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INTERVENÇÃO PEDAGÓGICA COM ÊNFASE NA

ALFABETIZAÇÃO, LETRAMENTO E FORMAÇÃO DE


PROFESSORES - EM UMA ESCOLA DO CAMPO SITUADA NO
MUNICÍPIO DE TIJUCAS DO SUL, PARANÁ.

Rosilda Maria Borges Ferreira1 - UTP

Grupo de Trabalho – Formação de Professores e Profissionalização Docente


Agência Financiadora: CAPES/INEP – Observatório da Educação – Edital 049/2012.

Resumo

Este trabalho está intitulado como – Intervenção pedagógica com ênfase na alfabetização,
letramento e formação de professores - em uma escola do campo situada no município de
Tijucas do Sul, Paraná. Os professores que trabalham com os anos iniciais, incluindo o
reforço escolar, buscam constantemente desenvolver atividades que possam auxiliá-los no
processo de alfabetização e letramento – Leitura e Produção de Textos. As escolas do campo
enfrentam inúmeros desafios, entre eles estão a formação do professor e o processo ensino e
aprendizagem dos alunos de anos iniciais. Assim, esta pesquisa teve como objetivo, após
análise dos cadernos de atividades dos alunos, diagnóstico da realidade escolar, discussão
com os professores, desenvolver um processo de intervenção pedagógico voltado à
compreensão do letramento dos professores, do seu nível de leitura e também para a
ampliação dos conhecimentos teórico-metodológicos dos processos de alfabetização e
letramento na prática educativa. A intervenção pedagógica, fundamentada na investigação-
ação, foi desenvolvida na cidade de Tijucas do Sul envolvendo 26 profissionais como:
coordenadores pedagógicos, professores do reforço, classe Especial e Sala de Recursos das 10
escolas municipais localizadas no campo. A metodologia utilizada baseou-se em um processo
de investigação-ação, cuja intenção foi verificar quais intervenções pedagógicas se fazem
necessárias nas escolas selecionadas, no que tange à ampliação das habilidades de leitura dos
professores quanto aos conhecimentos relacionados às contradições da sociedade brasileira,
em particular no campo, quanto aos conhecimentos teórico-metodológicos da alfabetização e
letramento dos alunos de anos iniciais, principalmente os do reforço, sala de recursos. Os
estudos se basearam em Magda Soares (2004; 2010), Ferreiro (1999), Freire (1989; 2005),
Colello (2010), Tfouni (1995), Souza (2006), Kleiman (2006), Cagliari (1992), Marlene
Carvalho (2005), Vygotsky (1985) MION; SAITO (2001).

Palavras-chave: Intervenção pedagógica. Alfabetização e Letramento. Educação do campo.

1
Rosilda Maria Borges Ferreira – Graduanda do Curso de Pedagogia da Universidade Tuiuti do Paraná. Bolsista
do Projeto da CAPES/INEP – Observatório da Educação – Edital 049/2012. Graduação em Letras-Português.
Professora da Universidade Tuiuti do Paraná. E-mail: rosilda.ferreira@utp.br; roma-borges@hotmail.com

