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Saúde em Debate

ISSN: 0103-1104
revista@saudeemdebate.org.br
Centro Brasileiro de Estudos de Saúde
Brasil

Frazão, Paulo; Capei Narvai, Paulo


Saúde bucal no Sistema Único de Saúde: 20 anos de lutas por uma política pública
Saúde em Debate, vol. 33, núm. 81, enero-abril, 2009, pp. 64-71
Centro Brasileiro de Estudos de Saúde
Rio de Janeiro, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=406341772008

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64 ARTIGO ORIGINAL / ORlGINALARTlCLE

Saúde bucal no Sistema Único de Saúde:


20 anos de lutas por urna política pública
Oral health in the Brazilian National Health System:
twenty year offightingfor a publie poliey

Paulo Frazáo 1
Paulo Capel Narvai 2

I Cirurgiao-demista sanirarista; RESUMO Desde a criaráo do Sistema Único de Saúde (SUS) em 1988, a
especialista, Mesrre e Domor em Saúde
inserráo da saúde bucal é marcada por conflitos e contradiróes, expressando
Pública; professor Domor da Faculdade
de Saúde Pública da Universidade de
os diftrentes projetos em disputa na sociedade brasileira. No período pré-SUS
Sao Palllo (FSP-USP). predominavam programas odontológicos centralizados e verticais, tendo escolares
pafrazao@llsp.br e trabalhadores inscritos na previdencia social como popularáo-alvo. Com a
criaráo do SUS, esse enftque tornou-se incompatível com um sistema unificado
2 Cirurgiao-demista sanirarista;
especialista, Mesrre, Domor e livre-
e descentralizado de caráter universalista. Abriu-se, entáo, a possibilidade de
doceme em Saúde Pública; professor conftrmaráo de uma agendapara gestáo da saúde bucalenquanto políticapública.
tirular da FSP-USP. Neste artigo sáo abordados alguns dos aspectos mais relevantes que marcaram os
pcnarvai@llsp.br
20 anos de construráo dessa política no plano nacional.

PALAVRAS-CHAVE: Saúde bucal' Políticaspúblicas; Política de saúde; Sistema


Único de Saúde; Atenráo primária asaúde.

ABSTRACT Integrating oral health into Brazilian National Health System


has been marked by conflicts and contradictions that express diffirent views
in Brazilian society. Centralized and vertical dental programs ftcused on
schoolchildren and workers registered in social we/jare characterized later
periodo This approach becomes incompatible with a unified and decentralized
system noticeably universalistic. Then it was opened in Brazil the possibility of
composition ofan agendaftr oral heath management as apolicy. This paper brings
relevant aspects that has marked the 20 years oforal health policy's construction
at nationallevel.

KEYWORDS: Oral health; Public policies; Health policy; National Health


System; Primary health careo

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FRAZAO, p.; NARVAl, p.e. • Saúde bucal no Sistema Único de Saúde: 20 anos de lutas por urna política pública 65

INTRODU<;ÁO Na maioria dos países, a resposta aos problemas


dessa área é determinada pelos agentes do mercado,
restando ao estado o desenvolvimento de ayóes que
controlem o exercício profissional e a vigilancia sanitá-
ria. A gestao de sistemas de serviyos e de programas de

A saúde é um bem imaterial indispensável para a saúde bucal nao é urna questao usuaL Sua emergencia

vida humana e um recurso imprescindível para a repro- pode ser identificada pelo desenvolvimento dos sistemas

dw;:ao sociaL Embora seja indivisível, é possível, como de proteyao social com base num modelo institucional-

urna abstrayao, identificar diferentes dimensóes sem as redistributivo, o qual pressupóe urna ayao consistente do

quais nao há saúde, Urna delas é a saúde bucal enquan- estado que garanta bens e serviyos a todos os cidadaos

to um conjunto de condiyóes objetivas (biológicas) e (MoysÉs, 2008).

