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A INFLUÊNCIA DO ILUMINISMO NA DECLARAÇÃO DE DIREITOS DO HOMEM E

DO CIDADÃO DE 1789

Fernando Antônio Turchetto Filho1

Resumo

O presente artigo pretende abordar as características essenciais do período histórico

denominado iluminismo, relacionando-as com determinados artigos da declaração

dos direitos do homem e do cidadão de 1789, no intuito de expor as principais

mudanças ocorridas na política e no direito europeu dentro deste contexto.

PALAVRAS-CHAVE: Iluminismo; Declaração Francesa de 1789.

Introdução

Durante o final do século XVII até o final do século XVIII o homem

desenvolveu outra forma de enxergar o mundo a sua volta no ocidente, redefinindo a

maneira de interpretar fenômenos tais como a natureza, a sociedade, a religião, em

suma: o conhecimento remodelava-se sobre uma perspectiva que não a grega ou

cristã de modo estrito, mas sobreduto racional.

O período é considerado pela academia como um divisor de águas na

história, pois a razão humana seria então a iluminação (daí o nome do movimento)

capaz de esclarecer. No entanto, é imperioso fazer-nos o questionamento do que

seria o iluminismo. Em resposta, o filósofo Imannuel Kant explica que:

Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é


culpado. [...] É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade

1Advogado, especialista em direitos fundamentais pelo Instituto Brasileiro de Ciências Criminais e


especialista em direitos humanos pelo Ius Gentium Conimbrigae da Faculdade de Direito da
Universidade de Coimbra.
1
que para ele se tomou quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por
agora realmente incapaz de servir do seu próprio entendimento, porque
nunca se permitiu fazer semelhante tentativa […] 2.

A intuição fundamental deste movimento intelectual é um convite ao ser

humano a pensar, ou seja, buscar o entendimento do mundo ao seu redor não de

maneira mística ou fantasiosa, porém apoiando-se da característica peculiar que o

difere dos demais animais, a sua racionalidade, a “ousadia pelo saber”, sendo esta a

palavra de ordem à iluminação, resumida em latim pelo termo: Sapere AudeI3.

Mesmo que vários estudiosos especifiquem o surgimento e o fim do

iluminismo, não há consenso quanto à exata datação, havendo uma tendência em

adotar-se o início século XVIII como marco de referência. O término do período é,

por sua vez, habitualmente assinalado em coincidência com o início das Guerras

Napoleônicas (1804-1815).

O movimento começava a nascer com a revolução gloriosa de 1668 na

Inglaterra, graças à insatisfação popular, principalmente da burguesia. A assinatura

do rei Guilherme 3º de Orange da “Bill of Rights” (declaração de direitos de 1689),

seguido da aprovação pelo parlamento acabou com as tentativas de instauração do

absolutismo monárquico, ao circunscrever os poderes do rei subordinado ao

Parlamento4. Não obstante do seu surgimento no Reino Unido, o iluminismo

intensifica-se na França, pois não chegou a haver consenso entre a burguesia e o

rei, o que viria a desembocar na revolução francesa.

2 KANT, Immanuel: "Resposta à pergunta: O que é Esclarecimento?", há tradução alternativa para


português de Portugal: Immanuel Kant, “Kant e a «Resposta à Pergunta O Que São as Luzes»”,
Edição, apresentação, tradução e notas a cargo de José Esteves Pereira, Cultura, História e Filosofia,
vol. III, Lisboa, INIC / Centro de História da Cultura da UNL, 1984, pp. 153-168.
3 Ibid.
4 Revolução Gloriosa marcou início da democracia parlamentar europeia, por Matthias von
Hellfeld. DW. Disponível em: <http://www.dw.de/revolu%C3%A7%C3%A3o-gloriosa-marcou-
in%C3%ADcio-dademocracia-parlamentar-europeia/a-4233327-1> Acesso: 08 de Fev. de 2014.
17’’22’.
2
Ainda que o período seja lembrado por revoluções europeias, o legado do

iluminismo é a revolução no pensamento, no entendimento humano do mundo

demonstrado pelos filósofos da época, ao qual veremos a seguir algumas das

principais características.

