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Lampião

e seu irmão, Antônio, em 1926

LUIZ BERNARDO PERICÁS



ensaio de interpretação histórica

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etc. na versão impressa do livro. Por este motivo, é possível que o leitor
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mantém integralmente reproduzido.

Agradecimentos

Introdução

Teoria do banditismo social

Origens de classe e motivações para a entrada no cangaço

Mulheres e crianças dentro do cangaço

Relações sociais e estrutura dos bandos

Caderno de imagens

Aspectos militares de volantes e cangaceiros

Punições, torturas e a questão “racial” no cangaço

Secas e crises econômicas

Prestes, Lampião, o movimento operário e os comunistas

O cangaço entre o arcaico e o moderno

Conclusões

Documentos

Notas

Siglas

Tabela de conversão de mil-réis em dólares

Bibliografia

Créditos das imagens

Sobre o autor

El espíritu de los hombres flota sobre Ia tierra en que vivieron, y se les


respira.
José Martí

I’ve found you got to look back at the old things and see them in a new light.

John Coltrane

A veces es necesario alejarse de Ias cosas, poner un mar de por medio, para
ver Ias cosas de cerca.

Alejo Carpentier

Foram várias as pessoas que me apoiaram ou me auxiliaram, de diferentes
maneiras, durante o processo de elaboração deste trabalho. Por isso, sem
querer me estender aqui mais do que o necessário, gostaria de agradecer a
meus pais e avós, Graziela Forte, Patrícia Murtinho Pericás, Paulo Ribeiro da
Cunha, João José Reis, Luiz Alberto Moniz Bandeira, Fabrizio Rigout,
Werner Altmann, Osvaldo Coggiola, Antônio Rezk, Carlos Seabra, Lincoln
Secco, Marcos Del Roio, Anita Leocádia Prestes, Marly de Almeida Gomes
Vianna, Virgínia Fontes, Maria do Rosário Caetano, Kydelmir Dantas, José
Menezes Gomes, Seth Garfield, Lúcio Villar, Jennifer Potter-Andreu, Jennifer
Mailloux, Alexandre Linares, Bernardo Ricupero, Alexandre de Freitas
Barbosa, Antonio Rodrigues Ibarra, Herbert Amaral, Paulo Barsotti, Ivana
Jinkings, Clemencia Pericás, Ahmet Savas Gurkan, Expedito Correia, José
Vieira Camelo Filho, Hugo Rodas, Antônio Abujamra, Gregório Bacic,
Edgard Telles Ribeiro, Adélia Paiva, Mauro Azeredo, André Martins, José
Sepulveda, José Carlos Pacini, Geraldo Ferraz de Sá Torres Filho, Raúl
Antelo, Michael Lõwy, Ayrton Fausto, Marco Fernandes Brige, Heloísa
Fernandes, Ana Paula Sousa, João Alexandre Peschanski, Luiz Sérgio
Henriques, Rodrigo Nobile, Ana Maria Straube, Brasília Carlos Ferreira,
Michel Zaidan, Hugo Cortez, José Arbex, João Pedro Stedile, Jorge Pereira
Filho, Roberto Massari, Antônio Amaury Correa de Araújo, Alberto da Costa
e Silva, Marcelo Ridenti, Rubens Ricupero, Mansa Ricupero, Sérgio Augusto
de Souza Dantas, Diogo Valença, Antonio Melis e Frederico Pernambucano
de Mello.

Muito já foi escrito sobre o cangaço, tema extensamente discutido e analisado
por uma grande quantidade de autores. Boa parte das obras sobre o assunto,
contudo, é de caráter basicamente narrativo. Escritas em linguagem quase
literária (e, por vezes, preconceituosa) ou então para justificar certos
posicionamentos políticos, nem sempre poderiam ser caracterizadas como
“estudos” ou investigações mais sofisticadas. Ou seja, alguns desses textos -
muitos dos quais biografias ou esboços biográficos -, ainda que, sem dúvida,
interessantes do ponto de vista histórico, não citam fontes e utilizam
determinados termos para descrever os cangaceiros que, em grande medida,
seriam inaceitáveis na atualidade.

Um dos mais conhecidos exemplos disso é Ranulfo Prata, autor de


Lampião (1933). De acordo com o médico sergipano, o “governador do
sertão” seria um “sátiro, dominado de supersexualismo, denunciador de
desequilíbrio somático evidente”’, assim como um homem cruel, vaidoso e
religioso’. Seu retrato de Virgulino Ferreira e de outros bandoleiros foi
elaborado a partir de descrições e depoimentos de terceiros que, supõe-se,
tiveram contato com ele. Prata, filho de um “coronel”, nunca se encontrou em
pessoa com o “governador do sertão” e escrevia do ponto de vista da defesa
da legalidade.

Lampeão, sua história, de Érico de Almeida (1926), é outro caso


emblemático. O jornalista paraibano dedica um capítulo inteiro para elogiar
de maneira desmedida e laudatória o “honrado”, “íntegro”, “justiceiro”,
“generoso”, “leal”, “firme”, “bravo” e “enérgico” presidente do estado João
Suassuna, homem que não economizava esforços nem sacrifícios para lutar
contra o banditismo no sertão. Esse político seria, nas palavras de Almeida,
um “titã”, com inteligência, caráter e operosidade de “brilho incomparável”.
Nesse livro, aparentemente encomendado por Suassuna e financiado pelo
deputado José Pereira Lima, o autor ainda diz que o perfil daquele “insigne
estadista’ reproduzia um herói de Plutarco, inacessível à dissolução moral de
sua época: por isso, a confiança do povo naquele político seria ilimitada3.
Virgulino Ferreira, por sua vez, seria um “superbandido”, que nasceu e viveu
para os crimes mais hediondos. Ele matava por esporte, roubava por devoção,
desonrava para humilhar e incendiava para se divertir4.

Mas existe também o caso inverso. Sempre houve aqueles que fizeram
apologias desmesuradas ao criminoso. Entre eles, Eduardo Barbosa, em
Lampião, rei do cangaço, uma narrativa romanceada, igualmente tendenciosa,
mais próxima da fábula que da realidades. O cronista, de modo diferente dos
autores supracitados (baseado quase por completo em “causos”, histórias
populares, supostas conversas com bandoleiros e apenas sete livros), excede-
se nas louvações e não se cansa de insistir nas qualidades do salteador. Diz ele
que:

Todos nós temos o nosso lado bom e nosso lado mau. No Rei do
Cangaço, triunfou o lado bom, depois de conhecer Maria Bonita. Assim,
podemos afirmar que Lampião foi nosso Robin Hood ou o Dick Turpin
das picadas do sertão. Contra todas as afirmações contrárias, aí estão as
inúmeras canções, poemas e lendas sertanejas que imortalizam Lampião
como o protetor dos humildes e desamparados.6

Em outro trecho típico, desta vez sobre a entrada de Virgulino em uma


cidade do interior, afirmava que

o povo - os humildes que o amavam e que viam na sua imponente figura


o defensor dos seus direitos contra as injustiças dos coronéis e políticos
influentes, atraídos pela algazarra da molecada - acorreu às ruas
aclamando em altos brados seu ídolo.’

O que se pode perceber é que livros como esses, certamente escritos num
contexto muito específico e que representam, de certa forma, “documentos de
época”, não obstante, devem ser lidos com bastante distanciamento.
O campo literário, por seu lado, também foi um ambiente fértil para o tema
do cangaceirismo. Romancistas, contistas e memorialistas como Franklin
Távora, Ulysses Lins de Albuquerque, Graciliano Ramos, José Lins do Rego,
Maximiano Campos, Rodolfo Teófilo, Carlos Dias Fernandes e até mesmo o
pintor Di Cavalcanti, como tantos outros, retrataram o fenômeno ou
iluminaram alguns de seus aspectos por meio de narrativas ficcionais ou
biográficas (mesmo que apenas em capítulos ou trechos isolados de suas
obras), e mesmo não produzindo análises necessariamente precisas do
brigandage nordestino, ainda assim ajudaram a compreender a importância
daqueles elementos não só em termos sociais como também no imaginário da
população sertaneja de sua época.

Mais tarde, começaram a surgir interpretações de estudiosos politicamente


à esquerda, enfocando principalmente o contexto de injustiça social do sertão
para, de certa forma, entender e até mesmo justificar o desenvolvimento do
cangaceirismo. Autores como Rui Facó8 e Christina Marta Machado, fossem
de origem partidária, jornalística ou acadêmica, em alguns casos também se
mostravam condescendentes com os bandoleiros, vendo neles quase que
“embriões” de possíveis guerrilhas populares no interior da região. Essas
análises pioneiras, que enfatizavam a questão social no campo, (mesmo sendo
tentativas mais sofisticadas que a de seus antecessores), ainda assim não
apresentavam um quadro completo das motivações e da atuação de grande
parte daqueles bandoleiros.

É claro que há exceções. Diversos scholars, nacionais e estrangeiros,


trabalharam o tema com grande competência. Cabe aqui destacar, entre
outros, Frederico Pernambucano de Mello e seu Guerreiros do sol, certamente
uma das mais sofisticadas interpretações do cangaceirismo10. Também vale
mencionar os trabalhos do brasilianista Billy Jaynes Chandler” assim como o
antropólogo Jorge Villela, que com o seu O povo em armas dá uma
importante contribuição para o estudo do banditismo rural nordestino no
período da República Velha, especialmente por meio da análise de vasta
documentação’.

Mesmo assim, pode-se dizer que ainda há um campo bastante amplo para
novos estudos e enfoques sobre o tema. Afinal de contas, como dizia Roland
Barthes,

não há nada de espantoso no fato de um país retomar assim


periodicamente os objetos de seu passado e descrevê-los de novo, para
saber o que pode fazer deles: esses são, deveriam ser, procedimentos
regulares de avaliação.13

É importante aqui dizer o que entendemos por “cangaço”. O termo,


aparentemente, teria sido utilizado pela primeira vez com o sentido atual já
nas décadas de 1830 e 1840, pela população do sertão nordestino, de acordo
com alguns estudiosos 14, ao passo que, segundo outros, essa designação era
usada da forma corrente desde o século XVIII, ainda que a “função” dos
cangaceiros, na época contratados por colonizadores, fosse a de perseguir
índios”. Essa segunda versão, contudo, é menos provável. De qualquer forma,
no dicionário mais antigo da língua portuguesa, o Vocabulário portuguez e
latino, do padre Raphael Bluteau, publicado em Coimbra, entre 1712 e 1728,
não consta a palavra 11cangaço”16. Para Luís da Câmara Cascudo, a palavra
teria sido empregada pela primeira vez em dicionários em torno de 1872, por
Domingos Vieira, e significava uma “reunião de objetos menores e confusos,
utensílios das famílias humildes, mobília de pobre e escravo”. A definição que
mais se aproxima do que se entende por “cangaço” nos dias de hoje,
entretanto, é o registro de Henrique de Beaurepaire Rohan, em seu Dicionário
de vocábulos brasileiros (publicado no Rio de janeiro pela Imprensa Nacional,
em 1889), que indica o “conjunto de armas que costumam conduzir os
valentões”. Essa talvez seja a definição dicionarizável mais antiga do termo
relacionado especificamente ao banditismo rural nordestino‘7. Juvenal
Galeno, contudo, já em 1871 fizera uso dessa palavra no livro Cenas
populares”; Franklin Távora a empregou também numa obra literária, o
romance histórico O cabeleira’, publicado em 1876; e, um pouco mais tarde,
Irenêo Joffily faria mais uma vez menção ao cangaço em seu Notas sobre a
Parahyba20, de 1892. De qualquer forma, o que se pode dizer é que desde o
início do período republicano (o período que estudaremos com maior
detalhamento) as designações “cangaço” e “cangaceiros” já eram
mencionadas de modo constante em documentos “oficiais”, como diligências
policiais, sentenças judiciais e cartas entre delegados e juízes, para descrever
os bandidos sertanejos.

Uma explicação para a origem do termo pode ser encontrada na palavra


“canga’, que deu o nome tanto a um equipamento de tortura (que teve uma
variante usada no período da escravidão no Brasil) como à própria cangalha,
usada no lombo do boi e de outros animais de tração’. No primeiro caso,
assemelhava-se ao “tronco”, que, nas palavras de Rodrigues de Carvalho,
podia ser descrito como:

Um aparelho constante de viga infincada, com uma tábua de sucupira em


forma de meia-lua, tendo uma abertura em que o prisioneiro colocava
uma perna, suspensa, firmando-se na outra na altura que o feitor
quisesse.22

O médico austríaco João Emanuel Pohl, que esteve em viagem pelo país na
década de 1820, disse que

consiste em duas pranchas de madeira, uma deitada sobre a outra e que


se adaptam perfeitamente, cada uma com o comprimento de duas braças,
a altura de pé e meio e a espessura de três polegadas. Nelas há três
aberturas, nas quais são apertados ambos os pés e ao mesmo tempo o
pescoço do delinqüente. Conseqüentemente, é esse tronco uma
modificação do cavalete, outrora geralmente usado na Europa e que
aqui, conforme eu soube mais tarde, é empregado freqüentemente por
simples maldade da milícia e inteiramente ao seu arbítrio.23

Por seu lado, Jean-Baptiste Debret comentava:

É comum encontrar-se em casa do fazendeiro brasileiro um tronco,


antigo instrumento de castigo, formado por duas peças de madeira de
seis a sete pés de comprimento, presas a uma extremidade por
dobradiças de ferro e munidas na outra de cadeado cuja chave fica em
mãos do feitor. O fim desse dispositivo é de sobrepor as duas partes dos
buracos redondos, através dos quais são passados punhos ou pernas e às
vezes o pescoço dos torturados. O instrumento é em geral colocado num
barracão fechado ou num sótão.24

Continuava:

É nessa atitude incômoda que se mantêm os negros fugidos, a fim de


esperar os castigos que devem receber mais tarde. Também se prende
assim todas as noites o escravo excitado pelo desejo. O negro
indisciplinado sofre constantemente essa tortura até ser vendido a um
habitante das minas, que o emprega na sua exploração. Em geral o negro
[…] sofre pacientemente esse castigo […] e se resigna sem grande
dificuldade a um mal que participe mais do tédio que da dor.25

O tronco, portanto, nas palavras de José Alípio Goulart, seria uma espécie
de “primo-irmão” da canga chinesa. Foi usado principalmente em escravos
africanos, mas também, em alguns momentos, em trabalhadores livres. Isso
explica a associação popular do aparelho com a ideia de subjugação e
opressão. Ditos como “nesse pescoço não se bota canga’, assim, eram usados
por indivíduos para indicar liberdade, altivez, independência e dignidade.

Já a cangalha26, ou canga de boi, é um instrumento composto de duas


forquilhas de madeira, tendo como distância aproximadamente três palmos
entre uma e outra, emborcadas e presas por traves laterais - designadas como
“prendas” - enquanto em sua parte interna tiras de couro (repuxos) seguram a
esteira de palha, albardão de molho de junco amarrados e justapostos,
colocado sobre o lombo do animal de carga. Ainda são incluídos aí a
barrigueira ou “cilha” (cinturão de couro afivelado), a rabichola e o peitoral,
implementos para garantir a plena estabilidade do aparelho. Justamente nos
cabeçotes das forquilhas são dependurados os instrumentos de transporte de
carga27.

O carro de boi teve, ao longo dos séculos, um papel extremamente


importante na paisagem rural nordestina. Um estudioso das relações sociais
no hinterland chegou a afirmar que o veículo seria fruto da monocultura e do
individualismo econômico, e que, sem ele, o senhor rural não teria existido28.
Esse meio de transporte e de carga esteve presente nas minas, nos engenhos e
no comércio. O carro de boi tinha inclusive a função de “carruagem” para as
elites rurais até o início do século XX, enquanto servia também para conduzir
bandas musicais que se deslocavam entre cidades do interior para se
apresentar em festas tradicionais29. Foi, de fato, fundamental na penetração e
na “conquista” do vasto setentrião, em especial naquelas localidades onde não
havia rios navegáveis. Sua função social, doméstica e econômica é
incontestável.

O carro de boi ajudou a construir uma “imagem” do sertão, dando-lhe uma


feição bem característica. Foi tão importante que deu origem a diversos
topôni mos, como Carro Quebrado e Passagem do Carro, no Rio Grande do
Norte, por exemplo. Entre os distintos utensílios do carro, como cambões30,
chavelhas31, tiradeiras32, canzis33, brochas34, tamoeiros35 e correias de
chifres36, a canga se destaca por seu tamanho, formato e função. Portanto,
não é de estranhar que uma peça tão característica de um elemento de
tamanha importância econômica no interior nordestino fosse tornar-se
simbólico dentro do imaginário popular sertanejo. E que esse aparelho
pudesse ser utilizado como referência para ilustrar ou designar tanto alguma
região, como a Baixa da Cangalha e as serras da Cangalha (Bahia) como
talvez também alguma modalidade ou fenômeno social como o cangaço.

Nesse caso, há duas alusões mais comuns relacionadas de forma específica


à canga. Uma delas compararia a subordinação ou dependência dos
cangaceiros aos “coronéis”, que supostamente imporiam seu domínio sobre os
asseclas, como se fosse um instrumento de prisão e tortura (ou uma cangalha
sobre o lombo de um animal); e outra, que associaria a canga aos apetrechos
que os cangaceiros traziam pendurados no corpo. Houve quem dissesse,
entretanto, que a ligação do termo “cangaço” com a canga de boi se daria por
causa da proximidade que ficavam os animais, “juntos” uns aos outros pelo
aparelho de madeira. O conceito, nessa acepção, denotaria “união”37.

A sugestão de que a palavra estaria associada, de alguma forma, a uma


versão do ditado popular “estar debaixo de Deus”, ou seja, “estar debaixo do
cangaço”, certamente com uma conotação positiva (ao indicar não a
subjugação, mas “estar protegido” pelos bandos armados), nos parece, aqui,
menos provável, ainda que a mesma expressão, com um sentido distinto, o de
estar constantemente vivendo sob o uniforme e o armamento característicos
dos bandoleiros (símbolos imagéticos daqueles salteadores), como já
mostramos, é uma possibilidade bem mais factível. Nesse caso, “cangaço”
significaria o estilo de vida dos bandoleiros.

É difícil ligar a palavra a uma corruptela do cariri Cayacu (Kâyacu), ou


“lua”, em português, conectando, de alguma forma, os salteadores a criaturas
“noturnas”, quase invisíveis, que surgiriam desavisadamente no meio da noite
para realizar seus ataques38; mas há quem defenda, como os folcloristas
Pedro Batista e Batista Caetano, que a origem do termo vem, de fato, da
palavra indígena (abanheenga) cang (kang), outra grafia para a palavra de
origem tupi acanga ou akanga, equivalente a cabeça ou crânio, para alguns39,
ou a “ossada” ou esqueleto de animais domésticos ou selvagens, para outros.
Nesse caso, seria comparável a uma armação de ossos com o conjunto de
armas e equipamentos dos salteadores”

Popularmente, o binômio “cangaço independente” (em especial no período


lampiônico) está associado aos bandoleiros “autônomos”, sem vínculos
diretos com “coronéis”, que carregavam uma boa quantidade de equipamento,
armamento e munição, e que atuavam no Sertão e nos limites do Agreste
nordestinos, cruzando as fronteiras de vários estados, agindo em geral, no
início, com o argumento de vingança, de preferência interfamiliar41 (ou
ingressando nos bandos como “refúgio”, para proteger-se da perseguição da
polícia ou de outros inimigos), para em seguida utilizar essa modalidade de
banditismo rural como forma de sobrevivência, ou seja, para obter ganhos
materiais por meio de roubos, saques e extorsões, ainda que, como veremos
adiante, a atividade, dependendo dos indivíduos envolvidos, tenha
apresentado diferentes variáveis e motivações, que devem ser analisados a
partir de cada caso específico. De forma geral, contudo, o conceito relaciona-
se ao mesmo tempo aos apetrechos do bandoleiro e a seu meio de vida,
principalmente nas áreas do interior nordestino.

Nossa intenção é discutir o período aproximado de 1890 a 1940, quando os


mais importantes líderes do cangaço independente, Antônio Silvino, Sinhô
Pereira, Ângelo Roque, Jararaca, Lampião e Corisco, entre outros, atuaram,
época essa em que se pode identificar uma atuação cada vez mais autônoma e
de maior mobilidade na região. Esse é o interregno, portanto, que compreende
a instauração da Primeira República até o início do Estado Novo. Por isso,
não analisaremos minuciosamente o cangaço em sua forma embrionária, em
momentos históricos anteriores.

É possível encontrar diversos exemplos de banditismo no Brasil antes do


período áureo do cangaço, sem dúvida. No Nordeste, salteadores de projeção
regional atuaram tanto na Zona da Mata e Recôncavo Baiano, como no
agreste e no sertão da Bahia, de Pernambuco e de outras províncias. Mas
esses marginais não só não eram, na maior parte do tempo, denominados
“cangaceiros”, como também não apresentavam vários dos traços que a
modalidade teve em sua maturidade, traços esses que serão analisados ao
longo deste trabalho. São conhecidos os episódios de soldados holandeses que
agiam como bandoleiros ou de bandeirantes paulistas que se desgarravam de
suas missões expedicionárias no Sertão nordestino, na segunda metade do
século XVII, organizavam grupos de salteadores que “não conheciam Rei,
nem Justiça’ e começavam a cometer todos os tipos de delitos. Um desses
casos registrados na historiografia brasileira foi o da invasão de Porto Seguro
por quarenta bandoleiros paulistas que mataram, estupraram e saquearam toda
a cidade42. No século XVIII se destacou o pernambucano José Gomes, mais
conhecido como o Cabeleira. E mais tarde, já na primeira metade do século
XIX, houve bandidos como o baiano Lucas Evangelista dos Santos, o
afamado Lucas da Feira (que atuava em Feira de Santana, Bahia, e
adjacências), que podem ser vistos como precursores do que se definiu mais
tarde como cangaço43. Nesses casos, ainda que se pudessem apontar certas
características similares às apresentadas posteriormente, não havia uma
organicidade nem algo próximo a uma cultura disseminada desse tipo de
criminalidade. Ainda não existia uma “imagem” definida do ator
“cangaceiro” como figura emblemática e representativa do painel social do
Sertão nordestino. A dimensão do fenômeno era mais restrita, como também
sua influência na região.

Trabalharemos, isso sim, com as quadrilhas “autônomas”, com o cangaço


como é conhecido na atualidade, ou seja, um fenômeno já identificável em
meados do século XIX e que chegou à sua maturidade nas primeiras décadas
do XX, com figuras de relevo como Antônio Silvino, Sinhô Pereira e
Lampião.

Em outras palavras, se vários bandos independentes podiam ser detectados


pelo menos desde a década de 1850 (e até mesmo antes), será somente a partir
dos anos 1890 que o cangaço deixará de ser endêmico para se tornar
epidêmico. Entre 1850 e 1889, de acordo com a análise de relatórios de todos
os presidentes de província nordestinos (e de outros documentos), realizado
por Hamilton de Mattos Monteiro, existiam 47 grupos importantes de
salteadores atuando intensamente em toda a região44. Entre os mais
importantes estavam os Viriatos, os Meirelles, os Quirinos e os Calangros.
Mas, para se ter uma ideia, só entre 1919 e 1927 (um período de oito anos),
em torno de 54 bandos agiram no Sertão e no Agreste nordestinos45 Isso
significa dizer que o número de grupos e de indivíduos era muito maior, assim
como sua área de atuação mais dilatada.

Os standards dos cangaceiros do século XX também mudaram: a intenção


final era constituir uma forma de viver (e sobreviver) profissionalmente do
cangaço. A ferocidade dos marginais, no período lampiônico, foi muito
superior à apresentada no período anterior. As torturas e os assassinatos com
requintes de crueldade se tornaram mais comuns e disseminados.

O espaço temporal que propomos representou, assim, basicamente o


momento de ápice e decadência dessa modalidade de banditismo rural,
característico unicamente do Sertão e do Agreste46 da região Nordeste do
Brasil. Dizemos aqui “unicamente”, mesmo estando cientes de casos
aparentemente similares em outras partes do planeta. Afinal de contas, a
violência no meio rural não é “privilégio” de nenhum povo em particular.

Ou seja, epidermicamente, o cangaço e certos casos de banditismo rural no


mundo são parecidos, com elementos como vingança e proteção a bandidos,
por exemplo, que podem ser encontrados em distintas partes do planeta. Mas
essas similaridades ficam só na superfície. Há, de fato, elementos conjunturais
e estruturais que dão ao fenômeno características culturais muito particulares,
como a indumentária, a linguagem, as táticas de guerrilha, as relações com as
mulheres, com os sertanejos, com os fazendeiros e com a polícia, que, mesmo
com possíveis semelhanças com casos análogos em outros países, só podem
ser entendidas plenamente dentro do próprio processo evolutivo histórico do
Sertão e Agreste nordestinos. O cangaço, assim, seria mais do que apenas
uma manifestação da marginalidade; ao longo do tempo, imbuiu-se de uma
diversidade de elementos culturais peculiares que lhe forneceriam uma
“estética” e uma “construção” social muito singulares. Por isso, preferimos
estudar o caso a partir de suas especificidades.

Para se entender toda a complexidade da dinâmica social do Sertão e do


Agreste nordestinos, o surgimento e o fim do cangaço “independente” e as
implicações que ele exerceu sobre as populações locais é necessário abordar
os diferentes fatores de aparentes “imobilidades” e sobrevivências de
resquícios culturais, como também as rupturas e modificações conjunturais e
estruturais na região. A compreensão dos distintos traços característicos do
modus vivendi local, do misticismo, do fanatismo, das superstições, da
religiosidade, do “coronelismo”, das disputas familiares, da estrutura política
e administrativa sertaneja e agrestina, e a presença de jagunços e coiteiros
dentro da chamada “Civilização do Couro”47 são fundamentais, assim como
um levantamento e uma análise do surgimento e da expansão das ferrovias,
estradas de rodagem, movimento operário nas capitais em contraposição a um
suposto isolamento (ou pelo menos, um maior distanciamento) das
populações das áreas mais afastadas, a superestrutura jurídica estadual e
federal, a entrada de capitais e investimentos nos diferentes estados
nordestinos, as políticas dos governos federal e estaduais em relação ao
banditismo rural, o mercado de trabalho, os ciclos de secas, o ambiente físico,
as migrações populacionais, a industrialização do país, a economia nacional,
as mudanças e modernização do Estado brasileiro, entre outros fatores. Ou
seja, uma combinação de todos esses elementos. Explicações simplistas,
exclusivistas, não conseguem compreender satisfatoriamente o fenômeno, que
deve ser discutido a partir de uma realidade multidimensional. As raízes do
brigandage nordestino moderno são profundas e complexas.

Ainda assim, muitos autores tentaram entender o Sertão e o Agreste


enfatizando em excesso alguns de seus aspectos específicos, como as
características físicas do homem da região, suas manifestações psicológicas,
sua tessitura emocional ou a influência do espaço geográfico e climatológico
local. Essa hipertrofização de certas facetas produziu, por vezes,
interpretações incompletas que reforçavam os mesmos clichês sobre uma
sociedade que, como qualquer outra, sempre apresentou uma variada gama de
experiências, padrões e valores culturais. Por isso, essa macrorregião não
pode ser vista num flagrante único e estanque, com uma paisagem
relativamente homogeneizada, mas sim interpretada como um ambiente muito
mais dinâmico do que se pensa, com uma série de características, por vezes
desprezadas pelos estudiosos, que vão do conservadorismo cultural latente até
as renovações, adaptações e incorporações, tanto em termos materiais como
nas formas de convivência social.
Num mesmo grupo de cangaceiros, por exemplo, seria possível encontrar
indivíduos de estados diferentes da federação, com experiências de vida
distintas, formas de falar e agir peculiares, traços de religiosidade e
relacionamentos pessoais que não necessariamente se assemelhariam em
demasia às experiências de seus colegas de armas. Mesmo que alguns
elementos psicológicos pudessem, de fato, diluir-se ou mesclar-se aos do
grupo, por força da convivência e da necessidade, outros perdurariam no seu
inconsciente e permaneceriam no foro íntimo por longo tempo. Dentro das
fileiras do brigandage nordestino, em seu período “moderno”, houve
indivíduos tão díspares e variados quanto alguns escravos recém-libertos (ou
filhos destes), agricultores, comerciantes, almocreves, foragidos da justiça,
desertores da Força Pública e do Exército, fazendeiros, negros, brancos,
cafuzos, caboclos, paraibanos, baianos, potiguares, alagoanos, sergipanos,
cearenses e pernambucanos. E até mesmo aqueles (ainda que não fosse a
regra) que conheciam São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de janeiro e outros
estados nordestinos, que falavam um pouco de latim, de inglês e de francês, e
até mesmo que chegaram a se tornar “comunistas”. Isso tudo mostra como
eram heterogêneos os tipos humanos e os bandos da época. Alguns daqueles
homens eram decerto mais cosmopolitas do que se pode supor.

Essas quadrilhas podiam inicialmente ser formadas pela reunião de um pai


com seus filhos, por um grupo de irmãos, por primos, por parentes e
contraparentes e seus agregados ou com quaisquer outros que tivessem algum
laço de parentesco direto ou indireto, para depois incorporar outros elementos
da região48.

O hinterland nordestino, tanto em termos físicos (como topografia,


incidência pluviométrica, tipos de solo, vegetação, geologia e fauna), quanto
em relação a seus tipos humanos, portanto, não é homogêneo. Aquela parte do
setentrião brasileiro certamente era, e continua sendo, diversificada.

A região em si nunca foi completamente uniforme. O próprio Polígono das


Secas é bastante vasto. Composto de amplas áreas áridas, distintas entre si,
inclui o Sertão49, o Seridó50 e o Agrestes’, com carrascos, serras e caatinga;
sua paisagem característica é marcada pelo xerofilismo (uma vegetação baixa
e espinhenta), em solo pedregoso e seco.

A Caatinga, que se espalha pelas sub-regiões do Seridó, Sertão, Cariris


Velhos, Carrasco, Agreste, Curimataú e Cerrado, vai do norte de Minas Gerais
até o Piauí, se estendendo por aproximadamente 800 mil quilômetros da
superfície total nordestina. Dentro da região Nordeste, sem a Bahia, possui
uma área de 27.497.171 hectares e, incluindo aquele estado, abrange
60.246.021 hectares. É, dos grupos florísticos ou associações vegetativas
naturais, a que ocupa maior área no Nordeste seco.

É necessário salientar que o revestimento de flora do Sertão e do Agreste


foi modificado ao longo de várias décadas. Esses dois sistemas (em especial o
segundo), na época do cangaço epidêmico, já apresentavam um aspecto
relativamente distinto do original. Foi nesse ambiente geográfico
“transformado”, alterado pelo clima e pelo homem, que os bandoleiros
transitavam.

A ocupação humana, com a expansão das fronteiras agrícolas e de criação


de gado, por exemplo, cambiou de modo significativo a paisagem natural do
Agreste, onde, já na primeira metade do século XX (o período áureo do
cangaceirismo epidêmico) predominava uma vegetação de pequeno porte, em
geral de velames e cactáceas, das quais se destacam os mandacarus,
xiquexiques, alastrados, palmatórias e cardeiros. Também se misturavam
naquele espaço algumas espécies de Mata Atlântica e de Caatinga. Essa
região, originalmente coberta de florestas, foi degradada por completo e
tornou-se de vegetação muito parecida com a do próprio Sertão, ou seja, com
aqueles tipos de plantas e arbustos que conseguiram sobreviver aos processos
agrícolas invasivos, responsáveis por destruir boa parte da capacidade do solo
de sustentar o ecossistema anterior. As formações primitivas de caatingas
densas, com árvores mais altas (como braúnas, aroeiras e angicos), foram
muito reduzidas, se comparadas a quantidade dessas espécies com sua maior
proliferação original.

Um dos grandes culpados pela degradação e pela destruição arbórea no


Agreste e Sertão foi o sistema ferroviário. Como as árvores da Caatinga são
mais compactas (com maior peso específico) do que os das matas úmidas,
possuem maior durabilidade, sua tessitura elástica apresenta uma resistência
mais elevada às vibrações dos trens (que podem afrouxar os cravos em outros
tipos de madeira). Por isso, não é de estranhar que, num período equivalente a
pouco mais de cinquenta anos, centenas de milhares de dormentes fossem
produzidos a partir de braúnas e aroeiras sertanejas e agrestinas; assim como
milhões de metros cúbicos de madeira da região também fossem utilizados
como lenha para os fornos das locomotivas. Por causa do tamanho daquelas
árvores (pequenas se comparadas com as de florestas tropicais), a quantidade
de dormentes que se podia fazer a partir de cada uma delas era menor, o que
contribuiu para uma maior devastação da flora nativas. De acordo com
estatísticas do Serviço de Inspeção Florestal e Proteção à Natureza, de
Pernambuco, só a Great Western Railroad Company, de 1935 a 1945,
consumiu 200 mil metros cúbicos de lenha anualmente, assim como 60 mil
dormentes53

Até mesmo o fogão doméstico sertanejo (o “trempe” de três pedras) teve


sua parcela de responsabilidade na aniquilação da mata local. Apenas no ano
de 1945 (nesse caso, após o fim do cangaço), em Pernambuco, foram
consumidos 12 milhões de metros cúbicos de lenha, fosse ela diretamente
retirada da Caatinga ou transformada em carvão54.

A cobertura vegetal também sofreu com a pecuária extensiva: a criação de


bois, equinos, cabras e bodes, pastando em terrenos abertos, acabava com
raízes, cascas de árvores e arbustos. O constante desmatamento, por seu lado,
foi o responsável pelo aumento significativo da erosão, que já se verificava de
forma natural, naquela área. A serra do Araripe serve como ilustração aqui. O
contínuo processo de erosão fez com que ela chegasse a ser chamada por
alguns de “serra em decomposição’. Não foram apenas as chuvas as
responsáveis pela grande incidência de desmoronamentos de vertentes e o
surgimento de enormes ravinas, como aquelas verificadas próximas do Crato,
Jardim, Nova Olinda e Santana do Cariri. O fator humano desempenhou um
papel fundamental na modificação da paisagem local original. Os
colonizadores da região, de fato, ao se utilizar indiscriminadamente das
“queimadas” contribuíram de modo decisivo para destruir a cobertura vegetal
daquela região. Muita madeira também foi retirada para a construção das
casas de farinha e engenhos de rapadura. Ou seja, queimadas, corte de árvores
constante e aumento vertiginoso da densidade demográfica ao longo das
décadas mudaram bastante o aspecto daquela áreas. E colaboraram para a
diminuição substancial das fontes de água que banhavam o vale e o rio
Salgado, perto de Icó, prejudicando não apenas o meio natural, mas também
toda a população sertaneja que vivia alise

Como dissemos, o hinterland nordestino não era homogêneo nem em


termos humanos nem em termos culturais. As diferenças locais eram bastante
salientes em distintos aspectos, como a indumentária, os hábitos, a culinária,
as crenças, o folclore e o nível cultural da população.

Em algumas regiões, como em Conquista, os vaqueiros não usavam roupa


de couro, enquanto em outras, justamente pelas dificuldades da vegetação
espinhosa e mata de galhos finos, o uniforme completo de encouramento
(quase uma armadura dos pés à cabeça), era uma exigência, uma necessidade
da profissão.

As roupas e as montarias certamente apresentavam diversas variantes


regionais, desde o corte, a decoração e o acabamento de gibões e perneiras até
o design dos cabeçotes das selas e dos chapéus; alpercatas e botas “russianas”.
O formato do chapéu de couro de Camisão, por exemplo, era bastante
distinto, na copa e nas abas, daqueles produzidos e usados em Riachão ou no
Alto São Francisco. De fato, a maneira de quebrar as abas do chapéu
indicava, naquela época, de que ribeira o vaqueiro pertencias. No litoral
agreste do Rio Grande do Norte, por exemplo, os vaqueiros usavam chapéus
de abas mais curtas, alegando maior praticidade e insistindo que a vegetação
mais cerrada e os períodos de chuvas prolongados dificultariam a utilização
de abas mais compridas. Já no alto sertão do estado e no Seridó (pelo fato de
as condições do solo e do clima serem outras), o uso de abas longas, de quatro
a cinco dedos de tamanho, era necessário, considerando que aquele acessório
certamente protegeria melhor os olhos da luminosidade intensa58. Os chapéus
dos tucanistas no estado da Bahia não se assemelhavam aos de outros
vaqueiros. E, ainda que o chapéu de couro fosse o mais comum da região, os
feitos de palha, mais simples, também eram bastante utilizados, sendo
característicos de alguns lavradores e tropeiros59.

Os cangaceiros, “coronéis”, beatos, padres, místicos, vaqueiros, pistoleiros


e jagunços foram elementos sertanejos muito característicos e, em geral, os
mais associados ao ambiente regional em questão. Mas havia também outros
importantes.

Tropeiros, mascates e caixeiros-viajantes, tipos muito comuns naquelas


paragens, davam ao sertão certo caráter de mobilidade e trânsito de
informações e produtos entre litoral e interior. Sua influência no hinterland,
assim, deve ser considerada.

Esses diferentes tipos de atividades profissionais davam relativo


dinamismo à região, com o constante intercâmbio cultural e comercial. A
presença de trans portadores de carga, de vendedores, de alguns imigrantes
europeus” e árabes’ de missionários presbiterianos dos Estados Unidos62 e da
Escócia63, de padres franceses 64, alemães e italianos65, e de engenheiros e
empresários de companhias norte-americanas e europeias66, ainda que em
número reduzido, também ajudou a compor certa diversificação cultural na
região67. Há quem diga, inclusive, que chegou a existir um cangaceiro
turco68 e um francês9, o que mostra uma diversidade possivelmente ainda
maior de indivíduos nas quadrilhas de bandoleiros e na composição étnica e
cultural da região, de forma geral. Por isso, insistimos, o Sertão e Agreste
nordestinos durante a República Velha, ainda que, sem dúvida, mais isolados
e atrasados que as capitais dos estados, não eram ambientes estáticos.

Foi nessa área muito extensa, abrangendo vários estados nordestinos, com
todas as diferenças, especificidades e alterações físicas, humanas e culturais
ocorridas ao longo de muitos lustros, que transitaram os bandoleiros
sertanejos do período contemporâneo.

Para o escritor cearense Gustavo Barroso:

A grande região compreendida entre o rio São Francisco e o vale do


Cariri, estendendose da serra do Quicuncá à do Martins, daí às faldas da
Borborema, aos contrafortes da Baixa Verde e dos Dois Irmãos, é o
habitat do banditismo. Ali se encontram e se aproximam as fronteiras de
sete Estados, tendo nesgas de territórios que se enfiam umas nas outras,
como cunhas. O meio, a cumplicidade do habitante e a facilidade de
fugir dum Estado para o outro oferecem guarida segura a todos os
criminosos.70

Vale dizer aqui que a “região”71 deve ser vista como uma zona mais ampla
e complexa, um ambiente que mescla os aspectos geográficos e naturais com
os traços históricos e culturais de sua população. É nesse sentido que o
historiador Fernand Braudel comenta sobre a importância da combinação dos
aspectos geográficos e sociais na análise histórica, ao afirmar, para casos
similares, que “a geografia deixa de ser um fim em si para converter-se em
um meio; nos ajuda a recriar as mais lentas das realidades estruturais…“72.
De qualquer forma, como já afirmava Milton Santos:

A região é um quadro arbitrário, definido com propósitos políticos,


econômicos ou administrativos. Sua identificação, delimitação e
construção estão ligados à noção de diferenciação de áreas, ao
reconhecimento de que o território é constituído por lugares com uma
ampla diversidade de relações econômicas, sociais, naturais e
políticas.73

Ou seja, para ele,


este ponto é tão importante, posto que retira do conceito de Região uma
idéia de naturalidade - quer de área física, quer de cultura comum, quer
de território -, que chegou a influenciar e limitar a análise de geógrafos
importantes como Vidal de La Blanche.74

Cabe aqui também fazer uma rápida referência ao termo “sertão”, ainda,
em grande medida, de origem incerta. Imprudentes são aqueles que afirmam
peremptoriamente que a palavra é necessariamente uma corruptela ou
diminutivo de “desertão”75. Para uma diversidade de léxicos, o termo, que é
usado no Brasil desde o início da colonização, significaria local afastado dos
terrenos cultos ou da costa, coração das terras, interior, região pouco habitada
ou deserta. Daí inferir que “desertão” teria como possível variante, a
abreviatura “sertão”, a partir do chamado “deserto grande”, as localidades
despovoadas da África Equatorial portuguesa. O fato é que a outra forma de
grafia da mesma palavra, inclusive mais antiga, é “certão” (ou “cercam”), o
que retira substancialmente a força da teoria citada anteriormente. O “certão”,
com a letra “c”, era termo corrente em Portugal desde o século XVI, e
designava até mesmo o interior daquele país, que não era deserto, sendo
usado constantemente dessa forma até o século XVIII, só passando a ter
maior proeminência a versão “sertão”, com “s”, mais tarde. É bem verdade
que alguns dicionaristas optam por dar um sentido distinto à palavra, ou seja,
equivaler o termo a “floresta” ou “mato distante do litoral”. Mas, na prática,
não há nenhuma sugestão de deserto, despovoado ou solidão76. Para Gustavo
Barroso, a origem mais provável da palavra (ainda que não haja garantia de
que seja essa a oficial) pode ser encontrada no Dicionário da língua bunda de
Angola, do frei Bernardo Maria de Carnecatim, de 1804. Nele está incluído o
vocábulo “muceltão”, com sua corruptela, “certão”, ou o locus mediterranus,
que, na prática, quer dizer também interior, região distante da costa. Seria,
portanto, possivelmente um termo derivado do angolano mbunda michitu ou
muchiti, modificado pelos lusitanos, por causa da variação dialetal muchitum,
para “muceltão”, na época, muito usado no interior das colônias portuguesas
da África. Por isso, “celtão” teria se tornado “certão”, e este acabou sendo
disseminado para fora daquelas colônias e começou a ser utilizado em outras
regiões, para indicar áreas distantes da costa. Essa é, talvez, a mais “provável”
origem do termo “sertão”77.

Dentre as mais conhecidas e influentes interpretações do chamado
“banditismo social” (do qual, supostamente, fazia parte o cangaço), é possível
destacar a de Eric J.Hobsbawm em seu Primitive Rebels: Studies in Archaic
Forms of Social Movements in the Nineteenth and Twentieth Centuries’, de
1959, e Bandits2 - publicado dez anos mais tarde -, dois livros importantes,
talvez mesmo “divisores de águas”3. Em Bandidos, ao discutir o cangaço, o
historiador britânico cita Virgulino Ferreira como exemplo para contrapor
outros criminosos de épocas e países distintos, quando talvez o mais correto
para exemplificar suas ideias seria ilustrar o fenômeno com o caso de Jesuíno
Brilhante, o cangaceiro do Rio Grande do Norte que atuou na década de 1870
em três estados da região e que pode ser considerado o protótipo do
bandoleiro romântico4. Mas nem mesmo Jesuíno Brilhante poderia ser
incluído em todos os pontos do esquema proposto pelo autor de Era dos
extremos.

Na verdade, a “teoria” do “banditismo social” de Hobsbawm (pelo menos


quando especificamente relacionada ao cangaço) é questionável. A partir de
um modelo por demais “universalizante”, ele tentou encontrar traços comuns
em determinados tipos de bandidos do meio rural e colocá-los dentro de um
mesmo esquema teórico, usando pouca ou quase nenhuma base documental
para comprovar suas asserções. Suas fontes são, em muitos casos, tiradas das
lendas e do “folclore” popular, constituindo “imagens” idealizadas desses
personagens, que não necessariamente refletiriam a realidade. As narrativas
dos cordéis populares ou dos livros escritos por jornalistas ou militares que
combateram os cangaceiros, mesmo sendo textos interessantes, seriam
“interpretações” filtradas dos relatos reais ou imaginários, e reelaboradas a
partir de desejos, preconceitos e formação dos seus diferentes autores. Assim,
por mais que essas fontes possam ser vistas como documentos de época, não
são de todo confiáveis; destarte, a necessidade de conhecer as diferentes
variantes da mesma história e de realizar uma pesquisa mais aprofundada
sobre o tema.

Para Hobsbawm, os “bandidos sociais” permaneceriam dentro da sociedade


“camponesa’ e seriam admirados e respeitados pela população pobre, que os
consideraria “heróis”, “vingadores”, “justiceiros” e até “líderes de sua
libertação”, desse modo oferecendo-lhes seu apoio’. Seriam vistos como
“símbolos do protesto social”, já que lutavam contra os inimigos de classe dos
“camponeses”: o Estado e os “senhores”, ou seja, os potentados rurais’. Em
outras palavras, esses bandoleiros compartilhariam valores morais e a mesma
visão de mundo de suas comunidades e se tornariam foras da lei em defesa
delas: um protesto social de caráter pré-político e inconsciente.

Prosseguindo, ele dizia que o “banditismo social” não apresentava


organização ou ideologia, seria de todo inadaptável aos modernos
movimentos sociais, tinha uma visão retrógrada, voltada ao passado, tendo
como objetivo reconstituir uma ordem social tradicional, que desaparecia
rapidamente”. As condições para o surgimento desse tipo de banditismo
seriam a pauperização, as crises econômicas, as guerras, as conquistas ou a
ruptura do sistema administrativo10

A tentativa de explicar o surgimento do cangaceirismo a partir da estrutura


econômica nacional e da estrutura agrária” regional existente na época é, sem
dúvida, válida. A estrutura agrária certamente desempenha um papel
fundamental nas relações sociais no campo. Afinal de contas, a forma como
as terras eram apropriadas, a própria produção agropastoril, a
interdependência entre sertanejos e fazendeiros e a presença de agregados e
jagunços nas propriedades rurais regidas por parentelas, compadrios e
disputas familiares foram todos elementos importantes para as relações
clientelistas que possibilitaram o desenvolvimento do “coronelismo” no
Império e na República Velha, assim como também foram fatores que criaram
o ambiente propício para aquele tipo muito específico de banditismo rural.

Na metade do século XIX, há estimativas de que possivelmente menos de 1


% de toda a população rural brasileira possuía terras 12. Boa parte dos donos
de fazendas, nesse caso, era absenteísta e cuidava de seus negócios em
cidades distantes, em geral nas capitais. Isso considerando que a maior parte
dos brasileiros vivia no campo.

A população do Brasil quase dobrou entre 1872 e 1900, indo de pouco mais
de 10 milhões de habitantes para mais de 18 milhões. E de 1890 até 1920
aumentou de 14.334.000 para 27.500.000 pessoas13. A população nordestina,
que era de 4.708. 160 habitantes em 1872, representando 46,6% da população
total do país, em 1890, passava a 6.002.047 (ou 41,9%); em 1900, chegava a
6.749.507 habitantes (o equivalente a 38,7% do total); e em 1920, atingia a
cifra de 11.245.921 pessoas, ou 36,7% do total14. O Nordeste, durante todo
esse período, foi a região de cunho rural mais densamente povoada, possuindo
a maior proporção de habitantes do país15. Para se ter uma ideia, entre 1920 e
1950 houve um aumento de 200% na população do Cariri, que tinha uma
densidade de 34 habitantes por quilômetro quadrado’

Em termos de ocupação, em 1872, 64,1% dos trabalhadores realizavam


atividades na agricultura; em 1900, 53,4%; e em 1920, quando o Brasil tinha
pouco mais de 27 milhões de habitantesn, chegava a 69,7% de toda a
população do país18. A proporção de trabalhadores na agricultura, na
verdade, pode ter sido ainda maior’. Naquele ano de 1920, por exemplo,
havia 648.153 estabelecimentos rurais registrados, com uma produção que
alcançava 275.512 contos de réis20. A população ativa do Brasil era de
9.190.000 pessoas. Destas, 180 mil eram latifundiários ou componentes da
burguesia agrária (2%), 60 mil da burguesia urbana (0,7%), 2.450.000 das
camadas médias urbanas (26,6%), 1,5 milhão de membros da classe operária
e camadas proletárias do campo (16,3%) e 5 milhões, ou 54,4%, faziam parte
do campesinato e dos assalariados agrícolas do país2’. De acordo com Boris
Koval, do total da população brasileira na época, 23 milhões viviam no
campo, dos quais 6,6 milhões de pessoas trabalhavam na produção
agrícola22. Desses agricultores, apenas 648 mil, ou 9,7%, trabalhavam em
suas propriedades. O restante, quase 6 milhões de trabalhadores rurais, não
possuía terras próprias23.

O elemento mais característico no campo brasileiro, de forma geral, ainda


era o latifúndio: existiam 463.879 estabelecimentos agrícolas com área menor
do que cem hectares, o equivalente a 9,9% da área24; eram 157.959 aqueles
que tinham área entre cem e mil hectares, ou 30,6% do rota 125; e 26.318
latifúndios (área entre mil e 25 mil hectares), ocupando 94.668.870 hectares
(numa área média de 4.060 hectares), que correspondiam a 59,5% do total26
(em 1940, por exemplo, apenas 12,6% da população nordestina era
urbana)27. De acordo com o censo de 1920, no Brasil havia 175,1 milhões de
hectares de terras, com uma área útil de 55,5 milhões de hectares. Destes,
somente 6,6 milhões de hectares, ou 1,8%, eram efetivamente cultivados28.

O que se pode dizer em relação ao meio rural nordestino, no começo do


século XX (que possuía uma quantidade considerável de pequenas
propriedades depauperadas, espalhadas e pulverizadas no ambiente sertanejo),
é que um dos padrões de conduta mais comuns dos “coronéis” era a
apropriação de terras e de pequenas fazendas pela força das armas ou a sua
compra de sertanejos endividados (ou que queriam se mudar da região). Iam
se apoderando de tudo em que pudessem colocar as mãos. Um pequeno
número de latifundiários, portanto, anexava, legítima ou ilegitimamente,
propriedades de moradores do sertão, aglutinando territórios, reconfigurando
o espaço econômico regional a seu favor e controlando, política e
economicamente, muitos minifundiários que permaneciam por lá. Era criada
aí uma relação de dependência, de troca de favores e de clientelismo entre os
“patrões” e sua parentela empobrecida, agregados e trabalhadores rurais. Por
outro lado, a ideia de pertencer a um “clã” familiar ou estar ligado a ele,
tradicio nalmente, dava um senso de segurança aos sertanejos, que mantinham
laços de fidelidade com os “coronéis”.

O poder político se associava ao poder econômico e à Igreja, e muitas


vezes se confundia com eles. O Padre Cícero, uma mistura de sacerdote,
político e “coronel”, no final da vida, possuía trinta sítios, dezesseis prédios,
um quarteirão e uma avenida de casas, cinco fazendas com gado e
benfeitorias, assim como uma mina de cobre. Tinha a seu redor um séquito de
fiéis, o qual “ajudava’ com esmolas, preces e palmatórias, fiéis estes que, por
seu lado, também o apoiavam incondicionalmente. Era provavelmente um dos
mais ricos senhores rurais do Cariri cearense de sua época. Tinha relações
estreitas com comerciantes (como Fenelon Gonçalves Pita e Ignacio
Figueiredo), com o “coronel” Chita Fina, e com o Banco de Cariri, que lhe
emprestava dinheiro a juros de 12% ao ano”. Isso para não falar de sua
amizade com Floro Bartolomeu e outros políticos conhecidos. O próprio
Padre Cícero chegou a dizer, certa vez, que, em Juazeiro, ele era o Prefeito, a
Câmara, o Juiz, o Delegado, o Comandante, a Polícia e o carcereiro30.

Mais patente ainda era o que ocorria em Escada, neste caso, na Zona da
Mata pernambucana. A oligarquia açucareira local, como em outras
localidades do Nordeste, tinha o poder econômico e político em suas mãos.
No começo da década de 1860, por exemplo, os três agentes policiais da
localidade (ou seja, o delegado e os dois subdelegados), eram relacionados
por parentesco com o principal “coronel” local, Henrique Marques Lins, e
possuíam, juntos, nove engenhos. Naquele período, dos seus dezessete juízes
de paz, doze eram donos de engenhos, com dezenove plantações. Em 1881,
dos nove membros da Câmara Municipal daquela cidade, três possuíam sete
engenhos. Dois anos mais tarde, o prefeito era dono de cinco engenhos, ao
passo que cinco conselheiros (ou seus filhos) tinham quatorze engenhos. Só o
delegado de polícia, Samuel dos Santos Pontual, era proprietário de treze
engenhos. Ainda na mesma época, dois dos três substitutos do juiz municipal
(parentes do poderoso José Pereira de Araújo e do delegado Santos Pontual)
tinham onze engenhos de açúcar. E doze dos dezesseis juízes (ou seus filhos)
eram donos de um total de dezoito engenhos31

Com tantos interesses políticos e econômicos em disputa, não é de


estranhar que houvesse rivalidades entre diferentes clãs familiares em todo o
Nordeste. Famosas são as disputas por terras, por domínio político ou até por
motivos supostamente fúteis dos Nogueiras, Carvalhos e Saturninos contra os
Pereiras e Ferreiras; dos Morais contra os Cabral em Garanhuns; dos
Calheiros e Cavalcanti Lins contra os Omenas da Silva; dos Fortes Nunes
contra os Malta em Alagoas; dos Alencar contra os Sampaio, em
Pernambuco; dos Limão contra os Calado; dos Montes contra os Feitosas; e
dos Ferraz contra os Novaes, entre outros. Nesse caso, membros de outras
famílias que se sentissem prejudicadas por um elemento de determinado clã
se aliavam às famílias inimigas daquela do indivíduo com o qual tinham um
entrevero. Jagunços e guarda-costas de “coronéis” quiçá se “desgarrassem”
do vínculo umbilical de seus patrões e se tornassem bandoleiros
independentes32. Mas, em geral, eram os próprios membros das famílias
proeminentes do sertão (como os filhos mais velhos, por exemplo), que se
encarregavam de levar a cabo a vingança familiar. E eram vários desses
mesmos indivíduos que se tornavam as principais lideranças do cangaço
moderno.

Ainda que alguns autores afirmem que o cangaço surgiu como um


desdobramento, uma consequência, da atividade de guarda-costas ou do
jaguncismo, é bom lembrar que no período colonial já havia banditismo rural
no Nordeste brasileiro, representado por bandos heterogêneos, como aqueles
compostos por marginais holandeses, elementos desgarrados dos bandeirantes
ou representantes do populacho marginalizado que, nesses casos, não
necessariamente tinham relação com o trabalho de proteção a fazendeiros e a
potentados locais. Seguiam, isso sim, em algumas instâncias, a tradição de
saques e pilhagens dos piratas, dos índios ou dos mamelucos que atuavam
tanto nas cidades do litoral como no interior. Ou seja, há muitas modalidades
de práticas violentas e de indivíduos distintos que podem ter servido como
embrião do que mais tarde veio a ser conhecido como cangaço.

O entrelaçamento dos poderes político e econômico, junto com a


engrenagem jurídica e policial, num ambiente fundiário claramente distorcido
e desequilibrado, por certo teve um peso significativo na formação social e
psicológica do bandoleirismo agrestino e sertanejo. Mas o sistema econômico
brasileiro, de forma geral, e a estrutura agrária capitalista do Sertão nordestino
nos períodos imperial e republicano, por si só, não podem ser considerados as
únicas explicações para esse fenômeno. Em outras palavras, não se deve dar
excessiva ênfase a essa única variável, ainda que ela seja bastante importante.
A análise engeliana das relações entre base e estrutura mostra que os distintos
elementos da superestrutura (como o Estado, o direito e as ideologias), se
desenvolveram a partir e simultaneamente com a base econômica; que a
superestrutura não só depende da base, mas, a longo prazo, será determinada
por ela; que apesar de sua dependência em relação à base, a superestrutura
possui autonomia relativa, já que, mesmo se desenvolvendo a partir daquela,
se singulariza, criando suas próprias estruturas características, que acabam por
obedecer a leis específicas; que a base e a superestrutura influenciam-se
mutuamente, havendo ao mesmo tempo uma dependência recíproca e uma
autonomia de cada uma delas; e que a autonomia relativa da superestrutura
pode ser tão grande, que em algumas condições, pode até mesmo tornar-se, de
forma temporária, o fator primário e determinante de todo o
desenvolvimento”.

A estrutura agrária sertaneja funciona, aqui, como um forte elo entre a base
econômica mais ampla e a superestrutura. Nela encontram-se uma série de
variáveis importantes, dentro de um diálogo polifônico, em diferentes níveis
de atuação e inter-relação, que ajudam na compreensão do banditismo rural
nordestino. Mas há ainda outros aspectos que também devem ser levados em
conta e que, agregados à base econômica, podem ajudar a produzir um painel
mais rico sobre a questão. A influência das culturas endógena e exógena (a
indígena, a portuguesa, a elaborada dentro do ambiente sertanejo em evolução
e a trazida dos grandes centros do país, e até mesmo do exterior) e o ambiente
político e institucional, com as deliberações do Estado em nível estadual e
nacional, durante todo o período da República Velha, também são elementos
que devem ser bastante considerados. Cultura que por vezes podia ser
imposta, e por outras, que se desenvolveu “naturalmente”, a partir das
referências locais ou não, constituindo discursos ocultos, maleáveis e
permeáveis em diversas camadas sociais. Assim como a participação de
níveis jurídicos e políticos forâneos à realidade local imediata que criavam
um colchão, uma base importante de relações que afetavam, em menor ou
maior grau, aquele ambiente específico.

Ainda assim, há quem chegue a afirmar que o cangaço surgiu


exclusivamente por causa do latifúndio, da propriedade privada e da
necessidade do dono de terras do Nordeste de “controlar” e “reprimir” as
populações rurais mais pobres da região. É bom lembrar que, ainda que o
latifúndio, a propriedade privada e o desejo de “controle social” possam ser
encontrados em todos os cantos do Brasil, tanto na esfera pública como
privada, não houve o aparecimento do cangaço (ainda que tenham ocorrido
casos de outros tipos de banditismo), ou fenômenos da mesma magnitude ou
duração, em nenhuma outra região do país34

De qualquer forma, eram patentes a injustiça e o desequilíbrio econômico


entre as diferentes camadas sociais naquele local. Em 1920, uma trabalhadora
rural sertaneja, por exemplo, ganhava em torno de $200 por onze horas de
serviço diário no campo35. A falta de emprego levava os homens do interior,
em algumas cidades, a ingressar nas “feiras de trabalhadores”, onde se
reuniam em praça pública, segurando suas enxadas e aguardando a
convocação dos fazendeiros, que, em geral, escolhiam os indivíduos mais
robustos para o labor nos roçados. Recebiam o equivalente a $500 por dia de
trabalho, numa semana de labuta que ia de segunda a sábado. Aos domingos,
pegavam o soldo de 3$000 por seis dias de onze horas de trabalho36. Suas
esposas, quando conseguiam serviço, trabalhavam a mesma quantidade de
dias e horas, recebendo apenas 1$200 por seu esforço. Isso enquanto tinham
de cuidar da casa e dos filhos, em média de dez por casal37.

Isso tudo explicaria, em parte, os motivos pelos quais alguns desses


sertanejos acabavam ingressando nas fileiras do cangaço. Por isso, alguns
autores também chegam a afirmar que não se poderia separar os “bandidos
sociais” dos “bandidos empresariais”, aqueles apenas voltados para o roubo,
puro e simples, já que, em teoria, qualquer roubo representaria também um
protesto inconsciente embutido, implícito, com conteúdo classista… Há quem
argumente que um “movimento social”” seria todo conjunto de ações e
mecanismos colocados em andamento para manter uma determinada situação
e as “respostas”, “acondicionamentos” e rechaços que os setores populares
opõem a ela39. De acordo com essa teoria, quando uma determinada “etapa’
termina, as situações conflitivas se reconstituem a partir de elementos novos,
derivados do resultado da correlação de forças anterior, daquele momento
histórico supostamente já superado. Em certos casos, haveria avanços e
conquistas sociais, e em outros, as consequências poderiam se expressar de
modo pior do que se configuravam antes. Esse “movimento social” se
definiria como as manifestações das contradições geradas dentro de uma
sociedade, a partir dos interesses e disputas entre as classes e grupos que a
conformam, sendo, assim, uma realidade permanente e latente inserida na
própria estrutura, mudando de intensidade e de formas de luta dependendo da
situação`. Entre as respostas dos setores populares contra a exploração estaria
incluído o “banditismo social”. O bandoleirismo seria, então, uma entre
múltiplas formas de expressão de luta contra a opressão.

De acordo com Carmen Vivanco Lara, essa modalidade teria algumas


características: seria um fenômeno social por meio do qual a classe dominada
expressaria seu descontentamento e reivindicação concreta contra o sistema
político, jurídico, econômico e social; como não haveria uma consciência
“superior” dentro ou associada a ele, não atacaria o “sistema” e seria
incapacitado como uma via de câmbio social, apresentando-se apenas como
um protesto contra a superexploração não estabelecida e contra os abusos e
excessos não permitidos pela tradição ou pelas leis; seria uma organização
grupal; seria um movimento “corporativo”; teria como elemento nutriente o
descontentamento popular; seria caracterizado por relações sociais ligadas à
ideia de fidelidade e honra, como um poderoso elemento de coesão interna; o
bandoleirismo seria uma resposta econômica, tendo como uma de suas
motivações, a própria sobrevivência; e seria uma resposta ideológica, já que
desde o momento em que se tomava a decisão de fazer dessa modalidade uma
forma de “luta popular”, haveria implicitamente uma ponderação sobre o
justo e o injusto que a ordem socioeconômica oferecia à população
marginalizada, que ao constatar seu desacordo com ela, preferia abandonar a
legalidade e viver no bandoleirismo, uma forma de vida mais de acordo com
suas noções de justiça e de liberdade41. É fácil perceber, portanto, as
limitações de vários desses argumentos e a dificuldade de uma generalização
mais ampla desses conceitos.

Todas essas afirmações e interpretações, apresentadas no capítulo anterior, de
maneira geral, não correspondem em sua totalidade ao cangaceirismo. Quase
nenhum líder de maior relevo do cangaço provinha das classes baixas rurais:
Jesuíno Brilhante era fazendeiro, possuidor de “recursos” de lavoura e de
gado. Este “exímio vaqueiro” e “ativo comboieiro”, foi descrito por alguns
como “dono de imóvel e semoventes”, que tinha “propriedade e moradia”.
Brilhante estudara nas escolas de Porta Alegre e do Martins, o que mostra que
tinha certo grau de instrução’, e possuía renda suficiente para manter mulher e
filhos. Afinal de contas, era até mesmo senhor de escravos3.

Antônio Silvino, de uma “respeitável família de fazendeiros” (que chegara


a possuir uma dúzia de escravos)’, do tronco dos Feitosas, dos Moraes e dos
Brilhantes, tinha vínculos estreitos com os Cavalcanti Ayres, da Serra do
Teixeira, na Paraíba, era amigo íntimo de vários chefes políticos, senhores de
engenho e “coronéis”, convivia com autoridades judiciais e até mesmo
chegava a jogar bilhar com promotores públicos.

E Sinhô Pereira, de origem “nobre”, era neto do barão Andrelino Pereira do


Paj eú5. A família de Sebastião Pereira da Silva havia se mudado na metade
do século XIX do Cariri cearense (onde possuía latifúndios) para o sertão
pernambucano. Sinhô Pereira tinha como antepassados vários membros da
Guarda Nacional, homens que haviam ostentado importantes títulos de
nobreza do Império.

Todos esses líderes cangaceiros, portanto, vinham de famílias tradicionais e


de relativas posses, respeitadas em suas regiões. Até mesmo a família de
Lampião, ainda que certamente mais modesta, também apresentava um nível
social mais alto que o da maioria dos sertanejos. De acordo com BillyJaynes
Chandler, ele pertencia à classe dos proprietários de terra, ou seja, estava
numa posição intermediária entre a elite e os trabalhadores despossuídos7:
seu pai era dono de uma pequena fazenda, tinha uma plantação, uma tropa de
muares, gado bovino, cabras e carneiros. Em seu sítio também eram
produzidos artigos de couro8.

E há muitos outros casos. Frederico Pernambucano de Mello nos conta que


Sabino Gomes de Góis, um brigand associado ao bando de Virgulino Ferreira,
ainda que filho bastardo do “coronel” Marçal Florentino Diniz com sua
cozinheira negra, também teve uma trajetória mais “confortável” que a de
muitos paisanos sertanejos. Tangedor de boiadas quando jovem, já homem
feito viria a ser nomeado comissário de Abóboras. Ao ter problemas com
outros moradores da localidade, acabou se mudando para o município de
Princesa, recebendo todo o apoio de seu meio-irmão, Marculino (filho
legítimo daquele caudilho), casado com a filha de outro “coronel”, José
Pereira Lima, importante personalidade da região. Marculino, ele próprio
influente no sertão paraibano, conseguiu um emprego para Sabino nas obras
de um açude, na época sendo construído por uma empresa estrangeira”.
Sabino foi guarda-costas de seu irmão, e aproximou-se de figuras destacadas
e dos estratos sociais mais elevados de Cajazeiras, como o professor Luís de
Góis (mais tarde ocupante da cadeira de Anatomia na Faculdade de Medicina
de Recife), os doutores José de Borba e Mozart Solon e de Severino Lucena,
chefe de polícia do Estado. Esse grupo de “amigos” poderosos podem ter lhe
inspirado confiança e lhe aguçado o sentido de impunidade, já que devia
achar que tinha as “costas quentes”, o que lhe permitiria cometer seus crimes
sem temor de ser reprimido.

E o que dizer de Horácio Cavalcante de Albuquerque, conhecido como


Horácio Novais, dono de terras e filho de uma das mais tradicionais famílias
do município de Floresta, no sertão de Pernambuco? Não seria ele também
um exemplo deste mesmo fenômeno?

Outros bandoleiros que se enquadravam, de certa forma, nessa categoria,


eram o pernambucano José do Vale, filho de uma “rica senhora de engenho”
(este da primeira metade do século XIX); Chico Pereira, “filho de um
fazendeiro importante e homem de negócios”, em uma comarca do povoado
de Sousa10; Corisco, possivelmente neto de um grande fazendeiro de
Alagoasl’; e Mariano Laurindo Granja, de Afogados de Ingazeira,
Pernambuco, também pertencente a uma família importante. O cangaceiro
José do Nascimento, vulgo Cajazeiras, do grupo de Virgulino Ferreira e, mais
tarde, do de Zé Sereno, por seu lado, era filho do “coronel” Julião do
Nascimento, proprietário de diversas fazendas. Ao que tudo indica, ainda que
não fosse “milionário”, Cajazeiras tinha dinheiro suficiente para levar uma
vida segura e confortável do ponto de vista econômico’.

Para completar esse painel, que poderia se estender ainda mais, podemos
mencionar Ulisses Liberato, nascido na fazenda Estrela, no município de
Pombal, Paraíba. Seu pai, Francisco de Alencar Liberato, um fazendeiro local,
conseguiu oferecer aos filhos uma educação muito além do padrão. Ulisses
cresceu em São Paulo, onde morou durante vários anos, e não só lia e escrevia
em português, mas também falava relativamente bem inglês e francês”! Nos
anos que vão de 1918 a 1922, ele foi um dos cangaceiros mais importantes
que atuaram nas divisas dos sertões da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte.
Como de costume, recebia a proteção de um grande amigo, José Inácio de
Souza, coiteiro e figura de prestígio no sertão cearense daquela época.

Assim, o que se pode dizer é que, em geral, muitos desses bandoleiros se


identificavam com um grupo de famílias de prestígio ou até mesmo com
outros coronéis locais, e não necessariamente com os “pobres”. Como diria
um estudioso do banditismo no sertão, “todos os mais célebres entre os
grandes cangaceiros pertenciam a famílias importantes no ambiente político
em que viviam”14

Não apenas esses chefes de quadrilhas tinham uma origem social mais alta
que a maioria dos sertanejos, mas também preferiam se relacionar com as
elites locais, com quem se sentiam mais à vontade e com quem poderiam se
associar nos negócios.

É conhecido o caso do encontro, em dezembro de 1928, de Lampião com o


“coronel” João Gonçalves de Sá, importante chefe político de Jeremoabo,
Bahia, naquela época exercitando seu mandato de deputado estadual. Depois
de uma longa e proveitosa conversa, ocorreu uma aliança entre os dois, ou
seja, uma típica “troca de favores”. O “coronel” se transformaria num dos
protetores de maior confiança do bandoleiro, enquanto Lampião respeitaria
sempre suas vinte fazendas e ainda intercederia em favor do líder político em
compras de propriedades que este cobiçasse15

Ou então a amizade - que iria durar pouco - entre Virgulino e o “coronel”


Petronilo de Alcântara Reis, caudilho de Santo Antônio da Glória, no mesmo
estado, com quem comprou, também em 1928, algumas fazendas em regime
de sociedade. Petro, como era conhecido, adquiriu várias terras na Várzea da
Ema para ambos. Amigo do interventor da Bahia, Juracy Magalhães, bem
relacionado com políticos influentes na capital e sócio cativo do clube
Tabaris, em Salvador (onde se divertia com dinheiro público), Petronilo era o
fazendeiro mais rico no nordeste de seu estado, onde possuía 33 fazendas,
distribuídas nos municípios de Glória, Macururé, Chorrochó, Curaçá, Cumbe
e Jeremoabo‘6. Mesmo tendo completado apenas o curso primário, gostava de
fazer citações em latim e tinha certa cultura geral. Em suas fazendas, oferecia
sempre uma mesa farta a seus numerosos hóspedes e convidados. Era muito
influente em sua região.

Lampião também era íntimo do governador de Sergipe, Eronildes de


Carvalho, quem lhe dava todas as condições de viver em paz, sem ser
incomodado pela polícia daquele estado da federação. A família sergipana dos
Carvalhos, por assim dizer, era composta de latifundiários abastados,
comerciantes e políticos importantes.

A amizade de Virgulino e Eronildes (filho do “coronel” Antônio Brito),


vinha desde 1929, quando este último ainda era capitão e médico do exército.
O fato de Eronildes ter sido militar não foi empecilho para a amizade dos
dois. Ele seria eleito governador em 1934 e ocuparia o cargo de interventor
federal após o golpe de Getúlio Vargas, em 1937, mantendo, durante esse
tempo todo, suas relações amigáveis com o “rei” dos cangaceiros. Eronildes
criou impedimentos para a ação eficaz da polícia no interior de Sergipe,
deixando que suas tropas se concentrassem em cidades afastadas da área de
atuação de Virgulino Ferreira. Também, provavelmente, foi o responsável
pelo fornecimento de muitas armas modernas e farta munição ao cangaceiro.

A relação entre os líderes dos brigands e os chefes regionais era estreita. O


jornalista J. de Matos Ibiapina escrevia, em 1927, que:

Toda a opinião nacional acusa-o (presidente Moreira da Rocha) de


excessiva tolerância para com os bandoleiros, devido às suas afinidades
com certos políticos que as contingências partidárias ou a sede de
ganhos fáceis transformaram em protetores dos celerados. […] Desde
anteontem acham-se recolhidos à penitenciária desta capital dois
criminosos, transferidos da cadeia de Senador Pompeu. Esses presos
acham-se enclausurados em células quase hermeticamente fechadas e em
estado de absoluta incomunicabilidade. Ouvidos pelo Sr. Chefe de
Polícia, fizeram declarações importantíssimas, que comprometiam
seriamente individualidades ligadas ao governo. […] Que esses
criminosos têm informações de valor a fornecer à polícia e que a essa
interessa a sua não divulgação, prova-o o fato de sua
incomunicabilidade. A incomunicabilidade não visa pois a ação da
justiça, mas ao contrário, parece ter o intuito de ocultar ao público as
confissões comprometedoras dos bandidos.”

Os bandidos em questão, Cansação e Balão, garantiam que seus crimes


eram “combinados” com os chefes políticos sertanejos.

Assim, o que podemos concluir, em caráter preliminar, é que o ingresso no


cangaço normalmente - mas não exclusivamente -, se dava por disputas e
vinganças familiares (ainda que esse fosse apenas o discurso para justificar
suas decisões), e não para corrigir ou combater (mesmo que de forma
inconsciente) injustiças sociais18 (certos pesquisadores chegam até mesmo a
dizer que 90% desses bandidos ingressaram na criminalidade por motivo de
vindita)19. E que a relação dos chefes bandoleiros com as elites locais era, em
muitos casos, bastante estreita: tornavam-se aliados e amigos de muitos
“coronéis” do sertão. Por isso, o depoimento de Miguel Feitosa é ainda mais
emblemático: “Lampião dava a vida para estar entre `coronéis’. Vivia de
coronel em coronel”20. Não se deve estranhar, portanto, que o próprio
Lampião fosse, ele próprio, criador de gado. De acordo com Rodrigues de
Carvalho, em Sergipe, sua criação, na fazenda Canabrava, chegou a ter em
torno de cem cabeças21.

Alguém poderá dizer que as brigas entre famílias se davam por questões de
terra. Em realidade, os motivos eram vários, incluindo certamente disputas
por propriedades, mas podendo ser detonadas também por motivos
aparentemente fúteis, como um suposto desrespeito verbal ou físico a algum
parente, ou o furto de uma cabra ou bode. As questões de honra muitas vezes
sobrepassavam as questões fundiárias em algumas instâncias. São muitos e
variados os exemplos de entreveros entre homens da mesma posição social,
que acabavam não “roubando” ou “anexando” as terras do rival. Em diversas
ocasiões, depois de consumada a vingança (ou seja, o assassinato do inimigo),
o executor voltava à sua rotina de antes ou se mudava da localidade e
recomeçava a vida em outra profissão, sem nenhuma glória, nem ganho
econômico. De qualquer forma, num ambiente em que pouco se poderia
esperar da justiça, que em geral era falha, lenta e tendenciosa, é
compreensível que os homens resolvessem decidir suas querelas de armas na
mão.

É claro que havia várias outras motivaçóes para um indivíduo decidir se


tornar cangaceiro, inclusive de ordem cultural e psicológica. As histórias que
eram difundidas no sertão, por meio dos folhetos populares e da tradição oral,
sobre os “feitos” dos bandos de cangaceiros, como os de Cassimiro Honório,
Né Pereira e Antônio Quelé, muito atuantes no começo do século XX,
certamente foram influência para os garotos da região. O próprio Virgulino
Ferreira, entre os 9 e 12 anos de idade, tinha como “esporte” organizar grupos
de meninos com bodoques para brincar de cangaceiros, tentando imitar suas
táticas e estratégias 12. Nas brincadeiras, o jovem Lampião gostava de se
colocar como “cabra”23 de Antônio Silvino, de quem conhecia as histórias24

É possível até mesmo encontrar alguns retratos de meninos muito novos,


ainda nos primeiros anos de vida (inclusive filhos de “coronéis”), posando
para fotógrafos, vestidos e “armados” pelos pais, para que ficassem com a
aparência de cangaceiros”. O cangaço certamente permeava o imaginário
social daquela região.

Os estratos menos favorecidos da população, por outro lado, nem sempre


apreciavam os bandidos. Pelo contrário. Em relação às classes subordinadas,
não são poucos os casos de ataques, torturas, estupros e roubos efetuados
pelos salteadores contra a população indefesa. O “povo”26 muitas vezes
sentia verdadeiro pavor de volantes e cangaceiros.

No ano de 1929, de acordo com Oleone Coelho Fontes, “os sertões


continuam a despovoar-se. Os matutos, assombrados com as peripécias do
capitão-malvado, afluem em massa para cidades maiores”27. De agricultores
e comerciantes até o proletariado rural, personificado nos trabalhadores
contratados para construir açudes e estradas, todos podiam ser alvos dos
brigands sertanejos.

Em 18 de outubro de 1929, Lampião, sem piedade nem nenhum sentimento


de classe, massacra nove cassacos que abriam a rodovia de Juazeiro a Santo
Antônio da Glória. Seu ódio pelo governo, e a ciência de que o caminho
passaria pelo Raso da Catarina28, tiveram maior peso em sua decisão do que
a preocupação em preservar a vida de peões inocentes”. Um episódio similar
se registrou no final de maio de 1930, quando o “capitão” Virgulino Ferreira e
seus homens atacaram o barracão da empresa responsável pela construção da
mesma rodovia, dessa vez alguns quilômetros depois de Patamuté. Os
operários fugiram, desesperados, mas os bandidos, ainda assim, assassinaram
um rapaz que, desavisado, levava alimentos para seus colegas. O objetivo do
bando provavelmente seria roubar todo o dinheiro destinado ao pagamento de
salários daqueles trabalhadores30. E em agosto, em Quirinquinquá, matam
mais dois operários que laboravam, dessa vez, na estrada de Queimadas a
Monte Santo, também sem nenhum remorso31. Houve casos em que Lampião
destruiu caminhões e comboios de mercadorias. Ao contrário de Jesuíno
Brilhante, que distribuía comida aos flagelados, Virgulino não via como
prioridade ajudar aos mais necessitados”.

É sabido que alguns cangaceiros distribuíam dinheiro para os sertanejos


humildes. Mas, em geral, guardavam para si as “notas grandes”, dando aos
retirantes, aos pobres e às igrejas apenas alguns tostões, quase uma esmola.
Não havia, então, uma partilha equitativa nem uma vontade real de “auxiliar”
os mais necessitados. Afinal, moedas pesavam nos bornais: preferiam
carregar só notas de maior valor e joias.

Por outro lado, se “solicitavam” dinheiro e recebiam uma quantia pequena,


consideravam aquilo como uma “esmola”, algo que julgavam desprezível.
Afinal de contas, eles, os cangaceiros, não eram mendigos: receber pouco
dinheiro de quem estava sendo extorquido equivaleria a ganhar uma esmola, o
que poderia ser caracterizado como uma ofensa33

Um exemplo ilustrativo. Em 27 de novembro de 1930, Lampião capturou


os missionários norte-americanos da Christian Church Mission, Irving
F.Smith e sua esposa, assim como Maurício Wanderley, o professor que
cuidava da escola mantida por aqueles evangélicos em Mata Grande. Ficaram
presos na fazenda de José Malta, coiteiro de Virgulino. O “espantalho”34
mandou Wanderley correr para a cidade, exigindo 11.000$00, o equivalente
na época a US$ 1.220,00, pela libertação do casal. Maurício regressou com o
dinheiro do resgate, arrecadado entre os comerciantes locais: uma quantia
inferior à exigida, apenas 220$00, em sua maior parte, em moedas de cruzado
e vinténs. O casal evangélico ainda deu o equivalente a US$ 23,70, também
em cobres, no intuito de barganhar por sua liberdade. Lampião,
inconformado, só quis ficar com dinheiro em notas. A maior parte, em
moedas, jogou fora. Teria dito, irritado: “Não sou cego de feira para aceitar
esmola de vintém”35

Na prática, o que se pode perceber é que havia um comportamento


parecido com o dos próprios coronéis, que agiam de forma paternalista com
aqueles que eram considerados seus pobres, com aqueles que orbitavam ao
seu redor e que os auxiliavam de alguma maneira36. Como comentou o
historiador Richard Graham, de modo muito apropriado, em relação aos
chefetes rurais,

a generosidade para com os pobres era constantemente louvada, pois os


proprietários de terra em geral reconheciam que tais atos legitimavam a
troca implícita e preservavam a correta estrutura da sociedade. […] Não
importa muito se o rico era realmente tão generoso, mas sim a
insistência em relação a isso como uma virtude maior.37

Ou seja, na maioria dos casos, em especial a partir da atuação de Lampião,


não se pode dizer que tenha havido qualquer identidade de classe entre os
cangaceiros e a população mais humilde. Em realidade, os bandidos
costumavam defender seus interesses pessoais, mediante o uso da violência,
indistinta e indiscriminadamente, buscando manter vínculos com “protetores”
poderosos, o que podia resultar, inclusive, em agressões contra o próprio
“povo”.

