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DÁDIVA E MANDONISMO: REFLEXÕES ACERCA DAS DISPUTAS PELO PODER NO MUNICÍPIO DE BARREIRA (CEARÁ).

Monalisa Lima Torres

Rejane Maria Vasconcelos de Carvalho

Emanuel Freitas da Silva

Irlena Maria Malheiros da Costa

Monalisa Soares Lopes

José Cleyton Vasconcelos Monte

RESUMO O escopo dessa análise é refletir acerca das relações de poder no âmbito local a partir da interação de caráter pessoal entre candidato e eleitor fundada numa economia e moral do dom. Nesse sentido, realizou-se um estudo de caso no município de Barreira (Ceará), durante as eleições locais de 1988 e 1992 no qual se observou como o médico, no exercício de sua profissão, acumula capital social e logra convertê-lo em capital político/eleitoral, emergindo como um novo ator político capacitado a disputar o pleito municipal com candidatos pertencentes a tradicionais famílias/grupos políticos. No caso do médico em foco, Dr. Júnior, tais capitais foram acionados de modo a engendrar nos pacientes (eleitores em potencial) vínculos de amizade, sentimentos de afetividade bem como a obrigação moral de dívida a ser saldada. Nesse contexto, tais sentimentos e obrigações se estendem à esfera política fazendo com que a adesão à candidatura do médico, a militância durante as campanhas e, sobretudo, o voto, fossem percebidos como instrumentos por meio dos quais se amortiza uma dívida, o que possibilitou entender a continuidade de práticas e o uso de políticas que se denominam na literatura de assistencialistas e clientelistas. Para uma melhor compreensão sobre tal fenômeno tomou-se como referência o sistema de dádivas, de Marcel Mauss, como modelo conceitual capaz de explicar não só o tipo de organização societária em Barreira bem como se fundamentam as relações entre político e eleitor. Para a análise do funcionamento da políticas no Ceará foram indispensáveis os estudos de Maria Isaura Pereira de Queiroz, Rejane Carvalho, Mônica Martins, Moacir Palmeira, entre outros. No que se refere à introdução dos médicos no cenário político, buscou-se as contribuições de Marc Bloch, Odaci Coradini, Júlia Miranda e Maria Auxiliadora Lemenhe. Além disso, o conceito weberiano de tipo-ideal serviu de instrumento para a aproximação da realidade, na medida em que permitiu a observação dos tipos de dominação e a construção de uma categoria analítica: os doutores-prefeitos. A participação em eventos políticos e o uso da técnica de Entrevista Semiestruturada possibilitou formular noções claras sobre o modo como os eleitores vivenciam a política no município. Esta pesquisa permitiu a apreensão da política como uma relação de troca para além da perspectiva do simples câmbio de favores, na medida em que o caráter do relacionamento candidato-eleitor e as práticas que engendra só são aceitáveis em um modelo de organização societário que tem como fundamento o sistema de dádivas e contradádivas, ora os regulando, ora os legitimando, ora os reproduzindo.

Palavras-chave: dádiva, política local, médico; relação político-eleitor.

Introdução Voltando o olhar para a realidade política brasileira atual, observamos que, numa sociedade ainda hierarquizada, onde os princípios de igualdade ainda não estão plenamente estabelecidos, não só nas grandes cidades como nos pequenos municípios do interior, figuras políticas, fazendo uso de suas atribuições públicas (ou com recursos privados), estabelecem relações onde se trocam benefícios por voto e apoio político. Essas e outras práticas (clientelismo, patriarcalismo, patrimonialismo), ainda recorrente nos nossos dias, poderiam ser perfeitamente identificadas como características do coronelismo. Entretanto, preferimos adotar um modelo conceitual mais amplo, que parte de algo anterior ao coronelismo, qual seja, as relações interpessoais que se estabelecem antes do surgimento do coronel, e o que motiva/movimenta tais relações: o sistema de dádivas. Aqui, entendemos por dom ou dádiva o ato voluntário que, individual ou coletivo, precisa ou não ser solicitado por quem recebe, e que estabelece vínculos de solidariedade e/ou laço social. Nesse caso, basta lembrar a barganha eleitoral, onde tanto político quanto eleitor iniciam tal relação solicitando um dom em troca de outro. Esses dons e contra-dons na política configuram o que alguns de nossos estudiosos denominaram por favor. A partir dessas reflexões cabe nos debruçarmos sobre o fenômeno que motivou esta pesquisa: a coexistência de práticas políticas tradicionais e modernas no contexto da política local em Barreira (Ceará), tendo como sujeito-objeto o médico que se torna prefeito e fazendo uso de práticas políticas tradicionais, se mantem no poder. Ressaltando que, no contexto desta investigação, tradicional e moderno são entendidos da seguinte maneira:

