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FELIPE MUZEL GOMES

EXEGESE DO ANTIGO TESTAMENTO


Isaías 1. 18-20

São Paulo

2019
FELIPE MUZEL GOMES

EXEGESE DO ANTIGO TESTAMENTO


Isaías 1. 18-20

Trabalho apresentado em cumprimento


às exigências da disciplina de Exegese
do Antigo Testamento do Curso Livre de
Teologia EAD_FECP, ministrada pelo
professor José Roberto Cristofani.

São Paulo

2019
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus, que desde a eternidade e desde antes


mesmo de me formar no ventre de minha mãe, me escolheu para seguir seus
caminhos e cumprir o seu chamado.

Agradeço aos meus pais João Batista e Algina, que foram os


mantenedores deste curso de Teologia. Pais amorosos que me educaram na
Palavra do Senhor e me ensinaram o caminho da retidão. Pais que em tudo me
supriram até o momento em que estive pronto para voar.

Agradeço a todos os professores e funcionários da FATIPI, especialmente


ao orientador e Professor José Roberto Cristofani, o mais carismático dos
professores, sempre alegre e sorridente em suas aulas, passando energia
positiva e bom ânimo aos seus alunos. Seu inestimado conhecimento perderia a
graça se não fosse uma pessoa tão positiva e carismática.
SUMÁRIO

1.MOTIVAÇÃO DE TER ESCOLHIDO O TEXTO DE ISAÍAS 1: 18 – 20...........05

2. DELIMITAÇÃO ..............................................................................................05

3. TRADUÇÃO - COMPARAÇÃO DE TRADUÇÕES .......................................07


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1. MOTIVAÇÃO DE TER ESCOLHIDO O TEXTO DE ISAÍAS 1: 18 – 20

Tal texto, Isaías 1: 18-20, é um texto muito conhecido dos cristãos, que
traz por si uma mensagem de graça e misericórdia, mas que possui significados
profundos se for analisado minuciosamente. Porém acima de tudo é um texto
que demonstra a ação de Deus para restaurar seu povo, vemos que a iniciativa
provém de Deus, que nos faz lembrar que Ele a todo momento nos atrai para si.
E este é o movimento teológico de toda a narrativa Bíblica. Deus se movimentou
em direção a Abraão com a promessa da geração de um povo escolhido por ele.
Deus foi ao encontro dos hebreus em seu sofrimento no Egito para os libertar.
Deus os guiou pelo deserto em direção a terra prometida e os fez conquistá-la.
Deus levantou líderes e profetas para guiar o seu povo no decorrer da história.
E por fim, Deus enviou seu Filho amado, para morrer pelos nossos pecados,
para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha vida eterna.
Claramente, o movimento teológico é sempre de Deus em direção so ser
humano. Ele se preocupa em nos trazer para perto dele e nos restaurar partindo
de sua iniciativa, mensagem esta que devemos refletir todos os dias para
renovarmos nossas forças e fé no Criador. Que para ele somos tão preciosos
que ele pode fazer de tudo para nos trazer para ele, e que tudo isso é pura
iniciativa divina, pura graça, e que nada depende de nós. E para entender melhor
o texto faremos, à delimitação da perícope usando argumentos literários.

2. DELIMITAÇÃO

A delimitação do início e do fim de um texto bíblico é necessária por seu


caráter antológico, caso em que nem sempre a ordem ou a sucessão é evidente.
Vários textos foram incluídos em um livro bíblico sem nenhum critério evidente,
por isso, então a delimitação torna-se necessária para se saber qual é a
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mensagem de um texto1. Portanto delimitar é recortar um texto em uma unidade


de sentido completo2.

O texto em pesquisa, que pertence ao livro de Isaías capítulo 1, será


delimitado dos versos 18 ao 20. Apesar de alguns elementos gráficos apontarem
para o recorte da perícope do verso 18 ao 20, como o uso da expressão ‫י ֹאמַ ר יְהוָה‬
“diz o Senhor” o texto estudado é delimitado pelas seguintes características
linguísticas e gráficas:

Podemos evidenciar, em um primeiro momento, uma mudança de


assunto. Na perícope anterior, Isaías 1.10-17, YHWH (Javé) está tratando de
outro assunto com seu povo, está denunciando através do profeta as iniquidades
do seu povo e seu comportamento hipócrita diante dos rituais religiosos.