Quando distribuía dinheiro ou os produtos de suas pilhagens, Lampião


fazia questão que seu gesto fosse público, visto por todos. Queria construir a
imagem de um indivíduo caridoso, de um homem bom. Em geral, não
roubava dos “ricos” para dar aos pobres. Se roubava dos ricos, era para
guardar o dinheiro para si ou para pagar pelo “trabalho” de seus “cabras”.
Muitas vezes, roubava dos comerciantes (eles próprios pobres, à sua maneira)
e distribuía o que pegava para a população humilde de um vilarejo, à vista de
todos. Chegava até mesmo a cobrar uma “contribuição de guerra” aos donos
de comércio, como quando obrigou os lojistas do distrito de Bethânia, em
janeiro de 1925, a pagar 4.000$000 para seu bando, ou seja, uma extorsão
com outro nome38. Outras vezes, depois de saquear as lojas de um povoado,
abria as suas portas para o resto do público e mandava que as pessoas
pilhassem o comércio e levassem o que quisessem.

Uma boa explicação para o respeito e empatia das comunidades sertanejas


pelos cangaceiros, apesar de qualquer mal que estes pudessem lhes causar,
nos parece ser o da construção, consciente ou inconsciente, por parte dos
marginais, de um “escudo ético”, terminologia tão apropriada e tão bem
elaborada por Frederico Pernambucano de Mello. Esse elemento “ético”, em
última instância, os diferenciaria de forma inequívoca dos bandidos comuns
aos olhos da população. E teria ajudado a manter a imagem de justiceiros ao
longo do tempo na região. Afinal, como diria Luís da Câmara Cascudo, “o
sertanejo não admira o criminoso, mas o homem valente”39. De acordo com
ele,

para que a valentia justifique ainda melhor a aura popular na poética é


preciso a existência do fator moral. Todos os cangaceiros são dados
inicialmente como vítimas da injustiça. […] O sertão indistingüe o
cangaceiro do homem valente. Para ele a função criminosa é acidental.
[…] O essencial é a coragem pessoal, o desassombro, a afoiteza, o arrojo
de medir-se imediatamente contra um ou contra vinte.40

É verdade que a “lenda’ de Lampião, e de outros cangaceiros, cresceu ao


longo dos anos. O “espantalho” foi muitíssimo admirado. Mas é bom lembrar
que grande parte destes admiradores nunca teve contato com o salteador. Eles
o conheceram por meio de relatos de segunda mão, já distorcidos e borrados
pelo tempo. Muitos dos que o conheceram pessoalmente tinham, decerto, uma
opinião bastante diferente.

Outro motivo para o ingresso no cangaço, ainda que não o predominante,


era o recrutamento para as “tropas de linha’, que serviam no Sul do Brasil
antes, durante e depois da Guerra do Paraguai, ou para aquelas que ficavam
de prontidão nas fronteiras. Isso, é claro, num período anterior ao
amadurecimento e auge do cangaço “independente”. As altercações entre os
senhores rurais e os trabalhadores “rebeldes” ou “problemáticos” podiam ser
resolvidas por meio do famigerado “imposto de sangue”, que apavorava os
indivíduos mais pobres. O recrutamento forçado servia a diversos propósitos:
era tanto uma punição como uma forma de obrigar o indivíduo a trabalhar. A
maioria dos conscritos eram negros, mulatos e caboclos: ou seja, “pobres”. As
camadas mais ricas normalmente tinham formas de se safar do serviço, fosse
por meio de pagamentos em dinheiro, fosse pelo grau de parentesco ou de
amizade com alguma autoridade influente. As condições de vida dos soldados
forçados a ingressar nas forças armadas eram lastimáveis. As autoridades,
neste caso, podiam deter qualquer homem que não estivesse incluído entre os
“isentos”, obrigá-lo a ir até a capital de sua província e assentar-lhe praça
para, em seguida, transferi-lo para o Rio de janeiro, de onde poderia ser,
novamente, enviado para qualquer outro lugar do país para cumprir o serviço
militar41. Para escapar dessa situação, muitos ingressavam no cangaço.

Durante a Guerra do Paraguai, por exemplo, o jornal O Tempo, da Paraíba,


noticiava, em sua edição de 9 de janeiro de 1865 que “tropas seguem para o
Sul, notando-se imenso entusiasmo”. No dia 20 de março, a nota, mais crítica,
falava de “abuso no recrutamento dos voluntários e clamor das famílias”. E
em 29 de maio do mesmo ano,

novo espetáculo aflitivo presenciou esta Capital, com a entrada do


destacamento policial, que trouxe do Pilar cerca de 30 guardas nacionais
para o destacamento de guerra, todos de gargalheira no pescoço. O
cortejo de mulheres e crianças que acompanhou o mesmo destacamento,
em seguimento de seus maridos e pais, visto que muitos desses guardas
acorrentados são casados, sobrecarregava ainda mais de pungentes cores
o quadro melancólico.42

O termo “Voluntários da Pátria’, portanto, não representava a realidade


para aquelas populações sertanejas, muitas vezes obrigadas a se alistar. As
notícias de recrutas acorrentados nos pescoço com gargalheiras eram
frequentes na imprensa local da época43. Aqueles indivíduos que se
rebelavam usavam o cangaço não só como vingança contra seus antigos
patrões, mas principalmente como refúgio. Afinal, o recrutamento era por si
só uma forma de acerto de contas do fazendeiro contra os indivíduos mais
irrequietos e desobedientes. Nada mais natural, portanto, que a vindita. A fuga
para uma vida nômade também garantiria liberdade e distanciamento das
arbitrariedades das autoridades. Fazer parte do exército ou da armada era
considerado uma forma de estar preso à “canga e corda”`1. Assim, muitos
entravam na marginalidade porque queriam se livrar, como pudessem, da
“canga e corda’ dos militares.

Por outro lado, os mais pobres podiam tentar escapar do serviço militar por
meio da influência de seus patrões. Se esses rurícolas fossem apadrinhados de
um “coronel” importante, possivelmente poderiam conseguir sua isenção.
Com isso, se reforçariam as relações clientelistas entre chefes rurais e seus
empregados, jagunços e agregados. E aumentaria a autoridade do “coronel”
na sua região.

Há quem defenda que as fileiras do cangaço podiam servir também como


fator de mobilidade social ascendente para bandoleiros de origem mais
humilde, em detrimento dos outros membros de suas comunidades, o que, em
última instância, junto com as alianças verticais com o “coronelismo”,
nitidamente enfraqueceriam uma possível solidariedade horizontal de classe.

Uma porcentagem pequena dos sertanejos mais pobres, de fato, ingressava


no banditismo vendo nele um “trabalho” com maiores rendimentos que a
agricultura. Teriam mais “independência” individual, companheirismo e senso
de pertencer a uma “corporação”, algo que se diferenciaria de uma vida de
instabilidade econômica e de uma permanente existência passiva no interior
da região45

Os sertanejos também podiam se tornar brigands para tentar reconstituir


sua imagem e posição social. Esse teria sido o caso de Manuel Rodrigues,
líder de grupo de origem modesta, que se tornou salteador em 1926, entre
outros motivos, para recuperar a honra e o orgulho que acreditava ter perdido
após ter sua esposa “roubada’ por Benzinho Vidal, de Afogados de Ingazeira,
em Pernambuco. As questões de foro íntimo, influenciadas, é claro, pelo
ambiente cultural local, certamente tiveram peso em toda essa questão46

Muitas mulheres, em geral de procedência humilde, entravam no cangaço por
conta própria, vendo no bandoleirismo a possibilidade, mesmo que idealizada,
de uma vida cheia de aventuras e de liberdade. É claro que havia algumas
jovens raptadas, forçadas a seguir os bandidos, como Maria Carmina Leite
(raptada por Antônio Silvino), Sila e Dadá. Afinal de contas, esse era um
procedimento corriqueiro da época. As fugas e “sequestros” de noivas, muitas
vezes com o consentimento da mulher, ocorriam até mesmo entre membros
das elites. Mas, independente do caso, o cangaço simbolizaria para elas a
libertação do tipo de vida patriarcal, rotineira e entediante a que estavam
acostumadas, mesmo sabendo que muitas delas nunca iriam combater’.
Afinal, era socialmente aceitável, inclusive com as bênçãos da Igreja, que
uma menina se casasse com apenas doze anos de idade: crianças morando
com seus maridos, mas ainda brincando de boneca2.

As mulheres, portanto, amadureciam muito rapidamente, em geral não


tendo tempo sequer de aproveitar a infância. Com 14 anos de idade, meninas
se vestiam como senhoras; aos 15 anos já tinham filhos3. Também era
possível constatar uma quantidade significativa de matrimônios
intrafamiliares: primos que se uniam com primas, ou tios (muito mais velhos)
com sobrinhas. Os casamentos, decididos pelo pai.

A educação feminina muitas vezes era equivalente, na mentalidade


sertaneja, à prostituição. Por isso, poucas meninas recebiam uma educação
formal’. Escolas mistas, de garotos e garotas, eram pouco aceitas pela
população’. Só a partir da Lei Geral de 15 de outubro de 1827 é que as
mulheres ganharam o direito à instrução, ainda que seu ingresso nos colégios
fosse limitado. Isso significa dizer que o ensino era dedicado, principalmente,
para os meninos da elite (uma lei de 19 de março de 1838, por exemplo,
proibia que pessoas de cor frequentassem as escolas). Já nas instituições de
ensino para garotas, de acordo com uma Resolução de 20 de abril de 1875,
deveriam ser ensinados “demais trabalhos de agulha e outros análogos ao
sexo, e nas do sexo masculino, noções gerais da Constituição do Império e de
agricultura”7.

Em 1850, havia no Rio Grande do Norte, apenas 27 escolas públicas, sendo


somente cinco delas para o público feminino. Da população total daquela
província, só 23.602 homens e 16.220 mulheres, aproximadamente, sabiam
ler e escrever8. Já em 1920 (portanto setenta anos mais tarde), esse mesmo
estado, com uma população de 537.135 habitantes, tinha 412 escolas, com
31.987 alunos matriculados. Mas não havia uma universidade sequer nem
cursos superiores.

Em pior situação estava Sergipe. Em 1872, com uma população de 234.643


habitantes, só havia 4.576 estudantes matriculados nas escolas. Todos os
22.623 escravos sergipanos, naquele mesmo ano, eram analfabetos. E em
1881, o número de alunos matriculados nos colégios da província era de
4.754 estudantes10. A situação era tão ruim que, em 1907, dos 450 mil
habitantes do estado, somente 20 mil sabiam ler e escrever. Isso sem contar
que não havia nenhuma livraria em todo o Sergipe”. É bom lembrar que, em
1877, em todo o Brasil, apenas 1.563.000 pessoas livres eram alfabetizadas,
enquanto que 5.580.000 indivíduos não sabiam ler e escrever. Apenas 170 mil
crianças frequentavam a escola’. É interessante recordar também que a
maioria dos líderes cangaceiros, mesmo que de forma rudimentar, sabia ler e
escrever. Isso, certamente, já os diferenciava da maior parte dos sertanejos
pobres.

Quem mandava, na maioria dos lares, era o homem, que exercia a


autoridade legal defacto sobre toda a família. Estava no direito do pai, por lei,
punir, se quisesse, a esposa, os filhos, os criados e os escravos (caso os
tivesse). Eventuais propriedades dos filhos eram pertencentes ao pai se estes
ainda morassem com ele, em sua casa13
As mulheres, nesse caso, representavam o elo fraco, a parte mais frágil
desse arranjo. No período imperial, havia aqueles que justificavam essa
ordem social, argumentando que “a fraqueza do sexo […] não permite que se
presuma nas mulheres, ainda que maiores, solteiras ou viúvas, independência
de vontade” 14. A lei protegia as famílias em questões de heranças de
propriedades, mas tinha dispositivos que especificavam alguns casos de
exceção. Assim, um filho que insultasse o pai em público ou uma filha que se
casasse sem o consentimento do progenitor poderiam perder seu direito a
receber as posses familiares.

Essa era, em grande medida, uma vida cansativa, previsível e limitante em


muitos aspectos. Por isso, mesmo que não seguissem os bandoleiros, muitas
jovens sertanejas viam com interesse e admiração a presença daqueles
homens nos bailes promovidos em fazendas do interior. São vários os
episódios de quadrilheiros que dançavam e se divertiam com jovens locais em
festas. Aquelas garotas, em grande medida, recebiam os salteadores com
“alegria’ e “entusiasmo”. Um exemplo ilustrativo: segundo consta, 22
mulheres, todas ligadas por amizade ou parentesco, nesse caso, a apenas uma
família, a Ingrácia, foram amigas, namoradas ou amantes de vários
cangaceiros15. Esse fenômeno possivelmente se reproduziu em outras áreas e
ramos familiares.

É interessante notar que, se Lampião se relacionava de forma amistosa com


alguns “coronéis”, sabia da posição social de seus homens em relação aos
setores mais abastados do ambiente sertanejo. Tinha, decerto, respeito por
alguns indivíduos de posição social elevada. Em Queimadas, Bahia, em 1929,
Virgulino organizou um baile, para o qual convocou a presença de mulheres
jovens da localidade. Mas fez questão de que as moças fossem das classes
mais modestas. Supostamente, seus asseclas não se sentiriam à vontade com
as filhas dos cidadãos mais ricos da cidade‘6

A relação com prostitutas era menos frequente, mas também ocorria. De


vez em quando, os bandoleiros visitavam a zona de prostituição17. Na maior
parte das vezes, com suas devidas exceções, não forçavam aquelas mulheres a
praticar sexo, que era consensual e pago18. Também há um caso muito
específico, o de Maria dos Santos, mais conhecida como Mariquinha,
prostituta em Juazeiro, Ceará, que veio a se tornar cangaceira”. De qualquer
maneira, não é de se estranhar a presença de rameiras nas histórias de
cangaceiros. O fato é que no ambiente sertanejo, a prostituição era comum.
Mulheres solteiras, analfabetas, viúvas ou abandonadas pelos maridos
dificilmente encontravam outras formas de se sustentar. Só para citar um
exemplo, no começo da década de 1880, na vila de Rumo, município de
Xique-Xique, Bahia, um censo local registrou novecentas prostitutas, entre
um total de 1.500 mulheres de classe baixa que viviam ali20. Em 1910, no
vilarejo de Porteiras, Ceará, encontravam-se cem prostitutas21. A cidade de
Juazeiro, por outro lado, chegou a ser chamada por alguns, no começo da
década de 1920, de “acampamento de casebres e mocambos em
promiscuidade sórdida”22. Lá, mesmo com a influência e o poder de Padre
Cícero, a prostituição, o jogo do bicho e o banditismo eram comuns23.

A presença das rameiras no sertão era clara, inclusive muitos anos antes do
cangaço “moderno”. Em 5 de agosto de 1821, no município de Crato, um
grupo de “fanáticos” religiosos da Serra de São Pedro (atual Caririaçu), os
chamados “Cerca-Igrejas”, armados até os dentes, durante a celebração de um
Te Deum em tributo a instituição do regime constitucional, tentaram, pela
força, trocar a padroeira local por Úrsula, uma prostituta24

A preocupação com a segurança, contudo, fazia com que algumas


lideranças tomassem suas precauções. Aparentemente, num encontro de
Virgulino com a prostituta Enedina, em Capela, Sergipe, em 1929, o
“governador do sertão” proibiu que ela retirasse sua roupa ou fechasse as
portas, para que estivesse preparado para fugir, caso fosse necessários

Há episódios conhecidos de estupros realizados por cangaceiros e volantes.


No povoado de Abóboras, Lampião manda arrebanhar onze mulheres
“amigadas” da cidade para que fossem entregues a ele e a dez comparsas (só
quatro com essas características foram encontradas). Não fez questão de
mulheres casadas nem de virgens. A partir daí, organizou uma festa, com
todos os participantes nus. Virgulino exigia que dançassem colados uns aos
outros. Para ele, a dança “moderna’ era “ligada’. Se os casais se afastavam, o
“governador do sertão” obrigava-os a ficar grudados novamente26. Pode-se
imaginar o que eles fizeram com as jovens depois…

Já em 1923, em Bonito de Santa Fé, Paraíba, ele teria ordenado um estupro


coletivo, com a participação de 25 comparsas, que defloraram a esposa de um
delegado de polícia. E em 1931, em Várzea da Ema, Bahia, seus asseclas
teriam estuprado a mulher de um soldado. Ao que parece, esse caso seria
aceitável e sem maior importância para os brigands, já que aquela era a
companheira de um militar, que eles desprezavam. Os sertanejos comuns
também aparentemente não se importavam com o ato. Afinal, a jovem não era
virgem nem tampouco casada “oficialmente” com o soldado 17.

Há autores que consideram Zé Baiano como o maior dos estupradores do


bando. Ele teria, supostamente, abusado de “centenas” de mulheres, casadas e
solteiras28.

Do lado das volantes, o mesmo ocorria. Otília, companheira de Mariano,


depois de presa em Jeremoabo, era retirada todos os dias de sua cela para ser
espancada e abusada sexualmente pelos policiais29. E depois de assassinar
Nenê, mulher do cangaceiro Luís Pedro, as volantes teriam estimulado seus
cachorros a copular com o cadáver daquela mulher30.

As doenças venéreas eram muito comuns e vistas como sinal de


masculinidade pelos bandidos. Entre os brigands, essas enfermidades eram
tratadas de maneira bastante rústica e rudimentar, normalmente com o uso de
fogo e limão sobre as áreas acometidas31. Também faziam um chá de carne
seca de ema e um sumo de doze limões com um ovo imerso e deixado para
“curar” no sereno, dentro de uma cumbuca de barro. O paciente tomava o
caldo resultante em jejum, antes do amanhecer. Depois disso, alguns
procedimentos deveriam ser seguidos: o cangaceiro não tinha a permissão de
mergulhar em açudes, caso contrário poderia perder a visão; e também era
proibido de ingerir frutas espinhentas e carne de aves. Dessa forma,
acreditavam que o tratamento poderia ter bons resultados32.

O fato é que o ingresso de mulheres, após Lampião começar sua relação


com Maria Bonita, em torno de 1930, de certa forma, “domesticou” muitos
daqueles homens. Sua presença fez com que se tornassem certamente menos
violentos, de maneira geral.

Normalmente não se permitia que mulheres sem “maridos” ou


“companheiros” permanecessem nos grupos. Se uma jovem ficasse viúva ou
solteira, teria de escolher logo um novo parceiro, caso contrário era obrigada
a deixar o bando. Algumas quadrilhas chegavam a ponto de executar essas
raparigas - como foi o caso de Rosinha -, garantindo, com isso, que suas
atividades e coitos não seriam revelados para ninguém”.

Por outro lado, há casos de mulheres que se sobressaíam e invertiam o


tradicional papel de donas de casa submissas, subjugadas pelo sistema
patriarcal e machista sertanejo, para uma postura mais ativa, de mando e
ordem. O cangaceiro Vicente de Marina (um ex-escravo, membro do grupo de
Sinhô Pereira), ainda que famoso por sua valentia e agressividade em
combate, tornava-se dócil e meigo quando estava com Minervina, sua esposa.
Se contrariasse sua mulher, levava uma surra de vassouras, tapas, socos e
chutes. Aceitava a tudo isso calado34.

As cangaceiras usavam uma indumentária distinta da dos homens: seus


vestidos, de brim ou gabardine, eram cortados na altura do joelho; as meias,
bem grossas, presas com elásticos, subiam até as coxas; também calçavam
luvas bordadas, de cores variadas; e se enfeitavam com uma diversidade de
anéis, correntes, medalhas e outras joias. Seus chapéus, ao contrário dos
usados por seus parceiros, não eram de couro, mas de baeta ou massa,
adornados com estrelas feitas com pele de boi recortadas, ou outros desenhos,
costurados, quando era o caso, em sua copa. Carregavam também cantis
trabalhados com adereços (especialmente ilhoses em suas alças) e bornais
cobertos de sutaches, como os dos homens, feitos por elas mesmas. Ainda que
levassem consigo um revólver calibre 32 a tiracolo, perto do sovaco, em
geral, não o usavam35.

As mulheres, muitas delas meninas ou adolescentes, eram geralmente


respeitadas pelos homens, mas as traições não eram perdoadas. Um exemplo é
o de Lili de Moita Brava. Amante de Lavandeira, ao se tornar viúva, “juntou-
se” com o baiano Manoel Moreno, bandoleiro “manso”, pouco afeito aos
combates. Como a jovem era impetuosa, largou logo o companheiro e se uniu
a Moita Brava, um salteador mais agressivo, na época membro do grupo de
Ângelo Roque. Quando Moita Brava descobriu que Lili o traía, descarregou
seu revólver nela. Mais tarde, como de costume, ele arrumou outra mulher36.
É bom lembrar, contudo, que o assassinato de esposas adúlteras (ou seja, o
crime de honra) era algo comum e socialmente aceito tanto entre as famílias
ricas como entre as mais pobres no ambiente sertanejo37.

É claro que, em muitas instâncias, havia fidelidade e os casais


permaneciam juntos por muito tempo. A cangaceira Sila, que entrou na
marginalidade aos 14 anos de idade, levada da casa dos pais por Zé Sereno,
ficou com ele pelo resto da vida, inclusive muito tempo após o fim do
cangaço. Estiveram casados por 45 anos38.

Dentro do cangaço, os partos, em geral, eram normais, ainda que fossem


realizados sem higiene alguma39. Em relação aos filhos nascidos dentro do
cangaço, estes eram, costumeiramente, entregues a padres, familiares ou
pessoas de confiança, que seriam incumbidos de criá-los e de lhes dar uma
boa educação. As duas filhas de Antônio Silvino, por exemplo, foram
educadas em Recife, em “ótimo” educan dário40. O padre Pereira da
Nóbrega, filho de Chico Pereira, ao contrário do pai, era de índole pacífica,
um clérigo e intelectual. E um dos filhos de Corisco, Sílvio Bulhões, foi
economista e vereador41

Temos de ressaltar aqui, portanto, alguns aspectos importantes em relação à


presença das mulheres no cangaço. As mulheres eram a minoria do
contingente (o número delas no cangaço, entre amantes e esposas, não passou
de quarenta, aproximadamente)” e tiveram uma participação marginal,
secundária, dentro das “tropas”, que durou muito pouco, apenas dez anos, de
1930 a 1940, do momento em que Virgulino Ferreira leva Maria Déia para
dentro de seu grupo até o assassinato de Corisco e a captura de Dadá, sua
esposa43.

Na verdade, muitas mulheres tinham privilégios nos acampamentos, sendo


comumente “servidas” pelos homens na hora das refeições, chegando a ponto,
em algumas ocasiões, de serem alimentadas pelos seus companheiros. O
pesquisador Antônio Amaury Corrêa de Araújo conta que Zé Baiano (um dos
mais ferozes cangaceiros), por exemplo, oferecia os melhores pedaços de
carne para sua mulher, Lídia, colocando a comida em sua boca, para depois
lhe dar de beber no cantil e em seguida, limpar seus lábios com lenço de
linho44. É possível dizer que havia casais que, de fato, se amavam. Assim,
quando a cangaceira Inacinha foi presa, em Piranhas, seu marido Gato não a
abandonou. Invadiu a cidade, para tentar libertá-la da prisão. E lá foi
assassinado pela polícia.

As mulheres também davam apoio moral e afetividade, proporcionando um


senso de “normalidade”, na medida do possível, àquele estilo de vida errante
e incomum. Ou seja, o cangaço se “normalizava”, se “institucionalizava’,
mesmo que fosse fora do mundo “oficial”. Era a construção de uma realidade
paralela, que reproduzia, em alguns aspectos, mesmo que de forma
heterodoxa, a ordem instituída.

Ainda que em períodos anteriores as mulheres fossem vistas com


desconfiança, como “peso extra” e como elementos de discórdia, que
poderiam causar brigas e desavenças internas, foram bem aceitas quando
acabaram ingressando nos bandos. Muito se deve, é claro, à autoridade
inconteste de Lampião.

A permanência das mulheres certamente só fez crescer a imagem


mitológica do cangaceirismo dentro das comunidades sertanejas, ainda que
alguns, como o bandoleiro Balão, acreditassem (talvez por machismo), que
elas haviam sido as responsáveis pelo fim do cangaço45. Isso teria ocorrido
por diferentes motivos. Em sua opinião, um homem nunca poderia se casar
nem tomar banho de mar. Caso contrário, ficaria de “corpo aberto”! Balão
argumentava que jamais tivera uma esposa e por isso, sempre escapara ileso
de todas as adversidades. Já aqueles que haviam sido casados ou amasiados
tiveram um fim trágico…

Para ele, as mulheres também não teriam a mesma resistência física dos
homens e ainda representavam um estorvo quando ficavam doentes ou
grávidas. Uma forma peculiar, sem dúvida, de encarar essa questão.

Apesar de ser casado “oficialmente”, Corisco também não gostava da


presença de mulheres em seu grupo. Dizia que só aceitava novos “recrutas”
solteiros. Para ele, de mulher já bastava a dele46

Se esses exemplos indicam talvez uma atitude machista, houve quem


dissesse que isso não ocorria nas fileiras do brigandage nordestino. Para a
cangaceira Sila, não havia machismo entre os bandoleiros. Ela dizia que,
diferente de boa parte dos homens sertanejos, os salteadores eram muito
atenciosos e cuidadosos com as mulheres. E que havia muito respeito com
elas 17.

Era possível encontrar, também, algumas crianças dentro das fileiras do


cangaço. Meninos de 7 a 12 anos de idade eram, por vezes, utilizados como
lavadores de cavalos, como carregadores de água, na limpeza dos
acampamentos e na função de “espiões”, já que não acarretavam muitas
suspeitas da população sertaneja sobre si, especialmente na época em que
Lampião foi o “governador” do sertão. José Roque, Volta-Seca (o mais
famoso menino-cangaceiro), Beija-Flor, Deus-te-Guie, Saracura, Roxinho e
Pó Corante são algumas das crianças que se tornariam bandoleiros. Recebiam
pagamentos em dinheiro, como os adultos. Supõe-se que não recebiam um
“ordenado”, mas se pedissem, ganhavam a quantia solicitada. Se não
cumprissem de modo satisfatório suas incumbências, eram espancados e
escorraçados pelos chefes48. Em realidade, as crianças, muitas vezes, serviam
de bodes expiatórios para os bandoleiros mais velhos. Qualquer deslize era
motivo para punições 49. Entre as funções dos meninos, também se incluía a
participação em combates e, consequentemente, matar soldados das volantes:
recebiam instruções diretas do líder, no próprio momento da luta guerrilheira.

É bom salientar, contudo, que mesmo os “adultos” no cangaço eram bem


jovens. O Relatório do Delegado Regional (Sexta Zona) de 1929, confirmava
que “em mais de uma centena de bandidos capturados raro é aquele que conta
idade superior a 26 anos; e todos, sem exceção, ingressaram na torrente do
crime, contando menos de 18 anos” 50

De qualquer forma, ainda que essa fosse uma vida mais “emocionante”, os
bandidos de origem mais pobre, na prática, trocavam um patrão por outro. Por
exemplo, Antônio Silvino agia como líder militar e também como patrão,
acreditando que assim garantiria a lealdade dos jovens que lutavam a seu lado
em seu bando’. Quando os “recrutas” abandonavam seu grupo, Silvino
chegava a encaminhá-los para trabalhar com fazendeiros amigos seus. Os
cangaceiros que ficavam recebiam um salário diário. Alguns anos mais tarde,
os homens de Lampião supostamente ganhariam 30 mil-réis semanais3.

Jesuíno Brilhante era dono de escravos e mandava cartas para o presidente


do Rio Grande do Norte, numa posição igualitária, acusando de desonestos os
agentes do governo: dizia, em alto e bom som, que era o “rei” daquele deserto
e o “senhor absoluto” daqueles ermos4. Costumava frequentar, sem
cerimônia, as casas de famílias mossoroenses proeminentes e possuía até
mesmo um advogado próprio para representá-lo judicialmente.

João Calangro, outro líder conhecido, sempre com seu uniforme de


casimira, fazia questão de ser chamado de “General Brigadeiro”, uma clara
necessidade de reconhecimento de autoridade. Já Basílio Quidute de Souza
Ferraz decidiu utilizar a alcunha de Basílio Arquiduque Bispo de Lorena, uma
alusão tanto à Igreja quanto também a um possível desejo de pertencer à
nobreza. Por seu lado, Bom Deveras, tipo elegante, trajava roupas de
casimira, botas polidas e luvas (ou seja, trajes similares aos dos “coronéis”)5,
carregando constantemente consigo um revólver com cabo de madrepérola e
muitas joias. A casimira, de fato, era a indumentária cobiçada por vários
daqueles brigands, já que indicaria, em grande medida, um nível social mais
elevado. Afinal, a casimira era o tecido mais caro do sertão na época7. Quem
olhar uma foto de Sinhô Pereira e Luís Padre, de 1916, verá dois homens
distintos, de paletó, camisa social e gravata, com cabelos cortados de modo
impecável e barba feita, em pose de senhores rurais.

Antônio Silvino, o “rifle de ouro”, era chamado também de “capitão” e de


“governador do sertão”: gostava de usar seu uniforme de tenente-coronel,
explicitamente um símbolo de respeitabilidade e um constante lembrete de
sua importância, ainda que, de vez em quando, entrasse nas cidades com uma
“vistosa” farda de capitão de polícia8. Ele costumava se dizer “procurador do
governo” nas cidades do interior, para em seguida, saquear coletorias e
agências postais, assim como para cobrar impostos de criadores e negociantes
da região. Mesmo que não gostasse da polícia, roubava seu fardamento e o
distribuía a todos os seus companheiros de armas9.

E Lampião, igualmente “capitão”, recebeu mais tarde, como Silvino, o


título de “rei” dos cangaceiros10. Seu poder ali era tanto que chegava a ponto
de “promover” alguns bandidos que se destacavam em combate. Por exemplo,
“elevou” o bandoleiro Jurema ao posto de “sargento””. Isso para não falar do
cangaceiro Moita Brava, que se dizia coronel’. De fato, o próprio Optato
Gueiros considerava os homens que lutavam com Virgulino Ferreira como
seus “empregados”13. Como diria Zabelê, numa declaração emblemática:
“Lampião foi o mió honre qui tive cumo patrão””

O que se pode constatar é que uma das características mais patentes do


cangaceirismo é sua ambiguidade nas relações entre “dominadores” e
“dominados”. O brigandage nordestino se mantém equidistante tanto do
“povo” como dos mandões, ainda que tenha maior proximidade, em alguns
momentos, com as elites rurais. Como eram “independentes”, podiam ter sua
imagem dissociada diretamente dos coronéis. Ou seja, não sendo assalariados
nem empregados de ninguém, eram de certo modo autônomos, tirando das
camadas mais abastadas e dos governos o monopólio da violência. Eram,
portanto, um poder à parte.

Os “coronéis” nem sempre tinham o apoio político dos governos estaduais.


Em certas ocasiões, podiam inclusive ser alvo de perseguições políticas de
opositores vinculados a grupos poderosos nas capitais.

Os cangaceiros, dessa forma, supririam essa falta de poder


institucionalizado no sertão. Seriam os fiéis da balança em muitos casos.
Poderiam ou não se envolver em disputas políticas, caso fossem requisitados.
Ou seja, eram um poder paralelo, mais fluido e inconsistente, mas que podia
ter apelo às massas rurais de alguma maneira15

Quem detinha o monopólio do poder dentro de um bando era sempre o


chefe. Ele era o provedor de tudo que o jovem bandoleiro precisava. Em
última instância, o líder controlava os meios de vida de seus homens. O
cangaceiro Jurubeba, em entrevista a Arthur Shaker, fala explicitamente de
Lampião como seu patrão16. A dependência do “cabra’ para com o chefe era
total. Era dele que recebia o treinamento, as armas, o dinheiro e até seu nome
de guerra. Mas quem de fato lucrava com esse empreendimento eram as
lideranças.

Até mesmo um salteador como José Baiano, do primeiro escalão do bando


de Virgulino Ferreira, chegou a economizar, ao longo do tempo, 700 contos
de réis (uma quantia certamente alta), em notas e joias, que normalmente
deixava guardados em garrafões. Dinheiro, é claro, roubado ou produto de
extorsões. Como forma de aumentar seus lucros, fazia empréstimos a juros,
em geral, para comerciantes de Aracaju. Um verdadeiro banqueiro!

José Baiano, talvez por causa da agiotagem, chegou a ser considerado o


mais rico entre todos os cangaceiros daquele período. Há quem acredite,
talvez exageradamente, que sua atividade tenha ajudado a aquecer a economia
local e a movimentar o comércio da capital daquele estado‘7. O fato é que,
depois do assassinato de Zé Baiano, foram encontrados, no espólio de seu
grupo, entre armas de fogo e cutelos, quatro chapéus com barbelas, sendo um
deles ornado a ouro; um relógio de ouro; uma sacola cheia de peças de ouro,
equivalentes a 900 gramas; uma palmatória; dois ferrões com as iniciais JB,
com os quais ele marcava mulheres; e vários anéis e colares de ouro. Seu
punhal, de ouro e prata, valia aproximadamente 1.200 réis, e fora um presente
de Virgulino. Já o chapéu do bandoleiro tinha 65 medalhas de ouro18.

Um jornalista, certa vez, ao fazer uma descrição de Lampião, disse que ele
usava um lenço verde preso por um anel de brilhante e mais seis anéis de
pedras preciosas, ou seja, um rubi, um topázio, uma esmeralda e três
brilhantes. Seus óculos escuros tinham aro de ouro”’. A cartucheira de
Virgulino media dois palmos de largura, quatro fileiras de cartuchos e
apresentava duas fileiras de botões de ouro e prata20. E entre os pertences de
Lampião, encontrados após a tragédia de Angico, constavam um chapéu de
couro adornado com 55 peças de ouro; três anéis (um deles com uma “pedra
verde”); uma testeira com moedas e medalhas, entre elas duas libras
esterlinas, uma moeda de ouro de 1885 e outras duas feitas do mesmo metal,
de 1776 e 1802; uma medalha com um brilhante; uma moeda de prata do
Império no valor de 25 mil-réis; bornais com botões de ouro e prata; uma
aliança de ouro; e um anel de ouro; entre outras peças.

O mesmo pode ser dito, de certa forma, de Corisco, outro importante


criminoso. Quando Corisco foi assassinado, foram encontrados com ele 2 kg
de ouro e 300 contos de réis’.

É interessante notar que, em grande medida, as riquezas dos bandoleiros


fossem representadas por pedras preciosas e objetos em ouro e prata. Isso
mostra que o sertão, ainda que majoritariamente pobre, possuía muitas dessas
peças de grande valor econômico, em especial nas mãos dos fazendeiros e
comerciantes. Uma boa parte do patrimônio familiar das classes mais
abastadas naquela região consistia desses objetos. Afinal, naquela época, a
instabilidade da moeda nacional favorecia esse tipo de decisão. Por outro
lado, no ambiente sertanejo, muitas das transações ainda não eram
monetárias, havendo uma clara ausência de bancos nas cidades do interior`. É
compreensível, portanto, que essas famílias mais abastadas acumulassem tais
peças em casa, como uma forma melhor de preservar a sua riqueza23

Quando Lampião recebia as armas de seus abastecedores, por seu lado,


fazia inicialmente a distribuição para seus “cabras” e o restante, ou revendia
para os subgrupos ou armazenava para futuras ações guerrilheiras24.

Vale a pena recordar a conversa (ou pelo menos, uma versão dela) ocorrida
no final de 1929, entre Virgulino e o padre Emílio Ferreira, vigário de Glória.
Depois da missa, o clérigo mostrou um grande mapa do Brasil ao chefe
cangaceiro e pediu que ele mostrasse o tamanho de seu “reino”. Com o dedo
indicador, foi traçando um risco imaginário nas diversas localidades onde
havia passado com suas tropas, e onde considerava sua área de comando. Era
uma área de 300 mil quilômetros aproximadamente, que percorria sete
estados. Por isso, o padre, surpreendido, teria dito que o grande “reino” de
Lampião faria inveja a muitos monarcas europeus?5! Isso é o que se pode
chamar de “aristocracia” cangaceira: Lampião era o “rei” e Maria Bonita, um
pouco mais tarde, se tornaria sua “rainha”.

Os cangaceiros que compunham a média e baixa hierarquia de seus bandos,


muitas vezes malvistos pelo populacho, que os chamava de “cabras”,
recebiam de seus chefes a designação de “rapazes” ou “meninos”,
supostamente termos mais respeitosos, ainda que decerto indicativos de uma
relação entre patrão e empregado`. Os jovens bandoleiros, por sua vez,
gostavam de receber esse tratamento, sentindo orgulho em fazer parte do
grupo de um chefe de prestígio, já que isso mostrava, em certa medida, um
sentimento de pertencimento a uma “instituição”.

Num bilhete de cobrança de dinheiro, enviado e assinado por Arvoredo, a


serviço de Lampião, destinado a Francisco de Souza, na Bahia, o fora da lei
termina seu pedido assim: “Sem mais, do seu criado27 e obrigado. Hortêncio,
vulgo Arvoredo, rapaz28 de Virgulino”29.

É possível perceber nesse trecho que ele sabe qual é seu papel e sua
posição hierárquica dentro do bando, e também sua identificação com seu
chefe. Entre si, esses quadrilheiros de menor prestígio também se
denominavam, costumeiramente, de “meninos”30. Os líderes do cangaço,
portanto, não tinham patrão. Mas os “rapazes” bandoleiros, sim.
Para Ângelo Roque, vulgo Labareda, cada grupo possuía um chefe, os
chamados “grandes” do cangaço. Em seguida, compunham a “tropa’, em
nível inferior, os que seriam “simples” cangaceiros, que ainda tinham algum
status, já que recebiam apelidos. E então, finalmente, vinham as massas
anônimas de bandidos, os “cabras”, que tinham menos importância e nem
sequer eram conhecidos por seus nomes de guerra31

O cangaceiro Jurubeba, contudo, tem uma versão diferente. De acordo com


o antigo salteador,

nenhum de nós tratava de cabra… nem eles mesmo, os chefe, tratava de


cabra não, eles tratava companheiro. Todos os outros também tratava
assim, por apelido. Eu nunca vi isso de tratar de cabra. Ali parece uma
irmandade só. Agora, a gente tinha aquela pessoa que sabia que era
patrão, que era um chefe. Então nós tinha respeito a ele. E ele tinha a nós
também, porque nós precisava dele e ele precisava de nós, porque sem
nós o que ele ia fazer, nada né?… No dia que ele tinha vontade de brigar,
às vez saía fora… num ficava bravo com ninguém… na qualidade de
chefe, chefe geral nosso, então nós tinha que obedecer. A gente tem hora
que não fala nada… mesma coisa: nós estamos nós cinco, o senhor é o
nosso chefe, então o senhor diz: vamos derrubar esse muro aí. O senhor
mandou, nós tem que ir, nós vê que o senhor está errado, mas o senhor
mandou, nós tem que ir.32

O tipo de tratamento entre eles marcava as diferenças sociais no bando”.


Aqueles chamados por “você” e “compadre” tinham posição elevada no
grupo. Já o baixo escalão, os “cabras”, de acordo com Ângelo Roque, tinha de
se dirigir aos líderes por “senhor”. O termo “compadre” indicava intimidade e
respeito entre os bandoleiros34. Lampião, Corisco e outros líderes, os
“grandes” do cangaço, se relacionavam com os “coronéis” e chefes políticos
regionais de igual para igual, dirigindo-se uns aos outros pelo primeiro nome
ou por “você”, o que indica novamente a posição que se colocavam na
estrutura de classes regional da época 15.
Como cangaceiros “independentes”, os chefes de bando consideravam os
“ricos” como alvo favorito - mas não exclusivo -, por lhes ser mais atraente
economicamente. Mas também podiam prestar “serviços” pagos, a amigos ou
aos chefes regionais, como “contratados” provisórios36. Como eram mais
“autônomos”, sem vínculos oficiais com nenhum patrão específico, podiam
escolher seus aliados e inimigos, e livravam a responsabilidade dos
“coronéis” de seus atos, sendo rotulados e atacados como bandidos com
maior facilidade do que os jagunços37.

O próprio Lampião teria dito numa entrevista conhecida:

Gosto geralmente de todas as classes38. Aprecio de preferência as


classes conservadoras - agricultores, fazendeiros, comerciantes etc. -, por
serem os homens de trabalho. Tenho veneração e respeito pelos padres,
porque sou católico. Sou amigo dos telegrafistas porque alguns já me
têm salvo de grandes perigos. Acato os juízes porque são homens da lei
e não atiram em ninguém. Só uma classe39 eu detesto: é a dos soldados,
que são os meus constantes perseguidores. Reconheço que muitas vezes
eles me perseguem porque são sujeitos a isso, e é justamente por essa
causa que ainda poupo alguns quando os encontro fora da luta.40

Fica claro, nesse caso, que Lampião não fazia distinção entre classe,
estamentos, categorias e camadas sociais41. E que, mesmo não possuindo
uma compreensão mais sofisticada das relações e configurações de classes ou
grupos sociais (identificando como inimigos apenas determinados “atores”
específicos, sem compreender com maior clareza que eles agiam dentro de
um sistema político e econômico mais complexo), tinha, não obstante, noção
geral do ambiente no qual transitava.

É possível perceber uma transição do cangaceirismo no período do


Império, caracterizado, em alguns momentos, por códigos de conduta mais
estritos e “cavalheirescos” no que diz respeito ao trato com mulheres, idosos e
a população civil de forma geral, com um desprendimento maior em relação
ao dinheiro e com um desejo de abandonar as práticas criminosas assim que a
vingança estivesse consumada, para um cangaceirismo com maiores intenções
financeiras na era republicana. Certamente, resquícios do período anterior irão
permanecer: problemas com a justiça e vendera familiar. Mas agora poder-se-
á notar um componente novo. O cangaço se tornará um “negócio”, um
“emprego”, um “meio de vida’. Chegará a ser visto como uma “profissão”.
Deixará de ser apenas uma forma de vingança ou de ser vinculado a
“coronéis” locais. Os “novos” cangaceiros, em grande medida, à parte de
motivos pessoais e entreveros com delegados de polícia ou com membros de
outras famílias, entrarão nas fileiras do cangaço vendo nelas a possibilidade
de liberdade, prestígio e fortuna. Muitos não terão a intenção de abandonar a
atividade, considerando-a uma forma melhor para enriquecer. Um cangaceiro
conhecido, Gitirana, por exemplo, chegou a dizer numa entrevista que, aos 22
anos de idade, entrou no cangaço porque teria mulheres, liberdade e
dinheiro42. Por isso, a cena em que Luiz Macário perguntou ao oficial das
tropas volantes, Optato Gueiros, quanto ele ganhava por mês é propícia neste
momento. Quando este respondeu que seu salário era de “apenas” 95 réis,
Lampião interpelou: “Muito pouco. É melhor ser cangaceiro mesmo”43.

Isso quando os brigands não demonstravam mais explicitamente seu


desprezo pelas volantes e sua situação econômica. Em janeiro de 1925, em
Melancia, Lampião e seu grupo detiveram o soldado Taveira e outros colegas
de armas, que foram pendurados e esquartejados, tendo os olhos arrancados e
os lábios decepados. O “espantalho” ficou decepcionado com o que encontrou
no bolso daquele soldado: apenas um cachimbo e uma prata de cruzado. Ele,
em seguida, teria dito: “O macaco é pobre demais”44. Foi aí que Juriti tirou
de seu próprio bolso uma nota de 2 mil-réis e enganchou no cinturão do
sujeito. Um sinal de desmerecimento e desprezo, certamente4s

O próprio “governador do sertão”, alguns anos mais tarde, diria numa


entrevista: “Estou me dando bem no cangaço e não pretendo abandoná-lo.
Não sei se vou passar a vida toda nele. Preciso trabalhar46 ainda uns três
anos… Depois talvez me torne negociante”47. O bandoleirismo, assim, era
visto como emprego e profissão. É compreensível, também, o comentário do
cangaceiro Zé Ricardo a um amigo:

Zé Divino, meu velho, és um louco, passando a vida inteira curvado


sobre a tua enxada, que só te dá 500 réis por dia.

Pois não vês que um mês de trabalho teu te vale 12 mil-réis apenas;
enquanto que eu tenho por dia o dinheiro que quero, 10, 20 mil-réis, que
os meus patrões48 me dão, de medo do meu rifle?

Disseste-me que há já anos não sabes que gosto tem carne de boi! Vem
daí, meu velho, troca a tua enxada por um rifle, e assim ganharás num
dia o que jamais ganhaste num mês, e comerás carne de boi, em mesa
posta, com os teus próprios patrões …49.

Maria Josepha, tu ganhas apenas 200 réis por dia, e, por isso, nunca
tiveste um vestido de chita.

Não vês minha mulher, a Conceição?

Pois bem, manda teu marido ser cangaceiro também, e andaras prompta
como ela.5o

É possível dizer que dois elementos de percepção social se mesclavam


nesse caso. Os líderes do cangaço ao mesmo tempo se viam (de certa forma)
como “coronéis” (ou seja, patrões responsáveis por seus leais empregados) e
também se consideravam chefes “militares”. Gostavam de usar patentes, de
promover seus “cabras” a postos da hierarquia militar e consideravam os
membros de seus efetivos como “soldados”.

Gustavo Barroso assim descreve os asseclas do bando de Antônio Silvino:


“Os seus bandidos usam velhas fardas de soldados, botões areados, luzindo.
Todos têm fitas, como se fossem oficiais inferiores: um tem duas fitas, outros
três, outro quatro”51. Já no período lampiônico, Sabino Gomes comprovava
tal costume: no ataque a Mossoró, deixou várias vezes de ser atingido por
tiros, por estar vestindo farda de oficial52.
A primeira decisão de Volta-Seca depois de invadir a cidade de Canindé, no
começo de 1932, foi entrar no quartel da polícia e roubar um dólmã militar 5’.
E após o “menino-cangaceiro” assassinar o cabo Militão, na residência de
Alfredo Monteiro, em Brejão de Dentro, o “espantalho” deu um pontapé no
cadáver do soldado, lhe arrancou do braço as divisas de cabo e em seguida as
presenteou a dois outros bandidos, Moderno e Arvoredo, que estavam ali
perto 14.

O próprio Lampião chegou a afirmar que se Sinhô Pereira voltasse ao


cangaço, ele seria novamente seu soldados. Quando se encontrou com o
coronel João Nunes, comandante geral da Força Pública de Pernambuco,
então na reserva, na fazenda Sueca, com intenção de matá-lo (depois ele
acabou sendo solto), Virgulino teria falado: “Hoje encontrei um Coronel, e eu
sou Capitão”56. E ainda completou, dizendo que aquele oficial comandava
“macacos” do governo, mas que ele, Lampião, chefiava os “homens feras” do
hinterland, que não recebiam salários das autoridades, mas que, mesmo assim,
viviam satisfeitos no sertão57.

Os cangaceiros só não admitiam, em hipótese alguma, ser comparados ou


confundidos com ladrões ou bandidos comuns. Isso seria uma ofensa
imperdoável.

Em 1924, depois de invadir uma residência em Santa Fé e matar o jovem


Aristides, filho de Dona Francisca, Lampião foi insultado pela mulher, que,
naquele momento, o chamou de “bandido”, “ladrão” e “desordeiro”. Por isso,
o “homem” mandou que dois “cabras” segurassem a senhora, abrissem suas
pernas e lhe dessem violentas chineladas nas partes íntimas58. E em fevereiro
de 1927, o “espantalho” foi resolver uma querela com os irmãos Gominho, de
Floresta. Isso porque eles teriam dado o nome de Lampião a um cachorro59.

Quando foi preso e chamado de ladrão pelo coronel Sabóia, depois do


assalto a Mossoró, Jararaca teria dito:

Não sou ladrão, não, senhor, coronel. Me chame de assassino, mas não
me chame de ladrão. Eu não furto, coronel, eu tomo pelas armas! E
quando encontro um mais forte, veja o que acontece: estou preso.60

É o que acreditava um cangaceiro ainda mais importante, Antônio Silvino,


vários anos antes. Ao perceber uma quantidade grande de dinheiro dentro do
cofre do comendador Joaquim Pio Napoleão, chefe político de Pilar, Paraíba,
em torno de 5 contos de réis, Silvino afirmou: “Se eu fosse um ladrão, levaria
todo esse dinheiro! Não sou! Preciso agora somente de 200 mil-réis! Me dê
com suas próprias mãos”61. Depois, apesar disso, resolveu pegar o resto do
dinheiro, em notas e moedas de menor valor, e o distribuiu para os pobres62
(antes desses bandoleiros, outro salteador, Jesuíno Brilhante, na década de
1870, também fazia questão de insistir constantemente que não era ladrão, de
forma alguma)63

O próprio Silvino, já preso no Recife, chegaria a afirmar que:

O governo é bandido, porque mata a gente de fome. No sertão, mata-se à


faca, ou com bacamarte, mas não se mata de fome. Isso é perversidade.
Aqui, os presos passam dias sem comer e, quando soltos, são obrigados
a furtar. Cadeia é a escola do crime.64

E no dia de seu julgamento, ao ser perguntado pelo juiz se ele estava ciente
das acusações, Silvino teria afirmado: “Não sei, porque não sou criminoso!
Os que me chamam de criminoso são mais criminosos do que eu”65

Mais conhecida ainda ficou uma correspondência de Lampião ao


governador interino de Pernambuco, Júlio de Melo, de 26 de novembro de
1926, escrita pelo inspetor da Standard Oil Company, Paulo Magalhães (na
ocasião detido pelos cangaceiros), mas ditada por Virgulino, na qual ele
tentava fazer um acordo com o político, e que dizia, respeitosamente, que

nem o senhor manda seus macacos me emboscar, nem eu com os


meninos atravessamos a estrema, cada um governando o que é seu sem
haver questão. Faço esta por amor à paz que eu tenho e para que não se
diga que sou bandido 16, que não mereço.67
Em 25 de novembro de 1929, em Capela, Sergipe, Virgulino deixou uma
mensagem escrita na parede de um bilhar, endereçada aos soldados das
volantes que o perseguiam:

Salve eu, famoso Lampião. Deixo esta lembrança para os oficiá que por
aqui passá e tiver o trivimento mi persigui. Me descurpe as leras, que
sou analfabeto. Sou um bandido cumo me chamo, mas não mereço o
nome de bandido. Quem pode cê bandido é os oficiá que andava
roubando e deflorano as famia aleia. Aceite lembransa de meu irimão
Ezequé e meu cuiado Vigino.68

Ou seja, invertia os papéis da polícia e dos bandoleiros. As tropas volantes,


nesse caso, se tornavam a personificação da criminalidade. Os policiais, para
Lampião, é que seriam os verdadeiros bandidos.

Foi justamente por terem sido chamados pelo termo “bandidos”,


considerado “ofensivo”, que os cangaceiros do grupo de Arvoredo
assassinaram em 1934, a coice de armas, José Caboclo, na fazenda Lagoa do
Meio, Bahia69.

Aqui se pode perceber que o termo “cangaceiro” não tinha um sentido


pejorativo. Pelo contrário. Os bandoleiros não se consideravam bandidos
comuns, mas atores sociais distintos, muito específicos, na mesma estatura
dos outros vistos como respeitáveis no sertão, como vaqueiros e “coronéis”,
por exemplo70. Já os seus líderes, em especial, eram altivos, cheios de
orgulho e dignidade, e, em teoria, não recebiam ordens de ninguém. Eles (e os
sertanejos em geral), em realidade, desprezavam sobremaneira os pistoleiros
(que matavam escondidos, de tocaia) e os ladrões, que “furtavam”
principalmente cabras e cavalos71.

Já o desejo de carregar patentes tem sua explicação dentro do próprio


histórico do sertão. Depois da guerra de Palmares, por exemplo, foi grande a
quantidade de indivíduos com patentes militares que ganharam terras por
serviços prestados. Mas nem todos haviam participado da empreitada: seus
galões indicavam, principalmente, que eram “portadores oficiais” da milícia
pernambucana. Afinal, os colonos “brancos”, obrigados a prestar o serviço
militar, eram os responsáveis por manter a segurança, a lei e a ordem contra
possíveis arroubos das massas negras e indígenas. Essas patentes eram,
muitas vezes, “compradas” ou então outorgadas (ou “presenteadas”) pelas
autoridades coloniais72. Aqueles que tinham mais dinheiro compravam
patentes de coronel, major e capitão, enquanto os menos privilegiados
adquiriam postos hierarquicamente menores, como os de tenente e o de
alferes73. As patentes militares simbolizavam, em última instância, “poder”,
“prestígio” e “riqueza’, separando os homens mais bem-sucedidos em termos
políticos e econômicos do resto do populacho. Os dólmãs das milícias da
Colônia criavam, portanto, uma barreira entre a “elite” considerada “branca’ e
os demais paisanos. Mesmo que não fossem necessariamente “brancos” ou
“portugueses”, sentiam-se como tais, defendendo os interesses da classe
dominante e distanciando-se da maioria da população.

Um caso significativo é o do brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, “o


primeiro general honorário do Brasil”, que se cercou por todos os lados de
parentes, escravos e agregados poderosos. Dono de terras, lavoura e gado,
tinha um filho que era coronel comandante do Regimento de Cavalaria de
Milícias do Crato, outro que era tenente-coronel, outro sargento-mor e mais
um, capitão-mor das ordenanças da vila. Um de seus netos era vigário da
paróquia local. Tinha as armas, a Igreja e o poder econômico em suas
mãos74.

O mesmo pode ser dito da Guarda Nacional. Constituída a partir da lei de


18 de agosto de 1831, pelo padre Diogo Antônio Feijó, no período da
Regência Trina, essa nova instituição militar (que seguia o molde francês do
“exército cidadão” e que tinha como intuito garantir a ordem pública), por seu
caráter classista, acabou tornando-se, em grande medida, uma forma de
preservar uma posição política em âmbito local e um status social elevado
para os membros da elite sertaneja, ainda que sua finalidade fosse,
teoricamente, defender a Constituição, a independência, a liberdade e a
integridade nacional71. Afinal, os “oficiais” eram, todos eles, donos de terras,
parentes destes ou agregados.

A GN deveria ter presença em todo o Brasil, com companhias que


variavam de quarenta a sessenta soldados, acrescentadas de um capitão, um
tenente, um alferes, um primeiro-sargento, dois segundos-sargentos, seis
cabos, um tambor e um corneta7r. Também era composta de batalhões (cada
um deles com um número de quatro a oito companhias) e legiões (dois ou
mais batalhões). Já as companhias de cavalaria tinham em suas fileiras de
setenta a cem praças, mais oficiais. Ainda havia esquadrões (duas
companhias) e corpos (dois a quatro esquadrões). Ainda que os custos de
armas, equipamentos em geral e munição fossem arcados pelo governo
nacional, era de incumbência das câmaras municipais dividir as tropas e
decidir onde ficariam, assim como fiscalizar seus exercícios e revistas77.

Foi a partir da criação da GN que o título de “coronel” se proliferou no


Sertão do Nordeste brasileiro entre as famílias de posse: os latifundiários e os
potentados locais não só o compravam para si, mas também para seus
herdeiros, com a intenção explícita de perpetuar sua força e influência para as
próximas gerações. Esses indivíduos, agora com seu prestígio local
“oficializado” e robustecido pelo Poder Central, garantiam a “estabilidade”
dos municípios do interior, escolhendo os novos “oficiais” a partir do seu
círculo de apoios regionais.

Era claro, portanto, o matiz classista da Guarda Nacional. Por isso, um


presidente de Sergipe chegou a dizer que tinha dificuldade em encontrar
homens “adequados” para ocupar postos de “oficiais” da GN, principalmente
na capital da província, onde, dizia, “a riqueza é rara”78. Ele havia analisado
uma indicação, mas a descartou depois de descobrir que o “candidato” era
filho de pobre e não possuía nada além de seu próprio salário. Preferiu
recomendar outra pessoa, filho de um dos mais ricos proprietários de Sergipe
e também, ele mesmo, cidadão de posses79.
A Guarda Nacional, atrelada ao Ministério da justiça, iria tirar do exército
suas funções territoriais nas áreas rurais. Este passaria a priorizar sua presença
nas fronteiras com outros países. Com quadros escolhidos a dedo, a partir de
nomeações do poder central, no Rio de janeiro, ou dos governos provinciais, a
GN era uma instituição peculiar, em momentos com caráter mais político do
que militar, e claramente feita para servir ao sistema de poder80.

Isso para não falar dos títulos de nobreza em geral. Em 1882, a Gazeta de
Aracaju dizia que “aumenta a ociosidade pública, duplica-se o número de
mendigos, centuplica-se o catálogo de ladrões, quer pequenos e
insignificantes, quer grandes e possuidores de títulos e brasões de fidalguia
81. De fato, naquela época, quem quisesse comprar um título, poderia pagar,
ao governo da Província, 50$000 para ser um duque, 30$000 para marquês,
25$000 para conde, 20$000 para visconde, 15$000 para barão e 15$000 para
conselheiro. Quem desembolsasse a quantia de 35$000 poderia receber o
cumprimento de excelência. E 15$000, de senhoria82.

Conseguir patentes era algo relativamente fácil, se o requerente fosse


influente. Em 1905, após ter um sobrinho surrado a chibatadas por Antônio
Silvino, um chefe político do Cariri paraibano, José Pereira de Gouveia, foi à
capital do estado, onde foi recebido pelo presidente Álvaro Lopes Machado,
que concedeu, imediatamente, o título comissionado de “capitão” e “delegado
volante”. De lá, foi para Recife, onde juntou um grupo de voluntários para
perseguir o bandoleiroS3.

O caso da cidade de Escada (na Zona da Mata de Pernambuco) exemplifica


bem a relação promíscua entre o poder político com o militar e o econômico.
Nos anos 1860, o tenente-coronel Henrique Marques Lins (um dos principais
oligarcas locais) era o comandante do 24° Batalhão, e o tenente-coronel
Manoel Gonçalves Pereira Lima, do 25°, este segundo, dono de dois
engenhos de açúcar. Dos quinze capitães de companhia desses dois batalhões,
oito eram donos de plantações de cana, possuindo um total de dezesseis
engenhos. Já uma década mais tarde, todos os dezesseis capitães de
companhia eram donos de engenhos. E no decênio de 1880, o “coronel”
André Dias de Araújo foi o comandante da Guarda Nacional, enquanto o
tenente-coronel Antônio dos Santos Pontual e o coronel José Pereira de
Araújo, lideravam batalhões84.

Como aponta Eul-Soo Pang, só a classe alta podia fornecer indivíduos para
o oficialato, que excluía explicitamente taberneiros, artesãos, donos de lojas e
pescadores. Os soldados rasos eram recrutados apenas entre os elementos do
“populacho”. Profissionais considerados “respeitáveis” (como juízes,
advogados e médicos) tinham o direito de servir na reserva. Por outro lado,
estudantes, enfermeiros, políticos, patrões com mais de vinte funcionários ou
administradores de fazenda que criassem gado que produzisse mais de
cinquenta novilhos por ano também podiam se isentar do serviço. Quem não
preenchesse os requisitos básicos para a dispensa, ainda poderia recorrer à
influência política de algum protetor. Mas, como fica claro, a maior parte dos
estratos menos favorecidos não tinha nenhuma condição de barganhar sua
isenção. Por isso, os mais pobres não tinham alternativa e eram obrigados a se
alistar na Guarda, onde eventualmente seriam maltratados, ficando distantes
de seus lares, de seus parentes e de suas pequenas propriedades, resultando,
em última instância, em problemas psicológicos e afetivos, assim como
perdas econômicas nas rendas familiares85.

A partir da reforma eleitoral de 1881, que ampliou os direitos dos eleitores,


de uma população total de 15 milhões de habitantes, apenas 142 mil tinham a
permissão de votar86. Assim, o vínculo entre o “coronel” e os partidos (que
viam na figura do chefete regional um elemento essencial para consolidar sua
influência local) se estreita. Senhores de terra podiam perder ou ganhar seu
posto de “coronel” dependendo do resultado eleitoral. O governo, portanto,
punia ou recompensava aqueles vistos como rivais ou aliados87. Já dizia um
comentarista que o prestígio dos chefes locais

provinha não tanto de sua favorável situação econômica, quanto do


número de sequazes empregados ao seu serviço, nos labores da pecuária
e da lavoura. Era com essa gente, capaz de todos os crimes, foragida das
cadeias a maior parte, e de instintos ferozes, que os chefes locais,
garantidos por seu partido no poder, asseguravam a vitória eleitoral,
afastando do pleito os adversários, ou os levando a ferro e fogo, se
ousavam apresentar-se em campo.88

De fato, não era complicada a vitória de candidatos governamentais. Em


muitas instâncias, não seria necessário sequer que houvesse eleitores. As atas
eram preparadas nas próprias prefeituras e coletorias. Os candidatos pré-
escolhidos sempre venciam os pleitos. E se houvesse quaisquer possibilidades
de obstruções ou barreiras para uma eleição confortável, os rivais eram
eliminados fisicamente. Desde bebês até gente falecida “votavam”, ou seja,
tinham seus nomes incluídos no processo de forma irregular, para assegurar a
eleição de determinado candidato. Se, por acaso, um cidadão apoiasse outro
candidato ou denunciasse a farsa, podia ser excomungado por padres locais
ou mesmo demitido de seu emprego8’. Por isso, já dizia Eul-Soo Pang que:

Não era raro descobrir num município do sertão que o fazendeiro de


gado mais poderoso era um coronel, o principal comerciante da cidade
era tenente-coronel, o funcionário público era major, um dono de loja era
capitão e o dono da hospedaria era tenente. 0

O termo “coronel”, portanto, começou a equivaler ao mesmo que chefe


político`.

De acordo com Edgard Carone:

O controle do coronel é total, no seu município ou zona […] O


termômetro da sua afirmação regional está na manifestação popular pelo
voto. É através deste que ele mantém seu prestígio e pressiona para obter
favores necessários para continuar a dominar internamente. No regime
representativo, a sua força é o número de votos que pode fornecer ao
candidato: daí a relação existente entre votar no candidato a um cargo
executivo - governador ou deputado -, e os favores recebidos: empregos
públicos, verbas para obras, controle sobre a polícia local etc. Maior
quantidade de votos significa maior poder, mais favores e maiores
imposições92

As eleições, é claro, eram uma farsa, e apenas garantiam a continuidade do


latifúndio e dos senhores rurais. Em cada município predominava um
“coronel”, que mantinha sua força na região pela quantidade de cabeças de
gado e hectares de terra que possuía, pelo número de “cabras” que viviam em
suas propriedades e pelas armas dos jagunços que podia contratar. Era comum
que desse proteção a cangaceiros ou criminosos a seu serviço, que se
tornariam “coiteiros” poderosos.

A Guarda Nacional passou a ser uma “força de reserva’ em 1917 e foi


extinta em 1922, sendo substituída pelo Tiro de Guerra, igualmente composto
de gente, em geral, com muito pouco preparo ou experiência militar. Ainda
assim, os “coronéis” continuaram a atuar e sua força política permaneceu
sólida.
Cartaz distribuído no governo Frederico da Costa, da Bahia, em meados de
1930.

Lampião e seu bando. Da esquerda para a direita: Vila Nova, cangaceiro


desconhecido, Luís Pedro, Amoroso, Lampião, Cacheado, Maria Bonita,
Juriti, cangaceiro desconhecido, Quinta-Feira.
Virgulino Ferreira, o Lampião, em 1926.
Maria Bonita em 1936.
Fac-símile do ultimato escrito por Lampião ao Intendente Rodolfo Fernandes.
Anúncio das”pílulas de vida do Dr. Ross”utilizando a imagem de Lampião.
José Leite de Santana, o “Jararaca”, preso na Cadeia Pública de Mossoró.

Ao lado, em sentido horário: O cangaceiro Sabino.

Inácia Maria de Jesus, a Inacinha, mulher de Gato, chefe de subgrupo de


Lampião, presa e ferida, em 1936.

Francelino José Nunes, o Português (esquerda), sua mulher, Quitéria,


Velocidade, Pedra Roxa e Barra de Aço, detidos voluntariamente, no início de
1939, após o assassinato de Lampião.
José Aleixo, o José Baiano, entre Manuel Moreno (esquerda) e José Sereno
(direita).
Subgrupo de Lampião chefiado por Moita Brava: o lugar-tenente Serra
Branca (esquerda), a mulher de Moita Brava, Eleonora (centro), e Ameaça
(direita), mortos em combate com a volante do tenente João Bezerra. Fazenda
Patos, Mata Grande, Alagoas, 20 de fevereiro de 1938.
Mulher marcada a ferro e fogo por José Baiano.
Oficiais e soldados da volante do estado de Alagoas sob o comando de João
Bezerra, depois do assassinato de Lampião em Angico, Sergipe.

Cangaceiros do bando de Pancada (Pancada, Maria Juvenina, Vila Nova,


Santa Cruz, Cobra Verde, Vinte Cinco e Peitica) entregam-se à volante de
Alagoas depois do assassinato de Lampião em Angico.
Os cangaceiros Pancada e Vila Nova após sua rendição.
Cidade de Mossoró, cerca de 1930.
Sinhô Pereira (sentado) e Luís Padre, chefes cangaceiros do período 1916-
1922.
Antônio Silvino em 1915.
Reportagem de capa anunciando a prisão de Antônio Silvino.
Gregório Bezerra, que quando jovem conviveu com Antônio Silvino na Casa
de Detenção do Recife.
Luiz Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança, em 11 de março de 1935.
A Casa de Detenção do Recife.

Antônio Silvino ao centro, entre alguns de seus captores.


Parte da tropa que aprisionou Antônio Silvino. À esquerda, o tenente
Theophanes Torres. No ângulo oposto, o sargento José Alvino de Queiroz.
À esquerda, o major Theophanes Torres. Ao seu lado, o chefe de polícia de
Pernambuco Eurico Leão. De pé, o tenente Arlindo Rocha.
Corisco e Dadá (detalhe) em 1936.

Os aspectos militares do cangaço são importantes. O “homem”’ constituiu
vários locais de “recrutamento”, entre os quais a fazenda Paus Pretos, do
“coronel” Petronilo, para receber com segurança os foragidos e perseguidos
pela polícia. A fazenda Três Barras, por exemplo, foi transformada em “escola
de guerra” e campo de treinamento militar. Lá, os novos “soldados”
aprimoravam a técnica de montar cavalos, ao estilo dos vaqueiros; aprendiam
a reconhecer rastros das volantes; a rastejar; e a combater’. Esse sítio,
convertido em quartel-general de Virgulino Ferreira, era vigiado por dois
grupos de sentinelas armados, o primeiro, imediatamente em volta da sede da
propriedade, e o outro, um pouco mais afastado, também em torno do casarão,
mas nesse caso, com a utilização de mais guardas e cães treinados’. Também
praticavam “esportes”, como luta de peito ou luta livre, considerados também
uma forma de diversão4. Nos momentos de descanso, gostavam de jogar
cartas ou de assistir a brigas de cães’. E se podiam, aproveitavam para tomar
cachaça, um hábito muito comum na região’. O recrutamento de Lampião
consistia em dar ao novo combatente um rifle com munição, fardamento e
100$ em dinheiro7. As táticas usadas eram de guerrilha.

Era também comum o uso dos mesmos nomes de guerra por diferentes
cangaceiros. Para homenagear os marginais tombados em combate e ao
mesmo tempo, confundir a polícia, “transferiam” a alcunha de um bandoleiro
a outro. Por isso, chegou a haver dois cangaceiros com o apelido Esperança;
três Sabiá; quatro Beija-Flor; dois Pitombeira; três Asa Branca; dois Cocada;
três Pai Velho; dois Moita Braba; três Marreca; quatro Ponto Fino; dois
Roxinho; dois Mergulhão; dois Bala Quente; dois Nevoeiro; quatro Vereda;
dois Pilão; dois Zabelê; dois Alazão; quatro Azulão; dois Açúcar; dois
Arvoredo; dois Gasolina; três Baliza; dois Bananeira; dois Besouro; três
Caixa de Fósforo; dois Chumbinho; dois Calango; três Cajarana; dois
Canjica; dois Corisco; dois Curió; dois Carrapicho; quatro Chá Preto; quatro
Cajazeira; três Coqueiro; dois Criança; três Colchete; três Mormaço; três
Gato; dois Gato Brabo; três Gavião; dois Gafanhaque; três Moreno; dois José
Pequeno; três Sereno; três Juriti; dois Vinte e Cinco; dois Passarinho; dois
Diferente; três Fiapo; dois Jandaia; dois Jurema; dois Lavandeira; três
Limoeiro; dois Laranjeira; três Pau Ferro; três Pontaria; dois Pó Corante; dois
Sabonete; dois Suspeita; dois Zepelim; dois Saracura; e três Ventania. Nomes
estes, por sinal, que, em muitos casos, já haviam sido utilizados por
cangaceiros de outras épocas. Havia, certamente, uma “continuidade” nos
elementos que inspiravam as alcunhas de vários daqueles bandidos ao longo
do tempo8.

No período lampiônico os cangaceiros desenvolveram um sistema de


alarme muito parecido com o utilizado por Lucas da Feira, o “demônio
negro”, na primeira metade do século XIX, na Bahia. Na época, Lucas
colocava uma rede feita de cipós com um chocalho na ponta, próxima de seu
esconderijo. Qualquer pessoa ou animal que se aproximasse e encostasse na
rede fazia o instrumento emitir um som, alertando os bandidos. Lampião, por
sua vez, utilizava um sistema parecido, só que com linhas finas untadas de
gordura de carneiro e pó de carvão, para que ficassem camufladas e não
fossem percebidas pelos rivais’. Também se utilizava de cachorros como
sentinelas. Coincidentemente, assim como Lucas da Feira, Virgulino também
se fazia valer de uma colher de prata antes de comer, com o objetivo de testar
de antemão os alimentos e garantir que não tivessem sido envenenados por
algum de seus muitos inimigos10

Lampião começou a dividir seu bando em “subgrupos”, em pelotões semi-


independentes, que agiam por conta própria, mas que se uniam ao núcleo
principal quando eram requisitados”. Essa tática era ao mesmo tempo
defensiva e ofensiva. Chegou a possuir de seis a dez falanges de criminosos’:
uma verdadeira “confederação” de cangaceiros. De fato, no período
lampiônico é possível perceber a formação de diversos bandos que se
“soltam” do grupo “principal”. Constantes são as dispersões e aglutinações
entre os bandidos. De qualquer forma, o tamanho de seu grupo poderia variar
de acordo com as necessidades. Para combates maiores, arregimentava mais
bandoleiros. Se eles não fossem mais tão necessários, dispensava-os e ficava
apenas com aqueles que tinha maior confiança13

Os bandoleiros, em geral, evitavam confrontos diretos com as tropas


volantes, que os perseguiam constantemente: só atacavam os soldados quando
acreditavam que a possibilidade de vitória era segura. Era muito difícil
combaterem em campo aberto. E eram poucas as iniciativas de luta corpo a
corpo, algo que faziam o possível para se imiscuir: preferiam as emboscadas,
a partir de serras e serrotes. Cercavam os “macacos” pela frente e pela
retaguarda, em movimento duplo, gritando e cantando, para em seguida, fugir
das imediações, tão logo a batalha terminasse. Tentavam, ao máximo (como
as tropas volantes), economizar munição. Outra das recomendações do
“espantalho” era para que seus asseclas atirassem deitados, com a barriga no
chão, para garantir maior segurança para seus homens.

Em geral, os cangaceiros se fixavam em locais que apresentassem


vantagens estratégicas em termos militares. Isso seria importante para que
cada ponto da localidade escolhida fosse conhecido palmo a palmo, o que
facilitaria uma possível defesa do acampamento e uma fuga de emergência,
caso necessária. Para esconder as marcas de pegadas, caminhavam em fila
indiana, com Lampião normalmente encabeçando o grupo; cada salteador
tentava, na medida do possível, andar sobre as pegadas daqueles que os
precediam nas fileiras e, em geral, o último da fila apagava os traços de sua
passagem na região. Ainda podiam escolher andar sobre pedras, em períodos
de chuva, dentro de riachos ou pular de um lado ao outro nos caminhos de
terra seca, para confundir seus perseguidores. Em alguns momentos, os
membros do bando de Lampião utilizavam alpercatas “reviradas”, com o
calcanhar em posição contrária, com o objetivo de fazer com que os militares
pensassem que seus rivais estavam se dirigindo para o lado oposto:
verdadeiros curupiras. Essa tática já havia sido utilizada por João de Souza
Calangro no final do século XIX, ou seja, muito tempo antes14. Comumente
evitavam o uso de estradas. Para se comunicar, faziam uso de apitos ou
imitavam o cantar de pássaros daquela região”. Também podiam ser
auxiliados por vaqueiros, que serviam de guia em muitas ocasiões.

Até mesmo a indumentária dos brigands se desenvolveu: de vestimentas


mais simples e práticas (adaptações de vestuários de vaqueiros), tornaram-se
trajes mais elaborados, que mantinham sua funcionalidade militar, mas que
também se destacavam por suas grandes quantidades de ornamentos. Os
chapéus de couro, já usados em períodos anteriores, foram refinados na época
lampiônica. Por seu formato, tamanho e material, serviam para proteger a
cabeça nas entradas pelas caatingas; eram presos por testeiras e barbelas
repletas de medalhas e moedas. Dois cantis, pendurados sob as axilas, eram o
suprimento “garantido” de água. Duas cartucheiras se cruzavam nos peitos
dos salteadores, levando cerca de 120 balas de fuzil. As perneiras, salpicadas
de ilhoses, mantinham-se fixadas por presilhas. As luvas de couro, ao estilo
dos vaqueiros, eram usadas em momentos de necessidade, mas os lenços de
seda eram apenas um adorno. Para completar, carregavam um revólver ou
pistola, punhais’, entre dois e quatro bornais e, nos pés, calçavam alpercatas.
O peso completo das roupas, do dinheiro roubado ou extorquido e dos
equipamentos chegava a aproximadamente 30 kg.

O fato é que, ao longo dos anos, as vestimentas dos bandidos foram


gradualmente sendo incrementadas até se tornarem quase “fantasias”. Esse
era um dos aspectos da extrema vaidade daqueles bandoleiros. Uma
testemunha da entrada de Lampião e seus asseclas na vila de Tucano, Bahia,
em 1929, disse: “Saltaram na praça da Matriz, a principal da cidade. Vinham
tão ornamentados e ataviados de cores berrantes (lenços vermelhos, bolotas
nos chapéus etc.), que mais pareciam fantasiados para um carnaval” 17.

Alguns autores afirmam que as crianças no cangaço tinham de carregar em


torno de duzentos cartuchos. E que os adultos levavam consigo, em média,
quinhentas balas, muitas vezes com um peso de 17 kg18. Só a espingarda
pesaria 7 kg‘9.

O fato é que nenhum exército do mundo (muito menos grupos


guerrilheiros) tinha em suas fileiras homens que carregavam,
individualmente, mais do que 40 kg de equipamento e armamento. Se
consideramos o tamanho e peso dos brigands, e as longas distâncias que
caminhavam, perceberemos que era virtualmente inviável que carregassem
um peso maior que aquele. As armas utilizadas por cangaceiros e volantes, de
modo geral, iam desde os já ultrapassados rifles Winchester, fuzis mais
modernos e revólveres e pistolas de marcas e fabricação variadas, até, do lado
das volantes, a partir de meados da década de 1930, submetralhadoras e
metralhadoras.

Armas em uso no sertão dos anos 1920 e 1930, portanto, eram o revólver
Colt modelo Police Positive, calibre 38 mm; pistola Luger modelo 1908,
calibre 9 mm, parabelum, com cano de 4 polegadas; pistola Browning modelo
1910, calibre 7,65 mm, cano de 3,5 polegadas; rifle Mauser de 7,92 mm, bolt
action, com 5 balas; a carabina Manlincher austríaca de 5 tiros; os revólveres
Nagant, Girard e Royale; a pistola Comblain; fuzil metralhadora Hotchkiss
1921; submetralhadora Bergmann 1918; submetralhadora Royal 1932; e
submetralhadora Bergmann modelo 1934.

O revólver Colt calibre 38, de fabricação norte-americana, produzido entre


1895 e 1943, tinha seis balas no tambor e pesava 1,5 kg. Já a pistola Luger, a
favorita de Lampião, era produzida na Alemanha e considerada uma arma de
alta precisão. Também pesava 1,5 kg, com pente de doze balas. Seus tiros
podiam atingir uma distância de até 40 metros. Por seu lado, a pistola
Browning, de origem belga, era mais utilizada pelas mulheres. Com sete tiros,
era pequena e prática, pesando menos de 1 kg, com as balas. Atingia um alvo
a curta distância, em torno de apenas 6 metros. O fuzil metralhadora
Hotchkiss, francês, com trinta tiros, 10 kg de peso e capacidade de atingir um
alvo a 200 metros, e a submetralhadora Bergman, alemã, pesando em torno de
8 kg, eram equipamentos mais potentes e usados basicamente pelas volantes.

Um dos motivos para a longevidade da “boa’ recordação dos cangaceiros


seria sua contraposição às volantes20, que representavam a ordem instituída e
praticavam, em várias instâncias, roubos, espancamentos e assassinatos como
os cangaceiros. Se eles representavam o governo - que deveria ser um braço
institucional da “nacionalidade” e representar o “povo” -, teriam de agir de
maneira correta e respeitosa para com a população. Mas como usavam de sua
farda e de sua autoridade para, muitas vezes, transgredir as próprias leis que
deveriam defender, ficavam com uma aparência negativa perante as
comunidades sertanejas. Se aqueles homens, a personificação do “governo”,
desmereciam e achincalhavam os mais pobres, nada mais natural que parte
dessa sociedade se voltasse para os cangaceiros e visse neles o oposto, ou
seja, aqueles que lutavam contra a ordem, ainda que parte dessa visão fosse,
claramente, idealizada e distorcida2’. Nesse sentido, os bandoleiros teriam
suas atividades criminosas justificadas no quadro maior da luta entre os dois
“partidos” do sertão: o cangaço e a polícia`.

É importante, aqui, fazer uma rápida menção às tropas volantes, que


funcionavam como contraponto, como o outro lado da moeda no ambiente
sertanejo. Na prática, não havia grandes diferenças básicas de motivações que
levavam os homens sertanejos a ingressarem nas volantes ou no cangaço.
Dependendo de certos fatores, como posição dentro do quadro social ou da
decisão do inimigo de família, o interiorano acabava por optar entre um ou
outro caminho de armas. Os soldados das volantes, os “macacos”, como eram
chamados popularmente, tinham, por seu lado, contudo, a cobertura da
legalidade, ou seja, eram “funcionários” armados e pagos pelo governo. Mas
sua indumentária, a partir de um determinado momento, era bastante parecida
com a dos cangaceiros, assim como suas razões para entrar na polícia.