‘Tradicional’ geralmente se refere à ausência de instituições modernas que regulem o poder dos políticos e dos funcionários públicos, ao passo que ‘moderno’ significa predominância de procedimentos legal-racionais na administração pública, um autêntico espírito representativo nas instituições políticas e uma efetiva preocupação com o universalismo e o ‘bem comum’ na cultura política (OTTMANN, 2006. p. 156).

Barreira, emancipado através da Lei Estadual 11.307 de 15 de abril de 1987, é um pequeno município do interior cearense, que teve, em toda sua história, seis chefes do executivo, sendo dois deles médicos dr. Glicério de Moura Júnior (ou como era mais conhecido, dr. Júnior) e dr. Valderlan Fechine Jamacaru (o dr. Valderlan) que, juntos, governaram por dez anos. Ambos, em suas campanhas eleitorais, faziam discursos modernizadores e ambos foram afastados do exercício do cargo por improbidade administrativa. O primeiro médico eleito foi Dr. Júnior, em 1992, cassado em 1994, assumindo seu vice, Zé Bernardo (ou professor Bernardo). O segundo, Dr. Valderlan, eleito

em 2000 e reeleito em 2004, cassado no último ano do segundo mandato. Este último, ainda interfere na política municipal e se mantem no poder através do apoio ao seu amigo íntimo e atual prefeito, Antônio Peixoto. Neste trabalho daremos ênfase ao Dr. Valderlan.

Metodologia Para a apreensão do fenômeno em estudo, como a metodologia weberiana ensina, devemos compreendê-lo a partir das peculiaridades da sociedade da qual faz parte, estando essas peculiaridades historicamente situadas. Desse modo, no que se refere a interpretação das relações médico-paciente e político-eleitor a dádiva nos servirá de guia. Além disso, fez-se uso dos conceitos weberianos de tipo-ideal para a observação dos “doutores- prefeitos”. Lembrando que os tipos-ideais são categorias puramente classificatórias e servem como meio de aproximação com o objeto e, como construções teóricas, funcionam apenas como instrumento de análise da realidade, não significando a própria realidade. Nesse sentido, entendemos por “doutor-prefeito” o médico que se desloca de sua cidade de origem para trabalhar num pequeno município do interior e, a partir do exercício de sua profissão, mantém relações de troca recíproca (sistema de dádivas) e por isso, ganha a confiança do paciente (eleitor em potencial), se transformando num líder carismático. Não tem tradição política, mas foi eleito sem grandes dificuldades. E após eleito, se perpetua no poder, seja direta ou indiretamente. Esta investigação fez uso da técnica de entrevista semiestruturada com importantes figuras políticas de Barreira como Zeca Torres, Zé Bernardo e Ernani Jacó (estes dois últimos foram prefeitos de Barreira), alguns servidores públicos que trabalharam em Secretarias Municipais nas gestões dos “doutores-prefeitos”, pessoas próximas (amigos e/ou parentes) de dr. Júnior e dr. Valderlan. Vale ressaltar que, em relação aos entrevistados, todos, exceto as grandes figuras políticas e os “doutores-prefeitos”, ganharam nomes fictícios no intuito de preservar suas identidades. O objeto de estudo é a coexistência entre práticas políticas tradicionais e modernas no contexto da democracia de hoje, e sua figura principal, o “doutor-prefeito”. O campo de pesquisa é Barreira, o momento histórico é o período que compreende as eleições locais de 1992 à 2012. Onde serão observados os vínculos sociais, de intimidade e dependência geradas a partir da relação entre o médico se transferindo para o campo da política e os desdobramentos dessas interações na conjuntura político-social barreirense.

