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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Samora Moisés Machel


História de Uma Vida Dedicada ao Povo
Moçambicano

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Ficha Técnica:
Título: Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao
Povo Moçambicano
Autores: Fernando Dava, Alexandre António, Rosário Lemia, Arrissis
Mudender, Marílio Wane, Célia Mazuze, Sónia Lopes, Dulámito
Aminagi, Daniel Lopes
Direcção: Fernando Dava
Coordenação: Hermínia Manuense, Arrissis Mudender, Célio Tiane
Colaboração: Célio Tiane, António Macanja, Angélica João, Cândido
Nhaquila, Edith Chongo, Alda Damas, Sérgio Manuel, Cremildo
Bahule, Belchior Canivete
Designer e Maquetização: Cândido Nhaquila
Edição: ARPAC - Instituto de Investigação Sócio-Cultural
Impressão: ACADÉMICA
Tiragem: 3000
Número de Registo: 7141/RLINLD/2011
Colecção Embondeiro: Edição Especial

Maputo, 2014

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Índice
Acrónimos........................................................................................ 6

Agradecimentos............................................................................... 8

Prefácio............................................................................................. 9

Introdução...................................................................................... 10

1. Chilembene: Berço de Samora Moisés Machel........................ 12


1.1. Das Origens do Nome à Evolução da Estrutura Política.... 12
1.2. A Espiritualidade em Chilembene...................................... 15
1.3. Os Símbolos de Resistência contra a Presença Colonial... 21
1.3.1. Mafurreira de Muxuvane................................................ 21
1.3.2. A Escola de Marrambadjane........................................... 22
1.4. As Marcas da Opressão e Discriminação Coloniais........... 26
1.4.1. Na Actividade Agrícola e Acesso à Habitação................ 26
1.4.2. Os Administradores e Sipaios na Repressão Colonial..... 27
1.4.3. A Cadeia e os Actos Desumanos...................................... 32

2. Samora Moisés Machel: Infância e Constituição da


Família........................................................................................... 34
2.1. Nascimento e Infância de Samora Machel........................ 34
2.2. Formação Académica de Samora Machel......................... 37
2.3. Formação Profissional de Samora Machel........................ 42
2.4. Actividade Profissional de Samora Machel ...................... 45
2.5. Constituição da Família.................................................... 47

3. Samora Machel no Contexto do Nacionalismo


e da Luta de Libertação Nacional............................................. 53
3.1. A Emergência do Nacionalismo em Moçambique............ 53
3.2. O Envolvimento de Samora Moisés Machel na Luta
Clandestina........................................................................ 57

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3.3. A Viagem de Samora Machel a Dar-Es-Salaam e seu


Ingresso na FRELIMO....................................................... 59
3.4. Samora Machel e a Abertura dos Campos de Kongwa e
Nachingwea...................................................................... 70
3.5. Samora Machel e a Abertura da Frente do
Niassa Oriental.................................................................. 75
3.6. Samora Machel como Chefe do Departamento de
Defesa da FRELIMO......................................................... 77
3.7. Samora Machel na Presidência da FRELIMO ................. 81.
3.8. A Acção Estratégica de Samora Machel no
Estrangulamento da Operação Nó Górdio.............................84
3.9. O Acordo de Lusaka.......................................................... 88

4. Samora Machel na Preparação da Independência Nacional.. 98


4.1. Agradecimento aos Povos Tanzaniano e Zambiano.......... 98
4.2. Decurso da Marcha Triunfal do Rovuma ao Maputo...... 103
4.3. A Reunião de Tofo e a Constituição da RPM................... 111
4.4. A Proclamação da Independência Nacional..................... 115
4.5. Investidura de Samora Machel........................................ 118

5. Samora Machel e as Perspectivas de Desenvolvimento


de Moçambique.......................................................................... 121
5.1. Samora Machel: Unidade Nacional e Homem Novo........ 122
5.2. Perspectivas de Samora Machel sobre a
Educação e Cultura...........................................................125
5.3. Perspectivas de Samora Machel em Relação à Saúde..... 136
5.4. Visão de Samora Machel sobre Desenvolvimento
Socio-Económico............................................................ 140
5.5. Samora Machel e a Organização da Mulher
Moçambicana................................................................... 144
5.6. Samora Machel e a Organização Continuadores
de Moçambique................................................................. 146

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6. Samora Machel no Contexto da Luta Diplomática


da FRELIMO........................................................................... 149
6.1. Os Primeiros Contactos Diplomáticos da FRELIMO
e o Lançamento da Insurreição Geral Armada................ 149
6.2. A Política Diplomática de Samora Machel durante a
Luta de Libertação Nacional.............................................153
6.3. A Política Diplomática da FRELIMO e de Samora
Machel após a Proclamação da Independência Nacional... 159

7. A Morte do Presidente Samora Moisés Machel..................... 168

Bibliografia.............................................................................. 176

Lista de Entrevistados............................................................ 183

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Acrónimos

ANC – African National Congress


BPP – Betchuana Peoples Party
CDSM – Centro de Documentação Samora Machel
COMECOM - Council for Mutual Economic Assistance
CONSAS – Constellation of Southern African States
CIO – Chief Information Officer/Serviços Secretos Rodesianos
CVR – Cockpit Voice Recorder
CCM – Chama Cha Mapinduzi
CNCD - Companhia Nacional de Canto e Dança
COREMO – Comité Revolucionário de Moçambique
COFI – Comando Operacional das Forças de Intervenção
CPA – Congresso Pan-Africano
CSP – Cuidados de Saúde Primários
DD – Departamento de Defesa
DSD – Departamento de Defesa e Segurança
DS – Departamento de Segurança
DF – Destacamento Feminino
EUA – Estados Unidos da América
FMI – Fundo Monetário Internacional
FRELIMO – Frente de Libertação de Moçambique
HCM – Hospital Central de Maputo
ICAO – International Civil Aviation Organization/Organização
Internacional da Aviação Civil
MNR/RENAMO – Resistência Nacional Moçambicana
NESAM – Núcleo dos Estudantes Secundários Africanos de
Moçambique
MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola
OUA – Organização da Unidade Africana
ONU – Organização das Nações Unidas
OMM – Organização da Mulher Moçambicana
OJM – Organização da Juventude Moçambicana
OTM – Organização dos Trabalhadores Moçambicanos
PAIGC – Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo
Verde

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PIDE/DGS – Polícia Internacional e de Defesa do Estado/Direcção


Geral de Segurança
PRE – Programa de Reabilitação Económica
RPM – República Popular de Moçambique
RSA – República Sul Africana/ República da África do Sul
SADCC – Southern African Development Coordination Conference
SADF – South African Defense Forces
SNS – Serviço Nacional de Saúde
SWAPO – South West African People Organization
TANU – Tanganyika African National Union
UDENAMO – União Democrática Nacional de Moçambique
URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
UNIP – United National Independent Party
VOFA – Voice of Free Africa /Voz da África Livre
VOR – Very High Frequency Omnidirectional Range
ZANU – Zimbabwe African National Union
ZAPU – Zimbabwe African People’s Union
ZANLA – Zimbabwe African National Liberation Army
ZIPRA – Zimbabwe People’s Revolutionary Army

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Agradecimentos

O s nossos agradecimentos vão para a Comunidade de Chilembene


e família Machel, de forma particular, pela sua contribuição
e, sobretudo, predisposição incondicional no fornecimento de
informações que fundamentaram esta obra. Para os combatentes da
Luta de Libertação Nacional e demais entrevistados, vai o nosso
reconhecimento pela colaboração na materialiazação deste desafio,
de mostrar que Samora Moisés Machel era e é, de facto, um homem
do povo.

Endereçamos, igualmente, o nosso maior apreço a todos aqueles que


directamente e indirectamente deram o seu contributo para que esta
obra fosse uma realidade.

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Prefácio

S amora Moisés Machel constitui um farol candente que inspira a todo


o momento para as acções de desenvolvimento em Moçambique,
em África e no Mundo. Samora, desde cedo, compreendeu que vivia
numa sociedade colonizada, de discriminação e de injustiça social.
Mais do que isso, Samora reagiu e, de forma abnegada, entregou-se à
luta para a mudança da ordem social e política que o rodeava.

Samora morreu pelo povo moçambicano, numa altura em que este


dele mais precisava, porque o contexto político regional lhe era hostil
e o relacionamento socio-económico de Moçambique com o Mundo
estava em formatação.

A 19 de Outubro, Samora viajou a Zâmbia, numa missão de paz. Ele


não mais voltou, para dar continuidade à materialização dos seus
ideais de uma África livre e próspera. No entanto, ele legou-nos
muitos ensinamentos dignos de serem eternizados, o que é propósito
desta singela obra.

Desta forma, por ocasião do “Ano Samora Machel”, o Ministério da


Cultura cumpre o seu dever de tornar perene a vida e obra de Samora
Machel, entendida como um produto cultural por excelência.

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Introdução

N o processo da luta pela libertação da terra e do povo moçambicano,


desponta Samora Moisés Machel, como uma figura que, pela sua
dimensão e feitos, extravasa as fronteiras de Moçambique e de África.
A sua trajectória confunde-se com a história libertária de Moçambique
e da procura de prosperidade para a região austral de África. Desde
cedo, Samora, imbuído de um sentimento humanista, de liberdade,
igualdade e justiça, contestou a dominação estrangeira do seu povo.
Samora, filho de Moçambique, homem do povo, juntamente com
vários nacionalistas, lutou afincadamente pela libertação da sua pátria.

Durante o seu percurso, Samora Machel trabalhou de forma abnegada


em prol dos moçambicanos, seja como enfermeiro, aplicando o
seu saber na provisão de cuidados sanitários aos seus concidadãos;
nacionalista e combatente, lutando pela causa do seu povo; e
Presidente de Moçambique independente, semeando a prosperidade e
o bem-estar social. Uma abordagem histórica sobre a sua vida e obra,
afigura-se uma tarefa deveras emocionante, mas complexa, por um
lado, devido à sua dimensão multifacetada e, por outro, pelo facto de
muitos aspectos a si relacionados estarem ainda presentes na memória
de vários actores sociais.

No entanto, uma resenha sobre a vida e obra de Samora Moisés


Machel convida-nos ao entendimento do seu pensamento, assente
na promoção do progresso e do desenvolvimento, tendo como
pressuposto fundamental a busca da liberdade e da paz, tanto a nível
interno como externo. Neste sentido, no pensamento samoriano

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subjazia a harmonia dos países da região e a solidariedade entre todos


os povos do mundo.

Foi no quadro dos seus esforços de busca de paz para Moçambique e


para a região, que o Presidente Samora Moisés Machel viria a perder
a vida, vítima de um acidente de aviação. Esta tragédia punha fim a
um percurso preenchido de sacrifícios, mas heróico, pois, dedicado à
nobre causa de libertação do seu povo.

Este trabalho enquadra-se nas celebrações do Ano Samora Machel e


visa um fim didáctico, com vista a fornecer alguns subsídios sobre o
processo que norteou a libertação de Moçambique, e, especificamente,
o percurso e feitos de Samora Moisés Machel.

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1. Chilembene: Berço de Samora Moisés Machel

1.1. Das Origens do Nome à Evolução da Estrutura


Política

A origem do nome “Chilembene” é explicada a partir de várias


versões. Uma delas sustenta que provém da dança mutxongolo,
cuja prática pressupõe o uso de chapéu (Chilembe) e outros
ornamentos especiais. Desta forma, os residentes locais passaram a
ser conotados com esta dança, surgindo daí o nome “Chilembene”
para designar a região. Outra versão tem a ver com o facto de a região
que originariamente se designou Chilembene ser circundada pelo rio
Limpopo, sob forma de chapéu. Este local está situado na planície de
Marrambadjane e dista cerca de 7 km da actual sede de Chilembene.
As duas versões comungam o facto de terem no chapéu o centro da
explicação da origem do nome.

No que concerne às origens do povoamento e estruturação do poder


político em Chilembene e arredores, há evidências da presença de
linhagens antigas, como os Nkuna, Bila, Xivambu e Macamo. Estas
linhagens faziam parte de um vasto povo, conhecido por tsonga.
Posteriormente, estabeleceram-se nesta região os Khosa, ladeando a
lagoa de Mazimehlope. Existem algumas divergências entre alguns
historiadores, como Ferrão (1909) e Nhancale (1997) a respeito das
origens dos Khosa. Com efeito, Ferrão discorda das fontes orais sobre
a sua origem na Zululândia, argumentando que se tal fosse verdade,
não teria havido lutas aquando da fixação nguni na região, pois, ambos
partilhavam uma origem comum. Apesar de aceitar esta comunhão
das origens, Nhancale não partilha deste argumento. Justificando-
se, salienta que a origem espacial comum não impede os conflitos
políticos, sobretudo quando esta é marcada por tempos históricos
distanciados.

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O nome mais divulgado sobre o clã Khosa é o de Magudzu Khosa. É


deste nome que deriva a designação do distrito de Magude, na altura,
mais conhecido por Khoseni, ou seja, terra dos Khosa. De referir que
Khoseni não se restringia aos actuais limites geográficos do distrito de
Magude, mas sim, estendia-se aos distritos de Chókwe e Macia. Aliás,
toda a linhagem (apelido) Macia ou Macie era e continua sendo parte
integrante dos Khosa.1

De facto, foi a partir de Khoseni que os Khosa se ramificaram, dando


origem a muitas linhagens. Além dos Macie, figuram os Tchambale,
Mavone, Xikhotane e Ripanga ou Lipanga2. Outro nome sonante
do reinado dos Khosa é de Maguigwane Khosa, um descendente de
Magudzu Khosa. Maguigwane, que parece ter sido cozinheiro do
segundo Rei do Estado de Gaza, Muzila Nqumayo3, posteriormente,
incorporado nas hostes guerreiras de Gaza, no reinado de Mudungaze
Nqumayo (1884-1895), mais conhecido por Ngungunyane Nqumayo.

Os nguni fixaram-se no vale do Limpopo, por volta de 1821,


suplantando o poder dos Khosa. Não parece correcto o entendimento
de que eles teriam sido pacíficos no seu estabelecimento.4 Em nossa
opinião, tiveram que recorrer ao seu entreposto cultural bélico, apesar
das populações que subjugavam, não terem tradição guerreira. Neste
aspecto, exceptua-se a resistência dos Makhambane, que teve como
um dos líderes Chipenanyane Mondlane.5 Efectivamente, os nguni
deixaram marcas indeléveis da sua natureza violenta, sobretudo na
movimentação das suas capitais6, de Chayimite (1850)7 para Mussapa
(1889)8 e daqui para Mandlakazi.
1
Dava, 1997.
2
Pimentel, 1909.
3
Pelissier, 1988.
4
Para mais detalhes vide Chilengue, 1995.
5
Vide Liesegang, 1996.
6
À semelhança do que aconteceu na última guerra vivida em Moçambique (1976-1992), muitas pessoas
sentiam-se mais seguras passando as noites no mato do que no interior das suas casas. Liesegang, 1996.
Temiam uma série de arbitrariedades, como a execução dos seus chefes de família. Aliás, na tradição oral
fala-se do “Xingungunyane”, em alusão ao carácter agressivo dos nguni. Dava, 1995.
7
Actual Posto Administrativo de Chayimite no Distrito de Chibuto, na Província de Gaza.
8
Localizado no actual Distrito de Mussorize, na Província de Manica.

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Poucos estudos se referem às razões de fundo destas movimentações.


As últimas movimentações tinham a ver com as dificuldades do poder
central de controlar as receitas tributárias.9

Uma vez estabelecidos, os nguni criaram uma divisão administrativa


do território e colocaram no poder figuras da sua confiança. A título
de exemplo, para dirigir Chilembene foi designado Mpisse Nqumayo,
enquanto para Magule, Madjole Nqumayo e, para Xai-Xai, Ntxayi-
Ntxayi Dlamini10. O poder político em Chilembene mantém-se na
linhagem Nqumayo. Depois de Mpisse Nqumayo, surgiram outros
sucessores, entre eles, Nwamutxinga, Mehlo Maphe e Magudogude.

Santuário da linhagem Nqumayo, em Chilembene (antiga residência de


Nwamutxinga Nqumayo). Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

Os nguni conseguiram criar um vasto Estado, tendo sido o rio Zambeze


a fronteira Norte e o rio Incomáti, a fronteira Sul.

Isto demonstra que as actuais províncias de Sofala, Manica,


Inhambane, Gaza e parte de Maputo, configuravam o Estado de Gaza.
9
Beach, citado por Liesegang, 1996.
10
O nome do actual distrito e cidade de Xai-Xai, na província de Gaza, foi adoptado em homenagem a
este governante nguni.

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O nome Gaza11 surgiu de Mukhatxuwa Mangua Gaza, bisavô do


fundador do Estado de Gaza, Sochangane Nqumayo, igualmente,
conhecido por Manukuse Nqumayo (1821-1858).

Depois do estabelecimento do poder colonial em Moçambique,


Portugal manteve o nome de Gaza12, pelo facto de o Estado de Gaza
ter constituído um dos maiores desafios à penetração colonial em
Moçambique. Na óptica das autoridades coloniais, era importante
mantê-lo como uma forma de prova ao Mundo que Portugal tinha
conseguido conquistar um grande e temido império em África. Isto
ocorria à luz das decisões da Conferência de Berlim, realizada em
1884/5, que preconizavam que os países que reclamavam poder
relativamente a algumas possessões em África, deveriam provar o
seu domínio sobre elas. Após a Independência Nacional, em 1975,
o nome de Gaza constituiu um dos símbolos das lutas de resistência
contra a ocupação colonial em Moçambique e passou a designar uma
das províncias do Sul do país.

1.2. A Espiritualidade em Chilembene

O conceito de espírito trazido nesta abordagem fundamenta-se no


facto de muitas pessoas acreditarem que a sua vida não depende,
exclusivamente, da sua própria vontade. De acordo com a sua
cosmovisão, comparticipam outros agentes, do tipo “mão invisível”,
na linguagem dos economistas.

É este entendimento do mundo que explica, em larga medida, o culto


religioso, o qual ganha diferentes dimensões sociais, conforme o
antepassado venerado, pertença a uma comunidade mais universal
ou restrita, que se acredita ser o guardião dos vivos e o garante do
equilíbrio cosmológico.
11
Não encontramos uma ligação directa no uso da palavra “Gaza” para designar este Estado nguni e a
Faixa de Gaza, no Médio Oriente. No entanto, parece que a inspiração bíblica para a adopção de “Gaza”
tenha sido o denominador comum. Com efeito, do ponto de vista religioso, Gaza é mencionado em
vários momentos, como Génesis 10, 19; Deuteronômio 2, 23; Josué 10, 41 e Juízes 6, 4. Enquanto isso,
na história da Palestina constitui um dos reinos formados pelos “Povos do Mar”, particularmente pelos
filisteus, que nos finais do II milénio antes de Cristo se fixaram ao longo do Mar Mediterrâneo.
12
Designado na altura Distrito Militar de Gaza através do decreto de 7 de Dezembro de 1895.

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A partir da primeira premissa encontra-se a figura de Deus Universal,


cujo nome vária de acordo com a religião professada, como é o caso de
Deus, em geral, veiculada pelos cristãos e, de Alá, pelos muçulmanos,
perseguindo todos a mesma essência. Em Chilembene encontra-
se, de facto, esta realidade. Do ponto de vista restrito, regista-se o
predomínio da crença nos antepassados linhageiros e familiares,
nomeadamente, a presença de espíritos Nguni e Ndau, associados às
migrações na África Austral, no âmbito do m’fecane13 e mais tarde, às
movimentações no seio do Império de Gaza.

Em Moçambique, enquanto a presença do espírito nguni se explica por


factores externos, ou seja, o m’fecane, espírito ndau, agrega factores
internos. Os reis do Estado de Gaza, ao fazerem as movimentações da
sua capital, eram acompanhados de numerosas famílias ou indivíduos,
os mabulundleya (os que abrem o caminho), para questões de
segurança, transporte de produtos alimentícios entre outros aspectos.
O surgimento dos espíritos ndau em famílias do Sul de Moçambique,
e de Chilembene, em particular, explica-se pelo entrosamento entre
as comunidades das actuais regiões Centro e Sul do país, aspecto que
esta na génese da ocorrência de espíritos tsonga no Central.

O fenómeno kupfhuka (capacidade de vingança depois da morte),


associado aos ndau, parece ser mais recente, estando relacionado com
o mutchape, um processo de transmissão de poderes mágicos. Este
fenómeno abrangeu as províncias de Manica, Inhambane, Gaza e
Maputo, no qual era administrado um produto com estas capacidades
vingativas.

O principal elo de ligação entre as famílias e os espíritos dos ancestrais


é a figura do praticante da medicina tradicional, vulgo curandeiro, que
tem sido objecto de diferentes e contraditórias interpretações, as quais
assentam mais na falta de conhecimentos sólidos sobre a sua essência,
aspecto agravado pelas leituras ocidentalizadas sobre a sua natureza.

13
O m’fecane é definido como um longo movimento de pessoas ou comunidades da Zululândia (na
actual África do Sul) para Este e Nordeste da África Austral, motivado por factores combinados entre si,
sobretudo os conflitos intestinais e calamidades naturais, levando à fixação de povos de origem Zulu, na
Suazilândia, Zimbabwe e Moçambique.

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Alcinda Honwana, que realizou um estudo profundo sobre esta


matéria, no Sul de Moçambique, traz uma contribuição valiosa, onde
procura mostrar que estes espíritos são, de facto, venerados, em muitas
famílias. Porém, em nome da civilização Ocidental, estes assuntos
são tratados em segredo familiar, como se os mesmos não existissem,
o que se resume em fazer a vida em dois mundos, ou seja, no conflito
entre o tradicional e a modernidade.14

Aos espíritos nguni é associado o aparecimento de casas redondas,


mais conhecidas por tindhumbha. Com efeito, as populações de
influência pré-nguni, tanto em Chilembene, assim como em todo o
vale do Limpopo, tinham habitações características, os mintsonga.
Estas eram feitas espetando-se estacas no chão, formando uma
estrutura cónica, cuja cobertura era de capim, as portas de caniço ou
pequenas estacas finas entrelaçadas. Este tipo de casa ainda pode ser
visto em Chilembene, no seio de famílias desprovidas de recursos
para construírem outro tipo de habitação.

Imagens de ntsonga em Chilembene. Foto de 2011. Fonte ARPAC.

14
Honwana, 2002.

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Relativamente ao culto aos antepassados, estes eram realizados em


determinadas espécies de árvores, assumindo a função de gandzelo,
ou altar. Decorrente da invasão nguni e do domínio destes sobre os
autóctones, o culto aos antepassados passou a ser realizado no interior
das casas.

Conforme referimos, a presença nguni trouxe as tindhumba. Na


construção destas casas, fazia-se primeiro o tecto, com estacas grandes
e outras pequenas conhecidas por timbalelo. Depois de implantadas
outras estacas no chão, como pilares, o tecto, xitlatleku, era colocado
sobre estes pilares. As suas portas eram feitas de caniço, sendo, no
entanto, resistentes.

Em cada família ou munti o número de casas dependia da quantidade


de pessoas existentes bem como do género. Assim, era comum ver-
se em cada munti, 3 a 4 casas, ou muito mais, em caso de famílias
bastante numerosas. Em geral, estas últimas eram das elites locais,
formadas a partir do poder político, os chefes tradicionais e seus
colaboradores.

Em primeiro plano, o túmulo de Nwamutxinga Nqumayo, antiga representante


do Estado de Gaza em Chilembene. Em segundo plano, um ndhumba onde se
realizam as cerimónias comunitárias de evocação do espírito de Nwamutxinga
Nquamayo. Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

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As populações de Chilembene, à semelhança de tantas outras no


país, foram vítimas de discriminação religiosa, particularmente, por
parte da Igreja Católica Romana. No fundo, a atitude tomada por esta
Igreja prendia-se, até um determinado momento, cerca de 197015, com
um visível apoio ao colonialismo português, uma espécie de aliança
entre a “Cruz e a Espada”. Neste contexto, a Igreja empenhava-se na
difusão dos valores culturais ocidentais, em detrimento dos africanos,
aspectos que se estendiam, inclusivamente, à discriminação racial.

Esta discriminação assistia-se ao nível dos cultos religiosos, em que


na Capela havia lugares reservados para os brancos e outros para os
negros. Com efeito, os brancos tinham acesso ao interior da Capela,
enquanto aos negros ou “pessoas de cor”16 tinha sido improvisado um
alpendre, em frente à Capela, onde estes, de pé, tomavam parte nos
cultos.

A primeira Capela da Igreja Católica em Chilembene. Na parte frontal deste


edifício tinha sido improvisado um alpendre para os cristãos negros.
Foto de 2011. Fonte: ARPAC.
15
Mais adiante ver-se-á uma aproximação desta Igreja aos movimentos de libertação em Moçambique,
Angola, Guiné e Cabo Verde.
16
Esta expressão era utilizada para suavizar o uso da palavra preto ou negro.

19

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Note-se, ainda, que a discriminação estendia-se até à morte. De facto,


no Cemitério havia uma divisão, transparecendo os desafios da Igreja
Católica em converter todos os cidadãos para a sua religião. Com
efeito, o lado esquerdo do Cemitério estava somente reservado aos
funerais dos católicos, enquanto o direito aos não-católicos e demais.

Esta atitude era reflexo das contradições existentes entre esta Igreja
e as Protestantes, pois as últimas tinham maior aderência de crentes,
sobretudo, os moçambicanos de raça negra. Estes conflitos iriam
marcar Samora Machel, tendo, consequentemente criado certa aversão
à Igreja Católica durante muitos anos, em virtude da sua natureza
discriminatória.

Vista parcial do Cemitério de Chilembene.


Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

20

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1.3. Os Símbolos de Resistência contra a Presença


Colonial

1.3.1. Mafurreira de Muxuvane

O estabelecimento do regime colonial em Moçambique, entre outros


factores, ocorreu, como se referiu, à luz da materialização das decisões
da Conferência de Berlim realizada em 1884/5. Neste contexto,
realizaram-se campanhas de ocupação dirigidas por Mouzinho de
Albuquerque. O alvo principal destas campanhas era Ngungunyane
Nqumayo, na sua qualidade de Rei de Gaza.

Após uma tenaz resistência, o Rei foi preso a 28 de Dezembro de


1895, em Chayimite, transferido para a actual cidade de Maputo a
6 de Janeiro e, posteriormente, deportado para os Açores, onde viria
a morrer em 1906. A sua prisão foi reivindicada com uma forte
resistência, conhecida por Guerra de Mbuyiseni, que significava
“Devolvam o Rei”. Esta resistência foi liderada por um comandante
guerreiro do Estado de Gaza, Maguigwane Khosa.

A Guerra de Mbuyiseni contou com a participação de outras figuras,


como Makhavanyane Machel, irmão de Malengani Machel, este
último, avô de Samora Moisés Machel. De acordo com as fontes
orais17, Maguigwane tinha a tradição de se reunir com o seu exército
debaixo de uma mafurreira, em Muxuvane, que foi removida pelos
portugueses pelo facto de esta simbolizar a resistência anti-colonial.
No local, foi construído um estabelecimento comercial.

No entanto, Samora Machel, após o seu regresso triunfal da Luta


Armada, reiterou a importância da mafurreira, visitando o local
e contando insistentemente a história associada à mesma. Em
17
Fanuel Daniel Chambal, entrevista de 22/06/2011. Chilembene.

21

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reconhecimento aos feitos de Maguigwane, e na ausência da original,


Samora Machel identificou uma outra que se encontrava há escassos
metros do estabelecimento comercial, em reconstituição da mafurreira
em causa.

Pela sua dimensão simbólica, a mafurreira de Muxuvane entrou


na lista do património cultural de Chilembene, em particular, e de
Moçambique, em geral.

Mafurreira de Muxuvane. Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

1.3.2. A Escola de Marrambadjane

A Escola de Marrambadjane, que oficialmente se designava Escola


Rudimentar nº 21 de Uamuchinga, foi construída em 1925. Entra nos
anais da História de Moçambique pelo facto de ter sido o primeiro
estabelecimento de ensino frequentado por Samora Moisés Machel, e

22

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ter sido também símbolo da discriminação religiosa18 e um esconderijo


de panfletos durante a Luta de Libertação Nacional.

Impossibilitados de frequentar a escola oficial, porque esta era


somente para os filhos dos brancos e assimilados, os irmãos Josefate e
Samora, filhos de Mandhande Machel, um proeminente protestante de
Chilembene, viram-se forçados a viver distantes dos seus progenitores.
Foram acolhidos em casa de familiares, Solomone Magodine
Tchambale e Amélia Nwantxingane, na planície de Marrambadjane,
onde tiveram oportunidade de frequentar a escola local.

De uma forma geral, esta escola era frequentada por filhos de famílias
negras não assimiladas, e ministrava-se o ensino rudimentar. Os
alunos que concluíam este nível de ensino, iam para o Seminário São
Paulo de Messano, na Macia e outros, emigravam para continuar os
seus estudos na África do Sul.

Escola Primária de Marrambadjane (antiga Escola Rudimentar nº 21 de


Uamuchinga) Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

18
Os aspectos da discriminação religiosa serão desenvolvidos no capítulo sobre a infância de Samora
Machel.

23

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Durante a Luta de Libertação Nacional, a FRELIMO enviava


emissários para vários pontos do país, tendo como objectivos
mobilizar as populações relativamente ao significado da sua luta,
recrutar guerrilheiros e, de uma maneira geral, avaliar a situação
política do país. Numa das incursões pela região Sul, um guerrilheiro,
Joel Guduane, mais conhecido por Maduna Xinana, passou por
Chilembene.

Este posto administrativo estava sob forte vigilância do regime


colonial, pois, tinha conhecimento do envolvimento directo dos
filhos de Mandhande Machel na Luta Armada. Com efeito, quando as
autoridades coloniais transferiram a sede do posto para o local junto à
cadeia, fizeram-no em prejuízo da família Machel. Esta foi obrigada a
retirar a sua residência deste local, tendo-se estabelecido num outro,
todavia, não distante do sítio anterior, facto que aconteceu após a
partida de Samora e Josefate para Dar-es-Salaam.

Local para onde foi transferida a família Machel,


vendo-se em primeiro plano a Casa-Museu Samora Machel,
erguida depois da Independência Nacional. Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

24

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Esta proximidade tinha sido propositada. Prendia-se com um controlo


cerrado sobre a família Machel, que era tida como bastião da
FRELIMO em Chilembene. Atento a esta situação, quando Maduna
Xinana chegou a Chilembene, com a ajuda do pastor Brawen Chambal
e do professor António Djedje, foi esconder os panfletos na Escola de
Marrambadjane.

Parte do tecto da Escola de Marrambadjane que serviu de esconderijo dos


panfletos. Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

Desta forma, a Escola de Marrambadjane viria a destacar-se não


só por ter acolhido os irmãos Machel, enquanto lutadores pelo
conhecimento científico, como inscrevia uma página de ouro na
história da epopeia libertária da Nação moçambicana. Com efeito, os
panfletos escondidos em Marrambadjane viriam a sufocar a estratégia
da PIDE na perseguição e, sobretudo, na repressão das redes da luta
clandestina no sul de Moçambique. Estes panfletos foram levados
pelo Herói Nacional, Mateus Sansão Muthemba para a então cidade

25

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de Lourenço Marques. Nesta


urbe, foram multiplicados e
depois distribuídos nas cidades
de João Belo e Inhambane.19

Os panfletos trazidos da Escola


de Marrambadjane foram
entregues a um grupo de jovens
determinados em ver o seu
solo pátrio livre da opressão e
Josefate Machel, Foto 2011. Fonte:
dominação estrangeira.
ARPAC.

Estes jovens, desafiando a PIDE, que propalava a mensagem segundo


a qual conseguiu debelar as células da luta clandestina, colaram vários
panfletos em diversos cantos da cidade de Maputo, a 24 de Dezembro
de 1964. Entre esta mocidade lúcida em relação ao carácter desumano
do colonialismo e ávida pela independência nacional, figuravam
nomes como Ângelo Chichava, Armando Emílio Guebuza, Milagre
Mazuze e Amós Mahandjane.

1.4. As Marcas da Opressão e Discriminação Coloniais


1.4.1. Na Actividade Agrícola e no Acesso à Habitação
Dentre as linhagens mais antigas de Chilembene, conforme referimos,
figuram os Nkuna, Bila, Xivambu, Khosa e Machel. No domínio da
actividade agrícola praticada por estas linhagens destaca-se a produção
de cereais, como o xicombe (maxoeira). Aliás, a designação Bila, de
acordo com a tradição oral, foi trazida pelos nguni, atribuindo-a às
comunidades das terras de solos argilosos, por consumirem cervejas
confeccionadas localmente. Reza a tradição que os nguni encontraram
as comunidades locais a beberem “xinto”, um tipo de cerveja
confeccionada tradicionalmente, tendo-lhes servido uma parte. Ao
deliciaram-se do fermento da cerveja, assim exclamaram: “ndo bila,
ndo bila!”20 Assim, passaram a designar vabila a estas comunidades.21
19
Josefate Machel, entrevista de 10/10/2011. Cidade de Maputo.
20
Está a fermentar, está a fermentar!
21
Dava, 1997.

26

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As inovações na estrutura agrícola de Chilembene explicam-se


pelo incremento das migrações para as plantações e minas sul-
africanas. Com efeito, alguns mineiros adquiriram juntas de bois,
as quais, aplicadas na agricultura, melhoraram significativamente o
rendimento das suas famílias e, de um modo geral, das comunidades.
Além de Mandhande Machel, que trouxe charruas entre 1922 e 1926,
o nome de Ngwanazi Nkambaku é apontado entre os promotores do
desenvolvimento agrícola nesta região, por volta de 1919.22

Refira-se, no entanto, que as mudanças de fundo no sector agrícola


de Chilembene ocorreram nos meados da década de cinquenta, com
o estabelecimento do Colonato do Limpopo, um empreendimento
dirigido pelo engenheiro português Trigo de Morais, que tinha
como objectivo responder aos planos de fomento coloniais. A sua
implementação implicou, tanto a reorganização da agricultura, como
do povoamento local. Esta acção resultou na expropriação das terras
dos camponeses. Com efeito, a partir dos anos 1950/52, as populações
foram retiradas e obrigadas a estabelecer-se em zonas periféricas.

Encobrindo os reais objectivos políticos de Portugal, com o colonato,


os quais se resumiam no incremento da economia da então metrópole,
com o trabalho das suas colónias, António de Oliveira Salazar23
transmitia mensagens com cariz de salvação das populações locais,
o que, na essência, era uma cartada ideológica. De facto, tentando
mobilizar as comunidades para se aliarem ao seu projecto, mandou
erguer um imponente monumento em Chilembene, exaltando o
papel individual de cada cidadão nos programas de fomento. Neste
monumento pode-se ler o seguinte:

- “A cada braço uma enxada, a cada família uma habitação, a


cada boca o seu pão”.

