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(Aponta~nentos para a sua história)

PELO PROFESSOR

DR. ANTÓNIO GABOU RIBEIRO DE VASCONCELOS

Vo L U M E II

COIMBRA EDITORA, Li”


M DCCCC XXXV
BREVES PALAVRAS

~5D ÃOrecimento
decorridos
doquase
inodestíssimo desde o apa
cinco anos,livro—A Sé
-velha de Coimbra.
fàinais o autor imaginou que tivesse de escre
ver outro volume. para completar e actua ii{ar
aquele. No ,fltimo 15er/odo da vida, causado,
velho e inútil, ainda se vê forçado a voltar ao
assunto. a assumir o encargo de preparar tara
o prelo êste segundo tomo.
Tem de ser.—Seja. pois.
Jnfeii{ínente já não pertence ao vi mero dos
víz’os o grande Mestre e Amigo inolvidável,
António Augusto Gonçalvcs, a quem foi dedi
cado aquele primeiro volume. Já não existe
neste mu,zdo, mas a sua obra benemerentís—
sima perdurará, e nas idades futuras será
8 Sé-velha de Cai vibra

niemorada em letras de ouro nos Fastos de Coim


bra, que tanto lhe deve!
À memória saüdosíssima do incomparável
Mestre e Amigo querido é também dedicado
êste novo livro.
O primitivo altar-mór da Sé-velha
Coimbra, 8 de ftvcreiro de 1935.

I ANuma
terminar
tarde
o ano
de dezembro,
do Senhoramena
de 1931.
e de bom
ANTÓNIO DE VASCONCELOS. sol, dirigi os meus passos para o Seminário de
Coimbra. No largo, que antecede o grandioso e
belo edifício de D. Miguel da Anunciação, en
contrei o meu prezado amigo Padre Manoel
Estrêla Ferraz, prior de Santo António dos Oli
vais, que então exercia as funções de ecónomo
daquele modelar instituto de ensino e educa
ção eclesiástica. Cumprimentámo-nos afectuo
samente, e conversámos sôbre várias pequenas
cousas.
Chamei então as suas vistas para a bela porta
de ferro e bronze, que dá ingresso ao edifício, obra
italiana executada em Bolonha, a qual custou
ao fundador do Seminário, no 3.° quartel do sé
culo xviii, a quantia de I.4I6~5oo réis. Lamen
10 ç~:. 1€ C 1—O primitivo altar-mó 11

támos o estado vergonhoso de ruína, em ~ue e — Pois existe, insistiu. E descreveu :—É uma
achava aquele precioso artefacto, e muito natu-y pedra. vinda para ali evidentemente doutra
ralmente os nossos olhps pousaram sôbre as parte. Nela se destaca um grupo de cinco
letras, que destacam na parte superior da porta, colunas de escultura antiga. e tem na parte
as quais o comum da gente não sabe decifrar, superior uma legenda latina, onde se fa{ refe
pela forma pouco usada que apresentam os J J r8ncia ao «Rei Sancho».
confundindo-se fàcilmente com E F, e pela con — Isso iii tercssa—me, repliquei .—Nada posso
junção da vogal com a consoante, em cada um porém conjecturar, sem ver. Brevemen te lá
dos grupos bràquigráficos. irei.
Eis a disposição das letras: Encontra-a fàciimente. Essa pedra está
a sc’rz’ir de base ao grande cru?eiro, que fica ~m
[E frente tio portão de entrada., ao fundo da rua
principal tio cemitério. N’umas obras, que ali
Mil ‘[o se executaram /74 pouco tempo, descobri essa
pedra, ernbtbida 120 ‘muro de que faria parte,
São os nomes abreviados das três pessoas não se vendo cotem nenhuma dela, porque o
da Sagrada Família de Nazaré —Jesus. Maria. rebôco a ocultava completamente. Com aitori—
Joseph—titulares desta Casa. ~‘ação da finita de frèguesia, mas à minha
Então, e a propósito da estranha legenda, custa, fi-la arrancar do muro, e colocar à
o p,c Estrêla preguntou—me se eu já tinha visto frente, onde agora está, conservando-se em cima
uma inscrição medieval, que existe no cemitério o respectivo cru,~eiro.
de Santo António dos Olivais. Fiquei muito cheio de curiosidade. ~O que
—Não, respondi eu: e estranho que naquele poderia ser aquilo?
cemitério, todo feito de novo há menos dum Poucos dias passados, na quarta-feira 23 de
século, exista urna inscrição medieva. dezembro, lá fui eu à pitoresca povoação de
1—o primitivo altar-mór ‘3
12 Sé-velha de Coimbra

Santo António dos Olivais. Dirigi-me à resi Na face anterior do ábaco via-se, em carac
dência do coadjutor da frèguesia, o meu sim teres capitais também do século xii, a inscrição
pático patrício e amigo P.° José Lourenço de
Matos, que logo foi, êle mesmo, a casa do guarda
do cemitério, e voltou com a chave. Aberto o
portão, entrámos. Lá ao fundo deparou-se-me
i). Fragmento da iescriçAo, no .,ba o do feixe de coIuna~
imediatamente o cruzeiro, erguido sôbre o pe
destal, que o prior mtdescrevera.
É êle constituído por uma grande pedra cal incornp lela, a que aludira o P.° Estrêla. ape É
nas um fragmento epigráfico, perfeitamente legí
cárea, na qual se esculpiram cinco colunelos
vel, que diz: —
agrupados, um de maior diâmetro ao centro,
ladeado por quatro mais delgados, todos da mes decimõsext4 et flafls ,ÍUÜ eius Regis Santi:
míssima altura, tendo os capitéis igualmente trigesimo primo.
ornamentados de folhagem estilizada. Tocam-se
A leitura dêste núlfiero final não deixa lugar
entre si os cinco capitéis, assim como as bases
a dúvidas. É asjbado o segundo X, represen
das colunas; sôbre aqueles estende-se um ábaco
tando assim a conjunção das duas letras nume
comum a todos, e num plinto também comum
rais XL = 40. O X simples, que o precede,
assentam estas. O interessante grupo é que for
diminue em io aquele valor, restando pois 30.
ma, só por si, todo o corpo Q).
a que temos de acrescentar uma unidade, repre
A sua classificação arqueológica era fácil, e
sentada pela letra 1. Está ali expresso portanto,
segura:—obra românica, bem característica, em
o número 31.
regular estado de conservação.
Os caracteres da escultura, e a forma das
letras, tudo respira século xii, e assim nos é indi
cado que êste rei Sancho, que então contava
Estampa 1.
‘4 Sé-velha de Coimbra 1—O firimitivo altar—mór 15

anos de idade, era o filho de D. Afonso Hen minado o ano a que se reporta a inscrição. o3J.°
ríquez, o seu imediato sucessor, que teve o ano de idade de D. Sancho decorreu de ii de
nome de D. Sancho 1. novembro de i 184 a igual dia de i t8~. Eis um
Naquela inscrição comemora-se um facto, dado cronológico preciso.
que vemos ali datado—não por nenhuma das Feita esta primeira inspecção à pedra escul
eras gerais, isto é, a então mais vulgar, cha pida, cuidei logo de chamar o meu amigo e
mada era hispânica (também conhecida pela hábil artista-fotógrafo, sr. Afonso Rasteiro, que
denominação de era de César), ou algumas das passados três dias me acompanhou com a sua
eras de Cristo, a do Nascimento ou a da Encar máquina ao cemitério dos Olivais. Fotografou-
nação, que também aparecem, por vezes, em -se a pedra, tal como estava, carregada com o
algumas inscrições eclesiásticas medievais —
cruzeiro (1), e logo a seguir foram ràpidamente
mas por uma era particular pessoal, a cio nasci tiradas três provas fotográficas do cliché. Da
mento de D. Sandio 1. inscrição tirou-me o meu amigo, e muito apre
Reconhe-se, em face da redacção da legenda, ciado artista-canteiro Manoel de Jesus Cardoso,
e da idade de D- Sancho nela memorada, que um bom decalco em gêsso. e Rasteiro um novo
êste ainda ao tempo não havia assumido a corôa, c/ic/iéfotográhco especial e muito nítido. Dêstes
porque era vivo seu pai O. Afonso Henríquez. elementos me servi nos meus estudos poste
Não devemos porém estranhar que já se lhe riores.
desse o título de rei, por ser esta a denomina Mas a inscrição fôra mais complexa do que
ção oficialmente atribuída então a todos o’~ infan ali se apresentava. O fragmento, que nos resta,
tes, filhos legítimos do rei, assim como às infantas indica que outra era, também particular e pes
se dava o título de rainhas. soal, se tomara cumulativamente, para datar o
Sendo bem conhecido o dia, mês e ano do
nascimento do segundo rei de Portugal — 11 de
novembro de ii ~ temos perfeitamente deter- 1) Estampa 1
1—o primitivo altar-mór 17
i6 Sé.ve fita de Coimbra

