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Sé-velha de Coimbra

se reúnem os corações dos fiéis que entram


naquela igreja, esclarecidos pela fé religiosa e
patriótica, e aquecidos pelo fogo da caridade 11
cristã.
~Avè, altar venerando, monumento sagrado
da Religião e da Pátria! O arquitecto delmeador do templo
e os mestres construtores

Ao do presente
estudar trabalhoda(1),Sé-velha,
as origens recorri aonoprecio
vol. 1
síssimo registo dêsse velho cartulário, conhecido
pela denominação de Livro preto, onde se me-
moram as benemerências e larga generosidade
do bispo D. Miguel Páiz Salomão, na recon
strução da sua catedral.
Tal registo fôra publicado em ‘854 pelo meu
ilustre parente Dr. Miguel Ribeiro de Almeida
e Vasconcelos, na sua muito erudita e apreciá
vel—Noticia historica do mosteiro de Vacariça,
doado à Sé de, Coimbra em 7094, e da serie chro
nologica dos bispos desta cidade desde zo6~, em
que foi tornada aos mouros (2).

1. (~ Págs. s~i e segs.


(~) Fascículo 2.a, págs. 77-82.
68 Së-velha de Coi,nbra 1! O arquitecto delineador etc. 69

Já antes desta publicação, havia dado notícia tres que os dirigiram, o custo dalguns utensí
encomiástica de tão interessante registo REBÈLO lios do culto preciosos, adquiridos pelo bispo, etc.
DA SILVA in A Epoca (1) e in O Panorama (2), Publiquei no méu livro, em nota (~), aquele
tendo tido conhecimento dêle por uma cópia registo do Livro’ Preto, aproximando dêle a come
tirada e comunicada pelo Dr. Miguel Ribeiro moração necrológica de D. Miguel Salomão, que
de Vasconcelos. se lê nó Livro dás Calendas (2). O referido re—
Depois tem sido aproveitado por quase todos gisto e’ ‘esta comen-ioração reportam-se evidente-
os escritores, que hão feito referências às origens ¶ mente a hmà única fonte, um diploma que
da Sé-velha, tais como SIMÕEs DE CA5TRO existia no cartório do cabido, e tinha por título
FELIPE SIMÕES (4), BORGES DE FIGuEIRED0 (5), etc. —,Miiutatio testameútornm, redigido quando
Comentado e apreciado em vários tons pelos ,se aproximava a morte do bispo D. Miguel
escritores que dêle se ocuparam, êsse registo~ (t 5 ag. i i8o), quando ainda corria a construção,
com as interessantíssimas notícias que contém, sendo já bispo de Coimbra D. Bermudo (1177-
veio projectar grande luz sôbre a história dos -1182), talvez ‘na primeira metade do ano de i i8o.
inícios da veneranda catedral. Ficou bem assente 4 Pata esta publicação dos dois textos, eu podia
a época em que a construção se efectuou, o grande tirar cópia do’ livro de Ribeiro de ‘Vasconcelos
impulso que deu à obra o bispo D. Miguel quanto aó primeiro, e pai~a trasladar’ o segundo
Salomão, em cujo pontificado (1162-1176) se rea bastar-me-ii o apógrafo ‘do século XVII do Livro
lizaram os trabalhos na máxima parte, os mes das Calezidas, existente na biblioteca da Univer
sidade; mas não quis. Recorri aos dois códices
(‘) Vol. ~O84g), págs. 281 membranáceos medievais, arquivados na Tôrre
(2) Vol. X (1853), págs. Ir e r8.
(3) Guia histórico do via/ante em Coimbra (‘867), pãgs. ‘86 ‘~de Tombo, o Livro preto e o Livro das Calendas,
e segs.; e na 2. edição (LSSo), pàgs. 143 e segs.
(4) Relíquias da architeciura ro~nano—by~antina em Portugal
(1870), pág. ,8. (1) Pãgs. ~
(5) Coimbra antiga e moderna (i886), págs. 124 e seg.
(9 Ad diem Non. Augusti. (5 de agõsto).
7° Sé-velha de Coimbra 11—O arquitecto delineador etc. 71

