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ECONOMIA POLÍTICA

DEF0111 Economia Política


Prof. Doutor José Maria Arruda de Andrade
1º Semestre de 2013 – Sala 22 – Turma 186
Anotações: Isac Silveira da Costa (isac.costa@gmail.com)
Versão 1.3 (3/6/2013) – atualizadas em 14/5/2017 as aulas sobre Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx
NOTA: As anotações desta aula foram complementadas com trechos extraídos dos livros:
 HUNT, E. K. História do Pensamento Econômico: Uma Perspectiva Crítica. 2. ed. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2005.
 NUNES, Antônio José Avelãs. Uma Introdução à Economia Política. São Paulo: Quartier Latin, 2007.

Conteúdo
1. Noção e Objeto da Economia Política. As Relações entre Economia e Direito. ........................................ 3 
1.1.  Aspectos históricos e Definição de Economia Política ..................................................................... 3 
1.2.  Surgimento da Economia ................................................................................................................. 3 
2.  A Formação Simultânea do Sistema Capitalista e do Estado Moderno .................................................. 6 
2.1.  A transição para o Capitalismo ........................................................................................................ 6 
2.2.  Mercantilismo ................................................................................................................................... 6 
2.3.  Sistema Capitalista e Estado Moderno ............................................................................................ 6 
2.4.  Seminário ......................................................................................................................................... 7 
3.  O Sistema Econômico Capitalista – Modelo Teórico .............................................................................. 9 
4.  A Economia Política Clássica: Adam Smith .......................................................................................... 10 
4.1.  Contextualização ............................................................................................................................ 10 
4.2.  Estrutura do pensamento dos autores clássicos ............................................................................ 11 
4.3.  A Teoria do Valor de Adam Smith .................................................................................................. 12 
4.4.  O Legado de Adam Smith .............................................................................................................. 14 
4.5.  Seminário ....................................................................................................................................... 14 
5.  A Economia Política Clássica: David Ricardo ....................................................................................... 15 
5.1.  Contexto Histórico ...................................................................................................................... 15 
5.2.  Teoria da Renda e do Lucro ....................................................................................................... 16 
5.3.  Teoria do Valor de Ricardo ......................................................................................................... 18 
5.4.  Teoria das Vantagens Comparativas e Comércio Internacional .................................................... 20 
Seminário 3 ............................................................................................................................................... 20 
6.  A Crítica da Economia Política de Karl Marx. A Relação entre Direito e Economia nas Teorias Críticas
e o Risco do Reducionismo Político e ou Econômico. ................................................................................. 21 
6.1.  Introdução ...................................................................................................................................... 21 
6.2.  Mercadoria, Trabalho, Valor e Mais-Valia ...................................................................................... 22 
6.3.  Risco de Reducionismo.................................................................................................................. 25 

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7.  A Escola Histórica da Economia. O Debate dos Métodos entre Carl Menger e Gustav Schmöller. A
Revolução Marginalista e as Escolas Neoclássicas. .................................................................................... 26 
8.  A Industrialização Retardatária. O Capitalismo no Século XIX. Monopólios e Cartéis. ........................ 28 
9.  Movimento Antitrust nos EUA e Concorrência Leal na Alemanha. Influências sobre o Brasil. ............. 29 
10.  A Revolução Teórica de John Maynard Keynes e o Debate sobre o Pleno Emprego. O Estado
Intervencionista do Século XX. ..................................................................................................................... 31 
11.  A Economia Política do Desenvolvimento ......................................................................................... 35 
12.  O Capitalismo Contemporâneo. A Experiência do Welfare State e as Teorias Neoliberais. A
Financeirização do Capitalismo. O Direito Econômico brasileiro. ................................................................ 38 

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1. Noção e Objeto da Economia Política. As Relações
entre Economia e Direito.
1.1. Aspectos históricos e Definição de Economia Política
Etimologicamente, a expressão Economia Política1 significa administração do patrimônio da cidade (do
patrimônio do estado, do patrimônio público), uma vez que tem sua raiz nas palavras gregas oikonomia
(oikos – casa, patrimônio; nomos – ordem, lei, administração) e política (relativa à polis, cidade-estado dos
gregos).
A partir de 1890, generalizou-se a designação Economics, a partir da obra Principles of Economics, de
Alfred Marshall. A “revolução marginalista” revelou a preocupação de apresentar a disciplina como uma
teoria pura, com destaque para o indivíduo, em detrimento de grupos, da sociedade ou do Estado.
A Economia Política se liga, em regra, a uma nota metodológica específica dentro da abordagem científica
dos problemas econômicos. Não apresenta um paradigma autônomo, não é homogênea. Há várias
economias políticas, que abrem caminho para diferentes ponderações acerca da importância dos
elementos não econômicos (históricos, políticos, culturais, religiosos, filosóficos, ideológicos).
A economia política clássica tinha como objeto as relações sociais de produção e distribuição.
Atualmente, seu traço comum é uma atitude crítica perante a mainstream economics, no que diz respeito à
sua pretensão ser ciência pura, aos seus postulados individualistas, à sua defesa do equilíbrio e a da
harmonia e à sua recusa em considerar a perspectiva histórica e os fatores dinâmicos.
A economia trata da satisfação das necessidades humanas diante de escolhas envolvendo bens
escassos, através de trocas econômicas, notadamente o comércio e a indústria – uma definição
contemporânea de Economia é " A economia é a ciência que estuda as formas de comportamento humano
resultantes da relação existente entre as ilimitadas necessidades a satisfazer e os recursos que, embora
escassos, se prestam a usos alternativos" (Lionel Robbins).
Os bens de que necessitamos podem ser saciados pelo ciclo produtivo e pelas trocas, onde há associação
de pessoas e divisão do trabalho. As operações de compra e venda, a regulação do mercado de trabalho,
a tributação, as relações de consumo, todos estes temas têm aspectos jurídicos a serem considerados.
Numa economia de mercado, a escolha do que produzir e do que consumir cabe aos próprios agentes
econômicos. A importância da regulação da atividade econômica advém da necessidade de interferência
nas escolhas econômicas para que o bem comum seja alcançado, não apenas a satisfação de um
determinado agente em detrimento dos demais, com um aproveitamento ineficiente dos recursos
disponíveis para a produção. A própria decisão dos limites desta coordenação constitui uma decisão
econômica importante para que se mantenha o equilíbrio das satisfações humanas.

1.2. Surgimento da Economia


O surgimento da ciência econômica está relacionado ao advento do capitalismo como sistema produtivo,
como modo de produção autônomo, no século XVIII. Antes disso, vários autores, de Aristóteles aos
mercantilistas, formularam proposições e escreveram livros sobre temas de economia, porém com
discursos mais relacionados à moral, à política ou ao direito, sem configurarem uma ciência econômica
autônoma relativamente a essas outras disciplinas. Os registros das atividades de comércio remontam aos
egípcios e aos povos antigos da Mesopotâmia. Porém, não havia a preocupação com a criação de uma
teoria sobre os processos econômicos.

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A designação economia política foi utilizada pela primeira vez pelo mercantilista francês Antoine de Montchrestein
na obra Traité d’Économie Politique (1615), tendo sido adotada posteriormente por James Steuart em 1770 e nos
trabalhos de autores clássicos, como Ricardo e James Mill.
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Costuma-se dizer que a moderna teoria econômica começou com Adam Smith (1723-1790). O
pensamento econômico está ligado a questões como: quais as características do capitalismo, como este
sistema funciona, o que determina o volume da produção, qual a origem do crescimento econômico,
como ocorre a distribuição da riqueza e da renda, quão adequado é o capitalismo para a satisfação das
necessidades humanas e como poderia ser transformado para melhor atender a estas necessidades, entre
outras questões pertinentes.
Com o capitalismo e o pensamento racional burguês, o objeto da ciência econômica passa a ser o de
descobrir as leis naturais que regulam o processo de produção e de distribuição do produto social. Os
fisiocratas, tendo François Quesnay como principal expoente, defenderam o princípio do laissez-faire
laissez-passer ("deixai fazer, deixai ir, deixai passar") e a existência de uma ordem natural governada por
leis soberanas, físicas.
Com Adam Smith, a natureza e a razão passam a legitimar o desejo de enriquecer, prática condenada
pela teologia, agora fundamentada em uma justificação moral apresentada em “A Riqueza das Nações”. A
Economia Política nasceu enquadrada na nova ideologia burguesa.
Todos os autores procuravam soluções para os problemas de sua época. A partir dos papéis
desempenhados pelos agentes econômicos, formulavam-se respostas para questões como “por que algo
tem valor?”ou “por que as pessoas pagam um determinado preço por um dado bem?”.
Hoje perfilam-se dois grandes paradigmas acerca da ciência econômica.
A perspectiva clássico-marxista inicia-se com os fisiocratas, passa por Smith e Ricardo e desemboca
em Marx, tendo sido modernamente renovada por Piero Sraffa.
Nesta perspectiva, a ciência econômica se interroga acerca da origem da riqueza e da natureza do
excedente e procura explicar como este se distribui entre as várias classes sociais. As leis que
regulam a distribuição do excedente estão intimamente ligadas às regras que enquadram o processo
social de produção.
Encontram-se nas correntes que integram esta perspectiva a economia política dos clássicos ingleses e a
crítica da economia política desenvolvida por Marx.
A economia política ortodoxa considera o sistema social existente como um fato estabelecido, parte da
ordem natural das coisas, e procura harmonizar os interesses dos indivíduos. Baseia-se no equilíbrio geral
e/ou parcial.
Karl Marx propõe um modo de análise oposto: em vez de harmonia, encontrou o conflito, em vez de
transformações progressivas, encontrou a descontinuidade qualitativa. Em vez das forças tendentes ao
equilíbrio, insistiu nas forças tendentes a romper e a destruir o status quo.
A perspectiva subjetivista-marginalista vem de Jean-Baptiste Say e Willam Nassau Senior, entre outros
que estudaremos, afirmando-se como “revolução marginalista” e que hoje se apresenta como a
perspectiva acadêmica dominante, a mainstream economics.
Esta perspectiva assenta-se numa concepção atomística da sociedade, não incluindo as classes sociais
na análise econômica, ignorando o conflito social, reduzindo a vida ao mercado. Afirma-se como ciência
pura, como ciência positiva, por contraposição à economia política ideológica e doutrinária.
Ocorre, ainda, um processo de formalização matemática da ciência econômica. As relações sociais são
ignoradas e o foco passa a ser a racionalidade do indivíduo, que produz e consome.
O marginalismo neoclássico foi objeto de seus primeiros tratamentos significativos a partir de 1870.
Os trabalhos clássicos ingleses no domínio da economia política foram instrumentos da luta da burguesia
empenhada contra as velhas classes feudais. Criticavam-se relações de propriedade ultrapassadas, que
sobreviviam graças à proteção do Estado e que entravavam o desenvolvimento das forças produtivas.
A teoria do valor-trabalho (núcleo teórico das críticas à velha sociedade) considerava o trabalho como
única fonte de valor e contrapunha a igualdade e justiça burguesas em face da opressão e privilégios
feudais. O livre-cambismo, enquanto defesa da liberdade do comércio internacional, sem restrições
artificiais impostas por qualquer Estado, correspondia aos interesses da burguesia industrial inglesa.

4
Quando a burguesia se instalou como classe dominante e quando a nova classe operária começou a
ganhar consciência da sua própria posição no processo produtivo social, a burguesia deixou de ter
interesse na economia política enquanto ciência orientada para a descoberta das leis econômicas do
funcionamento e da evolução da sociedade capitalista. Nesse sentido, a economia política deixava de ser
útil à burguesia e transformava-se em ideologia, no sentido de instrumento de defesa dos interesses da
classe dominante na sociedade capitalista contra a ideologia da classe operária. Surge, então, a economia
política marxista como crítica da economia política clássica.
Alguns economistas atribuem importância primária ao ambiente político, social e econômico para moldar a
natureza das perguntas que fazem e, portanto, o conteúdo das teorias econômicas que surgem durante
um período especifico. De acordo com John Kenneth Galbraith, “as ideias são inerentemente
conservadoras, elas não recuam diante do ataque de outras ideias, mas, sim, diante do ataque maciço de
circunstâncias contra as quais não conseguem lutar”.
Algumas teorias surgem, claramente, como consequência direta das questões em voga na atualidade.
Outros avanços na economia simplesmente surgem da busca continua por conhecimento, de fatores
internos dentro de uma disciplina, como a descoberta e a explicação de paradoxos não resolvidos,
resultando em avanços teóricos, e isso é relativamente independente dos eventos atuais.

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2. A Formação Simultânea do Sistema Capitalista e do
Estado Moderno
2.1. A transição para o Capitalismo
Quando do desenvolvimento do comércio de longa distância no século XV, decorrente da expansão
marítimo-comercial, o feudalismo já começara a se dissolver na Europa Ocidental, pois o excedente social
se tornava cada vez menor para sustentar uma classe dominante que crescia rapidamente. Das práticas
comerciais surgiram sistemas complexos de câmbio, compensação e facilidades creditícias, além de
novos sistemas de leis. O crescimento das cidades contribuiu para o enfraquecimento e rompimento dos
laços com a estrutura econômica e social feudal.
A crescente demanda por itens manufaturados conduziu a um maior controle do processo produtivo pelo
capitalista comerciante. O capitalista passou a ser proprietário das ferramentas e das máquinas e até
mesmo do prédio onde a produção tinha lugar. O trabalhador agora já não vendia um produto acabado ao
comerciante, mas somente seu próprio trabalho. O controle capitalista estendeu-se ao processo de
produção e surgiu uma força de trabalho que possuía pouco ou nenhum capital e nada tinha a vender, a
não ser sua força de trabalho. Os cercamentos na Inglaterra, o aumento populacional e o êxodo rural
contribuíram para a origem da nova classe operária, à qual se juntaram muitos agricultores e artesãos
expulsos da terra e impedidos de ter acesso a seus meios originais de produção, por conta de dívidas.
A força das relações de mercado capitalistas invadiu o sistema senhorial do feudalismo, com um
rompimento gradual os laços feudais, substituídos pelo mercado e pela busca do lucro como os princípios
organizadores da produção.
Durante o século XVI, os preços dos produtos manufaturados aumentaram muito mais depressa do que os
aluguéis ou os salários. A classe capitalista recebeu lucros cada vez maiores e pagou salários reais cada
vez mais baixos. A acumulação inicial substancial ou acumulação primitiva de capital ocorreu neste
período, decorrente de: (a) aumento do volume do comércio, (b) sistema industrial de produção doméstica,
(c) movimento dos cercamentos, (d) grande inflação de preços, (e) a pilhagem colonial, (f) a pirataria e (g)
o comércio de escravos.

2.2. Mercantilismo
Entre fins do século XVI e o início do século XVIII, os modernos Estados-nação eram coalizões de
monarcas e capitalistas que haviam retirado o poder da nobreza feudal, principalmente nas áreas
relacionadas à produção e ao comércio. Esta época inicial do capitalismo é conhecida como
mercantilismo. Em sua fase inicial – bulionismo – estabeleceram-se práticas para atrair e manter ouro e
prata em um país, proibindo-se a exportação. Um dos tipos mais importantes de política destinada a
aumentar o valor das exportações e diminuir as importações foi a criação de monopólios comerciais. Além
dessas restrições ao comércio exterior, havia um emaranhado de restrições e regulamentos destinados ao
controle da produção interna.
Não é claro até que ponto o pensamento mercantilista foi sinceramente motivado pelo desejo de aumentar
o poder do Estado ou até que ponto foi um esforço mal disfarçado para promover os interesses especiais
dos capitalistas. Quase todos os mercantilistas acreditavam que a melhor maneira de promover os
interesses do Estado era promover políticas que aumentassem os lucros dos mercadores-capitalistas.