No momento seguinte nos deparamos com a seguinte frase


‫ֹאמר יְהוָה‬
ַ ‫ נָא וְנִ ּוָכְ חָ ה י‬-‫“ ְלכּו‬Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor”. vemos o verbo
halach no imperativo afirmativo do subjuntivo, na 2ª pessoa do plural, dando
sentido a um convite de Deus, para que seu povo venha ao seu encontro. Outro
aspecto evidenciando a mudança de assunto é a frase em seguida que diz
‫ֹאמר יְהוָה‬
ַ ‫“ י‬diz o Senhor”, expressão constantemente utilizada pelos profetas
dando a ideia de uma nova mensagem. Além disso, o versículo continua com
uma proposta de Deus para que o povo seja perdoado de seus pecados, o que
evidencia a mudança de assunto, o que antes era uma acusação sendo feita,
agora o tema se torna em relação a reconciliação diante da acusação da
perícope anterior. A perícope termina concluindo o raciocínio apresentado,
apregoando a justiça que recairia sobre o povo caso não aceitasse o convite de
Deus.

Na perícope seguinte, Isaías 1.21-31,o profeta denuncia os pecados e


anuncia o julgamento por conta desses pecados, mas também a redenção de
Jerusalém e as bênçãos advindas deste livramento divino, evidenciando a total
mudança temática do assunto que estava sendo tratado na perícope anterior, e
portanto mostrando que a partir do verso 21, o texto já se trata de outra perícope.

1 SSIMIAN-YOFRE, H; GARAGANO, I. Metodologia do Antigo Testamento. P. 79.


2 SSIMIAN-YOFRE, H; GARAGANO, I. Metodologia do Antigo Testamento. Pp. 78-84
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Assim, temos a delimitação desta perícope compreendida nos versos 18-


20 de Isaías capitulo 1. No próximo passo trataremos de fazer uma comparação
de traduções para estabelecer uma “tradução” do texto que estamos estudando.

3. TRADUÇÃO - COMPARAÇÃO DE TRADUÇÕES

Minha tradução Almeida Revista e Bíblia de Jerusalém Bíblia do Peregrino


Atualizada (BJ)
18 Vinde, Vinde, pois, e Então, sim, Então vinde, e
conversemos, diz o arrazoemos, diz o poderemos discutir, litigaremos-diz o
Senhor, ainda que os senhor; ainda que os diz Iahweh: Mesmo Senhor. Ainda que os
vossos pecados vossos pecados que os vossos vossos pecados
estejam como a sejam como a pecados sejam como sejam como púrpura,
escarlate, eles escarlata, eles se escarlate, tornar-se- ficarão brancos como
ficarão brancos como tornarão brancos ão alvos como a a neve; ainda que
a neve, ainda que como a neve; ainda neve; ainda que sejam vermelhos
estejam vermelhos que seja vermelho sejam vermelhos como escarlate,
como o carmesim, como o carmesim, se como carmesim ficarão como lã.
ficarão como a lã tornarão como a lã. tornar-se-ão como a
lã.
19 Se me Se quiserdes e me Se estiverdes Se souberdes
obedecerem, ouvirdes, comereis o dispostos a ouvir, obedecer, comereis o
comerão as coisas melhor desta terra. comereis o fruto fruto saboroso da
boas dessa terra. precioso da terra. terra;
20 Mas, se não Mas, se recusardes e Mas se vos Se recusais e vos
obedecerem e forem fordes rebeldes, recusardes e vos rebelais, a espada
rebeldes, sereis sereis devorados à rebelardes, sereis vos devorará. O
devorados à espada. espada; porque a devorados pela Senhor o disse.
Porque assim diz o boca do Senhor o espada! Eis o que a
Senhor. disse. boca de Iahweh falou

O objetivo de comparar as três versões de um mesmo texto é observar


onde eles concordam, onde discordam, ausências e quais as coincidências.
Comparando as versões e fazendo uma análise semântica do texto temos como
dar um passo além do texto em si, e podemos entender o teor que está implícito
nas entrelinhas do texto graças à relação com a realidade externa a que se
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refere. Procura-se esclarecer o significado e o sentido das expressões


linguísticas do texto indagando no contexto do autor.