Já dizia Luiz Luna que

os amigos de infância de Virgulino, aqueles meninos das guerrilhas de


mentira, de faz de conta, foram, com o decorrer do tempo, uns, seus
comandados; outros, seus adversários de verdade. Uns se transformavam
em “bandidos”; outros em “macacos”, como se tratavam entre si
cangaceiros e soldados das “volantes”. O mais ferrenho inimigo de
Virgulino foi José Saturnino, seu companheiro de meninice, no vale do
Pajeú, membro da família Nogueira, que, com parentes e aderentes, lhe
deram combate a vida inteira.`

Insistia o jornalista que

por causa dos Nogueira, gente de José Saturnino, os Gomes Jurubeba e


Ferraz incompatibilizaram-se com os Ferreira. Dos Ferraz, também
conhecidos pelo apelido Flor, os que mais se destacavam eram Euclides,
Manuel e Odilon, gente muito valente e honrada. Todos três, além de
outros parentes, assentaram praça, depois, na Polícia de Pernambuco,
para combater Virgulino, quando este entrou abertamente no cangaço.`

Ainda afirmava:

Se a situação fosse inversa, se Virgulino, em vez de chefe de


bandoleiros, comandasse uma “volante”, não tenham dúvida que Manuel
Flor e seus parentes formariam no bando de cangaceiros, pois o seu
objetivo era liquidar o inimigo, por quem se julgavam duramente
ofendidos. Como Virgulino estava do outro lado, chefiando um grupo
irregular, os homens da família Flor, da vila de Nazaré, município de
Serra Talhada, Estado de Pernambuco, se tornaram soldados do governo,
pois era esse o meio mais fácil e prático para a realização dos seus
propósitos.25

O clã dos Flor foi um dos mais aguerridos “caçadores” de cangaceiros de


sua época. Lampião se surpreendia com o fato de até mesmo o seu
“compadre”, José Flor, fazer parte da Força Volante que o perseguia. Afinal,
ele dizia que aquele havia sido seu companheiro de farras, nas festas e nas
pegas de boi26
Em realidade, até mesmo a relação das volantes com os fazendeiros era, em
grande medida, parecida com a dos cangaceiros, guardadas, é claro, as
proporções. Crimes com requintes de crueldade eram largamente praticados
pelos “macacos”. Pequenos donos de terra eram expulsos de suas
propriedades e tinham suas fazendas desapropriadas à força por “coronéis”
poderosos, que se apoiavam nas armas de oficiais de polícia, que, muitas
vezes, se tornavam amigos e compadres dos caudilhos rurais. A influência
política dos “coronéis” ajudava na promoção de tenentes e capitães dentro da
corporação e no acobertamento de suas atividades ilícitas. Havia aí, de modo
claro, uma relação de promiscuidade entre o poder público e o privado. Uma
troca de favores.

Quem não quisesse participar desse “arranjo” estaria fadado ao fracasso.


Um caso clássico é o do tenente-coronel Alberto Lopes, responsável pelas
volantes baianas em 1930, em substituição ao coronel Terêncio dos Santos
Dourado. As volantes vinham sofrendo derrotas sucessivas desde a nomeação
de seu primeiro comandante, o capitão Hercílio Rocha, trocado em setembro
de 1929 pelo capitão José Bernardino de Macedo, que renunciou pouco tempo
depois, entregando o cargo em dezembro do mesmo ano ao coronel Dourado.
Lopes exigiu do governo uma reciclagem de soldados, serviço de transporte
de automóvel, depósito de abastecimento de tropas, ambulância, médicos,
enfermeiros, centenas de muares, uniformes, chapéus de massa, alpercatas,
soldo diário de 10 mil-réis para oficiais, duzentos revólveres, cem contos de
réis para outras despesas, quatrocentos arreios de campo, um grupo de
rastejadores, seis binóculos, verba para forragem de animais e, para
completar, que os chefes políticos locais não interferissem nas operações
militares organizadas e lideradas por ele de nenhum modo27.

Essa última exigência foi fatal ao oficial. Ele iria perder a vida numa
encruzilhada, provavelmente pelas mãos de um chefete regional, justamente
por não querer a ingerência dos “coronéis” nas suas decisões, mesmo que sua
atuação ocorresse dentro das áreas daqueles caudilhos. Era muito comum,
portanto, que um sargento, cabo ou oficial em geral, comandando uma
diligência de caça a cangaceiros, desistisse da missão, por causa dos
numerosos entraves antepostos pelos “coronéis” e chefes políticos
regionais28.

O fato é que, naquelas planuras, quem mandava eram os coiteiros de


prestígio, e sua autoridade não podia ser ameaçada. A polícia teria de aceitar
sua posição de mando local e tentar, como pudesse, criar mecanismos de
colaboração com eles. Caso contrário, teria problemas. Em períodos próximos
de eleições, por exemplo, esses homens poderosos podiam espalhar boatos e
fazer intrigas contra determinados oficiais das volantes que porventura
estivessem criando “problemas”: difamações eram frequentemente difundidas
com o intuito de retirar de suas áreas de influência, certos comandantes
considerados inconvenientes. Quando o oficial era transferido, a relação entre
“coronéis” e bandidos poderia continuar sem empecilhos”. Por outro lado,
houve casos de coiteiros que eram parentes de oficiais da polícia30. E, como
já dissemos, há também exemplos de chefes rurais, sem nenhuma relação de
parentesco, que mantinham grandes relações de amizade com comandantes
militares. De qualquer forma, quando o cerco apertou contra os bandoleiros, a
polícia começou a agir e a prender principalmente os coiteiros das classes
baixa e média, ou seja, aqueles que não tinham tanto prestígio e poder31. Em
geral, contudo, ficavam pouco tempo na cadeia e não eram sequer julgados, já
que tinham, normalmente, o apoio do júri e das autoridades judiciais.

Para poder enfrentar o banditismo nas capitais e no interior dos estados, as


polícias tiveram de se estruturar e se aparelhar logística e militarmente. A
polícia de Pernambuco, por exemplo, com o intuito de se tornar mais forte e
eficiente, sofreu sucessivas reorganizações. A primeira delas, no período
republicano, foi em 8 de julho de 1896, por meio da Lei n° 181, quando a
antiga brigada policial (criada em 1891) foi trocada por um corpo policial,
que ficava atrelada diretamente às ordens do presidente do estado. A partir de
então, a Força se caracterizaria pelo primeiro e segundo batalhões, assim
como por uma companhia de cavalaria. O efetivo seria de 63 oficiais e em
torno de 1.250 soldados32.

Em 1898, a Lei estadual n° 310, de 18 de junho, iria regulamentar a


administração policial. Nessa nova estrutura, constariam um chefe de polícia,
delegados, subdelegados e inspetores de quarteirão. O chefe de polícia, como
se pode imaginar, deveria ser nomeado diretamente pelo presidente do estado
dentre bacharéis e doutores com pelo menos quatro anos de práticas forenses
ou administrativas33.

Uma nova lei, de n° 380, de 24 de junho de 1899, mais uma vez


reestruturava o serviço policial pernambucano. Este teria, a partir daquele
momento, um batalhão de infantaria, uma companhia de cavalaria e um corpo
de polícia urbana. Ao todo, a polícia teria em seus efetivos 55 oficiais,
acrescidos de mais 1.238 praças34. Apenas um ano mais tarde, a partir da Lei
n° 473, de 28 de julho de 1900, a Brigada Estadual passaria, então, a contar
com 74 oficiais e 1.748 soldados, em três batalhões de infantaria e um
esquadrão de cavalaria35.

No ano de 1908, é constituído o Regimento Policial do Estado de


Pernambuco. A Lei n° 916, de 2 de julho, estipulava que a antiga “Brigada’
mudaria de nome para “Regimento Policial”. Teria em seus quadros 1.526
homens, distribuídos em três batalhões e dois esquadrões de cavalaria. Nesse
caso, o segundo e o terceiro batalhões teriam como responsabilidade o
policiamento das várias cidades e povoados da Zona da Mata, Agreste e
Sertão. Em 1928, com o objetivo de tentar combater com mais eficiência o
cangaceirismo, o terceiro batalhão seria transferido para Floresta. Dois anos
mais tarde, retornaria para a capital do estado36

Mas, ainda seguindo a linha cronológica. Em 17 de abril de 1913, mais


uma reorganização ocorre, mudando a designação de “Regimento Policial”
para “Força Pública’ daquele estado37. No dia 1° de julho de 1914, uma nova
lei dividia o Regimento de Infantaria em dois, cada um com dois batalhões38.
Uma lei de 6 de maio de 1916 iria reorganizar a Força Pública
pernambucana em três batalhões de infantaria, duas companhias de infantaria
para o policiamento do sertão e um esquadrão de cavalaria39. E no dia 4 de
setembro daquele mesmo ano, é criada a Escola Policial da Força Pública do
Estado de Pernambuco. A intenção era organizar um curso regular de três
meses de duração, de preparo “cívico-militar” para recrutas e soldados rasos.
O curso seria dividido em instrução militar prática, instrução cívico-jurídica e
noções de higiene e socorros médicos de urgência. Depois de oficializado o
curso, por meio da Ordem do Dia n° 52, foram inauguradas as instalações do
Quartel de Soledade no dia 7 de setembro, que seria sede dos segundo e
terceiro batalhões, assim como da própria Escola da Polícia40. No final
daquele mês, mais especificamente no dia 22 de setembro, as companhias
isoladas (criadas dois meses antes) são extintas e distribuídas por diferentes
municípios do sertão41

Em 25 de abril de 1918, a Força Pública, a partir de um convênio, baseado


na Lei federal n° 3216, do ano anterior, e assinado pelo presidente Manoel
Borba, torna-se uma força auxiliar do exército42.

Mais uma reorganização, dessa vez oficializada em 16 de janeiro de 1920,


com o decreto governamental extinguindo o Terceiro Batalhão de infantaria,
que estava, então, sediado em Triunfo, no sertão do estado. A Força Pública,
portanto, ficava com dois batalhões de infantaria (quatro companhias cada),
uma seção de metralhadoras, um regimento de cavalaria (dois esquadrões),
um estado-maior, um estado-menor e um serviço auxiliar43. Naquele mesmo
ano, ainda foram criadas a Guarda Civil, que absorveu duzentos soldados da
Força Pública, e ainda uma caderneta (relativa a vencimentos e adiantamentos
em dinheiro) para oficiais e soldados“.

Outra reorganização, dessa vez publicada em 1° de julho de 1920, pela Lei


n° 1446, de 5 de maio, decretada pelo Congresso Legislativo de Pernambuco.
A partir daí, a Força Pública teria então 72 oficiais, 1.654 praças, dois
batalhões de infantaria (quatro companhias cada), um regimento de cavalaria
(com dois esqua drões cada), uma seção de metralhadoras, um estado-maior e
um estado-menor. No estado-maior, estaria agregado também um corpo de
saúde41

Em 1922, nova reestruturação da Força, que passaria a contar com oitenta


oficiais, 2.154 praças, três batalhões de infantaria, um regimento de cavalaria,
um estado-maior e um estado-menor. O estado-maior também possuiria um
corpo de saúde e um serviço auxiliar46. Nesse mesmo ano, a Companhia de
Bombeiros é anexada à Força Pública do estado47.

Um ano mais tarde, em 1923, o Boletim Geral n° 151, de 3 de julho,


anunciaria que, a partir da Lei n° 1570, de 11 de maio, a Força ficaria com 87
oficiais, 2.257 praças, três batalhões de infantaria, um regimento de cavalaria,
um companhia de bombeiros, um estado-menor e um estado-maior 41.

Em 1924, mais uma mudança no setor. O Boletim Geral n° 148, de 1° de


julho, anunciava a Lei n° 1636, de 10 de maio daquele ano, decretada pelo
Senado pernambucano e assinada pelo presidente Sérgio Loreto, que a Força
Pública passaria, a partir daquele momento, a ser composta por 87 oficiais,
2.413 praças, três batalhões de infantaria, um regimento de cavalaria, uma
companhia de bombeiros, um estado-menor e um estado-maior49.

Os uniformes da polícia também iriam sofrer várias alterações. A partir de


21 de março de 1924, eles teriam as mangas das túnicas de pano mescla
acrescidas de um laço de sutache dourado com 15 cm de altura, a partir da
carcela. Os botões dos gorros, antes oxidados, seriam trocados por dourados,
enquanto um jugular dourado seria inserido acima de outro já existente, preto.
A platina mescla receberia uma sutache dourada, enquanto na de brim cáqui,
um branco. O distintivo de metal branco da platina nos capotes dos oficiais
seria trocado pela sutache dourado, com laço de acordo com as platinas de
mescla50

O Boletim Geral n° 259, de 18 de novembro de 1925, indicava novas


alterações nos uniformes. Foram criados, nessa ocasião, novos distintivos: o
emblema do Estado de Pernambuco (usado por oficiais), foi trocado por um
tope, similar ao do exército. Os oficiais não combatentes, como médicos e
corneteiros, por exemplo, continuariam a usar nas platinas os mesmos
distintivos de antes, enquanto os veterinários e dentistas os trocariam pelos
mesmos utilizados pelo exército. Na Companhia de Metralhadoras, os oficiais
usariam nos gorros e nos trapézios de suas túnicas, um emblema com duas
carabinas cruzadas, e sobre estas, uma bomba em chamas. E os oficiais do
Estado Maior teriam em seu gorro um símbolo de seu quadro, mantendo nos
trapézios das túnicas o antigo distintivos’

Quando houve a troca das tropas volantes de Recife pelas sertanejas, o


uniforme também mudou. A partir daí, as volantes começaram a se vestir com
trajes parecidos com os dos cangaceiros: usavam bornais cruzados sobre o
peito, alpercatas, chapéus de couro em formato de meia lua, um punhal
comprido na cintura, uma pistola francesa calibre 7,65 ou um revólver calibre
38, e cartucheiras presas ao cinto ou cruzando o peito52.

As tropas volantes recebiam seus salários diretamente da capital do estado,


normalmente das mãos de um oficial de polícia, que intermediava a transação
por procuração, e seu soldo, em geral, era mais baixo do que ganhava a média
dos cangaceiros53. O salário de um escrivão de delegacia em 1927, por
exemplo, era de apenas 30 mil-réis semanais. É claro que havia casos em que
os comandantes não transferiam todo o dinheiro a seus soldados, o que mostra
que a corrupção e a falta de honestidade também estavam presentes inclusive
dentro da corporação. Por isso, uma das formas de “completar” o seu ganha
pão era o roubo dos pertences dos cangaceiros após os combates. A
soldadesca retirava o montante dos bolsos e embornais dos cadáveres dos
salteadores, ensanguentados e jogados sobre o solo quente do sertão: os
“macacos” enfiavam a mão nos uniformes dos quadrilheiros assassinados,
para pegar todo o dinheiro que pudessem; chegavam a amputar os dedos dos
corpos abandonados na caatinga, numa disputa insana pelos anéis mais
valiosos dos bandoleiros (alguns até mesmo decepavam as mãos inteiras, na
altura dos punhos, para retirar os anéis mais tarde, em outro lugar, com calma)
54

Como estímulo, os persigas que eram bem-sucedidos em matar ou capturar


quadrilheiros importantes eram promovidos por decreto do governo estadual e
ganhavam um pagamento extra, como foi o caso de Liberato Correia, que
após ter atingido Lampião no peito direito numa emboscada em Tigre
(quando foram feridos mais dez salteadores), recebeu do “doutor” Sérgio
Loreto a patente de cabo e mais 200 réis por cada bandido que ele havia tirado
de ação. Isso serviu de incentivo para que soldados de outros batalhões
aumentassem seu ímpeto nas batalhas55. E também o do comandante
Juvêncio e do soldado Antonho Jacó, conhecido como “Mano Véio” por seus
colegas. Depois que Jacó matou e decapitou o casal de cangaceiros Serra
Branca e Eleonora (e de se apropriar de suas armas e dinheiro), na zona do
Inhapi, em 20 de fevereiro de 1938, quis abandonar de vez a Força Policial.
Ao retornar ao quartel do seu batalhão, em Santana do Ipanema, contudo, seus
superiores insistiram que ele permanecesse com as volantes e o promoveram a
cabo. Ainda que o comandante Juvêncio ganhasse nova patente, por ser o
chefe daquele grupo, Jacó não aceitou a promoção56

Como esses, são numerosos os casos de promoções durante os anos de luta


contra o banditismo no Sertão nordestino. Um dos exemplos mais conhecidos
é o de Zé Saturnino, o maior inimigo de Lampião, que, mesmo sendo civil,
conseguiu ganhar patentes militares com rapidez, tanto por sua experiência na
luta contra os bandoleiros, como por sua posição social. Quando Saturnino
reclamou com o oficial responsável, Theophanes Torres, em Vila Bela, que
não tinha munição e recursos suficientes para combater os bandidos, recebeu
imediatamente do oficial a patente de cabo. E alguns minutos depois, foi
promovido a sargento. Isso porque ele próprio era fazendeiro e pertencia à
família Nogueira, muito influente naquela região57. Como já comentava o
conhecido jornalista J.Matos Ibiapina, os oficiais de polícia sabem

que as suas promoções não dependem de maior ou menor zelo revelado


no cumprimento de suas árduas funções. Convencidos estão todos eles
que é mais fácil conquistar um galão com fementidas dedicações aos
políticos em momentos oportunos do que arriscando a sua vida na defesa
da propriedade das classes trabalhadoras. Os anais do Regimento estão
prenhes de exemplos convincentes das vantagens da exploração da
covardia e da perversidade dos políticos. A perseguição de um chefe
adversário, a perturbação de um pleito eleitoral valem muito mais na fé
de oficio de um policial do que um rosário de prisões arriscadas dos
mais temíveis criminosos.58

E ainda dizia que

convém não esquecer nunca que os oficiais de polícia, como toda gente,
estão sujeitos às contingências humanas, são pais de família pobres,
vivendo miseravelmente de seus insignificantes ordenados, eternamente
preocupados com o futuro dos seus filhos, que o Governo jamais cogitou
de amparar convenientemente. Quem dispõe, para as exigências da sua
manutenção e da família, de ordenados que vão de 300$ a 700$ não pode
estar medindo a sua vida com a de qualquer criminoso.”

A competição dentro do regimento, entre indivíduos que queriam mostrar


que eram mais valentes e corajosos que os outros, era algo que por vezes
tirava o equilíbrio e a disciplina entre os soldados…

Muitas vezes, os persigas chegavam “atrasados” aos locais de descanso ou


coitos dos cangaceiros, só encontrando restos de carne de animais (ainda
sangrando), braseiros com resto de fogo e o equipamento deixado para trás
pelos brigands, que haviam acabado de fugir. Se, depois de um combate,
algum bandoleiro estivesse ferido, era possível que fosse logo capturado, já
que os inferiores, seguindo o rastro de sangue, impunham um ritmo de
perseguição intenso, forçando os bandoleiros a aumentar o passo em suas
“puxadas” - que podiam durar um dia e uma noite, sem parar -, e portanto,
deixando (ainda que não quisessem), alguns de seus “cabras” no caminho,
pela impossibilidade destes acompanhá-los com a mesma rapidez.
As volantes podiam ficar quatro, cinco ou até seis dias procurando um
inimigo baleado, sem tempo sequer para fazer uma refeição regular, só se
alimentando do que traziam nos bornais: carne assada, farinha e rapadura. Em
geral, só comiam uma vez por dia, de tarde ou no começo da noite60. O uso
de rastejadores e escopeteiros, para esse efeito, era disseminado. Em alguns
casos, tropas volantes ficavam vários meses sem encontrar nenhum traço de
cangaceiros. Era também comum que permanecessem meses sem dar um tiro
sequer’

Os soldados, no período lampiônico, não utilizavam cornetas como meio


de comunicação entre as tropas, para evitar que os bandidos soubessem de
suas posições. Nos anos 1930, principalmente, já era comum o uso de rádio62

Para conseguir informações sobre o paradeiro dos salteadores, estruturaram


um sistema de vigilância de pessoas suspeitas de ajudar os bandidos:
requisitavam o serviço de vaqueiros para agir como “espiões”, estudavam o
terreno, e em algumas instâncias, organizavam redes de sindicâncias para
conseguir mais detalhes sobre suas atividades criminosas. Um dos truques
para tirar as informações de prováveis coiteiros era disfarçar um soldado com
uma peruca longa, chapéu de couro enfeitado em cima da cabeça e trajes de
bandoleiros. Fingiam estar pedindo ajuda e guarida contra supostos
“macacos” que o estariam perseguindo. Se houvesse alguma receptividade
por parte do indivíduo, ou se o fazendeiro fizesse menção ao “capitão”
Lampião, os oficiais saberiam que se tratava de um coiteiro63. Técnica que,
por sinal, não era exclusiva das Forças Volantes. O próprio Lampião também
chegou a se disfarçar de oficial, com roupa cáqui e chapéu de massa de aba
larga, para ludibriar um desafeto, poder se aproximar e depois pegá-lo de
surpresa 64

Os oficiais da polícia podiam dividir a Força em diversas tropas com


comandos diferentes, que recebiam um “guia’ para lhes indicar o caminho,
atuando entre si em ação combinada. Essa técnica servia para cercar os
bandidos65. Era muito possível, entretanto, que os planos dos comandantes
falhassem. Depois das refregas, seus fardamentos ficavam em péssimas
condições, muitos deles rasgados. Quando ganhavam a luta, decepavam as
cabeças dos cadáveres dos rivais por eles assassinados.

Eram três os motivos principais para a decapitação do inimigo. Um deles,


para demonstrar desprezo e, consequentemente, humilhar o rival. Se os
preceitos do cristianismo defendem a inviolabilidade e indivisibilidade do
corpo, a decapitação seria uma forma de tirar esse “privilégio” dos bandidos.
Com a cabeça separada do tronco e membros, sua alma supostamente estaria
perdida, o que impediria os bandoleiros de ter um final justo e digno. Em
outras palavras, essa seria uma estranha forma de punição. Exemplo claro
disso foi o de Corisco, enterrado “inteiro” e depois, exumado e decapitado (há
quem diga, contudo, que o motivo real para tal procedimento teria sido o
“estudo” de seu crânio).

Isso, entretanto, funcionava para os dois lados. Ao terminar o ataque a


Betânia, os civis pediram a Lampião permissão para sepultar os soldados
assassinados. O “governador do sertão” respondeu que “macaco” não se
enterrava, que os policiais deviam ficar em cima da terra para serem comidos
pelos urubus. Os paisanos insistiram, afirmando que aqueles homens eram
“cristãos” e que tinham o direito a um sepultamento. Só depois de muita
insistência é que o “espantalho” finalmente deu a sua permissão”. 0 mesmo
havia feito Antônio Silvino, lustros antes. Em 1904, após assassinar o
sargento Manoel da Paz, proibiu que o povo de Mogeiro o enterrasse. Para
ele, só deveriam fazê-lo quando o cadáver começasse a apodrecer. Mas não
poderiam colocá-lo num cemitério, já que seria uma profanação sepultar um
“bandido” daquele tipo num lugar sagrado67.

Outro motivo tinha implicações mais práticas. Como era inviável o


transporte dos cadáveres - já que para cada corpo carregado eram necessários
dois ou três soldados, que ainda teriam de transportar seus próprios
companheiros tombados em combate e feridos -, e considerando que era
fundamental exibir as provas da eliminação de determinados cangaceiros
muito procurados, o corte das cabeças se mostrava a melhor opção. Só
expondo as cabeças intactas em praça pública é que a população teria certeza
absoluta de que aqueles indivíduos não eram mais uma ameaça para sua
segurança. As fotografias e imagens filmadas, portanto, não seriam
suficientes nesse caso.

E finalmente, as cabeças serviam como “troféus” macabros para os oficiais,


que poderiam usá-los como símbolo de sua eficiência como militares. Em
última instância, seriam estudadas por “cientistas”, antropólogos e
criminalistas, e depois, guardadas em museus.

As cabeças acabaram virando “moeda de troca” com as autoridades.


Qualquer indivíduo, inclusive um bandido arrependido, que entregasse a
cabeça de um cangaceiro para a polícia teria seus crimes perdoados pelo
governo e ainda ganharia prêmios e garantias de vida e de segurança contra
seus antigos comparsas68. Com José Osório de Faria, mais conhecido como
Zé Rufino, que por vários anos alugou serviços às autoridades baianas, havia
um acordo secreto com o governo daquele estado. Cada cabeça que o
contratado apresentasse era trocada por uma promoção. Assim, após 16
combates e 22 decapitações, ele deixou de ser um “contratado” e se tornou
um coronel de polícia69.

De qualquer forma, a decapitação de inimigos não foi uma novidade nem


uma invenção surgida no período em que o cangaço esteve em seu auge.
Desde os primeiros séculos do período colonial, há muitos casos registrados
desse tipo de procedimento.

No começo do século XX, também era possível detectar até mesmo


cidadãos comuns, paisanos, decapitando cangaceiros e roubando, em seguida,
seus pertences70. O indivíduo que não fosse “sangrado” ou “torturado”
poderia se considerar, nesse caso, um privilegiado. Após capturar e interrogar
Lavandeira, o tenente Alencar decidiu “sangrar” o bandido. Foi interpelado
pelo soldado Odilon Flor, que pediu para o oficial não “sangrá-lo”. Ao invés
disso, sugeriu que lhe dessem “apenas” um tiro na cabeça. Lavandeira
agradeceu a “gentileza”. E o soldado José Goiana fez o disparo71.

A corrupção, contudo, chegava a ponto de fazer com que diversos oficiais


das volantes vendessem ou fornecessem armas e munição aos próprios
cangaceiros. Essas transações, é claro, eram feitas com muita discrição, para
não acarretar suspeitas.

Poucos sabiam os nomes dos homens que abasteciam as hostes sertanejas.


Quando Jararaca foi perguntado por um jornalista, após sua prisão em
Mossoró, por que Lampião queria tanto dinheiro, ele apenas respondeu que
era para “comprar” as volantes pernambucanas72. A cangaceira Sila afirmava
que esses oficiais vendiam o armamento por meio de intermediários, em
geral, fazendeiros ou empregados deles. Para ela, “era parabélum, máuser,
fuzis… seiscentos mil-réis a arma; dois mil-réis o cartucho, dependendo, é
claro, da peça em transação”73.

O interventor federal em Sergipe, Eronildes de Carvalho, foi um dos


principais fornecedores de Virgulino, para quem cedia armas e munição da
maior qualidade74. Esse político teria confessado, em entrevista, que
forneceu ao “governador do sertão” balas para a sua Luger, uma munição
difícil de se encontrar naquela região75. Outro fornecedor, Paulino Flores
Donato Silva, morador de Flores, foi detido, certa vez, por vender por 50 réis,
335 cartuchos de Mauser para o “governador do sertão” (alguns
pesquisadores chegam a afirmar que foi no estado da Bahia onde houve o
maior número de oficiais que fizeram negociações ilícitas com o rei dos
cangaceiros)76. E também havia o caso de fazendeiros de algodão e mesmo
de gado que compravam armas e munições dos comandantes das volantes
para suprir Lampião e seu bando.

Os “macacos” eram normalmente (mas não exclusivamente) homens da


região, em sua maioria, magros, secos, com aptidão física para andar e
combater naqueles ermos distantes. Isso porque depois de várias incursões
fracassadas de volantes vindas das capitais, como Recife, chegou-se a
conclusão que seria fundamental colocar em combate indivíduos que
estivessem adaptados ao Agreste e Sertão.

Quando os soldados do “litoral” foram trocados por nativos da região, os


cangaceiros puderam sentir a diferença na luta. Lampião teria chegado até
mesmo a comentar que tinha saudades dos soldados de Recife, supostamente
mais fáceis de combater77.

É claro que havia homens que estavam longe de ter um perfil longilíneo,
como os oficiais Theophanes Torres e João Bezerra, por exemplo. Mas a
maioria dos recrutas era composta, sem dúvida, de homens delgados.

Muitos soldados da capital, ou sertanejos, voluntariavam-se para lutar


contra os cangaceiros. Para isso, tinham de pagar seu próprio transporte para
o hinterland (muitas vezes, de trem), ou até mesmo caminhar a pé, de um
posto onde estivesse assentando praça, a outra cidade qualquer. Todas as
armas, munições, fardas e apetrechos eram enviados por trens até Garanhuns,
e de lá seguiam, de caminhão, para as diferentes sedes policiais de luta contra
o banditismo71.

As volantes, em sua fase “áurea’, portanto, eram normalmente compostas


de sertanejos bem jovens, acostumados com o calor, com a seca, com a
alimentação e com a paisagem local. E que tinham hábitos parecidos com os
dos cangaceiros. Luna, Gueiros e diversos outros autores concordam que
cangaceiros e volantes eram feitos da mesma “massa’ e “encarnadura’, ou
seja, eram gente que tinha, grosso modo, a mesma formação e origem
regional. Os nazarenos, por exemplo, ao completar dos 15 para os 16 anos de
idade, eram incorporados às tropas volantes, conhecida na época em todo o
sertão como Força de Nazaré79. Ainda que se locomovessem muitas vezes de
caminhão, era mais comum que percorressem quilômetros e quilômetros a pé.
Os cavalos, muitas vezes, eram usados para transportar armas, equipamentos,
munição e alimentos das tropas.

Ao entrar para a polícia, os interioranos não recebiam instrução militar


específica; apenas as táticas de perseguição aprendidas nas constantes
refregas contra os bandidos. O treinamento, em geral, era bastante curto e
insuficiente. Havia quem fosse contratado para “caçar” cangaceiros num dia e
partir para o combate no outro. Muitas vezes, possuíam armas e munição de
qualidade inferior às dos bandoleiros. Ou seja, em termos de equipamentos
militares, estavam, em diversas circunstâncias, em desvantagem. Enquanto os
brigands utilizavam pistolas e fuzis modernos, desviados, é claro, do Exército
Nacional ou dos Batalhões Patrióticos, os persigas, por sua vez, em distintas
ocasiões, ainda carregavam velhas e obsoletas carabinas. Certa vez, o próprio
Lampião, fazendo chacota do equipamento das volantes, falou a um soldado
que dissesse a Vital Soares que não o perseguisse com essas armas, “senão,
depois de trinta tiros, eu dou de cinturão”80. Isso porque, aparentemente, os
canos do armamento dos policiais superaqueciam depois de pouco tempo de
uso.

Para mostrar a diferença entre o material empregado por cangaceiros e


polícia, podemos citar o depoimento do antigo soldado da volante Joaquim
Góis, que afirmava:

Na terra revolvida pelos pés dos bandidos, achei um pente de balas e o


examinei cuidadosamente. Desgarrei um cartucho da lâmina e estava em
minhas mãos um projétil pontiagudo, tendo impresso no fundo da
cápsula a data de 1929. Feito o confronto entre as balas do meu caduco
95 (fuzil Mauser modelo 1895) e o cartucho encontrado, a diferença era
chocante. A nossa munição, quase imprestável, era do ano de 1913, e a
de Lampião e seus cabras era de 1929.81

Uma grande diferença entre os armamentos, certamente.

A falta de um treinamento específico muitas vezes mostrava como podia


ser prejudicial. Augusto Gouveia, um civil, morador de Recife, ao ler as
notícias sobre Lampião por meio da imprensa, decidiu que poderia capturá-lo
e trazê-lo preso para a capital. Foi desestimulado pelo chefe de polícia de
Pernambuco, Eurico de Souza Leão. Sem lhe dar ouvidos, Gouveia (que ficou
conhecido como Casaca Preta), continuou insistindo em levar adiante a
missão, o que fez com que o governo acabasse por comissioná-lo na patente
de tenente: teria de se apresentar ao major Theophanes, em Vila Bela. Lá, o
oficial também tentou dissuadi-lo. Mas Gouveia estava disposto a cumprir o
que havia se proposto. Recebeu armamento e sete soldados para acompanhá-
lo na “caçada” ao cangaceiro. Uma empreitada que não durou muito. Lampião
rapidamente botou o novo tenente para correr82.

Os soldados das volantes faziam o possível para economizar balas. Por


isso, demoravam a fazer pontaria e só atiravam quando acreditassem que
poderiam atingir de fato o inimigo. Talvez por isso os combates pudessem
durar poucos minutos ou mesmo várias horas. O tiroteio de Caraíbas, por
exemplo, um dos mais ferozes travados no sertão, no qual participaram
aproximadamente 40 cangaceiros e em torno de 35 volantes, durou das 7
horas da manhã até as 5 horas da tarde83. Já um dos maiores combates, em
termos numéricos (pelo que consta na bibliografia sobre o tema), foi o que
ocorreu perto de Serra Grande, em 28 de novembro de 1926, no qual
participaram 295 soldados e em torno de cem bandoleiros84. A batalha de
Macambira, por seu lado, aparentemente teve quatrocentos soldados contra
aproximadamente cinquenta cangaceiros 15.

Alguns dos “contratados” iriam se tornar, mais tarde, membros das forças
regulares e até mesmo oficiais de polícia. As tropas volantes, assim, se
tornavam também uma forma de garantir um emprego e de ascensão social
para muitos sertanejos; outros se alistavam por terem recebido ameaças até
mesmo de policiais; e também para garantir sua segurança contra cangaceiros
inimigos. A ideia de se perseguir desafetos e acabar com rivais que haviam
cometido algum crime contra suas famílias, porém, era possivelmente o
principal motivo de ingresso nas fileiras policiais (um coiteiro de Lampião,
Elias Marques, de Santa Brígida, por exemplo, depois de entrar em
desavenças com o “governador do sertão”, ingressou na força policial). Por
fim, havia os que realmente eram imbuídos por um suposto senso de dever
“cívico” e pela “vocação” para a luta contra o banditismo epidêmico do
Sertão nordestino: “criavam gosto” pela “caçada’ aos salteadores86.

Em alguns casos, como o do cangaceiro Tenente (que tinha como nome de


guerra uma patente militar), quando o sertanejo não conseguia entrar nas
volantes (seu desejo inicial), decidia-se, em última instância, por ingressar
num grupo de salteadores. Já o cangaceiro Fiapo, depois de se desentender
com Lampião, fugiu para a Paraíba, onde foi incorporado à Força Volante do
tenente Manoel Benício, deixando a tropa em 1930 para viver oculto em
Pernambuco, sendo persuadido pelo tenente Manoel Neto a voltar à ativa
como soldado em 1935, já que era profundo conhecedor da região do
Moxotó87. E quando Volta-Seca foi capturado, disse que nunca mais voltaria
ao cangaço. De acordo com ele, o jeito seria virar “macaco”88.

É claro que também podia ocorrer o inverso. Desertores da Força Pública


tornavam-se cangaceiros, como Ignacio Loyolla Medeiros (mais conhecido
pela alcunha de Jurema), membro da volante do tenente Manoel Benício até
1922, ano em que largou a polícia para se incorporar ao grupo de Virgulino
Ferreira, por exemplo89. Ou Francisco Ramos de Almeida, apelidado de
Mormaço, o “corneteiro” de Lampião. Nascido em Baixio dos Ramos,
município de Ararapina, Pernambuco, foi soldado. Depois de expulso da
corporação, em parte por indisciplina, abraçou a vida de marginal.

Corisco também fora militar, tendo servido no 28° Batalhão de Caçadores


do Exército em Aracaju, Sergipe. Após participar da fracassada rebelião de
julho de 1924, liderada pelo tenente Augusto Maynard Gomes (junto com o
capitão Eurípedes Esteves de Lima e os tenentes João Soarino de Melo e
Manuel Messias de Mendonça), desertou. Mais tarde, se tornou cangaceiro90.

O mais conhecido caso de um militar do exército brasileiro a se tornar um


brigand, contudo, é o de José Leite Santana, vulgo Jararaca. Nascido no dia 5
de maio de 1901, na cidade de Buíque, Pernambuco, ingressou no exército em
1921, em Maceió, servindo o 3° RI (Regimento de Infantaria) e mais tarde, o
1° RCD (Regimento de Cavalaria Divisionária), chegando até mesmo a lutar
ao lado das forças legalistas, na Coluna Potiguara91, comandada pelo general
cearenseTertuliano de Albuquerque Potiguara92, durante a revolta tenentista
de São Paulo em 1924. Também esteve no Rio Grande do Sul (em
perseguição aos rebeldes) e no Rio de Janeiro, onde foi ordenança do Coronel
Antônio Francisco de Carvalho, na junta de Alistamento Militar. Entrou para
o cangaço quando tinha 26 anos de idade.

De fato, o número de desertores era razoável. Em 1912, o major reformado


do exército, Nicanor de Moura Alves, comandante das forças paraibanas,
declarava, frustrado, numa carta publicada no jornal do Commercio, que

só encontrei no interior 350 praças mal armadas, com pouca munição e


sem uniformes… Outra dificuldade: os soldados desertavam aos 4 e aos
6, quase diariamente, conduzindo para os bandidos armamento e
munição, indo engrossar suas fileiras.93

Os exemplos são muitos e variados. Por isso, não é de se estranhar que um


dos filhos de Antônio Silvino se tornasse oficial do exército94 ou que os dois
filhos de Zé Cipriano, antigo cangaceiro do grupo de Sinhô Pereira,
decidissem ser soldados95. É bom recordar que certa vez, até mesmo o
“governador do sertão” chegou a dizer: “Eu não nasci para esta vida de
cangaceiro. Falo com franqueza; se não houvesse nêgo na polícia prá
manobrar com a gente, eu ainda iria ser soldado”96.

Já Joca Bernardo, morador de Piranhas, coiteiro de Corisco e um dos


delatores do paradeiro de Lampião em Angico, depois de indicar onde se
encontrava o “rei” dos cangaceiros, recebeu a oferta de um prêmio de 5
contos de réis e uma patente de sargento. Só ganhou pouco mais de 1 conto de
réis e não quis ingressar na Força por achar que o salário seria mais baixo do
que ele tirava na produção agrícola e criação de gado. Por causa dessa
decisão, foi abandonado pela mulher e pelos numerosos filhos. Ficou sem a
divisa de sargento, sem trabalho e sem família. E ainda recebeu o desprezo da
população, que, mesmo não gostando dos bandoleiros, gostava menos ainda
de traidores e delatores. Essa era uma característica da ética sertaneja. Se
alguém se envolvia nos entreveros entre polícia e cangaço, tinha de escolher
um lado. Dentro da Força Pública, seria possível justificar seus atos contra os
bandidos, ser talvez compreendido pelo povo, aceito socialmente e ainda ter
proteção institucional. Fora dela, o indivíduo estaria só. Por anos, aquele
delator viveu sozinho e de maneira miserável.

De qualquer forma, em parte havia quase uma rivalidade de duas


“corporações”, de dois “partidos”, Cangaço e Volante, na qual problemas
políticos nacionais ou regionais mais amplos nem sempre influenciavam
prioritariamente as ações das forças da legalidade e dos cangaceiros: a
questão se tornava pessoal. Em 1892, o capitão Chico Furtado, então
subdelegado de polícia de Garanhuns, foi incumbido de eliminar o banditismo
em Brejão, pelo próprio presidente de Pernambuco, Alexandre José de
Barbosa Lima. Poderíamos indagar se isso não representaria uma política
deliberada de luta contra o cangaceirismo em âmbito estadual. O fato é que aí
os interesses das autoridades na capital e os problemas a nível pessoal e local
se inter-relacionavam. Chico Furtado tinha questões a resolver com o
cangaceiro Cabo Preto, protagonista de diversos atos ilícitos e violentos
naquele vilarejo. Aproveitou a incumbência de seu superior e deu ordens para
que seus soldados trouxessem o bandido “inteiro ou esquartejado” (dizia ele
ser essa apenas uma “força de expressão”). Seus homens fizeram bem o
serviço. O marginal foi entregue cortado em pedaços, dentro de dois sacos de
aniagem, completamente esquartejado pelos militares. Quando o chefe de
governo, horrorizado, soube do ocorrido, pediu explicações. Chico Furtado
apenas respondeu que fizera aquilo para mostrar que a República ainda estava
viva e que merecia respeito! Decerto, uma desculpa esfarrapada. Mas que
satisfez e convenceu plenamente o presidente daquele estado97.

Entre os precursores das volantes, pelo menos, indiretos, e próximos


cronologicamente, é possível destacar as tropas de linha que perseguiam os
cabanos, entre 1832 e 1836, no Agreste meridional pernambucano, ou seja,
várias décadas antes do auge do cangaço epidêmico98.

Como os “macacos” das volantes, esses soldados oficialistas abusavam de


seu poder. Por causa de sua conduta repreensível, acabavam,
consequentemente, voltando as simpatias dos sertanejos para os rebeldes. Era
comum o recrutamento forçoso de caboclos, a destruição de plantações, os
saques de casas e pequenas propriedades, pagamentos de requisições feitos
com moeda falsa, e o estupro de mulheres sertanejas”.

A corrupção dentro das tropas já era patente. O governo pagava salários


atrasados, por vezes com moeda falsificada100 E os oficiais das forças legais,
mesmo quando recebiam em dinheiro genuíno, entregavam dinheiro falso aos
seus recrutas’°’ Isso significava um aumento na indisciplina, nos saques, nos
roubos e nas deserções’oz

As táticas militares dos contingentes oficiais também se adaptaram às


condições do terreno do Agreste e da luta contra os rebeldes: uma guerra de
movimentos, com a utilização de pessoas da região. As partidas exploradoras,
assim, atacariam as praças fortes cabanas e os arraiais distantes, em geral,
precedidas por batedores indígenas. O oficialato e a soldadesca andariam
descalços nas matas (o que acarretava, em geral, em pés completamente
dilacerados) e vestiriam roupas de tecidos grossos, para se proteger de
espinhos. Ficavam doentes com frequência. Por vezes, passavam até três dias
sem comer. Como estímulo, os soldados receberiam prêmios pela captura dos
sediciosos103 Os comandantes, por sua vez, também ordenavam a
decapitação dos chefes cabanos, para que suas cabeças fossem mandadas para
o presidente da província. As tropas, em algumas circunstâncias, eram
acompanhadas de padres, que faziam a mediação com os insurgentes, que
recebiam a oferta de anistia caso se entregassem. Muitos aceitaram104
Usando técnicas militares dos caboclos da região e de muita persuasão,
portanto, esses destacamentos oficiais conseguiram triunfar. Ou seja, tanto as
volantes como as forças legais contra os cabanos utilizavam táticas de
guerrilha, auxílio de gente local (mesmo que forçada), tipos de punição e um
estilo de negociação que seguiam um padrão parecido. Suas dificuldades com
o terreno e com a má alimentação também eram bastante similares.
Realmente, a questão geográfica desempenhou um papel importante na luta
contra o banditismo. O espaço físico em que se dava a atuação de cangaceiros
e volantes representou um obstáculo para a eliminação do brigandage
nordestino. Um relatório preparado pelo chefe de polícia Eurico de Souza
Leão, enviado ao secretário de justiça e Negócios Interiores em 1928, falava
da “extrema dificuldade que oferece o território sertanejo às tropas
encarregadas de batê-los, rebeldes a caatinga, os serrotes, os tabuleiros a
qualquer esforço no sentido de transpô-lo”, já que os brigands, como
conhecedores do terreno, tinham boas possibilidades de fuga por causa das
condições naturais, caracterizadas de um lado por uma vegetação
“entrelaçadá’ e “hostil” (mas favorável aos bandidos), e de outro, por uma
abundância de frutos selvagens, que podiam ser encontrados em toda a
região”’. Para combater o cangaceirismo, seria fundamental se constituir uma
força policial de alta mobilidade, que produzisse, assim como os cangaceiros,
um território que fosse, como bem denominou o pesquisador Jorge Villela,
“tendencialmente nomádico”106

Apesar da criação de várias “sedes” policiais, espalhadas por distintos


vilarejos do sertão, o sucesso das volantes sempre foi bastante limitado. A
intenção era manter os bandoleiros em constante movimento, sem deixar
brechas para descanso, reagrupamentos e reforços. Uma perseguição
implacável, obrigando os brigands a se deslocar continuamente, na tentativa
de produzir um desgaste físico, psicológico e econômico nos bandos.

Só para que se tenha uma ideia, em 1918, o Estado de Pernambuco estava


dividido pelo chefe de polícia, Antônio da Silva Guimarães, em dez regiões
policiais107 Naquele ano, o então capitão Theophanes Torres, foi incumbido
de comandar quatro delas no sertão. A 7’ Região tinha Flores como sede e
ainda compreendia São José do Egito, Afogados da Ingazeira e Triunfo. A
primeira cidade tinha quinze policiais e as outras, apenas dez cada,
totalizando 45 soldados. Na 8a, a sede era Vila Bela, também com 15 efetivos,
agregada de Belmonte, Floresta e Jatobá de Tacaratu, cada uma com 10
soldados. Um total de 45. Já a 9’ Região, com sede em Salgueiro (15
homens), era agregada de Leopoldina (8 soldados), Belém de Cabrobó (10) e
Boa Vista (8). Apenas 41 efetivos. E então, finalmente, a 10a, com Exu como
sede (15 homens), Ouricuri com 10 e Granito e Bodocó com 12. Somente 37
indivíduos10S. Essas forças policiais pernambucanas eram chamadas de
FOCBIE (Força de Operação Contra o Banditismo no Interior do Estado) e
FCCB (Força de Combate Contra o Banditismo), enquanto o DERBN
(Destacamento Especial de Repressão ao Banditismo no Nordeste) era a
denominação das forças baianas109. Suas sedes ficavam em Bonfim, Uauá e
Jeremoabo, todas no interior do estado’ Quando Lampião começava sua
atividade de bandoleiro, no início dos anos 1920, a cidade de Patos tinha
apenas 4 soldados fazendo seu policiamento) n E no começo da década de
1930, na Bahia, dos 1.200 soldados servindo no sertão, apenas 150 deles, de
fato, “caçavam” os cangaceiros. Isso porque a maioria deveria exercer suas
atividades de rotina, como o policiamento de ruas, ou eram destacados para
“proteger” cidades maiores”’. Cada volante tinha em torno de 20 a 30
soldados, ou seja, 5 ou 6 unidades para combater os bandoleiros em 35 mil
km2 do enorme sertão baiano113 É fácil notar as limitações em termos
humanos do lado da polícia. Por outro lado, a indisciplina e a negligência no
cumprimento do dever eram uma característica patente de várias tropas
volantes, especialmente na Bahia e Sergipe, algo que ajudou bastante
Lampião e seus asseclas, quando estes estavam em plena atividade naqueles
estados114 Os salários dos homens demoravam a chegar e eles, muitas vezes,
não tinham sequer uniforme. Por vezes, depois de passarem semanas no mato,
voltavam para as cidades praticamente nus. Os soldados ainda tinham de
pagar por suas refeições, a não ser quando se encontravam em marcharas
Depois da Revolução de 1930, a política de desarmamento do sertão tirou de
circulação muitas armas das mãos de cidadãos comuns e “coronéis”, mas não
dos cangaceiros, que continuavam bem equipados e municiados.

A falta de verbas para enviar mais tropas para lutar contra Lampião na
Bahia era um fato conhecido. A situação estava tão complicada que um
contingente que chegara em Uauá sofria de inanição. Em circunstâncias como
essas, ficava difícil combater os bandoleiros”’

As condições logísticas em que as volantes trabalhavam também não eram


as ideais, certamente. As delegacias dos municípios encontravam-se
abandonadas; muitos de seus documentos e processos judiciais, destruídos por
cangaceiros. Era comum que bandoleiros invadissem os vilarejos e
libertassem os presos das cadeias do sertãon7

Os funcionários da justiça eram, vez por outra, trabalhadores rurais. Sem


preparo profissional e mal remunerados, tinham como principal preocupação
dar continuidade a seus afazeres nas fazendas. Só como exemplo: três das
quatro delegacias da Sexta Zona, em Pernambuco, em 1927, eram
encabeçadas por civis e somente uma, a de Vila Bela, possuía um delegado
militar’l’.

As próprias instalações das delegacias eram precárias. Grande parte delas


não tinha sequer um prédio e móveis. Com a exceção da de Triunfo, todas as
outras existiam quase que virtualmente, em algumas instâncias, funcionando
na sala de estar da casa de algum delegado, e em outras, sem ter sequer um
edifício para dar prosseguimento aos seus trabalhos”’. Era comum que não
houvesse nem mesmo escrivões disponíveis.

Algumas cadeias, por sua vez, não tinham água nem luz. Ainda havia
aquelas que funcionavam nas casas particulares, alugadas de seus donos e que
não ofereciam nenhuma segurança, tornando-se alvos fáceis de ataques de
bandoleiros, por serem construções envelhecidas e mal conservadas, além de
serem guardadas por um número reduzido de policiais120. Em 1890, por
causa da falta de homens suficientes para proteger a cadeia de Flores, foram
intimados quinze cidadãos para trabalhar como guardas, mediante o
pagamento de 600 réis por dia, como forma de tentar resolver o problema 121

Se fosse o caso, os governos estaduais incitavam os civis a arrecadar


dinheiro suficiente para a compra de armas e munição. Foi o que ocorreu em
1900, na Paraíba. Para ter condições de combater Antônio Silvino, o
presidente Gama e Melo adquiriu vários armamentos, com o dinheiro
recolhido de uma quota realizada entre fazendeiros e comerciantes do
interior”’

Para melhor combater o cangaceirismo, diversos acordos foram criados. Na


década de 1850, alguns trâmites já haviam sido feitos entre o presidente da
província do Ceará, Silveira da Mota, com autoridades do Piauí, para o
deslocamento de tropas através das divisas, durante a perseguição de alguns
cangaceiros. E na década de 1870, o jornal Mercantil insistia em termos
semelhantes, ou seja, um plano combinado entre autoridades de províncias
diferentes 123. Em dezembro de 1912, era realizado em Recife um encontro
dos representantes de Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco
para discutir as melhores formas de caçar os cangaceiros124. Os chefes de
polícia do Ceará e da Paraíba se encontraram no começo de 1922 para
assentar as bases para um acordo entre as forças públicas de ambos os
estados. Naquele mesmo ano, os governadores da Paraíba e do Rio Grande
Norte propunham a concentração de certa força policial em suas fronteiras,
que pudesse penetrar os territórios vizinhos quando em perseguição imediata
aos bandidos, e que houvesse auxílio mútuo entre os militares. Isso facilitaria
a perseguição aos bandoleiros 12s O governador do Rio Grande do Norte
sugeria ao seu colega do Ceará que suas forças policiais ficassem em
Milagres, as da Paraíba em Piancó e Pombal, e de seu estado em Martins e
Caicó. Em seguida, o governador cearense sugeriu confiar “a direção da
campanha a autoridade civil de um único estado, a qual, fixando-se na região
que escolhesse, atuaria sem preocupações de fronteiras e daria ordens diretas
a todas as forças em movimento” 126

Naquela ocasião, indicou o delegado geral da Paraíba para ser o


superintendente da luta contra o banditismo. E então, em dezembro de 1922,
se realizou em Recife o convênio policial interestadual para o combate ao
cangacerismo no sertão. De acordo com o documento, haveria auxílio mútuo
entre as autoridades policiais e comandantes nas divisas dos estados, quando
estivessem em processo de captura de marginais, podendo a força de um
estado adentrar o território do vizinho, ainda que se a prisão fosse efetuada, o
bandido teria de ser entregue às autoridades locais, a não ser em casos muito
específicos, especialmente se não houvesse segurança para tal, cada estado
responderia pelos danos causados no território vizinho; os estados trocariam
informações e listas dos pronunciados; as requisições de captura entre os
estados poderiam ser realizadas por meio de telegramas, e, para
correspondência oficial, poderiam usar um “código especial”; essas medidas
não poderiam se estender à perseguições políticas; cada estado manteria
forças volantes nas fronteiras; os chefes de polícia seriam incumbidos de
executar essas disposições; o acordo seria observado enquanto conviesse;
entre outros127. Em 1925 foi assinado outro convênio entre Alagoas, Bahia,
Ceará, Paraíba e Pernambuco, que permitia o trânsito de tropas volantes entre
as divisas dos estados. Isso facilitaria a ação policial, já que muitas vezes os
bandidos, fugindo da perseguição policial, atravessavam as fronteiras
estaduais e se livravam de seus inimigos. Com esse e outros acordos
similares, como os de 1926 e 1935, os soldados ganhariam certamente maior
mobilidade e melhores condições para combater os bandoleiros.

Por vezes, inclusive, houve cooperação entre tropas de diferentes estados,


que se uniam na caça aos brigands nordestinos. O oficial mais graduado das
tropas, em geral, deveria comandar a ação conjunta. Mas as diferenças de
táticas e hábitos divergentes muitas vezes criavam conflitos e problemas entre
as distintas unidades militares, provocando rivalidades entre os próprios
soldados e oficiais. Em 1928, por causa de abusos e arbitrariedades de
algumas tropas volantes, a permissão para cruzar divisas foi revogada. Em
1935 seria firmado o último acordo entre os estados contra o bandoleirismo
sertanejo, mas só em 1940, com o assassinato de Corisco, é que se decretou
“oficialmente” o fim do cangaço.

Talvez como forma de imitar, inconscientemente, o comportamento dos
“coronéis”, alguns cangaceiros tentavam impor sua autoridade a partir de
punições corporais e torturas muito parecidas com as utilizadas no Brasil no
período da escravidão. Só que, dessa vez, vários dos que infligiam as
punições eram, eles próprios, negros ou mestiços.

As práticas do açoite, de castrações, de amputações, de “sangramentos` e


de marcar em ferro em brasa as pessoas, como animais, muito comuns na
época colonial e, até certo ponto, também no período monárquico2,
sobreviveram no período lampiônico.

Antes mesmo de serem embarcados para o Brasil, os negros negociados na


África eram carimbados com ferro incandescente, como bois, em diferentes
partes do corpo (coxa, braço, ventre, costas, peito ou face) com o sinal do
consignatário (o novo proprietário), para facilitar a entrega da “mercadoria’,
quando esta fosse desembarcada nos pontos brasileiros. A marca de ferro,
nesse sentido, não seria tanto um castigo como uma necessidade de caráter
comercial e econômico, uma formalidade mercantil dentro do tráfico negreiro.
O mesmo ocorria com os escravos indígenas3. Um alvará do rei D.João V, de
1741, ainda ordenava que os escravos fugidos que fossem capturados
tivessem marcados a ferro a letra “F” nas costas4. Até o século XIX esse
procedimento continuou sendo comum no território nacional, uma forma de o
fazendeiro identificar e garantir a posse de sua “propriedade”, assim como
igualmente uma “punição”.

Um anúncio do Diário do Rio de janeiro, de dezembro de 1825, divulgava:


“Em 25 de dezembro passado, fugiu um preto ainda rapaz, de nome Joaquim,
de 14 a 15 anos de idade, bonito e muito retinto, tem nos peitos as letras F. C.
entrelaçadas”5. Outro “classificado”, no mesmo periódico, dessa vez de 16 de
outubro de 1826, informava que “um moleque fugido a 2 de maio de 1826,
por nome Luís, entre 10 e 12 anos apenas, no peito esquerdo tem uma marca
F. M. P. junta, e pouco se percebe, que é o carimbo com que ele foi
marcado”6.

É claro que esse tipo de atividade iria por um lado traumatizar as


populações marginalizadas e, por outro, inculcar, em alguns indivíduos, não
só um senso de vingança, como também a vontade de emulação de certas
práticas que, acreditavam, condiziam com uma posição social elevada. Se a
elite “branca” assim agia, eles, agora na posição de “chefes”, mesmo que de
bandos armados, também dessa maneira deveriam proceder. Portanto, quando
ferravam alguém, os cangaceiros não só puniam. Eles mandavam a mensagem
de que eram “donos” daquelas pessoas marcadas. Por isso não é de estranhar
que depois de assassinar seu rival, Francisco Calangro, Jesuíno Brilhante
decidisse “assinalar” as duas orelhas do cadáver, com o sinal de mossa e
canzil, como se aquele corpo fosse o de um animal’.

O mais famoso “ferrador” de mulheres foi Zé Baiano, do bando de


Lampião, também conhecido como “a pantera negra dos sertões”. Em 1932,
depois de receber em mãos uma carta “provocadora’ escrita por algumas
“damas respeitáveis” da cidade de Canindé (que diziam a Virgulino que,
mesmo se ele desaprovasse cabelos curtos em mulheres, elas fariam o que
bem entendessem, pois não “pertenciam” a ele), o “rei” dos cangaceiros
decidiu dar-lhes uma “lição”. Depois de invadir a localidade e descobrir as
autoras da correspondência (todas casadas ou parentes de soldados), mandou
Zé Baiano marcar a ferro em brasa o rosto (e outras partes do corpo) de cada
uma delas (só uma escapou, por estar em adiantado estado de gravidez). E
enquanto os bandoleiros destruíam completamente a bodega onde se
encontravam (inclusive, propriedade de uma daquelas senhoras), o leal Zé
Baiano ia mutilando os rostos das jovens com sua marca “JB” na ponta do
ferro8. Ele também cortava as línguas de mulheres que usassem maquiagem e
vestidos curtos. Dizem que, quando estava de bom humor, era alegre, jovial e
comunicativo. Foi assassinado em 1936, junto com seu grupo, em Alagadiço,
Sergipe.

O “governador do sertão” também incumbiu outro assecla, o negro


Mariano, de se dedicar a um tipo muito específico de tortura, a “boneca de
laço” ou de “nós”, inclusive em crianças’. Há indícios de que tinha enorme
prazer em aplicar a palmatória.

Bastante comum também foi a utilização do “cipó de boi” entre jagunços e


cangaceiros. Usado no período da escravidão, esse chicote de várias tiras
(cada uma delas um pênis de boi ressecado ao sol e tratado com sebo de
carneiro, assemelhando-se a um arame de aço flexível), continuou servindo de
modo constante como meio para punir duramente desafetos políticos e rivais
de “coronéis” e bandidos’o

Uma correia trançada de couro cru, presa a um cabo de madeira, outro tipo
de chicote, era a arma favorita de Pedro Pilé para punir seus desafetos, em
especial os bêbados, de quem não gostava”. Isso, apesar de ele mesmo, ao que
consta, ser afeito a, costumeiramente, se embebedar’.

De fato, o açoite e a palmatória eram formas comuns de castigo corporal no


Brasil colonial, e continuaram presentes nos períodos posteriores. André João
Antonil menciona as provisões das Ordenafões Filipinas que mandavam
matar ou mutilar qualquer escravo que ofendesse o senhor, assim como
açoitar “impiedosamente” para obter informações sobre o paradeiro de
escravos fugidos. E também comentava o regimento preparado em 1663 por
João Fernandes Vieira, que dizia:

Depois de bem açoitado, o mandará picar com navalha ou faca que corte
bem, e dar-lhe-á com sal, sumo de limão e urina, e o meterá alguns dias
na corrente, e sendo fêmea, será açoitada à guisa de baiona dentro da
casa com o mesmo açoite, com a proibição de lhes bater com pau, pedra
ou tijolo.13
Essas práticas, portanto, continuaram sendo usadas e “desenvolvidas” em
períodos posteriores, inclusive pelos cangaceiros14. Mas não exclusivamente
por eles. Um caso de torturas e execuções, entre muitos outros, realizado pela
polícia, ilustra as práticas violentas de punição no sertão. Em 1900, na divisa
da Paraíba com Pernambuco, uma força conjunta dos dois estados (após
entreveros em Surrão contra os homens de Antônio Silvino), matou seis
bandidos e capturou outros nove, para “sangrá-los”, um a um, de forma
bárbara. Colocados em fila indiana e presos uns aos outros por cordas, como
escravos, foram degolados. Quando o comandante da chacina, o sargento José
Lopes, desistiu de cortar gargantas, por estar com o “braço cansado”,
transferiu a incumbência para outro soldado 15

De acordo com o pesquisador Sérgio Augusto de Souza Dantas, a partir de


1902, após breve período de calmaria, os castigos e as surras voltaram a fazer
parte do dia a dia do interior da Paraíba, e rebenques e palmatórias passaram a
ser usados indiscriminadamente contra a população’. O fato é que, sempre
que havia aumento das atividades bandoleiras, o uso de métodos de coerção
contra o populacho também se intensificava‘7. Mas as práticas de violência,
em menor ou maior escala, continuavam, fossem elas apenas dentro das casas
de família, nas escolas ou praticadas por autoridades.

Outra boa ilustração da necessidade de se sobressair na sociedade por meio


da violência física foi o caso do negro Lucas da Feira, um escravo fugido,
nascido na fazenda Saco do Limão, próxima de Feira de Santana, Bahia, em
18 de outubro de 1807. Revoltado com o cativeiro e com o preconceito,
formou um pequeno bando de negros e mulatos a partir de 1828 (mas
estruturando e consolidando seu grupo defacto em 1840), com o qual
aterrorizava principalmente (mas não exclusivamente) as famílias de posse18.
Lucas nunca foi um quilombola, tampouco quis participar de qualquer
rebelião escrava. Em outras palavras, nunca questionou a escravidão pense,
mas apenas sua condição pessoal dentro do sistema vigente no Brasil da
época. Assim, optou pela vida de crimes, sendo responsável por algo em torno
de 150 assassinatos.

Fazia com as mulheres brancas o mesmo que os fazendeiros faziam com as


escravas de cor: estuprava as filhas dos senhores rurais, num misto de
bullying e de ódio racial”. Sua crueldade chegava a tal ponto que costumava,
depois de consumado o estupro, passar mel de abelha nas jovens, que eram
amarradas, sem roupa, em troncos de árvores, para serem devoradas pelos
insetos e animais. Lucas chegou a “sangrar o ventre” de uma mulata em
adiantado estado de gravidez com “lapadas de relho cru”, para que ela não
pudesse aumentar ainda mais o “rebanho escuro” dos cativos20

Sua crueldade com as mulheres era notória. Costumava abusar de jovens,


fossem negras, mulatas ou brancas, ricas ou de origem humilde e, se fosse o
caso, também não se importava em tirar a vida até mesmo de escravos. Se
fosse preciso, assassinava os maridos ou pais das moças e, em seguida,
estuprava-as, para depois abandoná-las ou executá-las, dependendo da
situação. Para se vingar de Adélia (moradora do Arraial de Oliveira), uma
moça de 15 anos de idade, “delicada’, de pele “branca e suave”, por quem se
apaixonara e havia sido rejeitado, crucificou a jovem num pé de mandacaru,
repleto de espinhos. Desse crime, em especial, Lucas se arrependeu
amargamente. Mas quando pregou o beiço de um sapateiro num pedaço de
pau, não ficou com nenhum peso na consciência. Também não se importava
em atear fogo na casa de trabalhadores pobres.

Ainda que, em teoria, tivesse raiva dos senhores “brancos”, recebia a


proteção de alguns coiteiros poderosos e de autoridades judiciárias. Muitas
vezes respeitava os moradores, policiais e negociantes de Feira de Santana,
encontrando afinidades com eles apenas por serem de sua região: em geral,
atacava principalmente gente de outras áreas.

O fato é que provavelmente Lucas se relacionava com figuras políticas


locais de prestígio, para as quais prestava serviços. E trocava favores com
negociantes criminosos, que lhe informavam com frequência sobre onde e
quando passariam tropas transportando cargas diversas, comerciantes em
trânsito e viajantes em geral, suas principais fontes de renda. Foi executado
em 25 de setembro de 1849, por enforcamento.

Rio Preto21, considerado por Gustavo Barroso “o mais feroz cangaceiro do


sertão”, também é um caso parecido. De acordo com o escritor cearense,
depois que uma jovem vítima se recusou a praticar o ato sexual com ele,

o cangaceiro amarrou-lhe braços e pernas, e toda a horda soez e vil


cevou no pobre corpo os instintos infames. Depois, entupiu-lhe a boca,
nariz e ouvidos com areia socada […] Alguns dias mais tarde, os
parentes da vítima acharam o corpo. Estava disforme, túmido,
empastado de sangue, estriado de líquidos viscosos, com arroxeadas
manchas e lentas filas de formigas pretas. Os urubus tinham começado a
bicá-la.22

O fato é que havia aí claramente um ressentimento social contido pronto


para ser liberado a qualquer momento. Fosse com o patronato, com as
volantes (que representavam o governo), com inimigos de família ou até
mesmo com a população mais humilde, após a captura ou assassinato de um
rival (ou daquele que lhe apresentasse resistência), era quase obrigatório que
o cangaceiro mostrasse seu desprezo por meio da tortura ou desmembramento
do corpo.

Em Cipó, Bahia, em julho de 1930, Lampião prende o “coronel” Joaquim


José de Santana, que é, em seguida, espetado cruelmente com ponta de faca.
Ele teve uma cruz tatuada nas costas e os tendões dos pulsos seccionados. Sua
casa foi destruída e saqueada por completo23

As atrocidades continuavam. Após a batalha entre cangaceiros e volantes,


em Lagoa dos Negros, alguns dias mais tarde, foram encontrados os
cadáveres putrefatos de oficiais e soldados completamente destroçados. O
tenente Geminiano José dos Santos (o comandante da fracassada caçada ao
bandido) foi decapitado e o resto de seu corpo (principalmente sua virilha e
estômago), perfurado por punhais. Já o sargento José de Miranda Mattos teve
os dois olhos arrancados. A gordura retirada de sua barriga e suas vísceras
também serviram para engraxar as armas dos bandoleiros24. Supõe-se que
aquela havia sido uma represália contra o governo, já que meses antes o
cangaceiro Gavião havia sido assassinado e sua cabeça decapitada, levada
num vidro de formol para Salvador, onde seria, por fim, estudada e exibida ao
público”

Em abril de 1931, mais atrocidades. Lampião captura José Pequeno, um


suposto delator, no município de Uauá. Mandou que ele e sua esposa ficassem
completamente nus e montassem num cavalo. Foram levados até o povoado
mais próximo. Lá, o “capitão” sangra, sem pressa, em praça pública, o traidor,
em frente aos cidadãos26. E depois que seu irmão, Ezequiel, o Ponto Fino,
perdeu a vida em combate, o “espantalho”, frustrado e com sede de vingança,
massacrou dez sertanejos.

Mas esses são apenas alguns exemplos. Em certa ocasião, o “rei” dos
cangaceiros “traçou” com um canivete dois cortes compridos e oblíquos nas
costas de um indivíduo, do ombro às nádegas, para então, depois de retalhar a
vítima, arrancar com as próprias mãos, meio metro de sua pele27. Gostava
também de fazer dezenas de pequenas perfurações com cutelo na cútis dos
rivais, para que esta ficasse parecida com “bexigas” no rosto e não se
importava em arrancar unhas com punhal28. Em Pedra Branca, capturou o
subdelegado da localidade, enfiou uma vela em seu ânus e deixou que ela
queimasse até o final”. Numa fazenda perto de Porto da Folha, Sergipe,
ameaçou o dono da casa de crucificá-lo na parede, com facas. A neta, que se
escondera no quarto, saiu do recinto e deu 600$000 para o chefe dos bandidos
em troca da liberdade dos familiares. Depois de pegar o dinheiro, contudo, os
cangaceiros estupraram a jovem e sua avó3o

Outro caso emblemático é o assassinato de José Catende, dono da fazenda


Campos Novos, em Porto da Folha, município sergipano. Depois de um
estupro coletivo, em que os criminosos embriagados abusaram sexualmente
de doze a quinze jovens e depois mandaram os pais e irmãos daquelas
mulheres vestirem saias, durante toda uma madrugada, o líder da quadrilha, o
cangaceiro Vitor Rodrigues, mais conhecido como Criança, ordenou que seus
comparsas levassem o dono da casa, Zé Catende (que estivera amarrado por
toda a noite, presenciando os atos) para fora e o puxassem a cavalo, pela
corda atada às suas mãos, arrastando-o por meio quilômetro, em disparada.
Seu corpo sofreu todo tipo de escoriações e ferimentos devido aos paus, às
pedras e ao solo endurecido. Mas ele sobreviveu. Quando Criança se
aproximou para ver de perto o estado do fazendeiro, este cuspiu em sua cara.
Na mesma hora, enfurecido, o salteador lhe desferiu dezenas de punhaladas
no peito. Em seguida, cortou sua cabeça com um facão e esquartejou seu
corpo. A cabeça e os membros foram então pendurados nos galhos das
braúnas, com as cordas que antes haviam sido utilizadas para amarrá-lo.
Depois, os bandidos foram embora dali, calmamente31

Corisco ficou famoso por sua crueldade. Depois de anos em busca de


Herculano Borges, seu maior desafeto, encontrou seu “inimigo” em setembro
de 1931, e daí em diante começou a proceder uma terrível sessão de tortura.
Borges foi amarrado e pendurado numa árvore, com as pernas para cima:
basicamente a mesma técnica de retirada do couro de animais. Foi
esquartejado.

O “Diabo Louro” e seus homens foram arrancando, com lentidão, a pele do


subdelegado, para depois cortarem suas mãos, pés e orelhas. Tudo isso
enquanto ele ainda estava vivo, gritando de dor. O sangue jorrava em
profusão. Ao que consta, Corisco não se importou com as súplicas de Borges.
Completamente enlouquecido, torturou seu inimigo o máximo que pôde. Há
relatos de que teria, inclusive, arrancado também o coração do policial e
mandado cozinhar, para depois ser comido. Para que se tenha uma ideia,
Corisco tinha até um castrador “oficial” em seu grupo.

Já o corte de orelhas, outra prática costumeira dos marginais, em alguns


casos, tinha também uma função econômica. Quando faziam o serviço para
algum chefete político, levavam as orelhas decepadas para provar o
assassinato e recolher o pagamento do trabalho.

Interessantes costumes dos cangaceiros, que, em sua maioria, eram, eles


próprios, caboclos sertanejos. De fato, a relação entre si e com o populacho
mostra as contradições inerentes dentro das fileiras bandoleiras.
Mamelucos32, cafuzos e negros, ainda que tivessem algum ressentimento
racial, se identificavam com o patronato “branco” e reproduziam seus
preconceitos e suas formas de agir.

Cabe dizer aqui que o termo “branco” é bastante relativo nesse caso. Ainda
que muitos sertanejos fossem assim caracterizados, é bom recordar que, em
sua maioria, eram mestiços com índios. Inclusive até mesmo os próprios
membros das elites rurais.

Temos de ressaltar, ainda, que a mestiçagem na região, historicamente, não


se dava apenas por uniões espúrias, mas em muitos casos, ocorria a partir de
casamentos sólidos, dentro dos preceitos da Igreja católica. Afinal, em 1755
um alvará d’El Rei declarava que os vassalos que se casassem com mulheres
indígenas não ficariam “com infâmia alguma’, mas, pelo contrário, se fariam
dignos de sua real atenção. Os filhos e descendentes desses matrimônios,
fossem de portugueses com nativas ou de íncolas com mulheres portuguesas,
seriam “hábeis e capazes de qualquer emprego, honra e dignidade, sem
necessitarem de dispensa alguma”. Isso tudo seria uma “grande conveniência’
para se povoarem os seus territórios no continente americano33.

Esse, é claro, era o discurso oficial, porque na prática as uniões entre


europeus e nativos já ocorriam desde os dois séculos anteriores com grande
frequência. Um exemplo explícito é o do bandeirante paulista Domingos
Jorge Velho. Para Affonso de Taunay, ele

vinha a ser quarto neto de João Ramalho (por Antônio de Macedo),


quinto de Tibiriçá, sétimo neto de Pequeroby (por Antônia Rodrigues) e
quinto neto do cacique de Ibirapuera (por Margarida Fernandes). Ainda
tinha ascendência vermelha pela tapuia de Pedro Afonso, sua trisavó.34
A mestiçagem desde os primórdios do período colonial constituiu, de fato,
gerações de mamelucos, que formariam as “elites” locais, que lutariam por El
Rei e que se considerariam, apesar de tudo, “brancas”. De acordo com
Cassiano Ricardo, “sem mameluco não teria havido bandeira; sem
democratização biológica não teria havido mameluco”35. Sebastião Raposo
comprova isso: carregava consigo um “harém” de índias e mucamas, com
quem teve vários filhos36. Já o rei Janduí, homem de grande prestígio, não só
entre os seus “súditos” (da tribo da qual emprestou seu nome), mas também
entre os brancos e mestiços, encabeçava uma das mais proeminentes famílias
do interior da Paraíba entre o fim do século XVI e começo do século XVII, da
qual se destacaram seus filhos Janduí, o jovem e Caracará, assim como seu
sobrinho Comendaoura. Janduí teve sessenta filhos37.

Não é demais recordar que os próprios portugueses, originalmente, antes


mesmo de vir à Colônia, eram produto de intenso caldeamento racial, com a
participação, em sua formação étnica, de sarracenos, judeus e outros
elementos europeus e árabes. Afinal de contas, os mouros ocuparam a
Península Ibérica por vários séculos. A mescla de sangue “caucasiano”,
africano e semita já era patente muito antes da colonização do Brasil. No
Novo Mundo, os lusitanos iriam se misturar ainda mais, fosse com escravos
africanos, fosse com indígenas. O que se pode dizer é que Portugal, no século
XVI, era, ela própria, uma nação mestiça38.

Apesar do massacre de muitos povos nativos no Sertão nordestino, como,


por exemplo, no período da “Guerra dos Bárbaros”, na segunda metade do
século XVII, com a eliminação física de milhares de índios, houve também,
paralela e paradoxalmente, uma assimilação do elemento local na constituição
de um novo homem sertanejo. Assim, é possível afirmar que, mesmo tendo
ocorrido, como é sabido, o assassinato, o cativeiro e o aldeamento de diversos
povos autóctones, estes ainda assim conseguiram sobreviver, na medida em
que constituíram uma parte essencial na formação biológica e cultural dos
tipos do interior do Nordeste. Eles foram assimilados e se transformariam,
posteriormente, no típico homem sertanejo. Afinal, grande parte dos que
lutaram na famigerada “Guerra dos Bárbaros” contra os cariris, eram, eles
também, combatentes indígenas. Affonso de Taunay, citando Borges de
Barros, declarava

que de tal Confederação fizeram parte as seguintes tribos: Sucurus,


Paiacus, Icós, Icosinhos, Bulbuís, Ariús, Arcas Pegas, Caracás, Canidés,
Coremas, Caracarás, Bruxarás, índios estes de Alagoas, Pernambuco,
Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Os brancos por sua vez
combatendo-os com os seus próprios irmãos mobilizaram contra eles
tropas de Mongruzes, Guapurús, Tocarubas, Paraciconhas, Baibés,
Carimbés, Tamanquizes e Procazes.39

É possível dizer que um contingente significativo de indígenas sobreviveu


aos massacres do período e colaborou para compor, direta ou indiretamente,
no âmbito interno ou externo da sociedade sertaneja oficial que se formava, o
que viria a ser o tipo humano típico da região. Decerto houve uma forte
resistência cultural indígena, desde sua relação com o colonizador nos
espaços institucionais até sua penetração mais sutil nos costumes, linguagem,
tradições, mentalidades, estruturas simbólicas e imaginário sertanejos40. São
muitos os exemplos que ilustram o volume de indígenas, em termos
numéricos, e a participação estreita dos nativos nas relações de rivalidades ou
alianças com portugueses e mamelucos brasileiros no sertão, o que iria, em
última instância, mais tarde, colaborar para reconfigurar étnica e
culturalmente todo aquele cenário do hinterland nordestino, construindo,
nesse caso, uma nova realidade regional.

Vejamos alguns exemplos.

O cacique potiguara Zorobabé liderou 1.300 índios da Paraíba e Rio


Grande do Norte numa expedição para auxiliar os baianos contra os aimorés,
em 1603, por ordem do governador-geral e com Francisco Nunes no
comando41, enquanto Pero Coelho de Souza, fidalgo da Casa do Rei e militar
experiente, partiu da Paraíba para a conquista do Ceará, no mesmo ano, como
capitão-mor de uma expedição que levava 65 soldados e 200 índios42.

Na tentativa de destruir Palmares, Diogo Botelho já organizara, no ano


anterior, uma expedição composta majoritariamente de índios, mamelucos,
mulatos, negros forros e “brancos” pobres. Achavam que se saíssem
vitoriosos, poderiam capturar e vender os quilombolas como escravos43.

A partida militar holandesa, comandada pelo capitão Rodolpho Baro, em


1644, com o mesmo intuito, possuía trezentos soldados holandeses, cem
mulatos e setecentos índios44

E as tropas de Jorge Velho, que partiram do Piauí para lutar contra os


quilombolas em Palmares e contra os índios cariris, eram compostas, por sua
vez, de mil homens “de arco e flecha’, duzentos de espingarda e apenas 84
“brancos”, que os comandavam45

Em 1693, um novo contingente foi organizado para tentar acabar de vez


com Palmares. Os efetivos eram de 3 mil homens vindos de Olinda e Recife,
2 mil de Alagoas e Porto Calvo, 1.500 de Penedo e São Miguel, trezentos
comandados por Bernardo Vieira de Melo e seu irmão Antônio e oitocentos
homens da Bahia, Paraíba e Rio Grande do Norte. O comando geral estava
nas mãos de Jorge Velho. Aquele enorme contingente era composto, de
acordo com Renato Castelo Branco, de brancos afidalgados, mamelucos,
mulatos, índios, pernambucanos, paulistas, baianos e piauienses,
representando o maior esforço de guerra realizado na época 46

Em todos esses exemplos, o que se pode concluir é que a maioria dos


contingentes guerreiros, fosse de atacantes, fosse de defensores, era composto
por grupos não brancos e marginalizados na sociedade. Os setores atacantes
se identificavam com as elites “brancas” e não com os escravos fugidos ou
cariris. De fato, não havia identificação de classe ou “raça’ entre aqueles
indivíduos, nesse caso. Sua intenção era a destruição do inimigo e a ascensão
econômica e social. Para isso, não haveria problema em aprisionar e vender
elementos dos grupos marginalizados que resistiam no interior nordestino,
mesmo que aqueles pudessem se parecer física ou culturalmente com eles.
Esses homens, índios e mestifos, fossem locais ou vindos de outras regiões do
Brasil, junto com os “brancos”, mais tarde, iriam tomar posse de terras no
sertão e se misturariam ainda mais com os vencidos. Muitos dos nativos
acabaram sendo colocados em cativeiro e usados como trabalhadores pelos
senhores rurais47. Como comentou Câmara Cascudo,

o mestiço do branco e indígena deu a maior porcentagem de vaqueiros


[…] Como a porcentagem mais sensível, para o interior, era o cariri, o
indígena de pouca fala, silencioso, tenaz, cheio de pudor, de orgulho
rancoroso, herdou-lhe o sertanejo algumas dessas virtudes, de mistura
com o sangue português, na multidão dos traços psicológicos.48

Portanto, não seria exagero dizer que no interior do Nordeste, o principal


(mas não único, é claro) lastro sanguíneo é o indígena, mesclado
especialmente (mas não exclusivamente) com o português. Fica claro aqui
que a opinião de Oliveira Lima, de que “esta população é raça bem mais pura
que a do litoral, com pouca mistura de sangue índio e quase nenhuma de
sangue negro”, é equivocada49. Afinal, muitas cidades da região foram, em
sua origem, reuniões de casas com aldeamentos indígenas, como por
exemplo, o Crato, Baturé e Granja, no Ceará, e Piancó e Campina Grande, na
Paraíba5o

A mestiçagem entre índios e europeus’ se deu desde o início da colonização


e se acelerou a partir da segunda metade do século XVII, produzindo um tipo
humano muito característico no Agreste e Sertão nordestinos. Mas haveria
alguns traços característicos entre esses nativos e os cangaceiros? Haveria
algum vínculo histórico e cultural entre eles?

É sabido que alguns nativos faziam guerras movidos, prioritariamente, pelo


argumento de vinganfa. Jean Léry, descrevendo os costumes dos indígenas no
século XVI, comenta:

Os selvagens se guerreiam não para conquistar países e terras uns dos


outros, porquanto sobejam terras para todos; não pretendem tampouco
enriquecer-se com os despojos dos vencidos ou o resgate dos
prisioneiros. Nada disso os move. Confessam eles próprios serem
impelidos por outro motivo: o de vingar pais e amigos presos e comidos,
no passado.52

Mais tarde, Gregório Varela Barreto, num comunicado de 1690 (que deve
ser lido com bastante distanciamento, certamente), comentaria, sobre os
povos nativos sertanejos:

São esses Tapuias uns alerves criados nas eminências daqueles sertões,
sem comunicação de pessoa nenhuma, muito agrestes no seu trato e é tão
rústica a língua de que usam, que ninguém lhes entende, muito ferozes
no semblante, muito corpulentos, que se tomarem qualquer pessoas às
mãos, a hão de despedaçar.53

E ainda o depoimento de Pedro Carrilho de Andrade sobre os índios das


ribeiras do Jaguaribe e do Açu, também tendencioso:

Exercitam-se desde meninos em destreza e forças como lutar, correr,


saltar e levantando grandes pesos aos ombros. Correm três ou quatro
léguas sem descansar […] Finalmente, correm um dia todo sem se
cansarem. Não têm outro exercício, nem ocupação de lavoura nem
planta; trato nem destrato algum; nem oficio nem beneficio […] São uns
espíritos ambulantícios, andam sempre de corso, vagabundos, pelos
montes e vales, atrás de caças e feras e raízes e frutos agrestes, de que se
sustentam e a divina providência os mantêm […] São mais ferozes do
que as mesmas feras dos montes agrestes, porque a muitas levam
vantagens, nas forças, na ligeireza do correr e nos usos e costumes […]
Não há animal ou fera que não tenha o seu jazigo e lugar certo, cova,
lapa ou buraco onde descansa, de dia ou de noite, conforme o seu uso;
mas esses infiéis não têm jazigo ou lugar certo, como tenho dito. Onde
quer que lhes anoiteça, dormem deitados pelo chão, sobre a terra ou
areia pura, sem mais palha, nem esteira ou cobertura alguma, nem por
baixo, nem por cima; nem buscam sombra de árvore nem abrigo. Mas
antes, no lugar mais descoberto e patente ao ar e céu, ali se deitam,
acendendo fogos que parece lhes servem de alimentos. E assim passam
cantando mui contentes, e meia hora antes do amanhecer se levantam e
vão à fonte ou ao rio a banhar.54

Curiosidades, talvez. Seria certamente excessivo, imprudente e incorreto


afirmar que os futuros cangaceiros, séculos mais tarde, iriam herdar desses
povos características “genéticas” de “ferocidade” e “combatividade”, ainda
que alguns autores sigam por esse caminho.

