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O Complexo do Alemão e os Jogos de Guerra no Rio de Janeiro

Pedro Cláudio Cunca Bocayuva


Diretor da FASE
Pesquisador Associado do LASTRO/IPPUR-UFRJ

“Tal visão renovada da realidade contraditória de cada fração do território deve ser
oferecida à reflexão da sociedade em geral, tanto à sociedade organizada nas associações,
sindicatos, igrejas, partidos, como à sociedade desorganizada, que encontrarão nessa nova
interpretação os elementos necessários para a postulação e o exercício de uma outra
política, mais condizente com a busca do interesse social”. Milton Santos·

Apresentação

A leitura da geografia crítica aplicada ao contexto do cotidiano nas cidades globalizadas


pode contribuir de maneira decisiva para (des)naturalizar as dinâmicas estratégicas,
contribuindo para desmontar os sistemas de ação hegemônica que reafirmam o paradigma
do Estado de Exceção na semi-periferia capitalista brasileira. Os nossos subespaços urbanos
são redesenhados na cartografia da razão instrumental da economia política global do
capital na forma do seu espetáculo de guerra, onde a ação policial e a militarização se
combinam com o discurso da guerra infinita como parte do novo constitucionalismo de
controle das periferias do vasto “planeta favela”.1

O Complexo do Alemão aparece há algum tempo como um dos significantes de uma cadeia
de imagens da nossa “guerra civil”, que tece relações estreitas com uma certa leitura dos
problemas das metrópoles brasileiras. O Rio de Janeiro em 2007 entra na agenda estratégica
nacional pelo enlace entre os Jogos Pan-americanos e o ensaio geral da política nacional de
segurança. Uma certa ciência social e uma certa tecnocracia se alimentam e se balizam na
superfície da profusão de imagens que se entrelaçam para justificar um novo passo na
gramática do poder, uma nova síntese produtiva que gera um efeito de bloqueio à
construção de alternativas para os modos de vida urbanos a partir das classes populares.
Nosso texto é de advertência sobre a necessidade de desvendar os modos de atualização das
estratégias de segregação e controle social das classes populares nas grandes cidades
brasileiras, a partir do cenário emblemático do Rio de Janeiro como laboratório de uma
nova política de segurança.

Acumulação e cidade

A produção do excedente capitalista como mais-valia social comprime o espaço urbano. O


regime produtivo e a circulação do capital tornam a reprodução social nos territórios
condição essencial para o processo de acumulação. No plano da acumulação capitalista na
velocidade das redes empresariais e tecnológicas é imposto um ritmo da profusão de ações
e objetos hegemônicos como verticalidade de fluxos, cujo impacto espacial está redefinindo
o campo dos conflitos que derivam da resistência dos fluxos horizontais. No cotidiano das

1
DAVIS, Mike. Planeta Favela. São Paulo: Boitempo, 2006.

1
classes populares a produção da escassez é ampliada por força das exigências da
reestruturação dos territórios, que impõe novas distâncias sociais, econômicas e culturais2.
As novas polarizações explodem na razão direta dos modos de exclusão e da imposição dos
modos de consumo e reprodução social que desarticulam as práticas e os ritmos próprios
aos moradores dos espaços identificados como favelas.

A lógica da acumulação capitalista global busca impor a dominação, o controle e a


supremacia nos padrões de produção e consumo com apoio nas metamorfoses aceleradas
pelas tecnologias de informação e comunicação3. O seu impacto na cidade acelera as
formas de violência social e simbólica, degradando o cotidiano das populações,
desarticulando os antigos e frágeis sistemas de proteção social e, ainda, desarticulando o
circuito inferior da economia sobre o qual se organiza o dinamismo econômico e social do
subespaço periférico. Esse subespaço comprimido e segregado se amplia quantitativamente
por força dessa precarização ampliada do trabalho e, dos modos de vida que articulavam a
reprodução social coletiva das classes populares.

Os donos do tempo dos fluxos pretendem controlar as dinâmicas do espaço de modo a


torna-lo fluido, habitado pelos corpos flexíveis e funcionais do trabalho barato,
complementado pela resignação e pelo individualismo. Mas o efeito gerado de uma guerra
de todos contra todos rebate sobre os mecanismos e custos do controle e segurança do
modo de produção de desigualdades que amplia as polarizações. Os corpos e as mentes das
mulheres e dos homens lentos (portadores de novas possibilidades de solidariedade e
liberdade) continuam se movimentando, quer como alimento do trabalho vivo alienado e
barato para a produção do capital, quer como necessidade de disposição de luta pela vida,
resistência, rebeldia. A questão da passagem de um cenário de guerra social difusa para um
processo de construção de alternativas passa pelo exame crítico das formas de violência
social e estatal.