Ora a batalha que se deu próximo de Gui


facto comemorado. Pela redacção observada
marães, no lugar de Samredanhas (1), ou San
neste fragmento, e pelo estilo por vezes usado
tilhanas (2), ou campo de S. Mamede (3), na
noutras inscrições coevas ou quase coevas, che
qual ficou vitorioso o partido do infante, foi
gamos à conclusão de que essa outra era esco
no declinar da primavera de ii 28.. O ano pois
lhida foi a do reinado do monarca então rei
de 1184-1185, a que se refere a segunda parte
nante. Devia dizer:—
da inscrição, corresponde ao ano 56.°-57.° do
reinado de D. Afonso Henríquez.
-. regnante düo AI,fonso, anti o regni sui..., et
etatis flUi eius regis Santfl trigesiino primo... Feitas estas observações, ocorre a pregunta:
: —~Que letra numeral estaria no lugar falhado,

A indicação numérica do ano do reinado está -, ~‘. precedendo as letras X V 1 que lá se vêem, e
que possa pôr de acôrdo as duas eras?
incompletamente expressa pelas letras XVI,
Não podia ser outra, senão um X aspado
pois há, antes do X, o espaço mutilado ou
40. Assim seria nesta inscrição memorado o
falhado, onde esteve uma outra letra, de que
ano ~6.° do reinado de D. Afonso Henríquez e
nenhuns vestígios restam. Tendo nós já um
o ano 31.° da idade de seu filho D. Sancho, cor
elemento cronológico perfeitamente assente,
respondendo à era hispânica de 1222, e à de
precisamos de procurar completar êste outro,
•Cristode 1184.
de forma que se harmonize com aquele.
São raríssimos os casos, por nós conheci
dos, de se haver usado nas datas a era pessoal
do reinado de D. Afonso Henríquez. Nota-se, (l) Chronicas breves de Santa Crn~, in Parti g. Mon~m. [lis!.,
nesses casos excepcionais, que se tomou para vol. Scriptores, pág. 26.
(2) Chronica de D. Afonso Hcnrique~ por DUARTE GALVÂO,
época inicial do reinado a assunção do mando pàg. ~i.
supremo por D. Afonso, após a vitória sôbre (9 Chronica Gotijoruin, in Portue. Monum. Iiist., vol. cit.,
pág. 12.
sua mãe.
iS Sé-velha de Co 1 O primitivo altar-mór 19

aceitam-se, mas não se procuram justificar se


melhantes anomalias.

Outra dificuldade é de natureza cronoló


Temos porém agora, ante nós, duas dificul gi ca.
dades a resolver, uma paleográfica, outra crono O ano ~6.° do reinado de D. Afonso Hen
lógica. ríquez, se se fizer a contagem tomando para
~Será paleogràficamente aceitável, que o re início a batalha de S. Mamede, vai da primavera
dactor da inscrição desenhasse X,XVI, quando de 1183 àprimaverade 1184; oano3l.°daidade
podia bem mais clara e simplesmente indicar o de D. Sancho principia no dia ii de novembro
mesmo número com três letras apenas LVI? — de 1184. Não coïncidem pois entre si em nada
Tal composição parece inadmissível, absurda. estes anos. Aquele já tinha terminado, havia
Sim. Note-se porém que anomalias destas alguns meses, quando êste principiou.
se encontram por vezes. Factos teratológicos, Disparidades destas encontramo-las freqüen
nos domínios da paleografia e epigrafia, a que temente, ao estudarmos os dados cronológicos
estão habituados os que lidam com documentos registados em documentos e em inscrições me
antigos. Por exemplo XS’XXXXXV para desi dievais e algumas dessas disparidades são intei
gnar o número 95, que bem podia exprimir-se ramente irredutíveis, e para as explicar temos
por XCV, ou LX,V, ouVC; VIX para se ler ~6; de reconhecer que houve êrro de cálculo, que
VIIIIX= 19, etc. Estes e outros factos são re houve descuido ou lapso da parte do redactor
gistados pelo Dr. João Pedro Ribeiro, o patriarca do texto. Nem seria de admirar um lapso, no
da Diplomática portuguesa (1). Registam-se, caso de que nos estamos ocupando.
A ~ra pessoal do reinado de D. Afonso Hen
(1) Dissertações clzronologicas e criticas, t. TI, dissert. vi,
ríquez não andava em uso; aparece-nos em
pàgs. 23 e scg. pregada uma ou outra vez, muito raramente,
20 5é-velha de Coimbra 1 O priinrlivo altar-mór 21

mais por capricho individual do redactor, do aguardou-se o princípio do ano civil tradicio
que por estilo, que nunca existiu no reinado do nal, o i.° de janeiro seguinte, para comêço do
primeiro monarca português. Nas pouquíssimas ano. Assim se obviou aos inconvenientes gra
vezes que alguém se lembrou de a usar, tinha ves e grandes perturbações. que resultariam de
de fazer o cálculo da correspondência dessa era qualquer alteração na estrutura do ano civil,
desusada com a vulgar hispânica: ora um êrro consacrada pelo uso O~era1 e constante de tantos
em tais condições era facílimo de cometer. Bas séculos.
tava não advertir flO têrmo, em que um ano Para a era pessoal do reinado de D. Afonso
acaba e outro principia, e datar um aconteci 1-Jenríquez bem podiam também desprezar-se
mento posterior a êsse têrmo, usando a expres alguns meses, e principiar a contagem dos anos
são numérica correspondente ao ano já findo. do ï de janeiro imediato. Êste procedimento

Precisamos ainda de advertir o seguinte. teria àlém disso, a justificá-lo, a ausência duma
O ano civil tinha limites bem determinados, data precisa e bem determinada, para se iniciar
e consagrados invariàvelmente pelo uso con a contagem rigorosa.
stante de longa série de séculos: ia de i de ~Quando foi que o infans portucalensium
janeiro a 31 de dezembro. principiou a reinar? Não ficou registo nem se
Nem sempre a adopção duma era nova impor quer do dia e inês em que se feriu a batalha de
tava a alteração dêsses limites. Podia aceitar-se S. \iamede, isto é, o facto decisivo, em virtude
uma nova época epónima, que dava uma dife do qual o filho de D. Teresa veio a assumir o
rente série numérica de anos, conservando-se mando supremo. É pois muito verossímil, é
porém o início e o fim tradicionais dêsses anos. naturalissimo, que o redactor da inscrição lapi
Por exemplo: Quando se principiou a adop dar. querendo adoptar a era do reinado de
tar a era do Nascimento de Cristo, sucesso lixado D. Afonso Henríquez, fizesse coïncidir o início
a 25 de dezembro, nem por isso começaram a dêstes anos com o dia de ano novo tradicio
contar-se dêste dia os anos, como seria lógico: na], principiando a contá-los desde o dia j de
Sé-o Aba de Coim bra 10 primitivo altar-mór 23