ISSN 2176-1396
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Introdução

Este Artigo tem como objetivo apresentar o resultado da pesquisa realizada por mim2
no período que se iniciou de março a novembro de 2014, como bolsista da graduação no
projeto referente ao Observatório da Educação – Edital 038/2010: “A realidade das escolas do
campo na região Sul do Brasil: diagnóstico e intervenção Pedagógica com ênfase na
Alfabetização, Letramento e Formação de Professores”.
Meu subprojeto com o título: Intervenção pedagógica - ênfase na alfabetização e
letramento – com os professores das Escolas do campo - apresenta o processo de
investigação-ação desenvolvido no projeto do Observatório de Educação CAPES/INEP, em
uma escola do campo situada município de Tijucas do Sul, na região metropolitana de
Curitiba - Paraná. Trata-se de professores que trabalham com os anos iniciais, incluindo o
reforço escolar, sala de recursos, classe especial e que buscam constantemente desenvolver
atividades que possam auxiliá-los no processo de alfabetização e letramento – Leitura e
Produção de Textos.
A pesquisa surge, então, com a intenção de se fazer uma intervenção pedagógica nas
escolas do campo do município de Tijucas do Sul com ênfase na alfabetização e letramento
tendo como objetivo a organização coletiva do trabalho pedagógico e buscar responder à
questão: a concepção da educação do campo requer qual concepção de alfabetização e
letramento? Como desenvolver ações coletivas referentes à alfabetização, nos anos iniciais,
aderentes à concepção da educação do campo? As escolas do campo enfrentam inúmeros
desafios, dentre os quais estão a formação do professor e o processo ensino e aprendizagem.
Assim, a intenção dessa pesquisa foi, após análise dos cadernos de atividades dos
alunos, investigação da realidade escolar, discussão com os professores, desenvolver um
processo de intervenção pedagógico voltado à compreensão do letramento dos professores, do
seu nível de leitura e também para a ampliação dos conhecimentos teórico-metodológicos dos
processos de alfabetização e letramento na prática educativa. Desenvolver ações coletivas no
âmbito da alfabetização e letramento, nos anos iniciais, aderentes à concepção da educação do
campo. Identificar as dificuldades que os professores do campo apresentam em suas práticas
educativas. Criar, com os professores, atividades voltadas para as relações entre a
alfabetização e o letramento no processo ensino e aprendizagem, contemplando as situações

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Rosilda Maria Borges Ferreira – do Curso de Pedagogia da Universidade Tuiuti do Paraná. Bolsista do Projeto
da CAPES/INEP – Observatório da Educação – Edital 049/2012.
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de uso social da leitura e da escrita. Refletir, coletivamente, sobre a prática pedagógica através
de leituras e discussões. Organizar, coletivamente, oficinas com materiais didático-
pedagógicos para desenvolver as habilidades de leitura e escrita, em conformidade com as
necessidades dos professores.
A intervenção pedagógica, fundamentada na investigação-ação, foi desenvolvida com
a participação coletiva de 26 profissionais da educação, entre eles coordenadores
pedagógicos, professores do reforço escolar, classe Especial e Sala de Recursos das 10
escolas municipais. A metodologia utilizada neste subprojeto baseia-se em um processo de
investigação-ação cuja intenção foi verificar quais intervenções pedagógicas se fazem
necessárias nas escolas selecionadas em relação à ampliação das habilidades de leitura dos
professores e aos conhecimentos referentes às contradições da sociedade brasileira, em
particular no campo, aos conhecimentos teórico-metodológicos da alfabetização e letramento
dos alunos de anos iniciais, principalmente os do reforço, sala de recursos. Os estudos se
basearam em Magda Soares (2004; 2010), Ferreiro (1999), Freire (1989; 2005), Colello
(2010), Tfouni (1995), Souza (2006), Kleiman (2006; ), Cagliari (1992), Marlene Carvalho
(2005), Vygotsky (1985) MION; SAITO (2001).

Alfabetização e letramento

Os estudos sobre alfabetização e letramento vêm acontecendo com frequência na


escola do campo com o objetivo de melhor compreensão, aprofundamento teórico e de
práticas educativas que contemplem a realidade dos alunos que moram no campo.
E é no cotidiano das relações de trabalho, convívio social e com a natureza que os
sujeitos do campo constroem as suas identidades, que como sujeitos históricos são
determinados por um conjunto de relações sociais, econômicas e culturais da sociedade.
Assim, acredita-se que as experiências sociais das comunidades devem ser o ponto de partida
para a definição das prioridades, para que possa fortalecer as capacidades de ação individual e
coletiva de todos os envolvidos no processo ensino e aprendizagem.
E é neste contexto, que o professor deve trabalhar atividades significativas e
interessantes; deve entender que seus alunos formulam ideias, refletem e constroem
conhecimento. E agindo dessa forma, estará contribuindo para a construção de novos
conhecimentos.
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Porém, há que se destacar que ainda há muitas fragilidades na formação dos