Uma tomada de consciência e uma elaboração crítica da conjuntura de crise urbana


ampliada pela reestruturação capitalista exige aprofundar a questão da relação entre
escassez e violência. Já que as redes criminais se articulam em dinâmicas locais cuja força
se dá menos pelo seu caráter organizado do que por uma contra-violência que articula
perversamente a explosividade das polarizações, como resultado do envolvimento na
articulação promíscua da sócio-criminalidade e dos interesses empresariais (armas e
lavagem de dinheiro) que utilizam as dificuldades e contradições do meio popular. Os
segmentos de moradores das classes populares, setores da polícia e agentes do Estado,
assim como os consumidores das classes média e burguesa, se envolvem com a economia
das drogas e das armas que é uma componente inerente ao quadro explosivo das
desigualdades alimentadas pela privatização e mercantilização que afetam o cotidiano nas
cidades.

2
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização : do pensamento único à consciência universal, Rio
de Janeiro/São Paulo: Record, 2000.
3
SANTOS, Milton.Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico informacional, São
Paulo: Hucitec, 1994.

2
Controle social e jogos de poder

As estratégias de controle social são parte da desestruturação e fragmentação que derivam


dos fluxos das redes globais que atravessam os territórios, apoiadas na operação midiática e
discursiva que discrimina, desqualifica e invisibiliza as populações precarizadas. A
criminalização das populações é parte dessa geopolítica que opera como máquina de guerra
e midiática (príncipe eletrônico), substituindo o planejamento tecnocrático e autoritário pela
modalidade virtual e real de jogos de poder e da violência armada. As ciências sociais se
rendem a esse processo quando servem como parte das tecnologias de poder, se
submetendo ao novo discurso da ordem de exceção que apóia a retórica do retrocesso face
aos preceitos básicos do Estado Democrático de Direito. Os estudos críticos sobre o
impacto dessas dinâmicas na produção social do espaço se tornam indispensáveis para a
formulação de outras alternativas possíveis. A análise da situação ou o estudo da conjuntura
podem gerar uma compreensão das tendências em curso, das relações entre os fluxos de
poder econômico e a sua necessidade de criar um quadro interpretativo legitimador das
ações de ocupação policial-militar, sem nenhuma capacidade de interlocução e criação de
esferas de negociação e consulta das populações.

No Rio de Janeiro, o ciclo longo da guerra permanente contra as classes populares se


atualiza nesses tempos de pós-guerra fria, em que a democracia se reduz a um jogo de
procedimentos e regras, com perda da substância da soberania popular e da justiça social.
O jogo democrático se esgota num formalismo abstrato quando das operações policiais ante
os individuos e os lugares identificados como ameaças, como ocorre nos morros e
complexos favelados do Rio de Janeiro.

O fantasma das classes perigosas ronda e alimenta a cultura do novo “grande medo”,
ampliando e radicalizando a escala do conflito armado. Violência e capitalismo tem uma
relação historicamente simbiótica, quando se trata da espoliação e do controle direto sobre
o espaço, o corpo e o imaginário das classes populares. A desqualificação e a destituição
fazem parte do círculo de produção de uma certa hegemonia na produção da subalternidade,
de modo que às classes populares só reste o horizonte da venda subordinada de seu tempo
de trabalho ao custo da reprodução de uma vida entre a pobreza e a miséria. A tolerância
zero, no século XXI, é o discurso que legitima como caso de polícia a questão social na
profusão de uma retórica e de imagens da guerra contra os pobres no lugar da guerra contra
as desigualdades.

A Constituição e os direitos da cidadania são permanentemente violados, em nome da


urgência e da emergência, esmagando o potencial molecular de transformação que nasce no
“andar de baixo” da sociedade, no espaço-tempo das classes populares, cujos carecimentos
são postos em suspenso. Uma autocrítica hipócrita dos governantes (o social virá no
desdobramento da intervenção policial) tenta se apoiar no impacto e na escala do trauma
real e do clamor gerado pela dor das vítimas para obscurecer os efeitos reais dos meios de
ação e dos aparatos técnicos de guerra de que se utilizam para lidar com o conflito social. A
população desmobilizada pelas conseqüências das políticas de ajuste ao mercado
globalitário é engolfada na espiral de violência.