2.3. Sistema Capitalista e Estado Moderno


Entre os séculos XIII e XVI, ocorreu a formação dos Estados nacionais europeus. De acordo com a escola
francesa de História, tendo Fernand Braudel como um de seus principais expoentes, o sistema capitalista
deve ser associado ao Estado moderno. Em vez de considerar o surgimento do capitalismo (ganhos
6
anormais) a partir do processo espontâneo de economia de mercado (ganhos normais), Braudel questiona
se tal sistema não seria fruto de um processo autoritário de jogo de poder, envolvendo disputas
geopolíticas que empregam capital com a finalidade precípua de obter mais capital. O capitalismo, assim,
seria um sistema de grandes predadores, com o capital sendo empregado junto a um soberano, que
impõe seu poder econômico sobre um território.
A acumulação primitiva de capital propiciada pelas cruzadas e pela expansão marítimo-comercial ocorreu
concomitantemente com a guerra de poder entre senhores feudais objetivando expansão territorial. Com a
mercantilização da economia e a centralização do poder, ocorreu o “milagre europeu”. Poder, dinheiro e
riqueza se tornam os componentes essenciais das relações internacionais. Neste contexto, sempre
despontou um “Estado fora de série”, capaz de impor o seu poder econômico, fazendo com que o mercado
fosse, na verdade, uma manifestação da vontade política.
Outros autores, como Immanuel Wallerstein também abordam a dualidade de impérios econômicos
mundiais (world empires) e sistemas econômicos mundiais (world economies). Em suma, a tese é a de
que o capitalismo depende da competição entre os Estados e também depende de expansão
territorial (novos mercados).
Giovanni Arrighi traz a discussão sobre a união entre o poder e o capital financeiro. Haveria um domicílio
oculto onde os detentores do poder e os detentores do capital traçam o caminho dos grandes lucros. Por
conta disso, guerras são financiadas e é fomentada a competição entre as nações.
Assim, o capitalismo teria sido criado artificialmente pelo Estado (criação política e jurídica). O mercado
não seria um locus naturalis, mas sim um locus artificialis (Natalino Irti). A propensão natural a trocar não
implica necessariamente na propensão a acumular e na universalização do mercado, características
marcantes do capitalismo – a origem deste é a acumulação de poder e não o jogo de trocas. Para que
exista o poder, ele deve ser exercido, se reproduzir e ser acumulado permanentemente. A conquista é a
força originária que instaura e acumula o poder – por isso as guerras se tornam crônicas. A relação de
poder político é desigual.
O cálculo da acumulação de poder tem como base o território, a população e a capacidade de tributar
rendas e serviços. Os tributos financiam o próprio poder (no passado, exércitos mercenários e mobilização
militar de servos e camponeses). A riqueza dos soberanos era a base material do poder. Os tributos
constituem ato de força fundamental, uma manifestação da soberania, não sendo decorrentes de
excedente de produção disponível, como defendia Petty.
Esta tese é trabalhada no Brasil por José Luis Fiori, para quem o poder é um fluxo e não estoque e tem
que ser exercido e não acumulado. Com a monetização da economia (trocas e pagamentos em moeda), a
moeda forte é a do “Estado fora de série”, que passa a impor o câmbio de forma autoritária. Com a
imposição dos tributos, o poder se consolida e o soberano passa a apropriar parte da renda e do
patrimônio do povo em seu território. Neste contexto, os Estados são vistos como máquinas de
acumulação de poder e riqueza.

2.4. Seminário
Textos:
 FIORI, José Luís & MEDEIROS, Carlos (org.). Polarização Mundial e Crescimento. Petrópolis:
Vozes, 2001, pp. 39-59.
 FIORI, José Luís. O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações. São Paulo: Boitempo, 2007,
pp. 13-26.
Questão 1) Como o autor analisa a questão do poder político dos Estados, sua importância e seus
elementos constitutivos?
Questão 2) Como o autor aborda a importância dos tributos na formação dos Estados? E a moeda neste
processo?
Questão 3) Como os autores Braudel, Wallerstein e Arrighi explicam a formação dos mercados e do
capitalismo internacional? O que estes autores incorporam de novo ao debate?
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3. O Sistema Econômico Capitalista – Modelo Teórico
Um sistema econômico é definido conforme o modo de produção no qual se baseia. O modo de
produção é, por sua vez, definido pelas forças produtivas (tecnologia produtiva) e pelas relações sociais de
produção.
O excedente social é a parte da produção material da sociedade que sobra após serem deduzidos os
custos materiais necessários para a produção.
As sociedades vêm produzindo excedentes cada vez maiores, graças ao desenvolvimento histórico das
forças produtivas. Neste processo, ocorre a divisão da sociedade entre os que trabalham exaustivamente
(maioria) e os que se apropriam do excedente e o controlam (minoria). As relações sociais de produção
são definidas como relações entre estas duas classes.
O capitalismo como sistema econômico, político e social dominante surgiu muito lentamente, em um
período de vários séculos, primeiro na Europa Ocidental e, depois, em grande parte do mundo. À medida
que surgia, as pessoas buscavam compreendê-lo.
O capitalismo é, enquanto modo de produção, caracterizado por quatro conjuntos de esquemas
institucionais e comportamentais:
a) produção de mercadorias (orientada pelo mercado);
b) propriedade privada dos meiso de produção;
c) existência de grande segmento da população cuja existência só se viabiliza pela venda de sua
força de trabalho no mercado; e
d) comportamento individualista, aquisitivo, maximizador da maioria dos indivíduos dentro do sistema
econômico.
Produção de mercadorias (orientada pelo mercado). O valor dos produtos do trabalho humano pode
ser avaliado por seu uso na satisfação de nossas necessidades (valor de uso) ou porque podem ser
trocados por moeda (valor de troca). Esta última medida de valor se observa apenas nos modos de
produção caracterizados pela produção de mercadorias (produtos do trabalho humano), que pressupõe a
existência de um mercado desenvolvido. Neste sentido, a moeda obtida pela troca de produtos pode ser
utilizada na aquisição dos produtos desejados por seu valor de uso. Há um alto grau de especialização
produtiva. Cada indivíduo depende das forças impessoais do mercado de compra e venda, ou oferta e
procura, para a satisfação de suas necessidades. Os mercados gozam de relativa liberdade jurídica e
formal.
Propriedade privada dos meios de produção. Certas pessoas têm o direito de determinar como
matérias-primas, ferramentas, maquinaria e edifícios destinados à produção podem ser usados. A
propriedade se concentra em um pequeno segmento da sociedade – os capitalistas – e é ela que
determina a apropriação do excedente social.
Existência de uma numerosa classe trabalhadora, que vende sua força de trabalho no mercado e não
tem qualquer controle sobre os meios necessários para a execução de sua atividade produtiva.
Comportamento individualista, aquisitivo, maximizador da maioria dos indivíduos. Nos primórdios do
capitalismo, os trabalhadores recebiam salários tão baixos que viviam nos limites da extrema insegurança
e pobreza materiais, que só poderiam ser reduzidas pelo trabalho excessivo. Com o passar do tempo, a
produtividade dos trabalhadores aumentou e sua organização coletiva em sindicatos e associações surtiu
efeito na luta por melhores salários, aumentado seu poder de compra. Assim, o capitalismo tem sido
obrigado a recorrer cada vez mais a novos tipos de motivação para manter a massa dos trabalhadores
produzindo o excedente social, como o consumismo, que se caracteriza pela crença de que mais renda
por si mesma sempre significa mais felicidade. O comportamento aquisitivo e combativo dos capitalistas
decorre da luta constante por maiores fatias do excedente social, com um esforço frenético na obtenção
de mais lucros e na conversão de lucros em capital.

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4. A Economia Política Clássica: Adam Smith2
Adam Smith (1723-1790) nasceu na Escócia, onde viveu quase toda a sua vida. Cursou as universidades
de Glasgow e Oxford (1737-1746) e foi professor em Glasgow, de 1751 a 1764. Em 1759, publicou uma de
suas duas principais obras: The Theory of Moral Sentiments – um tratado de filosofia social e moral. Em
1776, publicou sua obra mais importante: An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations
(geralmente chamada A Riqueza das Nações).
Smith observou a organização econômica de sua época, na aurora da Revolução Industrial, e foi o
primeiro economista importante a fazer a clara distinção entre os lucros que se destinavam ao capital
industrial, salários, aluguéis e os lucros do capital comercial. Também foi o primeiro a avaliar o significado
do fato de que as três principais categorias funcionais de renda – lucros, aluguéis e salários –
correspondiam às três classes sociais mais importantes do sistema capitalista de sua época – os
capitalistas, os proprietários de terras e os operários “livres”, que só podiam viver se vendessem sua força
de trabalho em troca de um salário. Também elaborou uma teoria histórica na qual procurou explicar a
evolução dessa forma de sociedade de classes e uma teoria sociológica para explicar as relações de
poder entre as três classes.

4.1. Contextualização
O pensamento de Adam Smith situa-se em um processo de autonomização da ciência econômica, que
se afirma como um corpo de conhecimento com estrutura e leis de funcionamento próprias. Tal processo
fez parte de uma abordagem progressiva de racionalização e secularização do objeto de estudo da
Economia, coincidindo com o questionamento dos fundamentos econômicos vigentes, onde os sistemas
eram organizados por uma entidade “externa” (Mercantilismo), a usura era condenada e havia uma
subordinação da esfera econômica à moral. Com a fragmentação da autoridade moral, associada à Igreja
e ao Antigo Regime, ocorre a naturalização dos processos econômicos.
Por naturalização, podemos entender que passa a existir uma identidade entre a ordem econômica e a
ordem natural. Tal identidade, marcante na escola clássica, pode ser compreendida sob uma ótica
retrospectiva e outra prospectiva.
No significado retrospectivo, surge uma crítica ao Antigo Regime e ao Mercantilismo, afastando-se
qualquer autoridade moral ou política que subordine os imperativos econômicos. A economia deve ser
influenciada apenas pela sua lógica interna, devendo ser imune a qualquer imperativo que não seja
proveniente da natureza.
No significado prospectivo, temos a perpetuação do sistema econômico, condizente com a filosofia do
progresso da burguesia nascente, em sua busca das potencialidades da natureza recém-descoberta.
No iluminismo escocês de então, as questões primordiais que se buscava responder eram: o que move
os atores no processo social? E o que os move no processo econômico?
Todo o pensamento consistia em uma crítica a Bernard Mandeville e sua obra A Fábula das Abelhas, na
qual sustentava as seguintes teses: (a) vícios privados garantiam benefícios públicos, (b) a busca do
autointeresse era a garantia da coesão social. Assim, Francis Hutcheson defendia a existência de uma
coercitividade externa e, contestando Mandeville, afirmava que a coesão social era garantida pelas
virtudes, e não pelos vícios. Podemos encontrar ambas as visões na obra de Adam Smith.
Em Tratado dos Sentimentos Morais, Smith segue a ideia de Hutcheson em que a virtude garante a
coesão social, e a simpatia representava um valor externo ao autointeresse e se fundamentava na
necessidade de reconhecimento e aceitação do homem pelo seu grupo social, sendo o comportamento
virtuoso mais relevante.

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Aula ministrada pelo prof. Luis Fernando Massonetto, complementada com trechos de Hunt (2005).
10
Em A Riqueza das Nações, Smith recupera a ideia de Mandeville, em que a busca do autointeresse
viabiliza a coesão social. A moral é internalizada no sistema econômico, passa a ser um fator interno que
garante a harmonia, não é mais uma força externa. Esta ideia foi revolucionária e a partir dela se
desenvolveu o liberalismo econômico, expressa na célebre passagem sobre a "mão invisível" 3
(destacamos):

Portanto, já que cada indivíduo procura, na medida do possível, empregar seu capital em fomentar a atividade
nacional e dirigir de tal maneira essa atividade que seu produto tenha o máximo valor possível, cada indivíduo
necessariamente se esforça por aumentar ao máximo possível a renda anual da sociedade. Geralmente, na
realidade, ele não tenciona promover o interesse público nem sabe até que ponto o está promovendo. Ao preferir
fomentar a atividade do país e não de outros países ele tem em vista apenas sua própria segurança; e orientando
sua atividade de tal maneira que sua produção possa ser de maior valor, visa apenas a seu próprio ganho e,
neste, como em muitos outros casos, é levado como que por mão invisível a promover um objetivo que não
fazia parte de suas intenções. Aliás, nem sempre é pior para a sociedade que esse objetivo não faça parte das
intenções do indivíduo. Ao perseguir seus próprios interesses, o indivíduo muitas vezes promove o interesse da
sociedade muito mais eficazmente do que quando tenciona realmente promovê-lo.

Porém, este processo de naturalização gerou uma amnésia histórica sobre os elementos que
compõem o sistema econômico. Ainda, a tese tinha um viés conservador (tentativa de conservar uma
situação, o natural se pereniza), retira a ideia de lei econômica como lei social, cabendo ao homem
conhecer como a natureza funciona através da razão. Assim elementos naturalizados são tidos como
elementos naturais.
A conclusão principal do pensamento de Adam Smith é a de que a divisão do trabalho aumenta a
produtividade, aumentando a riqueza, que será tão maior quanto maior a liberdade dos agentes – na
busca de interesses individuais, estes agentes acabam por concretizar o bem comum, aumentando a
renda, "como que guiados por uma mão invisível".

4.2. Estrutura do pensamento dos autores clássicos


Para estudar a obra de Smith é preciso compreender a tradição histórica da escola clássica da economia
política, que começa com Smith e segue até Marx, que propõe uma revolução teórica. A característica
essencial da escola clássica era a identidade entre sistema econômico e sistema natural.
Todas as obras deste período discorrem sobre três pontos principais:
a) a ideia de excedente como preocupação central (como é gerado?);
b) teorias do valor (como o sobrevalor é produzido, o valor como ficção que permite a comparação
das mercadorias); e
c) a distribuição do excedente gerado.
Assim, a história do pensamento econômico nos permite analisar o desenvolvimento da vida material no
campo das ideias.
Para Smith, o trabalho é a origem do valor. A escolha se explica pela relevância do trabalho para a
burguesia em ascensão. Para o Mercantilismo, o excesso acumulado na circulação de mercadorias
correspondia ao excedente, à riqueza. Para a burguesia, a produtividade era aumentada pela
reorganização do trabalho nos moldes capitalistas. Assim, a produção passa a prevalecer sobre a
circulação.
No que tange à distribuição, a estrutura comum de todos os autores da escola clássica relacionava-a à
remuneração dos fatores de produção: a renda remunera a terra (tema desenvolvido mais profundamente
por Ricardo), o salário remunera o trabalho, o lucro remunera o capital.
De acordo com o pensamento de Smith, num estágio rudimentar da sociedade, ocorre a acumulação
primitiva de capital, onde o valor-trabalho correspondia ao tempo despendido na produção da mercadoria,

3
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações: Investigação sobre sua Natureza e suas Causas. v. I. Tradução de Luiz
João Baraúna. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 438.
11
ocorria um a incorporação na aquisição do produto. Com a consolidação deste processo, leva-se em conta
a remuneração dos fatores de produção, agora incluída no trabalho comandado, que é superior ao
trabalho necessário.
Smith ainda desenvolve duas teorias sobre a distribuição do valor.
Na teoria dedutiva do valor, o trabalho necessário, que é o próprio valor, distribui-se entre terra, trabalho
e capital, ocorrendo uma formação dependente, evidenciando um conflito que viria a ser abordado de
forma definitiva apenas pela crítica da economia política de Marx.
Por outro lado, pela teoria aditiva, o valor se forma de modo independente a partir da combinação de
terra, trabalho e capital. Esta abordagem aproxima-se do que hoje chamamos de teoria dos custos de
produção e caminha para uma perspectiva individualista. Embora existam preços naturais no longo prazo
para cada fator de produção, há distorções na medida do valor no curto prazo, que leva a divergências
entre as duas teorias, como Smith evidencia no exemplo da escassez e consequente elevação dos preços
dos tecidos negros no caso de luto pela morte do Rei, demonstrando a possibilidade de alteração na
percepção de valor.

