos que


deve ser p0eX. Com efeito, se fosse po¢X então teríamos po > n para
todo neX. Como X 9€ø, ¡sto obrigaria po > 1, donde po = pl + 1.
Se existisse alguin neX com pl < n isto traria po = p¡ + 1 5 n e (como
estamos supondo p0¢X)p0 < n, um absurdo. Logo é pl 2 n para todo
neX. Mas isto signi?ca p, e A, o que e absurdo em vista de pl < po e po =
= menor elemento de A. Portanto deve ser p0eX. Como po 2 n para
todo neX, coneluímos que po é o maior elemento de X.
-
(c)=(a) Se existe um elemento peX que é o maior de todos,
então X está contido em Ip e por conseguinte X é ñnito, pelo Teor. 4.
Um conjunto X c N chama-se ilimitado quando não é limitado.
lsto significa que, dado qualquer pe N, existe algum ne X tal que n > p.
Os conjuntos ilimitados X c N são, como acabamos de ver, precisamente
os subconjuntos in?nitos de N.

TEOREMA 6. Sejam X, Yconjuntos ?nitos disjuntos, com m e n elementos


respectivamente. Então X U Y é finito e possui m + n
elementos.
Demonstração. Dadas as bijeçöes go: Im-›X e W: In-› K de?namos a
função E: I,,_+,, -› Xu Ypondo §(x) = <p(x) se 15 x 5 m
e §(m + x) = I//(X) se l S x 5 n. Como X n Y= ø, constata-se imedia-

tamente que š é uma bijeção, o que prova oteorema.

COROLÁRIO1.Sejam X ¡,...,X,, conjuntos ?nitos, dais a dois dis-


juntos, com m¡ ,m,, elementos respectivamente. Então
. . . ,

X¡ u... uX,, é finito e possui ml + + mk elementos.


O corolário se obtém aplicando-se o teorema kfl vezes.

COROLÁRIO 2. Sejam Yl ,..., Y*


conjuntos finitos (não necessariamente
disjunlos) com m_, ,..., mk elementos respectivamente. En-
tão Y, u...u K, é finito e possui no máximo ml + + mk elementos.
Para cada í = 1 ,..,, k, seja Xi = {(x, i); xe l§}, ou seja Xi = X ›< {i}.
Então os X são dois a dois disjuntos e cada X possui mi elementos. Logo
¡ ¡

X, u...u X, é fmito e tem m, + + m,, elementos, pelo Cor. l. Ora,


a aplicação f: X1 u...uX,( -› Y, u...u
}§,, de?nida porf(x, i) = x, é
sobrejetiva. O resultado segue-se.

COROLÁRIO 3. Sejam X1 ,...,Xk conjuntos ?riitos com m, ,...,m,, ele-


mentos respectivamente. 0 produto cartesiano X 1 x >< ~ ~ -

x Xh éjìnito e possuí ml -mz ~ elementos.


38 Curso de análin

Basta demonstrar o Cor. 3 para k = 2, pois o caso geral se reduz a


este mediante aplicaçöes sucessivas do mesmo resultado. Ora, dados
Xe Yñnitos, escrevamos Y= {y¡ ..., y,,}. Então X x Y= X,
, uu
X",
onde Xi = X x {y¡}. Como os Xi são dois a dois disjuntos e possuem
o mesmo número de elementos (digamos m) que X, concluímos que X x Y
possui m + m + + m = m-n elementos.

COROLÁRIO 4. SeX e Y são ?nitos e possuem respectivamente m e n


elementos, então o conjunto 5' (X, Y) de todas as funçães
f: X -› Y é ?nito e possui n"' elementos.
Consideremos primeiro o caso em que X = Im. Então uma função
ƒ: Im -› Y é simplesmente uma m-upla de elementos de Y Em outras
palavras, .9"(I,_; Y) = Y x x Y (m fatores). Pelo Oor. 3, o número de
elementos de .9'(I,_; Y) é n"'. O caso geral reduz-se a este. Com efeito, seja
(pz Im -› X uma bijeção. A correspondencia que a cada ƒ: X -› Y associa
ƒwp: Im -› Y é uma bijeção de .9'(X; Y) sobre .9'(Im; Y) Logo estes dois
conjuntos possuem o mesmo número de elementos, a saber, n'“.

§4 Conjuntos enumeráveis
Um conjunto X diz-se enumerável quando é ?nito ou quando existe
uma bijeção f: N -› X. No segundo caso, X diz-se in?nita enumerável
e, pondo-se xl =f(l), x, =f(2) ,... ,xn =f(n) ,... ,tem-se X = {x1 ,xl ,...,
xn ,...}. Cada bijeção ƒ: N -› X chama-se uma enumeração (dos elementos)
de X.

EXEMPLO 7. A f
bijeção f: N -› IP, (n) = 2n, mostra que o conjunto P
dos números naturais pares éinñnito enumerável. Ana-
logamente, g: n›-› 2n-1 de?ne uma bijeoio de N sobre o conjunto dos
números naturais lmpares, o qual é, portanto, infinito enumerâvel Tam-
bém o conjunto Z dos números inteiros e enumerâvel. Basta notar que a
função h:Z -› N, defmida por h(n) = Zn quando né positivoeh(n) = ~2n +1
quando n é negativo ou zero,é uma bijeção. Logo, h'1: N †› Z é uma
enumeração de Z.
TEOREMA 7. Todo conjunto in?nito X contém um subconjunto infinito
enumerável.
Demonstração. Basta de?nir uma função injetiva fz N -›X. Para isso,
começamos escolhendo, em cada subconjunto não-vazio
Conjuntos finitos, enumeråveis e não-enumeravsis 39

A c X,um elemento x A e A. Em seguida, definimos por indução. Pomos f


ƒ(1)= xx e, supondo já definidos f(1) ,...,
f(n), escrevemos An = XA-
f ,...,
-{ (1) f(n)}. Como X não é finito, An não é vazio. Poremos então
f(n + 1) = xAn. Isto completa a defìnição indutiva da função f: N -› X.
A?rmamos que fé injetiva. Com efeito, dados m sé n em N tem-se, digamos
m < Então f(m)e{f(1),..., f(n41)} enquanto que f(n)e |] {f(1) ,...,
ri
f(n-1)}. Logo f f
(m) aé (n). A imagem ƒ (N) é, portanto, um subconjunto
infinito enumerável de X.

COROLÁRIO. Um conjunto X é in?nito se, e somente se, existe uma bi-


jeção f: X-› Y, de X sobre uma parte própria Y<: X.
Com efeito, se uma tal bijeção existir, X será in?nito, pelo Cor. 2
do Teor. 3. Reciprocamente, se X é infinito, contém um subconjunto
infinito enumerável A = {a¡ az ,..., an ,... }. Seja Y = (X-A) u {a¡ ,a_,,
,

...,a¡,, ,... Evidentemente, Y é uma parte própria de X. De?nimos


uma bijeçãof: X -› Ypondof(x) = x se xeX~A ef(a,,) = az".
Evidentemente, o corolàrio acima também pode ser enunciado assim:
“Um conjunto é ?nito se, e somente se, não admite uma bijeção sobre
uma sua parte própria”. Obtém-se assim uma caracterização dos con-
juntos ñnitos na qual não intervém o conjunto N. Esta foi a maneira como
Dedekind de?niu conjunto finito.

TEOREMA 8. Todo subconjunto X <: N é enumerável.


Demonstração. Se X for finito, é enumerável. Se for infinito, de?niremos
indutivamente uma bijeção f: N -›X. Poremos f(l)=
= menor elemento de X. Suponhamos f(1) ,..., (n) de?nidos de modo f
a satisfazerem as seguintes condiçöes: (a) f(1) <ƒ(2) < <f(n); (b)
pondo B" = X~{f(1) ,..., ƒ(n)}, tem-se f(n) < x para todo xeB". Em
seguida, notando que B" qé ø
(pois X é in?nito) deñnimos (n + 1) = f
= menor elemento de B". Isto completa a defínição de f: N -› X, de
modo a serem mantidas as condiçöes (a) e (b) para todo n e N. Segue-se
de (a) que f é injetiva. Por outro lado, (b) implica que ƒ é sobrejetiva pois
f
se existisse algum xeX - (N), teriamos xeBn para todo n e, portanto,
f
x > (n), qualquer que fosse ne N. Então o conjunto infinito (N) <: N f
seria limitado, uma contradição, em vista do Teor. 5.

COROLÁRIO 1. Um subconjunto de um conjunto enumeràvel é enume-


rável. Ou; se f
X -› Y é injetiva e Yé enumerável, então
:

X é enumerável.

__4í..
40 Curso de análìse

Uma função f: X -› K onde X, Y<: N, chama-se crescente quando,


dados m < n em X, tem-se f(m) <f(n).
COROLÁRIO 2. Dado um subconjunto infinito X <: N, existe rima bi-
jeção crescente f: N -› X.
Isto o que foi demonstrado no Teor. 8.
é
Segue-se do Teor. 8 que o conjunto dos números primos é (inñnito e)
enumerável.

TEOREMA 9. Seja X um conjunto enumerável. Se f: X -› Y é sobrejetiva,


então, Y é enumerável.

Demonstração. Existe gi Y-› X tal que /bg = idy. Logo é uma inversa f
à esquerda de g, e, portanlo, g é irijetiva. Segue-se que Y
e enumerável. (Cor. do Teor. 8.) 1

TEOREMA 10. Sejam X, Y conjuntos enumeráveis. 0 produto cartesiano


X x Y é enumerável.
Demonstração. Existem funçöes injetivas (pz X -› N e 1//: Y-› N. Logo
g: X Y-› N ›< N, dada por g(x, y) = (¢p(x), ul/(y)) é in~
><

jetiva. Assim sendo, pelo Cor. do Teor. 8, hasta provar que N ›< N é
1

enumerável. Para isso deñnimos a função f: N >< N -› N, onde (m, n) = f


= 2"' 3". Pela unicidade da decomposição em fatores primos, fé injetiva,
~

donde fomeoe uma bijeção de N x N sobre 0 conjunto enumerável


ƒ(N N) r: N.
><

COROLÁRIO 1. 0 conjunto Q dos números racionais é enumeráuel.


De fato, se indicarmos por Z* o*conjunto dos números inteiros aé Ó,
veremos que Z* é enumerável. Logo é também enumerável o produto
cartesiano Z x Z*. Ora, a função f: Z Z* ~› Q. definida por f(m¬ n) = ><

= é sobrejetiva. Segue-se do Teor. 9 que Q é enumerável.

COROLÁRIO 2. Sejam X, , X2 , . . . , X” , . . . conjuntos enumeráueis. A reu-


m
nião X = U X ,I é enumerável.
n=l
Em palavras: uma reunião enumerável de conjuntos enumeráveis é
um conjunto enumerável.
Para demonstrar tomemos, para cada me N, uma função sobrcjetiva
fm: N -› XM. Em seguida, de?namos uma função fr N ›< N -› X pondo
Conjuntos finitos. enumcráveis e nâcanumcráveis 41

f (m, n) f
= fm(n). Vê-se imediatamente que é sobrejetiva. Como N x N
é enumerável, conclui-se do Teor. 9 que X é enumerável.
Em particular, uma reunião finita X = X1 u..,u
X" de conjuntos
enumeráveis e enumerável: basta aplicar o corolário acima, com X H = ,_

=Xn+2 ="` =
Repetidas aplicaçöes do Teor. 10 mostram que, se X ,..._ X,_ são 1

conjuntos enumeráveis, seu produto cartesiano X = X Xk é¡ >< ><

w
enumerável. Não é verdade, porém, que o produto cartesiano X = H X ,,

n=1
de uma seqüência de conjuntos enumeráveis seja sempre enumerâvel.
Examinarernos este fenômeno no § seguinte.

§5 Conjuntos não-enumeráveis
0 principal exemplo de conjunto não-enumerável que encontraremos
neste livro será o conjunto R dos números reais Isto será provado no
capítulo seguinte. Aqui veremos, atravå de um argumento simples devido
a Cantor, que existem conjuntos não-enumeráveis. Mais geralmente,
mostraremos que, dado qualquer conjunto X, existe sempre um conjunto
cujo número cardinal é maior do que o de X.
Não delìniremos o que seja o número cardinal de um conjunto. Mas
diremos que dois conjuntos X e Y têm o mesmo número cardinal, e escre-
veremos
card (X) = card (Y),

para significar que existe uma bijeção f: X -› Y.


Assim, dois conjuntos ñnitos têm o mesmo número cardinal se, e
somente se, possuem o mesmo número de elementos de acordo com a
deñnição dada no §3. Se X for in?nito enumerâvel, tem-se card (X) =
= card (Y) se, e somente se, Yfor in?nito enumerável.
Dados os conjuntos X, YQ diremos que card (X) < card(Y) quando
existir uma função injetiva f: X ¬› Y mas não existir uma função sobre-
jetiva f: X -› Y.
O Teor. 7 mostra que, para todo conjunto inñnito X, tem-se card (N) 5
5 card (X). Assim, o número cardinal de um conjunto infinito enurnerável
é o menor dos números cardinais dos conjuntos in?nitos.
Lembramos que, dados dois conjuntos X, YQ o simbolo ¶(X; Y)
representa o conjunto de todas as funçöes f: X -› Y.
42 Curso de análise

TEOREMA 11 (Cantor). Sejam X um conjunto arbitrárib e 'Yum conjunto


cantendo pelo menos dois elementos. Nenhuma
função (pz X -› .9'(X; Y) é sobrejetiua.

Demonstração. Dada ga: X -› .97 (X Y), indicaremos com (px o valor de zp


;

no ponto xe X. Assim, (px é uma função de X em`Y Cons-


truiremos agora uma fe .97(X, Y) tal que (px aéf para todo xeX. Isto é
feito escolhendo, para cada xeX, um elemento /`(x)eK diferente de
<px(x). Como Ycontém pelo menos dois elementos, isto é possível. A função
f: X -› Y assim obtida é tal que f(x) ai q1x(x) e, portanto, fyé (px, para
todo xe X. Logo ƒ¢ q›(X) e, por conseguinte, go, não é sobrejetiva.

COROLÁRIO. Sejam X1 X 2 , , . . . . X ,I , . _. conjimtos in?nitos enumeráveis.


eo
0 produto cartesianoy H X" não é enumerável.
n=1

Basta considerar o caso em que todos os X" são iguais a N. Neste


caso_1'IX,, = 9`(N; N), que não é enumeravel, pelo Teor. 11.
O argumento usado na demonstração do Teor. 11 chama-se “método
da diagonal, de Cantor”. Este nome deve-se ao caso particular em que
X = N. Os elementos de .š7(|\|; Y) são seqüências de elementos de Y
Para provar que nenhuma função (pz N -› .ï(N; Y) é sobrejetiva, escre-
vemos zp(1) = sl, <p(2) = sz ,... etc., onde sí, sz ,... são seqüências de
elementos de Y Logo

Si =(.V11; yll? y13=-")


S1 =(y11sy21› y23›---)
ss =(Ys1› Yu- Y1a›---)

Em seguida, formamos uma nova seqüência s = (yl, yz, y¿ ) de ele- ....


mentos de Y simplesmente escolhendo, para cada neN, um elemento
yne Y diferente do n-ésimo termo da diagonal: yn sé yn". A seqüência s
não pertence à lista das seqüências su (pois o n-ésimo termo de s é diferente
do n-ésimo termo de sn). Assim, nenhuma lista enumerável pode esgotar
todas as funçöes em .9'(N; Y).
Como caso particular desse teorema, consideremos o conjunto de
todas as listas infinitas (enumeráveis), que se podem formar utilizando
Conjuntos ?nítos. enumeráveis 9 nio-onurnorávoi: 43

apenas os algarismos 0 e 1, como por exemplo,

11000111...
0 0

01011101...
O 0 0 0 O 0

O conjunto de todas essas listas de zeros e uns não é enumerável.


Seja .¢(A) o conjunto das partes de um conjunto dado A. Conside-
rando o conjunto de dois elementos {0, 1}, veremos agora que existe uma
bijeção:
-f: 9(A)-›9(A; {0, 1}).

A cada X e9(A), isto é, a cada subconjunto X c A, associamos a


função CX: A -› {0, 1} chamada a função característica do conjunto X:
tem-se š,,(x)=1 sexeXeCx(x)=0 se x¢X. V

A correspondencia X ›-› ¿X é uma bijeção de W(A) sobre .9'(A; {0, 1}).


Sua inversa associa a cada função fr A -› {0, 1} 0 conjunto X dos pontos
xeA tais que f(x)=1. `

Como {0, 1} tem dois elementos, segue-se do Teor. 11 que nenhuma


função (pz A -› .9'(A; {0, 1}) é sobrejetiva. Conseqüentemente, nenhuma
função 1//: A -› 9(A) é sobrejetiva. (Se fosse, (p = šø r//: A -› .9*'(A; {O, 1})
também seria sobrejetiva)
Mas existe uma função injetiva evidente f: A -› ¶(A), deñnida por
f(x)= Concluímos então que card (A) <card [9(A)], para todo
conjunto A.
Sobre números cardinais de conjuntos, informamos que, dados dois
conjuntos A e B quaisquer, vale uma, e somente uma, das alternativas
seguintes: card (A) = card (B), card (A) < card (B) ou card (B) < card (A)._
Além disso, se existem uma função injetiva ft A -› B e uma função injetiva
gc B -› A, existirá também uma bijeção h:'A -› B. Para todos estes fatos,
consulte [Ha1mos].

EXERCÍCIOS

1. Prove que, na presença dos axiomas Pl e P2, o axioma (A) abaixo é


equivalente a P3. (A) Para todo subconjunto não-vazio A c N, tem-
se A~s(A) aé ø. .
44 Curso de anälise

Dados os números naturais a, b, prove que existe um número natural


m tal que m~a>b.
Seja a um número natural. Se um conjunto X é tal que aeX e, além
disso, neX =>n + leX, então X contém todos os números na-
turais 2 a.
Tente descobrir, independentemente, algumas das demonstraçöes omi-
tidas no texto. Caso não consiga alguma, consulte um dos livros aqui
citados, ou outros de sua predileção. (Sugestão: Praticamente todas
as proposiçöes sobre N se demonstram por indução.)
Um elemento aeN chama-se antecessor de beN quando se tem
a < b mas não existe ceN tal que a < c < b. Prove que, exceto 1,
todo número natural possui um antecessor.
Use indução para demonstrar os seguintes fatos:
a) 2(1+2+'“+n)=n(n+1);
b)1+3+5+-~'+[2n+1)=(n+l)1;
c) (a-l)(1+a+---+a")=a"“-1, seja quais forem a, neN;
d) n24»n!>2";

Use o Segundo Principio da Indução para demonstrar a unicidade


da decomposição de um número natural em fatoros primos.
Seja X um conjunto com n elementos. Use indução para provar que
o conjunto das bijeçöes (ou permutaçöes) f: X -› X tem n! elementos.
Sejam X e Y conjuntos ?nitos. a) Prove que card (X U Y) + card
(X rx Y) = card (X) + card(Y). b) Qual seria a fórmula correspondente
para três conjuntos? c) Generalize.
Dado um conjunto ?nito X. prove que uma função f: X -› X é injetiva
se, e somente se, é sobrejetiva (e portanto uma bijeção).
Formule matematicamente e demonstre o seguinte fato (conhecido
como o “principio das gavetas“). Se m < n, então, de qualquer modo
como se guardem n objetos em m gavetas, haverá sempre uma gaveta,
pelo menos, que conterá mais de um objeto.
Seja X um conjunto com n elementos. Determine o número de fun-
çöes injetivas f: IF -› X.
Quantos subconjuntos com p elementos possui um subconjunto X,
sabendo-se que X tem n elementos?
Prove que se A tem n elementos, então W(A) tem 2" elementos.
De?na uma função sobrejetiva f: N ~› N tal que, para todo ne N,
0 conjunto f'1(n) seja infinito.
Prove que se X é infinito enumerável, 0 conjunto das partes ?nitas
de X também é (in?nito) enumerável.
Coniumos finitos, enumeráveis e não-enumerávaìs 45

Seja ƒ: X -› X uma função. Um subconjunto Y <: X chama-se estável


relativamente af quando f(Y) <: Y Prove que um conjunto X é ?nito
se, e somente se. existe uma funçåo f: X ~› X que só admite os sub-
conjuntos estáveis ø e X.
Sejaf: X -› X uma função injetiva tal queƒ(X) # X. Tomando x e X-
~j`(X), prove que os elementos x, f(x), f(f(x)) ,... são dois a dois
distintos.
Sejam X um conjunto infinito e Y um conjunto ñnito. Mostre que
existe uma função sobrejetivaf: X -› Ye uma funcão injetiva g: Y-› X.
a) Se X é ñnito e Y e enumeràvel, então 9' (X Y) é enumerâvel. b)
;
Pará
cada função f: N -› N seja A¡ = {ne N;f(n) ¢ 1}. Prove que con- o
junto X das funçöesf: N -› N tais que A¡ e ?nito é um conjunto enu-
meràvel.
Obtenha uma decomposição N = X¡ u X¡u...uX,_u... tal que
os conjuntos X , X 2 ,..._ X ,... são in?nitos e dois a dois disjuntos.
1 ,I

Deñnaf: N x N -› N, pondof(l, n) = 2n~1cf(m + l, n) = 2"' (2n~ 1). -

Prove que feuma bijeção.


única
Seja X c N um subconjunto infinito. Prove que existe uma
bijeção crescente f: N -› X.
Prove que todo conjunto inñnito se decompöe como reunião de uma
in?nidade enumeràvel de conjuntos infinitos, dois a dois disjuntos.
Seja A um conjunto. Dadas duas funçöes /Q g: A -› N, de?na a soma
f+ gr A -› N. o produto f- g: A -› N, e dê o significado da a?rmação
f g g. Indicando com fx a função catacteristica de um subconjunto
X C A, P1'0V9ï(3)Íx,¬y = Cyšy; (U) šxuy = CX +
^šy_šx,\y- Em
particular,šxvy = ¿X + §,,¢› X rw Y= ø; (e) X C Y<›§X 5 šy; (d)
šxfx = _ šx
Prove que o conjunto das seqüências crescentes (nl < nz < 113 < ...)
1 ~

de números naturais não é enumerável. _

Sejam (N, s) e (NQ s') dois pares formados, cada um, por um conjunto
e uma função. Suponhamos que ambos cumpram
os axiomas de
Peano. Prove que existe uma única bijeção f: N -› N' tal quef(1) = 1',
f(s(n)) = s'(ƒ(n)). Conclua queza) m < n -=›f(m) <f(n); b) f(m + n) i
=f(m) +f(H) °),f(m'›1)=ƒ(m)~f(m›-
Dada uma seqüência de conjuntos A, A2 ,..., An ,..., considere
<=

«O »Q

os conjuntos lim sup A" = ñ Ai) e lim inf An =


i=n
U An)-
n: l =n i n= 1 `

a) Prove que lim sup A" é o conjunto dos elementos


que pertencem a
A” para uma in?nidade de valores de n e que lim
inf An é o conjuntos dos
elementos _que pertencem a todo An salvo para um número ?nito de
46 Curso de análise

valores de n. b) Conclua que lim inf An c lim sup A,,. c) Mostre que se
An <: Ann para todo nentão liminfA,, = lim sup An = O A". d) Por
n=l
outro lado, se A" :› AHI para todo n então 1iminfA,, = lim sup A" =
m
= Q A”. e) Dê exemplo de uma seqüêncía (An) tal que lim sup A" aé
n= 1

;É1Í¡IlÍIlfAn_f) Dê exemplo de uma seqüência para a qual os dois


limites coincidem mas Am ¢ A” quaisqucr que sejam m e n.
29. Dados os conjuntos A e B, suponha que existam funçöes injetivas
f: A -› B e g: B -› A. Prove que existe uma bijecão h: A -› B. (Teorema
de Cantor-Bernstein-Schröder.)
CAPÍTULO III

N ÚWM EROS REAIS

Tudo quanto vai ser dito nos capítulos seguintes se referirá a con-
juntos de números reais: funçöes deñnidas e tomando valores nesses
conjuntos, limites, continuidade, derivadas e integrais dessas funçöes.
Por isso vamos estabelecer agora os fundamentos da teoria dos números
reais.
Nossa atitude será. a seguinte. Faremos uma lista contendo vários
fatos elementares a respeito de números reais. Estes fatos serão admitidos
como axiomas, isto é, não serão demonstrados. Deles deduziremos certas
conseqüências, que demonstraremos como teoremas Devemos esclarecer
que, não somente o que usaremos neste livro, mas TODAS as proprie-
dades dos números reais decorrem logicamente dos axiomas que enun-
ciaremos neste capitulo. Esses axiomas apresentam o conjunto IR dos
números reais como um corpo ordenado completo.
Como as noçöes de corpo e de corpo ordenado possuem interesse
algébrioo próprio, apresentamos os axiomas dos números reais por etapas,
deixando em último lugar a existência do sup, precisamente o axioma
não-algébrico, aquele que desempenhará o papel mais importante nos
capitulos seguintes.
Um espirito mais crítico indagaria sobre a existêncüz dos números
reais, ou séja, se realmente se conheoe algum exemplo de corpo ordenado
comp1eto.*Em outras palavras: partindo dos números naturais (digamos,
apresentados através dos axiomas de Peano) seria possivel, por meio
de extensöes sucessivas do conceito de número, chegar à construção dos
números reais? A resposta é añrmativa. Isto pode ser feito de várias ma-
neiras. A passa gem crucial é dos racionais para os reais, a qual pode seguir
o método dos cortes de Dedekind ou das seqüências de Cauchy (devido
a Cantor), para citar apenas os dois mais populares.
Existem livros, como [Dedekind], [Landau], [Cohen e Ehrlich], que
tratam apenas das extensöes do conceito de número. Outros, como [Rudin]
e [Jacy Monteiro] dedicam capítulos ao assunto. Estas são referências
bibliográficas que recomendamos aos leitores interessados Frisamos,
porém, que nosso ponto de vista coincide com o exposto na p. 511 de
[Spivak]:
48 Curso de anålise

“É inteiramente irrelevante que um número real seja, por acaso,


uma coleção de números racionais; tal fato nunca deveria entrar na de-
monstração de qualquer teorema importante sobre números reais. Demons-
traçöes aceitáveis deveriam usar apenas o fato de que os números reais
formam um corpo ordenado completon.” '

Assim, um proccsso qualquer de construção dos números reais a


partir dos racionais é importante apenas porque prova que corpos or-
denados completos existem. A partir dai, tudo o que interessa é que IR
é um oorpo ordenado completo.
Uma pergunta relevante é, porém_ a seguinte: ao de?nir o conjunto IR
dos números reais, não estamos sendo ambíguos'l Em outras palavras,
será que existem dois oorpos ordenados completos com propriedades
distintas? Esta é a questão da unicidade de IR.
Evidentemente, num sentido exageradamente estrito, não se pode
dizer que existe apenas um corpo ordenado completo. Se construimos
os números reais por meio de cortes de Dedekind, obtemos um corpo
ordenado completo cujos elementos são coleçöes de.números racionais.
Se usamos o processo de Cantor, o corpo ordenado completo que obtemos
é formado por classes de equivalencia de seqüências de Cauchy. São,
portanto, dois corpos ordenados completos diferentes um do outro. O
ponto fundamental é que eles diferem apenas pela natureza dos seus ele-
mentos, mas não pela maneira como esses elementos se oomportam. Ora,
já concordamos, desde o capítulo anterior, em adotar o método axiomático,
segundo o qual a natureza intrínseca dos objetos matemáticos é uma
materia irrelevante, sendo o importante as relaçöes entre esses objetos.
Assim sendo, a maneira adequada de formular a questão da unicidade
dos números reais é a seguinte: existem dois corpos ordenados completos
não-isomorfos? A resposta é negativa. Dados K, L, corpos ordenados
completos, existe uma única bijeção f: K -›L tal que f(x + y) =f(x) +
f f f
+ f (y) e f(x- y) = (x)- (y). A função chama-se um isomo?isma entre
f f
K e L. Ela cumpre. ipsoƒacto. a condição x < y<=> (x) < (y). Os corpos
K e L são, pois, isomodos, ou seja, indistinguíveis no que diz respeito a
propriedades de corpos ordenados completos.
Os Exercs. 55 e 56 no fim deste capítulo sugerem uma demonstração
de que, a menos de Lun isomor?smo, existe apenas um corpo ordenado
completo. Isto garante que os axiomas que apresentaremos a seguir des-
crevem os números reais sem ambigüidade alguma.
Números reais 49

§1 Corpos
Um carpa é um conjunto K, munido de duas operaçöes, chamadas
adição e multíplicação, que satisfazem a certas oondiçöes, chamadas os
axiomas de corpo, abaixo especiiìcadas.
A adição faz corresponder a cada par de elementos x, y e K sua soma
x + ye K, enquanto a multiplicação associa a¬ esses elementos o seu
produto x -ye K. Os axiomas de corpo são os seguintes:
A. Axiamas da adição
Al. Assocíatividade- quaisquer que sejam x, y, ze K, tem-se
(x+y)+z=x+(y+z)_
A2. Comutatívidade - quaisquer que sejam x, yeK, tem-se
x + y = y + x.
A3. Elemento neutro - existe 0eK tal que x + 0 = x, seja qual for x e K.
O elemento 0 chama-se zero.
A4. Simétrico - todo elemento xeK possui um simétrioo -xeK tal que
x + (-x) = 0.

Da oomutztividade, segue-se que O + x = x e -x + x = 0, seja qual


for xe K. A soma x + (-y) será indicada com a notação x- y e chamada
a d?erençu entre x e y. A operação (x, y)›-›x- y chama-se subtração.
Somando-se y a ambos os membros de uma igualdade do tipo x -› y = z
obtém-se x = y + z. Analogamente, se x = y + z então, somando --y a
ambos os membros, obtérn-se x~ y = z. Portanto, x- y = 2<›x = y + z.
Dai decorre que o zero é único. Ou seja, se x + 0 = x (para algum xeK
e algum Ge K) então 0 = x~x, ou seja 0 = 0. Resulta também que todo
xe K tem somente um simétrico: se x + y = 0, então, y = 0-x, ou seja
y = -x. Também temos -(-x) = x, já que (-x) + x = 0. Finalmente, vale
alei do corte: x + z = y + z = x = y. (Basta soma: -za ambos os membros
da primeira igualdade.) Concluímos assim que as regras usuais relativas
'à adiqïto e subtração decorrem dos quatro axiomas acima e são, portanto,
válidas em qualquer corpo. A propósito, um conjunto onde está deiìnida
apenas uma operação satisfazendo a estes axiomas é o que se chama um
grupo abeliano.

B. Axiomas da multiplicação
Ml. Associatividade - dados quaisquer x, y, z em K, tem-se
(x-y›~z =x~o~z›.
M2. Comutatividade - sejam quais forem x, yeK, vale x- y = y~x.
50 Curso de análìse

M3. Elemento neutra - existe leK tal que 0 x-l = x, qualquer


1 aé e

que seja xeK. O elemento chama-se "um".


l
M4. Inverso multiplicativo - todo x 0 em K possui um inverso x'1,
1+

tal que x-x'1 =,l.

Por comutatividade, segue-se que x-`1 = 1-x = x para todo xeK,


e que x^x'1=x_1^x=1 para todo x #0 em K.
Os axiomas acima dizem, em particular, que os elementos diferentes
de 0 num corpo K formam um grupo abeliano em relação à operação
de multiplicação. (O elemento neutro é l e, em vez do simétrioo -x, temos
o inverso x`¡.) Conseqüentemente, valem propriedades análogas às que
foram acima demonstradas para a adição, tendo-se o cuidado de lembrar
que 0 não possui inverso multiplicativo.
Dados x e y em K, com y 9€O, escreve-se também x/y em vez de x y'1. ~

A operação (x, y) ›-› x/y, definida para x qualquer e y # 0 em K, chama-se


diuisão e o resultado x/y é o quociente de x por y. Não se divide por zero:
x/0 não tem sentido.
Se y 9€0, tem-se x/y = z-=>x = y~z. Dai se deduz a utilissima lei
do corte: se x z = y-z e z qé O, então x = y. (É importante ter em mente
~

que x-z = y-z só implica x =y quando se sabe, a priori que z a±0.)


Se x- y = x para todo xeK então, tomando x = 1 obtemos y = 1. Isto
prova a unicidade do 1. Saberido-se apenas que x y = x para um certo x,
-

há duas possibilidades: se x sí 0 então y = 1, pela lei do corte. Se, porém,


x = 0 então y pode ser qualquer pois, como veremos logo a seguir, 0› y = 0
para todo ye K. Finalmente, se x- y = l então, como veremos abaixo,
x aé 0 e y ak 0 e (multiplicando por x"1) concluímos y = x'1. Isto prova
a unicidade do elemento inverso.
Por ?m, as operaçöes de adição e multiplicação num corpo K acham-se
relacionadas por um axioma, com o qual ñca completa a de?nição de
corpo.

D1. Axioma da distributividade. Dados x, y, z quaisquer, em K, tem-se


x-(y +z) =x-y+ x-z.
Por comutatividade, tem-se também (x + y)*z = x-z + y-z.
Resulta desse axioma que x~0 =0 para todo xeK. Com efeito,
x-0+x=x-0+x-1=x(0+1)=x-1=x, donde x-0=0.
Por outro lado, dados x, yeK com x- y = 0, segue-se que x = O
ou y =O. Com efeito, se for x~y =0 e x aå 0, então obtemos x~y = x-0
e, por corte, y = 0. Assim, num corpo K, temïse x- y`¢ 0 sempre que
os dois fatores x e y forem ambos diferentes de zero.
Númerosreals 51

No axioma da distributividade está a explicação das “regras dos


sinais”da Álgebra Elementar: (-x) y = x (-y) = -(x y)e (-x) (¬y) = x- y.
~ ~
~
~

De fato, em primeiro lugar temos (-x) y + x y = (-x + x) y = 0-y = 0,


~
- -

donde (-x) y = ~(x y). Analogamente, x (-y)`= -(x y). Logo (vx) (-y) =
~ ^ - - ~

= ¬[x~(-y)] = -[-(x~y)] = x~y. Em particular, (-1)~(-1) = 1.


Exemplos de corpos.
EXEMPLO O conjunto Q dos nftmeros racionais, com as operaçöes
1.

(P/11) + (P,/lll) = (wi + dq)/qq' e (11/q)'(p'/f1') = n1›'/qq'-


(Lembremos a igualdade: p/q = p'/q'<›pq' = p'q.) O simétrico de p/q é
-p/q. O zero é 0/q, seja qual for q vé 0. O inverso do número racional
P/11 ¢ 0 é q/r›-
EXEMPLO 2. O corpo Z, = formado apenas de dois elementos
{O, 1},
distintos
com as operaçöes 0 + 1 = 1 + 0 = 1 7¬
O e 1,
0+0=1+1=0, 0~0=0-1=1-0=Oe1-1=1.Aqui,o simétrico
de cada elemento é ele próprio (e o inverso também).
EXEMPLO 3.0
corpo @(i), cujos`elementos são os pares ordenados
= (x, y) de números racionais (Ou seja, como conjunto,
z
Q(í) = Q >< CD.) As operaçöes são deñnidas assim: (x, y) + (x', y') =
= (x + x', y + y') e (x, y) (x', y') = (xx' -yy', x'y + xy'). O zero é o ele-
-

mento (O, 0) e a unidade é o elemento (1, 0). Escrevendo x para representar


o par (x, O) e usando a notação i = (0, 1), observamos que cada elemento
z = (x, y) = (x, 0) + (O, y) pode escrever-se como z = x + íy e que as
operaçöes acima foram definidas de modo que os “números complexos”
da forma z = x + iy se somem e multipliquem da maneira usual, com o
cuidado de notar que iz = -1. 0(D ehama-se o corpo dos números com-
plexos racionais. A veri?cação dos axiomas ñca a cargo do leitor. Por

exemplo, dado z = (x, y) ak 0, tem-se z^1 = Í? FW


x Y
-

EXEMPLO 4. O conjunto Q(t), das funçöes racionais r(t) = ã%› onde p

e q são polinômios com coe?cientes racionais, sendo q não


identicamente nulo. Se u(t) é também não identicamente nulo, tem-se
É = pr»-«<¢›_ AS operaçöes em Q(t) são definidas
da maneira óbvia.
110) ¢1(r)~M(r)

Para encerrar estas consideraçöes gerais sobre oorpos, observamos


um fato útil. Num corpo K, x2 = yz ;> x = ±y. Com efeito x2 = yz =>
=›x2-yz =0=›(x +y)(x-y) =0==›x +y =0 ou x-y=0. No pri-
meiro caso, x = ~y e, no segundo, x = y.
52 Curso de análise

§2 Corpos ordenados
Um corpo ordenado é um corpo K, no qual se destacou um subcon-
junto P <: K, chamado o conjunto dos elementos positivos de K, tal que
as seguintes condiçöes são satisfeitas:

Pl. A soma o produto de elementos positivos são positivos. Ou


e

seja, x, yeP=>x + yeP e x~yeP.


P2. Dado xeK, exatamente uma das três alternativas seguintes
ocorre: ou x = O, ou xeP ou ~xeP.
Assim, se indicarmos com --P o conjunto dos elementos ~x, onde
xeP, temos K = Pu(-P) u {0}, sendo os conjuntos P, ~P e {0} dois
a dois disjuntos. Os elementos de -P chamam-se negativos.
Num corpo ordenado, se a si 0 então al e P. Com efeito, sendo a ;± 0,
ou aeP ou -aeP. No primeiro caso. az = a-aeP. No segundo caso
al = (~a) (-a)e P. Em particular, num corpo ordenado -= -1 e sempre
~
1 1

positivo. Segue-se que -1e~P. Em particular, num corpo ordenado, ~l


não é quadrado de elemento algum.

EXEMPLO Q é um eorpo ordenado. no qual o conjunto P é formado


5.
pelos números racionais p/q tais que p~qe N. (Intuiti-
vamente_ isto significa que os inteiros p e q têm “o mesmo sinal”.)

EXEMPLO 6. O corpo <Q(t) pode ser ordenado chamando-se uma fração


r(t) = % positiva quando, no polinômio pq, o coe?ciente

do termo de mais alto grau for positivo. O conjunto P das fraçöes positivas
segundo esta de?nição cumpre as condiçöes Pl e P2. Com efeito, dadas
as fraçöes positivas r = e r' = gp os coeficientes dos termos de graus

mais elevados em pq e em pq são > 0. Em r + /, o produto do numerador


pelo denominador é o polinömio pq(q')1 + p'q"q2, cujo termo de mais
alto grau deve ter coeficiente positivo. Logo, a soma de duas fraçöes “po-
sitivas” é positiva. As demais a?rmaçöes se verificam sem di?culdade.
EXEMPLO 7. O corpo ZZ não pode ser ordenado pois l + 1 = 0 en-
quanto num corpo ordenado l deve ser positivo e a soma
1 + 1, de dois elementos positivos deveria ainda ser positiva. Tambem
o corpo UU), dos números complexos racionais, não comporta uma or-
denação compativel com suas operaçöes pois o quadrado do elemento
i= (O, 1) e igual a -1. Num corpo ordenado, nenhum quadrado pode ser
negativo e el sempre é negativo.
Números reaix 53

Nim: corpo ordenado K, escreveremos x < y, e diremos que x é


menor do que y, para signi?car que y-xeP, ou seja, que y = x + z, onde
zeP. Nas mesmas circunstâncias, escreve-se também y > x e diz-se que
y é maior da que x.
Em particular x > 0 signiñca que x GP, isto é, que x é positivo, en-
quanto x < 0 quer dizer que x é negativo, isto é, que ~xeP. Se xeP e
ye-P tem-se sempre x > y.
A relação de ordern x < y num corpo ordenado K goza das pro-
priedades seguintes:
-
01. Transitividade se x < y e y < z então x < z.
-
02. Tricotomia dados x, yeK, ocorre exatamente uma das alter-
nativas seguintes: ou x = y, ou x < y, ou x > y.
03. Monotonicidade da adição: se x < y então, para todo z e K, tem-se
x + z < y + z.
-
04. Monotonicidadz da multiplicação se x < y então, para todo
z > 0, tem-se xz < yz. Se, porém¬ for z < O, então x < y implica xz > yz.

Demonstremos estas propriedades:


Ol. Dizer x <y e y < z signi?ca afirmar que y-xeP e z4yeP.
Por Pl concluímos que (z-y) + (y-x)eP, ou seja, z†xeP, o que sig-
ni?ca x < z.
02. Dados x, yeK, ou y~xeP, ou y-x = O, ou y~xefP (isto é,
x› yeP). No primeiro caso tem-se x < y. no segundo x = y e no terceiro
x > y. Estas possibilidades se excluem mutuamente, por P2.
03. Se x < y então y-xeP, donde (y + z)~(x + z) = y-xeP. Isso
signì?ca que x + z < y + z.
O4. Se x <y e z >O então y-xeP e zeP. Logo (y¬x)~zeP,
isto é, y-z-x-zeP, o que significa x-z < y-z. Se, porém, x <y e z < 0,
então y-xeP e -zeP, donde (y-x)-(--z)eP, isto é x-z-y^zeP. o
que signi?ca y~z < x~z.
Em particular, num corpo ordenado K, x < y é equivalente a -y < Ax.
Basta multiplicar ambos os membros de qualquer uma destas desigual-
dades por -l.
Segue-se de O1 e O3 que x < y e x' < y implicam x + x' < y + y',
ou seja, podem-se somar duas desigualdades. membro a membro. Com
efeito,por O3,x<y=-›x+x' <y+x'ey<y'=›y+x' <y' +x'. Por
01. concluímos x + x' < y + y'.
Analogamente, de O1 e O4 segue-se que O < x <y e 0 < x' < y'
implicam xx' < yy', isto é. podem-se multiplicar membro a membro
duas desigualdades formadas por elementos positivos
MW

54 Curso de análíse

Num corpo ordenado K, o produto de um elemento x > O por um


elemento y <0 dá um elemento xy <0. (Basta observar que x(-y) =
= ~(x y) ou então multiplicar ambos os membros de y < 0 por x.) Como
~

l > 0, concluímos de x x* = ~ que se x > 0 deve ser x'1 > 0 também.


1

Assim, o inverso de um elemento positivo e positivo. Segue-se que x > 0


e y > 0 implica x/y > 0.
Se x < y e ambos são positivos, então yA* < x'1. Basta observar

que ~~- = _--


1

y
l

xy
x~ y
X
Num oorpo ordenado K, escreve-se x 5 y para significar que x < y
ou x = y. Lê-se: “x é menor do que ou igual a y”. Nas mesmas circuns-
tâncias, escreve-se y 2 x. Isto quer dizer, evidentemente, que y-x e P U
Os elementos do conjunto P u {0} chamam-se não-negativos e são carac-
terizados pela relação x 2 0.
Tem-se, evidentemente, x 5 x para todo xeK.
Dados x, yeK, tem-se x = y se, e somente se, x 5 y e y 5 x. É muito
freqüente, em Análise, provar-se que dois números x e y são iguais mos-
trando-se primeiro que x 5 y e, depois, que y 5 x.
Com exceção de O2 (tricotomia), que é substituida pelas proprie-
dades x 5 x (rellexividade) e x 5 y, y S x<>x = y (anti-simetría), todas
as propriedades acima demonstradas para a relação x < y transferem-se
para x 5 y.
Num corpo ordenado K, como > 0, temos < + < 1 + +
1 1 1 1 1

+ l < e o subconjunto de K formado por estes elementos é, portanto,

infinito. Mais precisamente, vamos mostrar como se pode considerar


o conjunto N, dos números naturais, naturalmente imerso em K.
Temporariamente, indiquemos com o símbolo 1' o elemento uni-
dade do corpo ordenado K. De?namos uma função f: N -›K pondo
ƒ(1) = 1',ƒ(2) = 1' + 1', etc. A maneira correta de de?nirfé por indução:
f(1) = 1' ef(m + 1) =f(m) + 1'. Por indução, veri?ca-se que f(m + n) =
f
= f(m) + (n) e que (como todos os valores f(n) são positivos) m < p=>
=> f(m) < f (p). Assim, a função f: N -› K de?ne uma bijeção do conjunto N
f
dos números naturais sobre um subconjunto N' = (N), formado pelos
elementos 1', 1' + 1', 1' + 1' + l', etc. Costuma-se identi?car N' com N
e considerar os números naturais contidos em K. Isto é o que faremos.
Temos N <: K e voltamos a escrever l, em vez de l'.
Em particular, todo corpo ordenado é infinito e tem “caracteristica
zero”, isto é + l +1 + sé 0 sempre.
1

Dado o corpo ordenado K e considerando N c K, como estamos


fazendo, os simétricos-n dos elementos ne N e mais o zero (0eK) cons-
Números mais 55

tituem um grupo abeliano, que m identifica com o grupo L dos inteiros.


Assim, temos N <: Z c K.
Mais ainda, dados m, nel, com n aé 0, existe o inverso n'*eK.
Podemos, portanto, nos referir ao conjunto formado por todos os ele-
mentos m-n`1 =%eK, onde m, nel e n7'=0. Este conjunto é um
subcorpo de K (isto é, as operaçöes de K, quando aplicadas a elementos
deste conjunto dão resultados ainda no conjunto). Trata-se do menor
subcorpo de K. Com efeito, todo subcorpo deve conter pelo menos 0 e 1;
por adiçöes sucessivas de 1, todo subcorpo de K deve conter N; por to-
madas de simétricos, deve conter Z e, por divisöes em Z, deve oonter este
conjunto das fraçöes -:i› m, nel, n sé 0. Evidentemente, este menor sub-
corpo de K identi?ca-se ao corpo Q dos números racionais.
Concluimos assim que, dado um corpo ordenado K, podemos con-
siderar, de modo natural, as inclusöes N c Z f: Q c K. Por exemplo,
o corpo Q(t) contém as fraçöes do tipo p/q, onde p e q são polinomios
constantes, inteiros, com q 9€0. Estas fraçöes formam o corpo Q e tem-se
Q c Qu).

EXEMPLO 8.Desigualdade de Bernouilli. Em todo corpo ordenado K,


se ne N e x 2 ~1, vale (I + x)" 2 + nx. Isto se demons-
1

tra por indução em n. Para n = é óbvio. De (1 + x)" 2 1 + n x deduz-se


1 -

(1+x]"“=(1+x)"~(1+x)2(1+nx)(1+x)=1+nx+x+nx2=
= 1 + (n + 1)x + n x2 2 1 + (n + l)x.(Multip1icaram-se ambos os mem-
~

bros da desigualdade (1 + x)" 2 1 + n x por 1 + x. Por isso foi preciso


-

supor x 2 -1.) Quando n > 1(ne N) e x > -1, tem-se, pelo mesmo ar-
gumento, a desigualdade estrita (1 + x)" > 1 + n x, desde que seja x aé 0.
-

Obseruação sobre boa ordenação


O Principio da Boa Ordenação não se aplica imediatamente ao
conjunto Z dos inteiros. Existem conjuntos não-vazios de números in-
teiros que não possuem um menor elemento. O próprio Z e um delesz
qualquer que seja nel, o inteiro n~1 é menor do que n, logo não existe
um inteiro no menor do que todos os outros. Tambem o conjunto A =
= {...-4, -2, O, 2 ,... } dos inteiros pares, ou seja A = {2n; neZ}, não
possui um menor elemento. Em geral_ se X c N for um conjunto infinito
de números naturais, então o conjunto -X = {~n, neX} é um conjunto
não-vazio de números inteiros que não possui elemento mínimo.
mv-'

5? Curso de anãlise

Entretanto, podemos constatar o seguintezy se um çonjunto não-vazio


X c Z for limitado inferiormente. ¡sto é, se existir algurn aeZ tal que a < x
para todo x GX, então X possui um elemento mínimo.
Este fato se reduz ao Principio da Boa Ordenação do seguinte modo.
Sendo a < x para todo x e X, concluimos que os elementos _do conjunto
não-vazio A = {x-a; xeX} são todos números inteiros positivos, isto
é, A <: N. Logo existe noeA, nu = menor elemento de A. Temos no =
= xo ~a, com xo e X e, como se verifica facilmente, xo é o menor elemento
do conjunto X.

Intervalos
Nmn corpo ordenado K, existe a importante noção intervalo.
Dados a, beK, com a < b, usaremos as notaçöes abaixo:
[a,b]={xeK; _§b} (-oo,b] ={xeK; 5b}
[a,b) ={xeK; <b} (-oo, b) ={xeK <b}
(a,b] ={xeK; 5b} [a, +oo) ={xeK; 5x}
(a,b) ={xeK; <b} (a,+oo) ={xeK <x}
(~oo, +oo) = K

Os quatro intervalos da esquerda têm extremos a e b. [a, lx] é um


intervalo fechado, [a, b) é fechado à esquerda, (a, b] é fechado à díreíta e
(a, b) é um intervalo aberto. Estes são intervalos limitados. Os cinoo inter-
valos da direita são ilimitados: (-oo, b] é a semi-reta esquerda fechada,
de origem b; (-oo, b) é a semi-reta esquerda aberta, de brigem b; [a, + oo)
é a semi-reta direita fechada, de origem a e (a, + oo) é a semi-reta direita
aberta, de origem a. Finalmente, o intervalo total (~co, +oo) = K, pode
ser considerado aberto ou fechado.
Quando considerarmos um intervalo de extremos a e b, suporemos
sempre a < b, com uma exceção que destacaremos agora. Ao tomarmos o
intervalo fechado [a, b], e conveniente admitir o caso em que a = b. O inter-
valo [a, a] consiste em um único ponto a e chama-se intervalo degenerado.
Todo intervalo não-degenerado é um conjunto in?nito. Basta observar
0 seguinte: num corpo ordenado K, se x < y, então, x < 29% < y. As-

sim, se I for um intervalo contendo os elementos a, b, com a < b, podemos


obter uma in?nidade de elementos xl , x2 ,...,
xn ,... em I, tomando
a + b a + xl a + x"
x¡=~†›x2=-T* ›*'-› x,_+1=-ì- ›--~ Teremosa<~~<x¿<
< xl < xl < b.
Números reais 57

Num corpo ordenado K, de?niremos o valor absoluto de um elemento


x, como sendo x, se x 2 0 e -x se x < 0. Usaremos o símbolo |x| para
indicar o valor absoluto. Assim,

|x| =x se x>0
dado xeK, tem-se |0| = 0
|x| =-x se x<0
A noção de valor absoluto é da maior importância em Anâlise. Estu-
daremos agora suas propriedades.
Dado x num corpo ordenado K, ou x e ~x são ambos zero, ou um é
positivo e o outro é negativo. Aquele, entre x e ~x, que não for negativo,
será chamado Portanto, |x| é o maior dos elementos x e -x. Este fato
poderia ter sido usado como deñriição:

|x| = max {x, -x}.

Temos, portanto, |x| 2 x e |x| 2 -x. Esta última desigualdade pode


-|x| 5 x. Assim, temos
ser escrita

-|x| 5 x S |x], pa'ra todo xeK.


Mais geralmente, vale o

TEOREMA 1. Sejam x, a elementos de um corpo ordenado K. As seguintes


aƒìrmaçöes são equivalentes:

(i) -a 5 x 5 a;
(ii)x5a e -xía;
(iii) |x| S a.

Demonstraçãa. -a 5 x 5 a¢>[-a 5 xex 5 a]<=›[a 2 ¿ea 2 -x]¢›a 2


2 A última equivalencia se deve ao fato de ser |x|
o maior dos dois elementos x e -x.

COROLÁRIO. Dados a, x, b e K, tem-se [x -a| 5 b se, e somente se,


a - b 5 x S a + b.
Com efeito, pelo teorema, Ix-a| 5 b é equivalente a -b 5 x -u 5 b,
ou seja, a-b 5 x S a + b (somando a).
Observação. Todas as a?rmaçöes do teorema e do seu corolário são ainda
verdadeiras com < em lugar de 5, como se »eri?ca facilmente.
58 cum de «name

Em particular, temos as seguintes equivalências, que serão utilizadas


amplamente no estudo dos limites e das funçöes continuas:

xe(a-s, a +a)<=›a~s <x <a +s¢>|x~a| < .e i

Se representarmos geometricamente os elementos de um corpo


or-
denado como pontos de uma reta, 0 valor absoluto |x-a| significa a
distância do ponto x ao ponto a. A relação x < y significa que x está à
esquerda de y. As equivalências acima exprimem o fato de que o intervalo
aberto (a-e, a + 2), de centro a e raio e, é formado pelos pontos x cuja
distancia a a é menor do que s.