subjetivas (psicológicas) que permitem o ser humano No Brasil, a promulgayao da Constituiyao em

exercer várias funyóes, desenvolver a auto-estima e 1988 representou um marco na gestao de saúde, com

relacionar-se socialmente sem inibiyao ou constrangi- implicayóes para a saúde bucal que, entendida como

mento (NARVAL, FRAZÁO, 2005), A saúde bucal cons- urna dimensao inseparável da saúde, passou também

titui, ainda, território de expressao da subjetividade a ser considerada um direito de todos e um dever do
humana, espayO da manducayao da linguagem e da Estado.
fruiyao do prazer e da satisfayao, formas particulares ° período anterior a aprovayao da nova Carta foi
de subsistencia no plano natural (apreensao, tritura- marcado pela recuperayao das liberdades democráticas,
yao, salivayao e deglutiyao), de produyao simbólica no florescimento e multiplicayao dos movimentos sociais
plano da cultura e de erotizayao no plano emocional e por melhores condiyóes de vida. Novos atores entra-
do psiquismo humano (BOTAZZO, 2000), ram no cenário social (EscoREL, 1998). ° modelo de
As doenyas bucais implicam restriyóes de ativida- prática odontológica havia sido criticado por ocasiao
des na escola, no trabalho e na vida doméstica, o que da 7 a Conferencia Nacional de Saúde (CNS), em
causa urna perda de milhóes de horas dessas atividades 1980. Além do trayo iatrogenico e mutilador, foram
a cada ano em todo o mundo, Ademais, o impacto psi- denunciados o seu caráter de monopólio (atividades
cológico dessas enfermidades reduz significativamente a centradas exclusivamente no cirurgiao-dentista com
qualidade de vida dos indivíduos (WHO, 2003). Dessa baixa participayao de pessoal auxiliar) e sua orientayao
forma, saúde bucal torna-se um conceito relativamente fortemente ligada a tradiyao liberal-privatista da pro-
complexo que nao pode ser reduzido a 'saúde dos dentes' fissao. Com isso, as propostas de transformayao desse
ou a considerayóes sobre urna ou duas enfermidades, modelo foram alinhadas as propostas mais gerais do
definidas arbitrariamente. movimento da Reforma Sanitária formuladas naquele
Embora o trabalho realizado nas clínicas odonto- período (NARVAl, 1994).
lógicas seja relevante e resolva problemas individuais, Com a implementayao do processo de descentrali-
nao é suficientemente capaz de produzir a saúde bucal zayao que se seguiu a criayao do Sistema Único de Saúde
em termos populacionais, já que ela resulta de urna (SUS), multiplicaram-se os centros de decisao sobre
enorme gama de fato res que vao além de variáveis saúde nas esferas estaduais e municipais, com reflexos
biológicas. nos programas de saúde bucaL

