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FACULDADE DE DIREITO

ANA RAFAELA DE MELLO SILVA

DIREITOS DOS ANIMAIS: UMA ANÁLISE DO PROJETO DE LEI NÚMERO


631/2015

CANOAS
2016
ANA RAFAELA DE MELLO SILVA

DIREITOS ANIMAIS: UMA ANÁLISE DO PROJETO DE LEI NÚMERO 631/2015

Trabalho de conclusão de curso apresentado à


Faculdade de Direito do Centro Universitário
Ritter dos Reis, Laureate International
Universities, como requisito parcial para
obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientador: Prof. Ms. Adroaldo Junior Vidal


Rodrigues.

CANOAS
2016
Dedico este trabalho a todos os animais
que já passaram pela minha vida e me
mostraram que são seres leais e capazes
de amar incondicionalmente. Bem como, a
todos aqueles merecedores de respeito,
amor e consideração.

Aos meus pais, que me ensinaram a amar


e respeitar as demais formas de vida, que
apoiaram minhas decisões com carinho e
orgulho e se desdobram para me fazer
feliz.

À Luci, que faz o possível e impossível


para proteger dignamente os animais que
precisam de ajuda e sempre esteve
disposta a nos auxiliar.
AGRADECIMENTOS

Agradeço à minha família, primeiramente aos meus queridos avós maternos e


paternos, os quais amo e admiro, pelo amor e cuidado que tem comigo ao longo da
minha vida.
Em especial, aos meus pais, que me ensinaram tudo o que sei sobre
honestidade, respeito e crescimento pessoal, que me proporcionam e incentivam a
estudar e evoluir, e que me presentearam aos dez anos de idade com o Kaka (in
memoriam), responsável por me fazer compreender o porquê de os cães serem os
melhores amigos do homem.
Ao meu irmão, Lucas, que “herdou” junto comigo o amor pelos animais,
agradeço pela personalidade dedicada e persistente. Apesar de mais novo, é com
certeza fonte de inspiração para mim.
Ao Kaka, Pietra, aos Cocós, Shelda, Mel, Nalu, Jade, Pitucha, Natasha e todos
os animais os quais tive o prazer de conviver e aprender.
Agradeço ao “Bicho”, por escolher dividir comigo esse momento da minha vida,
me compreender e sempre me ajudar no que preciso. Também, por nutrir grande
afeição pelos “serumaninhos”, não foi à toa que conquistou meu apreço.
Aos colegas neste último ano de faculdade que compartilharam comigo esta
fase única e, acima de tudo, foram muito prestativos ao longo da caminhada.
Por fim, e não menos importante, agradeço ao meu querido orientador,
Adroaldo Junior Vidal Rodrigues, por comprar minha ideia e me nortear tão
tranquilamente na elaboração deste trabalho de suma importância para mim.
Imensamente grata.
“Os animais não existem em função do
homem, eles possuem uma existência e um
valor próprios.
Uma moral que não incorpore esta verdade
é vazia.
Um sistema jurídico que a exclua é cego.”

THOMAS REGAN
RESUMO

A presente monografia tem como objetivo apresentar a discussão sobre os direitos


dos animais frente às práticas de exploração dos seres humanos e a ausência da
consideração dos animais como sujeitos de direitos no nosso ordenamento jurídico. A
satisfação das vontades humanas vem se sobrepondo ao direito à vida de
determinados animais e nos direciona à discriminação e à crueldade desnecessária.
Assim, o trabalho aborda o posicionamento teórico de Peter Singer e Tom Regan
sobre o tema. Também será feita uma ampla análise ética do Projeto de Lei número
631/2015, conhecida como Estatuto dos Animais, que tem por finalidade ampliar o rol
de proteção aos animais, vedar os maus-tratos e reconhecê-los como seres
sencientes.

PALAVRAS CHAVE: Animais. Projeto de Lei 631/2015. Sujeitos de direitos.


ABSTRACT

This monograph aims to present the discussion about animal rights in the face of
exploitative practices of humans and the abstence of consideration of animals as
subjects of rights in our legal system. The satisfaction of human desires is overlapping
the right of life of animals and guides us to discrimination and unnecessary cruelty. So,
this study will address the theoretical positioning of Peter Singer and Tom Regan on
the subject and also a wide ethical analysis of the Bill of Law 631/2015, known as the
Statute of Animals, which aims to extend the protection list of animals, stop the
mistreatment and recognize them as sentient beings

PALAVRAS CHAVE: Animals. Bill of Law 631/2015. Subjects of rights.


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 7

2 OS DIREITOS DOS ANIMAIS 9

2.1 OS DIREITOS DOS ANIMAIS HOJE 12

2.2 TEORIAS RIVAIS 18

3 PROJETO DE LEI DO NÚMERO 631/2015 24

3.1 ANÁLISE DO PROJETO DE LEI SOB O VIÉS DA DIMENSÃO ÉTICA 25

3.2 CASOS JURÍDICOS SOB A PERSPECTIVA DOS DIREITOS DOS ANIMAIS 36

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 44

REFERÊNCIAS 47

ANEXO A – PROJETO DE LEI NÚMERO 631/2015 52

ANEXO B – PARECER DE APROVAÇÃO DO PROJETO DE LEI 631/2015 62


7

1 INTRODUÇÃO

A questão temática acerca dos direitos dos animais é ainda muito recente
dentro da seara jurídica, tanto na doutrina, quanto jurisprudencialmente. Contudo, este
é um tema que tem ganhado certo espaço para discussão, bem como uma tímida
repercussão no âmbito do Direito brasileiro. No decorrer dos séculos, o ser humano
dotado de raciocínio se impôs sobre os recursos da natureza e explorou a fauna e a
flora de acordo com as leis naturais de sobrevivência. Ao passar dos anos evoluiu e
expandiu ainda mais a noção de hierarquia e a exploração dele para com os seres
inferiores à sua espécie. Atualmente, o padrão de conduta humana é pautado do
consumismo descontrolado sobre os recursos naturais.

Os exemplos de exploração animal estão presentes no nosso dia-a-dia em


quase todos os aspectos, pois em casa utilizamos recursos animais para a
alimentação e vestimenta. Nas ruas nos deparamos com animais sendo utilizados de
transporte. Nos laboratórios, os animais servem de cobaias para experimentos
científicos. Nos zoológicos e circos, os animais são aprisionados e maltratados a fim
de nos fornecer entretenimento. Estes, entre tantos outros exemplos, têm em comum
um procedimento nada agradável.

Sabe-se que o Direito é uma construção do homem, mais especificamente


surgido na Roma Antiga, onde a grande maioria dos filósofos que sustentou essa
ciência trouxe consigo a noção precípua do homem como centro do universo. Durante
toda a história da humanidade, o ser humano incumbiu para si mesmo a posição de
superioridade em relação aos demais seres e à natureza, caracterizando a finalidade
de todas as coisas – inanimadas ou não – unicamente de servi-lo. Assim, desde lá,
aos animais não humanos foi a atribuída a consideração de mera coisa.

Ocorre que a concepção de animal não-humano tido como coisa, entra em


conflito com pensamentos contemporâneos. A ciência do Direito, que foi criada para
regular a sociedade, já não comporta os moldes arcaicos da nossa civilização.

O primeiro capítulo da presente monografia tem por objetivo realizar uma breve
retrospectiva histórica da exploração animal e tecer algumas considerações, de forma
8

cronológica, sobre os principais marcos no ordenamento jurídico brasileiro que


abordam a proteção dos animais, mas que revelam pretextos para preponderar o
interesse humano. Sendo assim, ao final deste capítulo, far-se-á uma exposição do
contraponto de ideias que permeiam sobre autores que defendem o interesse dos
animais e a conservação do ponto de vista de autores antropocêntricos.

O Direito é um estudo que tem por característica a evolução de acordo com os


casos concretos e a mudança de paradigma da sociedade. Aos poucos, vai se
transmutando e se adequando às necessidades exigidas por ora, e por consequência,
com os direitos animais não há de ser diferente. Nessa perspectiva, os animais não
humanos estão prestes a ganhar um estatuto com 21 artigos que os considera seres
sencientes, ou seja, capazes de sentir dor, medo, estresse e prazer.

No segundo capítulo, será apresentada a proposta do Projeto de Lei número


631 de 2015, pelo Senador Marcelo Crivella, que tem como propósito estabelecer
dentre outros pontos, a não tolerância para com maus-tratos praticados contra a vida
dos animais, buscando garantir saúde, integridade e provimento de necessidades
básicas.

Cabe salientar que será feita uma análise ética de maneira ampla sobre os
pontos mais relevantes do Projeto de Lei e do parecer de aprovação que substanciou
algumas alterações no Projeto. A análise valer-se-á da premissa básica da
comprovação de que os animais são seres sencientes, no entanto, que pela herança
antropocêntrica da humanidade, existe uma imensa discriminação entre as espécies.

Através da demonstração de alguns casos peculiares que aconteceram no


cenário jurídico do Brasil, pretende-se com este trabalho, após o debate entre as duas
dimensões éticas, estruturar uma reflexão de como são tratados os animais
atualmente na sociedade e no âmbito jurídico, com a finalidade de indicar a urgência
de incluir os animais não humanos na esfera de preocupações morais,
consequentemente, no esqueleto jurídico como seres sujeitos de direitos.
9

2 OS DIREITOS DOS ANIMAIS

Há muitos anos que o homem vem realizando diversificadas práticas


explorativas em relação aos animais não humanos. Essa exploração está envolta de
uma cultura arcaica baseada na hierarquia dos seres humanos sobre as demais
espécies existentes no planeta e dada a complexidade do tema debatido, cabe fazer
uma breve retrospectiva histórica acerca da discussão.

Desde a era primitiva, as pinturas rupestres demonstravam o instinto dos


homens baseado nas leis naturais da sobrevivência, demonstrando sinais de caça e
guerras de conquista. Já neste período paleolítico tornou-se inerente a imposição do
ser humano sobre os seres das demais espécies, a crença na inferioridade dos
animais e que estes nos devem obediência.1

Foi na Grécia Antiga que os gregos aderiram à visão antropocêntrica como a


primeira manifestação filosófica da época, que entende o homem o centro do
universo.2 Um dos principais filósofos que preconizou as bases do Direito foi
Aristóteles. Para ele havia uma relação de existência entre o ser e as coisas que lhe
seriam inferiores, alegava que todas as coisas existentes – inclusive os animais – não
tinham nenhuma finalidade senão a de servir aos homens.3

Como a ciência do Direito se desenvolveu sob este prisma, tais teorias vieram
a contribuir para a exploração desenfreada destes animais tidos como inferiores, pois
a noção do Direito alcançava apenas o homem em sociedade e os animais foram
inseridos no âmbito da propriedade privada, tal como os objetos, considerados coisas.
E assim, ao longo da Idade Média, continuaram a aparecer teorias e filósofos
reiterando este pensamento de hierarquia entre as criaturas.4

No Brasil, as conquistas de território na América e o início do período colonial


trouxeram consigo a política mercantilista e, por consequência, uma impiedosa

1 LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais. 2. Ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 20014, p.
18.
2 OLIVEIRA Nelci Silvério de. Curso de Filosofia do Direito. 2ª Ed. Goiânia: Ab Editora, 2001, p. 29.
3 STRENGER, Irineu. História da filosofia. São Paulo: LTr, 1998, p. 84 a 100.
4 LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais. 2. Ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2014, p. 18.
10

devastação na fauna e na flora brasileira. Enquanto os animais silvestres eram


comercializados dentro e fora do país, os domésticos viviam em situação de servidão,
ocasião a qual as vacas forneciam leite e carne, os burros serviam para transporte de
carga e tração, os cães para vigilância, as aves eram mantidas em cativeiro e as
baleias massacradas na costa litorânea brasileira, onde eram arrastadas até a praia
para sofrer o esquartejamento – carne, ossos, barbatanas, óleo e tripas – tudo era
aproveitado.5 Na mesma época, por volta de 1500, um navio pirata foi detido em águas
europeias com 5 mil quintais de pau-brasil, 3 mil peles de leopardo e outros animais,
600 papagaios, 300 bugios e saguis, minérios de ouro e óleos medicinais
contrabandeados do Brasil.6 Por esse motivo, constata-se que a ambição unilateral do
colonizador pelas riquezas brasileiras não passou despercebida.

Contudo, a grande contribuição para a desconstrução desse pensamento


antropocêntrico foi a publicação de “A Origem das Espécies” de Charles Darwin, em
1859, que integra todos os seres vivos na mesma escala evolutiva, possuindo modos
peculiares de exprimir emoções e sentimentos, mas que humanos e animais não
humanos se desenvolveram gradualmente a partir de uma mesma ancestralidade.7 A
revolução darwinista, podendo assim ser chamada, centrava-se no menor nível de
preocupação em demonstrar a superioridade da espécie humana, vindo a destruir
essa visão hierárquica da natureza, reportando-se à coexistência das espécies em
termos mais igualitários e menos discriminadores.8

E foi somente após a emancipação política do Brasil, com a proclamação da


República, em 1889, que o país passou a editar suas próprias regras e começou a
aparecer no quadro legislativo normas de abolição à escravatura e de proteção à
fauna.9 O dispositivo pioneiro surgiu em 1924 de um Decreto Regulamentando Casas

5 LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais. 2. Ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2014, p. 25

e 26.
6 SIMONSEN, Roberto C. História Econômica do Brasil: 1500-1820. v. 34, Brasília: Senado

Federal, Conselho Editorial, 2005, p 77.


7 PENNA, José Oswaldo de Meira. Darwin. 'A origem das espécies' e a 'a descendência do

homem'. Carta Mensal, São Paulo, Confederação Nacional do Comércio v.50, n.597, dez. 2004, p.
3-20, p.8.
8 ARAÚJO, Fernando. A hora dos direitos dos animais. Coimbra: Almedina, 2003, p. 92, 93 e 94.
9 LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais. 2. Ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 20014, p. 25

e 27.
11

e Diversões públicas10, em que vedava licença para quaisquer diversões que


causasse sofrimento aos animais. Uma década depois, foi expedido novo Decreto
Federal, de número 24.645, que proíbe a prática de maus-tratos e classifica os maus-
tratos, conforme mostra seu artigo 3º:

Art. 3º Consideram-se maus tratos:


I – praticar ato de abuso ou crueldade em qualquer animal;
II – manter animais em lugares anti-higiênicos ou que lhes impeçam a
respiração, o movimento ou o descanso, ou os privem de ar ou luz;
III – obrigar animais a trabalhos excessívos ou superiores ás suas fôrças e a
todo ato que resulte em sofrimento para deles obter esforços que,
razoavelmente, não se lhes possam exigir senão com castigo;
IV – golpear, ferir ou mutilar, voluntariamente, qualquer órgão ou tecido de
economia, exceto a castração, só para animais domésticos, ou operações
outras praticadas em beneficio exclusivo do animal e as exigidas para defesa
do homem, ou no interêsse da ciência;
V – abandonar animal doente, ferido, extenuado ou mutilado, bem coma
deixar de ministrar-lhe tudo o que humanitariamente se lhe possa prover,
inclusive assistência veterinária;11

A partir da década de 40, houve um avanço com a criação da Lei das


Contravenções Penais que, em seu artigo 64, considera um ato de contravenção
penal práticas de maus-tratos para com os animais.12 E no que tange os animais
silvestres, na década de 60, foi criada a Lei de Proteção à Fauna, em que proíbe
expressamente a modalidade profissional de caça, bem como transfere a propriedade
dos animais de qualquer espécie para a tutela do Estado.13

Atualmente, com a incorporação da Constituição Federal de 1988, a ampla


proteção à fauna brasileira tronou-se um direito constitucional, o qual deve ser
efetivamente assegurado pelo Poder Público, nos termos do artigo 225, §1°, VII:

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente


equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade
de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

10BRASIL. Decreto 16.590, de 10 de setembro de 1924. Disponível em:


http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1920-1929/decreto-16590-10-setembro-1924-509350-
publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso em: 07 set. 2016.
11 BRASIL. Decreto 24.645, de 10 de julho de 1934. Disponível em:

http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=39567. Acesso em: 07 set. 2016.