dos quais eu mesmo extrai as cópias, com todo trarain os carinhos do grande arquitecto. Outro
o cuidado, verificando depois minuciosamente a artista, mestre Ptolomeu, andou um ano a
exactidão nas provas tipográficas. lavrar um frontal dourado, certamente de prata,
Dando no texto do livro notícia do conteúdo para o altar-mór ou de Santa Maria. Esculpiu-se
daquele precioso registo, eu escrevi o seguinte:— também uma outra placa dourada, provàvel
«Da leitura e recta interpretação das preciosas mente de madeirà, menor do que o frontal, e
notas se vê, que foi encarregado, ao que parece, nela destacava a história da Anunciação de
de delinear o projecto da catedral um arquitecto, Santa Maria, para colocar sôbre o mesmo altar
que vivia em Lisboa, mestre Roberto; de dirigir -mór, ficando disposta à laia de retábulo ou pre
a execução em Coimbra foi incumbido mestre dela, inter crucem ei altare; mas não foi regis
Bernardo. Êste superintendeu como mestre na tado o norfie do ~rtífice que a executou. E havia
obra durante dez anos, ao fim dos quais, fale ainda outra tábua do altar, de prata, ao que
cendo, foi substituído por mestre Soeiro, que parece antiga, que o bispo mandou aumentar
levou a construção ao fim. Durante ésse tempo, para se adaptar ao retábulo, dando para isso
mestre Roberto, provàvelmente autor do pro 7 marcos e meio de prata. Figura também neste
jecto, fez quatro vezes a viagem de Lisboa a apontamento o nome dum quinto artista, o ouri
Coimbra, onde se demorava temporadas, a visi ves Félix, que lavrou um gomil e respectiva
tar e inspeccionar as obras, e a fazer as suas bacia para serviço d& missa. Não diz, infeliz
advertências, a dar as suas instruções, ia melio mente, os nbmes dos ourives que fizeram o cálice
rarel in opere et in jt’ortali ecclesiae—para que e a cruz do altar, ricos objectos, os mais precio
o edifício ficasse melhor, o mais perfeito possí sos do templo, ambos de ouro puríssimo, custea
vel, em tôda a obra e particularmente no portal dos pelo bispo D. Miguel. A preciosíssima cruz
da igreja. Quere isto dizer que, merecendo-lhe é minuciosamente descrita.
muita atenção todo o edifício, foi na fachada «Relacionemos agora os dispêndios dêste pre
príncipe que mais especialmente se concen lado com a edificação da catedral, e.com a aqui-
72 Sé-oejlja de Coimbr
li—o arquitecto delinçador etc. 71

sição de alfaias para ela registados no documento


de púrpuras, de preço de ~oo-morabitinos; uma
transcrito no velho cartulário do cabido.
casula comprada por 25 morabitinos; quantidade
«Para as obrasde construç~~ da sé deuD. Mi
de tecidos chamados bracacs ou bragaes, ava
guel em dinheiro, durai~e o seu episcopado,
liadds em 500 morabitinos.—Pagou a mestre
2.000 morabitinbs, e depois de ter resignado a
Bernardo, durante os dez anos em que êste super
mitra ainda mandou rivais 2400.—Ofereceu, para
intendeu nas obras, 124 morabitinos, àlém dos
trabalhar no serviç~ das obras, uma junta de
alimentos cotidianos, e uma roupa em cada ano
óptimos bois, avaliada em 12 morabitinos.LE1n
do valor de ~ morabitinos.—A mestre Roberto,
alfaias de prata para .ornameiitação do altar e uso
nas quatro visitas que de Lisboa veio fazer à
litúrgico dispendeu 256 morabitinos. —A cruz
obra, por cada vez pagou 7 morabitinos, ao
de ouro puríssimo com relíquias precibsas, para
todo 28 morabitinos, e mais io pela estada em
~e consérvar permanentenjente no altar da Vir
gem, custou-lhe 700 màrabitinos, dando ainda
~: Coimbra, àlém dos alimentos para êle, para os
quatro criados que o acompanhavam, e para
para ela ouro no pêso de 9 marcos e 1 onçáe
quatro cavalgaduras do seu serviço. Deu a