Características do Iluminismo:

a) Liberalismo:

Historicamente, o liberalismo surgiu gradativamente como uma forma de

oposição às monarquias absolutas e ao seu correspondente regime econômico; o

mercantilismo. O regime mercantilista pressupõe a existência de um Estado, seja ele

representado por uma monarquia ou por um governo republicano, com poderes para

intervir na economia a fim de promover o desenvolvimento e distribuir a renda5.

Devemos ter em mente que até o século XVIII, a produção mercantil

organizada dependia de uma concessão do monarca, dos “favores do rei”, que desta

forma determinava quem iria produzir o que e qual a região a ser abastecida por

aquele produtor. Vale relembrar a frase do ministro da Fazenda ao rei francês Luís

XIV para conter a crescente insatisfação popular: “laisser faire, laissez passer”, ou

seja, não impeça os outros de produzir, não impeça a circulação de mercadorias.

Em suma: não conceda privilégios6.

Desta feita, considera-se como liberalismo um sistema baseado na liberdade.

A liberdade, a propriedade e a paz, são, por assim dizer, os pilares sobre os quais

se assenta a doutrina liberal7:

5 STEWART JR, Donald. O que é liberalismo. Instituto Liberal. 1995. Página 13. Disponível em:
<http://www.libertarianismo.org/livros/dsjoqueeliberalismo.pdf.> Acesso em: 19 de Fev. 19’15’’.
6 Ibid. Pág. 20
7 Ibid. Pág. 73
3
Liberdade econômica, liberdade de iniciativa, entendida como o direito de
entrada no mercado para produzir os bens e serviços que os consumidores,
os usuários, desejam. É a liberdade de contrato representada pelo
estabelecimento de preços, salários e juros sem restrições de qualquer
natureza. É a aventura e o risco de alguém só ser bem sucedido se produzir
algo melhor e mais barato. Liberdade política, além da liberdade de
expressão, de locomoção, de crença, de reunião, é a consciência de que
deve haver liberdade para escolher as pessoas que irão exercer as funções
de governo e que, portanto, irão deter o comando do aparato de coerção e
compulsão. Necessita de ser imposto pela persuasão e pelo argumento,
pela explicação de suas vantagens para a sociedade como um todo e para
cada um em particular8 (g.n).

Dentro da esteira do iluminismo, a ideia de liberdade surgia não só no campo

econômico, porém, aprofundava-se no comportamento do ser humano, ao qual foi

fundamentada com maior propriedade por Imannuel Kant. Equânime status moral, o

liberalismo não admite diferenças de natureza política ou legal entre os seres

humanos. É essa concepção do homem e da sociedade que dá ao liberalismo uma

identidade que transcende a sua enorme diversidade e complexidade 9:

[...] Liberalismo é suprema forma de generosidade; é o direito que a maioria


concede a minoria e, portanto, é o grito mais nobre que já ecoou neste
planeta. É o anúncio da determinação de compartilhar a existência com o
inimigo, mais do que isso, com um inimigo que é fraco. É incrível como a
espécie humana foi capaz de uma atitude tão nobre, tão paradoxal, tão
refinada e tão antinatural [...]10.

Portanto, o liberalismo é uma doutrina voltada para a melhoria das condições

materiais do gênero humano. O pensamento econômico e a experiência histórica

não conseguiram, até hoje, sugerir outro sistema social que seja tão benéfico para a

sociedade quanto o liberalismo.

b) Empirismo

No decorrer da história da filosofia, muitos filósofos defenderam a tese

empirista, porém os mais conhecidos são os filósofos ingleses dos séculos XVI ao

8 Ibid. Pág. 73
9 Ibid. Pág.14
10 ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião Das Massas. Tradução Herrera Filho. Ed. Eletrônica
Ridendo Castigat Mores. Versão para Ebook. 2001. Disponível em:
<http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/ortega.html> Acesso em: 20 de Fev. de 2014. 17’’43’.
4
XVIII, Francis Bacon, John Locke, George Berkeley e David Hume. Na verdade, o

empirismo é uma característica muito marcante da filosofia inglesa11.