Criminalização das populações e dos lugares

3
O biopoder da criminalização do social se traduz nas ações de encarceramento, vigilãncia e
segregação na lógica da apartação social. O espaço urbano em crise se reproduz atravessado
pelo desconhecimento e pela falta dos mapas do conflito real, desconhecendo a relação
entre os lugares e as pessoas. Na leitura dominante, o sujeito se torna objeto ao ser tomado
pela idéia de ignorância face à lei. Na superposição construída de imagens sobre o outro,
não devemos esquecer a superposição de espaços diferenciados, segregados a partir dos
pontos, dos lugares que se conformam, no dizer de Milton Santos, como “cidade moderna
seletiva”. Os subespaços preféricos disfuncionais para uma apropriação material direta pelo
capital e seus padrões de produção e consumo continuam tendo sentido funcional para a
máquina do capital, desde que operem no papel de fornecedores na objetivação do trabalho
barato compondo a paisagem das “prisões da miséria” e, também, sustentando a
subjetivação para a apropriação econômico-simbólica.4

A grande questão da via única da globalização hegemônica é a de que uma nova lógica de
jogos de guerra se desenvolve no plano mundial através de múltiplas conflagrações locais.
A globalização localizada é o efeito de um impulso localista promovido pela mundialização
na era do capitalismo tardio mundializado, espaço urbano metropolitano nacional é onde
esse efeito gera um quadro que se manifesta de formas variadas de conflito com a ordem
global na Faixa de Gaza, em Beirute, em Bogotá, em Paris, em São Paulo ou no Rio de
Janeiro. O macro-modelo de intervenção imperial de ocupação como no Iraque, se
complementa e desencadeia uma profusão de dispositivos e acentua os desdobramentos de
contextos e imagens de guerra civil difusa e permanente na sociedade global. No plano
subjetivo e nos processos reais se cruzam as dinâmicas da guerra e da economia,
substituindo a política e a cultura crítica.

O modelo colombiano5

A realização dos Jogos Pan-americanos de 2007 no Rio de Janeiro entrelaça a agenda do


evento midiático esportivo com a idéia de um novo modelo de segurança para o país. O
imediatismo e a busca da eficiência na “guerra contra o crime” organizado vão se
contabilizando vítimas diárias, numa repetição em escala ampliada do espetáculo da guerra.
O modelo de economia e Estado de Segurança Policial militar da Colômbia, apoiado na
nova Guerra Fria do Plano Colômbia apoiado pela Doutrina Bush Jr. de Segurança, aparece
nos jornais brasileiros como forma “eficiente” de regime de controle. Através de visitas
aos projetos sociais públicos daquele país passe uma imagem desfocada do que ocorre
naquele país, encantando os olhos de uma certa tecnocracia, de alguns intelectuais bem
intencionados e de gestores públicos. Será que vale pagar o preço de produzir resultados ao
custo social e político do processo colombiano? Será que perdemos toda a memória das
contra-reformas e das mudanças pelo alto que marcam as nossas modernizações autoritárias
e as nossas guerras civis não-declaradas?
4
Para um tratamento comparativo da produção de situações de segregação sócio-espacial e criminalização das
classes populares na escala ampliada vide WACQUANT, Loïc. Os condenados da cidade: estudos sobre a
marginalidade avançada.Rio de Janeiro: Revan; FASE, 2001.
5
Para a análise do modelo de Estado de Segurança vide Bocayuva, Pedro Cláudio Cunca, Colômbia:nuevo
ordem global y estado de seguridad in Deshacer el embrujo. Alternativas políticas del gobierno de Álvaro
Uribe Vélez. Bogotá: Plataforma Colombia de Derechos Humanos, novembro de 2006.

4
A transposição de modelos deslocados dos contextos leva a políticas esvaziadas da
presença e da voz dos atores sociais reais. As ações quase sempre são desprovidas de
recursos para atender às demandas das populações nas grandes escalas territoriais e, sem
instrumentos que levem em conta nossa experiência recente. O modelo colombiano é
prisioneiro do espetáculo da guerra, acompanhado de um conjunto de quase-programas e
intervenções urbanas parciais.