12BRASIL. Lei n. 3.688, de 3 de outubro de 1941. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3688.htm> Acesso em 12 de set. 2016


13 BRASIL. Lei n. 5.197, de 3 de janeiro de 1967. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L5197.htm Acesso em: 12 de set. 2016


12

§ 1º Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder


Público:
[...] VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas
que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção
de espécies ou submetam os animais a crueldade.14

Destarte, observando alguns dados históricos, pode-se constatar que há


séculos que o homem vem explorando os animais e a natureza, fundado na
prerrogativa de que é um ser superior dotado de razão e, por isso, para tudo tem
permissão. Apesar de ao longo da história ter havido alguns estudiosos contrapondo
esse pensamento, bem como alguns avanços legais no Direito brasileiro dispostos a
romper essa barreira, a sociedade contemporânea ainda vive diante da mesma
caracterização de ser "os seres dotados da razão" e pelo fato de ter intrínseca na
história a cultura da violência e exploração, continua de um lado a necessidade de
inserção dos animais na esfera de proteção jurídica em contraste com o interesse
humano pelas diversas formas de servidão animal.

2.1 OS DIREITOS DOS ANIMAIS HOJE

Na perspectiva do direito ambiental brasileiro, pode-se afirmar que uma das


mais difíceis tarefas consistentes é o estudo da fauna, mais especificamente em
relação aos direitos animais, uma vez que tal assunto ainda é muito recente dentro do
nosso ordenamento jurídico. Por se tratar de um tema que a passos curtos vem
ganhando espaço para discussão, faz-se necessária a compreensão do conceito de
fauna e da relação existente entre direitos humanos e os direitos dos animais para
chegarmos a um maior entendimento do que se trata esses direitos.

No início deste século, a fauna ainda era caracterizada como algo que poderia
ser objeto de propriedade, mas essa concepção foi alterada porque se passou a
reconhecer a importância dela para o equilíbrio ecológico. Essa função ecológica da

14 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de


outubro de 1988. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm Acesso em: 12 de set.
2016
13

fauna possibilita a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas, o que é indispensável


para a sobrevivência dos seres vivos e mais especificamente, do homem.15

O entendimento da fauna inserida no âmbito da propriedade privada foi


superado, e por meio de dispositivos constitucionais, recebeu natureza jurídica de
bem ambiental.16 Assim, a União reservou para si o domínio da fauna silvestre e este
bem lhe pertence no sentido de que são por ela administrados no interesse coletivo.17
Nas palavras de Helita Barreira Custódio:

[...]considera-se fauna o conjunto de animais, terrestres ou aquáticos,


incluídos os microorganismos, que vivem em uma área, uma região ou
país, em suas diversas categorias em relação ao seu habitat e às
respectivas condições existentes. Equivalente e harmonicamente,
também consideram-se animais todos os seres vivos irracionais,
terrestres e aquáticos” organizados, dotados de sensibilidade física e
psíquica.18

O entendimento de que a proteção aos animais se baseia na coexistência da


humanidade e as demais espécies, visando o respeito aos seus semelhantes para
que possa preservar as gerações futuras, leva à conclusão de que estes direitos são
naturais e exatamente iguais aos que embasam os direitos humanos, na ocasião que
o indivíduo pensante ao defender seus direitos, entende que os demais seres vivos
também são titulares de direitos, ainda que não tenham capacidade de entendê-los.19

Os direitos morais humanos moldaram a história da humanidade e estão


imbuídos de igualdade, possuir tais direitos consiste na proibição de violar os nossos
bens mais importantes: a vida, a liberdade e os corpos.20 Porém nós, seres humanos,
temos esses direitos não somente pelo fato de sermos da espécie humana, ou somos
pessoas autoconscientes, mas sim porque somos sujeitos-de-uma-vida. Esta é a

15 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. 14. ed. São Paulo:
Saraiva, 2013, p. 265.
16 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. p. 265.
17 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito ambiental brasileiro. 22. ed. São Paulo: Malheiros,

2014, p. 943.
18 CUSTODIO, Helita Barreira. Crueldade contra animais e a proteção deles como relevante

questão jurídico-ambiental e constitucional. Revista de Direito Ambiental, São Paulo ano 2, v.7,
p. 54-86, jul/set 1997
19FERREIA, Celio Mariano. Direito dos Animais. Revista CEJ (Centro de Estudos Judiciários do

Conselho da Justiça Federal), Brasília, n. 62, p. 108-113, jan./abr. 2014, p 110.


20 REGAN, Tom. Jaulas vazias: encarando o desafio dos direitos animais. Porto Alegre: Lugano,

2006. P 47 e 48.
14

semelhança em comum a todos nós e esta é ideia que nos torna todos iguais.21 Nessa
esfera, pode-se afirmar que em razão do senso comum, dos comportamentos e
estrutura anatômica em comum, os animais não humanos também são sujeitos-de-
uma-vida, tanto pelo parentesco biológico, quanto pela semelhança psicologia, o que
lhes acontece é importante, assim como para nós.22

Para Canotilho, foi indispensável a valorização e a positivação dos direitos


humanos, tais como o direito à vida, liberdade e afetividade, porquanto que sem isso
os direitos do homem são apenas esperanças, mas não direitos protegidos sob a
forma de normas.23 Sendo assim, falar em direito dos animais consiste na
necessidade de lhes inserir na esfera de preocupações humanas, o reconhecimento
desses direitos envolve teorias da natureza e a aplicação de princípios morais, visto
que cada ser vivo possui singularidades que devem ser respeitadas.24

No âmbito internacional, a Declaração Universal dos Direitos dos Animais,


promulgada pela UNESCO, em 1978, traz em seu preâmbulo uma essencial
motivação, considerando que todos os animais possuem direitos e o desconhecimento
desses direito continuam a levar os homens a cometerem crimes contra a natureza.25
Contudo, o texto da referida declaração não foi ratificado pelo Poder Legislativo
brasileiro, apesar do Brasil ser signatário do documento, mas não possui força de lei
e tampouco poder coercitivo.26

Embora a Constituição Federal de 1988 seja contrária aos maus-tratos e


crueldade para com os animais, prevendo uma ampla proteção á fauna em seu texto
legal, consoante artigo 225, §1º, inciso VII, que fundamenta a proibição da submissão
de animais a práticas cruéis, o que acontece na verdade é diferente.27 A aplicação

21 REGAN, Tom. Jaulas vazias: encarando o desafio dos direitos animais. Porto Alegre: Lugano,
2006. p.61
22 REGAN, Tom. Jaulas vazias: encarando o desafio dos direitos animais. p. 72
23CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição. 7. ed. Coimbra:

Almedina, 2011, p 529.


24LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais. 2. Ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 20014, p.

127.
25BÉLGICA, Declaração Universal dos Direitos dos Animais, de 27 de janeiro de 1978. Disponível em:

< http://www.urca.br/ceua/arquivos/Os%20direitos%20dos%20animais%20UNESCO.pdf> Acesso em


13 set. 2016
26 LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais. 2. Ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 20014, p.

47.
27LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais. 2. Ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2014, p. 6.
15

dessa nova abordagem de direitos animais não humanos aparece acanhada e envolta
de divergências nos pontos de vista dos juristas. Como o que ocorreu em relação à
Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público em face do Estado de Santa
Catarina a fim de proibir a farra do boi.28 A farra do boi é uma manifestação
essencialmente cultural de cunho folclórico, em que dois peões em cima de um cavalo
tentam derrubar um boi, munidos de pedras, varas e facas, submetendo-os ao
sofrimento pela perseguição e linchamento.29

O caso chegou até o STF, por meio do Recurso Extraordinário 153.53-8 em


que no mesmo acórdão, dois Ministros proferiram voto com entendimentos diferentes.
Para o Ministro Maurício Corrêa:

Indago: [...] É possível coibir a prática da “Farra do boi”, quando a


Carta Federal, em seu art. 216 pontifica que, “constituem patrimônio
cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial,
tomados individualmente ou em conjunto, portadores de
referência à identidade, à ação, á memória dos diferentes grupos
formadores da sociedade brasileira”? Penso que não. [...] A
manifestação popular dissentida pelos autores é uma tradição cultural
regionalizada e, como manifestação cultural, há de ser garantida e
assegurada pelo Estado.30 [grifo do autor]

Destaca também, o Ministro Marco Aurélio, que por sua vez acompanhou o
Ministro-relator Resek, aduzindo o seguinte:

A manifestação deve ser estimulada, mas não a prática cruel. [...] a


distorção alcançou tal ponto que somente uma medida que obstaculize
terminantemente a prática pode evitar o que verificamos neste ano de
1997. [...] Entendo que a prática chegou a um ponto a atrair, realmente,
a incidência do disposto no inciso VII do artigo 225 da Constituição
Federal. Não se trata, no caso de uma manifestação cultural que
mereça agasalho na Carta da República. [...] cuida-se de uma prática
cuja crueldade é ímpar e decorre das circunstâncias de pessoas

28 MARASCHIN, Claudio; ITAQUI, C. Os direitos dos animais e o Judiciário: uma proposta de estudo.
Revista do Curso de Direito da Faculdade da Serra Gaúcha, v. 4, p. 35-50, 2009, p. 40.
29 LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais. 2. Ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2014, p. 55.
30 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário n° 153.531-8. Recorrente: Associação

Amigos de Petrópolis proteção aos animais e defesa ecológica e outro. Recorrido: Estado de Santa
Catarina. Relator: Ministro Francisco Resek. Brasília, DF, 3 de junho de 1997. Disponível em:
http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=%28farra+do+boi+provimento%
29&base=baseAcordaos&url=http://tinyurl.com/z3sraol=211500 Acesso em: 19. maio de 2016.
16

envolvidas por paixões condenáveis buscarem, a todo custo, o próprio


sacrifício do animal.31

No que se refere à caça no Brasil, o artigo 2º da Lei 5.197/67, trata de vedar


unicamente a modalidade profissional.32 Considera-se caça profissional aquela em
que o caçador procura auferir lucros com o produto da sua atividade, em razão disso,
é que ela foi expressamente proibida, pois prejudicaria o equilíbrio do ecossistema
implicando um caos ecológico, visto que a fauna silvestre é um bem ambiental
esgotável.33 Em contrapartida, a referida Lei versa sobre a caça de controle que,
conforte seu artigo 3º, §2º, entende que é a destruição de animais silvestres
considerados nocivos à agricultura ou á saúde pública.34

Contudo, este direito de matar, mencionado na Lei 5.197/67, em face da defesa


de um perigo iminente, muitas vezes é causado pelo uso inadequado de pesticidas.35
Pois, quando os predadores naturais são exterminados, o homem encontra certa
dificuldade em conter determinadas populações de animais.36 Além de afrontar o
dispositivo constitucional que protege os animais de atos cruéis, também compactua
para a fabricação de armas e a comercialização de animais silvestres, induzindo a
violência.37 Assim, ao fazer uma breve análise da Lei de Proteção à Fauna, pode-se
entender que soe um tanto contraditório, no sentido de que na verdade o que se
pretende resguardar é o interesse particular do ser humano.

Uma dentre as diversas finalidades da fauna, conforme Celso Antonio Pacheco


Fiorillo, é a recreação.38 E um lastimável exemplo que acontece até hoje são os

31 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário n° 153.531-8. Recorrente: Associação

Amigos de Petrópolis proteção aos animais e defesa ecológica e outro. Recorrido: Estado de Santa
Catarina. Relator: Ministro Francisco Resek. Brasília, DF, 3 de junho de 1997. Disponível em:
http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=%28farra+do+boi+provimento%
29&base=baseAcordaos&url=http://tinyurl.com/z3sraol=211500 Acesso em: 19. maio de 2016.
32 BRASIL. Lei n. 5.197, de 3 de janeiro de 1967. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L5197.htm Acesso em: 12 de set. 2016


33FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. 14. ed. São Paulo:

Saraiva, 2013, p. 277.


34BRASIL. Lei n. 5.197, de 3 de janeiro de 1967. Disponível em:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L5197.htm Acesso em: 12 de set. 2016


35MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito ambiental brasileiro. 22. ed. São Paulo: Malheiros, 2014,

p. 947.
36 ODUM, Eugene Pleasants. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012, p. 147 e 148.
37 LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais. 2. Ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 20014, p.

61.
38 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. 14. ed. São Paulo:

Saraiva, 2013, p. 271.


17

animais dos espetáculos de circo, feitos de fantoches de comédia por meio de castigos
físicos, que resignados, obedecem ao som da chibatada. Estes animais são privados
da liberdade, submetidos a longas viagens e estresse fora da sua natureza.
Novamente, um verdadeiro abuso que afronta uma garantia constitucional de não
submissão à crueldade por colidir com o lazer – direito social previsto na mesma raiz
jurídica.39

Atualmente, nas atividades relacionadas ao agronegócio, o destino dos animais


é deprimente. Nascidos fadados ao processo de criação intensiva, são submetidos a
procedimentos insalubres e superpopulosos, reféns de intervenções estranhas a sua
natureza com o único objetivo de acelerar a produção.40 Em geral, ignora-se os maus-
tratos cometidos contra seres vivos que estão por trás dos alimentos que ingerimos.
O processo deu início quando grandes empresas passaram a controlar a produção de
aves no lugar no agricultor. Um produtor norte-americano manifestou claramente a
preponderância do interesse econômico ao aduzir que eles não são pagos para
produzir animais com uma boa postura e sim, são pagos por quilo.41

Todos esses abusos expostos podem ser resumidamente considerados


crueldade. O conceito de crueldade significa aquilo que satisfaz em fazer mal, duro,
insensível, desumano, severo, rigoroso e tirano. Neste sentido, o próprio dispositivo
constitucional que anuncia proteção e não submissão da fauna à práticas cruéis, em
verdade fundamenta-se no sentimento humano – o verdadeiro sujeito de direitos –
porque sua saúde psíquica não lhe permite ver animais sofrendo. Essa interpretação
compreende a visão antropocêntrica do direito ambiental, pois submeter o animal a
um mal dentro do necessário não significa crueldade.42

Desta forma, fica evidente há séculos que os animais são tratados como
recursos utilizados de acordo com critério da conveniência humana. E ainda que
existam garantias constitucionais e dispositivos de lei que versam sobre a proteção

39 LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais. 2. Ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 20014, p.
61.
40 LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais. p. 51.
41 SINGER, Peter. Libertação animal: o clássico definitivo sobre o movimento pelos direitos dos

animais. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010, p.140 e 183.


42 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. 14. ed. São Paulo:

Saraiva, 2013, p. 273.


18

da fauna, vedando a violência, o legislador sempre resguarda um meio de proteger o


interesse humano de forma dominante, desconsiderando o bem-estar animal.

2.2 TEORIAS RIVAIS

Os conflitos e as contradições que permeiam os interesses econômicos,


alimentares, religiosos e de entretenimento quando se trata da natureza como um todo
e dos animais, não só existem dentro dos dispositivos de lei e jurisprudência, como
no ponto de vista de diferentes autores e de pessoas que lidam diretamente com o
meio. De um lado têm-se os ativistas propondo-se a defender e expandir a consciência
da importância da natureza e dos interesses animais, e do outro aqueles que
perpetuam o antropocentrismo legitimando a maneira como se justifica a
preponderância do interesse humano sobre o interesse dos animais não humanos.