Contrariamente aos defensores do racionalismo, os empiristas afirmam que a

razão, a verdade e as ideias racionais são adquiridas por nós através da experiência

sensível. Antes desta, dizem eles, nossa razão é como uma “folha em branco”, onde

nada foi escrito; uma “tábula rasa”, onde nada foi gravado. Somos como uma cera

sem forma e sem nada impresso nela, até que a experiência venha escrever na

folha, gravar na tábula, dar forma à cera12. David Hume afirma que:

[...] Quando se pergunta: qual é a natureza de todos os nossos raciocínios


sobre os fatos? A resposta conveniente parece ser que eles se fundam na
relação de causa e efeito. Quando se pergunta: qual é o fundamento de
todos os nossos raciocínios e conclusões sobre essa relação? Pode-se
replicar numa palavra: a experiência [...]13.

As percepções originais, isto é, os elementos primitivos da experiência, são

as “impressões”. As “ideias”, por seu turno, que afloram à consciência, quando

pensamos ou raciocinamos, são fracas imagens das impressões. As ideias não são,

portanto, como para os platônicos, os arquétipos de tudo que existe e nem, como

para os cartesianos, inatas, pois unicamente as impressões são inatas 14.

Para o autor, as ideias são “[...] as faculdades de combinar, de transpor,

aumentar ou de diminuir as matérias que nos foram fornecidas pelo sentido” (HUME,

1999, p. 36). Na esteira deste pensamento, o filósofo iluminista descreve com

precisão acerca da experiência humana como formadora de conhecimento:

As percepções originais, isto é, os elementos primitivos da experiência, são


as “impressões”. As “ideias”, por seu turno, que afloram à consciência,

11 CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Ed. Ática. São Paulo. 2000. Pág. 88. Disponível em:
<http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/convite.pdf Acesso em: 13/02/2014> Acesso em: 24 de Fev. de 2014
16’’05’.
12 Ibid. Pág. 88
13 Versão eletrônica do livro “Investigação Acerca do Entedimento Humano”. Autor: David Hume.
Pág. 26 Tradução: Anoar Aiex. Disponível em: <http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/ensaio.pdf> Acesso em:
13 de Fev. de 2014. 13’’15’.
14 Ibid.
5
quando pensamos ou raciocinamos, são fracas imagens das impressões.
As ideias não são, portanto, como para os platônicos, os arquétipos de tudo
que existe e nem, como para os cartesianos, inatas, pois unicamente as
impressões são inatas15.

Desta feita, Hume critica o filósofo francês Renné Descartes, que

resumidamente afirmava o conhecimento, da mesma forma que algumas verdades e

princípios universais, já estariam impressos na nossa alma ao nascermos. Ao

contrário desta definição cartesiana, se a verdade e os princípios fossem impressos

na alma deveriam ser verdades universais e, consequentemente, conhecidas por

todos. Para os empiristas, a capacidade é inata, mas o conhecimento adquire-se

apenas com a experiência.

c) Criticismo

O iluminista Imannuel Kant forneceu resposta específica a praticamente todas

as grandes correntes filosóficas de seu tempo. O criticismo propôs uma crítica à

teoria do conhecimento fundamentada apenas nas impressões de base sensível,

criticando assim o empirismo radical de John Locke e outros ingleses 16.

Outrossim, criticava o racionalismo de Descartes, haja vista as ideias inatas

não ampliarem o conhecimento e como consequência, não fundamentarem ciência

alguma. Ao analisar o racionalismo de Descartes e o empirismo dos ingleses, Kant

não descarta ambas as concepções, todavia não prioriza alguma17, mas divide-as:

No tempo, pois, nenhum conhecimento precede a experiência, todos


começam por ela. Mas se é verdade que os conhecimentos derivam da
experiência, alguns há, no entanto, que não têm essa origem exclusiva, pois
poderemos admitir que o nosso conhecimento empírico, seja um composto
daquilo que recebemos das impressões e daquilo que a nossa faculdade

15 Ibid.
16 Jesiel Soares Silva Intersecções Epistemológicas: A Binaridade De Saussure, A Usiologia De
Aristóteles e o Cientificismo De Kant. Anthesis: Revista de Letras e Educação da Amazônia Sul-
Ocidental, ano 01, 2012, nº 02 Pág. 08. Disponível em:
<http://www.periodicoseletronicos.com.br/index.php/anthesis/article/view/70/60> Acesso em: 20 de
Fev. de 2014. 18’’21’.
17 Ibid. Pág. 08.
6
cognoscitiva lhe adiciona (estimulada somente pelas impressões dos
sentidos); aditamento que propriamente não distinguimos senão mediante
uma longa prática que nos habilite a separar esses dois elementos. Surge
desse modo uma questão que não se pode resolver à primeira vista: será
possível um conhecimento independente da experiência e das impressões
dos sentidos? Tais conhecimentos são denominados “a priori”, e distintos
dos empíricos, cuja origem é a posteriori”, isto é, da experiência18.