O modelo conceitual da dádiva

“O melhor de nossa vida/ É paz, amor e união/E em cada semelhante/ A gente ver um irmão/ e apresentar para todos/ O papel da gratidão. Quem faz um grande favor/Mesmo desinteressado/Por onde quer que ele ande/leva um tesouro guardado/E um dia sem esperar/ Será bem recompensado” (Brosogó, Militão e o Diabo - Patativa do Assaré).

Analisando a tradição política brasileira perceberemos que o coronelismo foi um sistema político que, por muito tempo, organizou o país não só política como socialmente. Entretanto, segundo Victor Nunes Leal, após a década de 1930, o coronelismo teria sido extinto do nosso cenário político. Contudo, outros aspectos, que seriam característicos do sistema coronelista, se perpetuaram no fazer político de hoje. Tais aspectos são, entre outros, o domínio sobre um número considerável de votos de eleitores, a que poderíamos identificar como curral eleitoral, a desorganização dos serviços públicos e aqui, essa desorganização não só alimenta como prolonga o domínio de determinadas pessoas/lideranças políticas sobre o voto de seu eleitorado. Numa crítica a Victor Nunes Leal, Domingos Neto (2010) entende que as categorias coronel e coronelismo são advogadas com fenômenos delimitados, bem definidos. O que contradiz a infinidade empírica de casos que apontam o contrário. Os coronéis se apresentariam de diversas maneiras, carregando as mais diversas características além daquelas estabelecidas por Leal.

Coronéis podiam ser ou não donos de terra, rudes senhores guerreiros e empresários arrojados; ricos comerciantes ou fazendeiros remediados, chefes de parentelas ancestrais ou aventureiros recém-chegados; semi-analfabetos ou intelectuais refinados. Coronéis tinham suas autoridades derivadas tanto da força bruta quanto da ascendência moral, da prestação de serviços com recursos privados ou públicos ou de tudo isso combinado em diferentes proporções. Coronéis impunham-se pela virtù e armas próprias ou pela virtù e armas alheias; mandavam em parte do município, no município inteiro, em conjunto de municípios e mesmo em todo o estado; subordinavam o padre ou lhe obedeciam; buscavam a chancela do Estado ou o ignoravam, quando lhes era conveniente e possível (DOMINGOS NETO, 2010. p. 35-36).

Como exemplo ilustrativo, Manuel Domingos Neto, se referindo ao Ceará, nos lembra as eleições estaduais de 1986, que foram vencidas por um grupo de empresários que se colocavam como aqueles que combateriam os “coronéis retrógrados”. Todavia, os ditos “coronéis retrógrados” implementaram políticas muito mais modernizadoras, por exemplo, introduziram o planejamento de políticas públicas no Estado e foram responsáveis pela criação de infraestrutura fundamental para desenvolvimento industrial. Uma das grandes questões defendidas pelo teórico é que a modernização, urbanização e industrialização do Brasil foram realizadas de forma desigual, regionalmente falando, e que a pobreza do

