Você está na página 1de 20

g g y p

Nanotecnologia:
considerações
interdisciplinares sobre
processos técnicos, sociais,
éticos e de investigação
NANOTECHNOLOGY: INTERDISCIPLINARY
CONSIDERATIONS ON TECHNICAL, SOCIAL,
ETHIC AND RESEARCH PROCESSES
Resumo O presente texto visa refletir sobre o caráter epistemológico e metodológico
do tema nanotecnologia, sociedade e ética, mediante a contribuição das disciplinas ofe-
recidas no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, da
Universidade Federal de Santa Catarina. A leitura e a discussão de textos e livros de
expressivos estudiosos das ciências naturais e humanas, concomitantemente à parti- MARISE BORBA DA
SILVA
cipação de professores de distintas disciplinas, promovem a possibilidade de uma for-
Universidade do Estado de
mulação interdisciplinar dessa temática, pondo em relevo o desafio de dinamizar a re-
Santa Catarina (UDESC)
lação entre nanotecnologia, sociedade e ética, ao considerar as suas implicações legais, marise@matrix.com.br
políticas e sociais. Tal desafio é ainda inédito no Brasil e constitui a indagação central
de um estudo a ser aprofundado e repensado.

Palavras-chave TÉCNICA MODERNA – NANOTECNOLOGIA – NANOMÁQUINA –


ÉTICA.

Abstract The present text aims at eliciting the epistemological and methodological
character of reflections on nanotechnology, society and ethics through the contribution
of disciplines that integrate the Interdisciplinary Post-Graduation Program in
Human Sciences of the Federal University of Santa Catarina. The reading and
discussion of texts and books of expressive scholars of the human and natural
sciences, together with the participation of professors of several disciplines, allow an
interdisciplinary formulation of the theme in question. It highlights the challenge of
dynamizing the relationship between nanotechnology, society and ethics when
considering its legal, political and social implications. This challenge is still unpublished
in Brazil and is the central question that must be deepened and rethought.

Keywords MODERN TECHNOLOGY – NANOTECHNOLOGY – NANOMACHINE –


ETHICS.

Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003 75


g g y p

INTRODUÇÃO

N
os fins dos anos 60, na década de 70 e parte da de 80
do século passado, quando o Brasil era marcado por
profundas transformações no seu sistema de ensino e
influenciado por um novo modelo de crescimento e
modernização, é interessante recordar que, na forma-
ção do biólogo, sobretudo na do graduando em ciên-
cias biológicas, não eram tão latentes e graves as res-
trições éticas e legais ligadas às práticas de investigação,
por exemplo, os problemas em relação à ética ambientalista ou quanto a
questões tecnológicas. Prevalecia, na época, uma preocupação maior com
as questões ambientais associadas à preservação e à conservação do meio
ambiente, destinadas prioritariamente a estabelecer limites e visões de fu-
turo para essa área, ao passo que a idéia de uma ética de vida global não
era ainda um campo de reflexão.
Havia, no ensino das disciplinas curriculares – zoologia, botânica,
anatomia, fisiologia, genética, embriologia, histologia, física, química etc.
–, a impregnação da ciência experimental, predominando a idéia de que o
mundo é observado com base no real, no observável e no controle prático
da natureza. Assim, era comum e necessária a vivência da metodologia de
investigação pautada na capacidade do pesquisador de problematizar a reali-
dade, formular hipóteses sobre os problemas suscitados pela observação
dos fenômenos, planejar metodicamente e executar as investigações para
desvendar as causas ou os efeitos dos fenômenos, mensurar e analisar da-
dos, estabelecer críticas e fechar o ciclo com suas conclusões.
O método positivista das ciências biológicas, sem entrar no mérito
das suas contribuições à ciência, sobretudo no que diz respeito a “forne-
cer explicações dignas, bem fundadas e sistemáticas para numerosos fe-
nômenos”,1 contribuía para o pesquisador, em sua formação inicial, co-
locar-se diante de um mundo predeterminado, com suas características
físicas, biológicas e sociais a serem por ele decifradas. Esse mundo, no en-
tanto, regido por leis externas e independentes da intervenção subjetiva
do pesquisador, dificultava, desde então, uma aproximação entre as ciên-
cias naturais e as humanas, e tal distanciamento entre elas aliado ao mé-
todo positivista representavam limitações para a análise de novas ques-
tões.
A biologia, por exemplo, tinha por objeto estudar os seres vivos, a
relação entre eles e o meio ambiente, cuidando dos processos e mecanis-
mos reguladores da vida e de seus fenômenos decorrentes. Os profissio-
nais formados na área eram, assim, capacitados especificamente para atuar
nas questões que diziam respeito ao conhecimento da natureza. Não se
cogitava, portanto, ao estudar tal conhecimento, a hipótese de uma ne-
cessária interface entre ciências duras (as formais, como física, química e

1 NAGEL, 1979, p. 18.

76 Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003


g g y p

matemática, e as naturais clássicas) e as brandas Assim, com a demarcação do campo da bioética,


(as sociais e humanas), pois, de certa forma, essa no final da década de 70,5 surgiu essa nova disci-
conexão tornaria opaca ou diluiria os limites pró- plina como capaz de possibilitar a passagem para
prios de cada ciência, podendo incorrer no apa- uma melhor qualidade de vida. No Brasil, ela
recimento de questões de investigação inéditas, consolidou-se nos anos 90. Desde então, foram
com as quais não se saberia lidar fora da especia- criadas diferentes associações (como a Sociedade
lidade. Brasileira de Bioética) e a bioética foi gradativa-
À história do desenvolvimento dessas ciên- mente incorporada nos currículos das graduações
cias, contudo, veio somar-se, no final do século e pós-graduações, em especial da área da saúde,
passado e no início deste, a história das técnicas. com um triunfo construído de forma acrítica em
A essência da técnica moderna transformou de seu processo de afirmação, lacuna essa repensada
tal modo a natureza em algo diferente do que era atualmente por estudiosos, entre eles, alguns in-
anteriormente, introduzindo ações de magnitude dicados neste estudo.
bastante diversas, com objetos e conseqüências Embora tenha se processado verdadeira re-
tão novos, que o marco da ética anterior não po- viravolta no campo das ciências naturais, com a
deria mais abarcá-los.2 Hans Jonas sugere que, introdução crescente das tecnologias modernas, a
pela enormidade de suas forças, a técnica moder- possibilidade mediadora de dilemas éticos nas ciên-
na impõe à ética uma nova dimensão de respon- cias biológicas demandou, em princípio, um tempo
sabilidade,3 que não pode igualar-se à ética da mais demorado de adaptação às novas orienta-
época de Kant, uma vez que essa não era pensada ções bioéticas, no que se refere a reduzir os riscos
para levar em conta as condições globais da vida ambientais e, ao mesmo tempo, manter os bene-
humana, do futuro remoto e, sobretudo, a pró- fícios tecnológicos. O próprio Código de Ética
pria existência da espécie. do Profissional Biólogo6 não menciona o termo
Na ordem atual das coisas, o avanço das mo- bioética em seu texto, referindo-se apenas às nor-
dernas técnicas de manipulação de material bioló- mas éticas. A discussão sobre a que veio a bioética
gico humano, o fato de a vida e a civilização hu- é fundamental. Saber melhor sobre o surgimento
mana nada poderem dizer por si só, sem levar em desse campo não tem tanto a preocupação de dar
conta a artificialização4 da natureza pela cultura uma resposta ou alternativa à crise própria do nii-
(ou a desnaturalização do mundo), e a constata- lismo, mas corre o risco de ser uma das suas mais
ção de que a ciência não é infalível, nem livre de completas expressões.7 Esse impasse pode repre-
custos e lucros, e seu mau uso depende de quem sentar uma ponte entre as ciências naturais e as
a utiliza, apenas muito recentemente demanda- sociais e humanas, vislumbrando, com isso, a
ram para os biólogos, entre outros profissionais possibilidade de integração entre seus diferentes
formados nas ciências duras, a necessidade de no- aspectos, o aprofundamento de temas relativos à
vas abordagens científicas naturais, sociais e hu- sobrevivência da humanidade, da dignidade e da
manas. É importante destacar que essa liberdade humanas e uma discussão interdiscipli-
artificialização da existência suscitou novos desa- nar séria diante dos desafios dos avanços tecno-
fios éticos e culturais, que passaram a depender lógicos emergentes.
da mobilização das ações individuais e coletivas. Os recentes avanços da técnica, como tam-
bém alguns progressos científicos, têm gerado
2 JONAS, 1995. fortes intervenções na vida humana, de forma
3 Ibid.
4 Sobre isso, cf. BATESON (1997, p. 23). A autora observa que a
5 DINIZ & GUILHEM, 2002.
rotulação de determinados objetos e materiais, de comidas a fibras e
moléculas, como naturais ou não naturais gera um domínio desvirtuado 6 Conselho Federal de Biologia. Resolução n. 2, de 5/mar./02: “Aprova
do natural. Considera a natureza como algo que não acaba ou é substi- o Código de Ética do Profissional Biólogo”.
tuído e que, na verdade, tudo é natural, pois, se não o fosse, não existi- 7 <http://www.pucsp. br/fecultura/esposi01.htm>. Acesso em: 27/
ria. De acordo com Bateson, “As coisas são assim: naturais”. out./03.

Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003 77


g g y p

que “os âmbitos da técnica e da natureza come- buiu para produzir grande desenvolvimento nes-
çam a se confundir”.8 Não obstante, reconhecen- sas áreas, suscitando um espaço de reflexão que
do a vida como um valor humano ou social, agora não tem sido suficientemente aprofundado: a se-
numa condição em que se interpenetram técnica paração entre as ciências da natureza e as do ho-
e natureza, é alvo inédito dessa preocupação nada mem. Essa cisão precisa ser superada, se quiser-
menos que a inteira biosfera do planeta.9 Cresce mos efetivamente progredir nas noções especiali-
a necessidade de reflexão sobre o poder da técni- zadas por meio de um conhecimento unitário in-
ca moderna e seus efeitos, na tentativa de prever tegrado, não apenas estudando de longe o
seus benefícios ou malefícios e, também, avaliar impacto das tecnologias, a exemplo das mais
suas novas possibilidades à luz de considerações avançadas, como a biotecnologia e a nanotecno-
de ordem ética, que impliquem responsabilidade logia, cada uma em seu reduto. É preciso consi-
e conhecimento do significado do destino do ho- derá-las conjuntamente, debruçando-se sobre o
mem sob controle ou não da manipulação tecno- funcionamento dessas novidades na sociedade
lógica. (como no caso dos transgênicos), analisando a
Muitos pensadores vêm fazendo, há algum reação dos diferentes meios sociais à sua chegada
tempo, contundentes críticas às mudanças ocor- e penetração, às transformações por elas produ-
ridas nos caminhos tomados pela ciência e pela zidas e as condições de aceitação e de recusa ve-
técnica, embora o façam fundamentados na ex- rificadas nesse processo.
periência negativa de ambas. Seus recados, contu-
do, têm contribuído para o aniquilamento do dis- RESPONSABILIDADE ÉTICA E
curso tecnocrata sobre a suposta neutralidade INTERDISCIPLINARIDADE
científica e sobre o emprego da técnica e dos sa- Tomando como referência as considerações
beres como se não exigissem reflexão ou estudo feitas até aqui, parece mais evidente que a ciência
mais aprofundados. Os críticos clássicos da mo- moderna assume outro aspecto quando concebi-
dernidade e da técnica, como Heidegger, Fou- da como algo mais humano, o que permite pen-
caut, Nietzsche, Jonas, Arendt e Freud, entre ou- sar que ela é humana, pois é nossa obra, e mesmo
tros, demonstram que a técnica moderna é uma o moderno pode se quebrar.10 Nesse sentido, im-
criação do homem e que o seu poder sobre a na- porta às ciências sociais rever sua posição quanto
tureza, como nenhum outro, mudou irreversivel- à distância que mantêm da biologia, fortalecen-
mente os pressupostos da condição humana de do-se, do mesmo modo, uma convergência
maneira tal que se torna imprescindível à mais en- epistemológica entre as ciências da natureza e as
tusiasmada confiança posta na técnica, em nossa sociais e humanas. Tal aproximação torna-se uma
época, não se deslumbrar e perder de vista seu necessidade ao incremento e aparecimento de
sentido ético e sua relação com a natureza. Não objetos de pesquisa de interesse comum, a exem-
se trata de negar a técnica, e sim de repensar a re- plo das criações nanotecnológicas, influenciando
lação que com ela mantemos. a obrigatória mudança das ciências para além de
Como expressão do poder humano e da suas fronteiras e preocupações com valores her-
potência ordenadora da natureza, a técnica é um dados, que restringem, muitas vezes, o seu hori-
fenômeno essencial dos tempos modernos, capaz zonte a um sentido predeterminado.
de suplantar, como bem o fez, as técnicas de ou- Os séculos XVII, XVIII e XIX foram marca-
tras épocas. A tecnologia, em geral apoiada nos dos, sobretudo, pelo desenvolvimento das ciên-
conhecimentos da física e da química, e por suas cias naturais e, a partir do século XX, consagra-
ligações com a biologia e a comunicação, contri- ram-se as conquistas científicas e tecnologias ex-

8 KESSELRING, 1992, p. 34. 10 De acordo com a expressão de LATOUR (1994), aliás, de muita
9 JONAS, 1995. propriedade.

78 Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003


g g y p

traordinárias, especialmente no campo da biotecno- ou seja, a biotecnológica, a nanotecnológica e a


logia e da nanotecnologia. Essa última representa informática (tecnologias de informação), avanços
uma das grandes inovações tecnológicas dos últi- científicos de importância ímpar para o homem e
mos tempos, uma nova manifestação da potência para a sociedade.
humana em sua capacidade criadora, tanto de ob- Mas quais são as novas possibilidades que
jetos quanto de condições de vida. Operando despontam com a aplicação da biotecnologia e da
numa escala equivalente à manipulação da maté- nanotecnologia? Que desafios parecem se apre-
ria no nível molecular, as aplicações nanotecno- sentar? Quais dilemas éticos podem ser aponta-
lógicas visam à criação de novos materiais, subs- dos na esteira de seu desenvolvimento? Seriam os
tâncias e produtos, com uma precisão de átomo a mesmos sentimentos negativos sobre nanotec-
átomo, esperando que essa revolução na natureza nologias, sem fundamento preciso, como aconte-
da própria estrutura da matéria traga profundas ceu com a preocupação pública a respeito dos
transformações também às relações dos homens transgênicos?
entre si e com o mundo, como jamais houve. Es-
As aplicações dessas tecnologias do peque-
tamos a caminho de nos tornar menos dependen-
no à dimensão humana estão, certamente, num
tes da tecnologia na macroescala (na qual opera-
estágio muito inicial. No entanto, evidências de
mos normalmente e que não nos espanta tanto)
com o advento da tecnologia na micro e na na- seu desenvolvimento apontam-nas como domi-
noescala. nantes nas próximas décadas. Além disso, se a
possibilidade de manipular os átomos já é para o
Considerando as raízes lingüísticas da pala-
vra nanotecnologia, ela deriva do prefixo nano e é cientista algo extraordinário, imaginemos o que
uma medida de grandeza usada na ciência para isso significa para os leigos, pois uma coisa é po-
designar um bilionésimo. Assim, um nanômetro der ver os átomos e outra, bem diferente, até há
(símbolo nm) é relativo à escala nanométrica. pouco inimaginável, é poder agora manipulá-los!
Um milímetro, como sabemos, é muito peque- É natural, portanto, que essa inovação venha en-
no, mas podemos enxergá-lo até numa régua. Já volta em visões especulativas, magias e críticas de
um micrômetro (1 µm = 1 x 10-6) corresponde a todo tipo, por exemplo, a manifestada por gru-
um milionésimo do metro e a um milésimo do pos de pressão ambientalistas em relação à bio-
milímetro e, por sua vez, um nanômetro (1 nm = tecnologia e, com eco muito mais forte, à nano-
1 x 10-9 m) equivale à bilionésima parte de um tecnologia. Outros argumentos ainda discutíveis,
metro, ou seja, a um milionésimo de milímetro tratando-se desse assunto, colocados pela mídia,
ou, ainda, a um milésimo de mícron. são de que as nanotecnologias poderão nos brin-
O mundo nano, portanto, não se trata de dar com a imortalidade, possibilitando congelar o
algo naturalmente assimilado por todos nós. É corpo humano após a morte e utilizar robôs mo-
possível afirmar, com segurança, que sobre essas leculares capazes de reverter os danos celulares
tecnologias tão pequenas, ínfimas, praticamente que a ocasionaram. Mas, por certo, a mais atônita
o mundo sabe muito pouco. Elas não são cons- de todas essas notícias, suponho, é a de que essas
truídas na escala comum em que percebemos o máquinas nanotecnológicas serão capazes de se
mundo e, segundo a qual, desenvolvemos a visão auto-reproduzirem incontrolavelmente, com a
das coisas que nos rodeiam, nos dizem respeito perspectiva de destruir a atmosfera, aniquilar o
ou nos acostumamos a pensar a relação entre na- planeta e outras ameaças afins.11 Tal fenômeno é
tureza e cultura. Convém lembrar, porém, que conhecido como o fantasma da gray goo (popu-
esse novo surgiu com a modernidade, tal o avan-
larmente denominada gosma, meleca ou praga
ço da física quântica e da biologia molecular, mar-
cando nossas vidas, por inaugurar dimensões de 11Cf. considerações feitas por REGIS (1997), que, com muita habili-
ver o mundo além daquelas de épocas anteriores, dade, apresenta as idéias de Eric Drexler a respeito desse fenômeno.

Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003 79


g g y p

cinzenta), que teria assombrado Bill Joy12 num de sistemas de controle não são apenas eficientes no
seus famosos artigos para a revista Wired,13 em que fazem; eles são apropriadamente sensíveis às
2000. variações, oportunistas, engenhosos e dissimula-
Sobre as considerações de caráter alarmante dos. Podem ser enganados, mas apenas por novi-
ou pessimista similares a essas, faço algumas pon- dades não encontradas regularmente por seus an-
derações. A nanotecnologia não é algo fictício ou cestrais.”15
criado pela fértil imaginação humana. Todos os Ora, é nessa engrenagem biológica (que
organismos vivos possuem nanomáquinas extre- nada tem de mecanicista, de linear, como num
mamente complexas e especializadas; basta lem- encadeamento determinista) que se baseou a en-
brarmos das células que se reproduzem, das en- genharia genética, em suas manipulações dos ge-
zimas que catalisam reações químicas e dos anti- nes. Modificar um gene ou substituí-lo por outro
corpos que combatem doenças, entre outras es- significava modificar o DNA, base molecular da
vida, programação que controla as células do cor-
truturas. Greg Bear,14 em algumas de suas obras,
po.16 Tratava-se de uma intervenção humana na
analisa o futuro das nanomáquinas, fazendo uma
ordem natural das coisas, tentando-se simples-
analogia com um DNA motorizado, como se elas
mente “realizar feitos similares com intenção e
fossem verdadeiros robôs em escala molecular, a
planejamento”.17
exemplo da estrutura do ácido desoxirribonucléi-
Por mais estranho e antinatural que pareça,
co. A estrutura molecular do DNA, descoberta
tal empreendimento é um fenômeno que aconte-
por James Watson e Francis Cricky, é um modelo
ce o tempo todo na natureza, por exemplo, quan-
vivo e precursor do caminho para a melhor com-
do um vírus reproduz a si mesmo e quando pen-
preensão do mecanismo de uma nanomáquina
samos a diversidade de funções encontradas nas
(ou nanocriação), entendida numa dimensão ín-
enzimas, máquinas biocatalizadoras que são, em
fima, mas tão complexa quanto as nossas células
sua grande totalidade, moléculas de natureza pro-
e o nosso organismo em sua dinâmica, com suas téica. As enzimas podem quebrar determinadas
reações moleculares num nível atômico, cuja pre- moléculas, formando moléculas menores, e mo-
cisão ainda não temos o domínio total. dificar proteínas de modo a desenhar novas es-
Todo processo celular característico da vida truturas moleculares, processos de manufaturas
está associado a dois tipos de macromoléculas – naturais no nível micro, bio e nanotecnológicos.
DNA e RNA – e com a maioria dos demais pro- Além disso, as enzimas incrementam velocidade
cessos envolvendo proteínas. Se deixadas num a certas atividades biológicas dos seres vivos, que
meio apropriado, essas macromoléculas têm a es- seriam irrealizáveis sem a interferência delas, e
pantosa propriedade de construir e depois produ- muitos dos processos vivos tornar-se-iam extre-
zir cópias exatas – ou quase – de si mesmas. Den- mamente lentos. Essas poderosas estruturas vivas
nett explica que as capacidades de auto-replicação, vêm, há milhares de anos, evoluindo e atingindo
mutação incessante, crescimento e reparo das es- uma fabricação cada vez mais perfeita de seus
truturas dessas moléculas são atividades caracte- produtos químicos, alcançando, na maioria dos
rizadas como nanotecnologia, pois tais operações casos, os limites da perfeição. E, desse modo, a
obedecem a um propósito e são sistemáticas, vida tem se mantido.
com complexidade suficiente para realizar ações, Imitando tais modelos, do DNA e das enzi-
em vez de permanecer submetidas a efeitos. “Seus mas (entre outros, como os hormônios, o RNA e
os anticorpos), as nanotecnologias, inteligente-
12 Co-fundador da Sun Microsystems e um dos pioneiros da internet; mente construídas pelo homem, permitem me-
também tem responsabilidade direta na criação da linguagem Java.
13 <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u8518.shtml>.
Acesso em: 15/out./03. 15 DENNETT, 1997, p. 26-27.
14 Greg Bear é autor dos livros Rainha dos Anjos (1990) e Marte se 16 REGIS, 1997.
Move (1993). 17 Ibid., p. 48.

80 Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003


g g y p

lhor compreender que, comparada à escala da A definição da nanotecnologia reveste-se


ação humana, a ação da natureza é de uma lenti- de uma infinita multiplicidade, que possibilita a
dão infinita.18 As enzimas e o DNA, espécie de sua aplicação a todos os setores. Falar em nano-
máquinas biológicas denominadas nanotecnologias computadores, por exemplo, abre caminhos para
úmidas (por estarem vinculadas ao mundo líqui- pensar concretamente em andróides, inteligência
do do ser vivo), assim como as nanotecnologias e vida verdadeiramente artificiais, mais precisa-
chamadas secas (criadas pelo homem) e a possível mente em controle planejado e reflexivo da natu-
combinação entre ambas, representariam a capa-
reza pelo conhecimento da íntima estrutura mo-
cidade de construir e recombinar produtos cada
lecular. Constitui-se rapidamente uma rede iné-
vez menores, controlando, ainda, o ritmo de
dita já concentrada no desenvolvimento de novos
reconstrução. São nanomáquinas. No caso das
duas últimas, além da miniaturização de disposi- materiais e de alternativas inovadoras, direciona-
tivos, seria expressivo o êxito econômico, por das ao conhecimento de ponta. Admite-se que a
exemplo, com a eliminação de grande parte dos nanotecnologia, reconhecido o limitado acesso a
custos gerados nas fundições e soldaduras indus- essa informação, tem apresentado forte impacto
triais. na área da saúde e uma verdadeira revolução na
É importante recordar que as propriedades forma de fabricação de uma infinidade de pro-
dos diferentes produtos manufaturados das socie- dutos.
dades industriais, resultantes até hoje, dependem Além do surgimento de novos computado-
da forma com que os átomos são dispostos na res (menores e mais rápidos, baratos e podero-
constituição dos materiais. Nos reportemos, en- sos), projeta-se o desenvolvimento de automó-
tão, ao que pode surgir com a fronteira do co- veis, componentes metálicos e não-metálicos,
nhecimento, que se move muito rapidamente, equipamentos para uso aéreo e espacial, instru-
fundindo-se com áreas de futuro, como a nano- mentos de proteção do meio ambiente, aplica-
tecnologia, a biotecnologia e os novos materiais. ções no campo da energia, da óptica e da ciência
Basta pensar que o rearranjo nanotecnológico
dos materiais. Também não esqueçamos que, na
dos átomos de carbono na grafite de um lápis re-
medicina e na farmácia, o seu emprego já é am-
sulta na produção de um diamante; com os áto-
plamente favorável a avanços de todo tipo, além,
mos de silício de grãos de areia pode-se fabricar
microchips de computador e, indo mais além, po- é claro, da produção de medicamentos potentes,
der-se-ia pensar na recombinação dos átomos da de creme anti-rugas, entre tantos outros produ-
sujeira, da água e do ar poluídos, produzindo, por tos comerciais beneficiados. Nesse aspecto, im-
exemplo, outras coisas menos problemáticas e porta destacar, particularmente, a proposição que
mais salutares. As possibilidades são virtualmente consta no documento de trabalho da Comissão
infinitas para a realização das pesquisas na direção da Indústria, do Comércio Externo, da Investi-
da miniaturização, sobretudo em torno da fabri- gação e da Energia do Parlamento Europeu,19 de
cação das menores máquinas possíveis, do tama- que seja introduzido o conceito de materiais es-
nho de moléculas, de sistemas eletrônicos nano- truturais e inteligentes em lugar de materiais inte-
particulados, nanopartículas, materiais nanopo- ligentes.
rosos, novas formas de arranjos de carbono, su-
pramoléculas, sensores biológicos e outros 19 Trata-se de documento sobre a decisão do Parlamento Europeu e do

eventuais produtos com forte conteúdo nanotec- Conselho relativa ao Programa-Quadro Plurianual 2002-2006, da
Comunidade Européia, de ações em matéria de investigação, desenvol-
nológico. vimento tecnológico e demonstração, destinadas a contribuir para a
realização do Espaço Europeu da Investigação.<http://www.euro-
18 LÉVY (1998) oferece interessante e entusiasmada abordagem sobre parl.eu.int/meetdocs/committees/itre/20010827/434204pt.pdf>.
as técnicas de domínio da matéria (mecânicas, quentes e frias). Acesso em: 24/dez./04.

Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003 81


g g y p

Manipulando átomo por átomo nossos órgãos sensoriais são capazes de lidar, ain-
Vale ainda mencionar que a eletrônica já da assombra e apavora! Por que o pequeno de-
trazia em seu arsenal as idéias de tratar o muito mais ou o grande demais nos assustam tanto? O
pequeno. A nanotecnologia é, portanto, perfeita- que na verdade nos aterroriza?
mente compatível com as leis da física. Embora, Certamente, tais temores estão relaciona-
na década de 1930, Arthur Von Hippel tenha ex- dos ao que desconhecemos. Por isso, é bastante
posto idéias semelhantes, o termo nanotecnologia apropriada a consideração de Arthur C. Clarke,
foi proposto pela primeira vez em 1959, por Ri- numa de suas leis, de que qualquer tecnologia su-
chard Feynman, destacado físico americano e ficientemente avançada é indistinguível da mági-
prêmio Nobel de Física, em 1965. Em seu artigo ca.21 Também merece destaque a recomendação
“There’s Plenty of Room at the Bottom”,20 ele de Cylon Gonçalves da Silva, de que as pessoas,
deixa claro que nada, nas leis da física e da mecâ- desde a educação infantil, deveriam entrar em
nica quântica, impede a existência de máquinas contato com medidas de grandezas fundamentais
do tamanho de moléculas. Basta manipular as (peso, comprimento, tempo, volume, área, tem-
coisas, átomo por átomo! Em 1959, Feynman peratura), inclusive as relativas a propriedades
chamava a atenção para o fato de que, na dimen- atômicas.22 Tal iniciativa os americanos já vêm
são atômica, se está trabalhando com leis diferen- tendo, segundo esse professor, para facilitar a
tes e, assim, devem ser esperadas coisas diversas: compreensão de fenômenos somente situados
novos tipos de efeitos e novas possibilidades. Os mediante o conhecimento de grandezas muito
estudos sobre a nanotecnologia, porém, reapare- pequenas. Ainda de acordo com ele, a nanotec-
ceram com mais vigor em junho de 1992, com o nologia é interessante para o Brasil porque está
físico K. Eric Drexler, do Instituto de Tecnologia ainda em desenvolvimento inicial e, sendo uma
de Massachusetts (MIT, EUA), e esse assunto en- atividade de ponta, exigirá das empresas brasilei-
ras grande investimento em tais processos, de
contra-se especialmente abordado em sua obra
modo a que não corram o risco de ficar defasadas
Engenharia da Criação, editada em 1987. Outro
das demais.
nome notável, que não pode ser esquecido aqui,
é o do físico Richard W. Siegel, um dos pioneiros As repercussões da nanotecnologia – ques-
tão ainda complicada e difícil de avaliar – avançam
mundiais na investigação, fabricação e promoção
em diversas frentes. Certamente se farão notar
dos materiais nanoestruturados.
em todas as áreas, sobretudo na indústria, na me-
De lá para cá, o processo de miniaturização dicina,23 na farmacológica e no setor da informá-
avançou muito, tornando-se indispensável consi- tica, refletindo-se na vida cotidiana. Contudo,
derar as escalas que fogem dos nossos padrões ainda que a introdução dos materiais nanomanu-
sensoriais, ao sermos tomados de surpresa pelos faturados revolucione essas esferas, as maiores
rumos que a nanotecnologia pode adotar. Teria implicações quanto ao desenvolvimento dessa
sido, quem sabe, bem menos problemático o ad-
vento do mundo microscópico, da biotecnologia, 21 Cf. CLARKE (1977), em que o célebre autor de ficção científica

dos transgênicos, se medidas de grandezas ade- inglês estabelece leis e formula alguns julgamentos de valor sobre o
mundo tecnológico do futuro.
quadas à sua compreensão tivessem sido mais po- 22 Essa consideração foi apresentada na palestra “A revolução nanotec-

pularizadas. Ainda é quase impossível ao leigo nológica”, no auditório do Centro de Convenções da Federação das
Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), em Florianópolis (25/
orientar-se por uma dimensão equivalente à bilio- out./03). Doutor em física pela Universidade da Califórnia, Berkeley,
nésima parte do metro. Qualquer tecnologia si- Cylon Gonçalves da Silva é professor da Unicamp.
23 Por exemplo, na construção de dispositivos diminutos que, em
tuada fora das magnitudes com que estamos quantidade suficiente, poderiam percorrer o corpo humano, detec-
acostumados em nossa vida diária, e com as quais tando precocemente doenças que ainda vitimam muitas pessoas, entre
elas, o câncer, ou na introdução de máquinas-enzimas específicas, que
depositariam no lugar apropriado a quantidade mínima e adequada de
20A tradução desse título, em inglês no original, é “Há muito espaço medicamentos, potencializando os benefícios terapêuticos, sem afetar
no fundo”. o resto do organismo.

82 Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003


g g y p

tecnologia são esperadas no setor produtivo e, Se essas pretensões se realizarem, toda a vi-
conseqüentemente, na economia, partindo-se do são da humanidade mudará. Essa nova materiali-
princípio de que será possível fabricar qualquer dade representa verdadeiro desafio à idéia que te-
tipo de coisa com precisão e qualidade insuperá- mos de comportamento humano, comporta-
vel a um custo acessível. Isso faz lembrar Fer- mento moral, ética do trabalho26 e educação, aba-
ry,24 que, muito provocativamente alerta para a lando a estrutura fragmentária que tornou
impossibilidade de ignorar os desafios lançados irreconciliáveis a esfera natural, a artificialidade, o
pelas ciências duras, aqui já mencionadas. Tal de- biológico, o social, o histórico e o ambiental. Lo-
bate instigado por esse filósofo ilustra o que se go, o problema implícito nas predições feitas até
pretende alcançar com este ensaio. Entretanto, se agora, e nas apostas já consolidadas por cientistas
a discussão não foi tão contundente com relação pesquisadores das nanotecnologias e governos
à micro e à biotecnologia, não há de arrefecer interessados, não é somente traçar os avanços da
agora. Trata-se de colocar bem o dedo numa feri- tecnologia. É também marcar outras conquistas e
da criada pela pretensão humanista em defesa dos transformações na sociedade por algum tempo,
interesses humanos e com sentido apenas no assim como outras inovações anteriores repre-
contexto da vida humana, além de que é preciso sentaram avanços sociais e assinalaram o tempo
cicatrizá-la, para fazer voltar o interesse por ou- de determinada sociedade. Daí a importância das
tras coisas do mundo que requerem responsabi- ciências sociais (e humanas) de estudar as conse-
lidade, afora o próprio homem. Exemplifico a res- qüências sociais, éticas e legais das nanotecnolo-
ponsabilidade pelas coisas da natureza, denomina- gias, oferecendo novas possibilidades para proje-
das inanimadas – há que se ter com elas, também, tar pesquisas e conclusões. Afinal, haverá uma
extremo zelo! notável diferença para a humanidade, ao passar a
A nanotecnologia é uma realidade da qual conviver entre dois mundos, o macro e o nanos-
não se pode fugir e seus rebatimentos serão con- cópico. Surgirão, com as criações nanotecnológi-
sideráveis. Imaginemos o significado, para a hu- cas, fenômenos na dimensão da nanoescala, ine-
manidade, de mexer na intimidade da matéria, de xistentes no macromundo, a exemplo da peculia-
manipular átomo por átomo, atividade essa sem ridade atômica, da precisão humana necessária
precedentes, num trabalho de nanoengenharia com modos de ações finos, direcionados, preci-
que compreende a poderosa “habilidade de se sos, rápidos, econômicos, qualitativos, discretos,
trabalhar no nível molecular, ou mesmo átomo calculados e aplicados com mais exatidão, apon-
por átomo, para criar estruturas complexas com tados por Lévy,27 materializando-se um viver sem
controle de sua organização em dimensões de equivalente no mundo do grande.
bilionésimos do metro”.25 Imaginemos a concre- Desde o início de suas pesquisas, e longe de
tização das potenciais realizações: síntese de materiais ser profético, Drexler falava do surgimento da
e manufaturamento, produção de nanoeletrônica e nanotecnologia.28 Foi, inclusive, avesso ao uso
de nanotecnologia computacional, medicina e saú-
26 Não é essa a ética que nos rege, uma ética fundamentada no deter-
de, aeronáutica e exploração espacial, ambiente e minismo do trabalho físico, como se estivesse o homem programado
energia, biotecnologia e agricultura, segurança para executá-lo? Sobre essa questão, cf. COMTE-SPONVILLE &
FERRY, 1999, p. 127-156. Cf. também ETGES (1996) e sua análise das
nacional, ciência e educação, competitividade contradições resultantes das transformações da revolução tecnológica,
econômica e outras tantas aplicações. desemprego e o valor do trabalho reproduzido no período pós-indus-
trial. São textos essenciais para imaginar uma era em que o trabalho
físico não mais será necessário.
24COMTE-SPONVILLE & FERRY, 1999, p. 67. 27 LÉVY, 1998.
25 Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico 28 Bacharel em ciências interdisciplinares, mestre em aeronáutica e
(CNPq), Edital 01/01. “Chamada de Convocação para Apresentação de astronáutica, e doutor em filosofia, no campo da nanotecnologia mole-
Propostas de Projetos Inter e Multidisciplinares Visando a Formação de cular, pelo Massachusetts Institute of Technology, teve o primeiro grau
Redes Cooperativas de Pesquisa Básica e Aplicada em Nanociências e de doutoramento no assunto concedido em todo o mundo. Cf.
Nanotecnologia”. REGIS, 1997.

Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003 83


g g y p

desse termo no sentido de “glamourizar a produ- De certa maneira, esse contexto não nos é
ção de besteiras em nanoescala”.29 Optou por ou- novo. Já temos a experiência com a introdução da
tro novo termo, na tentativa de manter o signifi- micro e da biotecnologia, em que a revolução no
cado distinto desse entendimento: nanotecnolo- mundo do trabalho gera desemprego, trabalha-
gia molecular. Diferentemente das reações ao dores excedentes e crises, liquida e faz nascer no-
projeto genoma (e depois aos transgênicos), de vas profissões, novos trabalhadores e novas exi-
acordo com esse cientista, os propósitos de tais gências de conhecimento e habilidade, com suas
iniciativas não eram “mudar a natureza humana, conseqüentes necessidades. Como será com as
mas alterar os resultados finais corrigindo os des- nanomáquinas ainda não é possível afirmar nada.
vios da norma naturalmente induzidos, pensando James Albus, pesquisador em robótica, afirma
na possibilidade de o homem passar pelas próxi- que “Não há uma quantidade fixa de trabalho.
mas centenas de anos em perfeita saúde e juven- Mais trabalho pode ser criado”.34 Ele nos ajuda a
tude perene, o tempo todo imerso em condições pensar que a própria inteligência artificial pode
inauditas de abundância material”.30 criar novos empregos – o que já está acontecen-
do. Na sua visão de economista, Friedman,35
O que aqui nos interessa é sobretudo a aná-
numa palestra sobre nanoconferência,36 conside-
lise das questões econômicas e sociais feitas por
Drexler, em sua obra, considerada incomum, En- rou que enquanto a tecnologia aumentou a pro-
gines of Cration,31 e expressivamente trabalhadas dutividade e criou mais riqueza, concedendo às
por Regis e por Lampton,32 embora com direcio- pessoas mais tempo livre, a nanotecnologia leva-
namentos diferenciados – o primeiro apresenta a ria isso ao extremo. Porém, ele não foi bem-su-
nanotecnologia de forma mais sedutora, ao passo cedido ao discorrer acerca das conseqüências
que o segundo parece brincar, falando sério, de econômicas e comerciais da nanotecnologia, tam-
uma inevitável aventura nanotecnológica que te- pouco sobre o que com ela mudaria para as pes-
remos de viver, expondo conquistas que virão soas, exatamente por não ter dominado o grau de
com ela. A respeito do fenômeno da gosma cin- extensão da matéria, o que o impediu de romper
zenta e seus efeitos de destruição do planeta, com o passado da tecnologia ao falar de uma
Drexler é otimista ao considerar a possibilidade inovação sem precedentes.
de se construir sistemas confiáveis, como têm Dois anos depois dessas colocações polê-
acontecido ao longo da existência viva com as na- micas de Friedman, Mac Gellivray,37 a convite do
nomá-quinas naturais – as enzimas e o DNA –, mesmo patrocinador – NSG/MIT –, fez uma inter-
preocupando-se, contudo, não somente com as venção que ressoou como um raio irrompendo
coisas vivas, incluindo animais e plantas, o planeta entre os pessimismos tradicionais direcionados
e toda a biosfera. Entre os benefícios sociais por ao novo, buscando indicar novos caminhos.
elas gerados, aponta o que alguns clássicos pen- Concebeu mudanças profundas nos valores hu-
sadores já haviam vislumbrado acerca da liberta- manos e no próprio materialismo, que seria bas-
ção do trabalho físico escravizante,33 que seria tante afetado, uma vez que os bens materiais se
transferido às máquinas nanotecnológicas. tornariam mais acessíveis em troca de quase nada.
Postulou que o dinheiro perderia sua reverência
29
30
Ibid., p. 262. como símbolo de status social e que o desempre-
Ibid., p. 144.
31 O livro Engines of Creation: the coming era of nanotechnology, de Eric
Drexler, encontra-se disponível para download no site do Foresight Ins- 34 REGIS, 1997, p. 169.
titute: <http://www.foresight.org/EOC>, com permissão para cópia. 35 Ibid., p. 170. David M. Friedman, economista da universidade de
32 Cf. REGIS, 1997. A mesma idéia se encontra em LAMPTON, 1994. Chicago, é filho de Milton Friedman, prêmio Nobel de ciência econô-
33 Cf. ETGES, 1996. O autor lembra que o notável clássico Hegel indica, mica. Uma de suas obras mais conhecidas é The Machinery of Free-
em suas obras, a trajetória e os meios pelos quais a lógica do trabalho levará dom:guide to a radical capitalism.
os homens, reportando-a a um juízo de passagem, em termos hegelianos. 36 Essa palestra foi patrocinada pelo Nanotechnology Study Group

Lembra também que Marx analisa as modificações no trabalho humano (NSG), do MIT, e proferida em jan./87.
que constituem ruptura com o que se apresentaria como formas determi- 37 Sobre essa questão, cf. REGIS, 1997, p. 176-178. Jeff MacGillivray é
nantes, situando-as lógica e historicamente em movimento. doutor em física no MIT.

84 Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003


g g y p

go seria extremo, porém, não representaria um tipo de ações violentas e malévolas. Nesse caso,
problema, por não se ter de trabalhar para viver, os riscos sociais e psicológicos seriam mais fortes,
pois o trabalho mundial seria realizado pelas pelo fato de os indivíduos passarem a dominar
nanomáquinas. Disse que haveria uma sociedade por completo a matéria, o que jamais fizeram.
do entretenimento, e não da informação, em que Considero esse o patamar, em que se colo-
as pessoas se dedicariam ao conhecimento, ao la- cam as questões mais complexas, não só filosófi-
zer e às atividades artísticas. cas, mas também sociológicas, antropológicas,
Quanto a Drexler, tido por muito tempo psicológicas e psicanalíticas, entre outras, de
como louco e alvo das mais variadas críticas, ele modo a refletir sobre o quanto vale à pena con-
conservou aparente calma, frieza e prudência cretizar a nanotecnologia, manipular o ínfimo da
com relação ao assunto nanotecnologia,38 mesmo matéria e dispor de uma natureza mais condes-
diante dos seus bons prenúncios – final do enve- cendente e maleável, na qual o próprio ser inani-
lhecimento, adiamento radical da morte, amplas mado não mais ofereça resistência à ação huma-
condições de abundância e riqueza, ausência de na, tornando-se uma continuidade dela. Também
fome e de outras necessidades – possíveis com a acredito que seria um problema, para Clifford
construção dos primeiros montadores operacio- Geertz,39 um dos mais originais e instigantes an-
nais, que trabalhariam em nanoescala pela mani- tropólogos de sua geração, a questão do tempo li-
pulação molecular sem fronteiras. Simultanea- vre e o que fazer com ele, uma vez que muito tra-
mente, porém, o cientista manifestava suas preo- balhou o impacto do conceito de cultura sobre a
cupações com essa mudança paradigmática, ten- concepção de homem, como também o cresci-
dendo a pensar os riscos que poderiam surgir da mento da cultura e a evolução da mente. No ce-
nova forma de lidar com a economia mundial, nário antropológico, como ficaria a redefinição
quanto à produção de bens materiais sem limites da cultura? Com que noções lidariam os antro-
e com custo praticamente zero. Ele inquietava-se pólogos? Até mesmo os psicanalistas poderiam
também com o destino das grandes corporações, apresentar indicativos de impasses, ao ter de co-
o desemprego em massa diante da plena automa- gitar a idéia de substituição total do homem pela
tização, o sentido que as pessoas dariam às suas máquina, além de analisar as conseqüências da
vidas na falta do que fazer, uma vez liberadas do ociosidade gerada e as possibilidades de aumentar
trabalho físico, a possibilidade da saúde e da ju- a recorrência à bebida alcoólica, às drogas e aos
ventude eterna, e assim por diante. Não ignorava, quadros de loucura ou depressão, passando, tal-
da mesma forma, a possível ameaça proveniente
vez, a questionar a natureza da loucura, a ética ou
do mau uso das criações nanotecnológicas por
a liberdade, por força de novos comportamentos,
pessoas de intenção duvidosa e sem propósitos
de novas opções morais e estéticas.
satisfatórios previstos para os indivíduos e a so-
ciedade. Como se pode notar, são inúmeras e com-
plexas as implicações da nanotecnologia e da na-
Drexler é convicto ao dizer que os perigos
nociência, sem nenhuma resposta precisa, nem a
físicos já são enfrentados pela sociedade há muito
certeza do que parece ser suficientemente razoá-
tempo e considera muito mais sérios os riscos so-
vel. Convém, enfim, fazer as mesmas perguntas
ciais e psicológicos, merecedores de maior aten-
ção. Afinal, perigos físicos sempre existiram para que as de Regis, ao final de seu livro: “Mesmo
as pessoas, como o simples fato de viver, de sub- com todos os seus aspectos desconhecidos, mes-
meter-se à velhice, às doenças e à morte, e, sobre- mo com todos os seus perigos e riscos, quem di-
tudo, às guerras, ao crime, à carnificina e a todo ria não à nano?”.40 E arrisco acrescentar, nessa
mesma direção: que poderá acontecer, se disser-
38A contribuição de REGIS (1997) foi essencial, por demonstrar cla-
ramente o posicionamento de Drexler, ao relevar a nanotecnologia em 39 GEERTZ, 1989.
meio a um contexto de zombarias e acusações que teve de enfrentar. 40 REGIS, 1997, p. 288.

Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003 85


g g y p

mos não à era nano?, sobre qual parte recairia o As nanotecnologias, portanto, exigem, por
ônus dessa indiferença? Certamente restam ainda natureza, uma operação interdisciplinar, pois têm
outras perguntas. Duas delas mais se pode deixar o potencial de revolucionar amplamente vários
como subsídios para manter acesa a necessidade campos e trazem consigo maiores chances de êxi-
de continuar tal discussão: o que faz determina- to para dar um salto por cima das aparentes fron-
das tecnologias serem consideradas mais avança- teiras que dividem as ciências e fazê-las consilien-
das do que outras? O que faz uma moderna tec- tes,43 reuni-las num todo complexo segundo
nologia parecer tão surpreendente ou fantástica? princípios e terminologias idênticos, desde a físi-
A evolução na nanotecnologia ilustra que ca, a química, a matemática e as ciências naturais
passamos de uma visão molar41 do mundo para até as mais reticentes ciências sociais e humanas,
uma visão molecular.42 Isso está acontecendo procurando conjugar enfoques e tradições distantes
com a biotecnologia (precisão gene por gene, sobre a realidade contemporânea. Já em 1975, no
molécula por molécula) e com a nanotecnologia Colóquio da Unesco, acentuava-se que um dos
problemas mais importantes em todo o mundo re-
(precisão átomo por átomo), campos ainda ex-
sidia no fato de as ciências sociais e humanas não
plorados por alguns poucos eleitos com maior
progredirem no mesmo ritmo das ciências naturais
domínio das grandezas escalares ínfimas e fora do
e biológicas. Com efeito, durante muito tempo
nosso conhecimento comum. É preciso, então,
aquelas ciências ignoraram, de modo geral, a ne-
ingressar no mundo desse pequeno, no mínimo
cessidade de reajustar seus próprios sistemas de
sabendo um pouco mais de grandezas escalares,
valores em razão das estruturas da sociedade mo-
de física e de matemática, pois trata-se agora de
derna, assistindo muito mais atônitas, do que as
algo ainda muito novo, para além da escala huma- ciências duras, os acontecimentos mais revolucio-
na: o mundo da tecnologia molecular, da nano- nários da vida humana, por exemplo, o uso dos
tecnologia. transgênicos e das novas tecnologias reprodutivas
Explorar os domínios no nanomundo assi- conceptivas. Isso limitou a capacidade delas de
nala a possibilidade de manipular individualmente influir mais incisivamente nos sistemas éticos, le-
os átomos e as moléculas de qualquer ser vivo, de gais, políticos e sociais, e, conseqüentemente, na
qualquer ser humano, de qualquer coisa. Fazer a direção e aplicação do desenvolvimento tecnoló-
relação entre o macro e o nanomundo suscita gico.
pensar uma nova concepção de universo, de ma- Por sua vez, o potencial inovador das nano-
téria, de mundo, de sociedade, de homem, de na- tecnologias demanda um esforço colaborativo de
tureza. Enfim, refletir sobre uma relação tecno- estudiosos de diferentes disciplinas das ciências
lógica de grande abrangência e repercussão sem formais, naturais, sociais e humanas, com cora-
precedentes na história, não apenas formas e gem e determinação para pesquisar conjunta-
comportamentos imprevisíveis e incontroláveis, mente o que pode representar, para o destino do
mas também de modo a interpretar quais deles homem, do universo, da cultura, da vida, enfim, o
são naturais ou de origem técnica, se continuam controle absoluto da estrutura da matéria. E, so-
sempre naturais ou se são ambas as coisas, sem mado a isso, uma maior consciência da dimensão
nenhuma fronteira rígida. desse domínio incomparável em todos os tem-

41 Tecnologias com base na transformação da matéria em grande quan- 43 Tal expressão, um pouco estranha, é do entomólogo americano
tidade, manejando os objetos em massa; são maciças e quentes, usadas Edward O. WILSON (1999), que a utiliza originalmente para referir-
nos últimos cem anos, em geral com alto custo energético, poluindo, se à necessária unidade das ciências. A consiliência desempenha um
desperdiçando e esgotando energias. papel epistemológico importante, no sentido de ser um elemento dinâ-
42 Tecnologias ultrafinas que se afastam da massificação; são ultra-rápi- mico de referência a uma maior proximidade entre diferentes classes
das, bastante precisas e agem na escala ínfima, sobretudo, da micro, da de fenômenos explicados de maneira distinta, como uma tentativa de
bio e da nanoestrutura, com dispêndio mínimo de energia, reduzindo dispor de um princípio integrador de todos os nossos conhecimen-
ao mínimo os desperdícios e as rejeições. tos.

86 Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003


g g y p

pos, mostrando em que medida as nanotecnolo- vos meios de controle técnico do homem e da so-
gias colocam um novo desafio ético, legal, políti- ciedade e o devido respeito à pessoa humana.
co, social e econômico para o Brasil, analisando se Interessa aqui notar que, para tratar essa
o País está ou não preparado para essas tecnolo- problemática emergente, surgem de imediato
gias emergentes. É importante não esquecer que, duas questões bastante imbricadas e que não di-
embora não seja uma temática muito freqüente zem respeito apenas ao círculo dos cientistas e
no cotidiano, essa tecnologia está aí com todas as eticistas: o advento das nanotecnologias repercu-
suas implicações e complicações, e, por se tratar tindo nas mais distintas áreas e a disposição de
de uma área em pleno avanço, a nanotecnologia abordá-las mediante trabalhos de pesquisa, vincu-
traz perguntas até há pouco impensáveis, cujas lando todas as questões envolvidas no seu desen-
respostas estão vindo paulatinamente ou ainda volvimento. Discorrer sobre isso é, inegavelmen-
inexistem. te, procurar ao mesmo tempo possíveis interlo-
Os problemas complexos não têm soluções cuções entre as ciências naturais e as humanas, de
simples e, para essa inovação, poucas são as res- forma a contornar as esquinas e sair do labirinto.
postas satisfatórias que se pode dar à sociedade, a No contexto das incertezas éticas, vale ressaltar
fim de que as pessoas optem conscientemente que não é preciso um conhecimento rigoroso da
entre as várias possibilidades apresentadas pelas técnica, mas a compreensão da nova trajetória
nanotecnologias e opinem sobre os riscos e po- humana, incluindo ao lado do bem-estar dos se-
res humanos o dos outros seres vivos e a mesma
tencialidades a elas vinculados.
preocupação com o meio ambiente e o cosmo.
De certa maneira, isso representa um rito de
DISCUSSÕES E REFLEXÕES passagem, ao transitar de uma condição a outra,
METODOLÓGICAS E EPISTEMOLÓGICAS sem lugar e posição determinados. Ou, no dizer
A expectativa é de que a nanotecnologia te- de Abelés,45 entender que pesquisa das nanotec-
rá, no cotidiano das pessoas, efeitos muito maio- nologias está em mil lugares na compreensão de
res do que os microeletrônicos, que possibilita- um universo novo, destinada a alcançar uma nova
ram o surgimento dos microcomputadores e re- visão do homem e da sociedade no movimento
volucionaram as telecomunicações, e do que a que nos leva para fora de nosso próprio mundo e
própria biotecnologia, processo tecnológico que acaba por nos trazer para mais dentro dele, onde
permite a utilização de material biológico e a ma- contam nossas origens culturais e intelectuais.
nipulação genética, produzindo organismos ge- Além disso, coloca-se uma condição de estranha-
neticamente modificados e revolucionando o ca- mento, não porque necessariamente a antropolo-
ráter genético da própria vida. Difícil é pensar gia sustente ser preciso estranhar o que já nos é
nessa temática sem lembrar, também, da relação familiar, mas para ter clareza de que o objeto de
atual entre ciência, tecnologia e inovação, entre estudo não é simplesmente dado, nem necessaria-
nanotecnologia e biotecnologia, avaliando o sig- mente conhecido.46
nificado de uma pesquisa que avança no setor tec- Esse objeto é construído mediante relações
nológico industrial e traz uma série de aplicações interativas sobre alguma coisa investigada, dela
anteriores e de produtos e melhoramentos resul- constituindo-se o contexto total de conhecimen-
tantes de soluções tecnológicas no que diz res-
44 Trata-se dos denominados metamateriais, com propriedades e com-
peito à inovação de materiais ou processos técni- portamentos específicos, fisicamente impossíveis a materiais naturais e
cos em geral e ao desenvolvimento de novos ma- convencionais e que podem nem existir na natureza, projetados com
propriedades próprias para quebrar leis de natureza inconveniente.
teriais44 com propriedades impossíveis de se ob- Uma aplicação desses metamateriais é a construção de antenas para
ter de outra maneira. Não sabemos, no entanto, telecomunicações e sinais de satélites altamente sensíveis, dadas as for-
mas de ajuste, e também o aperfeiçoamento de lentes óticas.
com segurança até que ponto existe uma preocu- 45 ABÉLÈS, 2002.

pação com a compatibilidade entre o uso dos no- 46 DAMATTA, 1981, p. 159.

Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003 87


g g y p

tos, o princípio que governa a interdisciplinarida- mentos para a avaliação da legislação vigente, di-
de. O estranhamento é também necessário para namizada sobretudo com o uso dos transgênicos,
permitir a revelação de algo que não é mais ape- e para o futuro desenvolvimento de instrumentos
nas nem da ordem do eu, nem da ordem exclusiva legais adequados e suas possíveis relações. Con-
do outro. É algo da ordem do sujeito do conhe- siderando tal iniciativa, cabe refletir que, na velo-
cimento, possibilitando também não perder a cidade com que sopram os ventos tecnológicos, as
confiança na objetividade, como propõe Cupani, restrições a esse desenvolvimento são antes éti-
ao referir-se à necessária adequação do sujeito ao cas, morais, legais e políticas do que técnico-
objeto pesquisado.47 Essa adequação não repre- científicas e econômicas, no que se refere ao uso
senta, no entanto, a imposição total dos fatores da tecnologia moderna, podendo denominar-se,
pessoais, da paixão pelo assunto e de interesses com mais propriedade, de ética da tecnologia.48
individuais que possam gerar um caminho ten- Considerando as dimensões escalares das
dencioso aos resultados de uma pesquisa. Tam- nanotecnologias, os objetos nanométricos pare-
pouco se deve recair num subjetivismo exacerba- cem compartilhar características próprias dos ob-
do ou negar a intervenção do sujeito. jetos grandes ou clássicos e dos moleculares, mas,
O estudo de qualquer problemática vincu- sobretudo, de novos atributos muito próprios.
lada à nanotecnologia insere-se, desde o início, Nesse mundo de construções híbridas, as inves-
numa polêmica reconhecidamente forte, tanto tigações que não fogem dos nossos padrões sen-
por suas conseqüências quanto pelo que afeta a soriais podem deparar-se com limites, pois mui-
relação entre natureza e cultura. As implicações tos dados e resultados serão da ordem do peque-
sobretudo no campo do debate ético, legal e so- no e tratados formalmente como simples pertur-
cial são de tal relevância, que o estudo da inter- bações no macromundo. Entretanto, fora dele,
venção das nanotecnologias representa, por si só, deve-se ter clareza de que essas perturbações po-
um desafio que não apavora, mas atrai, por seu derão ser tão importantes quanto o fenômeno
ineditismo. O questionamento ético da nanotec- principal.
nologia consiste numa problematização, que é o Resta aqui definir as grandes questões en-
seu fundamento, e conduz diretamente a discus- volvidas na avaliação das perspectivas científicas e
sões filosóficas e políticas contemporâneas, por nas conseqüências políticas, legais, éticas e sociais
não ter surgido repentinamente, mas, ao contrá- aportadas pelas nanotecnologias à sociedade bra-
rio, se constituído em relação a uma série de de- sileira. Existe a hipótese de que as nanotecnolo-
senvolvimentos tecnológicos precedentes. gias, em seu alto poder tecnológico e de transfor-
O mesmo ocorreu com a aplicação da ener- mação, não dispõem ainda de uma base mais fir-
gia nuclear, a constatação da contaminação do me para consolidar-se no País quanto a legislação
ambiente, as inovações e manipulações biotecno- adequada, princípios éticos condizentes e avanços
lógicas e as modernas tecnologias de informação sociais convenientes com sua receptividade. Com-
e comunicação, que deram e ainda dão lugar à re- parando-se com a direção da inovação biotecnoló-
flexão e a análises em distintas áreas de interesse gica, torna-se importante conhecer o que o Brasil
ético. Muitas delas pressupõem algum conheci- deseja e como reage, para que possa se desenvolver
mento das discussões em história, filosofia, an- economicamente, com tecnologia de ponta, a
tropologia, sociologia (já temos a filosofia da exemplo das nanotecnologias. E também pensar
ciência, a antropotecnologia e a sociobiologia em se a nanotecnologia produz uma forma de conhe-
ação), assim como dos processos legais. Sobre es- cimento compatível com outras ciências, em qual
ses últimos, vale ressaltar alguns aspectos ligados escala possibilita uma interdisciplinaridade e
à questão nanotecnológica, fornecendo funda- quais as possibilidades das universidades, ou seja,

47 CUPANI, 1990. 48 GARCIA et al., 1996, p. 218.

88 Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003


g g y p

se elas estão ou não preparadas para uma cultura advindas dos seus pares e colaboradores. Nesse
interdisciplinar sobre essa inovação. processo, não se pode ignorar que os atos de co-
Nesse contexto, a abordagem das implica- municação são marcados pela tensão de valores e
ções das tecnologias mais avançadas deve, atual- comportamentos representando contextos socio-
mente, apoiar-se numa reflexão metodológica e culturais diferenciados e que nem tudo pode ser
epistemológica, na medida em que indique olhar negociado. Tais categorias reportam à ética na
o mundo de forma antes não cogitada pelas ciên- pesquisa, especialmente às negociações estabele-
cias biológicas, nem sequer compartilhadas com a cidas, por exemplo, entre pesquisadores e entre
física, a química e a matemática ou pelas ciências pesquisador e pesquisado, podendo resultar num
sociais e humanas em geral. É possível buscar sis- tranqüilo ou tenso processo.
temas conceptuais e recorrer à diversidade meto- A tarefa exigirá exercitar uma visão inter-
dológica, propondo novas formas de conceber o disciplinar efetiva e desenvolver um olhar pluri-
mundo até então ignoradas, pois, ainda que as dimensional. No primeiro caso, já é bastante evi-
teorias de distintas ciências não apresentem uma dente que a complexidade crescente da realidade
estrutura comum, elas tampouco duram para social caminha no sentido contrário à comparti-
sempre, podendo ser descartadas por razões teó- mentalização do conhecimento. No segundo, o
ricas. Da mesma forma, segundo Feyerabend, “El trabalho em distintas áreas, por diversos profis-
descubrimiento científico no está sujeito a méto- sionais, vem demonstrando há anos que a com-
do fijo”.49 preensão e as explicações unidimensionais da rea-
Ainda no rumo do pensamento desse filó- lidade são muito pouco fidedignas. Do mesmo
sofo, é possível que, no estudo de seus objetos, modo, não é mais possível desintegrar subjetivi-
em virtude dos problemas enfrentados, as ciências dade e objetividade, na abordagem dos objetos de
possam recorrer a um método ou a outro, não estudo das ciências naturais, formais, sociais ou
querendo dizer, porém, que se esteja afirmando humanas. Objetividade, subjetividade e intersub-
que tudo vale na investigação científica. O estudo jetividade são condições para se compreender o
de um problema de pesquisa não só depende de homem.
algumas teorias determinadas, mas há problemas Recentemente, a filosofia passou a estudar
que só podem ser resolvidos quando se produ- os problemas emergentes da mudança na forma
zem num contexto formado por um conjunto de de pensar a ciência, a técnica, a ética e a política,
teorias, incomensuráveis ou compatíveis. Isso produzindo transformações também nos seus re-
permite dispor de uma coleção de métodos e de ferenciais de pesquisas. A descrença no progresso
um novo marco teórico, mediante o qual se possa e a desconfiança dos rumos tomados pela ciência
assumir a divergência metodológica entre teorias motivaram igualmente nos antropólogos a perce-
rivais e transitar por distintas questões que não pção do indivíduo e a consideração desse como
dizem respeito somente a campos específicos. sujeito da história. Coube-lhes os desafios da
O papel dos envolvidos nesse trabalho in- convivência metodológica interdisciplinar na
terdisciplinar suscita autores, como Tornquist e investigação de novos temas que se oferecem ao
Abelés,50 entre outros, a esclarecer questões éti- olhar antropológico, com ênfase à intersubjetivi-
cas resultantes da transposição do pesquisador dade, com o diálogo entre pesquisador e pesqui-
para outra cultura, ressaltando a alteridade no sado, assumindo o lugar da mera descrição mecâ-
processo de pesquisa e ilustrando o espaço do nica do homem, da sociedade e da cultura. Tal de-
safio exige não apenas para a antropologia, mas
campo, construído pela interferência do referen-
também para a sociologia, desvendar os significa-
cial teórico do pesquisador e das circunstâncias
dos novos imbricados nas relações sociais e a cer-
49 Cf. ECHEVERRÍA, 1999, p. 230.
teza de que não é preciso manter uma distância
50 TORNQUIST, 2001; e ABÉLÈS, 2002. cultural e geográfica como forma de garantir o

Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003 89


g g y p

encontro com o outro, realidade materializada pe- senvolvimento do homem tecnizado, o que esse
los avanços tecnológicos. historiador assinala como as duas escalas tempo-
Da mesma forma, num olhar historiográfi- rais, referindo-se ao tempo histórico coletivo e ao
co, a negação das estruturas estáveis do ser, carac- tempo biográfico, seguindo juntos, e as conexões
terística do pensamento moderno, orientando a entre esses dois níveis da dimensão socioespacial
perspectiva dita pós-moderna, aponta para uma apontando a interação entre pólos que se interin-
multiplicidade de histórias, situando o homem fluenciam constante e mutuamente. Como lem-
no contexto histórico-cultural do qual fazem bra Braudel, criam-se fluxos de comunicação ge-
parte os indivíduos. Não se pode pensar no ato rados nos intercâmbios levados a cabo entre os
comunicativo, implícito numa pesquisa de qual- países que intervêm na reconstrução da história
quer natureza, sem levar em conta a saga da busca no mundo inteiro,52 sobretudo numa sociedade
pelo outro (a exemplo do outro do nanomundo), de forte impregnação ocidental, que buscou por
entendendo a presença da intersubjetividade séculos o seu próprio desenvolvimento e avançou
como co-construção, co-autoria, compartilha- rumo a grandes descobertas na ciência e na tec-
mento e como representação das grandezas e dos nologia, em que a cientifização marcou época,
limites de nossa espécie. transformando as realidades sociais e chegando à
Eis um desafio com o qual, desde o século nanotecnologia. É fundamental destacar que his-
passado, os estudiosos (psicólogos, sociólogos, tória e sociologia são ciências humanas, sem ra-
antropólogos, historiadores, psicanalistas, cien- zão de ser se não estudam e acompanham as so-
tistas políticos, filósofos, engenheiros, biólogos, ciedades em seu processo de desenvolvimento.
físicos ou químicos) vêm lidando: a compreensão Apresentar os principais conflitos éticos,
da intersubjetividade, do diálogo possível, da legais, políticos e sociais advindos das nanotecno-
construção da identidade e dos laços sociais em logias exige muitas reflexões e discussões, nas
face de uma nova realidade, que se instaura quan- mais diversas áreas do conhecimento, sobre essa
do a técnica passa a tornar-se uma questão de éti- intervenção do ser humano no mundo (ou no
ca, de valores e de responsabilidade. Isso porque, cosmo) do qual é parte integrante, recorrendo-se
mais do que nunca, é necessário avaliar as ações a perspectivas de diferentes posições e à disponi-
da perspectiva das conseqüências que possam vir bilidade de documentos de tipos distintos, bus-
e integrar a sua dimensão na construção do saber cando decifrar o alcance da técnica moderna.
e das práticas sociais, em especial aquelas apoia- Nesse aspecto, a nanotecnologia e a (bio)ética,
das em técnicas que potenciam de tal modo o agir em sua mais estreita relação, podem unir diferen-
humano a conferir efeitos incalculáveis aos pró- tes visões de ciência.
prios agentes, pondo em risco a vida da espécie
humana ou as condições de vida na Terra, por CONSIDERAÇÕES ÚLTIMAS
conta de ações irrefletidas e irresponsáveis, no Apesar dos vários aspectos positivos da na-
contexto da moderna tecnicização. notecnologia, cresce o debate sobre o que essa
A história tem sido um lugar fundamental inovação representa para o futuro das pessoas, da
para conhecer o ponto de vista de uma época, sociedade e da natureza. A técnica e a ciência têm
para tomar dela significados, como disse Bertaux, proporcionado uma potência ao ser humano, até
em Les Récits de Vie,51 pertinentes ao objeto de um tempo atrás considerada pouco importante,
investigação e assumindo o status de indicadores, cujos fenômenos dela derivados, posso dizer, não
de modo a compreender os aspectos culturais e são mais peculiares apenas à maneira de estar no
os contextos políticos imbricados. Isso, sem es- mundo ocidental. Essa é uma questão epistemo-
quecer que também entra em jogo, ao falar no de- lógica importante a ser considerada, uma vez que