Neste sentido, o conteúdo do conhecimento parte das impressões sensíveis,

ao qual denomina conhecimentos a posteriori. Todavia, sua organização e

ordenamento estão processados na consciência em uma estrutura lógica dentro do

ser, aos quais Kant denomina de conhecimentos a priori. Estes semelham-se aos

que os racionalistas denominam de ideias inatas, capazes de serem formados sem a

necessidade da experiência e não derivando de outras, sendo concebidas por si

mesmas como necessárias, portanto universais:

[...] A necessidade e a precisa universalidade são os caracteres evidentes


de um conhecimento “a priori”, e estão indissoluvelmente unidos. [...] Ora, é
fácil demonstrar que no conhecimento humano existem realmente juízos de
um valor necessário, e na mais rigorosa significação universal; por
conseguinte, juízos puros, “a priori”. Se se quer um exemplo da própria
ciência, basta reparar em todas as proposições da Matemática. Se se quer
outro tomado do bom senso, pode bastar a proposição de que cada
mudança tem uma causa. [...] Também se poderia, sem recorrer a esses
exemplos, para provar a existência de princípios “a priori” em nosso
conhecimento, demonstrar que são indispensáveis para a possibilidade da
mesma experiência, sendo, portanto, uma demonstração “a priori"19.

Nesta seara, o conhecimento a priori Kant denomina em juízos analíticos

(afirmativos ou explicativos) e o conhecimento a posteriori de juízos sintéticos

(extensivos)20. O conhecimento a priori ou analítico implica necessidade e

universalidade, não necessitando da experiência para que seja formado. Por outro

lado, todo o conhecimento a posteriori é sintético, ou seja, amplia o conhecimento a

partir da experiência sensível.

18 KANT, I. Versão Eletrônica do Livro: “Crítica da razão pura”. Pág. 03. Trad. J. Rodrigues de
Merege. Disponível em: <http://www.psb40.org.br/bib/b25.pdf> Acesso em: 16 de Mar. de 2014.
12’’34’.
19 Ibid. Pág. 04.
20 Ibid. Pág. 07.
7
Destas afirmações, sabia Kant que os juízos sintéticos que traziam

conhecimento novo podiam ser encontrados ou demonstrados a priori (sem recorrer

à experiência)21. Portanto, em termos kantianos, havia “juízos sintéticos a priori”,

sendo estes os formadores de conhecimento. Utilizando verdades necessárias e

universais das quais se extraem ou foram extraídas da experiência sensível, surge à

possibilidade de proposições sintéticas a priori. O juízo é sintético pela necessidade

da experiência sensível desenvolver outros conhecimentos. Porém, antes desta

experiência, este juízo parte a priori, pela capacidade de todos os seres humanos

conseguirem sistematizar, organizando as informações causadas pelo sensível.

Com isso, Kant reconhece, por exemplo, que existe em nós um conceito puro

e sintético sobre a existência de Deus, da mesma forma como existem também os

juízos sintéticos a priori da matemática e da física. Entretanto, os objetos destas

últimas encontram total concordância com a percepção que temos do mundo

natural. Já no caso da metafísica, os objetos (Deus, alma, universo) são

transcendentes e por não pertencerem ao mundo conhecido pelo homem, eles

ultrapassam o limiar da nossa capacidade cognitiva 22:

Há uma coisa ainda mais importante que o que precede: certos


conhecimentos por meio de conceitos, cujos objetos correspondentes não
podem ser fornecidos pela experiência, emancipam-se dela e parece que
estendem o círculo de nossos juízos além dos seus limites. Precisamente
nesses conhecimentos, que transcendem ao mundo sensível, aos quais a
experiência não pode servir de guia nem de retificação, consistem as
investigações de nossa razão, investigações que por sua importância nos
parecem superiores, e por seu fim muito mais sublimes a tudo quanto a
experiência pode apreender no mundo dos fenômenos; investigações tão
importantes que, abandoná-las por incapacidade, revela pouco apreço ou
indiferença, razão pela qual tudo intentamos para as fazer, ainda que
incidindo em erro. Esses inevitáveis temas da razão pura são: Deus,
liberdade e imortalidade. A ciência cujo fim e processos tendem à resolução
dessas questões denomina-se Metafísica23.