4.3. A Teoria do Valor de Adam Smith4


Adam Smith não possuía exatamente uma teoria do valor, se limitando a apresentar ideias que refutam o
valor-trabalho (que só funciona nas sociedades primitivas). Com a evolução da sociedade, o esforço
humano não é mais o principal fator para a produção, devendo ser considerados os instrumentos, a terra.
Smith apresentou muitas ideias que viriam a ser a base das versões mais sofisticadas da teoria do valor-
trabalho, de David Ricardo e de Karl Marx. O ponto de partida dessa teoria é o reconhecimento de que, em
todas as sociedades, o processo de produção pode ser reduzido a uma série de esforços humanos. Os
instrumentos de trabalho ou outros meios de produção são frutos do trabalho humano.
O pré-requisito para qualquer mercadoria ter valor era que ela fosse o produto do trabalho humano. O
valor de troca de uma mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho contido nessa mercadoria,
mais a alocação relativa, em diferentes ocasiões, da mão de obra indireta (o trabalho que produziu os
meios usados na produção da mercadoria) e da mão de obra direta (o trabalho que usa os meios para a
produção da mercadoria) usadas na produção.
Smith conseguiu ver o trabalho como o determinante do valor de troca apenas nas economias iniciais pré-
capitalistas, nas quais não havia capitalistas nem proprietários de terras.
Quando os capitalistas assumiram o controle dos meios de produção, e os proprietários de terras
monopolizaram a terra e os recursos naturais, Smith achou que o valor de troca ou o preço passou a ser a
soma das três partes componentes: os salários, os lucros e os aluguéis.
Como os lucros e o aluguel têm de ser somados aos salários para a determinação dos preços, a teoria dos
preços de Smith foi chamada, por um eminente historiador de “uma Teoria da Soma – uma (mera) soma
dos três componentes básicos do preço”. A razão pela qual essa teoria diferia da teoria do trabalho que
Smith julgava fosse aplicável ao “estado inicial e rude da sociedade” era que o componente lucro de um
preço não tinha a necessária relação com o trabalho incorporado à mercadoria. Smith percebeu que a
concorrência tendia a igualar os lucros auferidos sobre capitais do mesmo valor, isto é, se um capitalista
tivesse $100 em teares e recebesse $40 de lucro por ano sobre eles, a concorrência e a busca de lucros
máximos tenderiam a criar uma situação em que $100 de qualquer outro tipo de capital também renderiam
$40 de lucro por ano.
Segue-se desse princípio que os preços poderiam continuar proporcionais às quantidades de trabalho incorporadas à
mercadoria, apenas no caso de o valor do capital por trabalhador ter sido o mesmo em diferentes linhas de produção.
Se essa condição se verificasse, os lucros baseados no valor do capital teriam a mesma proporção em relação aos
salários de cada linha de produção, e os salários adicionados aos lucros dariam um total (ou um preço, se o aluguel
fosse ignorado) proporcional ao trabalho incorporado à produção das mercadorias. Contudo, se o valor do capital por

4
Excertos extraídos de Hunt (2005).
12
trabalhador diferisse, nos vários setores da economia, a adição dos lucros aos salários daria um total que não seria
proporcional ao trabalho incorporado à produção das mercadorias.
Smith aceitou como fato óbvio e empírico a afirmativa de que o valor do capital por trabalhador diferia de uma
indústria para outra. Não conseguiu um modo de mostrar como o trabalho incorporado à produção determinava o
valor de troca nessas circunstâncias. Ficou a cargo de David Ricardo mostrar a natureza geral da relação entre o
trabalho incorporado às mercadorias e seus valores de troca, nessas circunstâncias, e a Karl Marx e aos teóricos
posteriores formular uma teoria do valor-trabalho completa, apresentando uma coerência lógica.
A teoria dos preços de Smith, baseada no custo de produção, não visava a explicar as flutuações
concretas e diárias dos preços no mercado. Ele estabeleceu uma distinção entre preço de mercado e
preço natural.
O preço de mercado era o verdadeiro preço da mercadoria, em determinado momento e em determinado
mercado. O preço de mercado era determinado pelas forças da oferta e da demanda.
O preço natural era o preço ao qual a receita da venda fosse apenas suficiente para dar – ao proprietário
de terras, ao capitalista e aos trabalhadores – aluguéis, lucros e salários equivalentes aos níveis habituais
ou médios de aluguéis, lucros e salários, em termos sociais.
Para Smith, no longo prazo haveria convergência entre o preço natural (custos de produção) e o preço
corrente (leis de oferta e procura), numa espécie de equilíbrio dinâmico.
Havia dois grandes pontos fracos na teoria dos preços de Smith.
Primeiramente, os três componentes dos preços – salários, lucros e aluguéis – eram, eles próprios, preços
ou derivavam de preços. Uma teoria que explica os preços com base em outros preços não pode explicar
os preços em geral. Se, para entendermos um preço, temos de saber quais são os outros preços, surge
logo a questão de como esses outros preços foram explicados. E se eles também tiverem de ser
explicados em termos de outros preços, ficamos presos numa cadeia interminável, em que os
determinantes últimos dos preços nunca podem ser explicados.
Smith rejeitava o valor de uso como determinante dos preços5:

Importa observar que a palavra VALOR tem dois significados: às vezes designa a utilidade de um determinado
objeto, e outras vezes o poder de compra que o referido objeto possui, em relação a outras mercadorias. O
primeiro pode chamar-se “valor de uso”, e o segundo, “valor de troca”. As coisas que têm o mais alto valor de uso
freqüentemente têm pouco ou nenhum valor de troca; vice-versa, os bens que têm o mais alto valor de troca
muitas vezes têm pouco ou nenhum valor de uso. Nada é mais útil que a água, e no entanto dificilmente se
comprará alguma coisa com ela, ou seja, dificilmente se conseguirá trocar água por alguma outra coisa. Ao
contrário, um diamante dificilmente possui algum valor de uso, mas por ele se pode, muitas vezes, trocar uma
quantidade muito grande de outros bens.

A passagem acima é conhecida como o "paradoxo da água e do diamante", embora Smith não
entendesse a questão como um paradoxo, mas sim como uma dissociação entre valor de uso e valor de
troca.
O segundo grande ponto fraco da teoria dos preços baseados no custo de produção, de Smith, que viria a
ser o ponto central da crítica feita a Smith por Ricardo, era que a teoria levava a conclusões sobre o nível
geral de todos os preços (ou, em outras palavras, sobre o poder de compra da moeda) e não aos valores
relativos de diferentes mercadorias.
Pela teoria de Smith, se acontecesse algo que aumentasse qualquer um dos três componentes do custo
de uma mercadoria, o valor dessa mercadoria teria de aumentar. Isso acontecia principalmente com os
salários, porque eles representavam a principal parcela dos custos de produção de todas as mercadorias.
Smith e todos os economistas clássicos acreditavam que os salários tenderiam a ficar no nível de
subsistência ou próximo dele.

5
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações: Investigação sobre sua Natureza e suas Causas. v. I. Tradução de Luiz
João Baraúna. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 86.
13
A maior parcela dos gastos de subsistência de um trabalhador era com alimentos, que, na época de Smith,
eram, em sua maioria, produtos baseados em cereais (ou “trigo”, como eram chamados os cereais
naquela época).
Seguia-se, portanto, que, se o preço do trigo estivesse alto, os salários monetários necessários para
manter os trabalhadores no nível de subsistência também teriam de ser altos, mas, se os salários fossem
altos, o preço de todas as mercadorias teria de ser alto, porque os salários constituíam o maior
componente dos custos de toda a produção.
Pela teoria de Smith, não seria possível considerar os diferentes impactos sobre os valores de
mercadorias diferentes, resultante de aumento do preço de insumos produtivos.

4.4. O Legado de Adam Smith


Três tradições disputam o legado de Smith, que, conforme desenvolve Ernesto Screpanti, teria "três
almas":
 Alma macroeconômica: na medida em que a ideia de excedente é desenvolvida, é evidenciado o
conflito entre os grupos sociais na distribuição dos rendimentos e o lucro é apontado como
elemento residual.
 Alma microeconômica: quando aborda a concorrência entre os agentes na formação do preço e a
derivação natural surge como corolário deste processo.
 Alma institucionalista: quando se preocupa com condições institucionais necessárias para o
sistema econômico; os sentimentos morais e a mão invisível seriam valores capazes de motivar os
indivíduos em torno da rigidez do sistema econômico.
A economia política só veio a se tornar “economia” (sem política) quando o foco da teoria do valor deixou
de ser o trabalho e passou a ser a utilidade, deixou de ser uma relação social entre os fatores de produção
e passou a ser uma consideração subjetiva dos indivíduos. Assim, há ruptura da economia como teoria
social (economia política), afirmando-se como teoria pura, com pressupostos próprios. A economia
política, como desenvolvida pela escola clássica, persiste apenas com os marxistas e os neoricardianos.

4.5. Seminário
Textos:
 POSSAS, Silvia. “Valor, Capital e Riqueza nos Primórdios da Economia Política”. In CARNEIRO,
Ricardo (org.). Os Clássicos da Economia. v. 1. São Paulo: Ática, 2004, pp. 15-23.
 Trechos da obra da Adam SMITH (A Riqueza das Nações) In CARNEIRO, Ricardo (org.). Os
Clássicos da Economia. v. 1. São Paulo: Ática, 2004, pp. 24-53.
 HUNT, E. K. História do Pensamento Econômico: Uma Perspectiva Crítica. 2. ed. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2005, pp. 86-118.
 NUNES, António José Avelãs. Uma Introdução à Economia Política. São Paulo: Quartier Latin,
2007, pp. 461-476.
Questão 1) Como aumentar a riqueza de uma nação? Quais as características da divisão do trabalho que
permitem o aumento da produtividade do trabalho?
Questão 2) Localize no texto do Adam Smith referências sobre possíveis teorias do valor (troca em
dinheiro, trabalho e remuneração de distintas parcelas).
Questão 3) Localize no texto a referência à mão invisível.
Questão 4) Leia a página 53 do texto de Adam Smith (teoria das vantagens absolutas).

14
5. A Economia Política Clássica: David Ricardo6
David Ricardo foi um teórico rigoroso e um dos economistas clássicos que mais influenciaram a época
atual. Dentre suas obras, merecem destaque Essay on the Influence of a Low Price of Corn on the Profits
of Stock (1815) e On Principles of Political Economy and Taxation (1817).
Assim como Smith, Ricardo procurava identificar "leis" regentes da distribuição da riqueza. Para ele, a
questão fundamental da Economia Política era determinar as leis que regem a distribuição do produto da
terra entre seu proprietário, o dono do capital necessário para seu cultivo e os trabalhadores que a
cultivam.
Assim, Ricardo está interessado na distribuição do valor, na dinâmica entre renda, salário e lucro.

5.1. Contexto Histórico


Ricardo escreve no período das guerras napoleônicas, com inflação, aumento do custo dos alimentos, um
período de enfraquecimento econômico. Foi influenciado pelo utilitarismo de Jeremy Bentham e o
pensamento de outros filósofos radicais (no sentido de uma mudança radical de paradigmas para a
época).
A teoria de David Ricardo tem três pilares importantes: a ligação entre o acúmulo de capital e o
crescimento econômico (influência das ideias de Smith), as teorias sobre população (Malthus) e a renda
diferencial.
Para alimentar a população de um país como a Inglaterra, é necessário ter terra. As terras podem ser
ordenadas por níveis de fertilidade – diferentes graus de produtividade. Consideremos a Inglaterra como
uma um grande fazenda e que é possível determinar as classes de terras conforme seu grau de
produtividade. Para simplificar o modelo, considera-se apenas a plantação de trigo. Com o aumento da
população, é necessário expandir a área de plantação. Num primeiro momento, ocupa-se a área mais
fértil, e, progressivamente, será necessário plantar em áreas cada vez menos férteis. Abstraindo-se os
custos de produção (sementes, trabalhadores) e o resultado, chamado produto líquido, será proporcional
ao nível de fertilidade de cada classe de terra.
Um capitalista desenvolverá sua atividade até onde conseguir pagar os seus custos e ter um mínimo de
lucro, ou, em um caso extremo, apenas cobrir os seus custos. Com a contratação de novos lotes de terra,
os proprietários de terra concorrerão entre si. Ricardo considera que o capitalista (explorador da atividade
econômica) e os proprietários de terra são os agentes envolvidos na dinâmica.
O processo de concorrência entre os proprietários de terra leva a um equilíbrio da renda entre as
diferentes classes de produtividade.
Neste sentido, a renda diferencial – diferencial no sentido de avaliar uma pequena variação de medida – é
o produto líquido da última classe de produtividade para a qual o capitalista considera vantajoso exercer a
atividade econômica. À medida que se avança para classes com menor produtividade, maior é a parcela
da renda destinada ao aluguel da terra.
A expansão para terras menos férteis representa captura maior do excedente pelos proprietários de terra.
Na próxima seção, detalharemos a teoria da renda e do lucro de Ricardo.
Com o aumento da população, a oferta de mão-de-obra pressiona os salários para um nível de
subsistência. Assim, o principal fator a ser controlado na economia de uma nação é cuidar para que os
produtos básicos para os trabalhadores não tenham uma alta significativa de preços (controle dos preços
dos bens essenciais). Se os salários aumentam, o lucro diminui, pois o lucro possui um caráter residual.
Há um conflito de interesses entre o trabalhador e o capitalista, com uma tendência natural à diminuição
do lucro (antagônico à renda diferencial – apropriação do excedente da produção pelos proprietários de
terras).

6
Seção complementada com trechos do livro de E. K. Hunt (2005).
15
Aumentando a necessidade de plantar cada vez mais em terras inférteis, aumenta o valor do trigo. Uma
alternativa é importar trigo, o que ajuda a manter o nível normal do lucro (menor preço do trigo e menor
salário). Porém, isto prejudica os proprietários da terra. Para assegurar os interesses da nobreza, havia
leis protecionistas (Corn Laws), fortemente criticadas por Ricardo. Assim, suas ideias expressavam as
aspirações da burguesia capitalista, antagônica à nobreza (proprietários de terras).

5.2. Teoria da Renda e do Lucro


Dois conceitos são essenciais para a compreensão da teoria da renda e do lucro de Ricardo:
 Renda da terra (rent) é a "parte do produto da terra que é paga ao seu proprietário pelo uso dos
poderes originais e indestrutíveis do solo".
 Produto líquido (net produce) é a quantidade total produzida, deduzida dos custos de produção
necessários, ou seja, era o valor excedente criado pelo trabalho – dentre os custos indicados, não
está incluído o aluguel pago aos proprietários de terras (renda da terra), apenas os custos com
matérias-primas, instrumentos e salários. Este valor poderia ser destinado aos lucros (auferidos
pelo capitalista) ou à renda da terra (aluguel pago aos proprietários da terra).
Além desses dois conceitos, a teoria de Ricardo adotava o pressupostos de que a fertilidade das terras era
diferente, de sorte que os lotes, para fins do modelo de análise, poderiam ser ordenados a partir da terra
mais fértil para a menos fértil.
Segundo o modelo de Ricardo, inicialmente apenas as terras mais férteis eram utilizadas e não era paga
nenhuma renda da terra (aluguel) a seus proprietários.
Consideremos três lotes de terras numerados de 1 a 3, sendo 1 a terra mais fértil e 3 a terra menos fértil,
sendo que a fertilidade pode ser expressa pelo produto líquido destes lotes (quanto maior a fertilidade,
maior o produto líquido).
O lote 1 tem produtividade líquida de 100, o lote 2 tem produtividade líquida de 90 e o lote 3 tem
produtividade líquida de 80 (a unidade desta medida no texto de Ricardo era de 80 "quartos de cereal").
Sabemos, ainda, que a produtividade líquida é destinada ao pagamento dos lucros do capitalista e à renda
da terra (aluguel pago aos proprietários). Na situação inicial, enquanto apenas o lote 1 é cultivado, não há
pagamento de renda da terra e sua produtividade líquida de 100 é destinada totalmente aos lucros do
capitalista.
O que acontece quando, em virtude do aumento da população, o lote 2 começa a ser cultivado? Sua
produtividade líquida é de 90. Como a terra é de menor fertilidade, os capitalistas que nela colocam seus
recursos não pagam renda da terra. Os proprietários do lote 1 ficarão em situação de vantagem e poderão
cobrar aluguel dos capitalistas que ali atuam.
Surgirá, assim, uma concorrência entre capitalistas que resultará na repartição do produto líquido entre
estes e os proprietários de terra do lote 1. Como se dá esta distribuição?
O capitalista pode cultivar o lote 2, produzindo 90 sem pagar aluguel ou, então, pode oferecer um aluguel
de, digamos 6, para poder cultivar o lote 1. O proprietário do lote 1 aceita a proposta, afastando o
capitalista que ali produzida sem pagar aluguel.
Como a produtividade do lote 1 é 100, esta vai ser dividida entre 6 de aluguel para o proprietário e 94 de
lucro para o capitalista.
Contudo, outro capitalista poderá oferecer um aluguel de 8, que será aceito pelo proprietário do lote 1.
Neste caso, o produto líquido de 100 deste lote será dividido entre 8 de aluguel para o proprietário e 92 de
lucro para o capitalista.
Seguindo este raciocínio, não é difícil perceber que a concorrência fará com que valha a pena para os
capitalistas oferecerem um aluguel de até 10 pago ao proprietário do lote 1 em função da maior fertilidade
de sua terra. Isso porque, neste caso, teriam uma produtividade líquida de 100, dividida entre 10 de
aluguel e 90 de lucro. Um aluguel maior que este valor não compensaria, pois haveria a alternativa de
cultivar o lote 2 sem pagar aluguel algum, com produtividade líquida de 90, totalmente revertida em lucro.