janeiro, que se seguiu imediatamente à batalha Era de fácil solução o primeiro problema.
de S. Mamede. Aquela pedra esculpida não era outra cousa
Assim, o ano 1.0 do reinado corresponderia senão a parte central do corpo dum altar româ
integralmente ao ano de 1167 da era hispânica, nico. Se se removesse o cruzeiro, que nela pou
ou 1129 da de Cristo; o ano 1222 daquela, sava, ver-se-ia provàvelmente, cavado a meio
e o 1184 desta, coïncidiriam com o ~6.° do rei do ábaco e profundado na espessura do capitel
nado de D. Afonso, e desde i ~ de novembro do meio, o pequeno sepulcro, onde no acto da
a 31 de dezembro com o 3J.° da idade de sagração deveriam ter sido encerradas algumas
D. Sancho. Relíquias de Santos Mártires. Interrogando eu
Sendo assim, e tudo nos leva a crer que depois O P.e Estrêla, soube dêle que realmente,
assim seja, o facto comemorado nessa inscrição quando fez a mudança do cruzeiro, notara uma
realizou-se em algum dia das últimas sete sema cavidade naquele sítio. Era pois um altar, e
nas do referido ano do Senhor de j 184. conseqüentemente a inscrição, de que nêle re
stava parte, comemorava a sagração dêste altar,
e provàvelmente do templo que o abrigara.
Mais difícil porém se me afigurou, desde o
princípio, a solução do segundo problema.
Perante a descoberta, devida, como fica dito, Ocorreu-me, muito naturalmente, a lem
ao rev.(~0 Estréia Ferraz, surgiram desde logo no brança de que ali houvera uma ermida no
meu espírito dois problemas: i. ~jQual o fim século xiii, que bem podia remontar ao sé
para que foi esculpido aquele grupo de colu culo xii, pertencente ao cabido da sé de Coim
nelos, e qual a função a que era destinado?— bra, a qual, por solicitações da rainha D. rraca,
2.° ~Donde viria para o cemitério de Santo fôra cedida aos franciscanos, por volta do ano
António dos Olivais aquela peça arqueoló de 1217 ou 1218. ~Seria aquela pedra um resto
gi ca? do altar dessa capela?
21 Sd-ve lua de Cci,,, bra 1—o prt~t~~ altar-niór

Tive de pôr logo de parte essa hipótese. A er seguindo com todo o cuidado o processo de eli
mida era pequena e pobre; o altar, a que perten minação. Restavam-me por fim só duas igrejas,
cera aquela pedra, era rico e sumptuoso. Fôra a que o altar poderia ter pertencido:—Santa
um altar fixo, não de forma singela e lisa, como Cruz e Sé-Velha. Foi Santa Cruz a última a
o maior número dêles, mas ricamente esculpido, ser eliminada da lista. O seu altar-mór foi sa
para ser assente na ábside duma igreja, na qual grado pelo arcebispo de Braga a João Peculiar
fôra solenemente sagrado por um bispo. Tudo (í 138-1 175), no tempo em que era bispo de Coim

isto afasta completamente a hipótese de tal altar bra D. João de Anaia (1148-1154), portanto no
haver pertencido à ermidinha de Santo António meado do século xii: o nosso altar ignoto foi
dos Olivais. sagrado, segundo diz a inscrição, em i 184, três
Àlém disso, o facto de na inscrição se fazer décadas mais tarde (1).
referência cronológica ao ano do reinado do Por exclusão de partes, só restava a Sé-ve
monarca, e ao da idade do príncipe herdeiro, lha. Era pois o altar da ábside da catedral, a
vem revelar-nos que êste altar pertencia a uma célebre ara de Santa Maria Coií,nbriense. como
igreja, edificada à custa do erário real, ou, pelo então se dizia.
menos, com grandes subsídios dêle saídos: era
o altar duma basílica, não duma ermida.
Havia pois necessidade de ir procurar, à vizi
nha Coimbra, a igreja a que pertencera essa A catedral de Coimbra principiou a ser edi
preciosa ara. ficada logo depois que D. Miguel Salomão
Passei em revista tôdas as igrejas impor ascendeu ao sólio episcopal desta cidade,
tantes de Coimbra nos inízios da monarquia. em 1162. Calculava-se que na construção de
Rebusquei a história desta cidade nos tempos
medievais, percorri um por um os numero I) Da. MIGUEL RIBEIRO DE vAscoNcELLos, Noticia histórica do
sos templos do século xii, que nela existiram, mosteiro da Vacariça, 2.’ parte, fascículo 2°, doc. fl.° 14, V, pág. 63.
26 Sé-velha de Coim bra —O primitivo altar-mór 27

tão importante edifício se não gastariam me sídios com que contribuíu para as obras, deu
nos de 20 anos, pelo que as obras se teriam 40 morabitinos «para a composição e escul
prolongado até depois de i 182. tura da mesa e das colunas do altar da San
Não tínhamos dados alguns cronológicos, que tíssima Mãe de Deus, nossa Senhora, e para o
nos dissessem quando foi sagrada, quando nela pavimento das ábsides, construído de pedras
se inaugurou o culto. Apenas sabíamos que nos quadradas (1)
fins do ano de 1185, por morte de D. Afonso A identificação pois é completa, nada dei
Henríquez, a sé já estava em serviço, pois foi xando a desejar. O altar de D. Miguel é êste
ali, a 9 de dezembro dêste ano, que o bispo mesmo, que agora se nos deparou providencial-
D. Martim Gonçálvez sagrou e coroou reis de mente no cemitério dos Olivais.
Portugal O. Sancho 1 e sua mulher D. Al Fabricado à custa do dinheiro, que para isso
donça (t) deu o bispo fundador, foi assente na ábside.
Com estes elementos se harmoniza perfei Achando-se o edifício da Sé em condições de
tamente a nossa inscrição, que comemora a poder ser aberto ao culto, marcou-se a soleni
sagração dêste altar, no mês de novembro ou dade inaugural para um dia do mês de novem
no de dezembro de i 184. E também a fórma bro ou de dezembro de 1184, sendo já então
do altar se harmoniza com as poucas notícias, bispo de Coimbra O. Martim Gonçálvez. Esta
que temos, do que foi erigido no último quartel solenidade consistiria na sagração do templo e
do século xii na ábside ou capela-mór da cate do altar-mór. Fez-se logo lavrar em volta do
dral de Santa Maria Colimbriense. ábaco do grupo central de colunas, antes de o
O. Miguel Salomão, o grande edificador da assentar na igreja, a inscrição comemorativa da
sé de Coimbra, entre os importantíssirnos sub-
(1) In compositione & cxpolitjone are et colurnftnaru;n alta ris
beatissime dei genitricis domine nostre, & tu ftauimento absidarun,
(1) ER. ANTONJO BRANDÃO, Monarchia Lusitana, parte quadratis lapidibus constructo — quadraginta ,norabitinos. — (Cfr.
pãgs. 1-2, vol. 1, pãgs. ~ e segs.).
26 Sc-ve!ha de Coimbra 1—O primitivo ali a r-rn ór 29

dedicação, pois, sagrado êle, já não podiam Estimado e venerado desde o princípio pelo
esculpir-se as letras. clero e pelos reis, pelos magnates e pelo povo,
A inscrição gravada nas quatro faces do ábaco êsse primitivo entusiasmo e devoção foi depois
devia, quando completa. dizer aproximadamente decaindo, arrefecendo com o andar do tempo.
o seguinte: Mais tarde viu-se o altar desprezado, e vieram
por fim épocas, em que selvajarias revoltantes
ERA.MCC:XX:fl.DIE’ foram perpetradas. Os fados correram-lhe adver
REGNANTE DNO ALFONSO ANNO REGNI SVl
sos; mas parece que um bom espírito tutelar,
ET ETATIS FIEI! 1 EL9 REGIS SANTI! XX,
EPS DNS MARTIN° COSECR HANC ECCLXM ET ALTARE um Anjo-da-guarda, sempre o acompanhou vi
gilante, nunca o perdendo de vista, e agora,
no momento oportuno, o revelou de forma mi
steriosa, quase miraculosamente.
Assente, no último quartel do século xii,
aComo saiu da velha catedral êste precioso a meio da ábside da velha catedral, êle foi
altar, e como foi parar àquele sítio tão afastado? sagrado, certamente com a igreja, em i 184,
Tentemos reconstituir a sua acidentaclíssima como vimos, no outono, a época do ano mais
história, aproximando factos e hipóteses, que geralmente escolhida para as sagrações dos tem
possam explicar o aparecimento desta peça ar plos.
queológica de inestimável valor no cemitério Lá se conservou durante mais de quatro sé
dos Olivais. ~Será uma explicação hipotética? culos, pois não creio que D. Jorge de Almeida,
Sim, mas explicação verossímil, e até muito ao rebaixar levemente o pavimento da capela
provável. -mór, desmanchasse o altar. Tanto o pequeno
rebaixamento, como a mudança do túmulo de
D. Tibúrcio, as modificações no túmulo de
~l) O dia tal dos !dos de Novembro, ou das calendas, das
Nonas, dos !dos de Dezembro, ou finalmente das Caltndas de Janeiro. D. Estêvão Anes Brochardo, o revestimento de
50 Sé-velha de Coimbra 1—O firimitivo altar-mijr 5’

azulejos das paredes, a construção e assenta do xvji, que se fez profunda mudança na dis
mento do maravilhoso retábulo de talha, tudo posição da capela-mór e do côro (1). O altar de
isto bem podia realizar-se sem tocar no altar; Santa Maria, erigido a meio da ábside, foi en
e D. Jorge mostrou sempre que, sendo reforma- tão infelizmente execrado, demolido e removido
dor e decorador zelosíssirno da sua sé, podendo dali.
dizer com desvanecimento Dómine, diléxi