A resposta crítica ao momento de implementação de soluções pelo alto implica numa


tomada de consciência dos intelectuais, para a construção de alternativas e de uma
plataforma e projeto de cidade que parta da necessidade de levar em conta um processo de
organização autônoma das redes horizontais das classes populares, resgatando suas
dinâmicas e seus sistemas de respostas para rearticular das condições técnicas e políticas de
formulação de soluções. Promovendo uma inversão da perspectiva atual do que seja o
projeto ativo e a passividade na formulação de uma estratégia nacional para as
desigualdades e a violência. A criatividade da resposta depende da força e do protagonismo
que vem do “sul”, da “periferia” e dos “de baixo”, que podem conduzir as respostas que
redefinam as relações de forças e as dinâmicas na direção de uma outra relação com a
mundialização.

A institucionalização de um estado de guerra e ocupação com a aplicação da fórmula


colombiana é uma perspectiva desastrosa. Se no plano de algumas políticas locais existem
esforços generosos no país irmão, cabe lembrar a continuidade da ação sistêmica e do
condicionamento geopolítico que destruíram a esfera política, impedindo saídas negociadas
com a sociedade. O modelo Uribe ganhou autoridade pelo desgaste, pela contenção social,
pela eliminação de opositores, pela cultura do medo e pela lógica militarizadora, pelo
financiamento norte-americano, pela corrupção e fisiologização política, conformando um
Estado permanente e institucionalizado de exceção. Aqui como lá, ações emergenciais e o
controle militar, complementado por algum gasto público mais eficiente, podem gerar
algumas mudanças na progressão do quadro catastrófico, mas ao custo de aniquilar o
potencial de saída política, ao custo de institucionalizar um modelo cultural, político e
econômico que se prolonga na centralidade neo-autoritária dos temas da segurança como
questão prioritária.

A institucionalização perversa do projeto do novo constitucionalismo de controle policial-


militar é complementar ao neoliberalismo, de modo a garantir um mecanismo de espoliação
permanente das maiorias. Esse regime institucional de dominação nas periferias e
semiperiferias capitalistas, em especial nas grandes cidades, existe como expressão do
interesse de centralização e articulação das redes empresarias transacionais, que ligam
pontos no espaço como arquipélago de lugares com a produção e a reprodução da
hegemonia globalista. Os Estados nacionais ficam reduzidos ao papel de produzir fluidez
para o capital e, controle social em nome da “nação ativa”, representada pelos setores
dominantes que se identificam com o modelo de produção e consumo e, o uso das
tecnologias para gerar mais-valia social para a acumulação ilimitada global.

O processo de violência letal se expande, o trauma coletivo se amplia na experiência


coletiva no cotidiano. As múltiplas dificuldades para uma saída política baseada na

5
mobilização democrática e produtiva das populações levam a que se amplie o grande medo.
A imagem das classes perigosas reaparece como farsa, alimentando um novo tipo de
fascismo social que se alimenta conforme a uma construção seletiva da imagem das vítimas
e os rótulos impostos aos sujeitos sociais. A seleção de vozes e de imagens, que impedem a
visualização de outros possíveis, a partir das práticas e percepções das classes populares,
impossibilita o entendimento das conjunturas locais e a tomada de consciência individual e
coletiva. A articulação de alternativas é bloqueada pela estreiteza e pobreza das análises
que são acompanhadas pela saturação do imaginário pela forma entorpecedora da violência
como espetáculo.

Estado Policial e acumulação ilimitada de capital

Os corpos “invisíveis” dos favelados aparecem nos movimentos de fuga, no cruzamento de


armas, nas balas perdidas. São tomados, como na informação sobre o Complexo do Alemão
no Rio de Janeiro, como expressão da nova barbárie. A mídia e o pensamento especializado
tendem a oficializar a leitura da população favelada como marcada pelo desvio, pela
transgressão ou pela ignorância face ao contexto legal dos proprietários, consumidores e
contribuintes. O discurso oficial materializa-se na retórica conservadora expressa pela idéia
de anomia.

As classes trabalhadoras e o povo que são o corpo coletivo com maior potencial
comunitário, cooperativo e solidário, a partir da sua organicidade e das condições de
contato e vizinhança, são pressionados por um movimento de autodestruição material e
simbólica. As redes sócio-criminais são vistas em desconexão com a dinâmica das redes de
poder vertical, que são a parte minoritária que perverte o corpo popular, que mercantiliza as
relações sociais, destruindo o sentido do público e do comum. O pensamento crítico deve
promover uma leitura que parte da percepção que a banalização da violência justifica o
regime institucional do Estado Policial de exceção, quando é naturalizada a visão sobre a
cidade. A ausência de pesquisa sobre as alternativas democráticas que partam das classes
populares é conseqüência de um modo de produção das percepções que eterniza as relações
de poder, que só visa garantir a acumulação por espoliação como uma componente chave
da acumulação flexível da globalização financeirizada.

