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A TEORIA DE MARX E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A FORMAÇÃO

CRÍTICA DO SERVIÇO SOCIAL BRASILEIRO.

1
Emilene Oliveira de Bairro
2
Leonia Capaverde Bulla

RESUMO
Este artigo apresenta algumas reflexões sobre o processo de
construção do Serviço Social brasileiro e sobre a Teoria de Marx,
enfatizando a importância dessa teoria para o entendimento da
realidade contemporânea da sociedade capitalista. Tem como
objetivo dar uma contribuição para a construção do Serviço Social
brasileiro e sua apropriação da Teoria de Marx. Destaca-se que tanto
o Método Dialético-Crítico como a Teoria Marxista são transversais à
formação profissional em Serviço Social e a esse artigo, que discute
alguns aspectos da sociedade capitalista e seus rebatimentos na
profissão e na população brasileira.

PALAVRAS-CHAVE: Teoria de Marx; Serviço Social; Sociedade


Capitalista.

ABSTRACT
This article presents some reflections on the process of construction
of the Brazilian Social Work and on the Theory of Marx, emphasizing
the importance of this theory for the understanding of the
contemporary reality of capitalist society. It aims to make a
contribution to the construction of Brazilian Social Service and its
appropriation of Marx's Theory. It is noteworthy that both the Dialectic-
Critical Method and the Marxist Theory are transversal to the
professional formation in Social Service and to this article, which
discusses some aspects of capitalist society and its refutations in the
profession and in the Brazilian population.

KEYWORDS: Theory of Marx; Social Work; Capitalist Society

1
Bacharela em Serviço Social (UNIPAMPA), Mestra em Serviço Social (PUCRS) e Doutoranda em Serviço Social
(PUCRS); emilene2010@yahoo.com.br.
2
Assistente Social, Professora Colaboradora do Programa de Pós-Graduação de Políticas Sociais e
Serviço Social (UFRGS); lbulla@pucrs.br.
1. INTRODUÇÃO:

Do ponto de vista teórico-metodológico, é problemático entender a


sociedade contemporânea atual sem fazer uma leitura crítica das nuances do que
acontece no cotidiano vivido e do que ocorreu no passado, distante mas, ao mesmo
tempo, tão presente. Entender a realidade social a partir da Teoria Marxista, mesmo
com suas diversas correntes expressas nestes 100 anos de Revolução Russa
(1917-2017), mostra quanta diversidade perpassa o cotidiano de milhares de
sujeitos que se utilizam dessa leitura para analisar a sociedade de classes3.
É relevante a reflexão que, nem todos os sujeitos mesmo não se
reconhecendo enquanto pertencente à classe proletária, ele está situado nela. As
classes sociais existem e percebe-se concretamente essa divisão, que existe na
sociedade capitalista ao longo da sua história. “A divisão da sociedade em classes, a
propriedade privada do solo e dos meios de produção, não são pois de modo
nenhum um produto da “natureza humana”. São o produto de uma evolução da
sociedade e das instituições econômicas e sociais” (MANDEL, 2015, p. 16). Esse
produto é expresso nas múltiplas faces de dominação dos meios de produção pelos
capitalistas, detendores do capital. A banalização na era do capitalismo4 selvagem,
faz com que as situações do dia-a-dia se transformem em coisas “banais” como a
violência contra a mulher, estupros coletivos, perda de direitos, falta de professores
e de merenda nas escolas, entre tantas outras barbaries sociais.

Porque essa massa de proletários não tem liberdade de escolha – a não ser
a escolha entre a venda da sua força de trabalho e a fome permanente – é
obrigada a aceitar como preço da sua força de trabalho o preço ditado pelas
condições capitalistas normais no mercado de trabalho, quer dizer, o
mínimo vital socialmente reconhecido. O proletariado é a classe dos que
são obrigados, por essa coação econômica, a vender a sua força de
trabalho de maneira mais ou menos contínua (MANDEL, 2015, p. 42).