méia.—Era também muito rico o cálice de oui-o


puríssimo, que mandou fazer por ordem do rei
[ mestre Soeirà, que sucedeu a mestre Bernardo,
em cada ano uma roupa, um qhinal de vinho e
D. Afonso Henríquez, mas pagou das rendas
um moio de pão.—Para a construção e poli
episcopais, o qual pesava 4 marcõs, não ficando •1 -
mento da mesa do altar-mór, cdm as colunas
porém registo do custo.—Estendeuse ainda a
em que assentava, bem como dos pavimentos
generosidade de D. Miguel à doação de vários
das três ábsides, feitos dè pedras quadradas, deu
outros objectõs de utilidade litúrgica, sendo 4 40 morabitinos.—Àlérn diss6, mandõu fazer para
registados os seguintes:—uns çocos para servi
a sé um livro sacramentário e evangeliário, um
rem de sandálias nos pontificais, que custaram
cartulário, e muitas vestimentas de sêda.
2 morabitinos; quatro ornamentos ricos para as
-. «Eis o interessantíssirno noticiário, escrito
vestes litúrgicas, então conhecidos pelo nome • . despretenciosarnente na segui-ida metade do
74 Sé-veih a de Coimbra 11—O arquitecto delineador etc. 75

século xii, com um sabor de simplicidade in em apêndice (1), pelo que não é necessário fazer-
génua, que encanta, e registado no cartulário —lhe referência mais demorada.
quando decorria o século XLII. Foi pois magnâ
nimo em generosidade o bispo de Coimbra
D. Miguel Salomão, e por aqui avaliamos qual
o entusiasmo e empenho, com que impulsionou
e fez avançar a grande obra. Indubitàvelmente No dia ‘7 de agôsto de 1934, pronunciou o
foi o principal edificador da actual Sé-velha de sr. Dr. Vergílio Correia uma conferência, na
Coimbra.» (1) faculdade de Letras, aos alunos do curso de
férias, subordinada ao título—Arquitectos de
Voltando a referir-me ao assunto da con Coimbra.
strução da catedral, num artigo jornalístico Conheço esta conferência, por haver sido
publicado no Diário da Manhã (2), eu fiz publicada na Ga{eta de Coimbra (2). O título
a reconstituïção, exacta e documentada em genérico que a encima, e com que foi anunciada
parte, em parte hipotética, das origens da no programa da ,a semana do curso, aparece
actual Sé-velha, baseando essa reconstituï restringido na publicação jornalística pelo sub-
ção nas notícias preciosas do Livro preto, e -título—Os construtores da Sé-Velha. Esta fór
nos dados, colhidos pelos autores que tõem mula é que delimita realmente o assunto da
estudado e feito a história das construções conferência, que é, como não podia deixar de
arquitectónicas medievais, e que nos revelam ser, interessante.
os processos geralmente usados nessas edifi Tratando de identificar os mestres construto
cações. Éste artigo vem adiante reproduzido res da velha catedral, o erudito professor tran—

(‘) Sé.velha de Coz,,zbra, vol. 1, págs. 56~64. (‘) Pàgs. (38.) a (43).
(2) Em o n.° 1.057, de z~ de março de 1934. (2) Nr 3.232 (30 ag.), 3.233 (1 set.) C 3.234 (~ set.).
Së-vellta de Coimbra II O arquitecto delineador etc. 77