Abelardo Parreira chegava a afirmar que

além de possuir verdadeiro senso hereditário de certa casta de índios,


conservando o estigma do fácies evidente prognatismo, é o “cangaceiro”
na sua modalidade física e moral impulsionado por crendices e
sortilégios, aberrações e tendências que atuam na decisão de abocanhar
parcos haveres, reduzidos meios da sacrificada subsistência dos íncolas
do sertão, desapercebidos da maldade inata das hostes dos erros e do
vício.ss

Pereira insistia que, na primeira metade do século XIX, ao longo da serra


do Borborema, em recantos distantes do Pajeú e de Piancó, as autoridades
tinham de tomar medidas drásticas para reprimir índios “dilapidadores” de
fortuna e haveres particulares. Em sua visão, estes representariam,
claramente, os “pródromos” do cangaceirismo sertanejo56. Insistia esse autor
que aqueles indígenas “defraudadores” e “turbulentos” haviam dado origem à
formação de diversos grupos armados em represália ao poder instituído, e que
isso teria, em consequência, resultado na formação dos “primórdios” ou
“ensaios” dos primeiros núcleos de cangaceiros na região57. Como exemplo,
citava uma “horda de índios degenerados”, que em 1833, perambulando pelas
estradas, assaltava os viajantes, invadia casas, incendiava pastos e espalhava o
medo no sertão. Supostamente canibais, teriam aprisionado vaqueiros e
caçadores de uruçus, preás e mocós, para depois assá-los em moquéns, ainda
vivos, e então comê-los, durante seus rituais selvagens”.

Opinião similar tinha Djacir Menezes em relação aos jagunços. Comentava


que

o tipo dominante na região do Cariri é o do jagunço, em cuja tez se


observa a influência do sangue indígena, nos traços antropológicos, na
psicologia. A função arianizante, que muitos mencionam, tem sido lenta,
na sua miscigenação. Travam-na as funções políticas, o domínio, a
propriedade das terras, em geral, nas mãos das famílias onde cresceu a
quota do sangue do branco, embora levemente colorido no sentido
faiodérmico do aborígine.s9

Menezes concordava que as determinantes primordiais para o ingresso no


cangaceirismo não estavam no perfil psicológico ou “estigmas de
degenerescência’, mas no meio que envolvia os sertanejos. Ainda assim,
achava que aquela era

uma plebe rural, que fica sem posse de terra, que fica agregada aos
proprietários, nômade muitas vezes, vai esboçando essa massa inculta,
onde os tipos étnicos mais heterogêneos tendem a certa uniformidade
sobre a base de um fundo comum aborígine, nas zonas das caatingas.
Acentuemos de passagem a relativa conservação de nódulos sociais
indígenas, em certos pontos do sertão pernambucano.`

Algo similar dizia outro comentarista, Antônio Bezerra, ao afirmar que

um filho de Ibiapaba é como um montenegrino: não sabe andar sem


trazer à mão uma espingarda e no quadril a longa faca de mato […] O
sangue dos tabajaras que lhe corre nas veias talvez concorra para que de
quando em quando se reproduzam nesta região as cenas de barbárie dos
seus antepassados.`

Outro que seguia por essa linha era Alcides Bezerra, afirmando que

a causa principal do banditismo é a mistura das raças mui diversas. O


delinqüente sertanejo é o selvagem aparecido pelas leis fatais da
hereditariedade no seio da nossa sociedade.62

Cruz Filho, por sua vez, também comentava que “a mestiçagem sertaneja é
a base psíquica do flagelo que nos amesquinha e avilta”63. Afinal, “afogado
em sangue e desespero, vingou-se o aborígine do seu sacrifício, inoculando
nas veias do vencedor o vírus das neuroses criminais”64

E, por fim, Gustavo Barroso, que dizia:

O índio contribuiu com inclinações para a ferocidade, emboscadas e


vinganças, estas quase iguais no modo de se executarem às “vendettas”
da Córsega. Duterte afirma que, entre os caraíbas e tupinambás, o
indivíduo tinha a obrigação de vingar-se pessoalmente das afrontas sob
pena de ser votado a completo desprezo. Segundo Catlin, a opinião
pública entre os pele-vermelhas fazia da vingança o maior dever. O índio
astucioso e cruel, vivendo entre si em contínuo estado de guerra, tinha o
desprezo pela vida peculiar à maioria dos povos selvagens tanto da raça
vermelha como da negra. A ferocidade e perfídia estão comprovadas por
todos os que os têm estudado ou a eles se referem, ferocidade e perfídia
de que não são culpados e que lhes deu o seu estado moral
atrasadíssimo… É do índio a maneira de fugir do cangaceiro. O Rufino
Lemos, do Piancó, escapuliu-se da escolta mergulhando numa lagoa,
onde passou horas cercado por todos os lados. Só o tapuia poderia fugir
assim.GS

De qualquer maneira, ainda que essas observações sejam um tanto


extremadas e preconceituosas, pode-se dizer, genericamente, que muitas das
formas de luta e caracteres fenotípicos (incluindo desde traços faciais até
aspectos culturais e táticas de guerrilha), foram passados e assimilados ao
longo do tempo pelas famílias sertanejas, e em consequência, pelos
bandoleiros. Tanto os cariris como os cangaceiros, coincidentemente, eram
identificados por seus rivais por sua “valentia” e “selvageria’, traços que se
supõe justificariam (pelo menos no discurso), também, seu extermínio. O
certo é que ao longo dos primeiros séculos do Brasil colonial foi sendo criada,
gradualmente, uma forma de guerrear “brasileira’ (ou “brasílica’) muito
específica, aclimatada às condições do terreno. Essas técnicas de luta,
portanto, se desenvolveram a partir da experiência direta, de combates e da
troca de informações e observações entre os contendores, ou seja, das
experiências de indígenas e escravos negros rebelados, da guerra contra os
franceses e holandeses, e das técnicas dos bandeirantes66. Os cangaceiros,
portanto, também fazem parte, mesmo que de modo indireto, desse processo
histórico de longa duração e decerto assimilaram culturalmente essas formas
de combatividade, assim como as adaptaram e as aprimoraram de acordo com
as suas necessidades.

Como já dissemos, etnicamente, o sertanejo, em sua maioria, é um


descendente direto de portugueses com diversas tribos indígenas distintas67.
É bom lembrar, entretanto, que há bastante tempo, diversos estudos genéticos
já provaram a inexistência de raças per se (ou seja, só haveria uma “espécie”,
a humana), ainda que os fenótipos dos tipos humanos possam ser
identificáveis de modo claro. E que a ideia de “pureza’ étnica é algo que
certamente não existe.

É óbvio que também havia o elemento negro no sertão, que se encontrava


em número mais significativo do que muitos tentam fazer crer, ainda que, em
termos gerais, os africanos ou seus descendentes fossem representados numa
proporção bem menor do que os “brancos”, caboclos e mamelucos. De
qualquer forma, vários cantadores, repentistas, beatos e cangaceiros negros
são bastante conhecidos e formam parte importante e representativa do
cenário social e cultural sertanejo. Fazendeiros, muitas vezes absenteístas,
possuíam, como já foi dito, escravos, que realizavam seu trabalho
paralelamente com os homens livres. Jacob Gorender comenta, a partir do
Roteiro do Maranhão, para ilustrar esse caso específico:

Em cada uma fazenda destas não se ocupam mais de dez ou doze


escravos, e na falta deles os mulatos e pretos forros, raça de que
abundam os sertões da Bahia, Pernambuco e Ceará principalmente pelas
vizinhas do Rio São Francisco.68

Mas, nas palavras de Richard Graham:

No Nordeste, na região de cultivo de algodão e alimentos, entre a costa


produtora de açúcar e o interior de criação de gado, os senhores de terra
- proprietários de extensões agrárias menores e menos prósperas do que
na costa -, muitas vezes não possuíam nenhum escravo e povoavam suas
propriedades quase inteiramente com moradores.61

Em todo o Brasil, em 1818, dos 3,8 milhões de habitantes, em torno de 1,9


milhão, ou 50%, eram escravos. Já em 1823, a população total era de 2.813
“homens livres” para 1.147 escravos. Ou seja, um terço das pessoas no país
estavam escravizadas. Na metade do século XIX, assim, enquanto o número
absoluto de escravos chegou a 2,5 milhões de indivíduos, a população livre
atingia a marca de 5,2 milhões de pessoas70. Mas vejamos como estava a
situação do Nordeste, em particular o Sertão. De acordo com dados
estatísticos de 1851, a população da zona da Borborema71, na Paraíba
(certamente uma região restrita, mas significativa), era de 12.576 escravos e
100.954 homens livres72. Os municípios do sertão paraibano tinham 7. 129
escravos e 36.536 denominados habitantes livres73. A partir de 1850, quando
foi abolido de forma oficial o tráfico negreiro para o Brasil, houve uma
acentuada diminuição de escravos africanos no Nordeste, já que os cativos
disponíveis eram vendidos e enviados para as províncias da região Sul, que
ainda continuava com uma grande demanda por mão de obra desse tipo74.
Em 1860, o Ceará contava com 500 mil habitantes e apenas 34.400 escravos
(em sua grande maioria, do sexo masculino), ou seja, 1 escravo para 14
homens livres75. Em 1871, eram 33.874 cativos76; em 1880, 25.597,
aproximadamente77; e em 1881, quando o Ceará contava com uma população
total de 800 mil habitantes, havia 24.648 escravos78.

Já no Rio Grande do Norte, existiam 10.240 escravos em 1835. E havia


uma proporção de 6.247 negros livres para 6.016 cativos79. A quantidade de
“pardos” livres, por sua vez, era de 31.885 indivíduos80. Na mesma
província, no ano de 1844, dentro de uma população de 149.072 habitantes, o
total de negros (escravos e “livres” incluídos) era de 23.467 indivíduos. Com
o tempo, a quantidade de escravos foi sendo reduzida consideravelmente,
como decorrência, em especial, da retração na produção de açúcar e algodão,
e pela demanda no Sul do país. Assim, em 1887, quando foi divulgado o
último censo de escravos do Rio Grande do Norte, só havia 2.161 cativos em
toda a província81. O elemento negro naquele estado nunca foi dominante,
nem econômica nem etnicamente. No final do pe ríodo da escravidão, nos
anos 1870 e 1880, em torno de 60% da população rural era “livre” e mais
20% era classificada como “sem ocupação”82.

Pernambuco, a partir da década de 1850, também se tornou um


“exportador” de escravos para o Sul. Até os anos 1880, o tráfico de mão de
obra escrava interprovincial floresceu. Em média 760 escravos eram vendidos
anualmente, de forma legal, pelos agentes de Recife. Mas, por causa das altas
taxas de saída (100 mil-réis por indivíduo a partir de 1852 e 200 mil-réis
depois de 1859), houve o aumento do contrabando de “peças”. Assim, o mais
provável é que o número de homens enviados ao Sul tenha sido em torno de
1.500 ao ano.

Na década de 1870, o tráfico escravocrata chegou ao seu ápice. As secas no


sertão obrigaram à liquidação de ativos fixos, entre eles, os escravos. A venda
de escravos para o Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo teria sido tão
volumosa na década de 1880, que aquelas províncias começaram a impor
altas taxações para a importação deles. Mesmo assim, há estimativas de que
Pernambuco possa ter perdido de 23 mil a 38 mil escravos naquele período83.
De qualquer forma, podemos perceber que a quantidade de escravos no
Brasil, de forma geral, teve uma drástica redução ao longo dos anos. Se em
1850, de um total de 8.020.000 habitantes, 2,5 milhões eram escravos (31%) e
em 1872, de 9.930.000 pessoas, 1.511.000 estavam escravizadas (15%), em
1887, de uma população nacional de 14.002.000 habitantes, apenas 723 mil
eram escravos (5%), um peso específico, em termos percentuais, já sem
grande importância econômica para o país 14. OU seja, 95% da população
brasileira era livre.

Por outro lado, temos de fazer a ressalva aqui que nem todos os
“trabalhadores livres” eram, tampouco, brancos. Havia também uma
proporção significativa de homens livres caboclos, cafuzos, negros e
indígenas85.

Nunca é demais recordar que, por “homem livre” se entende, em essência,


o contraponto jurídico do “cativo”, já que muitos negros, supostamente
“livres”, permaneciam em estado servil, dependentes e explorados pelos
antigos donos. Esses homens não tinham meios econômicos ou jurídicos para
ganhar uma efetiva emancipação.

De qualquer forma, na caatinga, o escravo tinha um tratamento bem


diferente daqueles do litoral, já que era menos necessário do que nas lavouras,
considerando que o pastoreio exigia menos mão de obra para a realização das
tarefas. Os homens de cor cumpriam a função de vaqueiros e de guarda-
costas, ainda que, como dissemos, não fossem dominantes no sertão. Nesse
sentido, vale a pena mencionar o discurso de Cassimiro José de Morais
Sarmento, um ex-presidente do Rio Grande do Norte e deputado geral, em
setembro de 1848, quando afirmava que naquela província

há poucos escravos, e, quase toda a agricultura é feita por braços livres.


Conheço muitos senhores de engenho que não têm senão quatro ou cinco
escravos, entretanto que têm 20, 25 e 40 trabalhadores livres86.

É importante salientar aqui que o termo “caboclo”87 muitas vezes era


popularmente usado como sinônimo de índio” ou de forma pejorativa,
desrespeitosa89. Por outro lado, muitos indígenas eram tratados por negros90.
A terminologia “negro”, portanto, acabou se tornando, durante um bom
tempo, equivalente a “escravo” em geral.

Numa carta do Padre Nóbrega, de 11 de agosto de 1551, o clérigo se referia


às mulheres indígenas como negras. Dizia que os nativos “querem contrariar a
doutrina de Cristo e dizem publicamente aos homens que lhes é lícito estar em
pecados com as suas negras”91.

E em 1607, o Padre Luís Figueira designava, na Relafão do Maranhão, de


“negro” Cobra Azul a Bóia obi, o morubixaba potiguara92. A quantidade de
escravos íncolas no Nordeste, nos dois primeiros séculos do período colonial,
era volumosa, explicando por si só tanto o uso dessa terminologia como a
formação étnica da região. O fato de os silvícolas serem mais abundantes e de
mais fácil acesso ao colonizador em algumas áreas do Nordeste, assim como
o preço do escravo negro ser muito mais alto que o do indígena, podem ter
sido fatores que contribuíram para um número maior de nativos escravizados
na região, naquele período93: Sebastião Raposo levava consigo para o Piauí
250 escravos indígenas carijós, onde construiria uma fazenda de gado; e
foram levados para o Nordeste, pelos paulistas, 170 mil indígenas, só para
trabalhar na produção do açúcar94. Paulistas, é bom lembrar, que eram, eles
próprios, mestiços, mamelucos, ainda que possivelmente, em muitos casos, se
considerassem brancos.

Para Almeida Prado,

a cor do gentio trouxe-lhe do português a designação de negros, que


encontramos nos textos antigos. De fato, era muito escura quando o
índio vivia exposto ao Sol, e mais claro quando protegido pela espessura
da mata, tornando-se macilento, amarelado ou aleonado.95

Por outro lado, havia indígenas de pele muita clara, alguns inclusive, com a
epiderme quase alva. A diversidade de tipos nativos era bastante grande, sem
dúvida96.

Numa análise de cinquenta inventários das personalidades mais ricas do


município de Tucano, no Recôncavo Baiano, de 1832 a 1865, realizada por
Eurico Alves Boaventura, só havia o registro de 180 escravos. De acordo com
esse autor, quase todos eram mulatos e pardos nascidos no Brasil ou mestiços
de negros e brancos com índios97. E nos arquivos do tabelionato de Feira de
Santana, esse mesmo pesquisador, procurando informações similares, entre
1860 e 1880, chegou às mesmas conclusões98. É bom recordar, entretanto,
como bem mostra João José Reis em seu Rebelião escrava no Brasil, que as
estimativas de população em boa parte do século XIX não eram confiáveis,
havendo números muitas vezes díspares e pouco acurados, dependendo de
quais fossem as fontes. E que até mesmo os censos “oficiais” podiam ser
imprecisos ou até mesmo incorretos, já que muitos senhores escondiam o
número real de escravos para burlar o fisco99. As diferentes gradações de
tons de pele dos escravos e suas características físicas bastante heterogêneas
podem ser vistas de maneira clara na imprensa da época.

Assim anunciava o jornal Comercial Paraibano, de 16 de abril de 1860, em


seus avisos: “Escravo Antônio, acaboclado, com uma orelha furada para
argola, 26 anos, alegre e folgazão, muita força, estava hipotecado e fugiu,
quem o prender será recompensado” 100.

Este, do periódico O Tempo, de 20 de julho de 1865, da mesma província,


dizia: “Fugiu um escravo quase brancolol, bem falante” 112.

E outro, de O Publicador, do dia 18 de junho de 1860, também da Paraíba:

Fugiu do sítio Olho d’Água, no termo do Ingá, um escravo de nome


Vitoriano, cabra103 idade 25 anos, com barba na ponta do queixo,
cabelos carapinhos. Como pode suceder que este escravo se resolva a
assentar praça, previne-se ao encarregado do alistamento de
voluntários.104

Os exemplos se avolumam. “Fugiu escravo Francisco, cabra de idade de 30


anos, intitula-se livre”105, anunciava o jornal da Paraíba, de 29 de outubro de
1870, enquanto o mesmo diário, dessa vez de 24 de janeiro de 1871,
divulgava nos classificados: “Fugiu o escravo Cesário, de 19 anos, mulato
claro, presença simpática, nariz afilado, cabelos carapinhos e vermelhos‘06
pés cicatrizados de bichos, supõe-se ter tomado o caminho do sertão onde
nasceu e foi criado” 107

E mais outro: “Escrava agrícola, 30 anos, fugiu com um filho de 10 anos de


cor fulva e outro de 16 anos de cor parda. Pertencem a Manuel Carneiro da
Cunhá‘108

E então este, do jornal da Paraíba: “Fugiu de bordo do vapor Bahia o


escravo Raimundo, pardo, que pode passar por livre‘09. Ia do Ceará ao Rio de
janeiro para vender-se”10 Esse “classificado” aparentemente foi divulgado
por mais dez dias naquele jornal”’ Todas essas evidências mostram como a
formação étnica dos escravos era bastante variada. E como eram muitas as
formas de classificar os indivíduos por meio das gradações de tonalidade da
pele, classificações estas, decerto, “racistas” para os padrões atuais”’ e que
tiveram variantes em outros países13

Já os indígenas se encontravam no final de um constante e ininterrupto


processo de aculturação e dissolução tribal. No começo do século XX as
tribos’ 14 indígenas nordestinas que restavam encontravam-se em condições
de sobrevivência cultural precárias. Em acelerada fase de assimilação, os
membros das poucas famílias que integravam várias dessas aldeias
apresentavam traços fenotípicos negroides ou caucasoides, conviviam com os
sertanejos de povoados vizinhos (frequentando constantemente os vilarejos) e
recebiam em seu território mascates, tropeiros, padres e todos que quisessem
com eles se relacionar. Muitos haviam esquecido seus idiomas de origem. Seu
vestuário, assim como o design de suas construções, eram iguais ou similares
aos dos outros sertanejos. Boa parte de suas tradições havia sido abandonada.
Entre esses grupos, é possível mencionar os potiguaras, na reserva de Monte
Mor, na Paraíba, e os xukurus, na Serra do Ararobá (Ororubá), em
Pernambuco.

A aldeia de Cimbres, antes chamada Ororubá, onde viviam índios xukurus,


“brancos” e mestiços, que em 1855, possuía 861 habitantes, em 1861, tinha
em torno de 789 moradores. Em 1879, o governo decidiu extinguir aquela
aldeia. Os nativos remanescentes, portanto, ficaram sem um território próprio’
15 Um século mais tarde, um grupo pequeno, sem dispor de uma “reserva’
(apenas um posto indígena), vivia aldeado na serra do Orurubá, a 6 km de
Pesqueira e a 204 km de Recife, na zona fisiográfica do Agreste do estado.

Os Pankararu (ou Pankaru), do município de Tacaratu, no sertão


pernambucano (a 412 km da capital do estado), também são um caso
sintomático. As primeiras referências a esse grupo remontam ao século XVII,
quando foi criada a vila de Tacaratu; o aldeamento se deu, provavelmente, em
1802. Em meados do século XIX, mais especificamente em 1855, havia
apenas 580 indígenas vivendo na tribo, e em 1861, esse número diminuiu para
somente 270 habitantes. Já havia, nesse período, boa quantidade de posseiros
“brancos” na região‘16 O fato é que em 1824 ocorreu a dispersão de uma
diversidade de tribos indígenas no sertão de Pernambuco, e a tentativa de
aldeamento de várias delas a partir da segunda metade daquele séculon7. Ao
longo do tempo, as populações estritamente indígenas foram sendo reduzidas
ou assimiladas. Muitos índios se tornaram, em grande medida, culturalmente
indiferenciáveis, em diversos aspectos, dos caboclos sertanejos.

Já os fulniôs (mais conhecidos como carnijós ou carijós), também


pernambucanos, mesmo que também mestiçados e catequizados desde a
década de 1680, ainda preservavam sua língua, o iatê, e continuavam
realizando de forma periódica a cerimônia de culto ao Juazeiro Sagrado na
caatinga. Em 1855, a população da aldeia era de 738 pessoas18. Em torno da
igreja erigida pelos moradores de sua aldeia, gradualmente foram sendo
construídas casas de sertanejos, que compravam ou arrendavam os lotes dos
próprios indígenas. Em 4 de novembro de 1861, o governo imperial decidiu
extinguir a aldeia, influenciado pelos crescentes conflitos entre índios e
“brancos” locais. A medida não foi executada e novas instruções para a
distribuição de terras aos indígenas continuaram sendo enviadas para as
autoridades da Província. Em 1877, finalmente, as terras dos nativos foram
demarcadas’”. A partir de 1916, contudo, a relação entre população de Águas
Belas (vila que surgira e crescera em volta do templo), a 273 km da capital do
estado, e os nativos, se tornou insustentável. Pressionados pelas autoridades
do vilarejo, muitos dos habitantes originais do aldeamento foram expulsos.
Quem ficou, recebeu ameaças de perder suas terras. Já os que emigraram
acabaram sendo absorvidos como mão de obra barata em fazendas perto
daquela localidade. Os novos moradores da aldeia (como ocorreu em outras
partes do sertão de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia), pleitearam
juridicamente a posse daquelas e de outras terras, que, em última instância,
lhes foram concedidas de modo oficial. Esse processo forçou os indígenas a
incrementar seu movimento de deslocamento dentro da região: tornaram-se
errantes, sobrevivendo da pesca nas proximidades do São Francisco, ou do
trabalho como remeiros e peões nas propriedades rurais. Mesmo sendo
desprezados e expulsos pela população sertaneja, os fulniôs conseguiam,
mesmo com dificuldade, manter e divulgar suas crenças ancestrais, preservar
sua língua e continuar se identificando como indígenas”’

A aldeia Fulniô que restou continuou próxima a Águas Belas, quase como
um apêndice econômico daquela cidade. Até os anos 1930, seus moradores
construíam suas casas com palha de ouricuri. A partir de então, seu traçado
urbanístico e arquitetônico mudou, com pequenas e precárias casas de taipa e
ruas no mesmo estilo dos vilarejos locais (só que sem pavimentação nem
comércio), se descaracterizando ainda mais e se mesclando por completo ao
cenário sertanejo121

É sabido que Virgulino Ferreira lutou, no dia 25 de janeiro de 1925, com o


índio fulniô Roberto Florentino de Albuquerque, em Águas Belas. Lampião,
junto com mais 27 sequazes, tiroteou durante mais de uma hora contra o
indígena sertanejo. O fulniô e seu irmão Alfredo trabalhavam para o
“coronel” Manuel Francisco dos Santos, na fazenda Curral Novo. Os dois,
junto com a esposa e os filhos de Roberto, defenderam ferozmente, de armas
nas mãos, a propriedade do patrão. Desconfiado de que havia uma grande
quantidade de jagunços protegendo a casa, o “homem” partiu, em retirada,
para voltar, meses depois, com um reforço de 125 salteadores. Nessa segunda
ocasião, o indígena correu para a tribo fulniô e convocou 45 homens locais
para, novamente, evitar a invasão e destruição da fazenda. Lampião soube dos
preparativos de defesa e preferiu não combater naquela ocasião’zz

Também há indícios de que ocorreram dois encontros entre as “tropas” de


Lampião e índios, nesse caso, os cariris de Mirandela. As histórias contadas
pelos nativos se tornaram parte do fabulário popular da aldeia, sendo
transmitidas ao longo dos anos com o intuito de construir um passado
“épico”, já que, de acordo com eles, seus antepassados teriam armado feroz e
“heroicá’ resistência aos bandidos. Suas “lendas” exaltavam todos aqueles que
sobreviveram ao assédio do “governador do sertão” como verdadeiros heróis
de seu povo”’. Por outro lado, o pesquisador Daniel Lins chegou a afirmar
que Lampião teria travado amizade com os índios Pankararé, perto do Raso
da Catarina124

Algo semelhante é dito por Antônio Amaury Corrêa de Araújo sobre


Corisco e Dadá. Para ele, Corisco entregou sua esposa grávida aos cuidados
de “caboclos” e índios aculturados que viviam no Raso da Catarina, em 1932.
Os habitantes do local teriam gostado muito dela e a ajudado. Por isso, todas
as vezes que o casal passava por lá, levava presentes variados para a
população. Os dois cangaceiros, portanto, distribuíam calças, camisas e
vestidos, feitos pela bandoleira. Estimada pela população local, ela era
frequentemente alimentada e tratada com remédios naturais pelos índios125
Quando Dadá ganhou de Corisco uma máquina de costura, pôde aumentar o
guarda-roupa dos indígenas da região 121.

É compreensível que os cangaceiros, portanto, fossem produto de seu meio


e tivessem em suas fileiras a mesma formação étnica da região.

O Cabeleira (o bandido pernambucano do século XVIII) foi descrito por


Sílvio Rabelo como “brancoso” e “ruivaça”, de cabelos longos e
“encaracolados”, e olhos “claros”, enquanto Pereira da Costa o apresentava
como mameluco e Sílvio Romero, como mestiço127; Zé Baiano era negro;
Jesuíno Brilhante, ruivo, de pele muito clara, mosqueada de sardas e olhos
azuis; Oliveira, do grupo de Lampião, também tinha cabelos vermelhos;
Antônio Silvino, branco, de feições ibéricas; Corisco e Virgínio eram loiros;
Português, “moreno claro”; Gitirana, “moreno escuro”; e Gavião, caboclo.

Nesse ambiente de intensa mestiçagem, contudo, no qual muitos


bandoleiros eram caboclos ou cafuzos, o preconceito contra homens de cor
ainda assim existia. Isso porque o racismo já estava extremamente arraigado
no Sertão nordestino, e perpassava todas as classes sociais.

O escritor Rodolfo Teófilo descreve dessa forma os Calangros, afamados


bandidos potiguares:

Os Calangros formavam uma grande família de mestiços, vulgarmente


chamados cabras, no norte do Brasil, produto do cruzamento do índio e
do africano, e inferior aos elementos de que é formada. O cabra é pior do
que o caboclo e do que o negro. É geralmente um indivíduo forte, de
maus instintos, petulante, sanguinário, muito diferente do mulato por lhe
faltarem as maneiras e inteligência deste. E, tão conhecida é a índole
perversa do cabra que o povo diz: não há doce ruim, nem cabra bom.
128

Os “cabras”, de fato, eram considerados por muitos sertanejos “gente


ruim”. O adagiário dos cabras, compilado por Câmara Cascudo, inclui
expressões como “cabra quando não furta é porque esqueceu”; “cabra valente
não tem semente”; “cabra só tem de gente os olhos e o jeito de andar”; “cabra
só é honesto quando está acanhado”; “o negro vem de Caim e o cabra de
Judas”; e “valentia de cabra é matar aleijado” 121. Há quem chegue a dizer
até mesmo que os cangaceiros consideravam os “sararás” tipos perigosos‘30

Mesmo que muitos de seus comparsas, como Azulão, Bom de Veras,


Casca-Grossa, Meia-Noite, Roxinho, Vicente (esse do grupo de Sinhô
Pereira), Coqueiro, Colchete, José Baiano e Mariano, entre outros, fossem
negros, Lampião em muitas oportunidades demonstrou vários traços de
racismo. Eis aqui um diálogo interessante e um tanto surrealista, entre
Sebastião Pereira, Antônio Ferreira e Lampião:

-Compadre Virgulino - perguntou Sebastião -, tu não é preto?

Antônio interfere:

-Não, ele não é preto: é moreno, cor de canela.

E o “governador do sertão”:

-Sai-te Antônio. Tira lá essa “cor de canela” que eu não sou mulhé.

Sinhô Pereira completa:

-É mesmo. Esse negócio de “cor de canela” não é pra’ homem; ele é


moreno lusco fusco.131

Houve outros casos. Após invadir Queimadas, em dezembro de 1929, o


“homem” foi atrás das autoridades judiciais da cidade: o juiz Manoel Hilário
do Nascimento, o tabelião José Francisco do Nascimento e o oficial de justiça
Alvarino. Assim narra Oleone Coelho Fontes:

Todos os que ali se achavam em bate-papo inconseqüente são


imediatamente considerados presos. Ao notar que o juiz, o oficial de
justiça e o tabelião eram negros, Lampião diz:

-Que terra desgraçada! Toda a justiça é negra!

Dirigindo-se com sarcasmo para o Dr. Manoel Hilário, indaga:

-Então, vosmicê é mesmo doutor?

-Sou, sim senhor - respondeu o juiz -, sou bacharel…

Lampião tinha o espírito particularmente chicanador naquele domingo.


Pede ao juiz:

-Deixe eu ver suas mãos.

Como as palmas das mãos não exibissem calos, o bandido exclama:

-Que negro bom para uma enxada!


Depois de praticar estas e outras humilhações, Lampião,
estrategicamente, deixa uma guarda tomando conta do juiz e de seus
amigos prisioneiros e segue para assaltar o quartel. 132

O “rei” dos cangaceiros estava nervoso naquele dia. Prendeu um sargento e


mandou que ele convocasse outros policiais para a cadeia da cidade. Ao
chegarem ao local, foram encarcerados. Pouco depois, mandou Luís Pedro e
Zé Baiano abrirem as portas das celas, obrigando os oito soldados a saírem de
lá. E enquanto corriam, tentando se salvar, eram espancados e assassinados a
tiros pelos bandidos. Ninguém entendia o motivo de tamanha crueldade. De
acordo com o cangaceiro Volta-Seca, Lampião teria dito: “Matei todos os
macacos por causa de um deles, um negro sem-vergonha. Negro nunca foi
gente! Negro é a imagem do diabo! Me disse umas grosserias e mandei matar
a macacada toda‘133.

São muitos os exemplos de manifestações de preconceito vindas de


Lampião. Costumava chamar ao inimigo Tibúrcio de “nego fio de uma
puta”134. Quando Virgulino acertou um tiro no rival, disse: “Perdeste a fama,
negro Tibúrcio, você hoje está em frente ao seu superior135, Lampião‘136
Aparentemente, Tibúrcio teria dito ao “rei” dos cangaceiros, em seus últimos
momentos de vida, que ele estava matando um “negro”, mas que ele
terminava seus dias como um “homem” 117.

Depois de pernoitarem na fazenda Borda da Mata, do “coronel” Antônio


Caixeiro e de sua esposa Balbina (Dona Branca), no município de Canhoba,
Sergipe, Virgulino e seus homens partiram pela manhã, deixando notas de 20
mil-réis entre as mãos das estatuetas dos santos católicos, no oratório da casa.
Como oferta para São Benedito, contudo, só foi deixada uma cédula suja e
amassada de apenas 5 mil-réis. Alguns meses mais tarde, quando Lampião
retornou ao local, a anfitriã perguntou o motivo daquele gesto de tanto
desdém com o mártir cristão. E Lampião disse, simplesmente, um tanto
quanto surpreendido, que nunca ouvira falar que um negro pudesse ser
santo138!
Entre os 49 bandoleiros que acompanharam Lampião em Juazeiro, para que
se tornasse “capitão” de um Batalhão Patriótico, apenas três eram
“classificados” como negros139. Por outro lado, havia muitos negros no
bando de Antônio Silvino, tanto nos subgrupos como no grupo principal 140.

Quando brigava com Virgulino, Maria Bonita, costumava chamá-lo de


“nêgo canela de viado”, “cego veio da gota’ e “nêgo veio”. As referências às
características físicas e à cor, portanto, eram feitas com o intuito de agredir
verbalmente. Para ela, “acusar” Lampião de negro seria uma maneira
explícita de ofensa,141 ainda que alguns possam tomar essas expressões
como uma forma “carinhosa’ de tratamento, mostrando a intimidade do casal.

Corisco também, de acordo com alguns relatos, teria “aversão” aos negros.
Isso porque, quando jovem, teria sido agredido verbalmente por dois soldados
negros, bastante autoritários, de uma volante, que o chamaram de “coiteiro
desgraçado”, “amarelo” e “cabra sem vergonha”. Por esse motivo, teria
detestado os negros ao longo dos anos 142 Ainda assim, em seu grupo era
possível encontrar negros e mestiços143

É possível dizer que, dentro das fileiras cangaceiras, os negros eram vistos
como iguais e não considerados inferiores, nem pelas lideranças, nem pelas
“bases”. Mas os bandoleiros viam de maneira depreciativa os negros que
estavam fora do cangaço.

Em 1924, quando passava pelo município de São José de Piranhas,


Lampião conseguiu interromper, com dificuldade, Sebastião Preto durante o
estupro de uma menina de 14 anos, que foi deixada jogada no chão, sem
sentidos. O “governador do sertão” ordenou que Sabino e Jararaca matassem
o bandido 144 Em outro epi sódio, um “mulato” que assoviava a Mulher
rendeira (a música “oficial” do bando de Lampião) pelas estradas, foi detido
pelos brigands e obrigado a assoviar aquela canção a noite inteira, até seus
lábios incharem145 E certa vez, Virgulino enviou um bilhete a um sargento
de cor em Pinhão, Sergipe, dizendo: “Não gosto de negro, e além de negro,
macaco” 141.
Se um cangaceiro como Zé Baiano tinha proeminência dentro das hostes
lampiônicas, sendo temido e respeitado por seus companheiros, outros
bandidos negros sentiam-se menos importantes dentro de seus grupos. Dessa
forma Vicente descrevia a si mesmo:

Bastante diferente da forma como outro cangaceiro, também cantador e


poeta, Rio Preto, construiu sua imagem:

Dizem que quando combatia, versejava em alto som, nos intervalos do


tiroteio. Podia levar faca e chumbo, podiam até matá-lo, mas o matariam
como um homem livre: ele não se entregaria149i

De maneira similar, gritava outro cangaceiro negro, Meia-Noite, ao ser


cercado pelas volantes, em agosto de 1924, em demonstração de coragem:
“Sustenta a espingarda na mão, canalha, que o nego Meia-Noite vai furar o
cerco e vai embora”lso Cheio de altivez, cantava em versos como tinha em
alta conta a si mesmo:

Conseguiu escapar do cerco de 96 soldados.


Os irmãos Miguel, parentes de Meia-Noite (considerados pretos com
fisionomia de brancos), por outro lado, ingressaram na polícia152 Foram
muito respeitados como soldados, alguns deles chegando a ser promovidos. O
único dos irmãos a se tornar cangaceiro, Passo Preto, sentia-se mal em lutar
contra os parentes. Depois de ser preso e de cumprir sua pena, foi morar em
Nazaré, onde trabalhou com o capitão Euclides Flor153

Muito tempo antes do período lampiônico, Lucas da Feira era comparado


pela população de Feira de Santana com o próprio demônio. Diversas famílias
daquela cidade começaram a deixar de batizar suas crianças com nome de
Lucas, que se tornou quase equivalente a Satanás, mesmo sabendo que aquele
era o nome de um evangelista!

Esse tipo de descrição é similar àquela feita por Xavier de Oliveira a alguns
bandoleiros que atuaram antes do período lampiônico. Dizia ele de Pedro Pilé
que este tinha o aspecto de um demônio, ou seja, era um “negro alto, forte e
robusto”, com olhos amarelados e com um edema nas pálpebras, nariz chato,
“apragatado”, de asas abertas, com todos os dentes, caninos, falhos e
pequenos, em gengivas grossas, vermelhas e sanguinolentas154 Para esse
pesquisador, Pilé seria o próprio Satã vestido de fraque‘55

Jesuíno Brilhante, o cangaceiro “gentil-homem” do Rio Grande do Norte,


paladino da moral e bons costumes, por seu lado, ao saber que Curió, um
valentão negro, estuprava mulheres casadas quando seus maridos não se
encontravam em casa, resolveu acabar com o marginal. Seu ódio teria
aumentado quando ficou sabendo que Curió só abusava de mulheres brancas.
Isso para ele era algo inadmissível. Jesuíno armou uma cilada e assassinou o
bandido.

E quando José, membro de seu bando (seu ex-escravo, por ele alforriado),
teve interesse sexual por uma retirante muito jovem (possivelmente branca),
que estava sendo cuidada pelos quadrilheiros, Jesuíno decidiu matá-lo com
uma facada. Para ele, a ofensa de José seria imperdoável, já que iria contra
todos os seus preconceitos de casta.
O caso de Jesuíno e seu ex-escravo José é interessante e cabe bem nos
moldes da emulação de comportamento dos senhores rurais. Os escravocratas
tradicionalmente tinham de combinar, ao mesmo tempo, disciplina rígida e
tratamento “humano” aos negros. Em muitas ocasiões, escravos e patrões se
aproximavam e chegavam a criar vínculos afetivos, muitos destes, virtuais.
Afinal, o senhor sempre estava com a razão e deveria, via de regra, ser
obedecido. Caso contrário, a punição poderia ser dura. Criava-se, aí, uma
falsa relação de intimidade, onde uma das partes sempre tinha a palavra final
nas questões. O senhor era aparentemente um “amigo”, mas, na prática,
portava-se como “patrão”. As alforrias, de seu lado, estimulavam o bom
comportamento do cativo, servindo como um “prêmio” ao negro por sua
lealdade e por sua obediência, que deveriam continuar após a libertação156

Na época em que o cangaceiro “gentil-homem” atuou, a proporção de


alforrias era grande. Em 1872, em torno de 74% dos negros e mulatos no
Brasil eram livres157. Só em Pernambuco, entre outubro de 1873 e junho de
1886, ocorreram 6.800 emancipações privadas, uma média de seiscentas por
ano158. E nos primeiros quatro meses e meio antes da Abolição, foram
setecentas delas159. Só para se ter uma ideia, de 1850 a 1888, em torno de 21
mil escravos daquela província receberam alforrias. Mas 40% delas
implicavam “obrigações” da parte dos libertos, como, por exemplo, continuar
prestando serviços nos dois ou três anos seguintes à alforria ou pagar ao
antigo “dono” o equivalente a seu suposto valor de mercado 16o Por isso, não
é de estranhar que Jesuíno tenha alforriado José, mesmo sem exigir que este o
seguisse em sua vida de fora da lei. Jesuíno deu a José a opção de partir e ou
de acompanhá-lo, e o negro preferiu continuar com ele. Uma decisão
compreensível. De qualquer forma, a lei brasileira da época permitia que a
alforria fosse revogada em caso de ingratidão. Se um negro alforriado
insultasse seu antigo “dono”, poderia se tornar escravo novamente 161.

No caso de Brilhante, contudo, isso não seria necessário. No sertão,


disputas envolvendo a honra e desrespeito se resolviam com o assassinato do
rival. Mesmo tendo sido seu fiel amigo, Jesuíno não hesitou em matar José.
Ele era, possivelmente, movido mais por sua “ética’ do que por um verdadeiro
senso de justiça. Se ele era o patrão, o líder, o chefe do bando, tinha de ser
respeitado. Por isso, é muito provável que achasse que estava agindo de forma
correta naquela situação.

Se havia racismo no cangaço, ainda que fosse direcionado prioritariamente


para aqueles fora de suas fileiras, caso similar ocorria com as volantes. Só
que, nesse caso, o preconceito, ao que consta, era mais explícito, inclusive
entre os próprios comandantes e soldados. Um exemplo interessante é o
depoimento de um ex-policial, o Negro Velho da Cruz, entrevistado pelo
pesquisador José Vieira Camelo Filho. De acordo com ele:

Com relação aos chefes das volantes e seus comandados, tinham a cor
branca; só alguns soldados eram quase pretos ou pretos mesmo (negro,
como dizem os letrados); todos eles eram racistas; melhor falando, eles
eram contra os negros.162

A questão racial chegava também na interpretação dos traços psicológicos e


de personalidade dos cangaceiros, com a análise lombrosiana - há muito
tempo completamente em desuso - de supostos caracteres de degenerescência,
para explicar os motivos de surgimento e atuação de indivíduos com uma
suposta propensão às atividades ilícitas e que atuaram na marginalidade.
Teoria, aliás, muito disseminada no começo do século XX, tanto entre a
comunidade “científica” como entre a população em geral.

Uma das chamadas do jornal O Mossoroense, de 19 de junho de 1927,


apenas alguns dias depois do famoso ataque a Mossoró, anunciava: “A
heroica defesa da cidade! É preso o bandido Colchete e gravemente ferido o
lombrosiano Jararaca” 163! Mas, para Lauro da Escócia, filho do dono
daquele periódico na época, Jararaca não se enquadraria nos moldes propostos
pelo criminalista italiano. Afinal de contas, ele seria um “sujeito simpático”
1”~.
A imprensa nunca se cansou de atacar os aspectos “físicos” dos brigands,
como se sua aparência tivesse de corresponder exatamente ao estereótipo do
marginal. Num período anterior, o jornal A União, da Paraíba, que insistia em
descrever Antônio Silvino como “lombrosiano”, mostrou, por fim, uma foto
do cangaceiro, logo após ele ser capturado, em 1914, que desmentia tudo o
que havia sido dito sobre ele. Silvino, ao contrário do que falavam, era alto,
forte e com aparência de um cidadão respeitável”’: ele não possuía nenhuma
característica lombrosiana.

O antropólogo Artur Ramos, por seu lado, tinha uma opinião “favorável”
sobre Volta-Seca, o jovem cangaceiro do bando de Virgulino Ferreira,
capturado em 1932. Numa entrevista ao diário A Tarde, de 23 de março de
1932, Ramos - que aparece, na mesma página, numa foto em que “media”,
com compasso de broca, a cabeça do bandoleiro - dizia ao repórter,
categoricamente: “Nenhuma das clássicas anomalias lombrosianas - cabeça
disforme, face prognata; malares salientes; sobrecenho carregado; olhar
“duro” e mau; orelhas malformadas”166 Continuava:

Franzino, imberbe ainda, em pleno desenvolvimento, parece tender para


o tipo leptossomático, do grupo étnico braquicéfalo; nenhuma anomalia,
nenhum estigma antropológico de degenerescência; sistema muscular
pouco desenvolvido; tem a cor brônzea-escura do caboclo sertanejo; não
é tatuado. O seu corpo está crivado de cicatrizes de sucessivos
ferimentos por arma de fogo e arma branca; cabelos encaracolados,
castanhos, curtos; boa conformação corpórea; não parece haver
desendocrinia apreciável; em suma, construção leptossomática,
braquicéfalo, leptoprosepe, mesonino; é o menino aparentemente
ingênuo dos sertões; fala arrastada, com precisão: isoladamente é o
caboclo humilde, o adolescente inofensivo; socialmente é o membro
terrível de uma coletividade anormal.167

O interessante nessa observação é que, mesmo não “classificando” o


salteador como “lombrosiano”, as medidas de sua cabeça foram tiradas, com
o propósito de se encontrar “cientificamente”, um motivo biológico e
biométrico que comprovasse sua afinidade com o mundo do crime.

Até mesmo um “sociólogo” como Rodrigues de Carvalho chegou a dizer,


sobre os cangaceiros, que “somos os primeiros a reconhecer a existência entre
eles de muitos membros da família ou da fauna de Lombroso”168. Ele ainda
insistia:

Porque a despeito do descrédito a que relegaram a teoria de Lombroso,


nós não a desprezamos de todo. Acreditamos na existência do criminoso
nato. Pensamos com Gastão Pereira da Silva - mesmo que os estigmas
ou formação craniana dados por César Lombroso como indícios
reveladores de degenerescência inata nada provem, não quer dizer que
não exista criminoso nato. As taras são anímicas ou psíquicas e não
somáticas. Daí o fracasso dos autores de teorias puramente materialistas,
como o veneziano e o seu colega tedesco com a sua frenologia. O fato de
o pescador ir ao mar munido de anzol, tarrafa, rede e outros apetrechos e
não trazer peixe não quer dizer que no mar não tenha peixe.169

Em relação ao cangaceiro Volta-Seca, esse dileto “sociólogo” diria:

A sua passagem pela quadrilha de Lampião serviu apenas para revelar as


suas taras de anormal; de filho legítimo do velho Lombroso. A ciência
materialista nega, hoje, a existência do criminoso nato, mas isso fica por
conta dela. Nós espíritas sabemos que ele existe. A história ou a frase
feita de que “toda criança nasce boa” é para nós apenas uma frase bonita,
porém vazia de sentido. Porque felizmente começamos a entender a
inelutável evolução do espírito.170

Esse mesmo Rodrigues de Carvalho denominaria, em outra ocasião, o


bandoleiro Zé Baiano de “o gorila de Chorrochó”. Esse estudioso chegou a
dizer que se o bandido estivesse nu e preso com uma corrente pela cintura,
poderia ser negociado por qualquer sujeito esperto, já que “enganaria
qualquer dono de circo” ou “diretor de jardim zoológico” por causa de sua
aparência de antropoide171! Para ele, Zé Baiano seria um “hediondo crioulo”,
um “inqualificável monstro”, um “carrasco sem entranhas”, um “estuprador
abjeto”, dotado de “força física de orangotango” e com mãos enormes, com
dedos alongados como tentáculos. O autor chegava a pedir desculpa aos
símios, já que seria, de acordo com ele, uma ofensa aos chimpanzés e gorilas
ser comparados ao cangaceiro 172.

E o folclorista cearense Gustavo Barroso também achava que os criminosos


natos eram “vítimas da degenerescência da raça e das anomalias mórbidas,
que o meio transformou em forças agressivas e energias perigosas”173.
Assim, encontrar-se-iam nessa categoria os “mestiços”, produtos de “ínfimo
cruzamento”, apresentando todas as deformações físicas descritas por
Lombroso. Na interpretação dos que defendiam essa teoria, a mistura do
homem branco, supostamente “superior”, com índios e negros, considerados
por esses “estudiosos” como “inferiores”, produziria a grande massa de
sicários. Para ele,

a sociedade sertaneja é o resultado da ruína de três raças, cada qual com


diversa natureza moral e física, com expansões diferentes e
manifestações contrárias. Elas se derruíram no caldeamento da
mestiçagem baralhada. Aniquilaram-se quase desdobradas em produtos
híbridos e, como os mestiços não se fixam, largo tempo continuarão a
misturar os sangues até que se destruam ou regressem, pela adesão
constante de um dos tipos iniciais, aos estalões de onde vieram.174

Ele chegava a dizer que

o estado intelectual do sertanejo é tão primitivo que ele não pode sentir
todas as sensações que sentimos. […] A sua vida meio selvagem
somente desenvolve certas sensibilidades, o que é peculiar aos povos
primitivos.175

Para ele, afinal de contas, “as faculdades espirituais do sertanejo são


incompletas e rudimentares. É a dolorosa verdade” 171. Se, para Barroso, o
índio era a principal influência no modo de agir do cangaceiro, o negro, com
uma participação menor, também tinha suas características. Esse “estudioso”
afirmava que “do negro veio a ignorância, e o espírito selvagem, resistente,
que animou os quilombos de escravos fugidos, homiziados em alfurjas
inacessíveis nas serras mais desertas”177.

Mas Barroso, em sua análise pouco sofisticada, vai mais longe,


classificando outros tipos de bandido. Os “criminosos loucos” seriam
“assassinos errantes, possuídos pela mania deambulatória ou a paixão
cinegética, exercendo-a contra as crianças, sobretudo” 178. Esses marginais
poderiam praticar “generosidades cavalheirescas” e ao mesmo tempo “ações
daomeanas”179. Já a maioria dos bandidos agiria por “hábito adquirido”:
matariam por raiva, por crueldade ou por ordens de terceiros. Eles seriam “a
ralé, a massa, a arraia-miúda do cangaço”180. Mesmo assim, os criminosos
“por paixão” representariam uma grande proporção dos bandidos, tanto
aqueles impregnados por devaneios amorosos e os facilmente irritáveis, como
os vingadores da honra ofendida ou os que lutam pela justiça”’. E, por fim, os
criminosos de ocasião.

Para Barroso, a causa principal do cangacerismo podia ser encontrada na


“energia bárbara’ do sertanejo, que, ao não saber como dar vazão a esse
sentimento, acabava por se tornar um criminoso182.

O membro da Academia Brasileira de Letras e ideólogo da Ação


Integralista Brasileira (AIB), contudo, não estava sozinho. Raimundo Nina
Rodrigues chegou a dizer que a “criminalidade do mestiço brasileiro [está]
ligada às más condições antropológicas da mestiçagem no Brasil””’. Ao
analisar o crânio de Lucas da Feira, Nina Rodrigues se surpreendeu ao
constatar que aquele seria “muito superior ao crânio dos negros”, já que,
supostamente, não apresentaria nenhuma anomalia lombrosiana perceptível”’.
Os caracteres e as medidas daquele crânio, ao que parece, seriam “excelentes”
e “iguais” aos de crânios “superiores”, ou seja, da raça “branca”85. Ele se
indagava se o motivo para tantas “qualidades” do formato da cabeça não seria
pelo fato de Lucas ser um mestiço, e portanto, de ter assimilado
características dos brancos. Afinal de contas, para ele, a raça negra era
inferior, e não havia como “contestar a própria evidência”186. Nina
Rodrigues, assim, considera que o desejo de transformar o negro e de lhe dar
igualdade política e civil seriam utopias e “divagações sentimentais” 187.

Ele afirmava:

É um fato de observação perfeitamente conhecido. Lombroso já tinha


feito notar que a associação torna os criminosos piores, dando-lhes uma
atrocidade que repugnaria à maior parte dos indivíduos tomados
individualmente.`

E completava: “Este fato, enxertado sobre a tendência sanguinária dos


negros, ajuda a compreender a amplificação das qualidades criminais de
Lucas”189. Para Nina Rodrigues, os mestiços comuns eram

produtos socialmente aproveitáveis, superiores às raças selvagens de que


provieram, mas que, já pelas qualidades herdadas dessas raças, já pelo
desequilíbrio mental que nelas operou o cruzamento, não são
equiparáveis às raças superiores e achamse em iminência constante de
cometer ações anti-sociais de que não podem ser plenamente
responsáveis.l90

O jornalista Carlos Dias Fernandes, do jornal de Recife, depois de se


entrevistar com Antônio Silvino na prisão, assim o descreve:

A face mal conformada, de zigomas salientes, com um leve desvio nasal


para a direita, muito curta entre a boca e as arcadas orbitais, d’olhos
pequenos muito afastados, morosos, com um leve estrabismo
convergente, parece apertar-se entre as orelhas leporinas, chanfradas
para a frente, a abundância dos cabelos occipitais e a fronte estreita e
lisa, que denunciam um cérebro apenas movido pelos atos da vida de
relação. Nem uma só ruga vertical, horizontal, sinuosa ou obliqua se
cava naquela pobre testa de monstro regressivo, cuja ferocidade é natural
e instintiva como a das bestas selvagens. Antônio Silvino é um covarde e
um analgésico, de mãos femininas e moles, com dedos frágeis,
desviados obliquamente e para fora, acusando-lhe, talvez, as inclinações
rapaces de manhoso e disfarçado ladrão. Mal conformado e membrudo
como um orango, afunda-se-lhe o tórax entre os sungados ombros, de
onde se dependuram braços moles, que se nunca enrijaram nas fainas
nobres do trabalho.191

Concluía: “Há no conjunto da sua máscara antipática certa expressão


aventalhada, que resulta da desarmonia fisionômica dos órgãos
respectivos””’.

Uma conclusão bastante diferente daquela tirada por Abelardo Parreira, que
afirmava que, fisicamente, Silvino não tinha nada de anormal: tinha estatura
mediana, ótima saúde, quase gago e gordo193. Muito distinta também de uma
descrição feita pelo jornal Pequeno, anos antes, ainda que os comentários
sobre os seus asseclas não fossem tão favoráveis:

O senhor de Engenho entra em casa, senta-se em uma cadeira, junto a


sua Secretária e dispõe-se a tomar algumas notas, quando batem à porta.
Volta-se, e vê três homens armados de rifles, dizendo o mais moço deles:

-Nada receie, patrão; eu sou Antônio Silvino!

Era com efeito Antônio Silvino, aquele sertanejo moço, alvo, simpático,
de olhar penetrante, trazendo chapéu de couro, calça e blusa de algodão,
lenço encarnado ao pescoço; cartucheira, punhal e pistola à cinta, além
de rifle. Os seus companheiros eram “Cocada”, um mestiço, e “Rio
Preto”, um negro mal-encarado e taciturno.‘94

Finalmente, de acordo com o Dr. Lages Filho, diretor do Serviço Médico


Legal de Alagoas (após analisar, também “cientificamente”, a cabeça
decepada de Virgulino Ferreira), Lampião seria classificado como um
“brasiliano xanthodermo”, ou seja, um caboclo, um “tipo perfeito do sertanejo
nordestino”, com alguns traços de degenerescência que poderiam explicar
suas atividades bandoleiras. Nas palavras de Lages:

Infelizmente o estado em que a cabeça chegou à morgue não permite um


estudo acurado e minucioso à luz da antropometria criminal e da
anatomia, pois atingida por um projétil de arma de fogo que atravessou o
crânio saindo na região occipital, fraturando o mandibular, o frontal, o
parietal direito, o temporal direito e os ossos da base que ficaram
reduzidos a múltiplos fragmentos. Todavia, podemos traçarlhe o perfil
antropológico: Pele pardo-amarelada, podendo-se classificá-lo como
pertencente ao grupo dos “brasilianos xanthodermos”, da classificação
de Roquette Pinto: testa fugidia, cabelos negros, longos e arrumados em
trança pendente; barba e bigode por fazer, de pelos lisos negros e falhos.
Dolicocéfalo, contrastando com os outros indivíduos do seu grupo
étnico, em geral braquicéfalos. O perímetro cefálico é igual a 57
milímetros. Diâmetro transversal máximo atinge a 150 milímetros.
Índice cefálico 75. Sua face é de tamanho relativamente reduzido,
impressionando à primeira observação as dimensões do mandibular
pequeno e com os ramos horizontais a formar um ângulo reto, no
encontro dos ramos ascendentes, correspondentes. Assim, é o
comprimento total do rosto de 170 milímetros, o comprimento total da
face de 130 milímetros, o comprimento simples da face de 85
milímetros, o diâmetro do gigomático ou transverso máximo da face, de
160 milímetros, índice facial da boca 53, 12. Nariz reto, de ápice grosso
e rombo, guardando ao dorso a impressão dos óculos, com altura
máxima de 50 milímetros e largura máxima de 37 milímetros. O índice
nasal transverso 64 milímetros, uma mesorrínea franca, lábios finos.
Largura da boca 57 milímetros. Abóbada palatina ogival, dentes
pequenos podendo-se enquadrá-los no grupo dos microdontias; orelhas
assimétricas, havendo desigualdade manifesta no desenvolvimento das
partes similares (orelha de Blainville). O comprimento da orelha direita
alcança sessenta e cinco milímetros. A largura da orelha direita é de 40
milímetros. Comprimento da orelha esquerda 53 milímetros.
Completava:

A largura da orelha esquerda é de 40 milímetros. Índice auricular de


Topinard, tendo-se em conta as dimensões da orelha direita de 65
milímetros. Na face há visível, na região masseterina direita, uma
pigmentação escura arredondada, medindo 3 milímetros de diâmetro, em
nevus congênito. O olho direito apresenta uma lecoma, atingindo toda a
córnea. Em resumo; embora presentes alguns estigmas físicos na cabeça
de Lampeão, não surpreendi um paralelismo rigoroso entre os caracteres
de degenerescência, revelados pela mesma figura moral do bandido.
Assim, apenas verifiquei como índices físicos de degenerescência as
anomalias das orelhas, denunciadas por uma assimetria chocante, a
abóbada palatina ogival e a microdontia191 Faltam as deformações
cranianas, o prognatismo das maxilas e outros sinais aos quais Lombroso
tanta importância emprestava para a caracterização do criminoso nato.
Todavia, nem por isso os dados anatômicos e antropométricos
assinalados perdem a sua valia196 pelas sugestões que oferecem na
apreciação da natureza deliqüencial de Lampeão.197

As cabeças de Lampião, de Maria Bonita e dos outros cangaceiros


supostamente foram “estudadas” cientificamente e guardadas por anosl9s.

Isso tudo estava dentro das normas vigentes não só no meio “acadêmico” e
“científico”, como também no sistema jurídico e policial. Quando o Serviço
de Identificação de Pernambuco foi criado, em 18 de janeiro de 1895, pelo
presidente do Estado Alexandre José Barbosa, foi fundamentado a partir do
sistema antropométrico. Sua função seria identificar os “elementos” enviados
para a Casa de Detenção, identificação dos soldados incorporados ao corpo
policial e identificação de cidadãos que solicitassem passaportes para fora do
estado‘99.

A sugestão de uma erupção do cangaceirismo causado por “crises” também
nos parece insatisfatória, ainda que tenham ocorrido crises intermitentes
durante todo o período do cangaço, tanto no Nordeste como no Brasil em
geral. Essa, contudo, é aparentemente a interpretação de alguns
pesquisadores, quando afirmam que a partir da segunda metade do século
XIX ocorreu uma crise crônica na região, primeiro na produção de açúcar, e,
em seguida, na de algodão, havendo, na época, não só um empobrecimento
das elites agrárias como também, paralelamente, o crescimento demográfico
da população mais pobre, que no início do século XX até 1935, em especial
com o fim do boom da borracha na Amazônia, e sem maiores possibilidades
de emprego na região, teria como uma de suas principais alternativas
econômicas a entrada para o cangaço’. Isso nos dá a impressão de ser uma
tentativa clássica de se colocar de maneira forçada a realidade objetiva dentro
de um sistema teórico já pronto. O fato é que, na prática, há material
abundante para contradizer essa teoria. Só para ilustrar, é possível citar aqui
as cidades de Canhotinho, Garanhuns e Pesqueira.

Canhotinho começara a prosperar exatamente a partir de 1885, ou seja,


justamente na época da crise mencionada acima, após a chegada da ferrovia
Sul de Pernambuco. As terras naquela região eram controladas por poucos
“coronéis” locais e produziam feijão, milho, mandioca, rapadura, leite, queijo
e manteiga, que eram consumidos pelo povo da região. Com a estrada de ferro
passando ali, a economia local deu, de fato, um salto. A partir daí o município
começou a produzir, junto com a cultura do algodão, que já era destinado ao
mercado externo, também o tabaco e a cana-de-açúcar para exportação.
Foram construídos em pouco tempo 47 engenhos nos arredores da cidade, a
minoria produzindo rapadura e a grande maioria, açúcar mascavo, que era
enviado ao Recife para ser beneficiado. Canhotinho chegou até mesmo a ser
uma importante localidade exportadora de orquídeas selvagens para os
Estados Unidos. Para David Gueiros, aquele foi o começo de um período de
vários anos de prosperidade’. A partir de 1897, com a chegada de
missionários presbiterianos estrangeiros, a cidade se tornou também uma
referência em saúde e educação na região, com a construção do único hospital
em toda aquela área, frequentado por pacientes provenientes de vários estados
nordestinos’, assim como de uma escola, que, mesmo religiosa, era
considerada muito avançada para os padrões da época. Havia ainda um
projeto de se erigir um Instituto Industrial, a partir de 1920, que seria
administrado também por protestantes norte-americanos, o que, não obstante,
não se concretizou. Ainda assim, com toda a “modernização” econômica, a
cidade continuou sendo seriamente assolada pelo fenômeno do banditismo.

Garanhuns, no Agreste meridional de Pernambuco, também se beneficiara


com a mesma ferrovia. Desde o final do século XIX, tornara-se um
importante produtor de gado, cereais, algodão e café de tipo arábico. O
mesmo David Gueiros afirma que em 1911, época considerada de
prosperidade, a renda do município chegara a atingir 18.900$000, o que
permitiu inclusive que a iluminação pública tivesse trocados seus obsoletos
candeeiros de querosene por lampiões de carbureto e, mais tarde, por
lâmpadas a álcool. Em 1916 - portanto cinco anos mais tarde -, as rendas da
prefeitura atingiam quase a cifra de 49.000$000, uma quantia certamente
considerável. Foi nesse ano que chegou o primeiro automóvel àquela cidade4.
Apesar da abundância de dinheiro nos cofres públicos e de toda a
prosperidade do município - ou seja, o oposto de uma situação de crise
econômica -, a concentração de terras nas mãos dos latifundiários aumentava
e as disputas políticas se tornavam cada vez mais violentas. Garanhuns
chegava a ser classificada por alguns como uma terra “selvagem”. Nesse caso,
a atuação de jagunços e cangaceiros foi explícita e cada vez mais intensa,
culminando, em 1917, com o episódio conhecido como a “Hecatombe”,
quando um grande número de cangaceiros entrou naquela localidade e
massacrou diversos cidadãos.
A cidade de Pesqueira também serve como ilustração. A partir de meados
da década de 1830, essa localidade se tornou, de acordo com certos autores, a
nova “porta de civilização” e “polo de desenvolvimento” do sertão’. Entre
1890 e 1910, foram construídas sete fábricas de doce, uma de óleos, uma de
leite condensado, algumas de fogos de artifício, de estatuetas religiosas e de
formas de calçados, assim como funilarias, oficinas de curtume de peles, duas
sapatarias e três padarias. A cidade, cercada de grandes fazendas de gado, se
transformou não apenas num importante entreposto comercial (que produzia e
exportava uma diversidade de itens para Caruaru, para o alto sertão
pernambucano, para o Araripe, para o Cariri paraibano e cearense, chegando
até o Piauí e o norte baiano), como se consolidou como um centro cultural da
região, já que possuía imprensa e editora próprias, um teatro, duas bandas
musicais, uma orquestra e escolas, tanto públicas como particulares7.

Em relação ao algodão, as informações de certos pesquisadores também


nos parecem imprecisas. De fato, a demanda internacional pelo algodão, no
século XIX, possibilitou que surgisse, ao lado do já consolidado sistema
pecuário associado à produção de cereais, a cotonicultura de grande escala no
Sertão e Agreste nordestinos, para o mercado de exportação. Essa nova
variável tornou necessária a ampliação da criação de todo tipo de equinos,
principalmente para abastecer as tropas que transportavam o produto para o
litoral. A semente, por sua vez, era usada para completar a alimentação do
gado8. O algodão, como se sabe, se adapta muito bem às condições
climatológicas do Agreste e do Sertão, não sendo afetado pelas agruras da
seca.

A cotonicultura, que exigia maior número de trabalhadores que a pecuária,


também favoreceu o adensamento populacional no Sertão e Agreste, com a
chegada de significativa quantidade de migrantes vindos das regiões
litorâneas, que se fixavam nas áreas próximas onde se encontravam as
bolandeiras9, seja para servir de mão de obra, seja para a compra e venda do
produto. Diversos povoados apareceram nas beiras das estradas do sertão e
nas serras, onde o clima era mais favorável para viver e produzir aquele
item10

É sabido que após o início da Guerra de Secessão dos Estados Unidos,


houve um aumento significativo da demanda do mercado inglês pelo algodão
brasileiro, a chamada Cotton Hunger, o que levou as exportações do produto,
entre 1867 e 1873, a superarem a cifra de 100 milhões de libras esterlinas”. A
importância do algodão naquele período foi tão grande que só no Rio Grande
do Norte o produto se tornou o elemento econômico mais importante da
província. Também se sabe que com o fim da guerra civil norte-americana, a
Europa voltou a ser abastecida, prioritariamente, pelos Estados Unidos, que
produziam um algodão de qualidade superior. Com isso, a partir de 1872,
houve uma drástica diminuição nas exportações do Brasil, o que decerto
gerou uma crise econômica. Enquanto no biênio 1873 e 1874 o país vendia ao
exterior 56.228 toneladas métricas de algodão bruto, em 1884 (ou seja, num
interregno de apenas dez anos) o volume exportado registrado só chegava a
24.305 toneladas métricas’. Firmas comerciais foram fechadas e governos
estaduais tiveram que pedir empréstimos ao Banco do Brasil para cobrir
déficits orçamentários. Mas, paralelamente a esse fato, ainda que no campo
internacional a situação fosse desfavorável às exportações do Brasil, no
âmbito interno houve um sensível aumento da demanda pelo algodão nacional
nas fábricas de tecido, em especial no Sul do país. O parque industrial
ampliou o consumo do produto em mais de 300% entre 1872 e 1893,
enquanto a produção do algodão em rama cresceu somente 61%, mostrando
que as exigências do mercado doméstico eram muito maiores do que se
poderia crer13. Enquanto em 1885 havia apenas 48 indústrias têxteis no
Brasil, em 1905, já existiam 110 fábricas desse tipo14. Entre 1905 e 1921, o
número de fábricas subiu de 110 para 242; o número de fusos, de 34.928 para
1.521.300; e o número de trabalhadores, de 39.159 para 108.690 operários15.
Por causa disso, os agricultores nordestinos começaram, novamente, a dar
maior atenção à cotonicultura.
A Primeira Guerra Mundial também contribuirá para o desenvolvimento do
setor têxtil do Brasil. Quando termina o conflito, a indústria nacional já
fornecia em torno de 75% a 85% dos tecidos de algodão para o mercado
interno. Os lucros com o “ouro branco”, naquela ocasião, ajudaram a aquecer
a economia de diversos municípios nordestinos. Para se ter uma ideia, em
1886 o Tesouro da província do Rio Grande do Norte havia arrecadado
72.413$000 em impostos sobre a importação de algodão, mas em 1905, a
arrecadação já havia chegado a 106.906$010, o que mostra um enorme
aumento na produção’. Isso tudo fez com que depois de 1920, o Brasil se
tornasse praticamente autossuficiente nesse item, só importando os produtos
estrangeiros de melhor qualidade. Essa “euforia’ iria durar até o final daquela
década.

No Rio Grande do Norte, após a dizimação de 70% do rebanho bovino,


durante a seca de 1915, o algodão, que já havia se consolidado como uma
cultura fundamental no estado, ganharia ainda mais força entre os pequenos e
grandes proprietários rurais (já que não exigia elevados investimentos de
capitais e possuindo mão de obra disponível), alcançando altos índices de
produtividade no começo do século XX e tornando-se a maior fonte de renda
do estado17. A economia potiguar, no período, baseada principalmente na
cotonicultura, e em menor escala, na produção salineira, teria uma
participação fundamental na recuperação da economia nordestina como um
todo18. É bom recordar que Jesuíno Brilhante, que atuou na década de 1870,
foi o único líder cangaceiro emblemático proveniente do Rio Grande do
Norte. Nos anos de intensificação da produção e exportação de algodão,
entretanto, não surgiu nenhum bandoleiro com o mesmo relevo naquele
estado.

Como se pode perceber, no período do auge do cangaço a produção de


algodão em diversas áreas do Sertão e Agreste nordestinos estava
aumentando, assim como a necessidade de mão de obra agrícola, já que com a
demanda, houve também apoio federal, investimentos em ferrovias,
navegação de cabotagem, armazéns de recolhimento, privilégios e incentivos
às firmas que construíssem estradas de ferro no interior, e às empresas,
nacionais e estrangeiras, que produzissem o algodão’. Com uma maior
produção, também havia mais dinheiro e oportunidades de emprego naquela
região, uma situação que, logicamente, não empurraria as pessoas para o
banditismo. Pelo contrário. Nesse cenário, haveria maiores e melhores
condições de trabalho20. Se há relação do cangaço com o algodão, ela está
nos vários casos de incêndio e destruição de máquinas de descaroçar algodão
praticados por Lampião e outros bandoleiros21.

É verdade que nesse caso, muitos “coronéis” se apropriavam de terras


vizinhas, propriedades de pequenos agricultores ou agregados, com o objetivo
de ampliar suas fazendas e aumentar a produção de algodão. Para isso, é
claro, teriam como opção se utilizar de jagunços, volantes ou até mesmo,
quem sabe, do auxílio de cangaceiros. Mas não houve um padrão consistente
de surgimento de grande número de novos cangaceiros por causa de
expulsões daquelas terras, que justificasse um comportamento típico entre a
população sertaneja naquele momento. Em outras palavras, aqueles
produtores marginalizados, em sua maior parte, não se tornaram
necessariamente salteadores após serem expulsos de suas terras. Nem uma
quantidade substantiva de “novos” bandoleiros apareceram para “servir” aos
“coronéis”. Por um lado, esse seria um anacronismo, já que os bandos eram,
em boa medida, independentes. E por outro, isso não ocorreu porque os
fazendeiros poderiam se utilizar (dependendo de sua situação) do serviço de
seus próprios capangas, de militares ou de brigands que já atuavam na época.

Já o argumento sobre o fim do surto da borracha na Amazônia nos parece


demasiadamente farfetched para ser discutido aqui. A conexão entre um
suposto aumento do número de cangaceiros e o corte nos empregos no Norte
se mostra algo fora de propósito…

Mesmo os ciclos das secas não serviriam para explicar em sua totalidade o
cangaceirismo, considerando as condições climáticas adversas como possíveis
responsáveis por uma deterioração na produção, fome, aumento de pobreza e
consequente incremento nas atividades dos bandidos`. As secas nordestinas
são caracterizadas por uma combinação de fatores climáticos, hidrológicos,
pedológicos e geológicos: chuvas predominantemente conectivas e
orográficas, concentradas num único período de três a cinco meses, com
médias que variam de 400 mm a 800 mm, distribuídas de modo irregular;
temperaturas anuais médias em torno de 23° C a 27°C; alto índice de isolação,
com média de 2.800 h/anuais; baixa umidade relativa, ou seja, o equivalente a
50% por ano; alta média de evaporação (2.000 mm/ano); terrenos cristalinos,
impermeáveis, rasos e em geral pedregosos; terrenos sedimentares alterados
por fatores erosivos; e rios que sofrem com as irregularidades dos fatores
pluviométricos e que secam em quase sua totalidade apenas um mês depois
do término das chuvas na região”. No século XX, por exemplo, ocorreram
estiagens importantes e prolongadas em 1900, 1903, 1915, 1916 e 1932, mas
foi no período em que não ocorriam secas que o cangaço se mostrou mais
robusto24

Nas secas, de forma geral, e em especial na de 1877, talvez a mais dura do


século XIX, é sabido que houve um incremento nas pilhagens e saques,
particularmente na região do Cariri. Mas grande parte dos roubos e furtos, em
diferentes períodos de estiagem registrados historicamente, não era praticada
por bandidos “profissionais”, mas por gente comum, ou seja, por sertanejos,
por retirantes e por flagelados2s. Decerto se pode dizer, nestas circunstâncias,
que o banditismo esteve presente, assim como também os casos de
assassinatos26, de prostituição feminina27, de corrupção política e policial,
de doenças (como a varíola, por exemplo), de epidemias, de revoltas urbanas
e de mendicância. Mas esses casos de delitos eram, em grande medida,
episódios circunstanciais, e não equivaliam sempre nem necessariamente ao
cangaço como ficou conhecido.

É claro que se sabe da atuação de vários bandos nessas ocasiões. O número


de quadrilhas e indivíduos envolvidos na marginalidade foi significativo. Mas
muitos destes bandidos não atuavam apenas diretamente influenciados pelas
condições climáticas. Os fatores econômicos, políticos, meteorológicos e
culturais, assim, se combinavam, se mesclavam em última instância, criando
um painel propício para a atuação cangaceira.

Em realidade, o principal efeito da seca sempre foi o êxodo para as cidades


maiores, inclusive para as capitais de província, e não o “cangaceirismo”.
Para se ter uma ideia, a população do Ceará, em 1877, como um todo, foi
reduzida em um terço. Mas a capital inchou. Em 1872, Fortaleza tinha 21 mil
habitantes. Em 1877, contudo, já haviam emigrado para lá mais de 85 mil
pessoas, e um ano mais tarde, passaram a ser 114 mil pessoas a mais na
cidade28. A cidade de Aracati, por sua vez, que tinha uma população de 5 mil
moradores, em 1878 chegou a 60 mil pessoas29.

Como resultado da grande estiagem de 1877, “chusmas de mendigos”


percorriam as ruas em busca de algum tipo de caridade30. Uma carta de um
leitor de O Cearense, daquele ano, dizia que “o povo está em desespero” e
logo as pessoas “começarão a esmolar pelas portas, ou, como último
recurso31, começarão a rapinagem”32. Já um artigo de A Opinião, da
província da Paraíba, de 11 de novembro de 1877, afirmava:

Os sertões estão ficando desertos pela emigração para os brejos,


impelida pela seca, a procura de recursos para manter a própria vida; e
nos brejos surge a miséria pela superabundância de emigrantes que de
tudo precisam, e nada conduzem. E a safra dos gêneros alimentícios é
diminuta para o grande e inesperado aumento da população.33

Em 23 de dezembro, o mesmo periódico dizia que “a seca lança a


consternação no seio de todas as famílias, e os criminosos e desordeiros
roubam o que ainda nos resta, mesmo a honra e a própria vida”34. E
completava: “Em todas as ruas vêem-se cadáveres ambulantes e nus sem
forças para implorarem uma esmola […] Tudo é consternação, miséria e
desespero”35. Esses “mendigos” e “ladrões” do povo, por certo, não eram
cangaceiros.
Falando do Ceará, Rodolfo Teófilo dizia que:

Os comissários, distribuidores de socorros, tinham a ordem de dar ração


ao retirante unicamente no dia da chegada. No dia seguinte, se queria ter
direito a socorro, devia ir à pedreira do Mucuripe, uma légua distante da
capital, carregar pedras! Uma viagem de duas léguas, com um peso de
15 quilogramas, pouco mais ou menos, nos ombros, seria nada para um
organismo são e vigoroso, mas para um enfermo que tinha os membros
tolhidos pelo cansaço de tantos dias de jornada, era bastante para acabar
de extenuá-lo, roubando-lhe depois a vida.36

De abril a dezembro de 1877, em torno de 500 mil flagelados precisavam


do auxílio do governo, que enviou 2.700 contos, o que foi, por certo, uma
quantia insuficiente para resolver a questão37.

A seca de 1877/1879 matou, segundo a estimativa de Elói de Souza, 500


mil pessoas38. Esses são os mesmos números constatados pelo primeiro
dirigente da Ifocs39, o engenheiro Miguel Arrojado Ribeiro Lisboa. No
período entre 1877 e 1907, teria havido um desfalque populacional na região
superior a 2 milhões de habitantes40, enquanto as duras condições climáticas
em 1915 teriam sido responsáveis, de seu lado, por ceifar a vida de 30 mil
cearenses, e de expulsar do estado 42 mil flagelados41

Também houve um aumento significativo nos preços dos alimentos. Em


1878, por exemplo, a farinha de mandioca custava 102$000 o alqueire de 160
litros; o milho, 128$000 o alqueire de 160 litros; o feijão, 192$000 o alqueire;
e o arroz em casca, 7$000 por 15 quilos. Esses víveres eram levados das
capitais para o sertão em comboios ou eram carregados sobre as cabeças de
pessoas. Nesse caso, cada indivíduo recebia, para realizar a dura tarefa de
levar 30 kg de comida (em trajetos que podiam chegar a dezenas
quilômetros), apenas 4$000 aproximadamente42. Para um cronista da época,
“tudo estava depreciado, só o que tinha valor eram os gêneros
alimentícios”43.
A população civil, esfomeada, sem ter dinheiro nem condições de esperar
pela distribuição de comida, acabava saqueando os armazéns de depósitos. O
que se pode dizer é que chefes políticos ou até mesmo cangaceiros podiam
incitar o populacho a tomar posse dos alimentos enviados pelo governo. Isso
demonstra que eram poucos os bandoleiros que se apropriavam e distribuíam
os produtos de forma benevolente, e que muitas vezes o faziam como
demonstração de autoridade ou para conseguir o apoio dos sertanejos`.

A principal opção dos sertanejos, portanto, queremos insistir novamente,


era a emigração, e não o banditismo: de 1869 até o final do século XIX, em
torno de 300.902 pessoas saíram do Ceará, sendo 255.526 para a Amazônia e
mais 45.376 indivíduos para o Sul do país45; e foram em torno de 53.857
retirantes que saíram do Rio Grande do Norte entre 1895 e 1910 para outros
estados, por causa da seca46 (entre maio e agosto de 1898, saíram daquele
estado, em direção à região amazônica, 16 mil flagelados)47.

De qualquer forma, depois de 1890 até a década de 1930, a emigração para


outras regiões do país diminuiu em comparação com o período anterior. Nesse
caso, possivelmente houve movimentações internas, de populações entre os
próprios estados ou no interior de um mesmo estado daquela região, com os
trabalhadores se deslocando de áreas rurais secas para outras que oferecessem
melhores empregos, ou para as capitais48. O Ceará, que sempre apresentou
enorme perda populacional em virtude de migrações, começou a receber mais
gente do que expelir, nesse período. O Maranhão, entre 1900 e 1920, foi o
destino de muitos nordestinos em busca de trabalho. Os estados que
continuaram mandando mais gente para fora do que recebendo, entre 1920 e
1940, de qualquer forma, foram Piauí, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e
Bahia, em geral para o Sul do país49. Em termos gerais, entre 1872 e 1940, as
populações nordestinas foram predominantemente emigrantes 50

A seca de 1915 expulsou milhares de pessoas de seus vilarejos. O trabalho


particular, no sertão, praticamente desapareceu, mesmo que a oferta de mão
de obra fosse alta e a preço muito baixo. Os serviços de assistência
governamental eram deficientes e os salários dos trabalhadores, baixos,
principalmente considerando o alto custo dos alimentos e o atraso no
pagamento dos fornecedores, em especial por causa da enorme burocracia.
Contingentes de sertanejos esfomeados de diferentes estados inchavam as
capitais. Só no Passeio Público de Fortaleza, 3 mil miseráveis se apinhavam,
em péssimas condições. De forma dramática, Tomaz Pompeu Sobrinho narra
aquela cena:

O espetáculo era inédito e atraía muitos curiosos, mas sem dúvida,


sobretudo lamentável. Promiscuidade e imundície aos olhos de milhares
de espectadores e também de exploradores da miséria. O Presidente,
verificando esta situação deplorável, providenciou para que os retirantes
fossem transferidos para um vasto e sombreado sítio no Alagadiço,
situado ao lado norte da rua Bezerra de Menezes, um pouco adiante do
atual “Instituto dos Cegos”.

