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Prefácio

A concepção da Internet é um dos marcos tecnológicos mais contunden-


tes da sociedade moderna, tendo propiciado mudanças significativas de
paradigmas do “como fazer” nas mais diversas áreas incluindo educação,
entretenimento, pesquisa, transporte, comércio, saúde, entre diversas
outras. Essa repercussão tão intensa e bem sucedida deve-se, em grande
parte, à simplicidade dos seus protocolos de comunicação, mais especifica-
mente de seus dois protocolos principais: o TCP (Transmission Control
Protocol ) e o IPv4 (Internet Protocol ). O IPv4 tem como função principal
viabilizar a interconexão de redes, sendo responsável basicamente pelo en-
dereçamento lógico neste ambiente, segmentação, priorização de pacotes
e descarte de pacotes com problemas de roteamento. Considerando que a
concepção da Internet data da década de 70 e que, de lá para cá, houve
uma explosão inesperada do seu uso, o IPv4 mostrou-se inadequado para
acompanhar esta evolução.
Uma das deficiências mais apontadas do IPv4 foi o espaço de endere-
çamento baseado num valor inteiro de 32 bits, que é tipicamente repre-
sentado por quatro octetos em decimal. Para contornar essa deficiência,
inúmeras soluções paliativas foram propostas e adotadas, como por exem-
plo o NAT (Network Address Solution) e o CIDR (Classless InterDomain
Routing). Contudo, à medida que novas tecnologias de redes surgiram
e o IP continuava sendo um dos protocolos chaves para sua operação,
outras deficiências começaram a ser detectadas, especialmente aquelas
referentes à segurança e ao suporte a parâmetros de QoS (Quality of
Service) e mobilidade.
vi PREFÁCIO

Como consequência, no inicio da década de 90 é publicada a proposta


da nova geração do IP (IPng – IP next generation) ou IPv6. Este novo
protocolo traz a solução para muitas das deficiências de seu predecessor,
o IPv4, incluindo espaço de endereçamento de 128 bits, suporte a rotea-
mento e segmentação de pacotes na estação origem, suporte a mobilidade
e mecanismos de segurança.
Contudo, desde então, o IPv6 não foi amplamente adotado, apesar de
esforços e incentivos de diversos governos, como o americano e brasileiro.
Os principais motivos para resistência à sua adoção são o grande parque
de equipamentos instalados com IPv4 nativo, os custos de implantação
de soluções de migração (como por exemplo, Dual Stack ou Pilha Dupla)
do IPv4 para IPv6 e a própria curva de aprendizado.
A despeito disso, a especificação do IPv6 tem sido continuamente revisada
para acompanhar a evolução tecnológica das redes de computadores e
sua crescente penetração nos mais diversos setores da economia. Dentre
os vários avanços tecnológicos, podem-se mencionar a convergência de
telefonia e redes de computadores; a mobilidade; mecanismos de segu-
rança; a adoção crescente de mídias de alta resolução e a necessidade
de seu compartilhamento; o advento de Internet das Coisas (Internet of
Things) indo em direção à Internet de Tudo (Internet of Everything).
Tudo isso indica que o IPv4 tem seus dias contados e o IPv6 já está
batendo na sua porta em virtude nesta nova realidade cada vez mais
categórica de um mundo conectado dentro do contexto de Internet de
Tudo (Internet of Everything). Essa realidade traz enormes desafios,
como a necessidade do desenvolvimento de competências técnicas na área
de IPv6.
Este livro, intitulado Laboratório de IPv6: aprenda na prática
usando um emulador de redes ajuda a preencher a lacuna no ensino
de redes de computadores e na criação de competência técnica no que
tange ao IPv6. Mesmo que a padronização do protocolo já tenha acon-
tecido há mais de quinze anos, o IPv6 foi relegado a um segundo plano
na formação dos profissionais, conforme explicado anteriormente. Se o
seu estudo não o incluiu quando aprendeu a lidar com redes, este livro
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o ajudará a reciclar seu conhecimento. Se você está aprendendo sobre