sertanejo nordestino foi aprofundada graças à maneira como tais mudanças se processaram, e não como consequência da sobrevivência dos “coronéis” como chefes do poder local. Para Maria Isaura Pereira de Queiroz, o poder de mando no âmbito local se apoia/manteve não [exclusivamente] em função da propriedade fundiária como igualmente afirma Domingos Neto, mas também, e aqui encontramos sua dimensão sociológica, na parentela (PEREIRA DE QUEIROZ, 1976). É daí que a pesquisadora percebe que as relações pessoais que constituem o mandonismo local na vida política não são irracionais, mas se perpetuam através dos vínculos íntimos e/ou de cunho familiar. Desse modo, a parentela assegura a durabilidade de posições sociais e de prestígio mesmo quando ocorrem mudanças, inesperadas ou não, de caráter ideológico, político ou econômico: agem com eficiência e rapidez para se acomodar às mudanças e garantir seu poder de mando. Partindo dessas perspectivas entendemos que as categorias coronel e coronelismo não conseguem abarcar toda a complexidade existente na conjuntura político- econômico-social brasileira. Tampouco conseguem explicar a permanências de práticas políticas tradicionais (características do coronelismo), nem o constante aparecimento de figuras políticas que, utilizando-se dos mesmos meios dos “antigos coronéis”, se perpetuam no poder seja direta ou indiretamente. Dessa forma, este trabalho se propõe a interpretar a coexistência de práticas políticas consideradas tradicionais e modernas a partir do modelo conceitual da dádiva (Mauss, 2007). Tal perspectiva nos permite compreender algo muito anterior ao coronelismo (entendido aqui como sistema que organizou nossa vida político- econômico-social, principalmente, na República Velha). Quais sejam, as relações que se estabelecem entre as pessoas, ou ainda, o modelo que engendra tais relações: o sistema de obrigações do dar-receber-retribuir. Muito antes de Marcel Mauss, outros teóricos já haviam observado a importância da troca no que se refere à produção e reprodução das relações sociais. Mas foi em “Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas”, publicada inicialmente em 1925, que tal discussão ganhou destaque. Nessa grande obra de Mauss, notamos a influência da sociologia durkheimiana i e, para muitos de seus comentadores, a superação do mestre. Em “Ensaio sobre a dádiva”, Mauss destaca que, independentemente do momento histórico, em todas as sociedades existe uma força que liga as pessoas através de laços sociais fundados em trocas e prestações. Essas trocas se manifestam das mais diversas formas, mas em sua essência comportam três obrigações: o dar, o receber e o retribuir. Os bens trocados, (assim como as pessoas), sejam materiais ou imateriais, são postos em

circulação no seio da sociedade e é sua circulação que garante a produção e a reprodução/manutenção dos laços sociais. De tal maneira que uma dádiva/dom ofertado à alguém sempre retornará ao seu ponto inicial. Para que uma troca seja considerada uma dádiva ela deve ser voluntaria e estabelecer uma relação de caráter pessoal. Entendemos por dádiva um sistema de trocas recíprocas que organizam toda a vida em sociedade. É a partir dela que se estabelecem as relações/vínculos sociais sejam entre indivíduos sejam entre grupos. Nesse sistema de prestações totais tudo é simbólico e recíproco. Vale ressaltar que o sistema da dádiva ou sistema de prestações totais é um fato social total (MAUSS, 2007; DURKHEIM, 2007), ou seja, ele percorre e atravessa os mais diversos aspectos da sociedade. Ainda no que tange a dádiva, o que se troca:

não são exclusivamente bens e riquezas, bens móveis e imóveis, coisas uteis

economicamente. São, antes de tudo, amabilidades, banquetes, ritos, serviços militares, mulheres, crianças, danças, festas, feiras, dos quais o mercado é apenas

um dos termos de um contrato bem mais geral e bem mais permanente. Enfim, essas prestações e contra-prestações se estabelecem de uma forma sobretudo voluntária, por meio de regalos, presentes, embora eles sejam no fundo rigorosamente obrigatórios, sob pena de guerra privada ou pública. Propusemos chamar tudo isso de sistema de prestações totais (MAUSS, 2007. p. 191).

) (

Vale ressaltar que as três obrigações da dádiva são igualmente necessárias, muito embora não sejam equivalentes, principalmente no que se refere à importância da circulação de bens. O dar é o ponto por onde se inicia a troca, mas é o retribuir que faz as dádivas circularem, é a gratidão que faz com que o beneficiário restitua o dom que ganhou de alguém.