16
Disto decorre a conclusão de Ricardo de que a concorrência igualaria a taxa de lucro dos fazendeiros
capitalistas que arrendassem terra dos proprietários, na medida em que as terras menos férteis fossem
cultivadas.
No exemplo acima, esta taxa de lucro é igual a 90, que é a produtividade líquida do lote 2 cultivado sem
pagamento de aluguel e que é igual à produtividade líquida do lote 1 (100) subtraída do aluguel de 10
pago ao proprietário.
Para compreender melhor a discussão, consideremos agora que o lote 3 passa a ser cultivado, com
produtividade líquida igual a 80 e sem pagamento de aluguel, de modo que este valor é revertido
totalmente em lucro do fazendeiro capitalista.
Quais seriam, neste caso, os valores de aluguel determinados pela concorrência e a nova taxa de lucro
dos capitalistas, igualada para todos eles, de acordo com o modelo de Ricardo?
O proprietário do lote 1 estaria em situação melhor que o do lote 2. O proprietário do lote 3 não receberia
aluguel algum.
Quem cultivasse o lote 3 sem pagar aluguel teria lucro e produtividade líquida de 80.
Poderia, então, oferecer um aluguel de 14 para o proprietário do lote 1, por exemplo. Este aluguel seria
maior que 10, o valor oferecido enquanto apenas os lotes 1 e 2 eram cultivados, e poderia ser aceito pelo
proprietário. Neste caso, a produtividade líquida de 100 do lote 1 seria dividida entre 14 de aluguel e 86 de
lucro (valeria a pena para o capitalista pagar este aluguel e auferir lucro de 86 no lote 1 em comparação
com lucro de 80 no lote 3 sem pagamento de aluguel).
Com um raciocínio análogo ao do passo anterior, podemos concluir que o maior valor de aluguel que
compensa ser pago pelo capitalista ao proprietário do lote 1 é de 20, pois, neste caso, teria lucro de 80
naquele lote pagando aluguel, o que seria equivalente ao lucro que teria no lote 3 sem pagar aluguel.
Da mesma forma, comparando a situação do lote 2 com a do lote 3, compensaria ao capitalista pagar um
aluguel ao proprietário do lote 2 de um valor de até 10, pois, neste caso, a produtividade líquida do lote 2,
que é igual a 90, seria dividida entre 10 de aluguel e 80 de lucro (mesmo lucro do cultivo do lote 3 sem
pagar aluguel).
Assim, com o cultivo de terras menos férteis, se estabelece uma concorrência que reduz o lucro dos
capitalistas e aumenta a renda paga aos proprietários das terras.
A imagem a seguir ilustra esta discussão, permitindo a visualização da diferença entre o lucro do
capitalista e a produtividade líquida, revertida em aluguel pago ao proprietário da terra.

O raciocínio elaborado para três lotes, como indicado na figura acima, pode ser extrapolado para um
número qualquer de lotes, revelando a ideia de produtividade decrescente na agricultura (quanto mais
terras são cultivadas, algumas delas são menos férteis, o que se reflete em um decréscimo do produto
adicional gerado para cada lote adicional de terra cultivado).
A figura abaixo mostra uma generalização deste raciocínio, permitindo a visualização gráfica da
distribuição da produtividade líquida (área hachurada abaixo da reta) em duas partes: o triângulo "a", cuja
área equivale ao total de aluguel pago aos proprietários de terra e o retângulo "b", cuja área equivale ao
total de lucro auferido pelos fazendeiros capitalistas.
17
No modelo de Ricardo, a renda da terra não era diretamente responsável pela compressão do lucro. Representava,
isso sim, os aumentos do custo do trabalho, provocados pelo aumento do custo dos cereais – o principal produto
para a subsistência dos trabalhadores.
Ricardo teve de mostrar como o aumento dos salários redistribuía uma parcela cada vez maior do produto líquido do
lucro para a renda da terra. Para isso, supõe um nível constante de preços médios (ou um poder de compra da
moeda constante). Acreditando que a concorrência igualava todas as taxas de lucro, seguia-se que, quando os
preços dos cereais e do trabalho aumentavam, os preços teriam de se ajustar, para igualar a taxa de lucro dos
diferentes setores da economia. O trabalho incorporado à produção dos cereais tinha aumentado, porque se tornava
menos produtivo, à medida que a margem de cultivo aumentava. Isso baixava os lucros do setor agrícola. Entretanto,
a produtividade do trabalho permanecia a mesma, na indústria, e, por isso, o trabalho incorporado aos produtos
industrializados não se alterava. Para a concorrência igualar as taxas de lucro, seria, portanto, necessário que os
preços de quase todos os produtos industrializados diminuíssem em relação ao preço dos cereais.
Com a hipótese de Ricardo de haver um nível constante de preços médios, o aumento dos preços dos produtos
agrícolas teria de ser compensado por uma baixa dos preços de, pelo menos, alguns produtos industrializados. O
efeito dessas variações de preços seria o restabelecimento de uma taxa de lucro uniforme, em ambos os setores,
embora mais baixa. Cada aumento da margem de cultivo resultaria, então, em maior declínio do nível geral de preços
dos produtos industrializados (ficando todos os preços, inclusive os preços dos produtos agrícolas, novamente no
mesmo nível médio) e em um declínio da taxa geral de lucro. A queda dos lucros significava uma queda da taxa de
acumulação e, com isso, um atraso do crescimento econômico e uma diminuição do bem-estar social geral.
Com base nesses argumentos, Ricardo se opunha às leis dos cereais. Proibindo a importação dos cereais, o governo
britânico estava fazendo com que o setor agrícola usasse terras cada vez menos férteis. Esse processo estava
diminuindo os lucros e acabaria interrompendo o progresso econômico, se fosse mantido por muito tempo.
Para refutar objeções à sua teoria, Ricardo elaborou uma teoria de preços em seus Princípios.

5.3. Teoria do Valor de Ricardo


Os autores clássicos se defrontavam com a seguinte questão: como pensar o fenômeno econômico de
uma forma racional? A ciência moderna servia como paradigma de racionalidade. Procurava-se explicar as
leis de funcionamento do mercado como leis naturais. O ponto de partida para abordar a questão é
procurar responder por que alguém compra um bem e outro vende um bem – enfim, qual o valor de um
bem? A obra de David Ricardo se inicia pela teoria do valor (assim como Adam Smith – não tinha uma
teoria do valor, discorria sobre o valor – que inaugurou a tradição de pensar o conhecimento econômico).
David Ricardo apresenta uma abordagem mais lógica e rigorosa, inclusive fornecendo exemplos que
dialogam com Adam Smith, que não ofereceu respostas conclusivas às questões que propôs.
Para entender Ricardo e Marx, não devemos confundir teoria do valor com preço. O preço é um dado de
mercado e não é objeto de discussão da teoria. Todo o pensamento anterior ao clássico já conhecia o
funcionamento do mercado – não era explicar o mercado o objetivo das teorias do valor.
Embora todas as mercadorias que tinham valor tivessem de ter utilidade – caso contrário não poderiam ser
colocadas no mercado – a utilidade não estabelecia o valor.
“Se a quantidade de trabalho incorporada às mercadorias estabelecer seu valor de troca” – escreveu
Ricardo – “todo aumento da quantidade de trabalho terá de aumentar o valor da mercadoria em que ele for
empregado, e toda diminuição terá de baixar esse valor”. Ricardo retomou uma ideia de Adam Smith:

18
Se, numa nação de caçadores, por exemplo, o trabalho de matar um castor, habitualmente, custar o dobro do
trabalho de matar um veado, um castor deverá, naturalmente, ser trocado por dois veados. É natural que o
produto habitual de dois dias ou de duas horas de trabalho valha o dobro do produto habitual de um dia ou de
uma hora de trabalho.

Porém, ao contrário de Smith, considerou esta ideia válida não apenas para uma sociedade primitiva, mas
também para uma sociedade capitalista (para esta, Smith formulou sua "teoria aditiva", como vimos).
Como Ricardo refuta a teoria do valor-utilidade (o valor de um bem é tão alto quanto é útil para uma
pessoa)? Ricardo não nega que o bem seja útil – apresentando o paradoxo água x diamante – mas
assume esta qualidade como pressuposto e não componente do valor em si – os componentes do valor de
um bem são a escassez e a quantidade relativa de trabalho necessário para sua produção (custo de
produção ou de aquisição da mercadoria – sem foco na remuneração dos fatores). Diminuindo a
importância do valor com base na escassez, seu foco é explicar a produção, por isso desloca sua análise
para o valor-trabalho. A unidade do valor acaba sendo o tempo, pois não há preocupação com a diferença
na qualidade do trabalho, o foco é apenas na média dos trabalhadores, por isso a busca por uma unidade
comum.
A escassez, sempre utilizada como justificativa para valor (paradoxo água x diamante), tem sua influência
no preço de mercado reconhecida por Ricardo, que se mostra despreocupado com os bens cujo valor é
essencialmente composto pela escassez – sua discussão é irrelevante para a explicação teórica sobre a
produção de uma nação. Assim, despreza toda a perspectiva de utilidade e escassez para a teoria do
valor.
Embora não trate nestes termos, Ricardo assume a relevância do trabalho pretérito além do trabalho
presente (pois deve ser considerado o trabalho necessário para a obtenção dos instrumentos/máquinas) –
" Não só o trabalho aplicado diretamente às mercadorias afeta o seu valor, mas também o trabalho gasto
em implementos, ferramentas e edifícios que contribuem para sua execução".
Há, portanto, o trabalho direto e o trabalho indireto (capital técnico).
Uma das objeções à teoria do valor-trabalho envolve a impossibilidade de combinar tipos diferentes de
trabalho com habilidades diferentes e salários diferentes. Formulações posteriores da teoria do valor-
trabalho usaram a noção de que as diferenças de habilidade poderiam ser reduzidas ao tempo gasto na
aquisição dessas habilidades para mostrar que o trabalho qualificado era criado com trabalho. O trabalho
qualificado poderia, então, ser reduzido a um múltiplo do simples trabalho não qualificado, no cálculo de
todo o trabalho incorporado a uma mercadoria. A principal razão pela qual Ricardo não chegou a essa
solução – a que Marx, mais tarde, chegaria – foi o fato de ele não achar que a própria força de trabalho
fosse uma mercadoria cujo valor era determinado da mesma forma que o das outras mercadorias. O
reconhecimento de Marx do fato de que a força de trabalho era uma mercadoria cujo preço podia ser
explicado da mesma maneira que os preços de outras mercadorias foi um dos principais pontos em que
ele foi além de Ricardo na elaboração da teoria do valor-trabalho.
Para que serve uma teoria do valor para a Economia? É um fundamento para a ciência que a Economia
pretende ser, pois, ao tratar das trocas econômicas, é imprescindível determinar o que motiva tais trocas
(o valor). Há duas formas de se pensar o valor: a teoria subjetiva e a teoria objetiva.
A teoria do valor-trabalho é uma teoria objetiva. Na Economia clássica, a vantagem de se trabalhar
uma teoria do valor objetiva e a partir do valor-trabalho é estudar as relações sociais do ponto de vista
econômico, quais as funções desempenhadas pelas categorias de sujeitos, qual o papel de cada um no
processo econômico e seu modo de atuação, enfim, qual a função do trabalhador na economia e o que
ele ganha em troca.
Os autores clássicos consideravam o salário em nível de subsistência. A teoria do valor também permite
analisar a lógica do investimento, as decisões do capitalista e o lucro como contrapartida, a busca da
divisão técnica do trabalho, a produtividade, a mais-valia. Assim, é possível ter uma perspectiva dos
agentes sociais e o papel de cada classe, grupo no processo produtivo e quais as tendências neste
processo (exploração, lucro, etc.). Permite, assim, uma visão política da economia.

19
Dentre as dificuldades e/ou desvantagens da teoria do valor-trabalho temos a sua falta de caráter
analítico, mostrando mais tendências do que valores determinados. Outra característica é a
incapacidade de explicar preços. Mesmo se fosse necessário comparar valores, David Ricardo
considerava vários fatores que deveriam ser levados em conta.

5.4. Teoria das Vantagens Comparativas e Comércio


Internacional
Ricardo foi o primeiro economista a argumentar coerentemente que o livre-comércio internacional poderia
beneficiar dois países, mesmo que um deles produzisse todas as mercadorias comerciadas mais
eficientemente do que o outro. Também foi um dos primeiros economistas a argumentar que, como o
capital era relativamente imóvel entre as nações, era preciso elaborar uma teoria separada do comércio
internacional, diferenciado do comércio interno do país.
Ricardo argumentava que um país não precisa ter uma vantagem absoluta na produção de qualquer
mercadoria, para que o comércio internacional entre ele e outro país seja mutuamente benéfico. Vantagem
absoluta significava maior eficiência de produção ou o uso de menos trabalho na produção. Dois países
poderiam beneficiar-se com o comércio, se cada um tivesse uma vantagem relativa na produção.
Vantagem relativa significava, simplesmente, que a razão entre o trabalho incorporado às duas
mercadorias diferia entre os dois países, de modo que cada um deles poderia ter, pelo menos, uma
mercadoria na qual a quantidade relativa de trabalho incorporado seria menor do que a do outro país.
Para Ricardo, toda ampliação do comércio contribuiria bastante decididamente para aumentar a massa de
mercadorias e os benefícios totais. Toda restrição ao comércio, portanto, reduziria o total dos benefícios.
Esse princípio era, então, outro elo no ataque generalizado de Ricardo às leis dos cereais.