< I › K
a_E H a+$
Tais interpretaçöes geométricas não devem intervir nas
demons-
traçöes mas constituem um auxilio valiosissimo para o entendimento dos
conceitos e teoremas de Análise.

TEOREMA 2. Para elementos arbitrários de um corpo ordenado K, valem


as relaçöes:

(i) |x + y| 5 [xl + |y|;


<§;› |›«-y| = |›«|-|y|;
(¡11)|x|'|Yi5||x|`iY||5|x_.Vi§
(iv) |x-z| 5 |x-y[ + |y¬z|.

Demonstração. (i) se demonstra observando que ¬|xf 5 x 5 |x| e -|y| 5


5 y 5 |y|,donde,poradição,-(|x| + |y|) 5 x + y 5 |x| +
+ Pelo Teor. listo significa que |x + y| S |x| +
Para provar (ii), começamos notando que, seja qual for x GK, temos
x2 = [x|2, pois ]x] é um dos elementos x ou ¬x e vale
x2 = (-x)2. Logo
]x~y]2 = (x-y)2 = xl-yz = |x[2-[y|2 =([x|-|y|)2. Segue-sedai
que|x-y| =
= ± |x[ ~
Como fx›y| e |x| |y[ são ambos positivos, concluímos que
~

I><'r| = |><I'|y!-
Agora provemos (iii). Em virtude de (i), temos Ixi = I(x~y)
+ y| S
S lx-y| + Iyl, 0 que dá |xI-|y| S |x›y|. Pelo mesmo motivo, temos
|y|-]x| 5 ]y-x|. Ora, é evidente que |y~x| = |x~y|. Concluimos que
|y]~|x| 5 |x~yI. Assim. valem, simultaneamente, |x¬y| 2 |x|-[y| e
Números reais ' 59

|x-y| 2 -(|x|-|y|). Pelo Teor. 1, resulta que ||x|~|y|| 5 |x-y|. A outra


desigualdade em (iii) é óbvia.
A última añrmução do teorema, a desigualdade (iv), resulta de (i)
aplicada à soma x-z = (x-y) + (y-z).
Um subconjunto X de um corpo ordenado K chama-se limitado
superiormente quando existe beK tal que b 2 x para todo xeX. Em
outras palavras, tem-se X c (-oo, b]. Cada beK com esta propriedade
chama-se uma cota superior de X.
Analogamente, X <: K diz-se limitado inferiormente quando existe
aeK tal que xeX =› a 5 x. Um elemento aeK com esta propriedade
chama-se uma cota inferior de X. Tem-se então X c [a, +00).
Um subconjunto X de um corpo ordenado K chama-se limitado
quando é limitado superior e inferiormente, isto é, quando existem a,
beK tais que X <: [a, b].

EXEMPLO No corpo Q dos números racionais, o conjunto N dos


9.
números naturais é limitado inferiormente, pois N <: [O, oo),
mas não é limitado superiormente. Com efeito, dado qualquer p/qeü,
tem-se |p| + 1eN e |p| + 1 > p/q. O conjunto Z C Q não é limitado
superiormente nem inferiormente. Constitui talvez uma surpresa o fato
de que existem corpos ordenados nos quais o conjunto N é limitado su-
periormente. Um deles é o corpo Q(t) das funçöes racionais, com a ordem
introduzida no Exemplo 6. O polinômio p(t) = t é uma fração com deno-
minador 1, e, portanto, pertence ;\ DU). Para todo ne N o coe?ciente do
termo de mais alto grau de t-n é positivo (= 1), logo t-neP. Logo,
temos n < t qualquer que seja n e N, isto é, p(t) = t é uma cota superior
para N em Q(t). Neste corpo, portanto, o conjunto N é limitado.
A propósito desta situação, temos a proposição abaixo.

TEOREMA 3. Num corpo ordenado K, as seguintes aƒìrmaçães são equi-


valentes:
(i) N cK é ilimitado superiormente;
(ii) dados a, beK, com a > 0, existe ne N tal que n-a > b;
(iii) dado qualquer a > 0 em K, existe ne N tal que,0 < %< a.

Demonstração.`(i) =› (ii). Como N é ilimitado, dados a > 0 e b em K,

existe n e N tal que % < n e, portanto, b <a r n. Para pro-


var que (ii) => (iii), dado a > O, existe, em virtude de (ii), um ne N tal que
1w-w-wv/

60 Curso de análise

n- a > 1. Então 0 < -:T < a. Finalmente, mostremos que (iii) = (il Dado

qualquer b > 0 existe, por (iii) um ne N tal que % < -å~› ou seja n > b.

Assim, nenhum elemento > 0 em K pode ser cota superior de N. Evi-


dentemente, um elemento 5 O também não pode. Logo N é ilimitado
superiorrnente.
Um corpo ordenado K chama-se arquimediano quando nele é válida
qualquer das três condiçöes equivalentes citadas no Teor. 3.
Assim, o corpo Q dos números racionais e arquimediano, enquanto
o oorpo Q(t) das funçöes racionais, com a ordem introduzida no Exemplo 6,
é não-arquimediano.

§3 Números reais
Sejam K um corpo ordenado e X c K Ll.l'll subconjunto limitado
superiormente. Um elemento beK chama-se supremo do subconjunto X
quando b é a menor das cotas superiores de X em K. (As vezes se diz “ex-
tremo superior” em vez de “supremo”.)
Assim, para que beK seja supremo de um conjunto X c K, é ne-
cessário e suñciente que sejam satisfeitas as duas condiçöes abaixo:
Sl. Para todo xeX, tem-se x 5 b;
S2. Se ceK é tal que x 5 c para todo xeX, então bs c.
A condição S1 diz que b é cota superior de X, enquanto S2 a?rma
que qualquer outra cota superior de X deve ser maior do que ou igual a b.
A condição S2 pode ser reformulada assim:

S2'. Dado c < b em K, existe xeX tal que c < x.


Com efeito, a condição S2' diz que ncnhum elemento de K, que seja
inferior a b, pode ser cota superior de X.
É imediato que se dois elementos b e b' em K cumprem as condiçöes
Sl e S2 acima, deve-se ter b 5 b' e b' 5 b, ou seja b = b'. Portanto, o su-
premo de um conjunto, quando existe, é único. Escreveremos supX para
indicá-lo.
As condiçöes que caracterizam o supremo podem, portanto, ser
escritas assim:
S1.xeX=›xSsupX;
S2. c zx para todo xeX=›c 2 supX;
S2'. Se c < supX então existe xeX tal que c < x.
Números reais 61

Observação. Se X = ø
então todo beK é cota superior de X, Como
não existe menor elemento num corpo ordenado K, segue-se que o con-
junto vazio ønão possui supremo em K. O mesmo se aplica para o in-
?mo, que estudaremos agora.
Analogamente, um elemento aeK chama-se ín?mo de um conjunto
Y c K, limitado inferiormente, quando a e a maior das cotas inferiores de K.
Para que ae K seja o in?mo de Y c K é necessârio e suficiente que
as condiçöes abaixo sejam satisfeitas:

Il. Para todo ye tem-se a 5 y;


Y
I2. Se ceK é tal que c 5 y para todo ye K então c 5 a.

O infimo de YQ quando existe, é único e escreve-se a = inf Y.


A condição I2 acima pode ser reformulada nos seguintes termos:

I2'. Dado ceK com a < c, existe yeYta1 que a < y < c.

Isso significa que um elemento c de K, que seja maior do que a, não


pode ser cota inferior de Y.

EXEMPLO 10. Se X cK
possuir um elemento máximo, este será o
seu supremo, se X possuir um elemento minimo, ele serà
seu in?mo. Reciprocamente, se supX pertence a X então é o maior ele-
mento de X; se inf X pertencer a X, será 0 seu menor elemento. Em par-
ticular, todo subconjunto finito X <: K possui inf e sup. Outro exemplo:
se X =(~oo, b] e Y= [a, +oo), temos infY=a e supX =b.

EXEMPLO ll. Dados a < b em K, seja X = (a, b) o intervalo aberto


com esses extremos Tem-se inf X = a e sup X = b. Com
efeito, a é, evidentemente, uma cota inferior de X. Provemos agora que
nenhum ceK com a < c é cota inferior de X. Isto é claro se c 2 b. Por
outro lado, se for a < c < b então x = ¿gi é um elemento de X, com

a < x <c, o que prova que c não é cota inferior de X. Assim a = inf X.
De modo análogo se mostra que b = sup X. Neste caso, tem-se sup X ¢ XA
einfX¢X.

EXEMPLO 12. Seja YC 0 o conjunto das fraoöes do tipo à, com n e N.

A?rmamos que inf Y= 0 e sup Y= Com efeito, em

primeiro lugar, temos às Y e < à para todo n > 1. Logo % é o


62 Curso de análise

. _ 1 .
maior elemento de Ye, por conseguinte, 5- = sup Y Por outro lado, como

0 < í
1
para todo ne N, vemos que O
, _

e cota inferior de
.
Y. Resta apenas
provar que nenhum número racional c > O é cota inferior de Y Com
efeito, sendo Q arquimediano, dado c > 0, podemos obter ne N tal que

n > %- 1. Isto signiñca 1 + n > Ora, pela desigualdade de Bemoulli

(Exemplo 8), temos 2" = (1 + 1)" 2 1 + n > %› ou seja, % < c. Logo


nenhum c > O e cota inferior de Ye, portanto, inf Y= 0.
A insu?ciência mais grave dos números racionais, para efeitos da
Análise Matemática, é 0 fato de que alguns conjuntos limitados de números
racionais não possuem supremo (ou in?mo). Este fato está ligado à ine-
xistência de raizes quadradas racionais de certos números inteiros, mas
é uma di?culdade que vai muito além dessa falta.
Pitágoras e seus discípulos descobriram o seguinte

LEMA. Não existe um número racional cujo quadrado seja igual a 2.


2

Demonstração. Suponhamos, por absurdo, que se tenha = 2, ou

seja pz = Zqz, com p e q inteiros. O fator 2 aparece um


número par de vezes na decomposição de pz e de ql em fatores primos.
Logo pz contém um número par de fatores iguais a 2 enquanto 2q2 contém
um número ímpar desses fatores. Assim sendo, não se pode ter pz = 2112.

EXEMPLO Sejam X = {xeD; x


13. 20
e x2 < 2} e Y= {yeQ; y > 0
e yz > 2}. Como x > 2 => x2 > 4=› x¢X, concluimos
que X c [0, 2], logo X é um conjunto limitado de números racionais.
Por outro lado, Yc (O, +oo), de modo que Y é limitado inferiormente.
Mostraremos agora que não existem supX nem inf Y em CD. (É claro
que existe inf X = 0, pois 0 é o menor elemento de X.) Para isto, estabe-
OS S€gUÍIllBS fa[0S2
¬l€C€l”€¡I10S

A) O conjunto X não possui elemento máximo. Com efeito, dado xeX


(isto é, dado um número racional não-negativo cujo quadrado é inferior
a 2), tomamos um número racional r < tal que 0 < r < (2~x2)/(2x + 1).
1

Añrmamos que x + r ainda pertence a X. Com efeito, de r < segue-se 1

rz < r. Da outra desigualdade que r satisfaz segue-se r(2x + 1) < 2~x2.


Por conseguinte, (x + r)2 = x2 + 2rx + rz < xz + 2rx + r = x2 +
Números real: 63

+ ›{2x < xl +
+ 1) 2-x2 = 2. Assim, dado qualquer xe X, existe um
número maior, x + reX.
B) O conjunto Ynão possui elemento mínimo. De fato, dado qualquer ye Y,
temos y > 0 e yï > 2. Logo podemos obter um número racional r
2 _
tal que 0 < r < Então 2ry < yz-2 edai (y-r)2 = yz-2ry + rz >
.V

> yz ~2ry > 2.


,
Note-se tambem que r < %--ï›donde r
1
< y,
_

isto
,
e, y-r
é positivo. Assim, dado y e Yarbitrário, podemos obter y - r e Y, y - r < y.
C) Se xeX e ye Y, então x < y. Com efeito, tem-se x2 < 2 < yz e, por-
tanto, xl < yz. Como x e y são ambos positivos, conclui-se que x < y.
(A rigor, poderia ser x = 0, mas, neste caso, a conclusão x < y é óbvia.)

Usando os fatos A, B e C mostraremos que, entre os números racionais,


não existem supX nem inf X
Suponhamos, primeiro, que existisse a = sup X. Seria forçosamente
a > 0. Não poderia ser az < 2 porque isto obrigaria aeX e, então, a
seria o elemento máximo de X, que não existe, por A. Tampouoo poderia
ser az > Z porque isto faria ae Y Como, em virtude de B, Ynão possui
elemento minimo, existiría be Y, com b < a. Usando C, ooncluiríamos
que x < b < a para todo xeX, o que contradiz ser a = sup X.
Assim, se existir a = sup X, deverá ser al = 2. Mas, pelo Lema de
Pitágoras, nenhum número racional existe com esta propriedade. Con-
cluímos que em Q 0 conjunto X não possui supremo.
Um raciocinio inteiramente análogo, baseado nos fatos A, B e C,
mostraria que o número b = inf Y2 se existir, deve satisfazer bz = 2, e,
portanto, Y não possui in?mo em 0.
Ao mesmo tempo, estes argumentos mostram que, se existir um
corpo ordenado no qual todo conjunto não-vazio, limitado superiormente,
possua supremo, existirá, nesse dito corpo, um elemento a > 0 cujo qua-
drado é 2. Com efeito, tal corpo, sendo ordenado contém 0, logo contém
o conjunto X e nele existirá a = sup X, cujo quadrado, não podendo ser
menor nem maior do que 2, deverá ser igual a 2. Escreve-se a =

EXEMPLO Vejamos agora outro exemplo de um conjunto limitado


14.
superiormente num corpo ordenado K, o qual não possui
supremo em K. Para isso, tomemos um corpo não-arquimediano K. O
conjunto N c K é limitado superiormente, Se beK é uma cota superior
de N então n + 1 5 b para todo ne N. Segue-se que n S b-1 qualquer
que seja ne N. Em outras palavras, se beK for uma cota superior de N,
b-1 também o será. Como b-1 < b, segue-se que, num oorpo não-ar-
64 Curso de anålise

quimediano K, o conjunto N dos números naturais é limitado superior-


mente mas não existe supN em K.
Um corpo ordenado K chama-se completo quando todo subcon-
junto não-vazio, limitado superiormente, X c K, possin supremo em K.
Resulta da de?nição que, num corpo ordenado completo, todo con-
junto não-vazio, limitado inferiormente, Yc K, possui um intimo. Com
efeito, dado K seja X = -K isto é, X = {~y; ye Y}. Então X e não-vazio
e limitado superiormente; logo existe a = sup X. Como se vê facilmente,
tem-se -a = inf Y.
Segue-se do Exemplo 14 acirna que todo corpo ordenado completo
é arquimediano.
Adotaremos, a partir de agora, o axioma fundamental da Análise
Matemática.

AXIOMA. Existe um corpo ordenado completo, ER, chamado 0 corpo dos


números reais.

Passaremos a examinar agora algumas propriedades dos números


reais que resultam imediatamente da de?nição de R como um corpo
ordenado completo.
Voltamos a enfatizar que, em todo o restante deste livro, as únicas
propriedades dos números reais que usaremos são aquelas que decorrem
de ser R um corpo ordenado completo. Isto inclui, evidentemente, as
proposiçöes demonstradas no inicio deste capitulo sobre corpos e corpos
ordenados em geral.
Como foi observado no lim do Exemplo 13, existe em IR um número
positivo a tal que al = 2. Este número é representado pelo simbolo
É claro que só existe um número positivo cujo quadrado é 2, pois al =
=bZ = 2=>0=a2-bz =(a--b)(a +b)=>a + b =0 ou a~b=0. No
primeiro caso, a = -b (logo não podem ser a e b ambos positivos) e no
segundo a = b. Pelo Lema de Pitágoras, \/Í não é um número racional.
Aos elementos do conjunto [R -Q, isto é, aos números reais que não
são racionais, chamaremos números irracionais. Assim, `/Í é um número
irracional Veremos outros logo mais.
Provaremos agora que, dados a > 0 em IR e ne N quaisquer, existe
raiz
um único número real b > 0 tal que b" = a. O número b chama-se a
n-ésima de a e é representado pelo simbolo b = {/Í. A demonstração
imita
o argumento usado no Exemplo 13. Vejamo-la.
Consideramos o conjunto X = {xe R; x 2 0, x" < a}. O conjunto X
é não-vazio (pois 0eX) e é limitado superiormente (Se
a < 1, então, 1
Números mais 65

é uma cota superior de X. Se a > l, então a" > a e dai a é uma oota su-
perior de X.)
Seja b = sup X. A?rmamos que b" = a. Isto se baseia nos seguintes
fatos:

A) 0 conjunto X não possui elemento máximo. Dado xeX qualquer, pro-


varemos que é possivel tomar d > 0 tão pequeno que ainda x tenha
(x + d)f' < a, isto é x + de X. Para isto, usaremos um fato auxiliar, que
demonstraremos por indução. Trata-se do seguinte: dado x > 0 existe,
para cada n, um número real positivo An (dependendo de x) tal que
(x + d)" S x" + An- d, seja qual for d com 0 < d < 1. Isto é claro para
n = 1. Supondo verdadeiro para n, temos (x + d)"“ = (x + d)"(x + ll) S
(›¿' + A,-d)(x +d) =x"*' + A,-d-x +d->('+A,,~d2 = x"“ +(An-x+
+ x',+ A,,~d)-d < x"“ + (An-x + ›(' + An)-d (já que 0 < d <1).To-
mando A_+¡ = A"-x + x" + A", obtemos (x + d)"“ < x”“ + Ann ~d.
Agora, sexeX,istoé, x20ex"<a,tomamosdta1qued<l e

0 < d < % ,.
Teremos x" + A,,~d < a e, por conseguinte, (x + d)" < a,
.

o que prova que X não possui elemento máximo.


B) 0 conjunto Y= {ye|R; y > 0, y" > a} não possui elemento mínimo.
Seja ye X Escolheremos d, com 0 < d < y, tal que (y-d)" > a, isto
é, y-de YÍ Para tal observemos que, sendo 0 < d < y, temos (y-d)" =

= y"(1-%~)n > y"<1-n-% = y"-n_v"`1~d, como resulta da desigual-

dade de Bernoulli (Exemplo 8), com x = -%- Se tomarmos 0 < d <

< Y" 'U obteremos então y"-ny"` d > a e, portanto,


1
(y -- d)” > a. Isto
mostra que Ynão possui elemento minimo.
C) Se xeX e ys Yentão x < y. De fato, nestas condiçöes x" < a < y" e,
comokx e y são positivos, vem x < y. (0 caso x = 0 dá x < y obviamente.)
Deduz-se de A,' B e C que o número b = supX satisfaz à oondição
b" = tr Com efeito, se losse b" < a então b pertenceria ao conjunto X
do qual é supremo, logo b seria o elemento máximo de X, o que oontradiz
A. Também não pode ser b” > a porque então be Ye como, por B, Y não
possui elemento minimo, haveria um ce Ycom c < b. Por C, viria x <
c < b para todo xeX: c seria uma cota superior de X menor do que
b = sup X, outra contradição. Logo, deve ser b" = a.
De agora em diante, todos os intervalos que considerarmos se refe-
rirão ao conjunto IR dos números reais.
66 Curso de análíse

Pelo que acabamos de ver, dado n e N, a funçäof: [O, + oo) -+ [0, + co),
f
de?nida por (x) = x”, é sobrejetiva É claro que 0 < x < y implica O <
f
< x" < y" (pela monotonicidade da multiplicação) Logo é injetiva e
portanto é uma bijeção de [0, +oo) sobre si mesmo. Sua função inversa
é dada por y›-›{/É, a raiz n-ésima (positiva única) de y > 0.
O Lema de Pitágoras mostra que o número real \/Í
não éracional.
Generalizando este fato, provaremos agora que, dado um neN, se um
número natural m não possui uma raiz n-ésima natural também não
possuirâ uma raiz n-ésima racional. Com efeito, seja = mPodemos
supor p e q primos entre si. Então pl' e q” também serão primos entre si.
Mas temos p" = q" m, o que implica ser q" um divisor de p". Absurdo,
-

a menos que fosse q = 1. Em suma, dados m, neN, se ?¢N então


We [R ~ Q. .

Os números reais que não são racionais, isto é, os elementos do con-


junto R-Q, são chamados números irracionais. Acabamos de ver que eles
existem: \/3, X/É, (yz, etc, são números irracionais. Mas há muitos
outros, obtidos de modos bem mais complicados do que simplesmente
extrair raizes não inteiras de números inteiros ou mesmo resolver equa-
çöes algebricas com coeficientes inteiros. (Vide Exercs. 44, 45 e 46.)
Mostraremos agora que os números irracionais se achaxn espalhados
por toda parte entre os números reais. Em seguida, provaremos que há
mais números irracionais do que racionais_ Para explicar precisamente
o que significa “espalhados por toda parte”, oomeçaremos com uma
definição.
Um conjunto X c IR chama-se denso an [R quando todo intervalo
aberto (a, b) contém algum ponto de X.
Em outras palavras, diremos que o conjunto X de números reais é
denso em [R quando, dados arbitrariamente a < b em R, for possivel en-
contrar xeX tal que a < x < b.
Por exemplo, seja X = UZ o conjunto dos números reais que não
são inteiros. X é denso em R. Com efeito, todo intervalo (a, b) é um con-
junto in?nito, enquanto existe no máximo um número ñnito de inteiros
n tais que a < n < b. Logo qualquer intervalo (a, b) contém elementos
de X (isto é, números reais não-inteiros).
' ¦ 1 ¦
[R -2 -1 0 1 2 3

É reoomendável pensar nos números reais como pontos de uma reta,


sendo a distância de x a y dada por |x - y| e signiñcando a relação x < y
que x está à esquerda de y. Neste caso, os números inteiros acham-se la
Números reeiu 67

uma distância inteira 2 1 uns dos outros. A imagem geométrica deixa


evidente que [¦Z é denso em IR, embora não deva intervir na demonstração
deste faro.

TEOREMA 4. 0 conjunto Q dos 'números racionais e o conjunto IR-Q


dos números irracionais são ambos densos em IR.
Demonstração. Seja (a, b) um intervalo aberto qualquer em IR. Devemos
mostrar que existem um número racional e um número
irracional em (a, bl Como b-a > 0, existe um número natural p tal que
0 <%< b-a Os números da forma %› meZ,decompöem a reta IR em

intervalos de oomprimento
1
Como í1

é menor do que o comprrmento


.

b-a do intervalo (a, b), algum dos números % deve cair dentro de (a, b).

Esta é a idéia intuitiva da demonstração. Raciocinemos agora logicamente.

Seja A = mel; % 2 b ^ Como R é arquimediano, A é um oonjunto

não-vazio de números inteiros limitado inferiormente por b p. Seja mo e A -

o menor elemento de A. Então b S 2% mas, como mo - 1 < mu, tem-se

% < b. A?nnamos que a < É? < b. Com efeito, se não fosse as-

sim, terlamos Él; S a < S -Él- Isto acarretaria b-a S É-Q-% =

i
b

.
= %. uma contradição. Logo, o numero racional
, . - pertence
197 1 .
ao in-

tervalo (a,

peN tal que


b).

-
P
1
< i,
Para obter um número irracional no intervalo (a,
b-
`/5
ou seja L-
P
2
< b-a. Osnúmerosdaforma
b), tomamos

P
2

onde mel, são (salvo m = 0) irracionais e dividan a reta IR em intervalos


Q Q
# b-a
de oomprimento›
P - Como P 6 menor do que .o compnmento -

do ,intervalo (a, b), conclu.i-se que nlgum deve pertencer a (a, bl A

ao
.
teiro tal que b S

intervalo (a, b).


É
demonstração formal se faz como no caso anterior: se

P
2 .
então o número irracional ï"12L/_p=f±¢n<»
.
mo
-1
for o menor in-

P
2
68 Curso de análise

0teorema abaixo, às vezes chamado “Principio dos Intervalos En-


caixados”, é usado por alguns autores na de?nição dos números reais.

TEOREMA 5. Seja Il :› :›12 : In 3 uma seqüêncüz decrescente de


intervalos limitados e fechados I" = lia”, b,,]. A interseção

ñ I" não é vazia. Isto é, existe pelo menos um número real x tal que xe In
n=1
para, todo ne N. Mais precisamente, remos rw In = [a, b], onde a = sup an
e b = inf bn .

Demonstração. Para cada ne N, temos IRM <: In, o que significa a,, 5
5 añ, 5 b,,+¡ 5 bn. Podemos então escrever:

a,5az5...§a,,5...5b,,5...5b¡5b¡.
Chamemos de A o conjunto dos an e B o conjunto dos bn. A é limitado:
a¡ é uma cota inferior e cada b,, é uma cota superior de A. Por motivo
semelhante, B é também limitado. Sejam a = supA e b = inf B. Como
cada bn é cota superior de A, temos a 5 bn para cada n. Assim, a é cota
inferior de B e, portanto, a 5 b. Podemos então escrever:

a15a25...§a,,5...5a5b§...5b,,5...§bz5b¡.
Concluimos que a e (podendo ser a = bl) pertencem a todos os In, donde
b

[a, b] c In para cada n. Logo [a, b] f: ñ I". Mais ainda, nenhum x < a
||= 1

pode pertencer a todos os intervalos In. Com efeito, Sendo x < a = sup A,
existe algum a~eA tal que x < an, ou seja, x¢I,,. Do mesmo modo, y >
> b ==› y > bm para algum m, donde y¢Im. Concluimos então que n I" =
= [a, b].
Usaremos o Teor. 5 para provar que o oonjunto dos números reais
não é enumerável.

TEOREMA 6. 0 conjunto IR dos números reais não é enumerável.

Demonstração. Dados um intervalo limitado¬ fechado I = [a, b], com


a < b, e um número real xo, existe um intervalo fechado,
limitado, J = [c, d], com c < d, tal que xo ¢J e J c I. Isto pode ser veri-
ñcado facilmente. Usaremos este fato repetidamente para mostrar que,
dado qualquer subconjunto enurnerável X = {x¡ x2 ,..., xn ,... } c R, po- ,

demos encontrar um número real x ¢ X. Com efeito, sejam Il um intervalo


limitado fechado e não-degenerado, tal que xl ¢I¡ I2 um intervalo do ,
Números roaix 69

mesmo tipo com xl ¢ Il e I2 c I, e assim indutivamente: supondo obtidos


I! :› 11 :› ..Ä :› In limitados fechados e não-degenerados, com x¿¢I¡
(1 5 i 5 n), podemos obter Inn <: In com xn? éln?. lsto nos fomece
uma seqüência decrescente I¡ :> :~ I" de intervalos limitados e :
fechados. Pelo Teor. 5, existe um número real x que pertenoe a todos os
I". Como xn ¢ I", segue-se que x não é nenhum dos xn, e portanto nenhum
conjunto enumerável X pode comer todos os números reais.

COROLÁRIO 1. Todo intervalovnão-degenerado de números reaís é não-


enumerável.
Com efeito, como f: (O, 1) -› (a, b), definida por (x) = (b-a)x + a, f
é uma bijeção do intervalo aberto (O, 1) no intervalo aberto arbitrário
(a, b), se provarmos que (O, 1) não é enumerável, resultará que nenhum
intervalo não-degenerado pode ser enumerâvel. Ora, se (O, 1) fosse enu-
merável, (O, 1] também seria e, conseqüentemente, para cada nel, o
intervalo (n, n + 1] seria enumerâvel (pois xl-›x + n é uma bijeção de
(O, 1] sobre (n, n + 1]). Mas R = U (n, n +.1] seria enumerável, por ser
nel _

uma reunião enumerável dos conjuntos (n, n + l].

COROLÁRIO 2.0 conjunto dos números' irracionais não é enumeráuel.


Com efeito, temos R = Q U (IR-Q). Sabemos que Q é enumerável.
Se - Q também o fosse, [R seria enumerável, como reunião de dois con-
IR

juntos enumeráveis.

EXERCÍCIOS
Dados a, b, c, d -num corpo K, sendo diferentes de zero, prove:
-=†;
1. b e d

1
.
0

)
a
-›b + c
d
ad + bc
bd
2.
_,

)
---=¢^
a
b d
c

b-d
a - c

2. Dado a 96 0 num corpo K, pöe-se, por deñnição, a° = 1 e, se ne N,


j
a"' = F
1 '
ou seja,
.
a"' = (a")'*. Prove: 1.°) a'"-a" = a"'*"; 2.°)(a"')" =
= a""' sejam quais forem m, nel.
3. Se h = 11y2 =

= 5 num corpo K, prove que, dados al ,... ,a"eK
.Vu

tais que alyl + + t1,,y,, sé 0, tem-se %{~š% =


4. Sejam K, Lcorpos. Uma função f: K -› Lchama-se um homomor?smo
quando se tem f(x + y) =f(x) +f(y) ef(x-y) =f(x) ~f(y), quaisquer
70 Curso de anålise

que sejam x, ye K. i) Dado um homomorfìsmo f: K -› L, prove que


f
f(0) = 0. ii) Prove também que, ou (x) = 0 para todo xeK, ou
f
então f(1) = e é injetivo.
1

5. Seja f: Q -› Q um homomor?smo. Prove que, ou ƒ(x) = 0 para todo


xa@ ou então f(x) = x para todo xe?l
6. Veriñque as associatividades da adição e da multiplicação em ZZ.
(Nota. Há dois modos de se proceder. Um requer a veriñcação de 16
igualdades. Outro consiste em observar que, definindo-se f: Z -›Z2
por f(n) = 0 se n é'par, ef(n) = se n é impar,fé sobrejetiva e, para
1

m, nel quaisquer, valem f(m + n) =f(m) +f(n),f(m~ n) =f(m) ~f(n).


As associatividades em Z implicam nas de ZZ .)
7. Seja p um número natural primo. Para cada inteiro m,indiquemos
com rï o resto da divisão de m por p. No conjunto ZP = {0, ,..., p- 1}
1

de?namos duas operaçöes: uma adição ® e uma multiplicação G,


pondom®n =W-lÍem0n =íï.Provequeafunçãof:Z ¬›Zp,
definida por f(n) = F, cumpre f(m + n) =f(m) ®f(n) e f(m' n) =
= f (m) O f(n). Conclua que (49 e O são comutativas, associativas,
vale a distributividade, existem 0 e 1. Observe que dados m, nelp,
m®n =0=-›m=0 ou n =0.Conc1ua que ZP é um corpo.
8. Seja K um conjunto onde são válidos todos os axiomas de corpo,
salvo a existência de inverso multiplicativo. i) Dado a 9€U em K, prove
que a função f: K -› K, de?nida por f(x) = ax, é uma bijeção se, e
somente se, a possui inverso. ii) Mostre que f é injetiva se, e somente se,
vale a lei do corte para a. iii) Conclua que, se K é finito, a lei do corte é
equivalente â existencia de inverso para cada elemento não-nulo de K.
9. Explique por que as operaçöes usuais não tornam corpos o conjunto Z
dos inteiros nem 0 conjunto Q[t] dos polinômios de coeficientes
racionais.
10. Num corpo ordenado K. prove que a2 + bz = ()<›a = b = 0.
ll. Seja P 0 conjunto dos elementospositivos de um corpo ordenado K.
i) Dado um número natural n, prove que a funçãof: P -› P, definida por
f (x) = x", é monótona crescente (isto é, x < y= f
(x) < ƒ(y)). ii) Dê
f
um exemplo em que não é sobrejetiva. iii) Prove que f(P) não é um
subconjunto limitado superiormente de K.
12. Sejam X um conjunto qualquerie K um corpo. Indiquemos com
Z/`(X; K) o conjunto de todas as funçöes f: X -› K. De?namos em
57 (X K) as operaçöes de adição e de multiplicacão de modo natural:
;

dadas j, g: X -› K, as funçöes f+ g: X _›K ef-g: X -›K são dadas


P0f (f + 9)(><) = f(X) + ø(X) 6 (f' 9)(X) =f(X) 9(>¢)- V?fi?qu? qu?is ¿OS
^
Números reais 71

axiomas de corpo são válidos e quais não são válidos no conjunto


.9 (X K), relativamente a estas operaçöes.
;

Sejam x, y elementos positivos de um corpo ordenado K. Tem-se


x < y-=>x'1 > y'1. Prove também que x > 0<=›x`1 > 0.
Seja a um elemento positivo de um corpo ordenado K. De?namos
: f
f Z -› K pondo (n) = a". (Veja o Exerc. 2.) Prove que é crescente f
se a > 1, decrescente se a <1 e constante se a = 1.
Dados x a? 0 num corpo ordenado K e neN qualquer, prove que
(1 + x)2" > 1+ 2n~x.
Se ne N e x < ntusn corpo ordenado K, prove que (1-x)" 2 1-nx.
1

Num corpo ordenado, se a e a + X são positivos, prove que (a + x)"


2 a" + n~a"'* -x. Enuncie e demonstre desigualdades análogas às
dos Exercs. 15 e 16, com a em vez de 1.

É
Sejam a, b, c, d elementos de um corpo ordenado K, onde b e d são
positivos. Prove que a + c está compreendido entre o menor e o

maior dos elementos % e Generalize: mostre que %%


esta compreendido entre o menor e o malor dos elementos a
,

¿› a
. _

,±,
- ~ -

bl ln.
desde que b1,...,b,, sejam todos positivos.
Dados x, y num corpo ordenado K, com y sé 0, prove que |x y`1| =
-

=|›<|-|y1-1,<›us¢j›1 1y = 'x'-
yl
Prove por indução que, dados xl ,...,x,, num oorpo ordenado
K,tem-se|x1 + + x,| 5 |x,| + + |x,,| e |x1-x,---x,,| =
= |Xll'|>¢2|---|>=..I-
Seja K um corpo ordenado. Exprima cada um dos conjuntos abaixo
como reunião de intervalos:

a) o conjunto dos xe K tais que |x-3| + |x + 3| < 8;


b) idem |x2«2| 5 1;
c)|2x +1|51;
d)fx-5|<|x+1|;
6) (2x+3)6(x-2)20.
Prove que, para todo x num corpo ordenado K, tem-se

lx-1|+|x-2|21.
|x-1| + |x¬2| + |x-3| 22.
Curso de análise

Dados a, b, e num corpo ordenado K, prove que

|a-b| < s=› lb]-e < Ial < lb| + a.

Conclua que |a-b| < a=>a < |b| + s.


Prove que, num corpo ordenado K, as seguintes a?rmaçöes são equi-
valentes: (i) K é arquimediano; (ii) Z é ilimitado superior e inferior-
mente; (iii) Q é ilimitado superior e inferiormente.
Prove que um corpo ordenado K é arquimediano se, e somente se,
para todo e > 0 em K, existe ne N tal que % < s.

Seja a > 1 num corpo arquimediano K. Considere a função f: Z -› K,

f f
definida por (n) = a". Prove as seguintes afìrmaçöes: (i) (Z) não é
limitado superiormente; (ii) infƒ(Z) = 0.
Sejam a racional diferente de zero, e x irracional. Prove que ax e a + x
são irracionais Dê exemplo de dois números irracionais x, y tais que
x + y e x«y são racionais.
Sejam a, b, c e d números racionais. Prove que a + bx/Í = c + d\/Í ¢>
<=›a = c e b = d.
Prove que o conjunto K dos números reais da forma a + b\/Í, com
a e b racionais, é um corpo relativamente às operaçöes de adição e
multiplicação de números reais. Examine se o mesmo ocorre com os
números da forma a + byï, com a, be 0.
Sejam a, b números racionais positivos. Prove que `/T1 + \/_I; é ra-
cional se, e somente_ se, \/_; e \/Í
forem ambos racionais. (Sugestão:
multiplique por \/2~`/Ã)
Sejam X c R não-vazio, limitado superiormente, e c um número
real. Tem-se c 5 supX se, e somente se, para cada e > 0 real dado
pode-se achar x EX tal que c-e < x. Enuncie e demonstre um resul-
tado análogo com inf em vez de sup.
Seja X = ne N}. Prove que infX = 0.

Sejam A c B conjuntos não-vazios limitados de números reais. Prove


que infB 5 infA 5 supA 5 supB.^
Sejam A, B conjuntos não-vazios de números reais, tais que xeA,
yeB =› x 5 y. Prove que sup A 5 infB. Prove que supA = inl`B se,
e somente se, para todo c > 0 dado, podem-se obter xeA e yeB
tais que y-x < s.
Dado A c [R não-vazio, limitado inferiormente, seja ~A = {~x; x eA}.
Prove que -A é limitado superiormente e que sup(†A) = -inf A.
-
Números mais 73

Seja A c
R não-vazio, limitado. Dado c > 0. seja c A = {c x; xeA}. - -

Prove que c-A é limitado e que sup(c-A) = c-sup A, inf(c-A) =


= c inf A. Enuncie e dernonstre o que ocorre quando c < O.
-

Dados A, B C R não-vazios e limitados, seja A + B = {x + y; xe A,


yeB}. Prove: i) A + B é limitado; ii) sup (A + B) = supA + sup B;
iii) inf(A + B) = infA + infB; iv) Enuncie e demonstre resultados
análogos supondo apenas A e B limitados superiormente (ou A e B
limitados irileriormente).
Seja X c: R. Uma função f: X -› R chama-se limitada quando sua
f
imagem (X) c R é um conjunto limitado. Neste caso deñne-se o
supf como o supremo do conjunto f(X) (Ás vezes se escreve su? (x) f
ou sqpƒ) i) Prove que a soma de duas funçöes lìmitadasj? g: X -› R
é uma função limitada ƒ+ g: X -› R. ii) Mostre que (f+ g)(X) c
c f(X) + g(X), na notacão do Exerc. 37. iii) Conclua que sup (f + g) S
5 supf† supg e que inf(ƒ+ g) 2 inff+ infg. iv) Considerando as
funçöes L g: [-1, + 1] -› R, definidas por f(x) = x e g(x) = -x, mostre
quesepodeter sup(ƒ+ < supf+ supgeinf(f+ g) > inff+ infg.
g)
Sejam A, B conjuntos de números reais positivos De?namos A B = ~

= {x~y; xeA e yeB}. Prove que se A e B forem limitados então


A -B é limitado, sendo sup(A B) = sup A supB e inl`(A B) = inl`A~
~ - ~

-inf B.
i) Prove que o produto de duas funçöes limitadas j? g: X -› R é uma
função limitada f~g: X -› R. ii) Mostre que (f-g)(X) cf(X)-g(X).
iii) Conclua que, sevƒ e g forem ambas positivas, tem-se sup(f~g) S
5 sup ƒ' supg e inl`(f- g) 2 inff~ infg. iv) Dê exemplo em que valham
as desigualdades estritas. v) Mostre porém que para toda positiva f
tem-se sup(f2) = [supf]2.
Analise os Exercs. 39 e 40 sem as hipóteses de posi. .vidade neles feitas.
f
Seja (x) = ao + alx + ~- + aux" um polinômio com coe?cientes in-
-

teiros. i) Se um número racional 2- (com p e q primos entre si) é tal


41

que 41
= 0, prove que p divide ao e q divide ana ii) Conclua que,
f
quando un = l, as raizes reais de são inteiras ou irracionais. Em par-
ticular, examinando x" -ya = 0, conclua que, se um número inteiro
a > 0 não possui n-ésima raiz inteira, então \'/_; é irracional. iii) Use
o resultado geral para provar que \/5 + é irracional. yï
74 Curso de análise

43. Dado um número natural p > 1, prove que os números racionais da


m
forma F› onde mel e n
. .
e N constituem um subconjunto denso em R.
44. Um número real r chama-se algébrico quando existe um polinômio
f(x) = ao + a,x + + aux”, não identicamente nulo, com coe?-
cientes inteiros, tal queƒ(r) = 0. i) Prove que o conjunto dos polinômios
de coeficientes inteiros é enumerável. ii) Dada uma enumeração {f¡ ,

fz ,..., L ,... } desses polinômios não identicamente nulos, seja, para


cada ne N, An o conjunto das raizes reaís de?, Cada An é um con-
junto ?nito (podendo ser vazio). O conjunto A dos números algébricos
reais escreve-se A = UNNA". Conclua que A é enumerável. Mostre
que A é denso em IR.
45. Seja X o complementar de um conjunto enumerável de números
reais. Mostre que, para cada intervalo aberto (a, b), a interseção (a, b) rx X
é não-enumerável. Em particular, X é denso.

46. Um número real chama-se transvendente quando não é algébrico.


Prove que o conjunto dos números transcendentes é não-enumerável
e denso em [R.
47. Prove que o conjunto dos números algébricos é um corpo. (Este
exercício requer conhecimentos de Álgebra muito acima do que es-
tamos admitindo até aqui.)
48. Dê exemplo de uma seqüência decrescente de intervalos fechados
(ilimitados) cuja interseção seja vazia e de uma seqüência decrescente
de intervalos (abertos) limitados cuja interseção seja vazia.
49. Sejam B <: A conjuntos não-vazios de números reais. Suponha que A
seja limitado superiormente e que, para cada xeA, exista um yeB
tal que x gy. Prove que, nestas condiçöes, tem-se sup B:
sup A.
Enuncie e demonstre 'um --resultado análogo para inf.
50. Um corte de Dedekind é um par ordenado (A, B) onde A e B são sub-
conjuntos não-vazios de números racionais_ tais que A não possui
elemento máximo, A U B = Q e, dados x e A e y GB quaisquer, tem-se
x < y. a) Prove que, num corte de Dedekind (A, B), vale sup A = inf B.
b) Seja _@ o conjunto dos cortes de Dedekind. Prove que existe uma
bijeção f: E2 -› R.
51. Sejam X, Yconjuntos não-vazios ef: X >< Y-› R uma função limitada.
Para cada x(,eX e cada yoe Y, ponhamos s1(x0) = sup {f(x,,, y);
ye Y} e s2(y0) = sup {ƒ(x, y0); xeX}. Isto de?ne funçöes sl: X -› [R
e sz: Y¬› ER. Prove que se tem s¡(x) = s¡(y). Em outras pa-
NÚIIIYOI nula 75

lavras,
S\;1›[=\;1›f(x, y)] = S\;i> [S¶1›f(›¢, y)]-

Enuncie e demonstre um resultado análogo ao anterior oom inf em


vez de sup. Considere, em seguida, o caso “rnisto” e prove que

Sgv [igff(x, y)] S i1;f[S1;Pf(x, y)]


Dé um excmplo onde se tem < na desigualdade acima.
Sejam x, y números reais positivos. Prove que se tem

r-WS?.
A desigualdade entre a média aritmética e a média geométrica, vista
no exercicio anterior, vale para n números reais positivos x, , . . ,x,,. _

Sejam G =,"/ x¡x¡...x_ e A Tem-se G5 A. Isto é


evidente quando x, = = x,,. Para provar a desigualdade no caso
geral, considere a operação que consiste em substituir o menor dos
números dados, digamos xí e o maior deles, digamos xj, respectiva-
mente por xf = 1
ïjfl
G e x' = 1
G. Isto não altera a média geométrim
e, quanto à aritmética, ela não aumenta, pois, como é fácil de se ver,
x§ + x; 5 xí + xj. Prove que, repetida esta operação no máximo n

vezes, obtemos n números todos iguais a G e, portanto, sua média


aritmética é G. Como em cada operação a media aritmética não
aumentou, oonclua que G S A, ou seja ¬"/ x¡x, _ . . xn 5
Seja K um oorpo ordenado completo. Indique oom (Y e 1' o zero e a
unidade de K. Para cada neN, sejam n' = n-1' = 1' + + 1'

(n vezes) e (-n)f = -n'. Delìnamos uma funçãof: IR -› K pondoƒ =

= % para todo ã-e Q e, para x irracional, seja ƒ (x) = sup %e K;

%< x _ Prove que ƒ é um homomor?smo sobrejetivo e conclua que


ƒ é uma bijeção, ou seja um isomor?smo de ¡R sobre K.
Sejaf: IR -› IR um isomor?smo de ¡R em si mesmo. Prove que ƒ = iden-
tidade. Conclua que se K e L são oorpos ordenados completos existe
um único isomor?smn de K sobre L.
76 Curso de análíse

57. Veri?que que ƒ: R -›(-1,


bijeção de R sobre o intervalo (-1, 1).
1), de?nida por f(x) =

58. Um conjunto G de números reais chama-se um grupo aditivo quando


«/ 1
,
+ xí
é uma

0eGe x,yeG=x~yeG. Então, xeG=›-xeGe x,yeG=›x + yeG.


Seja então G c R um grupo aditivo de números reais. Indiquemos
com G* o conjunto dos números reais positivos pertencentes a G.
Excetuando o caso trivial G = {0}, G* é não-vazio. Suponhamos
pois G ai Prove que:
i) Se infG”' = 0, então G é denso em R;
ii) Se infG+ =a >0, então aeG* e G = {0, ±a, ±2a,.._}.

[Sugestãoz para provar (ii) note primeiro que se fosse a ¢ G* existiriam


g, heG* com a < h < g < a +%›donde%>g-heG*,
uma contradição. Em seguida, observe que todo geGv se escreve
sob a forma g = a~q + r, com qeZ, sendo 0 5 r < a. Veja que r=
= g-a~qe G, pois q é inteiro.]
iii) Conclua que, se aeR é irracional, os números reais da forma
m + na, com m, nel, constituem um subconjunto denso em R.
59. Sejam? g: R ›< R-›Re<p, 1//: R x R R-›R as funçöes deñnidas
><

por f(X, y) = 3x-Y, ø(X, Y)=(X-1)2 + (y +1)*-9. <¢›(X, y, 2) = 32,


I//(X, y, z) = x2 + yz-z. Interpretando (x, y) como as coordenadas
cartesianas de um ponto do plano R1 e (x, y, z) como coordenadas de
um ponto do espaço R3, descreva geometricamente os conjuntos
f"`(0)› 9_'(0)› (PAXÍO) ¢ ~lI'1(0)-
60. Seja um número real positivo. Dado um número racional p/q (onde
pel qe N), de?na a potencia de base a e expoente racional p/q
e
como af'/" = W,
Prove:

1.°) Para quaisquer r. se@ tem-se a'-as = a'*' e (a')“ = a"“;


2.°) Para todo re Q, a função ft (O, + oo) -› (O, +00), dada por f(x) =
= x', é uma bijeção crescente;
3.°) A função g: Q -› R, de?nida por g(r) = af,(onde a é um número
real positivo fìxado) é crescente se a > 1, edecrescente se 0 < a < 1.
CAPÍTULO IV

SEO.üENCIA_S SERIES DE
E
` NUMEROS REAIS

Estudaremos, neste cpítulo, os limites de seqüência dos números


reais e, em particular, trataremos das séries (ou “somas in?nitas”).
Todos os eonceitos e resultados importantes da Anâlise Matemática
se referern, quer explícita quer indiretamente, a limites. Dai o papel central
que esta noção desempenha.
" Os limites de seqüências de números reais são os mais simples; por
isso começaremos por eles. Outros tipos mais so?sticados de limites,
como derivadas, integrais, seqüências de funçöes, etc., serão estudados nos
capitulos posteriores. i ^

Do ponto de vista intuitivo, sugerimos ao leitor pensar numa seqüência


(xl, x2 ,..., xn ,... ) de números reais como uma seqüência de pontos
da reta e no,seu limite, que deñniremos a seguir, como um punto do qual
os pontos xn tornam-se e permanecem arbitrariamente próximos, desde
que se tome o indice n su?cientemente grande. Um resultado crucial para
justi?car essa imagern geométrica é fornecido pelo Teor. 1, do Cap. III,
que recordamos agora.
Dados os números reais a, x, e, com s > 0, as três añrmaçöes seguintes
são equivalentes:

|x-a| < e, zz-e < x < a + e, x pertence ao intervalo (a-a, a + 2).

Assim, o intervalo aberto (a~a, u + e), que chamaremos o intervalo


aberto de centro a e raio za, é formado pelos pontos cuja distância ao ponto
a (centro do intervalo) é menor do que s.
Analogamente, os pontos x do intervalo fechado [a-za, a + e] são
caracterizados pela propriedade de estarem situados a uma distância
menor do que ou igual a .s do centro a (ou seja, |x-a| 5 s).
Outro resultado simples, porém indispensável para o estudo dos
limites de seqüências,é o Teor. 3 do Cap. II, segundo o qual um subcon-
junto X c N é infinito se, e somente se, é ilimitado.
Quando X c N é um conjunto infinito, oostuma-se dizer que X
contém números naturais “arbitrariamente grandes”. Isto quer dizer que,
dado qualquer nl e N, existe n e X tal que n > nl Em particular, se existir
.

um número no e N tal que X contérn todos os números naturais n > no ,


wrf

78 Curso de análise

então X é inñnito (embora nem todos os subconjuntos infinitos X <: N


gozem desta propriedade). Neste caso, costuma-se dizer que “X contém
todos os números naturais suficientemente grandes". Uma añrmação
equivalente: N~X é ?nito.

§1 Seqüências
De acordo com a deñnição geral (Cap. I, §5), uma seqüêncüz de números
reails é uma função x: N -› ER, de?nida no conjunto N = {1, 2, 3 ,... }
dos números naturais e tomando valores no conjunto [R dos números
reais. O valor x(n), para todo ne N, será representado por xn e chamado
0 termo de ordem n, ou n-ésimo termo da seqüência.
Escreveremos (xl, xl ,..., xn ,... ), ou (x")"EN, ou simplesmente (xn),
para indicar a seqüência x.
Não se deve confundir a seqüência x com o conjunto x(N) dos seus
termos Para este conjunto, usaremos a notação x(N) = {x¡ ,xz ,..., x" ,...
A função x: N ~› IR não é necessariamente injetiva: pode-se ter xm = xn
com m 9€n. Em particular (apesar da notação) o conjunto {x¡ x2,..., ,

x" ,... } pode ser fmito, ou até mesmo reduzir-se a um único elemento,
Illlllllll como é o caso de uma seqüência constante, em que xn = a e IR para todo
n e N.
Quando a seqüência (x,) for injetiva, isto é, quando m ¢ n implicar
xm sé xn, diremos que ela é uma seqüência de termos dois a dois distintos.
Diz-se que a seqüência (xn) é limitada quando o conjunto dos seus
termos é limitado, isto é, quando existem números reais a, b tais que a 5
5 xn 5 b para todo ne N. Isto quer dizer que todos os termos da se-
qüência pertencem ao intervalo [a, b].
Todo intervalo [a, b] está contido nmn intervalo da forma [~c, c],
com c > 0 (intervalo simétrìoo). Para ver isto, basta tomar c = max {|al,
Como a condição xne[-c, c] é equivalente a |x,,] S c, vemos que
uma seqüência (xn) é limitada se, e somente se, existe um número real
c > 0 tal que |x,,| 5 c para todo ne N. Dai resulta que (xn) é limitada se,
e somente se, (|x,,|) é limitada.
Quando uma seqüência (xn) não é limitada, diz-se que ela é ilimitada.
Uma seqüência (xn) diz-se limitada superiormente quando existe um
número real b tal que x,, 5 b para todo ne N. Isto significa que todos os
termos x" pertencem â semi-reta (~oo, b]. Analogamente, diz-se que (xn) é
limitada ínferiormente quando existe ae|R tal que a 5 xn (ou seja, xne
G [a, +co)) para todo ne N.

-gr
Seqüências s series de números reais 79

Evidentemente, uma seqüência é limitada se, e somente se, é limitada


superior e inferiormente.
Dada uma seqiiência x = (x,,),_EN de números reais, uma subseqüência
de x é a restrição da função x a um subconjunto inñnito N' = {n1 < nz <
< < n¡ < de N. Escreve-se x” = (xn)nEN. ou (xm, x,,z,...,x,,í,...)
ou (x,_¡)¡EN para indicar a subseqüência x' = x| N”.