Desde o dia imediato ao da chegada daquele primeiro trem de famintos,


a cidade se encheu de pedintes, sobretudo de mulheres trazendo ao colo
os filhos pequeninos, e os de ano a dois, sujos, nus ou maltrapilhos, com
os ventres entumecidos, escanchados no quarto; ainda mais sujas e
desgrenhadas, descompostas, com os estigmas da fome e dos maltratos
estampados nas faces macilentas, nos seios murchos e nos braços
descarnados.

Naquele enorme recanto, coberto de grandes cajueiros e mangueiras, os


retirantes se abrigavam como podiam, uns sem mais anteparos que as
copas frondosas, outros em toscas barracas de ramos ou simples guarda-
ventos ou latadas que apenas os protegiam contra o sol canicular do
verão.

A caridade pública individual viu-se explorada até as últimas


possibilidades. Com o recrudescimento do flagelo e a notícia de que o
Governo amparava liberalmente os retirantes que chegavam à Capital, o
número dos ádvenas crescera tanto que o vasto abrigo do Alagadiço,
então denominado “Campo de Concentração”, tornarase insuficiente,
apesar de comportar cerca de 8 a 9 mil almas.

Nestas condições, sem trabalhos públicos no sertão, ia num crescendo


indefinido a massa dos retirantes que alcançava Fortaleza. Então, como
não havia outro remédio mais consentâneo para tão grande mal, tratou-se
de fomentar a emigração para fora do Estado, especialmente para os
seringais da Amazônia, carentes de braços. Ali, porém, o paludismo e o
beribéri completavam a obra de destruição das miseráveis vítimas da
seca, escapas à fome, às febres tíficas e disentéricas no abrigo do
Alagadiço ou alhures aboletadas nos subúrbios da cidade. Abrigo é
expressão por demais lisonjeira, irônica; eufemismo que se impunha na
falta de um vocábulo que melhor exprimisse o simulacro de arrancho,
onde mal repousavam e dormiam os forasteiros, expostos às intempéries
senão tanto ao sol direto, pelo sombreado das ramas verdes, mas ao
sereno, neblinas e chuvas outonais ou de caju que, ordinariamente, caem
no litoral nos meses de setembro e outubro. Quando estas chuvas
apareceram o estado sanitário, já precário, piorou com o eclodir de
doenças mais ou menos graves do aparelho respiratório. A música das
tosses se ouvia por toda parte; consequência das gripes, traqueítes e
bronquites. Os pneumônicos pouco resistiam.51

A situação era desesperadora. Crianças desnutridas, enfermidades,


cadáveres empilhados em grande quantidade em caminhões, e a ajuda do
governo, em geral, precária e pouco eficiente. A seca já havia dizimado, desde
o final de 1914, quase todo o gado do norte do Ceará, e no primeiro semestre
de 1915, se estendeu para o resto do sertão do estado. Várias fazendas
perderam toda a criação. Com o prejuízo aumentando, diversos fazendeiros
dispensaram muitos trabalhadores assalariados, os mais ricos, conseguindo
vender o gado a tempo e mantendo-se afastado das zonas mais áridas por
algum tempo, e os menos abastados, perdendo tudo e sendo obrigados pelas
circunstâncias a vender suas terras por preços ínfimos. A situação de
calamidade fez com que muitos donos de terras se unissem aos contingentes
de migrantes famintos. Estimativas apontam para a perda, por doenças ou
fome (como o mal de chifre, avitaminose e intoxicações), de 1,5 milhões de
reses adultas, que valiam, na época, 180 mil contos de réis,
aproximadamentes”. Foi uma época de “surto” na venda de peles de cabras e
bois53

A emigração, como sempre, foi a principal consequência da grave


estiagem. Em torno de 50.783 pessoas saíram pelo porto de Fortaleza como
passageiros de terceira classe, 11.470 por conta própria e 39.313 por meio do
governo. Já pelo porto de Camocim, foram embora 6.683 indivíduos, dos
quais, 4.635 pagos pelo governo. Por terra, atravessaram as divisas do Piauí e
Maranhão, por volta de 12 mil retirantes. Ao todo, emigraram do estado 75
mil pessoas54. Há estimativas mais altas que chegam a 300 mil flagelados
que haviam se deslocado dentro ou para fora daquele estados. E destas, saído
efetivamente do Ceará, em torno de 97 mil pessoas56

Em 1932, ano de seca intensa, uma das maiores do século XX, ocorreram a
batalha de Maranduba, a prisão de Volta-Seca e escaramuças de cangaceiros
com a polícia, por certo57. As principais atividades relacionadas com
bandoleiros, nesse caso, envolveram o grupo de Corisco e combates com o
bando de Lampião, que naquele ano realizou alguns ataques e depredações de
fazendas58. Mas é bom lembrar que estes bandos já estavam formados
anteriormente, e continuaram agindo naquele período. Portanto, não eram
“novos”. Ou seja, não foram constituídos naquela instância, por causa da
intensa estiagem.

Ainda há outro detalhe a destacar aqui. Uma parcela significava da


população pobre não entrava para o cangaço, mas os cangaceiros, com seus
grupos de bandoleiros já organizados, atacavam o povo humilde do sertão.
Em dezembro de 1932, por exemplo, por causa do desespero causado pela
estiagem e atacados pela fome, Corisco, juntamente com sete “cabras” e duas
mulheres, depois de batalhar as volantes comandadas pelo sargento Antônio
Inácio de Souza, no dia 11 daquele mês, entraram em Mocambo, perto da
localidade de Pindobaçu, oito dias mais tarde, e saquearam as casas de todos
os moradores, comendo vorazmente tudo o que encontravam. Para alguns
estudiosos, um ano de seca, como o de 1932, era, na verdade, um ano de
descanso para os cangaceiross9.

A seca, ou seja, a “natureza’, apenas, não pode ser vista como fator
precípuo do cangaceirismo. O mundo das relações sociais é regido pelos
homens, pelos indivíduos, que podem agir de determinadas formas,
influenciados pelo meio natural. Mas, no final das contas, são os marcos
jurídicos, políticos, econômicos e culturais que irão determinar sua conduta.
As secas e o banditismo de forma geral permanecem no sertão. Mas o
fenômeno específico do cangaço acabou, ainda que a seca continue…

Por outro lado, em vários locais onde as condições climáticas eram


excelentes, o cangaceirismo esteve presente de forma marcante. A vila de São
Francisco, na margem esquerda do Pajeú60, é um exemplo disso. Lá, nas
palavras de Optato Gueiros, seus poços nunca secam, o peixe é de inverno a
verão e a temperatura local é “adorável”. Não só isso. O gado vacum e
caprino está sempre em tempo de engorda e a fertilidade do solo é excelente.
Essa localidade, com todas essas características, seria a preferida de Sebastião
Pereira e de outros cangaceiros conhecidos61 Neste caso específico, a escolha
do local teria sido por causa de sua topografia, já que nela se encontravam
aparentemente os melhores esconderijos e boas condições para movimentos
de ataques e retiradas após os combates entre os bandos, como os dos
Sindários e Praquiós, por exemplo, e os policiais.

As duas zonas que produziram a “massa” do cangaço no começo do século


XX foram o Pajeú e o Navio, dois rios importantes, que mesmo sendo de
fluxo periódico, secando no verão, possuíam muita água que podia ser
facilmente encontrada em seu leito, bastando que apenas se cavasse um pouco
a terra. De lá, surgiram os mais célebres bandoleiros62. Para se ter uma ideia,
só da cidade de Vila Bela, eram provenientes mais de 200 cangaceiros. Do
grupo de Lampião, um total de 72 bandoleiros vinham daquela cidade63

De fato, o solo da caatinga sertaneja, muitas vezes, é bastante raso,


oferecendo um volume reduzido aos sistemas radiculares da cobertura
vegetal, com pouca capacidade de armazenamento de água. Mesmo assim,
esse solo em vários casos é fértil, já que se decompõe com intensidade ao
longo dos períodos de seca, acumulando substâncias minerais necessárias às
plantas em concentrações elevadas e sendo estas, solubilizadas, postas em
contato com as raízes na época das chuvas. Na região Nordeste também se
encontra um lençol freático significativo, que segue as bacias de Tucano
(Bahia), Jatobá (Pernambuco), vale da Gurgueia (Piauí) e Maranhão. No
Piauí, por exemplo, o depósito hídrico do vale da Gurgueia tem elevado
potencial, com poços de menos 200 metros de profundidade com vazão acima
de 30 mil litros de água por hora, com jato livre de mais de 4 metros de altura
64

Em realidade, a área onde se encontra o riacho do Navio65 chegou até


mesmo a ser chamado de “Estado Livre” e de “Paraíso dos Bandidos” por
alguns autores66 Lá atuaram Cassimiro Honório, Ângelo Umbuzeiros,
Salvaterra, Manoel Basílio de Souza Ferraz e Cypriano Queiroz, para citar
apenas alguns. A região que compreende o Vale do Pajeú, Floresta do Navio e
Moxotó foi designada por uma pesquisadora do assunto como o “reino
encantado” dos bandidos67. Outra região muito frequentada pelos
salteadores, como João Calangro e os bandos dos Viriatos e Quirinos, era o
Cariri cearense, área fértil e de abundância de água68, e que foi descrita, pelo
viajante George Gardner, em 1838, como “esconderijo de assassinos e
vagabundos”69. O jornalista Edmar Morél descreve aquele local. Para ele:

Os sertões do Cariri, por tradição e por um legado de sangue, no começo


do século XIX, são uma zona habitada por uma casta descendente dos
primitivos colonizadores que vão em busca de umas minas, pomo de
discórdia entre os que governam a Capitania. Gente de todos os feitios,
sem escrúpulos e fascinada pelo ouro, infestam o Cariri, levando a
desordem, o roubo, o assassínio frio aos povoados. Por sua vez, uma
questão entre as famílias Monte e Feitosa transforma a circunscrição
num campo de batalha, enchendo as caatingas de cruzes. Mas, em 1758,
repete-se no Nordeste o mesmo drama decepcionante de Fernão Dias
Paes Leme. As jazidas de ouro do Cariri, como a dos Martírios e a dos
Araés, não existem. Suspensos os trabalhos de mineração e dissolvida a
Companhia das Minas de São José dos Cariris, uma população
forasteira, favorecida pelas condições climatéricas do vale sempre verde,
fresco e com riachos perenes brotando dos pés da serra, povoa a região,
surgindo então, uma geração a mais heterogênea possível. As lutas
armadas e os conflitos são quase que diários. E uma sociedade a serviço
do crime e da desordem ou da bravura nômade, gênese do cangaço que
fez os Brilhantes, Antônio Silvino e “Lampiões”, cria raízes no Cariri,
resolvendo as suas contendas pelo bacamarte. Mas o Cariri, cresce
dentro do tumulto […] Os seus campos atestam a fertilidade da terra e
são um convite aos homens que vivem nos Inhamuns, na Uruburetama,
de braços dados com a miséria, vencidos pelas secas periódicas. Legiões
de famílias atraídas pelo solo exuberante do novo Vale da Promissão
deixam suas glebas e para ali rumam em procissão.70

Já na região fértil dos Cariris da Princesa, os sequestros e roubos realizados


por cangaceiros eram algo comum. Afinal, “Lampião sempre assaltava os
melhores sítios. Com receio desses assaltos, os roceiros improvisavam
`cofres’ e utilizavam variados meios para esconder suas economias”71. Outro
local com boas condições era a antiga vila de Olho D’Água das Flores, no
município de Santana do Ipanema, que registrava ligeira prosperidade, por
causa da produção de milho, mandioca e algodão. Seu comércio, porém,

era fortalecido principalmente pelo movimento decorrente da cultura de


algodão e, também, da desenvoltura da pecuária, com a exploração de
laticínios, credenciando o lugar em posição de relevo na bacia leiteira do
estado, àquela época.72
Cajazeiras, por seu lado,

situada também na mesma zona sertaneja, tinha fundadas razões para ser
atacada pelos bandidos, face à sua prosperidade; tamanho foi o
desenvolvimento do município que ao cuidar-se, em 1914, da fundação
de uma diocese no sertão da Paraíba, Cajazeiras foi escolhida para o
bispado.73

E Souza,

próspera, com a economia baseada na cultura algodoeira, auxiliada pela


produção de bananas, milho, arroz, feijão e batata-doce, atraiu a caterva
que, além da vingança promovida a Chico Pereira e Chico Lopes,
objetivava encher os chapéus, bornais e cinturões, com muito dinheiro e
jóias.74

Há quem diga, inclusive, que em tempos “normais”, ou seja, em épocas em


que não havia seca, o cangaço florescia, já que a abundância do período
garantia uma situação econômica mais favorável para os coiteiros que lhes
davam guarda e menos comoção social em geral. Afinal de contas, como o
cangaço não tinha quaisquer vínculos com atividades produtivas, dependia de
fontes externas. Já a época de estiagem seria ruim para todos. Como em
diversas circunstâncias andavam nas áreas mais pobres do sertão, e como seus
provedores, os grandes “coronéis”, e em menor proporção, os pequenos e
médios donos de terras, estavam também mais pobres, os brigands igualmente
se viam em situação desfavorável. A seca, portanto, restringia todas as
atividades no sertão, inclusive as ações dos cangaceiros75.

Como diria Gilberto Freyre:

Dessas crises de clima muito tem sofrido, com a economia, a moral


social no Nordeste. As secas forçam as famílias do sertão nordestino a
uma mobilidade perigosa: deslocam-se essas famílias em condições de
humilhante inferioridade. O sertanejo, habituado à suficiência
econômica que lhe dá o plantio, por ele e pelos seus, do feijão, do
jerimum, da melancia, do algodão e do milho, e ao trabalho, em comum,
da “farinhada”, vê-se de repente obrigado a descer ao “brejo” e a farejar
farinha do “brejeiro”, por ele tão desdenhado. Chegam as famílias
sertanejas ao “brejo”, aos engenhos e às cidades do litoral, às dezenas; e
muitas vezes se dispersam em retalhos, grandes famílias patriarcais.76

O escritor Rodolfo Teófilo, falando da seca de 1845 no Ceará, disse que


aquela estiagem foi responsável por atirar nas ruas da capital “mendigos de
todas as classes”77. Um telegrama enviado pelo governador do Rio Grande
do Norte, ao presidente da República, em 1904, confirma tudo isso e mostra
bem essa situação de calamidade: “Pelas estradas, misturadas aos bandos de
famintos, notam-se já muitas famílias de antiga representação social, que
dispunham de relativa fortuna, aniquiladas pela seca” 78.

Quando Lampião entrou em Capela, em novembro de 1929, exigiu a


quantia de 20.000$000 para a população local. O prefeito da cidade, contudo,
argumentou ao “capitão” que os moradores da localidade eram pobres e
estavam sofrendo bastante com três anos de secas consecutivas. Por isso, o
“rei” dos cangaceiros decidiu reduzir o montante da extorsão para “apenas”
6.000$000, já que, disse ele, compreendia bem a situação de penúria dos
sertanejos. Ele também era um homem do sertão e sabia das durezas das
estiagens. Roubou o dinheiro mesmo assim.

Os efeitos do flagelo, portanto, afetam economicamente tanto os sertanejos


mais pobres como também os “coronéis” mais ricos, decerto. De acordo com
o pesquisador Arthur Shaker:

Mesmo nos períodos críticos como os das secas, em que o cangaço é


procurado pelos “paisanos”, como alternativa à miséria que os atinge, o
cangaço não amplia significativamente seu nu’mero79. O cangaço tem
limites à ampliação de seu número, limites determinados •80

Por outro lado, é bom também tentar evitar estereótipos sobre a seca. Nem
todos os casos de seca constituíram flagelos radicais para a população. Na
seca de 1898, em Mossoró, Rio Grande do Norte, choveu apenas 140 mm no
ano inteiro, certamente afetando bastante o povo daquela região. Mas em
1899, a natureza foi mais favorável: ocorreu um inverno adiantado, que se
prolongou até agosto, com um verão curto, com precipitações de 1.268 mm
anuais; não houve inundações; não ocorreram pragas de lagartas; tampouco
casos de doenças no gado. Esses fatores conjugados resultaram em excelentes
colheitas de cereais. Quando a seca de 1900 chegou, portanto, o sertão estava
mais preparado. Mesmo com uma precipitação pluviométrica de apenas 146
mm de chuva, o interior estava abastecido com a produção do ano anterior.
Esse fato, portanto, atenuou o sofrimento do povo da região81. Depois da
seca de 1915, o sertanejo também estava mais preparado e experiente para
enfrentar novas calamidades. A construção de vários açudes e estradas
certamente aliviou, em alguns casos, as consequências das estiagens
posteriores 12.

O fato é que o Sertão e o Agreste em muitos momentos estiveram em


situação mais favorável do que se pensa. Num estudo realizado na primeira
metade da década de 1930, em Pernambuco, Souza Barros afirmava:

A pequena propriedade assinala-se (no Agreste-Caatinga), ainda, como


propulsora da nossa policultura que, apesar de deficitária mesmo em
face dos produtos de consumo do Estado, não podia deixar de merecer
encômios, tão desajudada que esteve até há pouco tempo. São estas
pequenas propriedades da zona do Agreste-Caatinga que fornecem ao
Estado a sua maior produção de cereais, de plantas leguminosas, de
frutas e do algodão, dos queijos, da manteiga etc.

Em função da policultura e de um serviço de estradas passível de


aproveitamento econômico, apesar do índice comum de mediania,
formaram-se os maiores centros do interior dentro da zona do Agreste-
Caatinga.

Caruaru, Garanhuns, Limoeiro, Pesqueira, Gravará, ou seja, o 3° (depois


de Recife e Olinda), o 4°, o 6°, o 8° e o 13° municípios, segundo a
ordem das arrecadações municipais; Caruaru, Garanhuns, Bezerros,
Limoeiro, Pesqueira e Gravará, o 2° (depois do Recife), o 3°, o 6°, o 9°,
o 10°, e o 11°, em relação ao número de prédios urbanos (números de
1934); estes mesmos municípios segundo os núcleos municipais de
população urbana - estando situados no Agreste-Caatinga -, vêm provar
que, em função de uma melhor divisão da propriedade, nascem e se
avolumam muito mais seguramente os núcleos econômicos, semi-
urbanos do Interior.

Uma pequena burguesia, de hábitos sedentários, aí se fixou e está


contribuindo para o progresso desses núcleos e para a formação futura
de uma riqueza comum que não da monocultura canavieira.

Na zona das usinas a população não se condensa tanto em torno das


cidades, a relação de riqueza e distribuição atinge índices mais baixos e
as cidades passam a viver em situação de absoluta miséria em relação
aos centros agrícolas fabris. 1…]

No levantamento das taxas médias de salários no qüinqüênio até 1935


(Anuário estatístico de Pernambuco para 1934), verificou-se que os
mesmos, no Sertão, não só eram quase que equivalentes aos da Zona da
Mata, como melhoraram os seus índices no último ano de forma muito
mais acentuada.83

E com tudo isso, o banditismo ainda assim campeava. Ou seja, é possível


encontrar, ao contrário do que afirmam alguns estudiosos, relação entre o
bandoleirismo e uma situação de relativa prosperidade econômica. Não há
incompatibilidade entre as duas variáveis nesse caso. É claro que aí há uma
combinação de elementos. Se há de um lado prosperidade, mais dinheiro
circulando, melhores condições topográficas e climáticas, e maior poder de
chefes rurais, há também, ao mesmo tempo, maiores distâncias dos grandes
centros, uma Justiça precária e arbitrária, uma disseminação de armas nas
mãos da população, questões de terra e de honra, disputas políticas, uma
polícia muitas vezes mal preparada e condições de transporte insatisfatórias,
entre outros elementos que, combinados, criavam as condições para a
proliferação de alguns bandos.

Como se sabe, a seca foi responsável, de fato, por desarticular


economicamente diversas áreas do Sertão. Mas outras, mais bem localizadas,
permaneciam em grande medida imunes a seus efeitos. Nas zonas mais
“ricas” e dinâmicas, que apresentavam melhores condições naturais para a
produção agropastoril e de indústrias de pequeno porte, houve maior
desenvolvimento, com aumento na produção local, absorção de trabalhadores
rurais e a constituição de “polos” onde o coronelismo se caracterizou por
ampliar sua força e dimensão políticas. Ou seja, o Sertão não seria
homogêneo e estanque, mas razoavelmente diversificado, tanto em termos
econômicos como até mesmo em suas variantes culturais. As áreas mais
pobres não interessavam tanto aos bandoleiros, por motivos óbvios, a não ser
que servissem para descanso ou então refúgio. Foi justamente nas localidades
mais prósperas, onde os “coronéis” tinham mais poder, que os jagunços e os
cangaceiros proliferavam. O fato de a Associação Comercial do Ceará lançar
um protesto formal, em ata da sessão de 18 de abril de 1925, contra a
“situação anárquica’ que reinava no interior do estado, por causa do
cangaceirismo, mostra a preocupação dos comerciantes com seus interesses
nas áreas em que seus associados atuavam, ou seja, nos povoados e vilarejos
mais prósperos84. Afinal, as firmas atacadistas possuíam uma parte
significativa de seu ativo espalhada pelas localidades do sertão atacadas pelos
bandoleiros. A noção de solvência de compromissos, portanto, se esvaía,
assim como se reforçava o acobertamento da má-fé dos desonestos. O fato é
que o comércio de Fortaleza sofria com a falta de segurança no sertão85.

De qualquer forma, em outras partes do país, as “crises” não produziram


um fenômeno similar ao cangaço, ainda que, é claro, pudesse haver outros
tipos de banditismo. Se a “crise” - um termo certamente vago - dos primeiros
quarenta anos do século XX fosse a explicação prioritária para o
desenvolvimento do cangaço, então serviria para explicar também tudo o que
aconteceu no resto do país naquela época: agitações operárias, tenentismo,
movimentos messiânicos, disputas políticas. Ou seja, explicaria tudo
panoramicamente, mas nada especificamente (afinal de contas, durante todo o
período da República Velha até o Estado Novo houve “crises” sucessivas).

É claro que os fatores conjunturais nacionais e internacionais afetam a vida


política, econômica e social de uma nação dentro de suas características
particulares, inclusive no plano regional. Mas nem sempre há um
entrelaçamento direto entre os distintos elementos que compõem essa
realidade conjuntural. O cangaço é uma modalidade que se originou muito
antes de qualquer crise específica. Assim, algumas crises podem ter
aumentado as fileiras do cangaço. Mas a crise em si não é o fator primordial
para o surgimento e a existência desse fenômeno. E, afinal de contas, é
importante saber, de fato, de que crise se está tratando. Uma crise local,
impulsionada pela seca? Uma crise regional? Uma crise de produção? Uma
crise política e econômica nacional? A explicação vaga da “crise” serve
parcialmente ao propósito de entender o cangaço, mas é, não obstante,
insuficiente. Ou seja, as “rupturas institucionais” e as “crises políticas” (1889,
1922, 1924, 1930, 1932, 1935) não foram as responsáveis pelo surgimento do
cangaço, ainda que possam ter contribuído para a ampliação do fenômeno,
principalmente porque, nessas situações, muitas tropas que poderiam estar
atuando no Sertão eram deslocadas para os grandes centros ou, se já
estivessem neles, deixavam de ser enviadas para a região. Com isso, os
cangaceiros teriam, em grande medida, maior liberdade para atuar…

Aqui tentaremos fazer algumas observações sobre uma possível relação entre
os cangaceiros e as lutas sociais de seu tempo.

Certamente aqueles bandoleiros nunca tiveram o componente ideológico


nem uma consciência de classe’ que permitissem que sua atuação viesse a ser
de “luta revolucionária’, apesar de alguns militantes e estudiosos engajados2
terem procurado nesses bandos possíveis embriões de guerrilhas sociais, as
quais só precisariam de um impulso, de uma intervenção externa de
elementos progressistas. Estes supostamente inculcariam nos cangaceiros o
elemento ideológico que poderia levá-los a lutar contra o sistema capitalista
que, aparentemente, os explorava. De fato, alguns críticos de esquerda
chegavam a afirmar que se poderia elaborar uma “teoria’ geral das revoltas
camponesas, a partir de casos concretos como os de rebeldia social no meio
agrestino e sertanejo. Para Décio Freitas:

Essa teoria é, em essência, de que as massas camponesas são


historicamente incapazes de iniciativas revolucionárias. Apenas se
mostram capazes de revoltas - revoltas elementares e espasmódicas que
perseguem fins imediatos. Estes fins têm seu limite na obtenção de um
pedaço de terra e não abrangem a conquista do aparato estatal para a
transformação radical do conjunto da sociedade. Pela sua tendência de
idealizar o passado, desqualificam a história, o que lhes empresta um
caráter claramente anarquista e utopista. As raízes da impotência
revolucionária das massas camponesas, há que buscá-las no arcaísmo do
mundo rural, um mundo onde não aparecem os elementos que permitem
o desenvolvimento do processo dialético. Toda revolução se explica, em
última análise, por uma grave discordância entre as relações de produção
e o caráter das forças produtivas. O desenvolvimento progressivo das
forças produtivas determina a mudança das relações de produção e de
toda a estrutura da sociedade. Não ocorre tal desenvolvimento no mundo
rural e, como conseqüência, não há mudança e tampouco pode haver
projeto revolucionário. Não é senão nos centros urbanos que se
apresentam os fatores de mudança social. Neles se manifestam, por isso,
as iniciativas revolucionárias, que podem impulsionar, como de fato
muitas vezes na história impulsionaram, para o caminho da revolução, as
massas camponesas. Então e só então, estas massas se tornam
revolucionárias. Nunca houve uma “revolução camponesa”, uma
revolução feita apenas por camponeses. O que assim se convencionou
chamar, traduziu sempre uma resposta de massas camponesas a
iniciativas de classes revolucionárias urbanas. O conhecido enunciado de
que a revolução do campo se faz na cidade, assume desta forma uma
fecunda validez.3

A ideia de que uma “vanguarda’ política urbana pudesse influir no meio


rural para começar uma revolução certamente esteve na ordem do dia durante
algumas décadas no país. No Brasil, os militantes socialistas, sem um preparo
teórico sistemático e orgânico, e com poucos conhecimentos da própria
formação histórica da nação, ainda que se interessassem pela problemática
agrária, estavam mal preparados intelectual e ideologicamente para elaborar
um projeto de mudanças estruturais no campo. As análises desses militantes
eram, em geral, inadequadas para uma compreensão mais sofisticada da
realidade. Havia uma escassez de livros marxistas no Brasil, ainda que,
principalmente a partir dos anos 1930, textos de Marx, Engels, Bukharin e
Lenin, entre outros, começassem a ser divulgados e vendidos com maior
frequência no país4. A maioria dos militantes era, contudo, autodidata, e
apenas um grupo muito restrito tinha a possibilidade de realizar cursos de
formação em Moscou, o que, na prática, não alterava muito a situação, já que
o conhecimento dos soviéticos em relação ao Brasil e à América Latina era,
certamente, bastante limitado5.
As discussões sobre a questão do campo brasileiro, de qualquer forma,
eram insuficientes e deixavam a desejar em termos de maior sofisticação das
análises. Mesmo assim, em 1928, seria criado o BOC (Bloco Operário e
Camponês)’ e, em 1932, vários membros do Comitê Central do PCB (Partido
Comunista do Brasil)7, por sugestão do dirigente pernambucano José Caetano
Machado, muito influenciado pela atuação dos cangaceiros, apoiariam a ideia
de se constituir guerrilhas no campo8. Até mesmo a cooptação foi cogitada na
época.

De acordo com um documento do Bureau Sul-Americano do Comintern, de


1931, elaborado com a colaboração de vários membros do partido,

os grupos de cangaceiros de Lampião e outros arrastam consigo,


sobretudo, as grandes massas de jovens camponeses. Estes, que
perderam as esperanças de receberem alguma coisa do Estado feudal-
burguês, organizam grupos armados, procurando espontaneamente e por
meio das armas dirimir a luta contra os feudais e resolver sua péssima
situação.

Para o Comitê Executivo da IC, os cangaceiros tinham um potencial


revolucionário que deveria ser aproveitado pelos comunistas brasileiros, que
aparentemente subestimavam as lutas e revoltas camponesas. Seria
fundamental que o partido, portanto, desse mais atenção ao interior de São
Paulo e ao Sertão nordestino. Ou seja:

Em relação ao movimento cangaceiro, o PCB deve empenhar-se na


tarefa de estabelecer contatos mais estreitos com as massas de grupos
cangaceiros, postar-se à frente de sua luta, dando-lhe o caráter de luta de
classes, e em seguida vinculá-los ao movimento geral revolucionário do
proletariado e do campesinato do Brasil.10

O PCB iria insistir nessa questão. Num informe para a 111 Conferência de
Partidos Comunistas da América Latina e Caribe, realizado em Moscou, em
1934, preparado pelo chefe da delegação brasileira Antônio Maciel Bonfim
(codinome Miranda), secretário-nacional do PCB e eleito secretário-geral da
agremiação em sua 1 Conferência Nacional, naquele mesmo ano, podia-se
perceber a posição oficial do partido em relação à situação no campo e sua
interpretação completamente distorcida da realidade. Dizia o documento:

As lutas também têm o apoio dos trabalhadores nas vilas. Os partisans


cangaceiros estão chamando à luta, estão unindo os camponeses pobres
na sua luta por pão e pela vida. […] Na província da Bahia somente, os
partisans representam um destacamento de aproximadamente 1.500
homens, armados com metralhadoras, equipados com caminhões.”

Após a conferência, os comunistas soviéticos iriam apoiar a intensificação


dos contatos com os cangaceiros. Afinal de contas, para o Secretariado
Nacional, “o cangaceiro é um elemento revoltado contra a ordem de coisas
existente, é revolucionário porque luta contra o aparelho de Estado e sua
reação””. Os comunistas ingenuamente achavam que se poderia dar um
caráter revolucionário ao cangaço, influenciando-o de tal forma que vários
grupos de bandoleiros iriam até mesmo querer adotar o programa da ANL
(Aliança Nacional Libertadora) naquela época13j Isso ocorreria quando
percebessem “a perspectiva de voltar depois da vitória para o seio de suas
famílias, obtendo, como todos os soldados do grande Exército Popular
Libertador, o direito à posse de sua gleba de terrá‘14

O projeto de guerrilhas no Nordeste se intensificava. O jornalA Classe


Operária, em sua edição de 31 de julho de 1935, defendia num artigo que as
lutas no campo deveriam estar ligadas com as lutas de apoio aos cangaceiros,
já que, dessa forma, acreditavam seus editores, “conquistaremos os
cangaceiros e elevaremos o nível político de suas lutas” 15. Mas não houve
nada disso. De um lado, o partido tinha bases muito tênues em diversos
estados nordestinos, não possuindo nem estrutura nem apoio popular
suficientes para preparar guerrilhas “vermelhas” de sucesso. De outro, estava
a própria incompreensão da realidade objetiva e do caráter do banditismo
rural da região 16
A organização do PCB no Nordeste, desde o final dos anos 1920, era frágil
17. Em meados da década de 1930, seus poucos militantes tinham de lutar
contra os integralistas locais, contra o governo Vargas e ainda atuar no painel
já conformado e solidificado das relações sociais existentes no campo, onde
os “coronéis” tinham, sem dúvida, muita força. As disputas políticas
regionais, com os partidos, os caudilhos, os jagunços e a AIB em intensa
movimentação e conflitos, tinham decerto mais visibilidade do que a luta
armada dos comunistas. A avaliação dos pecebistas sobre as quadrilhas de
bandoleiros, por seu turno, estava mais do que equivocada. Os cangaceiros
eram bandidos (muito peculiares, é verdade), e não havia a menor
possibilidade de encontrar, grosso modo, qualquer vínculo com intenções ou
programas mais nobres de mudanças radicais no meio social.

A experiência guerrilheira que mais tempo durou, entretanto, foi no Rio


Grande do Norte, de julho de 1935 a fevereiro de 1936, mas também
fracassou, por fim. Num informe, enviado em 12 de novembro de 1935, a
seção regional do partido dizia que já estavam organizados três grupos
armados de doze homens cada, dois deles atuando no município de Açu e um
no de Areia Branca. Supostamente o cangaceiro Rouxinol, do bando de
Lampião, preso e sentenciado a trinta anos de prisão em Currais Novos, havia
fugido e se unido a Gavião, membro do PCB (que também tinha,
coincidentemente, uma alcunha característica dos bandoleiros), para formar
um “núcleo” guerrilheiro18. O partido estava, inclusive, tentando infiltrar
“camaradas” na polícia e teria cooptado cinco sargentos, que, em teoria,
também preparariam grupos de guerrilha no interior do estado19.

Esses guerrilheiros, conhecidos como “bandoleiros vermelhos” ou


“bandidos vermelhos” eram compostos de gente do partido, membros da
ANL, da Aliança Social e de diversos marginais. Entre estes, encontravam-se
um advogado, ladrões, vários prófugos da justiça, dois jornaleiros, um
aprendiz de pedreiro, um apanhador de algodão, um agricultor, um motorista
e um pintor, entre outros sem profissão definida. Como os cangaceiros,
muitos ingressaram nesse bando para encontrar refúgio, já que eram ladrões e
assassinos sentenciados e condenados a muitos anos de encarceramento.
Esses fugitivos de cadeias e indivíduos analfabetos, sem profissão, formavam
boa parte da quadrilha.

Dos grupos citados pelo informe do PCB, só um, que tinha em torno de
quarenta pessoas, entrou em ação, de fato. Os líderes desses “bandoleiros
vermelhos” reuniam seus homens no meio da caatinga (em cenas
possivelmente surrealistas), discutiam aumentos salariais, indicavam como
cooptar trabalhadores sindicalizados para ingressar no partido e conversavam
sobre as melhores formas de convocar os “camponeses” para atacar as
principais fazendas de algodão locais e eliminar seus donos20. Tudo em nome
da revolução! Suas ações, contudo, se limitavam, em geral, a assaltos e
assassinatos, sempre sendo acoitados em fazendas de simpatizantes da ANL
no estado.

Com poucas armas (inclusive algumas do exército) e com gente muitas


vezes participando à força, já querendo sair do grupo e não podendo por
temor a represálias, o bando foi perdendo seu potencial “revolucionário”. Na
verdade, esses “combatentes”, em sua maioria, não tinham a menor ideia do
que se tratava o “comunismo” defendido pelo partido.

A luta prosseguia, sem grandes sucessos. Em setembro de 1935, alguns


guerrilheiros serraram os trilhos da ferrovia de Areia Branca a Mossoró, numa
curva do quilômetro nove, na tentativa de descarrilar o trem que levaria uma
comitiva de integralistas para o Sertão. Mas, por causa do atraso na partida da
composição, as autoridades tiveram tempo de descobrir a sabotagem e evitar
o ataque21.

Nos eventos do Levante Comunista22, os “bandoleiros vermelhos” não


tiveram nenhuma atuação de destaque. Enquanto a direção do PCB queria
reforçar a luta armada no Sertão, acreditando que os oficiais do Levante
haviam se refugiado no interior do Nordeste, aguardando o momento para se
reorganizar, os “extremistas vermelhos” faziam de tudo para sobreviver. Para
isso, tinham o apoio de caudilhos locais, de alguns deputados da Aliança
Social e de pequenos comerciantes, que forneciam armas, munição,
alimentos, esconderijos e, em alguns casos, dinheiro”. Nos assaltos a casas e
fazendas, por vezes tinham êxito, assim como em refregas contra a Força
Pública.

Nos combates, assim como os cangaceiros, os guerrilheiros gritavam e


cantavam. Mas, nesse caso, em vez de palavrões ou de canções, como a
tradicional Mulher rendeira, o que se ouvia eram gritos de “Viva a ANL” e
“Viva Luiz Carlos Prestes”. Certamente uma novidade naquelas regiões do
Sertão. Após as batalhas, degolavam, cortavam os braços e furavam a facadas
os corpos dos soldados da polícia.

Ainda foi enviado do Rio de janeiro, o militante José Alemão, para ajudar
na organização das guerrilhas do partido. Mas aparentemente sua presença
não alterou a situação. Muitos começaram a abandonar o bando24.

A aventura guerrilheira terminou com a denúncia feita por um dos


combatentes, Manoel Feliciano Pereira, que se entregou à polícia e indicou
onde ficava o esconderijo e as armas do grupo. Após essa delação,
praticamente todos os “revolucionários” foram detidos pelas autoridades. Eles
certamente não conseguiram promover a revolta das populações do Sertão25.
Esse foi o final melancólico daquela experiência guerrilheira.

Durante todo o período do cangaço, ao que tudo indica, apenas um


bandoleiro se tornou comunista. Esse teria sido o comerciante Manuel Vitor,
nascido em Tacaratu, Pernambuco, em 1899, tendo iniciado suas atividades
no cangaço em 1926 e sendo assassinado em 1937 pela polícia alagoana.
Manuel Vitor aparentemente tinha boa educação, sendo também compositor,
violonista e criptógrafo. Ao que tudo indica, em 1934 teria se filiado ao
Partido Comunista, apresentado por Manuel de Campos Góis ao comitê
regional de seu estado26.

Já outro cangaceiro, muito mais importante, Antônio Silvino, anos antes,


ainda que não tivesse se influenciado pelo marxismo, dava a entender que
possuir bastante sensibilidade política e ser admirador da Revolução Russa.
Gregório Bezerra, que conviveu com Silvino na Casa de Detenção do
Recife27, dizia que

Gostava de conversar com ele, porque me dava notícias dos


acontecimentos da contrarrevolucão na Rússia. Por ele soube que os
bolcheviques tinham derrubado o governo e, com o poder nas mãos, as
terras nas mãos dos camponeses e as fábricas nas mãos dos
trabalhadores, lutariam ate o fim e não entregariam jamais o poder a
ninguém.28

Silvino teria dito que

O povo reunido é mais poderoso do que tudo e a revolução dos


bolcheviques vai se espalhar por todo o mundo. A lei do maximalismo,
com um homem como este que está no poder [referia-se a Lênin], vai
triunfar. Esse homem tem muito juízo e muito talento na cabeça.
Ninguém pode com ele.29

O PCB nos anos 1930 parecia, de alguma maneira, interpretar a situação de


forma tão equivocada quanto alguns jornais do Ceará na segunda metade do
século XIX em relação a esse fenômeno. Alguns periódicos da região, ainda
impressionados com os ecos da Comuna de Paris, viam o “perigo’ do
comunismo nas fileiras do cangaço. Em alguns editoriais de O Cearense, de
1877 e 1878, podia-se encontrar o temor a uma mudança radical no campo, já
que em alguns deles, dizia-se que os “salteadores” acometiam a propriedade
privada com a maior ostentação, o que seria o suficiente para caracterizar a
“proclamação” do comunismo no Sertão, enquanto que outros davam a
entender que o comunismo em breve deixaria de ser algo apenas
“especulativo” para ser aplicado na prática pelos cangaceiros30.

O “comunismo” preocupava tanto algumas pessoas que o próprio Padre


Cícero supostamente teria tido um sonho profético, em 1872 (portanto muitos
anos antes da Revolução de Outubro), no qual teria visto um urso “enorme” e
“feroz” com as grandes patas sobre todo o planeta, arranhando com suas
garras o globo e causando sofrimentos e ruínas em todos os países31. Talvez
esse urso viesse a ser mais tarde, teoricamente, a União Soviética…

Há quem diga, sem nenhuma comprovafão documental, que já em


dezembro de 1925 (portanto, alguns anos antes da atuação dos “bandoleiros
vermelhos” e, por certo, sem nenhuma conexão ou qualquer vínculo com a
ideologia marxista), quando estava na fazenda do Poço, no município do
Brejo dos Santos, Ceará, Lampião teria dito ao seu anfitrião (o fazendeiro
Francisco Xavier) que tinha “simpatia’ pelos revoltosos da Coluna Prestes32,
a respeito dos quais acompanhava as notícias por meio da imprensa. Sua
admiração pelo “Cavaleiro da Esperança” aparentemente seria tanta que
planejava formar um batalhão para se unir aos rebeldes tenentistas, com quem
faria uma “guerra oficial” aos estados de Pernambuco e da Paraíba. Os
revoltosos, em teoria, estariam tentando aliciar o “rei” dos cangaceiros, de
acordo com Flores da Cunha, em carta ao “coronel” Ângelo Gomes Lima,
mais conhecido por Ângelo da Gia. Até mesmo uma farda de coronel do
exército teria sido presenteada a Virgulino como forma de convencê-lo a lutar
pela revolução”. Também há sugestões de que oficiais da Coluna teriam
recomendado que Prestes convidasse o “espantalho” a se unir aos revoltosos,
mas que ele teria se recusado34; e de que um primo de Lampião, na Paraíba,
teria se oferecido ao “Cavaleiro da Esperança” para convidar Virgulino a se
unir à sua Coluna, o que também foi rejeitado35. Até mesmo um cangaceiro,
José Alves da Cunha, o Ventania, teria sido capturado pelos soldados de
Prestes e incorporado à Coluna, durante a passagem dos “revoltosos” pela
região36. E que o próprio Lampião chegou a afirmar que havia aprendido
muito com os revolucionários37. O que se vê é que são muitas as
especulafões, por vezes contraditórias, sobre o assunto.

Mas, como dissemos, não há nenhum indício, seja da parte de Lampião,


seja de entrevistas ou documentos de Prestes ou dos oficiais tenentistas, de
que o “homem” tivesse manifestado entusiasmo em se unir aos rebeldes
tenentistas. Pelo contrário. Como se sabe, o “capitão” Virgulino Ferreira se
aliou ao governo por um breve período para lutar contra Prestes e seus
soldados.

É bem verdade que os comandantes da Coluna acreditavam que teriam


apoio popular em sua passagem pela região, o que se mostrou uma decepção.
Ainda que a população por vezes demonstrasse apoio aos rebeldes, não aderiu
aos seus apelos revolucionários. De acordo com Prestes:

A adesão foi muito pequena. Havia muita simpatia; o sertanejo


compreendia que, contra nós, lutavam todos os seus inimigos, que eram
o governo federal, o governo estadual, o governo municipal e os
fazendeiros e “coronéis”. Todos eles vinham lutando contra nós. Então,
eles viam que estávamos lutando contra o inimigo deles, mas não tinham
perspectiva. Achavam que éramos uns loucos, uns aventureiros… que
estávamos sonhando. Derrotar essa força, para eles, parecia impossível.
[…] Não compreendiam. Então, não aderiam. Aderir era muito difícil.
Aderiam jovens, crianças de dez, 12 anos, 14 anos… 15 anos, jovens que
queriam fugir de casa. […] Os sertanejos… nos ajudavam na medida de
não se comprometer.38

De fato, os “tenentes” tinham um preparo ideológico e intelectual


insuficiente, e horizontes políticos certamente limitados. Seu
desconhecimento das particularidades do meio rural nordestino era grande. A
Reforma Agrária não estava entre suas prioridades. O próprio Prestes diria
que “essa noção de classe nós não tínhamos ainda. Tratávamos, às vezes, o
fazendeiro melhor do que o camponês”39. Mesmo assim, é sabido que, na
maior parte das vezes, os soldados da Coluna tratavam com respeito àqueles
sertanejos com os quais entravam em contato (ainda que haja controvérsia
sobre isso), o que não era caso, necessariamente, das tropas governistas, que
agiam, de certo modo, com o mesmo estilo dos cangaceiros ou das volantes,
ao desrespeitar os moradores das áreas pelas quais passavam. Era comum que,
depois que os homens de Prestes cruzassem certas localidades, houvesse
saques e roubos praticados por bandos de ladrões. E que, em seguida, as
forças regulares chegassem e pilhassem o que restava, praticando todo tipo de
violência contra os habitantes locais, estuprando mulheres, incendiando casas
e matando os homens dos povoados40

Pelas dificuldades em combater os “revoltosos” no Nordeste, o governo do


presidente Artur Bernardes iria apelar para toda ajuda que pudesse ter. Ou
seja, até mesmo o uso de jagunços e cangaceiros. O intermédio entre as partes
ficaria a cargo do deputado Floro Bartolomeu e o Padre Cícero Romão
Batista. Para o “secretário” da Coluna, Lourenço Moreira Lima, contudo, o
clérigo inicialmente rejeitou fazer parte desse acordo. Não queria ter qualquer
participação na luta contra os homens comandados por Prestes. Chegou até
mesmo a enviar uma carta ao “Cavaleiro da Esperança’, sugerindo que suas
tropas fizessem a paz, e que elas seriam acolhidas em Juazeiro, com todas as
garantias41. Assim dizia:

Ao Capitão Luiz Carlos Prestes e seus companheiros de luta. Caros


patrícios. Venho vos convidar à rendição. Faço-o, firmado na convicção
de que presto serviço à Pátria, por cuja grandeza também devem palpitar
os vossos corações de patriotas. Acredito que já não nutris esperanças na
vitória da causa pela qual, há tanto tempo, pelej ais, com excepcional
bravura. É tempo, portanto, de retrocederdes no árduo caminho por que
seguis e que, agora, tudo está a indicar, vos vai conduzindo a inevitável
abismo. Isto, sinceramente, enche-me a alma de sacerdote católico e
brasileiro de intraduzíveis apreensões, dominando-a de indefinível
tristeza. Reflexo do meu grande amor ao Brasil, esta tristeza, assevero-
vos firmemente, é uma resultante dos conhecimentos que tenho dos
inauditos sacrifícios que estais impondo à Nação, entre os quais incluo,
com notável relevo, o vosso próprio sacrifício e dos muitos
companheiros que são vossos aliados, na expectativa de resultados, hoje
provadamente impossíveis.
Confrange-me o coração e atormenta-me incessantemente o espírito esse
inominável espetáculo de estar observando brasileiros contra brasileiros,
numa luta fratricida e exterminadora que tanto nos prejudica vitais
interesses no interior, quanto nos humilha e deprime perante o
estrangeiro. Acresce que para uma nação jovem e despovoada como é a
nossa, as atividades constantes de cada cidadão representam um valor
inestimável ao impulsionamento do seu progresso. De modo que, para se
fazer obra de impatriotismo, basta não contribuir para a realização
dessas atividades, ou para o desvio de sua aplicação construtora. É o que
estais fazendo, involuntariamente, talvez.

Assim sendo, é claro que se outros vultuosos males não acarretasse ao


país a campanha que contra ele sustentais, bastaria atentardes nesta
importante razão, para vos demoverdes dos propósitos de luta em que
persistis.

Entretanto, deveis refletir ainda na viuvez e na orfandade que, com


penalizadora abundância, se espalham por toda parte; na fome e na
miséria que acompanham os vossos passos, cobrindo-vos de maldições
dos vossos patrícios, que não sabem compreender os motivos da vossa
tormentosa derrota através do nosso grandioso “hinterland”. É, pois, em
nome desses motivos superiores e porque conheço o valor pessoal de
muitos dos moços que dirigem esta malfadada revolução, que ouso vos
convidar e a todos os vossos companheiros a depordes as armas.
Prometo-vos, em retribuição à atenção que derdes a este meu convite,
todas as garantias legais e bem assim me comprometo a ser advogado
das vossas pessoas perante os poderes constitucionais da República, em
cuja patriótica complacência muito confio e deveis confiar também.

Deus queira inspirar a vossa ansiedade e confiança.

Deus e o amor da Pátria sejam vossos orientadores, neste momento


decisivo de vossa sorte, cujos horizontes me parecem toldados de
sombrias nuvens. Outrossim, é meu principal desejo vos salvar da ruína
moral em que, insensivelmente estais embrenhando com os feios atos e
desregramentos conseqüentes da revolução e que, certamente, vos
conduzirão a uma inevitável ruína material. Lembrai-vos de que sois
moços educados, valentes soldados do Brasil, impulsionados neste vosso
corajoso tentame por um ideal, irrefletido embora, e que, entretanto
estais passando, perante a maioria dos vossos compatriotas, por
celerados comuns, já se vos tendo comparado, na imprensa das capitais,
aos mais perigosos facínoras do Nordeste. Isso é profundamente
entristecedor. Deixai, portanto, a luta e voltai à paz, paz que será
abençoada por Deus, bendita pela Pátria e aclamada pelos vossos
concidadãos, e, pois, só nos poderá conduzir à felicidade. Deus e a Pátria
assim o querem, e eu espero que assim o fareis. Com toda a atenção
subscrevo-me, vosso patrício muito grato. Padre Cícero Romão
Batista.42

Um apelo em vão. É aí que entra o famoso encontro de Lampião com o


Padre Cícero, e sua nomeação a capitão de um “Batalhão Patriótico” para
lutar contra os revolucionários.

A história é bem conhecida. Um dos irmãos de Virgulino, João Ferreira,


morador de Campos Sales, teria recebido uma carta em papel timbrado,
datilografada em tinta carmim, do deputado Floro Bartolomeu (que havia sido
convidado pelo general Setembrino de Carvalho, então ministro da Guerra,
para cuidar da defesa do Estado do Ceará), das mãos de um emissário, o
advogado José Ferreira de Menezes Longe, e logo a teria repassado ao
“tenente-comandante” da Terceira Companhia do Batalhão Patriótico com
sede naquela cidade, Francisco das Chagas Azevedo, que supostamente
entregou a missiva ao “espantalho”, escondido em algum lugar do Cariri
pernambucano. A carta, assinada pelo caudilho e pelo Padre Cícero,
convocava Lampião a um encontro com aquele sacerdote em Juazeiro, onde
já estariam sediados cerca de mil homens recrutados com vistas a lutar contra
os tenentes. O fato é que Floro havia conversado pessoalmente com o
presidente da República, no Rio de janeiro, e retornara ao Ceará com mil
contos de réis e material bélico para organizar um “Batalhão Patriótico” em
Juazeiro. Em 31 de dezembro de 1925, ele se deslocou de trem de Fortaleza
até a “Meca” do Sertão para realizar tal objetivo. O comando desse “Batalhão
Patriótico” foi dado ao Coronel Pedro Silvino de Alencar. Mas Floro, ainda
assim, permaneceu como uma espécie de “comissário político” das tropas,
seguindo com elas para Campos Sales. Esses “Batalhões” recebiam de Floro o
uniforme, pratos, colheres e colchas, e do governo federal, armas e munições.

Lampião ainda teve dúvidas da autenticidade e idoneidade da convocação.


Na casa do “coronel” Manuel Pereira Lins (o Né da Carnaúba), chegou a
dizer que aquilo era uma armadilha, uma traição, com objetivo de capturá-lo.
Virgulino certamente estava desconfiado. Mas Manuel, que era tio e padrinho
de Sinhô Pereira, com toda sua autoridade, apontou para a assinatura do Padre
Cícero, que figurava no documento. Por causa de sua extrema admiração,
respeito e obediência ao clérigo, Lampião se deslocou para Juazeiro com
outros 49 cangaceiros43

O “governador do sertão” entrou no Ceará e ficou em Baião, próximo a


Jati. Teve permissão do tenente Luís Rodrigues Barroso para permanecer na
localidade, já que este confirmou se tratar de uma convocatória autêntica para
ir à cidade do Padim Ciço. O cangaceiro e o oficial chegaram até mesmo a
travar relações amistosas. De lá, o “espantalho” e seus homens, quase todos a
cavalo, se dirigiram para Porteiras e depois para a fazenda do “coronel”
Antônio Joaquim Santana, na Serra do Mato. Só depois de todo esse percurso
o grupo chegou a Juazeiro, no dia 4 de março. Ficaria ali até o dia 7 daquele
mês.

A cidade, na verdade, era um amontoado de casas de palha, sem hospitais


ou escolas secundárias. Lá, Cícero morava num casarão com oito quartos e
várias salas. O sacerdote estava acostumado a receber autoridades da capital,
que tinham de seguir por uma ferrovia precária e depois, cavalgar algumas
léguas em estradas de terra até chegar àquela cidade, onde fazendeiros,
jagunços e o povo local os aguardavam em clima de festa 44

Dessa vez, o “convidado” seria bem diferente. Em torno de 4 mil pessoas


cercavam os bandidos, admiradas, na tentativa de ver de perto aqueles
homens. Para espanto e surpresa da população, a presença de Virgulino e de
seus asseclas contou com a permissão do patriarca da cidade, que
providenciou teto e garantias para todos eles: durante aqueles dias, os
salteadores perambularam pelas ruas sem serem incomodados pela polícia. O
“governador do sertão”, por seu lado, era bastante assediado por fotógrafos e
repórteres. E convidado até para festas45. Cícero teria sido o responsável por
convencer o “homem” a ingressar na luta contra a Coluna Prestes. Depois de
dar a bênção ao bandido, ainda pediu que Lampião largasse a vida de crimes
depois de combater os “revoltosos”: o “espantalho” preferiu não se
comprometer…

Numa daquelas noites, o padre mandou dois cangaceiros, Antônio Ferreira


e Sabino Gomes de Góis, buscarem em casa o inspetor agrícola do Ministério
da Agricultura, Pedro de Albuquerque Uchoa. Ao chegar à presença do
religioso, em torno das dez horas, o servidor público foi incumbido de
entregar, oficialmente, em nome do governo, patentes militares a Lampião e
seus asseclas. Afinal, ele teria, supostamente, “credenciais” para realizar tal
ato, já que era, segundo Cícero, um “funcionário federal”! Uchoa, temendo
por sua segurança e integridade física, mesmo sabendo do absurdo daquela
situação, fez o que mandou o sacerdote. Anotou o que ditava Cícero num
papel e fez a suposta “promoção”. Assim dizia o documento:

Em nome do Governo dos Estados Unidos do Brasil, nomeio ao posto de


Capitão o cidadão Virgulino Ferreira da Silva, a primeiro-tenente,
Antônio Ferreira da Silva e, a segundo-tenente, Sabino Gomes de Melo,
que deverão entrar no exercício de suas funções logo que desse
documento se apossarem. Publique-se e cumpra-se. Dado e passado no
Quartel-General das Forças Legais em Juazeiro 46

A carta, sem nenhuma validade jurídica, datada com o dia 12 de abril de


1926 (uma data claramente falsa, já que o cangaceiro se encontrava em
Juazeiro no começo de março), também reconhecia o direito de Lampião e de
seus comparsas de se locomover livremente, podendo atravessar as fronteiras
de qualquer estado nordestino, no momento que quisessem47. O “espantalho”
ganhou uma farda de mescla azul, os dólmãs do “BPJ” (Batalhão Patriótico de
Juazeiro), assim como uma platina com três galões de sutache branco, chapéu
de massa cáqui, botas, cartucheira, talabarte e farto armamento e munições4S.
Boa parte de seus “soldados” também foi uniformizada com a indumentária
das tropas legalistas, os bandoleiros recebendo um equipamento militar de uso
pessoal mais moderno do que aquele que estavam acostumados a utilizar até
então.

O fato é que Virgulino tinha até mesmo um corneteiro! Achou que se


tornara realmente um “oficial”, e comentou que queria ver se esse tal de
Prestes “prestava” mesmo.

O próprio Lampião havia dito, antes de ganhar a patente forjada de


“capitão”, ter participado de um combate contra os prestistas entre São
Miguel e Alto de Areias, onde, após “forte tiroteio”, teve de recuar,
juntamente com mais dezoito companheiros. Teria deixado vários
“revoltosos” feridos49. E que teria sido seu desejo se incorporar às “forças
patrióticas” de Juazeiro, já que poderia oferecer seus serviços e sua
experiência para vencer as batalhas contra os rebeldes.

Ainda assim, depois de supostamente se tornar “militar”, o “governador do


sertão” não foi levado a sério. Em pouco tempo percebeu que continuaria
sendo considerado um bandido pelas polícias dos estados da região, e que o
documento que carregava sempre consigo no alforje não seria respeitado.
Resolveu, por isso, permanecer na vida de crimes. E preferiu não mais
combater a Coluna Prestes; já tinha as volantes para se preocupar50

Nem mesmo o movimento operário no Nordeste, em geral mais forte nas


capitais (e, portanto, distante dos problemas do Sertão), mostrou qualquer
interesse sério no cangaceirismo. Preocupados inicialmente em organizar e
consolidar os sindicatos, as lideranças do proletariado constituíram
agremiações de estivadores, de trabalhadores de armazéns, trapiche e cargas,
de carvoeiros, de construção civil, de tecelões, de metalúrgicos, de padeiros,
de marceneiros, de gráficos, de transportes urbanos, de ferroviários etc. As
prioridades dos sindicalistas nordestinos eram as mesmas que a dos seus pares
no Sul do país. Por meio de Congressos e de greves, defendiam a jornada de
oito horas de trabalho, proibição do aumento de aluguéis, ensino gratuito e
laico, liberdade para comemorar o 1° de maio, construção de casas populares,
seguro de acidentes de trabalho, liberdade de greve, liberdade sindical, direito
à aposentaria para idosos e enfermos, ou seja, uma luta geral para garantir a
união e os direitos dos trabalhadores’. Mas a questão das secas, das migrações
e do banditismo rural não era profundamente discutida. Os militantes
operários urbanos realizavam eventos em homenagem a Lenin, mas não se
preocupavam em entender as causas e desenvolvimento do bandoleirismo no
Sertão. O nome de Marx deve ter sido muitas vezes exaltado em meetings
operários, mas o de Lampião provavelmente nunca foi mencionado, pelo
menos de maneira significava, nas discussões da época.

O fato é que o movimento operário nordestino nem sempre tinha força


numérica ou política. Para se ter uma ideia, em 1920, o Rio Grande do Norte,
por exemplo, possuía apenas 2.146 operários52. De perfil basicamente
artesanal e manufatureiro, o movimento operário do Nordeste no começo do
século XX concentrava-se em Recife. Tinha como seu “núcleo duro” a Usina.
As discussões sobre a questão agrária, contudo, eram incipientes e bastante
superficiais53.

Se o comunismo tinha dificuldades em ganhar os “corações e mentes” dos


nordestinos, e não tinha sucesso em penetrar no Sertão, o mesmo não pode ser
dito do “anticomunismo”, que ganhava força. Se Prestes ainda era, de certa
forma, respeitado pelo Padre Cícero durante os episódios da Coluna, ele seria
malvisto pelo clérigo após sua “conversão” ao marxismo. A força daquele
sacerdote e de outros, o poder dos “coronéis” e a ignorância de boa parte da
população impediriam que a mensagem do socialismo chegasse a ter qualquer
influência no interior nordestino.

Para o “santo de juazeiro”, a “infiltração” comunista no movimento


operário era inadmissível. Ele passou a colecionar todos os textos de Grigory
Besedovsky (representante diplomático da Rússia em diversas capitais
importantes, como Tóquio, Praga e Paris), um crítico feroz do comunismo.
Em 1929, quando embaixador na França, Besedovsky rompeu com seu
governo e começou a escrever contra seus dirigentes. O artigo “O caos
religioso no país da demência’ receberá especial atenção de Cícero,
especialmente nos trechos referentes ao antigo czar Nicolau II, chefe da Igreja
Ortodoxa antes da revolução.

O Padim mandou, inclusive, que jornais de Fortaleza e Recife


transcrevessem um artigo de D.João Becker (arcebispo de Porto Alegre),
intitulado “A família no Estado soviético”, no qual o religioso gaúcho atacava
a URSS e suas supostas práticas contra a família, as crianças e o casamento,
assim como denunciava a legalização do aborto, do divórcio e a
“escravização” das mulheres. Cícero concordava com todos esses ataques.

Ele guardaria, entre seus pertences, o manifesto de Prestes, no qual fazia


profissão de fé comunista. Foi uma grande decepção para aquele cura.

A palavra “comunismo”, quando chega aos lares dos pobres sertanejos,


torna-se quase o equivalente a um pecado e uma excomunhão. Muitos
romeiros iriam rezar contra os bolcheviques, vistos como os próprios
anticristos modernos. Lenin seria o Satanás vindo das “Russas”… Com
dificuldade em pronunciar “Rússia”, iriam dizer “Russas”, o que acabaria
criando uma alusão e confusão com a cidadezinha São Bernardo das Russas,
de apenas 5 mil habitantes, naquelas cercanias: achavam que o demo vinha de
lá… A ideia de que um padre ortodoxo (antes da Revolução) pudesse se casar
e ter filhos, também repugnava a Cícero, que reforçou à população os
horrores daquelas práticas. E as medidas tomadas pelos bolcheviques,
posteriormente, só o convenceram ainda mais de que aquele país representava
a destruição da moral e bons costumes cristãos54

O que se pode perceber, em certos momentos, em relação ao cangaço, é que
havia algo próximo de uma “revolta’ em seu duplo sentido: ou seja, uma
volta, um retorno, a certas práticas e valores arcaicos, assim como um estado
de rebeldia. Tanto místicos como cangaceiros se defrontavam com um mundo
em rápida transformação. Assim Câmara Cascudo descrevia o Sertão:

Conheci e vivi no Sertão que era das “eras de setecentos” […] Chuva
vinha do céu e trovão era castigo. O Sol se escondia no mar até o outro
dia. Imperavam tabus de alimentação e os cardápios cheiravam ao Brasil
colonial. Mandava-se fazer uma roupa de casimira que durava toda a
existência. Era para o casamento, para as grandes festas, para o dia da
eleição, do casamento da filha e era-se enterrado com ela. As mães
“deixavam” roupa para as filhas. E elas usavam. Os hábitos ficavam os
mesmos, de pai para filho. Calçava-se meia branca quando se tomava
purgante de Jalapa. Mordido de cobra não podia ouvir fala de mulher.
Nome de menino era o “santo do dia”. Os velhos tinham costumes
inexplicáveis e venerandos. Tomavam banho ao sábado, davam a bênção
com os dedos unidos e quase todos sabiam dez palavras em latim.

A herança feudal pesava como uma luva de ferro. Mas defendia a mão.
Os fazendeiros perdiam o nome da família. Todos eram conhecidos pelo
nome próprio acrescido do topônimo. Coronel Zé Braz dos Inhamuns,
Chico Pedro da Serra Branca, Manoel Bazio do Arvoredo. Nomes dos
homens e da terra, como na Idade Média. Tempo bonito?

Eram vários os resquícios “arcaicos” no Sertão nordestino. As histórias de


Carlos Magno e os doze pares de Franfa’, da Donzela Teodora3, da Princesa
Magalona4, da Imperatriz Porcinas, de Roberto do Diabo, de Miseno, ou O
feliz independente do mundo e da fortuna7, e tantas outras, assim como
manifestações folclóricas como o Bumba-meu-boi ou o Boi Surubim, eram
comuns. Também eram muito lidos o Lunário perpétuo’, a Missão abreviada,
o Dicionário da fábula10 e o Manual enciclopédico”. O uso de vários
símbolos medievais e religiosos nos chapéus dos cangaceiros, como a flor-de-
lis e a estrela de Salomão, por exemplo, são indicativos de que havia uma
forte permanência cultural incrustada no imaginário local.

O sebastianismo 12 também estava arraigado na cultura oral, tanto de


místicos como de cangaceiros. O povo do interior nordestino achava que
algum dia o rei de Portugal, D.Sebastião, sairia das ondas do mar com todo o
seu exército e entraria no Sertão para salvá-los das injustiças e da miséria. O
sebastianismo sertanejo - que misturava a história do monarca lusitano com
São Sebastião, o santo católico, confundindo os dois personagens num só
homem -, portanto, unia, numa mesma figura mítica, o poder terreno e o
celestial. A salvação estaria num indivíduo que ao mesmo tempo evocasse
uma casta “superior” (a nobreza), com o poder invisível, místico e
sobrenatural da religião. Dizia o povo da região:

Em nome de D.Sebastião, muitas atrocidades foram cometidas. É só


recordar o “profeta’ Silvestre José dos Santos14 e o beato João Ferreira15,
entre outros. A busca por um homem que fosse líder nos assuntos da Terra e
que tivesse uma aura mística e religiosa também possibilita entender como o
povo do Sertão, em determinado momento, começou a achar que o “capitão”
Lampião fosse, ele próprio, um santo.

No ano de nascimento de Virgulino, assim dizia, em relação ao signo de


gêmeos, o Lundrio perpétuo:

O varão que nascer debaixo da influência deste Signo será de boas


entranhas e liberal; denota que sua natureza o inclinará a não viver em
sua pátria; que andará muitos caminhos, será pessoa de muito crédito e
que se verá em perigo de água; e guarde-se de cão danado porque lhe
prognostica ser ferido dele; e finalmente denota que padecerá quatro
enfermidades até aos trinta anos e que daí em diante viverá mais são e
lhe promete sua natureza sessenta e oito anos de 16

Os lunaristas, em determinado momento, eram figuras quase que


imprescindíveis naqueles ermos. Especialistas em ler e interpretar o Lunário
perpétuo eram vistos como homens “iluminados”, quase uma raça eleita.
Guardavam o Lunário como se fosse um livro sagrado e davam “consultas”
ao povo local, que acreditava em tudo o que diziam‘7. Naquele ambiente, a
presença de “profetas”, visionários, adivinhos, magos e todo tipo de místicos
era constante.

Isso para não falar da Missão abreviada, uma obra quase tão difundida
como o Lunário. Esse livro chegou ao Sertão nordestino na metade do século
XIX e logo teve enorme sucesso, ainda que sua difusão fosse restrita. Era,
talvez, a principal obra de referência de beatos, “profetas” e religiosos leigos
da região, que tinham pouca cultura e dificuldades em compreender qualquer
linguagem mais rebuscada. Por meio dela, os mais pobres e desesperados
seriam catequizados. A Missão serviria, portanto, para “formar” vários
sertanejos místicos. Escrito pelo padre português Manuel Gonçalves Couto,
seu texto dizia, logo nas primeiras páginas, que tinha como objetivo converter
os pecadores e sustentar o fruto dos missionários da Igreja; seria, por isso,
muito útil para orações e para instruir o povo (principalmente das aldeias),
assim como também para os párocos, capelães e sacerdotes18. Serviria quase
como um “guia’ eclesiástico simplificado para auxiliar o homem do interior,
com pouca instrução, que podia encontrar naquela obra as respostas que tanto
procurava.
Um exemplo interessante: depois de ocupar o arraial de Canudos, em 1897,
os soldados do governo encontraram, entre os pertences de Antônio
Conselheiro, um exemplar da Missão, bastante desgastado e todo anotado’.
As diferentes interpretações dos dogmas religiosos, como se pode imaginar,
não eram aceitas pela Igreja oficial…

É possível dizer que o campo religioso, o meio econômico e os aspectos


culturais mais amplos, em grande medida, definiram e moldaram os principais
aspectos das relações entre os distintos atores sociais no Sertão nordestino. Há
uma profunda influência mútua entre a estrutura social (especialmente os
conflitos intrínsecos desta) e a religião. As variáveis aqui não operam num
vazio, mas num espaço geográfico, num momento histórico e num ambiente
social concretos e determinados: dentro de alternativas finitas, limitadas, os
atores, então, se movimentam e fazem suas escolhas. A força de determinadas
modalidades é substancial. Esses modos de agir e de interpretar o mundo
estão gravados nas mentalidades, ainda mais entre as classes populares do
hinterland, que supostamente têm menor receptividade ou exposição a um
influxo massivo de influências externas. Haveria, portanto, graus distintos de
alternativas, e implicações diversas para cada uma dessas escolhas.

A religião, seja a institucionalizada ou a de caráter popular, utiliza os


instrumentos socialmente acessíveis do contexto em que está situada,
incluindo aí a simplicidade ou complexidade da língua, os recursos naturais, a
formação cultural da população e os meios de produção, de distribuição, de
intercâmbio e de consumo, entre outros. Dentro das limitações do contexto
social em questão, ela irá operar e realizar suas proposições. Assim, um
conjunto de tradições solidificadas determinará o sentido do normal, do
aceitável, do permitido e do proibido, até como do desejável e do indesejável:
códigos morais e leis não escritas que permeiam o imaginário da população
sem que seja necessariamente preciso se impor condutas pela força.

A religião popular, neste caso, pode operar numa sociedade já estruturada,


ou pode agir ao longo do processo, sendo ela mesma parte da conformação de
um ambiente social mais complexo. No caso do Sertão, o que se constatou foi
uma religião vinda de fora, se impondo lentamente por meio da penetração
dos colonos portugueses e mamelucos, e se modificando ao longo do tempo.
Uma religião católica híbrida, popular, milenarista, milagreira, messiânica, de
santos cristãos e, certamente, mutante, maleável, modificada e influenciada
por signos e símbolos místicos africanos e indígenas: constantes intercâmbios
culturais.

A religião, de qualquer forma, não atua de maneira estática dentro de uma


sociedade de classes, mas, pelo contrário, também se relaciona (muitas vezes
promiscuamente) com seus distintos graus de poder, de dominações e de
interesses contraditórios. Em outras palavras, ela se movimenta dentro de uma
estrutura de dominação social classista conflitiva, ainda que ela tenha,
certamente, suas sutilezas e seja heterogênea em muitos de seus aspectos.
Essa estrutura limitará e ao mesmo tempo orientará a ação de instituições ou
de atores individuais em sua relação assimétrica de poder com o populacho,
condicionando sua margem de manobra intrínseca e moldando seu discurso,
suas práticas, seu desenvolvimento, sua organização, sua difusão e suas
possíveis transformações.

Qualquer elemento de fora que pudesse pôr em risco, ameaçar ou aparentar


ser uma heresia, portanto, era rechaçado. Assim foi com a tentativa de levar
dromedários para o Sertão. Trazidos de Argel para o Ceará (com o objetivo de
serem testados como um possível meio de transporte de carga, que, em teoria,
se aclimataria bem na região), assustaram a população, principalmente porque
também vinham acompanhados de alguns árabes a caráter, inclusive com
turbantes. Acostumados com as festas tradicionais, nas quais os mouros
“hereges” eram inimigos dos cristãos, os sertanejos consideraram aqueles
animais e seus acompanhantes como rivais do cristianismo. A experiência,
portanto, não teve o sucesso que os defensores da ideia queriam20.

A mesma rejeição sofreram muitos pastores evangélicos europeus e norte-


americanos, considerados satânicos por vários moradores do Sertão e Agreste.
A religião oficial e suas variantes populares já estavam arraigadas no
imaginário social e não podiam ser ameaçadas, ainda que alguns desses
missionários conseguissem ter seus seguidores. Em 1894, por exemplo, o
missionário escocês Henry John McCall e alguns auxiliares chegaram a
Garanhuns para pregar o Evangelho ao povo daquela cidade. Foram recebidos
com grande resistência pelo pároco local, o padre Pedro Pacífico de Barros
Bezerra, que convocou a população para perturbar, e se possível, impedir, a
primeira pregação do reverendo. O clérigo católico, alguns dias mais tarde,
realizou uma missa, difundindo aos moradores a ideia de que Satanás havia
chegado à cidade, fantasiado de pastor protestante, que estaria vestindo,
inclusive, um “cinturão vermelho” (a mesma indumentária do escocês), e que
teria de ser imediatamente expulso dali. Em torno de duzentos cidadãos,
muitos deles vaqueiros carregando longos facões, foram atrás dos
missionários, arrebentaram a porta de entrada do edifício onde se reuniam,
destruindo o púlpito e os bancos da sala de culto. Em seguida, subiram a
escadaria para o andar onde os europeus moravam, acompanhados de um
delegado de polícia, Belarmino da Costa Dourado, que ordenou que as
reuniões públicas dos evangélicos fossem suspensas. Apenas algumas poucas
pessoas apoiaram os estrangeiros’. Já os padres católicos alemães,
portugueses e italianos que peregrinavam no Sertão, por outro lado, tinham a
bênção do Vaticano e eram bem recebidos pelos clérigos católicos “oficiais” e
pelas massas do interior daquela região.

O Império também permaneceu bastante arraigado na mentalidade


sertaneja nas primeiras décadas republicanas. Por isso, em 11 de novembro de
1897, poucos dias antes da comemoração do aniversário da República, um
cangaceiro emboscou uma patrulha policial, matou dois soldados e gritou
“vivas” a Antônio Conselheiro e à monarquia`. Religião e poder temporal, os
dois andando juntos. Isso explica também, em parte, porque Lampião gostava
tanto de enfeitar seus chapéus com a numismática imperial. Entre seus
pertences, após seu assassinato, foram encontradas várias moedas do Império,
inclusive uma delas com a efígie de D.Pedro II.
O respeito dos cangaceiros pelas “autoridades” eclesiásticas e pelos santos
católicos era enorme. E ia além da simples veneração. Na forma rudimentar
de compreender a religião, viam os padres e os santos católicos como divinos,
possuidores de poderes mágicos, pelos quais deveriam ser respeitados. Os
casos são muitos. É possível dizer que os cangaceiros, de maneira geral,
sempre tiveram o maior respeito por religiosos”. É bom recordar aqui também
que a religião, a superstição e o misticismo eram vistos como partes
integrantes e indissolúveis de um mesmo elemento. São conhecidos casos de
padres que chegaram a benzer cacetes de jagunços antes de combates. E
clérigos, como o padre Macário, que foram considerados chefes de
cangaceiros. Alguns bandoleiros chegavam a molhar os punhais em água
benta, para proteção; outros, carregavam medalhas com imagens religiosas4.
Para se ter uma ideia, o padre Matto Grosso, vigário de Uauá, iria dizer que
Lampião era um enviado de Deus em missão na Terra. O “rei” dos
cangaceiros, nesse caso, ganhava também uma dimensão religiosa. Em 22 de
dezembro de 1929, em Queimadas, Virgulino deu dia santo e feriado, e ainda
foi responsável por batizar crianças e realizar casamentos2s. A lenda de
Lampião cresceu tanto que ele começou a ser considerado um santo por muita
gente no Sertão26

Lampião e seus asseclas rezavam, invariavelmente, todas as noites27.


Devoto do Padre Cícero, de Nossa Senhora, de São Lázaro, de Santa Luzia,
de São Jorge e de São Tiago, ele carregava em volta do pescoço um crucifixo
(roubado da Baronesa de Água Branca, em 1922) e levava sempre na
algibeira rosários e as orações de São Gabriel, de São Pedro e de São Paulo,
que, supostamente, o protegeriam28. Virgulino também carregava consigo o
livro A vicia de Jesus, de Ellen G.White, que lhe fora presenteado por um
comerciante. Ele evitava combater no Ceará, porque ali era terra do Padre
Cícero, assim como também tentava não lutar na Sexta-Feira Santa29. Suas
rezas, em teoria, poderiam torná-lo “invisível” contra seus rivais, ou protegê-
lo de picadas de cobra ou de balas dos policiais. Também teria o poder da
adivinhação, assim como sonhos premonitórios, que o teriam salvado de
várias situações difíceis. Conseguia, ainda, interpretar os fenômenos naturais,
como mugidos de boi, saltos de cabra, sons de pássaros ou canto de galos e
até prever chuva ou seca. Ele “consultava” ocasionalmente uma vidente, que
o ajudava em suas decisões. Mesmo assim, há quem diga que Lampião nunca
foi para o sertão do Piauí porque foi aconselhado a não atravessar a divisa por
motivos “mágicos”; naquele estado, aparentemente, haveria muitos
praticantes do catimbó, que poderiam lhe jogar algum feitiço30. Também
tinha medo de objetos feitos de chifre ou do mar, já que poderiam “abrir” seu
corpo. O sexo às sextas-feiras também era evitado, pelo mesmo motivo. Por
outro lado, supõe-se que um dos motivos que levaram Virgulino a escolher o
Raso do Catarina como refúgio foi o pretenso caráter “místico” e “sagrado”
da região31. O mesmo é dito por alguns em relação à área de Vila Bela, que,
emanando poderes sobrenaturais, teria protegido o “governador do sertão”32.
Os cangaceiros considerariam aquela uma região “encantada”.

Em certa ocasião, quando Antônio Silvino e seus “cabras” destruíam a casa


de Manoel Serafim de Araújo (fazenda Cantinhos, município de Areia,
Paraíba) e arrancavam à força os brincos de suas mucamas, a esposa do
patriarca apareceu com uma estatueta de Santo Antônio nos braços. Devoto
do santo, Silvino se acalmou, reuniu seu grupo e partiu dali rapidamente”. A
população humilde acreditava que Silvino tinha os poderes de adivinhação,
presságios e “corpo fechado”, e que também podia se transformar em cabras,
carneiros, touros e outros animais 34

Quase todos os cangaceiros importantes diziam ter o corpo fechado contra


facas e pistolas. O bandoleiro Cobra Verde, por exemplo, garantia que Jesuíno
Brilhante tinha o diabo no corpo. Muitos afirmavam que ele tinha o “corpo
fechado” porque levava “orações fortes” em um bisaco pendurado em volta
de seu pescoço35. Diz a lenda que só perdeu a vida porque foi alvejado com
uma “bala de chifre”, que não respeitaria corpo fechado36. O próprio Silvino,
mais tarde, também seguia a regra, e dizia acreditar que uma corrente com um
patuá, que carregava pendurada em seu pescoço, fechava seu corpo e o
livrava das balas dos inimigos37. Outras formas de tiros penetrarem em
homens “protegidos” consistiam em utilizar balas feitas de vela benta ou de
contas de rosários. E, como não podia deixar de ser, disparadas
preferencialmente do alto de uma torre de igreja38.

Alguns cangaceiros, supostamente a pedido de feiticeiras a quem


obedeciam, pagavam a “mulheres hipócritas” de igrejas para furtar para si
hóstias consagradas. Estas eram entregues às “bruxas”, que procederiam com
seu ritual mágico. Fariam uma grande cruz num pano retangular, estendido
numa sala de sua casa, e, depois da meia-noite, mandariam o sicário deitar-se
sobre aquele tecido esticado. Quatro velas em forma de cruz, então, eram
acesas, em volta do indivíduo. Após lhe fazer perguntas sabáticas, davam-lhe
um talho no braço, colavam a hóstia com o sangue na pele, giravam em
transe, em torno do bandido, proferindo orações, punham um corujão para
rasgar a mortalha à sua cabeceira e aos seus pés, recolhiam seu pagamento e o
mandavam embora39. Dessa forma, estaria protegido.

Mas a “modernidade”, aos poucos, chegava ao Sertão. Dizia Câmara


Cascudo:

A transformação é sensível e diária. As estradas de rodagem


aproximaram o Sertão do Agreste. Anulando a distância, misturaram os
ambientes. Hoje a luz elétrica, o auto, o rádio, as bebidas geladas, o
cinema, os jornais, estão em toda a parte. Os plantadores de algodão vêm
vender os fardos nas capitais. Os filhos se educam nos colégios
distantes. Tudo perto, pelo auto. O Rio de janeiro, a Corte, como
chamavam ainda em 1910, está ao alcance da mão. Com a “alta’ do
algodão e do açúcar os ex-fazendeiros mandaram fazer residências nas
cidades do litoral. Vão para o interior no período das “safras”. […]

Raro também será um lugar sertanejo que não tenha sido sobrevoado por
um avião. O cangaceiro conhece armas automáticas moderníssimas.
Gosta de meias de seda, perfumes. Alguns têm unhas polidas… Quase
todos usam meneios de “cowboy”, chapelão desabado, revólveres
laterais, lenço no pescoço. O lenço no pescoço, como os artistas cariocas
“representando” matutos do Nordeste, é uma influência puramente
teatral.4o

Enquanto se percebia uma reestruturação do Estado nacional, novas


relações políticas e sociais sendo constituídas nos níveis local e estadual,
novas tecnologias e o surgimento de outros atores políticos no país, há uma
tentativa, até certo ponto, de se manter à margem da realidade que se
desenhava. É claro que os bandoleiros tentarão se adaptar aos novos tempos.
Mas sua “revolta’ será em grande medida existencial, uma vez que buscarão,
mesmo que muitas vezes inconscientemente, manter um modo de vida
peculiar, diferente de alguns padrões sertanejos da época. Serão indivíduos
com dificuldades de se enquadrar no meio social convencional. Irão, por isso,
constituir uma comunidade à margem da lei e das convenções. Farão o
possível para, em boa parte do tempo, se manter afastados dos grandes
centros, seguindo uma vida nômade, trajando uma indumentária própria e
criando códigos “militares” de hierarquia e organização internos.