Seminário 3
Textos:
 Trechos de David RICARDO (Princípios de Economia Política e Tributação) In CARNEIRO, Ricardo
(org.). Os Clássicos da Economia. v. 1. São Paulo: Ática, 2004, pp. 65-95.
 HUNT, E. K. História do Pensamento Econômico: Uma Perspectiva Crítica. 2. ed. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2005, pp. 112-116.
 CHANG, Ha-Joon, Maus Samaritanos: O Mito do Livre-Comércio e a História Secreta do
Capitalismo, Rio de Janeiro: Campus/Elsevier, 2008, capítulo 2.
Questão 1) Por que Ricardo refuta a teoria do valor-utilidade? (Capítulo 1, Seção 1)
Questão 2) Como Ricardo justifica a atualidade da teoria do valor-trabalho em sua época, levando em
conta a existência de capital (máquinas, instrumentos)? Como a teoria do valor-trabalho explica a
importância do capital na produção e na composição do valor de uma mercadoria ? (Seção 3)
Questão 3) Estude como o capital pode ser utilizado (ajustes necessários) como referência na teoria do
valor-trabalho (valores relativos)? (Seções 4 e 5)

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6. A Crítica da Economia Política de Karl Marx. A
Relação entre Direito e Economia nas Teorias Críticas
e o Risco do Reducionismo Político e ou Econômico.
6.1. Introdução
Marx (1818-1883) enfatiza a importância das circunstâncias históricas para a compreensão do
funcionamento da sociedade. As relações jurídicas e as formas de Estado não podem ser compreendidas
por si mesmas – dependem das condições materiais da sociedade civil. A anatomia da sociedade civil
deve ser procurada na economia política.
A análise de Marx sobre o capitalismo foi elaborada de modo mais completo em sua obra em três volumes intitulada
O Capital. Apenas o Volume 1 foi publicado enquanto ele ainda era vivo (em 1867). Rascunhos e anotações, que
deveriam ser reescritos e que foram publicados nos Volumes 2 e 3, foram escritos, quase todos, em meados da
década de 1860 (antes de ele ter completado o Volume 1) e ainda não estavam acabados quando Marx morreu, em
1883. Foram organizados, ordenados e publicados por Friedrich Engels (o Volume 2 em 1885 e o Volume 3 em
1894). Marx escreveu muitos outros livros, panfletos e artigos, em que analisava o capitalismo; de particular
importância foi uma série de sete cadernos de anotações, escritos em 1857 e 1858, que eram rascunhos de muitas
análises que deveriam ser publicadas em O Capital e de outros tópicos que Marx pretendia incluir numa obra mais
ampla ainda, da qual O Capital era a primeira parte. Essas anotações foram publicadas em alemão, sob o título de
Grundrisse der Kritik der Politischen Ökonomie (Fundamentos da Crítica da Economia Política). A tradução inglesa
desses cadernos de anotações foi publicada sob o título de Grundrisse. É um complemento útil de O Capital, a
principal fonte das ideias econômicas de Marx.
Veja-se o seguinte trecho da " Contribuição para a Crítica da Economia Política" (destacamos):

Na produção social de sua existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes
de sua vontade, relações de produção que correspondem a um dado grau de desenvolvimento de suas forças
produtivas materiais. O conjunto destas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a
base real sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas
formas de consciência social.
O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual em
geral. Não é a consciência dos homens que lhes determina o ser; ao contrário, seu ser social determina sua
consciência. Em um certo estado de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram
em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que a expressão jurídica disso,
com as relações de propriedade no seio das quais se haviam movido até então.
De formas de desenvolvimento das forças produtivas que eram, estas relações transformam-se em seus
entraves. Abre-se então uma época de revolução social. A mudança na base econômica subverte mais ou menos
lentamente, mais ou menos rapidamente toda a enorme superestrutura. Quando consideramos tais subversões, é
preciso distinguir sempre a revolução material que pode ser constatada de modo cientificamente rigoroso — das
condições de produção econômica e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em suma,
as formas ideológicas sob as quais os homens tomam consciência deste conflito e o levam até o fim.
Da mesma maneira que não se julga um indivíduo pela idéia que ele faz de si próprio não se deve julgar tal época
de subversão por sua consciência de si mesma; ao contrário, é preciso explicar esta consciência pelas
contradições da vida material, pelo conflito que existe entre as forças produtivas sociais e as relações de
produção.
Uma formação social só desaparece depois de se terem desenvolvido todas as forças produtivas que ela pode
conter jamais novas e superiores relações de produção a substituem antes que as condições materiais de
existência destas relações tenham eclodido no próprio seio da velha sociedade. Eis porque a humanidade não
formula jamais senão problemas que pode resolver, porque, se olharmos mais de perto, vemos sempre que o
próprio problema só surge onde as condições materiais para resolvê-lo existem ou, pelo menos, estão em vias de
aparecer.

Relações de produção são estabelecidas entre as pessoas, de acordo com as forças produtivas, que
representam o conjunto de técnicas, recursos naturais, enfim, tudo o que está à disposição do ser humano

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para a produção econômica ou a vida em sociedade. Nossas escolhas são condicionadas a um contexto
determinado por uma época, pelo modo de produção vigente.
O desenvolvimento das forças produtivas resulta em potenciais distintos de produção que entram em
choque (contradição) com as relações de produção. Por exemplo, o desenvolvimento do comércio na
Idade Média começa a ter uma lógica diferenciada, e começa a demandar trabalhadores livres para uma
dinâmica mais racional, conflitando com as relações de servidão do sistema feudal. A revolução resultante
é a mudança de sistema econômico (ou de modo de produção). Aqui há a gênese do sistema capitalista.
Assim, a evolução econômica se dá com base em choques e não de uma forma gradual e contínua.
A base econômica, uma vez modificada pela ascensão de um novo modo de produção, resultará em uma
alteração na superestrutura jurídica, política, ideológica e artística da época. A partir desta mudança,
começa a ocorrer uma redescrição da base econômica – são produzidos textos para legitimar o novo
sistema (a história é contada pelos vencedores).
A crítica de Marx à economia política clássica estava na negação dos argumentos desta de que tudo é
espontâneo, sem conflito, é uma evolução de caráter universal. Adam Smith enquadrou o sistema
capitalista dentro da filosofia moral e conseguiu propor uma justificação para o desenvolvimento e
aquisição da riqueza. David Ricardo era um rentista que escreveu contra os rentistas, dizendo que o
protecionismo era desfavorável à Inglaterra. O lucro deveria alimentar o crescimento econômico e não ser
meramente apropriado pelos rentistas.
A base econômica condiciona o direito (superestrutura que é reflexo da economia). Marx, ao estudar o
fenômeno jurídico, sempre enxergava uma dimensão econômica, identificando uma situação de
exploração que não considerava justa.
Karl Marx foi um filósofo, sociólogo, jurista, economista, enfim, desenvolveu um pensamento sistemático e
completo. Desenvolveu suas ideias no contexto histórico da revolução industrial, tendo sido perseguido ao
longo da sua vida pelo seu envolvimento em movimentos dos trabalhadores. Sofreu forte influência de
Hegel, que se preocupava com dimensões da moral, da linguagem e do trabalho nas relações sociais.
Marx desenvolve uma nova dimensão a partir da dialética hegeliana: o materialismo histórico – as
relações de trabalho são necessárias e nelas as pessoas são inseridas a despeito de sua vontade. A
consciência das pessoas é formada pelas relações concretas no seio econômico. A descrição da nossa
época, do modo de vida que levamos depende da compreensão destas relações.
Com o materialismo histórico, Marx explica a evolução dos sistemas econômicos, com uma ideia central: a
luta de classes (evolução de forças produtivas que gera contradições). Uma lei geral da economia política
é a da necessária correspondência entre as relações de produção e o caráter das forças produtivas –
haverá superação das relações de produção quando não houver correspondência. Este debate supera a
escola histórica e as ideias da economia clássica, onde o capitalismo era visto como uma mera mudança
técnica da divisão do trabalho.
Uma lei especial da economia política é a de que no capitalismo a produção se faz com vistas a
valorização do capital, por meio da apropriação da mais-valia. Não há ênfase na busca pelo lucro como
algo baseado em uma mentalidade doentia do capitalista, mas como uma necessária relação de produção.
A lógica do capitalismo não é meramente do consumo, mas sim na valorização do capitalismo, onde a
competição acirrada faz com que se busque a contínua valorização do capital, que só é possível se houver
trabalhadores (dinamização das forças produtivas).

6.2. Mercadoria, Trabalho, Valor e Mais-Valia


Marx foi influenciado pelas teorias do valor e dos lucros, de Smith e Ricardo – e, em alguns aspectos, sua
teoria pode ser considerada uma extensão, um refinamento e uma elaboração mais detalhada das ideias
daqueles autores. Quanto a outros aspectos de suas teorias, porém, Marx considerava-se um crítico
antagonista.
Marx estava interessado em explicar a natureza da relação social entre capitalistas e trabalhadores. Em
termos de teoria econômica, isso significava a relação entre salários e lucros.

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O capitalismo era um sistema em que a riqueza parecia “uma imensa acumulação de mercadorias, com
uma única mercadoria como unidade”. Uma mercadoria tinha duas características essenciais:
primeiramente, era “uma coisa que, por suas propriedades, satisfazia às necessidades humanas”. As
qualidades físicas particulares de uma mercadoria, que tinha utilidade para as pessoas, faziam com que a
mercadoria tivesse um valor de uso. As qualidades físicas particulares que tornavam útil uma mercadoria
não tinham, na opinião de Marx, qualquer ligação definida ou sistemática com “a quantidade de trabalho
necessário para a apropriação de suas qualidades úteis”. Em segundo lugar, as mercadorias eram, “além
disso, o depositário material do valor de troca”. O valor de troca de uma mercadoria era uma relação entre
a quantidade dessa mercadoria que se poderia conseguir em troca de uma certa quantidade de outra ou
outras mercadorias.
O dinheiro era uma mercadoria especial, geralmente usada como numerário, em termos do qual os valores
de troca eram em geral estabelecidos e que também funcionava como equivalente universal de troca.
Marx adota a ideia do valor-trabalho desenvolvida por Ricardo e a estende. Para ele também há diferença
entre valor de uso (dimensão subjetiva) e valor de troca. Preocupa-se com a dimensão objetiva,
trabalhando com a ideia de custo de produção – não só o trabalho necessário para o desenvolvimento,
mas também o capital técnico. Porém, não se preocupa com o trabalho empírico, efetivo (trabalho útil),
mas sim com o trabalho abstrato, uma habilidade média, um nível de produtividade médio necessário
para se produzir um determinado bem.
Em uma sociedade que produzisse mercadorias, qualquer produtor trabalharia isoladamente de todos os
demais. Cada produtor só produzia para vender no mercado. Com o produto de sua venda, comprava as
mercadorias de que precisava. Seu bem-estar parecia depender apenas das quantidades de outras
mercadorias pelas quais ele poderia trocar a sua mercadoria. Assim, o que eram relações sociais entre
produtores parecia, a cada produtor, simplesmente, uma relação entre ele e uma instituição social
impessoal e imutável – o mercado.
Em uma sociedade que produz mercadorias, os valores de uso produzidos pelo trabalho útil não poderiam
ser consumidos e usados sem o funcionamento a contento da troca no mercado. Ainda era, porém,
apenas o trabalho útil que produzia valores de uso que mantinham a vida humana e que geravam toda a
utilidade derivada do consumo. A grande ingenuidade do argumento da “mão invisível”, de Smith, e de
todas as suas variações apologéticas elaboradas por outros economistas burgueses era consequência de
sua miopia.
Encarando apenas superficialmente o ato da troca e a esfera da circulação, os economistas burgueses
achavam que essa utilidade era gerada na própria troca. A troca, portanto, parecia universalmente
benéfica, harmonizando os interesses de cada indivíduo e de todos os outros indivíduos. A verdade pura e
simples era que o trabalho útil era sempre a fonte de toda utilidade proporcionada pelas mercadorias, e a
troca era meramente o pré-requisito necessário para o próprio funcionamento de uma sociedade que
produzisse mercadorias. Os economistas burgueses tinham sido incapazes de visualizar qualquer coisa
além de uma sociedade que produzisse mercadorias, de modo que o aparecimento do mercado como
instituição harmonizadora e socialmente benéfica apenas marcava o fato subjacente de que, nessa
sociedade, ninguém poderia tirar vantagem da utilidade proporcionada pelo trabalho útil, a não ser que o
mercado funcionasse. Esse fato, por si mesmo, não dava qualquer indicação quanto à natureza das
relações sociais entre as várias classes em uma sociedade capitalista nem indicava se essas relações
eram harmoniosas ou conflitantes.
Na produção simples de mercadorias, em um sistema não capitalista, produziam-se mercadorias para
venda com o fim de adquirir outras mercadorias para uso, segundo o esquema:
M–D–M
Uma mercadoria é trocada por outra, pela circulação de trabalho social materializado.
No sistema capitalista, a circulação é:
D – M – D'
O dinheiro se transforma em mercadoria, que, por sua vez, se transforma em dinheiro, que se transforma
em capital.

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Em outros, termos, a lógica de investimento é a transformação de dinheiro (D) em mercadorias (M) para
produzir mais dinheiro (D’). Esta relação pode ser expandida para dinheiro (D) que se transforma em
mercadoria (M), que se transforma em produção (P), que se transforma em mais mercadoria (M’), que
gera mais dinheiro (D’). É uma lógica necessária e não uma maldade individual. Relações pessoais são
ofuscadas e tornam-se relações objetivas.
O capitalista começava com capital em dinheiro (um fundo de valor sob a forma de dinheiro). Comprava
três tipos diferentes de mercadoria: matérias-primas, instrumentos e força de trabalho (seu capital passara,
agora, a ser um fundo de valor incorporado a esses três tipos de mercadoria). Em seguida, vinha a
produção.
Durante o processo de produção, o capital era transformado em mercadorias acabadas (o capital se
transformava, então, em um fundo de valor incorporado às mercadorias acabadas). O valor das
mercadorias acabadas provinha de três fontes: as matérias-primas, os instrumentos e a força de trabalho.
Tem-se:
D – M ... P ... M' – D'
A diferença entre D' e D é a mais-valia.
A força de trabalho, então, era a capacidade de trabalhar ou trabalho potencial. Quando a força de
trabalho era vendida como mercadoria, seu valor de uso era, simplesmente, a execução do trabalho – a
concretização do trabalho potencial. Quando o trabalho era executado, era incorporado à mercadoria,
dando-lhe, assim, valor. Portanto a única fonte possível de mais-valia era a diferença entre o valor da força
de trabalho como mercadoria (ou trabalho potencial) e o valor da mercadoria produzida, que incorporava o
trabalho concretizado (ou o valor de uso consumido da força de trabalho). A força de trabalho era uma
mercadoria absolutamente única: seu consumo ou uso criavam novo valor, que bastava não só para repor
seu valor original, como também para gerar mais-valia.
O capitalismo existia quando, em uma sociedade que produzia mercadorias, uma pequena classe de
pessoas – os capitalistas – tinha monopolizado os meios de produção e na qual a grande maioria dos
produtores diretos – os operários – não podia produzir independentemente, por não terem eles qualquer
meio de produção. Os operários eram “livres” para fazer uma destas duas escolhas: morrer de fome ou
vender sua força de trabalho como mercadoria. Assim, o capitalismo não era inevitável nem natural e
eterno. Era um modo de produção específico, surgido em condições históricas específicas e que tinha uma
classe que dominava, em virtude de sua capacidade de expropriar a mais-valia dos produtores das
mercadorias.
A diferença entre o valor da força de trabalho e o valor da mercadoria produzida, quando essa força
de trabalho se concretizava, era a fonte da mais-valia.
A esse respeito, a distinção entre força de trabalho e trabalho executado ou incorporado à produção era de
significado crucial. A força de trabalho era meramente trabalho potencial. Era isso que o trabalhador
vendia como mercadoria. O valor de uso da força de trabalho era o verdadeiro trabalho executado. A
importância dessa distinção ficará mais clara ainda depois de examinarmos a explicação de Marx sobre o
valor da força de trabalho como mercadoria:

O valor da força de trabalho é determinado, como no caso de todas as outras mercadorias, pelo tempo de
trabalho necessário para a produção e, consequentemente, também para a reprodução desse artigo especial…
Para o indivíduo, a produção da força de trabalho consiste em… sua manutenção. Para essa manutenção, ele
precisa de certa quantidade dos meios de subsistência… A força de trabalho retirada do mercado pelo desgaste
e pela morte tem de ser sempre substituída… Daí a necessidade de o total dos meios de subsistência
necessários para a produção da força de trabalho (também) incluir os meios necessários para os substitutos do
trabalhador, isto é, seus filhos.

