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José Paulo Netto

O QUE É
MARXISMO

editora brasiliense
Jo sé Paulo N etto

O QUE É
MARXISMO

editora brasiliense
Jo sé Paulo N etto

O QUE É
MARXISMO

editora brasiliense
C opyright © by José Paulo N etto, 1985

Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada,


armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada,
reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer
sem autorização prévia da editora.

9“ edição, 1994
2a reim pressão, 2009

ÍNDICE
Revisão: José W. S. Moraes e Omito. A. Costa Jt:
Capa e ilustrações: Gilberto Miadaira

D a d o s In tern acion ais de C a t a l o g a ç ã o na P u blic aç ã o (CIP) Riscos e razão deste liv rin h o ........................
( C â m a r a B r a s i l e ir a do Livro, SP, B r a s il) __________ Os pressupostos da teoria social de Marx , .
Netto, José Paulo Uma teoria da sociedade burguesa .............
O que é marxismo / José Paulo Netto
São Paulo : Brasiliense, 2006 - (Coleção primeiros) O nascimento do marxismo ........................
passos : 148) O marxismo-ieninismo.................................
1“ reimpr. da 9 ed. de 1994. A ultrapassagem do marxismo ....................
ISBN 8S-11-01148-X Conclusão: Apenas uma introdução...........
I. Comunismo 2. Marx, Karl, 1818-1883 3. Socialismo Indicações para le itu r a ............. ...................
1. Título II. Série.

04-3302_____________________________ CDD- 320.5322


índices p a ra catálogo sistemático: *
1. M arxismo : Ciência Política 320.5322

editora e livraria Brasiliense


RuaMourato Coelho, 111 - Pinheiros
CEP 05417-010 - São Paulo - SP
www.editorabrasiliense.com.br
C opyright © by José Paulo N etto, 1985

Nenhuma parte desta publicação pode ser gravada,


armazenada em sistemas eletrônicos, fotocopiada,
reproduzida por meios mecânicos ou outros quaisquer
sem autorização prévia da editora.

9“ edição, 1994
2a reim pressão, 2009

ÍNDICE
Revisão: José W. S. Moraes e Omito. A. Costa Jt:
Capa e ilustrações: Gilberto Miadaira

D a d o s In tern acion ais de C a t a l o g a ç ã o na P u blic aç ã o (CIP) Riscos e razão deste liv rin h o ........................
( C â m a r a B r a s i l e ir a do Livro, SP, B r a s il) __________ Os pressupostos da teoria social de Marx , .
Netto, José Paulo Uma teoria da sociedade burguesa .............
O que é marxismo / José Paulo Netto
São Paulo : Brasiliense, 2006 - (Coleção primeiros) O nascimento do marxismo ........................
passos : 148) O marxismo-ieninismo.................................
1“ reimpr. da 9 ed. de 1994. A ultrapassagem do marxismo ....................
ISBN 8S-11-01148-X Conclusão: Apenas uma introdução...........
I. Comunismo 2. Marx, Karl, 1818-1883 3. Socialismo Indicações para le itu r a ............. ...................
1. Título II. Série.

04-3302_____________________________ CDD- 320.5322


índices p a ra catálogo sistemático: *
1. M arxismo : Ciência Política 320.5322

editora e livraria Brasiliense


RuaMourato Coelho, 111 - Pinheiros
CEP 05417-010 - São Paulo - SP
www.editorabrasiliense.com.br
RISCOS E RAZÃO
DESTE LIVRINHO

A centena de páginas que o leitor tem em mãos


pode ser, para ele, um auxilio e um estímulo — e
para isto foram escritas. A u x ilio : um "prim eiro
passo" na direção do conhecimento de um projeto
teórico complexo, produto da intervenção inte­
lectual e política de gerações de homens que se
dispuseram a elaborar a história e procuraram, com
maior ou menor sucesso, respostas para os proble­
mas mais angustiantes da sociedade moderna. E
ainda estímulo: o esboço, ainda que muito incom­
pleto, de uma fascinante construção cultural, de
uma aventura que conjuga o pensar e o fazer numa
aposta radical, já que a herança de Marx exige a
refiexão crítica e a ação revolucionária.
Mas este livrinho comporta vários riscos. Riscos
da parte do autor: como resumir em tão curto
Ao Paulo, meu velho. espaço, sem deformar, um conjunto de tantas
RISCOS E RAZÃO
DESTE LIVRINHO

A centena de páginas que o leitor tem em mãos


pode ser, para ele, um auxilio e um estímulo — e
para isto foram escritas. A u x ilio : um "prim eiro
passo" na direção do conhecimento de um projeto
teórico complexo, produto da intervenção inte­
lectual e política de gerações de homens que se
dispuseram a elaborar a história e procuraram, com
maior ou menor sucesso, respostas para os proble­
mas mais angustiantes da sociedade moderna. E
ainda estímulo: o esboço, ainda que muito incom­
pleto, de uma fascinante construção cultural, de
uma aventura que conjuga o pensar e o fazer numa
aposta radical, já que a herança de Marx exige a
refiexão crítica e a ação revolucionária.
Mas este livrinho comporta vários riscos. Riscos
da parte do autor: como resumir em tão curto
Ao Paulo, meu velho. espaço, sem deformar, um conjunto de tantas
8 J o sé P a u l o N e tto O que é marxismo 9

idéias e tamanhas polêmicas? Mais: supondo que defendo a tese de que há marxismos, vertentes
este resumo seja viável, como não viciá-lo a partir diferenciadas e alternativas de uma já larga tra­
da sua própria posição em face do tema? E também dição teórico-política. A hipótese de um mar­
riscos do lado do leitor: a tendência a buscar ver­ xismo único, puro e imaculado remete mais à
dades e fórmulas conclusivas, guias e modelos, o mitologia política e ideológica do que à crítica
desejo de encontrar soluções mais ou menos fáceis racional.
para indagações que freqüentam as nossas preo­ Imagino que o texto que preparei contém mo­
cupações, imediatas ou não. tivos de sobra para desagradar aos especialistas
De fato, esses riscos são inevitáveis. E não vejo de todos os matizes: aos marxóiogos, que disse­
como eliminá-los. Creio apenas que podemos, autor cam Marx como peça do passado; aos marxizan-
e leitor, colocar as cartas na mesa para estabelecer tes, que tiram da obra de Marx o que lhes convém;
as nossas regras. Nisto, levo a vantagem da jogada e aos marxistas acadêmicos de qualquer tipo (os
inicial — portanto, que o leitor se precavenha. E dogmáticos e os dissidentes, todos ganhando a
sua cautela deve começar logo, a partir desta linha: vida exatamente graças à suposição da existência
duvide, ponha em questão, discuta com outras desse algo chamado "o marxismo"). Além de todos
pessoas, leia mais (as sugestões bibliográficas que os problemas que eventualmente eles levantarão,
ofereço ao final são somente um leque de outros sempre com algum fundamento, provavelmente vão
"primeiros passos"), numa palavra, questione começar por perguntar como é possível tratar do
todas as minhas afirmações. tema a partir do mote "o que é?"
Rapidamente, apresento meus trunfos: 1. penso Reconheço a legitimidade desta reserva prelim i­
que a obra original de Marx (a obra marxiana) é nar, como se verá na conclusão destas páginas. No
uma teoria da sociedade burguesa e da sua ultra­ entanto, se eles (e principalmente o leitor) conce­
passagem pela revolução proletária; 2. considero derem que tentei menos responder a esta questão
esta obra necessária, mas não suficiente, para ex­ e mais facilitar os “ primeiros passos" para reflexões
plicar/compreender e revolucionar o mundo con­ sérias, então ficará óbvia a razão deste opúsculo.
temporâneo; 3. julgo que todas as ideias de Marx
(bem como de seus seguidores) devem ser testadas
e verificadas sempre, jamais constituindo verdades
imutáveis e evidentes por si mesmas; 4. enfim, sus­
tento que não existe algo como "o marxismo” ;
8 J o sé P a u l o N e tto O que é marxismo 9

idéias e tamanhas polêmicas? Mais: supondo que defendo a tese de que há marxismos, vertentes
este resumo seja viável, como não viciá-lo a partir diferenciadas e alternativas de uma já larga tra­
da sua própria posição em face do tema? E também dição teórico-política. A hipótese de um mar­
riscos do lado do leitor: a tendência a buscar ver­ xismo único, puro e imaculado remete mais à
dades e fórmulas conclusivas, guias e modelos, o mitologia política e ideológica do que à crítica
desejo de encontrar soluções mais ou menos fáceis racional.
para indagações que freqüentam as nossas preo­ Imagino que o texto que preparei contém mo­
cupações, imediatas ou não. tivos de sobra para desagradar aos especialistas
De fato, esses riscos são inevitáveis. E não vejo de todos os matizes: aos marxóiogos, que disse­
como eliminá-los. Creio apenas que podemos, autor cam Marx como peça do passado; aos marxizan-
e leitor, colocar as cartas na mesa para estabelecer tes, que tiram da obra de Marx o que lhes convém;
as nossas regras. Nisto, levo a vantagem da jogada e aos marxistas acadêmicos de qualquer tipo (os
inicial — portanto, que o leitor se precavenha. E dogmáticos e os dissidentes, todos ganhando a
sua cautela deve começar logo, a partir desta linha: vida exatamente graças à suposição da existência
duvide, ponha em questão, discuta com outras desse algo chamado "o marxismo"). Além de todos
pessoas, leia mais (as sugestões bibliográficas que os problemas que eventualmente eles levantarão,
ofereço ao final são somente um leque de outros sempre com algum fundamento, provavelmente vão
"primeiros passos"), numa palavra, questione começar por perguntar como é possível tratar do
todas as minhas afirmações. tema a partir do mote "o que é?"
Rapidamente, apresento meus trunfos: 1. penso Reconheço a legitimidade desta reserva prelim i­
que a obra original de Marx (a obra marxiana) é nar, como se verá na conclusão destas páginas. No
uma teoria da sociedade burguesa e da sua ultra­ entanto, se eles (e principalmente o leitor) conce­
passagem pela revolução proletária; 2. considero derem que tentei menos responder a esta questão
esta obra necessária, mas não suficiente, para ex­ e mais facilitar os “ primeiros passos" para reflexões
plicar/compreender e revolucionar o mundo con­ sérias, então ficará óbvia a razão deste opúsculo.
temporâneo; 3. julgo que todas as ideias de Marx
(bem como de seus seguidores) devem ser testadas
e verificadas sempre, jamais constituindo verdades
imutáveis e evidentes por si mesmas; 4. enfim, sus­
tento que não existe algo como "o marxismo” ;
0 que é marxismo 11

formação no controle dos sistemas de poder (a


revolução burguesa, sob múltiplas formas) surge
o mundo burguês.
Um mundo absolutamente novo: ele engendra
uma cultura inédita e uma arte peculiar; confere
ao conhecimento científico da natureza funções
outrora desconhecidas, relacionando-o estreita­
mente à produção. Sobretudo, nele a economia
OS PRESSUPOSTOS e a sociedade são organizadas de modo particular,
DA TEORIA SOCIAL DE MARX submetidas ambas a uma estratégia global (a da
burguesia) e a uma lógica específica {a da valori­
zação do capital). Configura-se assim um novo
padrão de vida social, aqueie centralizado na civi­
é na primeira metade do século 19, tendo por lização urbano-industrial.
palco a Europa Ocidental, que aparecem os pré-re­ A gestação do mundo burguês foi um processo
quisitos gerais a partir dos quais se articulam as longo, doloroso, uma história de inaudita violên­
grandes matrizes culturais do mundo contempo­ cia. Cobrindo um espaço temporal muitissecuiar,
râneo. Mais exatamente: entre a preparação ideo­ caracterizou-se pela destruição brutal de antigos
lógica da Revolução Francesa e as sublevações modos de vida, pela substituição de modelos ante­
operárias de 1848, emergem os núcleos básicos riores de controle social, pela supressão a ferro e
daquilo que podemos chamar de razão moderna, fogo das formas de organização societária prece­
com todas as suas diferenças e contradições. dentes. Seu triunfo, porém, assinalou um form i­
Isso não ocorre casualmente. É nessas décadas dável avanço na existência humana, é no seu âm­
que, consolidando um processo social em movi­ bito que se colocam possibilidades antes inimagi-
mento desde o ocaso da Idade Média, a sociedade nadas para a exploração da natureza e a elevação
burguesa se instaura com seu perfil decisivamente das condições da vida dos homens — e pouco im ­
delineado. Na confluência de profundas alterações porta que tais possibilidades, quando realizadas,
na maneira de explorar os recursos naturais e pro­ tenham tido um preço social altíssimo, uma vez
duzir os bens (o que se convencionou denominar que neste mundo o custo do progresso é a genera­
Revolução Industrial) com uma radical transfor- lização da miséria relativa. 0 que interessa é que o
0 que é marxismo 11

formação no controle dos sistemas de poder (a


revolução burguesa, sob múltiplas formas) surge
o mundo burguês.
Um mundo absolutamente novo: ele engendra
uma cultura inédita e uma arte peculiar; confere
ao conhecimento científico da natureza funções
outrora desconhecidas, relacionando-o estreita­
mente à produção. Sobretudo, nele a economia
OS PRESSUPOSTOS e a sociedade são organizadas de modo particular,
DA TEORIA SOCIAL DE MARX submetidas ambas a uma estratégia global (a da
burguesia) e a uma lógica específica {a da valori­
zação do capital). Configura-se assim um novo
padrão de vida social, aqueie centralizado na civi­
é na primeira metade do século 19, tendo por lização urbano-industrial.
palco a Europa Ocidental, que aparecem os pré-re­ A gestação do mundo burguês foi um processo
quisitos gerais a partir dos quais se articulam as longo, doloroso, uma história de inaudita violên­
grandes matrizes culturais do mundo contempo­ cia. Cobrindo um espaço temporal muitissecuiar,
râneo. Mais exatamente: entre a preparação ideo­ caracterizou-se pela destruição brutal de antigos
lógica da Revolução Francesa e as sublevações modos de vida, pela substituição de modelos ante­
operárias de 1848, emergem os núcleos básicos riores de controle social, pela supressão a ferro e
daquilo que podemos chamar de razão moderna, fogo das formas de organização societária prece­
com todas as suas diferenças e contradições. dentes. Seu triunfo, porém, assinalou um form i­
Isso não ocorre casualmente. É nessas décadas dável avanço na existência humana, é no seu âm­
que, consolidando um processo social em movi­ bito que se colocam possibilidades antes inimagi-
mento desde o ocaso da Idade Média, a sociedade nadas para a exploração da natureza e a elevação
burguesa se instaura com seu perfil decisivamente das condições da vida dos homens — e pouco im ­
delineado. Na confluência de profundas alterações porta que tais possibilidades, quando realizadas,
na maneira de explorar os recursos naturais e pro­ tenham tido um preço social altíssimo, uma vez
duzir os bens (o que se convencionou denominar que neste mundo o custo do progresso é a genera­
Revolução Industrial) com uma radical transfor- lização da miséria relativa. 0 que interessa é que o
12 J o s é P a u l o N et t o O que é marxismo 13

estabelecimento do mundo burguês abriu uma É exatamente diante dessa questão crucial que
etapa de desenvolvimento sócio-humano que, pre­ se articula e define o pensamento sobre a sociedade
viamente, sequer seria vislumbrada. próprio do mundo burguês. Entre a preparação
No período que estamos considerando, a pri­ ideológica da Revolução Francesa e 1848 — ou
meira metade do século 19, o mundo burguês seja, do lluminismo à onda contra-revolucionária
(então assentado nas bases do capitalismo concor­ que sucedeu à insurgência operária — , construí­
rência!) se ergue com toda a sua força. E, ao plas­ ra-se um bloco cultural progressista, que procura­
mar um novo modo de vida, também cria os parâ­ va apanhar com objetividade a dinâmica da socie­
metros para outras formas de pensamento — justa­ dade e da história. Trata-se de um pensamento que
mente as matrizes culturais a que aludimos. E elas valoriza a racionalidade, sustenta que a realidade
surgem ligadas à questão-chave que, naquele pode ser conhecida e que não há motivos para es­
momento, se põe no coração mesmo do mundo camotear as contradições que nela surgem. Neste
burguês: a questão da revolução proletária. bloco cultural, expressão mais alta das expectati­
Com efeito, já a constituição do mundo burguês vas dos setores burgueses mais esclarecidos, desta­
envolve, em plano histórico-universal, um decisivo cavam-se basicamente duas vertentes: a economia
confronto de classes. Nos primeiros cinqüenta anos política inglesa e a filosofia clássica alemã.
do século 19, este enfrentamento vem à luz com Considerando-se os traumatismos causados pela
clareza meridiana: as insurreições proletárias de implantação da ordem burguesa, compreende-se
1848 e sua repressão pela burguesia (associada à que esse veio cultural não fosse nem único nem
nobreza que ela viera de derrocar) liquidaram as homogêneo. Às suas diferenças internas somava-se
“ ilusões heróicas" da Revolução Francesa e pu­ a existência paralela de um pensamento restaura­
seram a nu o caráter opressor da organização social dor e um protesto romântico. O pensamento res­
dela derivada. 0 movimento dos trabalhadores ur­ taurador, de claras conotações católicas e ranços
banos, embrionário no final do século 18, avan­ místicos, lamentava a "anarquia" trazida pela
çando por diferentes e sucessivas etapas, transita revolução burguesa e a liquidação, pelo capitalis­
do protesto negativo em face da exploração capi­ mo, das "sagradas instituições" da feudalidade — e
talista para um projeto político positivo de classe: recusava firmemente as novas formas sociais em-
a revolução socialista. A partir daí, é possível ao basadas na dessacralização do mundo e no inter­
proletariado colocar-se como sujeito históríco- câmbio mercantil. 0 protesto romântico, criti­
pol ítico autônomo. cando a prosaica realidade burguesa, escapava dos
12 J o s é P a u l o N et t o O que é marxismo 13

estabelecimento do mundo burguês abriu uma É exatamente diante dessa questão crucial que
etapa de desenvolvimento sócio-humano que, pre­ se articula e define o pensamento sobre a sociedade
viamente, sequer seria vislumbrada. próprio do mundo burguês. Entre a preparação
No período que estamos considerando, a pri­ ideológica da Revolução Francesa e 1848 — ou
meira metade do século 19, o mundo burguês seja, do lluminismo à onda contra-revolucionária
(então assentado nas bases do capitalismo concor­ que sucedeu à insurgência operária — , construí­
rência!) se ergue com toda a sua força. E, ao plas­ ra-se um bloco cultural progressista, que procura­
mar um novo modo de vida, também cria os parâ­ va apanhar com objetividade a dinâmica da socie­
metros para outras formas de pensamento — justa­ dade e da história. Trata-se de um pensamento que
mente as matrizes culturais a que aludimos. E elas valoriza a racionalidade, sustenta que a realidade
surgem ligadas à questão-chave que, naquele pode ser conhecida e que não há motivos para es­
momento, se põe no coração mesmo do mundo camotear as contradições que nela surgem. Neste
burguês: a questão da revolução proletária. bloco cultural, expressão mais alta das expectati­
Com efeito, já a constituição do mundo burguês vas dos setores burgueses mais esclarecidos, desta­
envolve, em plano histórico-universal, um decisivo cavam-se basicamente duas vertentes: a economia
confronto de classes. Nos primeiros cinqüenta anos política inglesa e a filosofia clássica alemã.
do século 19, este enfrentamento vem à luz com Considerando-se os traumatismos causados pela
clareza meridiana: as insurreições proletárias de implantação da ordem burguesa, compreende-se
1848 e sua repressão pela burguesia (associada à que esse veio cultural não fosse nem único nem
nobreza que ela viera de derrocar) liquidaram as homogêneo. Às suas diferenças internas somava-se
“ ilusões heróicas" da Revolução Francesa e pu­ a existência paralela de um pensamento restaura­
seram a nu o caráter opressor da organização social dor e um protesto romântico. O pensamento res­
dela derivada. 0 movimento dos trabalhadores ur­ taurador, de claras conotações católicas e ranços
banos, embrionário no final do século 18, avan­ místicos, lamentava a "anarquia" trazida pela
çando por diferentes e sucessivas etapas, transita revolução burguesa e a liquidação, pelo capitalis­
do protesto negativo em face da exploração capi­ mo, das "sagradas instituições" da feudalidade — e
talista para um projeto político positivo de classe: recusava firmemente as novas formas sociais em-
a revolução socialista. A partir daí, é possível ao basadas na dessacralização do mundo e no inter­
proletariado colocar-se como sujeito históríco- câmbio mercantil. 0 protesto romântico, criti­
pol ítico autônomo. cando a prosaica realidade burguesa, escapava dos
J o s é Pa u l o N e t t o O que é marxismo
14 15

dilemas sociais do presente mediante a idealização intercorrência da cultura produzida pelos melhores
da Idade Média e, em face das misérias contempo­ intelectuais do Ocidente (dos iluministas a Smith,
râneas, refugiava-se num passado idílico. Ricardo, Goethe e Hegel) com as demandas socio-
A inflexão histórica de 1848, circunscrevendo o econômicas e políticas dos operários euro-ociden-
espaço sociopolfíico da burguesia e explicitando tais. 1rata-se do decisivo encontro do universo da
a natureza de classe da sua dominação, selou a cuItura com o universo do trabalho, » cultura como
sorte do bloco cultural progressista: suas conquis­ conhecimento e projeção da socLdade, os represen­
tas foram apropriadas pelos revolucionários e isso tantes do trabalho como agentes revolucionários.
bastou para que os representantes da ordem recha­ é desnecessário realçar que esse fenômeno, mui­
çassem a sua influência. A partir dai, os ideólogos to complicado, resultou r'a concorrência de inúme­
burgueses, para responder ao movimento operário ras variáveis. 0 que me interessa sublinhar, antes
e combater a perspectiva da revolução, recorrem de tudo, é que nele estão dadas as condições sobre
cada vez mais ao arsenal de idéias contidas nas as quais Marx erigirá a sua obra. E, do que se disse,
propostas restauradoras e românticas. há três conseqüências que devem ser destacadas.
Como se vê, a evolução do pensamento sobre a Em primeiro lugar, fica claro que a teoria de
sociedade burguesa tem em 1848 um divisor de Marx se beneficiou diretamente da experiência
águas: desde então, ele se fratura em dois campos cultural que a precedeu; neste sentido, Marx é
opostos — o que se vincula à revolução e o que continuador de uma grande tradição cultural. Em
contrasta com ela. Mesmo que este não seja um segundo lugar, subentende-se que Marx é um
corte absoluto e que o desenvolvimento de ambos (embora o maior) dentre muitos teóricos que, no
se conecte com insuspeitada freqüência, aqueles processo em curso àquela época, passando para as
dois campos delimitam o terreno das grandes matri­ fileiras do movimento operário, procurou fundir
zes da razão moderna: a teoria social de Marx e o o patrimônio cultural existente com a inter­
pensamento conservador, produto da conjunção venção política do proletariado. Enfim, paten­
dos veios restauradores e românticos. teia-se que a construção teórica de Marx é um
0 que se pretende enfatizar com essas observa­ componente das muitas formulações que, ao
ções é um fenômeno histórico de extrema signifi­ tempo, se estruturavam no seio do movimento
cação; a intercorrência, no fim da primeira metade operário — quer dizer: este movimento era (e é)
do século 19, de um específico movimento cultural mais abrangente que a sua expressão teórica
com um específico componente sociopolítico — a marxiana (e marxista).
J o s é Pa u l o N e t t o O que é marxismo
14 15

dilemas sociais do presente mediante a idealização intercorrência da cultura produzida pelos melhores
da Idade Média e, em face das misérias contempo­ intelectuais do Ocidente (dos iluministas a Smith,
râneas, refugiava-se num passado idílico. Ricardo, Goethe e Hegel) com as demandas socio-
A inflexão histórica de 1848, circunscrevendo o econômicas e políticas dos operários euro-ociden-
espaço sociopolfíico da burguesia e explicitando tais. 1rata-se do decisivo encontro do universo da
a natureza de classe da sua dominação, selou a cuItura com o universo do trabalho, » cultura como
sorte do bloco cultural progressista: suas conquis­ conhecimento e projeção da socLdade, os represen­
tas foram apropriadas pelos revolucionários e isso tantes do trabalho como agentes revolucionários.
bastou para que os representantes da ordem recha­ é desnecessário realçar que esse fenômeno, mui­
çassem a sua influência. A partir dai, os ideólogos to complicado, resultou r'a concorrência de inúme­
burgueses, para responder ao movimento operário ras variáveis. 0 que me interessa sublinhar, antes
e combater a perspectiva da revolução, recorrem de tudo, é que nele estão dadas as condições sobre
cada vez mais ao arsenal de idéias contidas nas as quais Marx erigirá a sua obra. E, do que se disse,
propostas restauradoras e românticas. há três conseqüências que devem ser destacadas.
Como se vê, a evolução do pensamento sobre a Em primeiro lugar, fica claro que a teoria de
sociedade burguesa tem em 1848 um divisor de Marx se beneficiou diretamente da experiência
águas: desde então, ele se fratura em dois campos cultural que a precedeu; neste sentido, Marx é
opostos — o que se vincula à revolução e o que continuador de uma grande tradição cultural. Em
contrasta com ela. Mesmo que este não seja um segundo lugar, subentende-se que Marx é um
corte absoluto e que o desenvolvimento de ambos (embora o maior) dentre muitos teóricos que, no
se conecte com insuspeitada freqüência, aqueles processo em curso àquela época, passando para as
dois campos delimitam o terreno das grandes matri­ fileiras do movimento operário, procurou fundir
zes da razão moderna: a teoria social de Marx e o o patrimônio cultural existente com a inter­
pensamento conservador, produto da conjunção venção política do proletariado. Enfim, paten­
dos veios restauradores e românticos. teia-se que a construção teórica de Marx é um
0 que se pretende enfatizar com essas observa­ componente das muitas formulações que, ao
ções é um fenômeno histórico de extrema signifi­ tempo, se estruturavam no seio do movimento
cação; a intercorrência, no fim da primeira metade operário — quer dizer: este movimento era (e é)
do século 19, de um específico movimento cultural mais abrangente que a sua expressão teórica
com um específico componente sociopolítico — a marxiana (e marxista).
16 J o s é Pa u l o N e t t o O que é marxismo 17