O antropocentrismo, conforme Édis Milaré, é uma corrente que parte do


pressuposto que a razão, virtude atribuída exclusivamente ao homem, se constitui no
valor maior e determinante da finalidade das coisas.43 É neste aspecto que o homem
passa a moldar o seu meio de acordo com as suas crenças, criando uma sociedade
em que ele está no centro do universo e que os recursos da natureza estão à sua
disposição.44 Consequentemente, as reais vítimas das degradações e devastações,
para a perspectiva antropocêntrica, serão sempre os seres humanos.45

Os porta-vozes das grandes indústrias de exploração animal alimentam os


meios de comunicação passando informações inverídicas acerca dos procedimentos
realizados, utilizando expressões como “bem-estar animal”, “tratamento humanitário”
e “guarda responsável”.46 As definições de humanitário e bem-estar, por exemplo, é

43 MILARÉ, Édis.COIMBRA, José de Ávila Aguiar. Antropocentrismo X Ecocentrismo na ciência

jurídica. Revista de Direito Ambiental, São Paulo, n. 36, p. 9-42, out/dez. 2004.
44 RECH, Simone Aparecida. O dano ambiental individual, sua reparação e a responsabilidade civil do

poder público frente ao dano ambiental em uma sociedade economicocentrista regulada por uma
constituição federal que impõe o antropocentrismo alargado. Leonardo (Indaial), Indaial , v.6, n.17 ,
p.13-18, jul./dez. 2008.
45 BOSSELMANN, 2001 apud FURTADO, Fernanda Andrade Mattar. Concepções éticas da

proteção ambiental. Disponível em:


https://www.portaldeperiodicos.idp.edu.br/direitopublico/article/download/1391/859. Acesso em 13 de
out. 2016
46 REGAN, Tom. Jaulas vazias: encarando o desafio dos direitos animais. Porto Alegre: Lugano,

2006. p.95
19

entendido como “caracterizado por bondade, misericórdia ou compaixão, e conforto,


satisfação, situação agradável do corpo ou espírito, respectivamente”.47

Quando a indústria alega tratar seus animais humanitariamente e com o devido


respeito ao bem-estar deles, o que se espera encontrar são procedimentos industriais
que mostrem compaixão e conforto com a situação destes.48 Porém, o que se faz não
condiz com o que se diz e as falsas afirmações acontecem em virtude da necessidade
de aparentar obediência às leis que exigem tratamento humanitário e tranquilizar os
consumidores de que as coisas ocorrem da forma correta nos locais, os quais, o
público não tem facilidade no acesso.49

A vivissecção, como se chama os testes realizados em animais, surgiu pelo


médico romano, Galeno no século 2 d. C., mas em 1638, o método de pesquisa
científica utilizando animais foi conduzida pelo britânico William Harvey. E, nessa
mesma época, o que legitima a prática, para o filósofo René Descartes é que a
diferença entre os animais não humanos e os seres humanos, é que aqueles não têm
alma. Neste caso, por não terem alma, também não estão aptos a sentirem dor.50

É em Jaulas Vazias, Tom Regam defende o direito dos animais, tal como os
direitos humanos, pelo fato de termos senso, corpos, comportamento, linguagem,
sistema e origens em comum. Esses fatos são relevantes para afirmar que são
animais sujeitos-de-uma-vida.51 E ainda defende do ponto de vista religioso, que os
animais possuem autoconsciência do que lhes acontece:

Todas as religiões do mundo são unânimes quanto a essa questão.


Leia a Bíblia, a Torah, o Corão. Estude o confucionismo, budismo,
hinduísmo, ou os escritos espirituais dos americanos nativos. A
mensagem é a mesma em todo lugar. Carneiros e baleias, bodes e
bois, gatos e cães, certamente são conscientes do mundo. [...] O que
acontece a esses animais certamente importa para eles. [...] E para
47 American College Dicionary Online. Disponível em: < https://ahdictionary.com/> Acesso em 13 de
out. 2016
48 REGAN, Tom. Jaulas vazias: encarando o desafio dos direitos animais. Porto Alegre: Lugano,

2006. p.95
49 REGAN, Tom. Jaulas vazias: encarando o desafio dos direitos animais. p.98
50MARICATE, Tiago. A história dos direitos dos animais. 2010. Disponível em:

http://veja.abril.com.br/multimidia/infograficos/a-historia-dos-direitos-dos-animais Acesso em: 05 de


out. 2016
51 REGAN, Tom. Jaulas vazias: encarando o desafio dos direitos animais. Porto Alegre: Lugano,

2006. p.66
20

aqueles que acreditam tanto em Deus e na evolução? Bem, essas


pessoas têm razões de ambos os tipos para reconhecer a vida mental
de outros animais.52

A capacidade de raciocínio é o que leva o ser humano a crer que está no centro
do seu sistema, distanciando-se da ordem natural e impondo a sua própria vontade
sob as demais espécies.53 Neste aspecto, Kant defende a natureza humana sob uma
visão antropocêntrica, orientada por uma razão dominante em relação à natureza:

1.disposição do homem à animalidade, como ente vivo; 2. disposição


à humanidade, como ente vivo e ao mesmo tempo racional; 3. sua
personalidade, como ente racional e ao mesmo tempo responsável.54

De forma análoga à escravidão, em sociedade a capacidade de raciocínio


excedendo limites, mostrou que indivíduos dotados de uma maior capacidade de
interpretar o sistema, distanciaram-se dos seres da sua mesma espécie, os
subjugando e fazendo instrumentos de seus interesses. Essa ligação da escravidão
com o meio ambiente está relacionada diretamente com o fato de que o ser humano
também é parte dele e não superior.55

Sob outra ótica, o filósofo Jeremy Bentham foi um dos poucos que discordou
da imagem subjugada dos animais em razão de não possuírem a linguagem como
meio de comunicação e racionalidade como os seres humanos, e reconheceu o
princípio de igual consideração para com eles.56 Em, Uma Introdução aos Princípios
da Moral e da Legislação, publicado em 1789, Bentham aponta a senciência como
fundamento para o reconhecimento destes direitos animais:

52 REGAN, Tom. Jaulas vazias: encarando o desafio dos direitos animais. p.71.
53OLIVEIRA, Ronelso. Direito ambiental e mudança paradigmática: do antropocentrismo ao
biocentrismo. Direito em Revista: revista da Faculdade de Direito de Francisco Beltrão, Francisco
Beltrão, CESUL v.1, n.3, NOV/2002, p. 277.
54 KANT, E. A religião dentro dos limites da simples razão. São Paulo: Abril Cultural. Coleção Os

Pensadores, n. 25, 1974, p. 371.


55 OLIVEIRA, Ronelso. Direito ambiental e mudança paradigmática: do antropocentrismo ao

biocentrismo. Direito em Revista: revista da Faculdade de Direito de Francisco Beltrão, Francisco


Beltrão, CESUL v.1, n.3, NOV/2002, p. 279.
56 SINGER, Peter. Libertação animal: o clássico definitivo sobre o movimento pelos direitos dos

animais. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010, p 6.


21

Talvez chegue o dia em que o restante da criação animal venha a


adquirir os direitos que jamais poderiam ter-lhe sido negados, a não
ser pela mão da tirania. Os franceses já descobriram que o escuro da
pele não é razão para que um ser humano seja irremediavelmente
abandonado aos caprichos de um torturador. É possível que um dia
se reconheça que o número de pernas, a vilosidade da pele ou a
terminação de um osso sacro são motivos igualmente insuficientes
para abandonar um ser senciente ao mesmo destino. O que mais
deveria traçar a linha intransponível? A faculdade da razão ou, talvez,
a capacidade de linguagem? Mas um cavalo ou um cão adultos são
incomparavelmente mais racionais e comunicativos do que um bebê
de um dia de vida, de uma semana, ou até mesmo de um mês.
Supondo, porém, que as coisas não fossem assim, que importância
teria tal fato? A questão não é “Eles são capazes de raciocinar?”, nem
“São capazes de falar?”, mas, sim: “Eles são capazes de sofrer?”57

Peter Singer segue a mesma linha de raciocínio de Bentham, defendendo o


princípio fundamental da igualdade, o qual permite uma consideração igual de todos
os interesses e entende a extensão de tal princípio para além da espécie humana:

[...] esse princípio implica que a nossa preocupação com os outros não
deve depender de como são, ou das aptidões que possuem [...]. O
princípio, contudo, também implica o fato de que os seres não
pertencerem à nossa espécie não nos dá o direito de explorá-los, nem
significa que, por serem os outros animais menos inteligentes do que
nós, possamos deixar de levar em conta os seus interesses.58

O contraponto do ponto de vista antropocêntrico da ideia de Peter Singer resta


evidente na concepção sobre a natureza humana do filósofo inglês Thomas Hobbes.
Ele aduz que o homem é o lobo do próprio homem, concluindo que importância de
atingir um fim igualitário entre todos os seres da mesma espécie nos remete ao
domínio do homem sobre outros homens.59 Neste cenário, a racionalidade humana
encontra-se no sentido de defender-se de outros seres humanos, tal como o Estado,
criado como um sistema superior ao indivíduo para ordenar, controlar e tutelar
interesses comuns. Tão logo, a ciência do direito foi criada pelo homem para proteger
interesses seus.60

57BENTHAM, Jeremy; MILL, John Stuart. Uma Introdução aos Princípios da Moral e da
Legislação. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 63.
58 SINGER, Peter. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 66.
59OLIVEIRA, Ronelso. Direito ambiental e mudança paradigmática: do antropocentrismo ao

biocentrismo. Direito em Revista: revista da Faculdade de Direito de Francisco Beltrão, Francisco


Beltrão, CESUL v.1, n.3, NOV/2002, p. 278.
60 OLIVEIRA, Ronelso. Direito ambiental e mudança paradigmática: do antropocentrismo ao

biocentrismo. Direito em Revista: revista da Faculdade de Direito de Francisco Beltrão, Francisco


Beltrão, CESUL v.1, n.3, NOV/2002, p. 278 e 280.
22

A relação feita entre o sistema jurídico brasileiro e a natureza em geral, é que


ela e seus recursos naturais são entendidos como bens da sociedade. É por esse
motivo que o meio ambiente deve ser mantido e preservado: pelos seres humanos e
não pela natureza em si.61 Essa noção da ciência do Direito firmada pelo
antropocentrismo62 pode ser notada não só na Constituição Federal de 1988 quando
versa que todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, defendido
para as futuras gerações63, mas também dentro da doutrina atual do direito ambiental
brasileiro. Como aponta Paulo de Bessa Antunes:

No regime constitucional brasileiro, o próprio caput do artigo 225 da


Constituição Federal impõe a conclusão de que o Direito Ambiental é
um dos direitos humanos fundamentais. […] o antropocentrismo que
serve de base ao sistema jurídico vigente é um fenômeno que
encontra suas origens no movimento filosófico conhecido como
Humanismo. […] O Direito Brasileiro reconhece à natureza direitos
positivamente fixados. É importante, no entanto, repetir que tais
direitos só têm existência em função de uma determinação do próprio
Ser Humano. […] a proteção de tais bens ambientais tem por função
assegurar aos seres humanos o desfrute do meio ambiente
ecologicamente equilibrado.64

Deste modo, o ser humano que se diz dotado da inteligência e racionalidade,


ao aceitar que é fruto e faz parte da natureza assim como as outras espécies – e não
que é superior a ela – tem capacidade de agir com conscientização e de maneira
menos gravosa em relação a esta. Do contrário, o destino inevitável de suas atitudes
implicará na extinção das espécies, inclusive da própria.65

61 GOMES, Ariel Koch. Direito Ambiental: natureza como um bem da humanidade ou como sujeito de
direitos? Campo Jurídico, v. 1, 2013, p. 98 e 99.
62 GOMES, Ariel Koch. Direito Ambiental: natureza como um bem da humanidade ou como sujeito de

direitos? Campo Jurídico, v. 1, 2013, p. 99.


63 Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do

povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. BRASIL. Constituição (1988).
Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm Acesso em: 14 de out.
2016.
64ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito ambiental. 13. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011, p. 23.
65 GOMES, Ariel Koch. Direito Ambiental: natureza como um bem da humanidade ou como sujeito de

direitos? Campo Jurídico, v. 1, 2013, p. 115.


23

Por fim, ao encerramento deste capítulo, fez-se necessária a demonstração


das teses divergentes para uma melhor compreensão dos motivos pelos quais os
animais são constantemente explorados como se matérias-primas fossem. Ainda não
existe um efetivo amparo legal a fim de proteger os direitos intrínsecos da natureza
sem que haja por trás dos dispositivos apenas uma maneira de institucionalizar os
variados interesses do ser humano sobre os recursos naturais.
24

3 PROJETO DE LEI DO NÚMERO 631/2015

Lamentavelmente, é notório que a prática de exploração dos animais é um


proveito abusivo por parte do ser humano e há séculos acontece de maneira
desenfreada. Não há dentro do ordenamento jurídico brasileiro um dispositivo legal
que vise tão somente preservar a fauna e seu bem-estar de forma objetiva e que seja
este realmente o único interesse pretendido. Foi diante deste contexto, que o Senador
Marcelo Crivella propôs o Projeto de Lei do Senado número 631 de 2015.

No direito brasileiro, os animais não humanos são classificados como coisa, ou


seja, bens móveis que tem seu regime jurídico estabelecido no Código Civil.66
Tecnicamente, os animais são considerados bens semoventes e bens fungíveis,
ocasião a qual estes não têm valor particular.67 No entanto, a grande inovação do
referido Projeto de Lei, podendo ser chamado de Estatuto dos Animais, é que ele tem
por justificativa reconhecer o valor intrínseco auferido aos animais, isto é, estabelecer
o direito à vida, ao bem-estar dos animais, ao tratamento de senciente e reforçando
as práticas configuradas como cruéis.68

Nas palavras do Senador, em sua justificativa, aponta-se a importância de sua


iniciativa:

Já é hora de o País possuir uma legislação que vede a dor, o


sofrimento e a lesão moral aos animais. A Alemanha, a Áustria,
Estados Unidos, apenas como exemplo, são países que já legislaram
há muito tempo sobre a matéria. A sociedade tem se mostrado
intolerante aos maus-tratos, a exemplo das discussões envolvendo o
uso de animais em pesquisas científicas ou o mero utilitarismo e prazer
dos humanos em ações que causam sofrimento e dano
desnecessários aos animais [...].69

66 BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Disponível em:


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm Acesso em 15 de out. 2016
67 ROSA, Léo. Animais, estatuto de senciente. Jusbrasil. Disponível em:

http://leorosa.jusbrasil.com.br/artigos/166373742/animais-estatuto-de-senciente Acesso em 15 de out.


2016.
68BRASIL. Projeto de Lei do Senado 631, de 2015. Disponível em:

http://www.senado.leg.br/atividade/rotinas/materia/getPDF.asp?t=178966&tp=1 Acesso em 15 de out.


2016.
69BRASIL. Projeto de Lei do Senado 631, de 2015. Disponível em:

http://www.senado.leg.br/atividade/rotinas/materia/getPDF.asp?t=178966&tp=1 Acesso em 15 de out.


2016.
25

De maneira ampla, no presente capítulo será realizada uma análise ética sobre
o Projeto de Lei do Senado número 631 de 2015 e seu parecer de aprovação, sob
dois pontos de vista. O primeiro se refere à novidade do termo senciente que embasa
de modo geral a proposta do Senador Marcelo Crivella. O segundo versará sobre a
terminologia do especismo, utilizando o voto do Senador Antonio Augusto Anastasia
em seu parecer de aprovação.

3.1 ANÁLISE DO PROJETO DE LEI SOB O VIÉS DA DIMENSÃO ÉTICA

A ideia de viver de acordo com padrões éticos compreende defender e justificar


o modo como se vive. Os filósofos e moralistas antigos entendiam que a conduta ética
era aceitável quando vista de forma universal. Porém, de modo que as circunstâncias
se alteram conforme os casos concretos significa que ao admitirmos um juízo ético
externamos nossas preferências e aversões, mas mais do que isso, é aceitar que
nosso interesse pessoal não pode contar mais do que os interesses de outrem, pelo
simples fato de serem nossos interesses.70

Ao analisar a justificativa do Senador Marcelo Crivella, ao propor o Projeto de


Lei 631/2015, pode-se constatar que o ponto de vista ético utilizado por ele
compreende o reconhecimento dos animais não humanos como seres sencientes.
Como versa o capítulo II Do Direito dos Animais ao Bem-Estar, disposto no artigo 4º
do Projeto de Lei:

Art. 4o Todos os animais em território nacional serão tutelados pelo


Estado e possuem direito à existência em um contexto de equilíbrio
biológico e ambiental, de acordo com a diversidade das espécies,
raças e indivíduos.
§ 1º A integridade física e mental e o bem-estar dos animais são
considerados interesse difuso, impondo-se ao Poder Público e à
coletividade o dever de protegê-los e de promover ações que
garantam o direito estabelecido no caput, além de coibir práticas
contrárias a esta Lei;
§2º Aos animais deve ser dispensada a dignidade de tratamento
reservada aos seres sencientes;
§3º Os animais têm interesses individuais e coletivos, distintos dos
interesses individuais e coletivos dos seres humanos, devendo a
autoridade, no caso de colisão de 3 interesses, proceder a uma
ponderação que não se confine a juízos de utilidade ou de
70 SINGER, Peter. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p 18, 20 e 21.
26

funcionalização aos interesses individuais e coletivos dos seres


humanos;71 [grifo nosso]

A senciência animal consiste na capacidade de sentir e reagir a um estímulo


de forma consciente, ou seja, ser senciente é ser consciente do que lhe acontece. Ser
dotado da consciência significa ser afetado pelas experiências que se vive, tanto as
negativas quanto as positivas. Portanto, capacidade de sofrer danos e benefícios e
entendê-los, sendo estes físicos ou psicológicos.72

Jeremy Bentham foi o primeiro filósofo do século XIX a falar em senciência,


apontando a capacidade de sofrer e de sentir alegria como característica vital que
confere direitos e igual consideração a um ser, isto é, a condição para se ter qualquer
interesse. Quando tratava sobre direitos, em verdade, se referia à proteção que
pessoas e animais deveriam possuir, discordando da ideia de que os animais, por não
possuírem a linguagem poderiam ser tratados como simples objetos.73

Para entender melhor a questão da senciência do ponto de vista neurológico,


cabe esclarecer que o sistema nervoso dos animais evoluiu exatamente como o
nosso. Os sinais exteriores de dor em outras espécies podem ser observados de modo
que o comportamento inclui contorções, gemidos e latidos de forma a evitar a fonte
daquela dor, ou a mera demonstração de medo ao se perceber exposto à repetição
deste sentimento.74

As reações fisiológicas também se assemelham as do ser humano. Quando o


animal se encontra em situações que nós também sentiríamos dor, ocorre um
aumento da pressão sanguínea, as pupilas se dilatam, o pulso acelera podendo haver
a quebra da pressão arterial. Estes impulsos situam-se no diencéfalo – local do

71 BRASIL. Projeto de Lei do Senado 631, de 2015. Disponível em:


http://www.senado.leg.br/atividade/rotinas/materia/getPDF.asp?t=178966&tp=1 Acesso em 16 de out.
2016.
72 Animal Ethics. Senciência Animal. Disponível em:

http://www.animal-ethics.org/senciencia-animal/ Acesso em 16 de out. 2016


73 SINGER, Peter. Libertação animal: o clássico definitivo sobre o movimento pelos direitos dos

animais. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010, p 5.