22
Joshuwa Tchambale, entrevista de 08/04/2011. Chilembene.
23
Então Primeiro-Ministro de Portugal.

27

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Parte do monumento erguido por António de Oliveira Salazar,


em Chilembene, em 1957. Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

Em termos práticos, as mensagens veiculadas estavam orientadas


para a melhoria das condições de habitação, de trabalho e de vida. O
pressuposto era de que a adesão ao projecto do colonato significava
passar a viver numa casa melhorada, com energia eléctrica e água
canalizada com pagamentos bonificados. Pelo facto de o projecto
pressupor melhorias, algumas pessoas se viram forçadas a nele aderir,
uma vez que não existiam outras alternativas fora do colonato. Esta
adesão acabou consubstanciando-se num processo de assimilação.

Contrariamente ao que transparece em processos de assimilação,


onde se assiste a decisões deliberadas de ascensão a um determinado
estatuto social (colonial), em desfavor dos seus valores culturais, aqui
a mobilização popular para a mudança de status, aos olhos de algumas

28

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pessoas era tida como inserindo aspectos benéficos. Neste sentido, a


assimilação não foi, por si só, um processo de “reaccionarização24”
das pessoas, pois, não obstante este estatuto, os assimilados não
passaram a ser hostis aos seus concidadãos e interesses comunitários.
Se isto aconteceu, então, avultam outros elementos de análise. A ideia
subjacente traduz-se numa estratégia de sobrevivência, cujo objectivo
era o acesso a uma boa qualidade de vida e aos valores nobres e
universais de desenvolvimento.

Ao projecto de instalação do colonato, houve tentativas de resistência,


pois, algumas pessoas permaneceram nas suas residências, desafiando
as grandes máquinas que iam derrubando casas, árvores de grande
porte e abrindo campos agrícolas. No entanto, mesmo estes, acabaram
se rendendo ao impiedoso sistema colonial que se estruturava.
Importa sublinhar que o critério de assimilação utilizado no acesso ao
colonato não foi de todo rodeado de santidade. Continha elementos
discriminatórios, entre eles, saber falar, ler e escrever a língua
portuguesa, sabido que o sistema colonial jamais se tinha preocupado
em prover os moçambicanos destas condições. Neste sentido, o
urbanismo de Chilembene encerra uma história da agressividade da
ocupação colonial do país. Para além destas marcas de agressão e de
discriminação através da raça e do estatuto social forçado, existem
outros aspectos, como a repressão e a consequente génese do espírito
nacionalista.

1.4.2. Os Administradores e Sipaios na Repressão


Colonial

O estabelecimento do sistema colonial em Chilembene, levou à criação


de um posto administrativo, que funcionou nas actuais instalações da
Empresa Electricidade de Moçambique (EDM). Antes, esta região
estava sob um mesmo comando político-administrativo, fixado em
Muxuvane, que era, igualmente, a sede do actual distrito de Bilene-
Macia.

24
Entenda-se a sua transformação em reaccionários.

29

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Instalações onde funcionou a sede do Posto Administrativo de Chilembene.


Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

Dentre os administradores que passaram por este posto, figuram um


tal Lino, seguido por Bunyane e Anitelangatona25. Os dois últimos
nomes são alcunhas atribuídas pela população local, em alusão ao
carácter ou comportamento de cada administrador. Por exemplo,
Bunyane era bastante violento, sendo este nome conotado com
o levantamento de poeiras, ou seja, ele só levantava “poeira”. Por
sua vez, Anitelangatona, tinha como “especialização” a cobrança
do imposto de palhota. Devido ao seu carácter violento, ele próprio
dizia que tinha ido para aquele lugar, para cobrar impostos e não
para receber justificações. Assim, ficou conhecido por este nome –
Anitelangatona; “não vim para isso”, aqui subentendido por “ouvir
justificações”.

25
Os nomes de registo dos administradores ainda carecem de um trabalho de arquivo. De um modo
geral, as comunidades não conheciam os seus nomes completos, tendo usado mais alcunhas para o seu
tratamento.

30

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Antiga residência do Administrador do Posto de Chilembene.


Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

A instalação da estrutura político-administrativa colonial implicou


também o estabelecimento de uma força policial. Na hierarquia desta,
figuravam na categoria inferior de agentes, os sipaios. Estes, para além
de serem usados na aplicação de castigos corporais, tarefa que era
realizada também por outros polícias, eram envolvidos no processo
de colecta de impostos, patrulha dos bairros, entre outras actividades
repressivas.

Um dos sipaios, que sobrevive na memória de alguns habitantes de


Chilembene, é Chizelengane. Autêntico carrasco, andava a praticar
distúrbios de posto em posto. Saindo da Macia, muitas vezes, viajou
para Chilembene para aplicar castigos corporais.

31

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Um dirigente colonial com um grupo de sipaios à sua retaguarda.

1.4.3. A Cadeia e os Actos Desumanos

A cadeia foi construída no mesmo período da implantação do


colonato, entre 1952/54, e encontrava-se junto à secretaria do posto
administrativo e à residência do chefe do posto. O edifício possui uma
estrutura arquitectónica do estilo ocidental, com ameias, aparentando
castelos. Aliás, este modelo foi replicado em muitos locais do país.

A sua estrutura interna é constituída por cerca de seis compartimentos.


As celas davam acesso a um grande salão de recepção de visitas. Este
salão possuía um enorme portão, com capacidade para entrar um
veículo ligeiro. Havia, igualmente, compartimentos externos situados
nos cantos do edifício, cujas portas davam acesso directo ao salão
grande. De acordo com alguns informantes, estes espaços constituíam
celas disciplinares, e outros terão sido casas de banho ou mesmo
arrumos.

32

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Antiga cadeia de Chilembene. Foto de 2011.


Fonte: ARPAC.

Dentre os crimes que levavam à reclusão neste edifício, figuravam a


falta de pagamento de imposto, a desobediência ao régulo, roubos e
as tentativas ou obstrução do canal de irrigação, por cabritos e bois.
Assim, os incriminados eram sujeitos a palmatórias, cujo número
variava em função da natureza e peso do crime ou acusação.

A vida na cadeia era horrível, pois, os reclusos eram torturados com


chicote e palmatória. Os castigos corporais eram feitos em público, em
frente à secretaria do posto, porque eram supostamente intimidatórios.
As torturas eram direccionadas, primeiro para as mãos, com o recurso
à palmatória. Depois, com o uso do chicote, batia-se as nádegas até
ficarem ensanguentadas. A seguir a isto, os considerados criminosos
eram metidos em sacos com grandes quantidades de sal, sobre o
qual pousavam as suas nádegas, como forma de aumentar as dores.
Finalmente, eram introduzidos nas celas.26

26
Joshua Tchambale, entrevista de 05/08/2011. Chilembene.

33

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

2. Samora Moisés Machel: Infância e


Constituição da Família
2.1. Nascimento e Infância de Samora Machel

A linhagem paterna da família Machel faz parte dos antigos habitantes


do vale do Limpopo, cujas origens estão ligadas aos diversos
movimentos migratórios que tiveram lugar, sobretudo, ao longo dos
últimos dois séculos. Este é o caso dos khosa e dos nguni provenientes
da Zululândia, na actual África do Sul.

Actualmente, a linhagem Machel encontra-se espalhada por várias


regiões da zona Sul de Moçambique, como Moamba, Magude,
Manhiça, Maputo, Kalanga, Mapai, Chicualacuala, Chókwè, e,
Kamassana, na África do Sul. De forma resumida, a árvore genealógica
de Samora Machel pode ser estabelecida desde Matine, seguindo-se
Xithlangi, Marimani, Khayihlano Maghayeye, Seye, Thethewayo,
Tchaya ni Tihavu, Ntshovani (ou Chovani), Ngomani, Magurumbani,
Manchiyani e Ntewani (Ntewana), Malengani, até Mandhande.27
Samora Moisés Machel nasceu a 29 de Setembro de 1933. Era filho
de Moisés Mandhande Machel (ca. 1892-1984) e Gugiye Thema
Dzimba (ca. 1900-1974).

27
Josefate Moisés Machel, entrevista de 16/09/2009. Cidade de Maputo.

34

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Mandhande Moisés Machel e Gugiye Thema Dzimba, pais de Samora Machel.

O nome foi-lhe atribuído por um homónimo, Samora Mukhavele,


parente pelo lado materno e antigo soldado do exército português.
Mukhavele combateu na zona do Rovuma, durante a Primeira Guerra
Mundial (1914-1918), e adoptou o nome Samora, mais tarde, em Tete.
Refere-se que este era o nome de um oficial português, Pedro Llach
Samora, de quem Mukhavele teria nutrido grande admiração.

Samora Mukhavele era uma referência entre as pessoas de Chilembene,


figurando entre os intelectuais da zona. Provavelmente, devido a esta
qualidade, por volta de 194028, foi apontado para ser entrevistado pelo
jurista Gonçalves Costa, que estudava a história e costumes de Gaza.
Deste modo, Mandhande Machel teria, igualmente, sido atraído por
estas qualidades excepcionais, para atribuir o nome Samora ao seu
filho. Parece testemunhar o nosso argumento, o facto de este nome
ter sido atribuído por duas ocasiões aos filhos de Mandhande. A
primeira vez foi dado a um dos filhos, que, para a tristeza da família,
encontrou a morte logo depois do seu nascimento. A segunda, de
forma insistente, àquele que viria a ser o primeiro Presidente de
Moçambique independente.

Durante o período em que Samora Moisés Machel viveu em


Chilembene, participava activamente nas actividades produtivas
familiares, com destaque para a pastagem de gado e a produção
agrícola, onde demonstrou habilidades excepcionais. A paixão e
28
Josefate Moisés Machel, entrevista citada.

35

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

as habilidades de Samora provinham da sua educação familiar,


especialmente do seu pai, um dos promotores do desenvolvimento
agrícola em Chilembene e da sua mãe, que conhecia a tradição de
trabalhar a terra, para dela extrair a riqueza.

O pai de Samora Machel crescera num contexto em que a vida


económica era marcada pelo trabalho migratório nas plantações e
minas sul-africanas. A partir dos recursos pecuniários e materiais
adquiridos neste país, para além das novas tecnologias e relações
produtivas, desenvolveu uma nova visão do mundo. Efectivamente,
o trabalho migratório teve como um dos resultados a introdução de
charruas para a tracção animal.

No que diz respeito à mãe de Samora, esta preocupava-se com a


educação dos seus filhos, ministrando aspectos que julgava úteis
para a sua vida adulta. Dentre os ensinamentos transmitidos figuram
as façanhas do sistema colonial em relação aos quais os seus filhos
deveriam estar atentos. Aliás, viu-se situação semelhante em Eduardo
Mondlane, cuja mãe o aconselhou a estudar como forma de melhor
conhecer o “feitiço dos brancos”. Esta conotação era em alusão à
relevância do domínio da ciência e da técnica para o desenvolvimento
das sociedades. Com efeito, Samora foi educado para saber criar gado,
trabalhar a terra, utilizando a charrua trazida da África do Sul pelo seu
pai e, ainda a se relacionar com outros jovens e os demais. Com estes
ensinamentos, Samora adquiria autonomia de pensamento e de acção,
com valores sublimes que depois se traduziriam em adestramento,
coragem e disciplina.

Na pastorícia, os rapazes de uma certa área, com o seu gado, saíam


ao amanhecer, para as zonas de pasto. Ali encontravam, às vezes,
outras manadas. Nos momentos de descanso do gado, organizavam-
se rixas entre os rapazes da mesma zona para se identificar o mais
forte. Por vezes, ocorriam também desafios entre os rapazes de áreas
diferentes. Às vezes, estas “lutas” iniciavam com a confrontação
entre os bois mais fortes das diferentes manadas. Chamava-se a isto
de kuqheka (provocar ou atiçar) e mugayeyiso, ou seja, a própria luta
com punhos e paus. Tanto os rapazes como as raparigas disputavam
também a chamada ‘luta livre’, designada, localmente, ku-pfinyana.

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Numa entrevista à revista Tempo, Samora Machel recordou-se destes


momentos, nos seguintes termos:

- “Ali quem não soubesse proteger-se como deve ser, apanhava


uma pancada na cabeça. E quando isso tinha acontecido,
podia-se ir para casa e mostrar a ferida aos pais. Não faziam
nada (…) A luta podia começar desta maneira: podiam
começar incitando os bois a lutar. Cada grupo incitaria o seu
principal boi a lutar contra o mais forte do outro. Uma vez o boi
derrotado, os rapazes avançavam e diziam: derrotaram os bois,
pensam que também nos derrotaram a nós? (...) Os que fossem
vencidos tinham de submeter-se (ku-khoza) e pagar o tributo
ku-luva (…) com ovos, até galinhas roubadas em casa…”.29

Para se chegar aos pastos, passava-se por cursos de água. Numa das
vezes, ocorreu um incidente que ficou memorável na sua mente e
na dos seus irmãos. Enquanto atravessavam o rio Nhlampfungeni,
Samora Machel atacou um crocodilo que tentava arrastar uma vaca
para a água. O crocodilo desistiu e o bovino escapou com ferimentos,
tendo-se curado posteriormente. Conta-se, ainda, que, demonstrando
a sua coragem, Samora pegou e despedaçou uma cobra grande com
as suas mãos.30

2.2. Formação Académica de Samora Machel

Samora Machel iniciou a sua educação formal em 1941, com cerca


de oito anos de idade, na Escola nº 21 em Uamichine, onde fez a 2ª
Classe, na região de Songuene.31 Em 1943, abandonou esta escola,
por razões associadas ao clima de conflitualidade entre a Igreja
Católica Romana e as Igrejas Protestantes. Segundo Josefate Machel,
a saída do seu irmão Samora desta escola era justificada, pelo facto
de seus pais serem seguidores da Igreja Protestante Metodista Livre.
Um exemplo deste conflito pode ser visto na fixação de uma capela
da Igreja Católica Romana junto à escola de Marrambadjane, que era
frequentada maioritariamente por seguidores da doutrina protestante.
29
Revista Tempo nº 837, de 26/10/1986.
30
Liesegang, 2001.
31
Romão Xinghemane Tchanque, entrevista de 05/08/2011. Chilembene.

37

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Capela da Igreja Católica junto à Escola de Marrambadjane.


Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

Em função dos acordos entre a Igreja Católica e o governo português,


a Concordata e o Acordo Missionário, assinados em 1940, a
responsabilidade da educação dos moçambicanos não assimilados
passava a ser de exclusiva responsabilidade das confissões religiosas
católico-romanas. Como resultado, acentuou-se a repressão aos
protestantes.32 Foi em reacção contra esta medida que Abel Tchambale
e Jonas Nkambaku introduziram a Compound Mission, uma corrente
da religião protestante na região, onde Mandhande viria a ser baptizado
e, contrair o seu matrimónio.33

É de destacar que o pai de Samora adquiriu o nome de Moisés aquando


do baptismo. Este nome não terá sido escolhido ao acaso, pois, está
envolto em alguma simbologia religiosa. De facto, na Bíblia Sagrada,
Moisés liderou o povo judeu na sua saída do Egipto e, eventualmente,
ele se considerava incumbido de uma missão semelhante, com vista
à promoção do desenvolvimento económico-social, da educação e
relações humanas eticamente guiadas, no quadro da sua família e
comunidade.
32
A título de exemplo, em Chilembene, registaram-se perseguições aos crentes e pastores da Compound
Mission, o que se saldou no desterro de alguns naturais da zona, nomeadamente, Jonas Nkambaku e Abel
Tchambale, para Vilanculos e Matutuine, respectivamente.
33
Liesegang, 2001: 21.

38

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Samora permaneceu fora dos estabelecimentos de ensino durante


algum tempo, no qual se dedicava à actividade agrícola e à pastorícia.
Em 1946, Samora Machel regressou à escola, desta vez na Missão
Católica São Paulo de Messano, fundada em 1901. A sua presença
nesta Missão foi efémera, provavelmente, devido às duras condições
a que os alunos eram submetidos.

Samora Machel, à direita, com um colega seu,


na Missão de S. Paulo de Messano. Fonte: Sopa, 2001.

Por volta de 1950, a Missão era bastante grande, atraindo a atenção


de muita gente, que a via como uma alternativa de formação técnico-
cientifica para os seus educandos. O mérito deste centro educacional
era a aliança que estabelecia entre os conhecimentos científicos
e práticos, à busca de um saber fazer efectivo. No entanto, o seu
demérito jazia em muitas fragilidades, como o excessivo rigor na
passagem de uma classe para a outra. Como diz Eduardo Mondlane,
a educação era uma forma de atrasar ou limitar os africanos no acesso
ao conhecimento.

39

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

De facto, apesar da magnitude da missão, o rácio aluno-professor era


bastante elevado e incompatível, situação agravada pelo fraco nível
de formação do corpo docente. A este respeito, Liesegang traz-nos
este cenário, dos finais dos anos cinquenta:

- “A agricultura (…) Tem uma área superior a 30 hectares


de terreno para a agricultura, em que se praticam várias
culturas, sendo as principais a do arroz, amendoim e banana.
Os alunos da sede e das escolas filiais tomam parte nos
trabalhos agrícolas como ensino prático. O ensino na sede está
confiado às irmãs religiosas [Franciscanas Hospitaleiras de
Calais]. Dos 50 professores rudimentares, 42 são subsidiados
directamente pelo Arcebispado. Destes, há: 3 diplomados, 4
com 4ª classe, 12 com 3a elementar, e os restantes, uns com o
exame rudimentar e outros simplesmente catequistas (...) Em
1947-48, a Missão tinha mais de 9.000 alunos matriculados
e apenas dois deles conseguiram passar no exame final da 4ª
classe”.34

Missão S. Paulo de Messano. Foto de 2011.


Fonte: ARPAC.
34
Liesegang, 2001:29.

40

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Devido a razões ainda pouco claras, Samora deixou esta missão, tendo
voltado a ficar fora dos bancos escolares. Depois, foi reintegrado em
Nwamutxinga, onde concluiu a 3ª Classe rudimentar, por sinal o nível
de ensino mais elevado ministrado neste estabelecimento de ensino.
Por este motivo, viu-se na missão de Messano a única saída para
Samora continuar a estudar. Em 1949, concluiu a 3ª Classe elementar
e, no ano seguinte, a 4ª Classe.

Importa frisar que pouco tempo antes da realização dos exames,


Samora foi vítima de chantagem por parte dos dirigentes da Missão.
Esta situação iria marcar de forma indelével a visão e, sobretudo, as
suas atitudes no seu relacionamento com a Igreja Católica. Em 1983,
recordando-se deste assunto, Samora Machel, revelou o seguinte:

- “Quando faltavam 15 dias para o exame da 4ª classe


disseram-me: ou és baptizado ou abandonas a Missão. Foi o
padre Romano (aquele que foi morto na Missão de São Roque
no Benfica) que disse. As irmãs de caridade e ele vieram
ter comigo e disseram: ou és baptizado, ou sais da Missão.
Faltavam 15 dias para o exame e eu tinha metido os papéis.
Era chantagem. Eu aceitei e fui baptizado e crismado. Deram-
me muitas ofertas. Terços com a cara de São Francisco
Xavier, etc. Ficaram satisfeitos, porque tinham ganho, tinham
convertido um protestante. Isto foi em 1950”.35

Parte das instalações da Missão São Paulo de Messano.


Foto de 2011. Fonte: ARPAC.
35
Christie, 1996:32.

41

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

A educação formal de Samora Machel termina com a 4ª Classe,


entretanto, prosseguiu com explicações enquanto exercia actividades
como enfermeiro em Lourenço Marques. Sobre este assunto, Albino
Maheche, citado por Christie, fez o seguinte comentário:
- “Frequentámos a escola, tipo explicações, do Dr. Pires
Moreira, que era um padre, depois (…) um colégio aqui na
Malhangalene, era de pastores protestantes da Igreja Metodista,
e depois frequentámos, também para fazer o 5º ano [que
corresponde, grosso modo, à 9ª classe], a escola ‘Fernando
Pessoa’ do Dr. Jaime Rebelo. Foi entre os anos de 1961, 1962
e 1963”.36

2.3. Formação Profissional de Samora Machel

Em 1950, com 17 anos de idade, Samora tinha concluído a 4ª Classe.


Ao que parece, fez parte do grupo de três ou quatro alunos do seu ano,
que concluiu a escola com aproveitamento positivo. Era o topo do
que era normalmente a carreira escolar para os africanos no sistema
colonial vigente na altura.
Após a conclusão deste nível, Samora pretendia continuar com os
seus estudos no ensino secundário ou seguir para a Escola Técnica
Sá da Bandeira (actual Escola Industrial 1º de Maio de Maputo).
No entanto, os missionários de Messano queriam mandá-lo para o
Seminário Menor de Magude. Simultaneamente, Samora estava na
lista dos três alunos que o administrador distrital tinha escolhido
para oficiais de Secretaria em Mabalane, no quadro do reforço do
sistema administrativo colonial.37 No entanto, Samora Machel acabou
seguindo para a carreira de enfermagem.

A sua formação nesta especialidade pode ser dividida em fases, sendo


a primeira, a de estágio por 6 meses, em Xai-Xai, entre 1950 e 1951,
onde, trabalhou na Delegacia de Saúde local. Foi a partir daqui onde
concorreu, pela primeira vez, para o curso de enfermagem que era
ministrado no Hospital Miguel Bombarda, em Lourenço Marques
(actual Hospital Central de Maputo), não tendo sido admitido.
36
Idem. Estas informaçoes são partilhadas por Matias Mboa, companheiro de então, de Samora Machel,
entrevistado por Fernando Dava e Arrissis Mudender, Agosto de 2011.
37
Christie, 1996:32.

42

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Não conformado, concorreu novamente e, desta vez, foi aceite, tendo


seguido ao Hospital Miguel Bombarda, onde funcionava o curso, com
a duração de dois anos. No decorrer do curso, Samora Machel não
conseguiu, na primeira tentativa, sair-se bem na cadeira de Medicina
Prática, cujo exame era oral e de prática. Assim, somente no ano
seguinte é que concluiu a formação, isto é, em 1954.

Nessa altura, segundo relatos do jornalista Marques Gastão, citado


por Liesegang, o Hospital Miguel Bombarda funcionava com
um pessoal constituído por “... 33 médicos, além do director, dois
farmacêuticos, mais de uma centena de enfermeiros, auxiliares, etc.,
com um total de 438 trabalhadores, dispondo de 902 camas”.38 Esta
unidade hospitalar respondia, essencialmente, pela assistência médica
e sanitária aos habitantes de Lourenço Marques e, em menor escala,
aos residentes dos bairros periféricos, nomeadamente, Chamanculo,
Xinhambanine, Xiphamanine, Munhuana, Bairro Indígena,
Maxaquene e Malhangalene.

No que se refere à máquina administrativa e repressiva colonial, esta


era caracterizada por uma forma de funcionamento notavelmente
autoritária e baseada numa discriminação racial visível. Neste sentido,
quando os africanos entravam em conflito com europeus, sobretudo
portugueses, corriam o risco de ser deportados para as plantações de
São Tomé ou dentro do país, para trabalhos forçados.

Uma das estratégias de sobrevivência adoptada por alguns membros


da comunidade africana era a conquista de padrinhos entre os brancos,
aos quais podiam recorrer em caso de dificuldades. Estes padrinhos
eram, geralmente, membros dos grupos chamados “liberais” e
“comunistas”, onde despontavam médicos, banqueiros e advogados,
que contestavam as atrocidades do regime colonial fascista.

Não obstante a prevalência desta realidade político-social, Samora


Machel mostrava-se desinibido, não tolerando abusos que não fossem
justificados. Em situações do género, reagia prontamente e de forma
indómita. A sua agilidade física era suportada pelos exercícios que
38
Liesegang, 2001:35.

43

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efectuava com assiduidade. Aliás, ele praticava boxe, o que lhe valeu a
alcunha de Jack Dempsey. A propósito das suas qualidades, Martinho
Cossa, referiu:

- “Samora Machel sempre gostou de exercícios físicos,


particularmente, brincadeiras de boxe, razão pela qual era
respeitado e até mesmo, temido pelos outros rapazes. Os
irmãos mais velhos e amigos confiavam nele em caso de
agressão no pasto”.39

Enquanto estudante de enfermagem, Samora ocupava parte do seu


tempo livre lendo jornais e informando-se sobre os desenvolvimentos
políticos e sociais do mundo inteiro, particularmente, sobre a União
Soviética.40

Samora Moisés Machel, em Lourenço Marques.


Fonte: Sopa, 2001.
39
Martinho Paulo Cossa, entrevista de 22/06/2011. Chilembene.
40
Liesegang, 2001.

44

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2.4. Actividade Profissional de Samora Machel

Finda a formação, Samora Machel permaneceu cerca de um ano à


espera de vaga, enquanto realizava alguns trabalhos no Hospital
Miguel Bombarda, como praticante de enfermagem. Depois de
admitido, foi promovido a ajudante de enfermeiro-auxiliar e colocado
em Matutuíne. Devido à sua notável prestação na assistência sanitária
aos seus concidadãos, Samora Machel seria destacado para a Ilha de
Inhaca.

O Anuário do Ultramar Português de 1957, 1958 e 1959, descreve


na rubrica “Saúde e Higiene”, no Posto Sanitário da Ilha de Inhaca,
o enfermeiro Samora Machel, como estando a dedicar-se de forma
abnegada no trabalho de prevenção e tratamento de diversas
enfermidades que afligiam os membros daquela comunidade. No
referido documento, lê-se o seguinte:

- “...o ‘enfermeiro indígena’ ‘Samora Moisés Machele’ batalha


com uma epidemia de cólera ou disenteria, visitando as casas
dos habitantes, tenta evitar conflitos com o chefe do Posto, um
branco”.41

Samora Machel tratando um paciente, na Ilha de Inhaca.


Fonte: Sopa, 2001.
41
Liesegang, 2001.

45

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Esta avaliação efectuada pelos agentes do regime colonial, permite


concluir que a actividade de Samora Machel nesta matéria teve
um alcance notável, se se atender ao facto de que as condições
existentes em termos de equipamentos de trabalho e disponibilidade
de medicamentos para fazer face a estas epidemias tropicais eram
deficitárias. Como se pode depreender, o seu esforço em evitar
desentendimentos com o chefe do Posto local visava permitir que
ele continuasse com a sua actividade, de modo a garantir uma maior
eficácia na sua intervenção.

Posto de Saúde de Inhaca, onde Samora Machel trabalhou.


Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

Na Ilha de Inhaca, Samora Machel trabalhou três anos, findos os


quais, pediu transferência para o Hospital Miguel Bombarda, com
o objectivo de encontrar condições favoráveis para a prossecução
dos seus estudos. Após a sua chegada, concorreu ao curso normal de
enfermagem, antes reservado a brancos e assimilados. Devido às suas
qualificações literárias, conseguiu participar num curso intensivo, de
um ano, em 1961, tendo transitado nas provas escritas e reprovado no
exame prático e oral.
Contudo, como já tivesse cursado enfermagem, Samora Machel
continuou a trabalhar neste hospital, tendo passado por diversas
enfermarias, com destaque para a 13ª, destinada a pacientes negros não
assimilados. Nesta enfermaria, eram também realizadas investigações
sobre malária.

46

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2.5. Constituição da Família

A constituição da família em Samora Machel pode ser enquadrada


no seu contexto cultural. Esta importante decisão foi também
influenciada pela sua integração no mercado do trabalho. De facto, a
tradição moçambicana preconiza que, a uma certa idade, o rapaz deve
constituir família, o que o integra no mundo adulto, passando assim a
fazer parte dos órgãos de decisão da sua comunidade.

Quando estava na Ilha de Inhaca, Samora conheceu Sorita Tchaiakomo


com quem manteve uma relação afectiva. Debruçando-se sobre esta
relação, Sorita revelou que eles se conheceram, de facto, nesta ilha,
quando ela se dedicava ao comércio informal no mercado local.

- “... Eu conheci Samora quando era vendedeira de matoritori,


pão e badjia no mercado informal que fica junto do cais. Ao fim
das actividades laborais e nas horas de lazer, ele gostava de
passear por aqui. Mesmo quando ele foi trabalhar no Hospital
Miguel Bombarda, o nosso relacionamento continuou, até a
altura em que Samora foi a Tanzania”.42

Sorita Tchaiakomo. Foto de 2009. Fonte: ARPAC.

Da relação com Sorita nasceram quatro filhos, nomeadamente,


Josceline, Edelson, Olívia e Ntewane. Quando Samora passou a
trabalhar em Lourenço Marques, tinha deixado a família na Ilha de
Inhaca, assistindo-a através de víveres e outros bens. Nesta cidade,
42
Sorita Tchaiakomo, entrevista de 9/10/2009. Ilha de Inhaca.

47

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

residiu primeiramente numa casa arrendada no bairro da Mafalala.


Entre 1962 e 1963, iniciou a construção da sua casa, no Xiphamanine,
próximo ao bairro Indígena.

Casa onde Samora Machel viveu no Bairro da Mafalala.


Foto de 2010. Fonte: ARPAC.

No período anterior à sua partida para Tanzania, Samora Machel


conheceu Irene Buque, que fora colega na enfermaria do Hospital
Miguel Bombarda. Desta relação nasceu Ornila Machel.

Irene Buque. Fonte: Sopa, 2001.

48

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Durante a Luta Armada, Samora Machel contraiu matrimónio com


a combatente Josina Abiatar Muthemba, a 4 de Maio de 1969. O
casamento decorreu no Centro Educacional de Tunduru, na Tanzania,
sendo padrinhos dos nubentes Janet Mondlane e Aurélio Manave, por
parte da noiva, e Marina Pachinuapa e Alberto Chipande, do noivo.
Este enlace matrimonial foi celebrado por Uria Simango.

Cerimónia de casamento entre Samora e Josina.


Fonte: CDSM.

Deste casamento, nasceu um único filho, homónimo de seu pai, isto


é, Samora Machel Júnior, mais conhecido por Samito, que veio ao
mundo no dia 23 de Novembro de 1969, na Tanzania. Porém, este
enlace matrimonial teve uma existência relativamente efémera, tendo
durado até 7 de Abril de 1971, altura em que Josina Machel perdeu a
vida, vítima de doença.

49

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Posteriormente, Samora Machel contraiu matrimónio com Graça


Simbine, acto realizado a 7 de Setembro de 1975. Debruçando-se
sobre as circunstâncias em que se conheceram, Graça Simbine referiu
que, antes da sua partida a Portugal, conhecia Samora Machel, no
entanto, sem nenhuma aproximação ou afinidade. Foi quando ela
se integrou nos esforços da luta de libertação que se aproximaram
e, efectivamente, surgiu uma relação afectiva, que culminou com
a celebração do matrimónio. Graça Simbine acrescentou ainda o
seguinte:

- “Antes de ir para Portugal, eu conhecia Samora de vista.


Quando fui fazer o treino político-militar, ele já era presidente
da FRELIMO e eu apenas um soldado raso. Mas como eu
tinha acabado de chegar da Europa, onde tinha estudado, feito
uma faculdade, ele me procurou com o objectivo de entender
o cenário de Portugal. Estava viúvo de Josina Machel havia
quatro anos. Samora me fazia muitas perguntas, queria
entender tudo e nós tivemos debates muito interessantes. Acho
que foi ali que começámos a nos descobrir como pessoas. Eu
estava ali falando com o meu presidente e ele com um soldado.
Mas de soldado para presidente, no meio daquelas conversas
repetidas, começou a surgir uma certa química. Assim nós nos
aproximámos”.43

Foram padrinhos, por parte da noiva, Julius Nyerere e esposa, e do lado


do noivo, a esposa de Kenneth Kaunda, que representou também o seu
marido. A cerimónia de casamento ocorreu no palácio presidencial.
Deste casamento, a família Machel teve dois filhos, nomeadamente,
Josina e Malengani.

Efectuando uma breve leitura em torno do casamento presidencial,


Gabriel Simbine destacou que este não obedeceu tanto aos padrões
culturais tradicionais, nem à orientação religiosa. Tal situação era
justitificada pela significativa mudança ideológica que se tinha
observado no seio do movimento de libertação e das lideranças. Neste
43
Neves, In: seven.blogs.sap.pt. Acessado em 10/05/2011.

50

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sentido, Samora Machel, como Presidente do movimento, devia dar o


exemplo sobre a linha ideológica correcta, realizando um casamento
de carácter laico. Simbine referiu-se nos seguintes termos:

- “O casamento não envolveu cerimónias religiosas e


tradicionais, como o lobolo, numa altura em que o Estado
era laico, por um lado, e, por outro, revolucionário, baseado
no desenvolvimento de um Homem Novo, despido de valores
culturais tradicionais, subentendidos como arcaicos e
retrógrados”.44

Cerimónia de casamento de Samora Machel e Graça Simbine.


Fonte: CDSM.

Samora Machel deixou uma descendência composta por oito filhos


e doze netos, nomeadamente, Khataza, Ziyaya, Carlos, Kai, Gugiye
Kianga, Gugiye, Samora Terceiro, Malike, Zizile Graça, Fanone
(Nzanji), João e Dione.

44
Gabriel Simbine, entrevisata de 23/05/2011. Cidade de Maputo.

51

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52

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Parte da família de Samora Machel, vendo-se Samora e Graça Machel, ladeados pelos filhos Olívia,
Samora Júnior, Jusceline e Malenga, à esquerda, e Josina e Edelson, à direita. Fonte: CDSM

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3. Samora Machel no Contexto do Nacionalismo


e da Luta de Libertação Nacional

3.1. A Emergência do Nacionalismo em Moçambique

A emergência do nacionalismo moçambicano encontra a sua


explicação na conjugação de factores internos e externos. No quadro
interno, a administração colonial e todo o seu aparato de exploração,
discriminação e de repressão conduziram ao surgimento de um
sentimento de revolta, inicialmente, manifesto por via de imprensa e
das artes e, posteriormente, pela criação de associações e movimentos
independentistas. O contexto externo foi marcado pela eclosão e
participação de alguns africanos na II Guerra Mundial, assim como
pelas resoluções das Nações Unidas, conjugadas com as declarações
da União Soviética e dos Estados Unidos da América sobre o direito
à autodeterminação dos povos.

Quando se evoca o termo nacionalismo, normalmente, fica


subentendida a ideia de autodeterminação nacional tanto do ponto
de vista étnico como racial, sobretudo, se moldado por meio de uma
percepção cultural, em que se destacam os elementos que formam
uma identidade nacional. Alguns autores45, quando abordam o
nacionalismo, veiculam a ideia de cidadania e da possibilidade ou
não de associação com a democracia. No entanto, para Guibernau46,
o nacionalismo pode ser definido como uma disposição em se formar
uma comunidade cujos membros se identificam com um conjunto de
símbolos, crenças e estilo de vida e têm vontade de decidir sobre o seu
destino político comum.
45
Bauman, 1990; Smelser, 1994; Habermas, 1996.
46
Guibernau, 1997.

53

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Segundo Eduardo Mondlane47, o nacionalismo é “uma tomada de


consciência por parte de indivíduos ou grupos de indivíduos numa
nação ou de um desejo de desenvolver a força, a liberdade ou a
prosperidade dessa nação”. A respeito do nacionalismo africano,
Mondlane sublinhou que alguns aspectos específicos determinaram
reacções diferentes, influenciadas pelas realidades económicas, sociais,
culturais e políticas consoante o tipo de colonização (portuguesa,
francesa e inglesa), dando lugar a teorias concorrentes como o pan-
africanismo, personalidade africana, negritude e africanité.48

No quadro moçambicano, as acções nacionalistas tiveram como uma


das primeiras formas de manifestação, os artigos de imprensa que
denunciavam as arbitrariedades do regime colonial português e através
de greves e revoltas contra a caderneta indígena, o chibalo, o imposto
de palhota, a discriminação social, o serviço militar, a palmatória e
o cavalo-marinho, as deportações para São Tomé e Príncipe e outros
destinos de degredo. No entanto, ainda não tinha surgido entre os
moçambicanos a consciência de unidade e de território moçambicano.
Esta fase do nacionalismo foi designada por nativismo49, caracterizada
por acções locais.