Observação. Estritamente falando, uma subseqüência x' não é uma se-


qüência pois seu dominio N' não é necessariamente 'igual a N.
Mas é trivial considerar X como função definida em N, a saber, a função
ln-›xm, 2›-›x,,2 ,..., ii-›xnx ,... Isto é o que se faz ao usar a notação
xl = (xn¡)¡EN '
Lembremos que um subconjunto N' c N é inñnito se, e somente se,
é ilimitado, isto é, para todo noe N' existe nie N' com n, > no.
Toda subseqüência de uma seqüência limitada é limitada (respectiva-
mente limitada superiormente ou inferiormente).
Uma seqüência (xn) chama-se crescente quando xl < x2 < x3 < ...,
isto é, quando xn < xn? para todo n e N. Se vale xn 5 xn? para todo n,
a seqiiência diz-se não-decrescente.
Analogamente, quando xl > xz > xa > ..., ou seja, quando xn >
> x? para todo ne N, a seqüência (xn) diz-se decrescente. Ela é chamada
1

não-crescenze quando x, 2 x,,+¡ para todo ne N.


As seqüências crescentes, não-decrescentes, decrescentes e não-cres-
centes são chamadas seqüências monótnnas.
Uma _seqüência não-decrescente é sempre limitada inferiormente
pelo sw primeiro termo, por exemplo. Do mesmo modo, uma seqiiência
não-crescente é sempre limitada superiormente.
Para que uma seqiiência monótona seja limitada é (necessário e)
su?ciente que ela possua uma subseqüência limitada. Com efeito, seja,
por exemplo, xm 5 x,,2 5 S xnk 5 5 b uma subseqüência limitada
da seqüência não-decrescente (xn). Então, para qualquer ne N, existe
um nk > n e, portanto, x,, 5 xnk S b. Logo xn 5 b para todo ru A seqüência
(xn) é, yconseqiíentemente, limitada.

EXEMPLO 1. xn =
para todo ne N; isto de?ne a seqüência constante
1

(1, 1 ,..., ,... ); ela


é evidentemente limitada, pois x(N) =
1

= {1}, não-decrescente e também não-crescente.

EXEMPLO 2. xn = n para todo ne N. Neste caso, x: N -› [R é a apli-


cação de?inclusão. Obtém-se a seqüência (1, 2, 3, . . . , n, . . .)
80 Curso de anúliso

que é limitada inferiormente, ilimitada superiormente, monótona cres-


cente.
EXEMPLO 3. xn =0 para n par e xk = 1 para n impar. A seqüência
assirn definida é (1, 0, 1, 0 ,... ). Seu conjunto de valores
é x(N) = {0, 1}. Ela é limitada e não monótona. A mesma seqüência
poderia tambémlser (leñnida pela fórmula xn = 1/2[1 + (-1)"* l] ou então

por xn = senï

EXEMPLO 4. xn = l/n para todo n e N. Temos a seqüência (I, 1/2, 1/3, _ . _

1/n, _), monótona decrescente, limitada.


. .

EXEMPLO Seja xn = [1 + (-1)"“]n/2, Então xn = n para n ímpar e


5.
xn = 0 para n par. A seqüência (xn) tem a forma (1, 0, 3;
0, 5, 0,... ). Ela é limitada inferiormente, ilimitada superiormente, não
monótona Seus termos de ordem impar constituem uma subseqüência
monótona crescente ilimitada, x2,,_1 =2n-1, enquanto os termos de
ordem par constituem uma subseqiiência constante, xl" = 0.

EXEMPLO Consideremos a seqüência (a, az, 113, ..., a" ,... )


6. Seja a e R.
das potências de a, com expoente n inteiro positivo. Se a = 0
ou a = 1, tem~se evidentemente urna seqüência constante. Se 0 < a < 1,
a seqüência é decrescente, limitada. Com efeito, multiplicando ambos
os membros da desigualdade a <l pelo número positivo a" obtemos
an-+1 < a", logo a seqiiência é decrescente. Como todos os seus termos são

positivos, temos 0 < a" <1 para todo n. Consideremos agora o caso
-1 < a < 0. Então a seqüência (a") não é mais monótona (seus termos
são alternadamente positivos e negativos) mas ainda é limitada pois |a"| =
= ]a|", com 0 < ]a| < 1.0 caso 'a = -1 é trivial: a seqüêneia (a") é (-1, +1,
-1. +1 ,... ). Quando a > 1 obtém-se uma seqüêneia crescente: hasta
multiplicar ambos os membros desta desigualdade pelo número positivo a"
para obter a"“ > a". Mas agora temos a = + h com h > 0. Logo,
1

pela desigualdade de Bernoulli, a" > + nh. Assim, dado qualquer número
1

real b, podemos achar n tal que a" > bz basta tomar n > #› pois isto

fornecerâ suocssivamente nh > b-1, + nh > b, a” > b. Assim, quando


1

a > 1, (a") é uma seqüência crescente ilimitada. Finalmente, quando a < -1,
a seqüência (a") não é monótona (pois seus termos são alternadamente
positivos e negativos) e é ilimitada superior e inferiormente. Com efeito,
seus termos de ordem par, az" = (a2)", constituem uma subseqüência
crescente, ilimitada superiormente, de números positivos, a saber, a se-
Soqü?ncías e sórios de números ruiz 81

qüência das potências do número ai > 1. Enquanto isso, seus termos de


ordem ímpar constituem uma subseqüência decrescente, ilimitada infe-
riormente, a saber, seqüência a2"“ = a(a2").

EXEMPLO 7. DadoaeIR.com0<a< 1,sejax,,= +a+~--+a"= 1

= %¬ para todo ne
_ »H
N. A
.

seqüêncìa (xl, xl, . . .,x,_,. . .)

é crescente, pois xn? = x,, + a"“. Alem disso, ela é limitada pois 0 <
< xn < É para todo rr Em particular, tomando a = 1/L obtemos

1+ 1/2 + +1/2" = 2-% < 2 para todo new.

EXEMPLO 8. Uma seqüência importante em Análise é a que tem como


n-ésimo termo a » = 1 + -L +
1 1
L
21
+ + nr Ela é eviden-
temente crescente. Além disso, é limitada, pois

a
~
<l+l+-L+¿+-~-+
2 2-2 ïfff <3 1
'
paratodoneN.

EXEMPLO Estreitamente relacionada-com o exemplo acin-la é a se-


9.
qüência cujo n-ésimo termo é bn = (1 + l/n)". A fórmula
do binômio de Newton nos dá

_
bn-(l+í) "_-l+n-rT+›~ì†-;¡+
_l n(n-l)1
l
+ìn!-n,›
n(n-1)...2~ll_

ou seja
l
1›,_=1+1+¡(1-¡)+¡-(1-¡)(1-ï)+~
1 2 1 1
+

†±<~%><1~%>~2<1l†
Vemos ainda que cada bn é urna soma de parcelas positivas. Cada uma
dessas parcelas cresoe com n. Além disso, o número de parcelas também
crcsoe com n. Logo a seqüência (bn) é crescente. Observamos ainda, pela
última igualdade, que b, < an para todo n. Logo (bn) é urna seqüência
limitada. com bn < 3 para ne N årbitrário.
82 Curso de análisa

EXEMPLO 10. Tomemos xl = 0. x2 = 1 e. para cada n = 1, 2, 3....,


ponhamos x,,+2 = %(x,, + x,_+¡). A seqüência que se ob-

tém é (O, 1, 1/2, 3/4, 5/8, 11/16, 21/32¬...). Seus termos são de?nidos por
indução: cada um deles, a partir do terceiro, é a média aritmética entre os
dois termos anteriores. Ora, dados os números a, b, digamos com a < b,
+b
,
sua medra antmetlca
. _ , .
flì- ,
e
,
o ponto medro do segmento de reta [a. b].
_

a + b
Logo obtem-se
.
-T- ,
somando-se ao numero a a metade da dlstancla de
. Á _

a a b, ou seja %(b-a), ou então subtraindo-se de b a mesma quantidade.

Segue-se que os termos desta seqüência são xl = 0, xl = 1, xl = 1-


_i,x =1_L+_&_, X =1_i+L_i,x
2 4
=1_L+L_l+i,
2 4 16 8
2 4 2 4 5 8 6

etc. Separando os termos de ordem par dos de ordem ímpar. obtemos

x¡=O,
x3=1~%=%»

XS"
_1,L+L_i '2i+Ls* 2 4 s

' 1 1 1 1 1 1 1 1

~=(+ì)+(¢~§)+(¢ee)=ï+§~+§›
xzm =ï+¡¡¿+Ñ+›-~+
1 1 1

+ïF?'ï1+í+F*“+F?”
1 1 1 1 1

enquanto um cálculo análogo nos dará

Xz..='-1' í+?+"'+Fr'
1 1 1

Assim, vemos que a seqüência (xn) é limitada, com 0 5 xn 5 1. Seus termos


de ordem par constituem uma subseqüência decrescente e os de ordem
ímpar uma subseqüência crescente.

EXEMPLO 11. Seja xn = \'/7. Trata-se de uma seqüência de números


positivos, portanto limitada inferiormente. Vejamos se é
Seqüências e sáries de números raaìs 83

monótona: para que seja \'/Í > "Í7 n + 1 é necessário e suficiente que
n"“ > (n + 1)",
_ ,
isto e, que n > (1 + T) 1 "
. Isto de fato ocorre para todo

n ¿ 3, pois
_

sabemos que (1 + í)
1 "
< 3. seja
. _

qual for n. Assim concluimos


que a seqüência dada por `/Í
é decrescente a partir do seu teroeiro termo.
Note-se que l < `/-Í < logo ela cresoe em seus três primeiros passos,
só então começando a decrescer. Assim (W) é limitada.

§2 Limite de uma seqüência


Intuitivamente, dizer que o número real a é limite da seqüência (xn)
significa afirmar que. para valores muito grandes de n, os termos xn tor-
nam-se e se mantêm tão próximos de a quanto se deseje. Com um pouw
mais de precisão: estipulando-se um “erro” por meio de um número real
a > 0. existe um índice nc tal que todos os termos xn da seqüência que
têm indice n maior do que no são valores aproximados de a com erro
inferior a s. O indice nu, evidentemente, deve depender de Q sendo de se
esperar que, para valores cada vez menores de e, necessite-se tomar no
cada vez maior.
Isto nos leva à seguinte de?nição.
Diz-se que o número real a é limite da seqüência (xn) de números
reais, e escreve-se a = lim xn, ou a = lim xn, ou a = lim xn, quando para
.ww 1.

cada número real s > 0, dado arbitrariamente, for possivel obter mn in-
teiro n0eN tal que |xn-a| < s, sempre que n > no.
Em linguagem simbólica (conveniente no quadro-negro):

limx" = a.E.Vz: > 03nUeN; n > noàfxn-a| < 5 I

O simbolo: E. significa que o que vem depois é definiçåo do que


vem antes;
V significa “para todo”, ou “qualquer que seja”;
3 significa “existe";
; significa “tal que";
=> significa “implica”.
Assim, a mensagem acima estenografada tem a seguinte tradução:
"lim xn = a quer dizer (por definição) que. para todo número real
a > 0, existe um número natural no tal que n > no implica |x,,~a| < s”.
84 Curso de análise

O matemático inglês G. H. Hardy, um aficionado


das competiçöes
bem entender a idéia de limite,
esportivas, costumava dizer que, para
digamos, o mocinho,
deve-se pensar em dois competidores. Um deles.
o bandido, pro-
quer provar que lim x" = a, enquanto o outro, digamos,
enquanto o mocinho
cura impedi-lo. O bandido fornece os êpsilons (2)
> 0 proposto como desafio, o no corres-
trata de conseguir_ para cada s

pondente (isto é, no tal que n > no implique lx"-a| < e).


O mocinho ganhará o jogo (e ?cará portanto
estabelecido que lim xn =
adversario, ele for capaz
= a) se, para qualquer s > 0 exibido pelo seu
n > no = lx"-al < s). Por
de obtcr um nu conveniente (isto é, tal que
basta que ele consiga
outro lado, para que o bandido ganhe a parada.
achar um número real s > 0 para 0 qual nenhum no que o mocinho venha
a tentar, sirva. (Ou seja, esse s deve
ser tal que para todo no exista n > no
com lx”-al 2 s.)
qualquer
Voltando a falar serio, observamos que se lim xn = a então
todos os termos
intervalo (afa, a + 2). de centro a e raio a > 0, contém
um número ?nito de indices n.
xn da seqüência, com exceção no máximo de
lim xn = a, obtemos
Com efeito, dado o intervalo (aes, a + 6), como a + s).
nu-EN tal que n > no =› lx" ~a| < e.
Ou seja, n > n0=›xne(afe,
estar, no máximo, os
Assim, fora do intervalo (a~e, a + e) só poderão
termos xl, xl ,..., xne.
eontém todos
M Reciprocamente: se qualqueriintervalo de centro a
finito de indices n, então lim xn = a.
os xn, salvo talvez para um número
(a~s, a + a) conterá todos
Com efeito, dado qualquer e > 0, o intervalo
Seja no o maior índice n
os xn exceto para um número ?nito de índices
n.
<
talquex,,¢(a›@¬a + s).Entãon > n0=>x,,e(a-s,a + eLouseja]x,¡a|
< s. Isto prova que lim xn = a.

x (n > no)
\ rr "I \
) 1 A
.

a+ s xno
v

xl x2 a-s a

Quando lim xn = a, fora de um intervalo (af c. a + a)


estão no máximo os termos xl x2 , , . . _ , xnu.

para a, ou
Quando lim xn = a, diz-se que a seqüência (xn) converge
tende para a e escreve-se x" -› a. Uma seqüência
que possui limite cha-
ma-se convergente. Do contrario, ela se chama divergente. Explicitamente,
uma seqüência (xn) diz-se divergente quando, para
nenhum número real a,
é verdade que se tenha 1imx_ = a.
Seqüêncins u :tries de números rsais 85

Demonstraremos, agora, alguns resultados simples sobre limites, a


ñm de podermos analisar inteligentemente os exemplos que virão logo
a seguir.
Em primeiro lugar, mostraremos que uma seqüência não pode possuir
dois limites distintos.

TEOREMA 1 (Unicidade do limite). Se lim xn = a e lim xn = b então


a=b.
Demonstração, Seja lim xn = a. Dado qualquer número real b a? a, mos-
traremos que não se tem lim xn = b. Para isso, tomemos
e = -|%- Vemos que e > 0e notamos ainda que os intervalos (a-5, a + e)

e (b~s, b + 2) são disjuntos (Se existisse xe(a-e, a + e)n(b~e, b'+ s)


teríamos |a-x| < s e |x-b| < e, donde Ia-b| 5 Ia-xl + |x-b[ < 22 =
= |a _ b |, um absurdo.) Ora, como lim xn = a, existe no e N tal que n > no =
=> xne(a-e, a + e) e, portanto, x,,¢ (b-2, b + 2) para todo n > no. Logo
não é lim xn = b. _

TEOREMA 2. Se lim xn = a então toda subseqüência de (xn) conuerge


para o limite a.
Demonstração. Seja (xm xm ,..., xm ,...) uma subseqüência de (xn). Dado
,

s > 0, existe n°eN tal que n > no: |x,,-a| < s. Como
os índices da subseqüência formam um subconjunto in?nito, existe entre
eles um nio > n0.Então ni > nío 2
ni > no =› |xm†a| < e. Logo lim xm = a.

COROLÁRIO. Se lim xn = a então, para todo ke N, lim x?k = a. Com


efeito, (x1+,,, x2+,, ,..., x,,+,¢ ,... ) é uma subseqüência
de (xn).
Exprime-se o corolário acima dizendo que o limite de uma seqüência
não se altera quando dela se omite um número finito de termos. Na rea-
lidade, o Teor. 2 diz que o limite se mantém,mesmo que se desprezem
termos em número in?nito (desde que se conserve uma in?nidade de
indices, de modo a restar ainda uma subseqüência).É útil (e óbvio) o
fato de que se (x,,+,=),,êN converge, então (x,,),_EN também converge.

Observação. Há duas aplicaçöes especialmente úteis dos Teors. 1 e 2


(conjuntamente). Uma delas é para mostrar que uma certa
seqüência (xn) não converge: basta obter duas subseqüências de (xn) com
limites distintos. A outra é para determinar o limite de uma seqüência
86 Cursa de análise

converge: basta determinar o limite de al-


(xn) que, a priori, se sabe que
situaçöes como
guma subseqüência. Ele será o limite procurado. Veremos
estas nos Exemplos 13 e 14.
Toda seqüência convergente é limitada.
TEOREMA 3.
vemos que existe
Demonstração. Seja a = lim xn. Então, tomando s = 1,
noe N tal que n > no =› xne(a-1, a + 1). Consideremos
o conjunto ?nito F = {x,, x2 ,.... xnu, a-1, a +
l}. Sejam c o menor
e d o maior elemento de F. Então todos
os termos xn da seqüência estão
a seqüência é limitada.
contidos no intervalo [c, d]; logo
1, 0, 1, ...) é limitada
Observaçöes. 1. A recíproca é falsa: a seqüência (O,
mas não é oonvergente porque possui duas subseqüências
.) e (1, 1, 1, .).
que convergem para limites diferentes, a saber, (O, 0, 0,
. . . .

2. Basta então veri?car que uma seqüência não é limitada


para concluir
que ela não converge.
A proposição seguinte nos fornece um “criterio de convergencia”.
isto é, nos permite concluir que uma seqüência (xn) converge, mesmo sem
conhecermos, a priori, o seu limite.
o teorema
Além de sua importância, tanto teórica como pratica,
provâ-lo “de
abaixo teve um papel histórico relevante. Foi tentando
a impos-
maneira puramente aritmética” que Dedekind (1858) veri?cou
satisfatória
sibilidade de fazê-lo sem antes possuir uma teoria matematica
dos números reais. Isto o motivou a construir os números reais através
dos “cortes” que hoje têm o seu nome. (Veja [Dedekind].)

TEOREMA 4. Toda seqüência monàtona limitada é convergente.

Demonstração. Para ñxar as idéias¬ seja (xl 5


xl 5 5 xn 5 ...) uma
seqüência não-decresoente limitada. Tomemos a = sup {x,,;
n =1, 2 ,... A?rmamos que a = lim xn. Com efeito, dado qualquer
s > 0, como a~s < a, o número a~¿:
não é cota superior do conjunto
dos xn. Logo existe algum no E N tal que a-s < xn Como a
seqüência
_

é monótona, n > no =› xno 5 x”


e, portanto, a~s <px". Como xn 5 a
para todo n, vemos que n > llo => a~¿: < xn < a -F s. Assim, temos de

fato lim xn = a, como queríamos demonstrar.


lim xn = inf {x"; =
Obseruação. Se (xn) fosse não-crescente, teriamos
n

=l,2_... }.
(xn) possui uma subseqüêncía
COROLÁRIO. Se uma seqüêncüi monówna
canvergente, então (xn) é convergente.
Seqüências u series de números mais 87

Com efeito, neste caso a seqüência monótona (xa) é limitada porque


possui uma subseqüência limitada.

EXEMPLOS. Antes de apresentar exemplos novos, reexaminaremos os


dez anteriores, do ponto de vista de convergência.
Toda seqiiência constante (a, a ,..., a ,... ) é evidentemente conver-
gente e tem limite a. Em particular. liml = 1.
A scqüência (1, 2, 3 ,..., n ,... ) não converge porque não e limitada.
A seqüência (1, 0, 1, 0 .... ) é divergente, pois admite duas subseqüências
(constantes) que convergem para limites diferentes.
Temos lim % = 0. Com efeito, dado s > 0 arbitrário, podemos obter
›.-«›

n0eN tal que no >?- Entao n > n0=›ï <š < e, ou se_1a,n > n0=-.›
1 ~ 1 1 _

=> I L- 0
VI
` < S.

A seqüência (l, 0, 2, 0, 3, 0 ,... ) não é convergente porque é ilimitada.


Note-se que ela possui uma subscqüência convergente.
Quando a = 0 ou a = 1, a seqüência (a") é constante, logo converge
trivialmente. Quando a = -1, a seqüência (a") diverge pois é igual a
(-1, + 1, -1, +1 ,... ). Quando a > 1, a mesma seqüência é monótona
crescente e ilimitada, logo é divergente. Quando a < -1, a seqüência
é divergente por ser ilimitada. Seja agora 0 < a < 1. Então a seqüência
(a, az, aa ,... ) é monótona (decrescente) limitada; logo, converge.
Añrmamos que lim a" = 0 (quando 0 < a < 1). Com efeito, dado
›.-«›
,
La > 0, como É1
> 1, as
.
potencias de 1/a formam uma sequência cres-
_, .

cente ilimitada. Logo existe noe N tal que n > no => <%)" > %, ou

seja,
.
F > ?› lsto é, a”
1 1 .
< e.
.
Assim, n > no =› |a"-O| < a.o que most”
ser lim a" =
»-»Q
OQ Finalmente, se -Í <a < 0, añrmamos que ainda se

tem lim a" = 0. Com efeito, temos 0 < |a| < 1. Logo 0 = lim |a|" =
|l*® |l*®
= lim Segue-se que lim a" = 0, em virtude da seguinte obser-
..¬w ,--»Q
vação: ,lim xn = 0-==›lim|x,,| = 0. (A veracidade da observação é
trivial. Basta usar a definição de limite.)
Se0< a <1,aseqüênciacujon-ésimotermoéx" = 1+ a+ az + +
+ a" é crescente e limitada, logo converge. Añrmamos que lim xn =
:Hua
88 Curso de anålin

_ n+i
= åì- Com efeito, temos xn = %-› ›»+1
logo x,,-¿E = H-
Dado a > 0 podemos, em virtude do exemplo anterior, obter n0eN
an+1
tal uen>n=>a"“<s1-a.Seue-se uen>n=›-<e,ou
laa
É
° °

seja
.
xnñ 1
< a. Logo l1m xn =
. 1 ,
como queriamos demons-

apenas 0 < |a| < a seqüência (xn) pode não ser mo-
trar.
,
Se vale

notona mas ainda


.
se tem lim xn
.
1,

= É 1
pelo argumento acima.
,

8. e 9. As seqüências (an) e (bn), sendo monótonas limitadas, são conver-


gentes. Seja e = lim an. Mostraremos logo mais (Exemplo 16) que
se tem também e = lim bn. (O número e, base dos logaritmos naturais,
éuma das constantes mais ubíquas na Análise Matemática.)
10. Neste exemplo, os termos de ordem impar constituem uma seqüência

ïï
crescente limitada.
l
xzn-i=ï1+T+¶*"`+É 1 1 1

=
1..
_11_(T>_2,1".
_ï ¿Í
4

Vemos que x2,,_1~%l = Como 0 < % < 1, segue-se do

> 0 arbitrariamente, podemos obter tal


í
Exemplo 6 que, dado e no
2 "

que n > no => (T)


1 "
< s. Com maior razão, n > no => (T> <
1
e,

,
ou seja, n > n0=› xZ,__¡ -ï 2 _

< s.Ass1m'lg1¿ x2n_, =


.
-í-
2

Analozamente, os termos de indice par formam uma subseqüência


decrescente limitada.

m=›_[;+(¿y+.._+(¿)~*']=

*+%+"'+(%)“l=*%l*'(%)"l'
Como 2 -ig = % vemos que* xzn ?š- l: % Segue-se dai que
Seqüàncias e series de números reais 89

. 2
lim xzn =
:Han
É- .
.
Venñcamos assim que os termos de ordem par e os ter-
mos de ordem ímpar da seqüência (xn) formam duas subseqüências que
.
tem o mesmo limite
. .
Deve resultar drsto que lim x,, = 2
. .

ï- De fato,
d3d08>0,€XlSÍ€1Tl
n1,n2eN tais quen >
_ .
2
n¡,npar=›Ix_-ï' <e
e n > nz , n impar =¢› xn-%[ < i e. Seja no 0 maior dos dois números
nl, nz, isto é, no = max{n¡, n¡}. Então n >n0=›n >n¡ e n > nz.
Logo, quer n seja par quer seja ímpar, tem-se lx,-ã-J < e para
todo > no.
n
11. Como, a partir do seu terceiro termo, a seqüência (J/Í) é decrescente,
segue-se que existe a = lim Mostraremos logo mais (Exemplo 14)
que a = 1.

§3 Propriedades aritméticas dos limites


Veremos agora como se comportam os limites de seqüências rela-
tivamente às operaoöes (soma, multiplicação, divisão, etc.) e às desigual-
dades. `

TEOREMA 5. Se lim xn = 0 e (yn) é uma seqüência limitada, então lim xn -

- yn = 0 (mesmo que não exista lim yn).


Demonstração. Existe c > 0 tal que | y,,| < c para todo n e N. Dado a
> Ó,
como lim xn = 0, podemos encontrar n0eN tal que n >
> n0=>|x,_| <%- Logo,n > n0=› |x,,-y,,| = |x,||-|y,,| <-É-c = e. Isto
mostra que xn ' yn -› 0.

EXEMPLO 12, Qualquer que seja xeIR, temos lim W = 0. Com

efeito gl@ = sen(nx)-%›com|sen(nx)|51e%-› 0.


Antes de demonstrar o teorema abaixo, observemos o seguinte:
quando lirn yn = b, com b aé 0, então, salvo um número ñnito de indices n,
tem-se yn aé 0. Com efeito, sendo b ¢ 0, podemos tomar um intervalo
(b-e, b + za) de centro b, tal que 0¢(b-s, b + s). (Basta tomar e =
90 Curso de unálise

Então existe n0eN tal que n > no =›y"e(b~a. b + c), isto é, n > no =>
=> yn 96 0.

No Item 3 do teorema abaixo, para formar a seqüência %¬ limitamo-


nos aos indices n suñcientemente grandes de modo que yn ;± 0.

TEOREMA 6. Se lim x" = a e lim yn = b, enzão,

l. lim(x,, + yn) = a + b; lim(x"-yn) = a~b;


2. lim(x,,~y,,)=a-b;
3. lim<š)=l
y b
se b¢0.

Demonstraçãa. 1. Dado a > 0 existem n¡ e nz em N tais que n > nl =


=› |x_-a| <ï e
e
.
n> n,=›|y,,--b| <ï- e .
Seja no =

= max {n¡, n2}. Então n > n0=›n > n, e n > nz. Logo n> no implica:

|(X.. + Y.)-(11 + b)| = |(X,.-H) + (Y.-bì| 5


5 |x,,-a| + Iy,-bl <%+%=a.
Isto prova que 1im(x,_ + yn) = a + b. O caso da diferença xn- yn
se trata do mesmo modo.

2. Temos xny"-ab = xnyn-xnb + xnb-ab = x,,(y,,-b) + (x,,~a)b. Ora. (xn)


é uma seqüência limitada (Teor. 3) e lim(.V,,-12) = 0. Logo, pelo Teor. 5,
lim [x_(y_-b)] = 0. Por motivo semelhante, lim [(x_-a)b] = 0. Assim,
pela parte 1, já demonstrada, temos lim(x,y,,-ab) = lim [x_(y_-b)] +
+ lim [(x,,-a)b] = 0, donde lim xnyn = ab.
3. Em primeiro lugar. notemos que. como yub -› bz, existe n0eN tal que
2 2

n > no =› ynb > (Basta tomar c = % e achar o Ilo oorrespondente.)


1 . , . . _

e um numero (positivo) inferior


_

Segue-se que, para todo n > no. a


'n

É. Logo, a seqüência é limitada. Ora. temos

¿__=_;¿=
x
yn
bx -ay
a
b
_ __.
U" “y")y»b y..b
b 1
Seqüèncias e sóries de números mais 91

Como lim (bxn-ayn) = ab~ab = 0, segue-se do Teor. 5 que

lim (%~%) = 0, e portanto lim É = %~


Observação. É claro que resultados análogos aos Itens 1 e
2, do Teor. 6,
valem ainda para três, quatro ou um número ?níto qualquer
de seqüências. Por exemplo, se lim xn = a, lim yn = b
e lim zn = c então
1im(x,, + y,, + zn) = a + b + c e lim(x,, y"~zn) = abc. Mas
deve-se tomar
~

o cuidado de não tentar aplicar o teorema para certas somas


(ou produtos)
em que o número de parcelas (ou fatores) é varíável e cresoe
acima de
qualquer limite. Por exemplo, seja sn = «ÍT +%+ +% (n parcelas).
Então sn = 1 donde lim sn =
Por outro lado, cada parcela % tem li-
1.

mite zero. Uma aplicação descuidada do Teor. 6 levaria


ao absurdo de
concluir que limsn =lim-:T+1im%+^~~+lim% = 0 -F 0 + +
+ 0 = o. i

EXEMPLO Examinemos a seqüência de números reais positivos xn =


13.
= Ja
= al/", onde a > 0. Ela é decrescente se a > 1
e crescente se 0 < a < 1, sendo limitada em
qualquer hipótese. Existe
portanto l= lim al/"_ Podemos garantir que l> 0. (Com efeito, se 0 <
H
ì›
< a < 1,então I = sup {a""; ne N} g a. Se for a > Ientão a”" > 1, paia
todo n, logo l=infa1/" 2 1.) A?rrnamos que se tem lim al/" = 1. Para
provar isto, consideramos a subseqüência (al/"l"+ 13) = (al/2, al/5, al/12
OTeor. 2eo Item 3 do Teor. 6 nos dãol = lim al/"^"“) = lim al'/"` 1/"* 1'
,... ),
=
=lÍm¶= =†=1-
a
al/" lim al/"
lim a
I

EXEMPLO Mostremos agora que lim \'/Í = lim nl/" = 1. Sabemos


14.
que este limite existe porque a seqüência é monótona
decrescente a partir do seu terceiro termo. Escrevendo
l = lim nl/", vemos
que l= inf{n1/"; neN}. Como nl/" >1 para todo neN,
temos 12 1.
Em particular, l> 0. Considerando a subseqüência (2n)1/2",
temos
12= lim [(2n)¡/z"]2 = lim [(2n)1/"] = lim [21/" nl/"] = lim2¡/" limn'/"
= ~
- I.

Como laé 0, de 12 = I concluimos l = l.

L
92 Curso de análise

EXEMPLO 15. Em relação ao limite de %, vejamos o que pode acon-

tecer quando lim yn = O. Façamos, então, esta hipótese.


Se, ainda assim, existir lim (ou pelo menos a seqüência for limi-
»
.-

tada) deve-se ter necessariamente lim xn = 0, pois xn = yn. Em outras


palavras, quando lim yn = 0 e a seqüência (xn) diverge ou" tem limite aé 0,

o quociente % não oonverge (nem sequer mantém-se limitado) Supo-

nhamos agora que lim xn = lim yn = 0. Neste caso, o quociente í pode

Í

x
. . ~
ter limite ou nao. Por exemplo, se xn = Te
1
yn = E entao
1 _ _

11m = a.
..

Mas se xn =
- e
L%
"
yn = ï› então % = (-1)", logo não existe
1 . .
11m

TEOREMA 7 lim xn = a > 0, existe no e N


(Permanência do sinal). Se
tal que n>n0=›x,,>0. (Se uma
seqüêncüi tem limite positivo, a partir de uma certa ordem todos os seus
termos sãa positivos.)

Demanstração. Seja s = a/2 > 0. Então (ave, a + e) = (a/L 3a/2). Existe


no e N tal que n > no =› x,,e(a/2, 3a/2), ou seja xn > a/2.
Assim n > no => xn > 0.

Observação. Da mesma maneira prova-se que se lim xn = b < 0 então, a


partir de uma certa ordem, todos os termos xn são negativos.

COROLÁRIO 1. Sejam (xn) seqüências convergentes. Se xn


e (yn) 5 yn para
todo ne N entãa lim xn 5 lim yn.

Com efeito, se fosse lim x" > lim yn, então teriamos 0 <1imx,_-
-lim yn = 1im(x,¡ yn) e, dai, teríamos x,,~ yn > 0 para todo n suficiente-
mente grande.

Observação. Mesmo supondo xn < yn, para todo n, não se pode garantir
que lim xn < lim yn. Por exemplo, 0 < 1/n, mas lim 1/n = 0.

COROLÁRIO 2. Seja (xn) convergente. Se xnza para toda n, então


lim xn 2 a.
Seqüêncls e séries de números nai; 93

TEOREMA 8. Sejam xn S zu S yn para todo ne N. Se lim xn = lim yn =


= a então lim zn = a.
Demonszração. Dado s > 0 arbitrariamente, existem nl eN e n2eN tais
que n > n¡ =x"e(a-e,a + a)en > n¡=›y,,e(a-e,a + a).
Pondo no = max {n1 , n¡}, vemos que n > no implica a~s < xn 5 zn 5
Syn < a+a, donde limzn =a.
EXEMPLO Voltando aos Exemplos 8 e 9, mostraremos agora que
16.
se tem lim an = lim bn = e. Em primeiro lugar, como bn <
< an para todo n, obtemos logo lim bn 5 lim an. Por outro lado, tìxando
arbitrariamente peN, temos, para todo n > p,

1›
"
21+1+i1-L +l(1-i
2 ! n 3 ! n
1-Ãn +~--+

p.
+%<1±><~1>~e<~e>r
n n n

Fazendo n -› oo (e mantendo p fixo) na desigualdade acima, o segundo


membro tende para o limite ap. O Cor. do Teor. 7, então, nos dá 1

lim bn > a para todo p. Novamente a mesma proposição nos permite


|l'*\73 _ F

concluir que lim b,, 2 ¡ww


lim a _ En?m, obtemos
n-wo P _

1", . 1 1 1

e=}L*%¿(1+7)=}L'H11+n+?+"'+m'

§4 Subseqüências
deñnição de limite pode ser reformulada assim: o número real a
A
é o limite da seqüência x = (x,) se, e somente se, para todo s > 0, o con-
junto
x'1(a-e, a + G) = {neN; x,,e(a-e, a+s)}
tem complementar finito em N. Sabemos que isto equivale a dizer que
existe n0eN tal que n > no=›xne(a-a, a + e).
Mostraremos agora que ae?ìl é limite de uma subseqüência de (xn)
se, e somente se, para todo e > 0, 0 conjunto

x'1(a-s, u + e) = {neN; XnE(?-E, a + a)}


94 Curso de anälise

é um subconjunto infinito de N. É claro que se um subconjunto de N


possui complementar finito ele é um subconjunto in?nito, mas a recíproca
é falsa.

TEOREMA 9. A ?m de que aellšl seja limite de uma subseqüêncügde (xn)


é necessárrb e su/ìciente que, para todo 6 > 0, exista umu
ín?nidude de índices n mis que x,,e(a~s, a + e).

Demonszração. Em primeiro lugar, a condição e necessária. Com efeito,


seja N' = {n¡ < nz < < nl < c N talquea=
= lim x". Então, para cada s > O existe io e N tal que i > io => xn e (a~s,
new' `

a + s). Como existe uma in?nidade de indices i > io, segue-se que existem
in?nitos n¡eN tais que x,,_e(a~s, a + s). Reciprocamente, suponhamos
que, para cada e > 0, 0 conjunto {ne N; xne(a-s, a + s)} seja in?nito.
Tomando sucessivamente s = 1, 1/2, 1/3 _... vamos obter um conjunto
N' = {n¡ < n < < n, < tal que a = lim xn. Com efeito, seja
2 VIEN'

n1eN tal que xme(a~1, a +


Supondo, por indução, que ri, <
1).

< nz < < ni foram de?nidos de modo que xnz e(a~ 1/2, zz + 1/2),
2,13 e(a- 1/3, a + 1/3),...,xme(a'1Wl/i, a + 1/i), observamos que o con-
,
junto
inteiro
ne N; xne
nin maior
a~†-,
+ 1
1

do que nl.
1
a + †1 +
n¿.....n¡.
1

1
,
e
_

Isto completa
.
m?mto, logo contem algum
a
,

de?nição in-
dutiva de N'={n1< nz < < ri, < Como |x,"~a| < para
todo ie N, temos xm = a, ou seja_ Iliràirxn = :L Vemos que a é limite
de uma subseqüência de (xn). A condição é, pois suficiente.
Um número real a chama-se valor de aderêncüz de uma seqiiência
(xn) quando a é limite de alguma subseqüência de (xn).
Lembrando que um subconjunto de N é in?nito se, e somente se, é
ilimitado, o Teor. 9 nos diz que ae|R é valor de aderência de (xn) se, e
somente se, para todo e > 0 e todo n0eN existir ne N tal que n > no e
xne(a~s, a + 2) Isto se exprime em linguagem comum dizendo-se que
a é valor de aderência de (xn) se, e somente se, todo intervalo aberto de
centro a contem termos xn com índices arbitrariamente grandes. Por outro
lado, zz = lim xn significa que qualquer intervalo aberto de centro a contém
todos os termos x" com índices su/ìcientemente grandes.

EXEMPLO 17. Se lim x" = a então a é valor de aderência de (xa) e, pelo


Teor. 2, a é o único valor de aderência de (xn). A seqüência
Seqüências e séries de números reais 95

(O, 1, 0, 2, 0, 3 .... )
tem 0 como seu único valor de aderência, embora não
seja convergente. A seqüência (O, 1, 0, 1, 0,...) tem como valores de ade-
rência O e 1. Qualquer que seja o número real a, existem infinitos números
racionais no intervalo (a-s, a + 2). Segue-se então do Teor. 9 que, dada
uma enumeração arbitraria (rl, rz ,..., rn ,... ) dos números racionais,
todo número real é valor de aderêncía da seqüência (rn). Seja xn = n. A
seqüência (xn) não possm valores de aderência.
Seja agora (xn) uma seqüência limitada de números reais. Mostra-
remos que o conjunto dos valores de aderência de (x,) não é vazio, que
entre eles existe um que é 0 menor de todos e outro que é o maior, e que
a seqüência converge se, e somente se, possui apenas um valor de aderência.
Num sentido naturaL o maior e o menor valor de aderência são genera-
lizaçöes do limite para o caso de seqüências limitadas que podem não
ser convergentes. Passemos á discussão formal.
Seja (xn) uma seqüência limitada; digamos, com oz 5 xn 5 ? para
todo ne N. Escrevamos X" = {x", xn? ,... Temos [og /3]: X1 :›
: X2 :› :› X" :› Logo, pondo an = in1`X,, e bn = supX", vem

<x§a1sa2§...5a"5...5b,,5...sb1sb,5?.
Existem, portanto, os limites

a = lim un = supa" = s1:pinfX",


b =1imb" =in1`b" =i13fsupXn.

Escreveremos a = lim infxn, b = lim sup x" diremos que a é o ,

limite inferior
e que b é o limite superior da seqüência (xn). Tem-se eviden-
temente
lim infxn 5 lim sup x,,.

EXEMPLO 18. Sejam xzn?l = ~% e xl” = 1 + Veri?ca-se sem di-

?culdade que infXZ"_z = int`X2n_¡ = ~% e sup X2"_¡ =

= sup Xi" = 1 + Logo lim inf xn = 0 e lim sup xn = 1. Estes são, aliás,
os dois únicos valores de aderência da seqüência (xn).

TEOREMA 10. Seja (xn) uma seqüêncüz limitada. Emão liminfx" é o


menor valor de aderënclkz e lim sup xn é o maior valor de
aderência de (xn).
96 Curso de anilise

a = lim inf x,_ é valor de ade-


Demonstração. Provemos inicialmente que
arbi-
rência de (xn) Para isto, usaremos o Teor. 9. Dados
existe ne N tal que n > no
trariamente e > 0 e noe N, mostraremos que a-e < <
existe nl > no tal que ani
e xne(a-e, a + a). Como a =lima,,,
desigualdade que a + e
< a + e. Como am = inf X M segue-se da_ última
,

2 nl
XM. Logo existe n
(sendo maior do que am) não é cota inferior de
tal que aMgx,,<a+e. Isto nos dá n>n0 oom a-e<x,,<a+e,
nenhum número c <a pode
como queríamos. Mostremos, agora, que
a =1ima,_, segue-se de c < a
ser valor de aderência de (xn). Ora, como
ano = infX,,0, concluimos
que existe n0eN tal que c < am 5 a. Como
que c + ç = ana,
que n 2 n,,=- c < u_u 5 x,_. Pondo s = am-c, vemos
logo o intervalo (c-e, c + a) não contém
termo xn algum com n 2 no.
de (xn). A demons-
Isto exclui a possibilidade de c ser valor de aderência
tração para lim sup se faz de modo semelhante.

possuí uma
COROLÁRIO 1.vToda seqüência limitada de números reais
subseqiiência convergente.
Com efeito, sendo a = lim sup x, um valor de aderência, alguma
subseqüência de (xn) converge para a.

COROLÁRIO 2. Uma seqüência limitada de números reails (xn) é conver-


gente se, e somente se, lim inf xn = lim sup xn, ¡sto é, se,
e somente se, possui um único valor de aderência.

Com efeito, se a seqüência (x,,) é convergente então lim ini`x,, =


= lim sup x,, = lim x,,. Reciprocamente, suponhamos lim inf x,, =
= lim sup x,, = a. Na notação acima, temos a = lim a,, = lim b,,. Dado
-
portanto c«> O, existe noe N tal que u s < a,,° 5 a s b,,c < a + 0.
Ora, n > no implica a,,O sx, $b,,0. Logo, n > n0=>o - < x,, < a + g,
+1

ponanto lim x,, = a.


lim sup xn.
Dada uma seqüência limitada (x,,), sejam a = lim inf xne b =
Existem subseqiiências de (xn) convergindo para a e para b, mas não para
um valor menor do que a nem maior do que b. Se a = lirãl xn, a subse-
PIE '

qüência (x,_),,eN. pode possuir uma inlinidade de termos menores do que


a. Mas, dado um número qualquer menor do que a, digamos, a-e, (com
s > 0) não pode existir uma inñnidade de indica n tais
que x_ < a-e,
pois, neste caso, esses indices originariam uma subseqüência de (xn), a
qual possuiria um valor de aderência c 5 a-e, 0 que seria absurdo.
Logo,
Seqüências e séries de números reais 97

para todo > O existe nl e N tal que n > nl =› a-a < xn. Analogamente,
1:

para todo s > 0 existe n2eN tal que n > nz => xn < b + 2. Em outras
palavras. dado qualquer intervalo aberto (aes, b + s) contendo o inter-
valo [a_ b], existe na e N (tome no = max {n1, nz})tal que n > no =› a~e <
< x" < b + e. Evidentemente, esta propriedade somente não basta para
caracterizar os números a = lim inf xn e b = lim sup xn: se todos os termos
xn da seqüência estiverem contidos num intervalo [zz, li] então ocfs <
< x,_ < ? + e para quaisquer neN e s > 0. Mas [a, b] é o menor inter-
valo que cumpre a condição acima, conforme nos ensina 0

TEOREMA = liminfx" e b = lim sup xn, onde (xn) é uma


11. Sejam a
seqüêncüz limitada Dado qualquer 2 > 0, existe no e N
tal que n > n0=> afz: < xn < b + Além disso, a é o maior e b é o menor
zx.

número com esta propriedade.

Demonstração. A primeira añrmação já foi provada acima Suponhamos


agora que a' seja um número maior do que :L Tomando
s = (o” ~a)/Z temos a + n = a' -L. Como a é valor
de aderência de (xn),
existe uma in?nidade de indices rr tais que aii: < x" < a + a, e, portanto,
xn <a'-a. Logo nenhum número a' >a goza da propriedade acima
estipulada. Do mesmo modo se mostra que se b' < b então existe > 0 1;

tal que inñnitos valores de n cumprem a condição b' + c < xn. lsto conclui
a demonstração.

COROLÁRIO < liminfxn então existe n1EN tal que n > nl :>
1. Se c
=› c < xn. Analogamente, se lim sup xn < d então existe
n2eN ral que xn <d para todo n > nz.
Com efeito, sendo a = lim inf xn, c < a significa c = o~g com e > 0.
Do mesmo modo se argumenta com lim sup.

COROLÁRIO 2. Dada uma SE'(jüêì1C|ìl limitada (xn), sejam a e b números


reais com as seguintes propriedades: se c < a então
existe n¡ eN tal que n > nt =› c < xn; se b < d então existe n2eN tal que
n > nz : xy, < d. Nestas condiç-ños. a 5 lim infxn e lim sup x" 5 b. '
Os Cors. e 2 apenas rcpetem, com outras palavras_ as a?rmaçöes
1

comidas no Teor. ll.

Apéndice ao §4

O Cor. l do Teor. 10, por sua importância_ merece uma demonstracão


direta. Uma alternativa razoável é provar que toda seqüência possui
98 Curso de análíse

uma subseqiíência monótona (veja o roteiro no Exerc. 15 deste capitulo)


e em seguida usar o Teor. 4. Outra possibilidade é a que apresentamos
agora.
Toda seqüência limitada de números reais possui uma subseqüência
convergente. k

Demonstração. Seja (xn) uma seqüência, digamos com x,,e[a, b] para


todo vt Consideremos o conjunto A = {teR; t 5 xn para
uma in?nidade de indices n}. Como a S x,, 5 b para todo ne N, segue-se
que aeA e que nenhum elemento de A pode ser maior do que b. Assim;
A é não-vazio e limitado superiormente. Existe, portanto, c =~sup A.
Para todo e > 0, existe teA com c~e < t, logo ha uma inlìnidade de
indices n tais que c- e < xn. Por outro lado, como c + s ¢ A, existe apenas
um número ?nito de indices n com c + e 5 x". Concluimos então que,
para uma in?nìdade de valores de n, temos c~a < xn < c + e. Segue-se
do Teor. 9 que rr é limite de uma subseqüência de'(xn).
O leitor notará que, na demonstração aeima, tem-se c = lim sup xn.

§5 Seqüências de Cauchy
Já salientamos a importância do Teor. 4 (“toda seqiìência monótona
limitada é convergente”)_ que nos permite saber, em certos casos, que uma
seqüência possui limite. mesmo sem conhecermos o valor desse limite.
Mas é claro que muitas seqüências convergentes não são monótonas,
de modo que aquele criterio de oonvergência não é o mais geral possivel.
Veremos agora 0 criterio de Cauchy_ que nos dará uma condição, não
somente suficiente mas também necessária para a convergência de uma
seqüência de números reais.
Seja (xn) uma seqüência de números reais. Ela se chama uma seqüêncía
de Cauchy quando cumpre a seguinte condição:

~dado arbitrariamente um número real s > 0, pode-se obter noe N tal


que m > no e n > 7l0iÍ1'lp1iC3.l'l'l'lXm-Xnl< s.

A fim de que (xn) seja uma seqüência de Cauchy, exige-se que seus
termos xm, xn, para valores su?cientemente grandes dos índices rn, n,
se aproximem arbitrariamente uns dos outros. Compare-se com a deñ-
nição de limite, onde se exige que os termos xn se aproximem arbitraria-
mente de um número real a. dado a priori. Aqui se impöe uma condição
apenas sobre os termos da própria seqüência.
Seqüéncias e sérios de números remix 99

TEOREMA 12. Toda seqüêncüz convergente é de Cauchy.

Demonstração. Seja lim xn = a. Dado arbitrariamente e > 0, existe no e N


tal que m > n0=>|xm-a| <ï e
e n > no =› |x,,-a| < í-
a

Logo m, n> n0=>]x,_-x,,| S lxm~a| + |x,,~a| < %+%= e, 0 que


mostra ser (xn) uma seqüência de Cauehy.
Intuitivamente: se lim xn = a então, para valores grandes de n, os
termos xn se aproximam de a. Neste caso, eles devem necessariamente
aproximar-se uns dos Outros.
Passaremos agora à demonstração da recíproca do Teor. IL que
é o resultado principal desta seção. As duas proposiçöes seguintes são
enunciadas como lemas porque estão contidas no Teor. 13.

LEMA 1. Toda seqüência de Cauchy é limitada.

Demonstração. Seja (xn) uma seqüência de Cauchy. Tomando s = 1, ob-


temos n0eNta1 que m, n 2 n0=›|xm-x,,| < 1. Em par-
ticular, n 2 nc => ixno-x,,| < 1, ou seja, n 2 no => xne(xn°- 1, xm + 1).
Sejam oz o menor e B o maior elemento do oonjunto X = {x¡ , x2 ,... xno -1, V,

xnn + 1}. Então xne[a, [3] para cada ne N, logo (xn) é limitada.

LEMA 2. Se uma seqüêncüz de Cauchy (xn) possui uma subseqüêncm con-


vergindo para aeilãl então lim x,, = a.

Demonstração. Dado a > existe no e N tal que m, n > no =› |x,n-x,_| <


0,
< e/2. Existe também (veja o Teor. 9) nl > no tal que
]x,,_-a| < e/2. Portanto, n > n0==›|x,,-al 5 lx”-xm| + |x,,¡--a| < +

+%= e. Isto mostra que lim xn = a.

TEOREMA 13. Toda seqüência de Cauchy de números reais é convergente.

Demonstração, Seja (xn) uma seqüência de Cauchy. Pelo Lema 1, ela é


limitada. Logo (Cor. 1 do Teor. 10) possui uma subse-
qüência convergente Segue-se do Lema 2 que Qxn) oonverge.

EXEMPLO 19(Método das aproxirnçzçães sucessivas) Seja 0 5 Â. < 1. Su-


`ponhamos que a seqüência (xn) seja tal que |x_ + 2 -x_+ ¡I S
É /1|x,,H-x,,| para todo neN. A?rmamos que (xn) é uma seqüência
100 Curso de anãlise

de Cauchy, e, portanto, converge. Com efeito, temes |x3 - xz| 5 Ä|x2 - x 1 I,


|x_,-x3| 5 Ä2|x2 -x1|, e, em geral, |x,,H -xn| 5 Á"`1|x2 -x¡| para todo
ne N. Segue-se que, para n, pe N arbitrários, vale

ix»+p'xn| 5 ixn+p`xn+p-1iÍ+ + ixn+1_xniS


5 (Ä"*”'2 + Ä"*P'3 +4--~ + /1"“*)|x2¬x1|=
= }."*'(/IP* + /IP* + + ,1 +1)|x,-xl|=
_ p n^1
=»¬~%~|›«2-›«11sä~|›=2-›«1z.
IF*
Como
.
11m ïixz-x¡| = 0, segue-se que, para qualquera > 0 dado,
-

n'*l
existe noe N tal que n > n0=›0 < %í~]x2-x1|< s. Dai resulta que m,
n > no = |xm-x"| < a (Pois podemos sempre supor m 2 n e escrever
m = n + p.)
Aplicação. (Aproximaçöes sucessivas da raiz quadrada). Seja a > 0. De?-
niremos uma seqüência (xa) tomando xl = c > 0 arbitraria-
mente e P ondo xn+ 1
= -
1
x +
conseguirmos Provar q ue existe
2 n
1
X ~ Se
. _

b = lim xn e b si 0, deve ser necessariamente b = \/2 De fato, fazendo


n-› oo na igualdade que de?ne xn? em função de xn, obtemos b =
= % (b + %)› ou seja b =% e portanto bz = a. Antes vejamos um re-
sultado que nos será útil.

LEMA. Para todo x > 0, tem-se ï 1


x +
a
Y >~ ï- a

Demonstração. Para x > 0, a desigualdade acima equivale a x2~


-(2 %)x I + a> 0, 0 que é verdade pois esse trinômio
do segundo grau tem discriminante negativo.

xn

S
-
Segue-se do lema que, para todo n >

xn? >

ïlxn? -x,,| para


ï› ou seja,
a .

todo
ïí '
a
xn ' xv»
fato para mostrar que a seqüência (xn) cumpre a condição Ixl +1 -xn , ¡|
1

n > 1.
1
< 1
1,

para todo

Decorrerá então, do Exemplo


temos x" >

n > 1.
%« Portanto_

Usaremos este

19, que
5
Seqüâncias e series de números renis 101

existe b = lim xn e, como x,, 2 % para todo n > 1, teremos b a? 0. Ora,

claro que

gi
é

1 a 1 1

xn+2-›?n+1=ï(xn+1†xn)+ï =

__ 1 1,-xn'xn+1_
2 (xn+1 xn)+ 2 x".xnH

xn+2"xn+1 = L_ a L, -

pols 0 < 2x»'xn+i


¿__ <1. A
x»+i'xn IZ
ï S
Logo \ 2xn.xn+1 2
. a
1
Y
_

fornece, portanto, aproxima-


, .
formula de recorreneia x,,+1 = x,, +
»

çöes sucessivas para \/Í.