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Entretanto, nos últimos 20 anos desde a cria<;:ao do um Programa Nacional de Controle da Cárie Dental
SUS, a inser<;:ao da saúde bucal na agenda pública tem com o Uso de Selantes e Flúor (PNCCSF), planejado
sido permeada por inúmeros conflitos e contradi<;:óes, e executado de modo vertical e centralizado na dire<;:ao
em todas as esferas de governo. Neste artigo sao abor- geral do órgao, no Rio de Janeiro. Do mesmo modo e
dados alguns dos tra<;:os mais relevantes que marcaram, concomitante a iniciativa do INAMPS, o Ministério da
nesse período, a constru<;:ao dessa política pública no Saúde (MS) definiu, em 1989, urna Política Nacional de
plano nacional. Saúde Bucal (PNSB) lan<;:ando o Programa Nacional de
Preven<;:ao da Cárie Dental (PRECAD). Ambos os progra-
mas federais na área de saúde bucal foram definidos em
absoluta contraposi<;:ao a unifica<;:ao e adescentraliza<;:ao
SUS E SAÚDE BUCAL: AMBIGÜIDADES DOS
do sistema de saúde que, naquele contexto, passavam
PRIMEIROS ANOS
a se constituir em exigencia claramente fixada pela
Constitui<;:ao da República promulgada em 1988, e
Ao contrário de 1968, de que se costuma dizer que
fortemente reivindicada por lideran<;:as municipalistas
foi 'um ano que nao acabou', 1988 foi nao apenas inaca-
(NARVAl; FRAúo, 2008).
bado, mas um ano marcado por debates e esfor<;:os para
Com isso, o governo federal sinalizou, naquele
a aprova<;:ao das diretrizes do SUS, na Carta Magna. No
momento, grande falta de sintonia com as aspira<;:óes
ámbito odontológico, as delibera<;:óes aprovadas na 1a
de estados e municípios. Além de praticamente ignorar
Conferencia Nacional de Saúde Bucal (CNSB) (BRASIL,
as delibera<;:óes da 1a CNSB, O governo desconsiderou
1986) propuseram claramente a
também O conjunto de proposi<;:óes aprovado no En-
contro Nacional de Administradores e Técnicos do
inserráo da saúde bucal no sistema único de saúde [por
meio de um} Programa Nacional de Saúde Bucal com Servi<;:o Público Odontológico (ENATESPO) , expresso
base nas diretrizes da drea, respeitando-se as definiróes no documento intitulado 'Proposta de política odon-
que cabem aos níveis ftderal, estadual e municipal tológica nacional para um governo democrático', por
roo} universalizado, hierarquizado, regionalizado e
meio do qual, entre outras proposi<;:óes, reivindicava-
descentralizado, com a municipalizaráo dos serviros e
ftrtalecimento do poder decisário municipal (BRASIL, se o direito e a necessidade de estados e municípios
1986). planejarem a<;:óes de saúde bucal, de acordo com suas
respectivas realidades sociais e epidemiológicas (ENA-
Apesar dos debates no Congresso Nacional, trans- TESPO, 1984; MANFREOINI, 1997; PIRES-FILHO, 2004;
formado em Assembléia Nacional Constituinte, e as NARVAl, 2008).
proposi<;:óes das Conferencias de Saúde, os governos que Em 1989, o entao presidente de República, Fer-
se sucederam desde entao, nao colocariam em prática nando Collor, pos fim aos dois programas nacionais
as delibera<;:óes da la CNSB. A resposta do governo (PNCCSF e PRECAO), formulados na gestao que o
federal, aépoca, expressava os conflitos do período. Por precedeu, definindo sua política nacional de saúde no
parte do Ministério da Previdencia e Assistencia Social documento 'Plano Qüinqüenal de Saúde 1990-1995:
(MPAS), a a<;:ao foi criar um Departamento de Odon- a saúde do Brasil Novo' massem explicitar urna política
tologia no Instituto Nacional de Assistencia Médica e nacional específica para a área de saúde bucal (NARVAl,
Previdencia Social (INAMPS) e implementar, em 1988, FRAÚO,2008).