professores das escolas públicas localizadas no campo, principalmente em relação ao conceito
de alfabetização e letramento no âmbito escolar.
É importante ressaltar que a alfabetização só tem sentido quando desenvolvida no
contexto de práticas sociais de leitura e escrita, ou seja, a aprendizagem da leitura e escrita
deve estar relacionada com as práticas sociais dos alunos, tornando-a um exercício crítico que
estará diretamente ligada ao letramento. (SOARES, 2004).
Para Tfouni (1995, p.15) “não é possível falar em alfabetização sem relacionar aos
processos de escolarização”.
A alfabetização pode ser entendida como um processo mais amplo, mas tem uma
consideração significativa no processo de escolarização, pois passa a ter objetivos mais
imediatos que se situa na decodificação e codificação da leitura e da escrita, a partir de uma
lógica que segundo Soares:

A alfabetização é um processo de representação de fonemas em grafemas, e vice-


versa, mas também é um processo de compreensão/expressão de significados por
meio do código escrito. Não se consideraria “alfabetizada” uma pessoa que fosse
apenas capaz de decodificar símbolos visuais em símbolos sonoros, “lendo”, por
exemplo, sílabas ou palavras isoladas, como também não se consideraria
“alfabetizada” uma pessoa incapaz de, por exemplo, usar adequadamente o sistema
ortográfico de sua língua, ao expressar-se por escrito. (SOARES, 2010. p.16).

A prática pedagógica e a prática educativa são consideradas como sinônimos,


correspondendo ao ato educativo, ao determinar a prática no cotidiano da sala de aula, ao
refletir a metodologia utilizada entre o professor, aluno e a comunidade. (SOUZA, 2006).
Para Souza:

No campo das múltiplas dimensões da prática pedagógica (professor, aluno,


metodologia, avaliação, relação professor e alunos, concepção de educação e de
escola), as características conjunturais e estruturais da sociedade são fundamentais
para o entendimento da escola e da ação do professor. Na esfera do cotidiano escolar
e das reflexões conjunturais, a gestão democrática da escola e processos
participativos são elementos fundantes para o repensar da prática pedagógica.
(SOUZA, 2006, p. 1).

Dessa forma, cabe à escola adequar as necessidades do indivíduo ao meio social em


que está inserido, tornando-se mais próxima da vida e, além de alfabetizar, construir
condições favoráveis para acontecer o letramento, para explicar a função social da escrita.
Para tanto, é necessário que o professor compreenda em que consiste o processo de
letramento, para que o estudante possa fazer leituras críticas sobre sua realidade e os
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contextos em que os textos são produzidos, e não apenas decodificar sem produzir sentido ao
texto. A alfabetização só tem sentido quando é desenvolvida no contexto de práticas sociais
de leitura e escrita, ou seja, a aprendizagem da leitura e escrita deve estar relacionada com as
práticas sociais dos alunos, tornando a alfabetização um exercício crítico que estará
diretamente ligada ao letramento (SOARES, 2004).
Vygotsky (1984) em sua pesquisa afirma que a criança tem necessidade de atuar de
maneira independente e de ter a capacidade para se desenvolver quando interage com a
cultura. E ela tem um papel ativo no processo de aprendizagem, entretanto não atua sozinha.
Aprende a pensar criando, com a ajuda de alguém, e interioriza progressivamente o que lhe
apresentam e lhe ensinam. Neste sentido, o ambiente no qual as crianças nascem e se
desenvolvem, colocam-nas em um processo de construção e produção da vida, que é também
cultural, sendo esta uma das principais influências no processo de desenvolvimento da
aprendizagem.
COLELLO (2010) nos diz que: “enquanto a escrita for tratada como conteúdo escolar
desvinculado do comprometimento político e de propósitos educativos mais amplos, a
alfabetização parece ficar limitada à fragmentação de atividades estabelecida pelos métodos
que não garantem as condições de letramento”. (COLELLO, 2010, p.19).
O texto de Silvia M. Gasparin Colello (2010), intitulado “Alfabetização e Letramento:
o que será que será?” relata sobre a complexidade do ensino da leitura e escrita a partir dos
diferentes modos de conceber a língua escrita, que pode ser como um simples código de
correspondências entre letras e sons, ou em estreita relação com as práticas sociais ou ainda
como exercício comunicativo e dialógico entre interlocutores. Colello faz uma análise dos
méritos e riscos da utilização do conceito de letramento e expõe que a ampliação do
significado da aprendizagem da leitura e da escrita e a reconsideração das metas no ensino da
língua escrita passam a ter finalidades não apenas pedagógicas, mas políticas.
O livro “A Importância do Ato de Ler”, de Paulo Freire afirma que a leitura do mundo
é anterior a leitura da palavra e que todos trazem consigo sua experiência de vida para compor
esta leitura. Freire destaca a importância de se fazer uma leitura crítica, e que o gosto pela
leitura se desenvolve na medida em que os conteúdos sejam de acordo com o interesse e
necessidade do leitor.
Freire foi um dos primeiros a falar sobre o poder do letramento, ao afirmar que ser
alfabetizado é tornar-se capaz de usar a leitura e a escrita como um meio de tomar consciência
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da realidade e transformá-la. Para ele, o papel do letramento é concebido como sendo ou de