§6 Limites infinitos
Entre as seqüências divergentes, destacaremos um tipo que se com-
porta com certa regularidade, a saber, aquelas cujos valores se tornam e
se mantêm arbitrariamente grandes positivamente ou arbitrariamente
grandes negativamente.
Seja (xn) uma seqüência de números reais. Diremos que “xn tende
para mais infinito”, e escreveremos lim xn = +00 quando, para todo
número real A > 0 dado arbitrariamente, pudermos encontrar noe N tal
que n > na =› xn > A. (Ou seja, para qualquer A > 0 dado, existe apenas
um número fmito de indices n tais que x" 5 A.)

EXEMPLO 20. Se xn = n então obviamente iim xn = +oo. Seja xn = a",


coma>1.Entãoa=1+h,h>0.DadoA>O,vemos
que a" = (1 + h)" > 1 + nh > A desde que se tome n > (A-1)/h. Assim,
se escolhermos um inteiro no > (A-1)/h, teremos n > no => a" > A. Logo
lim a" = +oo se a > 1. Mais geralmente, dada uma seqüência não-de-
II¬?3
crescente (xa), ou ela é convergente (se for limitada) ou então, se for ili-
mitada,deve-se ter lim xn = +oo. Com efeito, sendo (xn) ilimitada, dado
A > 0, existe no e N tal que xm > A Como (xn) é não-decrescente, n > no =›
=› x,, 2 > A.
xm
Evidentemente, se lim x" = +00 então (xn) é ilimitada superiormente
mas é limitada inferiormente. Além disso, se lim xn = +00 então toda
subseqüência de (xn) também tende para + oo. Assim, por exemplo, para
102 Curso de análise

cada peN temos lim n” = +00 pois (1, 2”, 3”_...) é uma subseqüência
n-øo
de (I, 2, 3, ...). Também para cada pe N temos lim n'/" = +00 porque a
.wm
seqüência (1, 2'/", 3*/",...) é crescente e possui a subseqüência ilimitada
(1, 2, 3 ,... ).

De modo análogo, diz-se que lim x" = -oo quando dado arbitraria-
mente A > 0 pode-se encontrar no e N tal que n > no =-› xn < ~A.
Como se vê facilmente, tem-se lim xn = +00 se,e somente se, lim (-xn) =
= +0o. Portanto, se lim xn =-oo então (xn) é ilimitada inferiormente
mas limitada superiormente. Assim¬ por exemplo, xn = (~l)"~n não tem
limite +00 nem -oo pois é ilimitada nos dois sentidos. Por outro lado,
a seqüência (O, 1, O, L O, 3, 0, 4 .... ) é limitada inferiormente, ilimitada
superiormeme mas não tem limite igual a +00 porque possui uma sub-
seqüêricia constante.
Deve-se observar com toda ênfase que +00 e ~0o não são números
reais. As seqüências (xn) para as quais lim xn = + 0oou lim xn = -oo não
são convergentes. Estas notaçöes servem apenas para dar informação
sobre o comportamento das seqüências para valores grandes de n.

TEOREMA 14. (0peraçöes aritméticas com limites infinitos.)


1. lim x" = +00 e (yn) é limitada inferiormente, então,
Se
lim(x,, + yn) = -l-00;
2. Se limx,,= +00 e existe c>0 tal que y,,>c para
todo neN, então, lim xn-yn = +0o.

3. Seja Ax, > 0 para todo n. Então lim xn = 0<›1im% =


= + 00;
4. Sejam (xa) e (yn) seqüências de números positivos. Entâa:
a) se existe c > O tal que xn > c para todo n e se lim yn =
= 0 tem-se lim? = + 00;b) se (xn) é limitada e lim yn =
.
X
= +00 entao
_.
limi
_

= 0.

Demonstração. Seja dado A > 0. Existe ce|R tal que c < yn para todo
1.
ne N. Existe também no e N tal que n > no =› xn > A-c.
Segue-se quen > n0=>x,, + y,_> A-c + c = A,dondelim(x,, + yn) = +0o.
2. Dado A > 0, existe n0eN tal que n > no = xn > A/c. Logo n > n,,=›
=› xn yn > (A/c)c = A e, portanto, lim (xnyn) = +0o.
-
Seqüôncias e sóries de números muii 1 03

3. Suponhamos lim xn = O. Dado A > 0, existe nos N tal que n > no =$


1
=› 0 < xn < 1/A e, portanto, 1/xn > A. Logo 1im<A) = +oo. Recipro-
x
camente, se lim (_)
X
=
1

+ oo, dado a > 0 existe no e N tal que n > no =


=› - -
1

xn
>
1

s
e, portanto, 0 <
n

xn < a. Segue-se que


_

11m xn = 0.

4. a) Dado A > 0, existe n°eN tal que n > no => 0 < yn < Então

n> n0=›5>L=A. Logo, lim?= +c›o.


Y, v/A y,,

b) Existe k > O tal que xn < k para todo YL Dado e > 0, existe noe N
tal que n>n0=›yn>k/e. Então n>n0=0<§<W k
= e, eas-
Y» 5

sim lim 5
yn
=o.

Observação. Se lim xn = + oo e lim yn = ~oo, nada se pode dizer a respeito


de 1im(x,, + yn). Dependendo do caso, pode ocorrer que a
soma xn + yn convirja, tenha limite +oo, limite -oo ou não tenha limite
algum. (Diz~se então que “oo-oo é indeterminado”.) Assim, por exemplo,
se xn = `/ n + 1 e yn = -\/Í então lim xn = + oo, lim yn = -oo, enquanto

1im(x,,+y,,)=1im(¬/n+1-\/;)=

=1'
(¬/n+1¬/ì}(_/n+1+\/Z) _ 1

Im./»+1+\/Z =o.
=1
Im `\/n+1+\/É;
Por outro lado, sexn = nz e yn = -n, temos lim(x,, + yn) = 1im(n1-n) =
= lim n(n- 1) = + oo. Já lim(n-nz) = -oo. Finalmente, se xn = n e yn =
= (~1)"-n, temos lim x,, = + oo, lim yn = ~oo enquanto 1im(x,, + y,,)=
=1im(-IY' não existe.
Também -3 é indeterminado. Isto quer dizer que se lim x,, = +oo e

lim yn = + oo, nada se pode dizer a respeito de limí~ Dependendo do


caso, 0 quociente
.
¬
x,,
pode convergn', pode-se ter lim-
x,,
.

=
.
+oo, ou pode
Y., .V,,
1 04 Curso de análisa

não existir o limite. Por exemplo, se xn = n + 1 e yn = ne 1 então lim? =


»-

= lim@ = 1imL-tu =1. Já se x,, = nz e yn = n, temos limì =


n- -1/n
1 1
y,,

= lim n = + oo. Finalmente, sejam gc, = [2 + (~1)"]n e yn = n. Temos

lim xn = lim yn = + ao, mas lim šï = lim [2 + (~1)"] não existe.


1.

EXEMPLO 21. Seja a > 1. Então %= + oo. Com efeito, temos a =


=1+h, com h>0. Logo a"=(1+h)"21+nh+
+¶$h2(paran22).Dai,%ï2-š+h+@%2-h2paran22.Como
lim -L + h + hz = +oo, segue-se que lim Én = +o0. Analoga-
n¬w nn 2
mente, para qualquer n 2 3 temos

a" =(1+ h›" 21+ nh + Úlšï-M + 37ï%";2)h?_

Dai, 9-2 2
n
"
'Z
n
+Ã+
1
n
L2 1--L
n
hz + 13! lein 2
1--\h3.
n /
Concluimos
n

que 21 = + oo. De maneira análoga se mostra que, para todo pe N


,.

tem-se % = +00 quando a > 1. Isto exprime que, para a > 1, as po-
tências d' crescem com n mais rapidamente do que qualquer potência
(de expoente ?xo) de n.

EXEMPLO 22. 'Para todo número real a > 0, tem-se %:} = + oo. (Isto

signiñca que 0 fatorial de n cresoe mais de P ressa do que

a", seja qual for a > 0 fìxo.) Com efeito, seja no e N tal que %> 2. Escre-

n! n! +1 +2
?=k-lT›%--~- n n
vamos k=å- Para todo n>n0, teremos
.-
|

~ -% > k (2)"'"°. Segue-se que


-
%= + ao, ou scja, que % = 0.
Seqüéncias e séries de númefbs reais 105

§7 Séries numéricas
Neste parágrafo, estenderemos a operação de adição (até agora
deñnida para um número finito de números reais) de modo a atribuir
significado a uma igualdade do tipo % + + +%+ ~~ - = 1, na qual
o primeiro membro é uma “soma” com uma in?nidade de parcelas. É
claro que não tem sentido somar uma seqüência infinita de números reais.
0 que o primeiro membro da rgualdade acima expnme é o limlte 'luna í +

+ à+ + É; - A a?rmação contida naquela igualdade signi?ca que,


dado arbitrariamente e > 0, existe noe N tal que, para todo n > no, a
soma åf + % + + % difere de 1 por menos de c.

De?niremos, portanto, somas in?nitas através de limites. Assim sendo,


é de se esperar que algumas somas possam ser efetuadas (isto é, convirjam)
e outras não, já que nem toda seqiiencia possui limite. Em vez de “soma
infinita” usaremos a palavra série. O problema principal da teoria das
series é determinar quais são convergentes e quais não são. A questão
(bem mais di?cil e, na maioria das vezes, sem signiñcado) de calcular 0
valor da soma é melhor abordada atraves da teoria das series de funçöes,
como sêries de Taylor e series de Fourier.
Seja (an) uma seqüência de números reais. A partir dela, formamos
uma nova seqüência (sn) cujos elementos são as somas

s1=a1,s2=a,+a2,...,s,,=a1+a,+...+a,,.
que chamaremos as reduzidas da serie Ea”. A parcela an é chamada 0
n-ésimo termo ou o termo geral da série.
Se existir o limite

s=lims,,=1im(a1+a,+...+a"),
,wm
diremos que a serie Elan é convergente e o limite s será chamado a soma
da serie. Escreveremos então
w
s=2an= 2a,_=a¡+a¡+...+a,,+...
›n=1

Se a seqüência das reduzidas não convergir, diremos que a série Z an é


divergente.
1 06 Curso de análise

su
Äs vezes é conveniente considerar series do tipo Z an, que começam
n40
com ao em vez de a¡.
Obseruação. Toda seqiíência (xn) de números reais pode ser considerada
como a seqüência das reduzidas de uma serie. Basta tomar
al = xl e a"+1 = x"H~x,_ para todo ne N. Então al + + an = x¡ +
+ (xl-xl) + + (xn-x,,_,) = x”. A série xl + 2(x,,H-x,_) assim ob-
tida converge se, e somente se, a seqüência (xn) é convergente. No caso
a?rmativo, a soma desta serie é igual a lim xn. Assim falando, pode-se
dar a impressão de que a teoria das series coincida com a teoria dos limites
de seqüências. Isto não é verdade, pelo seguinte motivo. Ao estudar a
série cujas reduzidas são sn, estaremos deduzindo suas propriedades a
partir das diferenças un = s,,~s,,_1. Em vez de tomar como punto de
partida o comportamento dos números sn, concentraremos a atenção
sobre os termos an.
A primeira condição necessária para 3 eonvergência de uma serie
é que o seu termo geral tenda para zero.

TEOREMA 15. Se Ea" é uma sérrk corwergente então lim an = 0.

Demonstração. Seja sn = a1 + + an. Então existe s = lim sn. Eviden-


»-m
temente, tem-se também s = iim sn_¡ . Logo 0 = s~ s =
1.-m
=1ims"~1im_s"_1 =lim(sn-sn_¡)=1iman.

EXEMPLOS.
23. A recíproca do Teor. 15 e fa1sa¿ O contra-exemplo clássico é dado
pela séríe harmônica Seu termo geral, %›
tende para zero mas a serie diverge. Com efeito, temos

sn=1+i+
2 2
l+i i+i+i+i
3 4
+
5 6 7 8
+ +

+ ?,ã+...-F? >1+ï+í+ï+...-i-éãf-1+nï
1 2"-1
1 1 2 4 1

Segue-se que lim sy. = +00 e, por conseguinte lim sn = +oo.


Resulta dai que, para 0 < r < 1, a serie
n
2°°
1
Í
1
diverge, pois %> %
para todo neN.
Snqüñncias e sirio: du números ral: 107

24. A série geométrica Í


||=0
d' é divergente quando |a| 2 1 pois neste C280

seu termo geral não tende para zero. Quando |a| < 1, a serie geo-

métrica converge; sendo 2”


0
a" = É;
1
conforme o Exemplo
_

7 acrma.

25. Das propriedades aritméticas do limite de seqüências resulta que se


2 an e 2 bn são sérim oonvergentes, então a série 21(a, + bn) é conver-
gente, com E(a_ + bn) = Z an + Eb". Se 211, converge entäo, para todo
r real, tem-se 2 (ra_) convergente, com 2 (ran) = r 2 an. Finalmente, se
Ea" =se2b” =tconvergem,pondos,, = al + + anetn = bl + +
+ bn então s-t = lim(sn t_) = lim(a¡b¡ + albz +
- + a,,b,,). Logo a série
n II-1
Ec", com cn = 2 a¡b,, + 2 a,,b¡, converge e vale a igualdade Ec, =
¡=1 1=1
=(2a,,)-(Zb,_). Veremos adiante que em oertos casos (como por exemplo
a, 2 0, b,, 2 0 para todo n) tem-se (Z a,,)(2 bn) = 2 ph onde ph = alb, +

+ albn-1 + + "JH = 2
i=l
“JH-¡H ~

Á
26. A série é convergente e sua soma pode ser cálculada fa-

cilmente. Com efeito, sendo


n(n+1) = L--1-›
n n+1 a reduzida de or-
demndesta sérieés =-L+¿+,__+_l_..=1_i +

+(2
---3)+
1 1

+
"

--L
1

n
1-2 2-3

»+1 =1-__-L
1
í=
n(n+1)

n+1 °g°,§,»(n+1)
= lim sn = 1. Exemplos assirn não são freqüentes. A maneira mais elìcaz
1 › °° 1
2

de calcular somas de certas series é desenvolver funçöes conhecidas em


serie de Taylor ou serie de Fourier.

27. A série 2 (-1)”“ = 1-1 + 1-1 + é divergente pois seu termo


n=1
geral não (ende para zero. Suas reduzidas de ordem impgr são iguais
a le as de ordem par são iguais a zero.
Q .D
28. Uma série 2 an converge se, e somente se,
al converge, onde 2
.=r »=n.,
noe N é ?xado arbitrariamente. Com efeito, se as reduzidas da pri-
meira série são sn, as da segunda são t,,+¡= s_+_o-sn. Isto se expri-
me dizendo que 0 carâter de convergêncja de uma série não se altem se
dela omitimos (ou a elà acrescentamos) um número ñnito de termos.
1 08 Curso de snálise

porque as redu-
Uma série 2a,_ pode divergir por dois motivos. Ou
+ an não são limitadas ou porque elas oscilam em
zidas su = al +
termos da serie têm
torno de alguns valores de aderência. Quando os
não ocorre, pois, neste
todos o mesmo sinal, esta ultima possibilidade
monótona Temos então o
caso, as reduzidas formam uma seqüência
16. Seja an Ea" corwerge se.
2 0 para todo neN. A serie
TEOREMA
e somente se, as reduzidas sn = al
+ + anformam uma
k > 0 tal que a, + +
seqüência limitada, isto é, se, e somente se, existe
+ an < k para todo neN.
Demonstração. Sendo an 2 0, (emos sl 5 sz
5 s, 5 logo a seqüência
é limitada.
(sn) converge se, e somente se,
de termos
COROLÁRIO (Criterio de comparação). Sejam 2 an e 2
bn series

não-negativos. > 0 Se existem c


todo n > no então a convergêncül de E bn
e no eN rails que an 5 c bn para -

que a diuergêncüz de 2 an acarreta


implica a convergência de E an, enquanto
a de Z bn .

29. Se r > 1, a série 2 à; converge. Como os termos desta


EXEMPLO n=1
suas reduzidas é
serie são positivos. a seqüência das
basta obter uma
crescente. Para provar que tal seqüência é limitada,
subseqüência limitada. Tomaremos as reduzidas de ordem m = 2"-1.
Para cada uma delas vale

S =1+(i+l)+<i+i+i+-L
4' 6' 5' 7'
+ +-›L-›
(2"-1)'
"- 2' 3'

s m_ <1+ì+Íl-+
4: 2† + zm ="ìl<ì>l-
FW Í=0 2.-

Como r > 1, temos -É < 1, logo a serie geométrica 2 converge

para uma soma c. Assim sm < c para todo m = 2"- 1. Concluimos que a

convergente quando r > 1. .lá vimos que ela é divergente


serie é

se r 5 1.

fm de que a série
TEOREMA l7 (Critério de Cauchy para series). A
Ea, seja eonvergente, êynecessário e su?ciente que, pare:
cada s > 0, exista noe N tal que |a,;+¡ + an” + + a,,+p| < e quais-V
quer que sejam n > no e peN.
Seqüêncías e séries de números reaís 1 09

Demonstração. Basta observar que |a,,+¡ + + a,,+F| = |s,,+p~s,,l, onde


(sn) é a seqüência das reduzidas de 2 an , e aplicar 0 criterio
de Cauchy para seqüências.
O Teor. 17 é de interesse principalmente teórico. Ele será utilimdo
a seguir para mostrar que se a serie 2 [an] converge então ía” também
converge. Este fato merece destaque. Por isso daremos uma deñnição
agora. _

Uma série Za” chama-se absolutamente convergente quando Z|a,,| é


uma serie convergente.

EXEMPLO 30. Evidentemente, toda serie convergente cujos termos não


mudam de sinal é absolutamente convergente. Quando
-1 < a < +1, a serie geométrica Z a" é absolutamente convergente.
n=0

Por exemplo, 1-í + 2-~ï +


1 1 1
_. _ = í.
2
Mas nem toda serie oonver-
, ,

gente é absolutamente convergente. O exemplo típico de uma série con-

i-
vergente Ea" tal que 2|a"| = +00 é dado por

1-~›+---+~¬.. = F12
1

2
1

3 4
1 1

5
°° vl "*'
n

Suas reduzidas de ordem par são

$2 -1-'%› sl, = (1-%) + (3-›í).


1 1

só - (1-í) + <ì-~T) + <ï-Í) etc.


1 1 1 1 1

Tem-se sz < s_, < só < ._ < su < ..., pois cada par de parênteses en-
_

cerra um número positivo. Enquanto isso, as reduzidas de ordem ímpar são

sl =1, sa = 1-(í--ï>› 1 1
ss =1-(-ê›~ï)-(T-~š)›
l 1 1 1
etc.

Portanto, sl > si > ss > > sz,,_¡. Logo existem s' = su e s" =

= lim sud. Como szn?


_

...Q
-su = šñ 1
-› 0, segue-se que s' = s” (= s,

.
.|moSJ. Assim, lims"
_

= s = 1-É + T-T + ....A


1 1 1
série dada e con-
_ .

*nte, mas não é absolutamente convergente pois a série harmôniea


110 Cunodsanáliu

.+
2 % é divergente. (A título de informação, comunicamos que
_

n
m
Z
= l
%- =
_1 1

= log Z lsto se vê desenvolvendo a função log (1 Taylor


+ x) em serie de

e tomando x = l.)
Quando uma serie Ea" converge mas 2 |a,_| é divergente, dizemos
que Ea" é condicionalmente Cønvergente.

TEOREMA 18. Toda serie absolutamente eonuergente é com/ergente.

Demonstração. Se 2|a,,1 converge, dado arbitrariamente s>0,


existe
n0eN tal que n > n,_,=›|a,,+,| + + Ia" |<e, qual-
quer que seja peN. Nestas condiçöes |a,,,,¡ + + a?pïs |a,,+,| +
+ ...+la,,,pl<e e. portanlo. Zan converge, em virtude do Teor. 17.

coRoLAR1o Seja Eb" unuz SÉTIÉ convergente, com bn 20 para todo


1.
neN. Se existem k >O e n0eN tais que |a,,l 5 k-bn
para todo n > no, então a série Z an é (absolutamente) convergente.

COROLÁRIO 2. Se, para todo n > n0,tem-se |a,l 5 k~d' onde 0 < c < l
e k~é uma constante positiva, então a série Ea, é (abso-
lutamente) convergente.

Com efeito, sendo 0 < c < 1, a série geométrica Z L” oonverge.


Tomando k = 1, a condição Ian] 5 c" é equivalente a ¬"/ a_ 5 c < 1.
Dizer que esta condição é satisfeita para todo n maior do que um certo no,
signi?ca añrmar que lim sup \'/Tail < 1. (Veja o Corolário do Teor. 1 l.)

COROLÁRIO 3 (Teste da raiz.) Se existe c tal que J/ an 5 c < para 1

todo n > no então Z a,, é(absolutamente)


convergente. Em outras palavras, se 1imsup¬"/ an <l então a série
Zan conuerge (absolutamente).
Âs vezes acontece que existe lim `"/ a_ . Então vale o

COROLÁRIO 4. Se lim ¬"/ an < l então a sérxe Ea, é (absolutamente)


Vt"Q
eonvergente.

Observação. Se existe uma inñnidade de índices n para os quais ¬"/ an 2 1


então a série Zn, é evidentemente divergente porque seu
termo geral não tende para zero. Em particular, ¡sto ocorre quando
lim J/ an > 1. Muitas vezes este caso 6 incluido no enunciado do teste
da raiz, mas preferimos não fazê-lo, pois, em geral, não é mais fácil calcular
Seqüências e séries de números reais 1 1 1

o limite de uma raiz do que verificar, mediante inspeção, quando o termo


geral de uma serie não tende para zero. Muito mais desagradável e o fato
de que freqüentemente se tem lim `"/ ]an| = (juntamente com lim an = 0). 1

Ai nada se pode dizer: a serie talva convirja, talvez não. Por exemplo,

consideremos 2% e E%› em ambos os casos lim ."/ an = 1. (O Exem-


n n 2
plo 14 da lim."/ 1/n = 1 e dai lim I % = lim< I = I.) No entanto,
a primeira destas series e divergente e a segunda e convergente.

EXEMPLO 31_ Consideremos a serie Í


n=1
n-a", onde a é um número

real tomado arbitrariamente. Temos lim ¬"/ |n a"[ = |a|-


-
..¬m

-lim \'/Í = |a|. Logo esta serie converge (absolutamente) quando |a| < 1.
O mesmo resultado valeria se tomássemos 2n1'a" ou, mais geralmente
En 1

2 n' ~ a", onde r e qualquer constante. Evidentemente, se |a| 2 1, a serie


Il: 1

diverge porque seu termo geral não tende para zero.

EXEMPLO 32. Seja agora a serie + Za + az + 2a3 + 1 + 2a2"'¡ +


+ az" + Como lim 1¬"/ 2|a|2"" = lim
..-w
2"*yWì =
.wm
= |a|, segue-se que esta serie converge (absolutamente) se, e somente
se, |a| < 1.

TEOREMA 19 (Teste da razão). Qejam 2 an uma série de termos todos não-


niflos e Eb" uma xérie convergente com

bn > 0 P ara todo n. Se existe n 0 E N tal q ue L@


a b
5 b
Ia
›.
' ïì 1.
P ara todo n > n 0
então Ea" é (absolutamente) convergente.

Demonstraçãa. Dado arbitrariamente n > no, multipliquemos membro a


membro as desigualdades

iu›-0+zi < b»i,+2, |an0+3i < bnD+J,___, ia»-i < bn _

Ian-ii bnfi

A
|¿fJP+1| bm,+1 lan@-zi bn0+_2

Obteremos
ian¢,+1|
5 ¿› b

bni,+1
ou seja. |a,,| 5 k-bn, onde k = @- bum-1
Segue-se do Cor. 1 do Teor. 18 que 2a,, e (absolutamente) convergente.
112 Curso de análise

[4
COROLÁRIO 1. Se existe uma 1-onxtante c tal que O < c < 1 e 5 c
an
para todo n 2 nu, então u série Ea" é (absoluzammtø)

conL¬ergenre_ Em (nnrax palavrax, se lim sup( a,,+¡ / a,,[ < l), n sérir' Zu,
converge (GÍYSOILIÍGMFHIP).

Com efeito. a serie geométrica Z H' sendo convergente, basta tomar bn = v"

no teorema anterior.
4
Se acontecer de exrstrr
_ .
o
_

hmrte lrm
_

l›1¿¿› . ._
entao temos o
"W |¢1..1

COROLÁRIO 2. Se lim
Il*LX2
l%ïïi
an
< l então a .Série Zu" é (absolutamente)

ronvergente.

EXEMPLOS.

32a. Retomemos as séries Ema” e 1 + 2a + az + 2113 + a4 + dos


(n +1)a"+` _
Exemplos 31 e 32. Para a primeira¬ temos lim
n-wo |n'a"|
= "lira É-1:-l¦a| = |a|. Logo a serie Ema" converge quando |a| < l.
_ _ _ 41 _ . _ _ _

Vemos que o hn-ute do quocxente comcrde com o lrmne da rarz


an
n-ésima de |a,,|. Neste caso, o teste dá razão e o teste da raiz levarn ao

mesmo resultado. Para a segunda destas senes, temos


. . I?ml =
an
Tl?l
se n

for par, e M- = 2|a|_ se n for impar. Portanto, lim supkïf-L = 2|al

e
|“..l
o teste da razao so permrte conclulr a convergencra da serle para |a| <
_ , - . . . _ .
l?nl
í
1
»

enquzmto que o teste da raiz garantiria a mesma_ mais geralmente, para


|a|`< 1.Isto,indica›queo teste da raiz 6 mais e?caz dov que ofda razão. Com
"`“' G
snp\'j/ |a"| 5 hm supL††-il
"
_ _ _

eferto, veremos mars adlante que que,


_ _

11m e
a
se exxste
_

llm?
. lannl entao
an
.. . ,
exlste tambem lrm \/Ian] e os dors lrmrtes são
_ ,, _ 'Í .

iguais. Entretanto deve-se observar que, em geral, é mais fácil calcular o


limite da razão do que a raiz, pois, ao efetuar o quociente an + 1/an, ocorrem
quase sempre simpli?caçöes.
Scqüônein s sévies de números rail 11 3

.
33. Se_|a a serie
.

»=o
2“° x"
Ñ =1+ x
~
+ í
xl
-
+
xl
Ñ + ....ondexéum número real
›~

(ñxado arbitrariamente). Temos ?ïl = ..


~› 0. logo a série con-
verge absolutamente, seja qual for x.

Observação. Novamente aqui, quando LT-ãiìi = 1. nada se pode con-


cluir (a serie pode divergir ou comiergir). É o que ocorre com
l 1 . . .
,
Z??
_

as series e A pnmeira diverge, a segunda converge e em ambas

limgï'-L = l. Quando la"“l 2 lparatodon > n .então.evidentemente,


an an °
a série diverge porque seu termo geral não tende para zero. Note-se porém
que, ao contrário do tcste da raig não se pode concluir a divergência da
série Ea" apenas pelo fato de se ter ll-Í-'ãi 2 1 para uma inlìnidade de

valores de n. Com efeito. dada qualquer série convergente de termos po-


sitivos Zan. a série a, + al + az + a, + a, + a, + ainda é conver-
b
gente mas, se mdicarmos com
. .
2 b_ esta nova
, .
serie. teremos ›% = l para
..

todo n ímpar.

TEOREMA 20. Seja (a,) uma seqíiência limitada de números reais pusi-
tivos. Tem-seliminf?ål 5 lim inf (7 a, 5 lim sup"'/ an 5
-

S lim sup? »
Em particular, se existir lim a,H/an existirá também
lim ¬"/ a,, e os dois limites serão iguais.

Demomrraçãn. Basta provar que lim sup,'/ a, S lim sup(a,,.,,/a,,). o que


será feito por absurdo. Com efeito. se não fosse assim.
existiría um número c tal que lim sup(a,,, ¡/u.) < c < lim sup¢/71-:_ Da
primeira destas desigualdades resultaría a existência de pe N tal que
n 2 p=›a,,+¡/a, < c. Assim, para todo n > p teríamos:

a,+1/0, < v, a,.+›./?,›t < f, ---,n../0.-1 < f›

Multiplicando membro a membro estas n -p desigualdades viria


11 4 Curso de nnilile

a,,/a,.< r"`”, ou seja, a,, < (a,,/z"')- c". Pondo k = ap/cp, poderiamos
afirmar:
n > p=>a,, < k- C”.

Ora, sabemos (Exemplo 13) que lim Q'/Fl? = 1, logo lim z~§"rl: = (1
..¬1 ..¬«
-Segue-se então da última desigualdade que
. /†' . /â =
lim sup J/ a,, S lim sup c Q' k 1-.

Esta contradição prova o teorema.

EXEMPLOS.
34. Tomemos dois números reais* positivos a < b e formemos
uma
seqüência (x,) começando com a e multiplicando cada termo, alter-
nadamente, por b ou por a, para obter o termo seguinte. A seqüência
x
obtida é a, ab, azb, azbz, a3bz,... Temos b se n é irnpar e -ï¿=
xn

-% = a se n é par. Segue-se que não existe lim? Por outro lado,


x _ _ x

. /" /-“
existe lim J/ x,, = \/ab. Pode, então, ocorrer realmente que exista 0 limite
»

da raiz sem que exista o limite da razão.

35. Seja

1
= lirn@1-

= ¿T
yn
x, =

e,
!

portanto,
Temos x" =

desde que este último limite exista_ Ora

lim% = 0.
¬"/ yn onde yn

Segue-se que lim x_ = 0.


=

ìLogo lim xn =

yn
=
(n + 1)!

-
36. 20 pode ser utilizado no
Para ilustrar mais uma va como o Teor.
cálculo de oertos limites envolvendo raizes n-ésimas, mostraremos

agora que lim


n _

= e. Ora, escrevendo xn =
""°° ¬"/ nl
n
temos xn = J'/ y_ †,
."/ n!

onde y_ =
.-

Logo lim xn = lim?. se este último existir. Mas

Y,.+¡_("+1)'H_fl_('1+1)("†1)”_[Il_('1+1Y`_ 1+i"_›
yn '_ (n+l)! n"_ (n+1)-n! n"_ in” _ n el

Voltando às series, utilizaremos agora o Teor. 18 para clemonstrar


o critério de convergencia de Dirichlet (0 qual, entretanto, não garante
convergência absoluta).
Seqüéncias e šéríes de núrnefos reuis 11 5

TEOREMA 21 (Dirichlet). Seja Ea, uma Séïlk (não necessariamente con-


vergeme)cujas reduzidas sn = al + + anƒor-
mam uma seqüêncüz limitada. Seja (bn) uma seqüência não-crescente de números
positivos com` lim bn = 0. Então a série Zanbn é convergente.

Demonstração. Temos

albl + dzbz + “abs + ~ -- + anb.. = al(b1_b2) + (111 + “z)(b2`b3) +


+ (a, + 11, + «3)(b,-b4) + +
+ (al + .. + a,,)b,, = s¡(b¡ -bz) +
.

+ s,(b,-ba) + + sn_,(¿=,_, -bn) +


+sz›
nn = 21111
s._(1›._ ~1›.)+§1›
"
i=2
nn' I

Existe k > 0 tal que %|s,| S k pam mac »L Alem dim,


"
Í
Il=2
(1›,,_,-1›,) e
uma série convergente de números reais não-negativos (soma: bl). Logo,
-
pelo Cor. 1 do Teor. 18, a série 2 sn _ 1 (b__ 1 bn) é absolutamente conver-
gente e, portanto, convergente. Como lim s_b,, = Q segue-se que existe
lim(a¡b1 + + a,,b_), ¡sto é, a serie Z anbn eonverge.

COROLÁRIO 1 (Abel). Se E
un é conuergente e (bn) é uma seqüêncüz não-
crescente 'de números positivos (não necessaria-
mente tendendo_ para zero) então a šérie Eanbn é convergente.
Neste corolârio, enfraquecemos a hipótese sobre os bn mas, em
compensação, exigimos que a serie 2 an seja convergente. Para demons-
trá-lo, escrevemos lim bn = c. Então (bn-c) é uma seqüência não-cres-
cente com limite zero. Pelo Teor. 21, a série Ea,,(b,,-c) converge para
uma soma s. Como Ea" é convergente, segue-se que Zanbn = s + c2a,,
também converge.

COROLÁRIO 2 (Leibiniz). Se (bn) é uma seqüêncüz não-crescente com


lim bn = 0 então a séríe 2 (¬1)"b,, é convergente.

'Com efeito, embora a sérìe 2 (~1]' não convirja, suas reduzidas forrnam
uma seqííência limitada. Observe o caso particular 2% já visto no
Exemplo 30.

EXEMPLO 37.

%
número real x não é um múltiple inteiro de 211, as
Se o
.
sénes 2
°°

||=l
o
#22
e 2
°° sen nx

n=1
convergem. Com efe1to,
.
1 1 6 Curso de análìse

para zero, basta verr?cax que as


sabendo que T tende monotonameme
1

2x +
+ + cos (nx) e tu = sen x + sen
seqüências su = cos x + cos 2x fácil de ver usando números
com-
+ + sen (mc) são limitadas. lsto ?ca parte real e a
+ su c lu são. respectivamente.
zx

plexos.Com efei\o_ 1_(e¡x)n+l


-TÍ--
1
u
2
I L I _

+ (e“') + + (e”')" =
parte xmagmana da soma 1 + e”°

¢ kel,temos ei* ai 1 e, portanto,


Ora, sendo x 2k7E,
1__(eìx)n+1\< 2 u

1 e" l e*

+ (e“)" ef portanto, li-


A seqüência de números complexos + ef* + 1

seqüências de suas partes reais e imaginårias


mitada e dai resulta que as
também são limitadas.
neN ponhamos pu = au se au > 0
Dada uma serie Eau, para cada a parte positiva de au. Ana-
e pu = 0 se au 5 0.
O número pu será chamado
0 e chamemos
se au 2 0 e qu = -au se au <
logameme, escrevamos qu = 0 pu + qu, laul = au +
qu a parte negativa de
au. Temos au = pufqu, \au\ =
+ 2qu, pu 2 0 e qu 20 para todo
n.
convergente, para todo ke N
Quando a serie Eau é absolutamente I:

as series Epu e Equ são


lt

pu -+ 2 qu. Logo
le

vale 2 \au\ 2 2 ì?nl = 2


un

n 1
1

formam seqüências monótonas,


n 1
n I

ambas convergentes (pois suas reduzidas é óbviaz se E pu e E qu ambas


A recíproca
limitadas pelo número E \au\). convergentc.
convergem então Eau e absolutamente
convcrgente, então tanto Epu
Se, porém, Eau é condicionalmente dessas
Com efeito, se pelo menos uma
como E qu são séries divergentes. usando o fate de
exemplo, Equ = c) então,
duas series convergisse (por
todo ke N
[au[ = au + 2qu, teriamos, para

teríarnos E laul = Eau + Zc e, por-


Fazendo k -› oo na igualdade acima
tanto, Eau convergiria absolutamente.

~-å- + -%~% + . _, que é condicionalmente


EXEMPLO 38. Na serie 1

convergente, a seno das partes posmvas


, _
. .
,
e 1 +0+ -í +
1
Seqüéncias e series de números reais 11 7

+0 + É+
1
0 + .
enquanto a serie das partes negativas e 0 + % + 0 +
_ ,

+%+0+ %- + Isto nos dá essencialmente as series e

ambas divergentes A segunda por ser “igual” a e a primcira


porque à<
Investigaremos agora se as propriedades aritmeticas, tais como
as-
sociatividade, comutatividade, etc. se estendem
das somas ?nitas para
as series.
Começemos com a associatiuídade. Dada uma serie convergente
Z an ,
que efeito resulta de inserirmos parênteses entre seus
termos? Por exemplo,
que alteração ocorre ao passarmos da serie al
+ al + al + a4 + +
+a,,+...paraaserìe
(al +a1) +(a_, +a4)+... +(a1,,_, +a¿,ì+...?
A resposta e simples Seja (sn) a seqüência das reduzidas
da serie E an.
Ao inserirmos parênteses entre os termos de Ea" obteremos uma nova
serie cuja seqüência de reduzidas é uma subseqüência
de (sn). Por exemplo,
se os parênteses forem inseridos como no
caso acima, passaremos da
seqüência (sn) para (sb) pois a segunda serie tem
como reduzidas al +
+ al = sz, (al + az) + (as + 114) = s_,, etc,
Se a serie Ea” converge, então (sn) converge e
portanto toda sub-
seqüência de (sn) também converge para o mesmo limite.
Assim, inserindo
parênteses entre os termos de urna serie convergente, obteremos ainda
uma serie convergente, com a mesma soma que a' original.
Esta é a pro-
priedade associativa das series.
0 mesmo não ocorre se dissnciamos termos de uma serie convergente.
Neste caso poderemos obter uma serie divergente.
A serie amiga pode
ser considerada como obtida da nova por associação
de termos: as re-
duzidas da serie original formam uma subseqüência das reduzidas
da
nova serie. Aquelas podiam convergir sem que estas convirjam.
O exemplo
mais evidente deste fenómeno e fornecido pela
serie 0 + 0 + que é.
obviamente, convcrgente. Escrevendo 0 = 1-1 passamos a ter, por
dis-
sociação, a serie 1-1 + 1-1 + ..., que e divergente.
Mais geralmente,
dada qualquer serie convergente 2 an, podemos escrever an = an +
1~ 1.
A serie 2 an resulta então, por associatividade, da serie a¡
+ 1-1 + az +
+ 1~1 + al + 1~1 + ...,¢ a qual é divergente, pois, seu termo geral
não tende para zero.
118 Curso de análíse

Existe porém uma situação em que se pode garantir que a dissociação


de termos de uma serie não afeta sua convergência nem o valor da soma.
É o caso de uma série absolutamente convergente Eau, na qual se de-
compöem seus termos como somas finitas au = au + af + + ¢ de
parcelas com o mesmo sinal. Examinemos este caso.
Olhemos primeiro para uma série convergente Eau, com au 2 0
para todo n. Se escrevermos cada au como soma (?nita) de números não-
negativos, obteremos uma nova série Ebu, com bu 2 0 para todo n,
cuja seqüência (tu) de reduzidas é não-decrescente e possui a subseqüência
(su) das reduzidas de E au. Se (su) converge então (tu) converge para o mesmo
limite e conseqüentemente E bu é convergente e tem a mesma soma que E au .
No caso geral, se E au é absolutamente convergente, escrevemos
Eau = E pu-E qu onde pu e qu são, respectivamente, a parte positiva e a
parte negativa de au. Toda decomposição dos au em somas ñnitas de
parcelas com o mesmo sinal determina uma dissociação em E pu e outra
em Equ. Pelo que vimos acima, ¡sto mantém a convergência de Epu,
de E qu e o valor de cada soma Logo, a nova série é convergente e tem a
mesma soma que Eau.

EXEMPLO 39. Sejam Eau e Ebu séries convergentes, com somas s e L

respectivamente. Sabemos que E (au + bu) = (au + bl) +


+ (az + bz) + (113 + b¿,) + converge e sua soma e s + t. A?rmamos
que vale a dissociatividade s + t = al + b, + az + bz + Isto não
decorre do que acabamos de provar, pois não estamos supondo conver-
gência absoluta. Mas, chamando de su as reduzidas de Eau e tu as redu-
zidas de Ebu, a série a1+ bl + al + bz + a3 + [13 + tem como re-
duzidas de ordem par rzu = su + tu e como reduzidas de ordem impar
r2u_1 = su_¡ + tu_, + au. Como lim au = 0, segue-se que lim rzu =
= lim r2u_l_= s +1. Logo existe lim ru = s + t.
Abordaremos agora 0 problema da comutatividade. Dada uma serie
E au mudar a ordem dos seus termos significa tomar uma bijeção (pz N -› N
,

e considerar a serie E bu, onde bu = auuuu para todo ne N. O problema é,


então, o seguinte: supondo E au convergente, sera ainda E bu convergente?
No caso afirmativo, vale Eau = Ebu?
Diremos que uma serie E au é vomutatívamerite convergenze quando,
para toda bijeção tp: N ~› N, pondo-se bu = auuu), a série Ebu é conver-
gente e Eau = Ebu.
Demonstraremos abaixo que E au é comutativamente convergente se,
e somente se, é absolutamente convergente. Começemos com um exemplo
Seqüências e séries de números reais 1 1 9

de como uma mudançn da ordem nos termos de uma serie pode alterar
a soma.

EXEMPLO 40. Sabemos que s = 1-% + %~å~ + %-. .. é convergente


até já informamos que s = log 2, mas isto
(e
não vem ao
caso). E lícito multiplicar os termos de
uma série convergente por um
número real. Multiplicando por 1/Z obtemos
= %--% + %~% +
+ Ñ-. _.
1
Podemos escrever, evidentemente, .

s
.
=1~_+i-¬+~--+~-i+
1

2 3
1

4
l
5
1

6
1

7 8

í-0+ï+0-T+0-l-F1-0-ï+...
S 1 . 1 1 1

Também é lícito somar termo a termo duas séries


convergentes. Logo

í-l+ï-ï+ï-l-T-T4-ï+ñ~-?+...
35 l l l l 1 1 1 1`

.
Ve-se que os termos da serle
, . .
acima, <:u_|a
.
soma
,
e ï› sao
33 _
os mesmos da
serie inicial, cuja soma é s, apenas com
uma mudança de ordem. Logo
um rearranjo na ordem dos termos de uma
serie convergente pode alterar
o valor da sua soma,
Vejamos agora um resultado positivo.

TEOREMA 22. Toda série absolutamente vouvclrgente é comutativumentv


convergente.

Demonxrração. Começemos com uma serie convergente


2 an, onde an 2 0
para todo n. Seja <p_: N -› N uma bijeção e ponhamos
bn = um). Afirmamos que 2 bn = Za". Com
efeito, sejam su = al + +
+ an e tu = bl + . ,_ + hu, Para cada ne N, charnemos dem o maior
dos
números <p(l)_ <p(2} ...._ (pm), Então {(p(1) ,..._ zp(n)} C [l,
.1 ».
Segue-se que
tu = 2 uwm 5 Z aj 1
sm. Assim, para cada neN existe um meN tal
¡Il '=l J
que 1" 5
sm. De modo análogo (cc›nsiderando~se tp"
em vez de tp) se vé
que para cada me N existe n e N,tz1l que wm 5 tn. Concluimos
que lim .sn =
= limr", ou seja Zu" = Eb".
1 20 Curso de análíse

qu, onde pu e qu são respec-


No caso geral, temos Zau = 2 pu›2
au. Toda reordenação
tivamente a parte positiva e a parte negativa de
(bu) dos termos au origina uma
reordenação (uu) para os pu e uma reor-
positiva e cada vu
denação (vu) dos qu, de tal modo que cada uu é a parte
e a parte negativa de bu. Pelo que
acabamos de ver, 2 uu = 22 pu e 2 vu =
o teorema.
= 2qu. Logo Eau = Z uu~2 vu = ïbu, o que prova
a recíprorz do
O seguinte resultado, devido a Riemann, contém
teorema anterior.
convergente. Dudo
TEOREMA 23. Seja Eau uma sèrie Lvndicionalmenle (bu) dos
qualquer número real c, existe uma reordenação
termos de 2au, tal que Zbu = C.
a parte negativa de au. Como
Demonstração. Sejam pu a parte positiva e qu
0, donde
Eau converge condicionalmente, temos lim au =
oo. Reordenaremos os termos
lim pu = lim qu = 0, mas 2 pu = 2 qu = +
termos pu, pz ,..., puu, onde ri,
da série Eau tomando como primeiros
pl + pz + + puu > c. Em seguida, toma-
é o menor indice tal que
nz é o menor indice
remos os termos negativos -ql *ql ,..., -qu), onde ,

pos-
tal que pl + + puu›q¡-...~quu < c. As escolhas de nu e nz são
assim: escolhemos 0
siveis porque ïpu = Equ = + oo. Continuamos
menor índice na tal que

pu +p¡+...+puu-q1~...-qu! +puuH + +puu> c

e depois o menor indice n 4, tal que

P; +--~+P»,'q1'--~*qn; +Fn,+1 +^-~+


+ P..,¬1»1+r'~-›"'1,., < C-
de Zau tal que
Prosseguindo desta maneira. obtemos uma reordenação
efeito para todo impar
as reduzidas tu da nova serie tendem para c. Com
i

< qum. Dai resulta


temos ¡um < c < tuu, 0 < zu¡c 5 pu, O < c›rum
0) que lim tuu = c. Além disso,
(levando em conta que lim puu = lim qu, = .-W
é claro que, para i ímpar nu < n < n¡+1 => :um 5 tu 5 tuu e, para i par,

nu < n < nun ¢ tuu 5 fu 5 tum.


Assim lim zu = c. ou seja, a nova serie
tem soma c.

simples) mostra que uma con-


Observação. Um raciocinio análogo (mais
serie con-
veniente mudança na ordem dos termos de uma
com que suas reduzidas tendam
dicionalmente convergente pode fazer
21 +00 ou a foo. i
Seqüineias u sérlos de números venis 1 21

TEOREMA 24. Se Z a,, e Z b,, (n 2 0) são absolutamente mnvørgenres


enrão (Z an) (2 b,,J = Z c,, onde. para cada n > 0. c,, = a0b,, +
+ a,b,,_, + + a,,b0.
Demonstração: Para cada n 2 0, temos

(ìoai) (JÍ0b¡) = $0 aibj = xo + xl + + x,,.

onde x,, = a¡,b,, + a,b,, + + a,,b,, + + a,,b0. Fazendo n ~› oc, ob-


temos (2 a,,)(2 b,,) = 2x,,(n>0). Por dišsociação de termos de Zx,,,
fonnemos uma Série Z a¡b¡_ cujos termos são ordenados de tal forma que
as parcelas a¡b¡ de x,, precedam as de x,,+,. Para cada k 2 O, a reduzida
de ordem (k+ l)¡ da serie Z[a¡b¡| é igual a
lr I l Al* LX;

i.
;0|«f|1b,r=(g|«f1)(;01bj|)<(z0|«,|)(201b.|
'= ¡= »= ~= ^=
.

Assim, a seqüência (não-decrescente) das reduzidas da série E a¡b¡| é


limitada, porque possui uma subseqüência limitada. Logo 2a¡b¡ converge
absolutamente. Sua convergência e o valor da sua soma não se alteram se
agruparmos num único tenno c,, todas as parcelas aJ›¡ com i+ j = n. Por›
tanto (Za,,)(Z b,,) = }Ix,, = Za¡b¡ = 2c,,.

EXERCÍCIOS
1. Selim xl = a então Iim |x,_| = |a|. Dê um contra~exemplo mostrando
que a recíproca é falsa, salvo quando a = 0.
2. Seja lim xn =0. Para cada n, ponha yn = min {|x¡|, |x,| ,..., |x,,|}.
Prove que yn -› 0.
3. Se Iim xzn = a e lim x¡__¡ = a, prove que lim xn = a.
4. Se N=N¡uN¡u...uNk e limx,,=1imx,,=...=lim x,,=a,
IIEN¡ HGM] r|GNk
então, lim x, = a.
"EN
5. Dê exemplo de uma seqüência (x,,) e uma decomposição N = N 1 u . . u _

u Nku... de N como reunião de uma in?nidade de subconjuntos


in?nitos tais que, para todo k, a subseqüência (x,,)_E~_ tenha limite a,
mas não se tan limx, = a.
[Sugestãa Para cada ke N seja N, o conjunto dos números naturais
da forma n = 2"" ~m, onde m é impar, Dado ne N* ponha x,_ = ,_ 1

se n for o menor elemento de N, e xn = í› nos demaís casos.]


1

6. Se limxn =a e lim(x_-yn) =0então limyn 6 igual a a.


1 22 Curso de nnñlln

7. seja a ¢ o. Se l¡m% =1 emao lim yn e igual a a.

8. Seja b ai 0. Se lim xn = a e Um? = b, então, lim yn = %--

9. Se limx" =a¢0 e limxnyn =b então limy, =--


b
a

10. Sejam keN e a > 0. Se a 5 x,_ S n* para todo n, então lim ¬"/ xn = 1.

ll. Use a desigualdade entre as médias aritmética e geométrica dos n + l

números 1-1/n,...,1-1/n, l e prove que a seqüêneia (1 l/n)" - é

creseente. Conclua que (1 - 1/n)"> l/4 para todo n > 1.

lla. Sejam x,, = (l + 1/n)"ey,, = (l-1/(n + 1))"“. Mostre que lim x,,y,, =l
e deduza dai que lim(1-1/n)" = e".

12. Fazendo y = xl/'“ e b = al/'“ na identidade y"-bl' = (y-b)~ 2 y¡b""`*


l=0
K-1
obtenha x-a = (xl/'“-al/*T 2 x'“'~a* "“/" e use ¡sto para provar
Í=0

que se lim x,, = a > 0, entäo Lim ¬"/ x, = yz. Conclua, dai, que
lim (x_)" = a' para todo racional r.

13. Prove que, para todo red), tem-se (1 + = d.

[Sugestãa Pelo Exerc. ll, basta considerar o caso em que r = % é > 0.

Examine a subseqüência onde n = p~m. Para esses valores de n,

tem-se 1 + -)
¡.

n
H

= 1 + _)
1

qmv
am la
. Use o Exere 12.]

14. Seja a 2 0, b 2
Prove que ,H
0. lim J/ a" + b" = max {a, b}.
15. Dada uma seqüência (x,,), um teiiimo xp chama-se um “termo desta-
cado” quando xp 2 x, para todo n > p. Seja P =›{pe N; xp 6 des-
tacado}. Se P = {p, <p, <...} for in?nito, (x,)P,, é uma subse-
qüência não-cresoente de (xn). Se P for lìnito (em particular, vazio),
mostre que existe umzvsubseqüência crescente de (xn). Conclua que
toda seqüência possui uma subseqíiência monótona.
Scqülncias a séfíes de números nah ' 123

16. Seja (xn)uma seqüência limitada. Se lim an = a e cada an é um valor


então a é um valor de aderência de (xn).
de aderência de (xn),
17. Sejam (xn) e (yn) seqüências limitadas. Ponhamos a = lim inf xn, A =
= lim sup x,,, b = liminfy" e B = lim sup yn. Prove que

a) lim sup(x,, + y_) 5 A + B, liminl`(x,, + y,,) 2 a + b;


b) lim sup(-xn) = ~a, 1iminl`(-x,_) = -A;
c) lim sup(x,,~ yn) 5 A B e - liminf(x,_ yn) 2 ab;
-

valendo as duas últimas desigualdades sob a liipótese de x,, 2 0 e y, 2 0.


Dê exemplos em que se tenham desigualdades estritas nas relaçöes
acima.
18. Para cada ne N, seja 0 5 tn 5 1. Se limx" = limy" = a, prove que
lim [tnxn + (1 -t,,)y,,] = ¿L 4

9. Diz-se que uma seqüência (xn) tem variaçãa limitada quando a se-
qüência (vn) dada por vn = Í
í=l
|x¡H -x¡| é limitada. Prove que, nesse

caso, (vn) oonverge. Prove também:

a) Se (xn) tem variação limitada, então existe lim xn;


b) Se |x,_+¡-x_H| 5 c|x,_+¡-x,,| para todo ne N com 05 c < 1,
então variação limitada;
(xn) tem
c) (xn) tem variação limitada se,_ e somente se,
xn = yn-zu onde (yn)
e (zu) são seqüências não-decrescentes limitadas;
d) Dê exemplo de uma seqüência convergente que não seja de va-
riação limitada.