Colocou-se uma simples mesa, de madeira
decórem domus tuae (1), nunca foi demolidor talvez, com uma pedra de ara portátil, a meio
da obra dos seus antecessores, e não iria, sem do transepto, e as pedras do antigo e venerando
necessidade alguma, erguer mão sacrílega contra altar, agora profanado, arrumaram-se em qual
a parte mais santa e respeitável da sua catedral, quer dependência da sé, onde ficaram abando
o altar da titular Santa Maria. Rebaixando,

nadas e esquecidas durante muito tempo.
como rebaixou, cêrca de io ou i j centímetros
o pavimento da ábside, e revestindo êste de
azulejos mudégares, de que se encontraram
ainda bastantes assentes, quando em outubro
de 1897 se levantou o soalho da capela-mór, A ermida de Santo António dos Olivais, dada
não precisava o magnânimo e piedoso bispo- em 1217 ou iax8 aos franciscanos, para ali se
-conde de tocar na ara veneranda: um simples estabelecerem, foi possuída pelos religiosos mi
degrau, acrescentado aos do supedâneo do altar, noritas até à época em que estes se mudaram
regularizaria o piso da ábside. para o seu novo mosteiro, construído na mar
Foi no pontificado de D. Afonso de Castelo gem esquerda do Mondego, a jusante da ponte
Branco, nos fins do século XVI ou princípios de Coimbra. Principiou a edificação dêste novo

(1) Vid. Sé—velha dc Coimbra, vol. 1, pág. 182. Jbid., págs. ‘95 e sege.
32 Sd-velha de Coimbra -—_________
1—O primitivo altar-md 33

mosteiro no meado do século xiii, e em 1317 qual se dizia que o taumaturgo habitara, e
ainda continuavam as obras. A igreja porém só que era considerada o Sancta San clorum da
foi sagrada a 20 de fevereiro de 1362 pelo arce casa.
bispo de Toledo D. Vasco, que então gover Não se limitaram porém a isto os devotos
nava a diocese de Coimbra, sede vacanie do grande Santo. Reconstruíram o templo em
Mas os religiosos já se haviam anteriormente maiores proporções, e fizeram-no dedicar, não ao
mudado dos Olivais para êste mosteiro recèm titular antigo, o eremita egípcio do século iv,
-construído. Santo António Abade, que o povo denomina
Abandonado dos franciscanos, o eremitério Santo Antão, mas ao franciscano do século xiii,
dos Olivais não ficou desprezado. Ali tinha resi Santo António de Lisboa. Data dêsse tempo, e
dido durante alguns meses o grande taumaturgo pertenceu a essa nova igreja, o portal de entrada,
Santo António de Lisboa, que em veneração do que ainda lá existe.
Santo, titular da ermida, mudou, ao professar, o
nome de baptismo Fernando para António. Os No ano de 1559 principiou-se no mesmo local
habitantes de Coimbra ali iam, com grande de a construção dum edifício mais amplo, para mo
voção, visitar em romaria a capelinha, onde steiro dum outro ramo da família franciscana, os
Santo António orara e celebrara Missa durante religiosos da província da Piedade, que foram
a sua curta residência neste lugar: e, com maio largamente auxiliados nesta edificação pelo rei
res extremos ainda de veneração, visitavam urna D. João iii.
pequeníssima cela térrea, que ficava ao lado, na Decorrido mais dum século, em ‘673, a pro
víncia da Piedade scindiu-se, produzindo urna
nova província, a da Soledade, à qual ficou
(9 F~. MANOEL DA ESPERANÇA, Chronica Seraflea, tómo 1, Iiv.r,
cap. 7, e liv. cap. 29; Fa. Luis DE SOUSA, Historia de 5. Dornin
ii, pertencendo o mosteiro dos Olivais.
£05, liv. iii, cap. 4; GEORGE cARD0SO, Agiologto lusitano, t. 1,
pág. 459, e t. TI, pág. 78.— ar. O Instituto, vol. JI (1853-1854),
Foram os frades desta província, que se lem
págs. 09 e segs. braram de reconstruir, com mais largueza, a
34 Sd-z.’elha de Coimbra 1—O firim uivo a itar—mór
35

venerada cela de Santo António, êsse santuàrio lembraram-se de meter ali o crânio de Santo
.

zinho, que tanto atraía a devoção dos fiéis: Antão, que lá ficaria honorificamente guardado.
destinaram-na então a casa do capítulo (l). Mas, como a cavidadenão o comporta~sse, ãha
maram um canteiro, que ampliou a capacidadi,
Suponho ter sido por êsse tempo, que alguém até então rectangular, do sepulcro das Relíquias,
se lembrou de aplicar a esta veneranda capelinha dando-lhe a forma da caveira; e foi necessário
a parte central do altar desmantelado, que an alargar e profundar tanto, que em três pontos sé
dava pelas dependências da sé de Coimbra. rompeu o capitel, ficando outros tantos .buicos
Pedida aos cónegos, êstes de boa-vontade cede entre a, folhagem que o ornamenta.
riam a pedra, que de nada lhes servia, e assim Deve ter sido nesta mesma ocasião que fize
se veriam livres daquele tropêço. E lá iria então rain outras mutilações e estragos na interessante
essa pedra dos colunelos para os Olivais, e pedra do corpo do altar.
seria assente na cela de Santo António a servir Desbastaram-lhe as colunas da frente, di
de pequeno altar, colocando-se-lhe em cima minuindo o diâmetro dos fustes cêrca dum
uma outra rectangular, a servir de mesa. Era centímetro, certamente para apagarem alguns
um resumido simulacro de altar, onde se não defeitos, devidos à velhice, e para os tornà—
celebrava, segundo creio. rem bem lisos. Estas colunas desbastadas são
Andava na igreja do convento uma caveira, as que agora estavam voltadas para. .6 muro
que as velhas tradições diziam ser de Santo An pposterior.
tão, o titular da antiga ermida. Como no pequeno Outra mutilação, mais lamentável ainda.
altar havia, no capitel central, uma cavidade, Corno já não ligavam importância alguma à in
onde estivera alojada a caixa das Relíquias, • sctição, que se estendia pelas quatro faces do
•Ç; ábaco, achando que mal pareciamali essas letras
(1) Fa. MARCOS DE LISBOA, Chronica. dos Frades Menores, parte 1, arcaicas e sem interesse, desbãstaram também
liv. vi, Cap. 30. ÍÔI. 194 V.° ;~três das faces. uão deixando nelas nem sequ&r
1 O primitivo altar-,nór 37
36 Sé-velha de Coimbra