3
“Com a teoria marxista, a consciência de classe operária encarna-se numa teoria científica de nível
mais elevado. Marx e Engels não descobriram as noções de classe social e de luta de classe. [...]
explicaram de forma científica a origem das classes, as causas do desenvolvimento das classes, o
fato que toda a história humana pode ser explicada pela luta de classes e, sobretudo, as condições
materiais e morais sob as quais a divisão da sociedade em classes pode dar lugar a uma sociedade
socialista sem classes (MANDEL, 2015, p. 74, grifos do autor).
4
“O capitalismo é um sistema específico de domínio de classe, caracterizado pela propriedade
privada dos meios de produção, pela concorrência, pela produção mercantil genralizada, pelo caráter
mercantil da força de trabalho, pela inevitabilidade das crises periódicas de sobreprodução
generalizada” (MANDEL, 2015, p. 106).
Dito isto, considera-se aqui que existem sim diferentes classes sociais, mas
que a lógica do capital, que é cada momento mais excludente e travestida de crises,
provocadas pelo próprio sistema, culmina na culpabilização do povo por essas
ações. O capital se reinventa na realidade objetiva dos seres vivos, e aqui salientam-
se os seres humanos e a própria natureza que pede socorro, e isso mostra-se nos
desastres ocorridos pela ganância, pelo fetiche do poder e do dinheiro, que lança
mão de qualquer ação para conseguir o que deseja, citando o caso da cidade de
Mariana/MG no ano passado.
A humanidade se desumaniza, cada dia mais, e a velocidade da exploração,
dominação, convertidas e apresentadas cotidianamente pelo racismo, homofobia,
machismo, desigualdades sociais aflora numa barbarie social sem precedentes.
Muitas vezes, não se vê qual o próximo passo para a construção de uma outra
sociedade, pois muitos passos já foram tentados e experenciados ao longo dos
anos, as tarefas foram sendo colocadas em prática e as transformações foram
ocorrendo, mesmo que distante do ideal ou do sonho de outra sociedade, mas
existem em diversos países do globo, experiências que mostram que é possível.
Pois, “toda revolução é um processo complexo e demorado” (TONET, 2012, p. 40).
É importante também observar que muitas críticas feitas a diversos países, e
aqui incluindo o Brasil, suscitam reflexões sobre os caminhos trilhados que não
deram certo e nos desafiam a buscar alternativas, novas vias por onde se deveria ir.
Mas é inegável que algumas mudanças ocorreram, principalmente, nas políticas
públicas, como saúde, educação, habitação entre outras. O que acontece, é que a
aliança, feita com usurpadores do sistema social, faz com que o olhar coletivo seja
esmagado pela poderosa mão do individualismo, marca registrada do sistema
capitalista, isto sim é inegável.
Como estamos inseridos no sistema capitalista5, e até destruí-lo, só serão
feitas reformas. Essa é a grande contradição do sistema: estamos engolidos pelo
sistema que explora, oprime e realmente deprime. Pois, convenhamos é essencial
salientar: quem luta diariamente contra o sistema e mesmo não sabendo muito bem
como lidar, é desgastante. Isso pode ser visto e presenciado no cotidiano de quem
tem participado das manifestações após o Golpe de 2016, as marchar e atos Fora