74 BRAIN, 1962 apud SINGER, Peter. Libertação animal: o clássico definitivo sobre o movimento

pelos direitos dos animais. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010, p 10.
27

cérebro responsável pelos impulsos – o que é bem desenvolvido especialmente em


aves e mamíferos.75 A maioria dos cientistas concordam com a posição de um dos
mais importantes neurologistas britânicos, Lorde Brain:

Pessoalmente, não vejo razão para conceder uma mente aos meus
congêneres humanos e negá-la aos animas [...] Pelo menos, não
posso negar que os interesses e atividades dos animais estão
relacionados com uma consciência e uma capacidade de sentir da
mesma forma que os meus, e que estes podem ser, tanto quanto sei,
tão vívidos quanto os meus.76

A razão pela qual pode ser aduzida em favor do interesse no não sofrimento
dos animais não humanos consiste na compreensão que a experiência do sofrimento
não consentido pelos quais os animais são submetidos, atentam contra princípios
fundamentais da nossa própria espécie. Nesse sentido, questiona-se se não
deveríamos nutrir algum respeito pelos nossos semelhantes.77 E por mais que
apegados às influências antropocêntricas de que os interesses do ser humano
prevalecem sobre os demais, as explorações dolorosas não são justificáveis.78

É por esse motivo que a sensibilidade é o único limite defensável da


preocupação com os interesses alheios. Pois se esse limite fosse calcado na
racionalidade, equivaleria a determiná-lo de maneira injusta.79 No entanto, vale
ressaltar que os motivos pelos quais se argumenta para defender o reconhecimento
da senciência animal não se confundem nem se aplicam às plantas, visto que estas
não possuem sistema nervoso centralmente organizado como os nosso, humanos e
não humanos.80 Em se tratando da noção do bem-estar, o legislador previu o seguinte:

75 BRAIN, 1962 apud SINGER, Peter. Libertação animal: o clássico definitivo sobre o movimento
pelos direitos dos animais. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010, p 10.
76 BRAIN, 1962 apud SINGER, Peter. Libertação animal: o clássico definitivo sobre o movimento

pelos direitos dos animais. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010, p 11.
77 ARAÚJO, Fernando. A hora dos direitos dos animais. Coimbra: Almedina, 2003, p 96.
78 ARAÚJO, Fernando. A hora dos direitos dos animais. p 98.
79 SINGER, Peter. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p 68.
80 SINGER, Peter. Ética prática. p 80.
28

Art. 3º Para os efeitos desta Lei, entende-se por: [...]


III – bem-estar animal: a promoção da saúde física e mental dos
animais, de modo a lhes assegurar o provimento de suas
necessidades naturais e liberdades.81

A linha bem-estarista utilizada pelo legislador encontra respaldo na abordagem


de Peter Singer, que concorda com a serventia dos recursos animais desde que haja
respeito e consideração por seu bem-estar.82 Para ele, a vivência do animal em
ambientes dignos e naturais concede um saldo positivo em relação ao sofrimento ou
frustrações deste e não levar em consideração o seu bem-estar é negligenciar o
processo da tomada de decisões.83

A consagração dessa nova sensibilidade deriva da consideração da própria


natureza dos animais.84 Assim, encontra-se adequadamente figurada em uma
perspectiva segundo a qual é importante concebermos uma noção de liberdade que
tenha atenção na necessidade de residirmos em um contexto ambiental onde os
interesses das espécies não-humanas sejam ponderados e equilibrados tanto quanto
os nossos.85

Entender a senciência como aspecto valoroso à vida dos animais não humanos
demonstra tamanha sensibilidade do legislador ao perceber um novo preceito ético no
direito brasileiro. Adotar as condutas previstas nos dispositivos de lei implicaria na
transformação das atitudes da sociedade na alimentação, no consumo, no
entretenimento e diversos outros pontos que, por consequência, colaboraria para a
redução do sofrimento desnecessário destas criaturas dotadas de sensibilidade.

Em seu Projeto de Lei, o Senador Marcelo Crivella ponderou a necessidade de


haver uma legislação que vede lesão moral aos animais e sofrimentos
desnecessários, tais como os que ocorrem com a atual crueldade no procedimento do

81 BRASIL. Projeto de Lei do Senado 631, de 2015. Disponível em:


http://www.senado.leg.br/atividade/rotinas/materia/getPDF.asp?t=178966&tp=1 Acesso em 18 de out.
2016.
82 SINGER, Peter. Libertação animal. 1ª ed. São Paulo: Ed.WMF Martins Fontes Ltda, 2013. p. 15.
83 SINGER, Peter. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p 291.
84 ARAÚJO, Fernando. A hora dos direitos dos animais. Coimbra: Almedina, 2003, p 30.
85 ARAÚJO, Fernando. A hora dos direitos dos animais. p 31.
29

abate, das pesquisas científicas e demais utilidades tiradas em proveito e ao critério


dos seres humanos.

Em 09 de março de 2016, o Senador Antonio Augusto Anatasia votou a favor


do Projeto de Lei do Senado número 631 de 2015, propondo contribuições
substitutivas no tocante à obrigatoriedade de identificação individual dos bichos para
adoção. Também propõe a alteração da Lei de Crimes Ambientais86 quanto à
harmonização para com as infrações e sanções administrativas.87

No entanto, o Senador Anatasia, em seu relatório, proferiu manifestação


contrária ao trecho que ninguém deverá causar lesão moral aos animais. Isso porque
a Constituição Federal de 1988 não ainda prevê que os animais devem ser tratados
como sujeitos de direito, pois para o direito brasileiro, estão na categoria de bens. O
Senador também preferiu por excluir do rol de maus-tratos as pesquisas científicas na
área da saúde, bem como a situação do abate de animais para fins comerciais, que
deverá ser objeto de legislação específica.88

A utilização de animais para fins alimentícios, comerciais e de pesquisas


científicas se trata dos maiores exemplos de especismo praticados em grande
escala.89 O especismo pode ser entendido como uma forma de descriminação contra
criaturas que não recebem consideração moral em razão de não pertencerem à
determinada espécie.90 A discriminação contra animais não humanos é uma questão
de não dar a mesma relevância aos danos e benefícios que estes venham a sofrer,
como se relevaria se acontecesse com os seres humanos. Inclusive, certos animais
além de serem discriminados em relação à espécie humana, também são
discriminados em relação a outros animais não humanos.91

86 BRASIL. Lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Disponível em:


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9605.htm Acesso em 20 de out. 2016
87 Atividade Legislativa. Projeto de Lei do Senado Número 631 de 2015. Disponível em:

http://www.senado.leg.br/atividade/rotinas/materia/getTexto.asp?t=188923&c=PDF&tp=1 Acesso em
20 de out. 2016
88 Agência do Senado. Estatuto dos Animais é aprovado pela CCJ. Disponível em:

http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/03/30/estatuto-dos-animais-e-aprovado-pela-ccj
Acesso em 20 de out. 2016.
89 SINGER, Peter. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 78.
90 Animal Ethics. Especismo. Disponível em: <http://www.animal-ethics.org/especismo-

pt/&gws_rd=cr&ei=_WsKWMOzMIGfwASb367gBw> Acesso em 21 de out. 2016


91 Animal Ethics, loc. cit.
30

Um típico exemplo dessa forma de especismo entre dois ou mais animais não
humanos, pode ser constatado na ideia de que a maioria das pessoas pode achar um
absurdo a questão cultural dos chineses usarem carne de cães para sua alimentação,
mas no Brasil, a carne das vacas também é comumente utilizada para o mesmo fim.
Através de um ponto de vista especista, a sociedade vê a vida de uns animais com
mais valor do que a vida de outros.

Ao analisarmos a ética no uso da carne de animais para alimentação humana,


percebemos que se trata de uma questão de preferência do consumidor e não de uma
necessidade. Para que a carne chegue aos nossos pratos pelo menor custo possível,
toleram-se os cruéis métodos de produção intensiva em que os animais se encontram
em condições impróprias e espaços minúsculos, submetidos a vidas miseráveis.92
Fala-se em preferência ao invés da necessidade pelo seguinte exemplo que Peter
Singer dá:

Os esquimós, que vivem num ambiente que os coloca diante das


alternativas de matar os animais para comê-los o morrer de fome,
podem ser justificados quando afirmam que o seu interesse em
sobreviver sobrepõe-se ao dos demais animais que matam. [...] Os
cidadãos das sociedades industrializadas podem facilmente conseguir
uma alimentação adequada sem que seja preciso recorrer à carne. O
peso avassalador do testemunho médico indica que a carne animal
não é necessária para a boa saúde.93

A preferência no consumo da carne de animais acontece porque desde


crianças somos influenciados a consumir recursos animais muito antes de entender
que se trata de um animal morto. É na infância que se adquire os primeiros contatos
e afeição com animais de estimação, tais como cães e gatos. Logo,
inconscientemente, surge um comportamento dúbio referente à forma como vemos os
animais e não associamos o bife no nosso prato a um cadáver. Para Singer, a falta de
informação é uma das principais causas do especismo, porque a ignorância prevalece
há tanto tempo que ninguém quer saber a verdade.94

92SINGER, Peter. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 73.
93SINGER, Peter. Ética prática. p. 72.
94SINGER, Peter. Libertação animal: o clássico definitivo sobre o movimento pelos direitos dos

animais. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010. xxvii, p. 315.


31

A importância de estabelecer criteriosamente a consideração do bem-estar


animal para regulamentar de forma rígida o abate para fins comerciais, torna-se
notória pelo seguinte exemplo que, Eduardo Corassa, em Revolução Vegana,
apresenta sobre o tipo de vida doloroso que os gados são submetidos e o sofrimento
desnecessário pelo qual passam:

O gado, preso em minúsculas celas chega a ter suas fezes


amontoadas até seus joelhos, chegando aos abatedouros cobertos de
fezes. Alguns animais chegam a ser brutalmente maltratados, sendo
espancados e uns até tem seus membros cortados ou são
escalpelados vivos. Muitos, inclusive, nunca chegam a ver a luz do sol
e sua prole tem o leite roubado para o consumo humano.95

Dentre tantas outras atrocidades cometidas contra os animais que tem por
finalidade o abate, como o transporte, o confinamento das galinhas e a marcação com
ferro em brasa, conclui-se que se faz fundamental a mudança no método utilizado
atualmente.

Outro campo em que o especismo é claramente observado é para a experiência


em animais.96 A justificativa contraditória usada para a realização das pesquisas
científicas nos animais é que eles são semelhantes a nós, seres humanos, em
aspectos cruciais, mas que neles é plausível realizar a experimentação, porque eles
são diferentes de nós.97

A noção de que as experiências feitas em animais levam os cientistas a


constatar descobertas sobre os seres humanos, algumas vezes é equivocada, porque
em muitos casos os benefícios para os seres humanos são incertos e até mesmo
inexistentes. Também, em outros feitos, já não se fazem mais necessárias essas
pesquisas e o sofrimento pode ser impedido pelo fato de existir meios alternativos
para testar a segurança de determinados produtos.98 Novamente, Peter Singer nos
aponta a crueldade com que ocorrem os testes em macacos:

95 CORASSA, Eduardo. Revolução vegana. 1ª ed. Rio de Janeiro: Saúde Frugal, 2014. p. 38.
96 SINGER, Peter. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 75.
97 MEDEIROS, Fernanda; FARACO, Ceres. Primeiro Painel sobre Direitos Animais. Palestra

realizada na Universidade Ritter dos Reis - Campus Canoas, em 11 de maio de 2016.


98 SINGER, Peter. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 76.
32

Em muitos países, as forças armadas fazem experiências atrozes com


animais, que raramente chegam ao conhecimento do público. [...] no
Instituto de Radiobiologia das Forças Armadas dos Estados Unidos,
em Bathesda, Maryland, os macacos do gênero Rhesus têm sido
treinados para correr dentro de uma grande rosa. Se reduzirem muito
a velocidade, a roda faz o mesmo, e os macacos levam um choque
elétrico. Quando os macacos já foram treinados para correr por longos
períodos, recebem uma dose letal de radiação. E então, sentindo-se
mal e vomitando, são forçados a continuar correndo até cair. A suposta
finalidade disso é obter informações sobre a capacidade dos soldados
de continuarem a lutar depois de um ataque nuclear.99

A argumentação utilizada para o uso de não humanos para a finalidade de


pesquisas científicas demonstra extremo especismo pela discriminação unicamente
com base na espécie. Hipoteticamente, os cientistas não deixariam de atribuir valor
moral ao realizar experiências em humanos órfãos e com graves lesões cerebrais,
ainda que cães, macacos e até ratos sejam muito mais inteligentes e conscientes do
que lhes acontece do que estes humanos, mesmo que essa fosse a única maneira de
salvar a vida de milhões de pessoas.100

É evidente e compreensível que as pessoas terão mais empatia com outro ser
humano, no entanto, estreitar nossas obrigações morais com base na genética em
comum já autorizou atitudes egocêntricas, racistas, etnocêntricas e xenófobas.101
Nesse contexto, o especismo representa um conformismo como se a ética não tivesse
evolução. Muitas vezes no passado, o juízo de valor do ser humano revelou atos
perversos em relação às mulheres, escravos e estrangeiros, que cabe questionar se
não estaríamos cometendo o mesmo tipo de erro em face dos animais não
humanos.102

Colocando em termos fundamentais, tanto a pecuária quanto a ciência, entre


outras áreas que utilizam recursos animais, pelo fato de serem tratados
sistematicamente e cotidianamente como se seus valores intrínsecos fossem
reduzidos simplesmente à utilidade que eles têm para o ser humano, eles são do

99 SINGER, Peter. Ética prática. p. 76.


100 SINGER, Peter. Ética prática. p. 77 e 78.
101 ARAÚJO, Fernando. A hora dos direitos dos animais. Coimbra: Almedina, 2003, p 135.
102 ARAÚJO, Fernando. A hora dos direitos dos animais. p. 139.
33

mesmo modo, cotidianamente tratados com falta de respeito. Tendo assim,


cotidianamente seus direitos violados.103

De modo geral, como estudado no capítulo anterior, pode-se deduzir que o


especismo faz parte da história da sociedade, mas se caracteriza insustentável pela
sua natureza de hierarquia do homem sobre a natureza e os demais seres “inferiores”.
Sendo esta prepotência geradora de preconceitos tão fortemente combatidos na
história da humanidade, há de que falar na inclusão dos animais como sujeitos de
direitos.