20 Seja xl =l e ponha xn? =1+%- Verifique que |x,,+¡-x,,+1|5'


S ï|x,,+¡ -xn
1
.
Conclua que existe a = lim x,, .
e
_

determine a.
21. Ponha xl = 1 e de?na xn? = 1 + ¬/ xn. Mostre que a seqiiência (xn),
assim obtidã, é limitada. Determine a = lim xn.
22. A fìm de que a seqüência (xa) não possua subseqüência convergente
é necessârio e su?ciente que lim|x,,| = +oo.
23 Seja (pz N -› N uma seqüência de números naturais.
Prove que as
seguintes a?rmaçöes são equivalentes:
a) lim <p(n) = +oo;
1 24 Curso de análìse

b) Para todo ke N, q›"(k) é um subconjunto ?nito de N;


c) Para todo subconjunto ?nito F c N, (p'1(F) é ñnito.
Em particular, se (px N -› N for injetiva. então lim q›(n) = + oo.
|I*'L1ì

24. Seja (xn) uma seqüência de números reais suponha que mi N ¬ N e

cumpre uma das (e portanto todas as) condiçöes do exercício anterior.


Prove que se lim xn = a e yn = xwì, então lim yn = an Dê exemplo
de :pz N -› N sobrejetiva, tal que lim xn = a, mas não vale lim yu = a,
onde yn = xm).
25. Seja xn a? 0 para todo ne N. Se existirem noe N e ce[R tais que

0 < É
x
X 5c < 1
,.

ara todo n > n 0 ,


_

então limx = 0. Se P orem


›.
,

iã ..

2 c > 1 para todo n > no, então lim|x"| = +oo. Como apli-
1

cação, reobtenha os Exemplos 21 e 22 e mostre que lim = 0.


VI

26. Seja Turn arranjo triangular de números não-negativos,

[11
lll '22
[31 t32 tll
[nl 1112 tn] ' ' ' tm!

Faça duas hipóteses sobre o arranjo 'IÍ Primeira: cada linha tem soma
igual a 1. Segunda: cada coluna tem limite zero: lim tm = 0 para todo

ie Dada uma seqüência convergente (xn), com lim xn = a, use o


N.
arranjo T para transformá-la numa seqüência (yn), com
yn =zn1x, + tnzxz + + tmx".

Prove que lim yn = a.

[Sugestãm Considere inicialmente o caso a = O. Dado c > 0, existe


pe N tal que n > p =› \x"| < ›:/2. Existe também A > 0,
tal que \x"| < A para todo n. Em seguida, obtenha qeN, tal que

n > q=>|tn¡| < ô, |t,¡2| < 5 ,.... |tnp| < 6, onde 6 =ìå- Tome no =

¡_
'Seqüéncias e series de números reeis 1 25

= max {p, q}. Observe que n > n0==› Iynl 5 ¡nl |x1l + + r"p]x¡,| +
+ + tm, |xn|, onde a soma dás p primeiras parcelas não excede 1;/2
C
e a soma das n -p parcelas restantes não supera (t,,_p+ 1 + . . . + tM)ï~
Logo, <
O caso geral reduz-se imediatamente a este.]
|_v"| 6.

Se lim xn = a, pondo yn =
x + + x,,
tem-se ainda lim yn = a. 4;-†, 4 _

(Sugèstão: Use o exercício anterior.)

Se lim xn = a. e os xn são todos positivos, então lim " xlxz . . . xn = a.


[Sugeszão: Tome logaritmos e reduza ao ,problema anterior] Conclua

_ limfi = a entao lim."/ an = a.


. 11 ,_
que se an > 0 e
_

,I

Seja yn > 0 para todo ne N. com Ey" = +oo. Se Um? = a então


n

lim
x¡+X¡+...+x,, = a.
yl +y2+...+y,,
.
Se(y,,)e crescente e
.
lim yn = + oo,
_
entao llm-í
- xn+1 Ax"
yn+1_yn

= a=› l1m- = -

yn
= a. (Use o Exerc. 29.)
1" + 2" + + n" 1
Vlàngì = (Use 0 exercicio anterior.)

ParatodoneN,tem-se0<e¬ 1+ Ll + L
2!
!
+ +-nl 1
<J~'Con-
n!n
clua dai que 0 número e é irracional.
% ."/ (n + 1)(n + 2) _ _ .Zn = É- (Use o ?nal do Exerc. 28.)
Prove que se definirmos an pela igualdade n! = n”-e'"-an. teremos
lim `"/ an = 1.
Sejam Ea" e Xbn séries de termos positivos. Se Eb" = +00 e existf:
n0eN tal que % 2 % para
..
b
»
todo n > no
..
entao Ea" = +oo.

Sejam 2 an e 2 bn séries de termos positivos. Se lim %=0 e 2 bn con-


., ll
verge entao Z an converge. Se lim?
.
= c † 0
_.
entao 2 an converge se,
..

e somente se, Eb" converge.


Para todo polinômio p(x) de grau superior a l, a série converge.
1 26 Curso de nnñlise

38. Se -1< x < 1 e + 1) então


=_Í__¿'"('"_1)";¡?'"_” <Zl>x" =0

para quaisquer me R e ne N.

=
a +
èíé
39. Se a seqüência (an) é não-crescente e lim al = 0, o mesmo ocorre com bn =
+ a
Conclua que, neste caso, a serle al
fl
+ 112) + , .
-ï(a, 1


+ ï(a, + az + a,)-.,.
1 ,
e oonvergente.
. 2 2

40. Prove que, para todo aeR,a série az +-åz-;+ñ%¡í¡+ 6

convergente e calcule sua soma.

41. Para todo pe N ?xado, a série 2 converge.

42. Se 2 un converge e an > 0 então 2(a,,)2 e 22% convergem. ..

43. Se 2('a,,)1 converge então 2% converge.

44. Se (an) é decrescente e 21 a,, converge então lim n-an = 0.


45. Se (an) é decrescente e Ea, = +øo, então,
lim al +a,+...+a,,,_, = 1.
~¬«› a,+a,+...+a,,,
46. Seja (an) uma seqüência não-crescente, com lim un = 0. A série Ea"
converge se, somente se, 22"-az.. converge.
e

x,_ =
47. Prove que o conjunto dos valores de aderência da
= cos (n) é o intervalo fechado [-1, 1].

48. Sejam a, b números reais positivos. De?na indutivamente as seqüên-


cias (X..L = `/ab,y1 = (fl + bl/2 2 X.+ = \/X.y,..y"+1 =
(y.) POHÚO X1 1

= (x,+y,.)/2. Prove que x,, e y,, convergem para o mesmo limite,


chamado a média aritmética-geométrica entre a e b.
49. Sejam a, Zazz e s,,=a¡ -a¡+ +(-1)"" a,,. Prove que a
seqüência (s,,) é limitada e que lim sup s,, - lim inf s,, = lim a,,.
cAPíTULov

TOPOLOGIA DA RETA

Estudaremos neste capitulo as principais propriedades topológicas


dos subconjuntos da reta. Chamam-se assirn as propriedades que se ba-
seiam nas noçöes de proximidade e limite. Elas estão fortemente rela-
cionadas com o comportamento das funçöes continuas.
Este capitulo prepara o terreno para o seguinte e, principalmente,
para 0 Cap. VII, onde é introduzida a noção de função contínua. As idéias
aqui apresentadas pertencem a uma parte da Matemática chamada Topo-
logía, cujo eseopo é estabelecer, com grande generalidade, a noção de
limite, as propriedades das funçöes continuas e dos conjuntos onde tais
funçòes são definidas e tomam valores. Para que tenha sentido determinar
to limite ou indagar sobre a continuidade de unn função, o dominio e o
contradominio da mesma devem possuir um certo tipo de estrutura, tor-
nando-se o que se chama um “espaoo topológioo”. Em outras palavras,
espaoos topológicos são conjuntos equipados com estruturas tais que entre
eles tem sentido falar em limites e eontinuidade de funçöes. _

O conjunto dos números reais é o espaço topológico mais freqüen-


temente utilizado e por isso o mais importante. Os Caps. V. VI e VII (e os
primeiros §§ do Cap: _IV) formarn um pequeno compêndio de topología
da reta. Vale dizer, porém, que não nos estendemos além do que julgamos
necessário para a boa compreensão dos conceitos básicos da Análise.
Como ?cou combinado, as demonstraçöes que daremos se basearão
apenas nos axiomas dos números reais e nas conseqüências que deles
deduzimos nos capitulos anteriores. Utilizaremos, porém, com freqüência
cada vez maior, a linguagem geométrica segundo a qual nos referiremos
ao corpo [R como “a reta", diremos "ponlo" em vez de “número real".
traduziremos “a < b” por “a está à esquerda de b”, dados x, ye R, inter-
pretaremos o valor absoluto y| como “distancia do ponto x ao ponto
y” e, finalmente, veremos 0 intervalo [a¬ b] como o segmento de reta cujos
extremos são os pontos a e lz.
Assim procedendo, estaremos atribuindo um conteúdo intui-tivo aos
conceitos formais introduzidos pela axiomátim dos números reais. Esta
atitude, quando olhada sob 0 ponto de vista estritamente matemático.
é inofensiva: trata-se apenas de utilizar sinónimos geométricos para nomes
aritméticos. Do ponto de vista de estilo, ela é conveniente pois permite
128 our» de ananse

evitar repetiçöes deselegantes, tomando a leitura mais agradável. Final-


"en-
mente, do ponto de vista educativo. ela é valiosa porque possibilita
prever os resultados (ou pelo menos
xergar” os conceitos e, muitas vezes.
torna-los aceitáveis) graças à imagem experimental que possuimos de
uma reta como um continuo de pontos alinhados, sem
lacunas. sem prin-
cipio e sem ?m.

§l Conjuntos abertos
As ideias que apresentaremos neste parágrafo são motivadas pelo
seguinte tipo de observação: seja a um número real maior do que 2. Então_
para todo xe|Rì suficientemente próximo de a ainda se tem x > 2. lsto
e, sedeslocarmos a um pouquinho pam a esquerda (ou. evidentemente,
para a direita) obteremos ainda um número maior do que Z Já o mesmo
não ocorre quando tomamos um número racional r e o olhamos como
número racional. Deslocando-o um pouco para qualquer dos lados, po-
demos encontrar um número irracional. Assim, enquanto a propriedade
de ser > 2 e estável (pequenos deslocamentos não a destroem), a pro-
priedade de ser racional e instável, Os conjuntos definidos por meio de
propriedades estáveis são os que chamaremos de aberms. Passemos agora
às definiçöes formais.
Dado um conjunto X C R. um ponto xeX eliama-se ponto interior
de X quando existe um intervalo aberto (a, b) tal que x e (a, b) <: X. (Isto
quer dizer que todos os pontos suficientemente próximos de x ainda
pertencem ao conjunto X.)
Para que xeX seja um ponto interior do conjunto X é necessário
(e suficiente) que exista c > 0 tal que (x~z:` x + e) c X.
Com efeito, se
xeta, b) c X, seja 5 o menor dos números positivos x-a e bfx. Então
(x~z;, x + 11) C (a, b), logo (x-2. x + 2) <: X.

9 ( ) ~
a x--1: x b = x + a

Na figura, b~x e menor do que x~a_ logo b-x = s.

Equivalentemente, ponto interior do conjunto X se, e somente


x é um
se, existe a >0 tal que ly-x| < r:=>yeX. De fato_ |y~x| < significa 1:

que y pertence ao intervalo aberto (x~n, x + tz).


Topología de reta 1 29
Final.
Dado X <: R, o conjunto dos pontos xeX que são
CI]- interiores a X
será representado por int (X) e chamado o interior do conjunto
lenos X. Temos
int (X) <: X e, evidentemente, se X c Y então int (X) c int(Y).
S de

Jrin. BXEMPLOS.

1. Se o conjunto X possui algum ponto interior, ele deve conter pelo


menos um intervalo aberto, logo é in?nito_ Assim, se
X = {x¡ ,.._, x,_}
6 um conjunto finito, nenhum dos seus pontos é
interior, ou seja, temos
int(X) = ø. Melhor ainda, como todo intervalo
aberto é um conjunto
não-enumerável, se int (X) ¢ øentão X é não¿enumerável. Em particular,
=lo o conjunto Q dos números racionais não possui pontos
interiores, isto é
0, int(Q) = ø. Segue-se que int (Z) = ø. Também o conjunto IR-Q dos
o números irracionais (embora seja não-enumerável) não possui
s
pontos
interiores. De fato, todo intervalo aberto deve conter
-'›
números racionais,
) logo lR~ Q não pode conter um intervalo aberto. Assim
int(lR-Q) = ø.
l

2. Se X = (a, b), ou X =(~oo, b) ou X =(a, +oo), então int(X)


No primeiro caso, para todo xeX temos xe(a, b) <: X.
X. :
No segundo
caso, dado arbitrariamente x eX escolhemos a < x e temos x e
(a, b) c X .
O terceiro caso é análogo ao segundo.
3. Sejam X = [c, d], Y= [c, +oo) e Z = (¬oo, d]. Então
int (X) = (c, d),
int(Y) = (c, +oo) e int (Z) = (-oo, d). Basta examinar X. Para cada
xe (c, d) temos x e (c, d) C X logo (c, d) c int (X) Por outro lado c ¢ int (X),
porque todo intervalo aberto contendo i- possuirá pontos à esquerda
de c,
logo não estará contido em [c, d]. Do mesmo modo,
o ponto d não é in-
terior ao intervalo [c, d]. Logo o interior de [c, d] reduz-se
ao intervalo
aberto (c, d). Analogamente, se X, = [c_ d) e X2 =
(c, d], então int (Xl) =
= int (X2) = (c, d).
Um subconjunto A <: R chama-se um conjunto aberto
quando todos
os seus pontos são interiores, isto é, quando int
(A) = A.
Assim A é aberto se, e somente se, para cada x GA existe um- intervalo
aberto (a, b) tal que xe(a, b) C A. Podemos interpretar
o intervalo ta, b)
como uma espécie de “margem de segurança” do ponto x,
dentro da qual
ele pode se movimentar sem correr o perigo de sair do conjunto
A. Convém
notar que tal margem de segurança não é a mesma para todos os
pontos
de A, Por exemplo, se A = (2. + oo), a margem de segurança
de um ponto
x e A é x ~ 2. Ela é tanto menor quanto mais próximo de 2 esteja
o ponto x.
4. O conjunto vazio é aberto. Com efeito, um conjunto X só
pode deixar
de ser aberto se existir em X algum ponto que não seja interior.
Como
130 Curso de análise

não existe ponto algum em ø, somos forçados


a admitir que ø
é aberto.

Evidentemente, a reta [R inteira é um conjunto aberto.


um subconjunto aberto da reta.
5. Seja A = (O, l)\_›(2, 5). Então A é
1) ou x E (2 5). Em qualquer
Como efeito, para todo x eA tem-se xe (O,
x e está comido em A.
caso, existe um intervalo aberto que contem
aberto se, e somente
6. Um intervalo (limitado ou não) é um conjunto
do Exemplo 3 acima. Todo
se, é um intervalo aberto. Isto decorre
Assim Q, Z, seus subcon-
conjunto aberto não-vazio é não-enumerável. conjunto
abertos. Nenhum
juntos e os conjuntos ?nitos da reta não são não contém
formado apenas por números irracionais pode ser aberto, pois
'
intervalos. V'

a) Se A1 C [R e Az C LR são abertos, então A,


n Az è aberto.
TEOREMA 1.
conjuntos abertos
b) Seja (A z)¿E uma família arbitrária de
,A

U um corgunta uberto.
Az C R. A reunião A = Az é
¿EL

Demomtração. a) Seja Az. Então xeA1 e xsAz. Logo existem


xe/11 rw
bz) C Az.
intervalos tais que xe(a,, b1)C A, e xe(az,
e b o menor dos números bl, bz.
Sejam a o maior dos números al, az,
Assim, todo ponlo
Entäo xe(a, b) =(a¡, bz)r¬(az, bz) C A, r\Az.
interior e portanto esta interseção e um conjunto aberto.
xeA¡ rx Az é

aborto,
b) Seja x e A= u Az. Então existe à e L tal que x e A, Como Az é
_

Como AA C A,
podemos obter um intervalo (a, b) tal que x e (a, b) C Az
_

e por conseguinte
temos xe(a. b) C A. Logo todo ponto xeA é interior
A é aberto.

do teorema acima utilizamos o


Observação. Ao demonstrarmos o ltem a)
bz) têm em comum
fato de que se os intervalos (az , bl) e (az,
n (az, igual ao intervalo
algum ponto x, então a interseção (az, bl)
bz) é

números al, az e b é o menor dos números


(a, b). onde a é o maior dos
descnhando uma
b,. bz. O leitor deve convencer-se disto primeiramente Se não conseguir. eis
?gura, Depois deve tentar prová-lo formalmente.
existe 0 intervalo (a, b) ¡sto é,
a demonstração: inicialmente. note que
e az < x < bz implicam
vale a < b. porque as hipóteses al < x < bz
ambos os números bl , bz .
que qualquer dos números al ,az é menor do que
az}, um número y é maior
Em seguida, observe que sendo a = max {a,,
Do mesmo modo, sendo b =
do que a se, e somente se, y > a, e y > az.
y < bz. Assim
= min {b1, bz}, tem-se y < b se, e somente se, y < bl e
bz. Ou seja ye(a¬ b)<=›ye(a1, bl)
a < y < b<:>a, < y < bl e_az < y <
Topología da reta 1 31

e ye(a2, bz). Isto quer dizer: (a. b) = (a¡, b¡)n(a2, bz). Argumentos
deste tipo são considerados “elementares“. Aos poucos eles serão omitidos_
em beneñcio da clareza do texto.
COROLÁRIO. Se A1 , A2 ,..., A"
são subconjunto; abertos de IR_enrão
A, nA¡ r\...r¬A,, é aborto. Em palavras: a intersvção
de um número ?nito de conjuntos abertos é um conjunto aberto.
Com efeito, aplicando n-1 vezes o Teor. 1 obtemos A1 rw A1 aberto,
A, nA¡r¬A3 =(A¡ nAZ)nA3 aberto, ..., A,r¬...nA,, =(A1 r\...r\
rw Ar 1) n An aberto.
EXEMPLOS.
7. A interseção de uma inñnidade de conjuntos abertos pode não ser
um conjunto aberto. Por exemplo, se considerarmos os conjuntos

abertos A" = (-%› %), n = 1, 2, 3,..., temos f? An = {0}, mas o con-


n=l
junto {O} não é aberto. [Para ver que rw An = {0}, basta notar que
OG An para todo n e N, logo Oe n A". Por outro lado, se x aë 0 então
|x| > 0 e. portanto, existe n tal que 0 < %< Isto signi?ca que

x¢<¬ ã-› = An. Assim, x ai O=> x¢ n A" _] Mais geralmente, temos


“°
[a. b] = Q A", onde cada A" =
n=l
a~ì--
1
b + Y
1
e
,
aberto mas a
_

inter-
secão [a, b] não é um conjunto aberto.
8. Seja F = {x1, xl _.... x"} um conjunto ?nito de números reaís. Po-
demos admitir que a numeração foi feita de modo que x, < xa < <
< x,,. Então IR-F = (-oo, x1)u(x,_ x2)\_›...u(x"_,_ x")u(x", +oo).
Concluimos que R ~F é aberto. Ou seja. o complementar de todo conjunto
finito é aberto. De modo análogo, IR-Z é aborto, pois R~Z = U (n, + 1) 11

é uma reunião (agora infinita) de conjuntos abertos. V “EZ

9. Todo conjunto aberto


A <: [R é uma reunião de intervalos abertos.
Com efeito, para cada xeA, escolhamos um intervalo aberto IX tal
que xe I, <: A. Isto pode ser escrito assim: {x} C IX c A, Tomando
reuniöes` temos U {x} c U I\ <: A, ou seja, A <: U lx c A,o que nos
xe A »E A XQ.. 1

dá A = U IX.
:EA
Este resultado pode ser substancialmente melhorado. Com efcito,
temos o
1 32 Curso de análise

aburto
TEOREMA 2 (Estrutura dos abertos da reta). Todo subconjunto
A <: [R se exprime. de modo

único, como uma reunião enumeràvel de intervalos


abertos dois a dois dis-
juntos.
Na demonstração, faremos uso do lema abaixo.
todos contemlo o
LEMA. Seja (I¿),E,_ uma família de intervalos abertos,
aberto.
pomo pelR. Então I = U ¡Ã é um intervalo
¿SL

Demonstração. Para todo lei... seja


I, = (a¿. b Ã) Para começan notemos
L ,ueL, porque a, < p
que al < bn sejam quais forem
e ¡› < bl, Logo, se tomarmos
a = inf {a,; ).eL} e b = sup {b,; ÄeL}.
ou b = +oo.) A?rmamos
tercmos a < b. (Pode ocorrer que seja a = -oo se
<: (a. b) é clara. Reciprocamente
que ta, b) = U IA. A inclusão U I,
¿EL
sup e de ini existem L ¡¿eLtais que
a < x < b, então pelas deñniçöes de
a, < x < bn. Se valer x < b¿, muito bem: teremos
xell. Se. porém,
au < x < by, ou seja xelu.
tivermos b, 5 x isto trará a” < b, 5 X, donde
(a, b) C u I). 0 que completa a
Em qualquer hipótese, xe U IA. Logo
demonstração.
seja IX a reunião dos in-
Demonstração do Teorema 2. Para cada xeA,
tervalos abertos que contêm x e estäo con-
aberto_ sendo evidentemente
tidos em A. Pelo lema, cada IX é um intervalo
x e IX c A. Se I é um intervalo aberto qualquer
contendo x e comido em A,
Logo 1 c IX. Isto se ex-
então I é membro da família cuja reunião deu lx.
contêm x e está contido
prime dizendo que IX e o 'maior intervalo aberto que
ou se tem I, = Iy ou então IX n ly =
ern A. Afirmamos que, dados x, y e A,
I = Ixuly é um
= ø. Com efeito, se existir algum zelxnly
então
I c IX e, dai, ly c IA. Por
intervalo contendo x e contido em A, donde
permite afirmar que os
motivo análogo, lx c ly. Logo lx = II. lsto nos
temos A = u IX,
intervalos lx são dois a dois disjuntos. Evidentemente,
Fica assim estabelecido que todo con-
já que x e IX c A para todo x e A.
reunião de intervalos abertos
junto aberto A pode ser decomposto como
os intervalos componentes de A.
dois a dois disjuntos, que chamaremos
de A é enumeravel
Para veri?car que a coleção dos intervalos componentes
J um número racional r(J). A função
basta escolher, em cada componente
J›-›r(J) é injetiva porque J 9€J' => J r\ J' = ø = r(J) aë r(J') Como Q
do Cor. do Teor. 8, Cap. Il.
é enumerâvel, nossa a?rmação segue«se
1

isto, suponhamos que se tenha


Resta agora provar a unicidade. Para
A = uJm onde os Jm são intervalos
abertos, dois a dois disjuntos. Añr-
Topologia da reta 133

mamos que. nestas condiçöes, para cada JM = (am, bm), suas extremidades
não pertencem ao conjunto A. Com efeito, se tivéssemos, por
exemplo,
ameA, seria ameJp = (ap, bp) para algum JP se Jm. Então. pondo b =
= min {bm, b',} teríamos .Im rw J" :› (am, b) ;± ø, um absurdo. Segue-se
dai que, para cada m e cada x e .Im .Im é o maior intervalo aberto que
_
contém
x e está comido em A. Logo .Im = IX (= reunião dos intervalos abertos
contendo gc e contidos em A). Isto prova que existe uma única maneira
de exprimir um aberto A como reunião (necessariamente
enumerável)
de intervalos abertos. dois a dois disjuntos.

COROLÁRIO. Seja I um intervalo aberto. Se I = A U B, onde A e B são


z-onjuntos abertos disjunzos, então um desses conjunros é
igual a I e o outro é uazío.
Com efeito, se I = A UB fosse possivel com A e B disjuntos e ambos
não-vazios, as decomposiçöes de A e B em seus intervalos componentes
duriam, pelo menos, dois intervalos componentes para I, o que é absurdo,
em virtude da unicidade estabelecida no Teor. 2.

§2 Conjuntos fechados
Diremos que um ponto a é aderente a um conjunto X <: [R quando a
for limite de uma seqüência de pontos x"eX.
Todo ponto aeX é aderente a X: basta tomar a seqüência de pontos
xn = a. Mas pode-se ter a aderente a X sem que a pertença a X (na rea-
lidade_ este é o caso mais interessante). Por exemplo_ se X = (O.
+oo),
então 0¢X, mas Oé aderentc a X, pois 0 = lim%~ onde %eX para todo n.

Obseruação. Todo valor de aderência de uma seqüência (xn) é um pomo


aderente do conjunto X = {x,, xl, ..._ xn .... Mas a re-
cíproca é falsa: nem todo ponto aderente a X é valor de aderência de (xn).
Por exemplo, se lim xn = a, 0 único valor de aderência de (xn) é a. mas
todos os pontos xn, por pertencerem a X, são pontos aderentes a X.

TEOREMA 3. Um ponía ae|R é uderente 11 um conjunto X c [R se, e so-


mente se, para todo s > 0 tem-se X n (a-C, a + s) sé ø.
Demonstração. Se a é aderente a X então zz = lim x" com x"eX para
todo n. Dado arbitrariamente > 0, temos xn e(a~e, a + e)
ix

para todo n suficientemente grande. Logo (a~c, a + n)r\X # ø. Ke-


134 Curso de análíse

ciprocamente, supondo satisfeita esta condição, para cada neN podemos


encontrar x"eX tal que xne a~í~ a + Í .,.
lsto delìne uma sequencia
1 1
-
_

de pontos xne X tais que 1x"~u| <


_

Í-
1
Logo lim xn = a
,
e
~
entao a
.
e ade-

rente a X.

COROLÁRIO (Equivalente ao teorema). Um ponto a é aderente ao von-


1

junto X se. P somente se, para


todo intervalo aberto I contendo a tem-se In X # ø.

Com efeito_ todo intervalo aberto contendo a contém um intervalo


do tipo (aee, a + iz).

c0Roi.ÁRio X c [R limitado inferiormente e Y<: R limitado


2. Sejam
superiormente. Então a = infX é adereme a X e b =
= sup Y é aderente a Y.
Com efeito, para todo e > 0 existem xeX e ye Y tais que a 5 x <
<a+seb«c<y5b.Istodá(a-s,a+s)nX¢øe(b-¿:,b+c)n
r\Y#ø.
Chamaremos fecho do conjunto X ao conjunto X formado pelos
pontos aderentes a X.
Evidentemente, X <: Y: X <: Y Tem-se também X c X para todo
X. No caso de ser X = X. diremos que o conjunto X éƒèchado.
Assim, um conjunto X c R é fechado se, e somente se, todo ponto
aderente a X pertence a X.
Em outras palavras, para que X seja fechado é necessário e suficiente
e lim x" = a,
que cumpra a seguinte condição: se x,,eX para todo neN
então a e X .

Quando X «: R é não-vazio, limitado e fechado, tem-se sup XEX e

inf X e X.
EXEMPLOS.
10. O fecho do intervalo aberto (a, b) é o intervalo fechado
[a, b]. Com
efeito, os pontos a e b são aderentes ao intervalo aberto (a, b) pois

a = lim <a + e b = lim (b-%)- Logo, o fecho de (a, b) inclui pelo

menos 0 intervalo fechado [a, b], Por outro lado, se a < xn < b e lim xn =
c,

então a 5 c 5 b. Logo todo ponto aderente ao intervalo aberto (a,


b)

pertence ao intervalo fechado [a, b]. Evidentemente, [a, b] e também o


Topología da reta 1 35

fecho dos intervalos semi-abertos [a, b) e (a, b]. Alem disso, é claro que
o fecho def[a, b] é o próprio [a, b], logo todo intervalo limitado fechado
é um conjunto fechado. Também são fechados os conjuntos
[a, +oo),
(-oo, b] e (- oo, + oo) = IR. Note-se o caso particular a = b, que dá [a, a] =
= {a}. Assim, todo conjunto reduzido a um único ponto é fechado.
ll. O fecho do conjunto Q dos números racionais é a reta [R. Também
o fecho do conjunto [R -Q dos números irracionais é IR. Em particular,
CD e [R -0' não são conjuntos fechados.

TEOREMA 4. Um conjunto F C [R é jechudo se, e somente se, seu com-


plementar IR-F é aberto.

Demvnstração. Basta observar que cada uma das a?rmaçöes abaixo é


equivalente à seguinte: 1. F é fechado; Z todo ponto ade-
rente a F pertence a F; 3. se ae [R-F então a não é aderente a F; 4. se
aeUR-F então existe um intervalo aberto I tal que ae! e Ir¬F = ø;
5. se ae[R¬F, então existe um intervalo aberto I tal que ae! c
[R~F;
6. todo ponto ae[R~F e interior a [R~F; 7. IR-F é aberto.

COROLÁRIO. a) [R conjunto uazzb são jechados.


e o
b) Se F1.F2 ,..._ F" sãofechados então F¡uF2u...u
U F" e fefhado.
c) Se (F ,_)¿E ,_ é
uma família qualqüer de conjuntos fechados
então a inlerseção F = H FÃ é um conjunto ?chado.
ref.
Com efeito, [R é 0 complementar do aberto ø, e é o complementar ø
do aberto [R. Agora, F1 ,..., F" fechados = [R ~F1 _..., [R ~Fn abertos =›
=›([R~F¡)r\...n([R~F“) = |R~(F1 u...uF") aberto =>F¡ U... UF"
fechado. Finalmente, cada F¿ fechado =› cada IR -FA aberto => U (IR-FÂ) =
/1

= [R-(Q FÄ) aberto => n FÂ fechado. (Veja o Teor. 1.)


Ã

Cabe aqui uma observação análoga à que foi feita no Exemplo 7:


a reunião de uma familia arbitraria de conjuntos fechados pode não ser
um conjunto fechado. Isto se vê facilmente: basta tomar um conjunto
qualquer X f: [R que não seja fechado. Tem-se X = U (Como todo
xeX
conjunto, X é reunião dos seus pontos; cada ponto xeX forma um con~
junto fechado {x} mas a reunião X não é um fechado.)
ÍEOREMA 5. O fer'ho_de todo conjunto X C [R é um conjunto ƒechad@
¡sto e, X = X,
1 36 Lurso de análise

Demonstração. Tomemos um ponto qualquer x e IR-X. Pelo Corolário 1

do Teor. 3 concluimos que existe um intervalo aberto I com


»cel e InX = e que. para todo ye! vale ye[R-X. Logo I c [R~X.
ø
lsto mostra que todo ponto x e R - X é um ponto interior. ou scja, que [R ~ X
e aberto. Pelo Teor. 4, X é fechado.

EXEMPLOS.
12. Todo conjunto finito F = {x1 xz x,,} é fechado pois, como vimos
, , . . _ ,

no Exemplo 8, seu complementar é aberto. Por motivo análogo, Z


é fechado.
I3. Existem conjuntos que não são fechados nem abertos_ como Q, R-Q,
ou um intervalo do tipo [a, b) ou (a, b].
14. Os conjuntos IR e ø são ao mesmo tempo fechados e abertos. Reci-
procamente, se X c R é ao mesmo tempo fechado e aberto, então
X = ø ou X = IR. Com efeito, nestas condiçöes, X e [R-X são ambos
abertos. Como R = (-oo, +'o0) = Xu(|R-X), o corolário do Teor. 2
implica que X = ø ou X = IR.
1530 conjunto de Cantor K é um subconjunto fechado do intervalo [0¬ l]_
obtido como complementar de uma reunião de intervalos abertos,
do seguinte modo: retira-se do intervalo [0, 1] seu terço médio aborto
(1/3, 2/3). Depois retira-se o teroo médio aberto de cada um dos intervalos
restantes [0. 1/3] e [2/3, 1]. Sobra então [0. l/9] u [2/9, 1/3`| u [2/3, 7/9] u
U [8/9. 1]. Em seguida, retira-se o terço medio aberto de cada um desses
quatro intervalos. Repetc-se o processo indeñnidamente. O conjunto K
dos pontos não retirados é o conjunto de Cantor. Se indicarmos com
I1.I2 _ _ _ ., I" _ _ .. os intervalos abertos omitidos_ temos K = [0.1]~ QI In,

¡stoK = [0, 1] n (R - U In). Logo K é um conjunto fechado. intersecão


é,
dos fechados [0, 1] c R-UI". Note-se que os pontos extremos dos in-
tervalos omitidos, como 1/3, 2/3, 1/9, 2/9. 7/9, 8/9. etc. pertencem ao con-
junto de Cantor. Com cfeito. em cada etapa da construção de K são

à | 1 "T W 1 | _ 1 1-
. L 2 L 2 1 å
0 9 9 3 3 9 9 1

Segunda etapa da construção de K: restam apenas os quatro


intervalos destacados, todos de comprimento 1/9. Desenhe o
que resta na 3.“ etapa.
Topología da reta 1 37

retirados apenas pontosyinteriores nos intervalos restantes da etapa an-


te1i0r_ Esses pontos extremos dos intervalos omitidos formam um sub-
conjunto infinito enumerável de K. Veremos logo mais, entretanto, que K
não é enumerável. Por enquanto_ notemos apenas que K não contém
intervalo aberto algum e portanto nenhum xeK é ponto interior. Com
efeito_ depois da n-ésima etapa da construção de K restam apenas inter-
valos de comprimento 1/3". Assim. dado qualquer intervalo aberto J f:
c [0, 1], de comprimento > 0, ele não restará incólume depois da n-
l

ésima etapa, se 1/3" < l. Conseqüentemente não se pode ter J C K.


Sejam X. Yconjuntos de números reais, com X C Y. Diremos que
X e denso em Yquando todo ponto de Y for aderente a X.
Por exemplo, Q é denso em IR. Também [R-Q é denso em R. Mais
ainda, dado qualquer intervalo não-degenerado J, 0 conjunto dos números
racionais perteneentes a J e o conjunto dos números irracionais que estão
em J são ambos conjuntos densos em J,
As seguintes afirmaçöes são equivalentes a dizer que X é denso em Y.
(Em todas elas, supöe-se X c Y.)

a) Todo ponto de Ye limite dc uma seqüência de p0nt0S de X .


b) YC X.
c) Para todo vyeY e todo s >0tem-se(y-8.31 +s)nX ai ø.
d) Todo intervalo aberto que contenha um ponto de Y deve conter
também algum ponto de X. (Note que um intervalo aberto con-
tendo ye Y deve conter um intervalo da forma (y-s, y + s).)

TEOREMA 6. Todo conjunto X ¿le números reais contém um subconjunto


enumeráuel E, denso em X.

Demonstração. Dado arbitrariamente n e N, podemos exprimir a reta como

ì
reunião enumerável de intervalos de comprimento 1/n.
Basta notar que IR =
¡vez
%, L7
+
Il
1
« Pam cada neN e cada pel, es-
+
colhamos um ponto xpne X rw l~
fl H
1
se esta
_ ~ _
mterseçao nao for vazia .

(se for vazia, xp"


não existirá). O conjunto E dos pontos xp" assim obtidos
é enumerável. Afirmamos que E é denso em X. Com efeito, seja I um in-
tervalo aberto contendo algum ponto x e X Para n suficientemente grande,
_

9%
.
o comprimento 1/n de cada intervalo _ 1 ,
sera menor do que a
distância de x ao extremo superior de I. Portanto existe pel tal que
138 Cursa de análise

c Logo xe %› IL? nX 9€ø. Assim, existe o


xe ã-› P-ir;-1 I.
que todo intervalo aberto I que
ponto xp", com xpnel n E. Isto mostra um ponto x¡meE. Logo E é
contém um ponto xeX eontém também
denso em X.
dos intervalos omitidos para
EXEMPLO 1(x O conjunto E dos extremos Afirmamos
formar o conjunto de Cantor K e enumerável. que
dados xeK e a > 0 mostraremos
que E é denso em K. Com efeito, sendo, pelo
a 5 1/2. Assim
Íx-s, x + a)nE ¢ ø. Não faz mal supor [x, + a) (digamos [x, x + e))
x] ou
menos um dos intervalos (x~e,
x
< a, depois da n-êsima etapa da
está contido em [0, 1]. Quando for 1/3"
de comprimento 2 e. Logo
construção de K não restarão intervalos etapa, ou
x + s) sera retirada na n-êsima
algurna parte do intervalo [x, ter sido retirado
foi retirada antes. (O intervalo inteiro
[x, x + 6) não pode
+ a) é um
parte retirada de [x, x
porque xe K.) O extremo inferior da
ponto ye(x~e, x + e)nE.

§3 Pontos de acumulação
de acumulação do
Seja X c Um número aeIR chama-se ponto
IR.
aberto (a - s, a + e), de centro a, contém
conjunto X quando todo intervalo
algum ponto xeX d?erente de
a.
de acumulação de X sera representado pela
O conjunto dos pontos
o derivado de X).
notação X' (e, às vezes, chamado sim-
de acumulação de X) exprime-se
A condição aeX' (a é ponto
bolicamente do modo seguinte:
Ve>0 ElxeX; 0<|x-a\<e.
a?rmaçöes são equi-
TEOREMA 7. Dados X C IR e aeR, as seguintes
valentes:

1. aeX' ponto de acumulação de X);


(a é
a dais
seqüência de elementos de X, dolls
2. a = lim xn, onde (xn) é uma
distintos; de X.
uma in?nidade de elementos
3. todo intervalo aberto contendo a possui
a pri-
(1)=> (2)=-› (3)=> (1). Para provar
Demonstração. Mostraremos que
meira implicação_ seja aeX'. Existe
x,eX tal que 0 <
que existe x2 GX
< lx, ~a\ < Tomando ez = min ?xl -al, l/2}, vemos
1.
Topología da reta 139

tal que 0 < Ixz-a| < 52. Seja aa = min {|x2-a|, 1/3}. Existe›x3eX tal
que 0 < |x3-a| < aa. Prosseguindo desta forma, obteremos uma se-
qüência de elementos x,,eX com |x,,+¡~a| <|x,,-a| e |x,_-a| <%-
Assim, os xa são dois a dois distintos, pertencem a X e lim xn = a. As
implicaçöes (2)=> (3) e (3)=> (1) são óbvias.

COROLÁRIO. Se X' sé ø então X é in?níto.

EXEMPLOS
17. Seja X = {1, 1/2, 1/3 ,..., 1/n ,... Então X' = Mais geralmente,
se lim xn = a e n ye xn para todo neN então, pondo X = {x1, xz ,_..,
...,x,,....}, temos X' = {a}. Se. porém, for aeX, pode-se ter X' = {a}
ou X' = ø. Por exemplo, para a seqüência (a,a,a ,... ) vale X' = ø.
Jâ a seqüência a,a+1,a,a+å-«a,a+%›~-- dá X'={a}.
1s.(a_b)'=(a,b]'=[a,b)'=[a,b].0'=(R-o)'= R' = nl' = N' = ø.
19. Todo ponto x do conjunto de Cantor K é um ponto de acumulação
de K. Suponhamos inicialmente que x seja extremidade de algum dos
intervalos abertos retirados de [0, 1] para formar K. Por exemplo, vamos
admitir que (a, x) fosse um dos intervalos omitidos. Na etapa em que se
retirou (a, x) restou um intervalo [x. b¡]. Na etapa seguinte será omitido
0 terço medio aberto de [x, bl] e então sobrará um intervalo [x, bz] (e mais
outro que não nos interessa). Nas etapas posteriores sobrarão [x, bJ],
[x, b4], etc., com bl > bz > > bn > .. pertencentes a K e lim bn = x.
_

Logo xeK'. E se x não pertencer ao conjunto E das extremidades dos


intervalos retirados? Neste caso sabemos, pelo Exemplo 16, que todo
intervalo (x~s, x + e) contém pontos de E. Como x¢E, tais pontos são
diferentes de x. Logo xeE' e, portanto, xeK'.
Um ponto a e X que não é ponto de acumulação de X chama-se um
ponto isolado de X.
Para que aeX seja um ponto isolado é necessário e su?ciente que
exista c >O tal que (a-s, a + s)r\X = {a}.
Todo ponto ael
é um ponto isolado de Z.

TEOREMA 8. Para todo X C IR,tem-se X = X U X', Ou seja, nfecho de


um conjunto X é abtido ar-rescentando-se a X os seus pontos
de acumulação.
1 40 Curso de análise

Demonstração. É claro que X c X e X' <: X. Logo X U X' c


X. Recipro-
camente, se aeX, todo intervalo aberto contendo a deve
conter algum xeX. Se a não pertencer a X então x qé a, donde ae X'.
Assim aeX implica que aeX ou aeX', isto é, X c
X U X'.

COROLÁRIO 1. X fechado se, e somente se, X' <: X.


é
S u T se, e somente
Corn efeito, dados dois conjuntos S, 71 tem-se S =
se, Tc S.
COROLÁRIO todos os pontos do conjunto X são isolados então
2. Se
X é enumerável.
Com efeito, seja E c X um conjunto enumerável denso em X. Dado
qualquer x e X , temos x E É mas, como x ¢ X', tampouco x pode ser ponto
de acumulação de E. Logo xeE. Segue-se que E = X.
Concluimos que
X é enumerável.
X quando
Dizemos que a é ponto de acumulação à direita do conjunto
todo intervalo [a, a + a), com s > 0, contem algum ponto de X díerente de a.
[a, a + contém uma inf
lsto equivale a dizer que todo intervalo s)
de acumulação de
tìnidade de pontos de X, ou então que a é ponto
X n [a, + oo).
Outra a?rmação equivalente a esta é dizer que a é limite de uma
seqüência decrescente de pontos de X .
se,
O ponto a e ponto de acumulação à direita de X se, e somente
X.
todo intervalo aberto (a, b) contém algum ponto de
acumnlação
Indicaremos pelo simbolo X '+ o conjunto dos pontos de
à esquerda
à direita de X . De modo análogo se deñne ponto de acumulação
a do conjunto X todo intervalo
: (a -e, a], com e > 0, deve conter al-
portanto uma in?nidade de pontos
gum ponto de X diferente de a (e
de X ). Uma condição equivalente: a = lim xn, onde (xn) é uma seqüência
à esquerda
crescente de pontos de X . O conjunto dos pontos de acumulação
de X será representado por X'_. Tem-se aeX'_ se, e somente se,
para
todo intervalo aberto (c, a) vale (c, a) n X ¢ ø.

EXEMPLOS.
20. Se X = {1, 1/2, 1/3 ,..., 1/n ,... }, 0 e ponto de acumulação à direita,
mas não à esquerda de X Todo ponto de (a, b) é ponto de acumulação
.

à direìta e à esquerda para (a, b). Já o ponto a é apenas ponto de acumulação


à direita e b é ponto de acumulação à esquerda.
inferior de algum
21. Seja K o conjunto de Cantor. Se ae K é extremidade
dos intervalos retirados, então a é apenas ponto de acumulação à
Topología da reta 141

esquerda para K. Do mesmo modo, se a for extremidade superior de algum


intervalo omitido então a é ponto de acumulação à. direita apenas. Os
pontos 0 e 1, embora não sejam extremos de intervalos omitidos, são pontos
de acumulação de um lado apenas, por motivos óbvios. Os demais pontos
de K são pontos de acumulação de ambos os lados (Não sabemos ainda
se tais pontos existem mas, se provarmos que K não é enumerável, resul-
tara que eles formam a maioria pois, sendo E enumerável, K -E será não-
enumerável. Veja o Teor. 9.)

TEOREMA 9. SejaF c [R não-vazio tal que F = FC (Isto é, F é um ron-


junto fechado não-vazio sem pomos isolados.) Então F é
não-enumeráuel.
A demonstração se baseia no seguinte

LEMA. Seja F fechado, não-vazio, sem puntos isolados. Para todo xe|R
existe Fx limitado. fechado, não-vazio, sem pomos isolados, tal que
x ¢ FX Ci F.

Demonstração. Como F é inlinito, existe yeF, y aé x. Seja [a, b] um in-


tervalo fechado tal que x¢[a, b] e ye(a, b). O conjunto
G = (a, b) rw F é limitado, não-vazio e nenhum dos seus pontos é isolado.
Se G for fechado, poremos FX = G e o lema estará demonstrado. Caso
contrario, pelo menos um dos a, b será ponto de acumulação de G. Neste
caso, acrescentaremos esse(s) ponto(s) a G para obter Fx. Ou seja, em
qualquer hipótese, pomos Fx = G.

Demonstração do Tear. Mostraremos que, dado qualquer subconjunto


9.
enumerável {x¡ x2 ,..., xn ,... C F, podemos
, }

encontrar um ponto ye F tal que y sé x,, para todo n. Aplicando repetida-


mente o Lema a xl e F, a xz e Fl, etc., obtemos uma seqüência de con-
juntos fechados limitados e não-vazios F" tais que F :› F1 F2 D
:› F" :›
::›
e xn¢Fn para cada ne N. Escolhamos, para cada n, um ponto
y"eF,,. A seqüência (yn) é limitada, logo possui uma subseqüência con-
vergente yz-› y. Dado arbitrariamente keN, temos y;,eF, para todo
n 2 k. Como Fk é fechado, segue-se que y = lim y; e Fk Assim y e Fk para
.
,.

todo keN, donde concluímos: l.°) yeF; 2.°) y ai xk para todo keN.
Isto completa a demonstração.

COROLÁRIO 1 (Equivalente ao teorema). Todo conjunto fechado enume-


ráuel não-uazib possui algum
punto isolado.
142 Curso de análise

COROLÁRIO 2. O conjunto de Cantor é não-enumerável.

§4 Conjuntos compactos
Uma cobertura de um conjunto X r: [R é uma família W = (C ¿)¿E ¡_
de conjuntos C1 c R, tais que X c U Cl, isto é, para todo xeX existe
ÄEL

algum /leL tal que xeC¿.


Uma subcobertura de fâ é uma subfamília W = (C ¿)¿E ,_, L' , c L, tal
que ainda se tem X c U- CA.
le '

EXEMPLOS.
22. Os intervalos C¡ = (O, 2/3), C2 = (1/3, 1) e C3 = (1/2, 9/10) consf
tituem uma cobertura Q' = (C, C1 C3) do intervalo [1/4, 3/4]. Aqui
, ,

L = {1, 2, 3}. Com efeito, [1/4, 3/4] c Cl u C, u C3 = (0, 1). Tomando


L' = {l, 3} temos a subfamília Q' = {C¡ C3}, a qual é uma subcobertura
,

de ft', pois ainda vale [1/4, 3/4] C C¡ u C3 = (O, 9/10).


23. Seja X = {1, 1/2, 1/3 ,..., 1/n ,... X é um conjunto infinito e seus
pontos são todos isolados (isto é, X rw X' = ø). Assim, para cada
x e X, podemos obter um intervalo aberto IX, de centro x, tal que IX rw X =
= A familia fé' = (I,),Ex assim forrnada é uma cobertura de X, pois
cada x e X pertence a IX. Note-se que ¿K não possui subcobertura própria:
se omitirmos qualquer lx, o ponto x ?ca “descoberto” pois x não pertence
a ly algum com y aé x.

TEOREMA (Borel-lsebesgue). Seja [a, b] um intervalo limitado e fe-


10
chado. Dada uma família (I¿)¿E¡_ de in-
tervalos abertos tais que [a, b] C ¿U I ,_, existe um número finito deles,
eL
l¿¡,...,I¡n, tais que [a, b] cI¿`u...uI¡n. Em oútras palavras: toda
cobertura de [a, b] por meío de intervalos abertos admite uma subcobertura
?nita.
Demonstração. Seja X o conjunto dos pontos xe [a, b] tais que o inter-
valo [a, x] pode ser coberto por um número finito dos Il ,

isto é, [a, x] c IM \.›...uI,_n. Temos X 96 ø: por exemplo, aeX. Seja


c = sup X. Evidentemente, ce [a, b]. Añrmamos que ce X. Com efeito,
existe algum 11° = (oz, B) tal que ce I 10. Sendo an < c, deve existir xe X
tal que ot < x 5 c. Logo xelh. Mas como xeX, temos [a, x] C IM U
u...uI¿n e dai [a, c] cIMu...uI,_nuI¿o, o que prova que ceX.
Mostraremos agora que c = b. Se fosse c < b, existiría algum c' E 11° com
Topología da reta 1 43

c<c' <b. Então [a, f'] C¡r,U---U¡1..U¡›¬› d°“d° CIGX' ° que é


absurdo, pois c' > c e c é o sup de X. Vemos, portanto, que o intervalo
[a, b] está comido numa reunião ñnita dos IÄ, o que prova o teorema.

Extensão do teorema acíma. Em vez de intervalos IÃ, podemos supor


[a, b] <: U AÃ, uma cobertura de [a, b] por
ÁGL
conjuntos abertos quaisquer Al, e ainda existirá uma cobertura finita:
[a, b] <: A¿¡uA¿2u...uA¿n.
Com efeito, cada ponto xe[a, la] pertence a um aberto A ¿_ Logo,
para cada x em [a, b] podemos escolher um intervalo aberto IX tal que
xelx c AA. Isto nos fornece uma cobertura de [a, b] pelos intervalos
lx, da qual extraimos uma subcobertura finita [a, b] c In Ix_. u...u
Para cadaj = 1, 2 ,..., n, existe Â.¡eL tal que IX, c Ali: assim, [a, b] C
<: A¿¡u...uA¿_.
Forma definitiva do Teorema de Borel-Lebesgue: Seja F c IR um conjunto
limitado e fechado. Toda
cobertura F c U Al de F por melb de abertos admite uma subcobertura
¿SL
finita:

FcA¿¡u...uA¿n_
Demonstração. Sendo F fechado, A = R~F é aberto. E sendo F limitado,
existe Lun intervalo limitado [a, b] que contém F. Temos
[a, b] c (U Al) U A. Dai se extrai uma subcobertura finita F c [a, b] c
¿SL
c AM U _ _ . u,A¿_ u A. Como nenhum ponto de F está em A, obtemos
F f: AM v _.. U AA", como queríamos demonstrar.

EXEMPLO 24. A própria reta R, sendo um conjunto fechado, mas ili-


mitado, possui a cobertura aberta IR = U (~n, +nì, a
_ IIEN
qual não admite subcobertura finita. Com efeito, a reunião de um número
?nito de intervalos (~n, n) é igual ao maior deles e, portanto, não pode
ser R. Por outro lado, o intervalo (O, l], sendo um conjunto limitado,

U <í› 2),
. 1
mas não fechado, possui a cobertura aberta (O, 1] c nEN da qual

não se pode extrair uma subcobertura ñnita porque a reunião de um número


1 44 Curso de análise

?nito de intervalos da forma (%› 2) é o maior deles e, portanto, não

pode eonter (O, 1].

TEOREMA ll. As seguintes aƒìrmaçães a respeito de um conjunto K c IR

são equivalentes:
1. K é e fechado;
limitado
2. toda cobertura aberta de K possui subcobertura ēnita;
3. todo subconjunto infinita de K possui ponto de acumulação pertem-ente a K;
4. toda seqüência de pontns de K possuí uma subseqüência que corwerge
para um ponto de K.

Demonstração. A forma definitiva do Teorema de Borel-Lebesgue dá


(1) =-› (2). Para provar que (2)=> (3), seja X <: K um con-
junto sem ponto de acumulação em K. Então, para cada xe K, podemos
achar um intervalo aberto IX, de centro x, que não contém ponto algum
de X- Em outras palavras, temos IX n X = {x} se xeX e IX n X = ø
se x¢X. lsto nos forneoe uma cobertura aberta K f: U IX, da qual po-
xeX
demos extrair uma subcobertura finita K c IX, U u lx". Em particular,
esta reunião ?nita contém X. Ora, para cada xe X, o único intervalo da
cobertura original que continha x era o próprio lx. Segue-se que, para
cada xeX, o intervalo I, comparece na coleção In ,..., IX". Logo X é
ñnito. Assim, quando se supöe que K cumpre a condição (2), os únicos
suboonjuntos de K que não possuem ponto de acumulação em K são os
?nitos. Segue-se que (2)'=>(3).
Mostremos agora que (3) => (4). Dada uma seqüência de pontos
x,leK, ha duas possibilidades: ou o conjunto X = {x¡, xl ,..., xn ,... }
é ñnito ou é inñnito. No primeiro caso, algum valor xm = xnx = deve
repetir-se uma in?nidade de vezes, o que nos dá uma subseqüência cons«
- -
tante e portanto convergente de (xn). No segundo caso, a hipótese
(3) nos dá aeK, um ponto de acumulação de X. Todo intervalo aberto
(a~z:, a + e) contém uma in?nidade de pontos de X e, portanto, contém
termos xn oom indices arbitrariamente grandes. Pelo Teor. 9 do Cap. IV,
a é limite de uma subseqüência de (xn).
Finalmente, mostramos que (4)=>(1). De tato, se K fosse ilimitado
(digamos superiormente), tomaríamos xl GK e veríamos que existiría
xl GK tal que xl > xl + 1. Prosseguindo analogamente, obteriamos uma
seqüência de pontos x"eK com xn? > xn + l. Toda subseqüência de
(xn) seria ilimitada e,- portanto, não-convergente. Por outro lado, se K

&._.
Topología da reta 145

não fosse fechado, existiría uma seqüência depontos xn ÉK com lim


x" =
= x¢K. Qualquer subseqüência de (xn) convergiria para x, portanto
estaria violada a condição (4). Isto conclui a dcmonstração.