5
“[...] o sistema capitalista, sobretudo nos períodos de crise, produz e reproduz fenômenos como
fascismo, o racismo, os golpes de Estado e as ditaduras militares” (LÖWY, 2015, p. 663).
Temer, tem uma veia de unificar as massas6, mas isso não se completa, muito pelo
fato, de como foi dito no início do texto, existem diversas correntes, e essas
correntes de “esquerda” fazem leituras aproximadas ou discordantes, dependendo
do olhar de cada sujeito, mesmo todas as direções se filiando, por exemplo, a um
pensamento marxista.
Essa não “unificação das massas” corrobora para o enfraquecimento da luta.
Essa realidade evidencia-se nos atritos para aproximação entre os partidos políticos
de esquerda e os movimentos sociais, como um todo, que se organizam tendo em
vista as suas demandas. Mesmo que a luta seja contra a reforma da previdência,
existe no momento orgânico de cada coletivo, as suas pautas especificas que
podem ou não fragmentar a luta. Então é uma diversidade de demandas e lutas
cotidianas que perpassam o furor das massas. As vezes, existem momentos e
pautas que unificam. Mas, ainda assim, percebe-se que cada um veste a sua
camiseta, ou seu boné, com a ideia de representar o seu bloco de lutas. Não se quer
dizer que esse fato desfaça o poder que tem a luta de massas na rua. Percebe-se,
porém, um furor e atrito nessa relação, pois ainda não se sabe bem como lidar e
como puxar um levante firme, com base sólida e que seja realizado pelo povo, com
o protagonismo do povo. Essa falta tem sido sentida nas marchas recentes do
Brasil. Fala-se isso, a partir de nossa própria observação e experiência.
Esse olhar de transformação, que se espraia numa vontade fugaz de mudar
o mundo, e o contexto global, de perda de direitos e graves retrocessos, é percebido
e vizualizado com base na leitura de marxistas que, junto com as obras de Karl
Marx, não medem esforços para contribuir para a análise da realidade capitalista.
Realmente, para entender a realidade brasileira e o mundo, fazendo análise da
conjuntura, torna-se primordial a apreensão da Teoria Marxista e seu Método
Dialético-Crítico que tem embasado o Serviço Social brasileiro.