Por outro lado, paradoxalmente, também mostrarão interesse em se inserir


no mundo moderno. Tentarão, de sua própria maneira, muito peculiar, fazer
parte dele e ser “aceitos” pela modernidade41.

O cangaço, assim, também foi “moderno”. A teoria mais comum, quase um


clichê, é que aqueles brigands lutavam contra as mudanças e contra a
“modernidade”, rejeitando seus valores e suas manifestações, tentando se
afastar desse “novo” mundo que se configurava, fazendo o possível para
“reconstituir”, ou pelo menos “preservar”, uma realidade “arcaica’, de
imobilidades e atraso cultural, um ambiente estático de valores e códigos que
começavam supostamente a desaparecer. Nada mais longe da realidade.
Afinal de contas, os tempos históricos se cruzam, se sobrepõem. Nesse
sentido, “arcaísmo” e “modernidade” andavam juntos.

Numa leitura bastante interessante das ideias de Marshall Berman em


relação à modernidade, Antonio Paulo Rezende diz que

ser moderno é andar junto com o perigo, com a instabilidade e,


sobretudo, com a contradição. O homem moderno sente a segurança de
se ver cercado por tantas instituições e por ter conquistado um maior
domínio sobre a natureza, mas ao mesmo tempo não conseguiu exercer
um controle tranqüilo e efetivamente libertador sobre essas forças. Vive
numa aventura, com o risco de uma sociedade onde “tudo que é sólido
desmancha no ar”. Ser moderno é colocado, aqui, também como um
problema, uma convivência com a crise e até mesmo com necessidade
de recorrer ao anti-moderno para sobreviver às experiências de um
mundo que não é transparente, mas confuso e cheio de paradoxos.42

Os bandoleiros, ainda que aparentemente homens toscos, sabiam da


existência das inovações tecnológicas e tinham uma boa noção do ambiente
cosmopolita das grandes cidades. Eles logicamente também iriam querer sua
parte.

Lampião comprava ou se apropriava de tudo o que pudesse representar


uma novidade para melhorar a vida de seu bando, fosse um produto essencial
ou supérfluo. Em seus pertences, podia-se encontrar capa de borracha,
lanterna elétrica, binóculo e garrafa térmica, esta última que ganhara de
presente do “doutor” Eronildes. Ele também apreciava boa comida e boa
bebida: queijo holandês, vinho, cachaça e cerveja. Se ficasse rouco de tanto
cantar, dava um jeito de conseguir pastilhas para garganta. Tomava as
pastilhas Valda! Para escrever e anotar, uma caneta escolar com tinteiro da
marca Sardinha. Os cigarros Jockey Club eram os favoritos do bandido Volta-
Seca. Mas eles fumavam também os das marcas Caxias, Iolanda, Selma e Boa
Idéia. O chefe dos cangaceiros também encomendava charutos, sempre que
podia43. E o melhor conhaque, para todos eles, era o Macieira cinco estrelas!
Lampião também apreciava bastante uísque escocês. Seu scotch predileto era
o White Horse. A primeira marca de máquina de costura que chegou ao
Sertão foi a Progresso. Mas em seguida chegou um modelo mais arrojado, da
marca Singer, que custava em torno de 50 e 60 mil-réis e era a favorita dos
cangaceiros44. Os relógios, Omega. Os facões, da marca Jacaré. Eles também
usavam água de cheiro em abundância (os banhos eram escassos), tanto em si
como em seus cavalos: seu perfume favorito era o Fleur D’Amour, importado
da França, ainda que, se ele não estivesse disponível, espalhavam no corpo e
nas roupas uma marca mais popular, o Madeira do Oriente. O suor intenso, a
falta de banho e o excesso de uso de perfume davam aos cangaceiros um
cheiro corporal forte, bastante característico. Os cavalos, sem dúvida, eram
bem tratados. Muitas vezes, eram lavados com sabonete Eucalol e depois,
tinham os pelos untados com a loção Royal Briar. E quando ficavam muito
cansados, eram soltos. Os óculos escuros, muitas vezes usados apenas por
questões estéticas, se tornaram moda entre vários salteadores. Já Maria Bonita
(e possivelmente outras cangaceiras) costumava levar, em seu bogó, batom,
rouge, talco, pasta e escova de dente, algodão, grampos, espelhos e pentes45
Quando os cangaceiros faziam “compras”, os artigos mais procurados eram
meias, sabonetes e perfumes46. Já dizia o jornalista Melchiades da Rocha que
“as luvas, os objetos de toalete de Maria Bonita são uma prova evidente de
que os cangaceiros do Nordeste também são passageiros do trem do
progresso”47.

Sempre que podia, Virgulino tentava ser atendido por um médico


profissional, especialmente dentistas e oftalmologistas. E se tinha a
oportunidade de estar numa cidade com um bom doutor, pedia prontamente
pomadas para os olhos. Diz a lenda que certa vez o “governador do sertão” foi
levado por seu amigo, o “coronel” José Abílio, para um tratamento
oftalmológico em Recife. Teria ido para lá disfarçado, com cabelo e barbas
compridos, e usando óculos escuros. Na capital pernambucana, teria
aproveitado para andar de bonde e ir ao cinema48. Aparentemente ele
adorava filmes com histórias de amor. Mas, se por acaso, o casal de
protagonistas não ficava junto no final, não aguentava e deixava a sala de
cinema…
Em outra ocasião, ao encontrar, sem querer, numa estrada de Pernambuco,
um jovem médico oftalmologista, que havia acabado de chegar de seus
estudos no Rio de Janeiro, Lampião lhe disse que ele iria ter de acompanhá-
lo, e que ficaria isolado de seu mundo e de seus conhecidos por uma semana.
Depois de alguns dias tratando Virgulino, o rapaz foi liberado, após o
pagamento de 4 contos de réis pelo “tratamento”. O “governador do sertão”,
com toda a sua autoridade, garantiu ao jovem que não consentiria que nenhum
outro doutor trabalhasse naquela área. Isso seria para se certificar que ele
fosse o único “dotô” nas redondezas. Assim, ele teria o monopólio dos
atendimentos e poderia constituir sua própria clientela. Aparentemente, o
jovem médico ganhou muito dinheiro49

O “espantalho”, em outras ocasiões, também tratou de seu olho direito com


Dr. Cordeiro, de Triunfo, e com o Dr. Leão Sampaio, de Barbalha, no Ceará50

É interessante perceber que a “medicina’ lampiônica tinha tanto aspectos


“arcaicos” como “modernos”. O “rei” dos cangaceiros era supostamente o
médico de seu bando e se utilizava de diferentes técnicas, tanto “populares”
como “avançadas”, para cuidar de seus homens. Ele trazia consigo uma bolsa,
onde carregava algodão, iodo, ácido fênico, pinça, sonda, gaze e
comprimidos. Por outro lado, dependendo do tratamento, preparava chás ou
emplastros de pimenta malagueta com casca de angico torrada, para
ferimentos leves; utilizava bebidas alcoólicas fortes para assepsia; e em
alguns outros tipos de ferimentos mais profundos, preparava um pirão de
farinha com pimenta, “pó de sola” e pólvora, que era colocado no buraco da
bala. Em teoria, o paciente ficava curado em pouco tempos’. Para perfurações
de bala ainda havia outro remédio: o “chá de pinto”. Primeiro se lavava o
local com teia de aranha e pucumã com açúcar. Em seguida, esmagava-se um
pinto vivo dentro de um pilão e misturava-se a gosma resultante com um
cozido de casca verde de quixaba. Isso tudo era coado e depois ingerido pelo
paciente. Se o bandido ferido vomitasse, isso significava que o tratamento
estava dando certos. Nas “operações”, chegavam a costurar as barrigas com
agulha de costurar couro, enfiando-as dentro da pele. Se nessas ocasiões
tivesse febre, fazia-se um suador de semente de melancia e casca de angico
com água de sereno. Para o reumatismo, garrafadas de tipim ou fricção de
banha de cascavel, de veado ou de ema53. Para eliminar piolhos, os
bandoleiros supostamente untavam a cabeça dos comparsas com uma pasta de
sementes de pinha torradas misturadas com óleo de pequi. Dores de cabeça se
resolviam com folhas de algodão quentes ou gengibre; para espinhas, fezes de
galinha; para amigdalite, gargarejo de chá de formiga e cozimento de angico
com sal; resfriados eram tratados com umbu verde cozido no leite; para
verrugas, leite de avelós misturado com sangue de menstruação; e então, para
indigestão, azeite de carrapato com vinagre e goma54. As dores de dentes
eram, em geral, tratadas com um mingau composto de água, pucumã, um
dente de alho, pimenta-do-reino, casca de besouro, sal e goma55 Ou então, o
dente era simplesmente arrancado, fosse com facas ou com alicates. Isso tudo,
é claro, à base de muitas orações.

Se nesse período a religiosidade e o misticismo ainda continuavam fortes,


eles seriam, cada vez mais, objeto de comércio e de consumo. Os visitantes de
Juazeiro iriam comprar fotos e medalhas do Padre Cícero e de santos
católicos, dar esmolas e oferecer dinheiro para a Igreja local. Esse capital iria
muitas vezes ser desviado e ajudaria a engrossar as finanças de gente próxima
do padre, sendo depois investido em empreendimentos comerciais na própria
cidade, como o Matadouro Modelo e a Empresa de Luz de Juazeiro, assim
como em casas de santos, açougues e uma fábrica de molduras56. De
estatuetas a relógios, a produção local se incrementou em torno da religião.
Os artesãos iriam fornecer suas peças para as igrejas ou as venderiam aos
romeiros que afluíam ao local.

Os bandoleiros só não suportavam o telefone e o telégrafo. Não que fossem


contra esses aparelhos per se, mas porque podiam ser usados para denunciá-
los. A “modernidade”, aqui, seria uma faca de dois gumes. Nesse caso, o
“moderno” podia se metamorfosear em “arcaico”: cortavam os arames dos
fios telegráficos e os transformavam em chicotes reforçados17.

Uma das histórias mais conhecidas do “governador do sertão” é sua viagem


de barca até Traipu, em 17 de abril de 1938, na qual viajava também uma
banda de jazz completa, da cidade de Pão de Açúcar. Virgulino e seus homens
seguiam numa canoa, na escuridão da noite, quando avistaram o barco maior.
Abordaram-na para espanto de todos ali. Naquele momento, o “capitão” tirou
um maço de dinheiro do bolso (50 mil-réis para cada músico) e pediu para
que tocassem. E assim, lá se foram Lampião e seus asseclas, navegando pelo
São Francisco, até a localidade de Saco do Madeiro, ao som de músicas de
Louis Armstrong e Cole Porter, assim como foxtrote, Dixieland jazz, blues,
valsas e marchas de carnaval em voga naquela época! Certamente, algo
inusitado. De acordo com uma matéria do Correio de Sergipe, publicada
quatro meses mais tarde, Lampião era apaixonado pela música de “ritmos
travessos” e teria aproveitado muito aquela soirée original, com personagens
sinistros e melodias da Broadway, tendo à sua volta o cenário noturno
sertanejo58.

Em outra ocasião, anos antes, em Queimadas, em dezembro de 1929,


Virgulino pediu para ser entretido naquela cidade. Neste caso, queria que
Antônio Rosa dos Santos, um morador local, cantasse Gosto que me enrosco,
um samba-canção de Sinhô, lançado em 1928, na voz de Mário Reis, música
muito apreciada na época. Lampião adorou. E os outros cangaceiros
aplaudiram.

Mas se o cangaço também era “moderno”, à sua maneira, foi justamente o


encontro com a “modernidade”, em grande medida, o elemento que decretou
o seu fim. Havia claramente uma relação ambígua de aproximação e rechaço
do mundo “moderno”. Os brigands de um lado queriam se aproximar de
cidades grandes e cobiçavam usufruir o que elas tinham de melhor: bebidas
caras, cigarros, armas. Mas esse universo os rejeitava: não conseguia nem
queria absorver os marginais. Uma incompreensão mútua.

Um episódio muito interessante é o do passeio de carro de Lampião de


Cumbe a Tucano. Sabendo que o padre César Berenguer era dono de um
moderno Ford modelo T, ordenou ao clérigo que levasse ele e mais sete
homens até o vilarejo de Tucano. Berenguer, amedrontado, concordou em
levar o “espantalho” e mais três sequazes. Outro sacerdote, o padre Eutímio,
teria de emprestar seu automóvel para os quatro cangaceiros remanescentes.
No meio do caminho, Berenguer provocou um enguiço no carro: apagou os
faróis e trancou a circulação da gasolina. Saiu do automóvel e, como um ator
de teatro, abriu o capô, olhou o motor e disse que só um mecânico poderia
consertá-lo. Os cangaceiros, acreditando nele, abandonaram o veículo e
correram para as fazendas próximas, gentilmente procurando uma montaria
que levasse o sacerdote a seu destino. Assim, desprezados, os quatro bandidos
foram obrigados a se acomodar no carro em que iam seus outros
companheiros59.

O fato é que Lampião sabia da praticidade e conforto do automóvel, e


queria usufruí-lo. Mas o representante do mundo “instituído” naquela
instância, o padre Berenguer, o rechaça como uma aberração, como um
elemento incômodo e perigoso que não podia interagir de igual para igual
com a “cidade”, com a “civilização”.

Outro episódio sintomático ocorreu quando transitavam em automóveis,


em novembro de 1929, de Capela a Nossa Senhora das Dores. No meio do
caminho, os cangaceiros abandonaram os carros e continuaram a viagem a
cavalo: deixavam para trás a tecnologia e a “modernidade” e voltavam a seu
mundo “antigo”.

E em dezembro do mesmo ano, ao sair de Cansação, depois de festejar e


beber à vontade, o “homem” se apossou de um caminhão Chevrolet da Ifocs,
mandou que seu séquito de dezessete salteadores subisse na carroceria e
seguiu para Queimadas. Mas, mesmo com motorista “particular” e a
tecnologia em mãos, não largaria para trás os cavalos: suas montarias
seguiriam o veículo, conduzidos por Miguel Calixto, até a próxima cidade.

Em outras palavras, eram homens divididos, complexos, “modernos” e


“arcaicos” ao mesmo tempo. Apesar das crendices e formas de conduta,
entretanto, os cangaceiros eram, como todos os que viviam tanto no sertão
como no litoral, homens de seu tempo, e estavam, portanto, passíveis de
receber todas as influências de sua época. Mesclavam, então, alguns dos
elementos psicológicos e culturais de um passado “arcaico” com o que havia
de mais novo naquele momento.

Eles, por certo, viam-se como homens de seu tempo. E como tais, nada
mais natural do que querer se integrar à “modernidade”. Mas seria possível
isso? De que forma participariam da realidade política e social brasileira, se
eram outcasts, marginalizados e incompreendidos pela maioria da população?
Nesse caso, de uma única forma: criando uma realidade paralela, que
reproduziria certos aspectos do mundo convencional, mas adaptando algumas
de suas práticas para sua forma de viver, mais fluida e livre.

Quando chegava a um povoado, Lampião avisava que ali era a “autoridade


máxima”. Se não o era defacto, seria por imposição, pela força das armas. Se
ele não tinha poder “real” no mundo “oficial”, então criaria seu próprio
espaço de atuação, onde efetivamente teria poder. Como diria John Milton em
seu Paraíso perdido, “é melhor ser rei no inferno do que servo no Céu”. Por
isso, não é de se estranhar que Virgulino muitas vezes fosse padrinho de
várias crianças em cidades do interior, chegando a ponto de escolher seus
nomes e de batizá-las, com toda a autoridade que acreditava ter.

Lampião, portanto, era a “lei”. Em julho de 1924, o maior exemplo disso.


Depois de invadir Souza, os cangaceiros prenderam o juiz de Direito da
Comarca em casa, em trajes menores, o conduziram pelas ruas da cidade e
depois o “leiloaram”! Foi arrematado pelo preço de 1 cruzado! Em seguida,
fizeram com que ficasse de quatro e o montaram como um cavalo. Gritavam:
“Montem nesse juiz de merda que ele só presta para se andar montado com
bom par de espora que é para ele ver como é bom se montar nos outros. Ele
monta a caneta nas nossas costas e nós monta nas costas dele com reforçado
par de esporas” .60
Mas as humilhações não pararam por aí. Perguntaram ao juiz se ele sabia
dançar. Como este disse que não, falaram: “Vai aprender agora mesmo.
Vamos lhe dar uma boa dama que vai lhe ensinar a dançar”61. Então,
começaram a atirar nos seus pés. O Juiz movimentava-se rapidamente, dando
pulos para se desviar das balas, em desespero. Os cangaceiros davam
gargalhadas62. Após saquear Souza, os bandoleiros roubaram todos os carros
da cidade e desfilaram neles, cantando Mulher rendeira, demonstrando
enorme alegria63.

Na pensão da Dona Júlia, em Queimadas, o “capitão” mandou os hóspedes


trabalharem como garçons. E então, aqueles indivíduos (muitos deles
caixeiros-viajantes de passagem pela cidade) serviam as mesas dos
cangaceiros, que faziam o papel de clientes comuns. Logo depois da refeição,
Virgulino foi para a Sociedade Filarmônica Recreio Queimadense, com o
objetivo de assistir a um filme no cinema improvisado no salão principal do
clube. E, saindo de lá, entraram na casa do pedreiro Félix Rato, onde
organizaram uma festa que durou até altas horas da madrugada. Afinal, lá
havia “luz de motor”!

Nessa vila, já na casa de outro morador local, Álvaro Sampaio, terminada a


conversa entre os dois, o “espantalho” olhou um chapéu de caubói (que o
anfitrião usava no trabalho, como funcionário da Ifocs) pendurado e pediu
para comprá-lo. Sampaio achou por bem presenteá-lo ao convidado. Dessa
forma, Virgulino estaria na moda!

Alguns anos mais tarde, o Diário de Notícias, de 21 de junho de 1930,


anunciaria:

Lampião abandona o sertão da Bahia! Dirigindo-se à Capital vem


comprar chapéus na Chapelaria Brasileira, que está liquidando cerca de
60.000 chapéus de palha, feltro e lã por qualquer preço. Aproveitem.
Todos à Chapelaria Brasileira.64

É claro que isso era uma brincadeira, uma jogada mercadológica, uma
propaganda. Mas representa de certa forma o mundo “oficial” incorporando
os cangaceiros em seu imaginário social.

Outro anúncio também usava a imagem de Lampião para divulgar seu


produto. As “pílulas de vida do Dr. Ross” informavam, numa propaganda
publicada na revista Boa Nova, em sua edição de dezembro de 1933, que
Lampião era o pavor dos sertanejos, invadindo lares e levando o sofrimento
para o povo do interior. Ele não atacava de frente, em luta leal, mas escondia-
se nas trevas, acoitava-se nos barrancos e embuçava-se nas grotas para
espalhar destruição. A prisão de ventre, em comparação, agia da mesma
forma, aninhando-se sorrateiramente no corpo humano e provocando males
infinitos pelo relaxamento do intestino. Por isso, “para o combate ao
banditismo de Lampião o país arma os seus soldados adestrados. Para
combater a prisão de ventre, as PÍLULAS DE VIDA DO DR. ROSS, na dose
de uma ou duas por noite, são as armas seguras, de feitos infalíveis”.

O mesmo pode ser dito do Padre Cícero, que teve seu nome usado em
rótulos de diferentes marcas de produtos farmacêuticos, caixas de pó de arroz,
remédios para coceira e medicamentos para a tosses

Igualmente, o que movia prioritariamente o árabe Benjamin Abrahão ao


filmar Lampião e seus asseclas era o dinheiro. Ele acreditava que seu filme
poderia ser um sucesso comercial, trazendo-lhe, possivelmente, um bom
retorno financeiro.

Em grande parte do Sertão da época, muitas pessoas não eram registradas


em cartório quando crianças. Não tinham sequer uma identidade. Para as
autoridades e para as instituições, elas não existiam, não eram ninguém.
Alguns desses indivíduos, portanto, iriam construir suas próprias identidades
ao longo do tempo, dentro de suas comunidades ou, neste caso, das fileiras de
cangaceiros. Quando ganhavam sua alcunha, tornavam-se finalmente alguém.
Seus “apelidos”, aqueles pelos quais iriam ficar conhecidos e pelos quais
seriam “respeitados”, se transformariam, em última instância, em seu nome
real. A influência da “modernidade” podia ser encontrada até nos nomes de
alguns cangaceiros: Moderno, Zepelim, Elétrico, Avião, Piloto.

Lampião, de fato, destruía os documentos “oficiais”, fosse em casas de


particulares, fosse em escritórios públicos. E também produzia seus próprios
documentos. Na região onde atuava, costumava circular um salvo-conduto
expedido pelo “governador do sertão”, uma espécie de passaporte com a
fotografia do viajante. Isso garantiria que a pessoa que carregasse aquele
papel consigo poderia transitar com segurança na área dominada pelos
salteadores. Quem forjasse seus documentos seria sumariamente executado.

Os cangaceiros também eram “modernos” em sua relação com as mulheres.


Afinal de contas, viviam, muitas vezes, em regime de concubinato, sem serem
casados pela Igreja católica, o que era algo malvisto pela sociedade
tradicional. Estar junto de suas companheiras, portanto, era mais importante
do que constituir laços de matrimônio “oficiais” ou religiosos, ainda que
alguns bandoleiros procurassem se casar na Igreja. 0 papel das mulheres nos
acampamentos, como mostramos, também era mais avançado e bastante
diferente do padrão do Sertão naquele período.

Existe até mesmo uma história, possivelmente verdadeira (mas que já


entrou para o campo da lenda, de qualquer forma), sobre Maria Bonita
dirigindo um automóvel Ford na fazenda Cuiabá, em Sergipe. Sempre que ia
para lá, ela colocava os “meninos” dentro do carro e arrancava, do jeito que
podia, correndo pelas estradas esburacadas dentro da propriedade, enquanto
os bandoleiros, se divertindo, gritavam e riam a valer”

Como cangaceiros, como detentores de uma parcela de poder no hinterland,


criariam suas próprias leis. Se a maior parte das metrópoles e capitais se
encontrava no litoral, então Lampião construiria seu “reino” no interior, onde
poderia atuar mais livremente e onde teria maior autoridade.

Ao chegar a Betânia, em 24 de dezembro de 1924, Lampião e seus asseclas


decidiram comemorar o Natal com o resto dos moradores da cidade: beberam,
passearam de carro, andaram num carrossel, armado no meio da rua67. E em
fevereiro de 1925, em Custódia, Lampião preparou um telegrama, que deveria
ser transmitido ao governador do estado. No comunicado, ele dizia que o
governo mandava das “pancadas” do mar às “pancadas” dos trilhos da Great
Western, em Rio Branco (atual cidade de Arcoverde). Mas que ele, Virgulino,
mandava de Petrolina (nas “pancadas” do rio São Francisco) até Rio Branco.
Ou seja, ele dividia o estado ao meio, atribuindo a si mesmo o governo de
parte dele68. O telegrama, contudo, acabou não sendo enviado.

Em seguida, os bandidos entraram eufóricos em Mata Grande, para “pular


o carnaval”. Ingressaram na cidade soltando fogos de artifício e tocando
marchas carnavalescas. A população, armada, os expulsou da cidade69.

Lampião acreditou tanto que era, defacto, o “governador do sertão”, que


mais tarde, quando apareceu em São Francisco, mandou dois emissários
negociar com as autoridades de Nazaré sua permanência na região do
Moxotó: afinal, ele se considerava, realmente, o chefe de governo de todo o
Sertão, de Rio Branco para cima. A cidade de Nazaré, dessa forma, teria de
reconhecer sua posição e deixar de lado as armas. Em troca, ele garantira que
não ultrapassaria um limite imaginário de 3 a 4 léguas em torno daquela
cidade. Os nazarenos, por seu lado, poderiam fazer uma contraproposta, caso
quisessem. Se o acordo fosse selado, os moradores locais poderiam andar
livremente, despreocupados, pois não seriam incomodados em nenhum
momento por ele. Como de costume, eles não aceitaram70.

Em certo momento, inclusive, Virgulino decidiu utilizar a terminologia da


Era Vargas e começou a dizer para todos que ele era o “interventor do sertão”.
De qualquer forma, Lampião via a si mesmo como uma figura importante, de
respeito. Teria declarado certa vez, inclusive, que só deixaria de ser
cangaceiro se fosse para ser presidente do país71.

No final de novembro de 1929, o “homem” entrou na cidade de Capela, em


Sergipe, sendo recebido pelo prefeito com honras de chefe de Estado. E
enquanto a banda de música tocava, ele abraçava alegremente as autoridades
locais e em seguida caminhava pelas ruas, segurando no braço do alcaide.
Naquela instância, Virgulino estava ansioso para ir ao cinema72. Depois da
película, ainda jogou sinuca com os moradores. Como se pode imaginar, ele
ganhou quase todas as partidas73.

Também houve um caso em que, durante um combate em Nazaré, Lampião


e seus cabras lutavam ao mesmo tempo em que tomavam refrigerantes
gaseificados. Até disso os cangaceiros gostavam74.

Nos anos 1930, por exemplo, quando estava cansado, “despachava”


subgrupos para agir nas redondezas, enquanto dava as ordens de seu quartel-
general, no coito em que estivesse no momento. Parecia quase um governante
de verdade, enviando seus emissários para cumprir tarefas “oficiais”! Seus
asseclas, assim, agiam como seus embaixadores, seus representantes.

Para manter-se informado do que acontecia nos centros urbanos, gostava de


ler as notícias sobre atualidades, assim como sobre suas próprias façanhas.
Lia, no meio do Sertão, O Cruzeiro, Fon-Fon e Noite Ilustrada, entre outros
periódicos da época. De um lado, dava a entender que fazia parte do cotidiano
nacional, de que estava a par do que ocorria no país e no mundo. De outro, ele
entrava nos lares das famílias urbanas por meio das matérias da grande
imprensa. Ao se tornar famoso, seria de alguma forma aceito e respeitado.
Não estaria, portanto, completamente isolado, já que seria conhecido e
discutido nos salões e cafés muito distantes de onde vivia. Se podia, lia as
revistas e jornais da época, também para se manter a par dos acontecimentos
do momento. Inclusive do que seus próprios “cabras” andavam fazendo. Foi
lendo um jornal que Virgulino ficou sabendo do assassinato de Gavião pelo
guia de seu bando75.

O Sertão, portanto, não estava tão isolado quanto se poderia imaginar. As


revistas e jornais das capitais podiam ser encontrados nas casas de muita
gente naquela região. Havia aqueles que assinavam o jornal da Província e o
Diário de Pernambuco, por exemplo76. Isso sem contar com as informações
que podiam conseguir pelos muitos periódicos locais, pelo cinema e pelos
indivíduos que viajavam constantemente pelas ferrovias e estradas entre o
litoral e o sertão.

Em realidade, desde meados do século XIX se podia encontrar nas


residências de senhores de engenho e de fazendeiros o jornal das Famílias e o
Almanak de Lembranças Luso-Brasileiro, que publicava diversos autores
importantes da época, como Machado de Assis, Carlos de Laet e Joaquim
Nabuco, poemas, biografias, e jogos de enigmas e charadas para um público
mais sofisticado. Naquele período, muitos donos de terra liam (ou pelo
menos, possuíam) revistas e jornais europeus, a Revue des Deux Mondes e a
PalI Mall Gazette. Suas bibliotecas muitas vezes também eram razoáveis,
com edições de autores clássicos e contemporâneos77.

Um exemplo é ilustrativo aqui. A partir de 1926, os assuntos que mais


interessavam ao Padre Cícero (que vivia, como se sabe, em Juazeiro, sertão
do Ceará) eram a luta de Augusto Sandino contra o imperialismo norte-
americano na Nicarágua, a conciliação do Vaticano e o Quirinale, e a disputa
eleitoral entre Júlio Prestes e Getúlio Vargas para presidente78. Também a
concessão de terras paraenses a Henry Ford para a exploração de seringais e
uso de matérias-primas locais lhe causava indignação79. Seriam essas
preocupações “comuns” entre os homens sertanejos? Não seria esse o
exemplo claro de que o Sertão não estava tão isolado quanto se pensa? Afinal,
até Sandino, a quem o sacerdote chamava de “o rebelado magnífico das
montanhas”, chegava ao interior cearense pela imprensa! As informações que
chegavam pelos jornais possibilitavam que um homem como Cícero pudesse
se inteirar e se entusiasmar como eventos muito distantes de sua realidade. E
Sandino se transformou no grande ídolo do já octogenário religioso80. Cícero
era assinante de jornais católicos, como O Nordeste, A Cruz e A Verdade, que
ele recebia em sua cidade81. Ele chegou até mesmo a ler livros socialistas,
indicados pelo jovem Pedro Coutinho Filho (que iria mais tarde dividir uma
cela com Prestes no Rio de Janeiro), ainda que sua pequena biblioteca fosse
composta basicamente de livros sobre religião, biografias de santos (em latim)
e alguns relatórios volumosos do Ministério da Agricultura.
Em distintas cidades sertanejas não era incomum encontrar grêmios
literários. De 1870 a 1934, surgiram 85 cenáculos, como em Barbalha, Crato
e Iguatu, com o Gabinete de Leitura, o Grêmio Literário Padre Miguel
Coelho, o Centro Artístico e Literário, a Biblioteca Popular, os Romeiros do
Porvir e o Grêmio Humberto Campos, entre outros (desde 1892, Santana do
Cariri possuía a Sociedade Literária 11 de janeiro)”.

Em Mossoró, entre o sertão e o litoral do Rio Grande do Norte, no


semiárido potiguar, também se podia perceber um grande dinamismo
econômico e cultural. Entre 1877 e 1920, a cidade viveu seu apogeu. Lá
chegavam os melhores tecidos da Inglaterra e da França, tafetás e sedas, as
melhores companhias teatrais europeias, tenores e barítonos italianos,
clássicos da literatura, que circulavam na cidade, e artigos manufaturados. De
acordo com Brasília Carlos Ferreira, “esse cosmopolitismo pode ser expresso,
por exemplo, no fato de que, do final do século XIX para o início do XX,
havia em Mossoró cerca de cem pianos”83.

É bom recordar que o cangaço chega a seu ápice no momento de maiores


câmbios e modernizações no Brasil. Foi justamente na era do cangaço
epidêmico que se construíram mais ferrovias e estradas no país.

A população sertaneja certamente gostava da ideia de uma maior integração


com a capital e outras cidades, ainda que alguns cidadãos mais humildes
pudessem achar que as locomotivas fossem a corporização do mal e
instrumentos potenciais da opressão84. Alguns achavam que a construção de
vias férreas ajudaria a acabar com o cangaceirismo. Artur Ramos certa vez
chegou a comentar que “só não surgirão outros Lampiões se as locomotivas
penetrarem pelo Nordeste adentro, com a sua missão civilizadora, conduzindo
a escola, a higiene, o trabalho e a justiça”85. Uma opinião ingênua, sem
dúvida. Mas, vejamos brevemente o papel das ferrovias no Sertão e Agreste
nordestinos. A segunda ferrovia do Brasil (e a primeira feita por uma empresa
inglesa), a linha de Recife até o sudoeste de Pernambuco, na junção dos rios
Una e Pirangi, construída pela San Francisco Railway Company Limited,
começou a ser feita em 1855, alcançando Palmares em 1862, e sendo
ampliada em mais 141 km até Garanhuns, em 1887, tornando-se, por algum
tempo, importante fator de integração e barateamento de custos de produtos
no estado. Em 1884, foi terminada a construção de uma linha secundária de
Glicério, ao sul, até Alagoas, e mais 47 km foram feitos do nordeste de
Ribeirão até Bom Destino. Essa estrada de ferro britânica, que também
possuía capital investido pelo Barão de Mauá, foi um fracasso financeiro. Nos
anos 1880, outra empresa inglesa, a Great Western Railway Company, ligou
com duas linhas férreas, que saíam da capital pernambucana e iam até
Limoeiro e Timbaúba. A Estrada de Ferro Central de Pernambuco começou a
ser construída em 1881, e seis anos mais tarde já possuía 180 km86. Mas as
taxas de frete continuavam altas; as rotas dos trens, feitas para beneficiar
alguns indivíduos; as bitolas, demasiadamente estreitas e muitas vezes, de
tamanhos diferentes, dependendo da linha; os serviços, insatisfatórios; e ainda
havia demora em transportar produtos. Também não havia grandes incentivos
para uma penetração volumosa e significativa de locomotivas no Sertão
nordestino. De acordo com os censos de 1872 e 1890, aquela região de
Pernambuco possuía menos de um quinto da população do estado. A
produção sertaneja “exportável” também não proporcionava grandes receitas
de fretes87. Os ingleses também investiram em outras linhas férreas no
Nordeste, como a Nova Cruz, no Rio Grande do Norte; a Conde d’Eu, na
Paraíba; a Alagoas Brazilian Central, em Alagoas; e a já mencionada Great
Western of Brasil, que começou a ser construída em 1879 e foi concluída em
três anos. Ainda que essa tenha sido a ferrovia de maior êxito, teve uma
influência modernizadora na zona pela qual percorria, bastante limitada”. O
mesmo pode ser dito da Bahia and São Francisco Railway, da Paraguassu
Steam Tram-Road e da Brazilian Imperial Central Bahia Railway, que
também não tiveram sucesso89. O fato é que, se nos primeiros anos da
República Velha houve uma redução no impulso de investimentos em estradas
de ferro, a partir de 1901, com empréstimos externos para ampliar esse setor,
a construção e melhorias da malha ferroviária decerto ganhou força,
principalmente no período entre 1908 e 1914, época em que se importaram
grandes quantidades de equipamentos, trilhos e acessórios para ferrovias90.
Esse foi considerado o período “áureo” das ferrovias no país9’. Ainda assim,
a maior parte destes investimentos foi feito no Sul e Leste, sendo as outras
regiões relegadas a um papel secundário (em 1945, por exemplo, o Nordeste
possuía apenas 4.526 km de extensão de estradas de ferro, em comparação
com 14.590 km no Leste, com 14.049 km no Sul, e com 35.280 km em todo o
país)92.

Houve algumas tentativas de ataques de cangaceiros a trens. Em 1906, por


exemplo, Antônio Silvino fez de tudo para impedir os trabalhos de cassacos e
engenheiros nas estradas de ferro: detinha pessoas, pedia resgates, parava
comboios e cobrava o dinheiro da passagem aos viajantes. Depois de prender
o empreiteiro Francisco de Sá, pediu que este levasse um recado aos ingleses.
Silvino queria que soubessem que se a locomotiva passasse por suas terras,
deveria pagar 30 contos de réis a ele como indenização por cruzar por seu
território93. Por seu lado, Lampião também fez das suas nas ferrovias:
incendiou algumas estações de trem, como em Itumirim, na Bahia94. Mas
quando tentou tomar a estação ferroviária de Mossoró, não teve sucesso95.

Já as rodovias ganharam impulso a partir de meados da década de 1920.


Mas, como nas ferrovias, esse foi desenvolvimento desigual. Nos anos 1930,
a extensão das rodagens mais do que dobrou, com uma construção média
anual de 15 mil quilômetros de novas estradas96. Ainda assim, em 1939, em
torno de 96% de todas as estradas do Brasil eram de terra, e 75% não tinham
qualquer espécie de melhorias 97. Naquele mesmo ano, o país inteiro só
possuía aproximadamente 190 mil veículos automotores. Ou seja, menos de
um carro por quilômetro rodoviário98. Tanto as estradas como os automóveis
estavam, principalmente, concentrados nas regiões Sul e Sudeste do país. Para
se ter uma ideia, entre os anos de 1928 e 1943, houve um aumento de 2,5
vezes nas estradas dessas regiões. Já no Nordeste, no mesmo período, sequer
duplicaram. Em grande medida, essas rodovias eram construídas pela Iocs e
Ifocs. Ou seja, obras do governo contra as secas99.

Por isso, não se pode superestimar o papel das rodovias na destruição do


cangaço, ainda que tivessem parte relativa para seu final. As estradas de
rodagem eram, em termos globais, poucas no Sertão, se comparadas com
outras regiões do país. Os cangaceiros puderam conviver com elas durante um
bom período, ainda que fossem um elemento a mais para complicar sua
situação.

Em alguns casos, os bandoleiros chegavam a atuar bem próximos das


estradas. Isso não quer dizer, contudo, que gostassem delas. Afinal, era pelas
rodovias que muitos caminhões repletos de volantes se dirigiam ao interior. O
“governador do sertão” chegou a ameaçar vários donos de caminhões que
cediam seus veículos para a polícia”’. Uma notícia do Correio de Aracaju, de
3 de dezembro de 1934, falando do grupo de Zé Baiano, mostra claramente
isso: “O bando está operando a 4 km da cidade de São Paulo (Frei Paulo),
onde há estrada de rodagem””’

Mas, gradualmente, foi se tornando cada vez mais complicado atacar os


operários que trabalhavam nas rodovias e impedir a construção de estradas,
por dois motivos. Primeiro, porque algumas comissões locais da Ifocs
começaram a utilizar homens armados para proteger as obras com potentes
fuzis Thompson calibre 45, de fabricação norte-americana, uma arma pesada,
cara e simples de se manusear, que praticamente nunca falhava e que era
famosa por sua alta precisão. Pesava 5 kg sem munição e até 15 kg quando
estava completamente carregada. Suas balas, enormes, podiam destroçar
qualquer pessoa que fosse atingida. Com pente reto, atirava de vinte a trinta
balas e, com o redondo, disparava de cinquenta a cem tiros. Essa arma,
bastante sólida, era cobiçada e ao mesmo tempo temida pelos cangaceiros. O
segundo motivo seria o próprio volume de trabalhos rodoviários no interior.
Se de um lado Lampião começava a se “aburguesar”, tornando-se mais
sedentário e menos afeito aos combates, também tinha um número de
cangaceiros limitado. Seria difícil impedir a construção de estradas e o
trabalho dos cassacos em todas as partes. Ele simplesmente não tinha as
condições materiais e humanas para impedir o aumento da quilometragem
rodoviária no Sertão.

Mas os cangaceiros sabiam que se enfrentassem a “cidade” provavelmente


iriam perder. Quando Lampião se aproximou de Capela, por exemplo, e viu a
iluminação pública e a extensão urbana, não quis entrar na localidade. E
quando atacou Mossoró, foi derrotado. As cidades grandes e o litoral,
portanto, não podiam ser conquistados.

O caso de Mossoró exemplifica bem isso102. Em 1927, ano em que


Virgulino invadiu o Rio Grande do Norte, a cidade de Mossoró tinha cerca de
20 mil habitantes. Era ligada à capital por uma ferrovia, possuía indústrias,
uma agência do Banco do Brasil, repartições públicas, um mercado
municipal, correios, telégrafos e escolas. Em outras palavras, tinha uma
população grande, bem organizada e disposta a defendê-la. Tanto em termos
físicos, como estratégicos, o povo local tinha total condição de rechaçar
quaisquer inimigos que pudessem tentar invadir sua terra natal. E foi isso que
efetivamente ocorreu. Ou seja, a cidade era, de fato, grande demais para os
padrões do cangaço. Depois de um combate que durou apenas uma hora, o
“rei” dos cangaceiros e seus asseclas tiveram de fugir correndo de lá103. O
mundo “moderno” mais uma vez se impunha contra os cangaceiros.

Em termos militares, os cangaceiros também eram “modernos”. Ainda que


se utilizassem de adaptações de técnicas de combate que se desenvolveram ao
longo dos séculos, eram capazes de improvisar e de usar o armamento mais
avançado que pudessem conseguir. Militarmente eram mais inteligentes e
sofisticados do que as volantes, em especial se considerarmos o tipo de luta
para as condições do terreno em que atuavam.

Depois da Revolução de 1930, houve quem quisesse eliminar Lampião


com planos bastante estrambóticos: o cúmulo da utilização da “moderna’ arte
da guerra. No Rio de janeiro, o capitão Carlos Chevalier chegou a propor o
uso de aviões contra o “rei” dos cangaceiros. A ideia era que em torno de mil
soldados (dos quais, duzentos cariocas) fossem enviados ao Sertão nordestino,
bem equipados de radiocomunicadores e armas potentes, enquanto ao mesmo
tempo aviões atacariam os homens de Lampião. Um cinegrafista filmaria
tudo! É claro que tudo isso foi uma insanidade midiática que não se realizou.
Depois de protelar a sua partida para a região, o capitão Chevalier desistiu da
empreitada. Isso mostra até que ponto o combate ao cangaceirismo chegava
em termos de unir aspectos militares com o interesse do público das grandes
cidades. Essa tentativa decerto não pode ser levada a sério. Mas mostra
também como esse país supostamente “moderno” estava envolvido no mundo
dos espetáculos.

Na realidade, em termos práticos, os equipamentos usados pelos policiais, a


partir da década de 1930 (e em especial após a implantação do Estado Novo),
tinham maior poder de fogo e se mostraram extremamente eficientes contra os
bandoleiros. Parte desse armamento, sobra do material usado pelo exército
contra a Coluna Prestes, anos antes, e parte armas ainda mais recentes e
sofisticadas, acabou na mão das volantes, que souberam fazer bom uso dela,
ainda que Lampião também dispusesse de pistolas e fuzis modernos. Porém,
ficou cada vez mais difícil para Lampião combater inimigos munidos de
armas mais pesadas, que ele não possuía, como a Hotchkiss e a metralhadora
portátil Thompson, calibre 45, entre outras. Os soldados comandados pelo
tenente João Bezerra, que mataram Virgulino na tragédia de Angico, por
exemplo, foram divididos em quatro grupos, cada qual levando uma
Hotchkiss. Foi com essa arma que eliminaram o “rei” dos cangaceiros.

Podemos apresentar aqui algumas breves conclusões em relação ao cangaço.
Para começar, os cangaceiros não lutavam para reconstituir ou modificar a
ordem social sertaneja “tradicional”. Afinal, se essa ordem era a do mando
dos coronéis, que “exploravam” e “oprimiam” a população pobre (da qual,
supunha-se, esses bandoleiros faziam parte), e se aqueles criminosos (pelos
pressupostos do banditismo social) defendiam “teoricamente” essa população
(ou pelo menos expressavam suas frustrações e seus anseios de forma
inconsciente), não haveria sentido que quisessem manter o antigo status quo
político inalterado. Ora, se esses marginais combatiam o mandonismo, a
arbitrariedade e as formas de repressão dos coronéis locais, iriam, de acordo
com a lógica deste argumento (mesmo sem se dar conta disso claramente),
querer mudar o estado das coisas, romper com o “passado”, e não preservar
esse ambiente injusto. Seriam, portanto, possíveis catalisadores de mudanças
sociais, agentes de câmbio estrutural na região, e não os mantenedores do
momento histórico anterior. Como se sabe, isso certamente não ocorreu.
Aqueles brigands só lutariam, hipoteticamente, para preservar uma ordem
tradicional ou transformá-la, se eles próprios pudessem fazer parte dela em
posição de maior destaque, inclusive mantendo suas ligações com os
“coronéis” (e não em prol das causas populares). Afinal de contas, eles
tinham relações estreitas com alguns senhores rurais, dos quais recebiam
proteção, armas e dinheiro.

O que se pode afirmar é que os cangaceiros não lutavam, deliberadamente,


para a manutenção ou para a mudança de nenhuma ordem política. Eles
lutavam, isso sim, para defender seus próprios interesses. Os argumentos,
portanto, nos parecem equivocados, pelo menos nesse caso específico.

Mas podemos ir mais longe. É comum dizer que os cangaceiros


representavam uma manifestação pré-política e inconsciente. 0 fato de os
cangaceiros não optarem por seguir uma via revolucionária ou conservadora e
institucional, não significa que não tivessem consciência política, mesmo que
intuitiva. Aqueles que dizem o contrário tendem a transformar os bandoleiros
quase em adultos infantilizados, que agiam sem nenhuma noção do que se
passava à sua volta. Na realidade, eles sabiam muito bem qual era a
configuração de forças no Sertão, quais eram os seus principais atores e quais
as instituições que existiam em sua época. E fizeram a sua escolha.

De um lado, o cangaço pode ser visto como um reflexo, uma espécie de


continuidade do ambiente muitas vezes violento do Sertão, onde era comum
que os paisanos carregassem e usassem armas no cotidiano, pautando sua vida
em questões morais, de honra e de prestígio. Por outro lado, pode-se dizer que
esse tipo de brigandage nordestino contemporâneo, ainda que esteja
incrustado dentro de uma sociedade sertaneja com suas particularidades
históricas e sociais, e que, sem dúvida, era influenciado por elas, não reproduz
de forma idêntica suas relações de dominação. Há, decerto, um vínculo mais
próximo dos líderes com seus subordinados do que aquele dos “coronéis”
com seus empregados. Os chefes comem a mesma comida, bebem juntos,
dormem e acordam no chão duro, conversam, dançam em bailes e lutam ao
lado de seus “recrutas”, e, ainda que estejam numa posição hierárquica
superior, vivem da mesma forma que aqueles. Há uma identificação maior do
“soldado raso” com o “comandante” salteador do que entre o peão da fazenda
e seu patrão (ainda que também exista uma identificação nesse segundo caso).

Se colocarmos junto dos cangaceiros as mulheres, as crianças e os


cachorros (seus animais de estimação), teremos, estranhamente, a reprodução
de uma verdadeira família. Até com os agregados! O cangaço, portanto, era
(em especial nos anos 1930) uma combinação de família com comunidade
sertaneja, emprego e organização militar.

De certa forma, o cangaço, especialmente em sua última década, era mais


“avançado” e “moderno” em suas relações sociais do que boa parte dos
sertanejos da mesma época. As mulheres desempenhavam um papel de maior
destaque dentro das hostes bandoleiras do que aquelas nos lares tradicionais
(ainda que fosse um papel secundário de maneira geral) e se vestiam de forma
mais “ousada” que as jovens do Sertão “arcaico”: até mesmo suas saias
chegavam à altura do joelho, algo pouco comum naquelas paragens. O cabelo
curto de Maria Bonita e de outras cangaceiras (ainda que fosse um corte que
desagradasse a Virgulino Ferreira), também era símbolo de algo novo no
hinterland nordestino.

Ainda que houvesse bastante intimidade entre os bandoleiros, contudo, ela


era limitada. Desconfiados, alguns líderes cangaceiros mantinham-se
relativamente afastados até mesmo de seus “cabras”. Para evitar “calotes” de
tangerinos que incumbia de fazer compras para abastecer o bando, Lampião, a
partir de certa época, deixou de fazer pagamentos adiantados, só entregando o
dinheiro após receber as mercadorias. Muitas vezes, antes de comer, mandava
outros provarem a refeição, com medo de ser envenenado. E dentro de sua
quadrilha só se abria com sinceridade para um grupo muito restrito de pessoas
de confiança. Nos últimos anos de vida, não dava as costas para ninguém. Os
cangaceiros muitas vezes não podiam confiar nem em membros de seu
próprio grupo.

Brigas por mulheres, disputas por prestígio e acusações de roubos entre uns
e outros ocorriam. As ordens do chefe, por isso, eram sempre enérgicas e
tinham de ser invariavelmente cumpridas: a necessidade de harmonia no
grupo era fundamental. Aquela “comunidade”, portanto, tinha de funcionar da
melhor forma possível para que se mantivesse unida e fosse capaz de obter
êxitos “militares”. Os chefes, assim, não toleravam desavenças. Já a ligação
com a maioria das comunidades rurais, por outro lado, era tênue, e por vezes,
desfavorável, não tendo nunca ocorrido nem se procurado construir uma base
de apoio popular real entre os bandidos e o povo.

Portanto, a tipologia básica do “banditismo social” é bastante inexata, pelo


menos no caso específico do cangaço, já que não consegue enquadrar um
número significativo de tipos homogêneos de marginais dentro de um sistema
amplo coerente. Ele pode apresentar casos de exceção, mas não construir um
sistema que represente a regra’. Ou seja, é, ao que tudo indica, um fenômeno
menos presente e muito mais restrito do que se supõe. Assim, talvez o termo
“bandido-guerrilheiro” fosse possivelmente o mais apropriado para o caso do
cangaço, ainda que não designasse em toda amplitude as particularidades
dessa modalidade (fazemos questão aqui de ressalvar, contudo, que essa
designação não implicaria nenhuma associação ideológica com o que se
percebe como um “guerrilheiro” após as experiências da Guerra Civil
espanhola e da Revolução Cubana). De qualquer forma, já na época do auge
do banditismo rural no Nordeste brasileiro, aqueles salteadores eram
designados por militares e jornalistas como guerrilheiros3.

O ideal é que a interpretação social de eventos históricos (e entre eles, de


fenômenos de delitos) requeira uma análise factual e empírica, e não que esta
seja baseada em uma abordagem teórica geral. Essas condutas devem ser
estudadas dentro de seus contextos sociais e culturais particulares, ainda que
possam ser “comparadas” com contextos similares mais amplos, na tentativa
de encontrar pontos em comum entre experiências distintas.

É importante avaliar as “ações” e as “intenções” dos bandoleiros, e


procurar dentro de determinadas sociedades historicamente constituídas
outras válvulas de escape ou formas de protesto social que não o banditismo.
É bom lembrar que a maioria da população sertaneja, apesar da miséria,
exploração e falta de emprego, não ingressou no cangaço. Em alguns casos,
quando havia época de secas intensas, de fome e de miséria, muitos retirantes
pobres chegaram ao ponto de vender as próprias roupas do corpo e fazer o
percurso do Sertão cearense à capital completa mente nus, só para que
pudessem ter dinheiro suficiente para comprar alimentos4. Outros flagelados
optavam pelo suicídio. Ou seja, preferiam se colocar numa posição de
constrangimento, apesar do desespero e da fome, ou até mesmo tirar a própria
vida, do que cogitar se tornar bandoleiros. E também havia aqueles que
chegavam a comer ratos, cães, gatos, insetos, couro de gado e até mesmo a
matar e comer crianças.

Na verdade, o “povo” se armava para a defesa dos valores locais contra a


invasão externas. Qualquer grupo de cangaceiros, mesmo que reduzido,
portanto, representaria um grande perigo para a maioria das localidades do
Sertão’. Em outras palavras, os bandoleiros não eram admirados, mas sim
considerados uma ameaça para as comunidades. O pesquisador José
Anderson Nascimento, por exemplo, narra, sobre a ameaça da entrada de
Lampião em Mata Grande, que “a notícia de súbito reaparecimento do bando
colheu a população de surpresa. Foi um alvoroço generalizado. Muitas
pessoas fugiram desordenadamente. Outros permaneceram para defender seu
patrimônio e sua comuna” 7. E em Santana do Ipanema, no sertão de Alagoas,
quando chegou a notícia de que Lampião iria atacar, “a agitação foi tremenda.
As lojas comerciais cerraram suas portas. Famílias inteiras fugiram para a
caatinga, outras tomaram o destino de Palmeira dos índios e Quebrângulo”8.
Ou seja,

o povo, ao saber da presença dele, fugia para o mato, temendo as


atrocidades dos seus cabras. Inúmeras famílias buscavam abrigo na
caatinga, nas grutas e na mata, enfrentando o mais variado perigo, desde
picadas de cobras venenosas a ataques de animais ferozes, debaixo de
calor úmido e insalubre, passando fome e sede, sem contar com o
permanente medo do súbito aparecimento de algum bando de
cangaceiros?

Não é provável que os trabalhadores de obras federais, como estradas e


açudes (ou, pelo menos, uma grande quantidade deles), tenham entrado para o
cangaço, mesmo que pudessem ter visto nele maiores possibilidades de
dinheiro “fácil”. Em 1932, por exemplo, ano de estiagem intensa, em torno de
220 mil operários trabalhavam como contratados da Ifocs no Sertão, mas não
há nenhum indício claro de que qualquer um daqueles homens tenha decidido
se incorporar, em algum momento, aos bandos de cangaceiros10. Ainda
assim, há autores, como Xavier de Oliveira, que acreditam que operários
desempregados ingressavam nos bandos lampiônicos quando as obras
federais eram suspensas”. A índole e o senso ético da maioria dos sertanejos,
contudo, não permitiam que se decidissem a entrar na marginalidade, mesmo
em situações extremas. É sabido, por exemplo, que houve casos em que
Lampião ameaçou arrancar os pés de trabalhadores rodoviários e cortar a
cabeça de oficiais que protegiam a construção de estradas. Os operários, como
se pode imaginar, não ingressaram nas fileiras cangaceiras nessas ocasiões.
Pelo con trário, corriam de lá assustados e nunca mais retornavam para aquela
construção’. Ainda assim, certos estudiosos chegaram a dizer que o cangaço
independente teria sido fruto de prolongada crise de mercado de trabalho no
Sertão…13

De fato, mesmo nos momentos em que o cangaceirismo atingiu seu ápice


epidêmico, amplas regiões permaneceram intocadas, enquanto outras só
experimentaram o brigandage porque era um fenômeno exógeno, “importado”
de outras localidades, com bandos que não eram constituídos nas próprias
cidades, mas que vinham de fora, invadindo os povoados e depois fugindo 14.
De acordo com um relatório policial bastante conhecido, escrito em 1928,
quando o cangaço havia acabado de passar por seu auge, “durante todo o ano
de 1927, nem um só sertanejo ingressou nas hostes de `Lampião’, que
chefiava, ao fim do ano, o último grupo restante e composto, apenas, de
catorze cangaceiros”15. E, em 1928, há quem afirme que o seu bando só tinha
cinco integrantes. Sabemos que o cangaço lampiônico ainda duraria muitos
anos, com ingresso de novos criminosos em suas hostes, mas os trechos
supracitados mostram como eram fluidos e inconstantes esses bandos.

As atividades do cangaço eram, em grande medida, realizadas por um


número muito reduzido de indivíduos em termos globais. Em outras palavras,
se comparamos o cangaço com outros fenômenos de marginalidade no resto
do Brasil, perceberemos que ele teve uma força e uma amplitude certamente
significativa: a quantidade de foras da lei no Sertão e Agreste nordestinos no
final do século XIX e nas quatro primeiras décadas do século XX, por certo,
causou impacto econômico e cultural na região, tanto por seu volume relativo,
como por sua atuação. Que isso fique claro. Afinal, teriam lutado, somente ao
lado de Lampião, durante os anos em que ele esteve em atividade, mais de
quinhentos bandoleiros’. Nesse período, há estimativas de que tenha havido
mais de mil baixas de ambos os lados, ou seja, polícia e criminosos (já Optato
Gueiros afirma que só em Pernambuco, foram presos ou assassinados mais de
mil cangaceiros). Mas se compararmos o mesmo número de salteadores com
a população total do hinterland nordestino, perceberemos que o fenômeno
teve um tamanho muito mais reduzido do que se supõe.

Se a população pobre, em sua maioria, não via o ingresso no cangaço como


saída para seus problemas, o mesmo ocorria com os filhos da elite econômica
sertaneja. Com possibilidades limitadas de ascensão social em suas regiões de
origem, os jovens de classe média e alta, fossem estudantes, filhos de
comerciantes ou de fazendeiros, preferiam afluir para as grandes cidades
(principalmente para as capitais), em busca de empregos, cargos e posições
burocráticas. Mesmo que algumas áreas do Sertão não estivessem tão
estagnadas, nem em situação econômica tão desfavorável como se pensa, a
ilusão de participar de uma vida mais cosmopolita nas metrópoles, aliada à
procura de colocações (possivelmente dentro do aparelho estatal, ou em torno
dele), que lhes poderiam dar prestígio tanto em seu novo ambiente como em
sua terra natal, eram incentivos para o deslocamento para as capitais. Só uma
extrema minoria se decidia por seguir o caminho da marginalidade. E nas
grandes cidades, iriam surgir novos problemas e novas demandas desses
atores, fossem do proletariado, fossem das ascendentes camadas médias
urbanas (gradualmente mais próximas do ponto de vista ideológico), que
muitas vezes, em vez de retornar ao interior, depois de teoricamente
prosperar, desenvolviam novos hábitos e costumes, e permaneciam de vez
nesses centros17.

Como dizia Pierre Bourdieu:

Se se observa uma correlação estreita entre as probabilidades objetivas


cientificamente construídas (por exemplo, as oportunidades de acesso a
um bem determinado) e as aspirações subjetivas dos agentes
(“motivações” e “necessidades”), não é porque os agentes ajustem
conscientemente suas aspirações de acordo a uma avaliação exata de
suas probabilidades de êxito… Em realidade, as disposições duráveis
inculcadas pelas possibilidades e as impossibilidades […] geram
disposições objetivamente compatíveis com estas condições […]
Portanto, as práticas mais improváveis são excluídas como impensáveis,
por uma espécie de submissão imediata a uma ordem que inclina aos
agentes a fazer de necessidade virtude […] o habitus é a necessidade
feita virtude.18

Luiz Carlos Prestes, em entrevista à historiadora Marly Vianna, afirmava,


sobre o cangaço: “Eu dizia, lembrando Engels em seu prefácio às Guerras
camponesas na Alemanha, que num regime feudal‘9 os camponeses só tinham
duas saídas: pegar em armas para lutar pela liberdade ou ir atrás de algum
místico”.”

Mas, como lembrou Vianna, muito apropriadamente, Prestes se esqueceu


de uma “terceira” saída, a escolhida pela grande maioria dos trabalhadores
rurais: adaptar-se, como pudessem, à situação existente21

O que se pode dizer é que, se há, de fato, uma condição essencial do


Homem, esta é a práxis, e é justamente esse caráter ativo, de um ser que pode
elaborar projetos ainda não realizados e colocá-los em prática, como
realizador “consciente” de seus atos, que o define essencialmente como um
ser “histórico”. Ou seja, o homem não possui apenas uma “natureza’ (sendo
esta definida como uma condição invariável), mas um caráter “histórico” e
“cultural”, aberto a distintas possibilidades de existência, possibilidades cuja
realização depende em grande medida de sua ação prática`. Como a ação dos
homens é, igualmente, em boa parte, intencional, ela pressupõe a escolha
entre diversas possibilidades, o que exige valorar a ação. Toda eleição ocorre
a partir de “valorações”, que se articulam entre si em torno de alguns
“valores-chave” ou “valores-signo”, que os indivíduos trazem como marca de
sua época”. Por isso, é importante também tentar entender, até onde for
possível, a “mentalidade” e as atividades tanto dos bandoleiros como dos
outros atores, como patrões, agentes do Estado e populações rurais. Só dessa
forma poderemos ter uma ideia mais clara de como eles atuaram.

Foram vários os motivos que levaram ao fim do cangaço. Os aspectos


tecnológicos, logísticos, humanos e políticos contribuíram para que isso
ocorresse. Após o assassinato de Lampião, o único “grande” cangaceiro que
restou foi Corisco. Ainda que ele fosse experiente combatente, não tinha as
mesmas habilidades e qualidades de Lampião em termos de preparo logístico
e de relação com os potentados locais. Como a maioria dos bandoleiros se
rendeu, o número de asseclas que poderia segui-lo se reduziu muito. Uma
atuação maior da polícia, ofertas e garantias de vida para os que se
entregassem, aperto no cerco aos brigands, utilização de armas pesadas e
modernas por parte das tropas volantes, aumento de verbas federais para o
combate aos quadrilheiros sertanejos, a vontade política enérgica do governo
Vargas de acabar com o banditismo (que manchava a “imagem” do Brasil
como um país moderno), a perda da força de vários “coronéis”, a perseguição
aos coiteiros, a maior presença do Estado nacional nos assuntos do Sertão,
foram alguns dos motivos para o término do cangaceirismo.

O Estado Novo, nesse sentido, cumpriu um papel importante na dissolução


daquele tipo de banditismo rural. Lampião, de um lado, era visto como uma
espécie de aliado do antigo governo Artur Bernardes, ao ter aceitado
participar da formação de um Batalhão Patriótico para lutar contra a Coluna
Prestes. Por outro lado, mais tarde, a ANL e os comunistas iriam utilizar a
imagem dos cangaceiros como “rebeldes” sociais, que deveriam ser
admirados e quem sabe até cooptados para a luta contra o regime Vargas. De
uma forma ou de outra, o presidente não via com bons olhos aqueles
bandidos. Com a filmagem de Virgulino por Benjamin Abrahão Borro,
mostrando ao mundo a existência de um país supostamente “arcaico” e
atrasado, fora da lei, que afrontava e despeitava a ordem jurídica vigente do
novo regime, havia mais um motivo para eliminar os cangaceiros.

Armas, como a Hotchkiss e a Thompson, também fizeram a diferença.


Lampião cobiçava várias armas nas quais nunca conseguiu pôr as mãos. Esse
equipamento pesado, mais moderno, fez com que a balança finalmente
pesasse a favor das tropas volantes. Com a decisão política em nível nacional
de acabar com aquele tipo de banditismo, e com interventores estaduais
ligados de modo direto ao governo federal cumprindo suas determinações, o
cerco foi se fechando. A disparidade numérica e tecnológica acabou por ser
grande demais para os cangaceiros.

A presença pessoal de Lampião, ou seja, sua importância como indivíduo,


nesse caso, também foi determinante. Certamente, sozinho, ele não poderia
reverter aquela situação. Os tempos estavam mudando e o país já não era mais
o mesmo. Mas, quiçá, Virgulino pudesse dar uma sobrevida ao cangaceirismo,
caso vivesse alguns anos mais. O fato é que ele tinha qualidades pessoais
muito acima daquelas de seus companheiros. Sem ele como organizador, líder
e figura mítica e simbólica, o restante dos brigands decidiu se entregar24

É importante lembrar que muitos “coronéis” perderam seu prestígio e


deixaram de apoiar os bandos. E que muitos oficiais de polícia corruptos, que
por vezes forneciam armas para os grupos, decidiram parar de negociar com
eles e seguir as ordens das autoridades estaduais. Essa quantidade maior de
soldados, todos dispostos e bem armados, dificultou a atuação dos
bandoleiros e fez com que muitos abandonassem o crime. É claro que as
garantias de vida oferecidas pelas autoridades colaboraram para que muitos se
entregassem. Muitos deles, após cumprirem parte das penas, foram libertados,
mudaram de estado e se adaptaram ao meio civil sem dificuldades. O fato é
que o cangaço, ainda assim, conseguiu penetrar no imaginário social nacional
e permaneceu presente de maneira significativa na cultura brasileira
contemporânea. Foi, decerto, um dos mais importantes fenômenos sociais
deste país.

CARTA PÚBLICA DE UM “CORONEL” DA GUARDA NACIONALI

Para que chegue ao conhecimento de várias pessoas e até mesmo


dalgumas autoridades policiais que ignoram as regalias da Guarda
Nacional, ora em vigor, resolvi, de acordo com as instruções que tenho
recebido, mandar publicar o seguinte, para evitar desacato e desrespeito
à referida milícia: Os Oficiais da Guarda Nacional, quando têm suas
patentes legalizadas, gozam de honras militares equiparadas ao Exército,
Armada, Corpo de Bombeiros e Brigada Policial. Ao Corpo de polícia
não é lícito em caso algum desconhecer os direitos e prerrogativas que as
Leis conferem aos Oficiais pertencentes às corporações militares, porque
isto constitui falta de disciplina e transgressão das Leis Federais que,
uma vez desrespeitadas, serão severamente punidas. Os Oficiais da
Guarda Nacional, embora à paizana, não podem ser revistados pela
polícia e muito menos seus companheiros de classe de posto superior e
mesmo assim só podem ser recolhidos ao estado maior, onde cumprem
suas penas ou suas prisões simples; onde não houver Batalhão
aquartelado suprem as salas de honra das Intendências, onde
permanecerão recolhidos livres de qualquer coação com todas as honras
e regalias. Não só os particulares como também as autoridades civis e
militares têm restrito dever de acatarem e respeitarem as munidades de
que gozam os Oficiais da Guarda Nacional, que não se excedendo de
suas atribuições são passíveis de qualquer pena prevista pelo código
processual militar. O Oficial da Guarda Nacional simplesmente acusado
ou indicado não é motivo para ainda mesmo a bem da disciplina se
recolher à prisão, para isto tem o aviso 141 da Lei 566, a simples
pronúncia não importa na suspensão do posto, em vista do disposto no
artigo 293/2 do regulamento 120, só depois que o Oficial for condenado
a mais de dois anos pode ser julgado ipso jure na baixa do posto nos
termos do artigo 60/1 da Lei n° 602, por isso só no caso acima poderá
perder provisoriamente o posto. Outrossim: ninguém poderá solicitar ou
tirar patente durante o Sorteio Militar. Currais Novos, comarca do Acari.
Manuel Aleixo de Maria, Coronel Comandante Superior com exercício
pleno. Janeiro, 1917.

PATENTE DA GUARDA NACIONALZ

Francisco Altino Correia de Araujo, Bacharel em Ciências Jurídicas e


Sociais, pela Faculdade de Direito do Recife: Juiz de Direito e
Presidente da Província do Rio Grande do Norte: Faço saber aos que esta
Carta Patente virem que, atendendo ao merecimento de João Rodrigues
Ferreira de Mélo, resolvo nomeá-lo, em virtude do art. 48 da Lei n° 602
de 19 de setembro de 1850, para o posto de Capitão da 1’ Companhia do
Batalhão n° 14 da Guarda Nacional da Comarca de Açu, que servirá com
todas as honras, privilégios e isenções, que diretamente lhe competirem:
Pelo que mando ao Comandante Superior, ou ao mais graduado Chefe da
referida comarca, que lhe faça dar posse, depois de prestar o devido
juramento: Aos oficiais seus superiores, que o tenham e o reconheçam
por tal, e a todos aqueles que lhe forem subordinados, que o obedeçam, e
guardem suas ordens no que tocar no serviço nacional, tão fielmente
como devem e são obrigados. Em firmeza de que lhe mandei passar esta
Carta-Patente, que, sendo por mim assinada, e selada com o selo das
Armas Imperiais, se cumprirá inteiramente, como nela se contém;
registrando-se na Secretaria do Governo e na do Comando Superior
respectivo. Pagou pelo selo a quantia de quarenta mil réis, em virtude do
Regulamento que baixou com o Decreto n° 8946, de 19 de maio de
1883, e de emolumentos da Secretaria a de vinte mil-réis, Dada no
Palácio do Governo da Província do Rio Grande do Norte, aos vinte e
dois dias do mês de dezembro do Ano do Nascimento de Nosso Senhor
Jesus Cristo de mil oitocentos e oitenta e quatro, 63° da Independência e
do Império. Eu, Alcino Barbosa da Fonsêca Tinôco, Secretário da
Província, a subscrevi.

FRANCISCO ALTINO CORREIA DE ARAÚJO: Carta Patente pela


qual é nomeado João Rodrigues Ferreira de Mélo, para posto de Capitão,
da la Companhia do Batalhão n° 14 da Guarda Nacional da Comarca do
Açu como acima se declara.

PARA V.EX. VER: Em virtude de Portaria do Exmo. Sr. Presidente da


Província, de 10 de setembro último Fonsêca Tinôco. Cumpra-se e
registre-se no livro competente. Quartel da Guarda Nacional dos
Municípios da Cidade do Açu e anexos. Em 17 de fevereiro de 1885.
Manuel Martins Véras, Comandante Superior Registrado no livro
competente, 2’ seção. Secretaria da Presidência do Rio Grande do Norte,
22 de dezembro de 1884. O Chefe Antônio Ferreira de Oliveira Manoel
José Nunes Cavalcante a fez. Apresentou conhecimento de haver pago
no Tesouro Provincial a quantia de vinte mil réis de emolumentos.
Secretaria da Presidência do Rio Grande do Norte, 22 de dezembro de
1884. O Oficial Manuel José Nunes Cavalcante, n° 295 Rs. 40$000 Pg
quantia mil réis de selo Alfa do Rio Grande do Norte, 24 de dezembro
de 1884 A.Benevides B.Neto. Registrada as folhas 16 v. do livro
competente. Secretaria do Comando Superior Município do Açu e anexo
24 de fevereiro de 1885. Bazílio Pompilho de Mélo, Secretário Geral
Interino. Prestou juramento e tomou posse, nesta data. Quartel do
Comando do Batalhão n° 14 do Município do Açu, 26 de fevereiro de
1885. Joaquim de Sá Leitão, Tenente Coronel Comandante.

O PACTO DOS CORONÉIS3

Ata da sessão política realizada na vila de Juazeiro do Padre Cícero, tudo


como se vê abaixo:

Aos quatro dias do mês de outubro do ano de mil novecentos e onze,


nesta vila de Juazeiro do Padre Cícero, município do mesmo nome,
Estado do Ceará, no paço da Câmara Municipal, compareceram à uma
hora da tarde os seguintes chefes políticos: coronel Antônio Joaquim de
Santana, chefe do município de Missão Velha; coronel Antônio Luís
Alves Pequeno, chefe do município do Crato; reverendo padre Cícero
Romão Batista, chefe do município do Juazeiro; coronel Pedro Silvino
de Alencar, chefe do município deAraripe; coronel Romão Pereira
Filgueira Sampaio, chefe do município de jardim; coronel Roque Pereira
de Alencar, chefe do município de Santana do Cariri; coronel Antônio
Mendes Bezerra, chefe do município de Assaré; coronel Antônio Correia
Lima, chefe do município de Várzea Alegre; coronel Raimundo Bento
de Souza Baleco, chefe do município de Campos Sales; reverendo padre
Augusto Barbosa de Menezes, chefe do município de S.Pedro do Cariri;
Domingos Leite Furtado, chefe do município de Milagres, representado
pelos ilustres cidadãos coronel Manuel Furtado de Figueiredo e major
José Inácio de Souza; coronel Raimundo Cardoso dos Santos, chefe do
município de Porteiras, representado pelo reverendo padre Cícero
Romão Batista; coronel Gustavo Augusto de Lima, chefe do município
de Lavras, representado por seu filho, João Augusto de Lima; coronel
João Raimundo de Macedo, chefe do município de Barbalha,
representado por seu filho, major José Raimundo de Macedo e pelo juiz
de direito daquela comarca dr. Arnulfo Lins e Silva; coronel Joaquim
Fernandes de Oliveira, chefe do município de Quixará, representado
pelo ilustre cidadão major José Alves Pimentel; e o coronel Manuel
Inácio de Lucena, chefe do município de Brejo dos Santos, representado
pelo coronel Joaquim de Santana. A convite deste que, assumindo a
presidência da magna sessão, logo deixou, ocupou-a o reverendo padre
Cícero Romão Batista para em seu nome declarar o motivo que aqui os
reunia. Ocupada a presidência pelo reverendo padre Cícero, fora
chamado o major Pedro da Costa Nogueira, tabelião e escrivão da cidade
de Milagres, que também se achava presente. Declarou o presidente que
aceitando a honrosa incumbência confiada pelo seu prezado e
prestigioso amigo coronel Antônio Joaquim de Santana, chefe de Missão
Velha, e traduzindo os sentimentos altamente patrióticos do egrégio
chefe político, excelentíssimo senhor doutor Antônio Pinto Nogueira
Acioli, que sentia dalma as discórdias existentes entre alguns chefes
políticos desta zona, propunha que, para desaparecer por completo esta
hostilidade pessoal, se estabelecesse definitivamente uma solidariedade
política entre todos, a bem da organização do partido os adversários se
reconciliassem, e ao mesmo tempo lavrassem todos um pacto de
harmonia política. Disse mais que para que ficasse gravado este grande
feito na consciência de todos e de cada um de per si, apresentava e
submetia à discussão e aprovação subsequente os seguintes artigos de fé
política:

Art. 1° - Nenhum chefe protegerá criminosos do seu município nem dará


apoio nem guarida aos dos municípios vizinhos, devendo, pelo contrário,
ajudar na captura destes, de acordo com a moral e o direito.

Art. 2° - Nenhum chefe procurará depor outro chefe, seja qual for a
hipótese.

Art. 3° - Havendo em qualquer dos municípios reações, ou, mesmo,


tentativas contra o chefe oficialmente reconhecido com o fim de depô-lo,
ou de desprestigiálo, nenhum dos chefes dos outros municípios intervirá
nem consentirá que os seus municípios intervenham ajudando direta ou
indiretamente os autores da reação.

Art. 4° - Em casos tais só poderá intervir por ordem do governo para


manter o chefe e nunca para depor.

Art. 5° - Toda e qualquer contrariedade ou desinteligência entre os


chefes presentes será resolvida amigavelmente por um acordo, mas
nunca por um acordo de tal ordem cujo resultado seja a deposição, a
perda de autoridade ou de autonomia de um deles.

Art. 6° - E nessa hipótese, quando não puderem resolver pelo fato de


igualdade de votos de duas opiniões, ouvir-se-á o governo, cuja ordem e
decisão será respeitada e restritamente obedecida.

Art. 7 - Cada chefe, a bem da ordem e da moral política, terminará por


completo a proteção a cangaceiros, não podendo protegê-los e nem
consentir que os seus municípios, seja sob que pretexto for, os protejam
dando-lhes guarida e apoio.

Art. 8° - Manterão todos os chefes aqui presentes inquebrantável


solidariedade não só pessoal como política, de modo que haja harmonia
de vistas entre todos, sendo em qualquer emergência “um por todos e
todos por um”, salvo em caso de desvio da disciplina partidária, quando
algum dos chefes entenda de colocar-se contra a opinião e ordem do
chefe do partido, o excelentíssimo doutor Antônio Pinto Nogueira
Acioli. Nessa última hipótese, cumpre ouvirem e cumprirem as ordens
do governo e secundarem-no nos seus esforços para manter intacta a
disciplina partidária.

Art. 9° - Manterão todos os chefes incondicional solidariedade com o


excelentíssimo doutor Antônio Pinto Nogueira Acioli, nosso honrado
chefe, e como políticos disciplinados obedecerão incondicionalmente às
suas ordens e determinações.

Submetidos a votos, foram todos os referidos artigos aprovados,


propondo unanimemente todos que ficassem logo em vigor desde essa
ocasião.

Depois de aprovados, o padre Cícero levantando-se declarou que sendo


de alto alcance o pacto estabelecido, propunha que fosse lavrado no
Livro de Atas desta municipalidade todo o ocorrido, para por todos os
chefes ser assinado, e que se extraísse uma cópia da referida ata para ser
registrada nos Livros das municipalidades vizinhas, bem como para ser
remetida ao doutor presidente do Estado, que deverá ficar ciente de todas
as resoluções tomadas, o que foi feito por aprovação de todos e por todos
assinado.
CONVÊNIO CONTRA 0 BANDITISMO’

Convênio celebrado entre os Estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e


Rio Grande do Norte, para cooperação na ação da captura de criminosos:

Bases estabelecidas para o acordo que fazem os Estados do Ceará, Rio


Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, representados, o primeiro pelo
Sr. tenente-coronel Ernesto R. de Medeiros, chefe da Casa Militar do
presidente do Estado e os demais pelos respectivos chefes de polícia,
todos abaixo assinados e devidamente autorizados pelos presidentes e
governadores dos referidos Estados. Os Estados do Ceará, Rio Grande
do Norte, Paraíba e Pernambuco, com o fim de extinguirem os bandos de
cangaceiros e capturarem os criminosos que perturbam a ordem pública
e constantemente ameaçam a população sertaneja nos seus direitos de
vida e propriedade etc., acordam por seus representantes, devidamente
autorizados:

Primeira - As autoridades policiais e comandantes de forças dos


municípios e distritos limítrofes dos referidos Estados prestar-se-ão
mútuo auxílio na perseguição e captura dos bandidos e criminosos
pronunciados, exibindo o mandado ou requisição de autoridade
competente.

Segunda - Para este fim poderão as autoridades limítrofes e os


comandantes de forças em perseguição começada dentro do Estado que
representam, entrar no território do Estado limítrofe comunicando
imediatamente à respectiva autoridade e o mais breve possível ao chefe
de polícia do seu Estado.

Terceira - Realizada a prisão por força ou autoridade de um Estado em


território de outro será o detido ou detidos imediatamente apresentados
ou entregues à autoridade policial local, que pelo mesmo responderá até
que seja convenientemente requisitado. Quarta - Se em falta absoluta de
meios de segurança, o que será declarado por escrito ao portador do
detido, ficará este em poder do mesmo portador, providenciando a
autoridade com a máxima brevidade sobre o recebimento do preso.

Quinta - Cada um dos Estados representados responderá pelos danos e


excessos praticados no domínio particular pelas suas forças no território
de outro.

Sexta - Os Estados representados trocarão entre si, por intermédio dos


chefes de polícia, uma vez trimensalmente a lista dos pronunciados da
qual conste além do nome, idade, filiação, sinais característicos, o artigo
do Código Penal em que se achem incursos e a data da pronúncia e
constantemente as fichas datiloscópicas dos criminosos e malfeitores que
forem identificados pelos respectivos Gabinetes de Identificação, que
ficarão responsáveis por esta permuta.

Sétima - As requisições entre os Estados para a captura e entrega dos


respectivos criminosos poderão ser feitas por meio mais simples, sendo
suficiente o despacho telegráfico respeitadas as disposições do Decreto
número trinta e nove, de trinta de janeiro de mil oitocentos e noventa e
dois, correndo as despesas de condução e entrega por conta do Estado
reclamante.

Oitava - Para correspondência oficial da polícia os respectivos chefes


poderão usar de um código especial, podendo adotar o ultimamente
votado pelo Congresso Policial de São Paulo, que poderá ser aumentado
com as necessidades e o chefe que adotar nova chave deverá
imediatamente comunicá-la aos dos Estados acordantes.

Nona - Os chefes de polícia dos Estados acordantes, ou quem suas vezes


fizer, providenciarão para que se tornem efetivas as disposições do
Código Penal contra os asiladores de bandidos ou malfeitores.

Décima - Fica entendido que as medidas acima estabelecidas pelos


Estados acordantes não se entendem com os perseguidos meramente
políticos enquanto não pronunciados por crimes comuns.

Décima Primeira - Os Estados, além das medidas acima adotadas, usarão


das que forem mais convenientes às circunstâncias ocasionais avisados
os demais Estados acordantes.

Décima Segunda - Cada um dos Estados acordantes manterá nas


respectivas fronteiras forças volantes nos pontos abaixo mencionados,
podendo em caso de necessidade reunirem-se todas as forças sob a
direção do oficial mais graduado presente, prevalecendo a antiguidade
ou idade no caso de igualdade de patente. Em tal caso o comandante das
forças ficará subordinado ao chefe de polícia do Estado onde se acharem
em operação as mesmas forças e enquanto ali permanecerem.

Décima Terceira - Os Estados de Pernambuco e Ceará obrigam-se a


manter além dos destacamentos locais, duas forças volantes de vinte e
cinco a trinta praças cada uma, e os da Paraíba e Rio Grande do Norte,
mas mesmas condições, duas forças volantes de quinze a vinte praças
cada uma.
Décima Quarta - As forças volantes do Estado de Pernambuco terão por
base os municípios de Triunfo e Belmonte, agindo em todos os
municípios limítrofes dos Estados de Paraíba e Ceará; as do Ceará terão
por base o município de Brejo dos Santos e as da Paraíba os de São José
de Piranhas e Conceição e agirão em todos os municípios limítrofes dos
Estados acordantes; as do Rio Grande do Norte terão por base os
municípios de Luís Gomes e jardim de Piranhas, agindo em todos os
municípios limítrofes da Paraíba e Ceará.

Décima Quinta - Serão incumbidos da execução deste acordo os chefes


de polícia dos Estados acordantes ou quem suas vezes fizer.

Décima Sexta - A lista de que trata a cláusula Sexta refere-se aos


pronunciados e condenados ausentes.

Décima Sétima - O presente acordo será observado enquanto convier,


podendo qualquer dos Estados em todo o tempo retirar-se do mesmo,
avisados os demais.