Na verdade, o que estou a fazer é sumariar os podem percebê-lo como fruto de suas ações e
pressupostos da obra de Marx. Já sugeri dois desempenhos. Em síntese: é na sociedade burguesa
deles: o cultural e o polftico. Há outro, mais que os homens podem compreender-se como atores
substantivo, e que precisa ser referido: o pressu­ e autores da sua própria história.
posto histórico-social que viabilizou o desenvol­ Mas esta é apenas uma possibilidade. Como a
vimento da reflexão de Marx. sociedade burguesa se funda na exploração e na
Uma compreensão teórica rigorosa da socie­ opressão da maioria peia minoria (e nisso ela não
dade só é possível à medida que o ser social se distingue de sociedades anteriores), a sua dinâ­
pode aparecer aos homens como aigo específico, mica produz, para legitimá-la minimamente, me­
isto é, como uma realidade que, necessariamente canismos que ocultam estes seus atributos. Tais
ligada à natureza (ao ser natural, orgânico e inor­ mecanismos — a alienação e a reificação, conecta­
gânico), tem estrutura, dinâmica e regularidades das ao "fetichism o da mercadoria", que Marx estu­
próprias. Enquanto o ser social é identificado dou especialmente no primeiro capítulo d'0
como igual ao ser natural, ou visualizado como Capita! — são necessários: a sociedade burgue­
uma extensão dele, o pensamento que o analisa sa não pode existir sem eles, que acabam por
acaba trabalhando com analogias e transferindo criar uma aparência coisificada da realidade so­
para o plano da sociedade concepções que só são cial. Esta aparência mistifica os fenómenos so­
válidas para o plano da natureza. ciais: eia esconde que os fenômenos são proces­
Ora, é somente quando se instaura a socie­ sos, mostra-os sob a forma de coisas, alheias
dade burguesa que o ser social pode surgir à cons­ aos homens e às suas relações (por exemplo: o
ciência humana como um ser que, condicionado capital, que é uma relação social, aparece como
pela natureza, é diferente dela. Como Marx assi­ dinheiro, equipamentos etc.).
nalou, a sociedade burguesa (o capitalismo) "socia­ A contradição é real: a sociedade burguesa, ao
liza" as relações sociais: estas podem ser apreendi­ mesmo tempo que abre a possibilidade para tomar
das pelos homens não como resultantes de desíg­ o ser social tal como ele é (processo que tem
nios e vontades estranhos a eles, mas como produto regularidades próprias), bloqueia esta apreensão.
de sua interação, de seus interesses, de seus confli­ Quer dizer, simultaneamente à chance de uma
tos e de seus objetivos. Na sociedade burguesa, o teoria social verdadeira, que apanhe o caráter e
processo social — ao contrário das sociedades pre­ a dinâmica da sociedade, coloca-se o conjunto de
cedentes — tem características tais que os homens mecanismos que a obstaculizam.
16 J o s é Pa u l o N e t t o O que é marxismo 17

Na verdade, o que estou a fazer é sumariar os podem percebê-lo como fruto de suas ações e
pressupostos da obra de Marx. Já sugeri dois desempenhos. Em síntese: é na sociedade burguesa
deles: o cultural e o polftico. Há outro, mais que os homens podem compreender-se como atores
substantivo, e que precisa ser referido: o pressu­ e autores da sua própria história.
posto histórico-social que viabilizou o desenvol­ Mas esta é apenas uma possibilidade. Como a
vimento da reflexão de Marx. sociedade burguesa se funda na exploração e na
Uma compreensão teórica rigorosa da socie­ opressão da maioria peia minoria (e nisso ela não
dade só é possível à medida que o ser social se distingue de sociedades anteriores), a sua dinâ­
pode aparecer aos homens como aigo específico, mica produz, para legitimá-la minimamente, me­
isto é, como uma realidade que, necessariamente canismos que ocultam estes seus atributos. Tais
ligada à natureza (ao ser natural, orgânico e inor­ mecanismos — a alienação e a reificação, conecta­
gânico), tem estrutura, dinâmica e regularidades das ao "fetichism o da mercadoria", que Marx estu­
próprias. Enquanto o ser social é identificado dou especialmente no primeiro capítulo d'0
como igual ao ser natural, ou visualizado como Capita! — são necessários: a sociedade burgue­
uma extensão dele, o pensamento que o analisa sa não pode existir sem eles, que acabam por
acaba trabalhando com analogias e transferindo criar uma aparência coisificada da realidade so­
para o plano da sociedade concepções que só são cial. Esta aparência mistifica os fenómenos so­
válidas para o plano da natureza. ciais: eia esconde que os fenômenos são proces­
Ora, é somente quando se instaura a socie­ sos, mostra-os sob a forma de coisas, alheias
dade burguesa que o ser social pode surgir à cons­ aos homens e às suas relações (por exemplo: o
ciência humana como um ser que, condicionado capital, que é uma relação social, aparece como
pela natureza, é diferente dela. Como Marx assi­ dinheiro, equipamentos etc.).
nalou, a sociedade burguesa (o capitalismo) "socia­ A contradição é real: a sociedade burguesa, ao
liza" as relações sociais: estas podem ser apreendi­ mesmo tempo que abre a possibilidade para tomar
das pelos homens não como resultantes de desíg­ o ser social tal como ele é (processo que tem
nios e vontades estranhos a eles, mas como produto regularidades próprias), bloqueia esta apreensão.
de sua interação, de seus interesses, de seus confli­ Quer dizer, simultaneamente à chance de uma
tos e de seus objetivos. Na sociedade burguesa, o teoria social verdadeira, que apanhe o caráter e
processo social — ao contrário das sociedades pre­ a dinâmica da sociedade, coloca-se o conjunto de
cedentes — tem características tais que os homens mecanismos que a obstaculizam.
J o sé P a u l o N etto O que é marxismo 19
18

Uma teoria social veraz, que desvende a estru­ A teoria social de Marx, pois, tem como objeto
tura real da sociedade burguesa, revelando os seus a sociedade burguesa e como objetivo a sua ultra­
instrumentos de exploração, opressão e reprodu­ passagem revolucionária: é uma teoria da socie­
ção, logicamente só interessa àqueles que perse­ dade burguesa sob a ótica do proletariado, buscando
guem um objetivo que ultrapasse os quadros da dar conta da dinâmica constitutiva do ser social
ordem vigente. A esta e seus defensores, impor­ que assenta na dominância do modo de produção
tam conhecimentos que lhes permitam gerenciar capitalista. Sua estreita relação com o movimento
o estabelecido — promovendo os ajustamentos e operário, aliás, não é externa. Antes, é uma relação
as reforças necessárias em momentos de crise, pre­ interna e orgânica: a obra marxiana concretiza, no
venindo eventuais situações de colapso. Isso sig­ plano teórico, o ponto de vista sociopolítico de
nifica, entre outras coisas, que uma teoria social classe do proletariado. Conhecimento do mundo
também é função de um ponto de vista de ciasse: burguês, vinculada umbilicalmente ao projeto revo­
m uito dificilmente o ponto de vista da(s) classe(s) lucionário, a teoria social de Marx é uma daquelas
dominante(s) possibilita a um estudioso romper matrizes culturais do mundo contemporâneo a
com as limitações que as contingências dos inte­ que inicialmente fizemos referência.
resses de conservação da ordem social lhe impõem. A outra matriz importante procede da transfor­
Retomemos o fio do nosso argumento. Em mação subseqüente do pensamento restaurador e
meados do século 19, estavam dados os pressupos­ romântico que se adequa às necessidades de conser­
tos para a emergência de uma teoria social capaz vação, gestão e reforma da sociedade burguesa.
de apreender a estrutura íntima da sociedade bur­ Partindo dos "fatos sociais” como realidades
guesa — a tradição cultural acumulada desde o objetivas indiscutíveis, este pensamento aceita
lluminismo, a visibilidade do ser social como tal acriticamente a aparência imediata dos fenômenos
e um movimento revolucionário a partir de cujos sociais e sobre ela constrói as suas reflexões. Basica­
interesses de classe era possível ultrapassar a apa­ mente, é o positivismo e todas as suas derivações
rência coisificada dos fenômenos sociais. Marx é posteriores, que não podem ser vistas apenas como
o pensador que funda esta teoria, num processo equívocos, mas sobretudo como a incapacidade de
intelectual em que, legatário daquela tradição, ele o pensamento romper com os mecanismos da alie­
inaugura um modo radicalmente novo de com­ nação e da reificação — incapacidade socialmente
preender a sociedade burguesa — compreendê-la condicionada, quer pelo ponto de vista de classe
para suprimi-la. dos seus representantes, quer pelo arsenal teórico
J o sé P a u l o N etto O que é marxismo 19
18

Uma teoria social veraz, que desvende a estru­ A teoria social de Marx, pois, tem como objeto
tura real da sociedade burguesa, revelando os seus a sociedade burguesa e como objetivo a sua ultra­
instrumentos de exploração, opressão e reprodu­ passagem revolucionária: é uma teoria da socie­
ção, logicamente só interessa àqueles que perse­ dade burguesa sob a ótica do proletariado, buscando
guem um objetivo que ultrapasse os quadros da dar conta da dinâmica constitutiva do ser social
ordem vigente. A esta e seus defensores, impor­ que assenta na dominância do modo de produção
tam conhecimentos que lhes permitam gerenciar capitalista. Sua estreita relação com o movimento
o estabelecido — promovendo os ajustamentos e operário, aliás, não é externa. Antes, é uma relação
as reforças necessárias em momentos de crise, pre­ interna e orgânica: a obra marxiana concretiza, no
venindo eventuais situações de colapso. Isso sig­ plano teórico, o ponto de vista sociopolítico de
nifica, entre outras coisas, que uma teoria social classe do proletariado. Conhecimento do mundo
também é função de um ponto de vista de ciasse: burguês, vinculada umbilicalmente ao projeto revo­
m uito dificilmente o ponto de vista da(s) classe(s) lucionário, a teoria social de Marx é uma daquelas
dominante(s) possibilita a um estudioso romper matrizes culturais do mundo contemporâneo a
com as limitações que as contingências dos inte­ que inicialmente fizemos referência.
resses de conservação da ordem social lhe impõem. A outra matriz importante procede da transfor­
Retomemos o fio do nosso argumento. Em mação subseqüente do pensamento restaurador e
meados do século 19, estavam dados os pressupos­ romântico que se adequa às necessidades de conser­
tos para a emergência de uma teoria social capaz vação, gestão e reforma da sociedade burguesa.
de apreender a estrutura íntima da sociedade bur­ Partindo dos "fatos sociais” como realidades
guesa — a tradição cultural acumulada desde o objetivas indiscutíveis, este pensamento aceita
lluminismo, a visibilidade do ser social como tal acriticamente a aparência imediata dos fenômenos
e um movimento revolucionário a partir de cujos sociais e sobre ela constrói as suas reflexões. Basica­
interesses de classe era possível ultrapassar a apa­ mente, é o positivismo e todas as suas derivações
rência coisificada dos fenômenos sociais. Marx é posteriores, que não podem ser vistas apenas como
o pensador que funda esta teoria, num processo equívocos, mas sobretudo como a incapacidade de
intelectual em que, legatário daquela tradição, ele o pensamento romper com os mecanismos da alie­
inaugura um modo radicalmente novo de com­ nação e da reificação — incapacidade socialmente
preender a sociedade burguesa — compreendê-la condicionada, quer pelo ponto de vista de classe
para suprimi-la. dos seus representantes, quer pelo arsenal teórico
20 J osé Paulo N etto

de que se valem.
A esse pensamento conservador, tão marcante-
mente influenciado pelos movimentos epide'rmicos
da sociedade burguesa, devemos a constituição e o
florescimento das chamadas ciências sociais, disci­
plinas particulares e autônomas que, nas suas espe­
cializações e procedimentos, reproduzem as cristali­
zações e as divisões que existem na superfície da
sociedade. UMA TEORIA
É supe'rfluo observar que o desenvolvimento DA SOCIEDADE BURGUESA
dessa matriz positivista (bem como das suas ulte­
riores inflexões, como o funcionalismo, o estrutu-
ral-funcionalismo, o neopositivismo estrito, o estru­
turalismo), tendo sempre, franca ou veladamente, Como terei oportunidade de sugerir, os marxis­
Marx como interlocutor, não excluiu a continui­ tas (e não só eles) encaram de maneira muito varia­
dade e a renovação das tendências místicas e mito- da a obra de Marx. As interpretações são numero­
logizantes que se abrigavam na gênese do pensa­ sas, às vezes conflitantes, às vezes complementares.
mento conservador. Aparentemente contrapostas, Penso que uma abordagem válida (mas igual­
a matriz positivista e essas posturas irracionalistas mente polêmica) é aquela que toma a obra mar­
dão-se as mãos para prover a sociedade burguesa xiana como sendo, essencialmente, uma teoria da
de legitimações ideológicas. sociedade burguesa: um complexo sistemático de
Assim, ao contrário do que asseguram muitos hipóteses verificáveis, extrafdas da análise histórica
estudiosos, o século 19 não está “ superado": as concreta, sobre a gênese, a constituição e o desen­
principais matrizes intelectuais nele emergentes volvimento da organização social que se estrutura
estão mais vivas e atuantes que nunca - num pólo, quando o modo de produção capitalista se torna
a inaugurada por Marx; noutro, a estabelecida pelo dominante. Naturalmente que não há condições,
positivismo. E talvez não seja falso supor que isto num íivro como este, de extrair todas as conse­
não se modificará substancialmente antes que o qüências e implicações desta abordagem. Eu me
processo histórico remova definitivamente da cena limitarei ao realce dos traços gerais da obra de
o mundo burguês. Marx a partir deste enfoque.
20 J osé Paulo N etto

de que se valem.
A esse pensamento conservador, tão marcante-
mente influenciado pelos movimentos epide'rmicos
da sociedade burguesa, devemos a constituição e o
florescimento das chamadas ciências sociais, disci­
plinas particulares e autônomas que, nas suas espe­
cializações e procedimentos, reproduzem as cristali­
zações e as divisões que existem na superfície da
sociedade. UMA TEORIA
É supe'rfluo observar que o desenvolvimento DA SOCIEDADE BURGUESA
dessa matriz positivista (bem como das suas ulte­
riores inflexões, como o funcionalismo, o estrutu-
ral-funcionalismo, o neopositivismo estrito, o estru­
turalismo), tendo sempre, franca ou veladamente, Como terei oportunidade de sugerir, os marxis­
Marx como interlocutor, não excluiu a continui­ tas (e não só eles) encaram de maneira muito varia­
dade e a renovação das tendências místicas e mito- da a obra de Marx. As interpretações são numero­
logizantes que se abrigavam na gênese do pensa­ sas, às vezes conflitantes, às vezes complementares.
mento conservador. Aparentemente contrapostas, Penso que uma abordagem válida (mas igual­
a matriz positivista e essas posturas irracionalistas mente polêmica) é aquela que toma a obra mar­
dão-se as mãos para prover a sociedade burguesa xiana como sendo, essencialmente, uma teoria da
de legitimações ideológicas. sociedade burguesa: um complexo sistemático de
Assim, ao contrário do que asseguram muitos hipóteses verificáveis, extrafdas da análise histórica
estudiosos, o século 19 não está “ superado": as concreta, sobre a gênese, a constituição e o desen­
principais matrizes intelectuais nele emergentes volvimento da organização social que se estrutura
estão mais vivas e atuantes que nunca - num pólo, quando o modo de produção capitalista se torna
a inaugurada por Marx; noutro, a estabelecida pelo dominante. Naturalmente que não há condições,
positivismo. E talvez não seja falso supor que isto num íivro como este, de extrair todas as conse­
não se modificará substancialmente antes que o qüências e implicações desta abordagem. Eu me
processo histórico remova definitivamente da cena limitarei ao realce dos traços gerais da obra de
o mundo burguês. Marx a partir deste enfoque.
22 J osé Paulo N etto O que c marxismo 23

No capítulo precedente, vimos que a obra de para arrolar os seus livros principais — o pensador
Marx não surge na cultura e na história ociden­ alemão que nasceu em Trèves, viveu na França e
tais como um raio inesperado em céu sereno. Re­ na Bélgica e, depois de 1850, experimentou o
sultante de um contexto sociopolítico determi­ exílio em Londres, deixou um acervo de textos e
nado, ela é uma resposta aos problemas colocados uma copiosa correspondência que, ainda hoje, se
pela sociedade burguesa e uma proposta de inter­ oferecem como um vasto campo para a pesquisa.
venção que tem como centro a classe operária. Mas é de assinalar que sua obra é fruto de uma longa
Esses dois aspectos são inseparáveis, é a partir maturação, que ocupa pelo menos dois quintos do
da perspectiva da revolução que Marx pensa a tempo em que Marx trabalhou. Com efeito, na sua
sociedade burguesa; a prática política que pode trajetória intelectual (de 1841 até o início da dé­
conduzir à ultrapassagem desta sociedade fornece- cada de 80) são perceptíveis momentos diferencia­
lhe o ponto arquimediano do qual arranca a sua dos, interrupções e retomadas.
reflexão. A perspectiva revolucionária confere A existência de giros nessa evolução complicada
sustentação social ao caráter radicalmente crítico deu motivo a interpretações que chegam a opor
da teoria marxiana, um caráter aliás imprescin­ o “ jovem Marx“ ao “ Marx da maturidade". Tais
dível a qualquer conhecimento que não se con­ interpretações são equivocadas: desde 1843 (quan­
tente apenas com a constatação dos fatos — mas do elabora a sua primeira crítica a Hegel), o pensa­
que tome os fatos como sinais e índices, avan­ mento marxiano se desenrola num percurso que
çando deles para os processos nos quais adquirem obedece a uma rigorosa lógica, subordinada ao
sentido e significação. 0 conteúdo crítico da obra objetivo de compreender a sociedade burguesa. Os
de Marx, portanto, é uma síntese de exigências passos sucessivos de Marx, nesta via, se distinguem
teóricas e práticas, permitindo a produção de um pelo grau de concreticidade que progressivamente
conhecimento vinculado explicitamente à trans­ alcança e que, em larga medida, são condicionados
formação social estrutural. pela sua experiência como teórico e dirigente revo­
é evidente, porém, que a obra marxiana, a partir
lucionário e pelas lutas da classe operária européia.
dos pressupostos que indiquei, não se construiu Esta evolução tem um ponto de arranque, em
de um só golpe. Não é este o lugar para que se trace 1844/1845, na crítica a que Marx, com Engels,
um roteiro biográfico de Marx (1818-1883), nem submete a concepção de filosofia vigente (A Ideo­
para mencionar a importância crucial da sua cola­ logia Alemã); avança para um patamar original
boração com Engels (1820-1895). E, menos ainda. em 1847/1848, quando ele realiza a sua primeira

«»«»
22 J osé Paulo N etto O que c marxismo 23

No capítulo precedente, vimos que a obra de para arrolar os seus livros principais — o pensador
Marx não surge na cultura e na história ociden­ alemão que nasceu em Trèves, viveu na França e
tais como um raio inesperado em céu sereno. Re­ na Bélgica e, depois de 1850, experimentou o
sultante de um contexto sociopolítico determi­ exílio em Londres, deixou um acervo de textos e
nado, ela é uma resposta aos problemas colocados uma copiosa correspondência que, ainda hoje, se
pela sociedade burguesa e uma proposta de inter­ oferecem como um vasto campo para a pesquisa.
venção que tem como centro a classe operária. Mas é de assinalar que sua obra é fruto de uma longa
Esses dois aspectos são inseparáveis, é a partir maturação, que ocupa pelo menos dois quintos do
da perspectiva da revolução que Marx pensa a tempo em que Marx trabalhou. Com efeito, na sua
sociedade burguesa; a prática política que pode trajetória intelectual (de 1841 até o início da dé­
conduzir à ultrapassagem desta sociedade fornece- cada de 80) são perceptíveis momentos diferencia­
lhe o ponto arquimediano do qual arranca a sua dos, interrupções e retomadas.
reflexão. A perspectiva revolucionária confere A existência de giros nessa evolução complicada
sustentação social ao caráter radicalmente crítico deu motivo a interpretações que chegam a opor
da teoria marxiana, um caráter aliás imprescin­ o “ jovem Marx“ ao “ Marx da maturidade". Tais
dível a qualquer conhecimento que não se con­ interpretações são equivocadas: desde 1843 (quan­
tente apenas com a constatação dos fatos — mas do elabora a sua primeira crítica a Hegel), o pensa­
que tome os fatos como sinais e índices, avan­ mento marxiano se desenrola num percurso que
çando deles para os processos nos quais adquirem obedece a uma rigorosa lógica, subordinada ao
sentido e significação. 0 conteúdo crítico da obra objetivo de compreender a sociedade burguesa. Os
de Marx, portanto, é uma síntese de exigências passos sucessivos de Marx, nesta via, se distinguem
teóricas e práticas, permitindo a produção de um pelo grau de concreticidade que progressivamente
conhecimento vinculado explicitamente à trans­ alcança e que, em larga medida, são condicionados
formação social estrutural. pela sua experiência como teórico e dirigente revo­
é evidente, porém, que a obra marxiana, a partir
lucionário e pelas lutas da classe operária européia.
dos pressupostos que indiquei, não se construiu Esta evolução tem um ponto de arranque, em
de um só golpe. Não é este o lugar para que se trace 1844/1845, na crítica a que Marx, com Engels,
um roteiro biográfico de Marx (1818-1883), nem submete a concepção de filosofia vigente (A Ideo­
para mencionar a importância crucial da sua cola­ logia Alemã); avança para um patamar original
boração com Engels (1820-1895). E, menos ainda. em 1847/1848, quando ele realiza a sua primeira