O valor da força de trabalho era igual ao valor de subsistência da família de um operário. Portanto, o
trabalho incorporado à força de trabalho era idêntico ao trabalho incorporado às mercadorias que
permitiam sua subsistência. Essa subsistência não era uma subsistência biológica ou fisiológica mínima,
mas um “produto do desenvolvimento histórico”, que dependia “dos hábitos e do grau de conforto” a que a
classe operária estivesse acostumada.
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A força de trabalho era a capacidade de trabalhar. O limite superior da capacidade de trabalho de uma
pessoa era, dependendo do tipo de trabalho, de 14 a 18 horas por dia. Portanto, a quantidade de trabalho
que podia ser realmente conseguida com a força de trabalho de um dia (e, portanto, o valor das
mercadorias produzidas pelo trabalho realmente realizado em um dia) dependia da duração da jornada de
trabalho.
Se a duração da jornada de trabalho fosse tal que “o valor pago pelo capitalista pela força de trabalho
fosse substituído por um equivalente exato, seria, simplesmente, um processo de produção de valor; se,
por outro lado, ultrapassasse esse ponto, se tornaria um processo de criação de mais-valia”.
A parte da jornada de trabalho durante a qual era produzido o valor da força de trabalho é o que Marx
chama de tempo de trabalho necessário e ao trabalho despendido naquele período chamava de
trabalho necessário. No capitalismo, porém, o dia de trabalho sempre ia além desse tempo de trabalho
necessário. Essa extensão de trabalho excedente e o trabalho feito nesse período é o trabalho
excedente. Então, assim como o valor era “uma cristalização de um determinado número de horas de
trabalho… nada mais do que trabalho materializado”, a mais-valia era “a mera cristalização do tempo de
trabalho excedente… nada mais do que trabalho excedente materializado”.
O valor das mercadorias M’ era maior do que o valor das mercadorias M e a diferença era exatamente
igual ao excesso da duração do dia de trabalho sobre o tempo de trabalho necessário para a produção da
subsistência dos trabalhadores.
No último estágio da circulação, as mercadorias M’ (tecido) eram trocadas por uma quantidade equivalente
de dinheiro, D’. O capital teria completado um ciclo, passando de dinheiro a mercadorias, da produção,
para um novo conjunto de mercadorias e, finalmente, transformando-se de novo em dinheiro. D’ era maior
do que D, e a diferença era exatamente a mesma que existia entre M’ e M. Só haveria trocas de
equivalentes de valor, mas, dessa vez, o capitalista tinha um fundo de capital sob a forma de dinheiro, com
um valor maior do que o do fundo inicial. Estava, agora, em posição de começar o processo novamente,
só que, dessa vez, em maior escala, com mais capital.
O capitalismo representava uma repetição incessante desse processo. O capital gerava mais-valia, que
era a fonte de mais capital, que, por sua vez, gerava outra mais-valia e assim por diante, num ímpeto
interminável e incessante de acumular mais capital.

6.3. Risco de Reducionismo


O direito posto pelo Estado serve para dinamizar as relações. O jurista marxista o considera como inimigo
(um entrave, algo a ser superado), e passa a focar em um direito vindouro, desenvolvido a partir de sua
ideologia. Teorias jurídicas podem surgir, podendo reduzir a dimensão jurídica em face das dimensões
políticas e econômicas – é o risco do reducionismo político e/ou econômico.
A dimensão jurídica das relações de produção encontra-se tanto na superestrutura jurídica e política
quanto na base econômica. O jurídico não é um mero reflexo do econômico. Uma troca econômica é um
negócio jurídico. Contrato de trabalho tem uma dimensão jurídica. Dependendo da época, há leis que
tratam de contratos, atos de comércio, tributação, contrato de trabalho – são leis que devem ser
apropriadas para os tipos de relações sociais que temos. Eros Grau denomina a base econômica de
direito pressuposto e a superestrutura de direito posto.
Uma crítica ao marxismo jurídico é o tratamento do direito como mero instrumento de dominação – reduz-
se a dimensão jurídica de forma ideológica, não se produzindo efetivamente uma teoria jurídica. Esta
redução pode ser política, moral, econômica, afastando-se o direito posto da discussão, que passa a ser
uma busca por valores.

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7. A Escola Histórica da Economia. O Debate dos
Métodos entre Carl Menger e Gustav Schmöller. A
Revolução Marginalista e as Escolas Neoclássicas.
Vimos que, historicamente, existiram diversas formas de se pensar o fenômeno econômico. Antes do
pensamento clássico, existiam pensadores que tratavam de aspectos econômicos, mas sua abordagem
não constituía uma ciência econômica, estando mais no campo da filosofia ou no tratamento de questões
pontuais. Em um determinado momento, temos os pensadores ditos clássicos (Smith, Ricardo, Malthus,
Mill, Say) no século XVIII e início do século XIX. Na metade do século XIX, este pensamento clássico tem
uma guinada com as ideias de Karl Marx, que inaugura uma corrente que ganhou muito respeito no
pensamento econômico, operando uma mudança de paradigma, tendo como ponto de partida as ideias de
Ricardo. O pensamento clássico-marxista é um sistema filosófico próprio que visava enfrentar as questões
tratadas pelos clássicos. Não considerava o momento atual como melhor momento, mas uma etapa de
transição para algo melhor que ainda estava por vir: o socialismo, o comunismo.
O pensamento clássico-marxista irá influenciar diversas escolas do pensamento econômico até uma perda
significativa de status a partir da década de 90, em especial com a queda do muro de Berlim e o forte
desencanto com o socialismo.
Outra corrente surgiu em 1871, como desdobramento do pensamento clássico, denominada subjetivista,
marginalista e, posteriormente, corrente neoclássica. Esta é a corrente dominante até hoje, a chamada
mainstream economics. A metodologia e o objeto serão diversos do da economia clássica, embora ainda
mantenha referência com este pensamento, por ter como pano de fundo uma ideia de liberalismo
econômico ou neoliberalismo (ainda mais liberal que o clássico). A partir de agora estudaremos este
pensamento neoclássico.
No pensamento clássico, predominou uma teoria sobre o valor-trabalho, embora isto não queira dizer que
todos fossem adeptos a ela. Outros atores, como Say, tentavam adotar uma perspectiva subjetivista, isto
é, tentar analisar a questão do valor de um bem a partir da perspectiva do sujeito. Tinham como principal
dificuldade o paradoxo da água e do diamante. Percebiam, também, a influência sobre os preços que o
jogo de oferta e demanda era capaz de exercer.
Entre 1871 e 1874, três autores (que não se conheciam) conseguem elaborar esta perspectiva subjetivista
de forma mais consistente. São eles: Carl Menger (na Áustia), Stanley Jevons (Reino Unido) e Leon
Walras (França). Todos desenvolveram uma teoria do valor subjetivo mais articulada. Em
livros,usualmente temos uma tendência artificial à homogeneização de pessoas. Estes três autores tinham
métodos e influências filosóficas distintas, mas são alinhados do ponto de vista da literatura especializada
como os pais da revolução marginalista.
Carl Menger não escreveu contra os clássicos. Seus inimigos teóricos são outros, uma corrente de curta
duração no pensamento econômico, que é a escola histórica alemã. Em sua época, o universo acadêmico
na Áustria e na Alemanha era dominado por esta escola. O termo “histórico” não se refere ao historicismo
marxista. A escola histórica é um movimento cultural amplo relacionado, de certa forma, ao romantismo
alemão, que, ao pregar e valorizar os aspectos culturais da história, buscavam reforçar sua identidade por
alguma razão. Podemos dizer que tanto na economia quanto no direito esta razão era fugir da visão liberal
francesa e inglesa, uma resposta conservadora ao pensamento ilustrado. Na Alemanha questionava-se se
deveria haver um código civil como na França. Surgiu a ideia de analisar o espírito do povo, as condições
históricas (de forma idealizada), a análise das normas jurídicas já adotadas pelos diversos Estados
germânicos. Realiza-se um apanhado de leis, institutos jurídicos e inicia-se uma teorização sobre este
sistema jurídico, preenchendo lacunas com doutrinas, com o espírito do povo alemão, o Volksgeist. O
debate científico passou a ser também um debate político.
Na economia, o debate era semelhante. Não era possível copiar Smith, Ricardo. Na metade do século
XIX, a Alemanha não era industrializada e estava em desvantagem na lógica do comércio internacional. A
ideia de história era mais linear (e não a marxista, de choques, espirais, conflitos, revolução), com as
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nações encontrando-se em diferentes estágios de desenvolvimento (gradual). David Ricardo não era a
literatura oficial na Alemanha. Na Áustria, os professores eram alemães (os mais famosos).
Quando Carl Menger começa a estudar a economia, mesmo sendo um jurista, passa a escrever contra os
alemães, indicando que o seu problema era a ausência de um método científico em sua abordagem
histórica, com muito mais postulados que empirismo. Reforçava a necessidade de a ciência ser formal e
neutra em seus valores. Sem ser muito conhecido, ataca Schmöller, expoente da escola histórica. Embora
o pensamento marginalista tenha como característica a matematização do raciocínio, esta não era a
abordagem de Menger. Inaugurou um pensamento próprio na Áustria e tornou-se conhecido através de
seus sucessores.
Para Menger, o valor dos bens e da mercadoria deve ser analisado a partir do que representa para uma
pessoa. O que interessa é a decisão do agente econômico. As pessoas valorizam mais um produto de
acordo com a sua necessidade, com a escassez deste produto para a pessoa. Alguém que está passando
forme está disposto a valorizar bastante o pão. À medida que seu consumo de pão aumenta, pode
começar a abrir mão de fatias de pão em troca de um copo de água. Um pressuposto desta abordagem é
a possibilidade de alinhar os produtos relevantes para uma pessoa conforme seu grau de importância.
Cada produto tem uma utilidade marginal decrescente, isto é, para cada unidade adicional consumida, a
utilidade é decrescente. A soma das utilidades de cada unidade de consumo é a utilidade total. Com a
diminuição da escassez (a cada nova unidade consumida), a utilidade diminui. A partir da escala de
preferências da pessoa, a cada decisão de consumo, o agente econômico pondera sobre a utilidade de
cada produto, a fim de definir qual deles será escolhido.
As pessoas articulam suas vontades em termos de troca, de acordo com uma escala de preferências. Não
há explicação sobre preços, mas sim uma explanação sobre por que as pessoas consomem uma coisa em
detrimento da outra. Menger ainda não vai tratar formalmente a utilidade marginal decrescente em termos
de cálculo diferencial.
Jevons dará o primeiro passo para explicar preços. Era um utilitarista, assim como Jeremy Bentham. Sua
forma de pensamento estabelecia raciocínios de utilidade com base em critérios de sacrifício e retribuição,
dor e prazer. Este pensamento acabou sendo utilizado por economistas. Jevons cria um modelo com base
em dois produtos (X e Y), considerando como variáveis a utilidade e o preço para cada produto. Com
base em uma espécie de anáise custo-benefício (razão entre a utilidade marginal e o preço) para cada
produto, propôs uma explicação para o processo decisório de cada pessoa. A utilidade era vista como uma
função da quantidade (diminuindo com o aumento da quantidade). Explorou diversas proporções entre as
quatro variáveis (Ux, Uy, Px, Py), procurando chegar a situações ótimas (de equilíbrio) e como induziam a
comportamentos econômicos de troca.
Walras era matemático e procurou sistematizar situações de equilíbrio, lançando mão de equações. Supõe
a convergência a um mundo onde ninguém mais estaria disposto a fazer nenhuma troca, e um sistema
conhecido como leilão walrasiano (os lances são feitos e não podem ser alterados posteriormente).
Estes três pensadores procuraram desenvolver uma teoria do valor que levasse em conta a vontade das
pessoas (perspectiva subjetiva), levando em conta a quantidade (escassez), fazendo um raciocínio com
base em um cálculo marginalista (o valor decresce com a quantidade). Com isso, o valor do diamante em
relação à água pôde ser explicado pela sua escassez. O enfoque procurava formalizar a economia e
abandonar as perspectivas sociais. É o início de uma abordagem mais vertical e analítica para o
pensamento econômico.
Um ilustre seguidor de Walras foi Wilfredo Pareto. Alfred Marshall foi influenciado por Jevons. Menger se
retira precocemente da vida acadêmica e alguns de seus sucessores tiveram reconhecimento como
Böhm-Bawerk e Wieasen.
A economia, então, se torna o que é hoje: a ciência que estuda o mercado, procura, oferta, o ambiente
individualista e formal.

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8. A Industrialização Retardatária. O Capitalismo no
Século XIX. Monopólios e Cartéis.
A industrialização ocorreu em diferentes momentos nos demais países europeus. Na Alemanha, ainda que
houvesse algum protecionismo alfandegário, o que caracteriza o processo de industrialização é que se
tratava de uma política de Estado, em um momento concomitante com o processo de unificação nacional.
A vontade política do Estado e uma elite associada às terras direcionam a industrialização com
consideráveis investimentos.
Nos Estados Unidos, a partir de 1865, a industrialização começa a ter uma mudança. De um processo
incipiente localizado nas colônias do Norte, começa a ocorrer um processo de consolidação de indústrias,
devido a maiores necessidades de investimentos. Ocorrem fenômenos como a concentração horizontal
(fusões, aquisições), práticas desleais de concorrência, barreiras de entrada, concentração vertical
(domínio de uma indústria e de outras partes da cadeia produtiva). Este processo levou ao surgimento de
grandes empresas, muitas vezes praticamente monopolistas em seu setor. Com excesso de poder,
surgem diferentes dimensões nas quais este poder se manifesta de forma nociva no sistema econômico.
Toda a ideia da eficiência econômica sempre teve relação com eficiência produtiva, cujo pressuposto é a
concorrência no sistema econômico, responsável pelo fato de todos se esforçarem para reduzirem custos
e satisfazerem as necessidades de consumo. Na ausência da concorrência, o egoísmo que leva à busca
do lucro se manifesta de uma forma mais simples: o mero aumento de preços leva ao aumento de lucros
ou a mera diminuição da quantidade ofertada, o que também leva a uma manifestação nos preços.
Ainda, um poder econômico significativo pode ser transposto para um poder político, rivalizando com o
próprio Estado.
Há diversas estruturas de mercado conforme o grau de concentração. Monopólio é o domínio de um único
produtor. Oligopólio é o domínio de poucos produtores. Cartéis são acordos entre os produtores em
termos de preços ou quantidades.

28
9. Movimento Antitrust nos EUA e Concorrência Leal na
Alemanha. Influências sobre o Brasil.
Hoje consideraremos a Economia como teoria e história (fatos econômicos) e, ainda, trataremos das
relações com o Estado e o Direito em termos de políticas estatais e leis, normas jurídicas relativas à
Economia.
Na aurora do processo de concentração de mercado, não havia consenso sobre quais medidas deveriam
ser adotadas para conciliar o bem-estar da população e o desenvolvimento econômico. Havia dúvida a
respeito de medidas restritivas representarem uma restrição aos “campeões” ou se o estímulo à
concorrência entre os agentes econômicos seria algo nocivo. Outra teoria que surge é a da concorrência
potencial, na qual uma empresa dominante, ao estabelecer preços abusivos, estaria exposta à entrada de
um novo concorrente no mercado que trouxesse os preços a patamares anteriores.
Qual a principal motivação para a criação das primeiras medidas antitrust? A primeira legislação foi o
Sherman Act e não há consenso na doutrina especializada sobre a razão subjacente para sua elaboração
em 1890. O debate da sucessão presidencial anterior a essa lei foi pautado pela regulação econômica. A
população como um todo estava sentido os efeitos do poder econômico e político de certas famílias e
reagiram a isso.
Foi proibido qualquer tipo de conluio ou acordo que atrapalhasse o comércio interestadual. Também foi
proibida a monopolização. Surge a dúvida: seria proibida a condição de monopolista ou o conjunto de atos
que conduzissem ao monopólio? Se fosse apenas o conjunto de atos, a lei não poderia retroagir a ponto
de punir quem já era monopolista. Se fosse a condição de monopolista, então poderia ser aplicado contra
os Rockfeller, por exemplo.
Curiosamente, ainda que tenha sido uma legislação progressista, o Sherman Act foi aplicado contra
greves de trabalhadores. Na busca por direitos dos trabalhadores, as paralisações levavam a atrasos nas
entregas, o que atrapalhava o comércio interestadual, conduta punível por aquela lei. Em 1914 surgem
duas novas leis, a Clayton Act e a Federal Trade Comission Act, para proteger a concorrência leal e a
forma de julgamento. Ainda, foi determinada a inaplicabilidade do Sherman Act para as relações de
trabalho.
Temos, assim, fatos que são econômicos e jurídicos ao mesmo tempo. As transformações políticas e
econômicas demandaram intervenção estatal, manifestada na produção legislativa.
À época, a teoria econômica tinha como foco o equilíbrio nos mercados. O pensamento neoclássico tem
como fundamento a ideia de que a escolha do consumidor é racional, o que leva os produtores a produzir
a quantidade correta. Se o Estado não atrapalhar, toda oferta irá encontrar a sua demanda: a família dará
dinheiro à firma, que retribuirá em produto, o Estado arrecadará seus tributos e o sistema alcançará um
equilíbrio. Inflação, recessão e outros problemas soam mais como ruídos com respeito à realidade.
Veremos a resposta a esta abordagem no próximo ponto, isto é, às limitações do pensamento do
mainstream econômico.
Na Áustria e, posteriormente, na Alemanha, iniciou-se um debate sobre quais as ações a serem tomadas
pelo Estado em face do cenário econômico daqueles países. A industrialização retardatária alemã já
resultou em mercados concentrados, sem passar por um estado de concorrência que tenha sido
transformado gradualmente em um estado concentrado. Para fugir do liberalismo inglês, fugiram das
ideias de Ricardo e de condições idealizados, buscando a apreensão de seu contexto histórico e peculiar.
A escola histórica alemã tomou como premissa a superioridade do estágio de industrialização alemã em
comparação à industrialização inglesa. Como havia poucas famílias dominantes, a formação de cartéis era
comum, com uma roupagem teórica de que se tratava de um estágio avançado de desenvolvimento, de
um racionalismo baseado em um senso de coletivismo. Assim, os cartéis eram vistos como uma medida
saudável que prevenia uma concorrência tida como predatória, um estado de barbárie dos agentes
econômicos.