O carácter localizado das manifestações dos moçambicanos facilitava


o trabalho da máquina repressiva colonial. Assim, o seu impacto
reduziu-se a um sussurro que se desfazia segundo a distância do lugar
dos acontecimentos.50 Em relação às condições para a emergência do
nacionalismo em Moçambique, Eduardo Mondlane, então Presidente
da FRELIMO, a 3 de Dezembro de 1964, em Dar-es-Salaam, fez a
seguinte declaração:

- “O nacionalismo moçambicano, como praticamente todo


o nacionalismo africano, foi fruto directo do colonialismo
europeu. A base mais característica da unidade nacional
moçambicana é a experiência comum (em sofrer) do povo
durante os últimos cem anos de controlo colonial português”.51
47
Mondlane, 1995.
48
Arnaut, 1964, citando, igualmente, Mondlane, 1995.
49
Magaia, 2010.
50
Magaia, 2010.
51
Magaia, 2010:40.

54

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No período compreendido entre 1960 e 1964, vivia-se uma


conjuntura sócio-política caracterizada pelo crescimento de focos
de nacionalismo. Em reacção, a Polícia Internacional de Defesa de
Estado (PIDE) intensificou as suas acções de perseguição e detenção
de moçambicanos envolvidos na luta clandestina e, sobretudo,
daqueles que contestavam abertamente a continuidade da vigência do
sistema colonial.

O Massacre de Mueda, em Cabo Delgado, ocorrido a 16 de Junho de


1960; a visita de Eduardo Mondlane a Moçambique, em Fevereiro
de 1961; e a fundação da FRELIMO, a 25 de Junho de 1962, em
Dar-es-Salaam, foram factos históricos cujo impacto teve seu eco no
país inteiro. Samora Machel sentiu-se influenciado pela força destes
ventos libertadores.

No contexto externo, o fim da 2ª Guerra Mundial, em 1945, abriu


uma nova página na História da Humanidade. Esta foi caracterizada
pelo surgimento de movimentos nacionalistas e progressistas na Ásia,
América Latina e África. Estes movimentos tinham como objectivo
fundamental a libertação dos seus povos e territórios do jugo
imperialista. Contudo, devido ao carácter belicista destes regimes,
alguns destes movimentos tiveram de recorrer à luta armada, como
única alternativa para a materialização daquele objectivo.

Em África, a corrente libertadora começou a ter maior impacto


na segunda metade da década de 50. Nessa altura, influenciados
pelo movimento pan-africanista, proeminentes líderes africanos
intensificaram as suas acções com vista a pôr fim à colonização dos
seus países. Dentre estas figuras, destaca-se Kwame N’krumah, do
Ghana; Jomo Kenyatta, do Quénia; Patrice Lumumba, do Congo;
Gamal Abel Nasser, do Egipto; Julius Nyerere, da Tanzania e Leopold
Senghor, do Senegal.52

Em 1959, com o apoio de Julius Nyerere, foi fundada a Tanganyika


– Mozambique Makonde Union. No mesmo ano, na ilha de Zanzibar,
foi criada a Zanzibar Mozambique Makonde and Makua Union ou
Makonde and Makua Zanzibar Union.
52
Dove, 2008.

55

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Estas eram associações de ajuda mútua e de defesa dos interesses das


comunidades, que agrupavam trabalhadores migrantes e refugiados
oriundos de Moçambique. Na Rodésia do Sul, em 1960, e, na
Niassalândia, em 1961, trabalhadores moçambicanos emigrados,
igualmente, se juntaram em associações.53

As ideologias das independências africanas, nos anos cinquenta


e sessenta do século passado, foram influenciadas pelo ideal do
movimento pan-africanista. Estas ideologias eram unificantes, na
medida em que os dirigentes nacionalistas deviam aceitar os limites
territoriais impostos pelo colonialismo. Assim, deviam negar as
diferenças em nome de uma unidade nacional fundada na experiência
colonial comum a todos os territórios, em primeiro lugar, e em nome
da unidade africana assente na unicidade do continente, em segundo. É
por essa razão que se afirma que a África foi inventada pelos próprios
africanos, com ideologias como a negritude de Senghor, a ujamaa
de Nyerere, a autenticidade de Mobutu, o humanismo de Kaunda,
que tinham em comum uma representação da natureza do Homem
e das sociedades africanas extrapolada do seu contexto histórico e
político.54

Entretanto, estas premissas foram consolidadas no contexto do


colonialismo português da época, através do sistema de trabalho
forçado, a repressão da consciência nacional e a humilhação
institucionalizada dos africanos.55 Efectivamente, esta realidade,
conjugada com os desenvolvimentos políticos em África e no mundo,
contribuiu para o desenvolvimento do pensamento nacionalista
de Samora Moisés Machel, nos anos 50 e princípios de 60. Alguns
eventos que serviram para atiçar esta consciência foram as lutas anti-
coloniais no Vietname, Argélia, Congo assim como Angola. Foram
estes acontecimentos que, conjugados com a conjuntura política
interna, o conduziram a envolver-se na luta clandestina.
53
Cabaço, 2010.
54
Magaia, 2010.
55
Idem.

56

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3.2. O Envolvimento de Samora Moisés Machel na Luta


Clandestina

Em 1951, quando Samora Machel entrou no Hospital Miguel


Bombarda, o ambiente que encontrou era caracterizado por um tipo
de segregação social, baseada na cor e na origem etno-linguística. No
entanto, Samora já possuía um elevado grau de sociabilidade e um
sentido de justiça apurado. Assim, ele tentava conviver com todas as
pessoas, independentemente da sua cor e origem étnica.56

Neste contexto, Samora Machel conseguiu formar grupos para


debates políticos. Assim, durante as noites, se concentravam para
trocar impressões sobre os desenvolvimentos políticos nacionais
e internacionais, que obtinham através da leitura de jornais e da
escuta de certas emissões radiofónicas. Foi nessa altura que Samora
participou numa reivindicação com vista ao reajustamento salarial
dos praticantes de enfermagem. Em reacção, a polícia portuguesa
perseguiu os enfermeiros, chegando a ameaçar com a detenção dos
elementos mais destacados dessa reivindicação.57
O amadurecimento político-nacionalista de Samora Machel não foi
condicionado somente pelas leituras e conversas que estabelecia com
seus colegas. A presença de Eduardo Mondlane em Moçambique,
em 1961, aspecto referido anteriormente, produziu um significativo
impacto na consciência política de Samora Machel e de outros jovens
contemporâneos.
Nesta época, a PIDE intensificou a sua vigilância, seguindo atentamente
os passos das pessoas de quem desconfiava. A título de exemplo, em
1961, foram julgados cerca de 13 presos políticos e, como corolário,
Samora Machel foi chamado para interrogatório pelo Comandante
Segurado. Foi na sequência da instabilidade em que vivia, acossado
permanentemente pela PIDE, que em tom de brincadeira Machel
dizia: “não posso continuar com esta vida. Qualquer dia vou-me
embora, vou para fora estudar e quando regressar vocês escrevam
um bilhetinho a pedir: favor dar emprego ao rapaz”.58
56
Arquivo, nº 18.
57
Idem.
58
Idem.

57

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No mesmo período, participou no lançamento de panfletos, contendo


informação sobre a existência de partidos políticos em Nampula,
Cabo Delgado e Niassa. Parte destes panfletos foram parar às mãos
de alguns enfermeiros cujos nomes constavam dos dossiers da PIDE.
Por isso, alguns destes foram presos.59

Samora Machel já era membro de uma célula da luta clandestina,


composta, para além dele, por Matias Mboa e Simão Massango. Esta
era denominada “Os Três Irmãos Africanos”. Apesar da discrição
das suas acções, a PIDE, com o apoio dos seus colaboradores e
informantes, farejava nele alguma tendência anti-colonialista.

Com efeito, João Ferreira, um enfermeiro de raça branca, em serviço


no Hospital Miguel Bombarda e que simpatizava com as tendências
nacionalistas, um dia visitou a “Enfermaria 13”, onde Samora
trabalhava. De acordo com Ian Christie, numa das camas estava
um paciente chamado Victor Hugo. Este informou ao Ferreira que
pouco depois de entrar no hospital, tinha sido visitado e interrogado
pela PIDE, que o confundira com Samora Machel.60 Em face desta
revelação, Samora Machel não esperou que a PIDE voltasse de novo
à sua procura. Assim, decidiu encetar a fuga, na companhia de Matias
Mboa.

João Ferreira, no local onde informou a Samora que a PIDE estava


à sua procura, a 4 de Março de 1963. Fonte: Sopa, 2001.
59
Arquivo, nº 18.
60
Christie, 1996.

58

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Contudo, a partida de Samora Machel para Dar-Es-Salaam foi adiada


por algum tempo devido, por um lado, à necessidade de terminar a
casa que estava a construir para a sua família. Por outro lado, Matias
Mboa fora incorporado nas Forças Armadas do Exército Colonial.
Neste sentido, enquanto Samora Machel terminava a habitação,
Matias Mboa tentava desembaraçar-se deste exército. Para o efeito,
Mboa fingiu padecer de tuberculose, tendo sido enviado ao Hospital
Militar. Na sequência, Samora e a enfermeira Irene Buque, com ajuda
de um médico amigo, conseguiram falsificar os resultados dos exames
médicos, confirmando a inexistente tuberculose.61

Matias Mboa.

3.3. A Viagem de Samora Machel a Dar-Es-Salaam e seu


Ingresso na FRELIMO

A partida de Samora Machel à Tanzania ocorreu em 1963. De acordo


com Mboa, eles reconheciam as dificuldades que existiam na hipótese
de seguirem um itinerário Sul - Norte e entrar na Tanzania. Na altura,
era extremamente difícil conseguir transporte para a região Norte, por
via terrestre. Por outro lado, a Estrada Nacional, a chamada espinha
dorsal das comunicações terrestres de Moçambique, era constituída
por longos troços de trilhos e picadas que por vezes se embrenhavam
61
Matias Mboa, intervenção de 16/06/09. Escola Central do Partido FRELIMO. Matola..

59

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por matas densas. Igualmente, a via que, por volta de 1962 e 1963, tinha
sido usada por alguns nacionalistas, a que saía de Lourenço Marques
através da Linha Férrea do Limpopo, até Malvérnia (Chicualacuala)
e desembocava na Rodésia, já se encontrava bastante obstruída pelas
acções de vigilância realizadas pela PIDE, com o apoio dos regimes
racistas da Rodésia do Sul e da África do Sul.62

Perante este cenário, consideraram a hipótese de uso da rota da


Suazilândia. Mboa referiu que eles se lembraram do padre Matias
Chicobo, que era seu padrinho, o qual, por sua vez lhes recomendara
que entrassem em contacto com um outro padre, Moisés. Este último
viria a comunicar-se com o padre Zefanias, em Zitundo, no actual
Posto Administrativo, distrito de Matutuine. Já com base nestes
contactos, o grupo partiu de Lourenço Marques às 4:30 horas do dia 4
de Março de 1963 e atravessou Catembe, passando por Zitundo, tendo
como primeira meta, chegar à Suazilândia.

A colaboração dos representantes das congregações religiosas,


sobretudo os padres católicos, pastores protestantes e irmandades
muçulmanas, com os movimentos nacionalistas moçambicanos era,
de facto, uma realidade.

A coberto da pregação da palavra divina, estas contribuíam para


a disseminação de mensagens anti-colonialistas. No caso das
irmandades muçulmanas, Bonate63 indicou que o recrutamento de
jovens no Norte do país, para a causa nacionalista era conduzido
durante uma banja, isto é, um acto público, acompanhado por um
ritual, que proporcionava legitimidade ao processo.

A respeito das missões, dois exemplos elucidam as considerações


acima. Saute64, explicando o papel da Missão Anglicana de
Messumba na contestação ao regime colonial, enfatizou que em
defesa das comunidades, alguns missionários, entre moçambicanos
62
Apesar da condição precária deste itinerário devido à presença da PIDE e a colaboração com a Polícia
Rodesiana, em finais de 1963, José Phahlane Moiane seguiu por ela até Tanzania. Isto é, a rota continuou
a ser usada até este período, no entanto, as probabilidades de cair nas mãos da PIDE eram bastante
maiores. Vide: Moiane, 2009. Também para um relato, de certo modo, mais pormenorizado sobre esta
via, veja-se o mesmo autor.
63
Bonate, 2009.
64
Saute, 2005.

60

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e estrangeiros, confrontaram-se com as acções de brutalidade


perpetradas pela administração colonial. Neste processo, tanto no
contexto religioso como político, acabaram fazendo as suas próprias
agendas, dentro da Missão Anglicana. Outro exemplo é o do Pastor
anglicano Zedequias Manganhela65, acusado pela PIDE de subversão
e de financiar a guerrilha. Este viria a perder a vida em 1972, na
Cadeia da Machava.
Voltando aos jovens viajantes, chegados a Zitundo, tiveram a
necessidade de trocar o dinheiro que possuíam, de Escudo para a
Libra, moeda corrente em alguns dos territórios que iam percorrer.
Devido à quantidade considerável do montante para quem pretendesse
efectuar uma simples viagem de visita à Suazilândia, levantaram-
se suspeitas em relação às suas reais intenções. Porém, Samora
Machel, que era relativamente conhecido na região na qualidade
de enfermeiro, afirmou que estava de férias e que ia comprar gado.
Assim, conseguiram atravessar a fronteira e seguir viagem.
Na Suazilândia, apresentaram-se ao Dr. Dlamini que os mandou para
Mbabane, capital do território, ao encontro do Dr. Zwane, Presidente
do “Ngwane National Liberatory Congress”. Este, por sua vez,
recomendou-lhes o Secretário-Geral do partido, Dumissa Dlamini,
um príncipe próximo do Rei Sobhuza II, a quem pediram para falar
com o príncipe Magule, ligado ao Governo do Protectorado Inglês.
Estes políticos eram simpatizantes dos movimentos de libertação da
região e estavam a par das dinâmicas políticas que ocorriam. Aliás,
eles também lutavam pela liberdade da Suazilândia da administração
britânica.
Durante a estadia na Suazilândia, enquanto se encetavam esforços
para prosseguirem a viagem, Samora Machel e Matias Mboa ficaram
na cidade de Mbabane, mais concretamente no bairro de Msunduza.
Neste local também localizava-se um acampamento de refugiados que
albergava nacionalistas moçambicanos e de países da região austral.
Matias Mboa66 confirmou que ele e o seu companheiro Samora, foram
acolhidos em casa do Dr. Nquku, então Presidente do “Swazi National
Progress Party”, que, igualmente acolheu outros nacionalistas.67
65
Chamango, 2005.
66
Matias Mboa, entrevista de 05/09/2011. Cidade de Maputo.
67
Esta casa acolheu, igualmente, Josefate Machel que saiu de Lourenço Marques para Dar-Es-Salaam
um mês depois de Samora Machel.

61

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Fachada principal da casa do Dr. Nquku. Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

Dependências em que se albergou Samora Machel, em casa do Dr. Nquku


Foto de 2011. Fonte: ARPAC.

62

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Ao príncipe Magule, Samora e Mboa explicaram o seu objectivo,


que era, basicamente, conseguir chegar a Dar-es-Salaam. No entanto,
informaram que havia dificuldades de atravessar as fronteiras
até alcançarem o seu destino, uma vez que não possuíam nenhum
passaporte ou documento de viagem. Em resposta ao pedido, o príncipe
emitiu um salvo-conduto, qualificando-os como cidadãos suázis de
visita ao Botswana. Com esta documentação partiram, passando pela
República da África do Sul, via ferroviária, até Francistown.68

Salvo-conduto fornecido a Samora Machel na Suazilândia.


Fonte: Sopa, 2001.

No Botswana, na tentativa de atravessar a fronteira para a Rodésia


do Norte (actual Zâmbia), introduziram-se numa fila de mineiros que
também entravam para aquele território. De acordo com Matias Mboa,
Samora Machel seguiu em frente, com um intervalo de separação
preenchido pelos mineiros. Antes combinaram para fingirem que
ninguém conhecia o outro e que se alguém arranjasse problemas não
tinha nada que denunciar o companheiro.
68
Matias Mboa, entrevista de 02/09/2011. Cidade de Maputo.

63

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Quando chegou a vez de Samora Machel se identificar perante a polícia,


esta, desconfiada, mandou-o sair da fila. Mboa, observou a situação
com muita preocupação, mas conseguiu conter-se, continuando
a marcha em direcção ao mesmo polícia, que, uma vez, mais o
mandou sair da fila. O polícia colocou algumas questões em língua
xi-cewa, ao que estes não conseguiram responder. Demonstrando
que os tinha identificado como moçambicanos, mandou-os tirar as
camisas, deixando a descoberto as cicatrizes de vacinas. Na altura,
somente moçambicanos e angolanos as possuíam, como resultado das
campanhas de administração de BCG, uma vacina contra a tuberculose
feita nestas antigas colónias portuguesas. De forma condescendente,
aconselhou-os a não permanecerem em Francistown, sob o risco de
serem raptados pelos agentes da PIDE e repatriados para Moçambique.

É de salientar que havia vários casos de rapto, em vários países que


tinham estabelecido acordos com a PIDE, entre eles, o Protectorado
da Suazilândia e o regime minoritário da Rodésia do Sul (Zimbabwe).
A título de exemplo, na Suazilândia, alguns nacionalistas, como
Ibrahimo Papucho e Ibrahimo Manguço, foram raptados e repatriados
para Lourenço Marques e executados pela PIDE.

Na Bechuanalândia, algumas individualidades ligadas a partidos e a


congregações religiosas, prestavam apoio aos nacionalistas da região
que transitavam por aquele território. Na altura, existia o Bechuana
Peoples Party (BPP), que foi notável na assistência prestada a estes
jovens libertadores.

Seguindo o conselho do polícia, partiram de Francistown para Lobatse,


uma pequena cidade do então protectorado britânico. Samora Machel
ficou hospedado na casa do velho Kgaboesele, um militante do BPP,
que na companhia de sua esposa, lhe prestou o apoio necessário, o
que o incentivou a prosseguir com a sua causa. Lobatse foi um local
de trânsito de diversos nacionalistas da região, sobretudo devido à sua
localização geo-estratégica e ao cruzamento de vias de comunicação,
como linhas férreas e rodoviárias. Estas ligam a República da África
do Sul e a fronteira com a Zâmbia, entre outros destinos.

64

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Casa onde Samora Machel foi alojado em Lobatse, vendo-se o interior


do quarto onde Samora dormia. Junto à parede, a base da sua cama.
Foto de 2010. Fonte: ARPAC.

A casa em que Samora Machel foi hospedado está a ser transformada
em “Museu Samora Machel”, e passará a constituir uma referência
importante deste acontecimento. Como forma de agradecimento, o
Governo moçambicano edificou uma outra habitação para a família
Kgaboesele.

Casa construida pelo Governo moçambicano


para a família Kgaboesele. Foto de 2010. Fonte: ARPAC.

65

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

A respeito das dificuldades de seguir a viagem, os jovens decidiram


comunicar, por correspondência, esta preocupação ao Dr. Eduardo
Mondlane, Presidente da FRELIMO, que os aconselhou a terem calma,
pois, esforços seriam envidados com vista à solução do problema.
Enquanto aguardavam, juntaram-se a um grupo de cidadãos sul-
africanos que esperava, igualmente, por uma oportunidade de viajar
para Dar-es-Salaam.

Florence, esposa de Kgaboesele. Foto de 2010. Fonte: ARPAC.

Em Abril de 1963, Samora Machel e Matias Mboa conseguiram


embarcar num avião Dakota fretado pelo African National Congress
(ANC), para levar militantes deste movimento para Dar-es-Salaam.
Entre estes, estava Joe Slovo e J. B. Marks. A este respeito, Iain
Christie, citando Joe Slovo, referiu o seguinte:

- “Pouco antes de partirmos, um jovem magro e enérgico


perguntou se era possível obter um lugar no nosso avião
porque queria ir juntar-se às forças da FRELIMO. JB tomou
imediatamente a decisão de que um dos nossos quadros
deveria sair do avião para dar lugar ao recruta da FRELIMO.

66

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O recruta que viajou connosco (e ele lembra-se disso muito


bem e costuma contar esta história) é o Camarada Presidente
Samora Machel”.69

Chegados a Dar-es-Salaam, Samora Machel e Matias Mboa foram


recebidos por Alberto Chipande e acomodados numa antiga Esquadra
da Polícia, no Bairro de Ilala, onde se encontravam outros jovens
moçambicanos. O principio adoptado pela FRELIMO para uma
melhor integração de novos militantes, assentava na auscultação das
suas pretensões e posterior explicação das directrizes e linhas mestras
do movimento, de modo que os militantes estivessem cientes do que
lhes esperava e tomassem a decisão de forma mais racional.

Neste sentido, antes de se integrarem nas diversas missões libertárias,


Eduardo Mondlane, reunia-se com os militantes para a sua inserção no
seio da visão do movimento. Assim, embora os jovens partissem para
se juntarem à FRELIMO, existiam duas possibilidades: prosseguir
com os estudos ou integrar directamente as fileiras dos guerrilheiros.
No entanto, o sentimento comungado por todos era, finalmente, terem
a oportunidade de contribuírem para a libertação do seu povo da
dominação colonial.

A motivação dos jovens para continuidade dos estudos explica-


se, sobretudo de duas maneiras. Primeiro, a visita do Dr. Eduardo
Mondlane a Moçambique, em 1961 e, segundo, a Rádio Moscovo, que
entre outras mensagens, divulgava a oferta de bolsas de estudo para
as pessoas que conseguissem chegar a Dar-es-Salaam. Com efeito,
Eduardo Mondlane, um negro, na altura doutorado em Sociologia e
Antropologia, alto funcionário das Nações Unidas, admirado pelas
suas qualidades, respeitado mesmo pela tenebrosa PIDE, era uma
fonte de inspiração para muitos jovens.

69
Christie, 1996:52. Este depoimento dá ideia de que somente Samora Machel foi único moçambicano
que embarcou neste avião, tendo Matias Mboa ficado em terra. No entanto, este último, em entrevista
garantiu ter viajado nesta aeronave para Dar-es-Salaam. Ironizando o facto de o seu nome nunca ser
mencionado neste episódio, disse: “eu como não sou chefe grande, sou ignorado”.

67

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Seguindo os princípios partidários, à semelhança de outras situações,


Eduardo Mondlane reuniu-se com cinco jovens recém-chegados
a Dar-es-Salaam, nomeadamente, Samora Machel, Matias Mboa,
Armando Tivane, Simão Massango e Ângelo Lisboa. Este encontro
resumiu-se nos desafios conjunturais da FRELIMO, contudo, sem
perder de vista as perspectivas a longo termo. Matias Mboa referiu-se
a este encontro nos seguintes termos:
- “O Presidente Eduardo Mondlane convidou os militantes
para um encontro. Perguntou-nos qual era o objectivo de
cada um. Quase todos disseram que pretendiam estudar. Eu
tencionava me formar em Direito, Samora, em Medicina
e os outros em outras áreas. Depois de saber das nossas
pretensões, Mondlane explicou-nos que já tinha estabelecido
contactos com o Senador norte-americano Robert Kennedy
e este negociado com Portugal no sentido de conceder a
auto-determinação ao povo moçambicano. No entanto,
Portugal tinha-se recusado. Nesse sentido, a única solução
para a FRELIMO era o desencadeamento da luta armada.
Para isso, era necessário que os militantes fossem treinados
militarmente, de modo a fazer face a um exército convencional
e bem equipado”.70

Dada a complexidade do assunto, os jovens pediram para dar a


resposta no dia seguinte, depois de ponderarem devidamente. Saídos
do encontro, alguns murmuraram, dizendo que Mondlane, como já
era Doutor, não queria que os outros se tornassem também. Porém,
o diálogo e a ponderação que fizeram permitiu o entendimento da
mensagem educativa e apelativa de Mondlane, especialmente, por
parte de Samora Machel. A este respeito, Hélder Martins enfatiza o
seguinte:

- “No dia seguinte, Samora Machel foi o primeiro a levantar


o braço quando foram pedidos voluntários para o exército.
Explicou, na reunião, que ele também tinha vindo com o
desejo de continuar os estudos para ser médico, mas em face
da situação que o Presidente tinha descrito, ele não via outra
opção senão ir combater. A sua posição firme e engajada e o
70
Matias Mboa, entrevista citada.

68

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seu cometimento pela causa popular foram, de certo, modo


contagiantes e muitos dos indecisos seguiram-lhe o exemplo.
Assim se constitui o segundo grupo que foi fazer treino militar
na Argélia. Pela sua determinação e engajamento, Samora foi
logo escolhido para dirigir esse grupo”.71

Hélder Martins

Samora Machel, depois de assumir o compromisso de ser guerrilheiro


da FRELIMO, foi-lhe confiada a liderança do grupo de cerca de
70 jovens moçambicanos72 e seis do ANC, que seguiu para treinos
militares na Argélia73, no Centro de Instrução da Vila de Marnia.
Neste país, Samora foi confirmado pelos instrutores argelinos como
chefe do grupo, com base nas capacidades e habilidades por ele
demonstradas, incluindo o espírito de liderança. A preparação militar
em guerrilha durou seis meses. Findo este período, o grupo de Samora
Machel regressou a Tanzania.
71
Martins, 2001.
72
Era composto por, entre outros, Simão Tobias Lindolondolo, Alberto Chipande, Raimundo
Pachinuapa, Lourenço Domingos, Matias Fundi, Elias Elias, Lucas Mania, Matias Mboa, Bonifácio
Gruveta e Armando Timo.
73
Este país, então chefiado por Ahmed Ben Bella tinha encaixado nos alinhamentos diplomáticos de
Eduardo Mondlane. Na altura, representava uma mais-valia treinar os jovens neste país devido à sua
experiência de guerra de guerrilha na luta de independência contra a França. O país treinou três grupos
de militantes moçambicanos, os quais seriam responsáveis pelo desencadeamento da insurreição geral
armada contra o regime colonial.

69

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3.4. Samora Machel e a Abertura dos Campos de Kongwa


e Nachingwea

Em 1963, os combatentes da FRELIMO eram posicionados no campo


de Bagamoyo. No entanto, nos princípios de 1964, surgiu a necessidade
de os colocar num local relativamente distante de Dar-es-Salaam,
ao invés de Bagamoyo, que, para além de se localizar na zona da
praia, com elevado fluxo de pessoas, ficava a escassos quilómetros da
cidade de Dar-es-Salaam. Nesta altura, a Tanzania vivia uma situação
de crise política e temia-se que, por quaisquer razões, os guerrilheiros
da FRELIMO fossem envolvidos em intentonas militares contra as
autoridades tanzanianas. Tal receio era justificado pelo facto de, no
mesmo período, ter sido dominada uma tentativa de sublevação.74
Em face destes factos, o grupo de Samora Machel deslocou-se a
Kongwa, em Abril de 1964, onde este dirigiu os trabalhos visando
a criação de condições para a fixação dos contingentes militares da
FRELIMO. O que mais tarde viria a ser o campo de Kongwa era uma
farma abandonada, sem instalações de nenhuma ordem, localizada no
distrito de Dodoma.
Os guerrilheiros, sob a liderança e orientação de Samora Machel,
criaram as condições para tornar o local habitável e com possibilidades
de produzir alimentos. Mais do que isso, o campo de Kongwa
constitui não só um testemunho dos sacrifícios consentidos pelos
moçambicanos durante a luta, como e sobretudo, é uma demonstração
de que os desafios de desenvolvimento são, de facto, transponíveis. Os
combatentes não tinham armas suficientes para o treinamento e, para o
efeito, faziam simulações com o recurso a paus. Foi desta situação que
a FRELIMO partiu, para depois vencer o poderoso exército colonial
português. Caracterizando o campo de Kongwa, Christie realça:

- “As condições no campo, uma propriedade agrícola


abandonada, não levavam ao breve lançamento da luta
armada. Os homens tiveram que fazer tijolos de barro para
construir as suas próprias casas e tiveram que produzir
uma grande parte da sua comida. Talvez mais grave para os
futuros guerrilheiros fosse a falta de material de guerra nos
74
Matusse, 2004:77.

70

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primeiros dias de Kongwa. Para treinar os seus homens nas


artes militares, Samora deu-lhes paus e pediu aos espantados
combatentes da liberdade para imaginarem que estavam a
pegar em espingardas. Após esse triunfo da mente sobre a
matéria (…) foi ensinado aos homens como funcionavam os
explosivos”.75

Até a altura do desencadeamento da insurreição geral armada, Kongwa


funcionou como a base militar da FRELIMO na Tanzania. Foi a partir
deste local que os guerrilheiros que tinham recebido a missão de iniciar
a luta em Cabo Delgado, Niassa e Zambézia, partiram para receber
instruções em Dar-es-Salaam e, depois, seguiram para o interior de
Moçambique. Alberto Chipande76 realçou que ele saiu de Kongwa à
estação ferroviária de Dodoma, onde tomou um comboio rumo a Dar-
es-Salaam. Nesta cidade, ele e outros combatentes foram recebidos
por Eduardo Mondlane e orientados para o desencadeamento da Luta
Armada.

Samora dirigindo-se aos combatentes no campo militar de


Kongwa, em 1964. Fonte: Sopa, 2001.

75
Christie, 1996.
76
Alberto Chipande, entrevista de 28/10/2008. Maputo.

71

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O campo de Kongwa foi substituído pelo de Nachingwea, no decurso


de 1965. Uma das razões para este facto foi a grande distância que o
separava da fronteira com Moçambique. Esta situação não facilitava
o reabastecimento das frentes de combate tanto em víveres, como
em equipamentos militares e efectivos, assim como dificultava a
coordenação das acções combativas pelo comando ali estacionado.
Este problema encontrou solução com a identificação de Nachingwea,
que distava cerca de 100 km da fronteira com Moçambique.

A abertura deste campo ocorreu em Setembro de 1965, quando um


grupo de combatentes foi transferido de Bagamoyo, primeiro para
Madai Rangers, e depois para Nachingwea. Madai seria abandonado
devido à escassez de água no local, as reduzidas dimensões da fazenda
e a sua proximidade com as aldeias.77 Por estas razões, os efectivos
foram retirados para Nachingwea, mais concretamente para a Farm 17.

Em resultado da abnegada actividade dos combatentes sob a direcção de


Samora Machel, Nachingwea tornou-se uma referência incontornável
nos esforços da condução da Luta de Libertação de Moçambique,
assim como um centro de formação e preparação do “Homem Novo”.
Era nesta base onde se encontrava o Comando Nacional e, a partir
dela, foram lançados os alicerces da futura Nação moçambicana.
Uma das primeiras actividades destacadas foi o treinamento de três
companhias, que seriam enviadas a Niassa para reforçar as que lá
tinham iniciado as acções combativas.

Neste período em que dirigiu tanto o campo de preparação político-


militar de Kongwa como de Nachingwea, Samora Machel demonstrou
um elevado grau de coragem, capacidade de liderança invulgares e uma
extraordinária e firme determinação. Sobressaíam as suas experiências
de infância, adquiridas em Chilembene, onde fora pequeno pastor e
praticante de agricultura com charruas aplicadas a juntas de bois. Um
lutador destemido entre os pastores da sua época. Exaltavam-se as
qualidades de um líder de grupo forjado por instrutores argelinos e de
conhecedor da cultura dos guerrilheiros sob o seu comando.
Em Nachingwea, Samora enaltecia a visão ideológica da FRELIMO
77
Neste campo foram treinados por especialistas chineses e instrutores nacionais, alguns recrutas em
termos de tática, estratégia e armamento.

72

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sobre a definição do inimigo. Era contra o colonialismo português


e não contra o povo português. Igualmente, a luta não era contra os
brancos, mas sim contra os opressores colonialistas. Estes princípios
traduziam-se nas operações militares, definindo os alvos como sendo
as infra-estruturas, equipamentos, efectivos militares e os agentes
da autoridade colonial. De acordo com Hélder Martins, Samora
considerava fundamental para o sucesso da luta, o mais estrito
respeito por esses princípios, punindo a todos os combatentes que os
inflingiam:
- “Samora quis que eu travasse conhecimento com um
comandante do início da guerrilha e que estava preso e
na reeducação (…). Logo nas primeiras semanas da Luta
Armada, ele deixou os seus soldados matarem cantineiro
branco e saquearam a loja. (…). Logo que teve conhecimento
do acontecimento, Samora imediatamente mandou regressar
o comandante a Kongwa e rapidamente mandou efectuar
um inquérito, que demonstrou que essa morte do cantineiro
tinha tido resultados desastrosos (…). Esse camarada ficou na
reeducação cerca de 2 anos”.78

Esta medida não foi exclusiva. Efectivamente, também faz-se


referência a Francisco Mazuze que, na zona de Revia, no Niassa
Oriental, assaltou uma loja e distribuiu os haveres ali encontrados
pelos seus elementos e membros da comunidade. Esta medida valeu-
lhe uma punição e submissão a um período de reeducação com vista
à sua “lavagem cerebral”.

Um outro aspecto que foi solucionado graças à perspicácia de Samora


Machel foi a questão da presença feminina nas bases, o que levou à
criação do Destacamento Feminino. Com o inicio da Luta Armada
de Libertação Nacional, muitas pessoas começaram a fugir das suas
comunidades, aderindo às bases da FRELIMO. Algumas vezes fugiam
famílias inteiras. Na generalidade, os homens, depois de treinados,
passavam a tomar parte nas missões combativas, mas as mulheres
eram integradas, geralmente, nas actividades produtivas e outras
tradicionalmente tidas como femininas.

78
Martins, 2001: 304.

73

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A este respeito, Martins apresenta uma das facetas controversas da


presença de efectivos femininos nas bases, tendo realçado o seguinte:

- “Em 1965/66, começaram também a aparecer, nas bases


militares do interior, algumas mulheres como voluntárias. (…).
Nas bases eram objecto dos desejos sexuais de todos aqueles
homens (…). Mas havia consequências piores para a moral
dos combatentes e para a disciplina nas bases. As emboscadas
eram sempre feitas por voluntários e, habitualmente, havia
sempre mais voluntários do que era preciso (…). Desde que
houve mulheres nas bases, os comandantes tinham menos
iniciativa de fazer emboscadas e quase não havia voluntários.

Os que tinham uma namorada, não queriam ir para não a


perder. Os que não tinham namorada esperavam que os que
tinham se ausentassem, para ver se conseguiam conquistar
a namorada do outro. Mais ainda, nas emboscadas passou a
haver uma taxa elevada de acidentes, em que um guerrilheiro
matava outro”.79

Samora dialogando com um Grupo de guerrilheiras.