«»«»
24 J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 25

abordagem de conjunto da sociedade burguesa (na dialética (que recuperou de Hegel), a teoria do
Miséria da Filosofia e, com Engels, no Manifesto valor-trabalho (que tomou de Smith e Ricardo), a
do Partido Comunista) e atinge seu pleno desen­ denúncia da miséria da vida sob o capitalismo e o
volvimento entre 1857/1858, com a descoberta das apeio a uma nova ordem social (que encontrou
determinações fundamentais da vida social bur­ nos chamados "socialistas utópicos"), o reconhe­
guesa (nos famosos Grundrisse, manuscritos prévios cimento do papel histórico fundamental das lutas
a'O Capitai). de classes (presente nos historiadores das revolu­
Nessa evolução, naturalmente que há passagens ções burguesas) — todo este patrimônio é incor­
mais ou menos relevantes; o espólio marxiano não porado por Marx e só recebe um tratamento con­
tem valor uniforme e nem todas as reflexões de clusivo à medida que seu próprio pensamento se
Marx se mostram hoje igualmente válidas, E tarefa clarifica. E esta clarificação vem no curso de con­
da crftica avaliar o que, na ciclópica obra marxiana, frontos com a realidade social da época, de acesas
transcende os limites históricos de Marx e o que, polêmicas com os socialistas contemporâneos e
decorridos cem anos desde a sua morte, deve ser nela é primordial a colaboração com Engels.
deixado de mão, como lastro superado pelo tempo A incorporação desse acervo teórico-cultural,
e pelas modificações sofridas pela realidade social. porque crftica, não foi arbitrária. Implicou uma
E também considerando a maturação do pensa­ criteriosa seleção e, ainda, a atribuição de novos
mento de Marx que se pode equacionar convenien­ e diferenciados sentidos e conteúdos a conquistas
temente a sua relação com o bloco cultural progres­ intelectuais anteriores. Marx assimilou a herança
sista a que já me referi. Sugeri, no capftulo an­ cultura! progressista reelaborando-a para os obje­
terior, que esta relação é, ao mesmo tempo, de tivos de suas investigações, sintetizadas num
continuidade e de ruptura — uma superação, como texto de janeiro de 1859 (o prefácio à obra Para
diriam os filósofos, é na sua evolução intelectual a Crftica da Economia Política):
que Marx se vai livrando das "influências" e arti­ "O resultado geral a que cheguei e que, uma
culando o modo radicalmente novo de pensar a vez obtido, serviu-me de fio condutor de meus
sociedade. Neste processo, a sua reflexão resgata estudos, pode ser formulado em poucas palavras:
daquele bloco todo um conjunto de procedimen­ na produção social da própria vida, os homens
tos, temas, idéias e categorias; mas o faz numa ope­ contraem relações determinadas, necessárias e inde­
ração crftica, tanto mais rigorosa quanto mais defi­ pendentes da sua vontade, relações de produção
nido se toma o seu projeto teórico. A concepção estas que correspondem a uma etapa determinada
24 J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 25

abordagem de conjunto da sociedade burguesa (na dialética (que recuperou de Hegel), a teoria do
Miséria da Filosofia e, com Engels, no Manifesto valor-trabalho (que tomou de Smith e Ricardo), a
do Partido Comunista) e atinge seu pleno desen­ denúncia da miséria da vida sob o capitalismo e o
volvimento entre 1857/1858, com a descoberta das apeio a uma nova ordem social (que encontrou
determinações fundamentais da vida social bur­ nos chamados "socialistas utópicos"), o reconhe­
guesa (nos famosos Grundrisse, manuscritos prévios cimento do papel histórico fundamental das lutas
a'O Capitai). de classes (presente nos historiadores das revolu­
Nessa evolução, naturalmente que há passagens ções burguesas) — todo este patrimônio é incor­
mais ou menos relevantes; o espólio marxiano não porado por Marx e só recebe um tratamento con­
tem valor uniforme e nem todas as reflexões de clusivo à medida que seu próprio pensamento se
Marx se mostram hoje igualmente válidas, E tarefa clarifica. E esta clarificação vem no curso de con­
da crftica avaliar o que, na ciclópica obra marxiana, frontos com a realidade social da época, de acesas
transcende os limites históricos de Marx e o que, polêmicas com os socialistas contemporâneos e
decorridos cem anos desde a sua morte, deve ser nela é primordial a colaboração com Engels.
deixado de mão, como lastro superado pelo tempo A incorporação desse acervo teórico-cultural,
e pelas modificações sofridas pela realidade social. porque crftica, não foi arbitrária. Implicou uma
E também considerando a maturação do pensa­ criteriosa seleção e, ainda, a atribuição de novos
mento de Marx que se pode equacionar convenien­ e diferenciados sentidos e conteúdos a conquistas
temente a sua relação com o bloco cultural progres­ intelectuais anteriores. Marx assimilou a herança
sista a que já me referi. Sugeri, no capftulo an­ cultura! progressista reelaborando-a para os obje­
terior, que esta relação é, ao mesmo tempo, de tivos de suas investigações, sintetizadas num
continuidade e de ruptura — uma superação, como texto de janeiro de 1859 (o prefácio à obra Para
diriam os filósofos, é na sua evolução intelectual a Crftica da Economia Política):
que Marx se vai livrando das "influências" e arti­ "O resultado geral a que cheguei e que, uma
culando o modo radicalmente novo de pensar a vez obtido, serviu-me de fio condutor de meus
sociedade. Neste processo, a sua reflexão resgata estudos, pode ser formulado em poucas palavras:
daquele bloco todo um conjunto de procedimen­ na produção social da própria vida, os homens
tos, temas, idéias e categorias; mas o faz numa ope­ contraem relações determinadas, necessárias e inde­
ração crftica, tanto mais rigorosa quanto mais defi­ pendentes da sua vontade, relações de produção
nido se toma o seu projeto teórico. A concepção estas que correspondem a uma etapa determinada
J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 27
26

de desenvolvimento das suas forças produtivas que um indivíduo é a partir do julgamento que ele
materiais. A totalidade destas relações de produ­ faz de si mesmo, da mesma maneira não se pode
ção forma a estrutura econômica da sociedade, a julgar uma época de transformação a partir da sua
base real sobre a qual se levanta uma superestrutura própria consciência; ao contrário, é preciso explicar
jurídica e política, e à qual correspondem formas essa consciência a partir das contradições da vida
sociais determinadas de consciência. 0 modo de material, a partir do conflito existente entre as
produção da vida material condiciona o processo forças produtivas sociais e as relações de produ­
em geral de vida social, político e espiritual. Não ção. Uma formação social nunca perece antes que
é a consciência dos homens que determina o seu estejam desenvolvidas todas as forças produtivas
ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que deter­ para as quais ela é suficientemente desenvolvida, e
mina a sua consciência. Em uma certa etapa de seu novas relações de produção mais adiantadas jamais
desenvolvimento, as forças produtivas materiais tomarão o lugar antes que suas condições mate­
da sociedade entram em contradição com as rela­ riais de existência tenham sido geradas no seio
ções de produção existentes ou, o que nada mais mesmo da velha sociedade. £ por isto que a huma­
é do que a sua expressão jurídica, com as relações nidade só se propõe as tarefas que pode resolver,
de propriedade dentro das quais aquelas até então pois, se se considera mais atentamente, se che­
se tinham movido. De formas de desenvolvimento gará à conclusão de que a própria tarefa só aparece
das forças produtivas essas relações se transformam onde as condições materiais de sua solução já
em seus grilhões. Sobrevêm então uma época de existem, ou, pelo menos, são captadas no processo
revolução social. Com a transformação da base do seu devir. Em grandes traços, podem ser ca­
econômica, toda a enorme superestrutura se trans­ racterizadas como épocas progressivas da formação
forma com maior ou menor rapidez. Na considera­ econômica da sociedade os modos de produção:
ção de tais transformações é necessário distinguir asiático, antigo, feudal e burguês moderno. As
sempre entre a transformação material das condi­ relações burguesas de produção constituem a
ções econômicas de produção, que pode ser objeto última forma antagônica do processo social de
de rigorosa verificação da ciência natural, e as produção; antagônicas não em um sentido indi­
formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou vidual, mas de um antagonismo nascente das
filosóficas, em resumo, as formas ideológicas pelas condições sociais de vida dos indivíduos; contudo,
quais os homens tomam consciência desse conflito as forças produtivas que se encontram em desen­
e o conduzem até o fim. Assim como não se julga o volvimento no seio da sociedade burguesa criam ao
J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 27
26

de desenvolvimento das suas forças produtivas que um indivíduo é a partir do julgamento que ele
materiais. A totalidade destas relações de produ­ faz de si mesmo, da mesma maneira não se pode
ção forma a estrutura econômica da sociedade, a julgar uma época de transformação a partir da sua
base real sobre a qual se levanta uma superestrutura própria consciência; ao contrário, é preciso explicar
jurídica e política, e à qual correspondem formas essa consciência a partir das contradições da vida
sociais determinadas de consciência. 0 modo de material, a partir do conflito existente entre as
produção da vida material condiciona o processo forças produtivas sociais e as relações de produ­
em geral de vida social, político e espiritual. Não ção. Uma formação social nunca perece antes que
é a consciência dos homens que determina o seu estejam desenvolvidas todas as forças produtivas
ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que deter­ para as quais ela é suficientemente desenvolvida, e
mina a sua consciência. Em uma certa etapa de seu novas relações de produção mais adiantadas jamais
desenvolvimento, as forças produtivas materiais tomarão o lugar antes que suas condições mate­
da sociedade entram em contradição com as rela­ riais de existência tenham sido geradas no seio
ções de produção existentes ou, o que nada mais mesmo da velha sociedade. £ por isto que a huma­
é do que a sua expressão jurídica, com as relações nidade só se propõe as tarefas que pode resolver,
de propriedade dentro das quais aquelas até então pois, se se considera mais atentamente, se che­
se tinham movido. De formas de desenvolvimento gará à conclusão de que a própria tarefa só aparece
das forças produtivas essas relações se transformam onde as condições materiais de sua solução já
em seus grilhões. Sobrevêm então uma época de existem, ou, pelo menos, são captadas no processo
revolução social. Com a transformação da base do seu devir. Em grandes traços, podem ser ca­
econômica, toda a enorme superestrutura se trans­ racterizadas como épocas progressivas da formação
forma com maior ou menor rapidez. Na considera­ econômica da sociedade os modos de produção:
ção de tais transformações é necessário distinguir asiático, antigo, feudal e burguês moderno. As
sempre entre a transformação material das condi­ relações burguesas de produção constituem a
ções econômicas de produção, que pode ser objeto última forma antagônica do processo social de
de rigorosa verificação da ciência natural, e as produção; antagônicas não em um sentido indi­
formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou vidual, mas de um antagonismo nascente das
filosóficas, em resumo, as formas ideológicas pelas condições sociais de vida dos indivíduos; contudo,
quais os homens tomam consciência desse conflito as forças produtivas que se encontram em desen­
e o conduzem até o fim. Assim como não se julga o volvimento no seio da sociedade burguesa criam ao
28 J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 29

mesmo tempo as condições materiais para a so­


lução desse antagonismo. Daí que com essa for­
mação social se encerra a pré-história da sociedade
humana."
Que o leitor me perdoe a longa transcrição — ela,
poném, oferece uma excelente súmula do trata­
mento a que Marx submetia questões tão funda­
mentais como ser e consciência sociais, produção
social e organização sociocultural, ideologia e
revolução. E, a propósito das investigações mar-
xianas, dois aspectos devem merecer a nossa
atenção.
Em primeiro lugar, Marx enfoca a sociedade
burguesa como produto de um processo pluris­
secular, no qual certas possibilidades do gênero
humano não só se explicitam como, ainda, servem
para iluminar etapas históricas precedentes, Na sua
ótica, é o presente que esclarece o passado — o
mais complexo ajuda a explicar o mais simples.
Conseqüentemente, ao elaborar a sua teoria da
sociedade burguesa, Marx estabeleceu deter­
minações de validez mais ampla. Foi desta ma­
neira que concebeu o homem como um ser prá­
tico e social, produzindo-se a si mesmo atra­
vés das suas objetivações (a praxis, de que o pro­
cesso do trabalho é o momento privilegiado)
e organizando as suas relações com os outros A teoria marxiana toma a sociedade (burguesa) como
homens e com a natureza conforme o nível de uma totalidade, um sistema dinâmico
desenvolvimento dos meios pelos quais se mantém e contraditório. . .
e reproduz enquanto homem.
J
28 J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 29

mesmo tempo as condições materiais para a so­


lução desse antagonismo. Daí que com essa for­
mação social se encerra a pré-história da sociedade
humana."
Que o leitor me perdoe a longa transcrição — ela,
poném, oferece uma excelente súmula do trata­
mento a que Marx submetia questões tão funda­
mentais como ser e consciência sociais, produção
social e organização sociocultural, ideologia e
revolução. E, a propósito das investigações mar-
xianas, dois aspectos devem merecer a nossa
atenção.
Em primeiro lugar, Marx enfoca a sociedade
burguesa como produto de um processo pluris­
secular, no qual certas possibilidades do gênero
humano não só se explicitam como, ainda, servem
para iluminar etapas históricas precedentes, Na sua
ótica, é o presente que esclarece o passado — o
mais complexo ajuda a explicar o mais simples.
Conseqüentemente, ao elaborar a sua teoria da
sociedade burguesa, Marx estabeleceu deter­
minações de validez mais ampla. Foi desta ma­
neira que concebeu o homem como um ser prá­
tico e social, produzindo-se a si mesmo atra­
vés das suas objetivações (a praxis, de que o pro­
cesso do trabalho é o momento privilegiado)
e organizando as suas relações com os outros A teoria marxiana toma a sociedade (burguesa) como
homens e com a natureza conforme o nível de uma totalidade, um sistema dinâmico
desenvolvimento dos meios pelos quais se mantém e contraditório. . .
e reproduz enquanto homem.
J
J o s é Pa u l o N e t t o O que é marxismo 31
30

Em segundo lugar, um traço distintivo da teoria em avançar do empírico (os "fato s"), apanhar
marxiana é que ela toma a sociedade (burguesa) as suas relações com outros conjuntos empíricos,
como uma totalidade: não como um conjunto de investigar a sua gênese histórica e o seu desenvol­
partes que se integram funcionalmente (um todo), vimento interno e reconstruir, no plano do pen­
mas como um sistema dinâmico e contraditório samento, todo este processo. O circuito investi-
de relações articuladas que se implicam e se expli­ gativo, recorrendo compulsoriamente à abstra­
cam estruturalmente. É uma teoria que quer ção, retornava sempre ao seu ponto de partida — e,
apanhar o movimento constitutivo do social — mo­ a cada retorno, compreendia-o de modo cada
vimento que se expressa sob formas econômicas, vez mais inclusivo e abrangente. Os fatos, a cada
políticas e culturais, mas que extravasa todas elas. nova abordagem, se apresentam como produtos
Por isso, a análise da organização da economia (a de relações históricas crescentemente complexas
crítica da economia política) é o ponto de irradia­ e mediatizadas — podendo ser contextualizados
ção para a análise da estrutura de classes e da de modo concreto e inseridos no movimento maior
funcionalidade do poder (a crítica do Estado) e que os engendra. É um método, portanto, que, em
das formulações jurídico-políticas (a crítica da aproximações sucessivas ao real, agarra a história
ideologia). E a pesquisa destas dimensões do social dos processos simultaneamente às suas particulari­
remete de uma a outra — assim, a análise do movi­ dades internas. Um método que não se forja inde­
mento do capital remete à análise do movimento pendentemente do objeto que se pesquisa — o
das classes etc. Compreende-se, pois, que em Marx método é uma relação necessária pela qual o
exista uma teoria da sociedade burguesa que pouco sujeito que investiga pode reproduzir intelectual­
tem a ver com as ciências sociais especializadas mente o processo do objeto investigado.
(economia, sociologia etc.), ainda que opere com A análise da sociedade burguesa (realizada
os mesmos materiais que servem de objeto a elas. tendo como referência a Inglaterra, o país capi­
Da mesma forma, fica óbvio que, na teoria mar­ talista mais progressista do seu tempo) revela-a a
xiana, não há lugar para qualquer concepção fato- Marx como uma forma de organização social
rialista da sociedade ou da história (a predominân­ extremamente dinâmica, a mais avançada de
cia abstrata do "fa to r econômico" ou semelhantes). quantas embasadas na propriedade privada dos
Esses dois aspectos cardeais do pensamento meios de produção e na divisão social do trabalho,
marxiano relacionam-se ao método de pesquisa prenunciadora do fim da "pré-história humana".
de Marx. O seu procedimento consistia sempre Nela, todas as contradições do movimento social
J o s é Pa u l o N e t t o O que é marxismo 31
30

Em segundo lugar, um traço distintivo da teoria em avançar do empírico (os "fato s"), apanhar
marxiana é que ela toma a sociedade (burguesa) as suas relações com outros conjuntos empíricos,
como uma totalidade: não como um conjunto de investigar a sua gênese histórica e o seu desenvol­
partes que se integram funcionalmente (um todo), vimento interno e reconstruir, no plano do pen­
mas como um sistema dinâmico e contraditório samento, todo este processo. O circuito investi-
de relações articuladas que se implicam e se expli­ gativo, recorrendo compulsoriamente à abstra­
cam estruturalmente. É uma teoria que quer ção, retornava sempre ao seu ponto de partida — e,
apanhar o movimento constitutivo do social — mo­ a cada retorno, compreendia-o de modo cada
vimento que se expressa sob formas econômicas, vez mais inclusivo e abrangente. Os fatos, a cada
políticas e culturais, mas que extravasa todas elas. nova abordagem, se apresentam como produtos
Por isso, a análise da organização da economia (a de relações históricas crescentemente complexas
crítica da economia política) é o ponto de irradia­ e mediatizadas — podendo ser contextualizados
ção para a análise da estrutura de classes e da de modo concreto e inseridos no movimento maior
funcionalidade do poder (a crítica do Estado) e que os engendra. É um método, portanto, que, em
das formulações jurídico-políticas (a crítica da aproximações sucessivas ao real, agarra a história
ideologia). E a pesquisa destas dimensões do social dos processos simultaneamente às suas particulari­
remete de uma a outra — assim, a análise do movi­ dades internas. Um método que não se forja inde­
mento do capital remete à análise do movimento pendentemente do objeto que se pesquisa — o
das classes etc. Compreende-se, pois, que em Marx método é uma relação necessária pela qual o
exista uma teoria da sociedade burguesa que pouco sujeito que investiga pode reproduzir intelectual­
tem a ver com as ciências sociais especializadas mente o processo do objeto investigado.
(economia, sociologia etc.), ainda que opere com A análise da sociedade burguesa (realizada
os mesmos materiais que servem de objeto a elas. tendo como referência a Inglaterra, o país capi­
Da mesma forma, fica óbvio que, na teoria mar­ talista mais progressista do seu tempo) revela-a a
xiana, não há lugar para qualquer concepção fato- Marx como uma forma de organização social
rialista da sociedade ou da história (a predominân­ extremamente dinâmica, a mais avançada de
cia abstrata do "fa to r econômico" ou semelhantes). quantas embasadas na propriedade privada dos
Esses dois aspectos cardeais do pensamento meios de produção e na divisão social do trabalho,
marxiano relacionam-se ao método de pesquisa prenunciadora do fim da "pré-história humana".
de Marx. O seu procedimento consistia sempre Nela, todas as contradições do movimento social
32 J osé Paulo N etto O que é marxismo 33

alcançam o seu ápice e, no mesmo processo, se que dificulta ao proletariado a descoberta dos seus
gestam as condições para superá-las e inaugurar verdadeiros interesses. A consciência de classe
a “ história da humanidade". proletária só é alcançada mediante uma dramática
Generalizando e universalizando a troca mer- luta contra as mistificações (na qual tem grande
cantiJ, a sociedade burguesa é atravessada por uma relevância o conhecimento veraz da realidade). A
contradição insanável nos seus marcos: a contra­ revolução entra na ordem do dia quando o prole­
dição entre o caráter social da produção e a sua tariado, através da ação dos seus segmentos de
apropriação privada (pelos capitalistas). Antago­ vanguarda, atinge aquela consciência e, pela sua
nizando os que detêm os meios de produção organização, polariza outros setores sociais explo­
(capitalistas) com os que só têm a sua força de rados e/ou oprimidos. E isto só se viabiliza quando
trabalho (proletários), esta sociedade apenas se a própria sociedade burguesa se desenvolveu a
desenvolve através de crises econômicas ineliminá- ponto tal que tenha gerado um proletariado nume­
veis e vai reproduzindo, em todos os seus níveis e roso e concentrado (o que supõe um alto grau de
dimensões, conflitos e tensões que, acumulados e industrialização) e formas políticas que lhe possibi­
multiplicados, incompatibilizam a maioria dos litem alguma margem de ação política organizada
homens com o modo de vida imperante. (o que implica a vigência de direitos cívicos).
A totalidade social é penetrada, em todas as Para Marx, a revolução exigia a ascensão do pro­
instâncias, pelas incidências das contradições, que letariado, à frente de um arco de forças antibur-
possuem seus próprios rebatimentos políticos e guesas, ao poder político: a desestruturação do
culturais. E as crises, em si mesmas, são uma con­ Estado burguês abriria a passagem à nova ordem
dição da existência desta sociedade — e só são social — um período de transição denominado
equacionadas, no limite, pela vontade política socialismo. Lapso de tempo para a reorganização
das classes sociais fundamentais. 0 equaciona­ da sociedade, com a supressão das classes sociais
mento dos capitalistas conduz à crescente bar- e seus fundamentos (especialmente a propriedade
barização social; o dos proletários, à supressão do privada dos meios de produção) e do Estado como
sistema, à revolução que expressa seus interesses instância coatora, a transição socialista se caracte­
gerais. rizaria como uma democracia de massas (o que,
O sistema social burguês, todavia, engendra umas poucas vezes, Marx chamou de "ditadura
todo um ambiente psicossocial (um modo de do proletariado") e criaria os pressupostos para a
pensar matrizado pela alienação e pela reificação) "história da humanidade", com a exploração do
32 J osé Paulo N etto O que é marxismo 33

alcançam o seu ápice e, no mesmo processo, se que dificulta ao proletariado a descoberta dos seus
gestam as condições para superá-las e inaugurar verdadeiros interesses. A consciência de classe
a “ história da humanidade". proletária só é alcançada mediante uma dramática
Generalizando e universalizando a troca mer- luta contra as mistificações (na qual tem grande
cantiJ, a sociedade burguesa é atravessada por uma relevância o conhecimento veraz da realidade). A
contradição insanável nos seus marcos: a contra­ revolução entra na ordem do dia quando o prole­
dição entre o caráter social da produção e a sua tariado, através da ação dos seus segmentos de
apropriação privada (pelos capitalistas). Antago­ vanguarda, atinge aquela consciência e, pela sua
nizando os que detêm os meios de produção organização, polariza outros setores sociais explo­
(capitalistas) com os que só têm a sua força de rados e/ou oprimidos. E isto só se viabiliza quando
trabalho (proletários), esta sociedade apenas se a própria sociedade burguesa se desenvolveu a
desenvolve através de crises econômicas ineliminá- ponto tal que tenha gerado um proletariado nume­
veis e vai reproduzindo, em todos os seus níveis e roso e concentrado (o que supõe um alto grau de
dimensões, conflitos e tensões que, acumulados e industrialização) e formas políticas que lhe possibi­
multiplicados, incompatibilizam a maioria dos litem alguma margem de ação política organizada
homens com o modo de vida imperante. (o que implica a vigência de direitos cívicos).
A totalidade social é penetrada, em todas as Para Marx, a revolução exigia a ascensão do pro­
instâncias, pelas incidências das contradições, que letariado, à frente de um arco de forças antibur-
possuem seus próprios rebatimentos políticos e guesas, ao poder político: a desestruturação do
culturais. E as crises, em si mesmas, são uma con­ Estado burguês abriria a passagem à nova ordem
dição da existência desta sociedade — e só são social — um período de transição denominado
equacionadas, no limite, pela vontade política socialismo. Lapso de tempo para a reorganização
das classes sociais fundamentais. 0 equaciona­ da sociedade, com a supressão das classes sociais
mento dos capitalistas conduz à crescente bar- e seus fundamentos (especialmente a propriedade
barização social; o dos proletários, à supressão do privada dos meios de produção) e do Estado como
sistema, à revolução que expressa seus interesses instância coatora, a transição socialista se caracte­
gerais. rizaria como uma democracia de massas (o que,
O sistema social burguês, todavia, engendra umas poucas vezes, Marx chamou de "ditadura
todo um ambiente psicossocial (um modo de do proletariado") e criaria os pressupostos para a
pensar matrizado pela alienação e pela reificação) "história da humanidade", com a exploração do
34 J osé Paulo N etto

homem pelo homem convertida em mera lem­


brança. A nova ordem social, o comunismo, não
assinalaria um harmonioso fim da história, mas
soíia a forma da sociedade humana. Não o reino
dos céus na terra, mas o rico espaço em que a pro­
messa da felicidade social seria possível com o
florescimento da personalidade de todos e cada
um dos homens, à base da "livre associação de
livres produtores".
Marx se absteve de quaisquer "previsões” sobre O NASCIMENTO DO MARXISMO
os traços, os ritmos e os contornos da sociedade
comunista. Seus escrúpulos intelectuais o impe­
diam de transformar a teoria em profecia. Aliás,
todas as suas conclusões assentam em estudos de É só nos últimos anos de vida de Marx que suas
realidade: por exemplo, a função histórica que principais propostas políticas começam a ganhar
atribui ao proletarido (a de agente revolucioná­ os setores mais combativos da classe operária da
rio) deriva da análise que faz da sua posição e do Europa Ocidental. Na verdade, entre as insurgên-
seu papel no interior da sociedade burguesa. Seus cias de 1S48 e a Comuna de Paris (1870-1871), as
cuidados em evitar mitos e utopismos de qualquer vanguardas proletárias se moveram no interior de
espécie sempre o levaram a recusar prognoses que um confuso espectro ideológico, onde se mescla­
não tivessem iastro teórico-racional inferido da vam idéias mutualistas, cooperativistas, anarquis­
realidade. tas e terroristas. A tentativa de unificar minima­
Todo esse rigor, entretanto, não foi suficiente mente o movimento operário através da Associação
para evitar que duas de suas hipóteses mais caras Internacional dos Trabalhadores (depois conhecida
fossem contraditadas pela história: a de que a revo­ como Primeira Internacional), levada a cabo por
lução se iniciaria nos países capitalistas avança­ Marx entre 1864 e 1871, se frustrou justamente em
dos e, a curto prazo, seria de âmbito mundial. Mas razão das divisões oriundas do sectarismo que im ­
aí surgiu em cena um novo protagonista, que Marx perava entre os representantes daquelas correntes.
apenas vislumbrou: o imperialismo, com a passa­ A hegemonia das propostas de Marx no seio
gem do capitalismo para a idade do monopólio. das vanguardas operárias se afirma paulatinamente.
34 J osé Paulo N etto