29
Outro fator que favoreceu os cartéis na Alemanha e na Áustria era sua relação com o Estado, reforçando a
noção expansionista de poder no comércio internacional.
Em 1909, é promulgada uma regulamentação da concorrência leal, a UWG. O caminho é inverso ao
tomado pelos EUA, que iniciaram com a regulamentação de monopólios. Com a I Guerra Mundial, o
Estado se alia com as grandes empresas em uma economia de guerra. Posteriormente, com a crise
econômica do entre-guerras, novamente o Estado conduz o processo de recuperação.
A defesa da concorrência volta à pauta após a II Guerra Mundial, com os planos impostos pelos aliados. A
primeira ideia era promover a cisão de grandes empresas, que se revelou inócua. Ocorre um processo de
neoliberalização, com o peso da derrota da guerra, a Alemanha se quebra em uma série de aspectos. Os
EUA tornam a ter interesse na recuperação econômica alemã para que pudessem fazer frente ao regime
de Stalin.
O Tratado de Roma foi marcado pelo debate sobre a defesa da concorrência. Surge uma legislação contra
a limitação da concorrência em função, dentre outros fatores, do pensamento denominado Law &
Economics. Novamente temos fatos políticos e econômicos demandando atuação legislativa por parte do
Estado. É difícil encontrar um Estado moderno que não tenha estado presente na legislação.
A ideia liberal do Estado mínimo nunca foi uma realidade. A partir do século XIX, temos o capitalismo
monopolista ou capitalismo de Estado.
O direito econômico formaliza-se como disciplina em torno de 1914 e é fruto deste pensamento, pela
percepção de que havia um conjunto de leis sobre produção, preços, concorrência, industrialização,
guerra. Surge o direito econômico da guerra, direito da industrialização de guerra. Outra corrente
considera normal o Estado tratar de temas afetos à produção, à guerra, à industrialização: surge a
disciplina do direito econômico.
As matrizes americana e alemã influenciaram os outros países sobre a forma de o Estado intervir na
economia. O Brasil também foi influenciado, com a ordem econômica sendo tratada a partir da
Constituição de 1934 (fala-se em economia popular, preocupação com oferta de produtos e manipulação
de preços). Inicialmente, a legislação tinha como objetivo promover a industrialização e, com isso, acabou
por fomentar o surgimento de um mercado concentrado. Em 1960 foi promulgada uma lei que criou o
CADE [4.137/1962, CONFIRMAR]. Apenas com a CF/88, foi Uma legislação de defesa da concorrência
começou de forma mais efetiva apenas na metade da década de 1990 (Lei 8.884/1994). Este processo
vem evoluindo desde então (Lei 12.529/2011).
As normas jurídicas devem ser acompanhadas de uma vontade política para criar instituições que
viabilizem a aplicação das normas. Temos hoje uma política econômica constitucionalizada, de caráter
programático.
Vimos, assim, a transição de capitalismo liberal para capitalismo monopolista, com respeito aos agentes
econômicos, ao Estado e ao Direito. Na próxima aula veremos o que aconteceu com o pensamento
neoclássico, que estava isolado deste debate, pelo excesso de confiança na autorregulação dos
mercados.

30
10. A Revolução Teórica de John Maynard Keynes e o
Debate sobre o Pleno Emprego. O Estado
Intervencionista do Século XX.
Hoje vamos tratar do pensamento econômico da década de 1930 e a revolução keynesiana. Bifurcaremos
o pensamento neoclássico entre neoclássico ortodoxo e neoclássico keynesiano.
Na literatura especializada se convencionou chamar o pensamento keynesiano de revolucionário, mesmo
em sua própria época. Quando se escreve um livro em 1946, quando Keynes falece, a expressão
revolução keynesiana já era utilizada.
Também temos o pensamento de Sweezy (marxista), que estudou o pensamento neoclássico pré-Keynes
e o pensamento keynesiano, destacando o impacto significativo no meio acadêmico causado pela Teoria
Geral. Samuelson estudou o pensamento neoclássico na tradição ortodoxa.
A síntese do pensamento necolássico, surgido a partir da revolução marginalista e o foco no sujeito, tem o
pressuposto de uma teoria de produção ou distribuição eficiente e seu dogma: toda produção irá encontrar
o seu consumo. Não haveria risco de superoferta ou de uma crise de falta de consumo. Qualquer
mudança no consumo resultaria em um rearranjo da competição e da produção no mercado.
A relação entre os vários agentes econômicos, assim, gera um resultado racional e eficiente. Caberia ao
Governo cuidar de problemas de fronteira, de infraestrutura, garantir a segurança pública e o cumprimento
de contratos; tinha, assim, uma função mínima. Ainda, trabalhava-se a ideia de fluxo circular de renda:
uma firma produz mercadorias, colocando a produção no mercado, obtendo receitas com a venda de
mercadorias. Com a receita, a firma paga seus custos: salários, insumos, matéria-prima, juros e aluguéis.
Sob outra perspectiva, estes custos são renda para outros (trabalhadores, outra firma, capital, terra). Esta
ideia vinha sendo desenvolvida desde Walras.
A ideia de que toda produção encontra seu consumo decorria do pensamento de Jean-Baptiste Say.
Porém, este fluxo circular possui três vazamentos7: quando o mercado consumidor importa mercadorias, a
poupança (pelo trabalhador ou investidor) e os tributos (a riqueza vai para o governo). As contrapartidas
para os vazamentos são, respectivamente, exportação, investimentos (ex. empréstimos a firmas) e gastos
públicos (obras e prestações de infraestrutura).
Com a ausência de um Estado intervencionista e um pressuposto de eficiência e racionalidade dos
agentes econômicos e a possibilidade de compensação de vazamentos, temos fatores para presumir uma
situação de equilíbrio, de plena utilização dos fatores econômicos. Neste mundo equilibrado, entre firmas e
famílias, as famílias terão sempre pessoas na idade adequada, trabalhando. Portanto, teremos o pleno
emprego.
Para completar este cenário do pensamento neoclássico, em um panorama mais amplo: no livre jogo de
oferta e procura há equilíbrio, até mesmo em termos de transações internacionais – as diferenças de perfis
entre as nações contribuirão para o equilíbrio no comércio internacional. Uma política fiscal eficiente se faz
necessária, pois a cobrança eficiente dos tributos viabiliza o desempenho das funções mínimas do Estado.
Toda poupança terá como contraposição investimentos, havendo tendência a equilibrar o que se paga de
juros na poupança para o que se paga de juros nos investimentos (uma desigualdade pode levar a
excesso de poupança e contenção de investimentos).
Este é um retrato da descrição que a economia fazia dos sistemas econômicos. Porém, a realidade diferia
desta descrição. No contexto histórico, a manifestação de crises econômicas, depressões cíclicas,
desemprego, concentração econômica e cartéis, a atividade legislativa (intervencionista) do Estado, dentre
outros fatores, desafiavam os modelos vigentes. As crises vinham acontecendo desde o último terço do

7
Chamamos de vazamento porque, no modelo do fluxo circular de renda, a riqueza gerada não está sendo
distribuída entre as firmas e os demais agentes econômicos. Por exemplo, no caso de importações, as divisas são
perdidas para outra nação, não permanecendo na nação em que se encontra a firma produtora.
31
século XIX e se tornavam cada vez mais frequentes e agudas. A diminuição do emprego e do consumo
levava à diminuição da produção. As equações do fluxo circular acabavam por deixar pessoas ociosas. A
concentração econômica sabotava toda a racionalidade da “mão invisível”. A pressão social levava o
Estado a intervir na economia, protegendo a concorrência, os trabalhadores e a seguridade social. Havia,
assim, certo distanciamento entre o arcabouço teórico aqui resumido e o que se manifestava na realidade.
O verbete da expressão desemprego aparece em enciclopédias publicadas na virada do século XIX para o
século XX. A discussão marginalista sobre quanto se estava disposto a pagar pela última unidade a ser
consumida: o trabalho tem que remunerar aquilo que você traz de utilidade para a pessoa. Os
neoclássicos indicavam que as pessoas não rendem o que deveriam render e, por isso, não estão
dispostas a trabalhar por um preço inferior ao que achavam merecer ganhar, que era o preço compatível
com o verdadeiro rendimento do seu trabalho – a culpa do desemprego era do trabalhador que não
aceitava trabalhar por um salário inferior ao que achava merecer ganhar. Era a teoria do desemprego
voluntário ou friccional, que preservava o orgulho teórico dos economistas: a realidade tinha que obedecer
ao modelo e não o contrário. A queda de salários era o instrumento prescrito para a diminuição de custos
e estímulo à produção.
Finalmente, em 1929, estourou a crise econômica nos EUA. Não houve peste ou arrebatação coletiva de
pessoas, nenhum recurso natural deixou de operar ou catástrofe ambiental comprometeu a produção
agrícola. A economia deixou de funcionar, mesmo estando presentes todos os agentes econômicos de
sempre. Havia excesso de oferta, pouco consumo e pouco investimento. Tal fato era a negação empírica
do pensamento neoclássico, que não conseguiu explicar a crise.
Do ponto de vista da teoria econômica, quem deu uma resposta para o problema foi Keynes em 1936.
Cada Estado resolveu o problema de sua forma, mas Keynes explicou como as coisas deveriam funcionar.
Princípios científicos serviriam de ponto de partida para a agenda de atuação do Estado.
A principal influência de Keynes foi o pensamento de Alfred Marshall. Percorre o sistema neoclássico e
encontra como principal problema a Lei de Say – toda produção encontra sua demanda – e que, em
condições de equilíbrio entre oferta e procura há pleno emprego. Enuncia que a crise econômica não é um
acidente, é a regra de um sistema marcado por incertezas, nem toda oferta encontrará sua demanda e,
ainda que isso ocorra, não haverá pleno emprego. E, enquanto não houver pleno emprego, haverá
pressão que pode levar a uma crise econômica. A rejeição da lei de Say e do mito do pleno emprego
constituem pontos fulcrais da obra de Keynes.
Outra característica marcante da obra de Keynes é o pensamento em termos de grandes agregados, isto
é, o que hoje chamamos de uma perspectiva macroeconômica: produção, juros, tudo aquilo que é somado
e não cada operação individualmente considerada. São as contas do país e não de setores
especificamente considerados.
Para concluir o que são os princípios científicos da revolução keynesiana, temos a conclusão de que, se o
erro detectado é que não há tendência ao equilíbrio, alguém tem que evitar as crise econômicas: Estado.
A incerteza passa a ser um dado inerente. A economia precisa de ajuda para funcionar, um agente que
tenha participação ativa no processo econômico.
A participação do Estado na atividade econômica é tema controverso. O Estado como ator principal da
economia é uma ideia bastante questionada no final do século XX e início do século XXI. A crise do
subprime em 2008, com a securitização de recebíveis decorrentes de operações imobiliárias, e o efeito
cascata da inadimplência revelou a importância de o Estado auxiliar a economia. Na ocasião, o governo
socorreu empresas e bancos para evitar que a economia deixasse de funcionar. E isto ocorreu nos EUA,
um país tido como liberal.
A grande pauta do pensamento neoclássico e neoliberal é a racionalidade do gasto público e o combate à
inflação. Keynes irá propor algo diverso, com o estímulo ao gasto público e a aceitação da inflação, não
como um fim em si mesma, mas como parte de uma situação de desequilíbrio orçamentário planejado.
Keynes faz a seguinte leitura das crises econômicas e a ausência de equilíbrio espontâneo: a qualquer
sinal de risco, há o aumento da poupança, resultando na diminuição do consumo, que por sua vez, causa

32
um impacto negativo na demanda8, de cuja diminuição decorre uma baixa no investimento (os detentores
do capital ficarão receosos). Por fim, a diminuição da produção gerará desemprego, alimentando o ciclo de
crise. Mais importante que a etapa inicial da crise é seu ponto central: a demanda efetiva.
O desemprego, neste sentido, será um desemprego involuntário, no sentido de que há pessoas sem
emprego desejosas de trabalhar por um salário rela inferior ao praticado – ao contrário do que defendiam
os clássicos, o nível de emprego não depende do jogo da oferta e da procura no mercado de trabalho,
sendo determinado por um fator externo: a demanda efetiva. Para os clássicos, o desemprego era
voluntário, na medida em que haveria trabalhadores que não estavam dispostos a trabalhar pelo valor que
realmente deveriam receber – queriam, ao contrário, receber mais do que a produtividade marginal do seu
trabalho.
A noção de demanda efetiva é o elemento central na obra de Keynes. O termo não ajuda muito na sua
compreensão: trata-se de um potencial que o mercado tem de consumir um produto ou serviço. É a soma
do potencial de consumo e de investimento. Um problema de demanda efetiva resuta em um problema no
nível do consumo efetivo e do desemprego. É preciso alimentar a demanda efetiva para que o fluxo
circular funcione.
Keynes fez uma leitura de que houve diminuição de demanda efetiva que conduziu à crise de 1929. A
venda excessiva de ações foi uma forma de diminuição do nível de investimento. Juízos de investidores e
de assalariados levaram a este processo.
Os primeiros estudos acadêmicos de Keynes foram em teoria moral e probabilidade. Ao repassar o
sistema filosófico de Moore, escreve um tratado sobre probabilidade. Na base teórica de Keynes há dois
elementos que aparecem em seus escritos: o peso do argumento e a teoria do risco moral (que não foi de
sua invenção).
 Peso do argumento: nem sempre as pessoas fazem juízos probabilísticos em bases quantitativas.
As pessoas realizam juízos com base em elementos por elas conhecidos e intuições, atribuindo
confiança a certos argumentos mais do que a outros. As pessoas trabalham com aquilo com que
elas confiam mais.
 Teoria do risco moral: se você tem dois caminhos para realizar um bem, com uma delas
envolvendo um investimento pessoal de curto prazo e outra um de longo prazo – os investimentos
de curto prazo são bem mais efetivos que os de longo prazo.
A racionalidade e maximização da utilidade pelos agentes foi colocada em xeque. Keynes apontou que as
informações detidas pelos agentes são incompletas e estes tentam se cercar do que é mais recente e em
quem ele confia para tomar suas decisões. Ainda, as políticas econômicas de longo prazo seriam
desaconselháveis: no longo prazo estaremos todos mortos. Considera o investidor como se fosse um
animal na selva, arisco, assustando, agindo por instinto.
Por fim, fala do amor ao dinheiro: embora tudo tenha uma expressão monetária, para Keynes o dinheiro
possui uma característica psicológica – ao primeiro sinal de ameaça, o investidor procura segurança
através de um efeito psicológico individual que o dinheiro traz. Assim, o dinheiro se contrapõe às
alternativas (ações, equipamentos, etc.). Num cenário de crise, um milhão no bolso representa segurança,
mais do que um milhão aplicado em uma máquina. Esta situação é inerente a um ambiente de
competição. Cabe a alguém colocar um fator que diminua o medo existente no mercado.
Neste sentido, o Estado passa a ser o principal agente controlador da demanda efetiva, de conduzir
políticas anticíclicas. O Estado deve fazer obras, conduzir guerras, estimular a demanda. Em outras
situações, quando há excesso de dinheiro, o Estado deve combater a inflação e enxugar a oferta
monetária. Do ponto de vista da incerteza, o Estado deve fornecer elementos que norteiem o juízo de
probabilidade dos agentes: criação de um banco central, normas contábeis, regras jurídicas de
transparência para as empresas abertas. O sinal de incerteza não deve se tornar pessimismo. Assim,
temos um Estado intervencionista.