51 BERTAUX, 1997. 52 BRAUDEL, 1989.

90 Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003


g g y p

é preciso pensar a simultaneidade do local e do so e empenhado diálogo entre as ciências da na-


global propiciada pelas tecnologias mais recentes. tureza, as engenharias e as ciências sociais e hu-
Criaram-se modernos e eficientes sistemas nacio- manas.
nais de ciência e tecnologia que incentivam a Para não fugir dos entrelaçamentos que
pesquisa básica, mas, simultaneamente, facilitam busco fazer, ao abordar a necessidade de um tra-
as soluções tecnológicas emergentes para asse- balho interdisciplinar, concluo que as nanotecno-
gurar, conseqüentemente, o desenvolvimento logias colocam o homem diante de decisões, da
socioeconômico de determinados países e sua re- mesma forma como ele se via, nos primórdios de
levância competitiva, atingindo muitos outros, sua existência, no que se refere a um fundamento
num circuito decorrente da expansão desse de- objetivo: a vida! A avaliação das significações éti-
senvolvimento. cas, das implicações tecnológicas, políticas e so-
A história recente da nanotecnologia e de ciais subjacentes à introdução das nanotecnologias
uma nanociência ainda pouco definida demons- no Brasil e de seus desafios na legislação, na po-
tra, nos países em desenvolvimento, o incentivo e lítica e na ética, bem como a análise de suas opor-
o financiamento das pesquisas científicas ou tec- tunidades e possibilidades requerem a superação
nológicas nesses campos, mediante planos e pro- de obstáculos amparados no dogma da diferença
gramas que estão sendo impulsionados. Por sua epistemológica e metodológica entre as ciências
vez, a sociedade tem se relacionado com a ciência humanas e as naturais.
e com os seus avanços de forma muito mais rá-
Assim, manifestam-se promissoras oportu-
pida e integrada que em outros tempos, provo-
nidades de realizar uma abordagem da técnica
cando discussões sobre as implicações éticas em
moderna verdadeiramente interdisciplinar. De
vários campos científicos. Mas não basta o con-
início, é possível contar com áreas que já tenham
senso de que uma política técnico-científica deva
alguma contribuição a dar nesse sentido, uma vez
ser orientada para a inovação apenas como modo
que oferecem análises sobre os efeitos das tecno-
de garantir competitividade nos mercados nacio-
logias na vida do homem, no que diz respeito aos
nal e internacional. É necessário pensar os crité-
seus métodos e enfoques, e com base nos princí-
rios que devem nortear tal política.
pios de formação dos conceitos apropriados, que
A universidade, nesse cenário, pode contri-
permitam capturar o significado desejado, sem a
buir fundamentalmente às novas gerações na for-
preocupação do que seja a natureza da teoria
mação intelectual, científica e tecnológica e nas
científico-social e da teoria das ciências naturais,
discussões sobre as conseqüências éticas na mais
em sua aparente irreconciliação.
ampla dimensão. Outra ação de extrema impor-
tância consiste em fortalecer um imediato, inten-

Referências Bibliográficas
ABÉLÈS, M. “Le terrain et les sous-terrain”, in GHASARIAN, C. (org.). De L’Ethnographie à L’Anthropologie Réflexive:
nouveaux terrains, nouvelles pratiques, nouveaux enjeux. Paris: Armand Colin, 2002.
BERTAUX, D. Introduction in Les Récits de Vie. Perspectives ethnosociologiques. Paris: Nathan, 1997.
BATESON, M.C.“Sobre a naturalidade das coisas”. In: ______. As coisas são assim: pequeno repertório do mundo que
nos cerca.São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
BENTLEY, P. J. Biologia Digital: como a natureza está transformando a tecnologia em nossas vidas. São Paulo: Berke-
ley, 2002.
BRAUDEL, F. El Mediterráneo: el espacio y la historia. México: Fondo de Cultura Económica, 1989.
CLARKE, A.C. Perfiles del Futuro: una investigación de los limites de lo posible.Barcelona: Caralt, 1977.

Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003 91


g g y p

COMTE-SPONVILLE, A. & FERRY, L. A Sabedoria dos Modernos: dez questões para o nosso tempo. São Paulo: Martins
Fontes, 1999.
COSTA, S. & DINIZ, D. Bioética: ensaios. São Paulo: Letras Livres, 2001.
CUPANI, A.“Objetividade científica: noção e questionamento”. Manuscrito, Florianópolis, v. 13, n. 1, p. 25-54, 1990.
DAMATTA, R. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Petrópolis: Vozes, 1981.
DENNETT, D. Tipos de Mentes: rumo a uma compreensão da consciência. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
DINIZ, D. & GUILHEM, D. O que é Bioética. São Paulo: Brasiliense, 2002.
ECHEVERRÍA, J. Introducción a La Metodología de la Ciencia: la filosofía de la ciencia en el siglo XX. Madrid: Catedra,
1999.
ESPOSITO, C. A preocupação bio-ética no tempo do niilismo. Boletim do Núcleo Fé e Cultura, PUC-SP, 8/out./
01.<http://www.pucsp. br/fecultura/esposi01.htm>. Acesso em: 27/out./03.
ETGES, N. J. “Sociedade do Trabalho sem Trabalho: desemprego estrutural e emergência do novo”. Revista Pers-
pectiva,Florianópolis, n. 26, p. 13-38, jul.-dez./96.
FOUCAULT, M. “La ética del cuidado de si como practica de la libertad”. In: ______. Hermeneutica del Sujeto. Bue-
nos Aires: Ed. de la Piqueta, 1991.
GARCIA, M.I.G. et al. Ciencia, Tecnologia y Sociedade: una introducción al estudio social de la ciencia y la tecnologia.
Madrid: Tecnos, 1996.
GEERTZ, C. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
JONAS, H. El Principio de La Responsabilidad: ensayo de uma ética para la civilización tecnológica. Barcelona: Herder,
1995.
KESSELRING, T. “O conceito de natureza na história do pensamento ocidental”.Revista Ciência & Sociedade, Santa
Maria, v. 3, n. 5, p. 19-39, jul-dez/92.
LAMPTON, C. Divertindo-se com Nanotecnologia: construindo máquinas a partir de átomos. São Paulo: Berkeley,
1994.
LATOUR, B. Jamais Fomos Modernos: ensaios de antropologia simétrica. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.
LEITE, M. “Ciência em dia: moratória para a nanotecnologia”.Folha Online, 23/fev./03. <http://www1.folha.uol.com.br/
folha/ciencia/ult306u8518.shtml>. Acesso em: 15/out./03.
LÉVY, P. A Inteligência Coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998.
NAGEL, E.“Ciência: natureza e objetivo”. In: MORGENBESSER, S. Filosofia da Ciência. São Paulo: Cultrix, 1979.
PARLAMENTO EUROPEU. Documento de Trabalho n. 4. Relator: Gérard Caudron, 27/jun./01. <http://www.euro-
parl.eu.int/meetdocs/committees/itre/20010827/434204pt.pdf>. Acesso em: 24/dez./04.
PESSINI, L.Problemas Atuais de Bioética. 4. ed. São Paulo: Loyola, 1997.
REGIS, E. Nano – a ciência emergente da nanotecnologia: refazendo o mundo molécula por molécula. Rio de Janeiro:
Rocco, 1997.
SILVA, C.G.“A hora da nanotecnologia: rumo ao nanomundo”.Revista Ciências Hoje, São Paulo, v. 33, n. 193, p. 6-11,
maio/03.
TORNQUIST, C.S. “Salvar o dito, honrar a dádiva: dilemas éticos do encontro e da escuta etnográfica”. Processo de
Qualificação – 2001/2. Florianópolis, 2001
WILSON, E.O. A Unidade do Conhecimento. Rio de Janeiro: Campus, 1999.

92 Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003


g g y p

Dados da autora
Doutoranda do Programa de Doutorado
Interdisciplinar em Ciências Humanas (DICH) da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC),
e professora de curso de Graduação e
Pós-Graduação a Distância da
Universidade do Estado de Santa Catarina.

Recebimento artigo: 10/jul./03


Consultoria: 28/ago./03 a 12/set./03
Aprovado: 23/set./03

Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003 93


g g y p

94 Impulso, Piracicaba, 14(35): 75-93, 2003