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Durante o governo Collor, a Divisao Nacional de Apesar dos avan<;:os no período pós-SUS ainda se
Saúde Bucal foi transformada em urna coordena<;:ao reproduz esse modelo em muitos municípios. Moni-
técnica subordinada aSecretaria Nacional de Assistencia torando a implanta<;:ao do Programa Sáude da Família
a Saúde; o INAMPS foi extinto, mas a lógica de finan- (PSF), no período de 2001 a 2002, observou-se que
ciamento, por meio de um sistema de transferencia de 7,2% das equipes de saúde bucal habilitadas atendiam
recursos por produ<;:ao de servi<;:os, foi mantida, exclusivamente escolares (BRASIL, 2004A). Considera-
Com a manuten<;:ao dessa lógica de financiamento, se, contudo, que um importante efeito do desenvolvi-
os estados e municípios passaram a ser considerados mento da saúde bucal no SUS tenha sido a realoca<;:ao
meros prestadores de servi<;:o ao Governo FederaL dos recursos odontológicos de unidades escolares para
Nesse contexto, foi aprovada a portaria na 184, que unidades de saúde, reorientando a aten<;:ao básica e
inseriu os 'Procedimentos Coletivos' (PC) de saúde bucal criando condi<;:6es para maior integra<;:ao das a<;:6es de
na tabela de procedimentos do Sistema de Informa<;:6es saúde bucal com os programas de saúde, em diferentes
Ambulatoriais do SUS, criando condi<;:6es para que ati- níveis do sistema. No entanto, esse deslocamento de
vidades de caráter educativo e de prote<;:ao específica a recursos nao foi e nem é realizado sem conflitos. Muitos
saúde bucal (entre as quais aplica<;:ao de bochechos com dirigentes municipais, inclusive das áreas de educa<;:ao e
flúor e escova<;:ao supervisionada com creme dental flu- de saúde, e, sobretudo, pais de alunos tem dificuldades
orado) pudessem também ser financiadas com recursos para compreender a unidade escolar como um equipa-
do Fundo Nacional de Saúde (FRAZÁO, 1998), mento social e, nessa condi<;:ao, integrada ao conjunto
A introdu<;:ao dos PC nos programas escolares foi de equipamentos sociais das suas cidades. Muitos veem
marcada, essencialmente, pela contradi<;:ao de questionar as escolas como 'ilhas' e, dessa forma, consideram 'urna
a prática e as bases teóricas do sistema incremental, im- perda' quando 'o consultório odontológico' é 'tirado da
pulsionando fortemente a<;:6es educativo-preventivas e, escola'. Nao é suficiente que se assegure que as a<;:6es
por outro lado, faze-Io segundo urna lógica de financia- de saúde bucal que sejam compatíveis com o ambiente
mento indutora de distor<;:6es e desvios mercantilistas, escolar tenham continuidade e que, apenas, nao mais se
O sistema incremental foi urna tecnologia desenvol- realizem na escola opera<;:6es cirúrgicas, como extra<;:6es
vida no Brasil no ámbito do Servi<;:o Especial de Saúde e restaura<;:6es dentárias.
Pública (SESP), fortemente associada ao planejamento
normativo que caracterizava a institui<;:ao, de forma
centralizada e vertical, que, segundo Pinto (2000),
objetivava o atendimento dentário completo de urna SAÚDE BUCAL NO SUS: PARA ONDE IR?
dada popula<;:ao escolar, eliminando suas necessidades
acumuladas e, posteriormente, mantendo-a sob con- O presidente Collor sofreu impeachment em 1992,
trole, segundo critérios de prioridades quanto a idades e no governo que se seguiu (hamar Franco), foi mantida
e problemas, O sistema incremental praticamente se baixa prioridade para a PNSB, mesmo tendo sido reali-
tornou sinonimo de odontologia escolar e de 'modelo zada, em 1993, a 2 a CNSB, em torno do tema central
de saúde bucal' no setor público, influenciando decisi- 'Saúde bucal é direito de cidadania' (BRASIL, 1994).
vamente, por quase meio século, as a<;:6es do setor em Durante os oito anos de governo de Fernando
todo o país (NARVAl, 1994), Henrique Cardoso de Melo (1994-2002) foram poucas