8
Aqui, a demanda é tida como um sinal potencial de consumo.
33
Um fator importantíssimo para Keynes era o pleno emprego. A agenda de Estado deve garantir um nível
de consumo efetivo e o pleno emprego, retroalimentando o círculo virtuoso da demanda efetiva. Aqui
começa o Estado social. Através de políticas sociais, o Estado seria capaz de diminuir o efeito das
oscilações cíclicas na renda dos trabalhadores e nas suas condições de vida quando desempregado.
Para assegurar mais estabilidade às economias capitalistas, de modo a evitar sobressaltos como o da
Grande Depressão, é necessário que os desempregados não percam todo o seu poder de compra (daí o
subsídio de desemprego), que os doentes e inválidos recebam algum dinheiro para gastar (subsídios de
doença e de invalidez), que os idosos não percam o seu rendimento quando deixam de trabalhar (daí o
regime de aposentadoria). Keynes, além de identificar o problema do desemprego involuntário, aponta um
vício adicional marcante das economias capitalistas: a repartição da riqueza e do rendimento é arbitrária e
carece de equidade. Neste sentido, legitima a intervenção estatal na busca de maior justiça social, de
maior igualdade entre as pessoas, os grupos e as classes sociais. O Estado-providência encontrava sua
fundamentação econômica, na tentativa de conciliar o progresso social e a eficácia econômica.
Há, ainda, preocupações relativas às finanças públicas, isto é, à arrecadação e aos gastos do Estado. A
ideia essencial é sempre estimular a demanda agregada. A partir da revolução keynesiana, o Estado
passa a ser um aliado da existência e da manutenção do sistema econômico.
Um momento emblemático ocorreu após a II Guerra Mundial, quando do retorno dos soldados americanos
aos EUA. Uma série de leis trabalhistas foram editadas para fomentar o emprego desta população
masculina que retornara da guerra. A partir daí, fica explícito que o pleno emprego passa a ser uma
responsabilidade do Estado, uma política de Estado, como forma de suportar, de incentivar o sistema
econômico.
A CF/88 enumera os princípios da ordem econômica, dentre os quais a busca do pleno emprego:

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim
assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
I - soberania nacional;
II - propriedade privada;
III - função social da propriedade;
IV - livre concorrência;
V - defesa do consumidor;
VI - defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos
produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação;
VII - redução das desigualdades regionais e sociais;
VIII - busca do pleno emprego;
IX - tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham
sua sede e administração no País.
Parágrafo único. É assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de
autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei.

34
11. A Economia Política do Desenvolvimento
A expressão “desenvolvimento econômico” tem vários usos e sentidos conforme a escola de pensamento
econômico. Além de definir a expressão, analisaremos as prescrições constitucionais para o Estado
brasileiro no tocante ao desenvolvimento econômico.
Os pensadores clássicos procuravam explicar a origem e a distribuição da riqueza da nação. Nas
relações, havia a ideia de vantagens absolutas, resultando em uma divisão internacional técnica do
trabalho. Ricardo introduziu o conceito de vantagens comparativas e foi um grande crítico do
protecionismo inglês em favorecimento dos rentistas. A partir de 1871, há a formalização do pensamento
econômico, assumindo o pressuposto da racionalidade do agente econômico. Toda a produção
encontraria a sua demanda, que direciona a qualidade e quantidade da oferta. A despeito do
individualismo, o bem-estar geral é atingido. O Estado não tinha por que intervir neste equilíbrio. Como já
estudamos, a realidade não estava correspondendo à descrição científica vigente. Crises econômicas,
excesso de oferta, desemprego, excesso de poupança, depressões, enfim, fatos empíricos questionavam
os modelos clássicos.
Keynes faz uma releitura do pensamento neoclássico, refutando o equilíbrio e, como corolário de sua
explicação sobre as crises econômicas, delineou o papel do Estado como formulador e executor de
políticas anticíclicas, a fim de evitar as flutuações e os problemas que vinham sendo enfrentados. Todos
os Estados passaram a se preocupar com mecanismos de intervenção no domínio econômico, criando
uma agenda de atuação. O aspecto econômico também incluía uma perspectiva social, com a
necessidade de ações governamentais contra o desemprego e com a garantia de direitos trabalhistas e de
seguridade social.
Perroux: quando uma região se desenvolve economicamente, são criados elementos ativos importantes:
indústrias que lideram a produção, transformando-se em polos industriais e concentrando-se
geograficamente, gerando riqueza no entorno. Pessoas, prestadores de serviços e outras indústrias são
atraídos para a região. O crescimento econômico das regiões mais fracas, de elementos passivos, fica
altamente dependente das regiões desenvolvidas. A ideia é desenvolvida por outros autores e culmina na
conclusão de que o desenvolvimento econômico tem caráter regional. A noção de centro-periferia dos
pensadores da Cepal considera que o subdesenvolvimento não é um estágio anterior ao desenvolvimento,
mas sim causado por este. É feita uma leitura da realidade social e econômica voltada a prescrições para
alcançar o desenvolvimento econômico.
A superação do subdesenvolvimento não passa por uma mera ação de coordenação e por decurso de
tempo. A noção de desenvolvimento econômico dissocia-se da de crescimento econômico, pois este é
meramente quantitativo. Engloba não apenas a questão social do pleno emprego, da previdência ou de
outras conquistas do Estado social, mas também o rompimento de certas estruturas sociais. Não é
possível haver concentração de renda e níveis irrisórios de educação.
A periferia geralmente é absolutamente especializada, podendo inclusive se modernizar nas atividades
que conduz. Em geral, tem caráter meramente extrativista. Porém, é heterogênea, por existir um abismo
entre as classes que compõem a sociedade. Uma categoria concentra o excedente da riqueza gerada.
No Brasil, a partir da década de 1930, surge a preocupação com a industrialização. Pelas instituições da
época, sequer podemos dizer que se tratava de um Estado democrático ou social. Houve um movimento
bem-sucedido de industrialização de base até 1960, mas ocorreu uma mudança de orientação, com foco
no crescimento econômico e modernização. Não havia soberania econômica (internalização dos centros
de decisão). Alinhando-se com políticas internacionais, fomentou-se a concentração econômica e o influxo
de capital estrangeiro.
Recapitulando: a expressão desenvolvimento econômico é polissêmica. Adotamos a visão de
desenvolvimento econômico que abarca o crescimento econômico, isto é, o crescimento dos grandes
números da economia. Na América Latina, também se incorpora ao conceito a busca por direitos sociais –
pela natureza de subdesenvolvimento, há maiores desafios do que os enfrentados pelas economias
centrais do capitalismo. À necessidade da atuação estatal no estímulo à demanda efetiva com políticas

35
anticíclicas, acrescenta-se a necessidade de transformar um estado de coisas em outro, dado o desnível
elevado entre as pessoas e ao alto grau de especialização da economia, ainda que com certo grau de
industrialização. Esta é a pauta adotada por muitos governos na adoção de políticas econômicas, com a
manutenção do mercado e a indução de mudanças estruturais, reduzindo desigualdades sociais e
regionais.
Vários instrumentos podem viabilizar estas políticas econômicas: tributação progressiva, caráter parafiscal
da tributação9, entre outros. Vamos discutir agora o Brasil da Constituição de 1988. Existe um modelo,
uma política econômica na CF/88? Há uma imposição ao Estado de uma determinada política econômica.
As constituições do início do século XX passaram a incluir direitos sociais (direitos fundamentais de
segunda geração), além das garantias individuais (direitos fundamentais de primeira geração). Políticas
sociais (previdência social, seguro-desemprego, busca do pleno emprego), objetivos sociais e econômicos
são incorporados aos textos constitucionais nas cartas pós-Weimar. Num momento pós-Keynes e após as
grandes guerras, há também a preocupação com a preservação macroeconômica.
Há, ainda, as cláusulas transformadoras como as de constituições de países que buscaram a superação
do capitalismo, consolidando o socialismo (como em Portugal). Reconhecem direitos sociais e
estabelecem objetivos de transformação.
O art. 3º da CF/88 está em linha com a ideologia desenvolvimentista dos economistas latino-americanos.
Cabe a doutrina do direito constitucional desenvolver o conteúdo das correntes na teoria constitucional.
Parte da doutrina ignora as cláusulas transformadoras ou considera que sejam uma “cópia mal feita de
ideias socialistas” e que não deveriam constar no texto constitucional. Também criticam o excesso de
artigos na CF/88, contestando sua prolixidade. Para negar tais cláusulas, se valem de teorias de diferentes
níveis de eficácia das normas constitucionais. Carl Schmitt criticava a Carta de Weimar indicando a
presença de cláusulas que postergavam decisões: compromisso dilatório. Assim, a primeira corrente nega
a eficácia destas normas.
Uma segunda corrente, que esteve muito em voga no Brasil, marcando uma geração de
constitucionalistas, é a da Constituição dirigente, amplamente divulgada por Canotilho. A constituição deve
vincular o legislador, deve ser a base de um ordenamento jurídico, orientado a criação de leis e um
sistema de controle de constitucionalidade. Deve impor compromissos à sociedade. O problema é que a
Constituição tenta resolver as questões pelo mundo jurídico, com o ativismo judiciário. Um desafio ocorreu
na Europa, quando, diante da globalização e da mitigação da soberania estatal em face das relações
internacionais e do capital transnacional, o próprio Canotilho recusa sua teoria original, perdendo a crença
de que o Estado e uma Constituição poderiam promover a alteração das estruturas sociais. A sociedade
civil deveria ter esta responsabilidade, conjugando seus agentes internos e externos. A religião da
Constituição Dirigente é jurídica demais.
A terceira corrente é o neoconstitucionalismo, com visões mais progressistas do direito constitucional,
pretendendo dar normatividade, isto é, capacidade de aplicação da constituição, com uma preocupação de
resgate da moral e foco nos direitos humanos. Coloca-se o marco histórico no pós-Segunda Guerra
Mundial. É um jusnaturalismo atualizado, com a busca dos conteúdos morais (culturas e históricos) do
direito. A maior parte dos juristas atuais professa alguma forma de moralismo. A ponderação de princípios
pode levar a excessos: o Estado só deveria participar da atividade econômica em situações excepcionais
(princípios da subsidiariedade). Esta não é a corrente adotada pela CF/88, mas seu texto é ignorado pela
adoção dessa doutrina.
As três visões podem ser questionadas. A primeira, por negar a constituição. O problema de segunda é
crer demais na força vinculante da Constituição. A terceira é um jusnaturalismo revisitado, com ênfase
excessiva no Judiciário como se este fosse o ator democrático para guiar a economia de um país.
Como devemos interpretar as normas constitucionais acerca do Direito Econômico? Primeiramente, sob a
perspectiva textual, se está no texto da constituição é norma jurídica e tem força vinculante. Há vários

9
Geração de fundos para entidades parafiscais, relacionadas à saúde, cultura e à assistência social.
36
dispositivos que guiam a política econômica, não de um governo específico10. O mercado não é um locus
naturalis sagrado, deve ser incentivado de modo a viabilizar o desenvolvimento cultural e econômico. A
busca pela autonomia tecnológica visa internalizar os centros de decisão. O pensamento conservador
aponta a ingovernabilidade diante destas disposições. Porém, a Constituição não dá detalhes exatos sobre
como tais diretrizes devem ser implantadas.
Do ponto de vista sistemático, os dispositivos se articulam de modo a apontar uma política econômica.
Idem conforme o aspecto teleológico – analisando a finalidade do texto constitucional, método inserido na
hermenêutica jurídica no século XX. O ponto cego das teorias constitucionais é a importância excessiva do
Judiciário para a concretização da eficácia da norma. Ainda, falta vontade política para garantir a eficácia
dos dispositivos citados.

10
Art. 1º, III, IV; 3º, I, II, III; 8º; 170 e incisos; 195; 218; 219.
37
12. O Capitalismo Contemporâneo. A Experiência do
Welfare State e as Teorias Neoliberais. A
Financeirização do Capitalismo. O Direito Econômico
brasileiro.
NOTA DO AUTOR DO CADERNO: As anotações referentes a este ponto foram resultado da conciliação
de textos da bibliografia e de notas de aula de Isabella Junqueira Bueno.
A partir da década de 1970, verificaram-se situações de inflação crescente, taxa de desemprego
relativamente elevada e crescente e, ainda, taxas decrescentes (por vezes nulas) de crescimento do
Produto Nacional Bruto (PNB). Era a era da estagflação. Os neoliberais aproveitaram o desnorte dos
keynesianos, surpreendidos com o paradoxo da estagflação. Hayek proclamou que a inflação é o caminho
para o desemprego. O rompimento unilateral dos EUA com o padrão-ouro (compromisso assumido em
Bretton Woods) levou os bancos centrais a adotarem a ortodoxia monetarista, ajudando no êxito da
chamada contrarrevolução monetarista.
Fiéis ao ideário liberal do laissez-faire, da mão invisível e da lei de Say, os neoliberais defendem que as
economias capitalistas tendem espontaneamente ao equilíbrio de pleno emprego em todos os mercados,
sendo desnecessárias as políticas anticíclicas e, além de desnecessárias, inconsequentes as políticas de
combate ao desemprego que não conseguem eliminá-lo e geram inflação. Cada remédio proposto por
Keynes tem como efeito colateral a inflação. O aumento dos gastos públicos causa desequilíbrio
orçamentário que é suprido com emissão de moeda, a qual perde valor (inflação).
Negando o Estado-providência, os neoliberais voltam às costas à cultura democrática e igualitária da
época contemporânea, caracterizada não só pela afirmação da igualdade civil e política para todos, mas
também pela busca da redução das desigualdades entre os indivíduos nos planos econômicos e sociais,
no âmbito de um objetivo mais amplo de libertar a sociedade e os seus membros da necessidade e do
risco , objetivo que está na base dos sistemas públicos de seguridade social.
Pensadores do neoliberalismo escrevem contra Keynes, dentre os quais se destaca Milton Friedman.
Seus principais argumentos são resumidos a seguir.
Ineficácia de aumento provisório da renda. Para Friedman, o aumento na renda das pessoas não
necessariamente implicava em um estímulo ao consumo. De nada adiantava criar propostas estruturais de
aumento de renda das pessoas se este for provisório – não há gasto imediato, o aumento fica retido por
precaução.
Taxa natural de desemprego. Vimos que, de acordo com o pensamento neoclássico pré-keynesiano, o
desemprego era voluntário porque os trabalhadores não aceitavam receber um salário compatível com a
produtividade marginal de seu trabalho, queriam salários maiores. Para Friedman, haveria uma taxa
natural de desemprego, isto é, um percentual da sociedade optaria voluntariamente por não ficar
empregado. A intervenção estatal resultaria em uma alteração do valor do trabalho. Ainda, com a
tributação dos salários, seu valor fica distorcido, gerando a ilusão de que é maior do que o que
efetivamente é. Os sindicatos são vistos como um problema, pois interferem no valor dos salários,
atrapalhando sua definição natural. Neste sentido, seriam responsáveis pelo aumento da taxa natural de
desemprego. Por fim, ressalta que o seguro-desemprego seria um fator de desestímulo ao trabalho. Em
suma, fatores que fossem responsáveis pelo aumento dos salários – dentre eles a inflação – resultariam
em um aumento do desemprego. A busca do pleno emprego deveria ser colocada em segundo plano,
devendo ser priorizado o combate à inflação11.
Teoria quantitativa da moeda. Esta teoria é retomada, explicando a inflação como excesso de moeda em
circulação. Dentre as prescrições resultantes desta teoria para o combate à inflação, temos o controle da
emissão monetária, do financiamento por senhoriagem, as operações de mercado aberto (venda de títulos

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Até mesmo porque o excesso de emprego pode ser visto como um estímulo à inflação.
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públicos “enxugam” o meio circulante), o aumento da taxa de juros (diminuindo o consumo e aumentado a
demanda por títulos públicos).
O pensamento de Friedman teve reflexos políticos e jurídicos (novas leis foram editadas refletindo suas
prescrições). Dentre os reflexos políticos destacamos a redução de gastos com políticas sociais, o
enfraquecimento dos sindicatos, a diminuição dos níveis salariais, a perda de incentivos trabalhistas, a
redução de impostos e a adoção de medidas de estímulo às empresas.

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