libertação do homem ou de sua “domesticação”, dependendo do contexto ideológico em que
ocorre, defendendo que seu principal objetivo deveria ser o de promover a mudança social e
que dessa forma o letramento tem a função de libertar o homem do ambiente opressor que ele
vive. (FREIRE, 1989).

Letramento do professor

Atualmente fala-se muito sobre a postura do professor como um grande agente de


transformação social através do exercício de sua profissão. No entanto, para que isso aconteça
efetivamente, a postura do professor deve ser a de um investigador, pesquisador, cientista da
educação que interaja com as mais diversas teorias educacionais, que considere a interação
entre as crianças, os conhecimentos que elas trazem de casa, a individualidade, a
heterogeneidade, o nível de desafios apresentados pelas atividades e as conquistas possíveis.
Cabe ao professor, como mediador entre seus alunos e os objetos do conhecimento, a
tarefa de propiciar espaços e situações de aprendizagem, considerando todas as suas
capacidades e potencialidades nas quais novas experiências possam ser vivenciadas,
acomodadas às já existentes.
O letramento do professor pode ser entendido como as práticas sociais que ele
desenvolve, por meio de sua prática pedagógica e que o leve a refletir se suas atividades estão
voltadas para o letramento ou se são apenas para alfabetizar sem um diálogo com a realidade
vivida pelo aluno e suas expectativas. (KLEIMAN; MATENCIO, 2005).
Desde a década de 70 não se questiona somente a capacidade do professor para ensinar
a ler, escrever ou analisar um texto, mas a capacidade de ele próprio conseguir fazer isso ou
sua própria competência linguística levando em conta a sua própria condição de letrado.
O professor deve criar um ambiente letrado em sua sala de aula, proporcionar
atividades que de fato contribuam para o letramento do aluno, que o leve a refletir, avaliar e
observar atividades que sejam significativas para o seu aprendizado, e que não sirvam apenas
como algo repetitivo sem sentido.
Todo esse processo só vai ser desencadeado a partir da postura do professor em sala de
aula, de instigar, provocar e mostrar aos seus alunos o poder da leitura e da escrita e seu valor
de transformação e realização.
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Diante dessas reflexões podemos dizer que o letramento do professor são as


habilidades e competências aliadas à prática com o objetivo de promover as práticas sociais
em função da socialização dos sujeitos da nossa sociedade frente à oralidade, a leitura e a
escrita em favor do avanço da educação nos dias atuais.
O professor deve rever suas práticas pedagógicas, promover o letramento nos alunos
em seu contexto social, propor práticas de leituras e interpretação de texto. Deve estar sempre
pesquisando, estudando, se qualificando, buscando a partir da sua prática, novas técnicas e
métodos para desempenhar da melhor forma possível a sua função, o seu trabalho.

