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O CINEMA E A INVENÇÃO DA VIDA MODERNA

A visão que desprende: Manet e o observador atento do fim do século XIX


Jonathan Crary

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“No espaço de poucas décadas, discursos dominantes e práticas do olhar efetivamente
romperam com um regime clássico de visualidade e fundamentaram a verdade da
visão na densidade e materialidade do corpo. Uma das consequências dessa mudança
foi que o funcionamento da visão tornou-se dependente da constituição fisiológica
contingente do observador, tornando a visão imperfeita, discutível e até, argumentou-
se, arbitrária. A partir de meados do século, uma extensa quantidade na ciência, na
filosofia, na psicologia e nas artes estava chegando a um acordo, de diferentes
maneiras, quanto ao entendimento de que a visão, ou qualquer um dos sentidos, não
podia mais reivindicar uma objetividade ou certeza essenciais.”

“A experiência perceptiva perdera as principais garantias que uma vez mantiveram


sua relação privilegiada com a criação do conhecimento. E foi como um dos aspectos
da ampla resposta a tal crise que, no início dos anos de 1870, o modernismo visual
tomou forma.”

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“Um observador totalmente assumido como um corpo tornou a visão aberta a
procedimentos de normalização, quantificação e disciplina.”

“Talvez seja desnecessário acentuar que quando utilizo a palavra ‘modernização’


refiro-me a um processo completamente alheio a quaisquer noções de progresso ou
desenvolvimento, e que é, ao contrário, uma criação incessante e autoperpetuante de
novas necessidades, nova produção e novo consumo.”

“O problema da atenção tornou-se uma questão fundamental. A centralidade deste


problema estava diretamente ligada ao surgimento de um campo social, urbano,
psíquico e industrial cada vez mais saturado de informações sensoriais. A desatenção,
em especial no contexto das novas formas de produção industrializada, começou a ser
vista como um perigo e um problema sério, apesar de ser ela produzida quase sempre
justamente pelas combinações muito modernizadas do trabalho.”

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“Mas o que foi quase sempre rotulado como uma desintegração regressiva ou
patológica da percepção era de fato indício de uma mudança fundamental na relação
do sujeito com o campo visual.”

“Parte da lógica cultural do capitalismo exige que aceitemos como natural a mudança
rápida da nossa atenção de uma coisa para outra. O capital, como troca e circulação
aceleradas, necessariamente produz esse tipo de adaptabilidade perceptiva humana e
torna-se um regime de atenção e distração recíprocas.”

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“Pode-se argumentar que uma certa noção de atenção é de fato a condição
fundamental desse conhecimento. Isto é, muitas das áreas cruciais da pesquisa – seja
de tempos de reação, de sensibilidade sensorial e perceptiva, de ato reflexo ou de
respostas condicionadas – pressupuseram um sujeito cuja atenção era o local de
observação, classificação e mensuração, e portanto o ponto ao redor do qual muitos
conhecimentos foram acumulados.”

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“A proeminência da atenção como problema, o que teve início no fim da década de
1870, é sinal de uma crise generalizada no status do sujeito perceptivo.”

“A atenção tornou-se a área mal definida para descrever como um mundo prático ou
eficaz de objetos podia surgir para o sujeito que percebe.”

“Como a atenção filtra algumas sensações e não outras?, a quantos eventos ou objetos
uma pessoa pode prestar atenção ao mesmo tempo e por quanto tempo (isto é, quais
são os limites quantitativos e psicológicos da atenção)?, até que ponto a atenção é um
ato automático ou voluntário, até que ponto ela envolve esforço motor ou energia
psíquica?”

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“Talvez mais significativo tenha sido o fato de o modelo de atenção de Wundt, que
ele eficazmente equiparou com a vontade, ter se baseado na ideia de que vários
processos sensoriais, motores e mentais eram necessariamente inibidos para se
alcançar a claridade e o foco restritos que caracterizavam a atenção.”

“Isto é, um observador normal é conceituado não apenas em relação aos objetos de


atenção, mas também em relação ao que não é percebido, às distrações, margens e
periferias excluídas ou reprimidas do campo perceptivo.”

“O que ficou claro, embora quase sempre evadido, em diferentes tipos de trabalho
sobre a atenção, é que se tratava de um conceito volátil.”

“A atenção e a distração não eram dois estados essencialmente diferentes, mas


existiam em um único continuum, e a atenção era, portanto, como a maioria cada vez
mais concordou, um processo dinâmico, que se intensificava e diminuía, subia e
descia, fluía e refluía de acordo com um conjunto indeterminado de variáveis.”

“Talvez mais importante foi a pesquisa ter revelado uma proximidade aparentemente
paradoxal entre o sonho, o sono e a atenção.”

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“A atenção foi descrita como aquilo que impede a nossa percepção de ser um fluxo
caótico de sensações, contudo a pesquisa mostrou-a como uma defesa incerta contra
esse caos.”

“Experiência perceptiva era instável, que passava por mudanças contínuas e era, por
último, dispersiva.”

“A sua posição em um espaço social no qual a atenção iria cada vez mais se
estabelecer como a garantia de certas normas perceptivas, e no qual a atenção, em
uma ampla gama de discursos institucionais, seria afirmada como uma atividade
sintética, uma energia centrípeta que seria a cola que amalgama um ‘mundo real’
contra vários tipos de colapsos sensoriais ou cognitivos.”