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as iniciativas na área de saúde bucal. Mas, o avan<;:o do um programa' vertical 'do Governo Federal', é essencial
processo de descentraliza<;:ao do sistema de saúde ampliou que, em cada município, sua implanta<;:ao e desenvol-
positivamente a organiza<;:ao e a capacidade de respostas vimento ocorra com acompanhamenta e controle do
aos problemas de saúde bucal na esfera municipal. respectivo Conselho de Saúde e com base em práticas
Em 1998, foi instituído o Piso de Aten<;:ao Básica democráticas de gestao. Quando isso nao ocorre, ob-
(PAB), um novo mecanismo para as transferencias fede- serva-se um simulacro de interven<;:ao pública na saúde,
rais aos municípios, dissociado do sistema de informa- sem potencia para de fato contribuir para 'reorganizar o
<;:óes em saúde. Os municípios come<;:aram a receber urna modelo de aten<;:ao' a partir da aten<;:ao básica.
parcela fixa mensal, conforme o número de habitantes, Em 2002, o Brasil elegeu Luiz Inácio Lula da Silva,
e um montante variável segundo a implementa<;:ao de um presidente oriundo das for<;:as políticas que se opu-
determinados programas ou atividades. seram ao regime militar e que, desde as elei<;:óes de Tan-
A institui<;:ao do PAB contribuiu com o aumento credo/Sarney (indireta) e de Fernando Collor (direta), se
da capacidade de gestao local e com o florescimento de colocou em oposi<;:ao a esses governos. Com sua elei<;:ao,
propostas de planejamento e emprego de recursos com pretendia-se colocar 'em outro patamar' o processo de
base nas necessidades de saúde coletiva. Os significativos constru<;:ao do SUS e, no seu interior, redefinir a PNSB.
esfor<;:os para universalizar a aten<;:ao básica e enfrentar os Dadas as características das sucessivas candidaturas de
obstáculos e limita<;:óes relativos aintegralidade da aten<;:ao Lula apresidencia da República, a constru<;:ao da política
vem permitindo, desde entao, que propostas de sistemas que se expressaria no 'Programa Brasil Sorridente' teve
públicos de aten<;:ao a saúde bucal sejam desenvolvidas, urna longa matura<;:ao por parte das correntes políticas
ainda que o modelo da odontologia de mercado esteja for- que, ao langa daqueles anos, foram se alinhando ao
temente presente em muitas sistemas locais de saúde. ex-metalúrgico. Esse processo, iniciado na luta contra
a ditadura, expressou-se nos Encontros Científicos de
Estudantes de Odontologia (ECEO), ENATEsro, CNS e
CNSB, e possibilitou a consolida<;:ao de um conjunto
SAÚDE BUCAL E SAÚDE DA FAMÍLIA de propostas sistematizadas no Programa Brasil Sorri-
dente, cuja origem é explicitamente reconhecida na sua
Urna nova perspectiva para a PNSB foi aberta pelo apresenta<;:ao (BRASIL, 20ü4B).
MS com a portaria 1.444, de 28/12/2000, estabelecendo
'incentivo financeiro para a reorganiza<;:ao da aten<;:ao a
saúde bucal prestada nos municípios por meio do PSF'
(BRASIL, 2000). O PSF, implantado em 1994, no final BRASIL SORRIDENTE
do governo Itamar Franco, sob inspira<;:ao da estratégia
de medicina familiar desenvolvida em Cuba, mas tam- O Programa Brasil Sorridente foi apresentado ofi-
bém levando em conta as propostas de focaliza<;:ao das cialmente como expressao de urna política subsetarial
políticas preconizadas pelo Banco Mundial e Fundo consubstanciada no documento 'Diretrizes da Política
Monetário Internacional, convive, em cada local onde Nacional de Saúde Bucal', definida no ambito do go-
é desenvolvido, com um dilema: para ser, efetivamente, yerno Lula (2003-2006) logo após sua posse e integrada
urna estratégia de constru<;:ao do SUS, e nao apenas 'mais ao 'Plano Nacional de Saúde: um pacto pela saúde no