Ser um sujeito de direitos, como ensina o professor de direito civil, Fábio Ulhoa
Coelho, significa gênero, ou seja, nem todo sujeito de direito é pessoa, embora toda
pessoa seja sujeito de direito.104 Para Fábio Ulhoa Coelho, existe um critério de
classificação que entende os sujeitos de direitos como humanos e não humanos. Os
humanos são as pessoas naturais, homens e mulheres, desde a concepção como
embriões. Já os não humanos, podem ser entendidos como as pessoas jurídicas, a
massa falida e o condomínio edilício, entre outros. Esses conceitos foram criados para
disciplinar interesses potencialmente conflitantes.105

A possibilidade dos animais não humanos se tornarem sujeitos de direito pelo


ordenamento jurídico brasileiro já é concebida por alguns doutrinadores atualmente.
O grande obstáculo para admitir essa concessão é justamente a natureza jurídica dos
mesmos em nossa legislação, que entende primeiramente os animais silvestres como
um bem de uso comum do povo e os animais domésticos como bens semoventes
passíveis de apropriação.106

Em contraponto, embora estes não possuam linguagem e capacidade para ter


uma identidade civil, é correto afirmar que são detentores de direitos em virtude das
leis que os protegem e pela condição natural de ser vivo, tal como os juridicamente

103 REGAN, Tom. The case for animal rights. Revista Brasileira de Direito Animal. Salvador :
Evolução ; Instituto Abolicionista pelos Animais v.8, n.12, jan./abr. 2013, p 36. Tradução de Heron
José Santana Gordilho.
104 COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito civil. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 137.
105 COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito civil. p. 138 e 139.
106DIAS, Edna Cardozo. Os animais como sujeitos de Direito. Fórum de Direito Urbano e

Ambiental, Belo Horizonte, Fórum v.4, n.23, set./out. 2005, p 2745.


34

incapazes, podendo ter seus direitos postulados e defendidos por meio da


representatividade do Ministério Público e da coletividade.107

Outra crítica frequentemente utilizada para não atribuir aos animais a


classificação de sujeito de direitos, é que os sujeitos titulares de direitos, também são
titulares de deveres.108 Nessa perspectiva, a professora de direito ambiental, Edna
Cardozo Dias, faz uma pertinente observação:

O fato de o homem ser juridicamente capaz de assumir deveres em


contraposição a seus direitos, e inclusive de possuir deveres em
relação aos animais, não pode servir de argumento para negar que os
animais possam ser sujeitos de direito. É justamente o fato dos
animais serem objeto de nossos deveres que os fazem sujeitos de
direito, que devem ser tutelados pelos homens. Podemos concluir que
os animais são sujeitos de direitos e que seus direitos são deveres de
todos os homens.109

Pondera, também, Lourenço Daniel Braga, em Direito dos animais:

Pode ser dizer que existem alguns “caminhos básicos” a trilhar,


que seriam os seguintes: 1) a personificação dos animais,
equiparando-os juridicamente aos seres humanos absolutamente
incapazes; 2) a utilização da teoria dos entes despersonalizados,
sendo os animais “sujeitos de direito”; 3) uma categoria intermediária
situada entre coisas e pessoas (um tertium genus), sendo
esta uma posição adotada por alguns países europeus, como
no caso da legislação da Alemanha, que retirou definitivamente
os animais da classificação e coisas.110

A questão é que o tratamento dado atualmente não é condizente com a


condição natural do animal e com o nível de conhecimento que hoje já foi alcançado
pela ciência em geral. A concepção dos animais tidos como objetos já está
comprovadamente superada na ciência e na psicologia, apesar de servir de pano de
fundo para a legitimação de condutas antiéticas em função do conflito de interesses

107 DIAS, Edna Cardozo. Os animais como sujeitos de Direito. Fórum de Direito Urbano e
Ambiental, Belo Horizonte, Fórum v.4, n.23, set./out. 2005, p 2745.
108 TOLEDO, Maria Izabel Vasco de.Tutela Jurídica dos Animais no Brasil e no Direito Comparado.

Revista Brasileira de Direito Animal. Ano 7, vol. 11, jul./dez. 2012, p. 210.
109DIAS, Edna Cardozo. Os animais como sujeitos de Direito. Fórum de Direito Urbano e

Ambiental, Belo Horizonte, Fórum v.4, n.23, set./out. 2005, p 2746.


110 LOURENÇO, Daniel Braga. Direito dos animais: fundamentação e novas perspectivas. Porto

Alegre: Sergio Antonio Fabris, 2008, p. 485 e 486.


35

onde vence o intelectualmente mais forte. Restando assim, um Direito atrasado em


relação à concreta atualidade.111

A professora de veterinária da USP, Dra. Irvênia Prada, dedicou-se aos estudos


as neuroanatomia animal e esclarece que a ideia egoísta e antropocêntrica de que
somente os seres humanos têm alma é equivocada. Não se trata de um contexto
religioso, neste caso a alma representa animus, isto é, os não humanos são capazes
de raciocínio simples, de aprender, de ter emoções, memória e inclusive encontrar
soluções rápidas para alguns de seus problemas. O atributo animus significa
consciência, vontade e inteligência.112

Neste aspecto, a demanda não se tem sentido de tratar animais como seres
humanos, mas tratá-los com dignidade segundo aquilo que isto represente de acordo
com a lógica de seus processos orgânicos determinadores de suas necessidades de
saúde e bem-estar. 113 A transformação constante da ciência do direito é uma
característica que, embora não unanime, é irrefutável e tem obrigação de acompanhar
os avanços da sociedade. A mudança de paradigma para o reconhecimento dos
animais não humanos como detentores de direitos não representa mais uma ideia
utópica, mas sim uma realidade fática, pois a defesa dos interesses dos minoritários
tem pulsado cada vez com mais intensidade na esfera jurídica e a consequência
dessas mudanças implicará numa maior equidade e num direito mais justo e
adequado.114

111 CARDOSO, Haydée Fernanda. Os Animais e o Direiro. Novos Paradigmas. Revista Brasileira de
Direito Ambiental. Salvador : Evolução ; Instituto Abolicionista pelos Animais v.2, n.2, jan./jun.2007,
p. 97 e 98.
112 PRADA, Irvênia. A Alma dos Animais. 2ª Impressão. Campos do Jordão, SP. Edição Mantiqueira,

1997, p. 13.
113 CARDOSO, Haydée Fernanda. Os Animais e o Direiro. Novos Paradigmas. Revista Brasileira de

Direito Ambiental. Salvador : Evolução ; Instituto Abolicionista pelos Animais v.2, n.2, jan./jun.2007,
p. 117.
114 CARDOSO, Haydée Fernanda. Os Animais e o Direito. Novos Paradigmas. Revista Brasileira de

Direito Ambiental. Salvador : Evolução ; Instituto Abolicionista pelos Animais v.2, n.2, jan./jun.2007,
p. 119.
36

3.2 CASOS JURÍDICOS SOB A PERSPECTIVA DOS DIREITOS DOS ANIMAIS

Apesar do ordenamento jurídico brasileiro ainda não estar devidamente


adaptado com as novas concepções éticas sobre os animais não humanos e existir
uma certa divergência de entendimentos, atualmente vêm aparecendo no cenário
jurídico alguns casos e decisões em favor dessa nova compreensão de atribuição de
direitos aos animais, que demonstram verdadeiros avanços.

O primeiro grande caso que entrou para a história da justiça brasileira foi o
Habeas Corpus impetrado em favor da chimpanzé de nome Suíça, no dia 19 de
setembro do ano de 2005, pelo promotor Heron José de Santana.115 O caso ocorreu
no Jardim Zoológico de Salvador onde a referida integrante da espécie chimpanzé se
encontrava confinada em uma jaula de 77,56 m² e altura de 4 metros privada do seu
direito de locomoção. A jaula apresentava sérios problemas de infiltrações e a
estrutura física não possuía condições de comportar um chimpanzé.116

É importante ressaltar que assim como os humanos, os chimpanzés são


animais altamente emotivos e se aprisionados, vivem em constante situação de
estresse, o que os levam a viver em um mundo imaginário semelhante a seres
humanos autistas. Também é uma peculiaridade da espécie que estes animais não
conseguem viver enclausurados, além de geralmente o estresse levar a disfunções
do instinto sexual, eles podem vir a perder sua própria identidade de forma
permanente, situação a qual constitui um ato de crueldade.117

O conteúdo do Habeas Corpus fundamenta que as leis devem evoluir de acordo


com a maneira como a sociedade se comporta. Muitos autores acreditam que o Poder
Judiciário é instrumento poderoso no processo de mudança social e que, quando as
atitudes públicas mudam, a lei também muda. Essa ideia corresponde a um padrão

115 BRASIL. Tribunal de Justiça da Bahia. Habeas Corpus 833085-3/2005 (TJ-BA). Impetrantes:
Héron José de Santana e Luciano Rocha Santana e outros. Paciente: Chimpanzé Suíça. Julgador:
Edmundo Lúcio da Cruz. Julgado em: 28/09/2005. Disponível em: <
http://www.portalseer.ufba.br/index.php/RBDA/article/view/10259/7315> Acesso em 27 de out. 2016.
116 SANTANA, Heron José de. Ordem de Habeas Corpus em Favor de “Suíça”. Fórum de Direito

Urbano e Ambiental. Belo Horizonte, Fórum v.4, n.23, set./out. 2005, p 2748.
117 SANTANA, Heron José de. Ordem de Habeas Corpus em Favor de “Suíça”. Fórum de Direito

Urbano e Ambiental. p 2748.


37

de mudança moral em que não existem dúvidas que o lugar dos animais tem mudado
para o centro de um debate ético.118

Um dos argumentos do Habeas Corpus, com base na teoria de Gary Francione,


é que há a necessidade de enfrentar a questão dos direitos para além da espécie
humana.119 A própria expressão “ser humano” tem sentido de indicador de consciência
de si, autocontrole, curiosidade, capacidade de se relacionar e se comunicar com os
outros.120 Características estas encontradas nos chimpanzés que devem ser
abarcados pelo conceito de pessoa por meio de uma interpretação extensiva.121
Conforme a íntegra do requerimento:

3 Do pedido
Ex positis, espera a paciete que, num gesto de estrita JUSTIÇA,
considerando-se a Lei e o Direito, o insigne magistrado, conhecendo
do pedido, defira LIMINARMEMENTE o presente mandamus, [...].
Ultimando, constitui a presente writ, único instrumento possível para,
ultrapassando o sentido literal de pessoa natural, alcançar também os
homenídeos, e, com base no conceito de segurança jurídica
(ambiental), conceder ordem de habeas corpus em favor da
chimpanzé “Suíça”, determinando a sua transferência para o Santuário
dos Grandes Primatas do GAP, que, inclusive, já disponibilizou o
transporte para a execução da devida transferência (fls. 124). Nesse
Santuário, “Suíça” poderá conviver com um grupo de 35 membros de
sua espécie, num local amplo e aberto, ter uma vida social condizendo
com sua espécie, inclusive construindo uma família e procriando, e, de
uma forma ou de outra, garantindo a sobrevivência de uma espécie
que possui antepassados comuns com a nossa.122 [grifo do autor]

Lamentavelmente, com a demanda em andamento, dia 27 de setembro de


2009, a chimpanzé Suíça veio a óbito, no entanto, com a apreciação do Habeas
Corpus impetrado em seu favor pode ser considerado um caso vitorioso mesmo não

118 SANTANA, Heron José de. Ordem de Habeas Corpus em Favor de “Suíça”. Fórum de Direito
Urbano e Ambiental. Belo Horizonte, Fórum v.4, n.23, set./out. 2005, p 2749.
119 SANTANA, Heron José de. Ordem de Habeas Corpus em Favor de “Suíça”. Fórum de Direito

Urbano e Ambiental. p 2753.


120 SINGER, Peter. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 96.
121 SANTANA, Heron José de. Ordem de Habeas Corpus em Favor de “Suíça”. Fórum de Direito

Urbano e Ambiental. p 2755.


122 SANTANA, Heron José de. Ordem de Habeas Corpus em Favor de “Suíça”. Fórum de Direito

Urbano e Ambiental. p 2758.


38

tendo chego ao final.123 A decisão do Juiz Edmundo Cruz abriu um importante


precedente pra a defesa da causa animal:

Com 24 anos de magistratura, atuando sempre em Varas Criminais, é


este o primeiro caso que me veio às mãos, em que paciente de
Habeas Corpus é um animal, precisamente uma chimpanzé.
Entretanto, o tema merecia uma ampla discussão,eis que a matéria é
muito complexa, exigindo alta indagação, que importaria em
aprofundado exame dos argumentos “prós e contras”, por isso indeferi
a concessão liminar “inaudita altera pars” do Habeas Corpus,
preferindo colher informações para instruir o pedido à autoridade
coatora, no caso o Sr. Thelmo Gavazza, Diretor de Biodiversidade da
Secretaria de Meio Ambiente, concedendo a esta o prazo de 72 horas
para fazê-lo.[...] É certo que, com tal decisão inicial, admitindo o debate
em relação ao assunto aqui tratado, contrariei alguns “juristas de
plantão”, que se esqueceram de uma máxima de Direito Romano que
assim preceitua: [...]em qualquer disposição deve-se fazer a
interpretação de modo que as palavras não sejam supérfluas e sem
virtude de operar [...].Tenho a certeza que, com a aceitação do
debate, consegui despertar a atenção de juristas de todo o país,
tornando o tema motivo de amplas discussões, mesmo porque é
sabido que o Direito Processual Penal não é estático, e sim sujeito
a constantes mutações, onde novas decisões têm que se adaptar
aos tempos hodiernos. Acredito que mesmo com a morte de “Suíça”,
o assunto ainda irá perdurar em debates contínuos, principalmente
nas salas de aula dos cursos de Direito, eis que houve diversas
manifestações de colegas, advogados, estudantes e entidades outras,
cada um deles dando opiniões e querendo fazer prevalecer seu ponto
de vista. É certo que o tema não se esgota neste “Writ”, continuará,
induvidosamente, provocando polêmica.124 [grifo nosso]

O processo foi extinto sem julgamento do mérito em razão do óbito da


chimpanzé Suíça, contudo, cabe observar que tanto a impetração do Habeas Corpus
com sua fundamentação ética, quanto a viabilidade de apreciação do caso pelo
Tribunal de Justiça da Bahia, principalmente no que diz respeito a adaptação do
direito, revelou tamanho progresso na justiça brasileira.

123 GONÇALVES, Luciana Helena. HABEAS CORPUS EM FAVOR DE CHIMPANZÉ: o possível


reconhecimento de um “outro alguém”. Disponível em: <
http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=38ba51573e7ad3ef> Acesso em 27 de out. 2016.
124 BRASIL. Tribunal de Justiça da Bahia. Habeas Corpus 833085-3/2005 (TJ-BA). Impetrantes:

Héron José de Santana e Luciano Rocha Santana e outros. Paciente: Chimpanzé Suíça. Julgador:
Edmundo Lúcio da Cruz. Julgado em: 28/09/2005. Disponível em: <
http://www.portalseer.ufba.br/index.php/RBDA/article/view/10259/7315> Acesso em 27 de out. 2016.
39

Outro avanço no quadro legislativo brasileiro foi a sanção da Lei das


Carroças125 pelo ex-prefeito José Fogaça, a qual visa a diminuição do trânsito de
carroças no município de Porto Alegre.126 A criação da lei foi de iniciativa do vereador
Sebastião Melo em 2008, que teve por objetivo oferecer proteção jurídica e uma
melhor qualidade de vida aos cavalos vítimas de abuso por servidão e a
implementação de políticas que possibilitem o deslocamento do “carroceiro” para
outros ramos do mercado de trabalho.127

O drama dos animais que servem para tração começa com a justificativa do
uso destes veículos como meio legítimo para sobrevivência das pessoas com menor
poder aquisitivo, contudo, a submissão dos animais a maus-tratos e atos cruéis
continua sendo uma conduta reprovável de servidão.128 Não se pode deixar passar
despercebido o tratamento cruel que sofrem os equinos ao puxar as carroças, muitas
vezes cansados e machucados aguentando o laço do chicote até o limite de suas
forças.129 Laerte Fernando Levai, aponta:

[...] cavalos, jumentos e burros são utilizados como instrumentos para


atingir fins que lhes são estranhos. Sua rotina invariavelmente
permeada pelo sofrimento consiste em carregar pela cidade materiais
e mercadorias diversas, areias, madeira, entulho. [...] Também as
éguas prenhas são forçadas a puxar carroças, sofrendo brutal
exploração até o dia do parto (caso não sofram, antes, um
abortamento). Depois, postas outra vez para acasalar, acabam
retornando ao trabalho. Essa é, em síntese, a vida sofrida de todos os
animais utilizados em serviço de tração.
Quantas vezes, em meio ao trânsito urbano, não se nos depara uma
carroça carregada de entulho, cujo animal é constantemente
chicoteado pelo condutor [...]? Ninguém se preocupa com a situação
destes animais, nem com o peso – tantas vezes exagerado – da carga,
tampouco com suas condições de saúde ou com os abusos cometidos
pelo homem que traz o relho na mão.130

125 PORTO ALEGRE. Lei 10.531, de 10 de setembro de 2008.


126 ESPAÇO Vital. Tribunal mantém a lei das carroças em Porto Alegre. Disponível em:
http://espaco-vital.jusbrasil.com.br/noticias/1948638/tribunal-mantem-a-lei-das-carrocas-em-porto-
alegre Acesso em 31 de out. 2016
127 AGUIAR, João Batista Santafé. Mantida em vigor a “lei das carroças” em Porto Alegre.