21 Ibid. Pág. 09.


22 Ibid. Pág. 05.
23 Ibid. Pág. 05.
8
A partir deste juízo, é reconstruído o posicionamento da metafísica no campo

do conhecimento, pois o pensamento grego não serve mais, bem como o

conhecimento cristão não convém. As ideias da metafísica, mesmo transcendendo a

experiência sensível, são condições indispensáveis para natureza humana, desta

forma não há como descartá-las. O fato do homem ser um ente moral para Kant

demonstra a realidade metafísica24:

Também deve haver conhecimentos sintéticos “a priori” na Metafísica, ainda


que só a consideraremos como uma ciência em ensaio; mas que, não
obstante, torna indispensável à natureza da razão humana. […] Assim, pois,
a Metafísica consiste, pelo menos segundo seu fim, em proposições
puramente sintéticas “a priori”25.

Indispensável à natureza humana, a Metafísica regeu todo o comportamento

da sociedade no ocidente. Mas como todos esses objetos são absolutamente

independentes da experiência e do mundo fenomenal, eles permanecem

incognoscíveis a qualquer ser que possua a mesma capacidade cognitiva dos seres

humanos26.

Deste modo, a Metafísica pura não pode ser formadora do conhecimento

como afirmavam os gregos no passado. Ora, tal afirmação retirava a legitimidade do

poder de origem divina, bem como reexaminava a forma de relacionamento entre

governantes e governados. Isto gerou, consequentemente, inquietações na nobreza

e no clero, mormente na França, pois a resistência do rei Luís XVI ao ceder o poder

ao povo, somado a diversos fatos sociais que não serão tratados aqui,

desembocaram na revolução francesa.

24 Jesiel Soares Silva Intersecções Epistemológicas: A Binaridade De Saussure, A Usiologia De


Aristóteles e o Cientificismo De Kant. Anthesis: Revista de Letras e Educação da Amazônia Sul-
Ocidental, ano 01, 2012, nº 02 Pág. 09. Disponível em:
<http://www.periodicoseletronicos.com.br/index.php/anthesis/article/view/70/60>
25 KANT, I. Versão Eletrônica do Livro: “Crítica da razão pura”. Pág. 09. Trad. J. Rodrigues de
Merege. Disponível em: http://www.psb40.org.br/bib/b25.pdf - Acesso em: 20 de Fev. de 2014.
12’’21’.
26 Caius Brandão - Como são possíveis os juízos sintéticos a priori – Disponível em:
<http://www.academia.edu/1086110/Como_sao_possiveis_os_juizos_sinteticos_a_priori> Acesso em:
23 de Fev. de 2014. 13’’23’.
9
A revolução remodelou a estrutura de governo francês, desmantelando o

absolutismo monárquico e o poder da igreja, consolidando um rol de direitos ao qual

julgaram como universais, pautados na liberdade, na igualdade e na fraternidade, ao

qual chamaram de a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, no ano de

1789.

A Declaração de Direitos dos Homens e do Cidadão de 1789

Conforme descrito no capítulo anterior, os direitos alicerçados nesta

declaração tinham o escopo de garantir direitos corolários aos ideais iluministas, de

cunho universal por se basearem na liberdade e na igualdade dos homens e

cidadãos. Neste espeque, o artigo 6º da Declaração nos remete diretamente a este

objetivo:

A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de


concorrer, pessoalmente ou através de mandatários, para a sua formação.
Ela deve ser a mesma para todos, seja para proteger, seja para punir.
Todos os cidadãos são iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a
todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a sua
capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos
seus talentos.

Tangente à segunda parte do artigo, o criticismo de Imannuel Kant descreve

como a dignidade moral se diferencia do entendimento grego antes entendido, pois

se a moral fosse o talento natural (as virtudes/talentos) não haveria igualdade. Como

a moral não é o talento natural, mas o uso da razão sobre o que fazer com estes,

somos todos iguais consequentemente27.