Todo dom/dádiva carrega consigo aspectos do doador. Sendo uma dádiva, comporta valor, e esse valor é estendido ao doador, ou seja, prolonga o próprio doador no momento da troca. Esse é um dos fatores que faz a dádiva ser retribuída, é a restituição do valor do doador. Segundo Mauss, as dádivas possuem “alma” própria, sendo uma parte dessa alma a do doador. Daí os vínculos sociais serem de caráter moral-afetivos, já que são estabelecidos “entre almas”. Toda relação de dom é uma relação pessoal, mesmo quando instituído entre pessoas que, a princípio, não mantenham nenhum vínculo pessoal. Vale notar que há uma significativa diferença entre sistema de prestações totais e a simples troca no sistema mercantil. No primeiro tipo, a troca de dádivas a) gera valor moral e ético, b) o que se troca possui valor simbólico muito maior que valor econômico, c) sendo a qualidade do valor simbólico aquilo que irá determinar a intensidade do d) vínculo que se estabelece entre as pessoas que trocam; e) a troca não precisa ser igual e/ou equitativa e nem poderia ser, tendo em vista que cada item trocado carrega um valor simbólico

próprio nem imediata. No sistema de dádivas o mais importante é o vínculo social-afetivo que se estabelece. Por isso a obrigação de retribuir com algo de valor maior do que se recebeu ii , por isso algumas de suas características marcantes serem a reciprocidade e a dívida, sem elas não haveria circulação de bens, não se estabeleceriam as alianças. Ao contrário, na troca mercantil o que circula deve ter valor econômico equivalente, pouco importando o valor simbólico; não se estabelecem vínculos afetivos, sendo o contato interpessoal concluído no instante da troca.

A dívida deliberadamente mantida é uma tendência da dádiva, assim como a busca

de equivalência é uma tendência do modelo mercantil. Os parceiros em um sistema de dádivas ficam em situação de dívida, negativa ou positiva. Se for uma situação positiva, significam que consideram muito aos outros. Não é uma noção contábil. É um estado, no qual cada um considera que, em termos gerais, recebe

mais do que dá. O sistema de dádiva se situa, assim no polo oposto ao do sistema mercantil. Não porque seja unilateral, o que não é, mas porque o que caracteriza o

mercado (

dívida (GODBOUT, 1998. p. 6).

)

é a transação pontual, sem dívida, ao passo que a dádiva busca a

Cabe destacar que a relação de dádiva é uma relação de solidariedade, já que ao doar se está partilhando com o outro. Ao partilhar criam-se dívidas por parte de quem recebe, por isso é considerada uma relação assimétrica tendo em vista que o donatário fica em dívida com o doador. Dívida essa só “quitada” quando o donatário retribui o presente. No que se refere às relações assimétricas estabelecidas na dádiva, estas geram hierarquia e, segundo Godelier (2001), se a hierarquia já existia antes da troca recíproca é através dela que a diferença de status não só se mostra como se legitima. Daí o autor nos apresenta dois aspectos da dádiva: ao mesmo tempo que o dom aproxima seus participantes (pois se funda numa partilha, numa relação de solidariedade) ele também os afasta, tendo em vista que gera dívidas.

O dom é, em sua própria essência, uma prática ambivalente que une ou pode unir

paixões e forças contrárias. Ele pode ser, ao mesmo tempo ou sucessivamente, ato de generosidade ou ato de violência, mas nesse caso de violência disfarçada de gestos desinteressados, pois se exerce por meio e sob a forma de uma partilha (GODELIER, 2001. p. 23).