redes agora e quer ter uma visão mais prática e experimental, ótimo.
Você está no caminho certo. O IPv6 em substituição do IPv4, será, em
breve, o protocolo mais utilizado em redes em geral.
Como o próprio nome indica, este livro tem um caráter prático e contém
roteiros para experimentos que podem auxiliá-lo no seu aprendizado. Ele
pode ser usado tanto por quem está começando a aprender sobre redes
agora, como por profissionais experientes. Não é um livro apenas para
ler, você deve realizar os experimentos. Também é importante entender
que ele não é completo. Isto é, não aborda toda a teoria ou todos os
tópicos necessários para uma compreensão completa de redes ou do IPv6.
É um complemento. Para aproveitar bem este conteúdo, você deve ter ao
menos lido sobre IPv6 e sobre redes em algum outro lugar. Caso ainda
não tenha feito isto, pode acessar o site http://ipv6.br e fazer o curso
e-learning gratuito ou ler o material teórico lá disponível.
A equipe do IPv6.br – o projeto de disseminação do IPv6 do NIC.br – foi
quem preparou e aperfeiçoou estes experimentos. Tais experimentos tem
sido empregados, com muito sucesso, nos cursos de formação do NIC.br.
Centenas de alunos e de profissionais já seguiram estes mesmos roteiros.
Eles comprovadamente ajudam a entender a forma como o IPv6 funciona,
como se diferencia do protocolo IPv4, e como realizar configurações na
prática em uma série de situações. Os experimentos proporcionam uma
excelente base prática, que o ajudará muito no seu dia a dia.
Utiliza-se o emulador de redes CORE. É um ambiente gráfico, que
permitirá a você experimentar diversas topologias e configurações de
redes diferentes. No site do livro, http://lab.ipv6.br, você pode baixar
uma imagem de máquina virtual, que funciona em qualquer sistema
operacional com o VirtualBox. Recomenda-se seu uso.
O CORE roda nativamente no Linux ou no FreeBSD. Então, apesar
de ser recomendado o uso de máquina virtual baseada no VirtualBox,
o Apêndice A contém um guia para a instalação do emulador e outras
dependências, caso você decida fazer isso diretamente em seu computador.
Somente faça isso se tiver uma boa experiência.
viii PREFÁCIO

No Apêndice B, você pode encontrar mais informações sobre o CORE e


um guia básico sobre como utilizá-lo. Caso você nunca tenha usado esse
emulador antes, revise este guia antes de se aventurar pelos experimentos.
No Apêndice C, foram incluídas algumas dicas sobre: como realizar
tarefas comuns a quase todas as experiências; como verificar os endereços
IP; testar a conectividade entre dispositivos, capturar e analisar pacotes.
Caso você não conheça bem o ambiente Linux e não esteja acostumado
com as ferramentas utilizadas nas experiências, este apêndice também
deverá ser lido.
A ordem dos experimentos no livro é a mesma utilizada nos cursos
do NIC.br. Caso seja novato no assunto e queira ter uma visão geral,
você poderá realizar as experiências na ordem em que são apresentadas.
Caso contrário, você poderá buscar as que mais se adequam às suas
necessidades imediatas.
No capítulo 1, constam experimentos sobre o funcionamento básico
do IPv6. É explicado: como ele faz o mapeamento com a camada de
enlace; como funciona a autoconfiguração stateless, sem uso de DHCP
(Dynamic Host Configuration Protocol ); como usar o DHCPv6 e o prefix
delegation; como é descoberto o valor da MTU (Maximum Transmission
Unit). Tudo isto funciona de forma diferente do IPv4 e, se você quer
entender realmente bem o IPv6 e ser capaz de resolver problemas em sua
rede, este experimentos irão ajudá-lo.
No capítulo 2, as experiências abordam serviços importantes em uma
rede, como DNS (Domain Name System), servidor Web, proxy e servidor
de arquivos. Você verá que as configurações não são muito diferentes das
usadas com o protocolo antigo, mas que há alguns detalhes importantes
a serem observados. Se você vai ativar o IPv6 nesses serviços, faça estes
experimentos.
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No capítulo 3, aborda-se a questão da segurança. Assim como o protocolo


antigo, o IPv6 tem também vulnerabilidades. Uma das experiências ilus-
tra isto, explorando uma falha no protocolo de descoberta de vizinhança.
Mostra-se, também, como configurar um firewall IPv6, com atenção espe-
cial às regras referentes ao ICMPv6 (Internet Control Message Protocol ).
Há também experimentos com configuração de IPsec. São experimentos
recomendados a todos.
No capítulo 4 são mostrados diversos tipos de técnicas de migração e
transição do IPv4 para o IPv6. Dentre tais técnicas, podem-se citar:
Túneis 6in4 e GRE (Generic Routing Encapsulation), que são úteis de
forma geral. O Dual Stack Lite, 6rd, NAT64 e 464XLAT são técnicas
que podem ser usadas por provedores de acesso à Internet.
O capítulo 5, por fim, aborda roteamento dinâmico, com um experimento
sobre OSPFv3 e outro sobre BGP.
O principal objetivo da equipe do NIC.br ao desenvolver este livro foi
criar uma referência que possa ajudá-lo a entender o IPv6 e usá-lo na
prática do seu dia a dia. Caso tenha dúvidas, comentários ou sugestões,
você pode entrar em contato pelo site http://lab.ipv6.br. O IPv6 será
cada vez mais um tema obrigatório para profissionais experientes e
iniciantes em redes. Bom aprendizado e muito sucesso!

Tereza Cristina Melo De Brito Carvalho


Profa . Associada da Escola Politécnica da USP
Coordenadora técnica de projetos do LARC-PCS-EPUSP