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Brasil', objeto da portaria 2,607, de 10/12/2004 do de unidade de saúde, o primeiro CEO foi inaugurado
MS, Nesse documento, é enfatizada a reorienta<;:ao do em Sobral, Ceará, em 17 de mar<;:o de 2004. A promessa
modelo de aten<;:ao em saúde bucal, sublinhada a busca está sendo cumprida. Segundo a Coordena<;:ao Nacional
de articula<;:ao com os setores da educa<;:ao e da ciencia e de Saúde Bucal do MS, em agosto de 2008, havia 675
tecnologia, e sao identificados os princípios norteadores CEO em funcionamento no país.
e as linhas de a<;:ao previstas, O avan<;:o representado pelos CEO no servi<;:o pú-
No período de 2002 a 2008, embora o número de blico odontológico decorre, essencialmente, da ruptura
equipes de saúde bucal (ESB) tenha saltado de 4.261 com a lógica de ofertar apenas cuidados odontológicos
para 17.349, representando um potencial de cobertura básicos no SUS, integrando tais unidades, necessaria-
de mais de 91 milhóes de habitantes, esse valor corres- mente, a sistemas de referencia e contra-referencia (em
pondia apenas a pouco mais de metade das Equipes de 2003, apenas 3,3% dos atendimentos odontológicos
Saúde da Família. Além disso, urna pequena propor<;:ao eram de média e alta complexidade). O desafio que
das ESB contava com o técnico em higiene dental. claramente emerge desse processo é nao sucumbir as
Ademais, dados sobre 'potencial de cobertura' sao impor- pressóes clientelísticas e resistir a tenta<;:ao de transformar
tantes, mas, por se referirem a demanda potencial e nao os CEO em portas de entrada do sistema de aten<;:ao.
a demanda efetiva, nao esclarecem sobre o número de No ambito das a<;:óes preventivas, foram implanta-
brasileiros que estao tendo acesso as a<;:óes de saúde bucal dos por meio da Funda<;:ao Nacional de Saúde (FUNASA),
e se beneficiando da PN5B. É de grande significado, 205 novos sistemas de fluoreta<;:ao da água de abaste-
contudo, que equipes de saúde bucal estejam presentes cimento público, medida reconhecidamente efetiva na
em 4.857 dos 5.564 municípios brasileiros, e que, nesse preven<;:ao da cárie dentária (NARVAl, FRAúo, 2006),
período, o potencial de cobertura tenha se elevado de abrangendo 106 municípios em seis estados.
cerca de 15% para aproximadamente 44%. Ainda que se reconhe<;:a a relevancia das a<;:óes preven-
A partir de 2004, come<;:aram a ser instalados em tivas e de reabilita<;:ao, tem sido apontada a importancia
todos os estados brasileiros, com base na portaria n° estratégica da promo<;:ao da saúde também para a saúde
1.570/GM, os Centros de Especialidades Odontológicas bucal. Agora, no início do século 21, tem-se enfatizado o
(CEO), com o objetivo de ampliar e qualificar a oferta fato de a maioria das doen<;:as crónicas possuirem fato res
de servi<;:os odontológicos especializados. Os CEO sao de risco comuns e modificáveis relacionados a caracterís-
unidades de referencia para as unidades de saúde encar- ticas socioambientais e comportamentais, que exercem
regadas da aten<;:ao odontológica básica, e estao integra- influencia significativa tanto na ocorrencia das doen<;:as
dos ao processo de planejamento loco-regional, sendo bucais como nas principais doen<;:as crónicas (SHElHAM,
os custos para seu funcionamento compartilhados por WATI, 2000). Abandono do uso do tabaco, redu<;:ao da
estados, municípios e governo federal. O atendimento ingestao de álcool e diminuiyao do consumo de a<;:úcar sao
de pacientes com necessidades especiais e as a<;:óes es- objetivos que, combinados a um esfor<;:o para melhorar os
pecializadas de periodontia, endodontia, diagnóstico níveis de higiene bucal e o acesso a produtos fluorados,
bucal e cirurgia oral menor integram o elenco ofertado podem redundar no controle da cárie dentária, da doen<;:a
minimamente em todos os CEO. periodontal e do cancer de boca. Uso de cinto de seguran-
Com a presen<;:a do presidente da República, que <;:a nos veículos e controle do comércio de armas reduzem
prometeu dar prosseguimento a constru<;:ao desse tipo traumatismos em geral, incluindo os bucomaxilofaciais,