homem pelo homem convertida em mera lem­


brança. A nova ordem social, o comunismo, não
assinalaria um harmonioso fim da história, mas
soíia a forma da sociedade humana. Não o reino
dos céus na terra, mas o rico espaço em que a pro­
messa da felicidade social seria possível com o
florescimento da personalidade de todos e cada
um dos homens, à base da "livre associação de
livres produtores".
Marx se absteve de quaisquer "previsões” sobre O NASCIMENTO DO MARXISMO
os traços, os ritmos e os contornos da sociedade
comunista. Seus escrúpulos intelectuais o impe­
diam de transformar a teoria em profecia. Aliás,
todas as suas conclusões assentam em estudos de É só nos últimos anos de vida de Marx que suas
realidade: por exemplo, a função histórica que principais propostas políticas começam a ganhar
atribui ao proletarido (a de agente revolucioná­ os setores mais combativos da classe operária da
rio) deriva da análise que faz da sua posição e do Europa Ocidental. Na verdade, entre as insurgên-
seu papel no interior da sociedade burguesa. Seus cias de 1S48 e a Comuna de Paris (1870-1871), as
cuidados em evitar mitos e utopismos de qualquer vanguardas proletárias se moveram no interior de
espécie sempre o levaram a recusar prognoses que um confuso espectro ideológico, onde se mescla­
não tivessem iastro teórico-racional inferido da vam idéias mutualistas, cooperativistas, anarquis­
realidade. tas e terroristas. A tentativa de unificar minima­
Todo esse rigor, entretanto, não foi suficiente mente o movimento operário através da Associação
para evitar que duas de suas hipóteses mais caras Internacional dos Trabalhadores (depois conhecida
fossem contraditadas pela história: a de que a revo­ como Primeira Internacional), levada a cabo por
lução se iniciaria nos países capitalistas avança­ Marx entre 1864 e 1871, se frustrou justamente em
dos e, a curto prazo, seria de âmbito mundial. Mas razão das divisões oriundas do sectarismo que im ­
aí surgiu em cena um novo protagonista, que Marx perava entre os representantes daquelas correntes.
apenas vislumbrou: o imperialismo, com a passa­ A hegemonia das propostas de Marx no seio
gem do capitalismo para a idade do monopólio. das vanguardas operárias se afirma paulatinamente.
36 J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 37

consolidando-se na virada do século. Mesmo assim, Internacional não se limitaram a levar teses de
as propostas marxianas conviveram (e continuam Marx ao grande público; também procuraram apli­
a conviver hoje) com um leque diferenciado de car e desenvolver o legado marxiano, enfrentando
sugestões e alternativas, inclusive porque o movi­ temáticas que Marx não tratara ou não conhecera.
mento operário teve e tem fronteiras bem mais No seu trabalho, contudo, os ideológos da
amplas que as suas tendências revolucionárias. Segunda Internacional — um variado elenco de
A partir das duas últimas décadas do século 19 intelectuais alemães, russos, poloneses, italia­
é que se verifica o empolgamento das mais signifi­ nos etc. — não se houveram sem problemas ou
cativas vanguardas operárias pelas propostas deri­ equívocos. Além das naturais dificuldades ocasio­
vadas da teoria marxiana. E esse processo não se nadas pelas contingências das lutas de classes, al­
explica sem que se recorde que ele foi viabilizado guns elementos condicionaram negativamente a
pela criação do primeiro grande partido proletá­ sua tarefa.
rio de massas, o Partido Social-Democrata Alemão, De um lado, a complexidade mesma da obra
que se tornou o eixo da Segunda Internacional, marxiana, que supõe, para a sua correta leitura,
fundada em 1889. uma sólida formação cultural, especialmente um
Graças aos êxitos do partido alemão, em cujas conhecimento profundo dos procedimentos dia­
lideranças pontificavam dirigentes e teóricos liga­ léticos. Como complicador, lembre-se ainda que
dos a Marx e a Engels, a Segunda Internacional muitos textos marxianos fundamentais permane­
teve destino diferente do da sua antecessora: até ceram inéditos por longo tempo. De outro, as
a eclosão da Primeira Guerra Mundial, ela funcio­ próprias necessidades de tornar acessível às mas­
nou como organismo que deu o tom do movi­ sas um pensamento tão cheio de matizes favore­
mento operário revolucionário. No plano ideoló­ ceram uma atitude esquemática e simplificadora
gico, a entidade desempenhou um papel que está em face de reflexões ricas e multifacéticas.
longe de se exagerar: através de uma poderosa im­ E dois outros componentes se conjugaram para
prensa e um exército de publicistas, promoveu a emoldurar as limitações da intervenção da Se­
divulgação massiva de idéias contidas na obra de gunda Internacional neste terreno. Por uma parte,
Marx, colocou-as ao alcance de milhões de traba­ um generalizado espírito positivista (compreensí­
lhadores — em suma, conectou diretamente suges­ vel quer pela pressão da cultura manipuladora
tões de Marx à prática política de massas operá­ inerente à burguesia consolidada, quer pelo pres­
rias. Nesta operação, os homens da Segunda tígio desfrutado pelo cientificismo resultante das
36 J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 37

consolidando-se na virada do século. Mesmo assim, Internacional não se limitaram a levar teses de
as propostas marxianas conviveram (e continuam Marx ao grande público; também procuraram apli­
a conviver hoje) com um leque diferenciado de car e desenvolver o legado marxiano, enfrentando
sugestões e alternativas, inclusive porque o movi­ temáticas que Marx não tratara ou não conhecera.
mento operário teve e tem fronteiras bem mais No seu trabalho, contudo, os ideológos da
amplas que as suas tendências revolucionárias. Segunda Internacional — um variado elenco de
A partir das duas últimas décadas do século 19 intelectuais alemães, russos, poloneses, italia­
é que se verifica o empolgamento das mais signifi­ nos etc. — não se houveram sem problemas ou
cativas vanguardas operárias pelas propostas deri­ equívocos. Além das naturais dificuldades ocasio­
vadas da teoria marxiana. E esse processo não se nadas pelas contingências das lutas de classes, al­
explica sem que se recorde que ele foi viabilizado guns elementos condicionaram negativamente a
pela criação do primeiro grande partido proletá­ sua tarefa.
rio de massas, o Partido Social-Democrata Alemão, De um lado, a complexidade mesma da obra
que se tornou o eixo da Segunda Internacional, marxiana, que supõe, para a sua correta leitura,
fundada em 1889. uma sólida formação cultural, especialmente um
Graças aos êxitos do partido alemão, em cujas conhecimento profundo dos procedimentos dia­
lideranças pontificavam dirigentes e teóricos liga­ léticos. Como complicador, lembre-se ainda que
dos a Marx e a Engels, a Segunda Internacional muitos textos marxianos fundamentais permane­
teve destino diferente do da sua antecessora: até ceram inéditos por longo tempo. De outro, as
a eclosão da Primeira Guerra Mundial, ela funcio­ próprias necessidades de tornar acessível às mas­
nou como organismo que deu o tom do movi­ sas um pensamento tão cheio de matizes favore­
mento operário revolucionário. No plano ideoló­ ceram uma atitude esquemática e simplificadora
gico, a entidade desempenhou um papel que está em face de reflexões ricas e multifacéticas.
longe de se exagerar: através de uma poderosa im­ E dois outros componentes se conjugaram para
prensa e um exército de publicistas, promoveu a emoldurar as limitações da intervenção da Se­
divulgação massiva de idéias contidas na obra de gunda Internacional neste terreno. Por uma parte,
Marx, colocou-as ao alcance de milhões de traba­ um generalizado espírito positivista (compreensí­
lhadores — em suma, conectou diretamente suges­ vel quer pela pressão da cultura manipuladora
tões de Marx à prática política de massas operá­ inerente à burguesia consolidada, quer pelo pres­
rias. Nesta operação, os homens da Segunda tígio desfrutado pelo cientificismo resultante das
38 J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 39

conquistas da ciência da natureza da época) era


A leitura que os mais destacados teóricos da
compartilhado pela maioria dos seus ideólogos. Por
Segunda Internacional fazem da sua obra, sob os
outra, as exigências imediatas das lutas políticas os
condicionamentos que apontei, naturalmente re­
obrigavam menos a insistir no conhecimento
toma muito do pensamento marxiano, mas con­
teórico do que a criar um conjunto de valores,
vertendo-o em chave de interpretação para todos
símbolos e palavras de ordem que induzissem a
classe operaria à ação. os fenômenos (inclusive da natureza) e, simulta­
Todos esses elementos, e outros que não podem neamente, extraindo dele uma filosofia que, na
ser analisados aqui, condicionam a leitura e fundam prática sociopolítica, estabeleceria uma ideologia
a interpretação que a Segunda Internacional, atra­ revolucionária da classe operária. Resulta daí
vés de teóricos dotados como Kautsky e Plekha- este marxismo: um referencial global para o en­
tendimento científico (segundo os modelos da
nov, fez da obra marxiana. Interpretação que, no
ciência da natureza) do mundo e uma pauta de
momento em que trazia o pensamento de Marx às
comportamento sociopol ítico.
massas, modificava-o significativamente — e esta
Trocando em miúdos: o que originalmente eram
modificação consiste, fundamentalmente, na con­
hipóteses teórico-críticas para desvendar a essência
versão da obra de Marx em uma concepção de
de uma sociedade historicamente datada passa a
mundo (isto é: uma visão de conjunto da natureza
se constituir num padrão geral de pesquisa e in­
e do homem, um sistema completo e acabado).
terpretação, válido para qualquer objeto, e do
Estava nascendo um marxismo, e o termo, u tili­
qual derivam diretamente normas para a ação.
zado, ao que parece, pela primeira vez por Kautsky
Abria-se, tacitamente, o caminho para a conver­
um pouco antes do falecimento de Marx, arrancou
são da teoria em uma verdadeira doutrina — ca­
deste expressões de ironia e protesto.
minho ulteriormente percorrido pelo dogmatismo
Expliquemo-nos. Toda a gigantesca pesquisa de
da Terceira Internacional, como veremos.
Marx foi realizada para compreender a dinâmica da
É claro que, se se tomam seletivamente algumas
sociedade burguesa e, compreendendo-a, fornecer ao
passgens de Marx, encontram-se elementos para
proletariado as armas teóricas capazes de assegurar
justificar o marxismo assim concebido. E também
condições de êxito à sua ação revolucionária. Marx
é claro que a legítima autoridade de que Engels
dedicou-se a uma teoria crítica para fundamentar e
foi investido, depois da morte do companheiro,
legitimar a negação prática da sociedade burguesa
contribuiu para estimular decisivamente o nasci­
— este é o núcleo e o sentido da sua investigação.
mento do marxismo. Já no seu célebre Antí-
38 J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 39

conquistas da ciência da natureza da época) era


A leitura que os mais destacados teóricos da
compartilhado pela maioria dos seus ideólogos. Por
Segunda Internacional fazem da sua obra, sob os
outra, as exigências imediatas das lutas políticas os
condicionamentos que apontei, naturalmente re­
obrigavam menos a insistir no conhecimento
toma muito do pensamento marxiano, mas con­
teórico do que a criar um conjunto de valores,
vertendo-o em chave de interpretação para todos
símbolos e palavras de ordem que induzissem a
classe operaria à ação. os fenômenos (inclusive da natureza) e, simulta­
Todos esses elementos, e outros que não podem neamente, extraindo dele uma filosofia que, na
ser analisados aqui, condicionam a leitura e fundam prática sociopolítica, estabeleceria uma ideologia
a interpretação que a Segunda Internacional, atra­ revolucionária da classe operária. Resulta daí
vés de teóricos dotados como Kautsky e Plekha- este marxismo: um referencial global para o en­
tendimento científico (segundo os modelos da
nov, fez da obra marxiana. Interpretação que, no
ciência da natureza) do mundo e uma pauta de
momento em que trazia o pensamento de Marx às
comportamento sociopol ítico.
massas, modificava-o significativamente — e esta
Trocando em miúdos: o que originalmente eram
modificação consiste, fundamentalmente, na con­
hipóteses teórico-críticas para desvendar a essência
versão da obra de Marx em uma concepção de
de uma sociedade historicamente datada passa a
mundo (isto é: uma visão de conjunto da natureza
se constituir num padrão geral de pesquisa e in­
e do homem, um sistema completo e acabado).
terpretação, válido para qualquer objeto, e do
Estava nascendo um marxismo, e o termo, u tili­
qual derivam diretamente normas para a ação.
zado, ao que parece, pela primeira vez por Kautsky
Abria-se, tacitamente, o caminho para a conver­
um pouco antes do falecimento de Marx, arrancou
são da teoria em uma verdadeira doutrina — ca­
deste expressões de ironia e protesto.
minho ulteriormente percorrido pelo dogmatismo
Expliquemo-nos. Toda a gigantesca pesquisa de
da Terceira Internacional, como veremos.
Marx foi realizada para compreender a dinâmica da
É claro que, se se tomam seletivamente algumas
sociedade burguesa e, compreendendo-a, fornecer ao
passgens de Marx, encontram-se elementos para
proletariado as armas teóricas capazes de assegurar
justificar o marxismo assim concebido. E também
condições de êxito à sua ação revolucionária. Marx
é claro que a legítima autoridade de que Engels
dedicou-se a uma teoria crítica para fundamentar e
foi investido, depois da morte do companheiro,
legitimar a negação prática da sociedade burguesa
contribuiu para estimular decisivamente o nasci­
— este é o núcleo e o sentido da sua investigação.
mento do marxismo. Já no seu célebre Antí-
40 J osé Paulo N etto O que é marxismo 41

Duhring, publicado ainda em vida de Marx, é


visível a tendência de focar as idéias marxianas
como um sistema enciclopédico de explicação
do mundo (e, no inacabado manuscrito engel-
siano sobre a Dialética da Natureza, editado em
1925, consuma-se a extensão da metodologia de
Marx para o mundo extra-social, comportando uma
filosofia da natureza).
O resultado é que, nas interpretações dominan­
tes na Segunda Internacional, o legado de Marx
é tomado como uma ciência — o marxismo — que
funda uma concepção de mundo. Oferecendo
uma filosofia da natureza e da história (o materia­
lismo), esse marxismo, partindo das determina­
ções da "base econômica” , explica as relações
sociais em geral. Ao lado da ênfase no "fa to r
econômico” (tão gritante que o próprio Engels
se viu compelido a denunciar o economicismo),
vicejou uma percepção claramente evolucionista
do processo social, sintoma da contaminação
positivista na Segunda Internacional: o trânsito
do capitalismo ao socialismo seria um progresso
inevitável e fatal.
Trata-se, como é óbvio, ao mesmo tempo, de
uma redução e uma ampliação do legado mar-
xiano. O reducionismo não se refere apenas à
simplificação dos procedimentos analíticos, mas
ainda ao abandono de temáticas caras a Marx (por
exemplo, as questões referidas à práxis). A amplia­
ção decorre da extensão da pesquisa marxiana
40 J osé Paulo N etto O que é marxismo 41

Duhring, publicado ainda em vida de Marx, é


visível a tendência de focar as idéias marxianas
como um sistema enciclopédico de explicação
do mundo (e, no inacabado manuscrito engel-
siano sobre a Dialética da Natureza, editado em
1925, consuma-se a extensão da metodologia de
Marx para o mundo extra-social, comportando uma
filosofia da natureza).
O resultado é que, nas interpretações dominan­
tes na Segunda Internacional, o legado de Marx
é tomado como uma ciência — o marxismo — que
funda uma concepção de mundo. Oferecendo
uma filosofia da natureza e da história (o materia­
lismo), esse marxismo, partindo das determina­
ções da "base econômica” , explica as relações
sociais em geral. Ao lado da ênfase no "fa to r
econômico” (tão gritante que o próprio Engels
se viu compelido a denunciar o economicismo),
vicejou uma percepção claramente evolucionista
do processo social, sintoma da contaminação
positivista na Segunda Internacional: o trânsito
do capitalismo ao socialismo seria um progresso
inevitável e fatal.
Trata-se, como é óbvio, ao mesmo tempo, de
uma redução e uma ampliação do legado mar-
xiano. O reducionismo não se refere apenas à
simplificação dos procedimentos analíticos, mas
ainda ao abandono de temáticas caras a Marx (por
exemplo, as questões referidas à práxis). A amplia­
ção decorre da extensão da pesquisa marxiana
42 J osé Paulo N etto
O que é marxismo 43

a objetos até então pouco abordados (por exem­


plo, as investigações sobre a história da filosofia nos últimos anos do século 19 e vai prosseguir até
e da arte, realizadas pioneiramente por Plekhanov o final da Primeira Guerra Mundial. As atenções
e Mehring, ou os estudos de Kautsky e Lênin sobre se dirigem para as transformações operadas no
a relação entre o capitalismo e a agricultura). ordenamento da economia capitalista e três teóri­
Seria enganoso, porém, considerar o marxismo, cos se destacam nestas investigações: R. Hil-
tal como ele se desenvolveu na virada do século, ferding (O Capital Financeiro), Rosa Luxemburgo
como um bloco homogêneo: no seio mesmo da (A Acumulação de Capital) e Lênin (O Imperia­
Segunda Internacional floresceram posições diver­ lismo, Estágio Superior do Capitalismo). Os enfo­
gentes, que, no limite, redundaram em importantes ques são diferentes, há soluções contraditórias,
divisões. Assim é que, logo após a morte de Engels, mas uma conclusão se impõe: o capitalismo clás­
Bernstein se dispôs a revisar teses marxianas para sico (liberal, concorrencial) cedeu lugar ao capita­
adequá-las ao que julgava serem os "fa to s" da lismo dos monopólios. Chamando a este de impe­
atualidade. Tais "fatos” , na sua opinião, indica­ rialismo, Lênin infere que esta mudança, entre
vam mudanças qualitativas no capitalismo, que outras implicações (como, por exemplo, o surgi­
tornavam anacrônica a proposta da revolução: mento de uma "aristocracia operária" interessada
"progressivamente", sem rupturas, a evolução apenas no reformismo), transfere o eixo inicial
mesma da sociedade burguesa, mediante reformas, da revolução dos países adiantados para os atrasa­
levaria ao socialismo. dos, já que estes constituiriam o "elo mais fraco
A defesa que Bernstein fazia de uma "revisão" da corrente imperialista".
das idéias de Marx não era casual: expressava, de Entre os revolucionários formados sob a égide
um lado, mudanças reais na sociedade burguesa da Segunda Internacional, Lênin, sem dúvidas, se
e, de outro, a própria prática do partido alemão, revelará uma figura ímpar — e não só por haver
que tendia a se integrar no jogo político das liderado a primeira revolução proletária vitoriosa.
classes dominantes. Contra essa intenção de subs­ Além da sua contribuição ao estudo do imperia­
titu ir o projeto revolucionário por propostas lismo, coube-lhe desenvolver duas temáticas cen­
reformistas colocaram-se Kautsky e Plekhanov trais do marxismo: a questão do Estado e a ques­
e, mais vigorosamente, Lênin e Rosa Luxemburgo. tão do partido político proletário. Quanto à pri­
A questão efetiva era identificar o que havia de meira, Lênin resgata as principais passagens de
novo na sociedade burguesa. A polêmica emerge Marx e Engels sobre a natureza e a função do
Estado e, sublinhando que na destruição do Estado
42 J osé Paulo N etto
O que é marxismo 43

a objetos até então pouco abordados (por exem­


plo, as investigações sobre a história da filosofia nos últimos anos do século 19 e vai prosseguir até
e da arte, realizadas pioneiramente por Plekhanov o final da Primeira Guerra Mundial. As atenções
e Mehring, ou os estudos de Kautsky e Lênin sobre se dirigem para as transformações operadas no
a relação entre o capitalismo e a agricultura). ordenamento da economia capitalista e três teóri­
Seria enganoso, porém, considerar o marxismo, cos se destacam nestas investigações: R. Hil-
tal como ele se desenvolveu na virada do século, ferding (O Capital Financeiro), Rosa Luxemburgo
como um bloco homogêneo: no seio mesmo da (A Acumulação de Capital) e Lênin (O Imperia­
Segunda Internacional floresceram posições diver­ lismo, Estágio Superior do Capitalismo). Os enfo­
gentes, que, no limite, redundaram em importantes ques são diferentes, há soluções contraditórias,
divisões. Assim é que, logo após a morte de Engels, mas uma conclusão se impõe: o capitalismo clás­
Bernstein se dispôs a revisar teses marxianas para sico (liberal, concorrencial) cedeu lugar ao capita­
adequá-las ao que julgava serem os "fa to s" da lismo dos monopólios. Chamando a este de impe­
atualidade. Tais "fatos” , na sua opinião, indica­ rialismo, Lênin infere que esta mudança, entre
vam mudanças qualitativas no capitalismo, que outras implicações (como, por exemplo, o surgi­
tornavam anacrônica a proposta da revolução: mento de uma "aristocracia operária" interessada
"progressivamente", sem rupturas, a evolução apenas no reformismo), transfere o eixo inicial
mesma da sociedade burguesa, mediante reformas, da revolução dos países adiantados para os atrasa­
levaria ao socialismo. dos, já que estes constituiriam o "elo mais fraco
A defesa que Bernstein fazia de uma "revisão" da corrente imperialista".
das idéias de Marx não era casual: expressava, de Entre os revolucionários formados sob a égide
um lado, mudanças reais na sociedade burguesa da Segunda Internacional, Lênin, sem dúvidas, se
e, de outro, a própria prática do partido alemão, revelará uma figura ímpar — e não só por haver
que tendia a se integrar no jogo político das liderado a primeira revolução proletária vitoriosa.
classes dominantes. Contra essa intenção de subs­ Além da sua contribuição ao estudo do imperia­
titu ir o projeto revolucionário por propostas lismo, coube-lhe desenvolver duas temáticas cen­
reformistas colocaram-se Kautsky e Plekhanov trais do marxismo: a questão do Estado e a ques­
e, mais vigorosamente, Lênin e Rosa Luxemburgo. tão do partido político proletário. Quanto à pri­
A questão efetiva era identificar o que havia de meira, Lênin resgata as principais passagens de
novo na sociedade burguesa. A polêmica emerge Marx e Engels sobre a natureza e a função do
Estado e, sublinhando que na destruição do Estado
44 J osé Paulo N etto O que é marxismo 45

burguês consiste uma tarefa elementar da revolu­ de 1914: muitos partidos vacilaram e o principal
ção socialista, aprofunda a tese de que o Estado deles, o alemão, votou pelos créditos belicistas
pós-revolucionário tende à extinção, Na aborda­ pedidos pelo Kaiser. 0 internaciona/ismo, a soli­
gem da segunda questão reside boa parte da sua dariedade entre os operários de todos os países
influência sobre o movimento operário revolu­ simplesmente foi às favas.
cionário: retomando indicações de Kautsky, ele Eis a gota d'água que precipitou a ruptura, tra­
formula a idéia de que a consciência espontânea zendo para a prática política rompimentos que
do proletariado tem seu limite no sindicalismo; o estavam latentes nas diferenças teóricas. Os diri­
salto ao patamar da revolução exige o rebatimen­ gentes reformistas ou hesitantes somaram-se à
to, na consciência operária, de uma teoria que não histeria guerreira de seus governos ou, quando
é acessível ao proletariado na sua experiência muito, refugiaram-se num pacifismo de opereta.
cotidiana — vale dizer: a teoria revolucionária Os dirigentes mais destemidos e combativos (Rosa
não brota da prática do operário, mas se articula Luxemburgo, Franz Mehring, Lênin), denuncian­
desde o exterior desta prática. Esta tese, que do a guerra e o comportamento dos seus compa­
sofrerá inflexões na evolução do próprio Lênin, nheiros da véspera, demarcaram-se da social-de­
está na base da teoria bolchevique do partido de mocracia e procuraram forjar novos instrumentos
novo tipo, visto como a instância que pode con­ de ação política.
duzir a classe operária a uma eficiente prática A ruptura se torna mais drástica quando, no
revolucionária. fim da guerra, eclode a Revolução Russa e sur­
Já observei que o marxismo construído pelos gem os seus primeiros desdobramentos. As fratu­
ideólogos da Segunda Internacional não era um ras conhecidas desde 1914 parecem, então, chegar
bloco homogêneo. As diferenciações nele conti­ ao irreversível: muitos dos adeptos da social-de­
das, no entanto, vêm à luz com nitidez quando mocracia recusam-se a reconhecer na iniciativa
o organismo entra em crise, em 1914. Espera­ dos liderados por Lênin o projeto de Marx. E,
va-se que o movimento operário inspirado em defrontados com ações revolucionárias, posicio­
Marx — conhecido genericamente como movi­ nam-se de forma a favorecer as classes dominantes
mento social-democrata — , em face da guerra im­ (assim se deu na Alemanha, em 1919/1920, quan­
perialista, ou se recusasse a participar dela ou do a fração revolucionária de Rosa Luxemburgo
lutasse para transformá-la em processo revolucio­ foi barbaramente reprimida com o apoio da
nário. Não foi o que ocorreu em julho-agosto social-democracia).
44 J osé Paulo N etto O que é marxismo 45