4. ANÁLISE SEMÂNTICA DO TEXTO

No tópico apresentado, comparamos as versões de nossa perícope e


fizemos as escolhas para as traduções. Destacamos conceitos importantes para
compreender o significado original do texto. Agora faremos a análise semântica
do texto.

A análise semântica procura responder a pergunta sobre o que um


determinado texto quer dizer e o que se quer dar a entender com determinadas
expressões e frases utilizadas no texto3. Com esta compreensão procuraremos
os significados dos termos, expressões e conteúdo de maior relevância no texto
em pesquisa.

Interessante destacarmos as repetições de palavras e seus correlatos como:

a) Vermelho – escarlate – carmesim


b) Brancos – neve – lã

Também é importante destacar as oposições semânticas como:

a) Se obedecerem x se não obedecerem e forem rebeldes

Entrando no mérito da passagem, vemos que ela fornece uma conclusão


ao contraste entre culto e comportamento ético que é delineado nos versículos
10-17. Mas ela não se limita a essa relação. Também reflete toda a acusação
que começou no versículo 2. Sugere que, à luz da condição de Israel, só há um
curso inteligente de ação - obediência e submissão.4

1.18-20 "Vinde, pois, e arrazoemos" O profeta usa uma metáfora literária


de um diálogo (isto é, Javé tentando um diálogo com Seu povo). Há ainda uma
analogia de julgamento nestes versículos, o qual Deus usa para informar a
mensagem de culpa pessoal e suas implicações e propor uma saída! Esta

3 EGGER, W. Metodologia do Novo Testamento. P. 58.


4 OSWALT J. N. Comentários do Antigo Testamento Isaías. P. 134
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analogia Javé está pronto para perdoar se o povo dele se arrepender e obedecer!
Se eles se recusarem, as consequências da desobediência da aliança virão (cf.
Levítico 26, Deuteronômio 28).

Outro ponto que podemos destacar pode ser apontado como


desobediência ou o pecado no texto, designado como a cor escarlate ou
vermelha, uma verdadeira mancha na vida do pecador que somente Deus pode
tirar.

Aqui vemos Deus propondo uma forma de limpar o pecado de seu povo,
de forma generosa e graciosa.

A palavra em jogo em hebraico neste texto para pecado é Het’ , significa


um crime ou sua punição:- pecado, ofensa x gravemente, ofensores.

É um substantivo masculino que significa pecado, falta, ofensa. A palavra


sugere as faltas acumuladas que levam a punição (Gn41.9); os erros ou ofensas
que provocam a ira de um supervisor (Ec 10.4); e a acusação contra uma pessoa
pelos seus atos contrários à Lei (Lv 24.15; Nm 9.13; Dt 15.9; 23.21[22]). Isaías
usa também a palavra em Is 53.12, para reforçar a tremenda iniquidade de Judá
em contraste com o sofrimento redentor do Messias.

O que está em jogo é o objeto que causa a ira de Deus, ou seja, a


desobediência humana a sua vontade. Se fizéssemos um resumo da bíblia
veríamos que a grande parte do sofrimento do povo de Deus é causado pelo
pecado, desde o pecado cometido por Adão e Eva, passando pelos pecados que
provocaram o dilúvio, até mesmo os pecados que provocaram o exílio do povo
judeu.

No texto, Deus está chamando seu povo para resolver essa questão de
uma vez por todas, de maneira graciosa para que seu povo não sofra mais em
consequência de suas faltas. O pecado é aquilo que gera a ira e a condenação
da parte de Deus.