Reforço Escolar

Quanto ao reforço escolar há de se desenvolver um trabalho coletivo em torno de


leituras sobre alfabetização e letramento como também construir com os professores novas
metodologias, práticas educativas que possam auxiliar os alunos com dificuldades de
aprendizagem. As aulas de reforço têm importância na vida de todos os envolvidos na escola
e, por isso, devem ser dinâmicas, incentivadas para que os alunos possam ter oportunidades
iguais de aprendizagem, de se tornarem cidadãos ativos, críticos e participativos no âmbito da
sociedade. O reforço escolar é considerado como algo que vem para somar e não pode ser
uma atividade avulsa, desconexa, sem planejamento e sem nenhuma ligação com o cotidiano
do aluno.
Cipriano Luckesi, Especialista em educação, em uma entrevista3 concedida a A Tarde,
explica sobre o reforço escolar e sua importância no atual contexto da educação. Para ele, o
reforço é uma solução que só deve ser utilizada quando necessário, pois o que importa mesmo
é o aprendizado e não as notas dos alunos. Para o autor é “uma atividade de auxiliar o
educando a aprender o que não foi possível aprender nas horas regulares de aula em uma
escola”. Assim, é importante que a escola ofereça esse serviço ao educando, bem como
condições para que ele possa aprender o que ficou pendente.

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LUCKESI, C. O reforço escolar. Entrevista concedida ao Jornal Impresso.
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O município de Tijucas do Sul

Tijucas do Sul4 é um município que fica a 67 km da região metropolitana de Curitiba.


A população é de 14.537 habitantes aproximadamente. Ocupa-se de uma área de 686 km2 e
de uma altitude de 856m.
Tijucas do Sul localiza-se na porção sul do Primeiro Planalto Paranaense, limitando-se
ao Norte com São José dos Pinhais- PR, ao Sul com Campo Alegre-SC, a Oeste com
Mandirituba-Pr, a Sudeste com Agudos do Sul-PR, e a Leste com Guaratuba-PR. A altitude
local varia entre 850 m e de 1.350 m. A região de Tijucas do Sul fez parte da Revolução
Federalista, uma história que ficou marcante no Município. Datado de 14 de novembro de
1951, pela Lei Estadual nº 790, o distrito foi desmembrado de São José dos Pinhais, passando
a ser denominado como Tijucas do Sul. Possui IDH de 0,716 e densidade demográfica de
22,15. O município é famoso pelos haras, pousadas e recantos que atraem muitos turistas
todos os anos. O Saltinho Parque, que se localiza na comunidade de Saltinho, é um recanto
que chama a atenção e se destaca pelas belas paisagens e cachoeiras.
As transformações econômicas e sociais vão se modificando ao longo do tempo na
sociedade e as atividades na zona rural tomam outros rumos. Pode-se perceber no município
de Tijucas do Sul que, além das atividades agrícolas, aparecem também as não agrícolas
constituindo o trabalho de muitas pessoas que residem no campo e que não contempla
somente o trabalho na lavoura, mas em outras atividades como o turismo rural, o artesanato, as
indústrias, entre outros serviços.

Desenvolvimento da pesquisa

Os professores que trabalham com os anos iniciais, incluindo o reforço escolar, nas
Escolas Rurais do município de Tijucas do Sul, buscam constantemente desenvolver
atividades que possam auxiliá-los no processo de alfabetização e letramento – Leitura e
Produção de Textos.
Apesar de terem sido realizados vários cursos de formação específicos para os
professores que trabalham nas escolas do campo, verifica-se que alguns professores ainda
apresentam dificuldades para desenvolver atividades com leitura, produção de textos,