2. SERVIÇO SOCIAL E A TEORIA DE MARX

Todo esse olhar vínculado a uma perspectiva crítica para entender a


sociedade é resgatado e fomentado dentro do Serviço Social brasileiro, isto é

6
“Do ponto de vista da luta de classe, é necessário favorecer uma política de frente única operária; é
necessário combater todo o acordo político com partidos burgueses mesmo de “esquerda”, que põe
em causa a independência política de classe do proletariado” (MANDEL, 2015, p. 131).
importante frisar, pois a profissão, de forma hegemônica, mas não homogênica, filia-
se à Teoria Social Crítica Marxiana e Marxista, de forma geral, fundamentada numa
perspectiva de transformação e mudança social, com vistas a emancipação do povo.
Dessa forma, os Assistentes Sociais, por meio das suas instâncias representativas
como o conjunto CFESS/CRESS, ABEPSS e ENESSO se posicionam no seu
cotidiano, durante seus múltiplos processos de trabalho, em sala de aula, em
debates, em redes sociais, entre tantos outros espaços, de forma coletiva junto com
a classe trabalhadora e o povo de forma em geral, organizados ou não em partidos
políticos, movimentos sociais, entidades civis e demais espaços de articulação da
classe.
É salutar demarcar, que esse olhar aqui expresso, neste artigo é inspirado
nas obras de Marx e de seus seguidores, mas também, na militância e experiências
de participação em movimentos sociais, dos assistentes sociais e de alunas (os) do
Serviço Social, portanto, o embasamento teórico é fomentado na realidade concreta
dos sujeitos que vivenciam as mazelas sociais e sobrevivem em meio a sociedade
desigual capitalista. “A desigualdade dos rendimentos e das fortunas não é um fato
unicamente econômico. Implica uma desigualdade ante as possibilidades de
sobrevivência, uma desigualdade ante a morte” (MANDEL, 2015, p. 11). Torna-se
imperioso resistir e lutar, diariamente, contra o sistema excludente em que se vive.
O papel fundamental da Teoria elaborada por Marx e Engels, além de ajudar
a entender a realidade social, contribui com um olhar crítico sob a sociedade. E
assim, o Serviço Social durante a sua trajetória no Brasil aproxima-se e apropria-se
dessa malha de marxismos, aglutinados na acadêmia e nos diversos espaços onde
ela, a teoria, perpassa. Por isso, entender o processo construído, a muitas mãos,
pelo Serviço Social no Brasil, é aproximar-se da vertente da Teoria Social Marxiana
e dos diversos marxistas.
Então, para entender a profissão e sua relação com a sociedade capitalista,
é preciso conhecer seu contexto histórico e o movimento dialético constante, até
chegar ao que ela é hoje, uma profissão que luta/resiste constantemente pelos
direitos sociais, políticos, civis e humanos. “O Serviço Social brasileiro é uma
construção histórica e coletiva da categoria profissional, de várias gerações de
assistentes sociais que contribuíram para isso” (MARTINELLI; RAICHELIS;
YAZBEK, 2008, p. 6). Mesmo a profissão apresentando uma aproximação com a
Teoria Social de Marx, que data dos anos 1960, mas de forma inviesada, é nos anos
1980 que categoria profissional passou a se debruçar com mais êxito e firmeza
sobre essa leitura.
Por meio de estudos bibliográficos, sabe-se que até a década de 1970 é
incipiente falar de Marxismo7 puro, “original” de Marx, no Serviço Social brasileiro.
Observa-se que, a partir da década de 1980, ocorre o protagonismo de um Serviço
Social crítico, aliado à classe trabalhadora e contrário ao sistema capitalista. Pois,
demarca-se que “[...] a teoria social de Marx passa a ser articulada de maneira mais
efetiva com a profissão, por intermédio, inicialmente de Iamamoto em 1982 no livro
Relações Sociais e Serviço Social no Brasil [...]” (MORAES, 2013, p. 249). Esse
apontamento foi feito também por José Paulo Netto, na apresentação do livro
“Renovação e Conservadorismo no Serviço Social: Ensaios Críticos” (IAMAMOTO,
2008).
Aliada a essa leitura, está a vinculação direta, da Teoria Social Crítica de
Marx com o Serviço Social brasileiro e seu Projeto Ético-Político Profissional
(PEPP), que tem como base a transformação social com uma direção/orientação
social, ética e política da profissão. Essa leitura foi fortalecida e passou a
fundamentar a profissão nos anos 1980, o momento de consolidação de um Serviço
Social crítico frente à realidade social brasileira. Conforme sustenta Netto, “a
existência deste “Serviço Social crítico” – que hoje implementa o chamado projeto
ético-político – é a prova conclusiva da permanente atualidade da Reconceituação
como ponto de partida da crítica ao tradicionalismo [...]” (NETTO, 2005, p. 18, grifos
do autor).
As construções e contribuições cotidianas do Serviço Social por meio de seu
processo histórico de ruptura com o tradicionalismo de sua gênese e de crítica ao
modelo capitalista, consistem na construção de um perfil profissional, em que a
apreensão da realidade é feita em situações cotidianas, em relações sociais e nas
expressões de luta e resistência, frente às desigualdades vividas pela população. É
com essa concepção que o Serviço Social brasileiro vislumbra a transformação
social. Consolidando-se “[...] a partir da década de 80, os setores críticos (em geral,

