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A arte de formar-se

Autor: João Batista Libanio

Sumário
Introdução.....................................................................................................................1
Capítulo 01 – Aprender a conhecer e a pensar..............................................................1
Capítulo 2 – Aprender a fazer.......................................................................................2
Capítulo 3 – Aprender a viver juntos, aprender a viver com os outros........................2
Capítulo 4 – Aprender a ser..........................................................................................3
Capítulo 5 – Aprender a discernir a vontade de Deus..................................................4
Conclusão.....................................................................................................................5

Introdução
O tema”arte de formar-se” dirige-se à nova geração.
“Processo educativo”, como verdadeira “maiêutica histórica”, como “descobrir um
tesouro”.
Estamos diante de um “processo educativo”.
Formar-se é tomar em suas mãos seu próprio desenvolvimento e destino num duplo
movimento de ampliação de suas qualidades humanas e religiosas e de compromisso
com a transformação da sociedade em que vive.

Capítulo 01 – Aprender a conhecer e a pensar


Estamos diante de uma geração que aprende muito.
O segredo de aprender a conhecer é saber relacionar e contextualizar.
Tudo é complexo, porque tudo faz parte de gigantesco “tecido” (plexo) com”.
Aprender a conhecer é inserir todo conhecimento no varal do passado, percebe-lo na
atualidade do presente e vislumbrá-lo em sua densidade de futuro.
Aprender a conhecer supera a tendência atual da hiperespecialização, da
fragmentação, da separação, da compartimentação dos saberes e das disciplinas, para
pensá-los de maneira polidisciplinar, transversal, multimensional, transnacional, global,
planetária.
Quanto mais desenvolvida é a inteligência geral, maior é a sua capacidade de tratar
problemas especiais.
Trata-se de ensinar a arte a aptidão para a problematização.
Ensina a pensar encontrar-se em realidades exteriores a si.
Ler é imenso privilégio.
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Aprende-se a pensar lendo os pensadores.


O mundo exterior oferece a lição das coisas e dos objetos.
As coisas podem educar-nos sob diversos aspectos.
As coisas educam-nos o sentido de observação.
Educar a observação é caminho do pensar.
As coisas educam-nos a não considerar unicamente o mundo das idéias como valor,
nobre e digno, de nossa mente humana, enquanto o mundo das coisas fica entregue à
ingenuidade dos ignorantes.
A maior lição das coisas é ensinar-nos a contemplar.
Só sabe conhecer e pensar quem aprendeu a contemplar.
Aprender a conhecer e a pensar é modificar sua atitude diante das coisas.
Pensar é analisar e sintetizar separar e unir.
A arte de pensar desenvolve-se pela nossa capacidade de relação.
Pensar é saber relacionar.
Aprender a conhecer e pensar num mundo de incertezas.
A incerteza estabeleceu-se definitivamente no campo do conhecimento.
Aprender a conhecer e a pensar nesse mundo exige abandonar todo dogmatismo.
Aprender a conhecer e a pensar num mundo complexo.

Capítulo 2 – Aprender a fazer


A relação entre aprender a conhecer e aprender a fazer se torna patente numa
perspectiva histórica.
Aprende-se a fazer captando o lado ético de todo agir humano.
O pensar histórico envolve-se necessariamente com a ética.
Quanto mais percebemos o alcance de nosso pensamento e de nosso agir, tanto maior
responsabilidade assumimos.
Há duas maneiras de aprender uma técnica, uma prática.
Aprender a fazer influencia aprender a conhecer.
Não há conhecimento sem repercussão na prática, não há prática sem conhecimento
incluído.
Entender a relação profunda, imanente, entre a necessidade do rito e a radicalidade
da experiência espiritual de fé é “aprender a fazer” novos ritos toda a vez que eles
perdem sua força simbólica manifestadora da vida.
Aprender a fazer é, portanto, captar o espírito da estratégia e da reflexividade que
permitem um refazimento contínuo do agir, à medida que os dados oferecidos pelo
ambiente o pedem e exigem.

Capítulo 3 – Aprender a viver juntos, aprender a viver com os outros


Uma primeira lição da convivência é a tolerância.
A tolerância tem dois níveis: o da idéias e das práticas.
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Em princípio, os limites da tolerância deveriam nascer do consenso racional do grupo


que se defende de sua destruição.
Aprender a viver juntos implica a capacidade de entrar nesse jogo de diálogo no
equilíbrio difícil da tolerância e de seu limite.
Aprender a conviver exige uma delicadeza respeitosa ao diferente em todas as
relações.
O lugar de aprender a conviver são naturalmente as experiências de vida em grupo,
em equipe, em comunidade, a começar pela família.
Aprender a viver juntos exige precisamente a capacidade de administrar o conflito, as
divergências, as diferenças, com alegria, paz e serenidade.
O caminho da autêntica formação para viver juntos passa por uma dupla descoberta:
a do valor próprio e a do valor dos outros.
Saber conviver transforma a vida dos companheiros de vida, de trabalho, de estudo,
de atividade.