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“Pintadas com suavidade e soltura, com uma espécie de velocidade manual, mas
também com uma desatenção profundamente confiante no objeto e sua coerência,
essas imagens apresentam o que Georges Bataille chamou de ‘suprema indiferença’
de Manet.”

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“Ao contrário, acredito que Na estufa é, entre muitas coisas, uma tentativa de
reconsolidar um campo visual que estava sendo de muitas maneiras desmontado, uma
tentativa de agregar os conteúdos simbólicos que resistiram à imobilização.”

Pag 77
“E a temática da pressão, da compressão é curiosamente sugerida pelo título de Manet
para esse quadro, Na estufa. A palavra francesa serre, ‘estufa’, originalmente
significava apenas ‘um lugar fechado’. É também uma forma do verbo serrer, que
significa apertar, segurar com força, prender com firmeza, comprimir.”

“Junto com a descoberta das desordens linguisticas agrupadas na categoria afasia, um


conjunto de rupturas visuais afins foi descrito pelo termo ressonante agnosia. A
agnosia foi uma das primeiras assimbolias, ou debilitações, de uma função simbólica
hipotética. Essencialmente, ela descrevia uma consciência puramente visual de um
objeto, isto é, uma incapacidade de fazer qualquer identificação conceitual ou
simbólica de um objeto, uma deficiência de reconhecimento, uma condição na qual as
informações visuais eram experimentadas com um tipo de estranheza primordial.”
(pag 77 e 78)

Pag 78
“Para o pensamento clássico, o sujeito que percebia era geralmente um recptor
passivo de estímulos de objetos exteriores, os quais formavam percepções que
espelhavam o mundo exterior. As duas últimas décadas do século XIX, no entanto,
deram origem a noções de percepção nas quais o sujeito, como um organismo
psicofísico dinâmico, construía o mundo ao seu redor ativamente, por uma complexa
disposição em camadas de processos sensoriais e cognitivos de centros cerebrais
superiores e inferiores.”

Pag 79
“Mas se destaco Janet, é simplesmente porque ele foi um entre muitos pesquisadores
que descobriram quão volátil pode ser o campo perceptivo e quanto as oscilações
dinâmicas da consciência perceptiva e formas moderadas de dissociação eram parte
do que ele considerou comportamento normal.”

“Assim, em vários estudos sobre a atenção havia uma tentativa firme, mas nunca
totalmente bem-sucedida, de distinguir duas formas de atenção. A primeira era a
atenção consciente ou voluntária, normalmente orientada por tarefas e quase sempre
associada com comportamentos mais elevados e desenvolvidos. A segunda era a
atenção automática ou passiva, o que para a psicologia científica incluía as áreas da
atividade habitual, fantasias, devaneios ou outros estados absortos ou moderadamente
sonâmbulos.”

Pag 80
“Com a ideia desse continuum em mente, e tomando a face e os olhos como uma
chave especial, é possível ver a mulher como uma imagem clara de uma apresentação
pública de um domínio impassível do ego (...) , que, no entanto, coexiste com o fato
de estar presa a algum comportamento totalmente ordinário e involuntário ou
automático. E de novo Manet, que pintou a face com definição incaracterística, nos
permite levantar questões específicas. Ela está perdida em pensamentos, ou em
absorção vazia, ou está naquela forma de atenção imobilizada que faz fronteira com
um transe?”

“É difícil pensar em outra fisionomia de Manet com essa qualidade inerte de figura de
cera. Em certo sentido, nos é mostrado um corpo cujos olhos estão abertos, mas não
vêem – isto é, não apreendem, não fixam, não se apropriam de uma modo prático do
mundo ao redor deles, olhos que até mesmo denotam um estado momentâneo
comparável à agnosia.”

Pag 84
“É um olho não fixo que está sempre na dobra entre a atenção e a distração.”

“O que está exposto aqui, cujo corpo serve simplesmente de armação para a
mercadoria, é um congelamento momentâneo da visão, uma imobilização temporária
em uma economia de fluxo e distração permanentemente instalada.”

Pag 85
“Manet, em certo sentido, fornece uma solidez e presença palpável ao que permanecia
evanescente para Mallarmé, mas mesmo aqui o artigo de moda está presente como um
tipo de vacância, assombrado pelo que Guy Debord descreve como seu deslocamento
inevitável do centro de aprovação e a revelação de sua pobreza essencial.”

“Manet talvez soubesse intuitivamente que o olho não é um órgão fixo, que é marcado
pela polivalência, por intensidades desiguais, por uma organização indeterminada, e a
atenção continuada em qualquer coisa atenuará o caráter fixo da visão.”

Pag 90
“É especialmente significativo que as duas primeiras imagens da série Luva sejam
sobre patinar: o observador novamente como um corpo cinético que vê, colocado em
movimento, para deslizar ao longo de trajetórias sociais incertas.”

“Mesmo antes da intervenção real do cinema em 1890, no entanto, fica claro que as
condições da percepção humana estavam sendo remontadas em novos componentes.
A visão, em uma ampla gama de locações, foi refigurada como dinâmica, temporal e
sintética. O declínio do observador clássico pontual ou ancorado começou no início
do século XIX, cada vez mais deslocado pelo sujeito atento instável, cujos contornos
variados procurei esboçar aqui. Trata-se de um sujeito competente tanto para ser um
consumidor quanto um agente na síntese de uma diversidade próspera de ‘efeitos de
realidade’, um sujeito que irá se tornar o objeto de todas as indústrias da imagem e do
espetáculo no século XX.