79
Martins, 2001:290-1.

74

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Perante esta situação, Samora Machel percebeu a essência do


problema. A partir dos relatórios que recebia das frentes de combate,
concluiu que este cenário era bastante preocupante e que podia
comprometer o desenvolvimento de todo um esforço de luta pela
independência. Assim, decidiu informar Eduardo Mondlane e Filipe
Magaia, que acharam também a realidade problemática. Deste
modo, uma delegação incluindo membros do Comité Central foi a
Niassa investigar a situação, e confirmou o que Samora Machel tinha
detectado.

Foi em consequência disso que se decidiu tomar medidas drásticas


no que respeitava ao relacionamento entre homens e mulheres, e se
criou o Destacamento Feminino, com as suas bases, onde só havia
mulheres.

Nestes campos, Samora Machel distinguiu-se no combate ao


obscurantismo e divisionismo baseados na região de proveniência,
na religião e na etnia. Durante a fase dos treinos dos novos recrutas,
Samora Machel dedicava-se de forma particular na luta contra estas
tendências que os instruendos traziam, esforçando-se em inculcar
neles, conceitos científicos básicos e normas elementares para uma
vida sã e saudável no seio dos grupos.80

3.5. Samora Machel e a Abertura da Frente do Niassa


Oriental

A frente do Niassa Oriental foi aberta em 1965 por um pelotão de


46 combatentes. Este grupo era chefiado por Samora Machel e tinha
como adjunto Solomone Machaque. André Moyo era comissário
político, Ernesto Paulo, chefe de operações, Matias Pius, Pedro
Malipa e Ndowana81, chefes das secções.

A abertura desta frente surgiu da necessidade de alargar as zonas de


operações da Luta de Libertação Nacional. Refira-se que, no caso
de Niassa, após o primeiro tiro, as operações estavam confinadas,
80
Martins, 2001.
81
Ainda não foi possível apurar o outro nome de Ndowana.

75

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fundamentalmente, à zona de predominância nyanja, junto ao lago


Niassa. Assim, uma grande extensão coberta pelas populações yao
e makhuwa encontrava-se fora das áreas de actuação da guerrilha.
Deste modo, impunha-se encontrar estratégias rápidas para a extensão
da luta a estas zonas. De acordo com Hélder Martins, Samora Machel
decidiu ser, ele próprio, a comandar directamente o destacamento
encarregue de abrir essa nova frente, tendo salientado o seguinte:

- “Quis ser coerente consigo próprio e mostrar a todos que


não era um dirigente militar de gabinete, mas que também
estava pronto para realizar o trabalho militar de base e a
familiarizar-se com as realidades do terreno”.82

Niassa Oriental foi considerado uma das frentes mais difíceis no


quadro da Luta de Libertação Nacional, tendo contribuído para tal,
factores de vária ordem. Dentre estes, destacam-se o reduzido número
da população na região, aliado à vastidão do território, à falta de água
e à concentração de efectivos militares coloniais na fronteira com
a Tanzania. De facto, a fraca presença da população não facilitou
o trabalho de mobilização para o lançamento da luta armada. Estes
factos são relatados por Christie, nos seguintes termos:

- “O Niassa Oriental era uma zona particularmente difícil


para os guerrilheiros operarem. Samora Machel e a sua
unidade iniciaram a sua jornada através de uma área sem
lugares habitados nem fontes de água. Marcharam quatro
dias nessas condições. No quinto dia atingiram os arredores
de uma aldeia chamada Mecula, com a promessa de socorro
da população local. Infelizmente, o exército português tinha
sido avisado e tinha cercado a aldeia, impossibilitando a
entrada do grupo de guerrilheiros. A única boa notícia foi
que um chefe tradicional da área junto do posto português de
Valadim estava pronto a receber Samora e os seus homens. A
má notícia era que isso ficava a uma distância de mais seis
dias de marcha”.83
82
Martins, 2001: 306-7.
83
Christie, 1996.

76

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Apesar da distância que lhes esperava, o grupo marchou até à região


do régulo Mataaka, em Mavago. À sua chegada, Samora Machel
disfarçou-se de um xeique e, na companhia de André Moyo, foi
contactar o régulo, que concordou em colaborar com as forças da
FRELIMO. Assim, nesta região foram instaladas as primeiras bases
da guerrilha de onde seriam lançados os primeiros ataques.

Pouco tempo depois da abertura da região, Samora Machel regressou a


Nachingwea, onde empregou as suas forças e energias como chefe de
treinamento e maximizou a experiência que trazia de Niassa Oriental.
Com a sua saída, a direcção da guerra na região ficou sob comando de
Solomone Machaque.

Posteriormente, o grupo recebeu um reforço da terceira companhia


do primeiro batalhão, formado em Nachingwea. Este juntou-se ao
pelotão de Solomone Machaque, tendo a partir daí iniciado acções
de combate de vulto, libertando regiões, integrando a população nas
zonas libertadas e incrementando a produção de bens alimentares.84

3.6. Samora Machel como Chefe do Departamento de


Defesa da FRELIMO

Samora Machel já vinha demonstrando uma elevada capacidade de


direcção, de liderança e de gestão tanto de efectivos militares como
dos campos onde estes estavam fixados. Como chefe de treino, Samora
encontrava-se numa situação privilegiada quanto ao conhecimento
das reais capacidades do exército de libertação. Aliás, já nesta altura
o seu carisma tinha começado a florir e a manifestar-se de forma
inconfundível, revelando ainda um elevado grau de perícia em matéria
de estratégia militar, assim como um profundo humanismo no trato
com os combatentes. Estas qualidades tornavam-no um combatente
capaz de conduzir o exército e liderar a luta no teatro de operações.
Foi assim que, com a morte de Filipe Samuel Magaia, então chefe
do Departamento de Defesa e Segurança (DSD), o Comité Central
decidiu indigitá-lo Chefe do Departamento de Defesa (DD).
84
Para mais detalhes, vide Mudender et al, 2010.

77

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Até a sua morte em 1966, Filipe Samuel Magaia dirigia o DSD e, sob
a sua orientação foram criadas as bases para o desencadeamento da
insurreição geral armada. Na altura da morte de Magaia, a FRELIMO
tencionava constituir o Comando Nacional ou Estado Maior das
Forças de Libertação de Moçambique e, para o efeito, os seus
membros deviam ter algum contacto com a realidade das frentes de
combate. Esta medida fazia parte de uma decisão tomada pelo Comité
Central, e preconizava a criação de um alto comando, operando a
partir de um quartel-general. A responsabilidade pelos vários aspectos
da actividade militar seria distribuída de uma forma racional.85

Como forma de operacionalizar esta ideia, Filipe Magaia encabeçou


um grupo de quadros da FRELIMO que visitou a Província de Niassa.
De regresso a Tanzania, Magaia foi atingido por uma bala, atirada por
um dos membros do grupo. No entanto, não se soube ao certo qual
tinha sido o móbil da acção contra Magaia, pois se considera que as
investigações judiciais levadas a cabo pelas autoridades tanzanianas
foram inconclusivas.

Guerrilheiros transportando Filipe Magaia, após ser atingido por uma bala.
Fonte: Sopa, 2001.
85
Mondlane, 1995.

78

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Na sequência deste trágico acontecimento, a FRELIMO reuniu-se


para encontrar alguém que tivesse a coragem e a intrepidez necessária
para dar continuidade às acções combativas e manter o exército com
o moral elevado.

Desse modo, uma das decisões tomadas foi a reestruturação


do Departamento de Defesa e Segurança86, tendo sido criado o
Departamento de Defesa, chefiado por Samora Moisés Machel e
coadjuvado por Raul Casal Ribeiro, e o Departamento de Segurança,
chefiado por Joaquim Alberto Chissano. Outras medidas tomadas
no encontro foram a indicação de Marcelino dos Santos para Chefe
do Departamento de Orientação Política; Joaquim Chissano, para
Representante da FRELIMO na Tanzania; Armando Guebuza, para
Chefe do Departamento de Educação; e Miguel Murrupa, para Chefe
do Departamento das Relações Exteriores.87

O balanço efectuado em função das modificações da estrutura da


Defesa foi bastante encorajador. Avanços notáveis estavam a ocorrer
nas diferentes frentes de combate, particularmente em Niassa e Cabo
Delgado, e esforços de infiltração estavam a decorrer em Tete. Como
destacou Eduardo Mondlane, durante o ano de 1967, a área de combate
alargou-se em todas as regiões:

- “Em Cabo Delgado, as nossas forças avançaram até ao rio


Lúrio e cercaram Porto Amélia, a capital, ao mesmo tempo
que consolidavam a sua posição no resto da província, que
está agora quase totalmente nas nossas mãos. No Niassa, as
nossas forças avançaram até à linha Marrupa-Maúa e estão
se aproximando das zonas limítrofes com as províncias de
Moçambique e Zambézia. Mais para sul ganharam o controlo
da zona de Catur, entre as províncias da Zambézia e Tete,
86
Com esta remodelação, foi criado um Conselho Nacional de Comando, dirigido pelo Secretário
do Departamento de Defesa (D.D), tendo como seu adjunto o Comissário Político do Exército, e
composto por outros doze chefes responsáveis por diferentes sectores do exército. Assim, o exército foi
estruturado nas seguintes secções: Operações; Recrutamento, Treino e Formação de Quadros; Logística
(abastecimento); Reconhecimento; Transmissão e Comunicações; Informação e Publicações Militares;
Administração; Finanças; Saúde; Comissariado Político; Pessoal e Segurança Militar. Vide Mondlane,
1995:122.
87
Martins, 2001.

79

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enquanto, para ocidente, criaram as condições necessárias


para recomeçar a luta em Tete e na Zambézia, regiões de
grande importância pelos recursos agrícolas e minerais”.88

No que concerne a Tete, a 8 de Março de 1968, reiniciaram os


combates nesta província. Na altura, Samora Machel dizia que o
começo da luta em Tete constituía, verdadeiramente, um grande golpe
contra o colonialismo português, porque esta libertava a população
da Província, liquidava os planos coloniais de transformar Tete numa
barreira física e humana capaz de impedir o progresso da luta e, ainda,
dispersava as forças do inimigo. Com efeito, na altura estava em curso
a construção da Barragem de Cahora Bassa, uma central hidroeléctrica
para a instalação de linhas de transmissão à área industrial e mineira
de Witwatersrand, na África do Sul.

De acordo com Sellström, Cahora Bassa representava muito mais


do que uma central hidroeléctrica, pois viria a facilitar a exploração
de depósitos ricos em minérios e também a irrigação de extensas
áreas agrícolas, permitindo, eventualmente, a fixação de cerca de um
milhão de cidadãos portugueses naquela área. Numa conferência de
imprensa em Dar-es-Salaam, a 25 de Março de 1968, o Presidente
Eduardo Mondlane debruçou-se sobre a importância da reabertura da
frente de Tete e de Cahora Bassa no contexto das lutas de libertação
na região Austral de África, tendo salientado o seguinte:

- “A relevância desta frente da luta armada não se limita


ao nosso país. É também importante no contexto mais geral
do combate na África Austral. Basta recordar que Tete
tem fronteiras comuns com o Zimbabwe, onde os nossos
irmãos estão também, neste preciso momento, a lutar pela
sua libertação contra o regime minoritário racista do qual
Portugal é o principal aliado. A nossa luta em Tete é uma
manifestação concreta da nossa solidariedade para com o
88
Mondlane, 1995: 124.

80

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povo do Zimbabwe e uma contribuição directa para a sua


vitória. O mesmo se aplica à África do Sul, cujo interesse no
projecto de Cahora Bassa é tão grande que já enviou tropas
para defender o local da Barragem”.89

Estes avanços viriam a ser confrontados com a agudização das


divergências entre os quadros do movimento, baseadas em princípios
ideológicos e estratégico-militares. Estas rivalidades tiveram como
consequência, entre outras, a ocorrência de mortes90 e deserções91,
situação que abalou até certo ponto, a estrutura político-militar e
administrativa da FRELIMO.

3.7. Samora Machel na Presidência da FRELIMO

Samora Machel ascendeu à presidência da FRELIMO em 1970 na


sequência da morte de Eduardo Mondlane, ocorrida a 3 de Fevereiro
de 1969. Este acontecimento ditou uma alteração significativa na
estrutura de direcção do movimento. A conjuntura da altura contribuiu
para a colocação em funcionamento de uma nova estrutura que não
estava concebida nos estatutos da FRELIMO, que foi o triunvirato92,
também designado “Colégio Presidencial”. Este órgão foi constituído
por Uria Simango, vice-presidente da FRELIMO, Samora Machel,
Chefe do Departamento de Defesa93 e Marcelino dos Santos, Chefe
do Departamento Político.94
89
Sellström, 2008.
90 Em Maio de 1968, foi atacado o escritório da FRELIMO em Dar-es-Salaam, o qual resultou na
morte de Mateus Sansão Muthemba. Em Dezembro do mesmo ano, Paulo Samuel Kankhomba foi
barbaramente assassinado.
91
Entre as deserções, registaram-se as de Lázaro Nkavandame e Miguel Murrupa.
92
A decisão pelo triunvirato foi tomada a 11 de Abril de 1969, aquando da realização, em Nachingwea,
da II Sessão do Comité Central da FRELIMO. Em princípio, o triunvirato funcionaria até à realização de
um Congresso, onde seria eleito ou confirmado o Presidente da FRELIMO.
93
Alberto Chipande, que ocupava o cargo de Chefe Nacional de Operações no Departamento de Defesa,
passou a coordenar todas as actividades deste Departamento até à proclamação da independência, tendo
passado depois a Ministro da Defesa Nacional.
94
Na mesma sessão foram reduzidos os departamentos. As funções do Departamento Político, de
Organização, de Administração assim como da Direcção dos Serviços de Saúde e da Secção de Produção,
Cooperativas e Comércio, foram confiados ao Departamento de Defesa, sob a direcção do Comissário
Político.

81

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No entanto, esta medida contrariava, de certo modo, os estatutos


partidários, pois, em princípio, a substituição do Presidente deveria
ocorrer de forma vertical, isto é, indicando-se o vice-Presidente.
Todavia, para salvaguardar a Unidade no seio do movimento e
permitir que este continuasse a lograr sucessos tanto a nível militar,
como político e diplomático, o Colégio Presidencial apareceu aos
olhos dos membros do Comité Central, como a resposta mais ajustada.
No fundo, este órgão conhecia perfeitamente o carácter de Simango,
contrário aos princípios que norteavam o sucesso da luta armada.
Assim, a sucessão do Presidente ultrapassava a dimensão juridico-
estatutária, tornando-se política, e, por conseguinte, adequada aos
momentos da guerrilha.

A propósito desta decisão, o Presidente da Tanzania, Julius Nyerere


mostrou-se relativamente céptico quanto à eficácia e ao poder
mobilizador do mesmo perante os combatentes e os parceiros
internacionais, porque conhecia profundamente os problemas de
direcção na FRELIMO. No seu entender, este colégio dispersaria
a concentração do poder de decisão e de comando, assim como de
representação. Neste sentido, este tinha proposto a realização de
um Congresso extraordinário ou a indicação de um Presidente, por
consenso dos membros do Comité Central.95

Após a criação do Colégio Presidencial, Uria Simango, transvazando


os princípios de resolução de conflitos no seio da FRELIMO, estes
assentes no diálogo e transparência, publicou uma carta intitulada
“A Triste Situação na FRELIMO”. Este documento fazia uma breve
análise da situação crítica que se vivia na Frente desde os finais
de 1967, tendo destacado a questão do Instituto Moçambicano, da
frente de Cabo Delgado onde os Chairmen eram por uma solução
secessionista, da morte de Silvério Nungu96, entre outros assuntos.

Um dos aspectos considerados mais graves no documento de Simango


foi a acusação feita a alguns membros do Comité Central de tribalismo
e de conspirarem para o seu assassinato.97 Tendo sido consideradas
de gravíssimas estas acusações, que podiam perigar a unidade e
95
Salvador Zawangone, intervenção de 16 de Abril de 2010. Cidade da Matola.
96
Principal acusado pela morte de Eduardo Mondlane.
97
Ncomo, 2003.

82

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a sobrevivência do próprio movimento, Simango foi duramente


repreendido e, posteriormente, expulso da FRELIMO. No mesmo
encontro do Comité Central de Maio de 1970, em que se decidiu a
expulsão deste, Samora Moisés Machel e Marcelino dos Santos foram
eleitos Presidente e Vice-Presidente da FRELIMO, respectivamente.
Esta mudança de direcção foi considerada pela FRELIMO como uma
espécie de Revolução no seu seio, pois, contribuiu para dar um novo
impulso aos esforços da Luta de Libertação Nacional. Um documento
da época referia-se a esta questão, nos seguintes termos:

- “Assim se restabeleceu o equilíbrio e a confiança dentro


da FRELIMO, a nossa Revolução, que estivera ameaçada
pela presença de contra-revolucionários no seu seio, pode
prosseguir e desenvolver-se, depois de se ter liberto deles. E
de facto, a partir de então, a nossa luta de libertação tem
conhecido sucessos que podemos qualificar de grandiosos,
em todos os campos: no campo da luta armada, em que
consolidamos as zonas libertadas reduzindo cada vez mais
a presença portuguesa, e avançamos para novas zonas.
No campo político, em que intensificamos a mobilização
das populações e dos combatentes, elevando o seu nível de
compreensão da luta em todos os aspectos. No campo da
reconstrução nacional, em que desenvolvemos a um grau
extremamente avançado os nossos programas de produção,
educação, assistência médica, artesanato, etc. (…)”.98

Desde esta altura até à proclamação da Independência Nacional,


Samora Machel seria o timoneiro da organização. Efectivamente,
passou a coordenar todas as acções do movimento, desde as de carácter
militar às político-diplomáticas. No âmbito militar, o seu carácter
de estratega e comandante seria posto à prova com a Operação Nó
Górdio, lançada em 1970, pela tropa colonial.
98
Mensagem do Presidente da FRELIMO ao Povo moçambicano, pelo Ano Novo de 1971. Colecção
Textos e Documentos da FRELIMO, 2. Maputo, 1977.

83

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3.8. A Acção Estratégica de Samora Machel no


Estrangulamento da Operação Nó Górdio

Até 1969, a Luta de Libertação Nacional tinha registado avanços


significativos. Estes sucessos eram observados e encarados com
preocupação pelo regime colonial, que ainda acreditava numa vitória
militar sobre a FRELIMO. Como forma de contrariar o ímpeto
militar da FRELIMO e controlar a mobilidade das populações, o
regime colonial decidiu lançar a onerosa “Operação Nó Górdio” e
incrementar a política dos “Aldeamentos” e da Acção Psicossocial.

Tais medidas estavam integradas nas estratégias da chamada guerra


“contra-subversão”. Os aldeamentos tinham-se tornado numa
prioridade estratégica desde 1968, com o objectivo de estreitar as
relações, a malha de controlo das populações e intensificar os aparelhos
de informação e repressão. Por seu turno, a acção psicossocial visava
ganhar a população e conquistar a sua opinião, pois, controlar as “almas”
era considerado mais essencial que a conquista do terreno. Obtida a
vitória sobre as mentes, conseguir-se-ia desestabilizar os militantes
e os guerrilheiros da FRELIMO, diminuindo a sua capacidade
combativa.99 Efectivamente, numa guerra de guerrilha, a população
é um factor fundamental, que pode contribuir para a determinação da
vitória final. Estas iniciativas coloniais encontraram respostas não só
contrárias, como surpreendentes para os seus mentores.

De facto, a FRELIMO conseguiu criar uma estabilidade militar e de


sobrevivência nas zonas libertadas, permitindo a concentração de
mais membros da população, e a continuidade do ciclo de produção
agrícola. Esta acção militar concentrou-se, essencialmente, na
província de Cabo Delgado. Nesta frente, a tropa colonial sofria
uma acentuada pressão sobre os seus aquartelamentos. A FRELIMO
pretendia alargar ainda mais a sua área de actuação, atravessar o rio
Messalo e sitiar Porto Amélia, actual cidade de Pemba. A esta pressão
se associava a intensificação da luta em Tete, para onde o exército
colonial teve que alocar mais contingentes. O contínuo agravamento
da situação militar e a impossibilidade de aumentar o esforço de
99
Cabaço, 2010.

84

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guerra, levaram o general português Kaúlza de Arriaga, a intensificar


a formação de unidades de recrutamento local.

Em Abril de 1970, Samora Machel visitou a Província de Cabo


Delgado para apresentar os planos de uma grande ofensiva a executar
entre Junho e Julho. Durante o seu trabalho em Cabo Delgado,
identificou algumas linhas mestras que deveriam nortear a actividade
nesta frente de combate. Samora discriminou as tarefas específicas de
cada segmento, referindo que se devia:

- “Alargar e reforçar as zonas de avanço a fim de atacar o


inimigo em novas regiões, forçando-o a dispersar as suas forças,
libertando ao mesmo tempo novas populações; continuar a
aniquilar e a desalojar o inimigo daqueles postos que ainda
subsistem como ilhotas isoladas no mar, nas nossas zonas
libertadas, reduzindo ainda mais a sua capacidade operacional;
consolidar (…) o trabalho de construção de uma sociedade nova
que possa beneficiar as massas, o que significa a necessidade
de uma orientação política cada vez mais clara e precisa e a
elevação do nível organizacional no domínio da produção
e comércio, educação e saúde, assim como na resolução dos
problemas sociais”.100

A visita de Samora Machel teve como impacto imediato, o aumento


da actividade militar da FRELIMO a um nível nunca antes visto.
Consequentemente, Kaúlza de Arriaga decidiu lançar a Operação
Nó Górdio, atribuindo a sua execução ao Comando Operacional das
Forças de Intervenção (COFI), através do emprego conjunto de forças
do Exército, Marinha e Força Aérea.101

O início da Operação Nó Górdio foi marcado para 1 de Julho de 1970,


com a presença do general Kaúlza de Arriaga. Nela participaram mais
de oito mil homens, que representavam cerca de 40 % dos efectivos
das tropas de combate no território moçambicano, as quais totalizavam
vinte e dois mil.102
100
A Voz da Revolução, nº 20. 1973.
101
htt://www.guerracolonial.org. Acessado em 25/06/2011.
102
Esta concentração esgotou as reservas disponíveis, pois empenhou a totalidade das unidades de
forças especiais (comandos, pára-quedistas e fuzileiros) e os grupos especiais (GE), recém-criados, mais
a quase totalidade da artilharia de campanha, unidades de reconhecimento e de engenharia.

85

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O conceito da operação assentava num cerco e batida com grandes


meios, prevendo o isolamento da área do Planalto de Mueda, onde se
encontravam as grandes bases da FRELIMO103, através de um cerco
ao longo dos itinerários Mueda – Sagal – Muidumbe – Nangololo –
Miteda – Mueda, com a extensão de 140 km. Conseguido o isolamento
da área, seguir-se-ia o assalto e destruição dos principais objectivos
do núcleo central. As acções militares deveriam ser conjugadas com
uma intensa campanha de acção psicológica, para provocar a rendição
e a desmoralização do inimigo.

Para fazer frente a uma operação de grande envergadura como foi


a Operação Nó Górdio, a FRELIMO decidiu abandonar as bases
militares supra-citadas o que levou a tropa colonial a introduzir-se
pela mata adentro, onde, a partir da estratégia de “efeito-surpresa”,
seria violentamente atacada. Os guerrilheiros da FRELIMO foram
fraccionados em pequenos grupos, de cerca de três elementos, e
foi intensificada a actividade de sabotagem, como a colocação de
minas nos principais itinerários, e a abertura de covas grandes, que
depois eram cobertas com capim verde. Nestes buracos caíam os
equipamentos militares motorizados e os bulldozers.104 Esta estratégia
foi descrita por Barry Munslow, citado por Christie, nos seguintes
termos:

- “Quando os ataques atingiam uma zona, as pessoas


dispersavam-se em pequenos grupos, abandonando as casas
que tinham sido construídas sob o escudo das árvores e fugiam
para perto das bases dos guerrilheiros, onde podiam ser melhor
defendidas. A FRELIMO então removia as pessoas da área
afectada para outra. Um grupo de guerrilheiros bombardeava o
inimigo da frente com morteiros, enquanto outro grupo passava
para a retaguarda dos invasores para minar as estradas que
tinham sido limpas pelos tractores de lagartas. Camponeses e
milicianos trabalhavam em conjunto com as FPLM, cortando
árvores e cavando valas para bloquear as estradas”.105

103
Entre elas, Ngungunyane, Moçambique e Nampula.
104
Tembe & Saide, 2010.
105
Christie, 1996.

86

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Esta resposta permitiu à FRELIMO infligir uma pesada derrota ao


exército colonial. Aliás, como ressaltou um documento sobre a guerra
colonial,106 a FRELIMO, apesar desta ofensiva, não foi impedida
de actuar em qualquer dos teatros de operação, tendo intensificado
as acções militares em algumas regiões. Esta situação mostra que o
movimento manteve viva a sua pujança combativa, em todos sentidos.

Para a maior rapidez do contra-ataque, Samora equipou militarmente


as milícias locais, os camponeses e mandou regressar todos os
militares que estavam na Tanzania, em treinamento, reforçando os
seus efectivos. O sucesso contra a ofensiva constituiu, per si, uma
vitória anunciada da FRELIMO contra o exército colonial. Uma vez
derrotados numa operação de grande dimensão como esta, os soldados
portugueses perderam a moral combativa. Assim, iniciaram uma
espécie de descida de um avião, confinando-se à guerra de palavras. A
par destas, surgiam pequenas negociações locais que culminavam em
acordos verbais de cessar-fogo.107

Samora Machel, Jorge Rebelo e Sebastião Mabote, em Cabo Delgado, 1971.

106
Cervelló. In: http://www.guerracolonial.org. Acessado em 25/06/2011.
107
Christie, 1996.

87

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Este sucesso teve um impacto multiplicador nos esforços de libertação


de Moçambique. Na região central do País, mesmo com a instalação
de um sofisticado contingente militar na zona, com o objectivo de
proteger a Barragem de Cahora Bassa, os guerrilheiros da FRELIMO
conseguiram atravessar o rio Zambeze, dando início à luta armada nas
províncias de Manica e Sofala, em 1972.

De acordo com Fernando Matavele108, citado por Muiuane, o então


distrito de Manica e Sofala era um ponto estratégico da luta, pois
nela se encontrava estabelecida uma comunidade significativa de
colonos. Desta região projectava-se o alargamento da luta para a
zona Sul de Moçambique. Na mesma altura, esforços estavam sendo
envidados no sentido de reiniciar a luta no distrito da Zambézia.
O avanço impetuoso das Forças de Libertação de Moçambique e a
perda de iniciativa combativa do exército colonial, sobretudo após
o desbaratamento da Operação Nó Górdio, conduziram à declaração
pela FRELIMO, da “ofensiva generalizada em todas as Frentes”.109

Os sucessos observados em Moçambique e em outras colónias contra


a tropa colonial precipitaram a ocorrência da Revolução dos Cravos, a
25 de Abril de 1974, em Portugal. A respeito desta revolução, Lincoln
Secco referiu que os militares golpistas queriam apenas três coisas:
pôr fim à ditadura, resgatar o prestígio das Forças Armadas e terminar
a Guerra Colonial em África, que já estava virtualmente ganha pelos
guerrilheiros nacionalistas110. O fim do regime salazarista acelerou
as negociações conducentes ao Acordo de Lusaka e à independência
total e completa de Moçambique do jugo colonial.

3.9. O Acordo de Lusaka

O golpe de Abril em Portugal conduziu a uma significativa alteração


na estrutura política deste país. Porém, esta mudança não teve
repercussões imediatas nas colónias. O móbil dos líderes militares
golpistas era acabar com a guerra, contudo, António Spínola, que
assumiu a presidência a seguir ao golpe, tinha outros planos. Em vez
108
Ex-comandante da FRELIMO em Manica e Sofala.
109
FRELIMO, 1975:77.
110
Secco, disponível em http://www.adusp.org.br. Acessado em 26/05/2010.

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

de criar, imediatamente, mecanismos conducentes à autodeterminação


destes territórios, propôs um cessar-fogo e um referendo para decidir
sobre a independência.

Aquino de Bragança realça este aspecto ao afirmar que o plano de


Spínola e dos seus generais previa um cessar-fogo imediato, sob o
qual os movimentos nacionalistas deveriam depor as armas e passar a
uma luta de ideias, como qualquer outro partido legalmente existente,
no contexto prático de um portuguesismo multicontinental.111 Com
base neste pressuposto, defendia que o futuro das “províncias
ultramarinas” deveria ser decidido por todos aqueles que consideravam
que estas terras lhes pertenciam. Como remata Bragança, este era,
declaradamente, um apelo ao uso do referendo para decidir se
Angola, Moçambique e Guiné-Bissau queriam fazer parte de uma
Commonwealth de futuros “Brasis” africanos, uma federação luso-
africana centrada em Lisboa.

A FRELIMO acompanhava o decurso dos acontecimentos em Portugal


com um interesse redobrado. Parecia paradoxal o facto de os capitães
militares “progressistas”, após tomarem o poder, terem-no entregue a
uma “junta de generais reaccionários”, parafraseando Bragança.

António Spínola, por intermédio do seu Ministro dos Negócios


Estrangeiros, Mário Soares, iniciou conversações com a FRELIMO,
em Dar-es-Salaam. Num primeiro encontro, a proposta de cessar-fogo
foi prontamente recusada pela contraparte moçambicana, defendendo-
se que a paz era inseparável da independência nacional e que somente
com a independência poder-se-ia pôr fim à guerra.112

No quadro destas conversações, Samora Machel colocou três


condições para a paz: o reconhecimento da FRELIMO como legítimo
representante do povo moçambicano, o reconhecimento do direito do
povo moçambicano a uma independência completa e a transferência
do poder para a FRELIMO. Apesar do fracasso destas negociações,
chegou-se a um entendimento, segundo o qual, estas seriam retomadas,
o que veio a ocorrer em Lusaka, capital da Zâmbia.
111
Bragança, 1986.
112
Christie, 1996.

89

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

O encontro de Lusaka, também conhecido por Lusaka I, teve lugar


entre 4 e 6 de Junho de 1974. A comitiva moçambicana era composta
por Samora Machel, Joaquim Chissano, Óscar Monteiro, Jacinto
Veloso, Mariano Matsinha, Daniel Banze, Fernando Honwana, Isabel
Martins, Sérgio Vieira e Alberto Chipande. Por sua vez, a delegação
portuguesa, por Mário Soares, Otello Saraiva de Carvalho, Casanova
Ferreira e Sá Machado.113
Na ocasião, Samora proferiu um discurso, tendo destacado o regozijo
pela queda do fascismo em Portugal; a solidariedade com o povo
português que sempre vivera oprimido e a definição dos princípios
que se deveriam respeitar para pôr termo à guerra. Estes tinham
como pressupostos o reconhecimento do direito à independência
do povo moçambicano; a fixação da data para a proclamação da
Independência Nacional; o estabelecimento dos mecanismos de
transição conducentes à transferência para a FRELIMO dos poderes
ainda detidos por Portugal; o estabelecimento dos mecanismos do
cessar-fogo e da retirada das tropas portuguesas.114

Sérgio Vieira

Vieira115 referiu que Mário Soares trazia apenas um mandato para um


cessar-fogo de jure ou de facto e nada mais; tendo reiterado que as
prioridades definidas pelo Governo português estavam hierarquizadas
da seguinte maneira: consolidar a democracia em Portugal; restaurar
113
Muiuane, 2006:184; Vieira, 2010:519.
114
Vieira, 2010: 518.
115
Idem.

90

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

a economia portuguesa, e decidir, na sequência, o futuro das colónias,


através de um referendo. Perante este posicionamento, Samora
contrapôs, defendendo, mais uma vez, que a discussão do cessar-
fogo não podia separar-se da resolução da causa que conduzira ao
início da Luta Armada. Portanto, o cessar-fogo só podia resultar
do entendimento sobre o fim do colonialismo e dos respectivos
procedimentos para tal efeito.

O fracasso destas negociações “oficiais” desapontou tanto a FRELIMO


como os militares portugueses. Associado ao desgaste devido à guerra,
assistiu-se ao aumento das deserções nas hostes coloniais. A título de
exemplo, em Cabo Delgado, o tenente-coronel António de Andrade
Lopes, comandante do batalhão de caçadores de Mueda, enviou uma
missiva intitulada “Quem assina?”, na qual solicitava um encontro
com o comando da FRELIMO que operava em Cabo Delgado, para
negociar um cessar-fogo local. Segundo Salvador M’tumuke:

- “Tendo sido recebida essa carta, foi em seguida remetida


a Nachingwea, para o conhecimento de Samora Machel. De
Nachingwea foi emitida uma resposta, enviada para o primeiro
sector, em nome de Mateus Aníbal Malichocho. Este assinou a
resposta, porém, não a enviou aos portugueses porque criar-
se-ia um compromisso, que inviabilizaria o plano de assalto à
base colonial Omar, na altura a ser preparado”.116

Face ao impasse negocial, era necessário realizar uma acção capaz


de acelerar a marcha dos acontecimentos. Na sequência, planeou-se
a concretização do assalto à base Omar, em Cabo Delgado. Samora
Machel, pessoalmente, definiu a táctica da operação e recomendou que
fosse gravada em som e imagem. Esta acção ocorreu a 31 de Julho,
sob o comando de Salvador M’tumuke. Na manhã do dia seguinte, a
guarnição colonial de Omar foi acordada com megafones, exigindo-se
a sua rendição. Cento e cinquenta soldados foram feitos prisioneiros
e três fugiram para Tanzania. O sucesso deste ataque pesou a favor da
FRELIMO, na mesa de negociações.

116
Atanásio Salvador M’tumuke, entrevista de 22/05/2010. Cidade de Maputo.

91

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Para a FRELIMO, estava evidente que em Portugal havia mais de um


centro de poder e que importava identificar quem, efectivamente, podia
decidir sobre a questão da descolonização. Em função disso, Aquino
de Bragança foi enviado a Lisboa, onde contactou Melo Antunes,
que, juntamente com Almeida e Costa, seriam enviados a Dar-es-
Salaam, para negociar com os dirigentes da FRELIMO. No encontro,
foi exibida a fita da gravação da rendição de Omar, o que deixou os
mandatários de Portugal sem muita margem de argumentação no
quadro das negociações. Em consequência, as partes concentraram-
se na revisão de um memorando já elaborado pela FRELIMO e
em questões como a designação de um alto-comissário ou de um
presidente de uma junta governativa; a composição do Governo de
transição; a criação de uma comissão militar; a questão das empresas;
da nacionalidade e o destino dos moçambicanos que integravam as
forças coloniais.117

Após esta reunião, houve uma outra, tendo como actores Melo
Antunes, Victor Crespo, Almeida e Costa, Mário Soares, Almeida
Santos e a direcção da FRELIMO, onde se abordou a proposta de texto
para um acordo. No entanto, os portugueses solicitaram a separação
do texto político do militar (cessar-fogo), que se referia ao julgamento
dos criminosos de guerra e à troca de prisioneiros, pedindo que este
último se mantivesse secreto. Igualmente, foi marcada a data para as
negociações finais, entre os dias 5 e 7 de Setembro.118

A respeito do secretismo em que ainda permanece o acordo sobre


o cessar-fogo, Mariano Matsinha, numa entrevista concedida a um
periódico da praça, reconheceu que, apesar de este acordo continuar
não divulgado, constituiu o “prato forte” das negociações. A sua
não divulgação é fruto dos compromissos assumidos entre as duas
delegações reunidas na State House. Conforme salientou:

- “Realmente, trata-se de um documento importante para


se compreender o processo em si, dos Acordos de Lusaka,
mas o importante naquela altura era o reconhecimento por
parte de Portugal que nós tínhamos direito à independência.
117
Vieira, 2010.
118
Vieira, 2010.