A moral decorre da liberdade de escolher o que fazer com estas virtudes,

sendo esta a razão na vida prática. Esta capacidade existe em todos os seres

humanos, o que faz de todos iguais aos outros seres humanos e é o que o difere

27 A dignidade moral em Kant. Clóvis de Barros Filho. Disponível em: <http://vimeo.com/79256872>


Acesso em: 06 de Mar. de 2014. 18’’28’.
10
dos outros animais. Assim, o conceito de liberdade alicerça a construção da filosofia

kantiana, constituindo-se como princípio regulador da razão, atuando no uso prático

da razão, fundamento de razão pura para a escolha livre das contingências

empíricas28.

Influenciada também pelo filósofo Jean Jacques Rosseau, a primeira parte do

artigo corresponde à ideia de interesse comum do povo sobre o interesse privado,

seja do rei, seja da aristocracia. Rosseau explica que a vontade ou é geral, ou

particular, sendo ou a vontade do povo, ou somente de uma parte:

A primeira e mais importante consequência dos princípios antes


estabelecidos é que somente a vontade geral pode dirigir as forças do
Estado segundo a finalidade de sua instituição, que é o bem comum: se a
oposição dos interesses particulares tornou necessário o estabelecimento
das sociedades, é a concordância desses mesmos interesses que o tornou
possível. O que há de comum nestes diferentes interesses é que forma o
vínculo social; se não houvesse algum ponto no qual todos os interesses se
conciliam, nenhuma sociedade poderia existir. Ora, é somente a partir deste
interesse comum que a sociedade deve ser governada29 (g.n).

Seria a lei a vontade da maioria, respeitado o direito da minoria. No primeiro

caso, essa vontade declarada seria um ato de soberania, de sorte que viria a

constituir-se em lei. Dentro da vontade particular, em um governo republicano,

quando muito, esta poderia ser um decreto30.

De certa maneira, a antropologia de Rosseau e a moral em Kant foram às

condições filosóficas da ideia de humanidade explícita nos artigos da Declaração

Francesa, direção contrária aos governos despóticos, monárquicos e aristocráticos,

elevando o ideal democrático francês. Além destes filósofos, o iluminista francês

conhecido como barão de Montesquieu também ressalta que a vontade do soberano

deve estar no povo, criando amplamente a perspectiva de direito político:

28 Marcelo Kokke Gomes. O ser humano como fim em si mesmo: imperativo categórico como
fundamento interpretativo para normas de imperativo hipotético. Disponível em:
<http://jus.com.br/artigos/5175/o-ser-humano-como-fim-em-si-mesmo> Acesso em 29 de Mar. de
2014. 20’’32’.
29 ROUSSEAU. Jean Jacques. Do contrato social. São Paulo: Martin Claret, 2003. Pág. 42.
30 Ibid.
11
Quando numa república, o povo como um todo possui o poder soberano,
trata-se de uma Democracia. Quando o poder soberano está nas mãos de
uma parte do povo, trata-se de uma Aristocracia. O povo, na democracia, é,
sob alguns aspectos, o monarca; sob outros, o súdito. O povo só poder ser
monarca pelos sufrágios, que constituem suas vontades. A vontade do
soberano é o próprio soberano31.

Se o povo só pode ser o monarca pelos sufrágios, conforme afirma

Montesquieu, a vontade, não do indivíduo, mas do povo em maioria, é tratado pelo

termo democracia. Esta ideia de “vontade geral” proporcionada também por

Rosseau, nos emite uma ideia de igualdade em direitos. Explicitamente

demonstrado que a soberania encontra-se na nação e não mais em um indivíduo, as

ideias de Montesquieu diretamente são aderias pelo artigo 3º da Declaração

Francesa, senão vejamos: “O princípio de toda a soberania reside, essencialmente,

na nação. Nenhum corpo, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não

emane expressamente”.

Desta forma, fica claro que os franceses abominariam de uma vez por todas a

monarquia em prol da liberdade política do povo. Contudo, um regime democrático

não traduz ao povo fazer o que quer, pois a liberdade política não consiste nisso;

independência e liberdade são termos distintos. A liberdade é o direito de fazer tudo

o que as leis permitem; se um cidadão pudesse fazer tudo o que elas proíbem, não

teria mais liberdade, porque os outros teriam tal poder32.

