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Homilia de Dom Justino Bueno OSB, proferido durante a cerimônia de exéquias

Do Professor Aluísio Pimenta

09/08/1923 09/05/2016
ALUISIO PIMENTA
1923 – 2016

Academia Mineira de Letras


Belo Horizonte, 11 de maio

Professora Wanda Julia,


Filhos e netos, irmãos e demais familiares,
Amigos e companheiros de lida do professor Aluísio Pimenta.

Não tive a graça e o prazer de conhecer pessoalmente o Professor Aluísio Pimenta. Por
isso peço desculpas pelas pobres palavras que neste momento vos dirijo. Como homem de
cultura que foi o Professor Aluísio Pimenta escreveu e, por isso, podemos captar algo de sua
personalidade, do seu caráter e de sua alma, nos seus numerosos e profundos textos, um
verdadeiro ideário para todo educador e político que deseja servir ao próximo, um verdadeiro
canto de amor a Minas e ao Brasil, pelos quais ele ofereceu a vida, sua lida e, mesmo, o seu
sofrer.

Não me cabe, aqui, fazer um panegírico do Professor, até porque, muitos dos Senhores
presentes poderiam e o farão melhor e com mais competência e propriedade que eu. No
entanto, para lembrar a importância do Professor, para Minas e nosso país, bastaria ressaltar a
confiança que nele depositou o inesquecível Presidente Tancredo Neves e o fato de ter sido
Reitor da Universidade Federal de Minas Gerais.

Pelo que pude apreender de alguns dos textos do Professor, creio não exagerar ao dizer que
ele tinha o espírito das Bem-aventuranças, cujo texto ouvimos. Sim, ele foi um construtor de
paz e um homem com sede de justiça, um perseguido por causa da justiça. Mas se buscamos a
origem dessa força, desse modo de ser, temos que olhar para a família na qual ele nasceu e
formou seu caráter. Ele mesmo nos diz: “Sou originário de uma família ... de uma riqueza de
convivência que recordo com orgulho e com muito agradecimento a Deus”. E, lembrando que
sua família era numerosa, vê nisso uma vantagem: “representava uma grande carga de
trabalho, especialmente para a mãe, mas possibilitava cooperação, entendimento e respeito
nos lares mesmo humildes. Pedíamos a benção aos pais, obrigatoriamente pela manhã, ao
nos levantarmos e a noite ao irmos dormir. Mas antes de dormirmos éramos convocados por
nossa mãe para a oração da noite. Ajoelhávamos em redor da cama do casal e rezávamos o
terço, as ladainhas e muitas outras orações”. (Jornal Hoje em Dia, 4/7/2008)

Alguém que foi talhado assim, como só uma tradicional família mineira sabe fazer,
não poderia ser diferente da sua fonte. Ninguém pode dar o que não recebeu. O Professor
Aluísio Pimenta, educado com esse requinte de amor e trabalho, fé e sacrifício, soube oferecer
aos outros a riqueza que recebeu. Tornou-se um educador, que transmitiu, que soube fazer
aquela traditio, aquela entrega da tocha da cidadania, da civilidade, que é a única verdadeira
herança de um homem público. Ele acreditou na educação e na força regeneradora da mesma.
Essa certeza acompanhou-o durante toda a vida pública. Ele via num investimento sério e
intenso nesse campo a única solução para nosso país. Essas palavras dele deveriam ser
esculpidas num mármore: “... o Brasil é o país do presente e não somente do futuro como
muitas pessoas dizem. A democracia, devemos repetir sempre, não deve fechar os nossos
olhos, mas, ao contrário, torná-los cada vez mais abertos para uma visão prospectiva do
país, cuja, liderança devemos buscar principalmente no campo da educação de todos. Aqui
relembro a expressão que tenho repetido inúmeras vezes: “Só a educação fará de nosso país,
o Brasil, uma nação fácil de governar, difícil de dominar e impossível de escravizar.” (Jornal
Hoje em Dia, 27/11/2009).

Por tudo isso, a morte e a vida nos interrogam hoje. A morte e a vida do Professor
dizem respeito a todos nós e nos interrogam de modo profundo: aos seus familiares,
especialmente, tão de perto, pelo amor que lhe dedicaram e dele receberam; mas, não menos a
nós, brasileiros, nesse momento grave que nosso país vive, já que o Professor foi um político,
homem público de primeira linha.