sereve em parte, em parte sumaria,o que sôbre Borgonha—a obra executada demonstra uma
o assunto escreveu Felipe Simões; depois cita e real mestria nos domínios da arquitectura, o
copia pàrte do que expus no meu livro, e que conhecimento do estilo românico na sua fase
acima fica transcrito; por fim conclue:— evolucionada, e conseqüentemente a intervenção
«Portanto, a mais do que afirmara Felipe de técnicos especializados, alheios ao meio artís
Simões; oDr. António de Vasconcelos admite a tico português do tempo»
hIpótese de ter sido Mestre Roberto o. autor do
projecto da catedral conimbricense, tendo as
suas viagens a Cpimbra intuito de vigilância e
aperfeiçoamento da obra da sua autoria.
«Esta hipótese pãrecenos contrariada, ou até Aqui ternos o erudito arqueólogo e professor
anulada, pelo reduzido número de visitas de de História da Arte na Universidade de Coimbra,
Roberto de Lisboa, e• por não poder saber-se com tôda a sua autoridade, dignando-se baixar
quando as fez, se durante o mestrado de Ber a vista para o meu humilde e despretencioso
nardo, ou já no de Sueiro, como parebeu aceitar trabalho, e até dando-lhe a honra de o criticar.
Felipe Simões, quando escr~veu :—que, a dura Parece a sua ex.a contrariada, e até anulada,.
ção das obras compreendeu ós dez anos em que a minha hipótese:
as dirigiu Meste Bernardo, e o espaço ae tempo
em que lhè sucederam Sueiro e Roberto...». i.°pelo reduzido número de visitas
Um pouco abaixo acrescehta:— de Roberto de Lisboa—4 apenas;
«Fôsse quérn fôsse o autor do ~rojecto da 2.° por não poder saber-se quando as

catedral portuguesa, Bernardo, ou um desconheL fez—se durante o mestrado de Bernardo,


cido, pois segundo uma hipótese de Afonso

se já no de Soeiro.
Duarte o projecto po:deria ter vindo de fora,
como se. diz que veio o de Alcobaça, enviado de (1) Ga~eia de Coimbra, n.° 3 232.

Q
y8 Sé-velha de Coimbra II O arquitecto delineador etc.

Sem pretensões a discutir, pois seria ridículo pode figurar-se... O architecto Bernardo, que,
que um simples curioso, um quase analfabeto sob a tuteila do mestre de Lisboa, dirigia a obra,
em arqueologia, tivesse a ousadia de querer faleceu durante ella; e o seu sucessor mestre
terçar armas com um mestre nesta sciência, seja- Soeíro. era varão menos importante, cio que
-me entretanto permitido alegar as razões que parece, etc. (1)
tive para formular aquela hipótese. A. FF.LIPE SIMÕES supõe que as vindas de mes
tre Roberto a Coimbra se realizaram depois da
Eis o problema:— morte de mestre Bernardo, quando dirigia a
~Em face da notícia do Livro preto, qual o construção mestre Soeiro, vindo. por quatro . .

papel que teve, na origem e construção da veres de Lisboa mestre Roberto para aperfeiçoar
Sé-velha, mestre Roberto de Lisboa? a obra e o portal (2).
Vejamos as opiniões dos principais escrito A. C. BORGE5 DE FIGUEIREDO diz:—O primeiro
res, que se ocuparam do assunto. architecto de nome Bernardo, e que não era um
L. A. REBÊL0 DA SILVA considera-o arquitecto mestre consuinmado, dirigiu pelo espaço de dq
de categoria e saber muito superior a mestre annos a construção... No mesmo tempo, porém,
Bernardo. Êste, apesar da importancia (para parece que tomou encargo de parte da obra outro
a epocha) da remuneração que recebia, estava architecto, Roberto, de Lisboa, o qual quatro
longe de ser um engenheiro irreprehensivel, vq~es a Coimbra foi chamado para emendar a
pois teve de ser Roberto de Lisboa quatro vqes obra, e principalmente para o trabalho do por
chamado a Coimbra para emendar a obra, e tal (3).
sobre tudo para se incumbir do trabalho do Os outros autores, que ao caso se referem,
portal. Este antecessor de Miguel Angelo tra
q~ía comsigo um estado de quatro moços e quatro
jumentos, que o bispo pelo contracto estava (1) O Panorama, vol. X, pág. 19.
(2) Relíquias da Arquitectura rornano-by~antina, pãg. iS.
obrigado a sustentar, cousa menos facil do que (3) Coimbra antiga e moderna, pág. 124.
So Sé-velha de Coi,nbra