Com efeito, o artigo 4º vai refletir de maneira similar esta definição ideal de

Montesquieu, ao qual teria a lei como limite, senão vejamos:

A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo:


assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites
senão aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo
dos mesmos direitos. Estes limites apenas podem ser determinados pela lei.

31 MONTESQUIEU, Do Espírito das Leis, Clássicos Garnier. Trad. Fernando Henrique Cardoso e
Leôncio Martins Rodrigues. 1962. 1º Vol. Pág. 42.
32 Ibid. Pág. 36.
12
Além dos iluministas citados neste capítulo, a influência de John Locke, Adam

Smith, David Hume e outros ingleses também se aplicam na Declaração, pois a

liberdade que consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo (liberdade

jurídica, liberdade de expressão, liberdade de opinião, liberdade de comunicação) e

o direito à propriedade são descritas nos artigos segundo, décimo, décimo primeiro e

décimo sétimo:

A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos


naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a
propriedade, a segurança e a resistência à opressão.

Ninguém pode ser molestado por suas opiniões, incluindo opiniões


religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública
estabelecida pela lei.

A livre comunicação das ideias e das opiniões é um dos mais preciosos


direitos do homem; todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir
livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade nos termos
previstos na lei.

Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode


ser privado, a não ser quando a necessidade pública legalmente
comprovada o exigir evidentemente e sob condição de justa e prévia
indenização.

Com isto, podemos afirmar que a maneira racional de interpretar o mundo

relaciona-se diretamente com o surgimento da declaração francesa. Graças aos

inúmeros filósofos modernos (aos quais demos maiores importância neste artigo a

John Locke, David Hume, Rosseau, Montesquieu e Kant) fora desenvolvido um novo

valor ideal humano.

Portanto, a mudança na legitimidade na relação entre governantes e

governados (assente, sobretudo, no consentimento liberal, racional e não mais nas

virtudes ou na origem divina) refletiu diretamente no direito, anteriormente natural,

tornando-se jusracional.

Conclusão

13
Parece-nos não ser possível abordar o estudo do Direito e do Estado, sem se

ter certo conhecimento prévio da história da Filosofia geral. Não basta conhecer os

problemas; é preciso conhecer também a história deles33. O iluminismo proporcionou

um rompimento do jusnaturalismo até então fundamentado metafisicamente, donde

as pessoas obedeciam apenas porque acreditavam em certos direitos naturais de

cada um para direitos racionais declarados pelo Estado francês, o que viria

futuramente a garantir uma certa dose de autonomia para os ordenamentos jurídicos

ocidentais futuros, albergando aumento de segurança jurídica.

Todavia é importante ressaltar que esta evolução não implicou

necessariamente no afastamento ou descrença divina, pois Metafísica jamais fora

descartada como supracitado no criticismo de Kant, atuando no comportamento

humano e em sua própria racionalidade prática, sua moralidade, de sorte que o

preâmbulo da declaração francesa explicitamente reconhece e declara os direitos

sob os auspícios do Ser Supremo.

Esta ideia de racionalidade como fonte de legítima do direito foi o impacto do

pensamento iluminista no ocidente, obtendo tamanha transformação das sociedades

e que viria a sofrer inúmeras críticas até o momento presente, principalmente pela

tentativa de universalização moral do direito baseado na ética, na razão e na

liberdade iluminista.

Inobstante as teorias futuras que se desenvolveram após o período moderno,

o legado da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 foi a noção de

universalidade e humanidade deixadas pelo iluminismo, servindo de base para

novos catálogos de direitos humanos que foram se desenvolvendo em determinados

33 Antônio Maria M. Pinheiro Torres. Considerações Acerca do Direito Natural. Coimbra Ed. 2010.
Pág. 12
14
contextos futuros até o período atual, na tentativa infindável de garantir o bem-estar

dos indivíduos na sociedade como um todo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Ed. Ática. São Paulo. 2000. Disponível em:

<http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/convite.pdf>

KANT, Immanuel: "Resposta à pergunta: O que é Esclarecimento?" Disponível em:

<http://coral.ufsm.br/gpforma/2senafe/PDF/b47.pdf>

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