7
Nas palavras de Lênin: “O marxismo é o sistema das ideias e da doutrina de Marx. Marx continuou e
completou as três principais correntes de ideias do século XIX, que pertencem aos três países mais
avançados da humanidade: a filosofia clássica alemã, a economia política clássica inglesa e o
socialismo francês [...]” (LENIN, 1987, p.16-17).
respaldados na teoria marxista) assumem a vanguarda da profissão” (SANT’ANA,
2000, p.80), e buscam fomentar a articulação entre teoria e método, expressa nos
diversos processos de trabalho.
Esse processo de amadurecimento que transcorre no Serviço Social é
constitutivo da formação profissional. Dessa forma é essencial afirmar que, o Projeto
Profissional da categoria, encontra-se comprometido com a emancipação política, e
tem como horizonte final a emancipação humana (BRAVO, 2009), e vincula-se a um
novo projeto coletivo de sociedade. Esse amadurecimento é fortalecido com a
contribuição da pesquisa na área de Serviço Social, com as produções de
conhecimento na pós-graduação e, também com os documentos da Lei da
Regulamentação da Profissão (BRASIL, 1993), do Código de Ética Profissional
(CFESS, 1993) e das Diretrizes da ABEPSS (1996).
O Serviço Social como as demais profissões, sofre os rebatimentos da
sociedade do capital e da barbárie. Mas como uma profissão cuja direção é social e
política, se propõe a apreender as contradições existentes no mundo do trabalho,
contradições essas que afunilam os direitos dos trabalhadores, conquistados por
meio da luta e organização dos mesmos. Essas contradições “[...] do processo de
produção entre forças produtivas e relações sociais correspondentes vai gerando
consciência do processo de exploração. O homem ao tomar consciência desse
processo e das leis histórico-sociais [...]” (QUIROGA, 1991, p 73), se descobre e
observa possibilidades de intervenção na realidade. Sendo assim, o Serviço Social,
como uma profissão, intervém nas múltiplas expressões da Questão Social, durante
o seu exercício profissional e seus múltiplos processos de trabalho, em que busca
materializar seu Projeto Ético-Político. Por conta disso, o assistente social, como
trabalhador assalariado e inserido em espaços institucionais, encontra-se, por vezes,
“amarrado” aos desafios e interlocuções ditados pela instituição empregadora, pois a
função e direção social da profissão apresentam-se na contra-corrente institucional.
Por isso, é deveras importante essa articulação que o Serviço Social foi
desenvolvendo e aprimorando com a Teoria de Marx e seus seguidores, para
entender todo esse emaranhado que é a sociedade de classes. Pois o assistente
social encontra-se inserido no mundo do trabalho e aglutinado ao sistema capitalista.
Vai, dessa forma, traçando estratégias de intervenção na realidade concreta, de
forma a questionar, propor e buscar por processos sociais emancipatórios e assumir
uma postura crítica frente à realidade social, e contribui de forma coletiva para as
ações que fomentem uma possível mudança social. O assistente social necessita
estar em constante aprimoramento e qualificação permanente para intervir na
realidade, assim, ser um agente de transformação.
Sempre é necessário frisar que o Serviço Social é uma profissão inserida na
divisão social e técnica do trabalho, e se põe na “contra mão” do sistema capitalista,
explorador e dominador, que aliena a população, precariza o trabalho e os
trabalhadores e assola os direitos já conquistados. E os profissionais encontram-se
em espaços contraditórios, inseridos em diversas áreas e instituições, com seus
determinantes estruturais que acabam por sufocar e burocratizar os serviços e os
direitos da população. Por isso mesmo, cabe ressaltar, que o Serviço Social, como
profissão, não fará “revolução”. Mesmo sendo uma profissão que tem um diferencial
enorme, por encontrar-se ao lado da classe trabalhadora e de seus direitos, e
vincular-se a uma Teoria Crítica de Revolução que visa o Socialismo, ainda é uma
profissão. Porém, “[...] a perspectiva de revolução é central para o reconhecimento
da possibilidade histórica de superação das contradições constitutivas da
sociabilidade burguesa e do próprio Estado, [...]” (CLOSS, 2015, p. 190).
O Serviço Social é uma profissão que valoriza a vida, e a sociedade justa,
no entanto não faz revolução, mas luta constantemente junto a população de forma
coletiva, para romper as amarras do capitalismo, de uma forma particular e coletiva.
“Sem dúvida, o Serviço Social, enquanto categoria profissional, não possui
condições de efetivar um processo revolucionário, dado que tal construção deve ser
fruto de um movimento de classe, coletivo e ampliado” (FREIRE, 2013, p. 52). Com
isso, se mostra que é preciso pensar num Projeto Societário Coletivo, feito a muitas
mãos, e com esforços, coragem e vontade de mudança com vários atores
envolvidos. Mas o Serviço Social contribui para a formação de uma massa pensante
de profissionais que, por meio da leitura da realidade embasada na Teoria de Marx,
possam intervir de forma mais qualificada, crítica e questionadora frente à realidade
social. Nesse sentido, o assistente social precisa estar preparado para as
intervenções e ações cotidianas, mensuradas por uma formação profissional com
qualidade e compartilhada de forma crítica e atenta ao movimento dinâmico da
realidade objetiva. Dada sua postura crítica e a intencionalidade profissional,
instrumentalizada no cotidiano de sua prática, o assistente social rompe com as
ações tarefeiras, assistencialistas e imediatistas que rondam os processos de
trabalho nas instituições e desenvolvem a capacidade de intervenção
transformadora. Pelo minímo que seja, tentando não ser utópico, na era do Capital,
algumas ações coletivas contribuem sim, de forma significativa para a mudança na
vida dos sujeitos que encontram-se em vulnerabildades. Mesmo não mudando a
estrutura do Capital, não podemos deixar de lutar por uma outra sociedade, mesmo
que mínima sejam essas mudanças.
Conclui-se esse artigo com a certeza que é preciso apreensão teórica de
forma crítica para entender o que ocorre na sociedade do capital, mas tendo a
clareza que se visa a mudança da sociedade. Essa mudança da sociedade se
vislumbra por meio de um outro modo de vida, uma realidade para além do capital e
que o povo seja livre da exploração, dominação e qualquer forma de desigualdade.
Cabe destacar, que a superação do capitalismo é um meio para ocorrer o estágio de
transição (socialismo) para o fim, o Comunismo 8 . Sabe-se que a supressão do
capital, nos dias cotidianos vivenciados parece no mínimo utópico, um sonho vago e
abstrato. Porém é importante continuar caminhando, pois, “ [...] o que marca o
socialismo é a autoconstrução humana plena, livre, social, consciente e universal”
(TONET, 2012, p. 37-38). É um longo caminho a percorrer, possivelmente, não se
verá tal estágio, mas pretende-se deixar uma contribuição para as próximas
gerações.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS:

