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Unicamp

Instituto de Artes

Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena

Choque em Aelita

Tópicos Especiais em Arte e Contexto:

"Tópicos em performance: percepção, atenção e dispositivos relacionais."

Joana Henry Lemos

RA: 210890

Campinas

2018
Há pouco mais de cem anos, acontecia a Revolução Russa, que derrubou
a autocracia russa, levou o Partido Bolchevique ao poder e deu início a
experiência da ideologia comunista pela primeira vez na história da humanidade.
Em 1924, Stálin chega ao poder e uma mudança radical no jovem
sistema começa a ser implantada, influenciando aspectos políticos e
socioeconômicos por todo o século XX até os dias de hoje. É nesse contexto de
transição da república soviética ainda a se consolidar que é produzido Aelita -
Rainha de Marte (dirigida por Yakov Protazanov com estreia em 25 de setembro
de 1924), filme soviético considerado hoje o pioneiro do que viria a se consolidar
como ficção científica russa, influenciando toda a consolidação do gênero no
âmbito do cinema global e perfazendo o imaginário ocidental e oriental com
questões até os dias de hoje.
Aelita nos conta a história de um cientista chamado Loss, que fica
obcecado pela origem e significado de uma mensagem recebida do espaço. Ele
resolve construir uma espaçonave que o leve à Marte (de onde teoriza ser a
origem da mensagem), em meio a um casamento em crise com sua esposa
Natasha que ingenuamente cai na sedução de Erlich, esse um oportunista
aristocrata que usa métodos corruptos para criar um mercado paralelo de tickets
de racionamento de alimentos. A trama também acontece simultaneamente em
Marte onde vemos Aelita, filha do rei Tuskub, ditador de um futurista estado
totalitário que oprime a classe operária, congelando os trabalhadores em
grandes reservatórios de armazenamento de força de trabalho. Aelita usa em
segredo um telescópio criado por um engenheiro do rei para observar os
terráqueos e acaba se apaixonando por Loss.
Segundo Dorothée Brill, a diferença entre transgressão ética e artística
está mais próxima a uma discussão que instiga analisar os valores éticos e a
legitimidade de uma determinada obra do que sua qualidade artística. Nesse
caso, Aelita além de revelar transformações implementadas pela vanguarda
russa no âmbito das artes visuais, reverbera as transformações sociais,
ensejando uma promissora articulação entre ações de caráter estético e político.
Com o advento da modernidade é desencadeado o fenômeno social do
deslocamento dos indivíduos do campo para as grandes metrópoles. Tal
transformação leva o filósofo alemão, Walter Benjamin a pensar nas
consequências da urbanização como experiência social ao analisar as multidões
recém-chegadas nos centros urbanos que se deparam com um sentimento
nesse espaço hostil e alienante. As mudanças que esse aumento populacional
trazia entre o final do século XIX e início do século XX, juntamente com os
avanços tecnológicos, meios de transporte e comunicação, criam novas
condições e demandas da vida cotidiana e novas capacidades cognitivas e
sensoriais. Tudo o que, até então, era tido como certo no campo das artes
passou a ser questionado, e os critérios de significação artística norteados pela
cultura eurocêntrica desde o Renascimento teve suas estruturas abaladas.
As investigações de Walter Benjamin, baseadas na teoria do choque de
Baudelaire, vão para o campo da psicologia, sociologia e estética, sendo uma
chave importante para a análise dessa circunstância histórica onde o filme Aelita
é criado.
Assim como o crescimento populacional desencadeia certas experiências
de choque, mais de 9 milhões de mortes causadas com a I Guerra Mundial entre
1914 e 1918 também promove inevitáveis consequências para a humanidade e
faz com que textos sobre choques da modernidade sejam publicados em áreas
distintas do conhecimento. Diversos estudos sobre manifestações de doenças
como neuroses causadas pelo trauma da guerra, insônia, distúrbios como
tremores e paralisias que afetava boa parte da população decorrente dessa
experiência de choque e dos múltiplos novos estímulos começam a ser
elaborados e de alguma forma colocados nas expressões artísticas.
Os ideais revolucionários de 1917 trazem uma nova perspectiva para a
moradia e o espaço público: o coletivo. A proposta de vida do projeto socialista
soviético coloca em evidência um desafio grande à arquitetura que pretendia
erguer a base estrutural dessa nova sociedade. O movimento Construtivista se
impôs às velhas tradições, inovando com o pensamento funcional, material e de
projeto. A arquitetura , aliada às novas tecnologias e novos valores sociais, se
tornou uma importante ferramenta transformadora dessa construção social.
A artista plástica Alexandra Ekster, proeminente na vanguarda artística
russa da época, cria o grandioso cenário marciano e faz o design de figurino do
planeta, baseando-se em ideais do Construtivismo. Ekster traz formas angulosas
e inclinadas, muitos vidros e transparências, roupas de cortes geométricos
ousados e acessórios poligonais que acompanham o movimento do corpo das
personagens. O cenário procura corresponder aos movimentos dos atores e
inspirar dinamismo com os volumes e formas econômicos, em uma fantástica
estilização das vanguardas. Tal caráter vanguardista se comprova quando, anos
mais tarde, o construtivismo de Aelita é agente de grande influência na estética
do nascente expressionismo alemão, cujo o ícone Metropólis, também
emblemático da ficção científica europeia, é um dos grandes exemplos.
Estamos falando de um filme mudo com técnicas de câmera bastante