Disponível em:
http://www1.tjrs.jus.br/site/imprensa/noticias/#../../system/modules/com.br.workroom.tjrs/elements/noti
cias_controller.jsp?acao=ler&idNoticia=88397 Acesso em 31 de out. 2016
128 LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos animais. 2. ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2004, p.

118.
129 LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos animais. p. 119 e 120.
130
LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos animais. 2. ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2004, p.
120.
40

Além de todo o trabalho de servidão, os cavalos usados para este fim


desenvolvem doenças ósseas como artrose pela colocação das ferraduras que
necessita de um número específico, tais como os sapatos, o que não é observado
pelos carroceiros, bem como pelo peso impróprio que carregam. Outra consequência
são as doenças pulmonares que desenvolvem em razão de passarem a maior parte
do tempo respirando o monóxido de carbono expelido pelos veículos.131 Outra vez,
Levai nos alerta:

[...] não se vê nenhuma medida eficaz contra a crueldade. [...]


Assistência veterinária aos cavalos em tempos práticos, soa como
ilusão. Se o carroceiro mal possui recursos para manter a si e à sua
família, como esperar que ele assuma despesas médicas para tratar
de seu animal doente? [...] seu destino dificilmente será outro que não
o abandono cruel ou o matadouro.132

Embora a Lei Municipal tenha sido objeto de uma Ação Direta de


Inconstitucionalidade onde a Procuradoria-Geral de Justiça do Estado do Rio Grande
do Sul alegue que a iniciativa de leis esteja reservada ao Poder Executivo, a ação foi
julgada improcedente, ressaltando o magistrado que se trata de um programa o qual
não há problema algum colocá-lo em execução. Salientando, ainda, o prestígio para
com o poder público municipal, que são competentes e aptos para solucionar as
questões locais. Desde então, o Decreto Municipal número 16.247/2009133 passou a
regulamentar a Lei.134

Destarte, resta de imensa percepção a importância da Lei Municipal das


Carroças em Porto Alegre a fim de reduzir esta dolorosa situação que vivem os
equinos atualmente, para que vivam de forma digna e isentos de maus-tratos. Com a
sanção e execução em prática da Lei, acredita-se novamente que as leis devem e irão

131 SPERB, Miriam. Cavalos que puxam carroças ainda sofrem maus-tratos. Disponível em: <
http://www.portalsatc.com/site/interna.php?i_conteudo=15283> Acesso em 31 de out. 2016.
132 LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos animais. 2. ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2004, p.

119 e 120
133 PORTO ALEGRE. Decreto 16.247, de 13 de março de 2009.
134 AGUIAR, João Batista Santafé. Mantida em vigor a “lei das carroças” em Porto Alegre.

Disponível em:
http://www1.tjrs.jus.br/site/imprensa/noticias/#../../system/modules/com.br.workroom.tjrs/elements/noti
cias_controller.jsp?acao=ler&idNoticia=88397 Acesso em 31 de out. 2016
41

se moldar de acordo com a mudança de paradigma da sociedade que vem


demonstrando defender o direito de minorias.

Em maio de 2011, no cenário jurídico houve mais uma conquista no que tange
o progresso da defesa dos direitos dos animais com o julgamento da Ação Direta de
Inconstitucionalidade número 1.856, do Rio de Janeiro, pelo Supremo Tribunal
Federal. A mencionada peça foi proposta pela Procuradoria-Geral da República a fim
de questionar a validade na constitucionalidade da Lei Fluminense135 que legitima
competições entre aves não pertencentes à fauna silvestre.

As chamadas “brigas de galo” são brigas entre aves, muitas vezes objetos de
apostas, que efetivamente participam de lutas em que os animais chegam à exaustão,
inclusive acarretam a própria morte.136 As aves levadas à rinha têm suas orelhas,
cristas e barbelas cortadas sem anestesia, com o bico e as esporas reforçadas com
aço de modo que o duelo não acaba enquanto um deles não cair morto. Também cabe
salientar que os galos são provocados pelos próprios apostadores.137

As rinhas de galo são consideradas práticas ilícitas no Brasil desde o ano de


1924138 e atualmente o fato é considerado crime ambiental, amparado no artigo 32 da
Lei de Crimes Ambientais:

Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais


silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos:
Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.
§ 1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou
cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos,
quando existirem recursos alternativos.

135 Art. 1º - Fica autorizada a criação e a realização de exposições e competições entre aves das
Raças Combatentes em todo o território do Estado do Rio de Janeiro, cuja regulamentação fica
restrita na forma da presente Lei. BRASIL, Lei estadual número 2.856, de 20 de março de 1998.
136 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Acórdão em Ação Direta de Inconstitucionalidade número

1856. Dje nº 198. Procurador-Geral da República e Governador do Estado do Rio de Janeiro.


Ministro-Relator Celso de Mello. 26 de maio de 2011. Disponível em: <
http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=628634> Acesso em 02 de nov.
2016.
137 LEVAI, Laerte Fernando. Direito dos animais. 2. ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2004, p. 59

e 60.
138 GORDILHO, Heron J. de S. Denúncia em Ação Penal Pública contra as rinhas de galo promovidas

por um grupo de particulares no Município de Salvador (Bahia). Revista Brasileira de Direito


Animal. Salvador : Evolução ; Instituto Abolicionista pelos Animais v.2, n.2, jan./jun.2007, p. 280.
42

§ 2º A pena é aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do


animal.139

O Plenário do Supremo Tribunal Federal considerou, de forma unânime,


inconstitucional a Lei estadual número 2.856 de 1998 pela afronta ao preceito
constitucional de proteção à fauna, previsto no artigo 225 da Constituição Federal de
1988.140 Para o Ministro-Relator, Celso de Mello, as brigas de galo são inerentemente
cruéis e incompatíveis com a nossa Constituição, uma vez que submetem as aves a
maus-tratos:

O fundamento em que se apóia a pretensão de inconstitucionalidade


do diploma legislativo em referência reside na prática de atos
revestidos de inquestionável crueldade contra aves das Raças
Combatentes (“gallus-gallus”) que são submetidas a maus-tratos, em
competições promovidas por infratores do ordenamento
constitucional e da legislação ambiental, que transgridem, com seu
comportamento delinquencial, a regra constante do inciso VII do § 1º
do art. 225 da Constituição da República, [...] Sendo assim, em face
das razões expostas e considerando, ainda, o parecer da douta
Procuradoria-Geral da República, julgo procedente a presente ação
direta, para declarar a inconstitucionalidade da Lei nº 2.895, de 20
de março de 1998,
editada pelo Estado do Rio de Janeiro.141 [grifo do autor]

Em seu voto, o Ministro-Relator Celso de Mello, ainda faz referência aos


precedentes dispostos no Recurso Extraordinário 153531-8 e na Ação Direta de

139 BRASIL. Lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Disponível em: <


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9605.htm> Acesso em 02 de nov. 2016
140 “EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE – BRIGA DE GALOS (LEI

FLUMINENSE Nº 2.895/98) – LEGISLAÇÃO ESTADUAL QUE, PERTINENTE A EXPOSIÇÕES E A


COMPETIÇÕES ENTRE AVES DAS RAÇAS COMBATENTES, FAVORECE ESSA PRÁTICA
CRIMINOSA – DIPLOMA LEGISLATIVO QUE ESTIMULA O COMETIMENTO DE ATOS DE
CRUELDADE CONTRA GALOS DE BRIGA – CRIME AMBIENTAL (LEI Nº 9.605/98, ART. 32) –
MEIO AMBIENTE – DIREITO À PRESERVAÇÃO DE SUA INTEGRIDADE (CF, ART. 225) –
PRERROGATIVA QUALIFICADA POR SEU CARÁTER DE METAINDIVIDUALIDADE – DIREITO DE
TERCEIRA GERAÇÃO (OU DE NOVÍSSIMA DIMENSÃO) QUE CONSAGRA O POSTULADO DA
SOLIDARIEDADE – PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL DA FAUNA (CF, ART. 225, § 1º, VII)
DESCARACTERIZAÇÃO DA BRIGA DE GALO COMO MANIFESTAÇÃO CULTURAL –
RECONHECIMENTO DA INCONSTITUIONALIDADE DA LEI ESTADUAL IMPUGNADA - AÇÃO
DIRETA PROCEDENTE.” (Acórdão, Relator Ministro Celso de Mello, Plenário do Supremo Tribunal
Federal, julgamento em 26.05.2011, Dje nº 98 de 14.10.2011)
141BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Acórdão em Ação Direta de Inconstitucionalidade número

1856. Dje nº 198. Procurador-Geral da República e Governador do Estado do Rio de Janeiro.


Ministro-Relator Celso de Mello. 26 de maio de 2011. Disponível em: <
http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=628634> Acesso em 02 de nov.
2016.
43

Inconstitucionalidade número 2514, que dispõem sobre a farra do boi e as rinhas de


galo, já julgadas como práticas inconstitucionais. Completando que a crueldade do
esporte como manifestação cultural está relacionada com a submissão do animal a
um mal desnecessário.142

Os demais ministros, Ayres Britto e Cezar Peluso, acompanharam o voto do


Ministro-Relator, afirmando que a Constituição Federal de 1988 repudia a execução
de animais pelo prazer mórbido, uma vez que o jogo só é válido se levar a o animal
até a morte. Bem como, aduziu o Ministro Peluso que a referida lei também fere a
dignidade da pessoa humana, porque, na verdade, implica de certo modo, um
estímulo às pulsões mais primitivas e irracionais do ser humano.143

Observa-se que em todos os casos apresentados – sejam eles decisões do


Supremo Tribunal Federal, ou iniciativas de lei – a motivação fundamental consiste
numa repressão eficaz de práticas violentas em relação aos animais, buscando
resguardar em primeiro lugar a integridade física e o bem-estar deles, ao invés dos
diversos interesses que o homem tem sobre isto. A partir desta análise, é possível
constatar que muitos juristas já enxergam a existência de direitos para além dos seres
vivos da espécie humana.

142BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Acórdão em Ação Direta de Inconstitucionalidade número


1856. Dje nº 198. Procurador-Geral da República e Governador do Estado do Rio de Janeiro.
Ministro-Relator Celso de Mello. 26 de maio de 2011. Disponível em: <
http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=628634> Acesso em 02 de nov.
2016.
143 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Acórdão em Ação Direta de Inconstitucionalidade número

1856. Dje nº 198. Procurador-Geral da República e Governador do Estado do Rio de Janeiro.


Ministro-Relator Celso de Mello. 26 de maio de 2011. Disponível em: <
http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=628634> Acesso em 02 de nov.
2016.
44

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

As práticas de exploração animal para os diversos tipos de consumo do ser


humano tiveram início ainda nos tempos primórdios e perduram até os tempos atuais
com base na ideia de hierarquia que existe do homem sobre a natureza e as demais
espécies julgadas inferiores. Mais precisamente, no Brasil, este consumo começou
por se tornar descontrolado a partir da colonização.

Observa-se que ao longo dos anos, no quadro legislativo brasileiro,


introduziram-se muitas normas regulamentares e coercitivas acerca da utilização e do
abuso da utilização dos animais para as mais variadas finalidades, como comerciais
e recreativas, por exemplo. Dentre estas normas estão o Código de Caça e a Lei de
Contravenções Penais.

No entanto, diante de um estudo mais crítico em relação aos institutos jurídicos


vigentes e leis que protegem os animais não humanos, consegue-se enxergar apenas
uma institucionalização desse demasiado consumo. Assim entendendo, que o objetivo
principal destas normas se fundamenta em resguardar o apego às vantagens que o
homem ganha sobre esta exploração.

Apesar de a Constituição Federal de 1988 prever expressamente no seu texto


constitucional o artigo 225, § 1º a proibição de maus-tratos e a preservação da fauna,
o ser humano continua a explorar e causar sofrimento aos animais para satisfazer
seus desejos de consumo pela carne, pele, diversão, transporte, entre outros recursos
que os animais podem lhe servir.

Acredita-se que as principais causas de estas normas não obterem efetiva


eficácia, ocorre em virtude de dois fatos que estão interligados: o primeiro, pelos traços
antropocêntricos que o direito ambiental ainda carrega consigo, o que legitima a
exploração. O segundo, pelo ordenamento jurídico considerar os animais não
humanos como bens semoventes passíveis de apropriação, ou seja, coisas.
45

Diante deste contexto, em 2015 fora aprovado pela Comissão de Constituição


e Justiça o Projeto de Lei do Senado número 631, o qual pretende ampliar o rol de
proteção contra maus-tratos e reconhecer os animais não humanos como seres
sencientes. Isso significa que estes animais são conscientes de si e capazes de sofrer
tanto fisicamente quanto psicologicamente.

Na propositura do Projeto de Lei justificou-se a necessidade de haver uma


norma protetiva de fato, que vede lesão moral aos animais. Contudo, o Senador
Antonio Augusto Anastasia, além de excluir alguns animais do rol de proteção,
entendeu que não é possível a iniciativa de uma legislação que proíba lesão moral
uma vez que animais não são sujeitos de direito.

A questão da senciência animal já é estudada e discutida por filósofos antigos,


como Jeremy Bentham, há bastante tempo. Contudo, atualmente alguns
doutrinadores contemporâneos trazem novos argumentos acerca da concessão de
direitos aos animais. Tom Regan foi o primeiro ativista a se posicionar pela abolição
da exploração animal como a decisão correta a ser tomada, e não apenas
regulamentação das práticas, alegando que os animais não humanos por serem
semelhantes ao ser humano em diversos aspectos, são sujeitos-de-uma-vida.

Peter Singer, conhecido pela linha bem-estarista, foi o responsável pela


reflexão entorno do abuso da utilização de animais nas demandas da sociedade e
acredita na adoção do princípio de igual consideração aos animais não humanos.
Assim, fundamenta que não está totalmente errado o uso dos animais desde que lhes
preze o bem estar e a minimização ao máximo possível do sofrimento ao qual são
submetidos.

Com a análise de alguns importantes casos jurídicos frente à perspectiva dos


direitos dos animais e as justificativas apresentadas sobre o Projeto de Lei número
631 de 2015, se compreende que a ideia especista está presente na sociedade e já
justificou terríveis formas de discriminação no passado. Por outro lado, a sociedade
tende a evoluir e transmutar seu pensamento, consequentemente, a ciência do direito
deve acompanhar essas mudanças e construir novos paradigmas.
46

O surgimento da iniciativa de propor um projeto de lei que consista em um


estatuto para os animais, é de suma importância para que o debate sobre conceder
direitos a outros seres vivos se desloque da parte “periférica” e passe para o centro
de discussões no direito brasileiro e das preocupações morais humanas. Destarte,
conclui-se que atribuir o status de sujeitos de direitos aos animais não humanos é uma
urgente necessidade e somente será viável quando forem destituídos do status de
propriedade. Nesse sentido, a consequência da atualização da base jurídica culminará
numa melhor conscientização e numa maior equidade para com a vida dos animais.
47

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SENADO FEDERAL
PROJETO DE LEI DO SENADO
Nº 631, DE 2015
Institui o Estatuto dos Animais e altera a redação do art.
32 da Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998.

O CONGRESSO NACIONAL decreta:

CAPÍTULO I

DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 1º O objetivo da presente Lei é assegurar e proteger a vida e o bem-estar


dos animais em todo o território nacional.

§ 1º Ninguém deverá, por razões não justificáveis, causar dor, sofrimento ou


lesão moral aos animais.

§ 2º O disposto nesta Lei aplica-se aos animais das espécies classificadas como
filo Chordata, subfilo Vertebrata, observada a legislação ambiental.

Art. 2º São objetivos desta Lei:

I – garantir o acesso à informação sobre o bem-estar dos animais e o estímulo à


conscientização e à educação para a guarda responsável;

II – combater os maus-tratos e toda forma de violência, crueldade e negligência


praticadas contra os animais;
2
III – proteger os animais contra sofrimentos desnecessários, prolongados e
evitáveis;

IV – promover a saúde dos animais com o objetivo de garantir a saúde da


população humana e a melhoria da qualidade ambiental como parte da saúde pública.