burguês consiste uma tarefa elementar da revolu­ de 1914: muitos partidos vacilaram e o principal
ção socialista, aprofunda a tese de que o Estado deles, o alemão, votou pelos créditos belicistas
pós-revolucionário tende à extinção, Na aborda­ pedidos pelo Kaiser. 0 internaciona/ismo, a soli­
gem da segunda questão reside boa parte da sua dariedade entre os operários de todos os países
influência sobre o movimento operário revolu­ simplesmente foi às favas.
cionário: retomando indicações de Kautsky, ele Eis a gota d'água que precipitou a ruptura, tra­
formula a idéia de que a consciência espontânea zendo para a prática política rompimentos que
do proletariado tem seu limite no sindicalismo; o estavam latentes nas diferenças teóricas. Os diri­
salto ao patamar da revolução exige o rebatimen­ gentes reformistas ou hesitantes somaram-se à
to, na consciência operária, de uma teoria que não histeria guerreira de seus governos ou, quando
é acessível ao proletariado na sua experiência muito, refugiaram-se num pacifismo de opereta.
cotidiana — vale dizer: a teoria revolucionária Os dirigentes mais destemidos e combativos (Rosa
não brota da prática do operário, mas se articula Luxemburgo, Franz Mehring, Lênin), denuncian­
desde o exterior desta prática. Esta tese, que do a guerra e o comportamento dos seus compa­
sofrerá inflexões na evolução do próprio Lênin, nheiros da véspera, demarcaram-se da social-de­
está na base da teoria bolchevique do partido de mocracia e procuraram forjar novos instrumentos
novo tipo, visto como a instância que pode con­ de ação política.
duzir a classe operária a uma eficiente prática A ruptura se torna mais drástica quando, no
revolucionária. fim da guerra, eclode a Revolução Russa e sur­
Já observei que o marxismo construído pelos gem os seus primeiros desdobramentos. As fratu­
ideólogos da Segunda Internacional não era um ras conhecidas desde 1914 parecem, então, chegar
bloco homogêneo. As diferenciações nele conti­ ao irreversível: muitos dos adeptos da social-de­
das, no entanto, vêm à luz com nitidez quando mocracia recusam-se a reconhecer na iniciativa
o organismo entra em crise, em 1914. Espera­ dos liderados por Lênin o projeto de Marx. E,
va-se que o movimento operário inspirado em defrontados com ações revolucionárias, posicio­
Marx — conhecido genericamente como movi­ nam-se de forma a favorecer as classes dominantes
mento social-democrata — , em face da guerra im­ (assim se deu na Alemanha, em 1919/1920, quan­
perialista, ou se recusasse a participar dela ou do a fração revolucionária de Rosa Luxemburgo
lutasse para transformá-la em processo revolucio­ foi barbaramente reprimida com o apoio da
nário. Não foi o que ocorreu em julho-agosto social-democracia).
O que é marxismo 47
46 J o s é P a u l o N etto

tantas, às ciências sociais, a obra de Marx pas­


Do colapso da Segunda Internacional restou,
sou a ser utilizada em operações analíticas "neu­
pois, no plano político, uma profunda divisão
que até hoje separa as correntes do movimento tras", "objetivas". Extirpando dela a "ideologia"
operário originalmente inspiradas em Marx: de revolucionária, o reformismo abriu o caminho
um lado, os social-democratas (freqüentemente para a mumificação acadêmica de Marx como
aglutinados em partidos socialistas de corte re­ sociólogo, economista etc.
formista), no mais das vezes integrados no jogo
político burguês; de outro, os revolucionários que,
a partir daí, passaram a denominar-se comunistas.
A divisão se cristalizou desde a década de 20, com
a fundação da Internacional Comunista (conhe­
cida como Terceira Internacional), em 1919,
institucionalizando a ruptura.
A í, porém, a obra ideológica da Segunda Inter­
nacional já estava concluída: o pensamento mar-
xiano fora rearticulado num sistema fechado,
numa concepção de mundo. E mesmo aqueles que
se separaram radicalmente da prática política da
Segunda Internacional, como Lênin, prolongavam,
no essencial, as suas interpretações teóricas bási­
cas. E é sobre este leito que vai prosseguir a evo­
lução do marxismo.
O veio inaugurado por Bernstein, entretanto,
não se exauriu. Na sua esteira, muitos pensadores
começaram a ver em Marx mais um "cientista
social", do qual se poderiam extrair algumas aná­
lises que, conjugadas a outras das ciências sociais,
serviriam para explicar aspectos do mundo con­
temporâneo. Desvinculada da idéia da revolução
e convertida em mais uma contribuição, dentre
O que é marxismo 47
46 J o s é P a u l o N etto

tantas, às ciências sociais, a obra de Marx pas­


Do colapso da Segunda Internacional restou,
sou a ser utilizada em operações analíticas "neu­
pois, no plano político, uma profunda divisão
que até hoje separa as correntes do movimento tras", "objetivas". Extirpando dela a "ideologia"
operário originalmente inspiradas em Marx: de revolucionária, o reformismo abriu o caminho
um lado, os social-democratas (freqüentemente para a mumificação acadêmica de Marx como
aglutinados em partidos socialistas de corte re­ sociólogo, economista etc.
formista), no mais das vezes integrados no jogo
político burguês; de outro, os revolucionários que,
a partir daí, passaram a denominar-se comunistas.
A divisão se cristalizou desde a década de 20, com
a fundação da Internacional Comunista (conhe­
cida como Terceira Internacional), em 1919,
institucionalizando a ruptura.
A í, porém, a obra ideológica da Segunda Inter­
nacional já estava concluída: o pensamento mar-
xiano fora rearticulado num sistema fechado,
numa concepção de mundo. E mesmo aqueles que
se separaram radicalmente da prática política da
Segunda Internacional, como Lênin, prolongavam,
no essencial, as suas interpretações teóricas bási­
cas. E é sobre este leito que vai prosseguir a evo­
lução do marxismo.
O veio inaugurado por Bernstein, entretanto,
não se exauriu. Na sua esteira, muitos pensadores
começaram a ver em Marx mais um "cientista
social", do qual se poderiam extrair algumas aná­
lises que, conjugadas a outras das ciências sociais,
serviriam para explicar aspectos do mundo con­
temporâneo. Desvinculada da idéia da revolução
e convertida em mais uma contribuição, dentre
O que é marxismo 49

Vejamos o primeiro ponto. As tarefas dos re­


volucionários russos eram gigantescas e, no acervo
marxista existente, não encontravam mais que
pistas e sumárias indicações para a resolução
dos seus problemas práticos. Confrontados com
o desafio da construção de uma nova ordem
social num país de capitalismo atrasado e periférico,
eles de fato tinham que inventar e criar tudo.
Surge nos primeiros anos da revolução e se esten­
O MARXISMO-LENINISMO de até finais da década de 20 uma rica efervescên­
cia teórica e cultural. Há que instituir regulamenta­
ções jurídicas, estruturar uma economia planificada,
promover uma industrialização acelerada e coletivi-
A Revolução Russa assinala uma inflexão zar a agricultura. As polêmicas são intensas e os
decisiva na história do marxismo emergente e próprios revolucionários divergem na análise das
consolidado com a ideologia da Segunda Inter­ situações e na definição de programas.
nacional. A partir dela, um divisor de águas se A produção intelectual é tempestuosa. Lênin
estabelece a dois níveis: 1P) os marxistas já não faz argutas observações sobre o período de tran­
podem se limitar à crítica da sociedade burgue­ sição, o capitalismo de Estado e os riscos da
sa; defrontam-se com tarefas positivas: chegan­ burocratização. Trotski enfrenta a organização
do ao poder na Rússia czarista, devem organizar a do exército e do trabalho, o novo papel dos sin­
economia e a sociedade de um país subdesen­ dicatos e a revolução mundial. Stucka e Pasukanis
volvido e arrasado pela guerra e pela intervenção dão os primeiros passos na direção de uma teoria
estrangeira; 2P) erguido o Estado soviético em marxista do direito. Bukharin pensa o marxismo
condições muito peculiares, o discurso marxis­ como uma sociologia alternativa. Preobazenksi
ta é investido da função adicional de legitimar aborda a questão da acumulação de capital no
ideologicamente a nova ordem social. As im­ período de transição. Varga se interessa pelo
plicações deste giro determinarão, em larga escala, problema da crise do capitalismo. Riazanov de­
a face mais conhecida do legado de Marx na dica-se à divulgação crítica das obras de Marx
metade inicial do século 20. e Engels.
O que é marxismo 49

Vejamos o primeiro ponto. As tarefas dos re­


volucionários russos eram gigantescas e, no acervo
marxista existente, não encontravam mais que
pistas e sumárias indicações para a resolução
dos seus problemas práticos. Confrontados com
o desafio da construção de uma nova ordem
social num país de capitalismo atrasado e periférico,
eles de fato tinham que inventar e criar tudo.
Surge nos primeiros anos da revolução e se esten­
O MARXISMO-LENINISMO de até finais da década de 20 uma rica efervescên­
cia teórica e cultural. Há que instituir regulamenta­
ções jurídicas, estruturar uma economia planificada,
promover uma industrialização acelerada e coletivi-
A Revolução Russa assinala uma inflexão zar a agricultura. As polêmicas são intensas e os
decisiva na história do marxismo emergente e próprios revolucionários divergem na análise das
consolidado com a ideologia da Segunda Inter­ situações e na definição de programas.
nacional. A partir dela, um divisor de águas se A produção intelectual é tempestuosa. Lênin
estabelece a dois níveis: 1P) os marxistas já não faz argutas observações sobre o período de tran­
podem se limitar à crítica da sociedade burgue­ sição, o capitalismo de Estado e os riscos da
sa; defrontam-se com tarefas positivas: chegan­ burocratização. Trotski enfrenta a organização
do ao poder na Rússia czarista, devem organizar a do exército e do trabalho, o novo papel dos sin­
economia e a sociedade de um país subdesen­ dicatos e a revolução mundial. Stucka e Pasukanis
volvido e arrasado pela guerra e pela intervenção dão os primeiros passos na direção de uma teoria
estrangeira; 2P) erguido o Estado soviético em marxista do direito. Bukharin pensa o marxismo
condições muito peculiares, o discurso marxis­ como uma sociologia alternativa. Preobazenksi
ta é investido da função adicional de legitimar aborda a questão da acumulação de capital no
ideologicamente a nova ordem social. As im­ período de transição. Varga se interessa pelo
plicações deste giro determinarão, em larga escala, problema da crise do capitalismo. Riazanov de­
a face mais conhecida do legado de Marx na dica-se à divulgação crítica das obras de Marx
metade inicial do século 20. e Engels.
J o s é P a u l o N e tto O que é marxismo 51
50

Esse florescimento intelectual (que incide, linear, e aqui só importa assinalar o seu resultado.
ainda, em todas as artes), mais o fascínio exercido Já nos anos 30, o marxismo está institucionali­
pela experiência soviética, ultrapassa as fronteiras zado: investido como ideologia oficial do Es­
do novo Estado, potenciado pela perspectiva de tado autocrático stalinista, ele se torna uma lin­
uma iminente revolução no Ocidente. Revolucio­ guagem e uma estratégia de poder.
nários alemães e cantro-europeus, como Korsch Essa transformação não atinge apenas o mundo
e Lukács, resgatam as vinculações entre Marx cultural soviético. Através da Terceira Interna­
e a filosofia clássica, especialmente Hegel, en­ cional, os modelos pol íticos e ideológicos do
quanto o "austromarxismo", com Adler e Bauer, partido soviético staiinizado se generalizam entre
revaloriza Kant e, criticando a evolução soviética, os comunistas de todo o mundo. Correia de trans­
tematiza a relação entre socialismo e demo­ missão da autocracia stalinista, a Terceira Inter­
cracia. Na Itália, Gramsci começa a alinhavar nacional cumpre a função de equalizar o pen­
o seu pensamento original. A influência de samento comunista, de uniformizá-lo e ho­
Marx desborda da Europa Ocidental para o Oriente mogeneizá-lo segundo as fórmulas do marxismo
e igualmente alcança as Américas — aqui, seu institucionalizado.
primeiro grande discípulo é o peruano José Carlos Não é preciso dizer que, a partir do enquadra­
Mariátegui. mento realizado pelo marxismo oficial, tudo
Os desdobramentos da experiência soviética, aquilo que a ele escapa — seja em política, seja
porém, são inesperados para os revolucionários. em teoria — é rubricado como "desvio", "falsi­
Seu isolamento, determinado pelo fracasso da dade" etc. Instaura-se um marxismo "ju sto ",
revolução no Ocidente (notadamente na Ale­ "verdadeiro", que deve competir com o "não-
manha), cria as condições propícias para a emer­ marxismo". Também é desnecessário afirmar
gência da autocracia stalinista que, na virada que a "m aldição" política acompanha a "e x­
dos anos 20, instala o seu reino polícialesco, só comunhão" teórica: o caso mais óbvio é o de
vencido três décadas mais tarde. Trotski — com a sua liquidação política, liqui-
Com o chamado stalinismo, o marxismo dado daram-se as suas análises sobre a constituição e a
à luz pela Segunda Internacional se converte burocratização do Estado soviético.
numa ideologia de Estado — um discurso ade­ Assim como a Segunda Internacional deu
quado para legitimar aparatos de poder. É evi­ nascimento ao marxismo, a Terceira Interna­
dente que esta conversão não foi simples nem cional institucionalizou-o. Mas não se trata de
J o s é P a u l o N e tto O que é marxismo 51
50

Esse florescimento intelectual (que incide, linear, e aqui só importa assinalar o seu resultado.
ainda, em todas as artes), mais o fascínio exercido Já nos anos 30, o marxismo está institucionali­
pela experiência soviética, ultrapassa as fronteiras zado: investido como ideologia oficial do Es­
do novo Estado, potenciado pela perspectiva de tado autocrático stalinista, ele se torna uma lin­
uma iminente revolução no Ocidente. Revolucio­ guagem e uma estratégia de poder.
nários alemães e cantro-europeus, como Korsch Essa transformação não atinge apenas o mundo
e Lukács, resgatam as vinculações entre Marx cultural soviético. Através da Terceira Interna­
e a filosofia clássica, especialmente Hegel, en­ cional, os modelos pol íticos e ideológicos do
quanto o "austromarxismo", com Adler e Bauer, partido soviético staiinizado se generalizam entre
revaloriza Kant e, criticando a evolução soviética, os comunistas de todo o mundo. Correia de trans­
tematiza a relação entre socialismo e demo­ missão da autocracia stalinista, a Terceira Inter­
cracia. Na Itália, Gramsci começa a alinhavar nacional cumpre a função de equalizar o pen­
o seu pensamento original. A influência de samento comunista, de uniformizá-lo e ho­
Marx desborda da Europa Ocidental para o Oriente mogeneizá-lo segundo as fórmulas do marxismo
e igualmente alcança as Américas — aqui, seu institucionalizado.
primeiro grande discípulo é o peruano José Carlos Não é preciso dizer que, a partir do enquadra­
Mariátegui. mento realizado pelo marxismo oficial, tudo
Os desdobramentos da experiência soviética, aquilo que a ele escapa — seja em política, seja
porém, são inesperados para os revolucionários. em teoria — é rubricado como "desvio", "falsi­
Seu isolamento, determinado pelo fracasso da dade" etc. Instaura-se um marxismo "ju sto ",
revolução no Ocidente (notadamente na Ale­ "verdadeiro", que deve competir com o "não-
manha), cria as condições propícias para a emer­ marxismo". Também é desnecessário afirmar
gência da autocracia stalinista que, na virada que a "m aldição" política acompanha a "e x­
dos anos 20, instala o seu reino polícialesco, só comunhão" teórica: o caso mais óbvio é o de
vencido três décadas mais tarde. Trotski — com a sua liquidação política, liqui-
Com o chamado stalinismo, o marxismo dado daram-se as suas análises sobre a constituição e a
à luz pela Segunda Internacional se converte burocratização do Estado soviético.
numa ideologia de Estado — um discurso ade­ Assim como a Segunda Internacional deu
quado para legitimar aparatos de poder. É evi­ nascimento ao marxismo, a Terceira Interna­
dente que esta conversão não foi simples nem cional institucionalizou-o. Mas não se trata de
52 J o s é Pa u l o N etto 0 que é marxismo 53

um processo idêntico. Mudara a posição dos poração de Lênin igualmente se fez conforme
marxistas: agora, detêm um poder de Estado interesses políticos determinados.
em consolidação e, em muitos países, contam Não está em causa, naturalmente, a relevân­
com um firme aparato partidário (os partidos cia de Lênin na história, política e teórica, do
comunistas) que se organiza segundo uma rígida marxismo. Mas cabe realçar que o seu contri­
hierarquia, num moide operativo desconhecido buto não foi assimilado como um dentre vá­
antes do fim da Primeira Guerra. E mudou, prin­ rios componentes de um largo elenco. Ao con­
cipalmente, a funcionalidade do marxismo que trário: uma leitura particular de Lênin, a leitura
se institucionaliza. realizada pela autocracia stalinista, o situou como
Já assinalei que a Revolução Russa significou uma contribuição canônica, de valor universal,
uma ruptura política com a ideologia da Se­ à obra de Marx — pretendendo que fosse Lênin
gunda Internacional. Ela demarcou os revolu­ o único continuador legítimo de Marx.
cionários e os reformistas. Mas a esta ruptura Este é o marxismo institucionalizado pela
pol ítica não se seguiu, com radicalidade e con­ Terceira Internacional: o marxismo -leninismo,
seqüência, uma ruptura teórica (quem trabalhou
que recebeu a sua formulação "clássica” sob a
neste sentido, como Lukács, acabou isolado).
chancela pessoal de Stalin, num texto da segun­
Substancialmente, o marxismo institucionalizado
da metade dos anos 30, publicado como parte
pela Terceira Internacional é a mesma constela­
da História do Partido Comunista (Bolchevique)
ção teórica da Segunda Internacional, com a da URSS. Apoiando-se numa perspectivação positi­
diferença crucial de funcionar como legitimação
vista de Marx, valendo-se parcialmente de Engels
de um poder de Estado e de incorporar como (o Engels do Anti-Duhring e da Dialética da Na­
essencial a contribuição de Lênin. tureza) e de Lênin (o Lênin de Materialismo e
Investido na qualidade de retórica de um poder Empirocriticismo), Stalin, que desde 1924 sus­
estatal, o marxismo da Terceira Internacional não tentava a existência do leninismo, considera o
só tende a perder rapidamente seus conteúdos c ríti­ marxismo-leninismo como uma doutrina, "con­
cos e a adquirir os contornos de um discurso vulgar cepção do mundo científica da classe operária”
e repetitivo. Mais ainda: ele também se torna um
e "teoria geral do partido marxista-leninista".
material ideológico submetido diretamente à
Esta doutrina comporta dois blocos de saber inter­
propaganda e à agitação, manipulável segundo as
ligados: o materialismo dialético e o materialismo
exigências do momento. Por outro lado, a incor­
histórico.
52 J o s é Pa u l o N etto 0 que é marxismo 53

um processo idêntico. Mudara a posição dos poração de Lênin igualmente se fez conforme
marxistas: agora, detêm um poder de Estado interesses políticos determinados.
em consolidação e, em muitos países, contam Não está em causa, naturalmente, a relevân­
com um firme aparato partidário (os partidos cia de Lênin na história, política e teórica, do
comunistas) que se organiza segundo uma rígida marxismo. Mas cabe realçar que o seu contri­
hierarquia, num moide operativo desconhecido buto não foi assimilado como um dentre vá­
antes do fim da Primeira Guerra. E mudou, prin­ rios componentes de um largo elenco. Ao con­
cipalmente, a funcionalidade do marxismo que trário: uma leitura particular de Lênin, a leitura
se institucionaliza. realizada pela autocracia stalinista, o situou como
Já assinalei que a Revolução Russa significou uma contribuição canônica, de valor universal,
uma ruptura política com a ideologia da Se­ à obra de Marx — pretendendo que fosse Lênin
gunda Internacional. Ela demarcou os revolu­ o único continuador legítimo de Marx.
cionários e os reformistas. Mas a esta ruptura Este é o marxismo institucionalizado pela
pol ítica não se seguiu, com radicalidade e con­ Terceira Internacional: o marxismo -leninismo,
seqüência, uma ruptura teórica (quem trabalhou
que recebeu a sua formulação "clássica” sob a
neste sentido, como Lukács, acabou isolado).
chancela pessoal de Stalin, num texto da segun­
Substancialmente, o marxismo institucionalizado
da metade dos anos 30, publicado como parte
pela Terceira Internacional é a mesma constela­
da História do Partido Comunista (Bolchevique)
ção teórica da Segunda Internacional, com a da URSS. Apoiando-se numa perspectivação positi­
diferença crucial de funcionar como legitimação
vista de Marx, valendo-se parcialmente de Engels
de um poder de Estado e de incorporar como (o Engels do Anti-Duhring e da Dialética da Na­
essencial a contribuição de Lênin. tureza) e de Lênin (o Lênin de Materialismo e
Investido na qualidade de retórica de um poder Empirocriticismo), Stalin, que desde 1924 sus­
estatal, o marxismo da Terceira Internacional não tentava a existência do leninismo, considera o
só tende a perder rapidamente seus conteúdos c ríti­ marxismo-leninismo como uma doutrina, "con­
cos e a adquirir os contornos de um discurso vulgar cepção do mundo científica da classe operária”
e repetitivo. Mais ainda: ele também se torna um
e "teoria geral do partido marxista-leninista".
material ideológico submetido diretamente à
Esta doutrina comporta dois blocos de saber inter­
propaganda e à agitação, manipulável segundo as
ligados: o materialismo dialético e o materialismo
exigências do momento. Por outro lado, a incor­
histórico.
54 J o sé P a u l o N e tto 0 que é marxismo 55

0 materialismo dialético é uma teoria geral "necessidade objetiva inelutável"). A implemen­


do ser que, em contraposição à "m etafísica", tação desta concepção, porque também vinculada
privilegia o movimento e as contradições e toma à justificação ideológica de um aparelho estatal,
o mundo material como o dado primário que, na redundou em procedimentos dogmáticos: hipó­
consciência, dado secundário, aparece como teses marxianas passaram a ser questões de fé e
reflexo. O materialismo histórico é a aplicação a relação entre a teoria e a prática foi desnaturada
dos princípios do materialismo dialético ao estudo em manipulação dos princípios para servir à
da sociedade. apologia das iniciativas estatais - o pragmatismo
Nessa angulação, o conflito centrai da filo ­ invade o marxismo. E o uso de citações dos "clás­
sofia é posto como o da luta entre o idealismo e sicos" (com Stalin colocado no mesmo nível
o materialismo, este sempre identificado como de Marx, Engels e Lênin), convenientemente esco­
expressão de forças socialmente progressistas. O lhidas, converteu-se num sucedâneo da reflexão
método dialético surge como o mais apto para crítica.
o estudo da natureza e da sociedade, reduzido a Essa doutrina, que apresentava o legado de
uma pauta que contempla um certo número de Marx como um a-bê-cê facilmente manualizável,
"le is" (a coexistência e a unidade dos contrários, moldou o esquema mental de milhões de homens,
a transformação da quantidade em qualidade etc.). comunistas ou não. Estabelecendo dicotomias
Aplicado à sociedade, examina as instituições do tipo "ciência burguesa x ciência proletária",
sociais como determinadas, "em última instância", vulgarizando fórmulas unilaterais do gênero "a
pela infra-estrutura econômica. religião é o ópio do povo", conduzindo a defor­
Com a operação stalinista, a teoria marxiana mações de toda a ordem (como o "realismo socia­
é situada como uma ciência geral do ser (o mate­ lista" de Zdhanov ou a "genética de ciasse" de
rialismo dialético) que pode ser estendida à socie­ Lysenko), ela constitui a herança ideológica da
dade (o materialismo histórico). É compreendida Terceira Internacional e delimitou o campo prin­
como variável de um método dialético (do qual cipal onde, por cerca de trinta anos, afluíram as
estão ausentes as preocupações com a práxis, com elaborações dos comunistas. E, ainda hoje, las-
a mediação, a totalidade e a negatividade, bem treia boa parte da polêmica que se trava em to r­
como as tensões entre o sujeito e o objeto) que no de Marx. Imposta por meios persuasivos, mas
estabelece uma filosofia materialista, determi­ igualmente por métodos repressivos (os dissiden­
nista e finalista da história (o socialismo é uma tes teóricos ou eram obrigados ao silêncio ou
54 J o sé P a u l o N e tto 0 que é marxismo 55