E por estarem todos de acordo fizeram lavrar o presente convênio


reduzindo-o a termo no livro competente da Repartição Central da
Polícia do Estado de Pernambuco, aos quinze dias do mês de Dezembro
de mil novecentos e vinte e dois, indo por todos assinado. Eu, João Paulo
Nunes de Melo, primeiro oficial da mesma Repartição, servindo de
secretário, lavrei o presente.

Tenente-coronel Ernesto Ramos de Medeiros, delegado do Governo do


Ceará

Sebastião Fernandes de Oliveira, chefe de polícia do Estado do Rio


Grande do Norte

Demócrito de Almeida, chefe de polícia da Paraíba do Norte

Artur da Silva Rego, chefe de polícia do Estado de Pernambuco

Repartição Central da Polícia do Estado de Pernambuco, em 16 de


Dezembro de 1922. Conferi, João Paulo. Conforme, Mendonça Simões.

PROJETO DE LEI PARA O CONGRESSO NACIONAL, DE NOVEMBRO


DE 1927, DO DEPUTADO FEDERAL PELO CEARÁ MANUEL SÁTIRO5

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1°: Todo indivíduo que fizer parte de um grupo de três ou mais
pessoas, total ou parcialmente armado, o qual, por meio de incursões,
atente contra a paz pública, os bons costumes, a ordem das famílias, a
segurança das pessoas e da propriedade: pena de 2 a 10 anos, além das
demais em que incorrer, por outros crimes cometidos.

Parágrafo único: O chefe principal ou cabeça do grupo (se houver) será


punido com o aumento da terça parte da pena.

Art. 2°: Aquele que der proteção, acolhimento ou guarda a tais grupos ou
a indivíduos que dele façam parte: pena de prisão celular de seis meses a
dois anos.

Art. 3°: Serão punidos com igual pena aqueles que lhes facilitarem
meios de escape ou de fuga à perseguição dos agentes da autoridade,
fornecer-lhes armamentos, munições, ministrar-lhes informes ou notícias
para que se previnam contra a ação da justiça.

Art. 4°: Os indivíduos passíveis de ação penal, em virtude desta lei, não
gozarão do beneficio do livramento condicional e da suspensão da pena.

Art. 5°: Os crimes de que trata a presente lei são inafiançáveis, de ação
pública e prescrevem no duplo do tempo estabelecido para a prescrição
ordinária.

Art. 6°: Os delinquentes de que trata o artigo primeiro e respectivo


parágrafo serão processados no foro em que forem encontrados.

Art. 7: Revogam-se as disposições em contrário.

SENTENÇA JUDICIAL
SÚMULA: Comete pecado mortal o indivíduo que confessa em público
suas patifarias e seus deboches e faz coças de suas vítimas desejando a
mulher do próximo para com ele fazer suas chumbregâncias.

Vistos etc.

O adjunto do promotor público, representou contra o cabra Manoel


Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant’Ana, quando a
mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto della o supracito cabra
que estava de tocaia em uma moita de mato, sahiu de lá de sopetão e fez
a proposta a dita mulher, por quem roía brocha, para coisa que não se
pode fazer à lume, e como ela se recusa, o dito cabra abrafalou-se ella,
deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará,
e não conseguiu matrimônia porque ela gritou e veio em assucare della
Nocreto Correia e Clementos Barbosa, que prenderam o cujo em
flagrante, e pediu a condenação delle como incurso nas penas de
tentativas de matrimônia proibido e a pulso de sucesso porque a dita
mulher estava peijada e com o sucedido deu à luz a um menino macho
que nasceu morto.

As testemunhas, duas são de vista porque chegaram ao flagrante e


bisparam a perversidade do cabra Manoel Duda e as demais testemunhas
são testemunhas em avaluenos.

Dizem as leis que duas testemunhas que assistem a qualquer naufrágio


do sucesso faz prova, e o juiz não precisa de testemunhas de evaluemos
e assim:

CONSIDERO: que o cabra Manoel Duda, agrediu a mulher de Xico


Bento, por quem roio brocha para conxambrar com ella, coisas que só o
marido della competia conxambrar, porque eram casados pelo regime da
Santa Igreja Catholica Romana.

CONSIDERO: que o cabra Manoel Duda deitou a paciente no chão e


quando ia começar suas conxambranças, viu todas as encomendas della
que só o marido tinha o direito de ver.

CONSIDERO: que a paciente estava peijada e que em consequência do


sucedido, deu a luz de um menino macho que nasceu morto.

CONSIDERO: que a morte do menino trouxe prejuízo na herança que


podia ter quando o pai dele ou a mãe falecesse.

CONSIDERO: que o cabra Manoel Duda é um suplicante debochado


que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quis
também fazer conxambranças com a Quitéria e a Clarinha, que são
moças donzellas e não conseguiu porque ellas repugnaram e deram aviso
à polícia.

CONSIDERO: que Manoel Duda é um sujeito perigoso e que se não


tiver uma causa que atalhe a perigança delle, amanhã está metendo medo
até nos homens por vias das suas patifarias e deboches.

CONSIDERO: que Manoel Duda está em pecado mortal porque nos


Mandamentos da Igreja é proibido desejar a mulher do próximo, e elle
desejou.

CONSIDERO: que sua majestade imperial e mundo inteiro precisam


ficar livres do cabra Manoel Duda, para secula, seculorum amem,
arrefem dos deboches praticados e servengonhezas por elle praticadas.

CONSIDERO: que o cabra Manoel Duda é um sujeito sem-vergonha


que não nega as suas conxambranças e ainda fez isnoga das encomendas
de suas victimas e por isso deve ser botado em regime por este juízo.

POSTO QUE:

Condeno o cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez à mulher de Xico
Bento e por tentativa de mais outros malifícios iguais, a ser CAPADO,
capadura que deverá ser feita a MACETE.

A execução desta pena deverá ser feita na cadeia desta villa. Nomeio
carrasco o carcereiro. Feita a capação depois de 30 dias o mesmo
carcereiro solte o cujo cabra para que se vá em paz.

O nosso prior aconselha - Homini debochado deboxatus mulheroru,


inovacabus est sententias quibus cagare est mace macetorium carrascus
sinefacto nortre negare pete.

Cumpra-se e apregue-se editaes nos lugares públicos. Apelo ex-oficio


desta sentença para o Dr. Juiz de Direito desta Comarca.

Porto da Folha, 15 de outubro de 1833.

Manoel Fernandes dos Santos

Juiz Municipal suplente em exercício.

ORDENS DE CAPTURA DE BANDIDOS FUGITIVOS DA CADEIA DE


POMBAL

CIRCULAR: Tendo sido assaltada no dia 18 de fevereiro último a


Cadeia da Cidade de Pombal, Província da Paraíba, conforme me acaba
de participar o respectivo Dr. Chefe de Polícia em oficio de 5 do
corrente, resultando a fuga dos criminosos constantes da inclusa nota, e
sendo presumível que eles procurem refugiar-se nessa Província,
recomendo a você que empregue todos os meios ao seu alcance a fim de
serem capturados tais réus, caso aparecerem no termo de sua jurisdição.
Deus guarde Vmcê.

O Chefe de Polícia: José Antônio Carneiro da Silva.

NOTA: Dos presos evadidos da Cadeia da Cidade de Pombal, no dia 19


de fevereiro próximo findo, a que se refere a circular desta data.

TERMO DE POMBAL
TERMO DE CATOLÉ DA ROCHA

TERMO DE PIANCÓ

TERMO DE MISERICÓRDIA

TERMO DE SOUSA
TERMO DE CAJAZEIRAS

TERMO DE PATOS

Secretaria da Polícia do Rio Grande do Norte, 11 de março de 1874.


Conf. Servindo de Secrt. Apolônio Joaquim Barbosa.

CIRCULAR: Rio Grande do Norte. Secretaria da Polícia, 11 de junho de


1876.

Caso apareça no termo de sua jurisdição o indivíduo Liberato Barroso de


Sousa, réu apelado em crime de morte no termo de Trahiri, Província do
Ceará, faça-o Vmcê. capturar e remeter com segurança a esta repartição
a fim de ter o conveniente destino, segundo requisitou-me o Dr. Chefe de
Polícia em oficio de 6 do corrente. Os sinais característicos são os
seguintes: Altura regular, de 25 anos de idade mais ou menos, rosto
redondo, cabelos pretos, nariz afilado. Cor morena e vesgo do olho
esquerdo. Deus guarde a Vmcê. O Chefe de Polícia Francisco José de
Sousa Nogueira.

CARTA DO JUIZ DE DIREITO DA COMARCA DE IMPERATRIZ, DE 31


DE AGOSTO DE 1876, AO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA DO RIO
GRANDE DO NORTES
Imperatriz, 31 de agosto de 1876

Ilmo. e Exmo. Sr.

É ainda sob a impressão mais desagradável que me dirijo a V.Excia. para


solicitar providências prontas e eficazes a fim de restabelecer a ordem
pública e garantir as vidas dos cidadãos desta cidade. Ontem pelas seis
horas da tarde apareceu nesta cidade o célebre criminoso Jesuíno Alves,
acompanhado de seu séquito de dez ou mais sequazes e percorreram as
ruas bem montados e armados, dizendo que vinha para conduzir uma
moça depositada na casa de Porfírio Leite Pinto ao mesmo tempo
tirarem a vida a um preso da família Limão, que se havia apresentado
para ser julgado na 1 sessão do júri, deste termo. Tendo estado os ditos
criminosos na casa de Porfírio Leite Pinto, se dirigiram à casa de Manuel
Antônio Pinto, onde pouco demoraram, regressando ao referido Porfírio,
onde se apearam e se conservaram algum tempo. Em tais condições, o
alferes João Ferreira de Oliveira, reunindo com a mais louvável
coragem, a pequena força sob seu comando, apenas 15 praças, se dirigiu
ao lugar onde permaneciam os criminosos para os prender e foi recebido
por uma descarga, que logo pôs fora de combate a um soldado; e
fazendo-se o cerco da casa acudiram muitos paisanos que se prestaram a
auxiliar a força pública. Em seguida, oficiei ao Dr. Juiz de Direito
interino da Comarca de Pau dos Ferros, e pedi o necessário auxílio da
força pública ali destacada e escrevendo ao capitão Antônio de Oliveira
Martins, 1° suplente de Juiz Municipal de Porto-Alegre para que viesse
em nosso auxílio; sendo ele pronto em acudir ao meu convite e auxiliar a
força pública com paisanos. O Juiz Municipal Dr. Francisco Bezerra
Cavalcante de Albuquerque, o 1° Suplente de Juiz Municipal deste
Termo, Cosme Justiniano de Sousa Lemos, o Delegado Francisco
Antônio de Queiroz, o Capitão João da Silva Lisboa, o Professor Cosme
Damião Barbosa Tinôco, o Professor Teófilo Orozimbo da Cunha Souto
Maior e outros muitos cidadãos, se prestaram com maior dedicação em
auxiliar a força pública.

Recolhidos os criminosos à casa de Porfirio Leite Pinto, começaram a


fazer fogo sobre a força pública e paisanos, sendo correspondidos com
alguns tiros para os intimidar. Durou o cerco até às quatro horas da
madrugada; e nessa ocasião os criminosos, tendo feito um arrombamento
para a casa vizinha surpreenderam os guardas que se achavam do lado de
fora, e descarregando sobre eles as armas, conseguiram evadir-se, sem
que pudessem ser perseguidos com vantagem pela escuridão que havia
com o ocaso da lua. Além do soldado ferido no começo do cerco, foram
feridos mais quatro, e três paisanos, sendo igualmente feridos na fuga
dos criminosos o 1° suplente do Juiz Municipal deste Termo, o alferes
João Ferreira de Oliveira e Joaquim Xavier de Queiroz, irmão do
delegado de polícia. Felizmente, até agora, só parece grave o ferimento
de um paisano que recebera uma facada quando ia na perseguição dos
criminosos que fugiam.

No estado em que ainda se acha o meu espírito não posso fazer a


V.Excia. uma narração minuciosa de tudo quanto ocorreu e me limito ao
principal que me ocorre na presente ocasião; e do que fica exposto
compreenderá V.Excia. quanto necessito de pronto auxílio da força
pública e outros meios não só para a prisão de criminosos tão
importantes, como audazes, como até mesmo para garantia da vida dos
habitantes desta cidade e principalmente das autoridades que se acham
muito expostas às iras de tais perversos.

Procuro reanimar os habitantes desta cidade e preparar outros recursos,


no caso de nova invasão dos criminosos; aparecendo a notícia de que
eles têm mandado recados ao delegado para que lhes mande entregar os
cavalos que deixaram na ocasião do cerco e protestam contra a vida do
Alferes João Ferreira de Oliveira, que bem merece o epíteto de bravo e
igualmente a coragem e disciplina da força sob seu comando, tornando
ainda mais louvável o procedimento de todos, quando é certo que
atacavam criminosos sem cartuchos e espoletas próprias para o seu
armamento e quando começaram o ataque essa munição e espoleta eram
em muito pequeno número.

Corre a notícia de que dois dos criminosos foram gravemente feridos na


ocasião em que fugiram e os demais se acham dispersos. Se vier a força
pública que requisitei de Pau dos Ferros, procurarei mandar no encalço
dos ditos criminosos.

No dia 26 do corrente, Jesuíno assassinou no lugar deste termo um


infeliz velho de nome Inácio Agapito e um seu filho de nome Manuel
Inácio, saindo ferido gravemente um filho do mesmo, de nome
Francisco, e levemente um grupo cujo nome ignoro.

Os motivos do crime foram vingança, por serem as vítimas parentes dos


Limões. Deus guarde a V.Excia.

O Juiz de Direito José Alexandre de Amorim Garcia.

Ao Ilmo. e Exmo. Sr. Dr. Antônio dos Passos Miranda.

M.D.Presidente da Província.

O PROCESSO DE IMPERATRIZ

DENÚNCIA: Ilmo. Sr. Dr. Juiz do Termo de IMPERATRIZ.

O Promotor Público da Comarca, satisfazendo o preceito legal, vem


perante V. S. denunciar de Jesuíno Alves de Melo, de Lucas Alves de
Melo e Lúcio Alves de Melo (três irmãos) e outros cujos nomes se
ignora, todos sem profissão e sem residência fixa, pelo fato altamente
criminoso que passa a referir:

No dia 30 (quarta-feira) de agosto do corrente ano, de cinco para as seis


horas da tarde, mais ou menos, os denunciados, em número de nove,
todos completamente armados, sob pretexto, segundo uns, de virem tirar
da casa do cidadão Porfírio Leite Pinto (creio afirma Pelópidas
Fernandes, que foi o sogro do Coronel Cristalino Costa, anos depois),
uma moça que ali estava depositada, e no parecer de outros, virem
assassinar na cadeia o preso Amaro Limão, e entraram a cavalo nesta
cidade e depois de acintosamente percorrerem algumas, como que para
mostrar ainda o mais solene desprezo à Lei e à Autoridade, dirigiram-se
à referida casa do cidadão Porfirio Leite, onde apeando-se [no original
está apoiando-se], recolheram-se. Derramado o pânico e o terror no seio
de todos, o digno alferes João Ferreira da Silva, comandante do
destacamento que aqui permanecia, especialmente encarregado de
capturar os denunciados, formando logo os soldados sob seu comando, e
auxiliado pelo cidadão João Francisco de Oliveira, buscou a direção da
mencionada casa a fim de cercando-a, realizar a prisão de tão célebres
quão deliquentes malfeitores.

Ao aproximar-se, porém a força pública, os denunciados, sendo avisados


disto, saíram imediatamente, e desfecharam uma grande descarga contra
os soldados, de que resultou ficarem dois destes gravemente feridos e
consequentemente retirados de tão importante diligência.

Mas, não obstante a descarga e os ferimentos havidos, o digno oficial


avançasse, os denunciados de novo recolheram-se continuaram a atirar
contra a força pública a que já se tinham incorporado diversas pessoas
do povo que acorreram ao conflito e das quais algumas receberam
também graves ferimentos, como se vê nos corpos de delito de fls. a fls.
E não obstante o comparecimento do oficial e das autoridades que, de
quando em quando, intimavam-se, dando voz de prisão aos denunciados,
estes, longe de deporem as armas e obedecerem à intimação, que lhes
fazia, mostravam-se ao contrário, tenazes na resistência que opunham e
continuavam a desfechar formidáveis tiros, até que, pelas cinco horas da
manhã, pouco mais ou menos, fazendo uma abertura na parede lateral de
uma das casas vizinhas, puderam sair e evadir-se justamente por um
ponto que se achava sem guarda.

Tais e tantos foram os tiros que a casa que servia de refúgio aos célebres
sicários ficou com as portas e paredes estragadas, em consequência das
balas e chumbos que quase sem cessar rompiam.

Ora, como os denunciados com tão ousado procedimento se tornassem


mais uma vez criminosos e para que neste caso sejam punidos com o
máximo das penas declaradas no Art. 116 do Cód. Criminal, o mesmo
Promotor vem dar a presente denúncia, oferecendo como testemunhas os
Srs. Dr. Manuel de Paiva Cavalcanti, Teófilo Orozimbo da Cunha Maior,
Francisco da Costa Oliveira, Antonio José Patrício, João Onofre
Pinheiro de Andrade, todos moradores nesta cidade, devendo se intimar
também os que já depuseram no inquérito.

P. a V., que distribua esta e autuada, se lhe tome a presente denúncia,


procedendose logo aos demais termos para a formação de culpa na
forma da lei. E.R.Mercê - Imperatriz, 21 de outubro de 1876. O
Promotor Público (a) JOAQUIM FERREIRA CHAVES FILHO.

CARTA DO CANGACEIRO CORISCO AO PADRE JOSÉ BULHÔESIO

Ilmo. Exmo. Snr. Reverendíssimo Vigário Da Igrezia de Santa Do


Ypanema Bulhanzes dezejo que esta va li encontrá gozando perfeita
Saude y pás de espírito a si com os que li forem caros. Sinhor Bulhanzes
segue em companhia desta carta este menino para u Snr. Criá como seu
filho y educá da forma que puder. A madrinha he nossa Sinhora y um
padrinho he u Snr. mesmo pesso au Bom Vigário que crie este menino da
milhor forma que puder u pai do menino sou eu Capitão Christino
Gomes da Silva Clero conhecido por Curisco. A mai do Menino he Cerja
Maria da Conceição conhecida por Dadá outro Acunto cuidado com meu
filho cou u mezmo Capitão Curisco chefe de Grupo dus Grandes
Cangaceiro.

CARTA DE MOITA BRAVAI1

Ilustríssimo Sr. Dr. Manuel Cândido u fim desta carta é somente para lhe
oferecer esta criança para o Sr. criar então faça de conta que será seu
próprio filho, então foi nascido no dia 10 de outubro de 1937. Achei
mais bem acertado mandar para si assim por diante levarei o seu roteiro
já de mim de detrás que sou conhecido e muito bem informado só não
farei lhe explicar agora. Bem, o Sr. me desculpe o presente que lhe
mando se faltei com o respeito lá haja de desculpar também o papel ser
ordinário, porque na ocasião outro melhor não encontrei, nada mais do
seu amigo cincero e criado seu Manuel, eu agora que lhe darei o meu
garbouso nome Coronel Moita Brava e a mãe Sebastiana Rodrigues
Lima. Algumas lembranças à comadre. Moita Brava, filho da Bahia.

AUTO DE DECLARAÇÕES DE UM CANGACEIROI2

Aos vinte e cinco dias do mês de maio de 1928, nesta cidade de Vila
Bela, na Delegacia Regional da Sexta Zona Policial, presente o
respectivo Delegado Regional, Dr. Francisco Menezes de Mello, comigo
Escrivão de seu cargo, abaixo declarado, aí pelas doze horas,
compareceu Pedro Ramos de Lima (vulgo Carrapêta), com vinte anos de
idade, filho de Raimundo Ramos de Oliveira e Maria Vicência
Sacramento, casado, agricultor, nascido no lugar Cachoeira, deste
município, residente no mesmo lugar, sabendo ler e escrever; o qual, as
perguntas dirigidas pela mesma autoridade, respondeu: que entrou para o
grupo de Lampião, por causa de uma encrenca com uma moça filha de
Manoel Hilário, residente na fazenda Poços, porque a família da mesma
tencionava matá-lo; que isto se deu mais ou menos no dia vinte e cinco
de maio de 1926; que, quando entrou para o grupo, este se encontrava no
sítio dos Barrosos; que passou a primeira noite juntamente com o grupo,
aconselhado pelo velho Ângelo, morador na referida fazenda Poços; que,
no dia seguinte, recebeu do próprio Lampião, um rifle, com a respectiva
munição, próximo de São Francisco, em casa do cidadão João Mariano;
que tomou parte no fogo da fazenda Serra Vermelha, deste município,
onde morreu José Paixão, um dos rapazes defensores da fazenda e uma
filha do soldado Luiz Preto, tendo ele declarante, permanecido durante
todo o tempo do ataque, nas emboscadas da estrada de Nazaré; que, após
o ataque, roubo e incêndio nas casas de Serra Vermelha, e depois de
terem matado grande quantidade de gado, animais e criações, rumaram
para São Francisco, onde passaram o resto de um dia e a noite, indo
depois para Santa Maria, dali rumado para São João do Barro Vermelho,
e, por fim, seguiram até o Poço do Ferro, de Ângelo da Gia, lembrando-
se bem dos de nomes seguintes: Lampião; Antônio Ferreira; Zé Delfina;
Bom de Veras; João de Souza; Jurema; Capão; Criança; Sabiá; Coqueiro;
Gengibre; Bem-Te-Vi; Guindu; Beija-Flor; Antônio Romeiro; Pai-Velho;
Luiz Pedro; Jurity; Nevoeiro; Moreno; Gavião; Mormaço; Chá Preto 2°;
Barra Nova; Benedito; Félix da Mata Redonda; Gasolina; Jararaca;
Pontaria; Gato; Pinica-Pau; Cobra Verde; Moita Braba; Miúdo (soldado
que desertou de Custódia); Lavandeira e muitos outros; que de Poço do
Ferro foram obrigados a sair por causa da Força de Merim, a qual saiu
em perseguição ao grupo e, de novo subiram todos os bandidos para
Carnaúba da Serra do Umã, no mesmo lugar onde antes do fogo de Serra
Vermelha haviam entrado para o grupo, Lavandeira, Serra do Umã e
Canário ou Jatobá, Fortaleza e outros; que dali rumaram para São
Francisco e lá se juntaram com José Izidoro, Manoel Hortêncio
(Caraúna) e outros; que, em São Francisco, Lampião distribuiu a todo o
grupo, grande quantidade de munição de rifle e de fuzil, obtida aqui em
Vila Bela; que para o ataque de Serra Vermelha, o cangaceiro Emiliano
Novaes, forneceu seis “rapazes”, todos devidamente armados e
municiados pelo mesmo. Eram eles: Antônio Quelé; Candieiro; os
irmãos João e Firmo Ângelo; Laurindo de Virgulino, do lugar Brejinho,
na Serra do Arapuá e Francelino Jaqueira; que eles, Chá Preto 2°,
Canafístula e Serra do Umã foram encarregados por Lampião de ir
receber de Emiliano Novaes, o pessoal por ele destinado ao grupo; que
logo no dia seguinte ao fogo da Serra Vermelha ele, declarante, deixou o
grupo e seguiu para o Estado de Sergipe e quando dali voltava, veio
saber, por lhe haver dito um tal Fabrício (Juiz de Paz na Vila de
Chorrochó), haver tratado de quatro cangaceiros feridos, ali refugiados,
os quais eram José Benedito; Antônio Rosa 2°; e outros dois. Que, no
ataque de Serra Vermelha, todos tomaram parte saliente; foi Emiliano
Novaes quem mais animou a Lampião para realizar o ataque a Serra
Vermelha; que, em virtude da insistência de Antônio Boiadeiro e deu
uma filha de Emiliano Novaes, foi o mesmo em Santa Maria, retirado do
grupo de Lampião.

INDICIAMENTO JUDICIAL DE CANGACEIROS13

Sumário: Crime pelo tiroteio, incêndio e morte na fazenda Serra


Vermelha. Escrivão Izaías Ferraz. Indiciados: Virgulino Ferreira da
Silva, Domingos dos Anjos e outros.

AUTUAÇÃO:

Aos vinte e dois dias do mês de dezembro de 1931, nesta cidade de Vila
Bela, Estado de Pernambuco, em meu cartório, autuo o processado que
adiante se vê, visto autuação anterior feita pelo escrivão companheiro já
se achar deteriorado, do que faço este termo. Eu, IZAÍAS FERRAZ
NOGUEIRA, Escrivão, escrevi. D.Ao 1° escrivão no dia oito de março
de 1929. Distribuidor J.Rufino da Silva. Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da
Comarca de Vila Bela. D.A.Como requer. Designo o dia quatro do
fluente, às doze horas, para se proceder a formação de culpa de
Virgulino Ferreira da Silva (vulgo Lampião); Ezequiel da Silva; Beija-
Flor; Domingos dos Anjos (vulgo Serra do Umã); Luiz Pedro do Retiro;
Hermínio Xavier (vulgo Chumbinho); José de Souza (vulgo Tenente);
Laurindo Soares (vulgo Fiapo); João Mariano (vulgo Andorinha);
Joaquim Mariano; Manoel Mariano; Antônio de Severina (vulgo
Nevoeiro); Antônio Romeiro; Sabino Gomes; Izaías Vieira (vulgo
Zabelê); Inácio de Medeiros (vulgo Jurema); Félix da Mata Redonda
(vulgo Félix Caboje); Heleno Caetano da Silva (vulgo Moreno); João
Donato (vulgo Gavião); Pedro Gomes; João Henrique; Antônio Rosa 2°;
Cornélio de Tal (vulgo Trovão); José Lopes da Silva (vulgo Mormaço);
José Delfina; João Cesário (vulgo Coqueiro); Emiliano Novaes; Manoel
Antônio de França (vulgo Recruta); Francisco da Silva (vulgo Cocada);
José André de Sá; André de Sá e Antônio de Sá (conhecidos pela
antonomásia de Marinheiros); Genézio de Souza (vulgo Genézio
Vaqueiro); Vicente Feliciano (vulgo Vicente Preto); José Benedito;
Pedro de Quelé; José de Generosa; José de Angélica; Ricardo da Silva
(vulgo Pontaria); Josias Vieira (vulgo Gato); José ou Antônio de Oliveira
(vulgo Menino); José Luiz (vulgo José Souza ou José Procópio);
Cipriano de Tal (vulgo Cipriano da Pedra); José de Alexandre (vulgo Zé
Preto); João Ângelo de Oliveira (vulgo Vereda); Firmino de Oliveira;
Pedro Ramos de Lima (vulgo Carrapêta); Antônio dos Santos (vulgo
Cobra Verde); Damião de Tal (vulgo Chá Preto ); Virgulino Fortunato;
Manoel Vieira da Silva (vulgo Lasca Bomba); Antônio Juvenal (vulgo
Mergulhão); Zé Pretinho; João Basílio; Joca Basílio; José Rachel (vulgo
Papagaio); Anísio (vulgo Cancão); Antônio de Ernestina; Camilo
Domingos (vulgo Pirulito); Laurindo Virgulino (vulgo Mangueira);
Miguel Gonçalves; José Cepaúba; José Cariri (vulgo Fortaleza);
Francelino Jaqueira; João Canfístula; Urbano Pinto; Raimundo Silva
(vulgo Aragão); Machinista; Antônio Ferreira da Silva; Manoel
Nogueira. Interrogado na Justiça, confessou o bandido João Ângelo de
Oliveira (vulgo Vereda), que vários meses andou aliado ao grupo
chefiado por Lampião, tendo participado de vários combates, levados a
efeito pelo mesmo grupo; que entrou para o grupo em agosto de 1926,
por iludimento de um tio seu, de nome Elias Freire, residente na Penha
de Serra do Umã e a insistência do cangaceiro Emiliano Novaes, quando
este teve as suas questões em São Francisco; que se encontrou com o
grupo de Lampião no povoado de Santa Maria, onde já se encontravam
Emiliano Novaes, Antônio Ferreira, Pedro Ramos de Lima (vulgo
Carrapêta) e muitos outros bandidos, tendo vindo em companhia dele
respondente e também a chamado de Emiliano os bandidos Antônio
Quelé, Fortaleza, Machinista, Gavião e outros, de cujos nomes não se
recorda; que foi Emiliano quem forneceu armamento a todo o pessoal,
fazendo a distribuição na Penha, em casa de Elias Freire; que não
assistiu à morte do soldado Cândido Ferraz, que já tinha sido feita
quando Emiliano o chamou para o grupo; que reunidos todos, seguiram
para Santa Maria e dali seguiram destino à fazenda Serra Vermelha,
pertencente à família Nogueira, sendo a mesma atacada às primeiras
horas da manhã, resultando a morte de um rapaz defensor da família
Nogueira e uma moça filha de Luiz Preto; que ele declarante, em
companhia de muitos outros bandidos, sob o comando de Lampião,
empiquetaram a estrada de Nazaré, onde permaneceu durante todo
tempo do ataque à fazenda, para evitar qualquer auxílio daquele povoado
à família Nogueira; que na estrada de São Francisco para Serra
Vermelha, existia um outro piquete, para evitar qualquer auxílio daquele
povoado aos proprietários da fazenda atacada, ignorando, porém, quem
comandava o dito piquete, pois o grupo compunha-se de sessenta
bandidos; que o ataque direto à fazenda Serra Vermelha, capitaneado
pelo bandido Antônio Ferreira, irmão de Lampião; que o grupo, após o
ataque, rumou ao povoado de São Francisco, tendo ali pernoitado,
seguindo depois em direção de Santa Maria; que dias depois, por
instigação do cangaceiro Horácio Novaes, Lampião atacou a fazenda
Tapera, pertencente à família Gilo, tendo ele declarante, permanecido,
durante todo o tempo do ataque e assassinato de quatorze pessoas da
família Gilo, na estrada, sob o comando de Félix Caboje, no intuito de
evitar auxílio aos atacados; que assistiu dias mais tarde, quando o grupo
subia para o Sertão, o ataque de Leopoldina, onde morreram vários
soldados da Força Pública, em combate aos bandidos e esteve no lugar
Tigre, perto de Itacuruba, onde houve combate com a polícia, ficando
ferido Lampião, indo tratar-se em Poço do Ferro, propriedade de Ângelo
da Gia, para onde seguiu com uma pessoa de absoluta confiança,
enviada pelo mesmo Ângelo da Gia; que ali ficou Lampião se tratando,
tendo Antônio Ferreira, vindo com muita gente, a maior parte do grupo,
até a Vila de Betânia, onde o declarante largou o grupo, juntamente com
Firmino, Lavandeira e Barra Nova, veio até Barriguda; que ele,
declarante, e seu irmão Firmino, dirigiram-se ao Cariri, tendo em viagem
resolvido permanecer na fazenda Serrote, de Antônio Lucas, município
de Belmonte, onde estiveram, perto de um mês, que procuraram ele,
declarante, e seu irmão, ficarem debaixo da proteção do cidadão Antônio
Lucas, porque desde muito criança se conheciam e foram criados por
gente dos Lucas; que ali estiveram muitos dias, até quando Antônio
Lucas, resolveu mandá-los para a fazenda do Cel. Francisco Chicote no
Cariri; que ele, respondente, foi capturado pelo cabo Manoel Monteiro,
quando se encontrava em proteção do Cel. Chico Chicote, na fazenda
Pau Branco; que, quando foi preso, isto é, teve intimação de prisão só
não resistiu porque a casa onde encontrava-se não merecia confiança e
podia resultar algum mal a sua família, porém tinha certeza que se
tivesse resistido, seria auxiliado pelas retaguardas do pessoal do Cel.
Chico Chicote, pois assim estava tudo combinado. E como nada mais
declarou, deu-se por findo o presente auto, em que, depois de lido e
achado conforme vai assinado pelas autoridades e pelo cidadão João
Batista de Magalhães, arrogo do declarante, analfabeto. Comigo
Joaquim José do Nascimento, escrivão que o escrevi: (aa) Francisco
Menezes de Mello, João Batista de Magalhães, Joaquim José do
Nascimento. Está conforme o original, ao qual me reporto e dou fé.
Delegacia Regional da 6á Zona Policial em Vila Bela. 1° de julho de
1928. 0 Escrivão Joaquim José do Nascimento.

TELEGRAMAS POLICIAIS14

Lampião encontra-se nas imediações do povoado de Jeritacó, mandando


pedir ao cabo João Apóstolo Evangelista, para entrar no povoado,
fazendo o cabo energicamente responder que estava pronto a sacrificar a
própria vida, porém não aceitava proposta de bandido. Ainda mandou o
segundo recado, sendo repelido com mesma energia. Vista recusa cabo,
retirou-se, indo até povoado Algodões, município de Lagoa de Baixo.
Saudações - Cap. Pedro Malta -, Comandante Força Volante. Enviado
pelo capitão Pedro Malta, em Custódia, para o coronel comandante geral
em Recife, no dia 28 de abril de 1926.

Comunico-vos que hoje 6 horas, ocasião, tenente Olímpio Marques


partiuAlgodões, conduzindo dois caminhões carregados material bélico.
Foi atacado grupo bandidos Lampião, superior sessenta homens armados
fuzis, conseguindo salvar caminhões guarnecidos, compostos dez
homens, faltam três soldados. Creio que arribaram, ocasião tiroteio.
Telegrafei cap. Pedro Malta, tenente Aurélio e Carneirinho. Está aqui
sargento Jaime. Ofereceu parte destacamento. Não mandei nenhuma
força, encontro bandido, por estarem todos atacados, inclusive oficiais.
Saudações - Cap. Sabino -, Comandante Força Volante. Enviado pelo
capitão Sabino, de Rio Branco, para o coronel comandante geral em
Recife, no dia 21 de abril de 1926.

Ontem chegou portador para avisar que Lampião se acha com seu grupo
lugar caiçara, distante daqui cinco léguas, arrebanhando animais. Passei
toda noite emboscando e estou em Atalaia, evitar assalto esta vila. Agora
mesmo acaba de chegar pessoa de Samambaia, dizendo bandidos
estiveram ali ontem à tarde; saqueando casa comercial. Subdelegado
Cícero Bezerra, seguindo depois direção Jeritacó. Neste momento, fiz
seguir força juntar-se destacamento Jeritacó, fim dar combate
bandoleiro. Todos bandidos andam bem montados. Saudações - Cap.
Pedro Malta -, Comandante Força Volante. Enviado pelo capitão Pedro
Malta para o coronel comandante geral em Recife, em 21 de abril de
1926.

Conforme vosso telegrama, informo-vos que força Nazaré, nenhum


desacato praticou São Francisco. Apenas disseram algumas verdades,
indivíduo Emiliano Novaes, visto ele ter avisado Lampião que recebia
força perseguição, motivo porque não dei combate. Emiliano uniu-se ao
grupo Lampião, mandando chamar cangaceiros de toda parte, fim
emboscar minha força e atacar Nazaré. Virtude, grupo que estava, ser
número superior minha força, não tentei cercá-los. Fui informado, ali
compõe-se quase cem homens, havendo tendência para mais. Grupo
sabendo que me dirigia para Vila Bela conduzindo animais, que tomei,
foram emboscar-me lugar Ingazeira passando ali o soldado do 3°
Batalhão da 1a Cia., n° 386, Cândido de Souza Ferraz, o qual fazia parte
minha força e recolhia-se a Vila Bela, tratar saúde, foi assassinado
covardemente pelo grupo, onde se achava Emiliano Novaes. Sigo
Nazaré, fim incorporar minha força e continuar perseguição bandido.
Saudações - tenente Solon Jardim -, Comandante Força Volante. Enviado
pelo tenente Solon Jardim, de Vila Bela, ao coronel comandante geral,
em 25 de julho de 1926.

Acaba chegar aqui cadáveres, bandidos mortos, sendo reconhecidos,


célebres, Juriti e Vicente de Sabino. Deu-se este acontecimento neste
município. Saudações - cap. Pedro Malta -, Comandante Força Volante.
Enviado pelo capitão Pedro Malta, para o comandante geral em Recife,
em 30 de julho de 1926.

Senhor Cel., comunico-vos que anteontem, dez horas, grupo Lampião,


estava fazenda Caiçara, na estrada Merim, mandou entregar cabo Plínio
Monteiro, comandante destacamento Jeritacó, trinta e nove animais e
trinta e uma selas, fazendo bilhete audacioso fim referido cabo entregar
animais, respectivos donos. Saudações - tenente Sidraque -, Comandante
Força Volante. Enviado pelo tenente Sidraque, de Custódia, ao coronel
comandante geral da Força Pública, em 7 de agosto de 1926.

Comunico-vos, força comandada anspeçada Gumercindo Saraiva,


auxiliados civis, inimigos grupo José Pequeno, prenderam Augusto
Tenório de Souza, vulgo Antônio Marreca, que fazia parte do mesmo
grupo, lugar Riacho do Meio, imediações Betânia. Bandido Marreca,
confessou ter tomado parte assassinato cidadão Pedro Lucas e José
Lucas, ocorridos ultimamente. Aludido bandido, quando em caminho
para aqui, procurou evadir-se poder escolta comando referido anspeçada
Gumercindo, concorrendo diminuição banditismo enfestam nosso
estado. Saudações - Tenente Sidraque -, Comandante Força Volante.
Enviado pelo tenente Sidraque, de Custódia, ao coronel comandante, em
3 de setembro de 1926.

Passo afirmar, sem receio contestação, bandido Lampião está


gravemente ferido, recebeu ferimento bala braço direito. Grupo seguido,
parece tomou direção Tacaratu, após tiroteio lugar Tigre, conforme voz
corrente. Comuniquei telegrama, expedido hoje, intermédio Rio Branco.
Possível que grupo tenha se dividido com fim esconder Lampião.
Saudações - Muniz de Farias -, Capitão Comandante Força Volante.
Enviado pelo capitão Muniz de Farias, de Floresta, para o coronel
comandante geral da Força Pública em Recife, dia 20 de setembro de
1926.

Comunico-vos foram feridos na emboscada Serra Umã, soldados Lucas


Mariano de Souza, ferimento a bala nas pernas, natureza grave, Moisés
Rodrigues, ferimento região lombal com penetração no pulmão direito,
todos graves, Antônio Pedro de Souza, ferimento na perna esquerda com
penetração no osso, sendo leve, Antônio Macário de Oliveira, ferimento
bala, perna esquerda, ficando projétil alojado canela, grave. Antônio
Pedro da Silva, ligeiro ferimento no braço. Acham-se sob cuidados do
Sr. José Leite, residente nesta localidade, em virtude de não existir
médico, aqui repito, este Sr. bom tratador. Peço-vos providência quanto
pagamento José Leite, medicamento. Saudações - Tenente Lemos -,
Comandante Força Volante. Enviado pelo tenente Lemos, de Salgueiro,
ao coronel comandante geral, no dia 24 de setembro de 1926.

Ocasião, emboscada Pedra Preta, Serra Umã, cumpre-me dever salientar


bravura. Lealdade, sangue frio revelado pelos soldados José Alves de
Barros e Antônio Pedro da Silva, os quais demonstraram bem que não
têm tirocínio da caserna, virtude pouco tempo praça, verdadeiro espírito
de soldado, amor superior e camaradagem. Graças a eles, não tiveram
bandidos, conseguido fruto de sua audácia. Para estímulo Força, peço-
vos elogiar mesmos. Saudações - Tenente Lemos -, Comandante Força
Volante. Enviado pelo tenente Lemos, de Salgueiro, ao coronel
comandante geral, em 25 de setembro de 1926.

Em vinte e seis do corrente, tendo recebido ontem telegrama Delegado


de Buíque, comunicando existência pequeno número bandidos
dispersados do grupo Lampião, no Juá, mandei diligência sob comando
sargento Jaime, acontecendo bandidos oferecer tenaz resistência,
resultando morte e ferimento praças, conforme fui informado, hoje três
horas. Organizei reforço auxílio que seguiram quatro horas, caminhão.
Sargento continua local tiroteio. Comuniquei fato, Tenente Sidraque,
recomendando fazer socorro companheiro. Logo regresse Força,
comunicarei minuciosamente ocorrido. Saudações - Tenente Coronel
Quintino -, Comandante Força Volante. Enviado pelo tenente coronel
Quintino, de Rio Branco, para o coronel comandante geral, em 26 de
setembro de 1926.

Solicito-vos excluir os soldados Delmiro, Joaquim Inácio de Santana,


Caetano Cassiano, João Severino do Nascimento e Aureliano Sabino dos
Santos, por terem, no tiroteio travado grupo Lampião, fazenda Tigre,
desertado da linha de fogo, sem dar um tiro e convidando outros
companheiros para tal fim. Estes praças assim procederam, para não
lutarem com os referidos bandidos. Foi determinado que os mesmos
sejam excluídos a bem da moralidade da Força, por serem elementos
péssimos e não poderem nela continuar. Enviado de Floresta, para o
coronel comandante geral, em 27 de setembro de 1926.

O grupo chefiado Antônio Ferreira assassinou ontem doze horas no lugar


Caraíbas, próximo Betânia, o soldado do 3° Batalhão, Antônio Francisco
de Souza. Tenente Higino seguiu junto a Força de Nazaré, na batida
mesmo grupo, com diferença duas horas. Ignora-se destino tomaram
bandoleiros. Saudações - Tenente Alcoforado -, Comandante Força
Volante. Enviado pelo tenente Alcoforado, de Vila Bela, para o coronel
comandante geral, em 11 de outubro de 1926.

Sindicando sobre tiroteio fazenda Favela, tenho satisfação de dizer que


tal acontecimento foi um dos feitos de maior valor praticado no interior
do estado, pela nossa heroica Força Pública. Bandidos em número
superior sabiam que sargento José Saturnino e Manoel Neto marchavam
em perseguição, de modo que, ao chegarem em lugar apropriado e
absolutamente favorável a eles, esperaram Força em campo raso. De
surpresa receberam as primeiras descargas, travando-se luta
verdadeiramente encarniçada, durante algumas horas. Após o tiroteio
grupo foi encontrado rumando direção Serra Umã, conduzindo cinco
bandidos feridos. Foi também encontrado um bandido morto no local
tiroteio, afora os que decerto o grupo pôde ocultar. Saudações -
Theophanes Ferraz Torres -, Major Comandante Força Volante. Enviado
pelo major Iheophanes Ferraz Torres, de Vila Bela, ao coronel
comandante geral, em 15 de novembro de 1926.

Comunico-vos haver desertado volante, Zonas Navio, quando seguiam


em perseguição Lampião, os soldados da 1a Cia. N° 537 - Manoel
Pereira de Lima, 421/ Antônio Fortunato da Silva -, os quais se
apresentaram em Triunfo. Os referidos foram apresentados aqui,
devidamente escoltados e acham-se recolhidos xadrez, pelo que peço-
vos exclusão dos mesmos, por não merecerem confiança. Saudações -
Major lheophanes Ferraz Torres -, Comandante Força Volante. Enviado
pelo major Iheophanes Ferraz Torres, de Vila Bela, para o coronel
comandante geral, em 16 de novembro de 1926.

INSTRUÇÕES DE Luiz CARLOS PRESTES PARA AS GUERRILHAS15

Instruções para o movimento guerrilheiro


De Luiz Carlos Prestes

1/11/1935

1° - A grande massa de nossa população do interior está, nos dias de


hoje, frente a um terrível dilema - morrer de fome -, pura e
simplesmente, ou lutar de armas nas mãos, por melhores condições de
vida. Por isso todos os revolucionários brasileiros têm a obrigação de
orientar e dirigir as lutas dos trabalhadores do interior e de não ficar à
espera de uma insurreição de caráter nacional, emanada do centro, coisa
quase impossível, dadas as condições de extensão e de dificuldades de
comunicação no Brasil.

2° - Todo o verdadeiro revolucionário, principalmente os que conhecem


o interior do país e, portanto, em primeiro lugar, os que tomaram parte
na marcha da Coluna Prestes, precisam, onde estiverem, ligar-se com o
povo e fazendo esforços para compreender seus desejos, orientá-lo,
organizá-lo e dirigi-lo na luta por tais desejos ou reivindicações.

Y - É essencial organizar os trabalhadores do campo, operários ou


camponeses, e junto com eles toda a população pobre do interior do país.
Tais organizações podem ser ligas camponesas, comitês populares,
comitês contra a fome etc. O nome não tem importância. O essencial é
que a organização surja, abraçando a maior massa possível da população
pobre e que na sua direção estejam os elementos mais combativos, os
mais revolucionários, revelados nas lutas parciais e não somente em
discursos.

4° - Tais comitês devem lutar fundamentalmente por melhoria de


salários, melhores condições de trabalho, contra as obrigações feudais
(trabalho de meia, terça, prestação de serviço gratuito) e pela posse da
terra, livre de qualquer pagamento; devem lutar contra o pagamento em
vales, contra a obrigação de comprar nos armazéns das fazendas, contra
os impostos e prestações de serviços gratuitos aos governos etc.
5° - Não ter medo das transformações inevitáveis de tais lutas em lutas
armadas. Pelo contrário, desde o começo prever tais transformações,
perfeitamente compreensíveis para a massa trabalhadora do interior e
tomar todas as medidas para desarmar a polícia, as forças de capangas de
fazendeiros e os bandos reacionários, organizando simultaneamente os
grupos armados que defenderão os camponeses em luta por suas
reivindicações.

6° - Sempre que se dominar uma região, por menor que seja o tempo de
tal dominação, satisfazer as reivindicações do povo (distribuição de
víveres, de roupa, dinheiro, ferramentas etc.), queimar a papelada dos
cobradores de impostos e dos juízes e polícia e se for possível, fazer o
comitê local distribuir a terra dos grandes latifúndios.

7° - Se forem enviadas forças muito fortes, evitar combates decisivos e


com os elementos mais combativos e decididos, organizar grupos
armados, que se movimentem, propagando por todo o interior do país a
bandeira de luta por pão, terra e liberdade. Os grupos de guerrilheiros
devem lutar contra os grandes fazendeiros, contra os cobradores de
impostos, contra a polícia e os reacionários. Tomando os armazéns das
fazendas, distribuir víveres, roupas, ferramentas e dinheiro entre a
população pobre, tratando, ao mesmo tempo, de organizá-la e levá-la à
luta por seus interesses.

8° - Evitar, o mais possível, atacar os pequenos comerciantes e mesmo


os camponeses ricos que não estejam direta ou abertamente contra o
povo. Nem deles nem da população pobre, não tomar cousa alguma.
Tomar dinheiro dos ricos para pagar tudo o que for comprado a tais
elementos, o máximo respeito pela vida, honra e bens de todos os que
não lutarem contra os guerrilheiros. Toda a violência contra os
fazendeiros e grandes comerciantes reacionários odiados pelos povo.

9° - Na luta de guerrilheiros, empregar uma tática militar e hábil e


baseada nos seguintes princípios fundamentais:
Poupar o elemento homem. Só combater quando julgar o momento
favorável. Nunca aceitar combates em condições desfavoráveis.

Nunca ficar em defensiva. Tomar sempre a ofensiva. Se uma força


adversária vem atacar o ponto que ocupamos, ou abandoná-lo antes que
ela chegue, ou marchar a seu encontro para combatê-la ainda em
marcha.

Nunca se deixar surpreender, mas tratar de surpreender sempre o


adversário, batendo-se pela retaguarda ou pelos flancos. Empregar o
mais possível as emboscadas sucessivas e obrigar o adversário a uma
vigilância constante e fatigante.

Não atacar grandes cidades nem pontos fortificados, mas tratar de


ocupar cidades e vilas logo depois que tenham sido evacuadas pelo
adversário, prendendo seus agentes e punindo os adversários do povo.

Organizar o mais vasto serviço de espionagem pela própria população do


campo e manter um serviço de ligação bem organizado, de maneira a
estar sempre a par dos movimentos das forças inimigas.

Não poupar as vidas dos comandantes e dos oficiais reacionários,


tratando, ao mesmo tempo, de ganhar para a revolução os soldados do
governo.

Sempre quer for possível, conservar presos homens de influência ou


pessoas de famílias ricas ou poderosas, exigindo dinheiro ou liberdade
de companheiros em troca de sua libertação.

1O-As lutas devem continuar, até que o Governo Popular


Revolucionário esteja dominando no Brasil. As condições naturais do
país permitem desenvolver lutas de pequenos grupos, sem o menor
receio de que sejam derrotados. O exemplo de Lampeão é bastante
convincente. O exemplo da Coluna Prestes serve também para mostrar
que quando dois ou mais grupos quiserem se reunir isso será possível e
que colunas de centenas de homens poderão lutar vitoriosamente contra
todas as forças da reação, facilitando ao proletariado nas cidades
começar a desenvolver suas lutas.

11° - Sob nenhuma condição, nem quaisquer que sejam as promessas do


governo (que serão muito grandes enquanto os guerrilheiros tiverem
armas) não entregar as armas, guardá-las sempre para exigir o
cumprimento das promessas que por acaso forem feitas. Em cada
localidade onde os guerrilheiros dominarem precisam transformar os
grupos armados em milícias populares que só obedecem ao povo ou ao
Governo Popular Nacional Revolucionário com Prestes à frente.

As lutas dos guerrilheiros

Dezembro de 1935

Enorme simpatia e apoio da massa popular às lutas revolucionárias de


novembro, especialmente em Pernambuco, no Rio Grande do Norte e
demais estados do Nordeste demonstraram até que ponto o povo está
resolvido a não mais tolerar o regime de opressão, de fome e de miséria
que representa para ele a dominação imperialista e feudal do país.

Esta dominação esfomeadora e opressora ainda é mais clara e hedionda


no Nordeste, onde a contra-revolução chefiada por Nilton Cavalcanti e
Malvino Reis excedeu aos bárbaros crimes de Filinto Muller e seus
asseclas, fuzilando e matando a paulada centenas de revolucionários
libertadores, operários, soldados e populares.

Com a decretação do estado de guerra - verdadeira declaração de guerra


de Getúlio e dos imperialistas contra o povo brasileiro -, milhares de
revolucionários viramse obrigados a passar a uma vida completamente
ilegal: não podem mais arranj ar serviço, são perseguidos em todas as
localidades onde procuram refúgio. Ao mesmo tempo, a situação da
maioria do povo, tanto das cidades como dos campos torna-se cada vez
mais precária diante do encarecimento da vida, do aumento dos impostos
escorchantes, do aumento das tabelas das companhias imperialistas.

Nessas condições objetivas que agravam a situação revolucionária do


país ainda mais, surgem naturalmente os grupos de guerrilheiros. Cada
dia em maior número, em todo o país e especialmente no Nordeste,
heroicos brasileiros - operários, camponeses, soldados, populares -,
levantam, de armas na mão, o cartel do desafio lançado à Nação por
Getúlio e seus amos imperialistas. Tais grupos de guerrilheiros, ainda
pequenos, esparsos, com ação política ainda débil, asseguram sua
subsistência à custa do inimigo, que são os elementos contra-
revolucionários ligados ao aparelho policial e os exploradores do povo.
Este fenômeno, resultante da agravação da crise revolucionária brasileira
é apresentado por toda a imprensa vendida aos interesses dos opressores
sob títulos berrantes, como banditismo, “cangaceirismo recrudescente”,
“atrocidades dos bandidos fanáticos” etc.

Todos esses artigos da imprensa visam desnortear a opinião pública,


apresentando os guerrilheiros como elementos repulsivos, assassinos,
bandidos etc. Procuram afastar dessa forma a solidariedade espontânea e
bem orientada da maioria da população oprimida, pela luta heroica que
se desenvolve e se alastra desde as portas de Recife a todo o interior do
Nordeste. Tanto que continuam a guerra de morte contra os agentes
imperialistas e seu aparelho reacionário, com o denodo e a coragem que
já foram demonstrados desde muito, na marcha lendária da Coluna
Prestes, nas arrancadas do 5 de julho, em 1930 e nas heroicas lutas de
novembro.

O fato de que esses grupos de guerrilheiros são obrigados a assegurar


sua manutenção à custa dos grandes proprietários de terras mais
reacionários, dos agentes imperialistas, dos grandes açambarcadores e
dos apaniguados destes exploradores e opressores do povo é utilizado
pela imprensa reacionária para encobrir o conteúdo de revolta e de luta
contra a opressão do povo; “gente honesta”, são os tubarões
imperialistas, os grandes latifundiários e feudais acostumados a expulsar
os agregados de suas terras e apropriar-se, pela força dos capangas, de
suas plantações e benfeitorias; “gente honesta” são os que roubam a
maior parte do dinheiro dos impostos pagos pelo povo e que empregam
o resto desse dinheiro para oprimi-lo; “gente honesta” são os que pagam
salários de fome aos operários e assalariados agrícolas, são os
responsáveis pela tremenda mortalidade infantil que se registra no
Brasil, são os responsáveis pelas centenas de milhares de casos de
tuberculose, opilação, sífilis etc., que dizimam anualmente a população
subalimentada e abandonada do país. É para dizer tais mentiras que os
Assis Chateaubriand, Geraldo Rocha, Macedo Soares e Cia., recebem
das grandes empresas imperialistas, do governo e dos magnatas
nacionais, gordas gorjetas.

Mas o povo da cidade e do campo compreende a verdade, não se deixa


mais enganar e o demonstra apoiando e participando cada dia mais
intensamente na luta contra a dominação imperialista e feudal e contra a
reação bárbara do governo de Getúlio. Nesses grupos de guerrilheiros
tanto participam revolucionários conscientes como também outros
elementos, especialmente camponeses, revoltados contra as injustiças de
que são constantemente vítimas, que estão resolvidos a levar a luta,
desde já, pelas armas. Tanto uns como outros refletem e representam o
descontentamento do povo contra o estado de opressão, de miséria
esfomeada e da falta completa de garantias constitucionais em que
vivem. As lutas de guerrilheiros representam, como as greves, protestos,
demonstrações nas cidades, nos quartéis e nos campos a continuação da
revolução nacional libertadora iniciada em novembro de 1935, visando a
derrubada do governo de traição nacional de Getúlio e a implantação do
Governo Popular Nacional Revolucionário, chefiado por Luiz Carlos
Prestes. É necessário que todos compreendam que a ação dos grupos de
guerrilheiros, mesmo em sua forma primitiva, não significa uma
aventura apenas, e portanto um fato sem importância para o grande
movimento revolucionário que empolga cada vez mais o país.
Evidentemente, se faltar uma direção política, se um grupo de
guerrilheiros ficar apenas no terreno das expropriações e pequenas
ações, sem organizar o apoio do povo e levá-lo a lutas mais amplas, sem
progredir numérica e politicamente, a sua importância será diminuta,
poderá mesmo ser esmagado pela reação. Mas é justamente isso que
queremos e devemos evitar.
Tomando o rumo das lutas organizadas, dirigidas e com o programa da
Aliança Nacional Libertadora, passando a um nível superior e
progressivo, as guerrilhas, desde já, representarão um papel
importantíssimo na Revolução Brasileira.

Aumentarão a desagregação do regime, dispersarão a reação, levantarão


mais alto ainda o entusiasmo revolucionário das massas, cimentarão a
aliança entre os ope rários, camponeses, soldados e populares. Formarão
e treinarão novos quadros de combatentes anti-imperialistas, se
transformarão rapidamente em componentes do grande Exército Popular
Nacional Libertador. Despertarão, com seu exemplo e sua audácia, novas
camadas para a luta. Levarão por todos os sertões o programa da ANL,
as palavras da Revolução e mostrarão na prática, com a aplicação deste
programa, o que pode fazer pelo povo o Governo Popular.

A insurreição de novembro foi o início dos grandes combates. As


guerrilhas são uma das formas de seu prosseguimento.

A Aliança Nacional Libertadora tem, pois, grandes tarefas, visando


fortalecer, coordenar e organizar novos grupos e o apoio e solidariedade
da população oprimida aos valentes guerrilheiros. Seguem-se algumas
instruções e explicações que devem ser estudadas e realizadas por todos
os núcleos.

Organização do apoio das populações das cidades

É necessário levantar desde já uma grande campanha de agitação que


desmascare as manobras da reação e sua campanha de imprensa,
editando-se volantes, manifestos e se propagando constantemente,
verbalmente, a finalidade verdadeira dos guerrilheiros e o conteúdo
revolucionário das guerrilhas. Esse apoio moral é indispensável, mas
pouco servirá se não for acompanhado de todas as formas de iniciativa
no sentido de arranjar armas e especialmente munições e medicamentos
destinados aos combatentes e sobretudo fustigando o inimigo pela
retaguarda, interrompendo suas comunicações, causando-lhe prejuízos
de toda espécie e por todas as formas. Cada núcleo da ANL deverá
escolher uma comissão especialmente encarregada de coordenar essa
ação concreta e de canalizar os recursos obtidos para os grupos com que
tiverem ligação ou com o Diretório estadual para que os faça seguir.
Todo esse trabalho deve ser levado adiante com a aplicação caprichosa
das formas de trabalho ilegal, resguardando o aparelho da penetração de
provocadores.

Também devem ser canalizadas todas as informações que for possível


obter sobre movimentos e intenções das tropas e “volantes” da reação.
Todos os aliancistas e simpatizantes devem esforçar-se para fazer
entender aos soldados, graduados e oficiais o verdadeiro significado das
guerrilhas e lutar para que passem para seu lado, em vez de combatê-las.

Lutas dos camponeses e as guerrilhas

Não podemos, com relação ao campo, falar apenas em apoio e


solidariedade das populações aos grupos guerrilheiros. É tal a situação
de miséria e opressão em que vivem os assalariados agrícolas e
camponeses, empobrecem-se tão rapidamente os fazendeiros pequenos e
médios, os donos de bangués e o pequeno comércio que sempre que os
grupos de guerrilheiros agirem com uma perspectiva política justa, esse
apoio e solidariedade se transformará rapidamente em participação cada
vez mais ativa e direta.

A situação objetiva torna também evidente que a preparação da defesa


armada de lutas parciais no campo - que todo camponês de há muito
sente necessária -, significa também, na realidade, a preparação de
guerrilhas, pois que os elementos que mais se destacarem terão que
passar à vida ilegal.

Todo nosso trabalho no campo deve ser concentrado para a preparação


dessas lutas, fazendo campanhas de agitação e propaganda da luta contra
os impostos e fretes caros, contra a execução de hipotecas, pela
moratória das dívidas dos lavradores e dos donos de banguês, pela
rebaixa de arrendamentos, pelo aumento de salários, contra o despejo de
agregados etc. etc.

As guerrilhas que surgirem como resultado de lutas de massa no campo


terão asseguradas a solidariedade ativa de quase toda a população e
crescerão muito rapidamente. Sobre como preparar essas lutas e
melhorar a agitação e propaganda no campo, enviaremos brevemente
explicações e instruções detalhadas, mas contamos desde já com toda
iniciativa dos aliancistas do interior, organizando desde já a agitação
ligada à explicação do conteúdo revolucionário das guerrilhas. Desde já,
também, é necessário criar uma ampla rede de informações, preparar
esconderijos para os grupos muito acossados etc., e tratar da organização
de novos grupos com os elementos mais dispostos.

Não se deve encarar essa questão da formação de grupos segundo


esquemas. Os grupos em movimento mais ou menos constante surgem
da necessidade da própria luta. Mas, em geral, começam com a
realização de ações isoladas, mantendo-as os seus membros ainda na
legalidade ou na semi-legalidade. Este processo serve para treinar os
grupos para que fiquem conhecidas as qualidades e defeitos de seus
membros. Aliás, tais grupos não permanentes e que combinam a vida
semi-legal ou legal com a ação revolucionária deverão sempre existir,
para manter uma constante hostilidade na retaguarda das forças
reacionárias. À medida que esses grupos resolverem ou forem forçados a
passar a grupos guerrilheiros permanentes, deverão ser substituídos por
novos, compostos de elementos ainda não queimados.

Toda sorte de iniciativas de agitação e ação revolucionária deve ser


tomada com estudo acurado e detalhado do trabalho e com audácia na
realização. Desde a distribuição de manifestos e colocação de bandeiras
com autodefesa armada até as emboscadas às volantes reacionárias há
uma variedade enorme de ações revolucionárias que as próprias
condições locais indicarão.

Apontamos a conveniência de atuar em zona suficientemente afastada do


local de residência; a importância do itinerário escolhido, diminuindo ao
mínimo o risco de encontros ocasionais com moradores; insistimos sobre
a máxima vigilância contra a penetração de provocadores e a máxima
energia contra os mesmos quando descobertos; a necessidade de
disciplina e de segredo.

A discussão das ações só deve ser feita depois de realizadas. O plano


deve ser elaborado pelo chefe e seu imediato, que ficarão responsáveis
perante todo o grupo pela sua boa realização. Desde o princípio cada
grupo deve preparar-se para se tornar permanente e móvel logo que
assim [ilegível] ou que a reação a isso o obrigue. Para tanto, deve ligar-
se com [ilegível] simpatizantes de confiança, estabelecer pequenos
depósitos de alimento, munições e armas, preparar uma corrente de
ligações com simpatizantes do local de origem e outros pontos
convenientes.

A tática de guerrilhas

Foram os guerrilheiros espanhóis que tornaram possível a primeira


derrota de Napoleão. Interrompiam constantemente as comunicações,
[ilegível] e desmoralizavam, com as constantes emboscadas e golpes de
mão o bem organizado e eficiente exército regular, até que se juntassem
às formações de linha inglesas às espanholas e portuguesas em Torres
Vedas. O [ilegível] Duque de Ferro não teria vencido se tivesse
encontrado pela frente [ilegível] de exército de Napoleão descansado e
concentrado.

Vivo na consciência de todos está o exemplo dos guerrilheiros chineses


que, partindo de grupos esparsos e pouco numerosos, depois da derrota
de Cantão, com a traição de Chan Kai-Chek e do Kuomintang,
transformaram-se, hoje em dia, num formidável e [ilegível] exército de
cerca de um milhão de homens, abrangendo em torno de si mais de 800
mil guerrilheiros, inclusive os da Manchúria, [ilegível] uma zona
habitada por mais de cem milhões de habitantes e influindo
decisivamente na política externa da China frente ao imperialismo.

A guerrilha é uma tática dos que veem pela frente um inimigo superior
em armamento e equipamento técnico. É a tática que permite às
populações oprimidas levarem avante com sucesso a luta contra o
opressor ou [ilegível] tomando-lhes as próprias armas e munições de que
necessitem. Atacando sempre de surpresa, utilizando seu profundo
conhecimento do terreno (em cada grupo, pelo menos dois de seus
membros precisam conhecer o terreno de ação como as palmas das
mãos), para atacar e esquivar-se aos ataques, utilizando o apoio da
população para acoitar-se quando acossado, ter sempre informações dos
movimentos do inimigo e deixar este sempre mal informado e andando
às apalpadelas, os guerrilheiros são invencíveis.

No próximo capítulo explicaremos como assegurar cada vez maior apoio


de massas. Aqui vamos transmitir algumas indicações, baseadas na vasta
experiência das lutas atuais e anteriores.

Informações

Cada grupo deve criar a rede mais ampla possível de ligações na região
de sua atuação. Quanto mais bem informado sobre os movimentos e
intenções do inimigo (volantes de polícia e bandos de capangas) melhor
poderão esquivar seus golpes e pegá-los de surpresa.

Utilizar para isso os simpatizantes e amigos, descobrir formas de


transmissão de toda espécie: a cavalo, por tropeiros, a pé, pelas mulheres
que vão à feira. Combinar encontros em dias fixos, pontos para [ilegível]
etc.

À medida que forem adquirindo experiência compreenderão a


importância de controlar a verdade das informações, comparando as de
diversas fontes. São especialmente úteis os pequenos comerciantes,
médicos, [ilegível], choferes e ajudantes, para este trabalho.

Em toda parte onde andaram os guerrilheiros devem ensinar à população


a não prestar informações ao inimigo e a desnorteá-los com informações
falsas, punindo os que os traíram.

Cada núcleo da ANL deverá encarregar um dos membros mais ativos


para organizar a rede de informações em cada zona e de remetê-las
regularmente, tanto aos grupos de guerrilheiros mais próximo como
também ao Diretório estadual.

É preciso empregar nesse serviço todas as regras de conspiração e o


maior segredo.

Armamento e munições

Em geral esse problema tem que ser resolvido à custa das forças da
reação (volantes e capangas). Nem um só fuzil deve ser abandonado,
senão quando for humanamente impossível conduzi-lo. Organizar
depósitos (no máximo 10 armas e 500 balas cada um) para esconder o
que não é imediatamente necessário, tomando a precaução de engraxar
as armas e resguardar da humidade tanto estas como as munições.

À medida que os grupos forem aumentando, devem planejar


cuidadosamente e realizar com audácia golpes de mão contra os
depósitos de armamento e contra os caminhões de abastecimento e
remuniciamento, estudando previamente como transportar o que
conquistarem para lugares seguros.

Movimento, surpresa

Mesmo nos princípios, quando o guerrilheiro combina a vida semi-legal


com a de luta, ele deve estar disposto a cobrir grandes distâncias a pé ou
a cavalo, a pernoitar no mato, às vezes andando no escuro a noite inteira,
a não respeitar sol nem chuva. Mesmo nos períodos de descanso,
constantemente, o grupo tem que estabelecer o serviço de vigilância,
colocando sentinelas de acordo com as necessidades do terreno. O chefe
do grupo deve sentir-se pessoalmente responsável pela verificação da
vigilância. Chova ou faça sol, esteja ou não caindo de cansaço, é tal a
importância de assegurar não poder ser surpreendido pelo inimigo que o
próprio chefe deve pessoalmente controlar a distribuição e vigilância das
sentinelas.

Assim como é importante não ser surpreendido, é necessário utilizar ao


máximo o fator surpresa contra o inimigo. E para surpreender é preciso:
conhecer muito bem o terreno, rapidez de movimento e ter bons serviços
de informações. Com esses dados pode estudar detalhados planos de
ação rápida e audaz.

À medida que forem crescendo e adquirindo experiência, os grupos


ampliarão seus efetivos de ação. Porém, desde o princípio e sempre, os
guerrilheiros devem recusar combate toda vez que o procurarem as
forças da reação. Recuar, para mais tarde torná-los de surpresa. Ceder
terreno, mas economizar os homens. Essa é a tática central dos
guerrilheiros. Empregar sempre as forças para surpreender o inimigo por
partes, cansá-lo, mantê-lo sobressaltado para desmoralizá-lo.

A maior ou menor eficiência da tropa inimiga depende em grande parte


do seu serviço de comunicações. A perseguição a um grupo de
guerrilheiros por forças volantes é ineficiente desde que essas forças não
disponham de meios de transporte e comunicação rápidos.

Compreende-se bem, portanto, a importância que tem prejudicar


constantemente e o mais possível o serviço de comunicações do inimigo.
Não só os grupos guerrilheiros devem sistematicamente cortar os fios
telefônicos e telegráficos (de preferência inutilizar as estações), como - à
medida que for necessário -, derrubar postes e fazer cair barreira nas
estradas de rodagem e de ferro. É preciso tomar as precauções
necessárias para evitar desastres à população e para explicar-lhe a
necessidade dessa sabotagem.

Serviço de saúde

A vida dura dos guerrilheiros torna necessário conseguir médico ou


enfermeiro para cada grupo maior. Desapropriando aos reacionários ou
comprando aos pobres os remédios necessários, asseguraremos aos
guerrilheiros uma maior resistência física e um mínimo de perdas.

Refúgios onde encostar os feridos devem ser preparados de antemão e


estes devem ser levados pelo grupo que deve fazer um ponto de honra de
nunca abandoná-lo quando humanamente possível evitá-lo.

A ação política dos guerrilheiros

Nossa posição com relação aos cangaceiros

Na introdução deste documento já explicamos por que surgem, muitas


vezes quase espontaneamente, os grupos guerrilheiros. Neste capítulo
queremos deixar bem claras as tarefas dos revolucionários nacional
libertadores dentro desses grupos para lhes dar perspectivas políticas
claras e canalizar sua ação cada dia mais para a luta revolucionária
consciente.

Intimamente ligada com esta questão está outra que é necessário


esclarecer mais uma vez, isto é: a nossa posição frente aos cangaceiros.
Sobre isso ainda há muitas confusões que é preciso esclarecer. Uns,
conhecendo as origens do cangaço na revolta contra a opressão feudal,
conhecendo sua grande coragem, audácia e resistência física, tendem a
idealizá-los como revolucionários; outros, infelizmente mais numerosos,
sobretudo entre as camadas intelectuais, deixando de parte a análise
objetiva e as causas do cangaço, seguem inconscientemente nas pegadas
da reação e de seus escribas e enxergam somente no cangaço as
barbaridades que às vezes são cometidas por elementos isolados contra
inimigos pessoais, ou mais frequentemente, contra os que os perseguem
ou que os atraiçoam.

O cangaço é uma forma primitiva e espontânea de revolta de elementos


camponeses. Os seus mais ferozes inimigos são obrigados a reconhecer
que a injustiça e a opressão feudal são a causa da existência de 90% dos
cangaceiros. Quase todos esses elementos que ofendidos e prejudicados
pelo senhor feudal (um parente assassinado, uma irmã deflorada, uma
roça invadida pela boiada do proprietário vizinho, uma terrinha roubada
de conluio com a “Justiça” e a polícia locais etc.), fizeram justiça por
suas próprias mãos e viram-se dessa forma obrigados a cair no cangaço
para manter sua liberdade. É preciso compreender que a “justiça”, suas
leis, são feitas e aplicadas para os interesses dos opressores pelo
aparelho de Estado, que está a serviço dos que vendem ao imperialismo
estrangeiro o sangue e o suor de nosso povo. Portanto, os que se
revoltam contra tal estado de coisas e que lutam contra o aparelho da
reação, mesmo que o façam sem perspectiva política, são objetivamente,
de fato, revolucionários, enquanto assim procedem.

Compreendido isso, é preciso também esclarecer os que idealizam o


cangaço e que não percebem o caminho que estes têm que seguir para
transformar-se em guerrilheiros. Tais companheiros enxergam apenas a
semelhança quase completa dos métodos e táticas de luta empregados
pelos cangaceiros e pelos grupos de guerrilha já existentes, e que é
determinada apenas pela questão da correlação de forças com a reação e
pela natureza do terreno e as condições de existência no interior do país.
Tal forma de encarar a questão não é j usta, porque o critério adotado
também não é político. Expliquemos.

O cangaceiro é um elemento revoltado contra a ordem das coisas


existente, é de fato revolucionário porque luta contra o aparelho de
estado e sua reação. Porém, a vitória para o cangaceiro está em subsistir
livre. Para esse fim é que luta contra a reação quando é necessário e vive
de armas na mão. O cangaceiro, portanto, não tem finalidade política
definida.

Já o guerrilheiro, mesmo que comece somente como revoltado, aprende


rapidamente dos companheiros revolucionários nacional libertadores
como lutar consequentemente para transformar o estado de coisas
existente. A vitória para o guerrilheiro é não somente subsistir à custa
dos reacionários, cansar e dispersar a reação, como - ao lado dos
operários, soldados, camponeses, populares e nacional libertadores de
todas as camadas sociais -, lutar até derrubar o governo de traição
nacional de Getúlio, implantar o Governo Popular Nacional
Revolucionário que dará PÃO, TERRA E LIBERDADE, prosseguindo
na luta dentro do Exército Nacional Libertador até o esmagamento da
contra-revolução dos imperialistas. O guerrilheiro tem portanto uma
finalidade política clara.

É preciso também não ver isto esquematicamente, pois não existem


barreiras entre o grau de desenvolvimento político dos diversos grupos
de lutadores sertanejos, havendo desde o elemento mais atrasado, capaz
de ser utilizado até mesmo pelos chefes políticos reacionários, como
certos antigos cangaceiros, até os elementos com consciência política
esclarecida, como os revolucionários remanescentes das lutas de
novembro. O que é necessário é compreender que uma propaganda bem
feita, que esclareça os elementos mais atrasados, nos abre a perspectiva
de dar um cunho cada vez mais político à grande maioria dos grupos de
lutadores existentes. Pode-se e deve-se convencer pacientemente os
cangaceiros de que seu lugar é ao lado dos revolucionários contra a
reação que sempre os oprimiu. Mostrar-lhes a perspectiva de voltar,
depois de vitoriosa a Revolução, para o seio de suas famílias, obtendo,
como todos os soldados do grande Exército Nacional-Revolucionário, o
direito à posse da terra. O cangaceiro é, por todas as razões acima
enumeradas, um aliado natural dos guerrilheiros e isso devemos
aproveitar todas as oportunidades para fazer-lhes compreender.
Queremos agora dar uma ideia de como conduzir os atos em perspectiva
política. É sempre possível dar um cunho político às ações dos grupos
guerrilheiros. Mesmo no princípio. Na escolha dos objetivos de ataque
deve-se ter sempre um critério político: visar elementos
reconhecidamente reacionários e odiados pelo povo.

Visar, de preferência, os grandes proprietários mais reacionários,


conhecidos na sua ferocidade na exploração dos assalariados, agregados
e camponeses das redondezas. Os atos, inclusive os de expropriação,
realizados contra tais elementos terão o apoio da massa, serão encarados
como atos de justiça.

Preparar de antemão o trabalho de propaganda e agitação a ser


desenvolvido logo que conquistado o objetivo. Realizar comício
explicando por que atacam tal elemento reacionário, lendo e explicando
o programa do Governo Popular e franqueando a palavra para ouvir as
queixas e opiniões de todos os que queiram falar. É preciso aprender a
romper o retraimento das populações com paciência, pois estas em geral
retraem-se à aproximação de qualquer grupo armado, com receios de
levar alguma sobra. É preciso saber tratá-las com toda a consideração,
publicar e demonstrar na prática que lhe asseguram todas as garantias,
dando assim um primeiro passo para conseguir sua simpatia e mais tarde
atraí-la a participar diretamente da luta.

Para conseguir romper o receio natural da população é muito indicado


anunciar e convocá-la para participar da distribuição dos gêneros e
mercadorias dos armazéns e depósitos pertencentes aos reacionários.
Assim consegue-se facilmente um auditório para o comício, estabelece-
se uma ponte viva para o trabalho nacional libertador. Os nossos
companheiros devem preparar de antemão o discurso, abordando as
reivindicações sentidas pelos presentes, mostrando-lhes como unir-se
para lutar por elas, quais as formas de luta etc. É também necessário
responder claramente às perguntas sobre como responder e evitar a
reação, como organizar seu próprio grupo de guerrilha etc.

Os nossos companheiros devem ter a preocupação não somente de


recrutar elementos novos para ingressar no grupo, como de criar núcleos
da ANL e estabelecer ligações conspirativas para enviar-lhes material da
ANL e receber informações. É muito conveniente que os grupos sempre
conduzam material de propaganda impressa, especialmente cópias do
programa do GPNR.

É de muito interesse proceder ao julgamento público dos reacionários,


forçar o casamento de pessoas que tenham faltado com respeito às filhas
dos camponeses, restituir terras roubadas aos pobres, obrigar à
indenização por prejuízos causados pelos ricaços às lavouras dos pobres
etc. Aproveitar esse ensejo para fazer compreender a auto-defesa e a
formação do grupo de guerrilheiros local e para demonstrar como já
podiam ter feito essa justiça por sua própria conta etc.

A questão da divisão das terras será levantada em muitos pontos.


Devemos explicar aos camponeses que estamos de pleno acordo com a
tomada da terra dos grandes proprietários reacionários, dos imperialistas
e dos contra-revolucionários, mas que apoiamos eles nessa luta, os
ajudamos, mas não podemos ficar ali parados para garantir-lhes a posse.
É preciso compreender, e os camponeses o compreenderão muito
facilmente, que uma coluna reacionária chegando num lugar onde se
dividiram as terras exerce represálias contra os camponeses e que estes
devem então ou esperar para o desenvolvimento maior da influência dos
guerrilheiros e engrossar suas fileiras, ou então organizar desde logo a
defesa da posse da terra com suas próprias forças.

Os grupos maiores poderão também desde já ter a perspectiva de ocupar


arraiais e vilas do interior. Tais ações oferecem maior campo para o
trabalho político, pois há maior concentração de massa e mais
possibilidade de propaganda. Aqui não abordaremos a questão da ação
militar propriamente. Apenas lembramos a importância do estudo de um
plano minucioso de ataque às forças reacionárias existentes
(destacamentos, integralistas, capangas etc.), e o corte prévio das
comunicações telegráficas e telefônicas, bem como o estudo prévio do
terreno por membros do grupo desconhecidos no local. Aqui tratamos do
trabalho político. Os guerrilheiros devem demonstrar sua consciência
revolucionária portando-se com o maior respeito para com todas as
famílias, não molestando o pequeno comércio e sim requisitando e
pagando a este tudo do que necessitar e que não encontre para
desapropriar nas lojas dos grandes açambarcadores reacionários. Repetir,
nestes casos, a mesma tática já indicada de organizar a distribuição à
pobreza dos gêneros e mercadorias expropriadas, aproveitando-se do
ajuntamento para realizar o comício de propaganda e a distribuição do
material escrito. Se a prática dos guerrilheiros já realiza o programa da
ANL é muito fácil convencer-se a população de sua sinceridade e daí a
importância de educar todos os guerrilheiros para observar uma estrita
disciplina e agirem organizadamente. Quando a massa vir que os
guerrilheiros respeitam a propriedade e que só desapropriam aos grandes
reacionários e tomam medidas contra os seus lacaios, que queimam a
papelada das coletorias ao mesmo tempo que fazem a propaganda contra
o pagamento de impostos; que propagando a luta pela liberdade abrem
as portas das cadeias e queimam os autos dos processos existentes em
juízo e nas delegacias, será muito fácil convencê-la de nossa sinceridade,
conseguir seu apoio e conquistar muitos novos lutadores entre eles.

Por pequena que seja a localidade, os guerrilheiros deverão propor no


fim do comício a constituição de um governo local nos moldes do
governo popular, consultando para esse fim a própria massa que é quem
deve eleger os seus representantes. Nem que seja por poucas horas de
duração, esse ato político tem muita importância para despertar a
consciência da população. Não se deve impor candidatos nossos, ao
contrário, deixar o povo escolher e indicar de preferência elementos
populares com prestígio, sejam ou não simpatizantes da ANL. O que é
importante é que eles tenham que realizar o programa votado pelo povo.
Sobre esse assunto, mais adiante enviaremos diretivas detalhadas.

Há ainda uma questão bastante importante a esclarecer: a posição do


inimigo vencido. Os guerrilheiros, se bem que lutarão impiedosamente
contra o inimigo, devem saber diferenciar entre os chefes e os
comandados. É necessário destinar sempre muita propaganda aos
soldados e graduados das volantes, sob forma de cartazes e bandeiras
deixados em pontos bem visíveis. Terminada a refrega devese fazer
propaganda entre os vencidos, procurando ganhar elementos para a luta.
Somente tomar medidas extremas contra os que encabeçam a reação. A
luta contra os chefes reacionários é que deve ser sem quartel, mas os
seus homens - os soldados, os camponeses, mobilizados por eles -,
devem ser bem tratados e alvo de intensa propaganda política. Esses
também são oprimidos, mas em muitos casos não o sabem. O que é
preciso é desarmar imediatamente e fazer jurar em público não mais
pegar em armas contra o povo. Mesmo que um soldado aprisionado e
mandado posteriormente em paz desarmado, volte a lutar contra os
guerrilheiros e contra o povo, o que ele contar a seus companheiros será,
sem querer, propaganda favorável aos guerrilheiros, fará pensar e abrirá
caminho a muitos para simpatizarem conosco. Sendo pegado de novo, já
então o caso é diferente e o próprio povo o condenará. Quanto aos
oficiais, também só se deve agir severamente desde logo com elementos
reconhecidamente reacionários, carrascos do povo e detestados pelo
mesmo. O próprio povo os condenará logo. Quanto aos que são queridos
da tropa e de quem a população não tenha queixa, é preciso agir com
discernimento, fazer propaganda junto a ele e lutar para ganhá-lo para a
Revolução.

