Você está na página 1de 3

Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção - UFSCar

Disciplina: Sistemas de Produção (Turma B) Curso: Mestrado


Docente responsável: Prof. Dr. Pedro Carlos Oprime
Discente: Diego José Casagrande
TEXTO: “A CIÊNCIA DA FÁBRICA”

CAPÍTULO 1: A INDÚSTRIA NORTE-AMERICANA

Em sua essência, os sistemas de produção caracterizam-se como entidades complexas


que podem ser visualizadas através de diferentes perspectivas, englobando também análises
variadas do ponto de vista gerencial. Neste cenário, a abordagem histórica oferece um marco
para as organizações interpretaram as variantes que englobam o seu ambiente de atuação. Na
esfera da indústria norte-americana, ressalta-se a existência de uma relação analítica entre
passado e presente, visando assim a construção de bases futuras. Por meio desta perspectiva,
torna-se possível visualizar e compreender, de forma mais clara, os principais fatores que
propiciaram as oscilações ocorridas no âmbito industrial dos Estados Unidos ao longo dos
anos.
Na esfera da experiência produtiva, a abordagem histórica demonstra que os norte-
americanos não inventaram conceitos revolucionários de produção por conta própria. Em
quase todos os casos, os Estados Unidos (EUA) tomaram emprestado livremente ideias
oriundas do Velho Mundo, adaptando-as ao contexto então vivenciado no Novo Mundo, no
qual as amarras ideológicas e de costumes não se faziam mais tão presentes como
antigamente. Mediante este cenário, soma-se o fato de os EUA assumirem, desde o seu
processo de formação enquanto nação, uma identidade cultural extremamente forte.
Para os norte-americanos, o apego aos métodos científicos é a base primordial de
sustentação para o planejamento e a execução das atividades inerentes aos seus sistemas
produtivos. Deste modo, o foco direciona-se para uma abordagem racional e analítica do
processo científico. Ao analisar os sistemas de produção sob a vertente reducionista, os
gestores efetuam uma decomposição do trabalho em tarefas específicas, visando a melhoria
isolada de cada uma delas. Diferentemente da posição reducionista visualizada nos EUA e no
Ocidente, as sociedades do extremo Oriente apresentavam uma perspectiva mais sistêmica.
Por meio desta visão de caráter holística, os componentes individuais da produção são
analisados e gerenciados com base em suas interações com os demais subsistemas existentes,
tornando-se mais flexíveis.
Com o advento da Revolução Industrial, em meados do século XVIII, a produção
artesanal e o sistema doméstico foram substituídos pelas operações mecanizadas (produção
em massa e largas escalas). Naquela época, a principal inovação concentrou-se na criação do
motor a vapor, idealizado por James Watt. Nos EUA, a primeira fábrica com tecnologia
avançada aos moldes da Revolução Industrial surgiu apenas na década de 1790, resultante de
um caso de espionagem industrial junto a uma fábrica da Inglaterra, até então referência para
os norte-americanos. Na década de 1820, contudo, a indústria dos EUA passou a adotar um
caráter distinto em relação à britânica, assumindo uma postura de consolidação de suas
operações produtivas, das quais anteriormente eram executadas de forma separada num
mesmo local.
Ao implantar métodos de integração vertical e horizontal em suas cadeias produtivas,
bem como adotar a produção de peças intercambiáveis, por volta da metade do século XIX, o
sistema produtivo norte-americano passou a ganhar um estilo característico de diferenciação
em relação aos demais países. Neste cenário, ao buscar a especialização de equipamentos no
lugar das pessoas, o contexto produtivo dos EUA remunerava melhor a inteligência do que o
treinamento especializado, prezando assim pela versatilidade. Apesar dos avanços
significativos na indústria têxtil na década de 1790 e no início dos anos 1800, a maioria das
indústrias norte-americanas ainda era pequena, familiar e com baixa tecnologia.
Com a chegada da Segunda Revolução Industrial, na metade do século XIX, as
inovações nos transportes (com ênfase nas ferrovias) e nas comunicações ocorreram de forma
expressiva, impactando assim diretamente no sucesso e no rápido desenvolvimento da