e sôbre o qual destacava certamente uma ima


vestígio da legenda; apenas ficaram as letras na
gem sua.
face que fôra anterior, agora voltada para a pa
Depois de 1834. expulsos os religiosos do
rede. Não se vendo esta face, não valia a pena
convento de Santo António, as romarias conti
de estarem a cortá-la e alisá-la. É esta exacta
nuarain. e a capela ou casa de capítulo nunca
mente a que no cemitério estava voltada para a
deixou de atrair muitos fiéis devotos.
frente, e cujas letras foram providencialmente
Um grande incêndio, em a noite de io para ii
conservadas.
de novembro de 1851. devorou o edifício do mos
Lá esteve pois no mosteiro franciscano dos
teiro e a respectiva casa capitular. ficando tudo
Olivais, desde o último quartel do século nu
reduzido a um montão de escombros. Salvou-se
até à extinção das ordens religiosas em Portugal,
apenas a igreja, na qual ainda hoje se vêem ves
a parte principal, o núcleo central do primitivo
tígios de ter sido palpada pelo fogo.
altar da sé, em face do qual foi ungido. coroado
Fizeram-se depois obras. A área ocupada
e entronizado D. Sancho 1, e recebeu a orde
pelo mosteiro, depois de demolidas as paredes e
nação sacerdotal Santo António, quando era
removidos os entulhos, foi transformada num
cónego regrante, e se chamava D. Fernando.
amplo terraço, que circunda a igreja por Norte
Nesta sua nova colocacão, serviria de altar da
e Leste, e donde se disfruta uma vista panorâ
cela, onde o mesmo Santo habitou nos inícios
mica surpreendente. A Norte dêste terraço for
da sua vida de franciscano, e onde a sua memó
mou-se depois um outro, a nível muito inferior,
ria nunca deixou de ser venerada com estremosa
para cemitério da freguesia, e foi ali que se colo
devoção.
cou, retirado dos escombros, o altar, que ficou
E daí em deante os devotos lá continuaram
a servir de pedestal ao grande cruzeiro.
a ir em romaria reverenciar o Santo taumaturgo,
Mais tarde, para satisfazer a devoção dos fiéis,
ei~ora estivessem bem longe de suspeitar a
construíu-se uma pobríssima capela, a marcar o
relação íntima que havia entre êle, e êsse pe
local onde tinha sido a cela de Santo António,
queno altar, erguido ültimamente na sua cela,
38 Si-velha de Coimbra 1— O primitivo altar-mór 39

na qual se colocou um modesto altar de rna seguro e certo de que a pedra de colunas, exis
deira com a imagem do Santo, para poder ali tente no cemitério dos Olivais, era a parte cen
celebrar-se uma ou outra Missa. trai da ara Sanctae Mariae. erigida no século xii,
A capela actual, delineada por A. Augusto à custa do bispo D. Miguel Salomão, na ábside
Gonçalves imitando o estílo românico de tran da catedral de Coimbra.
sição usado no século xiii, e que substitue a Podia pois romper o segrêdo, que até então
anterior, foi construída no princípio do século guardara escrupulosamente.
actual por devoção e a expensas do Dr. Ruben A primeira pessoa, a quem dei a boa nova,
de Almeida Araújo Pinto e de sua espôsa D. An foi ao prelado da diocese, como devia ser. Levei
gelina Araújo Pinto. É pena que se encontre a sua ex.a a gratíssima notícia de ter descoberto
tão esquecida e abandonada. a parte principal do célebre altar, onde durante
Aqui temos a reconstituïção, embora hipoté $ muitos séculos pontificaram os seus venerandos
tica, das vicissitudes por que passou o altar-mór ~antecessdres, e mostrei-lhe a prova foto~rática
da Sé-velha, desde a sua remoção da ábside, até do ãchado arqueológico, informando-o de que
à sua descoberta, pelo rev.d0 p•c Manoel Estrêla se encontrava em dondições de poder restau—
Ferraz, no cemitério paroquial de Santo António rar-se o altar, e erigir—se de novo no seu próprio
dos Olivais. Esta reconstituïção é perfeitamente ~loca1. Pedi licença para promover esta restau
verossímil, e há indícios que a tornam muito ração e reïntegração.
provável. Exultou o ex.tm° Bispo-Conde com a noticia,
viu com muito agrado a fotografia, e animou-me
*
~a meter ombros à emprêsa de promover a rtstau
racão.
Nestes trabalhos e cogitações de identiíica Dali corri logo a casa de Mestre Gohçalves,
ção, gastei alguns dias. Quando findou o ano ~ue havia poucas semanas me tinha comunicado
de 1931, ja eu me encontrava perfeitamente ~~desgôsto que sentia, por se não ter ainda colo
Sé-velha de Coimbra — o prinflivo aliar-mor

cado na Sé-velha um altar de estilo românico, divulgar. o que traria certamente embaraços, de
que tanta falta fazia ao conspecto do templo. terminasse a remoção do altar para a sé e a sua
Noticiei-lhe a descoberta, apresentei-lhe a foto imediata restauração, pois seria excelente que
grafia. expus-lhe os raciocínios que tinha feito, a sagração e inauguração solene se fizesse no
e o resultado a que chegara nas minhas investi dia 3ode maio próximo. em que ocorriao 7.°cen-
gacões. Ouviu—me com grande interesse, viu tenáfio da canonizacão de Santo António de
com muita satisfação a fotografia, e. quanto à Lisboa, que era u~rn dos titulares da Sé-velha, e
identificação, tendo a princípio esboçado um igualmente o devia ser do altar. Não fiquei com
leve sorriso de desconfiança, êste se lhe foi poucp cópia da carta, mas creio que foram estes os seus
a pouco apagando nos lábios, e acabou por con tópicos.
cordar plenamente. O sr. director-geral. com a sua muita ama
—SÉ, sem dúvida, o altar de colunas de bilidade e pronta resolução, respondeu-me ime
D. Miguel Salomão*, sentenciou êle. E logo diatainente, dizendo que ia dar as convenientes
acrescentou :—~<Torna-se agora necessário fazê-lo ordens e fazer as precisas recomendações de
remover para a sé, sem demora, e restaurá-lo com urgência à direcção dos Monumentos do Norte.
tôda a circunspecção e meticulosidade>. Efectivamente baixou logo de Lisboa a Ordem
Foi esta, incontestàvelmente, a última grande de serviço n.° 17, de ~ de janeiro de 1932 (‘), a
satisfação de G-onçalves neste mundo. providenciar sôbre o caso.
Julguei-me então habilitado a avançar. Foi no dia io de fevereiro, que o sr. director
dos Monumentos do Norte principiou a dar
Escrevi ao director-geral dos Edifícios públi execução à ordem recebida, dirigindo o ofício
cos e Monumentos nacionais, sr. Henrique .784 desta data ao sr. presidente da Junta
Gomes da Silva. Contei-lhe o achado sensacio
nal que fizera, aludi à identificação segura a
que chegara, e pedi-lhe que, antes do caso se Dcc. 1, pãg. (3).
42 Sé—velha de Coimbra 1—o primitivo altar-mõr 43

de freguesia de Santo António dos Olivais, a ~ara a minha humilde pessoa, era autorizada
pedir-lhe que se dignasse de facilitar a mudança a Junta de Santo António dos Olivais a ceder
do altar, cooperando assim numa obra, que todo a peça arqueológica, para ser reposta na igreja
o país havia-de aplaudir. A direcção do Norte a Sé-velha (4). O Alvará original foi remetido
tomava a responsabilidade de fazer construir • &ao presidente da Junta em Ofício da x.~ repart..
imediatamente um novo pedestal para o cru L D, n. 92, de 20 de fevereiro (2). À vontade
zeiro, que fôsse harmónico com o seu estilo (‘). enérgica e decidida de sua ex.~’ o governador
Achando a Junta que não devia pôr obstá • ~ civil, sr. Dr. Albino Soares Pinto dos Reis jt’i
culos a tal cedência, pareceu-lhe contudo ser ~nior, se. deve o serem imediatamente jugulados
do seu dever consultar o Govêrno civil, antes “‘uns começós de oposição, que logo seesbocaram.
de tomar deliberação, o que fez em ofício de • ,Mil agradecimentos.
17 de fevereiro (2) Não devo passar adiante, sem deixar consi
Sabendo eu disto, escrevi imediatamente ..,gnado também aqui o meu agradecimento e
urna carta de informação e de pedido ao secre çlouvor ao presidente da Junta de frèguesia dos
tário-geral do Govêrno civil, e meu prezado Olivais e meu bom Amigo, sr. João Rodrigues
Amigo, sr. Dr. António Luís da Costa Rodri ~Martins, que de muito boa vontade facili
gues (a), que teve a gentileza de me responder tou a solução dêste caso, como era de inteira
em amabilíssima carta (4), na qual me remetia
uma cópia do Alvará do ex.tm° Governador civil,
em que, com têrmos altamente penhorantes

(‘) Dcc. II, pag. 4.