A vinculação à construção de uma nova ordem societária, sem dominação e


exploração de classe, etnia, gênero e geração, materializa-se no Projeto Ético-
Político Profissional (PEPP) do assistente social, que tem uma direção social de
orientação marxista, e que assume um compromisso com a classe trabalhadora, de
lutar constantemente em favor dos direitos humanos. De forma coletiva, luta-se pela
construção de uma outra sociedade, para além do capital. Embora o assistente
social, por meio de sua autonomia profissional relativa, se “esbarre” nas burocracias

8
“[...] o comunismo enquanto suprassunção da propriedade privada é a vinculação da vida humana
efetiva enquanto sua propriedade é o vir-a-ser do humanismo prático; ou o ateísmo é o humanismo
mediado consigo pela supressão da religião, o comunismo é o humanismo mediado consigo
mediante a suprassunção da propriedade privada” (MARX, 2010, p. 132).
diárias das instituições, por meio de seu arcabouço teórico-metodológico, ético-
político e técnico-operativo tem condições de traçar, de alguma forma, estratégias
para uma intervenção para além do que se encontra como aparente e como
demanda imediata.
A todo momento, milhões de injustiças e desigualdades são vivenciadas e o
Serviço Social tem, em sua característica enquanto profissão inserida na divisão
social e técnica do trabalho, não o caráter salvador e messiânico, mas sim a
possibilidade de contribuir com a mudança social, em distintos atendimentos que faz
em diversos espaços sócio institucionais. E na conjuntura atual de um golpe burguês
e mídiatico, observa-se os dois lados, de uma sociedade dividida em classes. O
Serviço Social que posiciona-se de forma coletiva ao lado da classe trabalhadora e
contra os retrocessos e desmanches do bem público e dos direitos sociais,
trabalhistas da população, segue firme nas lutas diárias. Dessa forma, é interessante
conhecer a construção histórica da profissão no Brasil e suas nuances, como os
momentos de conquistas e desafios constantes enfrentados pelos profissionais que
hoje vinculam-se a um Projeto Profissional de transformação social, fundamentado
na Teoria Social de Marx.
4. REFERÊNCIAS:

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