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Informações extraídas do site www.tijucasdosul.gov.pr.br
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alfabetização e letramento com os alunos dos anos iniciais e, principalmente, com os alunos
do reforço, sala de recursos e classe especial.
Esta pesquisa foi desenvolvida com os profissionais das dez escolas do Ensino
Fundamental, localizadas no município de Tijucas do Sul e contou com a participação
coletiva dos coordenadores pedagógicos, professores do reforço escolar, classe especial e sala
de recursos, totalizando 26 profissionais da educação. O total de alunos das dez escolas do
Ensino Fundamental é de 1.858 e 571 alunos da Educação Infantil.
As escolas do campo do município são:
- Escola Rural Municipal Ermínio Cardoso - Comunidade de Campestre
- Escola Rural Municipal João Maria Claudino - Comunidade de Campo Alto
- Escola Rural Municipal Tomé de Souza - Comunidade de Fagundes
- Escola Rural Municipal de Afonso Pena - Comunidade de Postinho
- Escola Rural Municipal Emiliano Perneta - Comunidade de Tabatinga
- Escola Rural Municipal Leopoldo Jacomel - Comunidade de Matulão
- Escola Rural Municipal Presidente Médici – Comunidade de Colono
- Escola Rural Municipal Manoel Ribas – Comunidade de Campina
- Escola Municipal Professora Leovanil Camargo - Sede
- Escola Professor da Rocha Camargo Sobrinho – Comunidade de Lagoa
A metodologia utilizada neste subprojeto baseia-se em um processo de investigação-
ação que segundo Segat e Grabausk (apud MION e SAITO, 2001, p.09), definem: “[...] que
consiste basicamente de ciclos sucessivos de planejamento, ação, observação e reflexão, para
um replanejamento”.
No processo de investigação-ação a intenção foi de verificar quais intervenções
pedagógicas se fazem necessárias nas escolas selecionadas em relação às habilidades de
leitura dos professores quanto aos conhecimentos que se referem às contradições da sociedade
brasileira, em particular no campo, como também aos conhecimentos teórico-metodológicos
da alfabetização e letramento dos alunos de anos iniciais, principalmente os do reforço, sala
de recursos.
Os encontros com os professores do município de Tijucas do Sul, a partir da
intervenção pedagógica, transformaram-se em um Curso de Extensão ofertado pela
Universidade Tuiuti do Paraná e ministrado por mim.
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A intervenção pedagógica foi feita com coerência ao que foi previsto no cronograma e
nos objetivos do subprojeto, ficando assim definida a data: início 15 de abril e término em 11
de novembro de 2014 (uma vez por mês, às terças-feiras, das 8h00 às 16h00) num total de 60
(sessenta) horas.
Quadro 1: Ações coletivas - Atividades
DATA AÇÕES COLETIVAS
15/ABRIL - Conversar com os professores sobre suas dificuldades e anotar as sugestões trazidas por
eles para então iniciar um processo de intervenção voltado à ampliação dos conhecimentos
teórico-metodológicos dos processos de alfabetização e letramento na prática educativa
dos professores do campo.
- Depoimentos e discussões sobre as dificuldades encontradas para trabalhar com alunos
do reforço escolar, sala de recursos e classe especial.
- Explanação e discussão sobre a história da escrita e do alfabeto para ampliar e
desenvolver novas práticas educativas que atendam às necessidades das crianças do
campo.
- Leitura e discussão dos textos de Marlene Carvalho (2005): Receita de Alfabetização;
Alfabetização sem Receita.
Esta atividade teve como objetivo provocar reflexões acerca do processo de alfabetização
que está sendo trabalhado com as crianças do campo.
- Leitura e discussão com os professores sobre a história da escrita e a contribuição para o
20/MAIO
letramento. (Magda Soares, Ângela Kleiman).
- Leitura, compreensão, discussão em grupos sobre os textos de Luiz Carlos Cagliari
(1989):
a) O sistema alfabético de escrita / princípio acrofônico.
b) Descobrindo que a escrita representa a fala.
c) Irregularidades ortográficas; análise dos “erros ortográficos”.
d) Primeiras leituras de textos.
- Atividade em grupo: ‘Dicionário maluco’ – objetivo: ampliar o vocabulário; desenvolver
a oralidade; iniciação ao texto espontâneo.
10/JUNHO - Criar, com os professores, atividades que levem à compreensão das relações entre a
alfabetização e o letramento no processo ensino e aprendizagem, contemplando as
situações de uso social da leitura e da escrita, enfatizando a realidade do sujeito do campo.
(Magda Soares, Leda Tfouni, Ângela Kleiman).
- Leitura, discussão, trabalhos em grupos – textos de Paulo Freire (1989), Emília Ferreiro
e Ana Teberosky (1999) sobre:
a) O trabalho com a leitura: primeiras leituras; códigos, símbolos.
b) Métodos de alfabetização.
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c) Trabalhando com textos na alfabetização (hipóteses de escrita – textos espontâneos).