0 materialismo dialético é uma teoria geral "necessidade objetiva inelutável"). A implemen­


do ser que, em contraposição à "m etafísica", tação desta concepção, porque também vinculada
privilegia o movimento e as contradições e toma à justificação ideológica de um aparelho estatal,
o mundo material como o dado primário que, na redundou em procedimentos dogmáticos: hipó­
consciência, dado secundário, aparece como teses marxianas passaram a ser questões de fé e
reflexo. O materialismo histórico é a aplicação a relação entre a teoria e a prática foi desnaturada
dos princípios do materialismo dialético ao estudo em manipulação dos princípios para servir à
da sociedade. apologia das iniciativas estatais - o pragmatismo
Nessa angulação, o conflito centrai da filo ­ invade o marxismo. E o uso de citações dos "clás­
sofia é posto como o da luta entre o idealismo e sicos" (com Stalin colocado no mesmo nível
o materialismo, este sempre identificado como de Marx, Engels e Lênin), convenientemente esco­
expressão de forças socialmente progressistas. O lhidas, converteu-se num sucedâneo da reflexão
método dialético surge como o mais apto para crítica.
o estudo da natureza e da sociedade, reduzido a Essa doutrina, que apresentava o legado de
uma pauta que contempla um certo número de Marx como um a-bê-cê facilmente manualizável,
"le is" (a coexistência e a unidade dos contrários, moldou o esquema mental de milhões de homens,
a transformação da quantidade em qualidade etc.). comunistas ou não. Estabelecendo dicotomias
Aplicado à sociedade, examina as instituições do tipo "ciência burguesa x ciência proletária",
sociais como determinadas, "em última instância", vulgarizando fórmulas unilaterais do gênero "a
pela infra-estrutura econômica. religião é o ópio do povo", conduzindo a defor­
Com a operação stalinista, a teoria marxiana mações de toda a ordem (como o "realismo socia­
é situada como uma ciência geral do ser (o mate­ lista" de Zdhanov ou a "genética de ciasse" de
rialismo dialético) que pode ser estendida à socie­ Lysenko), ela constitui a herança ideológica da
dade (o materialismo histórico). É compreendida Terceira Internacional e delimitou o campo prin­
como variável de um método dialético (do qual cipal onde, por cerca de trinta anos, afluíram as
estão ausentes as preocupações com a práxis, com elaborações dos comunistas. E, ainda hoje, las-
a mediação, a totalidade e a negatividade, bem treia boa parte da polêmica que se trava em to r­
como as tensões entre o sujeito e o objeto) que no de Marx. Imposta por meios persuasivos, mas
estabelece uma filosofia materialista, determi­ igualmente por métodos repressivos (os dissiden­
nista e finalista da história (o socialismo é uma tes teóricos ou eram obrigados ao silêncio ou
56 J osé Paulo N etto O que é marxismo 57

"excomungados" das fileiras comunistas), ela


congelou e congela a criatividade intelectual.
Identificada sumariamente como "o marxismo",
faz as delícias dos oponentes de Marx.
Seria um engano, todavia, imaginar que a
camisa-de-força do marxismo-leninismo conseguiu
travar inteiramente o pensamento inspirado em
Marx. Até mesmo no seio da Terceira Interna­
cional se registram esforços de compreensão
efetiva do movimento real. Um exemplo é o
trabalho de Dimitrov para entender o fenômeno
fascista, definido por eie como ditadura terro­
rista dos segmentos mais reacionários do capital
financeiro. Outro é o intento do inglês J. D. Bernal
para estudar as relações entre as ciências da natu­
reza e o desenvolvimento social. E polêmicas
vivas se verificaram nos anos 30 e 40, depois
recuperadas — como a que, sobre arte e moder­
nidade, envolveu Lukács, Brecht e Bloch. Lukács,
aliás, mesmo tão coagido pela autocracia stalinista,
produziu neste período análises fundamentais
sobre Hegel e a literatura clássica.
O apogeu do marxismo-leninismo, coincidindo
com a vigência da autocracia stalinista e esten-
dendo-se de meados da década de 30 aos anos 50,
conviveu com tentativas marginais de preservação
dos impulsos críticos. São constatáveis iniciati­ O espólio marxiano não tem valor uniforme e nem
vas que, desprezadas ou ignoradas na época, se­ todas as reflexões de Marx se mostram, hoje,
riam valorizadas quando do colapso da ideologia igualmente válidas.
da Terceira Internacional. Na Inglaterra, Cristopher

«*»«»
56 J osé Paulo N etto O que é marxismo 57

"excomungados" das fileiras comunistas), ela


congelou e congela a criatividade intelectual.
Identificada sumariamente como "o marxismo",
faz as delícias dos oponentes de Marx.
Seria um engano, todavia, imaginar que a
camisa-de-força do marxismo-leninismo conseguiu
travar inteiramente o pensamento inspirado em
Marx. Até mesmo no seio da Terceira Interna­
cional se registram esforços de compreensão
efetiva do movimento real. Um exemplo é o
trabalho de Dimitrov para entender o fenômeno
fascista, definido por eie como ditadura terro­
rista dos segmentos mais reacionários do capital
financeiro. Outro é o intento do inglês J. D. Bernal
para estudar as relações entre as ciências da natu­
reza e o desenvolvimento social. E polêmicas
vivas se verificaram nos anos 30 e 40, depois
recuperadas — como a que, sobre arte e moder­
nidade, envolveu Lukács, Brecht e Bloch. Lukács,
aliás, mesmo tão coagido pela autocracia stalinista,
produziu neste período análises fundamentais
sobre Hegel e a literatura clássica.
O apogeu do marxismo-leninismo, coincidindo
com a vigência da autocracia stalinista e esten-
dendo-se de meados da década de 30 aos anos 50,
conviveu com tentativas marginais de preservação
dos impulsos críticos. São constatáveis iniciati­ O espólio marxiano não tem valor uniforme e nem
vas que, desprezadas ou ignoradas na época, se­ todas as reflexões de Marx se mostram, hoje,
riam valorizadas quando do colapso da ideologia igualmente válidas.
da Terceira Internacional. Na Inglaterra, Cristopher

«*»«»
58 J osé Paulo N etto O que é marxismo 59

Caudwell esboçava uma compreensão inovadora socialista. A experiência chinesa, bem como a
da poesia. Gordon Childe procurava os caminhos vietnamita, não teve inicialmente grande im­
de uma antropologia cultural original, Maurice pacto neste processo. O mesmo não ocorreu
Dobb analisava a história fatual do capitalismo e com a Iugoslávia: sob a liderança de Tito e Kar-
o exilado Isaac Deutscher reconstruía a saga delj, os iugoslavos recusaram a validez universal
bolchevique. Na França, ainda nos anos 30, Henri do "modelo soviético" e enveredaram por um
Lefebvre destoava da dogmática de G. Politzer caminho peculiar, embasado na autogestão:
e, com N. Gutermann, redescobria preocupações "excomungada" oficialmente, a opção iugoslava
marxianas. Nos Estados Unidos, Paul M. Sweezy teve importantes conseqüências teóricas, repondo
pesquisava a dinâmica econômica do sistema no debate marxista temáticas elementares em
capitalista. Isolado na prisão fascista, Gramsci Marx, como a alienação, a práxis e o humanismo.
elaborava, assistematicamente, o eixo do seu Intensas discussões se travaram então na Polô­
pensamento. Centrando-se especialmente nos nia, na Hungria, na Tchecoslováquia e na Ale­
chamados "fenômenos superestruturais", o revo­ manha acerca da nova democracia — estava em
lucionário sardo enfatizava as relações entre jogo o ordenamento sociopolítico da transição,
cultura e política, observava a função dos inte­ mais tarde cristalizado aí nas denominadas demo­
lectuais e as conexões do Estado com a sociedade. cracias populares. Na Europa capitalista, um
Pensando as condições da revolução em estruturas protagonista importante desses debates foi Pal-
sociais complexas como as do Ocidente indus­ miro Togliatti, que teorizava sobre a "democra­
trializado, Gramsci redimensionou o papel do cia progressiva".
partido revolucionário (o "intelectual coletivo") O peso do marxismo institucionalizado, con­
e tratou da questão da hegemonia no processo tudo, barrava a incidência dessas e de outras
social. elaborações. Só mesmo com a sua fratura — cujo
Na seqüência da derrota nazifascista e da li­ processo público é aberto em fevereiro de 1956,
bertação pós-1945, o marxismo oficial começa com o XX Congresso do PCUS sendo o cenário
a experimentar seu declínio (recorde-se que a da denúncia da autocracia stalinista - é que as
Terceira Internacional foi extinta em 1943). A tensões existentes viriam à tona. E a segunda
construção das novas sociedades, nos países em metade dos anos 50 não assiste apenas à remoção
que os comunistas assumiram o poder, colocou de boa parte dos suportes políticos do marxismo
a questão das vias nacionais para a transição oficial, com os desdobramentos da desmistificação
58 J osé Paulo N etto O que é marxismo 59

Caudwell esboçava uma compreensão inovadora socialista. A experiência chinesa, bem como a
da poesia. Gordon Childe procurava os caminhos vietnamita, não teve inicialmente grande im­
de uma antropologia cultural original, Maurice pacto neste processo. O mesmo não ocorreu
Dobb analisava a história fatual do capitalismo e com a Iugoslávia: sob a liderança de Tito e Kar-
o exilado Isaac Deutscher reconstruía a saga delj, os iugoslavos recusaram a validez universal
bolchevique. Na França, ainda nos anos 30, Henri do "modelo soviético" e enveredaram por um
Lefebvre destoava da dogmática de G. Politzer caminho peculiar, embasado na autogestão:
e, com N. Gutermann, redescobria preocupações "excomungada" oficialmente, a opção iugoslava
marxianas. Nos Estados Unidos, Paul M. Sweezy teve importantes conseqüências teóricas, repondo
pesquisava a dinâmica econômica do sistema no debate marxista temáticas elementares em
capitalista. Isolado na prisão fascista, Gramsci Marx, como a alienação, a práxis e o humanismo.
elaborava, assistematicamente, o eixo do seu Intensas discussões se travaram então na Polô­
pensamento. Centrando-se especialmente nos nia, na Hungria, na Tchecoslováquia e na Ale­
chamados "fenômenos superestruturais", o revo­ manha acerca da nova democracia — estava em
lucionário sardo enfatizava as relações entre jogo o ordenamento sociopolítico da transição,
cultura e política, observava a função dos inte­ mais tarde cristalizado aí nas denominadas demo­
lectuais e as conexões do Estado com a sociedade. cracias populares. Na Europa capitalista, um
Pensando as condições da revolução em estruturas protagonista importante desses debates foi Pal-
sociais complexas como as do Ocidente indus­ miro Togliatti, que teorizava sobre a "democra­
trializado, Gramsci redimensionou o papel do cia progressiva".
partido revolucionário (o "intelectual coletivo") O peso do marxismo institucionalizado, con­
e tratou da questão da hegemonia no processo tudo, barrava a incidência dessas e de outras
social. elaborações. Só mesmo com a sua fratura — cujo
Na seqüência da derrota nazifascista e da li­ processo público é aberto em fevereiro de 1956,
bertação pós-1945, o marxismo oficial começa com o XX Congresso do PCUS sendo o cenário
a experimentar seu declínio (recorde-se que a da denúncia da autocracia stalinista - é que as
Terceira Internacional foi extinta em 1943). A tensões existentes viriam à tona. E a segunda
construção das novas sociedades, nos países em metade dos anos 50 não assiste apenas à remoção
que os comunistas assumiram o poder, colocou de boa parte dos suportes políticos do marxismo
a questão das vias nacionais para a transição oficial, com os desdobramentos da desmistificação
60 J osé Paulo N etto O que é marxismo 61

da era stalinista. Assiste também à crise desse


instaura um renascimento da reflexão compro­
marxismo: a dogmática enfeixada no marxismo-
metida com Marx e rompe com a ilusão (e/ou
leninismo mostra-se incapaz de dar conta das
a pretensão) da existência de um marxismo,
inquietudes intelectuais emergentes, é pobre
único, conclusivo, "p u ro ” .
diante da complexidade dos novos fenômenos
postos pelo desenvolvimento do capitalismo no
pós-guerra e pelos movimentos de libertação
nacional, para não falar já dos problemas próprios
aos países que haviam rompido com a ordem
burguesa.
O marxismo dos manuais entra em colapso:
suas fórmulas começam a ser recusadas, mesmo
que ele continue pretendendo apresentar-se como
a autêntica interpretação de Marx e reclame o
monopólio das verdades.
Simetricamente à crítica da autocracia stali­
nista, surge um dupío movimento que configura
a crise do marxismo-leninismo, seu corolário
ideológico: ou seus herdeiros, decepcionados,
abandonam a tradição revolucionária que vem
de Marx para empreender um novo revisionismo,
reencontrando o velho caminho reformista pro­
posto pela social-democracia, ou se armam — com
uma releitura crítica de Marx — para enfrentar
o marxismo-leninismo, acertar as contas com ele
e ultrapassá-lo criticamente.
Essa última alternativa (para a qual contribuiu,
sem dúvidas, trabalho de estudiosos de Marx
afastados do movimento comunista), desenvol­
vendo-se dos finais dos anos 50 aos dias de hoje,
60 J osé Paulo N etto O que é marxismo 61

da era stalinista. Assiste também à crise desse


instaura um renascimento da reflexão compro­
marxismo: a dogmática enfeixada no marxismo-
metida com Marx e rompe com a ilusão (e/ou
leninismo mostra-se incapaz de dar conta das
a pretensão) da existência de um marxismo,
inquietudes intelectuais emergentes, é pobre
único, conclusivo, "p u ro ” .
diante da complexidade dos novos fenômenos
postos pelo desenvolvimento do capitalismo no
pós-guerra e pelos movimentos de libertação
nacional, para não falar já dos problemas próprios
aos países que haviam rompido com a ordem
burguesa.
O marxismo dos manuais entra em colapso:
suas fórmulas começam a ser recusadas, mesmo
que ele continue pretendendo apresentar-se como
a autêntica interpretação de Marx e reclame o
monopólio das verdades.
Simetricamente à crítica da autocracia stali­
nista, surge um dupío movimento que configura
a crise do marxismo-leninismo, seu corolário
ideológico: ou seus herdeiros, decepcionados,
abandonam a tradição revolucionária que vem
de Marx para empreender um novo revisionismo,
reencontrando o velho caminho reformista pro­
posto pela social-democracia, ou se armam — com
uma releitura crítica de Marx — para enfrentar
o marxismo-leninismo, acertar as contas com ele
e ultrapassá-lo criticamente.
Essa última alternativa (para a qual contribuiu,
sem dúvidas, trabalho de estudiosos de Marx
afastados do movimento comunista), desenvol­
vendo-se dos finais dos anos 50 aos dias de hoje,
0 que é marxismo 63

A história responde por esta mudança, que vai


alterar, mais uma vez, o perfil das interpretações
e análises da obra de Marx. É a história das expe­
riências de transição socialista, a história das
lutas operárias no Ocidente, a história dos movi­
mentos de libertação dos povos que sofriam a
opressão e a exploração coloniais e neocoloniais.
Não é preciso ressaltar que o marxismo institu­
A ULTRAPASSAGEM cionalizado não dava conta da riqueza e da com­
DO MARXISMO plexidade do mundo emergente no segundo pós-
guerra. Com a crítica da autocracia stalinista — ela
também produto da dinâmica histórica da socie­
dade soviética — , abrem-se as comportas que repre­
A segunda metade dos anos 50 — e o marco savam as tendências que, entre os herdeiros de
evidente é o XX Congresso do PCUS e suas conse­ Marx, apontavam para a análise dos fenômenos
qüências políticas e ideológicas — assinala o co­ em curso. Vejamos, muito brevemente, como as
lapso do marxismo oficial, institucionalizado. Isto questões histórico-concretas vão repercutir, nos
não significa que as suas concepções tenham sido anos seguintes a 1956, no redimensionamento da
superadas (antes, muitas delas ainda têm vigência tradição marxista.
no grosso do movimento comunista e revolucio­ A questão das experiências de transição socia­
nário). No entanto, a partir de então, surgem lista colocava vários problemas. De um lado, havia
e/ou ressurgem tendências alternativas de pensa­ que explicar por que a evolução soviética desa­
mento e reflexão que encontram ressonância tanto guara na autocracia stalinista; de outro, havia que
entre os comunistas e seus partidos como em compreender os caminhos dos Estados construídos
outros meios intelectuais. Se, sob tutela do mar­ após um processo de transformações revolucio­
xismo oficial, essas tendências eram rapidamente nárias diferente do soviético (por exemplo, a Iugos­
desqualificadas em nome do "verdadeiro mar­ lávia, a China e, depois, Cuba). Assim, a crítica
xismo” (o marxismo-leninismo), agora já não se ao stalinismo se faz paralelamente à análise de
sustentam facilmente as tentativas de salvaguardar processos revolucionários diversos. E, nos últimos
a "pureza da doutrina” . 25 anos, a bibliografia dos marxistas registrou
0 que é marxismo 63

A história responde por esta mudança, que vai


alterar, mais uma vez, o perfil das interpretações
e análises da obra de Marx. É a história das expe­
riências de transição socialista, a história das
lutas operárias no Ocidente, a história dos movi­
mentos de libertação dos povos que sofriam a
opressão e a exploração coloniais e neocoloniais.
Não é preciso ressaltar que o marxismo institu­
A ULTRAPASSAGEM cionalizado não dava conta da riqueza e da com­
DO MARXISMO plexidade do mundo emergente no segundo pós-
guerra. Com a crítica da autocracia stalinista — ela
também produto da dinâmica histórica da socie­
dade soviética — , abrem-se as comportas que repre­
A segunda metade dos anos 50 — e o marco savam as tendências que, entre os herdeiros de
evidente é o XX Congresso do PCUS e suas conse­ Marx, apontavam para a análise dos fenômenos
qüências políticas e ideológicas — assinala o co­ em curso. Vejamos, muito brevemente, como as
lapso do marxismo oficial, institucionalizado. Isto questões histórico-concretas vão repercutir, nos
não significa que as suas concepções tenham sido anos seguintes a 1956, no redimensionamento da
superadas (antes, muitas delas ainda têm vigência tradição marxista.
no grosso do movimento comunista e revolucio­ A questão das experiências de transição socia­
nário). No entanto, a partir de então, surgem lista colocava vários problemas. De um lado, havia
e/ou ressurgem tendências alternativas de pensa­ que explicar por que a evolução soviética desa­
mento e reflexão que encontram ressonância tanto guara na autocracia stalinista; de outro, havia que
entre os comunistas e seus partidos como em compreender os caminhos dos Estados construídos
outros meios intelectuais. Se, sob tutela do mar­ após um processo de transformações revolucio­
xismo oficial, essas tendências eram rapidamente nárias diferente do soviético (por exemplo, a Iugos­
desqualificadas em nome do "verdadeiro mar­ lávia, a China e, depois, Cuba). Assim, a crítica
xismo” (o marxismo-leninismo), agora já não se ao stalinismo se faz paralelamente à análise de
sustentam facilmente as tentativas de salvaguardar processos revolucionários diversos. E, nos últimos
a "pureza da doutrina” . 25 anos, a bibliografia dos marxistas registrou
64 J osé Paulo N etto O que é marxismo 65

uma substanciai ampliação das pesquisas sobre o organização econômica — o capitalismo mono­
papel dos Estados pós-revolucionários, da gestão polista de Estado (CME). Noutra perspectiva,
da economia no período da transição e das vias Sweezy e Baran declaram que, para o entendi­
nacionais para o comunismo, é nesta perspectiva mento do capitalismo contemporâneo, o decisivo
que surgem estudos sobre o Estado da autocracia é o estudo da destinação social do excedente
stalinista e as suas lutas de classes (Bettelheim, econômico. E Mandei, um dotado investigador
Bahro, Ellenstein), sobre a racionalidade da nova trotskista, tematiza o que chama de capitalismo
economia (Libermann, Lange, Sik) e sobre a orga­ tardio, determinando a iminência de uma série
nização dos novos Estados (Kardelj, Mao Tsé- de crises econômicas distintas das conhecidas
tung, Gomulka). até os anos 60.
Quanto às lutas operárias no Ocidente, o ponto No que toca ao papel revolucionário do pro­
fundamental residia na compreensão de por que letariado, igualmente há dissenções. Alguns pensa­
o movimento socialista encontrava crescentes dores chegaram a sugerir que este papel se trans­
obstáculos para se expressar de forma revolucio­ feriu para outros segmentos da população, com
nária. Três ordens de problemas deviam ser en­ a classe operária integrando-se à ordem burguesa
frentadas para elucidar este ponto: as modificações (num certo momento da sua trajetória, Marcuse
na organização econômica capitalista, os mecanis­ atribuiu a iniciativa revolucionária aos “ excluí­
mos de inserção política do proletariado na socie­ dos": jovens, minorias etc.). A maior parte deles,
dade burguesa e o papel desempenhado pelo porém, sustenta que continua válida a "missão
Estado burguês. Na análise destas questões, a histórica" do proletariado, desde que se levem
polêmica foi e continua acesa. em conta as novas categorias de trabalhadores que
Todos os pesquisadores concordam em que a a revolução científica e técnica — analisada, entre
economia capitalista articulou instrumentos de outros, por R. Richta — engendrou.
auto-regulação desconhecidos por Marx. O dilema A abordagem do Estado, na angulação exigida
está na identificação destes mecanismos e da sua pelas novas condições, supera o esquematismo
eficácia para alterar o caráter das crises inerentes do marxismo oficial. Mesmo com grandes diferen­
ao sistema. Economistas soviéticos (Cheprakov, ças entre si, os marxistas procuram entendê-lo
Rudenko) e franceses (Boccara) insistem em que não só como instrumento de coerção (o "com itê
o capitalismo monopolista ingressou numa etapa executivo dos interesses da burguesia"), mas
em que o Estado tornou-se o centro nevrálgico da ainda — na melhor tradição marxiana — como

a »
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64 J osé Paulo N etto O que é marxismo 65

uma substanciai ampliação das pesquisas sobre o organização econômica — o capitalismo mono­
papel dos Estados pós-revolucionários, da gestão polista de Estado (CME). Noutra perspectiva,
da economia no período da transição e das vias Sweezy e Baran declaram que, para o entendi­
nacionais para o comunismo, é nesta perspectiva mento do capitalismo contemporâneo, o decisivo
que surgem estudos sobre o Estado da autocracia é o estudo da destinação social do excedente
stalinista e as suas lutas de classes (Bettelheim, econômico. E Mandei, um dotado investigador
Bahro, Ellenstein), sobre a racionalidade da nova trotskista, tematiza o que chama de capitalismo
economia (Libermann, Lange, Sik) e sobre a orga­ tardio, determinando a iminência de uma série
nização dos novos Estados (Kardelj, Mao Tsé- de crises econômicas distintas das conhecidas
tung, Gomulka). até os anos 60.
Quanto às lutas operárias no Ocidente, o ponto No que toca ao papel revolucionário do pro­
fundamental residia na compreensão de por que letariado, igualmente há dissenções. Alguns pensa­
o movimento socialista encontrava crescentes dores chegaram a sugerir que este papel se trans­
obstáculos para se expressar de forma revolucio­ feriu para outros segmentos da população, com
nária. Três ordens de problemas deviam ser en­ a classe operária integrando-se à ordem burguesa
frentadas para elucidar este ponto: as modificações (num certo momento da sua trajetória, Marcuse
na organização econômica capitalista, os mecanis­ atribuiu a iniciativa revolucionária aos “ excluí­
mos de inserção política do proletariado na socie­ dos": jovens, minorias etc.). A maior parte deles,
dade burguesa e o papel desempenhado pelo porém, sustenta que continua válida a "missão
Estado burguês. Na análise destas questões, a histórica" do proletariado, desde que se levem
polêmica foi e continua acesa. em conta as novas categorias de trabalhadores que
Todos os pesquisadores concordam em que a a revolução científica e técnica — analisada, entre
economia capitalista articulou instrumentos de outros, por R. Richta — engendrou.
auto-regulação desconhecidos por Marx. O dilema A abordagem do Estado, na angulação exigida
está na identificação destes mecanismos e da sua pelas novas condições, supera o esquematismo
eficácia para alterar o caráter das crises inerentes do marxismo oficial. Mesmo com grandes diferen­
ao sistema. Economistas soviéticos (Cheprakov, ças entre si, os marxistas procuram entendê-lo
Rudenko) e franceses (Boccara) insistem em que não só como instrumento de coerção (o "com itê
o capitalismo monopolista ingressou numa etapa executivo dos interesses da burguesia"), mas
em que o Estado tornou-se o centro nevrálgico da ainda — na melhor tradição marxiana — como

a »
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66 J o s é Pa u l o N e t t o O que é marxismo 67

instrumento de organização do consenso polí- padrões burgueses "clássicos". No limite, o pro­