vão repetindo o que disse Rebêlo da Silva, não


acrescentando nenhuma observação ou nota,
digna de registo.
Vê-se pois que, na opinião de todos, Roberto
não foi um simples mestre construtor, que em
parelhasse em competência com Bernardo ou
Soeiro. Arquitecto de categoria superior, de
sciência e reputação mais reconhecida, a sua
autoridade era por todos respeitada: pêlos que
mandavam construir a catedral, e pelos mestres
que dirigiam a execução da obra.
Quando surgiam dificuldades, quando ornes
tre construtor se não entendia com o projecto e
não sabia interpretá-lo, quando na obra se fazia a
cousa que desagradasse à comissão interessada,
sacrificava-se então dinheiro, não se olhava aos
incómodos e dificuldades da grande viagem, e
mandava-se vir de Lisboa mestre Roberto, que
não se deslocava sem se fazer acompanhar de
quatro mancebos (quatuor mancipiO, certamente
oficiais e aprendizes a seu serviço, e com a equi
pagem de quatro cavalgaduras (cum suis quatuor
iurnentis), isto é, alimárias de raça cavalar, muar
ou asinina, que a extensão da palavra Jumentum
dá para isso e ainda para mais.
1

ç1
1~

-4.
Á

As ábsides em restauração
11—O arquitecto detineador etc. 8i

Deve notar-se: que n~nhuma expressão do


documento nos leva a sijpor, que Roberto jàmais
tivesse o simples e-efectivo encargo de.olheiro,
de insjbector vigilante da obra, o que exigiria a
sua permanêi~cia em Coimbra, ou, pelo itienos,
freqüentes estadas morosas nesta cidade, para in
speccionar -e vigiar o andamentã dos ~traba1hos.
Imaginou o sr. Dr. Vergílio CorreIa-, ao que
parece, q~ie.eu pensava isto, atribuindo-me á-opi
nião de- que tive~sem as súas viagens a Coimbra
intuito de vigilância e aperfeiçoamento. da obra
da sua autoria Ç1). Intuito de aperfeiçoamento
da obra, tiveram, incontestàvelmente, os que
- -

requisitaram as suas vindas; vigilância não, pois


nada nos pérmite conjectui~ar que disso tivesse
Me encargo em qualquer tempo. As suas quatro
vindas de Lisboa à capital do reino, à cidade -do
Mondego, foram tôdas elas ex&aordinárias, inci
dentais, com fins especiais e de ocasião, sem pro
pósito de ~rande. dèmora, -retiiando de novo à
cidade dó Tejo, apenas dadas as suas instruções.
Eis o que se deduz da leitura do documento
\ ista interior dum ângulo da lanterna medievo. . -

(1) Gayta de Coimbra, n.° 3.232, pãg. 3., col. 2.a, ante mcd.
6
8 Së-velha de Coimbra
11—O arquitecto delineador etc. 83

e competência para resolver as dúvidas, para


emendar ps deslizes da execução, para alterar
o plano e introduzir variantes no projecto que
era obra sua, para determinar e ser obedecido
~jQuem era pois, que categoria tinha, em que pelos mestres construtores.
relações se encontrava com a obra da catedral
de Santa Maria Colimbriense, êste mestre ou
arquitecto de Lisboa, para a êle se recorrer
quando havia dúvidas ou divergências, erros a
corrigir ou dificuldades técnicas a vencer? Os documentos nada nos dizem expressa-
~Que autoridade suprema era a sua na exe mente sôbre quem foi o arquitecto-delineador
cução do projecto do edifício, para sempre se da catedral românica de Coimbra; fornecem-nos
reclamar a sua presença em ocasiões críticas, entretanto elementos, que não devemos despre
para vir de tão longe êle, sempre êle e não outro, zar, os quais nos habilitam a procurar, entre os
a-fim-de corrigir, emendar, melhorar o que se mestres que intervieram na execução, qual foi
tinha feito, e para riscar o que havia a fazer no o arquitecto autor do projecto da obra.
portal da igreja?
aBernardo? Não. Tudo nos leva a crer que,
Ainda ninguém se tinha ocupado do pro sendo realmente um bom construtor, contudo
blema assim enunciado; mas, pensando-se nêle, não era um mestre consumado, como diz Borges
ocorre espontânea e irresistivelmente esta respo de Figueiredo; a-pesar-da importância da remu
sta:— Era mestre Roberto o autor do projecto, neração, que recebia, estava longe dc ser um
do plano dessa construção, que se andava exe engenheiro irrepreensível, como opina I-{ebêlo
cutando. Bernardo, e depois Soeiro, executa da Silva.
vam o que êle tinha riscado; êle pois e só êle ~Soeiro? Mas êste, que durante a direcção
estava indicado para intervir, tinha autoridade de mestre Bernardo, provàvelmente não passava
84 Sé-te 1h a de Coimbra
li—O arquitecto delineado, etc. 85