(2) lJoc. Iii, pãg. ~.
(3) Doc. IV, págs ~ e seg. (‘) Doc. VI, pãgs. (~) e seg.
(4) Dcc. V, págs. 7 e seg. (2) Doc. VII, pàg. (II).
Sé-velha de C
j—o primitivo altar—mór “5

sabiam de arte. e o director dos Monumentos


do Norte estava longe e não podia acompanhar
e dirigir assiduamente os trabalhos, lembrou
Mas ainda não estavam exgotadas as surprê Gonçalves a conveniência de ser agregado à
sas agradáveis. comissão o arquitecto sr. Silva Pinto, que já
A direcção dos Monumentos nacionais havia muito o tinha auxiliado na restauração da Sé-~
nomeado uma comissão administrativa, que, sob -velha, e nos prinieiros tempos da de 5. Tiago.
a direcção dos Monumentos nacionais do Norte, Assim se fez, e foram valiosos os serviços pre
cuidaria de ràpidamente dar execução à obra stados por êste ilustre professor, que é não 56
restauradora do altar e da parte interna da ábside distinto arquitecto. mas também arqueólogo e
da velha catedral. Compunham essa comissão artista, serviços que, segundo creio, nunca lhe
Mestre A. Augusto Gonçalves, o prior da Sé- foram oficialmente reconhecidos, nem agrade
-velha Dr. Luís Lopes de Meio, e a minha cidos.
A comissão incumbiu da execução da obra
humilde pessoa.
o hábil, conciencioso e zeloso mestre-canteiro
Eu tinha o cuidado de pôr o Gonçalves ao
Manoel de Jesus Cardoso, que se desempenhou
corrente de tudo o que ia sucedendo, e de ir
do encargo com a maior competência e desinte
colhendo as suas opiniões e alvitres. Quando
resse.
havia alguma sessão, era em casa dêle. E con
solava-me vendo o interesse e satisfação com
que o bom vèlhinho ia pensando em tudo, in
teressando-se por tudo, e tudo dirigindo.
Estava pois tudo a postos, para que a restau
Como estava detido em casa pela idade e
ração se realizasse ràpidamente.
pela doença, e como os outros dois vogais da
Um dia, a 24 do mesmo mês de fevereiro,
comissão não tinham competência técnica, nada
estando eu doente de cama, recebi uma carta de
Sé-velha de Coimbra 1—o primitivo aliar-ind r

Gonçalves (‘). que me denunciava a existência, nhou e trabalhou uns, desenhou e trabalhou os
no Museu de Machado de Castro, de dois colu outros, empregando o mesmo modêlo, desti
nelos românicos de mármore, por êle achados, nando-os para a mesma obra.
quando corriam as obras de restauração da Sé- Era a prova real, a prova material, de que o
—velha, na sacristia desta igreja, e que, pela altar fôra da Sé-velha. Havia sido dispensado
reminiscência que conservava, talvez fôssem pelos cónegos aos frades dos Olivais o grupo
aproveitáveis na reconstituïção do altar. central de colunelos: as restantes peças por lá
Mandei logo chamar mestre Cardoso, e pedi- ficaram nas dependências da catedral, e duas de
-lhe que fôsse vê-los. Foi, e ficou surpreen las, por um feliz acaso da sorte, ou por uma
dido. O aspecto dos colunelos, a ornamentação disposição da Providência, lá se conservaram
dos capitéis, o tamanho, tudo se conformava arrumadas num recanto da sacristia, até serem
admirávelmente com os do altar, que acabara encontradas por Gonçalves, que as fez recolher
de ser transportado dos Olivais para o claustro ao Museu, e agora ei-las aí, a darem testemunho
da Sé-velha. Tomou as medidas exactas duns e seguro e autêntico da identidade da parte prin
doutros. e trouxe-me esta inesperada notícia: cipal, que andava desviada.
— Aqueles dois colunelos do Museu, perten Foram logo requisitados os dois colunelos
ceram ao mesmo altar, encontrado no cemitério e prontamente cedidos pelo sr. conservador do
dos Olivais: as mesmíssimas medidas dos fustes, Museu de Machado de Castro.
dos capitéis cuja ornamentação tem o mesmo Assim se reüniram no claustro da Sé-velha,
desenho (apenas um pouco simplificado nos de na capela cemitérial dos cónegos, a pedra vinda
mármore), os mesmos perfis dos ábacos, das de Santo António e os dois colunelos da sacris
bases, dos plintos! Sem dúvida, quem dese tia da antiga sé, filtimamente depositados no

9 Doe. VIII, pàg. 12


Doe. IX, pâg. i
48 Së-ve 1/ia dc Coimbra - 1—-O Primitivo aHar-mór 49

Museu. E agora, colocados éstes ao lado daquela. longos e dispendioso~; tinha por isso de se pre
a ide,ntidade de origem e de mister era patente scindir dêle, sub~tituindo-o em tudo pelo calcá
aos olhos de todos 1 reo desta região, onde o havia em abundância
—amarelo para as grandes obras, branco para
algumas inscrições e outros pequenos comple
inentos.
No edifício, que anteriormente existira no
Pode entretanto causar um pouco de reparo local, onde se construíu a sé, e que, segundo
o facto que vamos referir. reza a tradição, fôra a mesquita, havia algu
Os dois colunelos isolados, são de mármore mas colunas de mármore, muito usado pelos
fino branco, com algumas pequenas e leves som mouros na decoração dos seus edifícios. Ainda
bras cinzentas, provâvelmente extraído dos jazi há pouco, ao’ realizarem-se as obras de restau
gos de Sintra, enquanto o grupo central é de ração da catedral, lá se encontraram, abaixo do
calcáreo brando, das pedreiras da região de nível do pavimento do templo, restos dum pavi
Ançã, próximo de Coimbra. Se entraram pois mento do edifício anterior, e nêle implantada
na construção do mesmo altar, era êste consti uma base de coluna de mármore branco (1
tuído de elementos materiais heterogéneos. É natural que os construtores do templo ro
Note-se, que em nenhum dos templos româ mânico ãinda por, lá encontrassem algum ou
nicos de Coimbra se encontra empregada, na alguns fustes marmóreos. ‘fendo de construir o
obra primitiva, nem sequer uma única pedra altar de colunelos, não deixariam de aproveitar
de mármore. Ficava muito caro êste material, ~para isso tais fustes antigos, e nêles trabalharam
era de muito difícil aquisição, os transportes ~elo menos dois (os da frente, os que mais se

Vid. Sé-velha de Coimbra, vol. 1, pág. 28 e nota respec- -

tiva.
(‘) Estampa 11 0
Sé-velha de Coimbra J—Q Primitivo altar-mó,
5’

viam), ou talvez todos os quatro colunelos dos zando e malbaratandoêstes, por serem. de p~dra
ângulos, nas medidas convenientes. Aprovei vIÍ~ Naquela época estimação nenhurxia ~e dava à
tando tôda a grossura dos fustes árabes, cor 6~guitura românica, qi.ie era consideradabárb~ra.
tando-os nas alturas convenientes, nêles risca ~iMas o altar precisava 4e ter um corpo cen~
ram os ábacos e os plintos, que por isso tiveram ~i, onde se abriria o sepulcrd. das Relíquias,
de ficar redondos e não quadrados, porque o cóhdição necessáriapara a sagração. Não tendo
diâmetro dos antigos fustes não dava para as uirí pedaço,grande de mármore que servisse para
diagonais do quadrado, que excediam aquele so, não havendo facilidade de o mandar vir de
diâmetro; depois, desbastando o resto dos ve i6~ge, serviram-se de pedra calcária branca da
lhos fustes, traçaram e esculpiram os capitéis região. Assim fabricaram o grupo dos ~cinco
com as suas folhagens, e as bases com os ~oiune1os, do mesmo debuxo; apenas nos ca—
seus toros e molduras; rebaixando mais ainda, oitéis, seguindo o desenho das outras colunas,
alisaram finalmente os novos fustes, e assim cõmplicaram-no um pouco, metendo nêle umas
foram cortados e afeiçoados do fuste ou fustes ~fhas ornamentais, que a pouca dureza da pe
antigos, os colunelos românicos completos. dra permitia esculpirem-se com facilidade e sem
Se porventura tiveram à sua disposição mais mtaior dispêndio.
dum fuste antigo, fariam os quatro colune
*
los para sustentar os ângulos da mesa; se tive
ram um só, dêle fizeram os dois colunelos,
que ainda existem e que ficariam à frente, e ~:Havia al~um tempo queGonçalves~ão saía
para os ângulos posteriores executariam outros d~casa. A idade avançada e o estado do coração
iguais em calcáreo branco, que pela côr se n~o lhe permitiam andar, e muito principalmente
aproxima do mármore. Talvez isto explique subir. Mas era tão grande o desejo que tinha de
o terem no século xvii continuado a conservar ver por seus próprios olhos o altar, que se resol
aqueles, por serem de matéria preciosa, despre veu a ir à sua querida Sé-velha mais uma vez.
52 Só-o cHia de Coimbra 1—O primitivo altar-mór 53