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assim como o uso de preservativos ajuda no controle da implementa<;:ao dos CEO e da inser<;:ao das equipes de
síndrome de imunodeficiencia adquirida (Aros), que tem saúde bucal na estratégia de saúde da família.
importante impacto na saúde bucal. Por essa razao, as O futuro da saúde bucal no SUS dependerá da for-
iniciativas intersetoriais, orientadas por urna abordagem ma como for equacionado, nos próximos anos, o desafio
integral que tem por base os fatores de risco comuns, sao fundamental de fortalecer a sociedade civil, respeitar os
imprescindíveis para que se alcance maior efetividade nas movimentos sociais populares e consolidar a democracia.
a<;:6es de promo<;:ao da saúde e preven<;:ao de doen<;:as. Manter a saúde bucal na agenda da gestao das políticas pú-
Para que a PNSB, que se expressa operacionalmente blicas exigirá esfor<;:os tao ou mais consistentes quanto os
no Programa Brasil Sorridente, possa aproximar o tex- realizados nos primeiros 20 anos do SUS. Nesse processo
to das suas diretrizes das necessidades dos brasileiros, será fundamental o papel do estado, tanto na garantia do
traduúndo-se em a<;:6es concretas, nao poderá ficar aprofundamento da democracia e dos princípios repu-
restrita nem a saúde da família, no plano da aten<;:ao blicanos na vida nacional, quanto na implementa<;:ao de
básica, nem aos CEO, na aten<;:ao secundária. Terá, ne- solu<;:6es adequadas para regular os conflitos gerados pelo
cessariamente, de ir além e operar, concomitantemente exercício de direitos coletivos e a preserva<;:áo das liberda-
no ámbito das micropolíticas e no das macropolíticas, des individuais. Avan<;:ar nessa dire<;:ao implica, conforme
produúndo transforma<;:6es tanto nos servi<;:os de saúde, tem sido apontado por diferentes atores sociais, superar o
nas rela<;:6es que concretamente se estabelecem entre ideário liberal-privatista e, levando em conta o interesse
profissionais de saúde e usuários do SUS, quanto nas
público, robustecer a capacidade de gestao das políticas
políticas públicas nas tres esferas de governo. Nao há
públicas, da política de saúde e da PNSB.
dúvida de que os CEO sao a face de maior visibilidade
do Programa Brasil Sorridente, mas a PNSB é muito
mais do que os CEO. Concretizar isto é o principal
desafio estratégico posto a essa política pública, cujos
maiores riscos sao, de um lado essa redu<;:ao e, de outro,
a descontinuidade do financiamento.
Ajuda a compreender o quanto é crucial o aspecto
REFERENCIAS
do financiamento para se consolidar a PNSB e aprofun-
dá-Ia, quando se considera que, além das transferencias
financeiras regulares, por meio do PAB e também as BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Aten<;:ao a
relacionadas com o custeio das a<;:6es de média e alta Saúde. Departamento de Aten<;:ao Básica. Avaliaráo
complexidade, os gastos federais com investimentos em
normativa do Programa Saúde da Família no Brasil· mo-
nitoramento da implantaráo efimcionamento das equipes
saúde bucal, que passaram de 56,5 para 427 milh6es
de saúde da família: 2001-2002. Brasília, DF, 2004A.
por ano, no período de 2003 a 2005 (COSTA, CHAGAS,
SILVESTRE, 2006), atingindo cerca de 600 milh6es, em ___o Ministério da Saúde. Secretaria de Aten<;:ao a
2008. No período de 2003 a 2008, foram investidos Saúde. Departamento de Aten<;:ao Básica. Coordena<;:ao
Nacional de Saúde Bucal. Diretrizes da Política Nacional
aproximadamente R$ 2,4 bilh6es. Sem esse aporte
de Saúde Bucal. Brasília, DF, 2004B. Disponível em:
de recursos nao teria sido possível lograr os avan<;:os <http://dtr2004.saude.gov. br/dab/saudebucal/publica-
referidos, pois eles foram indispensáveis ao impulso da coes.php> Acesso em 30 out. 2008.

SalÍde em Debate, Río de Janeiro, v. 33, n. 81, p. 64-71, jan.labr. 2009


FRAZAO, p.; NARVAl, p.e. • Saúde bucal no Sistema Único de Saúde: 20 anos de lutas por urna política pública 71

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