Capítulo 4 – Aprender a ser


A sociedade ocidental vai de um unilateralismo a outro.
Aprender a ser é uma resposta a esses extremos, procurando o desenvolvimento
integral, total, da pessoa humana: espírito e corpo.
Aprender a ser hoje pede de nós uma compreensão bem mais ampla do ser humano.
A antropologia amplia-se ainda mais.
Surge a preocupação geracional.
Aprende-se a ser para a realidade presente e vindoura num espírito ético.
Aprender a ter é ocultar-se atrás das coisas. Aprender a ser é despojar-se das coisas
para revelar o próprio ser.
Uma das maneiras mais comuns de ocultamento do próprio ser é “representar”
papéis.
Aprender a ser é saber enfrentar-se na verdade de si.
Uma pobreza do ter para fazer emergir mais claramente o ser.
A alegria de ser constrói-se pela descoberta de si, de seus talentos, de suas
possibilidades nos diferentes campos da estética, do saber, das artes, das habilidades,
das técnicas, das relações humanas.
Tudo o que somos existe em relação.
Aprender a ser hoje implica uma tarefa singular de saber situar-se diante da terrível
força inculcadora dos novos meios de comunicação.
Aprender a ser hoje implica necessariamente uma postura crítica diante dessa cultura
massificada, vulgarizada, banalizada.
Na há puramente sensível no ser humano que não se culturalize pro sua capacidade
simbólica.
Aprender a ser hoje implica uma disciplina no uso dos sentidos.
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Da janela da beleza, da estética, apreciamos a realidade com outros olhos.


Todo ser é belo.
Aprender a ser inclui um cultivo das expressões de beleza.
A beleza educa também o amor.
A janela da verdade não descortina horizontes menos maravilhosos.
A verdade funda-se no próprio ser das coisas.
Aprender a ser com a janela da verdade aberta implica um duplo movimento em
relação á realidade e em relação às nossas falas. Em relação a realidade, implica uma
lutra contra o irreal, o aparente, a ilusão, os enganos que nos assaltam no lidar com ela.
A busca da verdade significa uma contínua lucidez em relação à realidade.
Há um outro movimento que se orienta aos nossos discursos.
O ser humano é, na sua radicalidade última, veraz.
Para nós, cristãos, há uma tradição da Revelação sobre a verdade.
A janela que nos abre para o bem é a ética.
O bem é a perfeição, é o que vale por sim mesmo.
Aprender a ser implica, desde cedo, uma educação para a ética.
A crise de valores tem a dupla face: teórica e prática.
Transcedência é a fonte de beleza, da verdade e do bem.
A verdade reflete os fulgores a transcendência.
Aprender a ser é precisamente encontrar o absoluto dos valores para não se entregar
a um “relativismo suave”, à construção de uma autenticidade arbitrária sem horizonte de
significação que se imponha.
Aprender a ser implica ter essa janela da transcedência aberta para o Absoluto,
presente nos valores e no bem.
As janelas superiores da beleza, da verdade, do bem e da Transcedência educam as
janelas do sentido.

Capítulo 5 – Aprender a discernir a vontade de Deus


“Aprender a” significa criar atitudes que nos dispõem para determinada tarefa.
Aprender a discernir é cultivar uma atitude fundamental de liberdade diante de todas
as coisas.
Uma face de “liberdade de”.
Aprender a discernir é investir nossas energias críticas no conhecimento dos nossos
condicionamentos, para liberta-nos o máximo possível deles.
A face positiva é a “liberdade para”.
“Aprender a discernir” é criar-se uma postura fundamental de oração.
Em termos éticos, aprender a discernir é situar-se diante da própria consciência e dos
valores autônomos numa atitude de aceitação, de confiança e compromisso.
Aprender a discernir é saber colocar-se uma atitude de busca que não termina nem
mesmo depois de ter “descoberto” a vontade de Deus.
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Aprender a discernir é saber, é conhecer na insegurança contínua de quem está a


dialogar como Mistério e nunca tem certeza clara de sua transparência.
“Aprender a” implica manter acesa a suspeita sobre si, que se concretiza toda vez que
algum dado objetivo, algum acontecimento oferece elemento para repensar a própria
posição.
Aprender a discernir é viver permanentemente nessa expectativa da novidade dos
acontecimentos, sem definir-lhes anteriormente os significados, mas sim ir captando os
que eles se vão dando, concatenando-os.
É criar uma atitude de vigilância para não misturar facilmente o que julgamos ser a
vontade de Deus e as nossas projeções.

Conclusão
Formação complexa reconhece, sim, que estamos num mundo de muitos ingredientes
atuando sobre nós.
A formação termina com a entrada na definitividade de Deus, para além da morte.