rudimentares em comparação com o cinema de hoje em dia. No entanto,
Protazanov e Ekster, conseguem construir cenários, figurinos e criar soluções
técnicas que dão um ritmo e uma riqueza de elementos artísticos numa obra que
está a frente do seu tempo. O diretor também consegue nesse filme abordar as
questões psicológicas dos personagens que são claramente retratadas nas
expressões e na gestualidade exagerada dos atores, além de utilizar o recurso
do sonho dentro da história contada, recurso que não era tão comum no cinema
de um século atrás quanto é atualmente.
O austríaco conhecido como pai da psicanálise, Sigmund Freud, assim
como outros que fazem uma unidade com relação à descoberta do inconsciente,
elabora toda uma base de reflexões para o entendimento da amplitude e
complexidade do ser humano projetadas e explicitadas muitas vezes nas
linguagens artísticas. A inclusão do sonho no cinema e nas narrativas contam
também os relatos dos sonho que pode ser uma maneira de compreender o ser
humano, e uma nova forma de conexão poética como maneira de se fazer
relações entre consciente e inconsciente. Esse acontecimento da descoberta do
inconsciente onde surgem os sonhos, agora estudados pela comunidade
científica, quebra com os parâmetros positivistas até então como regra geral de
pensamento, onde tudo era visto pelo ponto de vista da razão.
O sonho como estratégia para narrar a história do reino de Aelita é
exemplo dessa inclusão do inconsciente nas narrativas fílmicas que logo
se torna uma estratégia corriqueira.
Na fase áurea do Cinema Revolucionário Soviético, Protazanov, pioneiro
no gênero de ficção científica russa no cinema, retrata dois momentos da
Revolução, em Marte onde o governo de Aelita é uma monarquia absolutista
(como na época do Czar Nicolau II) e na terra retrata uma Moscou
Revolucionária, seguindo uma linha do realismo socialista para contar essas
duas estranhas narrativas paralelas. Desenvolvendo esses dois momentos, a
trama culmina na perspectiva terráquea levando a Revolução Socialista à
sociedade marciana.
Ainda assim, o contraste entre as perspectivas terráquea e marciana, que
coloca em confronto a revolução e absolutismo, coloca o filme não apenas como
agente publicitário do jovem governo soviético - uma vez que o caráter
revolucionário é enaltecido - mas também funciona como artifício de
“manutenção” da recente república socialista que passava pelas incertezas com
a morte de Lênin e a chegada de Stalin no poder.
O imaginário da invasão marciana, análogo a um medo do “outro”
instaurado na cultura ocidental e potencializado pela linguagem midiática torna-
se um tema muito usado como projeções de disputas dentro da sociedade de
consumo. Considerando que Aelita e toda a narrativa marciana nada mais são
do que sonhos do protagonista Loss, que projeta toda a frustração de um
burguês sob o caos da revolução proletária, tal argumento se confirma.
É esse contexto do imaginário inclusive que traz aspectos tão intrínsecos
ao que podemos classificar como ficção científica. Darko Suvin já o descreve,
ainda que na literatura, como um gênero que surge através da presença e
interação de estranhamento e cognição, e que enquanto dispositivo, é uma
alternativa de estrutura imaginativa ao ambiente empírico do autor. Isso porque
o estranhamento o afasta de um caráter realista, ao passo que a cognição o
distingue não só do mito, como também dos contos de fadas e da fantasia.
Em Aelita existem aspectos de uma estética de Sci-Fi mesmo antes dos
teóricos nomearem o gênero, porém definir a estética de qualquer ordem com
precisão não é tarefa fácil e nem completamente determinante para distinguir os
fatores que levaram o filme ter essa ou aquela estética. James Gunn já define a
ficção científica como um ramo que lida com os efeitos das mudanças sobre os
indivíduos no mundo real, não havendo barreiras temporais ou espaciais para
ser projetada. Mais que isso, ela normalmente se preocupa com mudanças
tecnocientíficas e envolve temáticas cuja a importância ultrapassa os limites do
indivíduo e da comunidade, passando a discutir muitas vezes a civilização e a
própria espécie humana, e a obra soviética sem dúvidas exemplifica essa
definição.
São inúmeras as possibilidades de abordar a história da ficção científica
no cinema, assim como fazer uma leitura tanto do ponto de vista de uma estética
do audiovisual, quanto do estudo da cultura, suas especificidades, interesses e
relevâncias. Fica claro que existem diversas vertentes, visões e interpretações
sobre esse mesmo tema e é possível revela-los na tela do cinema assim como
na tela da televisão, no próprio corpo, nas atitudes, nos gestos, nas
performatividades, enfim.
Aelita, assim como tantos outros que podemos analisar para
complementar a discussão e entender a história da ficção científica e das lutas
sociais, é um ótimo exercício de reflexão e diálogo para adquirir maior precisão
de cada elemento na consolidação do gênero.
Bibliografia

BRILL, Dorothée. Shock and the Senseless in Dada and Fluxus. Hanover and
London: Ed. Dartmouth College Press, 2010.

FERREIRA, Wilson R. V. - Um Sci Fi Comunista “Aelita, a rainha de Marte”.


Cinema Secreto: Cinegnose. [online]. Disponível em:
<http://cinegnose.blogspot.com/2012/12/um-sci-fi-comunista-aelita-rainha-
de.html>

GUNN, James. The Road to Science Fiction Vol. 1. Signet, 1977.

SUVIN, Darko. On the Poetics of the Science Fiction Genre. College English,
Vol. 34, No. 3 (Dec., 1972), pp. 372-382. Available at
<http://extscifi.weebly.com/uploads/8/9/4/7/8947540/article9.pdf>

Filmes
PROTAZANOV, Yakov. Aelita, a rainha de Marte, 1924. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=yoROo4Ur49c