COROLÁRIO (Bolzano-Weierstrass). Todo conjunto infinito limitado X <:


<: R possui algum pomo de acumu-
lação.

Observação. O Teor. 11 fornecevoutra demonstração do Cor. 1 do Teor. 10


do Cap. IV, segundo o qual toda seqüência limitada possui
uma subseqüência convergente.
Chama-se compacto a um conjunto K <: [R que cumpre uma das (e
portanto todas as) condiçöes do Teor. 11.
Por exemplo, um intervalo [a, b], o conjunto de Cantor e o conjunto
{0, 1, 1/2 ,..., 1/n ,... } são compactos Todo conjunto ñnito é compacto.
A reta R, o conjunto Q dos racionais, Q n [O, 1] e Z não são compactos.

TEOREMA 12. SejaK¡ : Kz :› . . . 3 K" 3 . . .uma seqüênclh descendente


de compactos não-vazios. Então K = H K" é não-uazio
n= 1

(e compacto).

Demonstração. Em primeiro lugar, K é fechado (como interseção dos


fechados Ku) e limitado porque está contido em Kl, por
exemplo. Logo é compacto. Para provar que K não é vazio, escolhamos,
para cada ne N, um ponlo x,,eK,,. Todos os pontos da seqüência (xa)
assim obtida pertencem ao compacto Ki. Logo ela possui uma subse-
qüência convergente, xm -› x. Afirmamos que xeK, ísto é, xeK,, para
todo ne N. Com efeito, dado arbitrariamente ne N, existe nio > n. Para
todo ni 2 nio temos xme Km c Km r: K". Ou seja, a partir de um certo
índice nio, todos os termos da seqüência (xm) pertencem ao fechado K".
Logo x = lim x,“eK,,. Isto termina a demonstração.

APÉWDICE AO Como uplicnção do Teorema de lšorel-Lcbcsgue.


§4.
dcmonslrztrcmos alguns (alos sobre comprimcntos
dc intervalos. Em seguida. usaremos l2lÍS resultados para dar alguns
excmplos inleressumcs.
O comprimento do intervalo [a, b] e do intervalo (a, b) é o número b -a.

PROPOSICÄO 1. Se [a, 11] C (dí, bi) então b~a < (bi wi).
I-1 t-1
1 46 Curso anålise

Demonstração. Podemos admitir, sem perda de generalidade, que todos


os intervalos abertos (ai, bi) interseetam [a, b]. Sejam
cl < cz < < c,, os números ai e bi ordenados cresoentemente. É claro
que ncnhum intervalo (cj, c¡+¡) contem um ponto ai ou um pomo bi.
Alem disso, tem-se cl < a e b < ak. Logo b-a < ek-cl, isto é:
b~a <(ck-c,¢_1)+...+(c3--c¡)+(c2-c,).
Mostraremos agora que cada intervalo (c¡, cj?) está contido em algum
(a,, bi). Para isto, examinaremos as três posiçöes possiveis do ponlo cj
em relação ao intervalo [a, b]. Primeira: c¡e [a, b]. Neste caso, c¡e(a¡. bi)
para algum i; como bi não pode estar entre cje ci, tem-se então (c¡ c¡+ 1) c 1 , ,

c (a¡, bi) Segunda: cj < a; então c¡ não pode ser um bi porque isto faria
oom que (ai, bl) fosse disjunto de [a, b]. Logo tem-se cj = ai para algum i.
Como bi não pode estar entre c¡ e c¡+1, tem-se (cj, c¡+¡) <: (ai, bi). Ter-
ceira: cj > b. Isto implim c¡+¡ > b e, como hâ pouoo, obriga que cj? = b¡
para algum i. Como ai ¢ (cj, c¡H), concluímos que ai 5 cj, donde
(ej. c¡+1)c (ai, bi). Ora, para cada í= 1, 2 ,..., n, temos ai = cp e b, =
= r~,,+q. Desta maneira, podemos escrever,
bfaí = (cp+q~c,,+q_¡) + + (cpH~cp).
»

A soma 2 (bgai) pode, portanto, ser decomposta em parcelas do tipo


í-1
c¡+¡-cj de modo que todas estas parcelas (quando j assume os valores
1, 2 ,..., k~ 1) compareçam pelo menos uma vez pois, como vimos, cada
intervalo (ci, c ¡ + 1) está contido em algum (a, b¡).' Segue-se que Z (b¡~a,) 2,

2 21(c¡H-c¡) > b-a.


PROPOSICÃO 2. Se [a, b] c: O (an
n= 1
, bn) então b~a < Í
n= l
(bn -an).

Demonstração. Pelo Teorema de Borel~Lebesgue, existem nl, n2,...,n,;


tais que
[a, b] <: (am , bm) u ...u (ank, bnk).
Pela Proposição l, b~a < (bm -am) + ._ _ + (b,,k - am). Com maior razão,

b~a < 2 (bn-an).


n 1

PROPOSICÃO 3. Se
|l=l
Í (bn-an) < b-a, então 0' conjunto X = [a, b] -
un
- U (an, bn) é não-enumerável.
Il= 1
Topología oa reta 1417

Demonstração. Seja c = (b-a)~2(b,,-an) > 0. Se X = {x1 , x2 ,.... xn .... }

fosse enumerável então tomaríamos para cada n um in-


tervalo aberto J", de centro xn e comprimento c/2"* 1. Os intervalos (an, bn)
e mais os J" formariam uma coleção enumerável cuja reunião certamente
conteria [a, b]. Por outro lado, a soma dos comprimentos dos (an. bn)
mais os comprimentos dos J" seria iguala % + 2 (bn - an) e, portanto, ainda
inferior a b-a. Mas isto contradiz a Propos. 2.

EXEMPLOS A. Uma coleção de intervalos abertos cujos centros são todos


os números racionais de [a, b],mas que não é uma cobertura
de [a, b]. Para obtê-la, seja {rl , rz _..., rn ,... } uma enumeração dos ra~
cionais do intervalo [a, b]. Para cada n e N, seja (an, bn) o intervalo aberto

de centro rn e cujo comprimento é


b~u
FT- Então E(b,,-an) = T,
b~ a
logo o
intervalo [a, b] não está contido na reunião dos (an, bn).

B. Um conjunto fechado não-enumeráuel, formado apenas por números


irracionais. Tal é o conjunto F = [a. b]~U(a,,, bn) onde os intervalos
(an. bn) são os do exemplo acima.

EXERCÍCIOS
1. Um conjunto A c IR é aberto se, e somente se, cumpre a seguinte
condição: “se uma seqüência (xn) converge para um ponto a GA então
xneA para todo n suficientemente grande”.
2. Tem-se lim x" = a se, e somente se, para todo aberto A contendo o
ponlo a, existe no eN tal que n > no implica x"eA.
3. Seja B c [R aberto. Então. para todo xelR, o conjunto x + B =
= {x + y; yeB} é aberlo. Analogamente, se x aé 0, então o con-
junto x-B = {x-y; yeB} é aberto.
4. Sejam A. B abertos. Então os conjuntos A + B = {x + y; xe A, ye B}
e A-B = {x-y; xeA, yeB} são abertos.
5. Para quaisquer X, Yc IR, tem-se int(Xr¬ Y) = int(X)r¬int(Y) e
int(Xu Y) :› int (X)uint(Y). Dê um exemplo em que a inclusão
não se reduza a uma igualdade.
6. Se A f: JR é aberto e aeA então A-{a} é aberto.
7. Considere as funçöes f y, h: [R -› IR, dadas por j`(x) = ax + b(a =# 0),
g(x) = xl e h(x) = x3. Mostre que. para cada A c [R aberto, '(A), f'
g"'(A) e h"(A) são abertos.
1 48 Curso de análisa

No exercicio anterior, mostre que, para


cada A c R aberto, j'(A) e
tal que g(A) não seja aborto.
h(A) são abertos Dê exemplo de A aberto
é enumerável.
Toda coleção de abertos não-vazios, dois a dois disjuntos
uma seqüência um conjunto
é
O conjunto dos valores de aderência de
fechado.
Se X <: F e F é fechado então X C F.
Selimxn=aeX={x¡.x2 ,..., xn ,,.. }entãoX=Xu{a}.
de Cantor.
O número 1/4 pertence ao conjunto
Sejam F. G conjuntos fechados disjuntos tais que F u G seja um in-
F = ou G = ø.
ø
tervalo fechado (limitado ou não). Então
seqüência cujo conjunto dos
Seja E c R enumeravel. Consiga uma
mostrar que todo con-
valores de aderência e É. Use este fato para
de aderência de alguma
junto fechado F c [R e 0 conjunto dos valores
seqüência. [Sugestãoz Escreva N como
reunião enumerável de con-
ne N, faça xn = i-ésimo
juntos infinitos disjuntos Ni. Para cada
use o Teor. 6.]
elemento do conjunto E. Para a segunda parte.
irracional, os conjuntos F = Z
Com a notação do Exerc. 4, se ot é

+ G não é fechado. Também H =


e G = <xZ são fechados porém F
[Sugestãoz
= {0, 1, 1/2, 1/n ,... } é fechado mas F H não é fechado.
..., -

Exerc. 58 do Cap. III.]


de Cantor. Mostre que {]x~y[;
xeK, yeK} =
Seja K 0 conjunto
dos |x~y\, com x, ye K.
= [0, 1]. [Sugestãm Observe que 0 conjunto
e compacto e convença-se de
que ele contem todas as fraçöes próprias
de 3.]
cujos denominadores são potencias
real > 0. existem xl, xl ,,.._ xn no con-
Dado qualquer numero u

junto de Cantor tais que xl + + xn = a. [Sugestãor O exercício


anterior.]
a > 0 arbitrario, existem inter›
Seja K o conjunto de Cantor. Dado
Jn = (an, b,,)taisqueK c Jl U ...U
,..., J"
valosabertosJ¡ =(a,,b1)
e Í (bi-a¡)<e. K

i= 1

Para X, Yc R quaisquer. tem-se X ul7e )TrTl7C X n


Y = Xu Í
não se reduz a uma igualdade.
De um exemplo no qual a inclusão
Um conjunto A <: IR é aberto se,
e somente se, A n X c Ã??
para

todo X c R.
Sejam F1 :u F2 :› :› F" 3 não-vazios. Dê exemplos mostrando
que rx F" pode ser vazio se os F" são
apenas fechados ou apenas li-
mitados.
se; e somente se, satisfaz
Um conjunto não-vazio X <: IR e um intervalo
a condição seguinte: “a, be
X, a < x < b => xe X”.
Topología da rota 149

Mostre que a interseção de uma seqüência descendente


:› :
:.~ In
Il :› I2
de intervalos é um intervalo ou o conjunto
:
vazio.
Um conjunto é denso em R se, e somente se,
seu complementar tem
interior vazio.
Se F é fechado e Á¬É\3b61'l0 então F-A é fechado.
Dê exemplo de um aberto A tal que A D Q mas
R-A seja näo-enu-
merável.
Dê exemplo de um conjunto fechado, não-enumerável,
formado apenas
por números transcendentes.
De?na a distância de um ponto a e R a um conjunto não-vazio
X c R
como d(a, X) = inf`{|x-a|; xeX}.
Prove: 1) d(a, X) = 0-=›aeX;
2) Se F c R é fechado, então para
todo aeR existe beF
tal que d(a, F) = [b-al.
Se Xlimitado superiormente, seu fecho X também é. Além
é
disso,
supX = sup X. Enuncie e prove um resultado análogo
para inf
Para todo X c R limitado superiormente, supX é
aderente a X.
Resultado análogo para inf.
Para todo X <: R, X' é fechado.
Um número a é ponto de acumulação de X
se, e somente se, é ponto
de acumulação de X _

(Xu Y)' = X'u Y'.


Todo ponto de um conjunto aberto A é ponto de acumulação
de A.
Sejam F fechado e x e F. Então x é um ponto isolado
de F se, e somente
se, F-{x} é ainda fechado.
Seja X <: R tal que X' n X = ø. Mostre
que existe, para cada xeX,
um intervalo aberto IX, de centro x, tal que x ¢
y=› IX n Iy = ø.
Seja F c R fechado, infmito cnumerável.
Mostre que F possui uma
inñnidade de pontos isolados.
Mostre que todo número real x é limite de uma seqüência
de números'
transcendentes dois a dois distintos.
Mostre que se X c R não é enumerável, então XnX'
aé ø.
Se A e A u {a} são abertos então a é
ponto de acumulação de A à
direita e à esquerda.
Dê explícitamente o signifìcado de cada uma
das seguintes añrmaçöes.
Em suas explicaçöes, você está proibido de
usar qualquer das palavras
gnƒadas abaixo:
l) aeX não 6 ponto interior de X;
2) asR não 6 aderente a X;
1 50 Curso de análìse

3) X c IR um conjunto aberto;
não é

4) O conjunto Yc [R não é fechado;


5) ae [R não é ponto de acumulação do conjunto X c R;

6) X' = ø;
7) X c Yrnas X não é denso em Y;
8) int (X) = ø;
9) X rn X' = ø;
10) X não é compacto.
Se todo ponto de acumulação de X é unilateral, X é enumerável.
Seja X c [R um conjunto arbitrario. Toda cobertura de X por meio
de abertos possui uma subcobertura enumeravel (Teorema de Lindelöl).
Com a notação do Exerc. 4, prove: a) Se A é compacto e B é fechado
então A + B é fechado; b) se A e B são compactos, então A + B e
A-B são compactos c) se A é fechado e B é compacto, A'B pode
;

não ser fechado.


Obtenha coberturas abertas de Q e de [0, +oo) que não admitam
subcoberturas ñnitas.
Considere as funçöes? g, h do Exerc. 7. Mostre que para K e L com-
pactos arbitrários, f (K), g(K), h(K), f"(L), g'1(L) e h”1(L) são com-
pactos.
As seguintes a?rmaçöes a respeito de um conjunto X c R são equi-
valentes: (1) X é limitado; (2) Todo subconjunto infinito de X possui
ponto de acumulação (que pode não pertencer a X ); (3) Toda seqiiência
de pontos de X possui uma subseqüência oonvergente.
Seja X c IR um conjunto compacto cujos pontos, com exceção de
a = inf X e b = sup X, são pontos_de acumulação à direita e à es-
querda. Então X = [a, b] ou X = {a, b}_
Se (K ¿),E L é uma família qualquer de compactos, cntão n K, é com-
pacto. Se K ¡ ,..., K" são compactos então K, u ._ u K" é compacto.
.

Se K é compacto e F é fechado, então K n F é compacto. W

Seja X C R. Uma função f: X -› [R diz-se não-decrescente no ponto


aeX quando existe ô >0 tal que a~ô < x 5 a 5 y < a + ó=Û
=›ƒ(x) $f(a) 5ƒ(y). (Bem entendido: x, yeX.) Mostre que se é f
não-decrescente em todos os pontos de um intervalo [a, b] então f é
não-decrescente em [a, b] (isto é, x, ye[a, b], x 5 y =›ƒ(x) 5f(y)).
Seja [a, b] c U A, onde cada A, é aberto. Mostre que é possivel de-
compor [a, b] em um número iinito de intervalos jtistapostos de modo
que cada um deles esteja contido em algum Al.
No exercicio anterior, mostre que os intervalos nos quais se decompôs
[a, b] podem ser tomados com o mesmo comprimento.
Topología da rate 1 51

(Teorema de Baire) Se F 1, F Z, F ,..., F" ,... são fechados com


3

interior vazio então S = F, u...uF"u...


tem interior vazio. (É
preciso mostrar que, dado arbitrariamente um intervalo aberto I,
existe algum x e I r\ (R- S). Imite a demonstração do Teor. 6, Cap. III,
onde se tem pontos em vez dos fechados F" _)
O conjunto R~Q dos números irracionais não pode ser expresso
como reunião enumeråvel de fechados. Analogamente, Q não
é in-
terseção de uma família enumerável de abertos.
›.
,.

Se [a, b] C U [a¡, b¡], então b-a 5 Z (b,-a,). Também [a, b] c


¡=l í=l
0° ua

c U [am bn] implica b-a 5 Z (b,,~a,,). Finalmente, resultados aná-


“ l
“ l

logos valem para (a, b) em vez de [a, b].


Seja X C R. Uma função f: X -› R chama-se localmente limitada
quando para cada xeX existe um intervalo aberto IX, contendo x.
tal quef|Ix rw X e limitada. Mostre que se X é compacto, toda função
f: X -› R localmente limitada é limitada
Dado X c: R não-compacto, de?na uma função f: X -› R que seja
localmente limitada mas não seja limitada.
Sejam C compacto, A aberto e C c A. Mostre que existe a > 0
tal
que xeC, |y-x| <s,=>yeA.
Dada uma seqüência' (x,,) seja X" = {x,,, xn +1 ,... } para todo ne N.
«>
Mostre que H X" é o conjunto dos valores de aderência de (xn).
n= 1

Uma familia de conjuntos (K ¿) E chama-se uma cadeia quando, para


à ,_

quaisquer Â, ;4eLtem-se K, c K" ou Ku c KÄ. Prove que se (K¿)¿E,_


é uma cadeia de compactos não-vazios então a interseção K = H K ¿
¿GL
é não-vazia (e compacta). N

Se X c R é não-enumerável, entåo X' também o é.


Para todo X c R, X -X' é enumerável.
Um número real a charna-se pomo de condensação de um conjunto
X <: IR quando todo intervalo de centro a eontêm uma
in?nídade
não-enumerável de pontos de X. Seja Fo o conjunto dos pontos de
condensação de um fechado F c R. Prove que F0 é um conjunto
pe?eito (isto é, fechado, sem pontos isolados) e que F-F0 é enume-
rável. Conclua dai o Teorema de Bendigcsonz todo fechado da
reta é
reunião de u'm conjunto perfeito com um conjunto enu*merável_
CAPÍTULO vr

LIMITES DE FUNGÓES

forma mais geral.


Retomaremos agora a noção de limite sob uma
funçöes reais
Em vez de seqüências, como no Cap. IV, consideraremos
f: X -› R, definidas em subconjuntos arbitrários X
c R.
variável encontradas
É bem verdade que a maioria das funçöes de uma
em reuniöes ?nitas de inter-
em Anâlise são deñnidas em intervalos ou
valos. Nossa justi?cativa, por ter considerado
maior generalidade, é dupla:
intimo e compensado por uma
em primeiro lugar, o esforço adicional é
o leitor deverá encontrar em seus
visão mais ampla; em segundo lugar,
de Lebesgue,
estudos posteriores (funçöes de varias variâveis, integral
de?nidas em dominios
cálculo das variaçöes, anàlise funcional, etc.) funçöes
Assim, bom que vá
muito mais complicados do que intervalos da reta.
é

ganhando mais experiència com situaçöes gerais. em utilizar


Neste capitulo, como em todo o livro, não hesitamos
exponenciais e logaritmicas.
exemplos envolvendo funçöes trigonométricas,
da linha axiomâtica que ti-
Assim procedendo, estamos nos afastando
?nais é que indi-
nhamos prometido seguir, pois somente nos capitulos
funçöes. Nossa
caremos como desenvolver rigorosamente a teoria d_essas
Cálculo e
atitude se baseia no fato de que nossos leitores já estudaram
Alem disso, tais exemi
portanto conhecem senos, co-senos e logaritmos.
plos, embora constituam um precioso instrumento
para ?xar a aprendi-
lógico dos assuntos aqui
zagem, não interferem jamais no encadcamento
expostos.

§1 Definição e propriedades do limite


R uma função com valores reais, definida num
subcon-
Seja ft X -›
junto X c: R. (Diz-se neste caso que uma função real de uma variável

de X, ¡sto é, a e X',
real.) Seja a e IR um ponto de acumulação
x :ende para a,
Diremos que o número real Lé o limite de j`(x) quando
e escreveremos

1191/'<x› = L.
Limites de funeöes 1 53

para significar o seguinte: para cada número real > O,


dado arbitraria-
1:

mente, podemos encontrar 6 > 0 de modo que se tenha


[f(x)~L] < s
sempre que xeX e 0 < |x_af < 6.
Portanto, quando a é ponto de acumulação do dominio de
f a ex-
pressão limf(x) = L é uma abreviatura para a aiìrmação abaixo:
XM
Vc>03ô>0; xeX, O<|x-u| <ö==›|f(x)~L| <s.
Note-se que 0 < |x~a| < 6 quer dizer que x pertence ao intervalo
(a-6. a + 6) e é diferente de a. Assim, Iimf(x) = L signiiica que, para
todo intervalo aberto (L~s, L + c), existe um intervalo aberto
(a~ 6. a + 5)
tal que. pondo-se Va = (X ~ {a})r\ (a~ô, u + J), vale ftlg) c
(L~s, L + zx).
Observe que V', = {xe X; 0 < Ix-a| < ö}. Uma notação mais com-
pleta (e bem mais “carregada”) seria Vx(a; 6).
Em linguagem mais simples: e possivel tornar /`(x) arbitrariamente
próximo de L, desde que se tome xeX suficientemente próximo
de a
(e diferente de a!)_

Observaçöes.
1. De acordo_ com a deiinição dada, só tem sentido escrever
lim f(x) = L
X"|1
quando a é ponto de acumulação de dominio X da função f Se qui-
séssemos considerar a mesma de?nição no caso em que a¢
X' então todo
número real L seria limite de f(x) quando x tende para al Com efeito,
sendo a¢X', existe 6 > 0, tal que If, = (X¬{a})n(a-ô, .a
(isto é, 0 < |x~a| < ô, x eX, não se veri?ca para x
+ 5) = ø
algum). Então, dado
qualquere > 0, escolheriamos este 6. Seria sempre verdade que = f(l{ì) <: ø
<: (L~ s, L+ 5), seja qual fosse L. Logo teriamos
L = 1imƒ(x).
XM
2. Ao considerarmos o limite lim
1-11
f (x), não exigimos que a pertença ao
dominio da função ¡Í Nos casos mais interessantes de limite, tem-se
a ¢ X.
3. Mesmo que se tenha aeX, a a?rmação lim f(x) = L nada diz a res-
pu
peito do valor f(a). Ela descreve apenas o comportamento
dos valores
f(x) para x próximo de a, com x aé a. Explicitamente, é possivel ter-se
1imf(x) a? ƒ (a). Veja o Exemplo 4 adiante, ou então considere f: R
-› IR
onde f(x) = para todo x 9€0 ef(0) = O. E imediato que lim f(x)
1
= 1.
x-*O
4. Quando nos referimos à função L ?ca implícito que ela tem um dominio
bem especi?cado, a saber: o conjunto X. Em Outras palavras,
dar f
1 54 Curso de anålìse

implica em dar X. Assim, ao escrevermos lim (x) = L, está, subentendido f


que x varia em X. Ás vezes, entretanto, pode haver perigo de ambigüidade.
Nestes casos, poderemos usar a notação pleonástica lim (x) = L.
x-HI. .rex
f
5. Se limf(x) = L então o ponto L é aderente ao conjunto f(X- {a}),
pois cada intervalo aberto de centro Lcontém pontos deste conjunto.
Mais ainda (e pelo mesmo motivo): para cadaô > 0,pondo K, = (X - {a}) n
n [a-ô, a + ô), temos Le
Os teoremas abaixo estabelecem as principais propriedades do li-
mite de uma função. `

TEOREMA 1 (Unicidade do limite). Sejam X c R, f: X -› IR, aeX'. Se


limf(x) = L1 e 1imƒ(x) = L2, então
L,_L,.
Demonstração. Dado qualquer s > 0, existem ôl > 0 e 62 > 0, tais que
para xeX, 0 < |x-a| < ôl =>]f(x)-L¡| < s/2 e 0 <
< |x-a| < 52 =› |f(x)-LI] < a/2. Seja ô = min {ô¡, ö2}. Como aeX',
podemos obter ›ïeX, ta1que0 < |X›a| < ô.Então|L,-Lzl 5 |L¡~f(ñ| +
+ |f(ñ-L2| < %+ %=a. Isto nos dá ll.,-L2| < a para todo s > 0,
logo L1 = L2.

TEOREMA 2. Sejam X C lR,f: X -› IR, a e X'. Dado YC X tal que ae Y',


ponhamos g =f| Y. Se limf(x) = L. então lim g(x) = L. Se

Y = I n X onde I é um intervalo aberto contendo a, então lim g(x) = L=›


=› lim f (x) = L.
Demonstração. Evidente.

Observação. A primeira parte do Teor. 2 é análoga à afirmação de que


toda subseqüência de uma seqüência convergente é ainda
convergente e possui o mesmo limite. A segunda parte añrrna que a exis-
tência e o valor de limƒ(x) dependem apenas do comportamento de
X"G
f
numa vìzinhança de a.

TEOREMA 3. Sejam X c [R,f: X -› IR, aeX'. Se existe lim f(x) então f


é limitada numa vìzinhança de a, isto é, existem A > 0, ô > 0
mis que 0 < |x-al < ô, xeX==›|f(x)| < A.
Limites de funçöes 1 55

Demonstração. Seja L= f
lim (x). Tomando s = na deñnição de limite,
H., 1

obtemosô >0talquexeX,0 < |x-a| < ô=›|f(x)-L| <


< 1=>|f(x)|<|L|+1. Tomemos este 6 e ponhamos A =|L|+1.

TEOREMA 4. Sejam <: R), g, h: X -› R, a6X'. Se. para todo xeX,


X
x /br f(x) 5 g(x) 5 h(x) e, além disso, tivermos
aé a,
lim f(x) = lim h(x) = L, enzão lim g(x) = L.

Demanstração. Dado s > 0 arbitrariamente, existem 51 > 0 e 52 > O tais


que, para xeX, 0 < |x~a| < 61 =>L-.e <f(x) < L+ c e
0 < |x-a| < 62 =>L-a < h(x) < L+ Seja ô = min {ö¡ ô2}. Então, 11.
,

xe X, 0 < |x~a| < ô = L-c <f(x) 5 g(x) 5 h(x) < L+s, donde
lim g(x) = L.
x-,.

TEOREMA 5. Sejam X <: R, aeX'. /Q g: X-› IR. Se limf(x) = Le


lim g(x) = M com L < M então existe 6 > 0 tal que xe X,
0 < |x›a| < ô=>f(x)< g(x).

Dumonstração. Seja

6 >0
c = †
M -L

tal que
>
xeX,
0. Então
0 <
L + c =
|x~a| <ö=f(x)e(L-za, L+s)
T
L + M
= M-s.
,
EXISÍG

e y(x)@(M-6, M + g), donde fm < Äï


L M
< g(x).

COROLÁRIO 1. Se limf(x) = L > 0 enrão existe 5 > O tal que xeX,


0 < |x~a| < ö=>/(x) > O.

COROLÁRIO 2. Se f(x) 5 g(x) para todo x G X, x 9€u e 1imf(x) = L,


lim g(x) = M então L 5 M. L

TEOREMA 6. Sejam X <: R,f: X ~› IR, aeX'. Para que limf(x) = L, é

ñecessário e suficiente que se tenha lim f(x") = L para toda


sn¡üência de pontos xn e X- {a}, tal que lim xn = a.
Demnnstração. Suponhamos que lim ƒ (x) = L e que lim xn = a, com
x,,eX~{a}.Dadoe>0,existeå>0talque0<|x-a|<ô,
xeX=>|f(x)-L|<a. Existe também n0eN tal que n>n0=>
1 56 Curso de análise

=>0 < |xn-a| < ô. Segue-se que n > no =>|ƒ(x,,)-L] < €,d0¡ìdC1i\'¡1f(x,,)=L-
Para demonstrar a recíproca, suponhamos que não se tenha lim ƒ (x) = L.
X-.1
Então existe s > 0 ml que para todo n e N podemos obter xn e X com
0 < ¦x,,-a| <% e|_/(x")AL|2 e.Entãoxn-›a,masnãosetem1imf(x,,)= L.
,ww

coRoLAR1o l. Para que exista limf(x) é necessário que exista lim _/'(xn)

e independa da seqüência de números x,|eX-{a} com


lim xn = a.
f.-we

COROLÁRIO 2. Para que exista iimftx) é su?ciente que exista 1imf(x")


X-»n

para toda seqüência de números xne X- {a} tal que ,ww


lim

xn = a.
Com efeito, se tal limite existe para toda seqüência dessa natureza,
então 1imf(x") não dependerá de seqüência (xn), pois se fosse 1imf(x") = L
e limf(y,,) = M, com xn, y,,eX-{a}, lim xn = a, 1imy,,= zz e L sé M,
formaríamos a seqüência (zn) com zu = xk, z¡,¢_, = yk e teríamos zn e X -
- {a}, z" -› a mas (f(Z,.)) não convergiria.

TEOREMA 7. SejamX C |R,dGX,€?gÍX-› |R.Se lir_nf(x) = Le g(x) =

= M, então1iìn|:f(x) ± g(x)] = L ; Iii/I e liín [f(x)-g(x)] =

= L- M. Se M sé 0 então lìšn 'Ef(x)/g(x)] = L/M. Se lim :'(§c) = 0 e existe

uma constante A tal qm' Í !1Í;c) ¡S A para todo xex-{a};1¢ã01ü1: [f(x)-g(x)] =


= O, mesmo que não exista g(x). X

Demorzszração. Usar as propriedades análogas, demonstradas no Cap. IV


para limites de seqüêncizrs, e aplicar o Teor. 6. Note que,
para o limite do quociente, deve-se empregar o Teor. 5 a ?m de saber que
f(x)/g(x) tem sentido para todo x suficientemente próximo (e diferente)
de a. Como exemplo, vejamos o limite do produto. Para toda seqüência
de pontos xn e X- {a} com lim x,, = a, temos lim [f(x,,) g(xn)] = ~

= lim f(xn)~lim g(x") = L- M. Logo lim [ƒ(x)-g(x)] = L- M.


x-H
Obsvruação. Como no caso de seqüências, observamos que, se lim g(x) = O,
XANI

~
entao 0
_

R
quociente f(X) so pode ter limite (quando x -›
, _

uj se
Limites de funçães 1 57

for também limf(x) = 0, poisf(x) = g(x) Caso se tenha lim g(x) =


x-rn g X x-a
= O mas não valha lim f(x) = 0, o quociente f(x)/g(x) não pode sequer
X-›«
ser limitado na vizinhança de a.

TEOREMA (Critéria de Cauchy para ƒmçöes). Sejam X C R, aeX' e


8

fc X -› R. Para que exista


lim j'(x) é necessario e su?cíente que, dada arbitrariamente e > O, se passa
wi.
obtur 6 > O, tal que x, yeX, 0 < ¦x~a| < 5, 0 < Iy-a| < 6 impliquem
|f(X)'f(y)| <$-
Demonstração. Se existe lim f(x) = L, então, dado e > O, podemos obter
5 > O, tal que x, yeX, 0 < lx~_a| < 6. O < |y~a| <

< => Iftx)-LI < 8/2, |f(y)^L| < C/2=> |f(X)^f(.V)| S |f(X)-LI +
<5

+ f(y)¬ L| < 2. Reciprocamente, se esta condição é satisfeita, então,


dada uma seqüência arbitrária de números reais xn e X - {a} com lim x" =
= u. a seqüência (f(xn)) é de Cauchy. [Com efeito, dado a > 0, tomamos
ã > 0 fornecido pela condição admitida. Existe então 110 e N tal que m,
n > Ilo :O < |x,,,~a| < ô e 0 < |x,,-u| < ô e, portanto, |f(xm)~f(x,,)| <
< eg] Logo (f(X,,)) é convergente. Pelo Cor. 2 do Teor. 6, existe lim f(x).
Vejamos agora o que ocorre com o limite de uma função composta.
A situação que temos em mente é a seguinte: X, Yf: R, f: X -› R,
g: Y~› R, aeX', be Y', limf(x) = b e limg(y) = c.
x>*a y¬b
Para que tenha sentido falar em g(f(x)), x e X, supomos que/`(X) c Y.
Gostariamos de poder concluir, nestas condiçöes_ que

ìifì ø(f(><)) = C.

Com efeito, a é ponto de acumulação do dominio da função gofz X -›


-› R. Logo, tem sentido considerar lim g(f(x)). Alem disso, como g(y)
ha
tende para r quando y tende para b, é plausível imaginar que isto ocorre,
f
em particular, para y da forma y = (x). Há, entretanto, uma di?culdadez
para que g(y) se aproxime de c e neeessário que y ?que próximo de b, mas
sempre seja y ,+ b! E nada garante que f(x) aé b.
Vejamos um exemplo simples: f: R ~› R é a função identicamente
nula, g: R -› R é de?nida por g(x) = se x 1+ 0, g(0) =_0. Então lin;i)f(x) =
1

= o, img gm = 1, mas linå g(f(x)) = 0 te não 1).


›-- ›f¬
1 58 Curso de análise

Pode ocorrer ainda que, quando x -› a, ƒ (x) assuma in?nitas vezes


o valor b para valores de x diferentes, Ncslc caso. se y¬b
lim g(y) for diferente
de g(b), então não existirá lim gi f(x)) emhora existam 1imf(x) = b e
X¬. x~›a
lim g(_v) = c.
r¬1='
Por exemplo, sejam f: R » IR e g: R -› [R de?nidas assim: f(x) = 0
se x é irracional, ef(x) = x se x é racional; g(y) = 0 se y sé O e g(0) = 1.
Então limf(x) = 0 e lim g(y) = 0, mas não existe lim g(f(x)), pois, se x é
X-o y-n X-n
racional e diferente de zero, temos g(f(x)) = 0 enquanto x si 0 irracional
dá (1(f(X)) = 1-
Exposta a di?culdade, a solução é simples. Basta impor que lir§1g(y) =
,_
= g(b). Temos 0

TEOREMA 9. Sejam X, Yc IR,-f: X -› R, g: Y-› R com /(X) <: Y. Sejam


a€X' e be Y' r\ Y. Se
X-»U
limf(x) = b e lirrli g(y) =

c tem-se

lim g(f(x)) = c, desde que seja c = g(b).

Demonstração. Dado existe r| > 0 tal que ye Y, ly-b| < 11 =>


a > 0,
=› |g(y)-c| <
(Não requeremos que seja y sé b, porque
e.
g(b) = c fornece automaticamente |g(b)~c| < e.) A partir de r¡_ obtemos
ã >0 tal que xeX, 0 < lx-a| < ö:|f(x)~b|<r1. Então, xeX, 0<
< [x¬a| < ô ==› lg(f(x))-c] < c, 0 que dá o resultado procurado.

§2 Exemplos de limites
l. Seja f: IR --› [R a aplicação identidade, isto é. f(x) = x para todo
xellì. Então é evidente que limf(x) = a para qualquer ae IR. O
X-›.1

Teor. 7 nos dá lim [f(x) -f(x)] = az, ou seja_ lim xl = az. O mesmo teo-
»¬.= H.,
rema, aplicado n~l vezes, nos fornece lim x" = a", para todo ne N. Se-
XŸ
gue-se dai (com auxilio das outras partes do teorema) que, para todo
polinômio p(x) = aox" + a¡x"'1 + + a,,_1x + an, tem-se lim p(x) =
XM
= p(a). seja qual for aelR. Também para toda função racional f (x) =
= %»
q x
quociente de dois polinômios, tem-se lim f(x) = (a), desde que
›<¬.
f o

denominador não se anule no ponto a, isto é. q(a) sé 0. Quando q(a) ;_0,


Linnm de ama” 1 59

então o polinômio q(x) é divisivel por (x-a). Escrevamos então q(x) =


= (x-a)"'q,(x), onde q,(a) aé 0 e m e N. Ponhamos também p(x) =
-
= lx a)" p¡(x), com D|(?) ab 0. Se for m = n, então lim f(x)= p¡(a)/q,(a),
-

porquef(x) = p¡(x)/q¡(x) para todo x ak a. Se for n > m, então lim f(x) = 0,

f
pois (x) = (x- a)""" [p¡(x)/q,(x)] para todo x 96 0. Finalmente, se n < m,
~

f f
então lim (x) não existe, pois (x) = p¡(x)/[(x-a)"""~q¡(x)], onde o de-
nominador tem limite zero e o numerador não; (Veja a observação seguinte
ao Teor. 7.)

2. Sejamf: R-{0} -›
f(x) = 2,
.

g(x) = 2
IR,
¡_
gr lR~{1}

x-1 e h(x) = x Tem-sef(x) = c para todo


x
x¢0eg(x)=x+1para todox¢1.Logolinåf(x)=ceI'ung(x)=2.
-› [R e h: IR-{0} -› IR dadas por

(Note-se que f(0) e g(1) não estão definidos.) Por outro lado, não existe
linš h(x), pois h é o quociente de duas funçöes, das quais o denominador
tem limite zero e o numerador tem limite 1. (Veja a observação em se-
guida ao Teor. 7.)

3. Seja f: R -› IR definida por f(x) = 0 se x é racional ef(x) = se 1

x é irracional. Qualquer que seja aeR, não existe lim (x), em f


virtude do Teor. 6: fazendo xn tender para a por valores racionais teremos
f(x,,) = 0, logo f(x,,)-›0. Mas fazendo xn -›a, por valores irracionais
teremos ƒ(x,,) = 1. Se pusermos g(x) = (x-a) (x), teremos lim g(x) = 0. f
4. Seja f 2 Q -› IR de?nida por ƒ - q
=
1

11
se p/q é uma fração irre-
dutivel com q > 0, e f(0) = 1. Para todo número real a, temos
aeü', logo tem sentido falar em lim (x). Añrmamos que este limite 6
X-¬.
f
zero, seja qual for ae IR. Devemos então provar o seguinte: ?xado ae [R
e dado s >0, podemos aehar 6 > O tal que 0 < < %-al < ô=›q > %--

Ora, o conjunto F = {qeN; rs


1/al é finito. Para cada qeF li-
xado, as fraçöes m/q, m e Z, decompöem a reta em intervalos justapostos
de comprimento 1/q. Seja m,,eZ o maior inteiro tal que me/q < a. Como
F é ñnito_ existe m/q', a maior das fraçöes m.,/q, para todo qeF. Assim,
m/q' é a maior fração que tem denominador em F e é menor do que a. Ana-
1 60 Curso de anålise

_ .

logamente. existe
_

7› a
H
menor fraçao com denominador em F, tal que
¿I
_ _

Salvo possivelmente a, nenhum numero racional do intervalo


V

†-
Il _

a <
11

7ll .
VII
†¬ pode ter denominador em F. Assim, se escrevermos
.
5 = mm
¿I ll

a~ï›`%-a › veremos que 0 < L-a < ö=> q¢F±.›q > L› como
ll 5
¿I 41

queriamos provar.
5. Seja f: IR-{0} -› R de?nida por f(x) = x + (Isto significa:

f(x) = x +1 se x > 0 e f(x) = x~1 se x < 0.)Então1iìn)ƒ(x)

não existe pois lim = 1 e lim


n-
j'(†L)
n
= ~l.
n-*eo VI 1

6. Um dos exemplos mais populares de uma função sem limite é dado


por f: IR~ {0} -› (R, onde f(x) = sen(1/x). Tomando-se xn = L,
|17`l
~1
temos xn -› 0 e lim f(xn) = O. Por outro lado, para xn = Znn + ã- ,

vale xn -› 0 limf(xn) = 1. Na realidade, para todo número ce [-1, + l],


e
podemos obter uma seqüência de pontos xn vé 0, com xn -› 0 e f(xn) = c
pura todo n. Basta tomar um número b tal que sen b = c e por x" =
= (b + 2nn)` *_ Assim não existe lim) sen(1/x). Mas esta função é limitada.
1

Logo vale lim] g(x) sen ~


= 0 para toda função g: [RA {0} ~› IR tal que
ݢ x
lim g(x) = 0. Em particular, para todo n e N, temos lim x" sen (1/x) = 0. ^

x<4ì x*0

§3 Limites Iaterais
Sejam X <: [RZ,f: X -› R e aeX'+. Lembramos que a notação XQ,
representa o conjunto dos pontos de acumulação à direita de X. Tem-se
ae XQ se, e somente se, para todo ô > 0 vale X r\(a, a + 5) aë ø. Por
excmplo, 0 é ponto de acumulação à direita de [0, l].
Consideremos portanto, a, ponto de acumulação à direita do dominio
da função f: X -› R.
Diremos que o número real L e o limite à direita de f(x) quando x
tende para a, e escreveremos
lim _ƒ'(x) = L,
Limites de funoöes 1 61

quando, para todo s > Odado, for possivel obterö > 0talque|f(x)~L[ < a
sempre que xeX e 0 < x~a < 6.
Assim, lim f(x) = L é uma abreviatura para a seguinte a?rmação:
X*A1+ e

Vc>03ö>0; xeX, 0<x~a<ô=>\f(x)~L| <s.


Ou seja. tem-se lim f(x) = L se, e somente se, para todo s > 0 dado,
X'*u+
existe ô > 0 tal que xe(a, a + ô) ri X =f(x)e(L~n, L+ 2).
De modo análogo se de?ne o límite à esquerda. Se u é um ponto de
acumulação à esquerda (ae XL) do dominio da função f: X -› R, diremos
que o limite à esquerda de f(x), quando x tende para a, é o número L.. e
CSCFCVÉFCITIOS

X nm _/<›<› = L,

a todo s > 0 dudo, pode-se fazer corresponder um


para exprimir que
5> 0talquexeX,0 < a~x < ö=> |j`(x)--L1 < c,ouseja,xeXr\(a--ö,u)=>
=f(x)e(L~u, L + 12).
A demonstração do teorema abaixo e imediata.

TEOREMA 10. Sejam X C [R. f: X -› R, aeXQ, . Ponhamos Y= X n


n (a, + 00) e g =_/ K Entãa lim _/`(x) = L se, e somente
X-'A¡+
se, lim g(x) = L. Um resultado análogo vale para 0 limite à esquerda.

Portanto 0 limite à direita (bem como o limite à esquerda) recai no


límite ordinário de uma restriçâo de f
Uma conseqüêricia direta do Teor. 10 é que valem para os limites late-
rais (à direita e à esquerda) os resultados expressos pelos Teors. 1 a 9, com
as devidas adaptaçöes. Essas adaptaçöes consistem simplesmente em subs-
tituir nos enunciados, (a~ô, a + 5) por (a, a + 15) e 1x~a| por x~a no
caso de limite à direita. Nos limites à esquerda. tomar (a -~ó, a) em vez
de (a~ô, a + 6) e a~x em vez de lx-a|.

TEOREMA11.Seja X c IR, f: X -› IR e aeX; rw X'_. Então existe


limf(x) = L se, e somente se. existem B são iguais os
XM
limites lateraix lim f(x) = lim f(x) = L..
x¬11+ X¬a†

Demonsrração. Se existe o limite ordinário, existem os laterais e coincidem


com 0 primeiro, em virtude dos Teors. 2 e 10. Recipro-
camente, se lim f(x) = lim f(x) = Lcntão, dado c > 0. existem ô, > 0
X-*|x+ xe?lf
1 62 Curso de análise

eöz >0taisquexeXr\(a,a + ô¡)=› |f(x)~L] <sexeXn(a-ô2,a)=>


=› |f(x)-L| < a. Seja 6 = min {ö,_ ô2}. Então xe(X-{a}) n(a-ô,
a + ô)=›1j`(x)-L] < s. Logo limfix) = L.

EXEMPLOS.

7. Para a função f: IR- {0} -› IR, de?nida por (x) = x + f íT› temos os li-V

mites laterais liigi


x4 +
f (x) = 1 e lirãi
X-' -
f (x) = -1, pois f coincide com x + 1

em (0, + oo) e com x-1 em (-oo, O). Já a função g: IR-{0} -› IR, g(x) = %
não possui limite lateral à esquerda nem à direita no ponto 0.

8. Seja f: IR -› R dc?nida por ƒ(x) = e*/X. Então lim ƒ(x) = 0 mas


x-'0+
lim f(x) não existe porque /'(x) não é limitada para x negativo perto
w-'O -
de zero.
Uma função j": chama-se crescente quando
X -› R (onde X c R)
x, yeX, x < y=>f(x) <ƒ(_v). Se x < (com x, yeX) implica apenas y
f (x) 5 f (y), f chama-se não-decrescente.
De modo análogo se de?ne função
deurvscente e função não-crescente. Uma função de qualquer destes tipos
chama-se monótona.
O resultado abaixo é 0 fato mais importante a respeito de limites
laterais.

TEOREMA 12. Sejam X c [R,f: X -› IR uma função monótona limitada,


aeX; e beX'_. Existem os límites laterais

L= lim f(x) e 'M = lim f(x).


-
x*a+ x¬I\

Demonxtração. Para ?xar as idéias, suponhamos f não-decrescente. Seja


L = inf {f(x); xe X, x > a}. Añrmamos que L = lim f(x).
X-'D+
Com efeito, dado s > 0 arbitrariamente, L+e não é cota inferior do
conjunto {f(x); xeX, x > a}. Logo existe ô > O tal que a + 5 eX e
L5f(a + 6) < L+e.Comofénão-decrescente,sexeXea < x <a +6
então L 5 f(x) < L + e, o que prova a añrmação feita. Pondo M =
= sup {f(x); xeX, x < b}, verilicaríamos de modo análogo que M =
= lir;n f(x).

Ohxervaçöes. 1. Uma seqüência monótona limitada é sempre convergente,


enquanto que pode não existir o limite ordinârio de uma
Limites de funçöiis 1 63

função monótona limitada. Veja f(x) = x + %


x
no ponto 0. A expli-

cação é que o limite de uma seqüência é sempre um limite lateral (à esquerda,


pois tem-se n -› oo com n < oo).
EX então é desnecessàrio supor limitada; se fé não-decres~
2. Se a f
cente, por exemplo, então f (a) e uma cota inferior para {f(x); x > a}
e uma cota superior para {f(x); x < a}.

§4 Limites no infinito, limites infinitos,


expressöes indeterminadas
Seja X c ER ilimitado superiormente. Dada f: X -› IR, escreve-se
lim
x~' +03
f (x) = L,

quando o número real L satisíaz à seguinte condição:


Va >03A >0; xeX, x > A=>|f(x)-Li < c.

Ou seja, dado arbitrariamente e > 0, pode-se encontrar A > 0 tal que


|f(x)-L| < e sempre que x > A.
De maneira análoga de?ne-se lim ƒ (x) = L, quando o dominio de
x~ › w
fé ilimitado inferiormente: para todo > 0 deve existir A > 0 tal que .iz

x < ~A =› [f(x)-L| < s.


Valem os resultados já demonstrados para o limite quando x ¬›a.
ae|R, com as adaptaçöes evidentes.
Os limites para x -› +00 c x -› -oo são, de certo modo. limites la-
terais (o primciro é um limite à esquerda e o segundo à direita). Logo
vale o resultado do Teor. 12: se f: X -› IR é monótona limitada então
existe lim f(x) (se o dominio X for ilimitado superiormente) e existe
X" ®

lim ƒ (x) se o dominio de ƒ for ilimitado inferiormente.


X- _ un

O limite de uma seqüência é um caso particular de limite no inlìnito:


trata-se de lim f(x), onde ƒ: N -› R é uma função deñnida no conjunto
X* + no

N dos números naturais.

EXEMPLO 9. lim
›<~+@x
L = X-.-mx
lim L = 0. Por outro lado, não existe lim sen x
X-+=»
nem lim sen x. Vale lim e* = 0 mas não existe lim e“,
X-' _ D X* _ lv X* di
1 64 Curso de análise

de seqüências, in¡
no sentido da deñnição acima Como ?zemos no caso
estas.
troduziremos “limites in?nitos” para engiobax situaçöes como
Em primeiro lugar, sejam X C X ~› R. Diremos que
IR, aeX', f:
lim /`(x) = +00 quando, para todo A > 0 dado, existe ã > 0 tal que
»¬.
o<1><¬1\<¿. xeX=>f(x)>A.
Por exemplo, lim
1
= + oo, pois, dado A > 0, tomamos ô =
X-'H x~a
=1/`/ì.Emä<› o< [X-a1 <ö=>0<(x›a)1 <1/A¢§ä> A.
De modo semelhante, deñniremos lim f(x) = ~oo. Isto significa
que,

para todo

Por exemplo, lim


X¬.
-1
(x _ Q)
¿
A > 0, existe 5 > 0 tai que xeX, 0 < |x-ai < ô =>j'(x)

= ~oo.
Evidentemente. as de?niçöes de X-H|+
V
< ~A.

lim f(x) = +oo, lim f(x) = + oo,


x*1l'
são deixzidas a cargo do ieitor.
etc. não apresentam maiores di?culdades e
Também omitiremos as de?niçöes de lim f(x) = +oo, lim ƒ(x) = +o0,
x-* + r~ X* * 00

etc, Por exemplo,

.
lim
X^*n+

lim
4-›
xfa
ex
1
= +oo, X-*l1~

= +oo,
lim
_

lim x" = +00


-1

X^?
=-oo,

(keN).
X-' w X-*+?.)
reais,
Deve-se observar enfaticamente que + oo e ~c›o não são números
= + oo e 1imf(x) = -oo não expri-
de modo que as a?rmaçöes iimf(x)
X-.1 wn
mem limites no sentido estrito do termo. Examinaremos agora, de
modo
sucinto, as modiñcaçöes que devem sofrcr os teoremas acima demons-
trados para que continuem válidos no caso de limite infinito:
1. Unicidade do limite. É claro que se lirn?x) = + oo então não se pode

ter lirnf(x) = L, Le IR, pois f será ilimitada numa vizinhança de a.

Tamprïuêo pode-se ter lim/`(x) = ~oo pois ƒ serà positiva numa


vizi-

nhança de a. ha
2. Se i(in:i¡ƒ(x) = + oo, então, para todo Y: X com ae Y', pondo-se g =f| K
ainda g(x) = +oo. Se Y= X n(a-ô, a + 6) então liïn g(x) = +00 ==›

=>i(i_m¡f(x)=+oo. X A
Limites de funçñes 1 65

3. Evidentemente, se lim f(x) = +oo, então


x~›a
f não e limitada em vizi-

nhança alguma de a. i

4. Se f(x) g g(x) para todo xeX e limf(x) = + oo então lim g(x) = +oo.

5. Se limf(x) = L, Lellê e lim g(x) = + oo, então existe 5 > O tal que
ha X-W

xeX, < |x~a| < 5 =>f(x) < g(x).


0
6. Para que se tenha limf(x) = +00 é necessário e suficiente que seja
lim f(x") = +oo sempre que xneX~{a} e lim xn = u.

7. Os enunciados sobre lim (f+ g), lim (f-g) e lim são análogos
9
aos do Teor. 14, Cap. IV, sobre limites in?nitos de seqüências.
8. Não ha nada semelhante ao criterio de Cauchy para limites infinitos.
9. Se lim f(x) = + oo e lim g(y) = L (ou lim g(y) = + oo) então

95 g<f<x›› = L tw ¿ig g<f<›<›› = + «›<››.