Se for entendida como o fim de tudo, a morte assusta, aterroriza, transforma-se em


ameaça que impede os nossos sonhos, que acaba com as perspectivas construídas, que
interrompe os relacionamentos e o caminhar. Isto acontece quando consideramos a nossa vida
como um tempo fechado entre dois polos: o nascimento e a morte; quando não cremos num
horizonte que vai além da vida presente; quando vivemos como se Deus não existisse.

Para nós cristãos, no entanto, há uma resposta: a ressurreição de Cristo é a resposta, é


o sentido do viver e do morrer. O cristão, até no drama da perda, dilacerado pela separação, vê
brotar do coração a convicção de que não pode ser que tudo acabou, que o bem dado e
recebido não foi inútil. Há um “instinto” poderoso dentro de nós, nossa fé, que nos diz que a
nossa vida não acaba com a morte.

Mas a ressurreição de Jesus não confere apenas a certeza da vida além da morte, ela
ilumina também o próprio mistério da vida e da morte de cada um de nós. Se vivermos unidos
a Jesus, se formos fiéis a Ele, seremos capazes de enfrentar com esperança e serenidade
também a passagem da morte. Como reza no prefácio dos mortos, a Igreja, “embora nos
entristeça a certeza de ter que morrer, consola-nos a promessa da imortalidade futura”.

Uma pessoa tende, portanto, a morrer como viveu. Se a nossa vida for um caminho com
o Senhor, um caminho de confiança na sua misericórdia incomensurável, estaremos
preparados para aceitar o momento derradeiro da nossa existência terrena como o definitivo
abandono confiante mãos acolhedoras do Pai. Neste horizonte compreendemos porque Jesus
nos convida a estarmos sempre prontos e vigilantes, conscientes de que a vida neste mundo
nos é concedida também para preparar a outra vida, com o Pai celestial. E como a
preparamos? Vivendo a caridade cristã e a partilha fraternal, sendo solidários na dor e na
transmissão da esperança. Quem pratica a misericórdia não teme a morte. E por que não teme a
morte? Porque a encara nas feridas dos irmãos, superando-a com o amor de Jesus.

Queremos crer que o Professor Aluísio Pimenta abriu as portas da sua vida e do seu
coração às necessidades do nosso Brasil e da nossa gente. Por isso, a sua morte se torna uma
porta que o introduziu no céu, na Pátria bem-aventurada, para a qual todos nós nos
encaminhamos, aspirando a permanecer para sempre com o nosso Pai, Deus, com Jesus, com
Nossa Senhora e com os santos.
Ele morreu como viveu. E se em vida nos falou, a sua morte não pode ser menos
eloquente. Ecoe, assim, em nosso país essas suas fortes e contundentes palavras de 9 anos
atrás: “Temos políticos sérios. Mas o povo está desiludido. Urge um trabalho profundo para
reformar nosso sistema político exigindo dos candidatos uma folha corrida, afastando do
exercício do poder os maus elementos. O país aguarda uma reforma política, capaz de
corrigir tão grave degradação política em nosso Brasil. Se deixarmos o processo partidário
como está, estaremos condenando o país a se transformar em uma falsa república de
aproveitadores do poder” (Jornal Diário da Tarde, 14/7/2007).

Essas palavras, diria, quase proféticas, nos mostram que para o Professor Aluísio
Pimenta a política era um compromisso em prol da justiça e mesmo o sucesso que ele obteve,
e que naturalmente um político deve procurar para ser efetivo na sua ação política, esteve
sempre subordinado ao critério da justiça, à vontade de atuar o direito e à inteligência do
direito. É que o sucesso, muitas vezes, caros irmãos, pode aliciar, pode abrir caminho à
falsificação do direito, à destruição da justiça. Como sentenciou Santo Agostinho “Se se põe
de parte o direito, em que se distingue então o Estado de um grande bando de salteadores?”
(De civitate Dei IV,4,1; cf. Bento XVI, Congresso Alemão).

Que os escritos e a vida do Professor Aluísio Pimenta


sirvam de inspiração para os nossos educadores e políticos.

Que os seus sofrimentos e lutas por Minas e pelo Brasil


não sejam em vão.

Bem Aventurado Professor Aluísio Pimenta, construtor


da paz, porque será chamado filho de Deus.

Que junto a Nosso Senhor Jesus Cristo e a


Nossa Senhora da Piedade,

Q Professor Aluísio interceda por Minas, pelo Brasil e por todos nós.

Dom Justino de Almeida Bueno OSB


Capelão do Mosteiro de Nossa Senhora das Graças
domjuba@osb.org.br

U. I. O. G. D.