92

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Infelizmente, não participei na discussão do Acordo Militar, e


nem sei quais são as cláusulas plasmadas, mas acredito que
os portugueses tinham as suas razões em pedir para que não
fosse publicado, face à situação em que se encontravam”.119

No dia 3 de Setembro, chegaram a Lusaka 22 representantes da


FRELIMO, chefiados por Samora Moisés Machel.120 A delegação
portuguesa desembarcou no dia 5, tendo sido encabeçada por
Mário Soares.121 No dia 7 de Setembro, foi assinado o Acordo,
que reconhecia o direito do Povo Moçambicano à independência e
Portugal comprometia-se a transferir os poderes que detinha sobre
Moçambique para a FRELIMO.122

Durante o Acordo de Lusaka, vendo-se Samora Machel, a proferir


o seu discurso. Fonte: CDSM.
119
Jornal Zambeze. 09/02/2005. Maputo.
120
A delegação incluía ainda Joaquim Chissano, Alberto Chipande, Mariano Matsinha, Jacinto Veloso,
Óscar Monteiro, Armando Guebuza, Joaquim Carvalho, Sebastião Mabote, José Moiane, Joaquim
Munhepe, Bonifácio Gruveta, Xavier Sulila, Mateus Malishosho, João Pelembe, Graça Simbine, Rui
Baltasar e José Luís Cabaço.
121
Integrava ainda, Almeida Santos, Melo Antunes, Almeida e Costa, Victor Crespo, Nuno Lousada,
Casanova Ferreira, Paulo Castilho e Antero Sobral.
122
Muiuane, 2006:184/5.

93

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

O acordo preconizava que a independência completa de Moçambique


seria solenemente proclamada a 25 de Junho de 1975; dia do aniversário
da FRELIMO. Com vista a assegurar a transferência de poderes, foram
criadas as seguintes estruturas governativas, que funcionaram durante
o período de transição que iniciou com a assinatura do Acordo:

a) um Alto-Comissário nomeado pelo Presidente da República


Portuguesa;
b) um Governo de Transição nomeado por acordo entre a Frente
de Libertação de Moçambique e o Estado Português;123
c) uma Comissão Militar Mista nomeada por acordo entre o
Estado Português e a Frente de Libertação de Moçambique.

O artigo 18 do Acordo era explícito quanto ao tipo de independência,


e a liberdade de escolha do regime a ser implantado, assim como
dos alinhamentos diplomáticos. Neste sentido, o Acordo destacou o
seguinte:

-“O Estado Moçambicano independente exercerá


integralmente a soberania plena e completa no plano interior
e exterior, estabelecendo as instituições políticas e escolhendo
livremente o regime político e social que considerar mais
adequado aos interesses do povo”.

Os seus signatários foram Samora Moisés Machel, pela parte


moçambicana, e da parte portuguesa, Ernesto Augusto Melo Antunes,
Mário Soares, António de Almeida Santos, Victor Manuel Trigueiros
Crespo, Antero Sobral, Nuno Alexandre Lousada, Vasco Fernando
Leote de Almeida e Costa e Luís António de Moura Casanova
Ferreira.124
123
O Governo de Transição seria constituído por um Primeiro-Ministro nomeado pela Frente de
Libertação de Moçambique, a quem competeria coordenar a acção do Governo e representá-lo; Nove
Ministros, repartidos pelas seguintes pastas: Administração Interna; Justiça; Coordenação Económica;
Informação; Educação e Cultura; Comunicações e Transportes; Saúde e Assuntos Sociais; Trabalho;
Obras Públicas e Habitação; Secretários e Subsecretários a criar e nomear sob proposta do Primeiro-
Ministro, por deliberação do Governo de Transição, ratificada pelo Alto-Comissário.
124
Acordo de Lusaka.

94

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

No dia 8 de Setembro, em Lusaka, Samora Machel proferiu um


discurso, onde referiu o seguinte:

- “Ao fim de 500 anos de opressão colonial, ao fim de 10 anos


de luta armada dirigida pela FRELIMO, o Povo Moçambicano
conseguiu impor os seus direitos. Assim, Portugal reconheceu
o nosso direito à independência, reconheceu o princípio da
transferência dos poderes à FRELIMO, representante do
Povo Moçambicano, e, em consequência, connosco assinou o
acordo que efectiva estes princípios.

Às zero horas do dia 8 de Setembro de 1974 – hora de


Moçambique – termina com a vitória do povo a guerra
criminosa desencadeada pelo deposto regime colonial-
fascista português.

Esta é a vitória da coragem histórica do Povo Moçambicano,


da sua determinação inabalável que resistiu e venceu os rigores
da repressão colonial-fascista no duro combate clandestino,
que superou as dificuldades da guerra. A guerra popular de
libertação, que tornou operativa a nossa unidade, produziu
profundas transformações na nossa pátria e conduziu-nos a
edificar um Novo Moçambique”.125

A assinatura do Acordo de Lusaka catapultou os ânimos de todos


os actores sociais, tanto dos nacionalistas, como dos fascistas.
Os fascistas, que pretendiam que a dominação estrangeira fosse
prolongada por tempo indeterminado, decidiram levar a cabo acções de
desestabilização e sabotagem. Neste esforço desesperado, destruíam
tudo quanto encontravam, formaram partidos políticos e assaltaram as
instalações da Rádio Clube, actual Rádio Moçambique. Igualmente,
atacaram a sede dos Correios, o aeroporto de Lourenço Marques,
o jornal Notícias, a Refinaria da Matola e montaram barricadas em
diversas vias da cidade da Beira.

125
Muiuane, 2006.

95

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Em face deste cenário, Samora Machel emitiu uma mensagem


exortando os militares da FRELIMO e os soldados do regime
colonial, a fazerem respeitar o acordo assinado em Lusaka. Na
mesma mensagem, classificou o que estava a ocorrer em Lourenço
Marques como obra de “bando de fací­noras, composto por criminosos
de guerra, agentes da PIDE-DGS, e conhecidos representantes
das for­ças exploradoras, que tentavam, desesperadamente, opor-
se à vontade de paz do povo moçambicano e do povo português”.
Samora Machel acrescentou, ainda, o seguinte:

- “O desafio desses elementos sem pátria e sem ideal é o


de impe­direm a independência de Moçambique. Para isso,
procuram provocar um clima de con­flito racial, de caos e
anarquia, que sirva de pretexto para uma internacionalização
da opres­são contra o nosso povo. Neste quadro, recru­taram
forças mercenárias e buscaram o apoio de forças racistas e
reaccionárias”.126

Samora Machel sublinhou que a FRELIMO não toleraria uma


agressão imperialista e que proclamava solenemente, o cessar-
fogo completo em todo o território moçambicano, entre as forças
da FRELIMO e do Exército português. Como medidas visando
pôr ordem no ambiente de agitação que se vivia, as forças militares
portuguesas, em conjugação com as da FRELIMO, uniram-se,
reprimindo qualquer tentativa de vandalismo. Efectivamente, com
estas forças a trabalhar de forma coordenada, foi possível repor a
ordem e a segurança públicas. No entanto, como rescaldo, inúmeras
infra-estruturas foram danificadas. Foi neste quadro de destruição e
vandalismo que a FRELIMO estabeleceu o Governo de Transição,
que guiou os destinos do país até à proclamação da Independência
Nacional, a 25 de Junho de 1975.

O Governo de Transição, empossado a 20 de Setembro de 1974,


marcava assim, a fase derradeira da descolonização. Este era
constituído por destacados membros da FRELIMO e representantes do
Governo português.127 A cerimónia decorreu num dos salões da Ponta
126
Gil, In: http://www. macua.blogs.com - Acessado em 05/05/2011.
127
Este Governo era chefiado por Alberto Joaquim Chissano, Primeiro-Ministro e pelo Contra-
Almirante Victor Crespo. Do lado moçambicano, eram membros do Governo, Mário Fernandes da
Graça Machungo, Ministro da Coordenação Económica; José Óscar Monteiro, Ministro da Informação;

96

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Vermelha, à qual assistiram o Vice-Secretário Geral da Organização


das Nações Unidas (ONU), delegações da Organização da Unidade
Africana (OUA), Argélia, Camarões, Tanzania, Zâmbia, Somália,
Guiné-Conacry e do Partido Africano para a Independência da Guiné
e Cabo Verde (PAIGC), além do Governo de Portugal.

Membros do Governo de Transição, destacando-se Joaquim Chissano,


Armando Guebuza e Mariano Matsinha. Fonte: Muiuane, 2009.

No acto da tomada de posse, foi proferido um discurso que definiu


as linhas mestras da governação que então iniciava. Após uma
breve análise da situação que Moçambique herdava da dominação
estrangeira, centrou-se na descrição das características do novo
Governo, das suas tarefas fundamentais e dos mecanismos através dos
quais iria prosseguir e alcançar os objectivos almejados. Neste sentido,
uma das primeiras medidas seria a eliminação das reminiscências da
dominação estrangeira, a popularização e democratização do poder
político, a recuperação da economia, a promoção da actividade
agrícola, a expansão dos sistemas de educação e saúde e a emancipação
da mulher.
Rui Baltasar dos Santos Alves, Ministro da Justiça; Gideon Ndobe, Ministro da Educação e Cultura;
Mariano de Araújo Matsinha, Ministro do Trabalho; Armando Guebuza, Ministro da Administração
Interna; Baptista Picolo, Ministro dos Transportes e Comunicações, Joaquim Paulino, Ministro da Saúde
e Assuntos Sociais e Alcântara Santos, Ministro das Obras Públicas e Habitação. A comissão militar
mista era constituída por Alberto Joaquim Chipande, Sebastião Marcos Mabote e Jacinto Veloso, pela
parte moçambicana. João Pizarro Rangel de Lima, Mário Esteves Brinca e António José da Costa Pinto,
como representantes de Portugal.

97

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

4. Samora Machel na Preparação da


Independência Nacional

4.1. Agradecimento aos Povos Tanzaniano e Zambiano

Após a assinatura dos Acordos de Lusaka e no âmbito da preparação


da proclamação da Independência Nacional, Samora Machel iniciou,
em Maio de 1975, uma viagem aos países da região, nomeadamente,
Tanzania e Zâmbia. Esta digressão visava agradecer o apoio que
estes países providenciaram à FRELIMO durante a Luta Armada de
Libertação Nacional. Para além de consolidar esta amizade, almejava,
igualmente, solicitar uma maior colaboração nos esforços com vista à
construção da Nação moçambicana.

Samora Machel começou o seu périplo na Tanzania, principal baluarte


da Luta de Libertação Nacional. Neste país, tinham sido estabelecidos
os principais centros político-militares, incluindo a sede da FRELIMO.
Dentre os locais visitados, destacam-se Kongwa, Kilimanjaro, Dar-
es-Salaam, State House Provincial, Tanga, Arusha, Dodoma, Iringa,
Mbeya, Lingui, Songea, Rovuma e Cidade de Moshi. O primeiro local
a ser escalado por Samora foi Kongwa, um dos campos de preparação
militar da FRELIMO.

98

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Samora no campo militar de Kongwa, Tanzania.


Fonte: Sopa, 2001.

Durante esta digressão, Samora Machel proferiu diversos discursos,


onde, para além do agradecimento por todo o apoio prestado à causa
nacional, se referia, igualmente, aos objectivos da luta travada pelo povo
moçambicano contra o regime colonial. Com efeito, Machel afirmava
que a luta não tinha servido somente para a autodeterminação, mas,
inclusivamente, para a recuperação da dignidade dos moçambicanos,
que tinha sido amordaçada pelo regime colonial. Samora Machel
assim se pronunciou:

- “A nossa luta não foi só para libertar Moçambique do


colonialismo português, mas, e, principalmente, para
reconquistar a nossa dignidade e personalidade africanas”.128

128
Extracto do discurso de Samora Machel no estádio de FABA, província de Iringa. In: Jornal Notícias.
06/05/1975.

99

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A viagem de Samora à Tanzania terminou no dia 10 de Março de 1975.


Um dos resultados imediatos da tournée foi a recepção de donativos
do povo tanzaniano, destinados ao Fundo de Reconstrução Nacional.
De igual modo, a amizade e a unidade entre os dois povos viram-se
mais consolidadas, selando-se o compromisso mútuo de contribuir
para a libertação total e pela paz dos países da África, em geral, e da
região, em particular. Com efeito, num dos seus discursos, Samora
Machel salientou o seguinte:

- “A nossa amizade foi criada na luta, fundida em aço pelo


sangue e, por isso, é indestrutível! A luta continua! Obrigado
Povo Tanzaniano! Obrigado CCM! Juntos estamos! Assante
Sana Ndungu!”129

Samora Machel, ao lado de Rachid Kawawa, vendo-se ainda


Manuel dos Santos, na sua Tanzania, despedindo-se para
Moçambique, em 1975.

129
Pachinuapa, 2005:16.

100

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Finda a viagem à Tanzania, Samora Machel seguiu para a República


da Zâmbia. A visita a este país justificava-se pelos mesmos objectivos
que a anterior, isto é, agradecer o apoio dado durante a Luta de
Libertação e consolidar os laços de amizade, com vista à promoção do
desenvolvimento e da paz na região. Samora Machel escalou locais
como a província Oriental, Mutuara e cidade de Lusaka.

Samora Machel, Keneth Kaunda, Julius Nyerere e Marcelino dos Santos,


na primeira fila, da direita para esquerda. Fonte: CDSM.

De facto, à semelhança da Tanzania, a Zâmbia contribuiu na


luta nacionalista em Moçambique, através da instalação de uma
representação permanente da FRELIMO, em 1964, que, entre outros
aspectos, se destacou na recepção e no encaminhamento de jovens
nacionalistas moçambicanos que seguiam para a Tanzania. Pode-se
referir que este país funcionou como um ponto de trânsito privilegiado,
pois, sua colaboração foi crucial para a relançamento da ofensiva
militar na província de Tete.

Durante a visita, Samora Machel foi agraciado com uma distinção, em


reconhecimento às suas qualidades de excelente combatente e exímio
estratega militar, assim como militante internacionalista. Portanto, a

101

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15 de Maio, foi condecorado com a Ordem Grande Companheiro da


Liberdade, na altura, a mais alta distinção zambiana.130

Samora Machel ostentando a Ordem


Grande Companheiro da Liberdade. Fonte: Sopa, 2001.

Após quatro dias de visita à Zâmbia, Samora Machel retornou a Dar-


es-Salaam. Desta cidade, foi a Zanzibar, onde percorreu vários locais,
durante três dias. Neste périplo, a mensagem de Samora concentrou-
se, particularmente, na reafirmação da necessidade de se garantir a
unidade do continente africano, com vista a fazer face aos desafios
enfrentados por este continente, com destaque para as independências
na região e a promoção do desenvolvimento. Esta mensagem estava
130
Jornal Notícias de 17 de Maio de 1975.

102

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enquadrada nos esforços visando a conjugação de sinergias com o


objectivo de libertar a Rodésia do Sul (actual Zimbabwe), o Sudoeste
Africano (actual Namíbia) e o povo sul-africano do regime do
apartheid. Samora Machel destacou, igualmente, a Unidade dentro
dos respectivos países, considerada como sendo um pressuposto
primordial para o combate à pobreza e ao sub-desenvolvimento.
Numa das suas intervenções, expressou-se nos seguintes termos:

- “Unidade no nosso continente, unidade nacional, pobreza


não é eterna, combate cerrado contra os males que grassam
a sociedade, libertação do sul do continente, eliminação do
tribalismo, racismo, regionalismo e definição clara do inimigo
do povo”.131

Raimundo Pachinuapa.

4.2. Decurso da Marcha Triunfal do Rovuma ao Maputo

Terminada a viagem à Tanzania e à Zâmbia, Samora Machel iniciou


um périplo pelo território nacional, que teve a designação de Marcha
Triunfal do Rovuma ao Maputo. Esta marcha tinha como propósito
familiarizar-se de forma extensiva e profunda com os problemas
que preocupavam o povo moçambicano, bem como divulgar as
perspectivas de desenvolvimento do país, à luz dos princípios
131
Pachinuapa, 2005:18.

103

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preconizados pela FRELIMO. Serviu, igualmente, para partilhar com


as comunidades o “sabor da vitória” contra o regime colonial e o
processo de transferência do poder para os moçambicanos.

Samora Machel escalou, em primeiro lugar, o distrito de Mueda, na


província de Cabo Delgado. Nesta parcela do país, foi recebido pelo
Vice-Presidente da FRELIMO, Marcelino dos Santos, membros do
Governo de Transição, o Alto-Comissário Vítor Crespo, o governador
da província de Cabo Delgado, assim como pela população da região.
A escolha de Mueda prendeu-se com a sua relevância no quadro
do nacionalismo moçambicano. De facto, o massacre perpetrado
pelo regime colonial em Mueda, marcou o clímax da consciência
nacionalista e uma viragem memorável no quadro da luta pela
independência nacional.132 A viagem de Samora Machel por Cabo
Delgado incluiu a visita à Base Central, e aos distritos de Muidumbe,
Montepuez, Ibo e à cidade de Pemba. Estes locais, de forma directa ou
indirecta, estiveram relacionados com a Luta Armada. Para o caso do
Ibo, a PIDE-DGS utilizou-o como presídio de muitos nacionalistas,
particularmente, o Forte São João Baptista, onde os torturava de
forma selvática.

Samora Machel proferiu a sua primeira mensagem dirigida ao povo


moçambicano, em Mueda. Nesse discurso, Samora referiu-se a
aspectos relacionados com o fim da guerra, a vitória da FRELIMO e o
inimigo do povo. No mesmo, enfatizou que tinha terminado a opressão
e exploração coloniais, dando lugar à emergência da liberdade de
expressão, como resultado do desmantelamento do sistema colonial.
Importa frisar que o fim da guerra colonial foi saudado pelo povo
português, que também sofria os efeitos negativos da política colonial.
Samora Machel reconheceu esta realidade, nos seguintes termos:

- “Viva o Povo de Moçambique! Parece que têm medo, mas


já não há administradores aqui, não é verdade? Ontem eram
bombas inimigas que gritavam, hoje é a nossa vitória. A nossa
luta foi sempre justa, é por isso que ela triunfou. A opressão
132
Tiane & António, 2010.

104

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não era somente para o Povo moçambicano, mas também para


o Povo português; é por isso que o triunfo da luta do Povo
moçambicano é também uma vitória, é também o triunfo do
Povo português. A luta do Povo moçambicano era para a sua
personalidade, era para o seu respeito, para a sua dignidade,
assim como para o Povo português – o fim da guerra, o fim
da opressão em Moçambique que bloqueou também Portugal.

Portugal hoje tem uma face nova, o que é bem representado


no mundo inteiro. Por isso, a nossa luta nunca foi dirigida
contra o Povo português. O Povo português foi sempre um
aliado natural do Povo moçambicano. Teremos ocasião de
conversar. O Camarada Primeiro-Ministro dirigiu palavras
calorosas a todos os nossos amigos que aqui vieram da
Zâmbia, Tanzania, jornalistas que vieram de diversos países
socialistas, incluindo jornalistas de Portugal. Por isso,
saudamos o Povo moçambicano, saudamos o Povo português.
Saudamos particularmente a resistência oferecida pelo povo
de Cabo Delgado. A luta continua! Independência ou morte!
Venceremos! Obrigado”.133

Samora Machel, em Mueda, durante a Marcha Triunfal. Fonte: Sopa, 2001.

133
Jornal Notícias. 25 de Maio de 1975.

105

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Como corolário das disposições apresentadas por Samora Machel,


a população das zonas visitadas, endereçou saudações a esta vitória
e lançou sugestões ao Presidente sobre a maneira como devia ser
governado o país independente e lidar com os inimigos da liberdade.134
A questão da Unidade Nacional foi evocada com alguma insistência
por Samora Machel.

Terminada a estadia em Cabo Delgado, Samora seguiu para Niassa.


Nesta província, visitou Lichinga, Marrupa, Mataca, Metangula,
Amaramba, Cuamba, entre outras regiões. Samora Machel exaltou
o papel que a população de Niassa desempenhara durante a Luta
Armada, e a necessidade do seu engajamento na Unidade Nacional
e na promoção do desenvolvimento. Em Marrupa, Samora participou
no I Seminário da Agricultura que visava estudar as novas formas de
produção no país.135

Samora prosseguiu com a sua viagem em território nacional,


tendo escalado Nampula no dia 2 de Junho, onde foi recebido
calorosamente pela população local, pelos membros do Governo e
pelos representantes do PAIGC. Samora visitou a cidade de Nampula,
os distritos de Angoche e Ilha de Moçambique, e as localidades de
Lumbo e Tocoloé. Nesta última localidade encontravam-se instaladas
a Artilharia e a base da Força Aérea Portuguesa. Esta foi responsável
pelo lançamento de bombas Napalm, cujas consequências foram
desastrosas para a população e as forças de libertação nacional.
Continuando com o seu périplo, Samora Machel escalou a província
da Zambézia. Em Quelimane, foi recebido entusiasticamente por
milhares de pessoas. Nesta província, passou por Milange, destacando-
se a visita à base provincial de Mongoé e ao distrito de Morrumbala.
Samora Machel seguiu depois para Tete, escalando Cahora Bassa, em
Songo, Wyriamu, Moatize e Mangu.

Dos locais visitados, Songo e Wyriamu merecem destaque. Em relação


ao primeiro, sublinha-se a Barragem de Cahora Bassa que foi usada
para impedir o avanço dos guerrilheiros para o Centro e Sul do país
134
Pachinuapa, 2005:22
135
A realização deste seminário em Marrupa deveu-se ao facto de a tropa colonial ter feito incursões
apartir dali para ir destruir a produção nas machambas e atacar a população. Entretanto, havia necessidade
de destruir a imagem que se tinha de Marrupa no tempo colonial, de terra de criminosos para centro de
estudo para o engrandecimento do país.

106

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e internacionalizar a guerra, através do envolvimento de contingentes


dos regimes de Ian Smith e do apartheid. No que se refere a Wyriamu,
foi neste local, onde a tropa colonial cometeu um dos mais bárbaros
massacres, no qual pereceram cerca de quatrocentos moçambicanos,
em 1972.
No dia 11 de Junho, data que coincidiu com o atear da Chama da
Unidade136, em Nangade, província de Cabo Delgado, Samora Machel
iniciou a sua viagem pela província de Manica, tendo passado, entre
outros lugares, por Chimoio e Catandica. Seguindo para Sofala,
escalou Sena, Dondo e a cidade da Beira. Nesta cidade, Samora Machel
afirmou que ela tinha sido um dos bastiões do colonialismo português
e satélite do apartheid da Rodésia e África do Sul, implantado pela
política colonialista.137 No entanto, exortou as populações para se
envolverem massivamente na reconstrução do país, eliminando os
resquícios do poder colonial.

Samora Machel na Beira. Fonte: Sopa, 2001.


136
A Chama da Unidade foi acesa em Nangade, província de Cabo Delgado, e percorreu todas as
províncias do país (cerca de 4 387 km), de mão em mão, até chegar à cidade de Maputo. Foi acesa pelo
Tenente General na Reserva, Raimundo Pachinuapa e a principal mensagem transmitida era de que a
chama devia iluminar todo o país, tendo em conta a Unidade Nacional propalada pelo presidente Samora
Machel. Escolheu-se Nangade pelo facto de ser um local histórico pois, “constituía um dos pontos de
entrada dos combatentes para o interior de Moçambique e de sua saída para Tanzânia” e também porque
a base Beira estava instalada neste distrito. A chama chegou à cidade de Maputo no dia 26 de Junho de
1975. Dava, et al, 2010.
137
Jornal Noticias de 14 de Junho de 1975.

107

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Prosseguindo com a sua tournée pelo país, Samora Machel chegou à


província de Inhambane, na tarde do dia 15 de Junho, acto marcado
pela realização de um grande evento cultural. Samora foi recebido
com uma mensagem que falava do significado da expressão “Terra
de Boa Gente”, associada à passagem de Vasco da Gama, na sua
viagem à Índia, em Janeiro de 1498. A população de Inhambane,
demonstrando o seu cometimento com a causa nacional, endereçou a
seguinte mensagem:

- “Passaram a vida a chamar-nos ‘Terra da Boa Gente’ para


enganar-nos e melhor explorar-nos. Mas com os nossos irmãos
de Moçambique inteiro, lutámos até vencer para encontrarmos
a nossa unidade. Agora estamos fortes e não deixaremos mais
que nos dividam e roubem as nossas riquezas. É por isso que
cantamos: Bem-vindo Samora, Presidente do Povo”!138

No dia 21 de Junho, Samora chegou à província de Gaza, onde foi


efusivamente saudado. Nesta província, afirmou que a “FRELIMO
significa clareza ideológica, clareza política, clareza na definição
dos seus objectivos. É o povo que sabe o que quer e como quer”
139
. Samora salientou a necessidade de se reconstruir o país, com a
unidade de todos os moçambicanos. A sua estadia em Gaza coincidiu
com a passagem da Chama da Unidade e foi marcada também pelo
reencontro com a sua família, volvidos dez anos de separação.

138
Jornal Noticias de 19 de Junho de 1975
139
Pachinuapa, 2005:50

108

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Samora Machel ao ser recebido pelo seu pai aquando da Marcha Triunfal.
Fonte: CDSM.

Finalmente, Samora Machel chegou à cidade de Lourenço Marques,


às 14 horas e 30 minutos do dia 23 de Junho, pondo fim à Marcha
Triunfal do Rovuma ao Maputo. No Aeroporto de Mavalane, foi
recebido em apoteose pela população que, em uníssono, dizia “Samora
chegou! Samora Chegou!”. Esta ovação era acompanhada pelo entoar
de canções revolucionárias:

“Tchengera, kapriconi ku Moçambique, lero.


Tchengera, tiri, hokonguera, kumenha inkondo.
Tchengera, ku Cabo (Delgado), ku lero,
kuli ana á Samora, tchengera”.

Tradução livre

“Atenção, hoje - agora, inimigos de Moçambique,


Atenção, com Samora estamos preparados para a luta, para a
guerra, em Cabo Delgado, Niassa”.

109

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Momento da chegada de Samora Machel


ao Aeroporto de Lourenço Marques.

A marcha triunfal simbolizou a vitória de Moçambique contra o


regime colonial português. De facto, enquanto decorria, o processo
de transferência de poderes do governo português aos moçambicanos
estava a acontecer. Do mesmo modo, ela serviu para estabelecer um
primeiro contacto efectivo com as massas populares, sobretudo aquelas
que não estiveram directamente envolvidas na luta de libertação,
de modo a cimentar a Unidade Nacional, como um alicerce para a
promoção do desenvolvimento socioeconómico do país. Porque esta
fase era caracterizada por sabotagens de vária ordem, a FRELIMO
considerou a segurança um aspecto, igualmente, importante para a
prossecução do desenvolvimento. Foi neste contexto que Samora
lançou as seguintes palavras de ordem: Unidade, Trabalho e Vigilância.

Para a população, constituiu uma oportunidade soberana para


interagir com os seus líderes, e selar o seu compromisso com a causa
nacional. De acordo com alguns informantes, este foi, realmente
um momento de festa, de euforia e de celebração da vitória. O
entusiasmo da população iria prolongar-se até depois da proclamação
da Independência Nacional, confiante num Moçambique próspero e
de igualdade social. Abílio Salomão destacou o seguinte:

110

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- “Quando o presidente Samora atravessou o rio Rovuma foi


recebido pela população. Era momento de festa. Não havia
nada que ele dissesse que não fosse bem aceite pelo povo. Todos
nos sentíamos moçambicanos”.140

4.3. A Reunião de Tofo e a Primeira Constituição da


República Popular de Moçambique

No quadro dos preparativos para a proclamação da Independência


Nacional e formação do Governo da República Popular de
Moçambique, foi realizada, entre os dias 19 e 21 de Junho de 1975, a
V Reunião dos Comités Central e Executivo da FRELIMO, na Praia
do Tofo, Província de Inhambane. A escolha de Tofo foi uma decisão
estratégica, pois, teve em linha de conta três factores, nomeadamente,
a relativa proximidade de Maputo, a segurança dos dirigentes e as
facilidades logísticas.141

Vista frontal e lateral do edifício onde se realizou a reunião de Tofo.


Fotos de 2011. Fonte: ARPAC.

140
Entrevista com Abílio Salomão, cidade de Inhambane, 24.05.2011
141
Raimundo Pachinuapa, entrevista de 19/09/2011, Cidade de Maputo; Abílio Salomão, entrevista de
24 de Maio de 2011, Cidade de Inhambane.

111

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

O encontro142, dirigido por Samora, centrou-se na análise dos


preparativos para a proclamação da Independência, com enfoque
para a aprovação da primeira Constituição da Republica Popular de
Moçambique, da Lei da Nacionalidade e confirmação de Samora
Machel como futuro presidente do país.143

Reunião de Tofo. Fonte: CDSM.

No discurso de abertura, Samora Machel definiu o perfil de um


dirigente, cujas qualidades deviam acrescentar valor aos processos
de governação. Segundo Samora o dirigente devia ser exemplar,
tomar a dianteira para dirigir e garantir o bem-estar e a segurança
do povo. Devia, igualmente, trabalhar e sacrificar-se pelo povo, de
modo a resolver os problemas do país e responder às expectativas dos
moçambicanos, sendo responsável e capaz de reflectir as aspirações
populares, tendo salientado o seguinte:

142
Participaram na reunião cerca de trinta personalidades, dentre elas, Marcelino dos Santos, Joaquim
Chissano, Fernando Ganhão, Graça Simbine, Deolinda Guezimane, José Luís Cabaço, João Facitela
Pelembe, Sebastião Marcos Mabote, Alberto Chipande, Armando Panguene, Jorge Rebelo, Armando
Guebuza, Mariano Matsinha, Jonas Geraldo Namachulua, Manuel dos Santos, Vitorino Olímpio Vaz,
Marina Pachinuapa e Raimundo Domingos Pachinuapa.
143
Revista Tempo Especial,1975:46.

112

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

- “Os membros do Comité Central, os membros do Comité


Executivo e os membros do Governo, devem formar a força
de vanguarda. Não queremos que os membros do Comité
Central, os membros do Comité Executivo e os membros do
Governo se transformem em carroças. Queremos que sejam
a força de vanguarda consciente, a força de vanguarda
organizada, a força de vanguarda que assume a linha de
organização, assume a grandeza de Moçambique, assume a
complexidade dos problemas que existem, e estejam sempre
prontos para a solução desses problemas e, sobretudo, que
sejam eles a vanguarda quando se trata de sacrifícios e os
últimos em benefícios. Queremos que o povo veja nos membros
do Governo de Moçambique o seu próprio Governo (…)”.144

A Constituição aprovada nesta reunião, foi o resultado, por um lado,


dos ensinamentos adquiridos durante o processo da Luta de Libertação
Nacional e, por outro, dos pressupostos ideológicos baseados na
interpretação da doutrina marxista-leninista. Como reconheceu
Sérgio Vieira, os modelos para a construção da nação moçambicana
tinham como base as experiências das zonas libertadas; o exemplo
da construção da Tanzania e dos países socialistas, e a rejeição da
restauração do feudalismo e das nobrezas e aristocracias.145

Esta Constituição tinha como objectivo fundamental a “eliminação


das estruturas de opressão e exploração coloniais (...) e a luta contínua
contra o colonialismo e o imperialismo”. Preconizava ainda, no seu
artigo segundo, a instauração de um Estado de democracia popular
em que todas as camadas patrióticas se engajassem na construção de
uma nova sociedade, livre da exploração do Homem pelo Homem.
Assim, o poder pertenceria aos operários e camponeses unidos e
dirigidos pela FRELIMO, e exercido pelos órgãos de poder popular,
assente num regime político socialista numa economia marcada pela
intervenção do Estado.146
144
Pachinuapa, 2005:49
145
Vieira, 2010: 674.
146
Constituição da República Popular de Moçambique, Maputo: 1975.

113

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Certos aspectos merecem destaque especial nesta constituição,


dentre eles, a questão da separação dos poderes (legislativo, judicial
e executivo), a possibilidade de perda de nacionalidade pela mulher
no caso de contrair matrimónio com um estrangeiro, e as áreas de
desenvolvimento prioritárias. Sobre o primeiro, Vieira sublinhou que
na Constituição não se introduziu a separação de poderes, modelo
inspirado na Revolução Francesa e nos fundadores dos Estados
Unidos da América, pelas seguintes razões:

- “A separação de poderes não se radicava em qualquer


experiência vivida e apreendida em Moçambique, mas sim
dum modelo que aparecia intelectualmente, pela via das
leituras; o país já vivia as experiências alternativas das
zonas libertadas e dos grupos dinamizadores; na sociedade
tradicional e na experiência das zonas libertadas, havia o
princípio, e sobretudo a prática da não existência de poderes
separados (...)”.147

No que respeita às áreas prioritárias, a Constituição atribuía


primazia à agricultura tomada como a base através da qual se
lançariam outras iniciativas de desenvolvimento, tendo como factor
catalisador, a indústria, visando, principalmente, a liquidação do
subdesenvolvimento e a criação das condições para a elevação do
nível de vida do povo moçambicano.148 No aspecto social, a saúde
e a educação eram considerados os pilares para a humanização da
sociedade.

De acordo com a primeira Constituição, o Presidente da República


tinha a competência de nomear os membros do Conselho de Ministros.
Este Conselho foi constituído por quinze ministérios149, procurando
reflectir as áreas prioritárias definidas pela Constituição.
147
Vieira, 2010:676/7.
148
Constituição da República Popular de Moçambique, artigo 6.
149
Ministério de Estado na Presidência, Ministério da Defesa Nacional, Ministério do Interior, Ministério
do Desenvolvimento e Planificação Económica, Ministério dos Negócios Estrangeiros, Ministério da
Justiça, Ministério da Informação, Ministério da Educação e Cultura, Ministério da Indústria e Comércio,
Ministério da Agricultura, Ministério das Finanças, Ministério do Trabalho, Ministério dos Transportes e
Comunicações, Ministério da Saúde e Ministério das Obras Públicas e Habitação.

114

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4.4. A Proclamação da Independência Nacional

As cerimónias centrais da proclamação da Independência Nacional


decorreram no Estádio da Machava, no dia 25 de Junho de 1975.
Presente às cerimónias, Samora Machel era acompanhado por
Marcelino dos Santos, membros dos Comités Central e Executivo da
FRELIMO e representantes das delegações estrangeiras.150 O evento
contou com uma enorme moldura humana, que encheu o Estádio,
para testemunhar as celebrações.

As ruas de Lourenço Marques encontravam-se engalanadas com cores


e bandeiras da FRELIMO, e apresentavam dísticos com dizeres, tais
como:
- “Saudamos os Povos, os Partidos e os Líderes da Tanzania e
Zâmbia, Nossas Bases de Apoio”.

- “Solidariedade com a luta dos povos da África do Sul,


Zimbabwe e Namíbia”.