tico, que reproduz, em todos os níveis, as contra­ blema é implementar um projeto socialista revo­
dições sociais (Togiiatti, Claudin, Miliband). lucionário sem contar com a realidade histórica
De todos esses enfoques, o que resuita claro da nação e das classes sociais constituídas a partir
é que o processo revolucionário no Ocidente da industrialização e da urbanização. No enfren­
desenvolvido não segue as vias que a revolução tamento desta problemática, as contribuições
percorreu no "elo mais fraco da corrente” . Quase não-européias foram de vulto (Amílcar Cabral,
nenhum marxista sério, hoje, duvida que os mode­ Ernesto Guevara) e não estão devidamente
los que vingaram, por exemplo, na União Soviética avaliadas).
(partido único, Estado hipertrofiado identificado Toda essa efervescência política, cultural e
e fundido com o partido etc.) ou na China (guer­ teórica corre balizada por dois fenômenos que
rilha prolongada, zonas liberadas etc.), são in­ têm de ser considerados. De uma parte, as novas
viáveis nos países capitalistas avançados. Mesmo fraturas no seio do movimento revolucionário,
que se critiquem como insuficientes ou asseme­ tipificadas no conflito sino-soviético e reprodu­
lhadas à social-democracia as alternativas já apre­ zidas largamente entre os comunistas, terminam
sentadas, como aquelas envolvidas nas denomi­ por cristalizar uma outra divisão entre as cor­
nadas propostas eurocomunistas (Berlinguer, rentes renovadoras da tradição marxista e aquelas
Ingrao, Carrillo), o fato é que a realidade do apegadas a um novo dogmatismo (a versão inicial
capitalismo desenvolvido exige dos revolucioná­ do maoísmo, as caricaturas albanesas e, no plano
rios estratégias que, até agora, estão em aberto. teórico mais sofisticado, o marxismo impregnado
Enfim, mais problemas se colocaram com as de neopositivismo, como o de Althusser). De
lutas de libertação nacional dos povos da Ásia, outra, a aproximação ao legado de Marx de movi­
Ãfrica e América Latina, configuradas no segundo mentos de insurgência de origem não-proletária
pós-guerra e em processo até hoje. É um conjunto — baseados especialmente em camadas médias
de dilemas desconhecido pelo pensamento mar­ urbanas ou pequeno-burguesas, intelectuais ou
xista tradicional, todo ele centrado na discussão de inspiração religiosa — , que utilizam categorias
das sociedades capitalistas européias — trata-se marxianas num quadro de referência que nada
do elenco de questões relacionadas à escolha de tem a ver com a teoria social de Marx.
um caminho nlo-capitalista por sociedades em Os componentes que acabo de mencionar
que as relações sociais têm pouco a ver com os convergem, desde o final dos anos 50, para um
66 J o s é Pa u l o N e t t o O que é marxismo 67

instrumento de organização do consenso polí- padrões burgueses "clássicos". No limite, o pro­


tico, que reproduz, em todos os níveis, as contra­ blema é implementar um projeto socialista revo­
dições sociais (Togiiatti, Claudin, Miliband). lucionário sem contar com a realidade histórica
De todos esses enfoques, o que resuita claro da nação e das classes sociais constituídas a partir
é que o processo revolucionário no Ocidente da industrialização e da urbanização. No enfren­
desenvolvido não segue as vias que a revolução tamento desta problemática, as contribuições
percorreu no "elo mais fraco da corrente” . Quase não-européias foram de vulto (Amílcar Cabral,
nenhum marxista sério, hoje, duvida que os mode­ Ernesto Guevara) e não estão devidamente
los que vingaram, por exemplo, na União Soviética avaliadas).
(partido único, Estado hipertrofiado identificado Toda essa efervescência política, cultural e
e fundido com o partido etc.) ou na China (guer­ teórica corre balizada por dois fenômenos que
rilha prolongada, zonas liberadas etc.), são in­ têm de ser considerados. De uma parte, as novas
viáveis nos países capitalistas avançados. Mesmo fraturas no seio do movimento revolucionário,
que se critiquem como insuficientes ou asseme­ tipificadas no conflito sino-soviético e reprodu­
lhadas à social-democracia as alternativas já apre­ zidas largamente entre os comunistas, terminam
sentadas, como aquelas envolvidas nas denomi­ por cristalizar uma outra divisão entre as cor­
nadas propostas eurocomunistas (Berlinguer, rentes renovadoras da tradição marxista e aquelas
Ingrao, Carrillo), o fato é que a realidade do apegadas a um novo dogmatismo (a versão inicial
capitalismo desenvolvido exige dos revolucioná­ do maoísmo, as caricaturas albanesas e, no plano
rios estratégias que, até agora, estão em aberto. teórico mais sofisticado, o marxismo impregnado
Enfim, mais problemas se colocaram com as de neopositivismo, como o de Althusser). De
lutas de libertação nacional dos povos da Ásia, outra, a aproximação ao legado de Marx de movi­
Ãfrica e América Latina, configuradas no segundo mentos de insurgência de origem não-proletária
pós-guerra e em processo até hoje. É um conjunto — baseados especialmente em camadas médias
de dilemas desconhecido pelo pensamento mar­ urbanas ou pequeno-burguesas, intelectuais ou
xista tradicional, todo ele centrado na discussão de inspiração religiosa — , que utilizam categorias
das sociedades capitalistas européias — trata-se marxianas num quadro de referência que nada
do elenco de questões relacionadas à escolha de tem a ver com a teoria social de Marx.
um caminho nlo-capitalista por sociedades em Os componentes que acabo de mencionar
que as relações sociais têm pouco a ver com os convergem, desde o final dos anos 50, para um
68 J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 69

renovado interesse por Marx, que derivou, ainda, Nesse movimento, muito do que se produziu
de um duplo estímulo. Primeiro, a insatisfação em contraste com o marxismo-leninismo é resga­
de muitos intelectuais com o estado das ciências tado, revalorizando-se contribuições que, no
sociais levou-os a buscar na herança de Marx período da autocracia stalinista, eram ignoradas
elementos para uma revitalização de suas disci­ ou desacreditadas. Assim se explica o interesse
plinas ou especialidades (ilustram este procedi­ pelos escritos mais antigos de Lukács, pelas elabo­
mento, na filosofia, Sartre e, na sociologia, Wright rações de Bloch sobre a utopia e a esperança e pelas
Mills). Uma das conseqüências disso foi uma discussões sobre a cultura contemporânea desen­
mais forte inserção das idéias de Marx no interior volvidas por pensadores como Walter Benjamin.
dos debates acadêmicos. Depois — fato muito Parte integrante desse movimento é o ingresso
importante — , em função das novas exigências de novas temáticas no horizonte teórico da tradi­
do confronto ideológico, os marxistas se viram ção marxista: o universo da vida cotidiana (Le­
compelidos a uma postura crítica mais profunda febvre, A. Heller), o problema da personalidade
em face das conquistas e construções do pensa­ (L. Sèvre), a questão urbana (Lefebvre). No seu
mento desvinculado de compromissos com a interior, a polêmica com outras vertentes teóricas
revolução (como a psicanálise, o neopositivismo, o e disciplinas especializadas se enriquece: com a
estruturalismo, o existencialismo, a lingüística, a fenomenologia (Lukács, Kosic), com o estrutura­
fenomenologia). lismo (Lefebvre, Goldmann, Luporini, Thompson),
Como se infere, tanto as realidades econô- com a semântica (Schaff), com o existencialismo
mico-políticas quanto as condições culturais (Mészáros). E tanto se retomam preocupações esté­
do mundo em que os marxistas se movem, após ticas (Lukács, delia Volpe) quanto investigações
o colapso do marxismo institucionalizado, são de reconstrução histórica (Kofler, Hobsbawm, An-
complicadas e inéditas. Os que se limitam às derson), inclusive referidas à própria elaboração
citações dos "clássicos" e à repetição das velhas da teoria social por Marx (M. Rossi, Bottigelli,
fórmulas caem, necessariamente, no folclore Lápine, R. Rosdolski).
ideológico. E a história mesma que passa a exi­ O "renascimento do marxismo", porém, não
gir um "retom o a M arx" ou — sob a inspiração se verificou e verifica somente no confronto com
não de suas conclusões, mas de seu método — o as novas realidades históricas e com as propostas
que Lukács denominou de "renascimento do teóricas dele desvinculadas. Realiza-se através
marxismo". de inúmeras polêmicas que distinguem e até

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68 J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 69

renovado interesse por Marx, que derivou, ainda, Nesse movimento, muito do que se produziu
de um duplo estímulo. Primeiro, a insatisfação em contraste com o marxismo-leninismo é resga­
de muitos intelectuais com o estado das ciências tado, revalorizando-se contribuições que, no
sociais levou-os a buscar na herança de Marx período da autocracia stalinista, eram ignoradas
elementos para uma revitalização de suas disci­ ou desacreditadas. Assim se explica o interesse
plinas ou especialidades (ilustram este procedi­ pelos escritos mais antigos de Lukács, pelas elabo­
mento, na filosofia, Sartre e, na sociologia, Wright rações de Bloch sobre a utopia e a esperança e pelas
Mills). Uma das conseqüências disso foi uma discussões sobre a cultura contemporânea desen­
mais forte inserção das idéias de Marx no interior volvidas por pensadores como Walter Benjamin.
dos debates acadêmicos. Depois — fato muito Parte integrante desse movimento é o ingresso
importante — , em função das novas exigências de novas temáticas no horizonte teórico da tradi­
do confronto ideológico, os marxistas se viram ção marxista: o universo da vida cotidiana (Le­
compelidos a uma postura crítica mais profunda febvre, A. Heller), o problema da personalidade
em face das conquistas e construções do pensa­ (L. Sèvre), a questão urbana (Lefebvre). No seu
mento desvinculado de compromissos com a interior, a polêmica com outras vertentes teóricas
revolução (como a psicanálise, o neopositivismo, o e disciplinas especializadas se enriquece: com a
estruturalismo, o existencialismo, a lingüística, a fenomenologia (Lukács, Kosic), com o estrutura­
fenomenologia). lismo (Lefebvre, Goldmann, Luporini, Thompson),
Como se infere, tanto as realidades econô- com a semântica (Schaff), com o existencialismo
mico-políticas quanto as condições culturais (Mészáros). E tanto se retomam preocupações esté­
do mundo em que os marxistas se movem, após ticas (Lukács, delia Volpe) quanto investigações
o colapso do marxismo institucionalizado, são de reconstrução histórica (Kofler, Hobsbawm, An-
complicadas e inéditas. Os que se limitam às derson), inclusive referidas à própria elaboração
citações dos "clássicos" e à repetição das velhas da teoria social por Marx (M. Rossi, Bottigelli,
fórmulas caem, necessariamente, no folclore Lápine, R. Rosdolski).
ideológico. E a história mesma que passa a exi­ O "renascimento do marxismo", porém, não
gir um "retom o a M arx" ou — sob a inspiração se verificou e verifica somente no confronto com
não de suas conclusões, mas de seu método — o as novas realidades históricas e com as propostas
que Lukács denominou de "renascimento do teóricas dele desvinculadas. Realiza-se através
marxismo". de inúmeras polêmicas que distinguem e até

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70 J osé Paulo N etto
O que é marxismo 71

antagonizam os próprios pensadores que se consi­


deram marxistas. Isto é visível não apenas nas
concepções que eles têm do legado de Marx — por
exemplo: para Lukács, uma teoria da produção e
da reprodução do ser social; para Althusser, um
discurso epistemológico de novo tipo; para Váz-
quez, uma filosofia da práxis. É sobretudo visível
em três grandes controvérsias, elas mesmas conec­
tadas entre si, que percorrem os anos 60 e estão
presentes ainda hoje; os debates sobre a relação
entre Marx e Hegel, sobre a natureza do método
dialético empregado por Marx e sobre as di­
mensões humanistas do seu pensamento. Tais
discussões, estabelecendo ou negando "cortes”
entre Marx e Hegel, divorciando ou integrando
humanismo e ciência, não eram nem são querelas
acadêmicas: elas incidem diretamente na interpre­
tação do pensamento marxiano e rebatem de
modo indireto nas opções e apreciações políticas
mais imediatas.
Na condução e no desdobramento dessas e de
outras polêmicas, as posições se diferenciam e o
legado de Marx deixa de ser um território nitida­
mente demarcado para se colocar como um espec­
IMTERHATIONAl!
tro muito rico em matizes e variações. E se conso­ •V V JV A 11 T E R Z Â IS LEBE D ll ÔRITTE
lidam matrizes com características muito parti­ IHTERNABOHAIE COMMUNISM IpUîllOTE INTERNÂilOHAtt!
culares: alguns pensadores desenvolvem imposta-
ções epistemológicas (Althusser, os soviéticos %
A 11 Internacional deu origem ao marxismo.
Kopnin e Chaptulin); o velho Lukács trilha o
AIIIInternacional institucionalizou-o.
caminho de uma ontologia do ser social; as
70 J osé Paulo N etto
O que é marxismo 71

antagonizam os próprios pensadores que se consi­


deram marxistas. Isto é visível não apenas nas
concepções que eles têm do legado de Marx — por
exemplo: para Lukács, uma teoria da produção e
da reprodução do ser social; para Althusser, um
discurso epistemológico de novo tipo; para Váz-
quez, uma filosofia da práxis. É sobretudo visível
em três grandes controvérsias, elas mesmas conec­
tadas entre si, que percorrem os anos 60 e estão
presentes ainda hoje; os debates sobre a relação
entre Marx e Hegel, sobre a natureza do método
dialético empregado por Marx e sobre as di­
mensões humanistas do seu pensamento. Tais
discussões, estabelecendo ou negando "cortes”
entre Marx e Hegel, divorciando ou integrando
humanismo e ciência, não eram nem são querelas
acadêmicas: elas incidem diretamente na interpre­
tação do pensamento marxiano e rebatem de
modo indireto nas opções e apreciações políticas
mais imediatas.
Na condução e no desdobramento dessas e de
outras polêmicas, as posições se diferenciam e o
legado de Marx deixa de ser um território nitida­
mente demarcado para se colocar como um espec­
IMTERHATIONAl!
tro muito rico em matizes e variações. E se conso­ •V V JV A 11 T E R Z Â IS LEBE D ll ÔRITTE
lidam matrizes com características muito parti­ IHTERNABOHAIE COMMUNISM IpUîllOTE INTERNÂilOHAtt!
culares: alguns pensadores desenvolvem imposta-
ções epistemológicas (Althusser, os soviéticos %
A 11 Internacional deu origem ao marxismo.
Kopnin e Chaptulin); o velho Lukács trilha o
AIIIInternacional institucionalizou-o.
caminho de uma ontologia do ser social; as
72 J osé Paulo N etto O que é marxismo 73

sugestões historicistas ganham um novo alento Recuperando a radicalidade crítica e o direito


(Goldmann, Markovic). à diferença, o pensamento que se pretende her­
Neste movimento, em curso nos dias atuais deiro de Marx torna-se tanto mais compatível
e que, como todo processo de investigação, não com a sua inspiração quanto mais deixa de pro­
corre linear nem isento de equívocos, o que se por-se como um sistema fechado — como doutrina,
destroça é a hipótese da existência do "m arxism o". seja "m arxista", "marxista-leninista", ou qualquer
O que emerge não é um corpo de doutrina, mas outro "is ta " — e se restaura como indagação
um complexo de categorias cada vez mais abran­ teórica do mundo burguês para negá-lo enquanto
gente — e sempre incompleto — para conhe­ prática de hoje e amanhã.
cer e direcionar, em alguma medida, a dinâmica Esse trajeto necessário da reflexão conduz à
social. ultrapassagem mesma do "m arxism o" — não à
A articulação dessas categorias numa estrutura
"ultrapassagem" neoliberal, como a que acena
global indiscutível e única (numa concepção de o ex-marxista Colletti, ou à "ultrapassagem"
mundo) não encontra suporte no pensamento social-democrata, pretendida pelas viúvas e ór­
contemporâneo; a diversidade analítica que se fãos do stalinismo, mas à ultrapassagem da herança
instaurou entre os marxistas é de tal ordem que de Marx no exato sentido de realizá-la como
não pode, sob nenhum pretexto, ser suprimida da projeto teórico e prático revolucionário.
exploração teórica.
Isso, naturalmente, não significa que as diferen­
tes abordagens tenham a mesma validez ou que
sejam complementares. Significa, apenas, que a
verdade do ser social — como, aliás, Marx acre­
ditava — não está pronta, acabada, dada na reali­
dade para logo ser apreendida pelo pensamento.
Mais exatamente: a verdade do ser social não está
constituída — é constituinte e, portanto, da sua
correta apreensão participam, necessariamente, as
diferenças e os erros. A verdade do ser social não
é um resultado: é um processo, do qual o falso é
um momento.
72 J osé Paulo N etto O que é marxismo 73

sugestões historicistas ganham um novo alento Recuperando a radicalidade crítica e o direito


(Goldmann, Markovic). à diferença, o pensamento que se pretende her­
Neste movimento, em curso nos dias atuais deiro de Marx torna-se tanto mais compatível
e que, como todo processo de investigação, não com a sua inspiração quanto mais deixa de pro­
corre linear nem isento de equívocos, o que se por-se como um sistema fechado — como doutrina,
destroça é a hipótese da existência do "m arxism o". seja "m arxista", "marxista-leninista", ou qualquer
O que emerge não é um corpo de doutrina, mas outro "is ta " — e se restaura como indagação
um complexo de categorias cada vez mais abran­ teórica do mundo burguês para negá-lo enquanto
gente — e sempre incompleto — para conhe­ prática de hoje e amanhã.
cer e direcionar, em alguma medida, a dinâmica Esse trajeto necessário da reflexão conduz à
social. ultrapassagem mesma do "m arxism o" — não à
A articulação dessas categorias numa estrutura
"ultrapassagem" neoliberal, como a que acena
global indiscutível e única (numa concepção de o ex-marxista Colletti, ou à "ultrapassagem"
mundo) não encontra suporte no pensamento social-democrata, pretendida pelas viúvas e ór­
contemporâneo; a diversidade analítica que se fãos do stalinismo, mas à ultrapassagem da herança
instaurou entre os marxistas é de tal ordem que de Marx no exato sentido de realizá-la como
não pode, sob nenhum pretexto, ser suprimida da projeto teórico e prático revolucionário.
exploração teórica.
Isso, naturalmente, não significa que as diferen­
tes abordagens tenham a mesma validez ou que
sejam complementares. Significa, apenas, que a
verdade do ser social — como, aliás, Marx acre­
ditava — não está pronta, acabada, dada na reali­
dade para logo ser apreendida pelo pensamento.
Mais exatamente: a verdade do ser social não está
constituída — é constituinte e, portanto, da sua
correta apreensão participam, necessariamente, as
diferenças e os erros. A verdade do ser social não
é um resultado: é um processo, do qual o falso é
um momento.
0 que é marxismo 75

Se essa situação fosse verossímil, as coisas seriam


bem fáceis. Mas não é.
Em primeiro lugar, "o marxismo" é uma ficção.
Não há nada que, consensualmente, se possa reco­
nhecer como tal. A partir das indicações contidas
nos capítulos precedentes, o leitor pode concluir,
legitimamente, que "o marxismo" é uma série de
interpretações e acréscimos variados da obra de
CONCLUSÃO: APENAS Marx, condicionados, cada um deles, por injun-
UMA INTRODUÇÃO ções históricas, culturais, políticas etc.
Em segundo lugar, quer o pensamento de Marx,
quer os seus desdobramentos no curso da sucessão
dos marxismos, não são monopólio de quaisquer
Imaginemos a seguinte situação: existe um grupos ou instituições. Se durante muito tempo
conjunto de regras e princípios definidos, acei­ o legado de Marx esteve confinado às fronteiras
tos consensualmente como justos — e isso se do movimento operário (principalmente aos seus
chama "o marxismo". Este conjunto é pro­ segmentos mais avançados, os comunistas), a
priedade de um grupo de pessoas, que se dis­ verdade é que hoje muitas das suas propostas
tingue das demais pela sua posse e utilização. empolgam vastos setores sociais. De fato, esse
Qualificado "o marxismo", se encontraria um fenômeno, demonstrando a atualidade e o poten­
instrumento (o "m arxím etro") para quantifi­ cial do pensamento de Marx, não é singular: as
cá-lo e avaliar, entre aquelas pessoas, quem e' grandes idelas-força de uma época histórica ten­
mais ou menos "m arxista". E, em torno de um dem sempre a desbordar os seus quadros origi­
determinado índice (pontuado pelo uso de cer­ nais. O que, aliás, foi bem captado por Sartre,
tos conceitos e noções, implementação de certas quando pensou o marxismo como "o espírito do
ideias e práticas), se fixaria a linha divisória entre nosso tem po".
"m arxism o" e "não-marxismo". Então, se teria Se essa linha de reflexão é correta, então a
um referencial seguro para classificar e rotular resposta à pergunta "o que é marxismo?" deve
obras, autores e iniciativas teóricas, culturais, conduzir a uma crítica da própria indagação.
políticas etc. Com efeito, a pergunta, em larga medida, supõe
0 que é marxismo 75

Se essa situação fosse verossímil, as coisas seriam


bem fáceis. Mas não é.
Em primeiro lugar, "o marxismo" é uma ficção.
Não há nada que, consensualmente, se possa reco­
nhecer como tal. A partir das indicações contidas
nos capítulos precedentes, o leitor pode concluir,
legitimamente, que "o marxismo" é uma série de
interpretações e acréscimos variados da obra de
CONCLUSÃO: APENAS Marx, condicionados, cada um deles, por injun-
UMA INTRODUÇÃO ções históricas, culturais, políticas etc.
Em segundo lugar, quer o pensamento de Marx,
quer os seus desdobramentos no curso da sucessão
dos marxismos, não são monopólio de quaisquer
Imaginemos a seguinte situação: existe um grupos ou instituições. Se durante muito tempo
conjunto de regras e princípios definidos, acei­ o legado de Marx esteve confinado às fronteiras
tos consensualmente como justos — e isso se do movimento operário (principalmente aos seus
chama "o marxismo". Este conjunto é pro­ segmentos mais avançados, os comunistas), a
priedade de um grupo de pessoas, que se dis­ verdade é que hoje muitas das suas propostas
tingue das demais pela sua posse e utilização. empolgam vastos setores sociais. De fato, esse
Qualificado "o marxismo", se encontraria um fenômeno, demonstrando a atualidade e o poten­
instrumento (o "m arxím etro") para quantifi­ cial do pensamento de Marx, não é singular: as
cá-lo e avaliar, entre aquelas pessoas, quem e' grandes idelas-força de uma época histórica ten­
mais ou menos "m arxista". E, em torno de um dem sempre a desbordar os seus quadros origi­
determinado índice (pontuado pelo uso de cer­ nais. O que, aliás, foi bem captado por Sartre,
tos conceitos e noções, implementação de certas quando pensou o marxismo como "o espírito do
ideias e práticas), se fixaria a linha divisória entre nosso tem po".
"m arxism o" e "não-marxismo". Então, se teria Se essa linha de reflexão é correta, então a
um referencial seguro para classificar e rotular resposta à pergunta "o que é marxismo?" deve
obras, autores e iniciativas teóricas, culturais, conduzir a uma crítica da própria indagação.
políticas etc. Com efeito, a pergunta, em larga medida, supõe
76 J osé Paulo N etto O que é marxismo 77

exatamente aquela situação absurda imaginada base para inúmeros desenvolvimentos (as correntes
no primeiro parágrafo. A questão, pois, está marxistas) que, no seio de um bloco teórico-cultu-
falseada à partida pela pressuposição de uma res­ ral diferenciado (a tradição marxista), oferecem
posta determinada; só a formula quem, igual­ tratamentos complementares, alternativos e/ou
mente, tem a expectativa “ do marxismo". Des­ excludentes para os problemas que se foram e
feita a expectativa — para o que espero ter con­ vão colocando no mundo burguês e nas suas ultra­
trib u íd o ao longo deste ensaio — , a pergunta se passagens revolucionárias. Se se rotula esta tradi­
modifica substancialmente. E pode ser desdo­ ção de “ marxismo", corre-se o risco de perder
brada em outros sentidos e direções. 0 esclare­ de vista a sua enorme heterogeneidade — porque,
cimento possível das dúvidas que então se colo­ se existem fios condutores que a identificam
cam é factível a partir das observações que sumario enquanto uma tradição, existem igualmente, e
a seguir. com a mesma relevância, componentes que peculia-
A obra de Marx fundou um modo original rizam as numerosas propostas que a compõem.
de pensar a sociedade burguesa e a sua dinâmica, Entretanto, esse não é um problema mera­
que inclui necessariamente a alternativa da revo­ mente de nomenclatura: junto ao nome de Marx,
lução socialista. Tendo como marco o pensa­ o sufixo ismo não e' nada inocente — seu emprego
mento marxiano, desenvolveu-se uma tradição conduz, quase compulsoriamente, a circunscrever
marxista, dos anos 80 do século passado aos de forma arbitrária a tradição marxista a linhas
nossos dias. No bojo desta tradição se entrecru- de força que variam conforme os critérios (claros
zaram e se entrecruzam propostas diversificadas, ou tácitos) de quem o utiliza. A noção do mar­
conquistando alternadamente a hegemonia no xismo reduz a tradição marxista àquilo que um
interior desse leito histórico graças a razões di­ investigador ou uma instituição reconhece como
versas (desde o seu apelo intelectual à sua funcio­ tal e obstaculiza a sua compreensão como um
nalidade política). Respondendo, bem ou mal, espectro diferenciado de análises e propostas.
aos desafios históricos em face dos quais se foram Trata-se de uma terminologia comprometida com
erigindo, tais propostas tanto alargaram o universo uma visão muito particular do legado de Marx:
temático da tradição marxista quanto se vincula­ aquela que se condensa em torno do seu entendi­
ram seletivamente a algumas dimensões do pen­ mento como concepção do mundo.
samento de Marx. Em poucas palavras: a obra de 0 que a denominação marxismo traz consigo,
Marx (que chamamos de marxiana) forneceu a como um contrabando ideológico, é o abandono
76 J osé Paulo N etto O que é marxismo 77