Art. 3º Para os efeitos desta Lei, entende-se por:

I –filo Chordata: animais que possuem, como características exclusivas, ao


menos na fase embrionária, a presença de notocorda, fendas branquiais na faringe e tubo
nervoso dorsal único;

II – subfilo Vertebrata: animais cordados que têm, como características


exclusivas, um encéfalo grande encerrado numa caixa craniana e uma coluna vertebral;

III – bem-estar animal: a promoção da saúde física e mental dos animais, de


modo a lhes assegurar o provimento de suas necessidades naturais e liberdades.

CAPÍTULO II

DO DIREITO DOS ANIMAIS AO BEM-ESTAR

Art. 4o Todos os animais em território nacional serão tutelados pelo Estado e


possuem direito à existência em um contexto de equilíbrio biológico e ambiental, de acordo
com a diversidade das espécies, raças e indivíduos.

§ 1º A integridade física e mental e o bem-estar dos animais são considerados


interesse difuso, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de protegê-los e de
promover ações que garantam o direito estabelecido no caput, além de coibir práticas
contrárias a esta Lei;

§2º Aos animais deve ser dispensada a dignidade de tratamento reservada aos
seres sencientes;

§3º Os animais têm interesses individuais e coletivos, distintos dos interesses


individuais e coletivos dos seres humanos, devendo a autoridade, no caso de colisão de
3
interesses, proceder a uma ponderação que não se confine a juízos de utilidade ou de
funcionalização aos interesses individuais e coletivos dos seres humanos;

§4º Na ausência de disposição em contrário, os animais se beneficiam da


proteção jurídica conferida às coisas e às pessoas jurídicas.

CAPÍTULO III

DOS DEVERES EM RELAÇÃO À GUARDA DE ANIMAIS

Art. 5º Toda pessoa física ou jurídica que mantenha animal sob sua guarda ou
seus cuidados deverá:

I – fornecer alimentação e abrigo adequados à espécie, à raça ou à idade do


indivíduo;

II – garantir espaço adequado e apropriado para a manifestação do


comportamento natural, individual ou coletivo, da espécie;

III – assegurar a inexistência de circunstâncias capazes de causar ansiedade,


medo, estresse e angústia;

IV – empreender todos os esforços para o animal conviver ou ser alojado com


outros da mesma espécie, dependendo das circunstâncias específicas e do comportamento
da espécie;

V – prover cuidados e medicamentos sempre que for necessário e quando


constatada dor ou doença.

CAPÍTULO IV

DA VEDAÇÃO AOS MAUS-TRATOS

Art. 6° São vedadas quaisquer formas de maus-tratos e atos de crueldade


contra os animais.
4
Parágrafo único. Consideram-se maus-tratos, sem prejuízo de outras condutas
decorrentes de ação ou omissão, dolosa ou culposa, direta ou indireta, expor o animal a
perigo ou a danos diretos ou indiretos à vida, à saúde e ao seu bem-estar, causando-lhe dor,
lesões ou sofrimento.

Art. 7º É proibido:

I – forçar um animal a realizar movimentos contrários à sua natureza ou além de


sua capacidade física, individualmente considerada, exceto em situações de emergência;

II – usar substâncias químicas ou objetos, ferramentas ou equipamentos para


estímulo físico ou psicológico do animal explorado para a prática desportiva ou atividade
laborativa, incluindo apresentações e eventos similares, exceto quando estritamente
necessário e indolor para sua locomoção normal ou em situações de emergência;

III – abandonar animal sujeito a sua guarda ou deixá-lo a sua mercê em qualquer
recinto, público ou privado, artificial ou natural, com a finalidade de se eximir das
responsabilidades inerentes ao dever de guarda;

IV – abandonar animal domesticado ou criado em cativeiro, ainda que em sua


posse precária, quando despreparado para se alimentar de maneira adequada;

V – submeter animal a treinamentos, eventos, circos, ações publicitárias,


filmagens ou exposições que causem dor, sofrimento ou dano;

VI – vender ou comprar animal doente ou incapaz de sobreviver sem dor ou


sofrimento, exceto para tratamento imediato;

VII – sujeitar animal a situações de risco de dor, sofrimento ou dano perante


outro animal;

VIII – treinar animal para desenvolver comportamento agressivo contra sua


própria espécie ou outra;

IX – forçar de qualquer maneira a alimentação do animal, exceto em benefício


de sua própria saúde, ou ministrar-lhe alimentação inadequada ou com substâncias
impróprias;
5
X – utilizar dispositivo para aplicação de descargas elétricas em animal para
impedir seus movimentos ou forçá-lo a se movimentar, causando considerável dor,
sofrimento ou dano.

CAPÍTULO V

DAS INFRAÇÕES E PENALIDADES

Art. 8º Constitui infração à proteção e defesa do bem-estar dos animais toda


ação ou omissão que importe em ato de abuso ou maus tratos, na inobservância de
preceitos estabelecidos nesta Lei, especialmente nos arts. 6º e 7º desta Lei, ou na
desobediência às determinações de caráter normativo dos órgãos e das autoridades
administrativas competentes.

Art. 9º As infrações às disposições desta Lei e de seu regulamento, bem como


das normas, padrões e exigências técnicas, devem ser autuadas, a critério da autoridade
competente prevista no art. 70, §1º, da Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, levando-se
em conta:

I – a gravidade dos fatos, o sofrimento prolongado e as consequências para a


saúde pública e do animal;

II – as circunstâncias atenuantes ou agravantes;

III – os antecedentes do infrator quanto ao cumprimento da legislação ambiental;

§ 1° Responde pela infração quem, por ação ou omissão, de qualquer modo,


concorrer para sua prática ou dela se beneficiar.

§ 2° Responde pela infração cometida por menor ou pessoa incapaz o seu


responsável legal ou quem, no momento do fato, detenha sua guarda, nos termos da
legislação aplicável.
6
§ 3º São consideradas condições agravantes das condutas previstas neste
artigo:

I – o agravamento do estado de saúde de animal doente, ferido, extenuado ou


mutilado;

II – quando os atos de crueldade resultarem em morte do animal ou em lesão


grave;

III – a reincidência em infrações previstas nesta Lei;

IV – a obtenção de vantagem pecuniária pelo agente responsável pelo


cometimento da infração;

V – o emprego, pelo agente, de métodos cruéis no abate, na captura ou em


animais em avançado período de prenhez;

VI – o abuso do direito de licença, permissão ou autorização ambiental.

§ 4° São consideradas circunstâncias atenuantes das condutas previstas neste


artigo:

I – o baixo grau de instrução ou de escolaridade do agente;

II – o arrependimento posterior, manifestado pela espontânea reparação do dano


ao animal;

III – a infração ter sido cometida para proteger pessoa ou animal de dano
iminente, não se tratando de estado de necessidade.

Art. 10. As infrações às disposições desta Lei, sem prejuízo das sanções de
natureza cível ou penal cabíveis, devem ser punidas, alternativa ou cumulativamente, com
as seguintes sanções:
7
I – advertência, ante a inobservância das disposições desta Lei e da legislação
em vigor, ou de preceitos regulamentares, sem prejuízo das demais sanções previstas neste
artigo;

II – prestação de serviços voltados à promoção do bem-estar animal e à


preservação do meio ambiente, mediante a atribuição de tarefas não remuneradas a
programas e projetos de proteção aos animais;

III – prestação pecuniária, consistente em contribuições financeiras a entidades


ambientais ou de proteção aos animais;

IV – multa de R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais) a R$ 10.000.000,00 (dez


milhões de reais), observados os critérios do art. 9º, as repercussões coletivas do dano e a
situação econômica do infrator;

V – apreensão do animal até que se corrija o motivo da infração;

VI – apreensão de instrumentos, aparelhos ou produtos, cujas utilizações


estejam vedadas pela presente Lei ou tenham concorrido para o cometimento da infração;

VII – perda definitiva da guarda, posse ou propriedade do animal;

VIII – proibição de guarda, posse ou propriedade de animais.

§ 1° A pena prevista no inciso VII do caput deste artigo será aplicada em caso
de infração considerada grave ou reincidente.

§ 2° O cometimento de nova infração pelo mesmo infrator, no período de cinco


anos, contados da lavratura do auto de infração devidamente confirmado em julgamento,
implica a aplicação da multa em triplo, no caso de cometimento da mesma infração, ou em
dobro, no caso de cometimento de infração distinta.

§ 3º A advertência não será aplicada às infrações graves, assim consideradas


aquelas que resultem em lesão grave permanente ou mutilação ou morte do animal.
8
§ 4º É vedada a aplicação de nova sanção de advertência no período de três
anos, contados do julgamento definitivo da última advertência ou de outra penalidade
aplicada.

§ 5° As multas podem ter sua exigibilidade suspensa quando o infrator, nos


termos e condições aceitas e aprovadas pelas autoridades competentes, se obrigar à
adoção de medidas específicas para fazer cessar e corrigir a infração.

§ 6° Os animais dos infratores devem ser identificados imediatamente por


autoridade competente, preferencialmente com microchipagem ou outra forma de
identificação permanente, de modo a garantir a identificação individual para o monitoramento
e melhorias no bem-estar do animal.

§ 7° Na hipótese do inciso V deste artigo, o animal será destinado a abrigo


provisório, e o proprietário, quando identificado, será notificado e responsabilizado pelo
custeio da manutenção do animal.

§8º Na hipótese do inciso VII deste artigo, o animal doméstico ou domesticado


será destinado para adoção, por intermédio da autoridade competente, e os animais
silvestres serão libertados em seu habitat ou entregues a jardins zoológicos, fundações,
centros de triagem, criadouros regulares ou entidades assemelhadas, desde que fiquem sob
a responsabilidade de técnicos habilitados.

§9º Aplica-se ao procedimento administrativo a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro


de 1998.

Art. 11. As sanções previstas nesta Lei serão aplicadas pelos órgãos executores
competentes, sem prejuízo de correspondente responsabilização penal e pelo dever de
reparar os danos.

CAPÍTULO VI

DAS DISPOSIÇÕES FINAIS E TRANSITÓRIAS


9
Art. 12. A legislação e as políticas públicas que produzam impacto sobre o bem-
estar dos animais levarão em consideração o disposto nesta Lei.

Art. 13. Sem prejuízo da aplicação das penas previstas nesta Lei, os
responsáveis pelos danos aos animais responderão, solidariamente, por sua indenização ou
reparação integral, independentemente da existência de culpa.

Parágrafo único. Aplicam-se às ações de proteção e defesa do bem-estar dos


animais previstos nesta Lei as normas do Código de Processo Civil e da Lei nº 7.347, de 24
de julho de 1985, inclusive no que respeita ao inquérito civil.

Art. 14. O art. 32 da Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, passa a vigorar


com a seguinte redação :

“Art. 32. Praticar ato de abuso ou maus-tratos a animais


domésticos, domesticados ou silvestres, nativos ou exóticos:
Pena – reclusão, de um a dois anos, e multa.
§ 1o Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa
ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos,
quando existirem recursos alternativos.
§ 2o A pena é aumentada de metade se ocorre lesão grave
permanente ou mutilação do animal.
§ 3º A pena é aumentada em dobro, caso ocorra morte do animal.”
(NR)

Art. 15. Esta Lei entra em vigor após decorridos 120 (cento e vinte) dias de sua
publicação oficial.

JUSTIFICAÇÃO

A Constituição Federal de 1988 prescreve em seu art. 225 o dever de o Poder


Público proteger a fauna e a flora, havendo expressa menção à vedação, na forma da lei, de
práticas que provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.

Encontra-se reconhecido, portanto, em nosso texto normativo constitucional, o


valor intrínseco auferido aos animais, eis que atos cruéis não serão tolerados, de modo que
todo o desenvolvimento científico, tecnológico, econômico e social devem se pautar por esta
premissa, indispensável a um desenvolvimento nacional sustentável.
10
Ocorre que a legislação infraconstitucional ainda não disciplinou um estatuto de
proteção ao bem-estar dos animais, estabelecendo de forma clara e objetiva o direito à
proteção à vida e ao bem-estar dos animais, bem como a vedação de práticas e atividades
que se configurem como cruéis ou danosas.

Já é hora de o País possuir uma legislação que vede a dor, o sofrimento e a


lesão moral aos animais. A Alemanha, a Áustria, Estados Unidos, apenas como exemplo,
são países que já legislaram há muito tempo sobre a matéria. A sociedade tem se mostrado
intolerante aos maus-tratos, a exemplo das discussões envolvendo o uso de animais em
pesquisas científicas ou o mero utilitarismo e prazer dos humanos em ações que causam
sofrimento e dano desnecessários aos animais, como foi o caso envolvendo a caça e morte
do leão Cecil, no Zimbabwe, que comoveu o mundo.

Esta proposição visa assegurar a proteção à vida e ao bem-estar dos animais,


mediante a tutela estatal dos animais e a consideração da integridade física e mental como
interesse difuso. Além disso, assegura tratamento aos animais como seres sencientes e
regulamenta deveres em relação à guarda de animais.

Busca, ainda, suprir a lacuna legislativa ao tipificar maus –tratos e estabelecer


vedações de atos e atividades consideradas cruéis, além de dispor sobre infrações e
penalidades aos preceitos legais, com imposição de multa que varia entre duzentos e
cinquenta a dez milhões de reais.

Por se tratar de um tema tão atual, relevante e demandar uma postura ética da
sociedade, com alterações de comportamento urgentes, pedimos o apoio de nossos Nobres
Pares para o seu aprimoramento e aprovação.

Sala das Sessões,

Senador MARCELO CRIVELLA

LEGISLAÇÃO CITADA
Constituição de 1988 - 1988/88
Lei nº 7.347, de 24 de Julho de 1985 - LEI DOS INTERESSES DIFUSOS - 7347/85
Lei nº 9.605, de 12 de Fevereiro de 1998 - LEI DE CRIMES AMBIENTAIS - 9605/98
artigo 32
parágrafo 1º do artigo 70

(Às Comissões de Constituição, Justiça e Cidadania; e de Meio Ambiente, Defesa do


Consumidor e Fiscalização e Controle, cabendo à última decisão terminativa)
PARECER Nº , DE 2016

Da COMISSÃO DE CONSTITUIÇÃO, JUSTIÇA


E CIDADANIA, sobre o Projeto de Lei do Senado

SF/16212.99129-12
nº 631, de 2015, do Senador Marcelo Crivella, que
institui o Estatuto dos Animais e altera a redação
do art. 32 da Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de
1998.

Relator: Senador ANTONIO ANASTASIA

I – RELATÓRIO

Vem ao exame desta Comissão de Constituição, Justiça e


Cidadania (CCJ), o Projeto de Lei do Senado (PLS) nº 631, de 2015, do
Senador Marcelo Crivella, que institui o Estatuto dos Animais e altera a
redação do art. 32 da Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998.

Em seus 15 artigos o PLS nº 631, de 2015, dispõe sobre (i)


objetivos, conceitos e delimitação de aplicação da norma (arts. 1 o a 3o); (ii)
direitos dos animais ao bem-estar e obrigações destinadas à guarda de
animais (arts. 4º e 5º); (iii) proibição de práticas consideradas maus–tratos
(arts. 6o e 7o); (iv) infrações e penalidades (arts. 8º a 11); e (v) disposições
finais e transitórias (arts. 12 a 15).

Em suas disposições finais e transitórias, o projeto altera o


art. 32 da Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 (Lei de Crimes
Ambientais), para aumentar a pena do crime de maus-tratos a animais. De
acordo com o art. 15, a lei resultante da proposição entrará em vigor
decorridos cento e vinte dias de sua publicação oficial.

Como bem observa o autor, segundo a justificação apresentada,


nosso texto constitucional reconhece o valor intrínseco conferido aos
animais, inexistindo tolerância a atos cruéis contra eles perpetrados.
2

Finalmente, de acordo com o autor, a proposição assegura a


proteção à vida e ao bem-estar dos animais, mediante a tutela estatal e a
consideração da sua integridade física e mental como interesse difuso.

O PLS foi distribuído à CCJ e à Comissão de Meio Ambiente,

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Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA), cabendo à última
a decisão terminativa.

Não foram oferecidas emendas.

II – ANÁLISE

O projeto em análise não apresenta vício de regimentalidade.


Nos termos do art. 101, incisos I e II, alínea “d”, do Regimento Interno do
Senado Federal (RISF), cabe a esta Comissão opinar sobre a
constitucionalidade, juridicidade e regimentalidade dos temas que lhe são
submetidos por despacho da Presidência, bem como, no mérito, emitir
parecer sobre matéria atinente ao direito civil.