A desmedida acumulação de capital, como horizonte civilizatório, tem seu preço na nova
gramática de guerras civis permanentes contra as populações segregadas, do ponto de vista
de classe. Articula-se a eternização de construção do inimigo no corpo da juventude não-
branca e afro-descendente; em geral, sem lugar nos processos derivados das novas
transformações técnico-produtivas e da intensificação da produção global da mais-valia.
Hoje, mais do que uma funcionalização do espaço urbano na forma disciplinar da divisão
social do trabalho, temos a construção substitutiva de uma razão cínica, que opera como
justificadora do controle policial ampliado.

O esforço ideológico realizado pelo sistema de dominação da máquina espetacularizante


(midiática e policial) isenta de responsabilidade o “bom cidadão” e o Estado, impedindo a
difusão da perspectiva crítica da história e da sociologia como ciências das formações
econômico-sociais. Os elementos complexos que tecem os elos entre os diferentes espaços,
práticas e dinâmicas dos fenômenos sócio-criminais e da difusão da violência são

6
descolados dos conflitos oriundos da apropriação da riqueza, da nova divisão do trabalho.
Desta forma, escapa o reconhecimento dos lugares dos atores sociais na estrutura urbana.
Não se leva em conta a produção social da violência no quadro de uma teoria da escassez
ampliada pela lógica da acumulação acelerada pelo meio técnico-informacional e pelos
padrões culturais e de consumo que seguem os fluxos verticais. O impacto da globalização
e da restruturação capitalista, no espaço urbano, são abstraídos na leitura de processos
situados e localizados, que são banalizados pela hipertrofia dos simulacros.

Em busca da alternativa

A razão cínica dos poderes sistêmicos apóia-se no quadro interpretativo de um presente


marcado pela imagem da violência como sendo “sem causa estrutural”. O pensamento
autoritário atualiza-se numa sociologia da “marginalização e da exclusão” e num recorte
especializado de estudos antropológicos que perdem de vista o referencial da totalidade. Na
triste imagem construída para sustentar o projeto neoliberal figuram as classes populares
como “populações em situação de risco”, transmutada na imagem do inimigo. O favelado
aparece como ligado ao poder de um ator armado, que nasce desfocado e deslocado na
opacidade e nas nebulosas de um processo onde se abstrai o problema social da
desigualdade de classe na leitura do urbano, da sua estrutura e da sua conjuntura material e
cultural.

As ciências sociais com seu enfoque nos estudos espaciais, em especial a geografia crítica e
o planejamento urbano, devem reorientar os estudos sobre as cidades brasileiras no
contexto da brutal metropolização que destrói o sentido de comunidade política e de
solidariedade. Cabe, como sugere Ana Clara Torres Ribeiro (2006), repensar o urbanismo e
o planejamento urbano na articulação entre lugar, tecido social e cotidiano, resgatando o
poder de produção de respostas e demandas para a construção de novos sentidos para o
direito à cidade, a partir do ponto de vista de uma nova centralidade, que parta da
perspectiva das classes subalternas, invertendo o olhar naturalizador e segregacionista.

O objetivo da leitura crítica é o de apoiar uma práxis dos sujeitos coletivos que parta de
uma nova centralidade e potencialidade da periferia/favelas para recriar as condições e os
modos de vida na cidade. O estudioso do espaço urbano deve orientar seu trabalho para os
novos modos de articulação entre os sistemas de ação e os objetos, pela via da apropriação
coletiva, pela via do público, como exigência do comum6.

A perspectiva da horizontalidade, da diversidade da criatividade social dos de baixo na


sociedade aparece como o horizonte ético-político que orienta a pesquisa e o trabalho
teórico das ciências sociais para um modo diferente de pensar, classificar e mapear a vida
urbana. A ação contra-hegemonia, face aos jogos de guerra e os fluxos do espetáculo da
violência no Rio de Janeiro, passa diretamente pelo reconhecimento e à mobilização
afirmativa do direito à cidade dos moradores das comunidades, em resposta ao processo de
segregação e controle do novo regime de exceção

6
RIBEIRO, Ana Clara Torres. Presenças Recusadas: Territórios populares em Metrópoles Brasileiras.
In: Ferreira Nunes, Brasilmar (org.). Sociologia de capitais brasileiras: participação e planejamento urbano.
Brasília: Líber Livro Editora, 2006.