- “Bem-vindos à República Popular de Moçambique”.

- “A FRELIMO é o Guia do Povo”.151

No Estádio da Machava, assistiu-se ao arriar da bandeira portuguesa,


executada por três elementos das Forças Armadas Portuguesas (um
cabo da Marinha de Guerra, um cabo da Força Aérea e um militar
do Exército). Depois, seguiu-se o içar da bandeira nacional152, por
150
Dentre as delegações estrangeiras presentes, destacam-se a da Zâmbia, Tanzania, Angola, Namíbia,
Marrocos, Itália, Jugoslávia, Libéria, Camboja, Sudão, Somália, a de Portugal, Finlândia, Noruega, União
Indiana, Burundi, Roménia, Reino Unido, Líbia, República Democrática da Correia do Norte, Guiné-
Equatorial, Hungria, Jamaica, Tunísia, Egipto, Trindade e Tobago, Lesoto, Swazilândia, Camarões,
União Soviética, República Popular da China, etc. Dos movimentos de libertação e outras organizações
progressistas estiveram presentes o Movimento de Libertação da Palestina, o ANC do Zimbabwe, o ANC
sul-africano, o Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, o Comité de Apoio à Descolonização
de África. (Muiuane, 2006:449)
151
Muiuane, 2006:453
152
A bandeira nacional era composta por três faixas horizontais, apresentando cinco cores: verde
(que representa a riqueza do solo), preto (que representa o continente africano), amarelo-dourado (que
representa a riqueza do sub-solo), de cima para baixo e separadas por faixas de cor branca (que representa
a paz), e a cor vermelha (que representa a resistência ao colonialismo). No cimo do canto esquerdo da

115

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Alberto Chipande. Este foi um dos momentos mais emocionantes


da cerimónia, comemorado, através de aplausos, choros e gritos que
expressavam alegria. No acto, foram disparados trinta e um tiros de
canhão, como se refere no trecho abaixo:

- “A bandeira nacional foi erguida perante aplausos


delirantes, choro dos velhos e ao som de trinta e um tiros de
canhão, pelas mãos de um antigo combatente e sobrevivente
do massacre de Mueda, Alberto Chipande.153

Içar da Bandeira Nacional.

bandeira há um símbolo emblemático da nação, representado por uma roda dentada (que representa a
indústria), tendo no seu interior uma enxada (que representa a agricultura) e uma arma (que representa o
combate e a defesa), cruzadas sobre um livro (que representa a educação), figurando ao alto uma estrela
vermelha (que representa a solidariedade entre os povos).
153
Revista Tempo Especial, 1975.

116

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Com a bandeira nacional já hasteada, Samora Machel, em nome do


povo moçambicano, proclamou solenemente a Independência Total
e Completa de Moçambique, às zero horas do dia 25 de Junho de
1975. Desde este momento, Moçambique passou a ser um Estado
soberano, independente e democrático. Na sua alocução, Samora
referiu-se ao legado da dominação colonial, às razões que levaram
ao desencadeamento da insurreição geral armada e ao processo de
independência que ora iniciava.

A libertação não devia significar, somente, o fim da presença


colonial, mas também o enaltecimento dos valores nobres do povo
moçambicano, como a sua cultura e a sua identidade. Este acto
constituía, sobretudo, um compromisso de todos os moçambicanos, nos
esforços da reconstrução do país, com vista à elevação do desempenho
económico e consequente melhoria do nível de vida, assim como uma
maior participação dos cidadãos nos órgãos de decisão. A seguir, um
extracto do discurso da proclamação da Independência:

- “Moçambicanas, moçambicanos;
Operários, camponeses, combatentes;
Povo Moçambicano:

Em vosso nome, às zero horas de hoje, 25 de Junho de 1975,


o Comité Central da FRELIMO proclama solenemente a
independência total e completa de Moçambique e a sua
constituição em República Popular de Moçambique.

A República que nasce é a concretização das aspirações


de todos os moçambicanos, é a extensão a todo o país da
liberdade já conquistada durante a luta armada de libertação
em algumas partes do nosso país, é o produto do sacrifício
dos combatentes nacionalistas de todo o Povo Moçambicano,
é a concretização da nossa vitória.

A nossa República Popular nasce do sangue do Povo. A sua


consolidação e desenvolvimento é uma dívida de honra para
cada moçambicano patriota e revolucionário”.154

154
Pachinuapa, 2005:28.

117

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Momento em que Samora Machel lia a mensagem da proclamação


da Independência.

Saliente-se que, nem todos os moçambicanos puderam acompanhar


a proclamação da Independência Nacional in loco, no Estádio da
Machava. No entanto, mais de nove milhões de moçambicanos
viveram este momento, passo a passo, através das rádios nas suas casas,
nas ruas ou nos lugares de concentração previamente determinados,
pois, a mensagem de Samora Machel foi difundida em todo o país.
A alegria dos moçambicanos era indescritível. Entre palmas, gritos,
abraços e lágrimas estes comemoraram a sua independência.

4.5. Investidura de Samora Machel

Proclamada a Independência Nacional, Samora Machel foi investido


no cargo de Presidente da República Popular de Moçambique, às
nove horas do dia 25 de Junho. A cerimónia teve lugar na Praça da
Independência, no actual edifício do Conselho Municipal de Maputo,
onde estiveram presentes centenas de pessoas. Marcelino dos Santos
leu a declaração de investidura, em nome do Comité Central, dos
militantes da FRELIMO, dos operários e camponeses e do povo
moçambicano.

118

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Nessa declaração, sublinhava-se que Samora Machel tinha sido


escolhido para Presidente porque possuía capacidades de concepção,
de direcção e de identificação com o povo, que o colocavam numa
posição privilegiada, fazendo dele um líder nato. A estas virtudes,
acrescentava-se ao seu perfil, a sua militância forjada e temperada no
duro processo da guerra popular de libertação e formado no combate
político e armado, bem como na luta de classes”.155 A seguir à
declaração, Samora Machel leu e assinou o Juramento de Investidura:
- “Eu, Samora Machel,
Juro pela minha honra de militante da FRELIMO, dedicar
todas as minhas energias à defesa, promoção, consolidação
das conquistas da revolução, ao bem-estar do Povo
moçambicano, fazer respeitar a Constituição, fazer justiça
aos cidadãos”.156

Samora Machel assinando o Juramento de Investidura, ladeado por Marcelino dos


Santos e Joaquim Chissano.

Lido o juramento, Samora Machel saudou o povo moçambicano


com palavras de ordem e felicitações revolucionárias, tendo feito
de seguida o seu primeiro discurso de Estado. Na sua mensagem à
Nação, Samora falou sobre a importância da independência recém-
proclamada, da memória dos que tombaram pela independência
155
Revista Tempo Especial, 1975:14
156
Pachinuapa, 2005:59

119

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do país, da herança do povo moçambicano após a colonização, do


partido que iria conduzir o país, do significado da República Popular
de Moçambique, entre outros aspectos.157

A encerrar as celebrações oficiais do dia da Independência Nacional,


Samora Machel ofereceu um banquete de Estado aos delegados e
representantes dos países e povos aliados. Estiveram, igualmente,
presentes os dirigentes da FRELIMO, membros do Governo
e militantes das estruturas organizativas dos trabalhadores. O
banquete realizou-se no Pavilhão do antigo Parque Municipal de
Campismo (actual Centro de Conferências Joaquim Chissano). As
comemorações prosseguiram no dia 26 com um espectáculo exibido
pelos continuadores da Revolução, no Estádio da Machava, que
iniciou com a chegada da Chama da Unidade.

Samora Machel e os membros do Primeiro Governo de Moçambique.

157
Revista Tempo Especial, 1975:22

120

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5. Samora Machel e as Perspectivas de


Desenvolvimento de Moçambique

A proclamação da Independência Nacional, em 1975, constituiu


um momento de viragem em muitos sentidos, desde o ordenamento
político, ao socioeconómico e cultural. A nova estrutura de governação
assentava em suportes ideológicos inspirados pela doutrina marxista-
leninista, uma perspectiva que vinha sendo desenhada desde a Luta de
Libertação. Tendo a FRELIMO como o guia, e Samora Moisés Machel
como o timoneiro, Moçambique iria socializar a educação, saúde, entre
outros sectores, reordenar os assentamentos populacionais rurais e
intervir, directamente, no processo da produção e do desenvolvimento
económico.

Estas medidas visavam, essencialmente, garantir o acesso equitativo


e equilibrado de todos os sectores da sociedade aos serviços e bens
económicos, assim como a sua participação nas esferas de decisão,
através da implementação de uma gestão participativa da coisa
pública. Quanto aos meios de produção, o imperativo era o incremento
da produtividade, tendo como indicador o equilíbrio da balança
de pagamentos e a redução do desemprego, melhorando assim, a
redistribuição equitativa da renda. Importava, igualmente, afastar o
espectro da miséria, da fome, do analfabetismo e, ainda, eliminar a
“exploração do Homem pelo Homem”.

Em suma, este esforço teria como corolário, a formação da Nação


moçambicana, através da incorporação de todos os valores culturais,
amalgamados no Homem Novo, livre dos preconceitos tradicionais,
e inspirado pelo saber científico. Samora Machel tomaria a dianteira
na promoção destes valores. Nas próximas linhas, e em breves
trechos, tentar-se-á trazer à luz algumas das ideias basilares que

121

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guiaram as perspectivas de Samora Machel sobre o desenvolvimento


de Moçambique, com destaque para as áreas da educação e cultura,
saúde e o desenvolvimento sócio-económico.

5.1. Samora Machel: Unidade Nacional e Homem Novo

Em linhas gerais, o projecto nacionalista moçambicano baseou-se na


experiência da Luta Armada de Libertação Nacional, que consistiu,
não apenas no confronto bélico com o colonialismo português, mas
também na preparação ideológica que devia moldar um novo modelo
de sociedade. Efectivamente, a luta revolucionária pela independência
desenvolveu esta componente, inclusive chegando a implementar
novos modelos de relações sociais nas “zonas libertadas”.

Estes modelos buscavam superar aquilo que eram considerados


“vícios” das sociedades conservadoras, seja a colonial, como a
tradicional. Este modelo – do qual o caso da base de Nachingwea158
é o maior exemplo, trouxe novas concepções acerca da divisão do
trabalho, relações de género, trocas económicas e praxis política. A
concordar com uma série de autores159, a ideia da Nação moçambicana
que se projectou logo a seguir à independência foi uma tentativa
de implementar o modelo de Nachingwea a todo o território e às
populações do país. Assim, nas próprias palavras de Samora:

- “A construção da Nova Sociedade em que estamos


empenhados é indissociável da criação do Homem Novo (...)
temos que desencadear uma luta política dura para destruir
o sistema de organização social que permite a exploração,
igualmente, ao nível da consciência, dos valores morais e
culturais, somos obrigados a fazer o mesmo combate” 160.

Esta passagem confirma que a luta no domínio da cultura teve a sua


génese nas zonas libertadas, ou seja, estes debates foram feitos no seio
158
A base de Nachingwea, na Tanzania, foi um dos principais centros da FRELIMO durante a Luta
Armada. Seus modelos de organização baseavam-se na ideia de Ujamaa, conceito desenvolvido pelo
presidente tanzaniano, Julius Nyerere, apologista de um “socialismo africano”.
159
Adam, Negrão, Brito, Sopa, 2001.
160
Machel, 1975:159.

122

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de uma parcela bastante restrita da população moçambicana. Depois


da Independência, era necessário inculcar estes mesmos ideais em
toda vasta população extremamente diversa e bastante dispersa.

Em termos de conteúdo, para a ideia de Homem Novo, foi projectado


um modelo de indivíduo adequado à nova nação que se pretendia
construir, dotado de capacidades que lhe permitissem fazer a crítica
dos sistemas colonial e tradicional, tanto ao nível da prática como da
teoria. Como sublinha Cabaço, o Homem Novo inclui uma “nova
práxis (trabalho manual, disciplina militar, empenho subjectivo
através da ‘libertação da iniciativa’, educação formal, etc.) (...) que
lhe conferisse os instrumentos para se apropriar da técnica através
do conhecimento científico cartesiano (...) e evitar que as estruturas e
o pensamento tradicional se ‘reorganizassem’”.161

Liderado por Samora Machel, o novo Governo de Moçambique, logo


ao início, procurou estabelecer as bases para a Unidade Nacional,
isto é, tornar em realidade para todos os habitantes do território a
ideia de que compartilhavam o mesmo espaço, os mesmo ideais e,
portanto, o mesmo destino socio-económico e político. Este aspecto
remete ao que Anderson chama de “comunidade imaginada”, no
sentido de que o processo de construção de uma nação implica uma
série de procedimentos com vista a conferir materialidade a este
imaginário.162 Aqui, é preciso atribuir estruturas de “homogeneidade”
e “simultaneidade” às acções dos indivíduos para que se sintam dentro
de um mesmo projecto nas várias perspectivas de desenvolvimento da
nação.

Com efeito, Anderson define a nação como “(...) uma comunidade


política imaginada - e imaginada como sendo intrinsecamente
limitada e, ao mesmo tempo, soberana”.163 Com a ideia de imaginação
na concepção da nação, o autor quer dizer que os seus membros não
conhecem, necessariamente, todos os demais e, assim, na mente de
cada indivíduo, reside uma imagem da comunidade da qual participa.
161
Cabaço, 2009.
162
Anderson, 1989.
163
Idem.

123

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Daí, a necessidade da criação de um aparato simbólico por meio


do qual se constroem os sentimentos de comunhão, solidariedade e
horizontalidade social entre os membros da Nação.

Com este ideário pretende-se que se diluam os potenciais conflitos,


desigualdades e diferenças que os atravessam. Para o caso
moçambicano, o conceito de “comunidade imaginada” aplica-
se justamente à Unidade Nacional que se pretendia, tanto ao nível
simbólico do discurso, quanto de uma máquina governativa capaz
de administrar o território e a população. Esta visão estende-se à
gestão dos bens patrimoniais do país; para além de todo um sistema
de procedimentos, rituais, comportamentos e produção de símbolos
de modo a assegurar a estabilidade política da nova nação. Sob
este ângulo, as estratégias e as políticas públicas para os sectores
da educação, saúde, cultura e para o desenvolvimento económico,
estão intimamente ligados à construção deste imaginário de forma
compartilhada pelos moçambicanos.

Nesta ordem de ideias, as singularidades e as pluralidades que se


verificaram na concepção do imaginário, definiram a personalidade
moçambicana, face ao seu meio circundante que, por sua vez, se
afigurava como referência incontornável para a sua concretização.
Este aspecto remete à percepção clara que Samora Machel tinha sobre
a Unidade na Diversidade. Este projecto samoriano é resumido pelo
cancioneiro da Luta Armada de Libertação Nacional, de um modo
geral. De forma específica, encontra-se na seguinte canção, cuja
origem teve como um dos principais protagonistas, o Herói Nacional
Belmiro Obadias Muianga:

“Hi va moçambicano hinkweru,


Hi va moçambicano hinkweru,
A kuna mukhuwa,
A kuna mukonde,
A kuna mutxangana,
A kuna munyungwe,
A kuna mutxope,
A kuna murhonga,

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A kuna mundau,
A kuna mulungu,
A kuna mulandi,
Hi va moçambicano hinkweru, swoswi”.

Tradução

“Somos todos moçambicanos,


Somos todos moçambicanos,
Não há macuas,
Não há makondes,
Não há machangana,
Não há yungwes,
Não há chopes,
Não há rongas,
Não há ndaus,
Não há brancos,
Não há negros,
Somos todos moçambicanos, agora”

5.2. Perspectivas de Samora Machel sobre a Educação


e Cultura

A educação pode ser considerada como aquela área que está


directamente associada ao projecto de desenvolvimento de um país,
ao entender-se que a evolução quantitativa, primeiro, e qualitativa,
depois, assenta na qualificação do seu tecido social. Durante a Luta
Armada, Samora Machel, referindo-se a este sector, dizia que era
necessário educar o Homem para vencer a guerra, de modo a se criar
uma sociedade nova164. Neste sentido, reconhecia o valor inestimável
do factor educação em qualquer projecto de desenvolvimento.

164
Palavras de ordem que animaram a II Conferência do Departamento de Educação e Cultura, realizado
em 1970. Nesta frase podemos verificar o sentido que se atribuía à educação como factor de unidade
nacional.

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Antes da Independência Nacional, promovendo um novo modelo de


educação que se adequasse às perspectivas de Moçambique, Samora
preocupou-se com a linha que devia ser seguida e o objectivo a
atingir. A título de exemplo, em Tunduru, em 1970, no decurso da
II Conferência do Departamento de Educação e Cultura, Machel
efectuou um diagnóstico em torno do sistema, apresentando as
vertentes que podiam constituir obstáculos e aquelas que deviam ser
promovidas.

Nessa ocasião, Samora Machel identificou três tipos de educação


antagónicos: o tradicional, o colonial e o revolucionário. O tradicional
visava transmitir a tradição, erigida em dogma, referindo que o
sistema de classes, de idade e de ritos de iniciação tinha por objectivo
integrar a juventude nas ideias velhas e destruir-lhe a iniciativa. Neste
universo, tudo o que fosse novo, diferente, estrangeiro e dialéctico
era combatido, em nome da tradição. Assim, se dificultava todo o
progresso e a sociedade sobrevivia no seu imobilismo.165

No mesmo diapasão, referindo-se à educação colonial, condenou


a visão de desenvolvimento vertical no seio dos moçambicanos,
advogando que ela seria uma reprodução do sistema burguês-colonial,
cujas mudanças estariam a ocorrer simplesmente ao nível da cor
da pele, todavia, mantendo-se a essência do colonialismo. Samora
pronunciou-se nos seguintes termos:

- “Para além dos seus objectivos gerais de fortificação da


opressão burguesa, o ensino colonial procura especialmente
despersonalizar o moçambicano. (...) o moçambicano deve
tornar-se um burguês de pele preta, instrumento dócil do
colonialismo, cuja ambição máxima é viver como o colono, a
cuja imagem foi criado”.166

Perante este quadro, um novo modelo de educação, o revoulcionário,


tornava-se urgente, de modo a corresponder aos novos desafios.
Neste sentido, Samora Machel advogava que no âmbito da criação
do Homem Novo, a educação devia permitir a formação de uma
165
Machel, 1975:33.
166
Machel, 1975:34

126

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personalidade moçambicana, que não fosse de subserviência, que


assumisse a sua realidade, mas que soubesse tirar partido do contacto
com o mundo exterior. Isto significa que devia assimilar criticamente
as ideias e experiências de outros povos, porém, transmitindo-lhes,
igualmente, o fruto da sua reflexão e prática, ou seja, do seu capital
cultural. Portanto, devia permitir a aquisição de uma atitude científica
aberta e livre de todos os pesos da superstição e tradições dogmáticas
e retrógradas. De igual maneira, esta devia garantir a emancipação
da mulher e inculcar nos homens uma mentalidade diferente a seu
respeito, sabido que a diferença de género resulta de uma construção
cultural conjuntural, no entanto, modernamente extemporânea.

Efectivamente, estavam assim lançadas as premissas para o


novo modelo de educação. Porém, aquando da proclamação da
Independência Nacional, Moçambique deparava-se com uma das mais
altas taxas de analfabetismo no Mundo, que rondava, sensivelmente,
em cerca de 93%.167 Aliás, a política de educação do regime colonial
tinha excluído aos “nativos” a possibilidade de acederem a uma
educação de qualidade, que lhes pudesse permitir competir, tanto no
mercado do conhecimento como do emprego. Conforme vimos com
o exemplo da Missão São Paulo de Messano, visava simplesmente,
formar servidores dóceis ao regime, sem espírito de iniciativa. Esta
realidade era, per si, um constrangimento ao projecto de Samora.

Ciente desta situação, o Governo de Moçambique lançou uma


campanha de âmbito nacional com vista à reversão deste cenário.
Assim, entre 1975 e 1982, duplicou o número de ingressos nas
escolas primárias, a taxa de analfabetismo reduziu em 20%, e o
número de professores duplicou, tendo passado de dez para vinte
mil.168 Estes sucessos foram alcançados, em parte, como resultado das
campanhas de alfabetização. A primeira, lançada em 1975, estendeu-
se até meados da década de 80, atingindo as Forças Populares de
Libertação de Moçambique (FPLM), as empresas estatais, fábricas
e cooperativas, os centros de produção, e consistiu, igualmente, na
formação de 5.000 monitores de alfabetização. Este programa teve
como marco referencial, a consagração da Educação de Adultos como
um dos pilares do Sistema Nacional de Educação.
167
Abrahamsson e Nilsson, 1994.
168
Abrahamsson e Nilsson, 1994.

127

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Os esforços foram orientados, consequentemente, para a concentração


de recursos do Estado, para a reciclagem de 3.000 professores por
ano, até 1980, elevação do seu nível político e pedagógico; formação
anual de 800 professores com 6a Classe e criação de condições para
graduar, até àquele ano, cerca de 60.000 estudantes com 4a Classe. O
Partido FRELIMO apoiou o programa de extensão do Ensino Primário
às Aldeias Comunais, mobilizando, quando necessário, alunos mais
velhos com a 4a Classe ou graus superiores, para darem aulas às clas­
ses mais baixas.

A segunda etapa iniciou nos meados da década de 80, e prolongou-


se até 1995, envolvendo cerca de 300.000 alfabetizados. A educação
primária era garantida a todos os cidadãos moçambicanos, como um
direito básico e um pré-requisito fundamental para o desenvolvimento
social e económico.169

Estes desdobramentos revelam o quão prioritária era considerada


a educação para a construção de uma Nação moçambicana assente
no progresso sócio-económico e guiada por modelos de pensamento
científico. Refira-se que a implementação destas iniciativas se baseou
na assunção de que a língua portuguesa serviria, também, de factor
de Unidade Nacional, em reconhecimento da diversidade linguística
em Moçambique. De facto, em função desta conjuntura, nenhuma
língua, com a excepção do português, se apresentava como a mais
aglutinadora, apesar de algumas possuírem uma representatividade
significativa. Neste aspecto, considera-se que a FRELIMO fez muito
mais, comparada ao regime colonial, na difusão desta língua ao nível
das populações nativas.170

169
Mário, 2002:129-130.
170
Lopes, 2004.

128

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Samora Machel, durante uma visita a um estabelecimento de ensino.

No entanto, o projecto de Samora em relação ao progresso da


educação foi desafiado por “determinantes sociais”, que tinham
escapado à visão de então. Era enorme o fosso entre a “base socio-
teórica”171 dos diversos actores e os instrumentos teóricos a serem
aplicados. Com efeito, apesar dos notáveis avanços observados, o
voluntarismo e “revolucionarismo” destas medidas deparou-se, em
alguns contextos, com uma adesão reduzida, em consequência de
uma relativa fraca preparação ideológica e académica de alguns dos
seus implementadores. Assim, observou-se algum autoritarismo na
aplicação das directrizes educacionais. Como afirma Miguel Buendía,
o projecto nacionalista de expandir a experiência das zonas libertadas
para todo o país subestimou a maior complexidade da sociedade
moçambicana, em relação à realidade das bases da FRELIMO durante
a luta armada. Este autor asseverou, ainda, nos seguintes termos:
171
Com esta expressão, pretendemos designar a rede social que deveria implementar os projectos, como
os próprios educadores, as lideranças políticas e económicas aos diversos níveis, os quais não tinham
os conhecimentos teóricos à altura de um grande empreendimento como este defendido por Samora
Machel.

129

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- “Daí, surgiram grandes resistências e obstáculos à aplicação


das políticas educacionais, dado que os profissionais do sector
no Moçambique independente padeciam de uma “fraqueza
teórica” e que a maioria das pessoas não estava preparada
em termos de reflexão para a acção política. O resultado é
que em muitos casos, prevaleceu a doutrinação ideológica
e não a superação dialéctica das contradições, fazendo com
que a aplicação do projecto se desse de forma mecânica e
descontextualizada”.172

No entanto, Samora Machel reconhecia os diversos desafios que


existiam e a necessidade de serem ultrapassados. Por isso, ele defendia
que “a educação era tarefa de todos nós”. Aliás, mesmo durante a
Luta Armada, Samora sublinhava que os “quadros surgiam do próprio
processo de luta, não sendo necessário esperar a formação de generais
para se travar a batalha”. Foi nesse contexto que surgiu a palavra
de ordem “aprender a fazer, fazendo”.173 Este era, efectivamente,
um reconhecimento do reduzido número de quadros com formação
especializada, e que, em função do seu pragmatismo e da urgência
para a solução de situações imediatas, impunha-se a maximização
dos parcos conhecimentos existentes. Era preciso semear-se para se
colher.

O projecto do Homem Novo que temos vindo a caracterizar, depois da


Independência Nacional, estaria associado ao da Construção da Nação,
preconizando a união de todos os moçambicanos. Refira-se que a
abordagem deste assunto tem sido dicotómica, havendo interpretações
que apontam um dedo acusador em relação a Samora, alegadamente
porque se teria dissociado da sua cultura, ao advogar a substituição
de certas práticas culturais, por exemplo, os ritos de iniciação, e ao
distanciar-se de confissões religiosas anti-revolucionárias. No entanto,
o pensamento de Samora em relação à cultura moçambicana era,
pelo contrário, orientado para que esta servisse o desenvolvimento
de Moçambique. Neste contexto, terá sido mal entendido quando
defendeu a expurgação dos aspectos tradicionais retrógrados, pois,
estes já não constituíam, efectivamente, valores culturais. Neste
172
Buendía, 2001: 73.
173
Macagno, In: Revista Brasileira de Ciências Sociais. Vol.24. Nº 70.

130

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domínio, perfilam casos como a prepotência do poder tradicional e


religioso, as incisões doloridas, a desvalorização da mulher,174 tudo
isto embandeirado na cultura moçambicana.

Explanando o seu pensamento relativamente à cultura, num dos seus


discursos, Samora Machel realçava estes aspectos, destacando que o
grande conhecimento de que o povo era detentor, sobre diversas áreas
do saber, apesar de ser, essencialmente empírico e frequentemente
adulterado pela superstição, devia ser resgatado e analisado de forma
crítica, à luz dos pressupostos científicos, em proveito da própria
sociedade. Do mesmo modo, recomendava a realização de estudos
“etnográficos” sobre os “usos e costumes”, de modo a permitir a
identificação, por um lado, dos chamados aspectos negativos e,
por outro lado, promover, valorizar e salvaguardar os considerados
valores positivos.

Na senda, ainda, de Anderson175 que reconhece que a Nação é,


essencialmente, uma comunidade imaginada, em que os seus membros
se identificam através de valores específicos, como interesses,
classe, raça, entre outros, Samora Machel compreendeu que, no caso
moçambicano esses valores deviam ser criados ou recriados. Aliás, as
tradições culturais constituem, iminentemente, produtos sociais e não
naturais, o que confere carácter dialéctico a todas as culturas.

Como mecanismos para o estabelecimento de maior intercâmbio


cultural, e do mesmo modo, a sua recriação, a governação de Samora
Machel implementou algumas iniciativas, como são os casos do Kuxa
Kanema, da Campanha de Preservação e Valorização Cultural e da
Companhia Nacional de Canto e Dança.

Criado pelo Instituto Nacional de Cinema, o Kuxa Kanema era um


documentário cinematográfico cujo objectivo era “filmar a imagem
do Povo e devolvê-la ao Povo”. De 1975 a meados da década de 1980,
o Kuxa Kanema construiu um acervo de centenas de filmes de curta-
metragem, nos quais se procurava levar a mensagem da Unidade
Nacional a todas as populações do país, sobretudo, àquelas recolhidas
174
Cabaço, 2009:305.
175
Anderson, 2008.

131

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em locais mais distantes, através de unidades móveis. Assim, o


cinema cumpria o papel de tornar “real” a “comunidade imaginada”,
fazendo recurso à força da imagem em movimento. Deste modo, foi
possível difundir não apenas os ideais da independência, mas também
as próprias políticas públicas dos diversos sectores governativos.

De facto, tinha sido atribuído a estas projecções, o imperativo de


informar e educar a sociedade, colocando-a em contacto com as novas
iniciativas e políticas de governação. Com efeito, devia-se permitir
uma maior participação popular nesses processos. Assim, na II
Conferência Nacional do Trabalho Ideológico do Partido FRELIMO,
definiu-se mais precisamente o papel que o cinema devia desempenhar
no processo revolucionário, cujos pressupostos podem ser percebidos
no excerto abaixo:

- “Incentivar o aumento da produção e da produtividade. Na


realização deste trabalho, é importante mostrar a dimensão
nacional do trabalho, isto é, como o trabalho de cada
trabalhador, de cada fábrica, em cada Província - beneficia
todo o País e todo o Povo. (...) Divulgar em cada fase do
desenvolvimento económico-social do país, com prioridade
para os sectores estatais de produção, empresas industriais
(...) unidades sanitárias e centros de educação. Promover
a mobilização das massas trabalhadoras, dando-lhes o
verdadeiro sentido da importância da vida em comunidade,
educando-os para o trabalho colectivo. Neste contexto,
deverá ser dada particular importância às Aldeias Comunais,
machambas colectivas e cooperativas. (...) A divulgação dos
grandes acontecimentos nacionais e do processo político no
nosso país é também outro aspecto a considerar na produção
dos documentários Kuxa Kanema, sendo exemplo: a Campanha
Nacional de Estruturação do Partido, a Campanha Nacional de
Alfabetização, a Campanha Nacional de Vacinação e outros”.176

176
II Conferência Nacional do Departamento do Trabalho Ideológico, 1978: 88-90.

132

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A Campanha de Preservação e Valorização Cultural que decorreu


entre 1978 e 1982 consistiu na recolha e registo das manifestações
artísticas nacionais, para efeitos de inventariação, preservação e
divulgação. Pode-se afirmar que esta campanha foi uma medida com
vista a fazer jus à recomendação de Samora Machel, segundo a qual,
deveriam ser realizados trabalhos centrados nos “usos e costumes”
do povo moçambicano, de modo a promover e salvaguardar os seus
valores considerados positivos. Esta campanha teria, como alguns dos
seus resultados, a realização de festivais culturais nacionais, iniciados
em 1980, e a criação do Arquivo do Património Cultural (ARPAC),
em 1983, mais tarde, em 2002, transformado em ARPAC – Instituto
de Investigação Sócio-Cultural. Esta instituição visa dar continuidade
ao trabalho de recolha e estudo do património cultural.

Edifício do ARPAC.

133

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Do ponto de vista da promoção da Unidade Nacional, é relevante o facto


de os festivais terem conseguido aglutinar diferentes manifestações
culturais, permitindo uma efectiva troca de experiências entre artistas
ao nível de todo o país. A concepção de festivais desta natureza já
vinha presente no pensamento de Samora Machel desde a Luta
Armada, como se pode perceber no trecho abaixo, proferido em 1970:

- “Consideramos o Primeiro Festival Cultural que o DEC


se propõe a realizar, como uma contribuição preciosa para
a nossa unidade nacional, para o desenvolvimento da nossa
cultura. (...) Que na arte se procure combinar a forma antiga
com o conteúdo novo e depois se origine a forma nova.
Que à dança, à escultura, o canto, tradicionalmente cultivados,
se junte a pintura, a literatura escrita, o teatro, o artesanato
artístico. Que a criação de uns se torne a de todos, homens e
mulheres, jovens e velhos, do Norte e do Sul, para que de todos
nasça a nova cultura revolucionária e moçambicana”.177

O mesmo princípio director esteve na criação da Companhia Nacional


de Canto e Dança (CNCD), outra realização no domínio da cultura no
período pós-independência. Segundo Gabriel Simbine,178 o embrião da
CNCD nasceu, sobretudo, a partir do campo de Tunduru, na Tanzania,
através da realização de actividades culturais. Efectivamente, neste
período, assistiu-se ao conhecimento cada vez maior do mosaico
cultural moçambicano, onde cada grupo etno-linguístico apresentava
as manifestações culturais da sua região de origem. Os intercâmbios
havidos, como destacou Siliya,179 entre outros, contribuíram
para a emergência e consolidação de uma abordagem sobre o
desenvolvimento cultural inclusivo, lançando assim as bases para
uma Unidade Nacional baseada no reconhecimento e promoção das
diversidades étnicas.
Desta forma, após a proclamação da Independência, estas
manifestações seriam congregadas, para dar lugar à CNCD, que
passou a apresentar, nas suas actuações, as diversas práticas culturais
177
Machel, 1975: 37.
178
Ex-Presidente do NESAM, Combatente da Luta Armada de Libertação Nacional, Primeiro Director
da CNCD e ex-Director Geral Adjunto do ARPAC. Entrevista de 08/05/ 2011.
179
Siliya, 1966.

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nacionais. Esta acção contribuiu para a elevação dos valores culturais,


na sua qualidade de instrumentos de mobilização, de participação
social e de unidade nacional.

Ainda neste quadro, destacam-se as “canções revolucionárias”. No


entender de Samora Machel, a canção era um veículo privilegiado
para a transmissão das directrizes de governação. Estas canções
tinham o objectivo de motivar o povo em torno da causa nacional em
vários domínios de desenvolvimento. Um exemplo ilustrativo, são as
canções de Makwaela180 que foram enquadradas neste contexto:

- “Unidos Trabalhadores do Mundo Inteiro


Esmagaremos o capitalismo
Construiremos o mundo novo.
Abaixo o capitalismo
Abaixo o imperialismo
Avante, avante trabalhadores
Avante trabalhadores do mundo inteiro”.181

Efectivamente, a mensagem das canções também espelhava a


esperança e o comprometimento dos moçambicanos na construção
de uma Nação próspera e de igualdade social. Neste aspecto, pode-se
referir a uma canção que Samora Machel entoava com frequência,
nomeadamente:

- “Hi ta xurha, hi ta xurha Moçambique,


Hi ta xurha, hi ta xurha Moçambique,
Hi ta xurha, hi ta xurha Moçambique,
Hi ta xurha, hi ta xurha Moçambique”182.

Esta canção, para além do seu poder mobilizador, incentivava para o


incremento da produção e da produtividade, com vista à eliminação
da pobreza e da fome em Moçambique. De igual modo, estimulava o
desempenho noutras áreas como a educação, saúde, habitação, através
da inclusão destas no verso.

180
Para mais detalhes sobre este processo em relação à Makwaela, vide Soeiro, 1999.
181
Cardoso, 1978: 29.
182
“Teremos fartura, teremos fartura em Moçambique”.