d) O que é alfabetização; o que é letramento; Alfabetização + Letramento.
- Oficinas com materiais didático-pedagógicos para desenvolver as habilidades de leitura e
escrita com a participação dos professores.
26/AGOSTO - Leitura, discussão em grupo sobre:
a) Concepção da educação do campo; o sujeito do campo, concepção de alfabetização e
letramento nas escolas do campo. (Souza, 2006).
b) Alfabetização e letramento no contexto das escolas do campo.
c) A leitura como prática social: finalidades, propostas, atividades que contemplem a
educação do campo.
d) Concepções de linguagem.
e) Como trabalhar com gêneros textuais que contemplem a educação do campo.
f) Trabalhando com textos espontâneos.
g) Condições para produzir textos: o que dizer, para quem dizer, como dizer.
h) A correção da escrita; a ortografia.
- Oficina sobre Leitura e produção de textos: com a participação dos professores.
Seminário: apresentação das atividades desenvolvidas pelos professores do campo com os
seus alunos, envolvendo a alfabetização e Letramento, Leitura e Produção de Textos.
25/SETEMBRO - Criar espaço coletivo para debate sobre a prática educativa em consonância com a
concepção da educação do campo.
- Criar, com os professores, atividades voltadas para as relações entre a alfabetização e o
letramento no processo ensino e aprendizagem, contemplando as situações de uso social
da leitura e da escrita e a relação com o sujeito do campo.
- Oficina sobre Leitura e produção de textos com ênfase na Alfabetização e Letramento,
com a participação dos professores.
- Leitura do livro: A importância do ato de ler (Paulo Freire, 1989) para reflexões e
discussões em grupos, e apresentação (trabalho coletivo).
23/OUTUBRO - Desenvolver ações pedagógicas com os professores do campo voltadas aos
conhecimentos teórico-metodológicos dos processos de alfabetização e letramento.
- Organizar oficinas com materiais didático-pedagógicos para desenvolver as habilidades
de leitura e escrita, em conformidade com as necessidades dos professores e que
correspondam à realidade dos alunos do campo.
- Leitura do livro: Preciso “ensinar” o letramento? Não basta ensinar a ler e a escrever?
Ângela B. Kleiman (2005).
- Discussões e reflexões sobre a postura do professor e a prática pedagógica utilizada no
campo.
- Oficina com a participação dos professores - Leitura e produção de textos com ênfase na
Alfabetização e Letramento.
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- O numeramento na escola – a função social da matemática – leitura e interpretação de


situações-problemas (apresentar a função social da escrita nas outras áreas as áreas do
conhecimento).
- Desenvolver projetos, planos de ação sobre alfabetização e letramento que possam
11/NOVEMBRO
auxiliar no trabalho com as crianças que estão matriculadas nas escolas do campo.
- Oficina sobre Leitura e produção de textos com ênfase na Alfabetização e Letramento,
com a participação dos professores.
- Seminário: apresentação oral sobre as atividades desenvolvidas em grupo, análises e
resultados. Ações e Projetos a serem desenvolvidos e aplicados. Reflexão, ação e
replanejamento das práticas educativas que contemplem a alfabetização e letramento nas
escolas do campo, bem como no letramento do professor, no processo de ação-reflexão-
ação, tendo a prática como ponto de partida e de chegada no processo educativo.
- Encerramento das atividades.