A Constituição Federal (CF) confere ao meio ambiente o status


de direito fundamental, em seu art. 225. A proteção e a defesa dos animais,
bem como a vedação à crueldade, são expressamente previstas no inciso VII
do § 1o do art. 225, que prescreve ao Poder Público a incumbência de
proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que
coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção das espécies
ou submetam os animais a crueldade. Importa destacar, do dispositivo
constitucional que trata da proteção ambiental, o § 3 o, por instituir a
responsabilidade civil, penal e administrativa às condutas e atividades
consideradas lesivas ao meio ambiente.

Ao incumbir ao Poder Público e à sociedade a proteção e a


defesa dos animais, a proposição encontra amparo constitucional, já que o
próprio texto constitucional exige lei para regulamentar a temática.

Quanto à competência para legislar sobre o assunto, o inciso VI


do art. 24 da CF atribuiu competência concorrente à União, aos Estados e ao
Distrito Federal para legislar sobre fauna, caça, conservação da natureza e
proteção ambiental.

A proposição, outrossim, não viola as cláusulas pétreas,


estabelecidas nos incisos I a IV do § 4o do art. 60 da CF. Ademais, a matéria

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3

se insere no âmbito das atribuições do Congresso Nacional, em


conformidade com o caput do art. 48 da Carta Magna, não havendo reserva
temática a respeito, nos termos do § 1o do seu art. 61. Assim, não se
vislumbra óbice quanto à constitucionalidade da medida proposta.

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No que concerne à juridicidade, o projeto se afigura
praticamente irretocável, porquanto: (i) o meio eleito para o alcance dos
objetivos pretendidos (normatização via edição de lei) é o adequado; (ii)
possui o atributo da generalidade, que exige sejam destinatários do comando
legal um conjunto de casos submetidos a um comportamento normativo
comum; (iii) se afigura dotado de potencial coercitividade, isto é, a
possibilidade de imposição compulsória do comportamento normativo
estabelecido; e (iv) se revela compatível com os princípios diretores do
sistema de direito pátrio ou com os princípios especiais de cada ramo
particular da ciência jurídica.

Quanto à técnica legislativa, entendemos que o PLS no 631, de


2015, necessita de adequações para melhor atender ao disposto na Lei
Complementar (LC) nº 95, de 26 de fevereiro de 1998, que, dentre outros
objetivos, visa a proporcionar a utilização de linguagem e técnicas próprias,
que garantam às proposições legislativas as características esperadas pela lei,
a saber: clareza, concisão, interpretação unívoca, generalidade, abstração e
capacidade de produção de efeitos. Nesse sentido, propomos substitutivo
com o intuito de aprimorar o Projeto, tornando-o mais preciso e adequado.

As alterações de técnica legislativa propostas no substitutivo


abrangem: inclusão de artigo definindo o escopo da lei; correção da grafia
dos filos e subfilos, que estavam em “itálico”, contrariando as regras
taxonômicas (art. 1º); supressão de expressões que poderiam ensejar
insegurança jurídica, tal como “por razões não justificáveis”, constante do
art. 1º, § 1º, do projeto original, sem prejuízo de substituí-las por outras que
garantam, ao mesmo tempo, os objetivos da proposta e maior precisão
normativa; concentração de todos os objetivos em um único artigo; supressão
das definições dos táxons aos quais a Lei se aplicará (art. 3º, incisos I e II,
do projeto original), a fim de não torná-la obsoleta quando da atualização
científica; aprimoramento da redação; harmonização com jurisprudência de
tribunais superiores; harmonização com a Lei de Crimes Ambientais no que
diz respeito às infrações e sanções administrativas.

Por outro lado, no mérito, com relação à previsão expressa de


lesão à esfera moral dos animais, é imperioso perceber que, entre nós, a atual
ordem constitucional, muito embora preveja sua proteção, não trata os

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4

animais como sujeitos de direito capazes de autorizar que a legislação


infraconstitucional os equipare, nesse sentido, aos seres humanos.

Em outras palavras, não reconhecemos aos integrantes da fauna


a mesma esfera de proteção jurídica que conferimos aos seres humanos, até

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porque, seria por demais complexo definir juridicamente quais valores
morais consubstanciariam tal âmbito de proteção.

Como se sabe os valores morais estão comumente ligados à


reputação, ao nome, à imagem, daí porque estes valores são inteiramente
aplicáveis às pessoas jurídicas, razão pela qual sugerimos a supressão de
algumas expressões e dispositivos.

Ainda quanto ao mérito, propomos algumas contribuições


expressas no substitutivo, tais como a obrigatoriedade de promover
identificação individual dos animais de estimação, para melhorar a aplicação
da Lei; bem como a explicitação da vedação de maus-tratos em práticas
culturais, recreativas e econômicas e ampliação do rol de condutas
consideradas “maus-tratos”.

III – VOTO

Diante do exposto, o voto é pela aprovação do Projeto de Lei


do Senado nº 631, de 2015, nos termos da seguinte emenda substitutiva:

EMENDA Nº - CCJ (SUBSTITUTIVO)

PROJETO DE LEI DO SENADO Nº 631, DE 2015

Institui o Estatuto dos Animais e altera a


redação dos arts. 32, 72 e 75 da Lei nº 9.605,
de 12 de fevereiro de 1998.

O CONGRESSO NACIONAL decreta:

CAPÍTULO I

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DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 1º Esta Lei institui o Estatuto dos Animais e disciplina


sanções contra o seu descumprimento.

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Parágrafo único. O disposto nesta Lei aplica-se aos animais das
espécies classificadas no filo Chordata, subfilo Vertebrata, exceto a espécie
humana.

Art. 2º Os animais são considerados seres sencientes, devendo


ser dispensada a eles a dignidade de tratamento compatível com essa
condição.

Art. 3º Ninguém deverá causar dor ou sofrimento aos animais.

Parágrafo único. Excetuam-se do disposto no caput, os casos


de controle de zoonoses, controle de espécies invasoras e de ensino e
pesquisa científica na área da saúde, expressamente previstos na legislação,
quando não houver método que evite totalmente a dor e o sofrimento,
devendo ser adotadas todas as medidas disponíveis para reduzi-los ao
máximo.

Art. 4º São objetivos desta Lei:

I – assegurar e proteger a integridade física e o bem-estar animal


em todo o território nacional;

II – garantir o acesso à informação sobre o bem-estar animal e


o estímulo à conscientização e à educação para a guarda responsável;

III – combater os maus-tratos e toda forma de violência,


crueldade e negligência praticadas contra os animais;

IV – proteger os animais contra sofrimentos desnecessários,


prolongados e evitáveis;

V – promover a saúde dos animais com vistas a garantir a saúde


da população humana e a melhoria da qualidade ambiental como parte da
saúde pública.

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Parágrafo único. Para os efeitos desta Lei entende-se por bem-


estar animal a promoção da saúde física e mental dos animais, observada a
sua função ecológica, de modo a lhes assegurar o provimento de suas
necessidades naturais.

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CAPÍTULO II

DO DIREITO DOS ANIMAIS AO BEM-ESTAR

Art. 5º Todos os animais em território nacional possuem direito


à existência em um contexto de equilíbrio biológico e ambiental, de acordo
com as peculiaridades das espécies, variedades, raças e indivíduos.

Parágrafo único. A integridade física e mental e o bem-estar


animal são considerados objetos de interesse difuso, impondo-se ao Poder
Público e à coletividade o dever de protegê-los e de promover ações que
garantam o direito estabelecido no caput, por meio de estimulo à pesquisa,
experimentação científica e acesso à medicamentos veterinários, ainda que
não disponíveis no mercado nacional, conforme regulamentação do Poder
Público, além de coibir práticas contrárias a esta Lei.

CAPÍTULO III

DOS DEVERES EM RELAÇÃO À GUARDA DE ANIMAIS

Art. 6º Toda pessoa física ou jurídica que mantenha animal sob


sua guarda ou cuidados deverá:

I – fornecer alimentação e abrigo adequados à espécie,


variedade, raça e idade do animal;

II – garantir espaço adequado e apropriado para a manifestação


do comportamento natural, individual e coletivo, da espécie;

III – assegurar a inexistência de circunstâncias capazes de


causar ansiedade, medo, estresse ou angústia de maneira frequente, constante
ou intensa;

IV – empreender esforços para que o animal conviva ou seja


alojado com outros da mesma espécie, respeitados o seu comportamento e
suas características específicas;

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V – prover cuidados, medicamentos e assistência médico-


veterinária quando constatada doença ou dor e sempre que for necessário;

VI – providenciar identificação individual dos animais de


estimação, exceto em caso de impossibilidade física, por meios que não

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impliquem maus-tratos.

CAPÍTULO IV

DA VEDAÇÃO AOS MAUS-TRATOS

Art. 7º São vedadas quaisquer formas de maus-tratos e atos de


crueldade contra os animais.

§ 1º Consideram-se maus-tratos, sem prejuízo de outras


condutas decorrentes de ação ou omissão, dolosa ou culposa, direta ou
indireta, a exposição de animais a perigo ou a danos diretos ou indiretos à
integridade física, à saúde e ao bem-estar, causando-lhes dor, lesões,
sofrimento ou dano de natureza física.

§ 2º Não serão toleradas práticas de maus-tratos sob a


justificativa de tradição cultural, recreação ou exploração econômica.

Art. 8º São também consideradas maus-tratos contra os animais


as seguintes condutas:

I – forçar um animal a realizar movimentos contrários à sua


natureza ou além de sua capacidade física, individualmente considerada,
exceto em situações de emergência;

II – usar substâncias químicas ou objetos, ferramentas ou


equipamentos para estímulo físico ou psicológico do animal explorado para
a prática desportiva, laboral, recreativa, publicitária ou artística, incluindo
apresentações e eventos similares, exceto quando estritamente necessário e
indolor para sua locomoção normal ou em situações de emergência;

III – desfazer-se da guarda de animal, abandonando-o ou


deixando-o em situação de perigo em qualquer recinto ou ambiente, público
ou privado, artificial ou natural;

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IV – abandonar animal domesticado ou criado em cativeiro,


ainda que em posse precária, quando despreparado para se alimentar de
maneira adequada;

V – submeter animal a treinamentos, eventos, apresentações

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circenses, ações publicitárias, filmagens ou exposições que causem dor,
sofrimento ou dano de natureza física;

VI – comprar, vender ou expor à venda animal doente ou


incapaz de sobreviver sem dor ou sofrimento, exceto para tratamento
imediato;

VII- sujeitar animal a situações de risco de dor, sofrimento ou


dano perante outro animal;

VIII – treinar animal para desenvolver comportamento


agressivo contra sua própria espécie ou espécie distinta;

IX – forçar de qualquer maneira a alimentação do animal,


exceto em benefício de sua própria saúde, ou ministrar-lhe alimentação
inadequada ou com substâncias impróprias;

X – utilizar dispositivo para aplicação de descargas elétricas em


animal para impedir seus movimentos ou para forçá-lo a se movimentar,
causando considerável dor, sofrimento ou dano;

XI – praticar ato de violência física contra animal;

XII – privar o animal de acesso à água ou a alimentação


adequada;

XIII – confinar animal em recinto com indivíduo da mesma


espécie ou de espécie distinta que lhe cause medo, perigo, agressão ou
qualquer tipo de dano;

XIV – sujeitar o animal ou causar a ele qualquer tipo de risco


ou dano à sua integridade física e sanitária.

CAPÍTULO V

DAS INFRAÇÕES E SANÇÕES ADMINISTRATIVAS

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Art. 9º Constitui infração administrativa contra a proteção e


defesa do bem-estar animal toda ação ou omissão que implique ato de abuso
ou maus-tratos, inobservância de preceitos estabelecidos nesta Lei,
especialmente nos arts. 5º, 6º e 7º, ou desobediência às normas dos órgãos e
entidades públicos competentes.

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Art. 10º Sem prejuízo das sanções de natureza cível e penal
cabíveis, as infrações às disposições desta Lei serão autuadas aplicando-se,
no que couber, o disposto nos arts. 70 a 76, da Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro
de 1998, levando-se em conta:

I – o sofrimento prolongado e as consequências para a saúde do


animal;

II – as circunstâncias atenuantes e agravantes.

§ 1º Responde pela infração quem, por ação ou omissão, de


qualquer modo, concorrer para sua prática ou dela se beneficiar.

§ 2º Responde pela infração cometida por menor ou pessoa


incapaz o seu responsável legal ou quem, no momento do fato, detenha sua
guarda, nos termos da legislação aplicável.

Art. 11. São circunstâncias agravantes das infrações:

I – agravamento do estado de saúde de animal doente, ferido,


extenuado ou mutilado;

II – quando os atos de crueldade resultarem em morte do animal


ou em lesão grave;

III – reincidência em infrações previstas nesta Lei;

IV – ter o agente cometido a infração:

a) para obter vantagem pecuniária;

b) coagindo outrem para a execução material da infração;

c) afetando ou expondo a perigo, de maneira grave, a saúde


pública;

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d) concorrendo para danos à propriedade alheia;

e) com o emprego de métodos cruéis para abate ou captura de


animais ou em espécimes em avançado estado de prenhez;

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f) mediante fraude ou abuso de confiança;

g) mediante abuso do direito de licença, permissão ou


autorização ambiental;

h) facilitada por agente público no exercício de suas funções.

Art. 12. São circunstâncias atenuantes das infrações:

I – baixo grau de instrução ou escolaridade do agente;

II – arrependimento do infrator, manifestado pela espontânea


reparação do dano ao animal;

III – colaboração com os agentes encarregados da fiscalização;

IV – ter o agente cometido a infração para proteger pessoa ou


animal contra dano iminente, não se tratando de estado de necessidade.

Art. 13. O cometimento de nova infração a esta Lei pelo mesmo


infrator, no período de cinco anos, contados da lavratura de auto de infração
anterior devidamente confirmado em julgamento implica:

I – aplicação da multa em triplo, no caso de cometimento de


mesma infração; ou

II – aplicação da multa em dobro, no caso de cometimento de


infração distinta.

Art. 14. A advertência não será aplicada às infrações graves,


assim consideradas aquelas que resultem em lesão grave permanente ou
morte do animal.

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Art. 15. É vedada a aplicação de nova sanção de advertência no


período de três anos contados do julgamento definitivo da última sanção
aplicada.

CAPÍTULO VI

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DAS DISPOSIÇÕES FINAIS E TRANSITÓRIAS

Art. 16. A legislação e as políticas públicas que produzam


impacto sobre o bem-estar animal levarão em consideração o disposto nesta
Lei.

Art. 17. Sem prejuízo da aplicação das sanções administrativas,


os responsáveis pelas infrações ao disposto nesta Lei responderão
solidariamente pela reparação integral dos danos causados aos animais.

Parágrafo único. Aplicam-se às ações de proteção e defesa do


bem-estar animal as normas do Código de Processo Civil e da Lei nº 7.347,
de 24 de julho de 1985, inclusive quanto ao inquérito civil.

Art. 18. O art. 32 da Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998,


passa a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar


animais domésticos, domesticados ou silvestres, nativos ou exóticos:
Pena – reclusão, de um a dois anos, e multa.
..........................................................................................................
§ 2º A pena é aumentada pela metade se ocorre lesão grave e
permanente do animal.
§ 3º A pena é aumentada em dobro, caso ocorra a morte do animal”
(NR)

Art. 19. O art. 72 da Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998,


passa a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 72. ..........................................................................................


..........................................................................................................
XI - .................................................................................................;
XII – perda definitiva da guarda, posse ou propriedade de animais.
..........................................................................................................

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§ 4º A multa simples pode ser convertida em serviços de


preservação, melhoria e recuperação da qualidade do meio ambiente e de
promoção do bem-estar animal.
..........................................................................................................
§ 8º ...................................................................................................

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..........................................................................................................
V - ..................................................................................................;
VI – proibição de guarda, posse ou propriedade de animais, pelo
período de até quatro anos” (NR)

Art. 20. O art. 75 da Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998,


passa a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 75. O valor da multa de que trata este Capítulo será fixado
no regulamento desta Lei e corrigido periodicamente, com base nos índices
estabelecidos na legislação pertinente, sendo o mínimo de R$ 250,00
(duzentos e cinquenta reais) e o máximo de R$ 50.000.000,00 (cinquenta
milhões de reais).” (NR)

Art. 21. Esta Lei entra em vigor após decorridos cento e vinte
dias de sua publicação oficial.

Sala da Comissão,

, Presidente

, Relator

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