Foi na quinta-feira ~ de março, encostado à sua e agora comunicava com o exterior. Arrancou-
bengala, e acompanhado de Silva Pinto e de —se o ignóbil altar de madeira, e bem assim os
mim. Subimos vagarosamente, entrámos no
templo, e dirigimo-nos ao claustro, onde éra
mos esperados pelo mestre Cardoso.
Viu com muito agrado e satisfação as pedras
do altar. Dirigiu-se depois à capela-mór, para
verificar e ratificar a planta, que em tempo tinha
levantado, e onde estava indicado o local, em
que devia assentar o altar, que então se projec
tava construir, e os degraus de acesso a êle.
Depois voltou para casa, a fim de esboçar o
altar completo com a sua respectiva mesa.
Mestre Cardoso encomendou com urgência
o mármore para os dois colunelos, que faltavam
para a mesa do altar, e bem assim tôda a re
stante pedra necessária. Veio mármore de Estre
a . Planta da ibside, com o altar já reposto no seu lugar
mós, perfeitamente semelhante ao dos colunelos
antigos, e Cardoso principiou logo a preparar, prumos e taipal que por trás do altar suportavam
não só as peças que faltavam ao altar, mas o monumental retábulo de D. Jorge de Almeida,
também a respectiva base de pedra branca, e os substituindo-se tal apoio, colocado no século xvii
degraus e pavimento de pedra amarela. ou xviii, pelo de colunas de pedra, como estivera
Tapou-se a pequena porta, aberta no fim do anteriormente, sendo essas colunas agora copia
século xvi ao lado do Evangelho, que havia dado das duma, que felizmente ainda lá estava, do
comunicação directa da ábside para a sacristia, princípio do século xvi; e completou-se o reves
54 Sé-ve 1/ia de Coim bra 1.—O primitivo alta,r.môr 5,5

timento de azulejos mudégares, de que havia nhar essa dupla porta, para depois ser executada
ainda muitos assentes, do mesmo tempo. por um dos hábeis artistas serralheiros de Coiin—
Também se pensou em aproveitar esta oca bra. Silva Pinto fez o desenho, uma bela porta
sião de restauração interna da ábside, para se românica de ferro forjado, que agradou a Gon
çalves. Foi remetido êsse esbôço à direcção dos

Altar restaurado, visto de perfil


Altar restaurado, visto de frente

colocar a porta ou ostíolum de ferro, a fechar o Monumentos nacionais do Norte, para o efeito
reftositór/um ou sacrário primitivo da sé, aberto da necessária aprovação; mas nunca se conse
na parede do lado do Evangelho. Existem ainda guiu que voltasse, nem aprovado, nem emen
vestígios da primitiva porta, de duas metades, dado ou substituído. E lá se conserva aquele
de que restam os lugares dos gonzos; e também sacrário hiante, fazendo vergonhosa figura.
no interior se divisam sinais da tábua, que divi Aproveitou-se também o ensejo para renovar
dia horizontalmente o vão do armaríolo, para nas paredes as doze cruzes, que indicam a sagra
sôbre ela se colocar a píxide com a sagrada ção do templo, as quais são indispensáveis em
reserva. Foi Silva Pinto encarregado de dese qualquer igreja sagrada, e nesta não existiam
56 Sd-n lua de Cai ,,, bra 1 O primitivo altar—niór 57

desde a restauração do fim do século passado, e P.° Júlio dos Santos pároco de Santa Cruz
corno ficou dito no vol. 1 i com o autor destas linhas, foram ao santuário
As obras da capela-mór correram com bastante da antiga igreja dos cónegos regrantes, e dos
presteza, e ao chegar a festa do Espírito-Santo, a relicários ali existentes retiraram algumas Relí—
z~ de maio, esta; am concluídas. O altar lá se quias autênticas de Santos insignes.
erguia a meio da ábside 2 ;~ que bem parecia! Envolvidas uma por uma em papéis distintos,
escrevendo em cada urna dêle& o nome do Santo
[ respectivo, fórain logo encerradas tôdas num só
papel forte de linho, que se fechou com lacre,
selando—se com dois sinetes: e neste papel se
Tratou-se então dos preparativos próximos escreveu por fora um têrmo, que os três comiS
para a sagração da ara veneranda. ~ sionados assinaram, bem como o sr. Dr Fran
A igreja foi adornada, precisamente como a cisco de Freitas Cardoso e Costa, inspector de
ornamentou Gonçalves para a festa inaugural saúde. que assistiu desde o princípio à colheita
de ~ de julho de 19o2:—«decoração simples e de das Relíquias. Êste invólucro, assim fechado e
belo efeito, consistindo apenas em pequenos selado, foi entregue à guarda do Dr. Lopes de
festões de folhagem e flores ao longo da nave Melo. -

principal, acompanhando os trifórios No sábado, 28 do mesmo mês, reünftam—se


Dias antes da solenidade, três comissionados no Seminário episcopal ds três vogais da referida
de sua ex.a rev.ma o sr. Bispo-Conde, os rev.d0s comissão, que apresentaram o volume com as
Dr. Luís Lopes de Melo pároco da sé-velha Relíquias asua ex.~ rev.rna. Tomando então o
sr. Bispo-Conde uma estola sôbre o roquete,
benzeu uma caixa metálica que também lhe foi
(1) I’ágs. io8 e seg. e respectiva nota.
apresentada, e nela incluíu, por suas próprias
t’) Estampa III.
(3) Vai. 1, pág. 396. mãos, o pequeno volume contendo as Relíquias,
58 Sá-ve (La de Coim bra 1—O primitivo altar-inór 59

que se conservava selado; meteu também dentro, morava êste facto havia sido esttipidamente
como ordena o Pontifical Romano, três grãos de destruída (1). Estas inscrições só foram assen
incenso e um pequeno pergaminho testemunhal tes depois de realizada a sagração.
da sagração. Fechou-se a caixa, que foi cingida
com um fio também metálico, e selada com o (Monograma simbólico de—~hristus initium et finis)
sêlo episcopal. O pergaminho, nela incluso, diz:
Anno millesirno sexcentesi mo octogesimo primo,
MDCCCCXXXII, die xxx mensis Mau, quinque exactis saeciilis ah aedificatione buius ecclesiae
Ego Emmauuel Episcopus Coniinbrigen coa cathedralis, Domnus Frater Aluarus a Sancto Bonauen
secravi Altare hoc, ia honore;n beatissirnae tura, Dei gratia Episcopus Conimbrigensis et Comes
Dei Genilricis Virginis Mariae ei sancti Au
Arganilensis, soliemniter pridie Kalendas Sptembres
tonü Lusitani Conf., ei Reliquias sanciorum eandem ecclesiarn consecrauit in honorem Beatissirnae
Martyrum Ignatii Epi Autiocheni, Irenaei Virginis Mariae et Sancti Antonii Lusitani Confessoris.
(VICI. pig. 6i’.
Epi Lugdunen, tinias ex sanctis Martyribuç
Marochien, aliorum que pluriniorum sancto
ruiu ~Wartyrurn, quoruïn uonziua Deus sou, (Monoqrama do nome IESVS)
ao insuper sauctorum Contessorunz Augu.~tinr
Epi ei Doct, a/que Theotonui Pbri, iii eo in Anno miliesimo nongentesimo tricesi rno secundo,
clusi; et sing-ulis Christi fidelibus hodie unam
Domnus Ernmanuel Aloisius Coelho da Siba, Dei gratia
anuam, ei ia die au nivel-sczrio Cousecrationis
Episcopus Conimbrigensis et Comes Arganilensis, hanc
huiusmodi i~suvz A 1/are visitanlibus qu in—
uetustissirnatn sune ecclesiae cathedralis aram principem,
quaginta dies de vera Indulgentia, in /orma
multis ante saeculis dirutarn et e medio sublatam, nuper
Ecclesiae consueta concessi.
rime uero inuentam, denique instauratam atque ia pris
(a) t Emn,anuel Episcopus Conimbrigensis tinum locum restitutam, soilemni ritu consecrauit tertio
Kalendas lunias in honorem Immaculatae Virginis Dei
Genitricis Mariae atque Sancti Antonii Lusitani Con
Mandaram também preparar-se duas lápides fessoris, titularium elusdem tempiL
de mármore com inscrições comemorativas, urna Vid. p&g. 63
da sagração do altar restaurado, outra da sagra-
ção da sé, no século xvji, pois a lápide que come- (‘) Vol. 1, págs. 208-209, nota.
Co Sé-velha de Coimbra
1—O primitivo altar-mór