135

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5. 3. Perspectivas de Samora Machel em Relação à Saúde

À semelhança do sistema de educação, a área da saúde, no período


colonial, cumpria a função de reproduzir a desigualdade social. As
poucas unidades sanitárias existentes visavam atender à população
branca e às pessoas que tinham o estatuto de assimilado. Assim, para a
esmagadora maioria da população, praticamente, não havia assistência
médica, o que concorria para o agravamento das condições de vida,
já precárias. Samora Machel caracterizava o sistema de saúde, nos
seguintes termos:

- “No Moçambique dos colonialistas e dos capitalistas só há


hospitais onde há colonos, só há médicos e enfermeiros onde
vivem os que podem pagar. Na cidade de Lourenço Marques há
mais camas de hospital, mais médicos, mais enfermeiros, mais
laboratórios do que em todo o resto de Moçambique”.183

De facto, no período anterior a 1975, os serviços de saúde estavam


confinados aos centros urbanos e a maioria da população não tinha
acesso a cuidados médicos básicos, nas zonas rurais, onde parte das
doenças tropicais tinham um carácter endémico, como é o caso da
malária, bilharziose, varíola, tifo e febre-amarela. De igual modo,
o regime colonial promoveu, sobretudo, uma concepção de saúde
curativa, com fins estritamente lucrativos, em detrimento de uma
abordagem preventiva.184

As políticas públicas para o sector da saúde basearam-se, em certa


medida, na experiência das zonas libertadas. Com efeito, nessa altura,
foram criados os Serviços de Assistência em Saúde para suportar o
esforço da guerra. No entanto, a percepção de Samora Machel não foi
somente resultante deste esforço, mas, igualmente, da sua experiência
como enfermeiro. Esta realidade iria permitir que Machel encarasse a
saúde como uma das áreas prioritárias da sua intervenção, em termos
de políticas de desenvolvimento. A título de exemplo, num dos seus
discursos, destacava:

183
Machel, 1975:51.
184
Martins, 2001:98.

136

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

- “O espírito colectivo obriga-nos a enfrentar cada problema,


cada situação, cada deficiência, como nossa. (...) Uma pequena
ferida desprezível pode abrir a porta ao tétano que destrói o
organismo inteiro. No corpo, a ferida no dedo mais pequeno do
pé, se não é tratada, pode destruir a vida. Porque o problema
não nos afecta completamente, não é menos importante,
porque esse problema faz parte do organismo em que estamos
integrados”.185

No quadro do processo revolucionário, Samora Machel identificou


o papel que o sector de saúde devia desempenhar. O conteúdo
programático da saúde na zona “revolucionária” devia ser
ideologicamente informado, de modo a constituir um mecanismo de
emancipação, através da apresentação de uma perspectiva holística
em torno do Hospital, como atesta o extracto abaixo:

- “Tudo tem um conteúdo em função da zona em que se encontra,


em função da natureza do poder que existe nessa zona. Na zona
capitalista e colonialista a escola, a machamba, a estrada, o
tribunal, a loja, o técnico, as leis, o estudo, tudo serve para
sermos explorados, oprimidos. Na nossa zona, porque o
poder nos pertence, porque são os camponeses, os operários,
as massas laboriosas quem concebe e dirige, tudo se destina
a libertar o homem, a servir o Povo. Assim, se passa com os
hospitais, com o serviço de saúde (...).

Assim, o nosso Hospital é um centro de unidade nacional, um


centro de unidade de classe, um centro de purificação de ideias,
um centro de propaganda revolucionária e organizacional, um
destacamento de combate. (…). A estadia do doente no hospital
deve servir para elevar a sua consciência de unidade nacional,
a sua determinação ao combater, o seu ódio ao inimigo
explorador.
Compreende-se então porque definimos um hospital da
FRELIMO como um destacamento operacional nosso. (...)
Assim, o nosso enfermeiro, o nosso pessoal médico, além
das suas tarefas específicas, são instrutores da nossa vida,
185
Machel, 1975:62.

137

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

professores, comissários e políticos. A acção do nosso pessoal


médico revolucionário não só cura o corpo, como também
liberta e forma o espírito (...) Para o pessoal médico não existem
raças, cores, crenças ou mesmo nacionalidades. Para eles só
existem doentes. Um soldado português ferido ou doente, no
nosso hospital, é tratado como qualquer um de nós. Fazemos
isso porque possuímos uma moral revolucionária.186

Foram, de facto, estes pressupostos que nortearam a política de


saúde após a Independência. Uma das primeiras medidas tomadas
foi a criação do Ministério da Saúde, em 1975. Em seguimento do
processo das nacionalizações, através do Decreto-lei nº 31/75, de 27
de Julho, aprovou-se a interdição de qualquer actividade de Saúde a
título privado e/ou lucrativo.

No mesmo ano, entre os dias 30 de Outubro e 4 de Novembro, teve


lugar o primeiro seminário de saúde, em Quelimane. Neste encontro,
foi lançada a Campanha Nacional de Saneamento do Meio, com o
envolvimento de todas as estruturas de prevenção de doenças. Desde
este período, o Governo de Moçambique baseou a sua política
sanitária na estratégia dos Cuidados de Saúde Primários (CSP), cujo
objectivo era o controlo das principais doenças que afectavam os
cidadãos, através de medidas preventivas, curativas, promotivas e
reabilitativas.187 Neste âmbito, foram lançadas campanhas alargadas
de vacinação, sobretudo para menores de cinco anos.

As Campanhas de Vacinação tinham como objectivo alterar a situação


atrás referida, sendo parte da assistência sanitária gratuita. A primeira
teve lugar em Junho de 1976, e consistiu na administração de vacinas
contra o sarampo, a varíola e a tuberculose. A escolha destas três
vacinas baseava-se, por um lado, no facto de, para cada uma delas,
ser necessária apenas uma inoculação e, por outro, no alto grau de
incidência dessas doenças em todo o país.188 No concernente à
varíola, era a primeira vez que esta era administrada em Moçambique
e, no mesmo ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) esperava
erradicá-la a nível mundial.189
186
Machel, 1975:52-60,
187
Gulube, 1997.
188
Revista Tempo, 20 de Junho de 1976.
189
Tempo, 20 de Junho de 1976.

138

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Em Setembro de 1977, foi aprovada a Lei de Socialização da Medicina,


que garantia o acesso gratuito a vários serviços de saúde, medidas
preventivas e acesso a medicamentos. Na sequência, foi publicado o
I Formulário Nacional de Medicamentos e foi iniciada a formação de
Agentes Polivalentes Elementares (APE’s)190.

Foram, ainda, criadas as empresas estatais MEDIMOC, responsável


pela importação e exportação de medicamentos, e a FARMAC, com
a missão de comercializá-los no mercado interno. Em 1979, uma
segunda campanha nacional de vacinação contra a varíola, tétano e
sarampo, abrangeu cerca da 90% da população, e a taxa de mortalidade
infantil decresceu 20%.191

Entretanto, Martins chama a atenção para o facto de que todas essas


disposições legais constituíam mais a manifestação de princípios e
ideais do que políticas públicas claramente definidas, com planos
e metas precisos.192 Para o autor, este aspecto está relacionado com
o entusiasmo que envolveu todos os moçambicanos nos momentos
imediatamente posteriores à Independência. Porém, a opção pela
socialização dos serviços de saúde tinha implicações que, a princípio,
não estavam a ser consideradas, sobretudo porque poder-se-ia frustrar
a enorme expectativa gerada pelo entusiasmo popular nacionalista. A
extrema pobreza do país193 aliada à precariedade das infra-estruturas,
constituíam grandes obstáculos à implementação de uma política
pública dessa natureza.

No quadro da implementação destas iniciativas, observaram-se


outros constrangimentos, resultantes, por um lado, da complexidade
administrativa e, por outro, das crenças enraizadas nas mentes das
pessoas no que diz respeito às suas percepções sobre saúde e o papel
do Hospital, como lugar de cura. De facto, em certa medida, estas
iniciativas privilegiavam o que se chamou de Medicina Promotiva.
Neste sentido, era necessário mobilizar as pessoas para a defesa da sua
190
Estas pessoas eram seleccionadas pela população, mas não eram trabalhadores da saúde. Recebiam
o treino específico nos Centros de Formação de Saúde para o efeito criados, e viviam normalmente junto
da população e à custa dos seus rendimentos e/ou com o apoio da comunidade que serviam.
191
Newitt, 1997.
192
Martins, 2001.
193
Segundo este autor, o Sector da Saúde tinha sido contemplado pelo Orçamento Geral do Estado de
1974, com US$ 0,50 por habitante por ano.

139

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

própria saúde, como forma de garantir a eficácia deste sistema. Uma


das vantagens desta abordagem, é o maior grau de responsabilidade
que os indivíduos têm para com o seu estado de saúde, podendo
integrar nas estratégias de cura, as biomédicas194 e etnomédicas.

5.4. Visão de Samora Machel sobre Desenvolvimento


Socioeconómico

O sector da economia, com particular incidência na produção e


produtividade dos principais activos, como a agricultura e a indústria,
foi assumido por Samora Machel como sendo o pilar a partir do
qual se ergueria a Nação moçambicana, próspera e baseada na
equidade redistributiva. De facto, para além do sector de serviços, a
agricultura e a indústria eram as áreas em que Moçambique possuía
algum potencial, e onde se encontrava empregue a maior parte da sua
mão-de-obra. Assim, foi assumido o compromisso de incrementar a
produção de bens alimentares e a industrialização do país, através da
implementação de novos modelos de produção.

Tal como para as outras áreas de intervenção governamental, a


experiência das zonas libertadas serviu de base para o desenho das
estratégias relacionadas com este sector. Para este caso, o conceito-
chave era o da sustentabilidade na gestão dos recursos, isto é, a
ideia de que o país deveria privilegiar os seus próprios esforços e o
produto do seu trabalho para se desenvolver. Foi precisamente este
princípio que seria posto em funcionamento após a proclamação da
Independência Nacional.

No entanto, o quadro económico e de produção de riqueza encontrado


pela FRELIMO estava profundamente marcado pelo seu passado
colonial, e pelo contexto internacional dominado pela Guerra Fria.
Desta maneira, uma das primeiras medidas foi a ruptura com o legado
colonial, caracterizado pela exploração de mão-de-obra barata,
trabalho forçado e produção de matérias-primas básicas voltada para
a exportação.
194
Martins, 2001: 97.

140

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

A nacionalização dos activos de produção foi o prenúncio de


um conjunto de medidas que culminariam na centralização dos
mecanismos de gestão e administração da economia e dos factores
de produção. Assim, destacaram-se medidas como a intervenção
estatal nas empresas e fábricas, a criação das machambas estatais,
o controlo dos preços e circulação dos produtos no mercado, assim
como a socialização do campo, através da instituição de mecanismos
de produção colectivos e de Aldeias Comunais.

Estas estratégias teriam como um dos seus marcos impulsionadores,


o III Congresso, realizado em 1977. Ao nível da política económica,
as iniciativas que vinham sendo desenhadas e implementadas
encontraram no Plano Prospectivo Indicativo (PPI), aprovado em
1981, a sua formulação mais consequente. De facto, tratava-se de um
programa com cunho revolucionário, e que pretendia acabar com o
subdesenvolvimento e a pobreza em Moçambique, num período não
superior a dez anos. Neste plano, a agricultura e a indústria eram
assumidas como os seus pilares.

Este programa, que era a sistematização das directrizes que iriam


nortear a chamada “Década da Vitória Contra o Sub-desenvolvimento”,
tinha em vista, igualmente, ultrapassar os obstáculos herdados da era
colonial, como sejam, a baixa capacidade dos activos económicos, e
os novos desafios que eram colocados pelo crescente agravamento
da instabilidade no país. Assim, esta iniciativa procurava garantir o
incremento da produção e da produtividade, permitindo dotar o país
de uma capacidade produtiva para abastecer o mercado interno e
externo, e assim, melhorar as condições de vida das populações.

Com base nestes pressupostos, tinha sido lançada a transformação


da estrutura económica agrária do país. A partir do IV Congresso da
FRELIMO, realizado em 1983, foi adoptada oficialmente a estratégia
de colectivização do campo, que assentava, por um lado, no sector
empresarial estatal, assumido como a forma de produção dominante
e, por outro, cooperativo,195 em torno do qual estariam congregadas
as comunidades rurais. O objectivo imediato era satisfazer as
necessidades alimentares e garantir a segurança alimentar.
195
Castel-Branco,1994

141

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

A colectivização da produção era uma experiência observada na


Tanzania, o ujamaa, e que tinha sido testada nas zonas libertadas.
No que concerne, especificamente, às Aldeias Comunais, estas foram
recebidas pelas comunidades moçambicanas de maneira ambivalente.
Em alguns universos, observou-se uma adesão bastante significativa
a esta iniciativa, pois, havia expectativa em relação à melhoria da
qualidade de vida: acesso à energia eléctrica, água canalizada, serviços
sociais básicos, como escolas, unidades sanitárias, rede comercial e
rede viária.

No entanto, em outros locais, a sua implementação mostrou-se


inadequada. Por um lado, na sua dimensão económica, este se revelou
como um instrumento de controlo e de modernização social susceptível
de abranger uma grande maioria da população rural, sem, no entanto,
se observarem grandes investimentos. Por outro lado, o modelo das
Aldeias Comunais entrava em choque com aspectos fundamentais
da organização social de diversas comunidades, junto das quais era
aplicado. As questões controversas relacionavam-se com a ligação
espiritual e afectiva com a terra e as suas implicações políticas a nível
local196, especificamente com as lideranças tradicionais. Em alguns
casos, estas viam a sua autoridade reduzida como resultado da perda
total ou parcial dos seus súbditos.

Durante o período compreendido entre 1975 e 1981, conseguiu-se


deter a queda dos níveis de produção, tanto na agricultura como na
indústria, e obter um aumento de produção que, em 1981, atingiu,
para a maior parte dos bens de consumo interno e de produtos
para exportação, os níveis mais altos após a independência.197 Por
exemplo, a exportação aumentou 83%, entre 1977 e 1981. Este
sucesso era explicado, principalmente, pela euforia provocada pela
Independência, que serviu como base fértil para a mobilização política
da população, através de campanhas de trabalho voluntário. Eneas
Comiche reconheceu este desempenho, tendo destacado:

- “Com um esforço que se realizou a partir de 1977, já se


começava a inverter a tendência de decréscimo da economia,
de tal maneira que o Produto Interno Bruto (PIB) atingiu 2.8%
196
Adam, 2001: 35.
197
Castel-Branco, 1994.

142

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por ano, no período de 1977-1981. Nesse período havia um


grande entusiasmo, em que as pessoas não trabalhavam por
dinheiro, trabalhavam por amor à causa, estavam engajadas
e motivadas.
Nessa altura, os trabalhadores estavam enquadrados em
estruturas organizativas, nomeadamente, Conselhos de
Produção, Conselhos de Controlo de Produtividade, Conselhos
de Unidades de Produção, de tal forma que havia um controlo
e conhecimento do plano por parte de todos trabalhadores
e gestores. Existiam também projectos estratégicos para a
economia nacional, como o de Lioma, Angónia, do Vale do
Zambeze, etc”.198

Eneas Comiche.

De 1981 a 1983, o decréscimo das receitas e exportações atingiu


um ponto crítico, observando-se um aumento astronómico das
importações e da necessidade de financiamento internacional. Neste
período, os efeitos da guerra de desestabilização já estavam a fazer-
se sentir em todo o país, bloqueando, os esforços de aumento da
produção e produtividade e de recuperação económica. Deste modo,
Comiche recordou que, estando o país numa situação de guerra, teve
que se optar por uma “economia de guerra”. Em 1983, foi feito um
198
Comiche, Eneas. “A Questão Económica”. In: Notícias: Edição Espacial. 2000.

143

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balanço da situação económica e o IV Congresso da FRELIMO fez


uma reavaliação da estratégia económica a ser seguida. Foi então que
se iniciaram as negociações com as instituições de Bretton Woods, em
1984. Para obter esse financiamento, Moçambique devia implementar
um Programa de Reabilitação Económica (PRE)199, sendo a partir daí
estabelecido o programa de reajustamento estrutural, cujo conteúdo
viria a ser apresentado em Janeiro de 1987, e implementado até
1990.200 Neste contexto, torna-se claro que a economia de mercado
em Moçambique foi introduzida por Samora Machel.

5.5. Samora Machel e a Organização da Mulher


Moçambicana

Desde a sua criação, a FRELIMO considerou que a mulher


moçambicana tinha um espaço na Luta de Libertação Nacional.
Assim, na Declaração Geral do I Congresso, ela proclamou “a união
de todos os moçambicanos sem qualquer discriminação (…) para a
conquista da independência nacional”. Na sua sessão de Outubro de
1966, o Comité Central determinou que fossem “feitos os esforços
necessários para que todos os órgãos de diferentes escalões da
FRELIMO tivessem na sua composição mulheres”.201

As raízes da OMM remontam ao período da Luta Armada. Os


primeiros passos tendentes ao enquadramento da mulher foram a
criação da Liga Feminina de Moçambique (LIFEMO), em Junho de
1966, em Mbea, na Tanzania. Posteriormente, com o desenvolvimento
da luta e as constatações da importância da mulher neste processo,
199
O PRE tinha como objectivo principal, recuperar os índices de produção de 1981, e corrigir os erros
do PPI, que eram apontados como sendo a má gestão macroeconómica, a distorção da estrutura dos
preços relativos em desfavor da agricultura e das exportações e o desincentivo à operação do sector
privado nacional e estrangeiro.
200
Importa destacar que o FMI e o Banco Mundial tinham abordagens diferentes a respeito da
recuperação das economias em crise. Enquanto o Banco Mundial se oferecia para apoiar os países que
se comprometessem a efectuar mudanças estruturais de longo prazo, que conduzissem ao crescimento,
a sua política é conhecida como reajustamento estrutural, o FMI se centrava no controle da inflação,
através do aumento das exportações, redução do consumo interno e do poder de compra, pondo deste
modo, a sua ênfase em medidas de curto prazo, e, por isso mesmo, a sua política é conhecida como de
estabilização. Vide: Hanlon, 1997.
201
Matusse e Malique, 2008

144

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houve necessidade de dotá-la de formação para a defesa da pátria.


Deste modo, o dia 4 de Março de 1967 marca o início da criação do
Destacamento Feminino (DF), onde, pela primeira vez, 25 mulheres
foram mobilizadas e integradas na preparação político-militar,
em Nachingwea, para a sua formação em missões combativas.
Este processo culminou com a criação da Organização da Mulher
Moçambicana (OMM), a 16 de Março de 1973.

Os preparativos para a implementação da decisão do Comité Central,


de criar uma organização da Mulher Moçambicana, tiveram início a 4
de Janeiro de 1973, sob a coordenação de Armando Emílio Guebuza,
então Comissário Político Nacional, através da convocatória para uma
reunião que teve lugar no Centro Educacional de Tunduru. De acordo
com a convocatória, até 15 de Fevereiro, todos os delegados provinciais
deveriam chegar a Tunduru para reflectirem sobre a materialização da
decisão do Comité Central em criar a OMM e procederem à análise dos
problemas que se levantavam e influíam no processo de emancipação
da mulher.202 Sob o lema “A libertação da mulher é uma necessidade
da revolução, garantia da sua continuidade, condição do seu triunfo”,
a Conferência foi presidida pelo Presidente Samora Moisés Machel
que aprovou os seus Estatutos e elegeu Deolinda Guezimane para
Secretária-Geral. Esta agremiação foi definida como uma organização
de base da FRELIMO e devia seguir as suas directrizes políticas. A
sua função principal era trabalhar pela emancipação feminina, através
do envolvimento das mulheres nas tarefas da Revolução.

202
Idem, p. 173-174

145

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5.6. Samora Machel e a Organização Continuadores de


Moçambique

“As crianças são flores que nunca murcham”

Durante a Luta de Libertação Nacional, Samora Machel preocupou-


se com o amparo de crianças e adolescentes nas Zonas Libertadas,
através da integração social de órfãos em algumas famílias, da criação
de condições para a sua educação, entre outras, considerando que estas
eram o futuro de Moçambique. De facto, dentre as várias estruturas
administrativas instaladas nas Zonas Libertadas, pontificava o
Departamento de Assuntos Sociais, chefiado por Josina Machel, que
tinha dentre várias tarefas, prestar assistência a crianças.

Para um melhor atendimento às crianças, estas foram organizadas


num núcleo, mais tarde, denominado Continuadores, como referiu
Ivone Mahumana203, nos seguintes termos:

- “Os Continuadores surgem durante a Luta Armada, como


uma preocupação da FRELIMO, com o objectivo de albergar e
cuidar das crianças órfãs, cujos progenitores eram vítimas da
guerra e não só. Este posicionamento assentava no pressuposto
de que elas eram a semente da Nação moçambicana, o que
estava patente na designação que tomariam: Continuadores
da Revolução Moçambicana (CRM)”.204

A preocupação com as crianças continuou saliente após a


Independência Nacional. Foi neste contexto que se abriu espaço para
que algumas pessoas que já trabalhavam com crianças dinamizassem
as suas actividades, através da criação de grupos infantis que se
dedicavam à educação da criança. Ivone Mahumana, que sempre fora
apaixonada pela educação, sobretudo da criança, cria no ano de 1979
o Núcleo Infantil Escolinha Vamos Brincar, no Bairro do Aeroporto,
em Maputo.
203
Secretária Geral da Organização entre 27 de Outubro de 1985 e 17 de Maio de 2002.
204
Ivone Mahumana, entrevista 22/09/ 2011. Changalane.

146

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Os trabalhos deste Núcleo atraíram as atenções do Governo de


Samora Machel, o que conduziu à criação, em 1984, da Comissão
Nacional Preparatória da Criação da Organização Continuadores
da Revolução Moçambicana (OCRM), como referiu Mahumana:

- “Os trabalhos que lá fazíamos influenciaram muito o


Ministério da Educação e Cultura, dirigido por Graça
Machel (…). É por esta altura que Samora Machel ouviu falar
do nosso grupo e, em 1984, foi criada a Comissão Nacional
Preparatória da Criação da Organização Continuadores da
Revolução Moçambicana (OCRM)...”205

Esta Comissão era composta por pessoas de várias organizações


sociais, nomeadamente, Organização da Mulher Moçambicana
(OMM), Organização da Juventude Moçambicana (OJM), Ministério
da Educação e Cultura (MEC), Ministério da Saúde, Confissões
Religiosas, Ministério da Agricultura, entre outras. A 25 de Outubro
de 1985, foi criada, por Samora Moisés Machel, “A Continuadores”,
uma organização que passou a enquadrar crianças dos 6 aos 16 anos
de idade. Elas constituem o viveiro do país, daí a adopção de acções
visando a sua formação patriótica e educacional, incutindo-lhes, desde
cedo, um sentimento humanista, construindo-se uma personalidade
baseada nos valores nobres da moçambicanidade.

A 27 de Outubro do mesmo ano, a direcção do Partido FRELIMO


nomeou os dirigentes da Organização, sendo Graça Machel a
Presidente; Ivone Mahumana, Secretária Geral e Teresa de Carvalho
Ferreira, Secretária Geral-Adjunta.

A função principal da Continuadores era a de identificar as habilidades


das crianças, através de uma observação permanente e participante,
de modo a capitalizá-las, orientando-as para a vida adulta. Esta era,
de facto, a visão que Samora Machel tinha para o enquadramento e
projecção da criança, numa época caracterizada pelo definhamento
do tecido social no país. Perseguindo princípios como “Formar o
205
Idem

147

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

homem novo dando a partir da criança aquilo que ela quer” e “motivar
para que a unidade nacional seja uma realidade através da escola”,
a Continuadores teve várias realizações, entre as quais, formação
de monitores, criação de redes de apoio, convívios e a adesão a
dispositivos internacionais. São exemplos deste último aspecto, o
facto de Moçambique ter sido um dos primeiros países na África
Austral, a aderir, em 1984, à Declaração dos Direitos da Criança.206

Ao defender o postulado de que “as crianças são flores que nunca


murcham”, Samora Machel demonstrou o seu olhar visionário, quanto
a importância de se investir em crianças de tenra idade. Actualmente,
volvidos pouco mais de duas décadas da criação desta Organização,
dela brotou uma série de profissionais e dirigentes, entre eles médicos,
professores, engenheiros, empresários e políticos.

Samora Machel com um grupo da Continuadores, numa sessão


da Assembleia Popular.

206
Ivone Mahumana, entrevista 22/09/ 2011. Changalane.

148

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

6. Samora Machel no Contexto da Luta


Diplomática da FRELIMO

6.1. Os Primeiros Contactos Diplomáticos da FRELIMO


e o Lançamento da Insurreição Geral Armada

“É pela diplomacia, pela discussão, pelo


diálogo que deverão ser resolvidos os
problemas que afectam a humanidade…”.

(Samora Machel)

Os movimentos nacionalistas que enveredaram pela luta armada para


a libertação dos seus territórios contaram, na sua generalidade, com
o apoio de alguns países independentes, para a fixação de escritórios
ou retaguardas políticas e militares, e de corredores diplomáticos aos
diversos níveis. Refira-se que, em termos conceptuais, para alguns
teóricos, diplomacia é a arte e a prática de conduzir as relações
exteriores ou negócios estrangeiros de um determinado Estado,
empreendida, normalmente por diplomatas de carreira, envolvendo
assuntos de paz, comércio exterior, promoção cultural207, entre outros.

Sem se pretender aprofundar o debate sobre este conceito do ponto


de vista académico, considera-se que os dirigentes da FRELIMO,
entre eles, Eduardo Mondlane e Samora Machel tiveram actuações
diplomáticas, as quais se enquadram, em certa medida, nesta definição.
Fazendo jus ao postulado, segundo o qual “é pela diplomacia, pela
discussão, pelo diálogo que deverão ser resolvidos os problemas que
afectam a humanidade”, Samora Machel, particularmente após a
proclamação da Independência Nacional, enveredou por aquilo que
207
http://pt.wikipedia.org/wiki/Diplomacia.

149

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

actualmente se convencionou chamar “Diplomacia Preventiva”. Esta


corrente encontra suporte no pressuposto defendido pela FRELIMO,
que preconiza que é preciso criar “mais amigos e menos inimigos”.

A diplomacia desempenhou um papel crucial desde a altura em


que os movimentos começaram a tomar contornos políticos mais
consequentes. Efectivamente, os movimentos que viriam a resultar
na formação da FRELIMO desenvolviam as suas actividades, grosso
modo, nos países vizinhos, onde contavam com o apoio de outras
associações nacionalistas.

No que concerne à FRELIMO, esta Frente foi criada em Dar-Es-


Salaam, em 1962, como resultado de acções diplomáticas. Aliás, foi
a partir dos corredores diplomáticos das Nações Unidas, que Eduardo
Mondlane e Julius Nyerere estabeleceram contactos visando, por um
lado, a criação da FRELIMO e, por outro, a fixação da sua sede na
Tanzania e, sobretudo, o uso das suas bases para as futuras Forças de
Libertação de Moçambique.

Nesta altura, Nyerere terá exercido uma influência significativa em


Mondlane, ao motivá-lo a abandonar o seu trabalho nas Nações
Unidas e na Universidade de Siracusa, para se dedicar à libertação do
seu povo da dominação estrangeira.

No seu I Congresso, em 1962, a FRELIMO definiu a campanha


diplomática como uma forma de luta e de pressão contra a
administração colonial portuguesa. Em face desta opção, sob a
liderança de Mondlane, iniciou-se uma intensa campanha diplomática
no seio das Nações Unidas. Igualmente, a Frente encetou contactos
com os povos de África, Europa, América Latina e da Ásia, bem como
com diversas organizações e forças progressistas amantes da paz.

Simultaneamente, a FRELIMO encetou contactos com o senador norte-


americano Robert Kennedy, que foi solicitado para interceder junto
de Portugal no sentido de conceder a independência, pacificamente,
a Moçambique. Portugal recusou esta proposta. Apesar disso, a
FRELIMO passou a contar com o apoio de organizações americanas,

150

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entre religiosas e filantrópicas. Uma delas foi a Fundação Ford,208


que viria a contribuír significativamente para o funcionamento do
Instituto Moçambicano. Ao nível das Nações Unidas, foi possível, em
1963, o debate sobre a descolonização dos “territórios ultramarinos”
de Portugal.

Esta luta contribuiu para que a FRELIMO passasse a ter legitimidade


e reconhecimento internacional como um movimento que se
empenhava pela libertação do seu povo do jugo colonial. Na sequência
destes contactos, conseguiu-se angariar apoio importante para a Luta
Armada, como equipamento militar, medicamentos e material escolar.

Depois da morte de John Kennedy, em 1963, Mondlane estabeleceu


um novo eixo estratégico de apoio a Luta Armada, tendo se orientado
para outros cantos do Mundo. Nesta altura, vivia-se o auge da “Guerra
Fria” e, procurando gerir esta situação, colocou-se numa espécie de
Não-Alinhamento, aliás, um posicionamento tomado, igualmente,
por Agostinho Neto, líder do Movimento Popular para a Libertação
de Angola (MPLA).

A 25 de Maio de 1963, foi criada a Organização da Unidade Africana


(OUA), em Adis-Abeba, na Etiópia. A nova organização continental
vincou a necessidade da abolição da colonização dos povos africanos
e, consequentemente, o direito à independência dos seus territórios.
Uma das medidas tomadas por esta organização foi a criação do
Comité de Coordenação para a Libertação de África, com sede em
Dar-Es-Salaam. Encarregou-se a este Comité a responsabilidade de
coordenar os recursos materiais e humanos dos países africanos já
independentes e pô-los à disposição dos movimentos de libertação
dos países que ainda se encontravam sob domínio colonial.

De facto, Eduardo Mondlane, acompanhado por alguns quadros da


FRELIMO, realizou uma campanha com vista a angariar ajuda de
várias instituições e Estados mundiais. Visitou a Escandinávia, a
208
A Fundação Ford é uma instituição filantrópica americana, criada em 1936 por Henry Ford e seu
filho Edsel. Os cinco pontos fundamentais da estratégia da fundação ainda se mantêm, nomeadamente,
a criação e desenvolvimento de outras instituições; a geração e disseminação de conhecimento e
informação; o desenvolvimento de talentos individuais; o estimulo da ajuda de outras fontes, e contribuir
de forma independente para a Diplomacia Pública.

151

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

China, a ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS),


Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia, Suíça, Alemanha Federal,
Holanda, Grã-Bretanha e países do norte de África, entre eles, Argélia,
Tunísia e Egipto.209

A par da colaboração da Argélia, que treinou os três primeiros


efectivos de guerrilheiros da FRELIMO, a China iria receber um
grupo de moçambicanos, na Academia de Naquim. Parte deste grupo
já possuía conhecimentos de guerrilha, tratando-se, neste caso, de
uma especialização. Nos períodos subsequentes, o Egipto recebeu
outro grupo, para formação em matéria de segurança e Israel, em
1964, em enfermagem militar. Do mesmo modo, a FRELIMO contava
com o apoio da Jugoslávia e da ex-URSS em equipamento bélico e
materiais não letais. Como resultado da sua diplomacia, foram criadas
as condições para o desencadeamento da Insurreição Geral Armada
contra o regime colonial, a 25 de Setembro de 1964.

Presidente Eduardo Mondlane e a sua esposa Janet Mondlane à chegada a


Uppsala, Suécia, 1964.
209
Para mais detalhes, vide: Jesus, 2010.

152

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6.2. A Política Diplomática de Samora Machel Durante


a Luta de Libertação Nacional

Dando continuidade à acção diplomática de Eduardo Mondlane,


Samora Machel empenhou-se em consolidar as relações de
solidariedade com os movimentos independentistas da região, como o
ANC, a ZANU, a ZAPU e a SWAPO. Aliás, desde o seu I Congresso,
a FRELIMO definiu a solidariedade com os povos e os movimentos
“progressistas” de luta pela autodeterminação como uma das suas
prioridades. A colaboração com estes movimentos era justificada,
entre outros aspectos, pelo facto de possuírem uma causa semelhante,
que era a independência dos povos e por razões geo-estratégicas,
consubstanciadas na partilha de fronteiras comuns. Nessa altura, já
se assumia a premissa segundo a qual a libertação da região passava,
necessariamente, pela libertação de cada um dos países.

Uma das primeiras acções diplomáticas de Samora Machel, como


Presidente da FRELIMO, foi a abertura em relação ao Vaticano. Tratou-
se, essencialmente, de uma acção conjunta dos três movimentos de
libertação das então colónias portuguesas em África, nomeadamente,
a FRELIMO, o MPLA e o PAIGC. Os seus representantes foram
recebidos pelo Papa, a 1 de Julho de 1970.210

Esta visita ao Vaticano pode ser analisada em duas dimensões.


Num primeiro aspecto, a recepção da FRELIMO pelo Papa Paulo
VI significava, pelo menos implicitamente, que o Vaticano apoiava
a causa do povo moçambicano e o seu direito à auto-determinação.
Num segundo sentido, sendo esta uma autoridade que tinha apoiado
o regime colonial nos seus esforços de colonização e subjugação
de outros povos, esta acção mostrava um certo distanciamento do
Vaticano em relação aos seus anteriores aliados.
Samora Machel, em função do seu pragmatismo, apercebeu-se que
este encontro teria, a curto e médio prazos, repercussões salutares
para a FRELIMO, apesar do seu posicionamento, na altura, hostil em
relação à Igreja Católica, devido às mencionadas mágoas de infância
e, ainda, às ligações que esta tinha estabelecido com o regime colonial.
A este respeito, Iain Christie sustenta o seguinte:
210
Christie, 1996.

153

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- “Embora Samora não tivesse boa impressão sobre a Igreja


Católica, por um lado, resultante das suas experiências de
infância e, por outro lado, resultante da permanente ajuda
do Vaticano ao colonialismo português, ele não queria uma
confrontação directa, pois a Igreja Católica já tinha uma
influência considerável no país, daí o seu apoio à ideia de
Marcelino dos Santos de se encontrar com o Papa. (…). Esta
acção fazia parte de uma política estratégica, da diplomacia
da FRELIMO, bem arquitectada desde o período de Mondlane
até ao de Samora Machel. Esta política era designada por
Samora de ‘política de fazer mais amigos e menos inimigos’,
que visava reduzir a ajuda internacional ao inimigo”.211

A receptividade do Vaticano constituiu uma vitória para a FRELIMO.


Efectivamente, durante as conversas, o Papa assegurou que a Igreja
Católica apoiava a luta pela justiça, liberdade e independências
nacionais. Outro elemento digno de realce deste encontro foi o
facto de ter servido de encorajamento aos missionários católicos
que se sentiam perturbados com a injustiça e a brutalidade do
regime colonial, sem, contudo, poderem se pronunciar ou agir
publicamente. Consequentemente, alguns padres brancos retiraram-
se de Moçambique como forma de repúdio aos métodos de guerra e
de repressão do Estado colonial.

Face a este posicionamento do Vaticano, surgiram duas situações que


merecem atenção. Por um lado, agudizaram-se as inquietações no seio
de alguns conservadores dentro da comunidade portuguesa, tendo-se
sentido profundamente chocados. Este sentimento acabou resultando
no esfriamento das relações entre o regime colonial português
e o Vaticano. Por outro lado, alguns países, como os Nórdicos,
compreenderam a justeza da luta e apoiaram a FRELIMO. As ajudas
resultantes foram, sobretudo de material não letal. Sebastião Dengo,
debruçando-se sobre os esforços diplomáticos da FRELIMO, em
geral, e de Samora Machel, em particular, referiu o seguinte:

211
Obra citada

154

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- “Durante esta fase da luta pela independência, houve


países que entenderam a causa da luta. Os países nórdicos,
por exemplo, compreenderam a sua justeza e nos apoiaram.
Porque alguns não podiam fornecer material bélico, então
providenciavam outros bens, como medicamentos”.212

A primeira viagem de Samora Machel ao Leste europeu ocorreu em


1971. Nessa digressão, visitou Estados como a Roménia, República
Federal da Alemanha (RFA) e a ex-URSS. Das negociações havidas,
a FRELIMO considerou ter alcançado resultados substanciais, pois,
aquelas contribuiram para o reforço do apoio daqueles países ao
movimento.