de ser o aparelhador da obra, por morte do me nos leva a recorrer a tal explicação, a êsse des
stre foi erigido à direcção da mesma; entretanto necessário expediente? ~Se habitava em Portu
nem então se lhe reconheceu categoria, para se
gal quem com tôda a competência podia ser
sentar, como o seu antecessor, à mesa episcopal, encarregado dêste serviço, para que havia de
segundo Rebêlo da Silva anotou. Em vez dêsse
recorrer-se a um arquitecto de fora, que não teria
proveito honorífico, êle ficou recebendo, para se
à sua disposição os elementos indispensáveis
alimentar em sua casa, um quinal de vinho e para bem projectara obra, pois não conhecia as
um moio de pão em cada ano, fornecidos pela condições especiais do local, que tanta impor
adega e celeiro do bispo, sendo-lhe além diss& tância tinham para a elaboração do plano? Cha
tregue, também anualmente, como até ali a mado mestre Roberto de Lisboa, êste, numa pri
mestre Bernardo, uma roupa completa. meira visita a Coimbra, estudaria o sítio, tudo
~jUm desconhecido qualquer? Mas não é veria, tomaria os seus apontamentos, traçaria a
razoável apelar para o incógnito, quando temos. área e os perfis do terreno, observaria as condi
elementos bem significativos, que nos estão a ções de vizinhança, de acesso, de luz, etc. etc.;
apontar, com bastante precisão, quem teve a e depois, na sua loja em Lisboa, pensaria, estu
paternidade artística e arquitectónica da obra.. daria, desenharia à sua vontade, e com pleno
Mestre Roberto de Lisboa, que depois foi cha
conhecimento, o projecto da catedral. Isto é
mado uma e outra vez—id meliorárel in óperc bem mais verossímil, do que mandar vir de fora
et in portdl.i ecclésiae, é que deve ter sido o
um projecto, feito às cegas. para depois cá se
autor do projecto, para cuja execução é agora adaptar e executar.
convidado a intervir superiormente. Quanto à construção da igreja de Alcobaça,
«O projecto poderia ter vindo de fóra, coma o caso é inteiramente diferente; êsse projecto
se diz que veio o de Alcobaça, enviado de Bor— teria de vir de Borgonha, ou teria de se chamar
gonha», alega o sr. professor V. Correia.—Podia, de lá um monge-branco arquitecto, que viesse a
é verdade; amas que indício, que razão é que Portugal construir o mosteiro e igreja da ordem
86 Sé-velha de Coi,nbr~ 11—O arquitecto delineador etc.