Em geral os guerrilheiros, nessa questão, devem apoiar-se na massa e


seguir seus desejos. Nossa finalidade não é uma vingança qualquer e sim
ganhar a massa para a Revolução.
São essas, companheiros, algumas indicações para facilitar e coordenar o
importantíssimo trabalho que já está sendo feito no sentido de alastrar
por todo o interior do país a luta de guerrilhas. É necessário tocarmos
para frente, levantando novos grupos, reforçando os existentes,
juntando-os em colunas, desencadeando lutas por toda parte e tornando
conhecido em todo o interior o programa do GPNR formando dessa
forma o grande Exército Nacional Libertador nos campos, com vistas à
implantação do Governo Popular Nacional Revolucionário sob a chefia
do maior dos brasileiros, nosso grande LUIZ CARLOS PRESTES.

O Diretório Estadual de Pernambuco da ANL.



INTRODUÇÃO

1Ver Ranulfo Prata, Lampião (São Paulo, Traço, [s. d.]), p. 30.

2Idem.

3Ver Érico de Almeida, Lampeão, sua história (João Pessoa, Universitária,


1998), p. 7-12.

4Ibidem, p. 87.

5Ver Eduardo Barbosa, Lampião, rei do cangaço (Rio de Janeiro, Edições de


Ouro, 1968).

6Ibidem, p. 7.

Ibidem,p. 32.

8Ver Rui Facó, Cangaceiros e fanáticos (Rio de Janeiro, Civilização


Brasileira, 1963). Ainda que lançado em 1963, o livro reunia estudos que
Facó havia publicado na Revista Brasiliense desde 1958. Ver Carlos
Alberto Dória, “O Nordeste `problema nacional’ para a esquerda”, em João
Quartim de Moraes e Marcos del Roio (orgs.), História do marxismo no
Brasil, visões do Brasil (Campinas, Editora da Unicamp, 2007, v. 4), p. 283.

VerMaria Christina Russi da Marta Machado, As táticas de guerra dos


cangaceiros (Rio de Janeiro, Laemmert, 1969). Ver também, da mesma
autora, “Aspectos do fenômeno do cangaço no Nordeste brasileiro, I”,
Revista de História, São Paulo, USP, n. 93, 1973, p. 139-175; “Aspectos do
fenômeno do cangaço no Nordeste brasileiro, II”, Revista de História, São
Paulo, USP, n. 95, 1973, p. 177-212; “Aspectos do fenômeno do cangaço
no Nordeste brasileiro, III”, Revista de História, São Paulo, USP, n. 96,
1973, p. 473-489; “Aspectos do fenômeno do cangaço no Nordeste
brasileiro, IV”, Revista de História, São Paulo, USP, n. 97, 1974, p. 161-
200; e “Aspectos do fenômeno do cangaço no Nordeste brasileiro, V”,
Revista de História, São Paulo, USP, n. 99, 1974, p. 145-174. Na época em
que era diretor editorial da Editora Laemmert, entre meados de 1967 até
outubro de 1969, Luiz Alberto Moniz Bandeira ouviu falar do trabalho
académico de Christina Marta Machado e sugeriu que este fosse adaptado
para publicação em livro. De acordo com ele, o livro teve boa repercussão.
Moniz Bandeira afirma que quando estava preso no Cenimar, o comandante
da Marinha que o interrogou se referiu a esse livro. Ainda assim, a obra não
foi apreendida pelos militares naquela ocasião. Luiz Alberto Moniz
Bandeira, depoimento ao autor, janeiro de 2010.

FredericoPernambucano de Mello, Guerreiros do sol, violência e banditismo


no Nordeste do Brasil (Recife, Fundação Joaquim Nabuco/Massangana,
1985).

11BillyJaynes Chandler, “Brazilian Cangaceiros as Social Bandits: A Critical


Appraisal”, em Richard W.Slatta (org.), Bandidos: lhe Varieties
ofLatinAmerican Banditry (Westport, Greenwood Press, 1987), p. 97 a 112;
Billy Jaynes Chandler, Lampião,o rei dos cangaceiros (Rio de Janeiro, Paz
e Terra, 1981).

12Ver Jorge Mattar Villela, O povo em armas, violência e política no sertão


de Pernambuco (Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2004).

13Roland Barthes, citado em Paulo César deAmorim Chagas, Luciano


Galletvia Mário de Andrade, 1° momento: possibilidades (Rio de Janeiro,
Funarte, 1979), p. 9.

14Ver Abelardo Parreira, Sertanejos e cangaceiros (São Paulo, Paulista,


1934), p. 34.

15Ver Maria Isaura Pereira de Queiroz, Os cangaceiros (São Paulo, Duas


Cidades, 1977), p. 44.

16Ver Raphael Bluteau, Vocabulário portuguez e latino, disponível em:


<http://www.ieb.usp.br/ online/index.asp>. Acesso em 17 jun. 2009.
17Ver Luís da Câmara Cascudo, Flor dos romances trágicos (Natal,
EDUFRN, 1999), p. 211.

18Ver Juvenal Galeno, Cenas populares (Fortaleza, Tip. do Comércio, 1871).

19Ver Franklin Távora, O cabeleira (Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1966).

20Ver Irenéo Joffily, Notas sobre a Parahyba (Brasília, Thesaurus, 1977).

21De acordo com o Dicionário Houaiss, o termo “canga”, de origem


controversa, surgiu provavelmente no século XIV, e tem uma diversidade
de significados. Seria uma armação de madeira sobre telhados de palha,
peça de madeira para prender junta de bois a carro ou arado, pau assentado
nos ombros de dois carregadores e usado para transportar objetos pesados,
instrumento de suplício chinês, ganga, domínio, opressão jugo, entre outros.
Ver Instituto Antônio Houaiss, Dicionário Houaiss da língua portuguesa
(Rio de Janeiro, Objetiva, 2000), p. 597. Já Nei Lopes afirma: “Étimo
controverso. Nascentes, separando as acepções em duas entradas, atribui,
respectivamente, origem céltica e chinesa. Para nós, a origem pode estar no
quicongo kanga, amarrar, prender, capturar, apertar, de nkanga, ação de
ligar; que é amarrado (Laman). Entre os Congos cubanos, kanga é o amarre,
a ligadura mágica”. Ver Nei Lopes, Novo dicionário Banto do Brasil (Rio
de Janeiro, Pallas, 2003), p. 64. Por outro lado, Rodolfo Garcia indica que o
termo tem origem no tupi acanga, cabeça pela forma que assume. Ver
Bernardino José de Souza, Dicionário da terra e da gente do Brasil (São
Paulo, Companhia Editora Nacional, 1961), p. 80.

22Ver Rodrigues de Carvalho, citado em José Alípio Goulart, Da palmatória


ao patíbulo, castigos de escravos no Brasil (Rio de Janeiro, Conquista,
1971), p. 64.

23Ver João Emanuel Pohl, citado em José Alípio Goulart, Da palmatória ao


patíbulo, castigos de escravos no Brasil, cit.

24Ver Jean-Baptiste Debret, citado em José Alípio Goulart, Da palmatória ao


patíbulo, castigos de escravos no Brasil, cit.
25Ibidem, p. 64-5.

26De acordo com o Dicionário Houaiss, a “cangalha’, termo utilizado desde


1518, seria um artefato de madeira ou ferro, em geral acolchoado, que se
apõe ao lombo das cavalgaduras para pendurar carga de ambos os lados, um
triângulo de madeira que se coloca no pescoço dos suínos para impedir que
fucem canteiros, carro puxado por só um animal, armação de madeira e
ferro em que se colocam canhões ou caixas de munições, quando tem de ser
conduzidos nas costas dos animais. Ver Instituto Antônio Houaiss,
Dicionário Houaiss da língua portuguesa, cit., p. 598. Para Nei Lopes,
étimo controverso, para alguns estudiosos, com a mesma origem de canga,
enquanto para outros, palavra que remete ao quicongo kangala, obstruir,
impedir. Ver Nei Lopes, Novo dicionário Banto do Brasil, cit., p. 64.

27Ver José Alípio Goulart, Meios e instrumentos de transporte no interior do


Brasil (Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura, 1959), p. 205-6.

zsVer Manoel Rodrigues de Melo, Patriarcas e carreiros (Natal, Universidade


Federal do Rio Grande do Norte/Universitária, 1985), p. 167.

29Ibidem, p. 177-8, diz que “do engenho pernambucano Caraú, município de


Nazaré, dizia-me há poucos dias, Antônio Guerra, era comum verem-se
sessenta, setenta carros de boi levando as famílias da região para a
tradicional Missa do Galo. Os carros andavam cobertos com esteira de
periperi, tendo por cima cobertores de ganga encarnada. A tolda era armada
em arcos de bambu, lascados. Na região caririense, Ceará, a situação era a
mesma. […] E no Rio Grande do Norte? Não difere muito dos Estados
limítrofes. No Açu, por exemplo, onde era intenso o transporte de
mercadorias em carros e comboios, era raro o fazendeiro que não tinha o
seu carro. Conheci vários. Só João Rodrigues Ferreira de Melo, grande
proprietário no Baixo-Açu, tinha cerca de dez carros. Para as viagens da
família mandara fazer uma toldá de algodão da Bahia, esticada sobre arcos
de mofumbo. Outros usavam toldas de lona, algodãozinho, enquanto outros
empregavam chitão encarnado ou esteira de carnaúba. Informa-me o
Desembargador Manuel Xavier Soares Montenegro que o seu irmão, Dr.
Francisco Xavier Soares Montenegro, quando se casou em 1889, fez o
percurso do Engenho Conceição da Mata, Touros, até a povoação de
Pureza, em quatro carros de bois. Ao lado dos noivos ilustres, viajavam
parentes e amigos, utilizando o mais aristocrático meio de transporte da
época”.

3oPeças de madeira roliças e leves, unidas pelas tiradeiras.

31Cunha que se introduz no cabeçalho para prender os carros de boi à canga.

32Peças de relho cru, torcidas, responsáveis por unir os cambões.

33Paus que prendem a canga ao pescoço dos bois.

34Termo que serve para designar tanto um pedaço de corda com o qual, nos
carros de boi, se amarram os fueiros, quando a carga é pesada, quanto
também a correia de couro cru que passa embaixo do pescoço do boi,
cingindo-o, e se prende pelas extremidades aos canzis da canga.

35Peça de relho cru, de três “pernas”, enrolada, que tem como função ligar a
canga ao cambão.

36Peças de relho cru, que têm como função segurar os bois pelos chifres.

37Ver Aglae Lima de Oliveira, Lampião, cangaço e Nordeste (Rio de Janeiro,


O Cruzeiro, 1970), p. 51.

38Para mais informações sobre o vocabulário cariri, ver Baptista Siqueira, Os


cariris do Nordeste (Rio de Janeiro, Cátedra, 1978), p. 271-9.

39Ver Protásio Pinheiro de Melo, Contribuição indígena à fala norte-rio-


grandense (Natal, Imprensa Universitária, 1971), p. 15.

VerMaria Christina Russi da Marta Machado, As táticas de guerra dos


cangaceiros (São Paulo, Brasiliense, 1978), p. 24. Ver também Maria
Gouveia Seitz, Trilhando com a imaginação: uma visão romântica do
banditismo na literatura do Nordeste brasileiro (Tese de Doutorado,
Bloomington, Depto. de Espanhol e Português/Universidade de Indiana,
jan. 2004), p. 59. Ainda que o termo “canga’ esteja incluído no Novo
dicionário banto do Brasil, de Nei Lopes (Rio de Janeiro, Palias, 2003), a
palavra “cangaço” não consta. Não há indicação deste autor, portanto, de
que esta seja de origem africana. Já Bernardino José de Souza, baseado em
Rodolfo Garcia, sugere que o termo de fato tem origem no tupi acanga,
como já mencionado. Ver Bernardino José de Souza, Dicionário da terra e
da gente do Brasil, cit., p. 80-1.

41É claro que há exceções. O caso do cangaceiro Gato é um exemplo


interessante. Quando já era membro do bando de Lampião, ausentou-se em
certa ocasião para visitar os parentes. Aproveitou a situação para massacrar
toda a própria família. Como já não tinha mais os pais vivos, matou a avó,
duas tias, quatro irmãos e dois primos. Esse caso, porém, não representa a
conduta da maioria dos cangaceiros. Outro exemplo é o de Adolfo Meia-
Noite, de Afogados do Ingazeira, Pernambuco. Espancado pelo tio, que
queria dissuadi-lo de cortejar sua filha, Adolfo se vingou e assassinou o
agressor, membro de sua família. Ver Gregg Narber, Entre a cruz e a
espada: violência e misticismo no Brasil rural (São Paulo, Editora Terceiro
Nome, 2003), p. 118.

42Ver Renato Castelo Branco, Domingos Jorge Velho e a presença paulista no


Nordeste (São Paulo, TAQ, 1990), p. 7.

43A área de atuação de Lucas da Feira não se restringiu à Feira de Santana,


ainda que aquela cidade fosse o seu ponto de apoio. Suas ações ocorreram
principalmente entre o Agreste e o Recôncavo Baiano.

‘Ver Hamilton de Mattos Monteiro, Crise agrária e luta de classes (Brasília,


Horizonte, 1980), p. 74.

41Ver Frederico Pernambucano de Mello, Guerreiros do sol: violência e


banditismo no Nordeste do Brasil (São Paulo, A Girafa, 2004), p. 28.

46Para mais informações sobre o cangaço no Agreste, ver Antonio Vilela de


Souza, O incrível mundo do cangaço (Garanhuns, Bagaço, 2006). O mais
famoso cangaceiro do Agreste foi Paizinho Baio, também conhecido como
o “Lampião do Agreste”. Ele atuou em Garanhuns, Bom Conselho,
Correntes, Águas Belas e Buíque, em Pernambuco. Permaneceu como
bandido por vinte anos. Já Corisco, por exemplo, depois de meados de
1934, iria se fixar no agreste e sertão de Alagoas. Ver Gregg Narber, Entre a
cruz e a espada: violência e misticismo no Brasil rural, cit., p. 145.

47Para mais informações sobre o conceito de “Civilização do Couro”, ver


João Capistrano de Abreu, Caminhos antigos e povoamento do Brasil (Rio
de Janeiro, Sociedade Capistrano de Abreu/Livraria Briguiet, 1960); idem,
Capítulos de história colonial, 1500-1800 (Rio de Janeiro, Sociedade
Capistrano de Abreu/Livraria Briguiet, 1954); e R.P.Castelo Branco, A
civilização do couro (Teresina, Departamento Estadual de Imprensa e
Propaganda, 1942). Dizia Capistrano de Abreu que “de couro era a porta
das cabanas, o rude leito aplicado ao chão duro, e mais tarde a cama para os
partos; de couro todas as cordas, a borracha para carregar água, o mocó ou
alforge para levar comida, a maca para guardar roupa, a mochila para
milhar cavalo, a peia para prendê-lo em viagem, as bainhas de faca, as
broacas e surrões, a roupa de entrar no mato, os banguês para cortume ou
para apurar sal; para os açudes, o material de aterro era levado em couros
puxados por juntas de bois que calcavam a terra com seu peso; em couro
pisava-se tabaco para o nariz”. Ver João Capistrano de Abreu, Capítulos de
história colonial, 1500-1800, cit., p. 217-8.

48Ver Jorge Villela, O povo em armas (Rio de Janeiro, Relume Dumará,


2004), p. 86.

49De acordo com José Guimarães Duque, o sertão “é a região quente,


interior, de altitude de metros não ultrapassando 300 metros com uma área
de 6.982.000 hectares, mais chuvosa do que o Seridó e o Carrasco, com o
chão amarelo, compacto e raso, parcialmente coberto de seixos rolados,
onde um tapete de capim e leguminosas rasteiras no inverno é entremeado
de árvores e de arbustos distanciados; os aguaceiros inesperados não
encontrando no solo a permeabilidade e a profundidade para embebição
rápida, arrastam nas enxurradas, pelas encostas as argilas para os baixios e
os riachos. Quando o verão cresta a macega, o pastoreio excessivo e o vento
limpam a terra para receber noutras chuvadas incertas novo contingente
d’água. […] A evaporação média da área é de 200 m a 2.200 m; a insolação
de 9.900 a 3.400 [horas] luz solar ano; temperatura média de 14 a 37 graus
centígrados; não há orvalho. O índice de aridez é de 4,5 nos anos mais
secos e 5,6 nos anos mais úmidos. Os solos em geral são de origem
arqueana. No inverno os vegetais que despontam nos solos são ervas
gramíneas, leguminosas, malváceas e convolvuláceas rasteiras; arbustos de
copas baixas, galhos curtos e retorcidos entremados com cactáceas; árvores
e arbustos são distanciados permitindo o crescimento da pastagem,
apresentando vegetação mais pungente e solos com mais água do que o
Seridó”. Ver José Guimarães Duque, citado em Carlos Bastos Tigre,
“Regeneração natural das formações arbóreas da caatinga’, em
J.Vasconcelos Sobrinho, As regiões naturais do Nordeste, o meio e a
civilização (Recife, Conselho de Desenvolvimento de Pernambuco, 1970),
p. 182.

soPara o mesmo Guimarães Duque, o Seridó “é uma região de cerca


3.400.000 hectares caracterizada por vegetação baixa de cactáceas
espinhentas e agressivas agarradas ao solo, de arbustos espaçados com
capins de permeio e manchas desnudas em terras procedentes do arqueano,
muito erodidas e ásperas; os seixos rolados existem por toda parte e as
massas de granito redondo, sobressaem, aqui e ali, demonstrando como a
erosão lenta, através dos séculos, deixa vestígios ciclópicos. No Rio Grande
do Norte e Paraíba, as chuvas de janeiro a maio oscilam de 127 a 916 mm
por ano, apresentando uma média anual de 497 mm. A insolação média é
2.988 horas luz solar ano; temperatura média máxima 33 graus centígrados
e mínima 22 graus; índice de aridez 3,3; no Ceará, a média pluviométrica
anual é de 750 mm com um índice de aridez de 4,4. Não há orvalho”. Ver
José Guimarães Duque, citado em Carlos Bastos Tigre, “Regeneração
natural das formações arbóreas da caatinga’, em J.Vasconcelos Sobrinho,
As regiões naturais do Nordeste, o meio e a civilização, cit., p. 181-2.

siO Agreste “é uma região intermediária entre uma umidade e outra semi-
árida ou entre o mar e a Caatinga. É sub-úmida com temperatura mais
branda à noite; às vezes essa região participa das chuvas da Mata ou das
sobras de pluviosidade da caatinga; permite as culturas de gêneros
alimentícios, cereais, mandioca e até o tomate, como acontece com a
grande lavoura industrial em Pesqueira (PE). As chuvas são pouco mais
tardias do que no Sertão e menos irregulares. Os solos podem ser rasos, de
origem arqueana, como em Pernambuco e silicosos areníticos e profundos
como existem no agreste do Piauí. O Agreste do Piauí é todo em formação
sedimentar, com solo arenito ácido, úmido e tem abundância de água
subterrânea; a topografia é bem plana, o solo carece de corretivo e de
adubação para lavouras alimentares. A vegetação é de árvores espaçadas
com capim agreste por baixo. As gramíneas para os pastos têm certamente
impedido o crescimento de arbustos. O cajueiro (Anacardium occidentale
Linn), o faveiro, o piqui (Caryocar glabrum Pers), a carnaubeira
(Copernicia cerífera Mart), o tucum (Pyrenoglyphis Maraja Burret), são as
que mais ocorrem. Recebe a influência das chuvas do Maranhão (isoietas
de 800 a 900 mm). O agreste do Ceará tem pouca importância; é uma faixa
na serra do Araripe, depois da Mata, na orla cearense da serra, quando
caminhamos para o interior da chapada. Entre a Mata, parte chuvosa e a
Caatinga interior, está o Agreste, uma gleba estreita e longa, de solo muito
arenoso, fraco, de poucas possibilidades agrícolas, pois a água se encontra a
grande profundidade. O agreste do Rio Grande do Norte ou Potiguar, inclui
onze municípios desde Torres, segundo a isoieta de chuvas de 1.000 mm até
a divisa da Paraíba, próximo a Nova Cruz. A região parte das chuvas do
Brejo da Paraíba, desviadas pelos ventos que esbarram nos contrafortes da
Borborema; também a presença do mar influi na umidade atmosférica. O
solo é arenoso, amarelo, profundo, com água subterrânea, às vezes boa,
outras vezes salobra ou calcária. A topografia é plana e ondulosa, presta-se
a lavoura de grandes áreas. Os vales úmidos ou encharcados d’água. O
agreste paraibano situa-se nos municípios de Remígio e Esperança entre o
Brejo (Mata), os Cariris Velhos e o Curimataú. O clima é o da serra da
Borborema, com temperatura agradável e o ar meio úmido, vindo do
município de Areia. O solo é silicoso, ondulado e erodido. A vegetação
primitiva foi devastada e nos seus solos foi plan- tada a batatinha e o feijão.
Atualmente predomina a lavoura do agave. O agreste de Pernambuco,
envolve 27 municípios. O solo formado pela decomposição do granito e do
gnaisse é muito raso, já está erodido e depauperado e a vegetação nativa
encontra-se muito alterada na sua composição inicial. O agreste no
Nordeste ocupa 6.276.000 hectares, excluindo o agreste da Bahia”. Ver J.
Vasconcelos Sobrinho, As regiões naturais do Nordeste, o meio e a
civilização, cit., p. 183.

52Ibidem, p. 155.

“Idem.

54Idem.

ssVer Otacílio Anselmo, Padre Cícero: mito e realidade (Rio de Janeiro,


Civilização Brasileira, 1968), p. 3-5.

56Ibidem, p. 5.

57Ver Oswaldo Lamartine de Faria, Encouramento e arreios do vaqueiro no


Seridó (Natal, Fundação José Augusto, 1969), p. 26.

5SIbidem, p. 27.

59A palha de ouricuri era utilizada como matéria-prima para a produção


caseira de uma grande diversidade de produtos, como cestos, esteiras de
deitar, urupembas e alguns acessórios de cozinha. O coco de ouricuri,
característico de regiões secas, era também usado como alimento em casos
de necessidade.
6’Em relação ao Sertão nordestino na segunda metade do século XIX, Robert
M.Levine afirma em O sertão prometido: o massacre de Canudos (São
Paulo, Edusp, 1995), p. 140, que: “a estrada de ferro não só possibilitou
novas ligações com a costa, como também implementou mudanças no
modo de vida sertanejo. Numa região onde os únicos e ocasionais
estrangeiros haviam sido padres missionários, chegavam agora imigrantes
para trabalhar como gerentes e engenheiros das ferrovias, além de inúmeros
operários. Mil trabalhadores vieram da Sardenha e da Itália continental, a
maioria de Turim, e praticamente só homens, todos recrutados por agentes
da companhia de estradas de ferro na Europa. Alguns voltaram para a Itália,
mas muitos permaneceram no Brasil, misturando-se à já miscigenada
população da região”. É importante recordar, contudo, que a proporção de
imigrantes europeus no Nordeste, naquele período e no posterior, foi muito
pequena se comprada com o influxo de europeus no Sul e Sudeste do país.
No caso da Bahia, em 1890, membros da elite de Salvador chegaram a
cogitar a criação de um fundo para imigração europeia, com o objetivo de
trazer em torno de 25 mil imigrantes europeus para trabalhar lá. Apesar
disso, muito poucos europeus imigraram para a Bahia na ocasião.

61Quando o imperador D.Pedro II esteve em visita a lugares “sagrados” no


território palestino, em 1887, conversou com as autoridades locais sobre a
possibilidade de se enviar emissários de lá para a França, com o intuito de
levantar recursos para o transporte dos primeiros grupos de emigrantes da
região, em sua maioria da cidade de Belém, para o Nordeste brasileiro, em
especial para o Ceará e o Piauí, onde efetivamente foram morar. Em geral
de cultura limitada e com uma instrução apenas básica, esses indivíduos
fugiam das duras condições de vida de sua terra natal, na época controlada
pelo Império Otomano. Com parcas possibilidades de uma boa educação
em sua terra de origem, onde as escolas administradas pelas missões alemãs
e francesas eram frequentadas por poucos, com dificuldades para arrumar
trabalho e obrigados a servir o exército turco, esses jovens palestinos viam
no Brasil uma chance de ter uma vida melhor. No país, começaram a
exercer a mascateação, ainda que não estivessem acostumados com essa
atividade. Os imigrantes que chegaram após a Primeira Guerra Mundial,
por sua vez, em geral iam trabalhar com patrícios e familiares que já viviam
no Brasil havia alguns anos. Nesse caso, em viagens pelo interior que
podiam demorar meses, levavam tropas de trinta a quarenta animais
carregados de produtos, junto com um guia e mais quatro ajudantes. Saindo
do Ceará, chegavam até o norte de Minas Gerais e o Maranhão. Tinham de
enfrentar com frequência a ausência de estradas, as secas, as chuvas e os
cangaceiros. Quando voltavam para Fortaleza, levavam de volta produtos
do Sertão, especialmente peles de animais e materiais em couro, que eram
exportados dentro de pouco tempo. Também em Recife, a principal capital
nordestina, os palestinos se destacaram. A cidade, por sua importância
econômica, abastecia boa parte da região sertaneja, desde o norte baiano até
o território maranhense. Na década de 1930, os árabes, principalmente os
de origem palestina, controlavam o comércio atacadista daquela cidade. Ver
João Sales Asfora, Palestinos, a saga de seus descendentes (Recife,
Primeira Edição, 2003), p. 23-5; e Reuven Faingold, D.Pedro II na Terra
Santa, diário de viagem, 1876 (São Paulo, Sêfer, 1999).

62Alguns missionários norte-americanos foram ao Sertão e Agreste


nordestinos, como por exemplo, os pastores da Christian Church Mission,
na década de 1930, alguns dos quais, inclusive, capturados por bandoleiros.
E também há casos de indivíduos que se fixaram na região sem ter
nenhuma relação com a religião. Após a Guerra Civil nos Estados Unidos,
quatro famílias dos estados confederados foram morar entre Palmares e
Garanhuns, para plantar algodão. Teriam ficado pouco tempo por lá. Ver
Peter Eisenberg, Modernização sem mudança (Campinas, Unicamp; Rio de
Janeiro, Paz e Terra, 1977), p. 215.

63Em maio de 1894, chegou a Garanhuns o missionário escocês Henry John


McCall, da Help for Brazil Mission, uma sociedade criada pelo médico e
também missionário Robert Reid Kalley, na época morando no Rio de
Janeiro, e que em seguida retornou a seu país. O objetivo de McCall era
ajudar a Igreja evangélica pernambucana, fundada por Kalley, a levar o
Evangelho ao Agreste e Sertão do estado. Outro escocês, o engenheiro
David Law, chegou a trabalhar no sistema ferroviário. Foi expulso de
fábricas de Recife (onde também trabalhou) por distribuir e divulgar livros
religiosos para os operários. Ele costumeiramente ia para Garanhuns, onde
vendia Bíblias e livros evangélicos, de porta em porta, e no mercado
público, para a população local.

64Ulysses Lins de Albuquerque, Moxotó brabo (Rio de Janeiro, José


Olympio, 1979), p. 71, 73-4, menciona alguns exemplos, como o vigário
José Romão Combet (certamente um nome modificado pelos locais),
nascido em Saint Romain, em 1854, ordenado padre em Paris, em junho de
1879, e que foi ao Brasil em seguida como missionário, permanecendo o
resto da vida nos sertões nordestinos. Foi vigário de Feira de Santana,
Bahia, por quinze anos, e em 1903 se transferiu para Alagoa de Baixo, onde
viveu por mais de trinta anos. Ou o padre Carlos Cottard, também
engenheiro, vigário de Afogados de Ingazeira e responsável pela construção
de sua principal igreja.

65Por exemplo, o padre italiano Vicente Cuoro, vigário de Pesqueira, que


durante algum tempo regeu a freguesia de Alagoa de Baixo, ou o padre
Leão Verseri, que entre 1919 e 1932 foi vigário de Alagoa de Baixo e
Custódia e que também era escultor. Ver Ulysses Lins de Albuquerque,
Moxotó brabo, cit., p. 71 e 74. Para Nilton Freixinho, em O sertão arcaico
do Nordeste do Brasil (Rio de Janeiro, Imago, 2003), p. 71: “durante o
período pontifício de Bento XIV (1740-1758), os capuchinhos ganham
expressão, em tarefas missionárias no Novo Mundo ultramarino, que estava
nascendo. A partir de meados do século XVIII, muitos de seus membros,
todos italianos, são enviados em missão apostólica popular ao sertão
arcaico do Nordeste brasileiro, onde a pobreza da população constituía o
cenário ideal para sua pregação”.
66Como a Recife and San Francisco Railway Company Limited, a Great
Western Railroad Company, a Standard Oil Company e a empreiteira
Dwight P.Robinson and Co., por exemplo. Por isso, não é de se estranhar
que Lampião chegasse a capturar representantes de vendas da Standard Oil
e da Souza Cruz no Sertão. Indivíduos que trabalhavam para empresas
nacionais e estrangeiras circulavam na região, e certamente levavam muitas
informações para aquela área. Já o cangaceiro Sabino, antes de se tornar
bandido, chegou a trabalhar na Dwight P.Robinson, encarregada da
construção do açude Boqueirão de Piranhas, no estado da Paraíba, por
exemplo. Outro caso interessante é o de Mossoró, na região entre o litoral e
o sertão do Rio Grande do Norte, no semiárido do estado, que só entre 1872
e 1874, pelo menos dezoito firmas estrangeiras se registraram na cidade,
entre as quais, a Léger e Cia, Henry Adams e Cia, Teles Finizola, Gustavo
Brayner, Guines e Cia, e a Conrado Mayer. Num anúncio, H.Léger dizia
que “no armazém francês encontrará o respeitável público um completo
sortimento de fazendas inglesas, francesas, suíças e alemãs, assim como
grande sortimento de molhados que serão vendidos a dinheiro por preços
nunca vistos”. De acordo com Brasília Carlos Ferreira, O sindicato do
garrancho (Mossoró, Departamento Estadual de Imprensa/ Fundação Vingt-
Un Rosado, 2000), p. 41: “esses estrangeiros tiveram um papel
preponderante na dinamização do comércio mossoroense. Chegaram
trazendo seus capitais e uma visão comercial mais avançada, ampliando
sensivelmente o `mercado de trocas’, principalmente com as facilidades de
conhecimento com o mercado europeu, o que favoreceu enormemente a
exportação de produtos locais, não industrializados, em troca da importação
de produtos manufaturados europeus”.

67A população estrangeira no Nordeste em 1872 era de 13,3%; em 1900, de


5,2%; em 1920, de 2,1%; e em 1940, de 1,4% do total do país. Ver Annibal
Villanova Villela e Wilson Suzigan, Política do governo e crescimento da
economia brasileira, 1889-1945 (Rio de Janeiro, Ipea/Inpes, 1973), p. 264.
68De acordo com Antonio Xavier de Oliveira, Beatos e cangaceiros (Rio de
Janeiro, Revista dos Tribunais, 1920), p. 167 e 246, esse cangaceiro do
começo do século XX seria o Turco Candido, “um súdito do sultão de
Constantinopla e cangaceiro do Cariri”. Entretanto, a diferença entre o
Turco Candido e os cangaceiros sertanejos é que ele seria menos valente e
trazia as cartucheiras a tiracolo, em vez de amarradas na cintura. Esse
possível bandoleiro, caso tenha realmente existido, deve ter sido em
realidade um árabe, confundido por turco, já que os imigrantes palestinos,
sírios e libaneses que vinham ao Brasil ainda traziam consigo o passaporte
turco, por fazerem parte do Império Otomano. Como o trânsito de mascates
árabes era grande na região, pode ser que algum deles tenha efetivamente
entrado em algum bando de cangaceiros.

69O pesquisador Antonio Xavier de Oliveira, Beatos e cangaceiros, cit., p.


246, dizia, sem dar detalhes nem citar nomes, que havia conhecido um
francês que, ao chegar ao Sertão, havia se tornado cangaceiro. O fato é que
em 1875, em torno de 295 imigrantes franceses chegaram a Recife, mas
consideraram suas circunstâncias tão difíceis que quiseram partir, fosse para
o Pará, fosse de volta para seu país. Outros 179 imigrantes franceses, no
mesmo ano, também desembarcaram na capital pernambucana e igualmente
preferiram partir. Só uns poucos foram contratados para a agricultura. É
possível, mas improvável, que algum destes, ou parentes destes, tenham se
tornado cangaceiros. Ainda assim, insistimos, não há nenhuma
comprovação de que qualquer um deles, ou qualquer de seus descendentes,
tenha decidido seguir o caminho das armas. Ver Peter Eisenberg,
Modernização sem mudança, cit., p. 215-6. Outra possibilidade (ainda que
não haja qualquer comprovação desse fato) é a de o cangaceiro em questão
ser um membro da família Godê. Frederico Pernambucano de Mello,
correspondência com o autor, de 2006.

70Ver Gustavo Barroso, Heroes e bandidos (Rio de Janeiro, Livraria


Francisco Alves, 1917), p. 11.
71No Brasil, desde o início o período republicano, houve diversas propostas
de definição de regiões, a partir de seus aspectos orográficos, climáticos,
botânicos, econômicos etc. Entre elas, a divisão de André Rebouças, de
1889; a de Elisée Réclus, de 1893; a de Said Ali, de 1905; a de Delgado de
Carvalho, de 1913; a de Betim Pais Leme, de 1937; e a de Pierre Denis, de
1927, entre outras. Como se pode perceber, a discussão do conceito de
região foi sempre bastante amplo. Para mais informações, ver IBGE,
Paisagens do Brasil (Rio de Janeiro, Conselho Nacional de Geografia,
1962), p. 97-105.

72Ver Fernand Braudel, citado em Fernando Gaudereto Lamas, “Povoamento


e colonização da Zona da Mata mineira no século XVIIF”, Histórica, São
Paulo, Arquivo Público do Estado de São Paulo, n. 8, mar. 2006, disponível
em: <http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/
anteriores/edicao08/materia01>. Acesso em 11 dez. 2009.

73Ver Milton Santos, citado em Fernando Gaudareto Lamas, “Povoamento e


colonização da Zona da Mata mineira no século XVIIF”, cit.

74Idem.

75Como, por exemplo, Elise Jasmin, em seu Cangaceiros (São Paulo,


Terceiro Nome, 2006), p. 16.

76Ver Luís da Câmara Cascudo, Nomes da terra (Natal, Sebo Vermelho,


2002), p. 122-3.

77Ver Gustavo Barroso, À margem da história do Ceará (Fortaleza, Imprensa


Universitária do Ceará, 1962), p. 9-12.

TEORIA DO BANDITISMO SOCIAL

1Ver Eric J.Hobsbawm, Primitive Rebels: Studies in Archaic Forms of Social


Movements in the Nineteenth and Twentieth Centuries (Manchester,
Manchester University Press, 1959).

2Idem, Bandidos (Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1975).


Aindaque em Primitive Rebels Hobsbawm não discuta o cangaceirismo, em
seu Bandidos o cangaço é usado como um dos mais significativos exemplos
de banditismo social.

VerRaimundo Nonato (org.), Jesuíno Brilhante, o cangaceiro romântico (Rio


de Janeiro, Pongetti; Mossoró, Fundação Vingt-Un Rosado, 1998).

5É claro que há exceções interessantes. O padre Pereira Nóbrega, em sua


pesquisa sobre a vida de seu pai, o cangaceiro Chico Pereira, afirma que “os
depoimentos, abundantes embora, de testemunhas visuais não bastavam
para uma segura narração. Eram concordes quanto ao eixo do enredo;
discrepavam nos pequenos detalhes. Mais ainda: eu precisava retirar a parte
lendária. A tradição oral sempre os mistura um pouco”. E continuava: “Para
este trabalho de precisão histórica, fui encontrar, em seis comarcas de três
estados nordestinos, processos criminais, somando para mais de 1.500
páginas. Confirmaram a tradição oral bem mais do que eu esperava’. Ver
Pereira Nóbrega, Vingança, não: depoimento sobre Chico Pereira e
cangaceiros do Nordeste (Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1960), p. 17.

6Hobsbawm teve a oportunidade de revisar, atualizar e modificar as


sucessivas edições de Bandidos, tanto no Brasil como em outros países,
mas não o fez, não de forma substantiva, pelo menos quando escreve sobre
Lampião e os cangaceiros. Em 1981, foi lançada nos Estados Unidos uma
edição revisada do mesmo livro, mas não foram incorporadas “novidades”
ou “documentos” sobre o cangaço que pudessem alterar ou reforçar suas
ideias em relação ao assunto. Ver Eric J. Hobsbawm, Bandits (Nova York,
Pantheon, 1981).

7Ver Richard W.Slatta, “Introduction to Banditry in Latin America”, em


Richard W.Slatta (org.), Bandidos: the Varieties of Latin American Banditry
(Westport, Greenwood, 1987), p. 2.

8Idem.

Idem.
1°Ibidem, p. 3.

Aestrutura agrária seria, nesse caso, um conjunto de instituições, normas


(escritas e não escritas) e relações sociais, políticas e econômicas
relacionadas ao acesso e ao uso da terra como recurso produtivo. Ver
Rodolfo Stavenhagen, “Introduction”, em Rodolfo Stavenhagen (org.),
Agrarian Problems and Peasant Movements in Latin America (Nova York,
Anchor Books/Doubleday & Company, 1970), p. 3.

12Ver Robert M.Levine, O sertão prometido: o massacre de Canudos (São


Paulo, Edusp, 1995), p. 80.

13Ver Anníbal Villanova Villela e Wilson Suzigan, Política do governo e


crescimento da economia brasileira, 1889-1945 (Rio de Janeiro, Ipea/Inpes,
1973), p. 250.

14Ibidem, p. 251.

15Ibidem, p. 252.

16Ver Otacílio Anselmo, Padre Cícero: mito e realidade (Rio de Janeiro,


Civilização Brasileira, 1968), p. 5.

17Ver Nelson Werneck Sodré, A Coluna Prestes (São Paulo, Círculo do Livro,
[s. d.]), p. 11.

18Ver Anníbal Villanova Villela e Wilson Suzigan, Política do governo e


crescimento da economia brasileira, 1889-1945, cit., p. 288.

19Ibidem, p. 289.

20Ver Nelson Werneck Sodré, A Coluna Prestes, cit., p. 11.

21Ver Boris Koval, História do proletariado brasileiro, 1857a 1967 (São


Paulo, Alfa-Omega, 1982), p. 124.

22Ibidem, p. 171.

23Idem.
24A área total era de 15.717.994 hectares, possuindo uma área média de
33,95 hectares.

25Sua área total era de 48.555.545 hectares, com uma área média de 307
hectares.

26Nelson Werneck Sodré, A Coluna Prestes, cit., p. 11-2.

27Ver Anníbal Villanova Villela e Wilson Suzigan, Política do governo e


crescimento da economia brasileira, cit., p. 296.

28Ver Boris Koval, História do proletariado brasileiro, 1857a 1967, cit., p.


170-1.

29Ver Edmar Morél, Padre Cícero, o santo do juazeiro (Rio de Janeiro,


Civilização Brasileira, 1966), p. 165-7.

31Ver Otacílio Anselmo, Padre Cícero, cit., p. 255.

31Ver Peter L.Eisenberg, Modernização sem mudança (Campinas, Unicamp;


Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977), p. 153.

32É bom recordar que uma das definições de “jagunço” é “cangaceiro,


criminoso foragido ou qualquer homem violento contratado como guarda-
costas por indivíduo influente”. Ver Instituto Antônio Houaiss, Dicionário
Houaiss da língua portuguesa (Rio de Janeiro, Objetiva, 2001), p. 1669.

33Uma discussão interessante sobre temas relativos a este é oferecida por


E.P.Thompson, “History and Anthropology”, em Making History, Writings
on History and Culture (Nova York, The New Press, 1995), p. 218-22.

34Uma forma mais sofisticada de entender o “controle social” pode ser


encontrada em E.P.Thompson. Para ele, “os historiadores na tradição
marxista que foram influenciados pelo conceito gramsciano de hegemonia
também têm observado com novos olhares às formas de dominação e
controle da classe dominante. Muito raramente na história - e apenas em
breves intervalos -, qualquer classe dominante exerce autoridade através da
força militar e até econômica, de forma direta e sem mediação. As pessoas
nascem numa sociedade na qual as formas e relações parecem fixadas e
imutáveis como o céu. O `senso comum’ da época está saturado com a
propaganda ensurdecedora do status quo; mas o elemento mais forte nesta
propaganda é simplesmente o fato de que o que existe, existe”. De acordo
com Thompson, “definir controle em termos de hegemonia cultural não é
abandonar as tentativas de análises, mas preparar para análises nos pontos
nos quais deveriam ser feitos: nas imagens de poder e autoridade, as
mentalidades populares de subordinação”. E, em relação à violência, ele
dizia que “a importância simbólica da violência - seja a violência do Estado
e da lei ou a violência do protesto - pode não ter correlação direta com
quantidades. […] Nem o terror nem o contra-terror podem mostrar seu
significado sob examinação puramente quantitativa, já que as quantidades
devem ser vistas dentro de um contexto total, e isto inclui um contexto
simbólico que designa diferentes valores para diferentes tipos de violência’.
Ver “History and Anthropology”, em Making History, Writings on History
and Culture, cit., p. 208-9.

°Ver Xavier de Oliveira, Beatos e cangaceiros (Rio de janeiro, Revista dos


Tribunais, 1920), p. 21.

36Ibidem, p. 28-9.

3’Ibidem, p. 30.

3SNesse caso, especificamente, as movimentações das classes sociais e


grupos de interesse distintos dentro de uma sociedade historicamente
determinada.

39Ver Carmen Vivanco Lara, `Bandolerismo colonial peruano: 1760-1810,


caracterización de una respuesta popular y causas económicas”, em Carlos
Aguirre e Charles Walker (orgs.), Bandoleros, abigeos y montoneros:
criminalidady violencia en el Perú, siglosXVIII-XX (Lima, Instituto de
Apoyo Agrario, [s. d.]), p. 27.

40Ibidem, p. 28.
41Ibidem, p. 29-40.

ORIGENS DE CLASSE E MOTIVAÇÕES PARA A ENTRADA NO


CANGAÇO

1Se considerarmos que em torno de 97% das pessoas no Sertão, naquele


período, eram analfabetas, é possível perceber que qualquer um com um
mínimo de educação formal na região já possuía status mais elevado. Ver
Gustavo Barroso, Heroes e bandidos (São Paulo, Francisco Alves, 1917), p.
37.

2Ver Raimundo Nonato, Jesuíno Brilhante, o cangaceiro romântico (Rio de


Janeiro, Pongetti; Mossoró, Fundação Vingt-Un Rosado, 1998), p. 95, 112 e
134.

Éclaro que nem todo dono de escravos era, via de regra, membro dos estratos
sociais mais elevados. De acordo com João José Reis, “possuir escravos
não era coisa apenas de gente rica. Só os muito pobres não tinham escravo
algum”. Ele fala da Bahia (e especialmente Salvador), na primeira metade
do século XIX. Ver João José Reis, Rebelião escrava no Brasil. - a história
do levante dos malês em 1835 (São Paulo, Companhia das Letras, 2003), p.
31. Mas no Sertão, na segunda metade do século XIX, os escravos eram
uma minoria e de interesse econômico menor do que os trabalhadores
livres. No caso específico de Jesuíno Brilhante, pode-se dizer que ele não
fazia parte dos mais pobres, mas, ao que tudo indica, era originário de uma
família de posses.

4Ver Billy Jaynes Chandler, Lampião, o rei dos cangaceiros (Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1981), p. 28; e Gregg Narber, Entre a cruz e a espada: violência
e misticismo no Brasil rural (São Paulo, Terceiro Nome, 2003), p. 123.

5De acordo com o padre José Kherle, citado em Aglae Lima de Oliveira,
Lampião, cangaço e Nordeste (Rio de Janeiro, O Cruzeiro, 1970), p. 128.

6Ver Nilton Freixinho, O sertão arcaico do Nordeste do Brasil (Rio de


Janeiro, Imago, 2003), p. 94-5.
7Ver Billy Jaynes Chandler, Lampião, o rei dos cangaceiros, cit., p. 34.

sPara mais detalhes sobre as atividades econômicas da família de Virgulino


Ferreira, ver Cicinato Ferreira Neto, A misteriosa vida de Lampião
(Fortaleza, Premius, 2008).

Paramais informações sobre Sabino Gomes de Góis, ver Frederico


Pernambucano de Mello, Guerreiros do sol: o banditismo no Nordeste do
Brasil (Recife, Fundação Joaquim Nabuco/Massangana, 1985), p. 147-9;
BillyJaynes Chandler, Lampião, o rei dos cangaceiros, cit., p. 63-6, 80-3 e
116-22; e José Anderson Nascimento, Cangaceiros, coiteiros e volantes
(São Paulo, ícone Editora, 1998). Daqui em diante, todas as citações de
Mello serão feitas a partir dessa edição, a não ser que indicado.

10Ver Billy Jaynes Chandler, Lampião, o rei dos cangaceiros, cit., p. 64.

VerMaria Isaura Pereira de Queiroz, História do cangaço (São Paulo, Global,


1986), p. 56. Cristino Gomes da Silva Clero, mais conhecido como Corisco,
nascido perto da cidade de Marinha de Água Branca, em Alagoas, teria
conseguido uma boa colocação no bando de Lampião, de acordo com
Queiroz, por se originar de uma família alagoana proeminente. Ver ibidem,
p.36. Para mais informações sobre Corisco, ver Antônio Amaury Corrêa de
Araújo, Gente de Lampião: Dada e Corisco (São Paulo, Traço, 1982). De
acordo com Frederico Pernambucano de Mello, em correspondência com o
autor, de agosto de 2009, “reina a incerteza nos dados de origem de
Corisco. O que apurei, de fonte oral idônea, moral e cronologicamente, é
que seria natural do município de Água Branca, da família dos Gomes,
todos alourados, tendo vindo à luz no Sítio Buraco que, como o nome está a
indicar, remanesce num `sovaco’ (depressão) da Serra d’Água Branca. Há
quem sustente ser ele filho - certamente bastardo - de certo coronel Manuel
Fernandes, também de lá. Como há quem sustente ser ele natural de
Salgado do Melão, Bahia”. Antônio Amaury Corrêa de Araújo, que
entrevistou longamente a cangaceira Dadá, esposa de Corisco, afirma
categoricamente, em correspondência com o autor, de 2009, que ele teria
nascido de fato em Alagoas. O mesmo diz Sílvio Bulhões, filho do
cangaceiro, em depoimento ao autor, em 2009.

12Ver Antônio Amaury Corrêa de Araújo, Lampião: as mulheres e o cangaço


(São Paulo, Traço, 1984), p. 128.

13Ainda que não fosse a regra para grande parte da população, não era de
todo incomum que membros de algumas famílias de maior prestígio
tivessem uma educação diferenciada e um nível cultural mais alto que a
maioria do povo sertanejo da época, como, por exemplo, aquelas crianças
que estudavam em escolas de missionários presbiterianos norte-americanos,
que iam ao Sertão. Por isso, alguns garotos chegavam, de fato, a ler em
inglês. Vários membros da família Cueiros tiveram esse tipo de educação.
Ver David Cueiros, História da família Gueiros, disponível em:
<http://www.geocities.com/ davidgueiros/07-Novos_Confrontos.htm>.
Acesso em 26 abr. 2006. De acordo com Gustavo Barroso, Heroes e
bandidos, cit., p. 38, “raro era o sertanejo de melhor categoria que não
soubesse, regularmente, rudimentos de latim e retórica, filosofia e história”.

14Ver Jorge Villela, O povo em armas (Rio de Janeiro, Relume Dumará,


2004), p. 229.

15Ver Oleone Coelho Fontes, Lampião na Bahia (Petrópolis, Vozes, 1988), p.


39.

16Suas fazendas incluíam: Paus Pretos, Santa Maria, Mandacaru, Cabaços e


Luduvica, em Chorrochó; Gangorra, Tranqueira, Careta, Formosa, Cacimba
de Baixo, Simpatia, São Francisco e Cachoeira, em Macureré; Vaze, em
Várzea da Ema; Cachoeirinha, em Jeremoabo; Algodoais; Forquilhas;
Limpo das Pipocas; Arapuá; Casinhas; Impuera de Barro; Saco Bonito;
Impuera Funda; Gama; Raso da Catarina; Quirim; Lagoa de Baixo; Poço
Comprido; Riacho dos Bois; Cacimba de Cima; Cacimba de Areia; Picos; e
Umbuzeiros. Como dissemos, algumas dessas propriedades foram
compradas em regime de sociedade com Lampião. Para mais informações,
ver Frederico Bezerra Maciel, Lampião, seu tempo e seu reinado
(Petrópolis, Vozes, 1987, v. IV), p. 10.

17Ver Djacir Menezes, O outro Nordeste (Rio de janeiro, José Olympio,


1937), p. 191-2.

18É claro que pode haver diversas motivações diferentes para o ingresso no
cangaço. Quando se examina um fenômeno como o cangaceirismo,
contudo, deve-se tentar encontrar os fatores dominantes, a regra, e não as
exceções, ainda que estas possam ser interessantes para ilustrar de forma
mais ampla essa modalidade. De qualquer forma, para se ter uma ideia mais
específica dos distintos “tipos” de cangaceiros, ver a classificação
elaborada por Frederico Pernambucano de Mello em seu Guerreiros do sol,
cit.

19Ver Aglae Lima de Oliveira, Lampião, cangaço e Nordeste, cit., p. 323.

20Ver Frederico Pernambucano de Mello, Guerreiros do sol, cit., p. 249.

21Ver Rodrigues de Carvalho, Lampião e a sociologia do cangaço (Rio de


Janeiro, Editora do Livro, 1977), p. 60.

22Ver Optato Cueiros, Lampeão (São Paulo, Linográfica, 1953), p. 16.

23Nesse caso específico, a palavra “cabra’ significa “aquele que se coloca a


serviço de alguém em troca de pagamento ou de alguma recompensa do
chefe”.

24Optato Cueiros, Lampeão, cit., p. 18.

25Ver Manoel Rodrigues de Melo, Patriarcas e carreiros (Natal, Universitária,


1985), foto em página não numerada, após a p. 130.

26Nesse caso, a população mais pobre do Sertão. Enrique Dussel denomina


de povo o “bloco social dos oprimidos” em relação a um “Estado”. Tal
“bloco social” seria um conjunto heterogéneo e muitas vezes contraditório,
que, enquanto se exerce sobre ele a “hegemonia’ no sentido gramsciano, se
encontra desconectado, mas que ganha certa unidade nos processos de
“dominação” e que alcança propriamente uma unidade nos movimentos de
libertação. Ver Enrique Dussel, “El marxismo de Mariátegui como filosofia
de la revolución”, em David Sobrevilla (org.), El marxismo de José Carlos
Mariátegui (Lima, Universidad de Lima/Amauta, 1995), p. 36.

27Ver Oleone Coelho Fontes, Lampião na Bahia, cit. p. 115.

28Vera Ferreira e Antonio Amaury, em De Virgolino a Lampião (São Paulo,


Idéia Visual, 1999), p. 203, assim descrevem o Raso da Catarina: “Esta
região, situada no nordeste da Bahia, tem o grosseiro formato de um
retângulo, com uma extensão aproximada de 6 mil quilômetros quadrados.
Sua face norte acompanha, irregularmente, o curso do rio São Francisco,
até a antiga cidade de Glória, hoje chamada Paulo Afonso. Descendo mais
ou menos em linha reta, atinge a centenária cidade de Jeremoabo, passando
por Macururé, subindo algumas dezenas de léguas até as proximidades do
rio São Francisco, fechando assim o retângulo”. Continuam: “A primeira
impressão é de que se trata de uma região inóspita e monótona. Entrando no
Raso da Catarina, a partir de Jeremoabo, e seguindo em direção ao rio São
Francisco, encontramos muitas fazendas, com poucos habitantes e muita
pobreza. Desse círculo de fazendas para o centro do Raso, o quadro é típico
de caatinga, com vegetação bastante diversificada”. E ainda: “No Raso da
Catarina a seca castiga durante dez meses do ano, deixando tudo cinza e
estéril. […] A temperatura do Raso oscila bastante. Durante o dia é comum
chegar aos 40 graus, mas à noite pode descer até 10 graus”. E completam:
“Lampião e vários grupos de cangaceiros utilizaram esse deserto dentro da
caatinga como esconderijo, inúmeras vezes, pois as volantes evitavam
entrar ali, temerosas de enfrentarem a agressividade e a inclemência do
clima”. Vejamos também a descrição, com pequenas diferenças, feita por
Oleone Coelho Fontes, Lampião na Bahia, cit., p. 240-1: “Trata-se de
imenso tabuleiro sedimentar de pouco mais de 400 metros de altitude.
Situa-se pouco ao sul ou a sudeste da cachoeira de Paulo Afonso,
prolongando-se por uns 70 km até Jeremoabo. Daí para oeste é delimitado
pelo leito do Vazabarris até as proximidades de Canudos. São
aproximadamente 5.000 km2 de planura desértica, revestida de caatinga
baixa e espinhosa. Funciona como pequeno centro disperso da drenagem
intermitente. Leitos secos sulcam o tabuleiro. As águas do `inverno’, em
rápidas enxurradas, escoam para alguns afluentes do São Francisco à
montante da cachoeira ou então para a margem esquerda do Vazabarris, ao
sul”. Ainda: “Na sua constituição geológica figuram arenitos e calcários,
que tornam possível a correlação desta baixa chapada com a do Araripe.
Esta teria se estendido até o nordeste baiano”. Por fim: “Solo arenoso,
vegetação espinhosa, inexistência de água. Na estação chuvosa o raso se
torna impenetrável”.

29Oleone Coelho Fontes, Lampião na Bahia, cit., p. 116.

I’Ibidem, p. 174.

31Ibidem, p. 185.

32Ver João Gomes de Lira, Lampião: memórias de um soldado de volante


(Recife, Cepe, 1990), p. 414. Jesuíno Brilhante aparentemente defendia
duas regras para aqueles que entrassem em seu bando: não pegar no alheio
e respeitar famílias honestas. Ver Gregg Narber, Entre a cruz e a espada:
violência e misticismo no Brasil rural, cit., p. 122.

33João Gomes de Lira, Lampião: memórias de um soldado de volante, cit., p.


93-

34Um dos apelidos de Lampião.

35Ver David Cueiros, História da família Gueiros, disponível em:


<http://www.geocities.com/ davidgueiros/19-Lampiao.htm>. Acesso em 26
abr. 2006.

36Ver Maria Isaura Pereira de Queiroz, Os cangaceiros (São Paulo, Duas


Cidades, 1977), p. 207.

37Ver Richard Graham, Clientelismo e política no Brasil do século XIX (Rio


de Janeiro, Editora da UFRJ, 1997), p. 43-4.

38Ver Érico de Almeida, Lampeão, sua história (João Pessoa, Universitária,


1998), p. 38. Outro caso interessante é o de Antônio Silvino. De acordo
com Linda Lewin, “Silvino ganhou muito do seu apoio popular dos pobres
rústicos através da distribuição de dinheiro e dos seus butins. Na análise
respectiva quanto à sua nobreza nos vemos geralmente obrigados a
contornar o fato de que ele mesmo requisitava consideráveis quantias de
dinheiro para continuar operando como um bandido. Subornar um policial,
por exemplo, custava entre duzentos e seiscentos mil-réis por vez. Os
roubos e extorsões de Silvino não eram para subtrair com o principal
propósito de redistribuição da renda rural, mas significavam, sim, assegurar
a renda pessoal necessária para manter-se a si próprio e aos seus homens
como cangaceiros”. Nesse caso, “tem sido estimado que ele e o seu bando
arrecadavam entre seis e dez contos de réis por mês, exclusivamente de
lucrativos butins, o que também sugeria que ele alocava somente uma
pequena porção do coletado para os pobres. Quando Silvino, por exemplo,
coletou um conto e oitocentos mil-réis no celebrado assalto de Pilar, ele
distribuiu somente uma parcela modesta, aproximadamente duzentos mil-
réis, aos pobres. A sua ocasional distribuição de dinheiro e mercadorias
entre os indigentes fez bom sentido assim como a justiça do bandido por
brigadistas que alienavam as pessoas comuns que poderiam terminar como
eles”. Ver Linda Lewin, citada em Gregg Narber, Entre a cruz e a espada:
violência e misticismo no Brasil rural, cit., p. 126.

39Ver Luís da Câmara Cascudo, Vaqueiros e cantadores (Rio de Janeiro,


Edições de Ouro, 1968), p. 122.

41Idem.

41Ver Richard Graham, Clientelismo e política no Brasil do século XIX, cit.,


p. 48.

42Ver Geraldo Irenêo Joffily, O quebra quilo: a revolta dos matutos contra os
doutores, 1874 (Brasília, Thesaurus, 1977), p. 31-2.

43Ibidem, p. 32.

VerUlysses Lins de Albuquerque, Um sertanejo e o sertão (Rio de Janeiro,


José Olympio; Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1976), p. 17.
Albuquerque narra que o “coronel” Tomás de Aquino Cavalcante, que em
1866 era diretor dos índios carnijós, convocou todos eles para uma reunião
em frente da Cadeia Pública de Águas Belas, mandou os mais moços
entrarem no salão e então anunciou que teriam de ir para a Guerra do
Paraguai. Mais tarde, os indígenas foram algemados, enviados para o
Recife e, em seguida, para o combate. As mulheres da tribo, chorando,
acompanharam seus maridos durante boa parte do caminho. Ibidem, p. 124.

41Ver Linda Lewin, “The Oligarchical Limitations of Social Banditry in


Brazil: The Case of the `Good’ Thief Antonio Silvino”, em Richard
W.Slatta (org.), Bandidos: lhe Varieties of Latin American Banditry
(Westport, Grenwood Press, 1987), p. 86.

46Ver Frederico Pernambucano de Mello, Guerreiros do sol, cit., p. 144.

MULHERES E CRIANÇAS DENTRO DO CANGAÇO

1Ver Fontes, Lampião na Bahia (Petrópolis, Vozes, 1988), p. 248. Para mais
informações sobre as mulheres no cangaço, ver Antônio Amaury Corrêa de
Araújo, Lampião: as mulheres e o cangaço (São Paulo, Traço, 1984);
Geraldo Maia do Nascimento, Amantes guerreiras: a presença da mulher no
cangaço (Mossoró, Fundação Guimarães Duque/Fundação Vingt-Un
Rosado, 2001); e Daniel Lins, Lampião, o homem que amava as mulheres
(São Paulo, Annablume, 1997).

2Esse foi o caso do ex-oficial das volantes, Optato Cueiros, que se casou com
uma parente, de doze anos de idade, e do cangaceiro Chico Pereira, que
conheceu sua esposa quando esta também tinha doze anos; casaram-se dois
anos depois, apenas. São muitos os casos similares.
VerGilberto Freyre, Vida social no Brasil nos meados do século XIX (Recife,
Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais/Ministério da Educação e
Cultura, 1964), p. 117-9.

Deacordo com Ariosvaldo Figueiredo, em História política de Sergipe


(Aracaju, [s. n.], 1986), p. 115: “as mulheres permanecem sem instrução
para, assim, na ótica oligárquica, serem melhormente religiosas, dóceis,
submissas. Oprimidas e bloqueadas por fora muitas delas ficam violentas e
explosivas por dentro, o que explica em Sergipe - e no Nordeste -, a alta
taxa de violência e de loucura na população feminina de média e alta renda.
Só a fome, nas populações carentes, consegue fazer, na mulher, maior
estrago psíquico, social e humano”.

ParaAbelardo Pereira, em Sertanejos e cangaceiros (São Paulo, Paulista,


1934), p. 44: “havia então, como referem testemunhas insuspeitas, o
costume muito generalizado no Brasil de nossos avós de não se ministrar às
meninas nenhum conhecimento literário, para que assim permanecendo,
não nutrissem mais tarde correspondência, quando a eclosão dos afetos lhes
viesse acender a fagulha dos sentimentos humanos”.

6Ariosvaldo Figueiredo, História política de Sergipe, cit., p. 115.

Ibidem,p. 117.

sVer Marlene da Silva Mariz e Luiz Eduardo Brandão Suassuna, História do


Rio Grande do Norte (Natal, Sebo Vermelho, 2002), p. 183.

Ibidem,p. 220.

10Ver Ariosvaldo Figueiredo, História política de Sergipe, cit., p. 118.

Ibidem,p. 161.

12Ver Richard Graham, Grã-Bretanha e a modernização do Brasil (São Paulo,


Brasiliense, 1973), p. 25. Para se ter uma ideia, bem mais tarde, em 1933, o
Brasil possuía 29.553 cursos primários, com 2.221.904 alunos; 417 cursos
de nível secundário, com 66.420 estudantes; e apenas 248 cursos de nível
superior, com 24.166 alunos. Ver IBGE, Anuário estatístico de 1949, citado
em Simon Schwartzman, Helena Maria Bousquet Bomeny e Vanda Maria
Ribeiro Costa, Tempos de Capanema (Rio de Janeiro, Paz e Terra; São
Paulo, Edusp, 1984), p. 261.

13Ver Richard Graham, Clientelismo e política no Brasil do século XIX (Rio


de Janeiro, Editora da UFRJ, 1997), p. 34.

14Idem.

15Ver Antônio Amaury Corréa de Araújo, Lampião, cit., p. 93.

16Ver Billy Jaynes Chandler, Lampião, o rei dos cangaceiros (Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1981), p. 140.

“Idem. Ver também José Anderson Nascimento, Cangaceiros, coiteiros e


volantes (São Paulo, Ícone, 1998), p. 60.

18Ver Antônio Amaury Corréa de Araújo, Lampião, cit., p. 224.

19Ibidem, p. 257.

20Ver Robert M.Levine, O sertão prometido: o massacre de Canudos (São


Paulo, Edusp, 1995), p. 149-50.

21Ver Abelardo F.Montenegro, Fanáticos e cangaceiros (Fortaleza,


Henriqueta Galeno, 1973), p. 257.

22Ver Paulo Moraes e Barros, citado em Edmar Morél, Padre Cícero, o santo
de juazeiro (Rio de Janeiro, O Cruzeiro, 1946), p. 103.

23Ibidem, p. 105. Essa opinião era bastante disseminada na época. Em 1912,


o padre Joaquim de Alencar Peixoto dizia que “uma das coisas [que] mais
impressionam aos que, pela primeira vez, visitam o Juazeiro é, com efeito,
aquela aglomeração de gente maltrapilha e suja aqui e ali pelas ruas,
principalmente em frente à casa do Padre Cícero”. E completava: “A
população do Juazeiro que se eleva hoje a, pouco mais ou menos, trinta mil
almas, é quase que exclusivamente composta de `romeiros’, o que vale
mesmo dizer de assassinos, de desordeiros, de rufiões e de ladrões de
cavalos que, perseguidos pela polícia dos estados vizinhos, ali se
refugiaram sob a proteção do Padre Cícero”. E em 1922, o Padre Lourenço
Filho comentou que aquela cidade era um “arraial e feira, antro e oficina,
centro de oração e hospício enorme”. Ver Otacílio Anselmo, Padre Cícero:
mito e realidade (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968), p. 256.

24Ver Otacílio Anselmo, Padre Cícero, cit., p. 9.

25Ver Moacir Assunção, Os homens que mataram o facínora (Rio de Janeiro,


Record, 2007), p. 94.

26Ver Ranulfo Prata, Lampião (São Paulo, Traço, [s. d]), p. 52.

27Ver Billy Jaynes Chandler, Lampião, o rei dos cangaceiros, cit., p. 181.

28Ver Rodrigues de Carvalho, Lampião e a sociologia do cangaço (Rio de


Janeiro, Editora do Livro, 1977), p. 222.

29Ver Antonio Vilela de Souza, O incrível mundo do cangaço (Garanhuns,


Bagaço, 2006), p. 75.

31Idem.

31Idem.

32Ver Aglae Lima de Oliveira, Lampião, cangaço e Nordeste (Rio de Janeiro,


O Cruzeiro, 1970), p. 134-5.

33Geraldo Maia do Nascimento, Amantes guerreiras, cit., p. 18.

34Ver Antônio Amaury Corrêa de Araújo, Lampião, cit., p. 44.

31Para mais informações sobre a indumentária das cangaceiras, ver Geraldo


Maia do Nascimento, Amantes guerreiras, cit., p. 18-9; e Vera Ferreira e
Antonio Amaury, De Virgolino a Lampião (São Paulo, Idéia Visual, 1999),
p. 193-7.

36Geraldo Maia do Nascimento, Amantes guerreiras, cit., p. 23.


37Ver Maria Gouveia Seitz, Trilhando com a imaginação: uma visão
romântica do banditismo na literatura do Nordeste brasileiro (Tese de
Doutorado, Bloomington, Depto. de Espanhol e Português/Universidade de
Indiana, jan. 2004), p. 86. Isso vinha de muito tempo. O título XXXVIII do
Código Filipino, por exemplo, praticamente garantia a impunidade do
marido, ao dizer que “não somente poderá o marido matar sua mulher e o
adúltero, que achar com ela em adultério, mas ainda os pode licitamente
matar, sendo certo que lhe cometerão adultério”. Ibidem, p. 87.

3sGeraldo Maia do Nascimento, Amantes guerreiras, cit., p. 26.

39Ver Aglae Lima de Oliveira, Lampião, cangaço e Nordeste, cit., p. 137.

,oVer Abelardo Pereira, Sertanejos e cangaceiros, cit., p. 23.

4iDe acordo com Maria Isaura Pereira de Queiroz, em História do cangaço


(São Paulo, Global, 1986), p. 57, Corisco e Dadá tiveram sete filhos juntos,
dos quais três sobreviveram, duas mulheres e um homem. Já Antônio
Amaury Corrêa de Araújo, em Gente de Lampião: Dadá e Corisco (São
Paulo, Traço, 1982), p. 76, fala em seis filhos: Josafá, nascido em 1931
(não sobreviveu); uma menina, em 1932 (não sobreviveu); Luiz, nascido
em 1934; Sílvio, em 1935; Celeste, em 1937; e Maria do Carmo, em 1939.
Por sua vez. as informações especificamente sobre Sílvio Bulhões,
economista e vereador, são do próprio Sílvio Bulhões, em depoimento ao
autor, 2009.

42Ver João Gomes de Lira, Lampião: memórias de um soldado de volante


(Recife, Cepe, 1990), p. 635-6.

43Decerto, falamos aqui da presença das mulheres como integrantes


orgânicas e ativas dos grupos de cangaceiros. Anteriormente houve alguns
casos esporádicos de mulheres no cangaço. Um exemplo disso é o de
Jesuíno Brilhante, que levava, muitas vezes consigo, sua mulher e filhos,
nas suas andanças pelo Sertão.

VerAntônio Amaury Corrêa de Araújo, Lampião, cit., p. 104.


41Ibidem, p. 103.

46Ibidem, p. 160.

47Ver Ilda Ribeiro de Souza, Sila, memórias deguerra e paz (Recife, UFRPE,
1995), p. 34-5.

4sRodrigues de Carvalho, Lampião e a sociologia do cangaço, cit., p. 65,


narra, sobre o menino Antonio dos Santos, que “por mais de uma vez
correu o risco (enquanto os demais brigavam) de perder a espingarda. E no
grupo foi a toalha em que todos procuravam enxugar as mãos. Um dia, num
acampamento, Corisco deu-lhe um tabefe com tal violência, que o infeliz
perdeu os sentidos e custou muito a voltar a si. Lampião chegou a pensar
que ele não mais voltasse a recobrar os sentidos e reclamou da brutalidade
do comparsa’.

49Novamente, Rodrigues de Carvalho, Lampião e a sociologia do cangaço,


cit., p. 66: “Um dia, estando acampado em determinado valhacouto,
Lampião ordenou-lhe que fosse apanhar umas compras que havia mandado
fazer na feira, por um coiteiro. Passara-se todo o dia sem que o moleque
regressasse. Já estavam até pensando tivesse uma volante o agarrado. Quase
noite já, eis que aparecem uns roceiros puxando o cavalo, com o
`cangaceiro’ emborcado sobre a lua da sela e abraçado ao pescoço do
animal, numa carraspana desgraçada, sem compras, e sem nada! Havia
`enchido a cara’ de `timbuca.’ e perdera tudo pelo caminho”! E então: “Ah!
Dessa vez quem quase o mata no cacete foi o próprio Lampião. Deu-lhe
uma surra de chicote que o cabra viu fagulhas como se estivesse diante de
uma forja de caldeireiro de ferro em plena atividade. Ficou com o lombo
mais encalombado do que casca de angico manso. Também num instante
ficou curado do pileque”.

soVer Jorge Mattar Villela, O povo em armas: violência e política no Sertão


de Pernambuco (Rio de Janeiro, Relume Dumará, 2004), p. 58.

RELAÇÕES SOCIAIS E ESTRUTURA DOS BANDOS


1Linda Lewin, “The Oligarchical Limitations of Social Banditry in Brazil:
The Case of the `Good’ Thief Antonio Silvino”, em Richard W.Slatta (org.),
Bandidos: lhe Varieties of Latin American Banditry (Westport, Grenwood
Press, 1987), p. 87.

2Idem.

3Ver Aglae Lima de Oliveira, Lampião, cangaço e Nordeste (Rio de Janeiro,


O Cruzeiro, 1970), p. 116. Há quem diga, contudo, que Lampião não
costumava pagar salários a seus asseclas. Ver Oleone Coelho Fontes,
Lampião na Bahia (Petrópolis, Vozes, 1988), p. 277.

4Maria Gouveia Seitz, Trilhando com a imaginação: uma visão romântica do


banditismo na literatura do Nordeste brasileiro (Tese de Doutorado,
Bloomington, Depto. de Espanhol e Português/ Universidade de Indiana,
2004), p. 219.

Paraalgumas descrições da indumentária dos “coronéis”, ver Ulysses Lins de


Albuquerque, Um sertanejo e o sertão (Rio de Janeiro, José Olympio;
Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1976), p. 19 e 65.

6Érico de Almeida, em Lampeão, sua história (João Pessoa, Universitária,


1998), p. 99, narra um episódio interessante com o cangaceiro José
Cachoeira, que, numa conversa com o comerciante de algodão Sebastião
Dantas de Medeiros, nos limites de Princesa com Misericórdia, em agosto
de 1924, ao ser indagado sobre como havia conseguido aquele traje de
casimira escura que estava vestindo, disse que o havia roubado numa luta
encarniçada em Souza, pouco antes. Os bandidos certamente roubavam o
que podiam após suas refregas, inclusive roupas que achavam bonitas ou
que lhes poderiam dar um status ou uma aparência de estratos sociais mais
altos do que aqueles aos quais pertenciam.

7Ver Maria Isaura Pereira de Queiroz, História do cangaço (São Paulo,


Global, 1986), p. 29.

sSérgio Augusto de Souza Dantas, Antônio Silvino, o cangaceiro, o homem, o


mito (Natal, Cartograf, 2006), p. 74.

9Ver Gustavo Barroso, Heroes e bandidos (São Paulo, Francisco Alves,


1917), p. 240.

10Em realidade, o posto de “capitão” parece ter sido um dos favoritos de


bandidos e rebeldes no Nordeste brasileiro. Até mesmo durante a
Cabanada, os líderes dos arraiais cabanos, ao mesmo tempo chefes civis e
militares, detinham a patente de capitão. Já uma das formas de capturar o
líder dos cabanos, Vicente Ferreira de Paula, foi a utilização de um
estratagema. 0 major Vitor Albuquerque Melo foi instruído a ir para matas
de Jacuípe, declarando vir do Rio de janeiro, por incumbência do
imperador, para oferecer ao chefe rebelde a patente de “General das Matas”,
em tributo à sua bravura. É claro que aquela patente, em papel timbrado,
era falsa. Mas a vaidade do combatente e o desejo de não ser mais
perseguido pelas tropas do governo foram maiores. Foi preso pelas
autoridades. Ver Décio Freitas, Os guerrilheiros do imperador (Rio de
Janeiro, Graal, 1982), p. 115 e 160.

VerÉrico de Almeida, Lampeão, sua história, cit., p. 93.

12Ver Melchiades da Rocha, Bandoleiros das catingas (Rio de Janeiro,


Francisco Alves, 1988), p. 84.

13Ver Optato Cueiros, Lampeão (São Paulo, Linográfica, 1953), p. 40.

14Ver Aglae Lima de Oliveira, Lampião, cangaço e Nordeste, cit., p. 116.

15Ver Arthur Shaker, Pelo espaço do cangaceiro, Jurubeba (São Paulo,


Símbolo, 1979), p. 92-3.

16Ibidem, p. 106-7. Por outro lado, paradoxalmente, “Jurubebá’ também fala


de sua relação com o “chefe” de bando como se fosse de pai para filho.
Ibidem, p. 133.

17VerAntônio Amaury Corrêa de Araújo, Lampião: as mulheres e o cangaço


(São Paulo, Traço, 1984), p. 143.
18Ver Antônio Porfírio de Matos Neto, Lampião e Zé Baiano no povoado
Alagadiço (Aracaju, Info Graphics, 2006), p. 83-4.

19Ver Billy Jaynes Chandler, Lampião, o rei dos cangaceiros (Rio de Janeiro,
Paz e Terra, 1981), p. 79.

20Ibidem, p. 132.

21Ver Rodrigues de Carvalho, Lampião e a sociologia do cangaço (Rio de


Janeiro, Editora do Livro, 1977), p. 269.

22Para mais informações sobre os bancos no Brasil daquela época, ver


Vicente Paz Fontenla, História dos bancos no Brasil (Rio de Janeiro, Luna,
1975).

23Ver Billy Jaynes Chandler, Lampião, o rei dos cangaceiros, cit., p. 132-3.
Um exemplo interessante nos dá José Anderson Nascimento quando narra a
entrada de Lampião em uma fazenda, em 1927, onde havia um penico de
louça azul e branco, com decoração floral, em cujo fundo se lia “Made in
England”, anéis, brincos, pulseiras, escravas de ouro, gargantilhas, broche
de platina e brilhantes, um barrete de diamantes, um rico colar de
esmeraldas e outras joias caras, um lenço de seda chinesa, 15 libras
esterlinas e dois relógios de bolso marca Patek. Ver José Anderson
Nascimento, Cangaceiros, coiteiros e volantes (São Paulo, ícone, 1998), p.
109-10.

24As armas e munições em geral eram colocadas em garrafas e inseridas


dentro de troncos ocos de algumas árvores. Também podiam ser enterradas
em locais previamente escolhidos. Para transportar esse material para os
esconderijos, metiam tudo dentro de malas de couro, sobre as quais
jogavam carne seca, farinha e rapadura, no intuito de dissimular a carga.

25Ver Frederico Bezerra Maciel, Lampião, seu tempo e seu reinado


(Petrópolis, Vozes, 1987, v. IV), p. 46-7.

26Ver Frederico Pernambucano de Mello, Guerreiros do sol: o banditismo no


Nordeste do Brasil (Recife, Fundação Joaquim Nabuco/Massangana, 1985),
p. 27.

27Grifo nosso.

28Grifo nosso.

29Frederico Pernambucano de Mello, Guerreiros do sol, cit.

3oVer depoimento do cangaceiro Passarinho em Érico de Almeida, Lampeão,


sua história, cit., p. 70. Esse tipo de terminologia, contudo, já era usado
antes do período lampiônico. Era dessa forma que o cangaceiro Chico
Pinheiro, vulgo Senhozinho, chamava seus asseclas. Ver Antonio Xavier de
Oliveira, Beatos e cangaceiros (Rio de Janeiro, Revista dos Tribunais,
1920), p. 175.

31Ver depoimento de Ângelo Roque em Maria Isaura Pereira de Queiróz, Os


cangaceiros (São Paulo, Duas Cidades, 1977), p. 174.

32Ver Arthur Shaker, Pelo espaço do cangaceiro, Jurubeba, cit., p. 108.

33Num encontro entre Andrelino Pereira, da Baixa do Icó, e Lampião, em


1926, o “rei” dos cangaceiros teria chamado seus “soldados”, seus
subordinados, que estavam curiosos para saber do que se tratava a conversa
entre os dois, de “bando da peste”, mandando, de forma ríspida e agressiva,
que “voltassem a seu lugar”. Ver Optato Cueiros, Lampeão, cit., p. 50-2.

34Ibidem, p. 174-5.

35Ibidem, p. 175.

36Ver, por exemplo, o caso, entre muitos outros, de Antônio Silvino, no


começo de sua carreira de crimes como cangaceiro. Ver Sérgio Augusto de
Souza Dantas, Antônio Silvino, o cangaceiro, o homem, o mito, cit., p. 33,
35-6. Em mensagem telegrafada ao presidente de Pernambuco, o “coronel”
Manoel Antônio dos Santos Dias, conhecido usineiro daquele estado,
descreve Silvino e seus homens como “celerados assassinos assalariados”,
o que mostra que mesmo tendo “autonomia”, vários cangaceiros podiam
“emprestar” seus serviços a terceiros, se considerassem isso conveniente.
Ibidem, p. 38.

37Ver Benjamin S.Orlove, “La posición de los abigeos en Ia sociedad


regional: el bandolerismo social en el Cusco en vísperas de la Reforma
Agraria”, em Carlos Aguirre e Charles Walker (orgs.), Bandoleros,
abigeosy montoneros: criminalidady violencia en elPerú, siglosXVIII-XX
(Lima, Instituto de Apoyo Agrario, 1990), p. 284.

31Grifo nosso.

39Grifo nosso.

41Ver Nertan Macedo, Lampião, capitão Virgulino Ferreira (Rio de Janeiro,


Renes, 1975), p. 138. É interessante como Lampião tratou um soldado que
acabava de sair de um trem em Capela. Assim narraram o episódio
Fernando Portela e Cláudio Bojunga, em Lampião, o cangaceiro e o outro
(São Paulo, Traço, 1982), p. 42: “Saiu um soldado. Lampião mexeu o
pescoço: ‘macaco, venha cá’. O soldado tremia. `Me dê o seu fuzil’. Olhou
o pau-de-fogo, atirou longe. `Isso num é arma que presti’. O soldado
aproximou-se amedrontado. Lampião: `me diga, tu é da volante baiana?’ O
macaco fez que não. Sorte a dele; Lampião detestava a força da Bahia - ‘si
fosse, te sangrava’. O soldado deu um risinho e saiu de banda. `Homi,
venha cá’. O queixo do macaco recomeçou a tremer. `Não ande por aí
sozinho que um cabra meu pode querer fazer uma brincadeira com você’. O
soldado Gilberto foi então conduzido por um cabra ao quartel e trancado”.

41A camada social seria um grupo de membros da sociedade, cuja posição


econômica e social não seria derivada das relações de propriedade, senão da
forma que tem a superestrutura correspondente. Ver Oscar Lange,
Economia política (México, Fondo de Cultura Económica, 1966, v. 1), p.
47.

42Ver Billy Jaynes Chandler, Lampião, o rei dos cangaceiros, cit., p. 242.

13Ver Optato Cueiros, Lampeão, cit., p. 27.


44Ver João Gomes de Lira, Lampião: memórias de um soldado de volante
(Recife, Cepe, 1990), p. 181.

°Idem.

46Grifo nosso.

47Ver Nertan Macedo, Lampião, cit., p. 139.

41Grifo nosso. Fica claro aqui que o bandoleiro se refere a “patrão” àqueles
fazendeiros e “coronéis” abastados os quais extorquia. Ou seja, ele
continuava vendo aqueles homens como uma casta privilegiada, que
mesmo sendo roubada por ele, ainda era considerada como respeitável. E
seria uma honra almoçar com a elite, mesmo que esta fosse sua vítima. Era
uma forma