indústria norte-americana. O país, deste modo, consolidou-se como referência de produção
em massa (larga escala) em âmbito mundial, tendo como destaque a indústria do segmento de
aço. Por meio da implantação da integralização vertical de suas operações, empresários como
Andrew Carnegie e Henry Ford otimizaram os processos produtivos de suas fábricas,
elevando assim a eficácia e a velocidade da produção em níveis significativos para o contexto
da época.
Apesar da implantação contínua de variados métodos inovadores de fabricação na
esfera da indústria norte-americana, o gerenciamento e a coordenação das atividades
produtivas era algo quase inexistente até a metade do século XIX. Sob a perspectiva de uma
disciplina e de um objeto científico de estudo, assim como a engenharia e a medicina, a gestão
teve origem somente no final do século XIX. A implantação da racionalização e da ciência na
gestão foi propiciada por Frederick Taylor, considerado historicamente em âmbito mundial
como o “pai da gestão científica”. Para Taylor, na esfera operacional das fábricas, o foco
concentrava-se na decomposição do processo de produção em várias partes, buscando a
melhoria da eficiência em cada uma delas através de estudos constantes com ênfase em
tempos e movimentos.
Na perspectiva de Taylor, contudo, a administração científica não se caracterizava
somente como um conjunto de métodos, mas também como uma filosofia de gestão, na qual
deveria existir uma separação clara entre as responsabilidades de planejamento (gestores) e
execução (trabalhadores). Em contrapartida, os japoneses possuíam maior flexibilidade neste
sentido, incentivando assim a integração das atividades de planejamento e execução entre
todos os colaboradores. Ao contrário de Taylor, os japoneses assumiam um viés mais holístico
do processo produtivo, considerando-o como um conjunto sistêmico de atividades realizadas.
Apesar de algumas falhas de aplicação por parte de Taylor, a abordagem científica da gestão
foi o ponto de partida para a consolidação da gestão como um objeto racional e quantitativo.
Com o crescimento acelerado das indústrias, o papel dos colaboradores foi ganhando
uma importância cada vez maior, exigindo dos mesmos um ritmo intenso de trabalho. Devido
a uma visão restrita a produtividade, Taylor acreditava que os seres humanos poderiam ser
otimizados da mesma forma que as máquinas. Por este motivo, Taylor nunca demonstrou
interesse pelas condições psicológicas dos trabalhadores. Entre 1924 e 1932, contudo, Elton
Mayo conduziu a experiência de Hawthorne, na empresa Western Electric. Neste estudo,
Mayo identificou que a produtividade dos funcionários não era afetada somente pelos níveis
de iluminação no ambiente de trabalho, mas principalmente pelo estabelecimento de melhores
programas estratégicos de relacionamento humano entre empresas e os seus trabalhadores.
Com o advento das relações humanas, houve também o surgimento de novas classes
gerenciais, estendendo assim a evolução da administração sob a vertente cronológica. Até a
década de 1920, a maioria das grandes industrias era comandada exclusivamente por seus
proprietários. No entanto, a expansão das mesmas ao longo do século XX e a consolidação da
Era Dourada da indústria norte-americana motivou necessidade de contratação de gerentes
profissionais, muitas vezes sem relações históricas com as empresas. Neste novo cenário, a
formação universitária tornou-se imprescindível aos gestores, acarretando assim no
crescimento acelerado dos cursos de graduação e MBA (especialização) em todo o país.
Mesmo com resultados significativos em suas operações, a indústria norte-americana
desconsiderava a ênfase nos aspectos técnicos de produtividade em detrimento ao foco
excessivo nas ações de marketing. Deste modo, a participação mercadológica dos EUA
declinou entre 1970 e 1980, ressurgindo apenas na década de 1990. Com o advento da
globalização econômica, a produção tornou-se uma atividade cada vez mais complexa e de
larga escala, exigindo assim dos gestores um conjunto amplo de conhecimentos sobre os seus
negócios, inclusive no âmbito técnico. Deste modo, no atual contexto de negócios, a
construção das vantagens estratégicas das empresas industriais deve basear-se em aspectos
históricos.