de Cistér. A arquitectura rornânica sofreu grande


alteração no século xii, na adaptação às c~nstru
ções monásticas cistercienses. S. Bernardo, na
sua Carta de Caridade, determinou com minu
dência as condições a que dëviam sujeitar-se o~ os argumentos alegados em contrário, de
edifícios da sua ordem reformada; e os, monges duzidos, já do pequeno número de visitas de
-brancos, afastandb-se da árvore-mãe be’n’editina Roberto à obra, já do facto de se ignorar a época
na regra e na côr dos hábitos, também se afas precisa em que foram feitas?— Nenhum valor
taram na traçados edifícios que habitavam, e,,. têem.
onde exerciam com g~ande magnificência o culie’ ~Que importa que fôsse durante a direcção
divino. Para a çonstrução suntuosa de Alcobaça, de mestre Bernardo, ou a de mestre Soeiro,
certamente não iriam encarregar do projecto um que surgisse a necessidade ou conveniência
dêsses mestres românicos, que existiam em Por de requisitar a vinda do arquitecto? Nenhum
tugal, e que não poderiam traçar o edifício se interesse isso tem para o nosso caso. Sabe-
gundo as indic’açõe~ precisas e minuciosas da -se que as quatro visitas de mestre Roberto
regra de Ci~tér. Tal projecto viria naturalmente ocorreram durante o pontificado de D. Miguel,
da sede da ordem, onde havia monges-arquitec por isso desde 1162 até 1176. Neste período
tos especializados nas construções, em confor se realizaram os trabalhos preparatórios para
midade com os preceitos de S. Bernardo. Não a construção, e se executou em grande parte
há paridade pois entre os dois casos—a constru a edificação da catedral. É o que pode averi
ção de Santa Maria Coliinbriense e a de Santa guar-se.
Maria Alcobaciense. Nas construções medievais encontram-se
Só quem quiser obstinadamente cerrar os casos de ser o próprio mestre delineador do
olhos à luz da evidência, é que poderá contestar projecto, quem ficou a dirigir os trabalhos de
o que fica exposto. execução, auxiliado por um outro mestre, o
88 Sá-ve lis a de Coimbra 11—O arquitecto delineador etc.

aparelhador, que em linguagem moderna de desacertos, e, terminada a sua missão, retirava-se


nominaríamos o encarregado da obra. É o que com a comitiva para Lisboa.
parece ter sucedido em 5. Tiago de Compo ~Quatro visitas, nestas condições, seriam
stela, obra principiada em 1074 ou io~~; nela poucas? Foram as necessárias. A viagem era
se encontra, nos primeiros tempos, a dirigir longa, difícil, incómoda, perigosa. Só por grande
superiormente os trabalhos, Bernardo, o rnagí necessidade podia empreender-se. Foi requisi
sier mirdbiliç, tendo por companheiro na direc tado sõmente quando não podia adiar-se, quando
ção da obra Rolberlo. não podia deixar de ser: quatro vezes, porque
Mas isto não é vulgar. Os grandes mestres, não puderam ser apenas três ou duas. aPoucas?
os arquitectos prõpriamente ditos, delineavam A mim parecem muitas.
os edifícios; outros mestres, mais modestos, E a demora em Coimbra não era grande
executavam ou dirigiam as construções. Na de cada vez~ o tempo necessário apenas, vI
obra da catedral de Coimbra, quem dirigiu a ineliorá rei iii ópere cl portáli ecclésiae. Não
edificação foi mestre Bernardo, durante dez vinha para dirigir a construção, senão para
anos, até morrer; mestre Soeiro daí em diante, ver, aconselhar, dar indicações, a-fim-de ficar
até ao fim, cêrca de doze anos. melhor, o melhor possível, o edifício. De tô—
Mestre Roberto nunca fez estada larga, demo das as vezes, foi o bispo quem custeou as des
rada, em Coimbra, a superintender na constru pesas da alimentação dos homens e dos ani
ção. Requisitado, vinha, mas as suas visitas eram mais, durante a estada. Dispendeu com isto,
breves, as suas estadas transitórias, segundo se ao todo, ro morabitinos, o que corresponde.
depreende da referência a elas, lançada no car em média, a 2 2 morabitinos por cada vez.
tulário da sé. Chegava com os seus companhei Embora seja, para o tempo, importância con
ros, e com os animais de transporte; visitava a siderável, não se compadece esta notícia com
obra, dava as suas instruções, debuxaria qual a hipótese de longas estadas, durante meses,
quer pormenor, resolvia as dúvidas, corrigia os em Coimbra.
90 Só-velha de Coimbra 9z
11—O arquitecto cteliueador etc.