10.Quando admitimos limites in?nitos então existem sempre os limites
laterais de uma função monótona f: X -› IR em todos os pontos ae X'.
(Ou mesmo quando x -+ ± oa.) Tem-se lim f(x] = L, LGIR se, e somente
xeH¡+

se, para algum rï > 0, fé limitada no conjunto X rw (a, a + 5). No caso


f
contràrio (isto é. se é ilimitada digamos superiormente - em X rw -
n ta. u + 5) para todo 5 > O) então lim ƒ'(x) = 4-oo. x*a+
Diremos agora algumas palavras sobre “expressòes indeterminadas”.
0 ,
.
Costuma-se dizer que as expressoes
_
K- oo~oo_ 0 >< oo, É, 00, oo”, F” sao
indeterminadas. Que signi?ca isto?
0 . _ _
Vejamos, por exemplo, ï)-- Evidentemente esta expressao nao tem
_

sentido aritmetico pois a divisão por zero não está de?nida. Dizer que
Fe indetermmada tem o seguinte significado preciso:
Sejam X c R, L g: X -› IR, asX'. Suponhamos que lim f(x) =
X-r
= limg(x) = 0 e que, pondo Y= {xeX; g(x) ¢ 0}, se tenha ainda ae Y'. Então
X-›«

É
909)
está definida no conjunto
_
Y, e
,
faz sentido indagar se existe lim
W øtx) _
, x

Pois bem; nada se pode dizer, em geral, sobre este limite. Dependendo
das funçöes f, g, ele pode assumir qualquer valor real ou não existir. Por
1 66 Curso de anátise

exemplo, dado qualquer ce (R, tomando f(x) = cx e g(x) = x, temos


l(i_rn)f(x) = g(x) É 0. enquanto lilílå = c.

1
Por outro lado, se tomarmos f(x) = x*sen Y» (x aé 0) e g(x) = x,

teremos limf(x) = lim g(x) = mas não existe lim 0.


wo x~0 1-o g(x)
Pelo mesmo motivo. oo~oo e indeterminado. Isto quer dizer: podemos
achar funçöes? g: X -› R, tais que lim f(x) = lim g(x) = + oo, enquzmto
lim [/`(x)›g(x)], dependendo das nossas escolhas para f e g. pode ter
um valor arbitrário c e [R ou pode não existir. Por exemplo. se? g: R - {a} ~
¬› [R são dadas por f(x) = c + -† 1

(X¬<1)_
e g(x) = --3›1

(X-al
então limf(x) =
M-

É

= lim g(x) = +
1444
oo e lim
x-fu
[f(x) -g(x)] = c. Analogamente, se f (x) =

= sençåz + É; e g(x) = não existe [f(x)-g(x)].


Mais um exemplo: dado qualquer número real c > 0 podemos achar
funçöes? g: X -› IR. com aeX' e limf(x) = lim g(x) = 0.f(x) > 0 para
todo enquanto lim f(x)”"'* = ?
g
x e X. L-_ Basta. por exemplo, definir g:
1-›?

(O, + oo) -› IR pondo f(x) = x, g(x) = Neste caso, vale /`(x)”“' = e


OgX
para todo x a? 0. (Tome loga?tmos de ambos os membros.) Portanto
li_rn)f(x)"““* = c. Ainda neste caso. podemos escolher fe g de modo que

it) limite de _f(x)*“*' não exista. Basta tomar, digamos.ƒ(x) = x e g(x) =


= log (I + [sen % (|ogx)". Então _/`(x)"*'“' = l + senI e. por-

tanto, não existe _{'(x)"“'.

Estes exemplos devem bastar para que se entenda 0 signiñcado da


expressão “expressão indeterminada”. O instrumento mais eñcaz para o
cálculo do limite de expressöes indeterminadas é a chamada “Regra de
L'l-lôpital", que é objeto de in?ndáveis exercícios nos cursos de Cálculo.
Encerraremos estas consideraçöes lembrando que os limites mais
interessantes da Anålise não podem ser calculados diretamente a partir
de teoremas gerais do tipo do Teor. 7, ¡sto é, provêm de expressöes inde-
.
terminadas. Por exemplo, e
.
= lun (1 +
~¬?
-)
n
1 "
se
_ _

origina de uma indeter- .


Limites de funeães 167

minação do tipo l°°. Outro exemplo: a derivada f'(u) = lim

vem de uma mdetermmaçao do tipo


_ ~ _

í-
0
x-'a

/`(X)
X'LI
el `(<1)

§5 Valores de aderência de uma função;


lim sup e lim inf
Em todo este parágrafo, salvo menção em contrário, consideraremos
um subconjunto X r: R, uma funçåo _/`: X -› [R e um ponto de acumu-
lação a e X '_
Para todo 5 > 0, indicaremos com a notação V,, o conjunto
{xeX; 0<ix~a| <ö} =(X-{a})n(a-6. a-l-6).
f
Diremos que é limitada numa vizínhança de a quando existir algum
ô > tal que f| Vi, seja limitada. (Ou seja, tem-se [f(x)|$ k para todo
0,
xe Vå, onde ke[R é uma constante conveniente.)
Um número real c chama-se um valor de aderência def no ponto a
quando existe uma seqüência de pontos xneX-{a} tal que lim xn = a
,wm
e lim f(x") = cx

O Teor. 6 assegura que se limf(x) = L então L é 0 único valor de


X-.l
f
aderência de no ponto a. Mostraremos que a recíproca é verdadeira
quando fe limitada numa vizinhança de a. Sem esta hipótese de limitação,
pode ocorrer que Le [R seja o único valor de aderência defno ponto a
sem que valha L =1imf(x). Por exemplo, seja f: [R -› R de?nida por
X-n

f(x) = l se x é racional
_

ef(x) = -
X
1
sc x é
_ _

irracional. Então 1
, ,
e o unico
_

valor de aderência de fno ponto 0 mas não existe limf(›c)_


x*-'O

TEOREMA 13. Um número real c é valor de aderência de no ponto a se, f


e somente se, para todo ô > 0 tem-se c ef(V¿).

Demonstração. Se c é valor de aderência de no ponto a, então = f L'

= lim f(xn), x,,eX-~{a}, xn -›a_ Dado qualquer ô > 0,


.--›w
existe no e N, tal que n > no =› xn e V,,. Ora, tem-se c = lim f(x")_ Logo
,,>»f,
1 68 Curso de análise

c élimite de uma seqüência de pontos pertencentes a


Reciprocamente, se ce@
c

para todo 6 > 0, então c ef(V1¡,,) para todo


f(V,,äé, E
ne N. Assim, para todo neN existe xne VW tal que |f(x")-c| < l/n.
Segue-se que x,,eX~{a}, lim xn = a e limf(xn) = c. Logo c é um valor
de aderência def no ponto a.
Indiquemos com VA(f; a) o conjunto dos valores de aderência def
no ponto a. O corolário abaixo é, na realidade, uma forma equivalente
de enunciar o Teor. 13.

COROLÁRIO 1. vA<f; a) = (10 J@


COROLÁRIO 2. VA(f; a) = ñ f(I{1/H).
|l=l

ce@
para cada ô > 0, então, em particular,
cm, Com efeito, se
para cada ne N. Logo vale a inclusão VA(f; a) <: r\ƒ'(V¡¡n).
Reciprocamente, se cej'(V¡/W), para cada ne N, entïado?itraria-
me@ > 0, achamos n, tal que l/n < 6. Então c ef(V1¡“) cf(V¿). Logo
cef(V¿) para cada ô > O, ou seja ce VA(f; a). Isto demonstra o Cor. 2.

COROLÁRIO 3. 0 conjuntodos valores de uderência def é ƒevhado. Se


félimitada numa vizínhança de a então esse conjunto
é compacto e não-vazio.

Com efeito, VA(f; a) é sempre fechado, como interseção de fechaclos.


Escrevamos K" =j`(V¡/H). Se fé
limitada numa vizinhança de a, existe
no e N, tal que f(V1/no) é limitado e, portanto, seu lecho Knn é compacto.
Ora. é claro que VA(j`; a) = Ñ K", logo VA(f; a) é compacto e não-
ngng
vazio, em virtude do Teor. 12, Cap. V. .

EXEMPLO 10. Se ffor


ilimitada em qualquer vizinhança de a (isto é,
conjunto ilimitado de números reais
se f(V¿) for um
para todo 5 > 0) então VA(f; a) pode não ser compacto. Por exemplo,
sen(1/X)
seja
,
j: R- {O} -› [R
.
de?mda por j(x) = ~
Entao .
todo numero real

é valor de aderência defno ponto 0, ¡sto é, VA(f; 0) = IR. (Convença-se


disto traçando 0 grà?co de f) Também pode ocorrer que VA(f; a) seja
f
vazio quando não é limitada em vizinhança alguma de a. Tal é o caso
com f: ¡RP {0} -› ER, de?nida por f(x) = Tem-se VA(f; O) = ø.
X
Limites de funçöes 169

f
Seja limitada numa vizinhança de a. Pelo Cor. 3 anima, o conjunto
dos valores de aderência defno ponto a é compacto e não-vazio. Logo
possui um maior elemento e um menor elemento.
Chamaremos limite superior def no ponto a ao maior valor de ade-
rência def no ponto a. Escreveremos

lim sup f(x) = L

para exprimir que Lé o limite superior def no ponto a.


Analogamente, se l é o menor valor de aderência de ƒ no ponto a,
diremos que l é o limite inferior def no ponto u e escreveremos

lim ¡nf/(X) 1 1.

O limite superior e o limite inferior de f no ponto a existem apenas


quundofé limitada numa vizinhança de a. As vezes se escreve lim sup j`(x) =
X-M
= + oo para indicar quefé ilimitada superiormente numa vizinhança de zz.
(Quando for 1imj`(x) = + oo, ter-se-á também lim inff(x) = + oo.) Mas
convençöes desta natureza devem ser empregadas com extrema cautela
porque, nesses casos, o lim sup não é um valor de aderência. Continua-
remos falando em lim sup e lim inf apenas quando for limitada numa f
vizinhança de a.
Por outro lado, consideraremos também valores de aderência def
quando x -› +00 ou x -› -oo. As definicöes são análogas. Por exemplo,
ce VA(fš + 00) significa que c = limƒ`(x“), onde x,,eX, xn -› +oo. Os
fatos já provados e a provar sobre VA(j; a) se estendem aos valores de
aderência no inlìnito com adaptaçôes evidentes. Neste caso, diz-se quefé
limitada numa vizinhança de +oo (por exemplo) quando existem A > 0
e k > 0, tais que xeX, x > A¢|f(x)] 5 k.

EXEMPLO 11. Seja f: [RP {0} -› R de?nida por f(x) = sen 1

X
Então
o conjunto dos valores dc aderência de f no ponto 0 e
o intervalo [~1; +1]. (Veja o Exemplo 6 acima.) Logo lim sup sen =
x-*O X
. . 1
= 1 e lim ml sen = ~1.
x¬l) X
f
Seja limitada numa vizinhança de a. Então existe ôo > 0 tal que
f(Vò“) é um conjunto limitado. Com maior razão, para todo 6 e(0, ö¡,],
f(V(,) é limitado. De?namos no intervalo (O, 60] as funçöcs ô ›-› Lå e ô n-› lá
1 70 Curso de anålíse

pondo, para 0 < 5 5 åo ,

lå = inf f(V¿) = (ié1'l`f(x);

La = wpf<v,› = xesu; f<›¢›. 6

Tem-se lñag ló 5 LI, 5 Lña para todo öe(0, ô0]. Se 0 < 5' 5 6"
5 50,
então, V¿. c V_,., e, portanto, ly, 5 I, e L, 5 Lå,.. Assim, lt, é uma função
monótona não-crescente de 6, enquanto Lå é uma função não-decrescente
de ô. Segue-se do Teor. 12 que existem os limites lò e lsiìn) La. De fato,

com tais funçöes se acham deñnldas apenas para 5 > 0, esses são limites
laterais (à direita). Vale então o

TEOREMA 14. Seja f limitada numa vizinhança de a. Então

lim supf(x) = lìinå L¿ e lim inff(x) = šinãlw

D€m0I1Sfl'tl¢'?U. Sejam L = lim sup j`(x) e L0 = lim L,,. Como L é valor de


X-G *O
aderência, temos Lam
para todo 5 > 0 e portanto L 5 Lf,
para todo ô. Segue-se que L 5 LO. Para mostrar que L0 5 L, basta
provar
que L0 é valor de aderência de f no pomo a. Por simplicidade, escrevamos
L" em vez de LU". É claro que L0 = L". Segue-se da de?nição de

sup que, para cada neN, podemos obter xne VW, isto é, x,_eX, 0 <
< |'x" -a| < 1/n, tal que L,,-%- <f(x,,) 5 L". Segue-se que lim xn = a e
limf(x,,) = lim L" = Lo. Logo L0 é valor de aderência, donde L0 5
L.

Concluimos que L = Lo. A segunda afirmação do teorema se demonstra


de maneira semelhante.

TEOREMA 15. Seja f limitada numa vizinhança de a. Para todo s > 0


existeä > 0talquexeX,0 < lx-al < 5 $1-P. <f(x) <
< L + 2, onde I = lim-inff(x) e L = lim sup ƒ(x).

Demonstração. Pelo Teor. 14, I = lâim lô e L = 1in'åL¿. Logo, dado e > 0,


_@ ,,¬

podemos obter ô, >0,eö2 >O. tais que0<ö <ô, =›l¬: <


menor do
< l_, e 0 < ô < 52 => La < L + s. Seja ô um número positivo
L+ sendo, XEV¿=>l-8 <
que 5, e 62. Então l-zz < l,, 5 Lt, < e; Assim
< lt, g f(x) 5 La < L + a. Está. veriñcada a tese do teorema.

_-J
Limites de funçöes 171

coRoLAR1o. Seja f limitada numa vizinhança de a. Então existe limf(x)


se, e somente se, f possui um único valor de aderência no
pomo a.

f
Com efeito, se possui um único valor de aderência no ponto a então
L = I. O Teor. 15 nos diz que L = Ié 0 limite defno ponto a. A recíproca
está contida no Teor. 6.

Observação. Como no caso de seqüências, L pode ser caracterizado como


o menor número que goza da propriedade enunciada no
teorema acima. Do mesmo modo, l é o maior número com` aquela pro-
priedade.

EXERCÍCIOS
1. f
Na deñnição do limite lim (x), retire a exigência de ser x aé a. Mostre
que esta nova de?nição coincide com a anterior no caso a¢X mas,
para ae X, 0 novo limite existe se, e somente se, 0 antigo existe e é
igual a f(a).
2. Considere o seguinte erro tipográ?co na deiìnição de limite:

Vs>0šIå>0; xeX, 0< |x-a| <a=|f(x)-L] <ô.

f
Mostre que cumpre esta condição se, e somente se, é limitada em
qualquer intervalo limitado de centro a. No caso a?rmativo, L pode
ser qualquer número real.
3. Seja X = YUZ, com ae Y'r\Z'. Dadaƒ: X -› IR, tomemos g =f| Y
e h =f|Z. Se 1img(x) = L e lim h(x) = L então limf(x) = L.
X-›i wa x-.1

4. Sejaf: R~ 0 -› IR de?nida por (x) = Então lim f(x) = O


1 + el/* ›<~o+
e lircn f(x) = 1.

5. Seja f(x) = x + 10. sen x para todo xeilìl. Então lim ƒ(x) = +00
x-'+w
e gm@ f(x) = -oo. Prove o mesmo para a função g(x) = x + -åí sen x.
6. Seja /': X ~› ZR monótona, com f(X) <: [a, b]. Se f(X) é denso no in-
tervalo [a, b] então, para cada CEX; nX'_, tem-se lim f(x) =
= lirn f(x).
X-'t+
Se ceX então este limite é igual a f(c).
172 Curso de análíse

Demonstre o Teor. 2.
Sejam f: X -› R monótona e aeX'+. Se existir uma seqüência
de pontos xn EX com xn > a, lim xn = a e lim f(x,,) = L, então
f
lim (x) = L.
X<'lI+
Se ft X -›
R é monótona então o conjunto dos pontos aeX' para
os quais não se tem lim f(x) = lirrì f(x) é enumerável.
hn- X-›.=
Enuncie e demonstre para funçöes 0 análogo do Teor. 14 do Cap. IV.

Dado a > 1, de?na f: Q -› R pondo, para cada É-eQ,f(p/q) = am.


41

Prove que limf(x) = 1. Conclua que para cada be R existe lin2f(x),


X-*0 x-°
f
sendo este limite igual a (b) se b E 0. Chame este limite de ab. Prove
que a"~a"' = a"*"' e que b < b' =›a" < a"'.
Dado a > 1, de?na`g: R -› R, pondo g(x) = ax (veja o exercicio an-
terior). Prove que lim g(x) = +00 e lim g(x) = 0.
x*~+oa X-'†L17

Seja pz R -› R, em polinômio real. 'Se o coeficiente do termo de grau


mais elevado de p é positivo então lim p(x) = +00 e lim p(x) é
X* + oo X-' ^ un
igual a + oo ou a ~oo, conforme 0 grau de p seja par ou ímpar.

Se
f(x) =

limf(x) =
;¬.1
'

Determine o conjunto dos valores de aderência da função f: R~{0} -› R,
1

L
no ponto x = 0.

então lim |f(x)| =


x¬›a
Se lim
x-a
|f(x)| = |L| então o

conjunto dos valores de aderência de no ponto a é {L}, {~L} ou f


{L, -L}.
Dados um número real a e um conjunto compacto não-vazio K,
obtenha uma função f: R -› R tal que o conjunto dos valores de ade-
f
rência de no ponto a seja K.
Seja f: R -› R definida por f(x) = x se x e irracional./' = q se %
é uma fração irredutível com p > 0, ƒ(0) = 0. Mostre quefé ilimitada
em qualquer intervalo não-degenerado.
Sejam X, YC R,f: X~› R, g: Y-› R comf(X) <: X Se, para aeX'
e be Y' tem-se limf(x) = b. lim g(y) = c e, além disso. f(x) qé b para
xe?l y-tb
todo xe X~ {a}, então lim g(/`(x)) = c. Mostre que a condição be Y'
decorre de ser f(x) a? b para x aé a.
umim de funçau 1 73

Para todo número real x, indiquemos com [x] o maior inteiro 5 x.


Mostre que se a e b são positivos então

1|m--=-
_

x*0+
[ J x
G
b
X
b
a
e
_ ii x ]
lim--=0.
b
X-'0+ X (1

Prove também que, no primeiro caso, 0 limite à esquerda seria


o mesmo mas no segundo caso o limite é +00 quando x -› 0 por
valores negativos.
Dadas? g: X -› IR defina h = max {_? g}: X-› IR pondo h(x) =f(x)
se f (x) 2 g(x) e h(x) = g(x) caso g(x) 2 ƒ (x). Seja aeX'. Prove que
se limf(x) = L e lim g(x) = M, então lim h(x) = N, onde N é o maior

dos dois números L e M.


Sejam 12 g: X -› IR limitadas numa vizinhança do ponto ae X'. Mostre
f
que lim sup(f + g) 5 lim sup (x) + lim sup g(x) e que lim sup [-ƒ(x)] =
= -liminf [f(x)]. Enuncie e prove resultados análogos para lim inf
(f + g)e para o produto de duas funçöes. (Veja o Exerc.17,Cap.IV.)
Seja f: [0, + oo) -› IR uma função limitada em cada intervalo limitado.
Se lim
x-›
[f(x +1)-f(x)]= L então x?limm X = L.
un
É
Seja f: IR -› IR definida por f(x) = x + ax-sen x. Mostre que |a| <
< l=> lim f(x) = ±oo.
Seja- pz IR -› IR um polinômio não-constante. Dado
be R, suponha
que existe uma seqüência (xn), tal que lim p(x,,) = bell. Prove que
(x,_) é limitada e o conjunto dos seus valores de aderência é não-vazjo,
contido em p"(b). Em particular, se existe uma seqüência (x_), tal
que lim p(x,,) =0, então p tem alguma raiz real.
CAPÍTULO vn

FUNGÓES CONTÍNUAS

A idéia de função continua é o tema central da Topología. O estudo


de funçöes continuas reais de uma variåvel real, que faremos neste capítulo,
tem o duplo propósito de estabelecer os fatos e conceitos topológicos
essenciais à Análise e, ao mesmo tempo, fornecer ao leitor um primeiro
contato com as noçöes básicas da Topología, à guisa de introdução a essa
disciplina.
Depois de definir a noção de função contínua, demonstraremos suas
propriedades mais elementares e examinaremos (no §2) os diferentes modos
pelos quais uma função pode deixar de ser continua. Em seguida esta-
beleceremos as relaçöes entre a continuidade e as propriedades topológicas
dos subconjuntos da reta que foram introduzidas no Cap. V. Finalmente,
estudaremos com certo detalhe o importante conceito de continuidade
uniforme.

§1 A noção de função contínua


Uma função f: X-›lR diz-se contínua no ponto aeX quando é
possível tornar f (x) arbitrariamente próximo de f(a) desde que se tome x
suficientemente próximo de a.
Em termos precisos, diremos que fc X ~› IR é contínua no pomo a e X
quando, para todo s > 0 dado arbitrariamente, pudermos achar 6 > 0
tal que xeX e |xAa| < ô impliquem if(x)~f(a)Q < a. Simbolicamente:

Vs > 036 >0; xeX, |x-a| <ô=|f(x)-f(a)| <e.

Em termos de intervalos: dado' qualquer intervalo aberto .I contendo


f f
(a), existe um intervalo aberto I, contendo a, tal que (I n X) c J. Sempre
f
que desejarmos, podemos tomar J = (f(a)~s, (a) + 2), com s > 0, e
I = (avä, a + ô), com ô > 0.
f
Diremos, simplesmente, que f: X ¬› [R é contínua quando for con-
tínua em todos os pontos de X.
Funoöes continuas 175

Obseruaçães.

1. Ao contrario da de?nição de limite, só faz sentido indagar se é oon- f


tinua no ponto a quando aeX.
2. Se a é um ponto isolado de X então toda função ƒ: X -› IR é contínua
no ponto a. (Dado qualquer c > 0, basta tomar 5 > 0 tal que (u›ô,
a + 5)r\X = {a}. Então |x-al < ô com xeX implica x = a e portanto
f(x)-f(a)| = 0 < ic.) Em particular, se todos os pontos de X são isolados
então qualquer função f: X -› IR é continua.
3. Seja agora aeX um ponto de acumulação de X. Então f; X -› R é
f f
contínua no ponto a se, e somente se, lim (x) = (a). Isto reduz es-
X-›.
sencialmente a noção de função contínua à de limite. Reciprocamente,
f
poderiamos deñnir lim (x) = L pela condiçìo de ser continua no ponto
X».
a a função g: X U {a} -› R, onde g(a) = L e g(x) =f(x) para {a}. xeX-
f
4. Ao investigar a continuidade de uma função num ponto ou num con›
junto, é fundamental ter sempre em conta o dominio de ƒj Por exemplo,
dada ft X -› IR, seja Yc X. Consideremos as duas afirmaçöes:

(A) A função fé continua em cada ponto ae Y;


(B) A restrição f|Y é uma função contínua.

Evidentemente, (A)=>(B) mas a recíproca é falsa: basta considerar Y


?nito ou, mais geralmente, um conjunto 'Ycujos pontos são todos isolados.
Então f|Y é sempre continua mas f: X -› [R pode ser descontinua em
algum ponto de Y. O fato é que (A) se refere ao comportamento de f(x)
com x próximo de a, para qualquer x em X. Por outro lado, (B) é uma
a?rmação que diz respeito apenas aos pontos de Y.

EXEMPLO 1. Toda função f: Z -› IR é continua porque todo ponto de Z


é isolado. Pela mesma razão, toda função definida no
conjunto .X = {l, 1/2 ,..., 1/n ,... } é continua. Por outro lado. se Y=
= {0, 1, 1/2 ,..., 1/n ,... } então uma função f: Y-›R é contínua se, e
somente se, é contínua no ponto 0 (_iâ'que os demais pontos de Y são
todos isolados)_ Em outras palavras, ft Y-› [R é contínua se, e somente
se, f(0) = ¿gg? f<1/›«›. ~

As proposiçöes que enunciamos abaixo decorrem imediatamente dos


íatos análogos demonstrados para limites no capitulo anterior, juntamente
com a Observação 3 acima feita. A titulo de exercicio, o leitor pode adaptar
aquelas demonstraçöes para'o contexto de funçöes continuas.
176 Curso de análise

TEOREMA l. Toda restrição de uma função contínua é contínua. Mais


precisamente: seja fr X -› IR contínua no ponto aeX. Se
ae Y C X e g =f|Y, então gi Y~› [R é contínua no ponto a. Quando Y=
= I rw X, onde I è um intervalo aberto contendo a, então vale a recíproca:
se g =f\Y é contínua no ponto a então _/`: X ~› [R também é contínua
no

ponto a.

Destaquemos a parte ñnal do Teor. 1. Ela diz que a continuidade de


uma função fé um fenômeno local ou seja, se f coincide, nas proximidades
f
do ponto a, com uma função que e eontinua em a, então também é con-
tinua nesse ponto. (Coincidir com uma função contínua nas proximidades
de a signi?ca que, para um certo intervalo aberto I, contendo a, a res-
trição f|(I r\ X) é continua-no pomo a.)

TEOREMA 2. Se f: X -› contínua no ¡tonto aeX, entãofé limitada


[R é

numa vizinhança de a, ism U. existe 5 > 0 tal que, pando


U', =Xn (a~ö, a + ô), 0 conjunto f(U,,) é limitado.
TEOREMA 3. Se? g: X -› [R são continuas no punto aeX ef(a) < g(a),
então existe ã > 0 tal que ƒtx) < g(x) para todo xeX
com ]x†a| < ô.

COROLÁRIO. Sejum f: X-›[R contínua no ponto aeX e ke[R uma


constante. Se f(a) < k, enrão existe 6 > O tal que (x) < k f
para todo xeX com lx-a| < ô.
R O corolário do Teor. 3 é um fato simples, porém, extremamente
importante nas aplicaçöes. Vale a pena, portanto, dar sua demonstração
explícita. Ei-la:

Sendo f (a) < k, f


tomamos e = kf (a) > 0. Pela de?nição de função
contínua, a este a corresponde um ô > 0 tal que xeX, [x~a| < ô=>
=>j`(a)~s <f(x) <f(a) + s. Mas f(a) + = k. Logo todo ponto xeX,
1;

cuja dìstância ao ponto a seja menor do que 6 cumpre (x) < k. f


Evidentemente, um resultado análogo é válido se f(a) > k: existe
6 > 0 tal que xeX e |x~a| < ô =>f(x) > k. O mesmo se dá paraf(a) aë k;
efeito,
deve existir 6 > 0 tal que xeX e lxeal < 5 =›f(x) vé k. (Com
se j`(a) qé k, tem-se f (a) > k ou então j`(a) < k. Aplica-se então um dos
dois resultados anteriores.)
f
Suponhamos agora que seja contínua em todos os pontos de X e
consideremos o conjunto A dos pontos aeX tais que f(a) > k, ou seja,
A = {aeX;f(a)>k}.
Funçöes continuas 177

Que se pode dizer sobre A? Pelo que vimos, para cada ponto a e A, existe
um intervalo aberto In = (a-ô, ti + â) tal que xelu rw X =f(x) > k.
Isto significa que aelø rw X c A para todo aeA. Seja U = U Ia. Então
E@ A

U é um conjunto aberto e ae U n X c A para todo aeA, ou seja, A <:


<: Ur\X«:A; em suma, A= Ur¬X.
Em particular, quando X é alwrto, o conjunto A é aberto, como in-
terseção A = U r\X de dois abertos.

TEOREMA 4. Para quef: X -›


IR seja continua nu pomo a E X é necessário

suficiente que se tenha lim f(x,,) =f(a) para toda se-


e
qüância de pontos xn GX com lim xn = u,

COROLÁRIO f
Para que xeja contínua no (muro a é necessàrio que
1.
exista limf(x") e iiulqwmlu de seqüëncia de números
x"eX com lim xn = a.
COROLÁRIO 2. A f
jim de que seja contínua no p0Ili`0 a, é suficiente que,
para toda seqüêncía de puntos x"eX com lim x" = a,
exista limf(x,,).

Dadas as funçöes jj g: X ¬ IR, sabemos de?nir novas funçôes f+


+g: X¬›|R,f›g: X-›|R,f-g: X-MR e?g: X0-›iR, onde X°=X~
1/'1(0) = {XGX; 4J(X) vé 0}- Temos (f+ QXX) =f(X) + y(X). (f-QXX) =
=f(X)-ø(X), (f'9)(X) =f(X)'ø(X) 2 (?9)(X) =f(X)/9(X)- 0 T¢01'- 7 do
Cap. VI nos dá também:

TEOREMA 5. Se? g: X -› IR são continuas no ponto aeX, entãof+ g,


f~g ef-g são continuas nesse mesmo ponto. Se g(a) sé 0,
então ?g também é contínua no punto a.

Em particular, sefé continua no ponlo a então c~fé continua no


mesmo ponto, para qualquer ce|R. Também 0 mesmo ocorre com l?f
se f(a) aé 0.

TEOREMA composta de duas fllìçöes continuas é contínua. Ou seja,


6. A
ft X -› IR e g: Y-› IR são mntínuas nos pontnx uGX.
se
b =f (a) e X respectivamente, e, além disso, f (X) <: li então g ef: X -› R é con-
tínua no ponto a.

restrição de uma função contínua g: Y-› R a um subconjunto


A
X um caso particular dc função composta: temos g|X = go/; onde
=: Y é
f: X -› Y é a inclusão, isto é,f(x) = x para todo xeX.
178 Curso de análise

EXEMPLOS.
2. Como a função identidade x›-›x é evidentemente continua em toda
a reta, o mesmo oeorre com a função xv-›x", (neN) em virtude do
Teor. 5. Do mesmo teorema resulta que todo polinômio pz IR -› IR,
p(x) = a,,x" + + alx + ao é uma função continua. Também é con-
tínua toda função racional ƒ(x) = p(x)/q(x) (quociente de dois polinomios)
nos pontos onde é definida, isto é, nos pontos onde seu denominador
não se anula.
3. Seja f: R -› [R de?nida assim: para x 2 5, f(x) = x + 1. Se x 5 5,
então j`(x) = 16-2x. Então f é continua em todo ponlo a > 5 pois
coincide com a função continua g(x) = x + no intervalo aberto (5, + 00),
1

o qual contém a. Por motivo análogo,fé continua em todo ponto a < 5.


Também no ponlo 5, fé contínua, pois 3131+ ƒ(x) = jm* f(x) = 6 =_/`(5).

4. Seja ƒ: [R ~› IR definida por f(x) = se x ai 0 e f(0) = 1. Ou seja,


X

f(x) = para x 2 0 e ƒ(x) = -1 quando x < 0. Então ƒ é continua


1

em todos os pontos x 9€0, mas não é contínua no ponto x = 0, porque


não existe limj`(x).'
x«0
O motivo que assegura a continuidade da função do Exernplo 3,
mas permite a descontinuidade no Exemplo 4, é fornecido pelo

TEOREMA 7. Seja X c F1 u F2 , onde Fl e F2 sãofechados. Se a?mção


f: X -› [R é tal que suas rextriçôes f|(X n Fl) ef|(X rx Fl)
são continuas, então f é contínua.

Dumonstração. Seja aeX. Para mostrar


que f
é contínua no ponto a,
suponhamos dado > 0. Há três possibilidades. Primeira:
zz

a e F¡ n Fl; então, comof|(X r\ Fl) é contínua no ponto a, existe 6, > O


tal que xeX rw F, , |x›a| < 5, =› |f(x)~f(a)| < a. Analogamente. existe
62 > O, tal quexeXn Fz, |x-a] < 62 = |f(x)-f(a)| < effomemosö =
= min {ô1 , ô2}. Se xeX e |x-al < 5, então |x~a| < 5, e |x-al < 62.
Logo, quer seja xeF¡ , quer seja.xe Fl, vale |f(x)~f(a)| < a. A segunda
possibilidade é aeF¡ e a¢F¡. Escolhemos 6, > 0, tal que xeX n F¡ ,
|x~a| < 61 => |f(x) -ƒ`(a)] < a. Como F2 é fechado, podemos obter 52 > 0
tal que não exista xeF2 com \x~a| < 51. (Lembre que a¢F2 Seja _)

6 = min (61 , ô¡}; se xeX e ]x~-al < â, então xeF, e |x-a] < 51,
logo |f(x)-f(a)| < n. A terceira possibilidade é ae F1 e a¢F,; ela seria
tratada de maneira análoga à segunda. Em qualquer caso.f: X -› [R é
continua no ponto a.
Funçöes continuas 1 79

COROLÁRIO. Seja X = F¡ u F2 onde F1 c F2 sãoƒechados. Se afunção


,

f: X -› IR é tal que suas restriçãesf|F¡ ef|F2 são wn-


tínuas, então f é contínua.

No caso do oorolário, o dominio da função fe um conjunto fechado,


o que não ocorre em geral. É evidente, porém, que o Teor. 7 (e o seu coro-
lário) é válido quando se tem um número ?nito de conjuntos fechados
F .,.., F". O caso de uma infinidade de fechados é obviamente falso:
1

todo conjunto X é reunião de fechados (a saber, seus pontos) e ƒ|{x} é


sempre contínua, seja qual for xe X, masfpode não ser contínua.
Agora podemos entender melhor os dois exemplos anteriores. No
Exemplo 3, temos IR = F u G. onde os conjuntos F = (~oo, 5] e G =
= [5, +oo) são fechados. Como f|F ef|G são continuas, segue-se que
f: ¬› IR é contínua. No Exemplo 4, temos f: IR «› R, tal que, pondo
IP?

A = (-oo, 0) e B = [0, +oo), vale IR = AUB e as restriçöesf|A eƒ|B


são continuas. Mas A não é fechado. Este fato possibilita que seja des- f
continua. ,

No caso de abertos, em vez de fechados, o resultado ainda vale. Mais


ainda: é admissivel cobrir X com uma in?nidade desses conjuntos. O
teorema seguinte está essencialmente contido na segunda parte do Teor. 1,
mas vamos demonstrá-lo, de qualquer modo.

TEOREMA 8. Seja X <: U Al uma cobertura de X por meio dos abertos


¿EL
Al. Se uma função f: X ¬› IR é tal que, para todos os /leL,
as restriçöes f|(A¿ n X) são continuas, então f é contínua.

Demonstração. Tomemos aeX. Para mostrar que f: X -› ER e contínua


no ponto a, suponhamos dado s > O. Existe algum Ãel.,
tal que aeA¿. Como Al e aberto, existe 6, > 0 tal que |x-a| < ô, =›
=> xeA¿. Comoƒ|(A¿ rw X) é contínua, existe 62 > 0 tal que xeA¿ rw X,

|x~a| < 52 =› |f(x)~f(a)| < s. Seja 6 o menor dos números ô¡, 62.
SexeXe|x-a| < ô,entãoxeA¿ r\Xe|x~a| < ôz.Logo |f(x)-f(a)] <
< iz. Isto prova que f: X -› [R é contínua no ponto a.
COROLÁRIO. Seja X = U A¿ , omleicada AA é aberta. Se cada resrrição
aer.
fl/1¿ é contínua. então fi X -› [R é contínua.
EXEMPLO 5_ Seja X = R- De?namos ƒ: X -› R, pondo f(x) 2 --1
sex<0ef(x)=1sex>O.Entãof:X-›|Récontinua,
pois X = A UB, onde A =(~oo, 0) e B = (O, +oo) são abertos, com
f|A e _/`¦B continuas. Este exemplo costuma chocar os principiantes.
1 80 Curso de análise

O Teor. 8 e seu corolario sublinham o fato de que a continuidade é

um fenómeno local.

§2 Descontinuidades
Dada f: X -› IR, um ponto de descontinuidade (ou, simplesmente, uma
descontinuidade) da função ƒ é um pomo aeX tal que ƒ não é continua
no pomo a.
Dizer, portanto, que a e X é um pomo de deseontinuidade def: X -› IR
equivale a afirmar a existência de um número a > 0 tal que, para todo
5 > 0, se pode encontrar um xäe X com |x¿~a| < ô, mas \f(x_S)†ƒ(a)| 2 e.

EXEMPLOS.
6_ Seja f: [R -› [R dada por ƒ(x) = 0 para x racional e ƒ(x) =
quando x 1

é irracional. Então todo número real é pomo de descontinuidade de ƒ,


pois não existe lim f (x), seja qual for aeX.
7. Deñnamos g: IR -› [R pondo g(x) = 0 se x é irracional, g(0) = 1 e

g(l> = L quando p/q é uma fração irredutivel não-nula, com q > 0.


11 G
Se escrevermos gl = gl@ e gl = g|(|R~Q), teremos, para todo aelR,
lim g\(x) = 0 (veja o §2 do Cap. VI) e lim g2(x) = 0, porque gl E 0. Se-
gue-se imediatamente que, para todo número real a, tem-se lim g(x) = 0.
XM
Concluimos, assim, que g é continua nos números irracionais e descominua
nos racionais. (Seria impossivel obter uma função f: ER -› [R cujos pontos
dé descontinuidadc fossem exatameme os números irracionais. Veja o
Exerc. 18 deste capitulo.)
8. Scja h: IR ¬ [R de?nida por h(x) = x + Tšï se x † 0, h(0) = 0. Enlão o

único pomo de descontinuidade de h é o pomo 0.

9. Seja K C [O. 1] o conjunto de Cantor. Delìnamos uma função (px [0, 1] -›


-› IR do seguinte modo: pomos1p(x) = 0 para todo xeK. Se x¢K,
pomos <p(x) = 1. O conjunto dos pontos de descontinuidade de go é K.
Com efeito, sendo A = [0, 1]-K um aberto no qual rp é constame (e,
portanto, continua), segue-se que mp: [0, 1] ~› [R é continua em cada ponto
ae A. Por outro lado, como K não possui pontos interiores, para cada
ke K podemos obter uma seqüência de pontos XHEÄ com lim x” = k.
Então lim q›(x") = 1 aë 0 = <p(k). Logo fp e descontinua em todos os pontos
k e K.
Funçüu contínua: 1 81

Dizemos que f: X -› IR possui uma descantinuidade de primeira es-


pécie no ponto aeX quando ƒ é descontinua no ponto a e, alem disso,
f
existem os limites laterais lim (x) e lim (x). (Caso a seja ponlo de
X"I+ x-'lI-
f
acumulação de X somente de um lado, exigimos apenas que o limite la-
teral correspondente exista.)
Uma descontinuidade a e X da funçãof: X -› IR e chamada de segunda
f
espécie quando aeX; e lim (x) não existe ou então quando aeXQ
1411+
mas não existe o limite à esquerda de f no pomo a.

EXEMPLOS.
l0. Nos Exemplos 7 e 8 acima, temos descontinuidadesvde primeira especie.
No Exemplo 7, em cada ponto de descontinuidade a, existem os
limites laterais, que são iguais porém diferentes do valor ƒ(a). No Exem-
plo 8, o limite à esquerda é -1 e 0 limite à direita é +1 no único ponto
de descontinuidade,
Nos Exemplos 6 e 9, os pontos de descontinuidade são todos de
segunda especie.
11. Um exemplo conhecido de descontinuidade de segunda especie e o

da funçãof: IR -› IR,
x
f
deñnida por (x) = sen
para x aé 0. Seja qual
for o valor atribuido a f(0), o pomo 0 será uma descontinuidade de se-
gunda especie para ? pois não existe lirãr f(x) nem liräi (x).
x- + x~ -
f
12. Jáƒ(x) = Tš(x e
aé 0),f(0) = 0, deñne uma função f: IR -› IR cuja
única descontinuidade e o pomo 0. Ai o limite à direita e zero, en-
quanto o limite à esquerda e 1. Trata-se, portanto, de uma desoontinui-
dade de primeira especie.
1

13. Se
x
in;
tomarmos g(x) = «H <»> para x aé 0 e g(0) = 0, teremos uma
função g: [R-› R com urna única descontinuidade no ponto 0. Ai
temos 1irg1+g(x) =0, enquanto lirãi g(x)- não existe. 0 pomo 0 e, por-
tanto. uma descontinuidade de segunda especie na qual existe o limite à
direita, mas o limite à esquerda. embora tenha sentido (O e pomo de acu-
mulação à direita para o dominio de 9). não existe.
14. Sem apelar para o Cálculo, e fácil dar exemplos de descontjnuidade
de segunda especie na qual um dos limites laterais existe. Basta con-
f
siderar ft IR -› IR, delìnida por (x) = 0 se x 5 0, ou se x > 0 e racional,
1 82 Curro de endliu

enquanto ƒ(x) = 1 para x > 0 irracional. Existe liiäi f (x) = 0 mas não

f
existe Iim (x). Logo, 0
2-'0+
é uma descontinuidade do tipo procurado.

TEOREMA 9. Uma função monótona fl X -› R não admite descontinui-


dades de segunda espécie.
Dømonsrração. Dado é monótona, se n+ôeX (respect.
ueX, como j
a - 6 e X) então f
limitada no conjunto [n, a + 6] n X
é

(respect. [a -- 6. a] rw X). Logo existem os limites laterais que façam sen-


tido no ponto a, pelo Teor. 12 do Cap. VI.

TEOREMA lO. Seja f: X -› ¡R monótona. Se ƒ(X) é um conjunto denso


em algum intervalo I, então é continua. f
Demonstmção. Para cada a e XQ seja f(a+) = linì (x). Analogamente,se f
ae XL , escrevamos f(a-) = lim ƒ(x). Para ñxar as idéias,
suponhamos ƒ não-decresoente. Tomemos aeX. Se tem sentido falar
em f(a +), ¡sto é, se aeXL mostraremos que f(a) =f(a +). Com
,

efeito, f(a +) = inf{f(x); x > a}. Sabemos que a < x =›f(a) Sƒ(x).
f
Logo (a) 5 ƒ(a +). Admitamos que seja ƒ(a) < f(a +). Como exis-
tem pontos xeX oom x > a, vemos que em ƒ(X) há pontos f(x) 2
2 f(a+]. Assim sendo, todo intervalo I comendo ƒ(X) deve comer pelo
menos 0 intervalo (ƒ(a). f(a+)), no qual não hå pontos de (X) pois x 5 f
5 a=›ƒ(x) 5f(a) e a < x=›ƒ(a+) $f(x). Isto oontradiz que f(X) soja
denso num interválo I. Por conseguinte, ƒ (a) = ƒ(a+). De modo análogo
veríamos que f(a-) = f(a) para todo a e X Q Logo é oontinua. . f
COROLÁRIO. Se f: X -› IR é monótona e ƒ(X) é um intervalo, então f
é continua.

EXEMPLO 15. Sejaƒ: IR f


-› R dada por (x) = x, se x é racional, e (x) = f
=-x, se x é irracional. Entäo ƒ é uma bijeção de R
sobre IR que é continua apenas no ponto 0. Isto se dá porque ƒ não é
monótona.
Continuaremos escrevendo
f(0+) = xli1;l1f(X) ¢ f(?-) = 311 f(X)-
TEOREMA ll. Seja f: X -›1R uma ?mção cujas descontinuidades são
todos de primeira espécie. Então o conjunto dos pontos
de descontinuidade de ƒ é enumerável.
Funçöes continuas 183

Antes de demonstrar o Teor. 11, deñnamos uma função ac X -› IR,


pondo, para cada xeX,

v(X) = ¡MX {|f(X)-f(x+)I, |f(X)-f(X-)|}


se x e X Q. rw X '_ . Se x e X Q, ou x e X '_ apenas, poremos, respectivamente,

¢(X)=|f(X)-f(X+)I OH r1(X)=If(x)~f(X-)|-

Finalmente, se x for um pomo isolado de X, poremos a(x) = 0.


f
A função a é delìnida quando não possui descontinuidades de se-
gunda especie, Seu valor a(x) chama-se salta de no ponto x. f
Note-se que se a 5ƒ(x) 5 b para todo xeX, então 0 5 a(x) 5 b~a.
0 fato mais importante sobre a é que a(x) > O se, e somente se, xeX é
uma descontinuidade de f
Demonstração da Teorema ll. Para cada n e N, seja D" = xe X a(x) ; 2 -
1

H
'

0 conjunto dos pontos de desoontinuidade


Q
de Ď D = U D". Basta pois mostrar que cada D,
6 enumerável. A?r-
n=l
mamos que, para todo ne N, D, _só possui pontos isolados. Com efeito,
f
seja aeD_. Sendo descontínua no ponto a, temos ae X', Suponhamos
aeX; .Porde?niçiode?a +),dadQn,existeô > Otalquea < x < a + 6,
1
xsX=›ƒ(a+)-1; <f(x) <f(a+) + Assim,paracadaxe(a,a + ö)n
1
n X, vale a(x) 5 5-~ Se, porém tivermos a¢X; , escolhemos ô > 0 tal
n
que (a, a + 6) n X = ø. Em qualquer hipótese, para todo aeD_ existe
um intervalo (a, a + 6) tal que (a, a + ô) n D, == ø. De modo semelhante
encontramos, para cada aeD_, um intervalo aberto (zz-ô', a) tal que
(a-ô', a)n D, = ø. Isto mostra que nenhum ponto de D, é ponlo de
acumulação. Em outras palavras, todo ponto de D_ é isolado. Segue-se
que D, le enumerável. (Veja o Corolårio 2 do Teor. 8, Cap. V.)

COROLÁRIO. Seja f: X -«É R monótona. 0 conjunto dos pontos de des-


continuidade def é enumeráuel.

Com efeito, pelo Teor. 9, as descontinuidades de ƒ são todas de pri!


meira especie.
1 84 Curso de análise

§3 Funçöes continuas em intervalos


O teorema seguinte estabelece matematicamente o principio bastante
plausivel de que uma função contínua de?nida num intervalo não pode
passar de um valor para outro sem passar por todos os valores interme-
diarios.

TEOREMA 12 (Teorema do Valor Intermediârio). Sejaf: [a, b] ~› R con«


tínua. Se f(a) < d <
<f(b) então existe ce(a, b) tal que flc) = d.

Primeira demonstração. Comofé contínua no ponto a, dado e = d~~f(u) > 0,


existeö>0talquea$x5a+ö==›ƒ(x)</`(a)+
+ = d. Assim, todos os pontos x su?cientemente próximos de a no
1:

intervalo [a, b] são tais que f(x) < d. De modo análogo se verifica que
todos os pontos y suficientemente próximos de b no intervalo [a, b] são
tais que d <f(y). Em particular os conjuntos A = {xe(a, b); f(x) < d}
e B = {ye(a, b); d <ƒ(y)} são ambos não-vazios. O corolário do Teor. 3
nos diz que A e B são abertos. Se não existir um ponto c com a < c < b
e f(c) = d, então (a, b) = A UB, em contradição com a unicidade da
decomposição de um aberto como reunião de intervalos. (Veja 0 Coro-
lário do Teor. 2._ Cap. V.)
Segunda demonstração. Seja A = -lxs [u, b];f(x) < d}. A não é vazio pois
ƒta) < d. A?rmamos que nenhum elemento de A
é maior do que todos os outros. Com efeito, seja o¢eA. Como f(o¢) < d,
vemos que zx a? b e, portanto, ot < b. Tomando c = d~f(zz), a continui-
dade defno ponto oz nos dá um ô > 0 (que tomaremos pequeno, de modo
a ter [oc, oz + ô) c [a, b]) tal que, para todo xe [at, oz + 6) tem-se j`(x) <
<f(<x) + e, ou seja,ƒ(x) < d. Assim, todos os pontos do intervalo [cx, or + 6)
pertencem a A. Agora ponhamos c = sup A. Como c e limite de uma
seqüência de pontos x,,eA, temos f(c) = limj'(x,,) 5 d. Como A não
possui maior elemento, não se tem ceA. Logo não vale f(t*) < d. o que
nos obriga a concluir que f(c) = d.

COROLÁRIO 1. Seja ƒ: I -› [R contínua num intervalo I (que pode ser


jèchado ou não, limitado ou ilimitado). Se a < b per-
tencem a I ef(a) < d <ƒ(b), então existe cel tal que flc) = d.

Basta restringir f ao intervalo [a. b] e aplicar o Teor. 12.

COROLÁRIO 2. Seja f: I-›lR contínua num intervalo I. Então f(I) é

um intervalo.
Funçöes continuas 1 85

Com efeito, sejam oc = inf -f(x) e /3 = su? -f(x) (Esta notação é sim-
I G

bólica. Podemos ter oz = -oo, se f for ilimitada inferiormente em I. ou


? = + oo, no caso de f ser ilimitada superiormente em I.) A?rmamos que
f(I) é um intervalo, cujos extremos são oc e ?. Ou seja, dado y com cx < y < /3,
deve existir x e I tal que y = f(x). De fato, pelas de?niçöes de inf e de sup
(ou pela deñnição de conjunto ilimitado, no caso de algum dos extremos
oz ou B ser in?nito) existem a, b el luis que f(a) <
y <f(b). Pelo Teor, 12,
existe um ponto x, entre u e b. tal que f(x) = y.

Ohxuruaçães. 1.0 Teor. 12. evidentemente, vale também no caso de


f(b) < d <f(u).
2. No Cor. 2, nada a?rmamos sobre os extremos do intervalo f(!) per-
tencerem ou não ao intervalo; Poderemos ter f(I) = [az, ?], ou f (I) =
= (oz, B), ou f(I) = [ag Ii) ou /`(I) = (oz, ?]. Também o intervalo I é com-
pletamente arbitrário_ Por exemplo, seja f: IR -› [R dada por f(x) = xz.
Então. tomando I = (-1, 3), temos f(I) = [0, 9).
EXEMPLOS.
16. Se I é um intervalo e f: I ¬› [R é uma função contínua que só assume
f
valores inteiros, então é constante. Com efeito, f(1) deve ser um
intervalo contido em Z. Logo é degenerado (reduz-se a um ponto). Mais
geralmente, se YC IR tem interior vazio ef: X -› R é uma [unção contínua
f
tal que (X) c YQ então ƒ é constante em mda intervalo que porventura
X contenha.
17. O Teor. 12 pode ser usado para provar que todo polinômio real
p: [R -› IR, p(x) = aux” + a,,_¡x"`1 + + alx + ao de grau impar (isto
é, un vé O e n impar) possui uma raiz real, ou seja, existe c e [R tal que p(<±) = 0.
Para ñxar as idéias, suponhamos un > 0. Então podemos escrever p(x) =
= an ~ x" r(x), onde
~

r1x)=l+ì-L +... +5-1l†+ï-Ã


Ll X (1 X Hn X
n n

Evidentemente, lim dx) = 1. Como lim (a,,x") = +ooe(por ser n impar)


x* ± cn x* + ao
lim (an x") = -oo, concluímos que lim p(x) = + oo e lim p(x) = -oo.
~

›<¬- «U
X- 00 X- - L»

Tomando I = R no Cor. 2, vemos que p(|R) é um intervalo. Os limites


acima calculados mostram que o intervalo p(IR) é ilimitado nos dois sen-
tidos. Portanto p(|R) = TR. Assim, p: [R ¬› [R é sobrejetiva. Em particular,
existe ce?ìï tal que p(c) = 0.
1 86 Curso de análise

18.Usaremos agora o Teor_ 12 para dar uma demonstração elegante da


existência de \'/; para todo y 2 0. (Veja o §3 do Cap. III.) Dado
ne N,consideremos afunçãof: [0, + oo) -› [0, + oo),de?nida porf(x) = x”.
f
Evidentemente, é contínua. Logo sua imagem é um intervalo. Como
f(0) = O e xlim f(x) = +oo, tal intervalo é [0, +oo), ¡sto é, ƒ é sobre-
jetiva. Assim sendo, para todo y 2 0, existe x 2 0 tal que x" = y. Além
f
disso, fé crescente e, portanto, injetiva. Concluímos que é uma bijeção.
Dado y 2 0, o número x 2 0 tal que x” = y é único e se escreve x =
Finalmente, a função gt [0, + oo) ~› [0, + oo), inversa de L tal que g(y) =
= \'/Í, é continua em virtude do Teor. l3 a seguir.

TEOREMA 13. Seja ƒ: I -› R uma função contínua injetiva. definida num


f
intervalo I. Então é monámna, sua imagem J = (I) é f
um intervalo e sua inversa f`1: .I -› R é contínua.