Refira-se que, a nível do bloco socialista, a FRELIMO sempre se


esforçou em ultrapassar as divergências que opunham a China e a
ex-URSS. Chamando para si a herança diplomática de Mondlane,
Samora Machel enveredou pelo não-alinhamento, tendo como farol a
libertação do seu povo do jugo colonial. Neste sentido, Machel agiu
diferentemente do que acontecia com certos países, que exploravam
as clivagens entre os blocos ideológicos antagónicos em função das
alianças com cada um deles. Diga-se de relance que a China procurava
colaborar somente com os movimentos que eram seus seguidores
político-ideológicos e, sobretudo, que não fossem pró-soviéticos.
Nestas situações, os líderes da FRELIMO pautavam por não se
envolver em diatribes ideológicas, mantendo um distanciamento
respeitável, e, simultaneamente, gozando da simpatia de todas as
partes. Sobre este posicionamento, diplomaticamente estratégico,
Joaquim Chissano referiu o seguinte:

- “A FRELIMO evitou envolver-se desnecessariamente


em conflitos ideológicos e, por conseguinte, respeitou a
independência de cada povo. Facto interessante e como
corolário da observância dos nossos princípios é que a
FRELIMO não tomou nenhum partido no conflito ideológico
que colocava em oposição a União das Repúblicas Socialistas
e Soviéticas (URSS) comummente chamada apenas de
União Soviética, por um lado, e a República Popular da
China, por outro. Nós, dirigentes da FRELIMO, observamos
212
Sebastião Dengo, entrevista de 25/05/2011. Cidade de Inhambane.

155

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equidistância e cooperamos com os dois. Agimos de tal forma


que foi possível manter o apoio de ambos países até depois da
proclamação da Independência Nacional.213

Joaquim Alberto Chissano.

Neste quadro, Samora Machel214 efectuou, em 1971, uma digressão


pelo Extremo Oriente, tendo visitado a China, a Coreia do Norte
e o Vietname, acompanhado por Sebastião Mabote, Pedro Juma,
Tomé Eduardo, Alberto Sande e Sérgio Vieira. Nestes territórios, a
FRELIMO obteve ajuda diversa. No entanto, sabe-se que a China
exigiu o conhecimento da realidade da luta em Moçambique, condição
para o apoio à FRELIMO. Na sequência, um grupo de jornalistas
chineses visitou as zonas libertadas, tendo constatado os avanços
da luta de libertação. A partir desta verificação in loco, a FRELIMO
conseguiu consolidar as suas relações com a China, o que resultou em
ajuda sob várias formas.
213
isri:opiniao de joaquim chissano sobre diplomacia. acessado em 18/04/2011.
214
De acordo com Raimundo Pachinuapa, o primeiro contacto de Samora Machel com as autoridades
chinesas ocorreu em 1968, aquando de uma visita que este realizou àquele país, na companhia de outros
cinco combatentes, dentre eles, Raimundo Pachinuapa, Cândido Mondlane e Oswaldo Tazama.

156

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Como se referiu anteriormente, a solidariedade com os movimentos


independentistas foi assumida como uma prioridade pela FRELIMO.
As relações foram mais notórias com o ANC, a ZANU e a ZAPU.
No que se refere ao ANC, destaca-se a integração de seus militantes
(cerca de seis) no contingente que seguiu para Argélia para a
realização de treinos militares, sob a direcção de Samora Moisés
Machel. Outro exemplo dos laços fraternos e salutares estabelecidos
entre a FRELIMO e o ANC, foi o uso de Kassuende por este último
como base de apoio, com o objectivo de se lançar uma ofensiva
militar em território sul-africano. A este respeito, José Moiane, que
foi comandante em Tete, durante a Luta de Libertação Nacional,
pronunciou-se do seguinte modo:
- “Os elementos do ANC estiveram na base Kassuende a
explorar as possibilidades de lançamento de uma intervenção
militar a partir do nosso território. Nesse sentido, Kassuende
iria funcionar como um centro de abastecimento em
material bélico e equipamento diverso. De forma específica,
permaneceram cerca de quatro meses, enquanto estudavam
as entradas para a RSA através de Tete”.215
Entretanto, dado o elevado nível do poderio militar do regime do
apartheid, na altura, aspecto associado ao facto de, no Zimbabwe,
ainda prevalecer, igualmente, um regime minoritário, aliado à África
do Sul, considerou-se inviável a infiltração de guerrilheiros do
ANC. Desse modo, os esforços foram orientados, sobretudo, para a
libertação do Zimbabwe, país que serviria, depois, de corredor para
os guerrilheiros do ANC, uma estratégia que visava a conjugação
de sinergias entre este movimento, a FRELIMO e os movimentos
independentistas zimbabweanos. Neste quadro geo-estratégico, a
FRELIMO criou facilidades para o desencadeamento de acções
militares a partir do território moçambicano. Sobre esta matéria, José
Moiane referiu:
- “As acções militares contra o regime do apartheid assim como
os levantamentos populares eram barbaramente reprimidos,
como ilustram os reveses sofridos pelo ANC na batalha de
Wank, o que exigiria um elevado esforço militar para fazer
frente ao regime. Por isso, entendeu-se que havia dificuldades
para o lançamento dessa ofensiva e, eventualmente, reduzidas
probabilidades de êxito.
215
José Moaine, entrevista de 2008. Maputo.

157

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Assim, concluímos que a independência do Zimbabwe, um


terreno relativamente mais fácil, seria muito importante para
o desenvolvimento da luta do ANC, partindo de Moçambique.
Esta é a razão por que na última reunião que tivemos com
eles, nós informámos que não estávamos a ver a possibilidade
de iniciar a luta na RSA a partir de Tete, porque tinham que
passar do Zimbabwe. Nessa altura o Zimbabwe ainda não
estava independente e sofreriam sacrifícios desnecessários.
Foi assim que os elementos do ANC interromperam as
suas iniciativas e os esforços foram canalizados para os
movimentos do Zimbabwe”.216

De facto, em finais de 1970, Marcelino dos Santos, à frente de um


contingente de guerrilheiros da FRELIMO, escoltou militantes
zimbabweanos, pertencentes ao Zimbabwe People’s Revolutionary
Army (ZIPRA), com vista ao inicio da sua luta. No entanto, Joshua
Nkomo, dirigente da ZAPU, rejeitou o apoio. Provavelmente, a atitude
de Nkomo pode ser explicada, por um lado, pelos problemas internos
que grassavam o país na altura e, por outro lado, pelo facto de a ZAPU
possuir pouco apoio na região fronteiriça do Zimbabwe, junto a Tete.217
Em face desta situação, a FRELIMO estendeu a sua solidariedade à
ZANU, outro movimento nacionalista zimbabweano. Neste contexto,
ainda na década de 1970, a ZANU, através da Zimbabwe African
National Liberation Army (ZANLA), iniciou ofensivas militares,
fazendo um excelente aproveitamento da fronteira comum.

Em Agosto de 1972, Samora Machel deslocou-se a Lusaka onde


se encontrou com o Presidente Keneth Kaunda. Na reunião havida
entre os dois dirigentes, Samora Machel destacou que a ZANU era
um movimento que merecia mais credibilidade e, portanto, não devia
ser marginalizado.218 Esta campanha diplomática de Samora Machel
integraria também o chefe de Estado da Tanzania. O objectivo de
Samora era garantir um maior reconhecimento para este movimento
ao nível dos Estados da região, de modo a canalizarem apoios
nos mais diversos aspectos. O apoio fornecido pela FRELIMO a
216
José Moaine, entrevista de Maio de 2009. Cidade de Maputo.
217
Christie, 1996.
218
Christie, 1996.

158

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estes movimentos seria incrementado, significativamente, após a


independência de Moçambique, manifestamente, através da afectação
de contingentes militares e aderência às sanções económicas decretadas
pelas Nações Unidas contra o regime minoritário da Rodésia do Sul,
chefiado por Ian Smith.

6.3. A Política Diplomática de Samora Machel após a


Proclamação da Independência Nacional

Desde a proclamação da Independência Nacional, a política


diplomática de Moçambique foi influenciada, por um lado, pela
conjuntura interna e, por outro, pelo cenário regional e internacional.
No aspecto interno, destaca-se a necessidade da democratização da
sociedade através da massificação dos serviços de educação, saúde,
habitação, acesso à terra, entre outros, assente numa perspectiva de
governação centralizada e de socialização do campo.

No aspecto externo, foi condicionada por alguns posicionamentos


assumidos durante a Luta de Libertação Nacional, como a solidariedade
com os movimentos anti-colonialistas e anti-imperialistas e sua
orientação revolucionária, que o conotava com o bloco socialista, no
contexto da Guerra Fria. De igual modo, Moçambique continuou a
apoiar os movimentos de libertação da região, particularmente, o ANC
e a ZANU, integrando assim, a luta contra o regime do apartheid e de
Ian Smith, com os quais Malawi mantinha uma relação privilegiada.
Desta maneira, Moçambique continuou a advogar a “neutralidade
positiva” ou o não-alinhamento, uma estratégia da diplomacia
preventiva.

Joaquim Chissano, debruçando-se em torno da política externa


de Moçambique, apontou a conjuntura regional como tendo sido
determinante para as opções tomadas, descrevendo o seguinte cenário:

- “A nível regional estávamos rodeados por regimes de


segregação racial na Rodésia do Sul e África do Sul, dispostos
a comprometer a nossa conquista. Cedo fomos chamados a

159

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aderir aos movimentos diplomáticos internacionais para o


isolamento do regime minoritário da Rodésia, na sequência
da proclamação unilateral da Independência daquela
colónia britânica por Ian Smith em benefício unicamente dos
Rodesianos de raça branca e completa exclusão e desrespeito
dos negros”.219

Os posicionamentos assumidos por Moçambique foram confrontados


com uma resposta agressiva do regime de Ian Smith e do apartheid.
De facto, como reacção ao apoio dado à ZAPU, o regime de Ian Smith,
através dos seus serviços secretos, iniciou, em 1976, o recrutamento
de dissidentes moçambicanos, que viriam a constituir o Mozambique
National Resistance (MNR), mais tarde conhecida por RENAMO.
No mesmo período, criou uma estação radiofónica denominada “Voz
da África Livre”220, que transmitia mensagens contra o Governo de
Moçambique.221

Com o auxílio destes instrumentos, as Forças de Defesa e Segurança


da Rodésia do Sul incrementaram os seus ataques a alvos socio-
económicos e militares de Moçambique, com vista a desestabilizar o
país. Acções de grande envergadura foram reportadas nas províncias
de Tete, Manica, Sofala e Gaza, tendo resultado na morte de civis e na
destruição de diversas infra-estruturas (pontes, linhas de transmissão
de energia eléctrica, linhas férreas, etc.).

No que concerne à relação entre Moçambique e a África do Sul, refere-


se que a independência do primeiro país, azedou as relações entre
ambos, devido, por um lado, ao surgimento de mais um Governo de
maioria negra na África Austral, o que era agravado por este nutrir a
confiança do bloco socialista. Por outro lado, a animosidade do regime
do apartheid era explicada pelo apoio de Moçambique aos membros
do ANC. Tal situação conduziu ao lançamento, por parte do regime
sul-africano, de acções de desestabilização contra Moçambique.

Durante este período, observaram-se na África do Sul, duas correntes


em matéria de política externa para a região: a maximalista e a
219
ISRI: opinião de Joaquim Chissano sobre diplomacia. acessado em 18/04/2011.
220
Voice of Free Africa (VOFA), do nome original inglês Também conhecida por “Rádio Quizumba”.
221
Robinson, 2006.

160

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minimalista222. A primeira, defendida sobretudo no seio da South


African Defence Forces (SADF), preconizava a realização de
intervenções militares de vulto contra Moçambique, tanto por meio
de acções directas, como através do reforço da capacidade combativa
da RENAMO. Esta foi materializada pela Total National Strategy
(Estratégia Nacional Total). A segunda defendia uma aproximação
menos belicista, advogando que as intervenções militares deviam
servir somente para submeter Moçambique à esfera económica
da África do Sul, e, por via disso, garantir a sua dependência. Este
posicionamento teve a sua formulação na Constelação de Estados
(CONSAS).223

Nos anos 80, a desestabilização de Moçambique assumiu um carácter


sistemático. As acções sul-africanas tornaram-se mais agressivas com
a independência da Rodésia do Sul, actual Zimbabwe, em 1980, sob
a direcção de Robert Mugabe. Nesta altura, o regime do apartheid
atribuía todas as principais ameaças à segurança da África do Sul, ao
facto de estar cercada por países de orientação socialista.224

Residências destruidas pelas tropas do regime do apartheid, na cidade


da Matola, em 1981. Fonte: Revista Tempo.
222
Robinson, 2006.
223 Robinson, 2006:119

223
Alguns dos exemplos dessas intervenções foram os ataques a Matola.

161

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Um golpe a esta tentativa foi dado pela criação da Southern African


Development Coordination Conference (SADCC), em 1980, como
contra-esquema de integração por parte dos Estados da Linha da
Frente, que rapidamente frustou o novo regionalismo dominado pela
África do Sul. Com a SADCC, surgiu uma proposta de cooperação
económica que se dirigiu explicitamente contra a dominação
económica do subcontinente pela África do Sul, e cujos objetivos de
cooperação e coordenação de desenvolvimento foram vistos como
parte integrante da luta contra o regime do apartheid. Mesmo com
esta medida, a RSA continuou com as suas acções de desestabilização
na região.

Apesar da acção repressiva e desestabilizadora do regime do apartheid


contra o Governo de Moçambique, Samora Móisés Machel continuou
de forma resoluta e com cometimento, a solidarizar-se e a apoiar
os movimentos nacionalistas da região. De facto, o seu contributo
para a luta do ANC ganhou um novo ímpeto, caracterizado pela
fixação de escritórios, habitações e uma retaguarda segura, através
da qual podiam ser organizadas acções de luta nacionalista. Porém,
contrariamente ao tipo de ajuda prestada à ZANU, a FRELIMO não
podia dar um apoio explícito ao ANC, sob o risco de ser interpretado
como uma agressão a um Estado soberano. Sobre este aspecto,
Mariano Matsinha, afirmou o seguinte:

- “Este entendimento, surgiu devido ao facto de a África do


Sul ser um Estado independente e reconhecido pelas Nações
Unidas, o que implicava a reformulação do tipo de apoio para
esse tipo de luta, e Moçambique não queria parecer perante o
mundo que estava a apoiar acções armadas dentro da África
do Sul. Entretanto, o processo de infiltração de armamento
era feito à revelia do governo moçambicano, pese embora
as forças especiais de Moçambique tivessem informação da
existência dessas acções”.225

No entanto, afigura-se pouco provável que se realizasse a infiltração


do material de guerra sem que as autoridades moçambicanas
estivessem a par das acções do ANC, dada a relação de cumplicidade
225
Macuácua, 1998.

162

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existente. Raimundo Pachinuapa226 considerou que, na prática, o


relativo distanciamento das autoridades moçambicanas à introdução
do material de guerra na África do Sul, era uma táctica que visava
camuflar o relacionamento existente, até este nível de intervenção.

Com o agravamento da situação de instabilidade em Moçambique,


Samora Machel compreendeu a necessidade de salvaguardar a
integridade e soberania de Estado. Foi neste contexto, que encetou
negociações com o regime do apartheid que culminaram com
assinatura do Acordo de Nkomati, também designado de Não
Agressão e Boa Vizinhança, em Março de 1984. Este acontecimento
foi interpretado de outra maneira, o que levaria a equívocos mesmo
no seio dos parceiros históricos da Linha da Frente, os quais se
associaram ao entendimento de que se tratava de uma espécie de
capitulação de Samora Machel perante o apartheid. No entanto, de
acordo com a percepção e o pragmatismo de Machel, tratava-se de
uma questão de sobrevivência do Estado moçambicano. Surgiam
assim, duas correntes de análise que se podem qualificar de anti-
samoriana e pró-samoriana.

A corrente anti-samoriana argumentava que, a partir do Acordo,


o Governo de Moçambique deixava de ser militar em parceria
com os outros governos da região, contra o regime do apartheid.
Acrescentavam que isto significava que o ANC perderia o apoio da
FRELIMO e, consequentemente, teria que abandonar o território
moçambicano.227 Este aspecto não foi visto, obviamente, com
entusiasmo no seio do ANC e da Linha da Frente. Esta percepção
teria pesado bastante para que os líderes carismáticos da região,
nomeadamente, Julius Nyerere e Keneth Kaunda, não participassem
226
Comunicação pessoal.
227
No artigo terceiro do Acordo de Nkomati lê-se o seguinte: “As Altas Partes Contratantes (Governos
de Moçambique e RSA) não permitirão que os respectivos territórios, águas territoriais ou espaço aéreo,
sejam utilizados como base, ponto de passagem ou de qualquer outra forma por outro Estado, Governo,
forças militares estrangeiras, organizações ou indivíduos que planeiam ou se preparem para levar a cabo
actos de violência, terrorismo ou agressão contra a integridade territorial ou independência política da
outra, ou que possam ameaçar a segurança dos seus habitantes”.

163

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no acto. Aliás, especula-se que mesmo no seio do Partido FRELIMO


terá havido incompreensão face à assinatura do Acordo. Como refere
Manghezi:

- “Embora para o Governo moçambicano o acordo se destinasse


essencialmente a por termo à guerrilha da RENAMO, que
ameaçava a continuação do regime da FRELIMO no poder,
ao nível da cúpula deste partido nem todos aceitavam a
ideia de Moçambique chegar a um entendimento com um
regime condenado universalmente em face da sua política de
discriminação racial (…)”.228

Dentre os defensores da corrente pró-samoriana distinguem-se, Sérgio


Vieira e Armando Panguene229. O primeiro referiu que Samora Machel
tinha consciência a respeito dos pretextos veiculados pelo regime do
apartheid para agredir Moçambique. Nestes, figuram mensagens
segundo as quais Moçambique era um regime belicista e a firmar-
se como ponta de lança para eventuais agressões soviéticas contra a
África do Sul. Com base nestes pretextos, a África do Sul estava a
forjar uma legitimidade para efectuar ataques de grande envergadura
e até nucleares contra Moçambique, com o apoio do Ocidente.230

No mesmo diapasão, Armando Panguene231 destacou que o acordo


de Nkomati serviu, basicamente, para impedir que a África do Sul,
potência que contava com o beneplácito de Ronald Reagan e de
Margareth Thatcher, Presidente do EUA e Primeira-Ministra da
Inglaterra, respectivamente, lançasse uma grande operação militar
contra Moçambique. Aliás, é importante recordar que a ascensão
de Reagan significou uma notável redução do apoio que este país
providenciava a Moçambique, alegadamente devido à sua ideologia
marxista.
228
Manghezi, 2007.
229
Combatentes da Luta Armada de Libertação Nacional e dirigentes políticos. Sérgio Vieira foi um dos
participantes das negociações que conduziram a este Acordo.
230
Vieira, 2010.
231
Armando Panguene, entrevista de 10/08/2011. Cidade Maputo.

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Armando Panguene.

Apesar da assinatura deste Acordo, o regime do apartheid continuou


com as acções de desestabilização. A título de exemplo, David
Robinson indica que, a seguir ao acordo, a RENAMO intensificou as
suas operações em várias regiões do país. Esta situação pode ter sido
o resultado da flutuação da política interna na África do Sul, entre os
minimalistas e os maximalistas. As violações de fronteira e do espaço
aéreo, assim como o treinamento e o suprimento em equipamento
militar à RENAMO continuaram, como demonstraram os documentos
capturados na sua base em Gorongosa, em 1985.232
Samora Machel foi objecto de atitudes hostis protagonizadas pelo
Presidente Kamuzu Banda, do Malawi, um aliado do regime do
apartheid. Com efeito, Banda mantinha uma estreita colaboração
com os regimes militaristas e segregacionistas da região, através da
concessão de bases e acampamentos à RENAMO e uso do seu território
para o lançamento de ofensivas militares contra Moçambique.233 Este
posicionamento levou à reacção dos países da Linha da Frente, os
quais, em 1983, pressionaram, através de um ultimato, o regime de
Banda a limitar a sua colaboração com o apartheid, sob pena de se ver
isolado, ao nível da região234.
232
Robinson, 2006.
233
Revista Tempo, nº 832, 21 de Novembro de 1986. Maputo.
234 Cabá, 1997.

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Não obstante o ultimato, Malawi não mostrou sinais de mudança, ao


que Samora reagiu, insistindo em fóruns diplomáticos regionais sobre
a necessidade de aquele país posicionar-se ao lado da Linha da Frente.
Como forma de aumentar a pressão, Samora ameaçou encerrar a
fronteira comum entre Moçambique e o Malawi. Consequentemente,
a 26 de Setembro de 1986, o governo malawiano enviou a Maputo
uma delegação chefiada por John Tembo, com vista ao relançamento
das relações entre os dois países, tendo sido proposta a criação de uma
Comissão Conjunta de Segurança de Alto Nível.235

A iniciativa do encontro representou um “recuo estratégico” do


Malawi, pois a realidade no terreno se mostrava adversa, aspecto
que terá contribuído para que Samora Machel ameaçasse posicionar
mísseis contra o território malawiano. A despeito destas medidas,
Samora admitia a possibilidade de prosseguir com as negociações,
sobretudo, a nível multilateral e de se chegar a um entendimento
sobre o diferendo.

No que concerne aos laços estabelecidos com os países de orientação


socialista, Moçambique reforçou as suas relações com a China,
Cuba, a República Democrática Alemã (RDA), o leste europeu, os
nórdicos, entre outros. No entanto, na primeira metade da década
de 80, Moçambique começou a ressentir-se de uma crise política e
socioeconómica236, o que motivou uma tentativa de integração, sem
sucesso, na Council for Mutual Economic Assistance (COMECOM).
Como alternativa, o Governo de Moçambique decidiu efectuar um
realinhamento na política externa, tendo iniciado negociações com
o Ocidente, visando beneficiar-se de financiamento por parte das
instituições de Bretton Woods (FMI e Banco Mundial)237.

Abrahamsson e Nilsson descrevem a reorientação da política externa


como uma tentativa de “fazer mais amigos e menos inimigos”, aliás,
um princípio da FRELIMO, seguido desde a Luta de Libertação
Nacional. Considerava-se que era de importância fulcral ser amigo
dos amigos do inimigo principal. Na prática, isso significava que
235
Mosse, 139.
236
Refere-se ao recrudescimento do conflito armado e aos efeitos da seca, com efeitos nefastos para a
economia.
237
Terá pesado para o posicionamento de Moçambique o facto de as relações económicas terem-se
mantido mais favoráveis do bloco Ocidental, do que do Socialista, desde a Independência do país.

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Moçambique devia desenvolver grandes esforços para melhorar as


relações diplomáticas com os países ocidentais que tinham interesses
na África do Sul. Esta estratégia produziu os seus primeiros frutos
logo em 1983, quando Samora Machel fez uma visita oficial aos
países mais importantes da então Comunidade Económica Europeia
(CEE) e, pela primeira vez, visitou Portugal.238

Em 1985, Samora Machel visitou os Estados Unidos da América


(EUA), no quadro dos seus esforços de alinhamento numa economia
de mercado. Há informações de que esta visita teria sido facilitada por
Margaret Tatcher, a partir da abertura que Machel teve em relação ao
Ocidente e aos esforços para manter um clima de paz na região austral
de África. Neste encontro histórico memorável, Samora emocionou
Ronald Reagan pelo seu carácter extrovertido, pois, ao entrar na
sala de audiência do Presidente americano, quebrou o protocolo,
saudando-o de uma forma jovial e descontraída. Reagan ficou
admirado e, sobretudo, entusiasmado com este carácter de Samora, o
que, a partir de então, traria impacto positivo no relacionamento entre
os seus Estados.239

Samora Machel, com Ronald Reagan, durante a visita aos EUA.


Fonte: Sopa 2001.
238
Abrahamsson & Nilsson, 1994.
239
Armando Panguene, entrevista citada.

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7 . A Morte do Presidente Samora Moisés


Machel

A morte do Presidente Samora Moisés Machel ocorreu a 19 de


Outubro de 1986, vítima de acidente de aviação, quando o Tupolev
134A se despenhou em território sul-africano, na região de Mbuzini.
As investigações sobre este acidente são, ainda, inconclusivas, o que
tem dado espaço a várias especulações.

No entanto, existem indicações de se ter tratado de terrorismo de


Estado, engendrado pelo regime do apartheid, pelo facto de existirem
elementos susceptíveis de clarificar o cenário em que o acidente
ocorreu. Entre os elementos evocados para a sua sustentação, destaca-
se a conjuntura política regional, caracterizada pela “confrontação”
entre os regimes moçambicano e sul-africano, já analisada em
capítulos anteriores. Acrescenta-se a esta, a falaz alegação, segundo
a qual, a tripulação não possuía experiência e que as licenças de voo
eram falsas, ficando assim evidente que o avião tenha sido desviado,
de forma intencional.

A conjuntura permite sustentar a tese do terrorismo de Estado, segundo


a qual, o regime do apartheid preparou e executou a operação que
culminou com o despenhamento do avião, vitimando a maior parte dos
seus ocupantes. Como terá afirmado o único tripulante sobrevivente
do acidente e engenheiro de bordo, Vladimir Novosselov, pelas
circunstâncias em que o acidente ocorreu, tratou-se de um atentado,
tendo em consideração a experiência do chefe da tripulação e as
favoráveis condições atmosféricas:

- “ …estava convencido de que não foi acidente, mas um


caso de armadilha, pois, o piloto Yuri Novodran tinha
mais de 25 anos de experiência bem como os demais. O

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voo era normal, descolámos, apontámos a Maputo com o


altímetro nos 11.400 metros. Foi pedida depois, a Maputo,
a descermos para 10.600 metros. Foi pedida, depois, a
Maputo a respectiva autorização para aterragem, concedida
pelos serviços aeroportuários. As condições atmosféricas
eram favoráveis. Maputo encontrava-se à nossa frente e um
pouco para esquerda. À direita e relativamente próxima, a
fronteira sul-africana. Descíamos agora lentamente. Altitude
a 5.200 metros. Baixámos então para 3.000 metros, ainda a
133 km da pista de Maputo. O comandante Novodran desliga
o piloto automático e toma o controlo manual do rumo. Um
excelente comandante, bem como o navegador Kudriachov e
o operador da rádio, Choulipov, com mais de 14.000 horas
de voo. Nunca conheceram comandante com mais calo que
Novodran. Descemos para baixo dos 1.000 metros. A última
coisa que me lembro no painel de instrumentos é da leitura do
altímetro nos 970 metros”.240

Destroços da aeronave 134A. Fonte: CDSM.

240
Oliveira, 2006:355.

169

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Refira-se que, apesar de o Tupolev ter penetrado numa zona militar


e operacional do espaço aéreo sul-africano, restrita e sob vigilância
de radar 24 horas por dia, com um sofisticado sistema de defesa
computarizado, o sistema de radar Plessey AR-3D, não foi emitido
qualquer aviso de que a aeronave estava fora do curso e a penetrar
no espaço aéreo da África do Sul. Igualmente, não houve nenhum
alerta que mostrasse a perigosidade das montanhas a que o avião se
aproximava. Portanto, nenhuma acção preventiva foi efectuada no
sentido de impedir o incidente, por parte do Governo sul-africano.241

Há indicações segundo as quais, na verdade, o avião presidencial foi


seguido pelos radares da África do Sul, a centenas de quilómetros,
a partir do espaço aéreo zambiano. Sérgio Vieira, num artigo de
opinião, citou o comandante da Força Aérea Sul-Africana, que
teria afirmado que os radares daquele país tinham acompanhado a
navegação aérea do aparelho. Um outro dado que permite associar
o regime do apartheid ao acidente, foi a interferência de Pik Botha,
então Ministro dos Negócios Estrangeiros nas investigações levadas a
cabo para apurar a real causa do acidente. Aliás, para aquele regime,
a única causa plausível que explica o incidente, é a incompetência da
tripulação. Cabrita referiu o seguinte:

- “Sérgio Vieira num artigo de opinião citou o Comandante


da Força Aérea Sul-Africana, afirmando que os seus radares
tinham acompanhado o avião presidencial desde Mbala
bem como os helicópteros e aviões de busca. Outro ponto
apresentado por Sérgio Vieira seria o facto de que a caixa
negra analisada em Pretória indicava que o rumo do avião
estava a ser ditado pelo VOR, porém, quando a comissão quis
identificar o VOR, a África do Sul, unilateralmente deu por
encerrado o inquérito, declarando que o acidente tinha sido
causado por incompetência e desleixo dos pilotos”.242
241
Oliveira, 2006.
242
Cabrita: 29/10/95.

170

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Urna contendo os restos mortais do Presidente Samora Machel.


Fonte: CDSM.

No que se refere à interferência de Pik Botha, este tomou a iniciativa


de entregar às autoridades moçambicanas a documentação da
aeronave sinistrada, à revelia dos preceitos que regem as comissões
que investigam acidentes de aviação, desautorizando, deste modo, a
Comissão de Inquérito.243 Botha tinha, igualmente, contribuído para
a evacuação do mecânico de bordo, do hospital onde se encontrava,
assim como a remoção dos cadáveres para Maputo. Tal medida retirava
alguns dados importantes que pudessem permitir uma investigação
mais conclusiva.

Um outro sobrevivente do despenhamento do Tupolev é Fernando


Manuel João “Rendição”, o chefe da Guarda Presidencial. Após a
queda do aparelho, este conseguiu sair do local e procurar socorro
nas proximidades. Por volta da meia-noite, conseguiu contactar a
polícia de Komatipoort, informando-a sobre o acidente. No entanto, o
243
Papenfus, Theresa. “Pik Botha and His Times”. In: www.canalmoz.com. Acessado em 24/01/2011.

171

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Governo Moçambicano, só às 6:50 horas da manhã seria oficialmente


informado do desastre pelas autoridades sul-africanas, volvidas pouco
mais de dez horas depois da queda da aeronave. Aliás, tinha sido
inicialmente veiculada a informação segundo a qual o avião havia
se despenhado na região do Natal e não na zona de Mbuzini. Estas
informações, totalmente desencontradas, teriam, em grande medida,
dificultado a pronta intervenção das autoridades moçambicanas.

Neste sentido, pode-se perceber o depoimento de Pedro Almeida,


segundo o qual, após a chegada da tropa do regime do apartheid ao
local, a sua preocupação não se centrou em providenciar os primeiros
socorros às vítimas, mas sim, identificar e recolher a documentação
que seguia a bordo:

- “Houve gente que pereceu por falta de assistência. Foi triste


ver a polícia sul-africana em cena, a revolver a papelada,
a recolher a documentação e a não tratar dos feridos que
gemiam”.244

Após o incidente de Mbuzini, foi constituída uma Comissão Nacional


de Inquérito, que viria a integrar a Comissão Internacional de Inquérito.
Dos relatórios elaborados por estes grupos de peritos, Moçambique
recusou as conclusões a que a Comissão de Inquérito Tripartida ou
Internacional tinha chegado, que apontava como causa principal do
acidente, a negligência da tripulação. Deste modo, para Moçambique,
o que explica o acidente é a acção sul-africana, portanto, terrorismo
de Estado, perpetrado pelo regime do apartheid. Armando Emílio
Guebuza, actual Presidente de Moçambique, tem vindo a reiterar,
tanto em fóruns nacionais como internacionais, esta tese. O estadista
moçambicano, num comício realizado na Cidade de Xai-Xai, afirmou
o seguinte:

- “Samora Machel foi barbaramente assassinado pelo regime


do Apartheid, nas colinas de Mbuzini, em território sul-
africano”.
244
Mosse & Fauvet, 2008.

172

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Armando Emílio Guebuza.

De Mbuzini, o corpo de Samora Machel foi transportado para a cidade


de Maputo. O velório decorreu na sala dos grandes actos do Conselho
Municipal de Maputo, sob a orientação de Marcelino dos Santos. A
morte de Samora colheu de surpresa toda a população moçambicana.
A tristeza sobre esta perda ficou plasmada nas faces das pessoas, que,
lúgubres, acompanharam o velório ou saíram à rua para prestar a
última homenagem ao Marechal Samora Moisés Machel.

173

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Graça Machel, acompanhada por familiares e membros do Governo,


chorando junto à urna de Samora Machel. Fonte: CDSM.

Em seguida, os restos mortais foram transportados para a Praça dos


Heróis Moçambicanos, tendo sido depositados na cripta, ao lado dos
outros heróis nacionais, seus pares, que se distinguiram na libertação
do povo moçambicano e defesa da pátria. Marcelino dos Santos, no
último adeus a Samora Machel, pronunciou-se nos seguintes termos:

- “Juramos construir o Moçambique que sonhaste, o país


desenvolvido e próspero, a pátria socialista moçambicana;
são nossos os teus sonhos, é nossa a tua luta. Camarada
Presidente, chegou o momento mais difícil para todos nós, o
momento da despedida. Mas à terra entregamos apenas o teu
corpo. Nunca te diremos adeus, um povo não pode despedir-
se da sua história. Samora vive. A Luta Continua. A Luta
Continua. A Luta Continua”.

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Agentes das Forças de Defesa e Segurança chorando a morte de Samora Machel.

Populares no funeral de Samora Machel.

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

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Periódicos

Jornal Notícias de 06, 11, 17, 19, 25, 26, 29, de Maio de 1975.
Jornal Notícias de 02, 04, 06, 10, 12, 13, 14, 15, 17, 25 de Junho de
1975.
Revista Tempo Especial. Do Rovuma ao Maputo: Independência
Total. Maputo, 1975.
Revista Tempo de 26/10/1986. “Amigo Samora até Sempre!” Maputo.

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Samora Moisés Machel - História de Uma Vida Dedicada ao Povo Moçambicano

Lista de Entrevistados

Abílio Salomão, Cidade de Inhambane,


Alberto Chipande, Maputo,
Alfredo José Njote, Chilembene,
Armando Panguene, Maputo,
Dinis Chambal, Xiguidela,
Ernesto Obrigado Langa, Chilembene,
Fanuel Daniel Chambal, Chilembene,
Gabriel Simbine, Maputo,
Gideão Simão Cossa, Chilembene,
Josefate Moisés Machel, Maputo,
Joshua Tchambale, Chilembene,
Júlio Rafael, Cidade de Inhambane,
Ivone Mahumana, Maputo,
Martinho Paulo Cossa, Chilembene,
Matias Mboa, Maputo,
Media Samuel Cossa, Chilembene,
Nemias Mundjoi, Chilembene,
Noé Alberto Macamo, Chilembene,
Ntewani Machel, Maputo,
Orlando Machel, Chilembene,
Ornila Machel, Chilembene,
Raimundo Pachinuapa, Maputo,
Raul Marcos Cossa, Chilembene,
Romão Xinguemane Tchaúque, Chilembene,
Salésio Nalyambipano, Maputo,
Salomão Mário Chambal, Chilembene,
Salvador M’tumuke, Maputo,
Salvador Zawangoni, Maputo,
Sorita Tchaiakomo, Ilha de Inhaca,
Valemo Simione Cambaco, Chilembene,
Zacarias Khupela, Tanzania.

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