Àlém da verba para alimentos, o bispo tam da Silva 1:51o morabitinos ao todo!!! A repe
bém deu uma gratificação a mestre Roberto, por tição intencional e normalíssima do número 7
cada viagem. Eis o que diz a nota do Livro não pode embaraçar ninguém, medianamente
Preto:—Magistro roberto dc lisbona qui nenil .
versado na leitura de documentos medievais.
ibi per quatuor nices ut ix el/orarei iii opere & Sem ficar lugar a qualquer dúvida, o que o
&~ portan ecciesic per unamquamque 11/cem documento diz é que D. Miguel, iii episcopatu
septem scp tem mora bitinos dedil episcopus
ia», isto é, no período que vai de i 162 a 1176,.
Michaël em que exerceu o episcopado, deu a mestre
Comentando êste período, Rebêlo da Silva Roberto sete morabitinos de cada urna das qua
escreveu:—~<Além da cevada, do pão, e da carne tro vezes, que êste veio a Coimbra; ao todo por
e vinho necessarios para o consumo dos homens tanto as gratificacões que recebeu do bôlso par
e dos asnos, o mordomo episcopal pagou a me ticular do bispo não foram àlém de 28 morabi
stre Roberto a somma avultadissima, visto o tinos, não falando nos io morabitinos em que
preço do dinheiro naquelle tempo, de 1:5 io mo importaram os alimentos.
rabitinos 2:416—000 reis! » Apesar do grandíssimo valor, que a moeda
Nada direi desta correspondência, calculada tinha naquele tempo, é certo que não parece
pelo insigne escritor, em que cada morabitino. muito generosa remuneração, màrmente a pes
representa o valor de i.t6oo réis. Está êsse assunto soa de tão alta categoria profissional. Note-se
fora dos meus intuitos, neste momento. Obser porém que o Livro preto não regista os venci
varei porém que me causou grande espanto êste mentos que do cofre da obra recebiam os que
êrro inexplicáveL_onde o documento diz 7 nela trabalhavam, mas sàmente os dispêndios
rabitinos de cada uma das ~ vezes, leu Rebêlo voluntários e generosos do bispo D. Miguel,
em benefício da catedral em construção. Pelas
ementas do cartulário nós sabemos o que o pre
(1) O J’anorama, vol. X (I853~, pãgs. ii e segs.
lado do seu bôlso dispendeu graciosamente, não
92 Sé-velha dc Coimbra
11—O arquitecto delineador etc.

o que a comissão da obra gastou do respectivo destinadas à edificação—doações do rei, da famí


cofre com os serviços da mesma. lia real, do clero, da nobreza, das corporações,
Assim é que, por exemplo, sabemos que dos particulares—deixas testamentárias—esmo
D. Miguel Salomão deu, para as despesas de las recolhidas nos peditórios em tôdas as igrejas
construção, por da diocese—algumas contribuïções que o rei por
uma primeira ventura mandasse aplicar a êste fim, etc. Dêsse
vez 500 mora cofre saíam as verbas para pagar o material e
bitinos, depois para remunerar o pessoal; dali saïria também a
i.~oo que en remuneração devida ao arquitecto Roberto. Men
tregou a Mar ciona-se apenas, em elogio do bispo, a quantia
tim Senior (cer que êste deu do seu bôlso particular, ou das
tamente um dos rendas da mitra, que êle então administrava.
da comissão Uma gratificação espontânea e privada nada
administrativa); mais. O intuito do clérigo que lançou estas
e após a renún ementas, foi simplesmente registar as genero
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d). Esbôço dc triangulação do templo, comôço
cia da mitra em sidades de D. Miguel, não cogitou de descrever
de estudo de A. Gonçalve, 1177, entregou os dispêndios da obra.
ainda a Nuno E assim ficam aclaradas as razões que tive,
Gutiérriz (outro administrador) yoo morabiti ao fazer a minha reconstituïção hipotética, mas
nos, e doutra vez ao mesmo, em presença do verossímil e creio que bem fundamentada.
bispo D. Bermudo, 500 morabitinos; o que
soma a grande importância de 3.200 morabi
tinos. Não há indicação da aplicação que se
deu a estas quantias: entraram no cofre das
obras, onde eram recolhidas tôdas as receitas