Em outro ponto podemos destacar como “ouvir a Deus” ou obediência,


em contraste ao primeiro eixo que é o pecado. A obediência sendo a antítese de
pecado no texto, traz a benção de Deus, que está caracterizada como “comer
das coisas boas que a terra produz”.
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A palavra usada no hebraico para o termo em destaque é sama´ e


significa ouvir com inteligência (muitas vezes com implicação de atenção,
obediência etc).

Verbo que significa ouvir, obedecer, escutar, ser ouvido, ser considerado,
fazer ouvir, proclamar, soar alto. O verbo basicamente significa ouvir, e em
contexto expressa várias conotações ao lado dessa acepção.

A palavra assume a conotação de obediência em certos contextos e com


certas construções no hebraico: ela pode significar atender a um pedido ou
ordem, como o pedido de Abraão, a respeito de Ismael (Gn 17.20). O Senhor
ouviu a oração de Agare lhe concedeu um filho (Gn 16.11; 30.6). A palavra
significa obedecer em certos contextos (Gn 3.17; 22.18; Ex 24.7; 2Rs 14.11).

Portanto traz a idéia oposta do pecado que é a obediência a Deus,


obediência essa que traz bênçãos para quem a corresponde.

Percebemos então um dualismo no texto, desobedecer (pecado) ou


obedecer (ouvir a Deus), de forma que a escolha feita determinará o destino da
pessoa que o fizer, que será sua benção (comer das coisas boas que a terra
produz) ou sua destruição (morrer na guerra) conforme o texto analisado.

Os tempos verbais nas sentenças condicionais sugerem disposição e ato.


Em cada caso, o primeiro verbo do par está no imperfeito, pressupondo ação
contínua, atividade ainda não completada; enquanto o segundo verbo está, em
ambos os casos, no tempo perfeito, pressupondo ação momentânea,
completada. E assim o sentido é mais ou menos “Se você estiver disposto a
querer e então obedecer.” “se você estiver disposto a recusar e assim se
rebelar.”

A ênfase primária na Escritura está posta no ato. A importância principal


não é como alguém sente, mas como faz (note a parábola de Jesus que
expressa esse conceito, Mt 21.28-32). Mas, ao mesmo tempo, a não ser que a
disposição seja fundamentalmente mudada, a fonte de ação será sempre
instável e insegura. Isso parece ser o que esses versículos abordam, e é por
causa de tais afirmações que João Wesley se muniu da convicção de que Deus
tenciona purificar não só nosso comportamento, mas também nossa disposição.
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Mensagem essa que não muda para os dias atuais, visto que aqueles que
obedecem a Deus de fato são abençoados e possuem diversas promessas de
bênçãos, sendo a principal herdar a vida eterna e viver para sempre ao lado de
seu Senhor. Já aqueles que escolhem viver de acordo com o pecado, estão
fadados a serem destruídos e eliminados, terem toda sorte de maldições,
conforme a própria Bíblia nos confirma em outras passagens:

“Eis que, hoje, eu ponho diante de vós a bênção e a maldição: A bênção,


quando cumprirdes os mandamentos do Senhor, vosso Deus, que hoje vos
ordeno; A maldição, se não ouvirdes os mandamentos do Senhor vosso Deus, e
vos desviardes do caminho que hoje vos ordeno, para seguirdes outros deuses
que não conhecestes". (Dt 11.26- 28).

Portanto cabe ao ser humano escolher se ouvirá a Deus e cumprirá sua


ordem de obediência a seus estatutos ou se irá se rebelar contra Deus mesmo
tendo ouvido sua voz para se arrepender de seus pecados, não havendo terceira
opção para ser seguida. Sendo o aconselhado ouvir a voz de Deus, que não
somente por trazer as benção que promete, mas porque é o certo e correto a se
fazer, e que nos traz satisfação completa por estarmos do lado de nosso Senhor.

Encerramos, por ora, mais um passo exegético rumo a mensagem do


texto bíblico em foco. Realizamos a análise semântica, a qual elucidou de
alguma forma o sentido das palavras usadas no texto e seus eixos semânticos.
A próxima etapa será a análise contextual, a qual estudaremos sobre as
condições sociais e literárias que deram origem ao texto ora estudado.