exatamente aquela situação absurda imaginada base para inúmeros desenvolvimentos (as correntes
no primeiro parágrafo. A questão, pois, está marxistas) que, no seio de um bloco teórico-cultu-
falseada à partida pela pressuposição de uma res­ ral diferenciado (a tradição marxista), oferecem
posta determinada; só a formula quem, igual­ tratamentos complementares, alternativos e/ou
mente, tem a expectativa “ do marxismo". Des­ excludentes para os problemas que se foram e
feita a expectativa — para o que espero ter con­ vão colocando no mundo burguês e nas suas ultra­
trib u íd o ao longo deste ensaio — , a pergunta se passagens revolucionárias. Se se rotula esta tradi­
modifica substancialmente. E pode ser desdo­ ção de “ marxismo", corre-se o risco de perder
brada em outros sentidos e direções. 0 esclare­ de vista a sua enorme heterogeneidade — porque,
cimento possível das dúvidas que então se colo­ se existem fios condutores que a identificam
cam é factível a partir das observações que sumario enquanto uma tradição, existem igualmente, e
a seguir. com a mesma relevância, componentes que peculia-
A obra de Marx fundou um modo original rizam as numerosas propostas que a compõem.
de pensar a sociedade burguesa e a sua dinâmica, Entretanto, esse não é um problema mera­
que inclui necessariamente a alternativa da revo­ mente de nomenclatura: junto ao nome de Marx,
lução socialista. Tendo como marco o pensa­ o sufixo ismo não e' nada inocente — seu emprego
mento marxiano, desenvolveu-se uma tradição conduz, quase compulsoriamente, a circunscrever
marxista, dos anos 80 do século passado aos de forma arbitrária a tradição marxista a linhas
nossos dias. No bojo desta tradição se entrecru- de força que variam conforme os critérios (claros
zaram e se entrecruzam propostas diversificadas, ou tácitos) de quem o utiliza. A noção do mar­
conquistando alternadamente a hegemonia no xismo reduz a tradição marxista àquilo que um
interior desse leito histórico graças a razões di­ investigador ou uma instituição reconhece como
versas (desde o seu apelo intelectual à sua funcio­ tal e obstaculiza a sua compreensão como um
nalidade política). Respondendo, bem ou mal, espectro diferenciado de análises e propostas.
aos desafios históricos em face dos quais se foram Trata-se de uma terminologia comprometida com
erigindo, tais propostas tanto alargaram o universo uma visão muito particular do legado de Marx:
temático da tradição marxista quanto se vincula­ aquela que se condensa em torno do seu entendi­
ram seletivamente a algumas dimensões do pen­ mento como concepção do mundo.
samento de Marx. Em poucas palavras: a obra de 0 que a denominação marxismo traz consigo,
Marx (que chamamos de marxiana) forneceu a como um contrabando ideológico, é o abandono
78 J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 79

da historicidade da contribuição de Marx e dos em, a partir desta escolha, se estabelecer uma
que o sucederam: induzindo à idéia de uma linha interpretação global de Marx.
contínua entre o pensamento marxiano e os O segundo, que nos leva a um plano de discussão
projetos nele inspirados, obscurece os condicio­ bem mais complexo, se relaciona à legitimidade
namentos históricos, teóricos, culturais e políticos das várias propostas marxistas em face do pensa­
que respondem pelas várias interpretações, sub­ mento marxiano. A existência fatual de uma
trações e adições realizadas em tom o da obra de pluralidade de propostas inspiradas em Marx e'
Marx. Na verdade, é muito d ifícil desvincular da indiscutível; outro problema é o da sua compati­
noção de marxismo a problemática posta por bilidade com a obra de Marx tomada na sua intei­
uma história intelectual montada artificiosamente, reza. Esta questão não pode ser resolvida recor-
na qual a relação dos "discípulos" com o "mestre" rendo-se à letra de um ou outro texto marxiano; só
se define por "desvios", "deformações" ou, em deve ser equacionada considerando-se todo o
troca, "fidelidade". E, com efeito, há fortes projeto teórico e revolucionário de Marx, assen­
conotações sectárias na mística do marxismo, que tado em hipóteses que se verificam (ou não) na
podem facilitar procedimentos muito pouco prática histórico-social.
congruentes com a inspiração teórica de Marx. Se esse projeto é visto como uma concepção
É nesse sentido, aliás, que o processo da ultra­ de mundo, o trânsito ao dogmatismo é quase
passagem do marxismo adquire a sua relevância inevitável. Se é apreendido como um simples
mais óbvia. modelo de pesquisa, pode derivar no ceticismo
Cabe destacar, ainda, dois pontos importan­ teórico e prático. Em troca, se o tomamos como
tes. O primeiro remete à gênese das diferenciações investigação revolucionária do movimento real
constatáveis na tradição marxista. Elas têm origem da sociedade burguesa, à base de categorias inferi­
menos nas interpretações que podem ser feitas das do exame do seu próprio objeto (categorias
da obra marxiana e mais nas exigências colocadas que jamais o esgotam ou exaurem), então e' pos­
pelos contextos históricos em que se situam os
sível compreender que a dúvida metódica não se
marxistas. Às próprias demandas práticas que se degrada no relativismo, mas se testa na construção
põem aos marxistas se debitam boa parte das de uma teoria sempre aberta à confrontação com
diferenças: a tendência usual é a de extrair de
os novos processos emergentes. É nessa perspectiva
Marx aquilo que, num momento histórico preciso,
que a tradição marxista pode deixar de ser focada
é melhor instrumentalizável. 0 passo fatal consiste
como série de "erros" e/ou "acertos” para ser
78 J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 79

da historicidade da contribuição de Marx e dos em, a partir desta escolha, se estabelecer uma
que o sucederam: induzindo à idéia de uma linha interpretação global de Marx.
contínua entre o pensamento marxiano e os O segundo, que nos leva a um plano de discussão
projetos nele inspirados, obscurece os condicio­ bem mais complexo, se relaciona à legitimidade
namentos históricos, teóricos, culturais e políticos das várias propostas marxistas em face do pensa­
que respondem pelas várias interpretações, sub­ mento marxiano. A existência fatual de uma
trações e adições realizadas em tom o da obra de pluralidade de propostas inspiradas em Marx e'
Marx. Na verdade, é muito d ifícil desvincular da indiscutível; outro problema é o da sua compati­
noção de marxismo a problemática posta por bilidade com a obra de Marx tomada na sua intei­
uma história intelectual montada artificiosamente, reza. Esta questão não pode ser resolvida recor-
na qual a relação dos "discípulos" com o "mestre" rendo-se à letra de um ou outro texto marxiano; só
se define por "desvios", "deformações" ou, em deve ser equacionada considerando-se todo o
troca, "fidelidade". E, com efeito, há fortes projeto teórico e revolucionário de Marx, assen­
conotações sectárias na mística do marxismo, que tado em hipóteses que se verificam (ou não) na
podem facilitar procedimentos muito pouco prática histórico-social.
congruentes com a inspiração teórica de Marx. Se esse projeto é visto como uma concepção
É nesse sentido, aliás, que o processo da ultra­ de mundo, o trânsito ao dogmatismo é quase
passagem do marxismo adquire a sua relevância inevitável. Se é apreendido como um simples
mais óbvia. modelo de pesquisa, pode derivar no ceticismo
Cabe destacar, ainda, dois pontos importan­ teórico e prático. Em troca, se o tomamos como
tes. O primeiro remete à gênese das diferenciações investigação revolucionária do movimento real
constatáveis na tradição marxista. Elas têm origem da sociedade burguesa, à base de categorias inferi­
menos nas interpretações que podem ser feitas das do exame do seu próprio objeto (categorias
da obra marxiana e mais nas exigências colocadas que jamais o esgotam ou exaurem), então e' pos­
pelos contextos históricos em que se situam os
sível compreender que a dúvida metódica não se
marxistas. Às próprias demandas práticas que se degrada no relativismo, mas se testa na construção
põem aos marxistas se debitam boa parte das de uma teoria sempre aberta à confrontação com
diferenças: a tendência usual é a de extrair de
os novos processos emergentes. É nessa perspectiva
Marx aquilo que, num momento histórico preciso,
que a tradição marxista pode deixar de ser focada
é melhor instrumentalizável. 0 passo fatal consiste
como série de "erros" e/ou "acertos” para ser
80 J osé Paulo N etto

tratada como um complexo de aproximações


sucessivas, mais ou menos exitosas, a uma ver­
dade que se constitui no processo mesmo da
sua descoberta.
Tais considerações parecem — e de fato o são —
m uito pouco conclusivas. Afinal de contas, a
cada instante, se exige a definição não só do
''m arxism o" e do "não-marxismo", mas ainda
a determinação das fronteiras entre as várias cor­
rentes marxistas. Se o leitor me acompanhou até
aqui e não se sente em condições de esboçar essas
INDICAÇÕES PARA LEITURA
demarcações, ótim o: este livrinho foi escrito
exatamente para mostrar que tais divisórias, para
serem minimamente sérias, reclamam uma análise
O caminho mais válido para se aproximar do pensa­
extremamente cuidadosa e uma investigação de mento de Marx e de seus seguidores continua sendo a
fundo responsável. leitura de suas próprias obras — na verdade, nenhuma
A minha conclusão, pois, não quer ser mais interpretação ou resumo pode substituir o exame dos
que o fecho de uma tentativa para introduzir textos marxianos e marxistas. E parte significativa deste
o leitor na inesgotável problemática de Marx e material já é acessível ao leitor brasileiro, ainda que em
da tradição marxista. Como Lukács observou certa traduçSes nem sempre confiáveis.
feita, o caminho acabou — e, por isto mesmo, a De Marx e Engels há várias edições em português d '/í
viagem apenas começa. Ideologia Alemã e do Manifesto do Partido Comunista.
De Marx, entre outros títu los, estão disponíveis: Crítica
da Filosofia do Direito de Hegel, A Questão Judaica,
Manuscritos de 1844, Miséria da Filosofia, O 18 Brumário
de Luís Bonaparte, As Lutas de Classe na França (1848-
1850), Para a Crítica da Economia Política, Cartas a
Kugelmann, Crítica ao Programa de Gotha, O Capital
e Teorias da Mais-Valia. De Engels, estão editados: A
Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, A Origem
da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Anti-
80 J osé Paulo N etto

tratada como um complexo de aproximações


sucessivas, mais ou menos exitosas, a uma ver­
dade que se constitui no processo mesmo da
sua descoberta.
Tais considerações parecem — e de fato o são —
m uito pouco conclusivas. Afinal de contas, a
cada instante, se exige a definição não só do
''m arxism o" e do "não-marxismo", mas ainda
a determinação das fronteiras entre as várias cor­
rentes marxistas. Se o leitor me acompanhou até
aqui e não se sente em condições de esboçar essas
INDICAÇÕES PARA LEITURA
demarcações, ótim o: este livrinho foi escrito
exatamente para mostrar que tais divisórias, para
serem minimamente sérias, reclamam uma análise
O caminho mais válido para se aproximar do pensa­
extremamente cuidadosa e uma investigação de mento de Marx e de seus seguidores continua sendo a
fundo responsável. leitura de suas próprias obras — na verdade, nenhuma
A minha conclusão, pois, não quer ser mais interpretação ou resumo pode substituir o exame dos
que o fecho de uma tentativa para introduzir textos marxianos e marxistas. E parte significativa deste
o leitor na inesgotável problemática de Marx e material já é acessível ao leitor brasileiro, ainda que em
da tradição marxista. Como Lukács observou certa traduçSes nem sempre confiáveis.
feita, o caminho acabou — e, por isto mesmo, a De Marx e Engels há várias edições em português d '/í
viagem apenas começa. Ideologia Alemã e do Manifesto do Partido Comunista.
De Marx, entre outros títu los, estão disponíveis: Crítica
da Filosofia do Direito de Hegel, A Questão Judaica,
Manuscritos de 1844, Miséria da Filosofia, O 18 Brumário
de Luís Bonaparte, As Lutas de Classe na França (1848-
1850), Para a Crítica da Economia Política, Cartas a
Kugelmann, Crítica ao Programa de Gotha, O Capital
e Teorias da Mais-Valia. De Engels, estão editados: A
Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, A Origem
da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Anti-
J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 83
82

Duhring, Ludwíg Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica contemporânea, que reclama leitura atenta (embora su­
Alemã e Dialética da Natureza. Uma boa fonte, ainda, são pondo já um público minimamente informado), é a que
os três volumes das Obras Escolhidas de Marx e Engels, Perry Anderson realizou nas suas sucintas Considerações
com pelo menos duas edições no Brasil (a primeira, dos sobre o Marxismo Ocidental (Editora Afrontamento,
anos 60, pela Editorial Vitória, do Rio de Janeiro; a se­ Porto, s/d) e no ensaio A Crise da Crise do Marxismo
gunda, de 1977, pelas Edições Sociais, de São Paulo). (Editora Brasiliense, São Paulo, 1984).
Quem desejar um contato direto com textos marxianos Para o leitor iniciante, há uma infindável bibliografia
e marxistas selecionados, pode recorrer às antologias que fornece preciosas indicações quer sobre o pensamento
preparadas por Nelson Werneck Sodré sob os títu los Fun­ de Marx, quer sobre os principais elementos da tradição
damentos do Materialismo Dialético, Fundamentos do marxista. É impossível registrá-la aqui, mas valem as seguin­
Materialismo Histórico, Fundamentos da Economia Mar­ tes sugestões: H. Lefebvre, O Marxismo (Difel, São Paulo,
xista e Fundamentos da Estética Marxista (todos lançados 1979) e Para Compreender o Pensamento de Karl Marx
pela Editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro, em (Edições 70, Lisboa, 1981); E. Fischer/F. Marek, O Que
1968). Outra antologia interessante, direcionada diferen­ Marx Realmente Disse (Editora Civilização Brasileira, Rio
temente e permeada de argutos comentários críticos, é de Janeiro, 1970). E nesta coleção Primeiros Passos há
a organizada por C. Wright Mills, Os Marxistas (Editora toda uma série de títu los que, sob óticas diferenciadas,
Zahar, Rio de Janeiro, 1968). Ainda em se tratando de tematizam importantes e específicas questões da tra­
antologias, menção especial merecem as coletâneas da dição marxista (veja, neste volume, a lista dos livros já
coleção "Grandes Cientistas Sociais", coordenada por publicados).
Florestan Fernandes para a Editora Ática (São Paulo) O leitor que pretender uma visão sumária do marxismo
— dentre seus vários volumes, foram publicados os de desenvolvido pela Segunda Internacional deve recorrer
Marx, Engels, Lênin, Stalin, Mao Tsé-tung, Trotski, Gue- (além do "clássico" de Engels, Anti-Duhríng, já citado)
vara, Mariátegui, Lukács, delia Volpe etc., com textos aos quatro primeiros artigos - "K arl Marx, "Friedrich
precedidos de uma introdução crítico-analítica. Engels", "A s três fontes e as três partes constitutivas
Como enquadramento global da evolução de Marx e do marxismo", "Marxismo e revisionismo" — do primeiro
das modificações sofridas peio seu iegado na constituição volume das Obras Escolhidas de Lênin (Editora Avante/Edi­
da tradição marxista, é indispensável uma referência his­ torial Progresso, Lisboa/Moscou, 1978). No mesmo sentido,
tórica abrangente. Cumpre este pape! a excelente História recomenda-se, de Kautsky, As Três Fontes do Marxismo
do Marxismo, organizada por Eric J. Hobsbawm, cujos (Textos Marginais, Porto, 1975). Trata-se de um conjunto
primeiros volumes estão sendo publicados desde 1979 de textos de fácil leitura.
(Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro). Uma importante Para o conhecimento do marxismo-leninismo — afora
análise histórico-crítica de parte da tradição marxista os divulgados manuais de G. Politzer e, mais recentemente,
J osé Paulo N etto 0 que é marxismo 83
82

Duhring, Ludwíg Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica contemporânea, que reclama leitura atenta (embora su­
Alemã e Dialética da Natureza. Uma boa fonte, ainda, são pondo já um público minimamente informado), é a que
os três volumes das Obras Escolhidas de Marx e Engels, Perry Anderson realizou nas suas sucintas Considerações
com pelo menos duas edições no Brasil (a primeira, dos sobre o Marxismo Ocidental (Editora Afrontamento,
anos 60, pela Editorial Vitória, do Rio de Janeiro; a se­ Porto, s/d) e no ensaio A Crise da Crise do Marxismo
gunda, de 1977, pelas Edições Sociais, de São Paulo). (Editora Brasiliense, São Paulo, 1984).
Quem desejar um contato direto com textos marxianos Para o leitor iniciante, há uma infindável bibliografia
e marxistas selecionados, pode recorrer às antologias que fornece preciosas indicações quer sobre o pensamento
preparadas por Nelson Werneck Sodré sob os títu los Fun­ de Marx, quer sobre os principais elementos da tradição
damentos do Materialismo Dialético, Fundamentos do marxista. É impossível registrá-la aqui, mas valem as seguin­
Materialismo Histórico, Fundamentos da Economia Mar­ tes sugestões: H. Lefebvre, O Marxismo (Difel, São Paulo,
xista e Fundamentos da Estética Marxista (todos lançados 1979) e Para Compreender o Pensamento de Karl Marx
pela Editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro, em (Edições 70, Lisboa, 1981); E. Fischer/F. Marek, O Que
1968). Outra antologia interessante, direcionada diferen­ Marx Realmente Disse (Editora Civilização Brasileira, Rio
temente e permeada de argutos comentários críticos, é de Janeiro, 1970). E nesta coleção Primeiros Passos há
a organizada por C. Wright Mills, Os Marxistas (Editora toda uma série de títu los que, sob óticas diferenciadas,
Zahar, Rio de Janeiro, 1968). Ainda em se tratando de tematizam importantes e específicas questões da tra­
antologias, menção especial merecem as coletâneas da dição marxista (veja, neste volume, a lista dos livros já
coleção "Grandes Cientistas Sociais", coordenada por publicados).
Florestan Fernandes para a Editora Ática (São Paulo) O leitor que pretender uma visão sumária do marxismo
— dentre seus vários volumes, foram publicados os de desenvolvido pela Segunda Internacional deve recorrer
Marx, Engels, Lênin, Stalin, Mao Tsé-tung, Trotski, Gue- (além do "clássico" de Engels, Anti-Duhríng, já citado)
vara, Mariátegui, Lukács, delia Volpe etc., com textos aos quatro primeiros artigos - "K arl Marx, "Friedrich
precedidos de uma introdução crítico-analítica. Engels", "A s três fontes e as três partes constitutivas
Como enquadramento global da evolução de Marx e do marxismo", "Marxismo e revisionismo" — do primeiro
das modificações sofridas peio seu iegado na constituição volume das Obras Escolhidas de Lênin (Editora Avante/Edi­
da tradição marxista, é indispensável uma referência his­ torial Progresso, Lisboa/Moscou, 1978). No mesmo sentido,
tórica abrangente. Cumpre este pape! a excelente História recomenda-se, de Kautsky, As Três Fontes do Marxismo
do Marxismo, organizada por Eric J. Hobsbawm, cujos (Textos Marginais, Porto, 1975). Trata-se de um conjunto
primeiros volumes estão sendo publicados desde 1979 de textos de fácil leitura.
(Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro). Uma importante Para o conhecimento do marxismo-leninismo — afora
análise histórico-crítica de parte da tradição marxista os divulgados manuais de G. Politzer e, mais recentemente,
84 J osé Paulo N etto

de Marta Harnecker, todos de simples digestão — , o recurso


deve ser à sua versão enciclopédica: o enorme compêndio, mmmm
redigido sob a direção do acadêmico soviético 0 . V. Kuuci-
nen, Fundamentos do Marxismo-Lêninismo (Editorial
V itória, Rio de Janeiro, 1962).
Elementos críticos em face dessa dogmática, elaborados
com angulações muito diferentes, mas supondo razoâv':!
informação, o leitor encontra em: R. Garaudy, 0 Marxismo
do Século X X (Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1967);
I. Fetscher, Marx e os Marxismos (idem); H. Lefebvre, Sobre o Autor
Problemas Atuais do Marxismo (Editora Fronteira, Lisboa,
1977 ); L. Colletti, Ultrapassando o Marxismo (Editora A primeiros Passos pede ficha e retrato
Forense, Rio de Janeiro, 1983. do autor. Não tenho culpa: só posso encur­
tar a primeira, e aí vai ela.
Nasci nas Minas Gerais (Juiz de Fora),
no remoto 1947. Freqüentando ótimas
escolas de burguesia, foi inevitável que eu
escolhesse companhias melhores, e deu no que deu; entre outras
coisas, forçaram-me (não as companhias, é claro) a um turismo
no exterior.
A ortodoxia de gabinete foi destroçada pela vida: as minhas
verdades de bolso não suportaram o exílio. Mineiramente des­
confiado da teoria necessária e da política compulsória e contin­
gente entre as quais me divido, só tenho conseguido, ao longo do
tempo, ser fiel à minha convicção de que o verdadeiro problema,
o mais central de todos, se coloca na alternativa entre o comunis­
mo e a barbárie. O resto é decorrência. No mais, cometi ensaios e
livros (pela Brasiliense, este é o quarto), traduzi gente fina (Marx,
Engels, Lênin, Lukás) e lecionei (na Europa, América Central e
na PUC-SP). Fui editorialistado seminário Vozda Unidade.
Nestes mais de 37 anos, com o bonde de Drummond, perdi
muita coisa - menos a esperança, que o pessimismo toma impera­
tiva. Por isso, continuo resistindo e apostando. Com paixão.
84 J osé Paulo N etto

de Marta Harnecker, todos de simples digestão — , o recurso


deve ser à sua versão enciclopédica: o enorme compêndio, mmmm
redigido sob a direção do acadêmico soviético 0 . V. Kuuci-
nen, Fundamentos do Marxismo-Lêninismo (Editorial
V itória, Rio de Janeiro, 1962).
Elementos críticos em face dessa dogmática, elaborados
com angulações muito diferentes, mas supondo razoâv':!
informação, o leitor encontra em: R. Garaudy, 0 Marxismo
do Século X X (Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1967);
I. Fetscher, Marx e os Marxismos (idem); H. Lefebvre, Sobre o Autor
Problemas Atuais do Marxismo (Editora Fronteira, Lisboa,
1977 ); L. Colletti, Ultrapassando o Marxismo (Editora A primeiros Passos pede ficha e retrato
Forense, Rio de Janeiro, 1983. do autor. Não tenho culpa: só posso encur­
tar a primeira, e aí vai ela.
Nasci nas Minas Gerais (Juiz de Fora),
no remoto 1947. Freqüentando ótimas
escolas de burguesia, foi inevitável que eu
escolhesse companhias melhores, e deu no que deu; entre outras
coisas, forçaram-me (não as companhias, é claro) a um turismo
no exterior.
A ortodoxia de gabinete foi destroçada pela vida: as minhas
verdades de bolso não suportaram o exílio. Mineiramente des­
confiado da teoria necessária e da política compulsória e contin­
gente entre as quais me divido, só tenho conseguido, ao longo do
tempo, ser fiel à minha convicção de que o verdadeiro problema,
o mais central de todos, se coloca na alternativa entre o comunis­
mo e a barbárie. O resto é decorrência. No mais, cometi ensaios e
livros (pela Brasiliense, este é o quarto), traduzi gente fina (Marx,
Engels, Lênin, Lukás) e lecionei (na Europa, América Central e
na PUC-SP). Fui editorialistado seminário Vozda Unidade.
Nestes mais de 37 anos, com o bonde de Drummond, perdi
muita coisa - menos a esperança, que o pessimismo toma impera­
tiva. Por isso, continuo resistindo e apostando. Com paixão.
O marxismo é uma fascinante construção
cultural, uma aventura que conjuga o pensar
e o fazer, já que a herança de Marx exige a
reflexão crítica e a ação revolucionária.
Sua obra original é necessária, mas não
suficiente para entender e revolucionar o
mundo contemporâneo. Assim, não existe
“o marxismo”, mas “os marxismos”,
vertentes de uma mesma tradição teórico­
-política. Incentivando o questionamento e
a crítica, este livro facilita os “primeiros
passos” para reflexões mais sérias.

Área de interesse:
História, Política

editora brasiliense