A autora.
A proposta desses encontros foi discutir, aprofundar, debater a educação do campo no
Brasil, em especial na cidade de Tijucas do Sul, para a organização do trabalho pedagógico
comprometido com os interesses e necessidades da escola do campo; promover o
aprofundamento de conhecimentos teórico-práticos de alfabetização e letramento para o
trabalho contextualizado com a realidade socioespacial e cultural do campo.
Os resultados obtidos por meio desses encontros que se transformaram em Curso de
Extensão foram satisfatórios, pois houve a participação dos professores em situações
investigativas sobre alfabetização e letramento, bem como organização coletiva com materiais
didático-pedagógicos para desenvolver as habilidades de leitura e escrita, em conformidade
com as suas necessidades.
O Curso de extensão contou com a participação de 26 professores do campo das 10
escolas públicas do município de Tijucas do Sul e possibilitou questionamentos acerca da
construção de um conhecimento, bem como de uma prática pedagógica que valorize as
relações sociais, culturais e econômicas do campo como elementos fundamentais no trabalho
docente. E também contribuiu para que a formação do educador tenha como embasamento o
processo de ação-reflexão-ação, tendo a prática como ponto de partida e de chegada no
processo educativo.
Nesse processo de elaboração e implementação do curso de extensão, verificou-se o
fortalecimento da relação entre a Universidade Tuiuti do Paraná, as escolas públicas do
campo e Secretaria da Educação de Tijucas do Sul. Essa parceria possibilitou o contato com a
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realidade dessas escolas, com o conhecimento acerca dos alunos, dos professores e da
comunidade.

Considerações Finais

Através dos estudos e encontros com os professores do município de Tijucas do Sul,


por meio de um trabalho coletivo, que acabou se transformando em Curso de Extensão, novas
formas de perceber o campo foram se constituindo assim como reflexões sobre as práticas
educativas não somente às questões ligadas à alfabetização e letramento, mas também ao
letramento do professor do campo, bem como a desenvolver a atitude investigativa sobre a
própria atuação pedagógica, valorizando aspectos ligados à alfabetização e ao letramento no
contexto do campo.
Os encontros foram realizados com a participação de todos os sujeitos envolvidos no
processo em busca de uma educação transformadora, que promova a prática da liberdade.
Como afirma Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido (2005, p. 58): “Ninguém liberta
ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”.
O curso proporcionou aos professores pensar e propor estratégias que motivem o aluno
a descobrir a importância e o significado que a leitura e a escrita têm na sua formação, em
relação à sua realidade, a agir e a estar no mundo. E coube à Escola não se distanciar da
realidade do aluno, caracterizando-o como sujeito do campo e preparando-o para a vida em
sociedade, para que exerça a cidadania, de forma plena e consciente. Ela é responsável pela
formação de leitores e de escritores competentes, ou seja, é capaz de criar condições para que
desenvolvam o saber fazer, a sua participação na sociedade.
Com o encerramento do Curso de Extensão (encontros a cada mês), constatou-se, por
meio das leituras, discussões, trabalho coletivo, trocas de experiências que só há possibilidade
de transformação e, consequentemente, de libertação a partir de uma mediação conjunta, do
diálogo e reflexão com todos os envolvidos. A proposta deste subprojeto de intervenção
pedagógica e que se transformou em um curso de extensão, teve como objetivo, além da (re)
construção do conceito de alfabetização/letramento, aprofundamento teórico sobre o tema no
âmbito escolar da educação do campo, ampliar os processos de letramento nas escolas,
desenvolver, de forma coletiva, ações educativas para o ensino/aprendizagem comprometido
com o aprimoramento da criticidade da leitura de mundo, de todos os sujeitos envolvidos.
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REFERÊNCIAS

CARVALHO, Marlene. Alfabetizar e letrar: um diálogo entre a teoria e a prática.


Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.

COLELLO, Silvia M. Gasparian. Alfabetização e letramento: o que será que será? In: LEITE,
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