Demonstração. Como o leitor pode veri?car sem diñculdade, para con-


f
cluirmos que é monótona, basta veri?car sua monoto-
nicidade em cada subintervalo limitado e fechado [a, b] <: I. Assim.
f
podemos admitir que I = [a, b]. Sabemos que f(a) qé (b). Para ñxar as
f f
idéias, vamos supor que (a) < (b). Mostraremos então que e crescente. f
Do contrário, existiriam pontos x < y em [a, b] tais que ƒ(x) > f(y).
Há duas possibilidadesz ƒ(a) <f(y) ou ƒ(a) > f(y). No primeiro caso,
f f
temos f(a) < f (y) < (x). Logo, pelo Teor. 12, existirá c e (a, x) com (c) =
f
= (y), em contradição com a injetividade de f
No segundo caso, vem
f (y) < f(a) < f (b) e, novamente pelo Teor. 12, obteremos ce(_v, b) com
f(c) = f(a), ainda contradizendo a injetividade de ƒ Isto prova que toda
função real continua e injetiva, deñnida num intervalo, é monótona. O
Cor. 2 do 'lÍeor. 12 nos dá que J = f(I) é um intervalo e o Teor. 10 (ou seu
corolário) nos garante que f '12 J -› R é continua porque evidentemente
f'1(J) = I e a inversa de uma função monótona é monótona. (Como
f
[a, b] é compacto, a continuidade de 'l também resulta do Teor. 15,
adiante.)

Observação. No caso do Teor. 13 (função continua, injetiva, monótona),


o intervalo J = f(I) é do mesmo tipo (aberto, fechado, semi-
aberto) que I. Com efeito, sendo ƒ monótona injetiva, ae I é um extremo
f
de I se, e somente se, (a) é um extremo de J. Note-se, porém, que urn dos
intervalos I, J pode ser ilimitado sem que o outro seja. Considere, por
exemplo, a função ƒ: (O, 1] -› R, dada por f(x) = l/x. Temos f((0, l]) =
= [1, + oo).
Funçöes comlnuas 1 87

Dados X, YC R, uma bijeção continua fi X -› K cuja inversa


f": Y-› X também é continua. chama-se um homeomar?smo entre X
O Teor.
e Y. diz que se X for um intervalo, a continuidade da inversa
13
f' será conscqüência de continuidade de Deve-se notar, entretanto,
' jZ
que tal não ocorre em geral. Por exemp1o_ sejam X = [0, 1)u [2, 3],
Y: [1, 3] e fx X -› Ya bijeção continua de?nida por f(x) = x + l, se
O S x <1,f(x)= x se 2 5 x 5 3. A inversaf'*: Y-›X é descontinua
noponto2.Comet`eito,f"(y) =yse2 S y 5 3ef'1(y)= y~1 sel S y <
< 2. Assim, f"(2) = 2 enquanto lil? f"(y) = 1.
,o _
No parágrafo seguinte, veremos outra situação na qual a inversa
de uma função contínua é contínua.

§4 Funçöes continuas em conjuntos compactos


TEOREMA 14. Seja ft X -› IR contínua. Se X é compacto então f(X) é
compacto.

Demonstração. Dada uma cobertura aberta (X ) f c U A Â, podemos, para


ÃEL
cada xeX, escolher AM) tal que ƒ(x)eA¿(,›. Em virtude
da continuidade de ¡Í cada pomo xeX pode ser posto num intervalo
aberto IX tal que ye X rw IX =>f(y)eA¿m. Obtemos assim uma cobertura
aberta X c U IX. Como X é compacto, podemos extrair uma subco-
xeX
bertura ?nita X <: In u _ . . U Im. Conseqüentemente, f(X) C AMI, u
U L1 AMM, o que prova a compacidade de f(X).
Segunda demonszração. Seja (yn) uma seqüência em f(X). Para cada
ne N, existex,,eX tal que f(x") = yn. Como X é compacto, podemos
obter uma subseqüência convergente xnk ¬› x e X. Sendo f contínua, temos
lim ynk = lim f(x,,k) =f(x) = y ef(X). Logo f(X) é compaclo, conforme a
condição (4) do Teor. ll, Cap. V.

COROLÁRIO (Weierstrass). Toda fmçãu contínua f: X -› [R definida num

compacto X é limitada e atinge seus extremos


(isto é, existem xl , x2 EX tais que ƒ(x¡) 5f(x) _§f(x¡) para todo xe X).

Com efeito, f(X), sendo compacto, é limitado e fechado. Logo


supf(X)eƒ(X) e inff(X)ef(X). Portanto existem x,, x2eX ta.is que
iHff(X) =f(X1) ¢ S'1Pf(X) =f(X2)-
1 88 Curso de análise

EXEMPLOS.
19. A função contínua f: (el, +1) -› IR, definida por f(x) = É,
-x
não

limitada. Isto pode ocorrer porque seu dominio é um conjunto


é
limitado, mas não fechado (e, portanto, não é compacto). Por outro
lado, a função gt (-1, +1) -› IR, de?nida por g(x) = x, é continua e
limitada., mas não assume um valor máximo nem um valor minimo
no seu dominio (-1, + 1). A função h: [0, +oo) -› R, definida por h(x) =
= T-`å7› é continua e limitada. Assume seu valor máximo no ponto
X

x = 0, mas não existex e [0, + oo) tal que h(x) = 0 = inf {h(x);xe [0, +oo)}.
lsto é possível porque o dominio de h é um subconjunto fechado mas
não limitado de R.
20.Dados um ponto ae IR e um subconjunto fechado não-vazio F c (R,
existe um ponto xDeF tal que |a--x0| 5 |a~x| para todo xeF.
(O ponto xo é o ponto de F mais próximo de a.) Para ver isto, basta con-
siderar um intervalo fechado [a~n, u + 11] suficientemente grande de
forma que a interseção K = [a - n. a + n] rw F seja não-vazia. K é limitado
e fechado, donde compacto. Consideremos a função continua f: K ¬ IR,
deñnida por f(x) = |x~a|. Pelo Teorema de Weierstrass, f atinge seu
valor minimo num ponto x0eK. Para todos os pontos xeF tem-se
]x¡,~a| 5 |x~a] porque os pontos de F que não pertencem a K situam-sc
fora do intervalo [a- n, a + n] e, portanto, estão mais longe de a do quec
ponto xo. Note que se F não fosse fechado, poderiamos tomar a e F 1~_
logo o in?mo da função f seria zero, não atingido um ponto algum xeF.
Portanto, quando F não é fechado, pode-se sempre achar um ponto a,
do qual nenhum ponto de F é o mais próximo.

TEOREMA 15. Seja X 4: [R compactof Se f: X -› R é contínua e injetiva


então Y=f(X) é compacto e afmção inuersaf'1: Y-› [R
é contínua.
Dvmonstração. Seja b = f(a)e
Para provar queY. é continua no f' 1

ponto b, consideremos uma seqüência de p0ntOS yn =


=_/`(x,,)e Y, com yn -› b. Devemos mostrar quef' '(y,,) = xn -› a 1(b). =f'
Como xn EX, a seqüência (x,_) é limitada. Assim, é suficiente provar que a
é o único valor de aderência de (xn). Seja então (x;,) uma subseqüência
convergindo para um ponto a'. Como X é compacto, temos a' e X. Alem
disso, yjl =f(x;,) ainda converge para b. Como fé continua no ponto a',
temos f(a') = lim f(x;,) = b. Sendo finjetiva, isto força a' = a. O teorema
está demonstrado.
Funçöes conzinuas 189

§5 Continuidade uniforme
Seja f: X -› R continua. Dado 5 > 0 podemos, para cada a e X,
obterô > 0(que depende deeede a) tal que |x-a| < 6 => |f(x)~f(a)| < s.
Em geral, não é possivel obter, a partir do zz > 0 dado, um único 6 > 0
que sirva para todos os pontos ae X.

EXEMPLOS.
21. Seja ft (O, +oo) -› R, f(x) = Dado e > 0, mostraremos que não

se pode escolher ô > 0 tal que |x-a[ < ô ==› %-% < a seja qual
for a > 0. Com efeito, dado e > 0, suponhamos escolhido 5 > 0. To-
memos um número positivo a tal que 0 < a < 5 e 0 <a < Então,

para x=a +ï› temos |x-a| <ô mas


Ó

~-~~~~ =
\
_'
1

a
1

Ñ
5
~~ 1

a
=
2+ö
a
~†a
2 1
=
(2 a+öa
=~>s
6
3-a 3a )
>
6
ô 1

ll* '

22. Seja f: R -› R definida por f(x) = cx + d, com c 9€O. Dado c > 0,


escolhamos 5 = Então, qualquer que seja aeR, temos

]x-a| < 5:-› |f(x)~f(a)| = |(cx + d)~(ca + d)| = |cx-cai =


= |x-al < [c|ô =e.
Neste caso, foi possivel, a partir do a dado, obter um 5 > 0, que servisse
para todos os pontos a do dominio de jj
As funçöes com essa propriedade chamam-se uniformemente con-
tinuas. Mais formalmente:
Uma função f: X -› R diz-se unüènrnemente contínua quando, para
cada > 0, existe 6 >() tal que x, ya X, ix¬y| < ô=>|f(x)-f[y)| < s.
za

E obvio que toda função uniformemente continua é continua. Mas


a recíproca não vale.

Assim, a função continua f: (O, +øa) -› R, deñnida por /`(x) = à»


não é uniformemente continua pois, como vimos no Exemplo 21, dado
e > 0, seja qual for ã > 0, podemos encontrar pontos x, y no dominio
de /Q com |x~y| < 5 e |f(x)~f(y)| 2 2.
4-
190 Curso de análise

Por outro lado, a função f: R -› R, definida por (x) = cx + d, é f


uniformemente continua, como vimos no Exemplo 22. (Ali supusemos
c aé O, mas é claro que c = 0 dá uma função constante, que e uniforme-
mente contínua.)
A ñm de que ƒ: X -› IR não seja uniformemente contínua, é neces~
sàrio e suficiente que exista a > 0 com a seguinte propriedade: para cada
6 > 0,podem-se obter x¿ ,y,,eXtais que |x,,~y¿| < 6 mas\f(x¿)›f(y,,)| 2 s.

EXEMPLO 23. Seja f: X -› lipschitziana. Isto signi?ca que existe uma


ER

eonstantec > 0,tal quex,ye X = |f(x)~f(y)| 5 c |x ~y1.


Então f é uniformemente continua: dado c > 0, basta tomar ô = e/c.
f
Uma função linear, (x) = cx + d. é lipschitziana em toda a reta, com
constante A função f: X -› [R,f(x) = xz,é lipschitziana se X for limi-
tado. Por exemplo, se tivermos |x| 5 A para todo xeX, então, dados
x, yeX quaisquer, vale

|f(x)~f(y)| = IX*-WI = IX + yl lx~y¡ 5 2A-|x-y|-


Basta tomar c = 2A. Por outro lado, se X = IR, f(x) = xl não é sequer
uniformemente continua. Com efeito, seja s = 1. Qualquer que seja ô > 0
escolhido, podemos tomar x > í
1

e y = x + í-
5
Então ix-y\ < 6 mas

|f(x)†f(y)| = (x +%>2~x2 =xô +ä> xô > 1.

Com um pouco mais de trabalho se mostra que para todo n > a função 1

f: [R¬›lR2, definida por f (x) = x", não é uniformemente continua.

TEOREMA 16. Seja f: X-›R un?òrmemente contínua. Se (xn) é uma


seqüência de Cauvhy em X então (f(x,,)) é uma seqüêncía
de Cauchy.

Demonstração. Dado s >å'> 0 tal que x, yeX, |x~y\ < 6 =


O, existe
=› Por sua vez, dado 6 > 0, existe noe N
|f(x)-f(y)| < ¿_

tal que m, n > n0=> |xm~xn| < 5. Logo, m, n > n0=› |f(xm)-f(xn)[ < e,
ou seja, (f(x")) é uma seqüência de Cauchy.

COROLÁRIO. Seja f: X ~› [R uniformemente contínua. Para todo ae X',


existe lim f(x).
Funoãn oontlnmi 1 91

Com efeito, para toda seqüência de pontos xne X- {a} com x. -› a,


a seqüência (f(x_)) é convergente, por ser de Cauchy. Então existe lim f(x),
X"E
pelo Cor. 2. Teor. 6, Cap. VI. (Este Cor. também decorre do Teor. 8, Cap. VI.)

EXEMPLO 24. As funçöes /Lg :(0, I] ~› R, ƒ(x) = sen(l/x), yíx) = l/x,


não são uniformemente continuas pois não possuem
limite quando x ~› 0.

Para mostrar que /`: X -› [R não é uniformemente continua basta


obter If > 0 e duas seqüências de pontos x,,. y,, G X tais que lim (x,, y,,) = -
0
e /(x,,) -f(y,,)I 212 para todo n. Por exemplo, f(x) = x3 não é uniforme-
mente contínua em IR, como se vê tomando x,, = n + 1/n e y, = n. Temos
-
lim (x,, -y,,) = 0 mas 12, yf, 2 3 para todo n.

TEOREMA 17. Seja X compacto. Toda ƒunção contínua f: X -› R é uni-


formemente contínua.

Demonstração. Seja s > 0 dado. Para cada x e X é contínua no ponto x. , f


Logo existe 6, > 0 tal que yeX, |y-x| < 2ó,= |f(y)-

-f(xì| < Pondo IN = (x-ö\ . x + ô_)_ a cobertura X <: U lx admite


XGX

uma subcobertura finita X C In u . u I,_. Seja 6 o menor dos números


_ _

ón _... ,ô,_. Se x, yeX e ix-y] < 6, devemos ter xelxj para algum j,

donde |x-x¡| < ôxj e dai [y-x¡| 5 |y--x| + |x-x¡| < 2ôxj. Estas desi-

gualdades implicam |f(x)-f(x¡)| < % e |f(y)-f(x¡)| < %› donde |f(x)~

†f(y)| < 2-

Segunda demonstraçãa Suponhamos que não seja uniformemente f


contínua. Então existe um e > O tal que, para cada ne N, podemos achar
x,,eX e y,,eX com |x,,-y,,| <i fl
e |ƒ(x,,)-ƒ(y,,)| 2 e. Como X é com-
pacto, uma subseqüêneia (xnk) converge para um ponto xeX., Forço-
samente, temos lim yn = x também. Como é contínua, limf(x,_k) = f
= limf(vm_) = ƒ(x), mas ¡sto contradiz a desigualdade | ƒ(x,,_)-f(_v,,_)| 2 s
f
para todo k. Logo é uniformemente contínua.
1 92 Curso de anålíse

EXEMPLO 25. função f: [O, 1] -› R. definida por f(x) =


A é con- Ä,
tínua (como inversa de x ›-› xz, definida no mesmo inter-
valo) e portanto é uniformemente continua, pois [0, 1] é compacto.
Convém notar que f não é lipschitziana em intervalo algum ao qual 0 seja
adcrente porque o quociente
/_ _
|›«¬-|
=
+
/'
não é limitado Á-Í
5 5
para valores muito pequenos de x c y. Por outro lado, a funcão gt [0, + oc) -›
-› IR. gtx) = `/; f
(da qual é uma rcstrição) é uniformemente continua,
embora seu dominio não seja compacto. É suficiente observar que g [l, + oo)
é lipschitziana: ]g(x)~g(y)| = S L|x-y|, desde que x 2 e 1

+ \/G 2 \/2
y 2 1. Como se vê facilmente, da continuidade uniforme de g|[0, I] e
g|[l_ + oo) se conclui a continuidade uniforme de g em todo o seu dominio
[0. + oo). (Não seja, entretanto, muito otimista. Veja os Exercs. 38 e 39 no
ñm deste capitulo.)
Diz-se que uma função qa: Y-› [R é uma extensão def: X -› IR quandof
é uma restrição de go, isto é, quando se tem X c Ye <p(x) =f(x) para todo
xeX. Quando rp for contínua, dir-se-á que f estende-se continuamente
à função qa.

O teorema seguinte completa o corolário do Teor. 16.

TEOREMA 18. Toda ƒimção un?ormemente contínua fr X -› R admite uma


extensão contínua ql: X ›› R; go é a única exlensão con-
tínua de fa X e é unyformemente continua.

Demonstracão. Temos X = X U X'. Para todo x' e X'. ponhamos ço(x') =


= lim, f(x). Este limite existe, pelo corolário do Teor. 16.
Como fé
continua, vemos que q›(x') =f(x') caso x'eX' AX. Comple-
tamos a de?nição de fp pondo <p(x) =f(x) para xe X. Notemos que, para
todo Sie Í
se Y = lim x" com xa e X, então q1(›ì) = limf(xn). Mostremos
agora que <p é uniformemente con-tinua. Dado s > 0, a continuidade uni-
forme defnos dá um ô > 0 tal que x, yeX, lx-y| < ö=> ]f(x)~f(y)| <
. . . .
satisfaz para a continuidade uniforme
K. _

< Afirmamos que o mesmo ô

de Com efeito, se Í, 3761? são tais |›T~í| < 6, temos X = lim x" e 37 =
: lim
tp.
yn com xn yne X. Dai vem |.í~ í|
, , :
lim |x,,~y"]. Logo existe noe N,

tal quen > no => |x"~y,,| < ã, Segun-se que f(x")-ƒ(y")1 < para todo
Funçñes continuas 193

n > no e, portanto,

|/to ef<v›| = lim |_/W -f(y,›| S §< «=.

Falta apenas veri?car a unicidade de (p, mas isto é imediato: se 1//: X -› R


fosse outra extensão contínua de ƒl então, para todo 'ie X, escrevendo
2 = lim xn com x" e X, teríamos
,

MÍ) = Mlim xn) = lim I//(Xnj = lim f(x,,) = lim <p(x,,) =


= q›(lim ›:,,) = <p(ì).

COROLÁRIO. Seja f:X -› R un?armemente contínua. Se X é limitado,


então f(X) é limitado; isto é, fé limitada em X.

Com efeito, seja go: X -› R a extensão contínua de ao fecho de X.f


Como X é limitado, X é limitado e fechado, e portanto compacto. Pelo
Teor. 14, (p(X) é compacto e portanto limitado. Como (X) <: <p(X), a f
oonclusão scgue-se.

EXERCÍCIOS
1. Scjaf:
R -› R contínua. Mostre que o conjunto Z¡ = {x e R;f(x) = 0}
fechado. Conclua que, se? g: R -› R são continuas então C = {x G R;
é
f(x) = g(x)} é um conjunto fechado.
2. Seja ft X¬› R contínua, deñnida num subconjunto X c R. Para
todo ke R o conjunto dos pontos xe X tais que f(x) 5 k tem a forma
F n X, onde F e fechado. Resultado análogo vale para 0 conjunto
dos pontos xeX, tais que f(x) = k e para o conjunto dos pontos
x e X, nos quais duas funçöes contínuas? g: X ¬ R assumem valores
iguais. Em particular, se X é fechado então esses três conjuntos são
fcchados.
3. Dadas? g: X ~› R,de?namos as funçöesƒ v g: X ¬› R ef A g: X -› R
pondo, para cada xeX, (f v g)(x) = max {f(x), g(x)} e (f A g)(x) =
f
= min {f(x), g(x)}. Mostre que se e g sãocontínuas num ponto
ueXomesmosedácomfv gef/\ g.
4. Uma função f: A ~› R, deñnida num alberto A c R, é continua se,
c somente se, para todo c e R os conjuntm E[.1'< c] = {x E A;ƒ(x) < c}
e E[f> c] = {xeA;f(x) > c} são abertos.
5. Scja _/': F -› R dcñnida num conjunto fechado F <: R. A ñm de quef
scja contínua é neccssário e suñciente que, para todo ceR, sejam
194 Curso de análise

fechados os conjuntos E[f5 c] = {xeF; f(x) 5 c} e E[f2 c] =


= {xeF; f(x) 2 c}.
Dado um subconjunto não-vazio S c R, de?na f: R ~› R pondo
f(x) = inf{tx-s|; seS}. Provc que lf(x)-f(y)] 5 |x›y| para quais-
f
quer x, ye R. Conclua que e (uniformemente) continua.
Sejam ƒ; g: X -› R continuas. Se i7<: X ef(y) = g(y) para todo ye Y,
Í
então f|17= g| Conclua que se duas funçöes continuas /Q g: R ¬ R
são tais que f(r) = g(r) para todo r'eQ, cntão f= g.
Sejam ? g: [O, 1] -› R continuas. Se f(1) = g(O), então é contínua a
função h: [0, 1] -› R, definida por h(x) =f(2x) se 0 5 x 5 1/2. e
h(x) = g(2x~1) se 1/2 5 x 5 1. É também contínua a função ƒ`*:
[0, 1] -› R,deñnida por ƒ*(x) =_f(1~x).
Seja A c R aberto. A ñm de que ft A -› R seja continua é necessário
e suficiente que f `1(B) seja aberto, qualquer que seja B <: R aberto.
Seja F c R fechado. Uma função f: F -› R é continua se, e somente
se, para todo conjunto fechado G c R, sua imagem inversa f“'(G)
é fechada.
Seja X = Yu Z. Seƒ: X -› R é talquef|Yef|Z são continuas entãof
écontínua em todo ponto ae Yrw Z.
Uma função fl: X -› R é descontínua no ponto aeX se. e somente
.
se,ex1stem L > 0e
. .
uma seqüência de pontos xn e X tais que ]x,, - a| 5 1
-Y
VI

c \f(x,l)-f(a)| 2 c para todo n e N;


Scja F c R um conjunto fechado. Dada uma função continuaf: F ¬ R,
existe go: R -› R continua tal que (p|F =f
(Sugestão: Defina (p linear-
mente nos intervalos componentes de R-F de modo a coincidir
comfnos extremos de cada intervalo.)
Seja ft R ~› R continua. Provc que :ls seguintes condiçöes sobre f
são equivalentes:

=f› jrjwmj |f<›<›| = xyq1m|f'<›<›| = +<›«;


b) Se ]x,,| -›+oo_ então |f(x,_)| ¬ +oo;
c) Se K é compacto, entããf' WK) é compacto.

Defina uma bijeção f: R ~+ R que seja descontinua em todos os pontos.


Seja f: X -› R monótona, tal que f(X) seja denso num intervalo ii-
mitado. Mostre que existe uma única função continua (monótona)
qu: X-›R, tai que q2|X =ƒ
Seja K o conjunto de Cantor. Escreva A = [O, 1]›K e de?na uma
função monótona não-decrescente f: A «› R, constante em cada in-

LW
Funçôes contínua: 1 95

tervalo componente de A, tal que f (A) seja o conjunto das fraçöes


da forma g pertencentes a [O, l]. Mostre que existe uma função
monótona continua (p: [0, 1] -+ R que coincide com f nos pontos de A.
(Função de Cantor.)
Seja f: R -› R uma função arbitraria. Para cada ne N, consideremos
o conjunto Cn, formado pelos pontos aeR com a seguinte proprie-
dade: existe um intervalo aberto I, contendo a, tal que x, yeI=›
=› |f(x)¬f(y)| < Prove:

1. Cada C" é um conjunto aberto;


2. fé continua no ponto a se, e somente se, aeC" para todo ne N;
Conclua que o conjunto dos pontos de continuidade de qualquer
função f: R -› R é uma intersecão enumerável de abertos. Em par-
ticular (veja o Exerc. 55, Cap. V) não existe uma função f: R -› R
que seja continua nos pontos racionais e descontínua nos irracionais.
Não existe ƒ: R -› R continua que transforme todo número racional
num irracional e vice-versa.
Seja ƒ: I -›R, contínua, limitada num intervalo. Para todo ae?
f
0 conjunto dos valores de aderência de no ponto a é um intervalo
(compacto). Isto inclui u = ~cn e a = + oo, no caso de ser ilimitado
o intervalo I. Em particular, se ƒ: [0, + oo) -› R é continua e limitada,
o conjunto dos pontos da forma c = limf(xn) onde xn -› +00 é um
intervalo fechado e limitado.
Sejam T o conjunto dos números transcendentes negativos e A o
conjunto dos números algébricos 2 0. Deñna ƒ: Tu A -› [0, +<>0)
f
pondo (x) = xï. Mostre que fé uma bijeção continua, cuja inversa
é descontínua em todos os pontos, exceto 0.

f
Seja f: [a, b] -› [a, b] contínua. Prove que possui um ponto fìxo,
isto é, existe xe[a, b] tal que f(x) = x. (Teorema de Brouwer em
dimensão l.) Dê exemplo de uma função contínua f: [0, 1) -› [0, 1)
sem ponto lixo. ,___
Seja n impar. Prove que, para todo ye R, existe um único xe R, tal
que x' = y e que, escrevendo x =
?nida, é um homeomor?smo de R sobre R.
?,
a função y›~› "/Í, assim de-

Sejam K compacto e F fechado, não-vazios. Mostre que existem


xo e K, ya GF, tais que |xo~y0] 5 |x-y|, para quaisquer xs K, yeF.
Dê exemplo de dois conjuntos fechados e disjuntos F, G tais que
inf{|x-y]; xeF, yeG} == 0.
1 96 Curso de análiu

Seja f: R -› R contínua. Se, para todo aberto A C R, sua imagem f(A)


f
for aberta, então é injetiva e portanto monótona.
Seja pz R -› R um polinomio de grau par, cujo coeñciente lider é
positivo. Prove que p assume um valor minimo em R, isto é, existe
xo e R tal que p(x0) 5 p(x) para todo xe R. Se p(x0) < 0, mostre que p
possui pelo menos duas raízes reais. Enuncie e demonstre resultados
análogos quando o coeficiente lider de p e negativo,
Se toda função contínua, de?nida num certo conjunto X, é limitada,
então X é compacto.
Seja ƒ: R -› R continua. Se lim ƒ(x) = lim f(x) = +oo, então exis-
x¬-+no x--m
te um ponto xoeR no qual fassume seu valor minimo.
x
Mostre que f. (-1, +1ì ¬› R,
.
definida por ƒ(x) - ïï-FI-› é um ho-

meomorlismo entre o intervalo (-1, +1) e a reta.


Classilìque os intervalos da reta quanto a homeomorfìsmos, isto é,
faça uma lista de tipos de modo que dois intervalos são homeomorfos
se, e somente se, têm o mesmo tipo. (Por exemplo, dois intervalos
abertos quaisquer, limitados ou não, são sempre homeomorfos. Jâ
um intervalo fechado, limitado, só pode ser homeomcnfo a outro que
seja também limitado e fechado).
Se? g: X -› R são uniformemente continuas entãof+ g,ƒ/\ g ef v g
também o são. (Veja o Exerc. 3 acima.) Por outro lado, o produto
de duas funçöes uniformemente continuas pode não ter essa proprie-
dade, a menos que as funçöes sejam limitadas. A eomposta de duas
funçöes uniformemente continuas é uniformemente continua.
Seja g: R-›(-l, +l) o inverso do homeomor?smo ƒ de?nido no
Exerc. 29. Mostre que g é uniformemente contínuo mas g' l = não o é. f
f
A funçãof: R -› R, definida por (x) = sen x,é uniformemente continua,
mas g(x) = sen (x¡) de?ne uma g: R -› R contínua que não é uni-
formemente continua.
Seja X c R um conjunto não-fechado. Mestre que existe uma função
continua fc X -› IR que não se estende continuamente a X.
Um polinômio pz IR ~› R 6 uma função uniformemente contínua se,
e somente se, tem grau 5 1. _

f: X -¬› R e contínua se, e somente se, para cada e > 0, existe uma
cobertura X c U I, com IX = (x-öx, x + ôx). tais que y, zeXn
¡GX
nI,=› [ƒ(y)-ƒ(z)| f
< a. A' funçäo 6 uniformemente continua se, e
somente se, para cada e > 0, os intervalos I, puderem ser escolhidos
com o mesmo comprimento.
Funçães contínua: 1 97

A f
função (x) = x" é lipschitziana em cada conjunto limitado mas
não é uniformemente continua num intervalo ilimitado.
A função f; [0, +w) -› [o, +@0), de?nida por fm = não e yï,
lipschitziana num intervalo da forma [0, a], a > 0, embora seja uni-

tante c = ii,

n_
1

memente contínua em [0, +oo).


no intervalo [ a, +00
f
formemente continua ai. Por outro lado, é lipschitziana, com cons-

). Concluir q ue J 'é unifor-

Sega
4

N*= n+-;neN
1

V1
. Escreva F= NUN* e de?naƒ: F¬fR

pondo f(n) = 2 ef<n + = n + í- Mostre que os conjuntos


1
N e

N* são fechados, que ƒ|N c f|N* são uniformemente continuas,


mas f: F “› IR não é uniformemente contínua.
De exemplo de dois abertos A, B e uma função continua f: A u B ¬ IR
tal que f|A e f|B sejam uniformemente continuas, mas f não seja.
Toda função contínua monótona limitada ft I-› R, definida num
intervalo I, é uniformemente continua.
Seja f: X ¬› R contínua. Para que fse estenda continuamente a uma
função (pz X -› [R é nccessário e su?ciente que exista limƒ(x) para
todo a e X C a X

Seja f: [a, b] -› (R continua. Dado a > 0, existem a = ao < al < <


< ar, < an = b tais que, para cada i = 1, 2 ...., n, x, ye[a¡_¡ a,] = .

=> |f(X)'f(.v)| < 2-


Uma função contínua xp: [a, b] -› R chama~se poligonal quando existem
a = no < al < < an = b tais que <p|[a,_1, a¡] e um polinomio
de grau 5 1, para cada i= 0, ,..., n. Prove que, se f: [a, b] ¬ R
1

é continua, então, dado s > 0, existe uma função poligonal <p: [a, b] -›
-› IR, tal que |f(x)~q›(x)| < a para todo xe [a, b].
Dado 5: [a, b] -› IR, se existem a = ao < a, < < bn = b tais que
š|(a,_1 a¡) é constante (= c,) para cada i = 1, 2,..., n, § chamu-se
,

uma função-escada. Mostre que se f: [a, b] -› [R e continua, então,


para cada a > 0, existe uma fuiišão escada f: [a, b] -› R, tal que
|j`(x)~C(x)| < e qualquer que seja xe [a, b].
Dada uma função f: X -› ER, suponha que para cada e > 0 se possa
obter uma função continua g: X -› R, tal que |f(x)-g(x)| < c qualquer
que seja xe X. Entãofé contínua.
Seja X C R. Uma função f: X -› IR diz-se semícontínua superiormcnte
no ponlo ae-X quando, para cada e > 0 dado, pode-se obter ô > 0,
Q8 Curso de análíse

tal que xeX, jx-a| < ô=›f(x) <ƒ(a) + e. Diz-se quefé semicon-
tínua superiormente quando ela 0 é em todos os pontos de X .

a) De?na função semicontínua inferiormente e mostre que fé con-


tinua num ponto se, e somente se, é continua superior e inferior-
mente naquele ponto.
b) Prove que um subconjunto A c R é aberto se, e somente se. sua
função caracteristica L: R -› R (deñnida por {A(x) = se XS/Í 1

e šA(x) = 0 se x¢A) é semicontinua inferiormente.


c) Enuncie e prove um resultado análogo ao anterior para conjuntos
fechados.
d) Mostre, mais geralmente, que para todo subconjunto X <: R, sua
função característica šxz R -› R é descontinua precisamente nos
pontos da fronteira de X. Dado a e fr X, mostre que ¿X é semicontínua
superiormente no ponto a se aeX e inferiormente se a¢ X. Conclua
que a função f: R-›R, de?nida por f(x) para xeü ef(x) = 0 =l
para x irracional, é semicontinua superiormente nos numeros racionais
e inferiormente nos números ìrracionais.

e) Seja fi R -› R deñnida por f(x) = senix se x 9€0 ef(0) = c. Mos-

tre que f
semicontínua superiormente no ponto 0 se, e somente
é
se, c 2 1. (E inferiorrnente se, e somente se, c 5 ~1.) Tomando ~1 <
< c < 1, mostre que f não é semicontínua no ponto 0.
f) As funçöes? g: R -› R, ondef(0) = g(0) = 0 e, para x aš 0,ƒ(x) =

= x sen-› g(x) =
1

x
-›
x
1
são semicontinuas inferiormente, mas seu
produto f' g não é uma função semicontinua no ponto 0.
g) Para que f: X -› R seja sernicontínua superiormente no ponto
a e X rx X' é necessário e su?ciente que lim sup (x) 5 (a). Equi- X-..
f f
valentemente: para toda seqüência de pontos x,,eX com lim x,, = a,
f
que seja lim sup f(x,,) 5 (a). ~Va1e resultado análogo para semicon-
.--Q»
tinuidade inferior.
h) A soma de duas funçöes semicontinuas superiormente num ponto
ainda goza da mesma propriedade. Use o item e) com c = e 1

c = -1 para dar exemplo de duas funçöes semicontinuas (uma supe-V


riormente e outra inferiormente) cuja soma não é semicontinua.
Mostre que se f é semicontinua superiormente, -f é inferiormente.
Funçäes continuas 1 99

i) Sejam ? g: X -›
semicontínuas superiormente num ponto. Se
IR

g(x) 2 0 para todo x G X, então o produto f- g


é uma função semi-
contínua superiormonte no mesmo ponto.
j) Quando X c IR é compacto, toda função semicontínua superior-
mente f: X ¬› [R é limitada superiormente e atinge seu valor máximo
num pomo de X. Enuncie e prove um fato análogo para semiconti-
nuidade inferior.
CAPITULO V111

D E R IVA DAS

Este capitulo é dedicado ao estudo das derivadas de funçöes reais


de uma variável real. Pressupomos que 0 leitor já tenha estudado, num
curso de Cálculo, os aspectos computacionais e as aplicaçöes mais ele-
mentares das derivadas. Esperamos, principalmente, que ele esteja fami-
liarizado com o significado geométrico da derivada como coeficiente
angular da tangente ao gráfico de urna função.
Embora essas imagens intuitivas não desempenhem papel algum no
desenvolvimento lógico do texto, consideramos indispensável a atitude
mental de pensar no grâñco de cada função mencionada no presente
capitulo. Do contrario, seria di?eil imaginar soluçöes para os exercíeios
propostos e entender o signi?cado das proposiçöes e dos exemplos. Ate
mesmo 0 próprio conceito de derivada se tomaría arti?cial e injustificado.

§1 Definição e propriedades da derivada


num ponto

Sejam X c IR,f: X -› IR e aeX n X' (isto é, a é um pomo de acumu-


lação de X pertencente a X).
f
Diremos que é derivável no ponto a quando existir o limite

-f“§3ïí“Ä
f
No caso a?rmativo, 0 limig f '(a) chama-se a derivada de no ponto a.
Bem entendido, a função q: x›¬›[ƒ(x)~f(a)]/(x-a) é definida no
conjunto X- {a}. Geometricamente, q(x) representa a inclinação (ou coe-
ficiente angular) da secante ao grá?co def que passa pelos pontos (a,f(a))
e (x, ƒ(x)). A reta que passa pelo ponto (a, f(u)) e R2 e tem inclinação igual
f
a f'(a) chama-se a tangente ao grâñco de no ponto (a, f(a)). A inelinnção
da tangente é, portanto, o limite das inclinaçöes das retas seeantes passundo
pelos pontos (a, ƒ(a)) e (x, f(x)) quando x ~› a.
Derivadas 201

Escrevendo h = x ~a, ou x = a + h, a derivada defno ponto a e X n X'


torna-se o limite:
_,

1 <«›
.
= im -7~«
/(¢1 + h)'fÍa)

Agora, a função hi-› [f(a + h) ¬f(a)]/h é deñnida no conjunto Y =


= {heR-{0}; a + heX}, 0 qual tem 0 como ponlo de acumulacão.
Quando aeX r¬X'+ (isto é, quando a é um ponlo de acumulação
à direita de X, e a ele pertence), podemos definir a derivada à direiru da
funcão /no ponlo a, como sendo o limite (se existir):

Ma) : nm f(X)¬f(?)= ¡im f(a+,h)-f(?)_


X-«+ xfa h-›o+ h

Analogamente se define a derivada a esquerda, /'L(u) quando a é um ponto


de acumulação à esquerda, que pertence ao dominio de f
Evidentemente, quando aeX é ponlo de acumulacão à direita c à
esqucrda (exemplo mais importante: uf int1X)) cntão /"(a) existe sc. e
somente se, existem, e são iguais. as derivadas latcrais f;(a) e jL(a).
Por exemplo, quando se diz que uma função f: [c, al] -› R, definida
num intervalo compacto, é derivavel num ponlo ae [c, d] isto significa,
no caso de ae(c, d), quefpossui as duas derivadas laterais no ponto a
e elus são iguais. No caso de a ser um dos extremos, isto quer dizer apenas
que existe, no ponto a, aquela derivada lateral que faz sentido.

Ohservação. Segue-se das propriedades gerais do limite que f: X -› R é


derivável no ponto a §e,e'somente se, dada qualquer seqüência
de pontos xne X~ {a} com lim xn = a, tem-se

um ƒ`(X,.)~f(<1)=},.,(a)_
*H xn ~ a
°<>

Mais geralmenle, seja dada qualquer função gc Y~› X C R ta] que 1in;| g(y) =
ya
= a, com be Y'. à g(y) a enlão temos

1*
Se y qé b ;±

. f(ø(y>)~fE1) ,
= ( ).
f
1

¿pg y(y)~? a
EXEMPLOS.
1. Seja f: R -› R constante, isto é, existe ce R tal que f(x) = c para todo
xe R. Então f'(a) = 0 para todo aeR. (A derivada de uma constante
é nula.)
202 Cuvso_de análise

2. Seja f:dada por f(x) = cx + d. Então, para todo ae IR, ƒ(x)-


IR -› [R

f
~ (a) = c(x - a), de modo que o quociente [f(x) -f(a)]/(x A a) = c é cons-
tante e, assim sendo, f'(a) = c para todo ae[R.
3. Seja f(x) = xz. Então f(a + h) = (a + h)2 = az + 2ah + hz, de modo
que [f(a + h)-f(a)]/h = 2a + h e assimf'(a) = }'¶1)(2a + h) = 2a.
4. Usando a fórmula do binômio de Newton se mostra, como acima_ que
n n

se p(x) = 2 a¡xf é um polinômio então, p'(x) = 2 i~a¡x¡'1 para qual-


|Í= 0 Í= I
quer x e
5. Seja f:
IR.

IR -› IR de?nida por f(x) = Então, para x aé 0, -É


f(X)-f(0) =

= M=
X
±1(+1 sex > Oe-1 sex < 0).Segue-sequeexistemf'(0+) =
= 1 e f'(0-) = -1 mas não existe j"(0). Para a aë 0, entretanto, existe f'(a),
queva1e1sea>0e-1sea<0.
6. Seja f: [0, + oo) -› IR deñnida por ƒ(x) = Para todo ae(0, + 00)
e h ai 0, temos

¬/a+h-\/;_ h = 1 _

h h(./a+h+\/Z) ¬/a+h+\/Z
1
Portanto, se a > O existe f'(a) = Entretanto, no ponto a = 0, temos
a

f<0+h›ef<0›_?_¿
h ` h "?'
logo não existe o limite quando h -› 0, ou seja, a função f(x) = \/É
não possui derivada no ponlo 0.
7. Seja f: IR Ä› IR de?nida por ƒ(x) = inf{|x-nl; neZ} ou seja,f(x) é a
distância de x ao inteiro mais próximo. Então, se xe n, n + %:|,

f(x) = x-n. Por outro lado, se xe n + ~› n +1


1
›f(x) = n +1-x,O
2

grafico de fe uma serra cuJos dentes tem pontas nos pontos


, , , _
n † í, í
1 1
-
mama» 203

. .
Existe a derivada de f em cada ponto do intervalo _

n, n + É
1
e é
.
igual

a 1. Para cada ae n + É,
1
n + 1 também existe a derivada f'(a) = -1.

Nos pontos n e n + ï› com nel, existem apenas as derivadas laterais


1 . _ .

mas são diferentes.

Observação. Sendo de?nida como um limite, a derivada tem caráter local.


Assim, se a função f: X -› IR possui derivada num ponto
aeXr\ X' então, dado Yc X tal que ae Yrx Y', a função g =f|Ytam-
bém tem derivada no ponto a, sendo g'(a) = f'(a). Se Y= I rw X, onde I
é um intervalo aberto contendo 0 ponto a, então vale também a recíproca:
a existência de g'(a) implica a existência de f'(a).
Diremos que ƒ: X -› [R é derivável no conjunto X quando existir a
derivada def em todos os pontos ae X rw X'.
Interpretaremos agora a existência da derivada ƒ'(a) como signi?-
cando que, nas proximidades de a, a funeão se exprime como um poli- f
nômio de grau 5 1 mais um resto que é “muito pequeno” num sentido
bem preciso.
Se f: X -› [R possui derivada num ponto aeX r\X', escreveremos
r(h) =f(a + h)~ƒ(a)›f'(a)~h. Então para todo h ;± 0, tal que a + heX
teremos

(l) f(a + h) =f(a) +f'(a)-h + r(h), com $ = 0.

h
Por causa da relação 'lim 13% = 0, diz-se que 0 “resto” r(h) tende para
*O
zero mais rapidamente do que h. Diz-se também que r(h) é um in?nitésimo
(= função cujo limite é zero) de ordem superior a 1, relativamente a h.
Reciprocamente, dada L suponhamos que exista uma constanteL
tal que se possa escrever
-- h
(2) f(a +
-

h) =f(a) + L- IA + r(h), com %É O.

(Bem entendido, a primeiraigualdade sempre pode ser escrita: ela é apenas

a deñnição de r(h). O crucial é saber se ¿ing % = O.) Neste caso, tem-se

_~T-
fm 'f(?) + h› __ L + T
†<h›
204 Curso de análise

e, portanto,
igual a L.
li¶ = L, isto é, existe a derivada f'(a) e é

A condição (2) é portanto necessária e suficiente para a existência


da derivada f'(a). A constante L, se existir com aquela propriedade, é
unica e igual a f'(a).
As condiçöes (l) e (2) são pois equivalentes. Elas podem ainda ser
escritas sob a forma

(3) f (0 + 11) =f(f1) + Efila) + P(¡1)]h» 00m PUI) = 0-

A função p serà de?nida para todo h tal que a + heX (inclusive

h = 0). Para h # 0, teremos p(h) = 2 h


= -j"(a).h - Para

h = poremos p(h) = 0. Assim a continuidade da função p no ponto 0


0,
equivale à existência da derivada f'(u).
Consideraçöes análogas podem ser feitas quanto às derivadas laterais.
Basta supor h > 0 para a derivada èrdireita e h < 0 no caso de derivada
à esquerda.

EXEMPLOS.
8. Temos (a + h)z = az + 2ah + 112. Aquif(x) = x2,f'(a) = Zae r(h) = hz.
Ao darmos um pequeno acréscimo h ao ponto a, 0 acréscimo sofrido por seu
quadrado, isto é (a + h)2~a2, é essencialmente igual a 2a›h(= f'(u)-h)
já que o resto hz é desprezivel em relação a h (se h e muito pequeno).
9. Sabe-se do Cálculo que a função f: [R -› IR, dada por f (x) = sen x,
possui, em todo ponto ae IR, a derivada f'(a) = cos a. Então podemos

escrever sen (a + h) = sen a + h- cos a + ríh), onde lim g h


= 0. Portanto,
para valores muito pequenos de h, temos aproximadamente sen (a + Iz) ~
~ sen a + h cos a, com erro igual a uma fração pequena de h. (O número
~

p(h) fornece a razão entre o_erro r(h) e o acréscimo h.) Compare com a
fórmula da Trigonometria: sen (a + h) = sen a oos h + cos a sen h. Ob- ~
~

temos r(h) = sen a (cos h - 1) + cos a (sen h - h). Isto confirma que
^ -

lim
lim Í@ = 0. Com efeito, n-o
h-o h
E@ = 0
h
e lim
h-00
(gg-1)
h
= 0 como re-

sulta do cálculo das derivadas de cos x e sen x no ponto 0.


A expressão f'(a) h, que fornece uma boa aproxiimação para o acres-
f
-

f f
cimo (a + h) ~ (zz) quando h é pequeno, é chamada a dyferencial de
Derivadas 205

no ponto a. Observe que a diferencial é uma função de h (e do ponto a).


Escreve-se, às vezes, df (a) = ƒ'(a)-h.
Estabelcceremos agora as propriedades mais básicas para a deri-
vada num ponto, Em primeiro lugar, mostraremos que não pode existir
a derivada num ponto onde a função é descontinua.

TEOREMA 1. Se existe a derivada

Demnnstração. Se existe o limite lim

mite
xet?
-
f'(a) então

X ~^ (1
f é contínua no ponto

então existe também


pl.

o li-

yy; [f(X)-f(a)] = yy; ¿É?-<H› =

=1im
x¬'n
¬1im(x-a)
* .X
=
H :Pm
0.

Logo fé contínua no ponto a. `

Observaçöes. 1. Seexiste apenas uma derivada lateral, pode ser descon~ f


tínua no ponto u. Por exemplo: f: [R -› (R, com f(x) =
: -l
1

se x 2 0 e f(x) se x < 0. Neste caso, _fL(0)= 0 mas fL(O) não existe.


Entretanto, o mesmo argumento acima mostra que se f;(0) existe então
f é contínua à direiza no ponto a, isto é, xlim+ f(x)= ƒ(a). Do mesmo
modo, a existencia da derivada à esquerda, fL(0) implica que f e contínua
f
à esquerda neste ponto, ou seja, f(a) = lim (x). Em particular, para que
X».-
f seja continua no ponto a, hasta que existam as duas derivadas laterais,
mesmo sendo diferentes. No exemplo que acabamos de dar, a função é f
contínua à direita e descontlnua à esquerda no ponto 0. Assim sendo, a
derivada fL(0) não existe.
2. Os Exemplos 5, 6 e 7 acima mostram que uma função pode ser contínua
em toda a reta e não ser derivável em alguns pontos. É possível construir
uma função f: [R -› R oontinua, que não possui derivada em ponto algum
da reta. Veja o livro Espaços Métricas, do autor, Ex. 33 do Qap. 7, onde~
se mostra que a maioria das funçöes continuas não possui derivada em
nenhum ponto.

TEOREMA 2. Sejam L gr X -› IR deriváveis no ponto aeXn X”. Enzão

f ± g, ƒ~ g e ?g (caso g(a) 9€0) são deriváveis nesse mesmo


206 Curso de anãlise

ponto. Tem-se:

(f ± ø)'(a) =f'(a) ± g'(a)


(f ~ ¶)'(?) =f'(?) ~ gw) +f(¢1)'9'(?)
L '
(II)
_- f'(?) 901)-f(?) ' ø'(?)_
~

9 ø(?)
Demonstração. Consulte qualquer livro de Cálculo.

COROLÁRIO. Se c E R então (c ~f)' = c ~f'. Sef(a) 9€0 erztão


1

(11) =
= -f'<a›_
f (¢l)2

TEOREMA 3.(Regfa da cadeaa). Sejam f; X -› IR, g; Y-› IR, fur) 2: ¡Q


aeXr\X', b =f(a)e Yn
Y'. Se exis-
f
tem '(a) e g'(b) então gøfz X -› [R é derivável no ponto a, valendo (g°f)'(a) =
= 9'(b) 'f'(¢1)-
Demonstração. Temos

fm + h› =f<«› + ma) + ;›]~h, Onde ¿gg pm = 0,


g(b + k) = g(b) + [g'(b) + ef] ^k, onde lirg a(k) = 0.

Estamos escrevcndo, por siinplicidade, p e zr em vez de p(h) e a(k)


respectivamente. Pondo

k =f(a + h)~f(a) = [f'(a) + p]-h, temos f(a + h) = b + k


e .

(9°f)(? + h) = 9[f(? + h)] = ¶(b + k) = y(b) + [9'(b) + ff] ' k =


= 901) + [9'(b) + 0] ' [f '(?) + P] ' h =
= 51(5) + [9'(b) 'f'(?) + 9] ' h,

-f
°0m 901) = <1(f(¢1 + h) (<1))' [f '(¢1) + ?(h)] + ¶'(b) ' P(h)-
tínua no ponto a e a é contínua no po?to O, temos
C0m0 é C011- f
lim a(f(a + h) -f(a)) = 0
logo l|inâ0(h) = 0, o que prova o teorema.

COROLÁRIO (Derivada de uma função inversa). Sejaf: X -› Y:


IR uma

função que possui in-


versa g = f'
1: Y¬› X <: IR. Sefé derivável naponto
a G X rw X' e g é cantínua
no' ponto b f f(a) então g é derivável no ponto b se, e somente se, f'(a) 9€0.
Derivadas 207

No caso afirmativo, g'(b) = W


1

Obxervação. A continuidade de g no ponto b será conseqüência da con-


f f
tinuidade de no ponto a quando for contínua em todos
os pontos de X e, além disso, X for um intervalo ou X for compacto.
Vejamos a demonstração do corolá rio. Como ./ te contínua no ponto b,

í- ì~
temos li": 9(.V) = y(b) = a. Além disso. .VE Y I!›} :› g(,\¬) ak a. Logo
,._. .

ø(y)*ø(b) _ ø(yJ¬I _-
.
1m - .
1m
LH y-b i~~f(ø(y))-/`(<1)
:um f(9(y))~f(11)""=¿_
W ø(y) -0 f'(¢1)
Logo g'(b) existe e é igual a 1U'(a) quando f'(a) aé 0. Reciprocamente. se
existe g'(b), então, como gof = ¡dx , a regra da cadeia nos dá g'(b) -f'(a) = 1,

e, portanto, f'(a) sé 0, com g'(b) = L;


fï?)
EXEMPLO 10. A função f: [R -› R, definida por f(x) = xl, é uma bi-
jeção contínua, com inversa contínua gc [R -› R, g(y) =
= Tem-se f'(a) = 3a2. Logo f'(a) sé 0 para a ai 0 mas f'(0) = 0.
Logo g

corolário acima nos dá g'(b) =

não faz sentido para b = 0.


à = É
não possui derivada no ponto 0 =f(0). Para a ak O e b = a3 o

fórmula que, evidentemente,

A derivada e o instrumento por excelência para estudar o crescimento


de uma função na vizinhança de um ponto. O teorema seguinte e seu
corolàrio nos dão uma indicação de como isto é feito. Resultados “globais”,
que levam em conta a existência da derivada em todos os pontos de um
intervalo, serão estabelecidos no parágrafo seguinte.
Diz-se que uma função f: X ¬› R possui um máximo local no ponto
aeX quando existe 6 > 0 tal que xeXr'\(a-ô, a + ö)==›f(x) 5/'(a).
Quando vale a implicação xe(X- {a})n(a-ã. a + ô)=›f(x) <f(a), di-
remos que ƒ possui um máximo local esrrito no ponto a. De?niçöes anáf
logas podem ser dadas para um mínimo local e para um mínimo local
eslrito.

EXEMPLO ll. A função f: [R ¬› lR,f(x) = xz, possui um mínimo local


estrito _no ponto 0. A função g: R-› IR, g(x) = sen x,
208 Curso de análise

n
. , . .
possui maxlmos 1oca|s estntos nos pontos (4k +
_

1)ïe , .
minimos locars es-
.

tritos nos pontos (4k-1)%, kel. Uma função constante possui maximo
local mínimo local (não-estrìtos) em cada ponto do seu dominio. Já
e

I1: [R deñnida por I1(x)=l se x 2 0 e h(x) =-1 se x < 0 tem um


-+ IR,
máximo local (não-estrito) no ponto O, o qual não é um minimo local.
A função (pz [R -› R, (p(x) = xl 1 + senš se x aé 0_ (p(0) = 0,é contínua

e possui um mínimo não-estrito no ponto 0. Tem-se q›(x) 2 0 para todo x,


41(0) = O e em qualquer vizinhança de 0 há pontos x tais que <p(x)
= 0.
Se uma função não-decrescente f: X -› R possui derivada num ponto

a, deve ser f'(a) 2 0 porque para todo x aå a tem-se Q?w 2 0. Ana-

f
logamente, se existe f'(a) e é não-crescente, então j"(a) 5 0. Observe
f
que crescente não assegura f'(a) > 0, como mostra a funcxìo crescente
f(x) =