Houve ainda o cuidado de prêviarnente se


tosa fechadura douradas, no qual estava encer
imprimir, em elegante folheto, urna abreviada
rada a caixa das Relíquias.
notícia do cerimonial da sagração do altar, com
Em frente desta capela, e em face do andor,
a tradução das principais fórmulas litúrgicas,
celebraram-se piedosamente, na tarde do mesmo
para que os fiéis pudessem ir acompanhando
com inteligência o desenrolar magnífico daquele
belo e edificantíssimo acto litúrgico: tomando
assim parte activa nêle, e colhendo os abundan
tes frutos espirituais desejados pela Santa Igreja.
fste opúsculo foi largamente difundido 1

2). inscrição comemorativa da dedicação da c;itcdral

No domingo, véspera da sagração, achava-se


colocada na capela de S. Pedro, na absidíola do domingo 29, Matinas e Laudes dos Santos, cujas
lado do Evangelho, a pedra que havia de servir Relíquias ali estavam, tomando parte neste acto
de mesa ao altar sagrando, e sôbre ela um lindo litúrgico um numeroso côro de sacerdotes, e
andor festivo, coberto de ricos brocados de sêda achando-se na sé numerosa assembleia de fiéis.
vermelha e ouro, com um precioso cofre de mar Tôda a noite arderam lâmpadas perante as
roquim da mesma côr, ornado de chapas e osten santas Relíquias.

Amanheceu enfim o dia 30, segunda-feira.


As 8 horas e meia precisas, entraram na
9 Vid. infra, Ap~ndzces, dcc. X, pàgs. (4)-(29). Sé-velha os ex.tm03 e revm0’ srs. Dom Manoel Luís
Sé-velha de toim bra 1—o primitivo altar-mór 63

Coelho da Silva, Bispo-Conde, e Dom António capela-mór, e durante a qual o povo assistente
Antunes, Bispo-coadjutor, que se dirigiram à acendeu velas, de que vinha prevenido, fez der
capela do Santíssimo a fazer oração, e em seguida ramar lágrimas de comoção a muita gente.
à capela-inór, a meio da qual se achava erigido
o venerando altar, mas ainda sem ter a pedra,
que lhe serviria de mesa.
Além dos capitulares, estavam presentes nu
merosos sacerdotes e todos os seminaristas.
Os ex.fbs Prelados e seus ministros senta
ram—se na capela—mór, e principiou então a reci
tação dos sete salmos penitenciais, durante a qual
se paramentou o sr. Bispo-Conde.
Seguiu-se a cerimónia, que decorreu tôda com 4•~

a máxima grandiosidade. Não a descrevo, por


s
5
não alongar mais êste capítulo. Quem desejar
3 inscriçáo comemorativa da sagraç~o do altar restaurado
tomar dela conhecimento, recorra ao texto de .

scritivo, que então se imprimiu, e que durante Terminado o acto da sagração, deu entrada
o acto se via nas mãos de grande número de na capela-mór o rev.m° Bispo-coadjutor, para
fiéis, que enchiam a igreja. Vai adiante repro mentado in pontificalibus, com os seus minis
duzido em apêndice (1). tros, para celebrar a Missa inaugural solene da
A procissão soleníssima, conduzindo o cofre dedicação do altar. Serviu nesta Missa um pre
das Relíquias da capela de 5. Pedro para a cioso cálice do século xii, coevo do templo e do
altar. No fim da Missa expôs-se sôbre a ara
recèm-sagrada o Santíssimo Sacramento, na ri
(‘) Dcc. X, pãgs. (ia) e segs. quíssima custódia de D. Jorge de Almeida, que
64 Sé-velha de Coimbra

é do mesmo estilo do maravilhoso retábulo de


talha, que veste o fundo da capela-mór.
Eram aproximadamente 2 horas da tarde,
quando terminou a solenidade.
Lavrou-se, para testemunhar êste solene acto,
um diploma latino em triplicado, do qual, por
determinação de sua ex.a rev.ma o sr. Bispo-Conde,
se depositou um exemplar no arquivo diocesano,
outro no arquivo da Universidade, e o terceiro
no da paróquia da Sé-velha (1).
Foi urna festa repleta de beleza, cheia de en
sinamentos simbólicos, exuberante de piedade,
que decorreu tôda com a maior solenidade e ma
jestosa grandeza. A Sé—velha, nesse dia, reviveu
algumas horas dos tempos da sua maior glória.
Gonçalves, que não pôde assistir à longa
cerimónia, veio no dia seguinte visitar o altar
restaurado e sagrado.
Foi a sua última visita à querida Sé-velha,
a sua despedida para sempre.

(1) Doc. XI, págs. (3o)-(31). Corpo central do altar-mór românico, descoberto no cemitério

de 5.to Antônio dos Olivais


Corpo central do altar, e mais dois colunolos a êic portoncentos, encontrados ria sacristia da Só-velha

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1—O pri~f:j~~ altar-mor

E lá está de novo, reposto no seu primitivo


lugar, e consagrado em honra da Virgem San
tíssima e do grande taui-naturgo português Santo
António de Lisboa, aos quais é dedicada esta
catedral, o vetusto, o venerabilíssjmo altar-mór
românico da Sé-velha de Càimbra.
É êste altar sacrossanto o altar episcopal da
igreja gloriosa de Coimbra, a ara própria e
privativa do pontífice conimbrigense: — altar
construído a expensas do bispo D. Migu~l
Salomão, e sagrado pelo bispo seu sucessor
D. Martim Gonçálvez, em i 184; ara sagrada,
histórica e gloriosa, junto da qual os primei
ros reis de Portugál oravam e faziam as suas
doações à igreja.
Graças a Deus, vemo-la finalmente reïnte~
grada na inestimável e respeitabilíssirna cate—
:dral; e tão bem ali fica, que hoje não podemos
5á conceber a Sé-velha sem aquele seu altar, que
o ponto para onde convergem tôdas as vistas,
;onde se condensam os afectos religiosos, onde
Si-velha de Co i,n bra

se reúnem os corações dos fiéis que entram


naquela igreja, esclarecidos pela fé religiosa e
patriótica, e aquecidos pelo fogo da caridade
cristã.
~Avé, altar venerando, monumento sagrado
da Religião e da Pátria! O arquitecto delineador do templo
e os mestres construtores
O estudar as origens da Sé-velha, no vol. 1
do presente trabalho (‘), recorri ao precio
~Ïssimo registo dêsse velho cartulário, conhecido
~pela denominação de Livro preto, onde se me
~moram as benemerências e larga generosidade
~do bispo D. Miguel Páiz Salomão, na recon
~struj4o da sua catedral.
~‘ Tal registo fôra publicado çm 1854 pelo meu
~~ilustre parente Dr Miguel Ribeiro de Almeida
‘-e Vasconcelos, na sua.muito erudita e apreciá
;uvel—Noticia lzistorica do mosteiro de Vacariça,
:doado à Sé de Coimbra em 1094, e da serie chro
~noiogica dos bispos desta cidade desde zo6~, em
-

‘que foi tomada aos mouros (2). -

(9 Pâgs. 51 e segs.
(~) Fascículo 2.°~ págs. 77-82.