Se pensarmos o caso dos candidatos a cargos eletivos que prometem empregos e contratos na prefeitura em troca de apoio político às suas candidaturas, perceberemos que, antes de iniciarem a troca, já existe uma diferença de status. E se levarmos em consideração que o espaço da política (aqui nos referimos ao que está sendo observado em Barreira) é um lugar excludente (o cidadão só se insere na política local por intermédio de outros políticos), a distância entre político e eleitor se torna maior. Além disso, o recebimento do cargo (dom) por parte do eleitor o torna dependente do político. Não só no que tange as dívidas por parte da dádiva que se estabelece, quanto pelo risco de perca do dom caso contrarie o donatário. Nesse caso, o doador tem tanto o poder de presentear quanto de tomar o presente. Assim, o

respeito do donatário é constituído não só por valores morais (dádiva) quanto pelo receio de perder a dádiva. A relação assimétrica, no exemplo citado, não só fica clara quanto se legitima e se reproduz, como atesta Godelier:

O dom pode se opor à violência direta, à subordinação física, material, social, mas também ser um seu substituto. E são mais que abundantes os exemplos de sociedades em que os indivíduos, incapazes de honrar suas dívidas, se veem obrigados a se colocar, ou a colocar seus filhos, como escravos, acabando por se transformar na propriedade, na ‘coisa’ daqueles que lhes tinham concedidos seus dons (Idem, p. 24).

Entendendo o sistema de dádiva como aquilo que engendra os laços sociais, baseado na espontaneidade, na não equivalência, na dívida, na reciprocidade é possível compreender porque ainda é um dos sistemas que organiza a sociedade. Em resumo, “por que se dá? Se admitirmos o que precede, a resposta é simples: para se ligar, para se conectar à vida, para fazer circular as coisas num sistema vivo, para romper a solidão, sentir que não se está só e que se pertence a algo mais vasto, particularmente a humanidade” (Idem, p. 11). Seguindo essa perspectiva, Godelier defende a tese de que o que faz os bens circulem são, antes do espírito da coisa dada (hau) e do doador na coisa dada, é a vontade dos participantes da troca de manterem laços sociais, sejam de solidariedade, amizade ou dependência. E aqui cabe pensarmos os laços sociais que se estabelecem no domínio da política. Desse modo, o fim não é apenas estabelecer relações de amizade mas também, e nesse caso é um dos nossos objetos de análise, a dependência.

A lógica da dádiva e as relações sociais e políticas É esta perspectiva que nos permite voltar o olhar e refletir a respeito da questão do clientelismo e patrimonialismo no Brasil para além dos significados comumente atribuídos a eles. Quais sejam, “um tipo de relação entre atores políticos que envolve concessão de benefícios públicos, na forma de empregos, benefícios fiscais, isenções, em troca de apoio político, sobretudo na forma de voto” (CARVALHO, 1996) e a distribuição/apropriação de bens públicos como se fossem privados. Nesse sentido, recorreremos a uma das maiores obras que buscaram responder à gênese da cultura brasileira, “Raízes do Brasil”. Segundo Sérgio Buarque de Holanda (2004), os colonizadores portugueses não se preocuparam em construir, no Brasil, uma sociedade organizada. Nesses termos, tal descomprometimento favoreceu o surgimento de um tipo de sociabilidade baseada na confusão do público com o privado, além da família como modelo de organização societária. Para o teórico, foram esses fatores que impediram o pleno estabelecimento/funcionamento das regras democráticas no país.

Na citada obra, ao se referir ao homem cordial, Sérgio Buarque de Holanda já sinaliza para as manifestações do sistema de dádivas em nossa sociedade. No homem cordial (aquele atua no mundo seguindo princípios morais-afetivos) observamos uma considerável importância nas relações sociais de caráter pessoal/intimista, que são estabelecidas a partir de trocas recíprocas de bens materiais e/ou imateriais iii .

No ‘homem cordial’, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Sua maneira de expansão para com os outros reduz o indivíduo, cada vez mais, à parcela social, periférica, que no brasileiro como bom americano tende a ser o que mais importa. Ele é antes um viver nos outros (HOLANDA, 2004. p.147).

Para termos uma ideia, as relações entre os senhores de engenho e os moradores da propriedade, fossem esses escravos ou homens livres (principalmente aqueles destituídos da propriedade dos meios de produção) se pautavam em relações pessoais, de intimidade. Não só os filhos dos escravos conviviam, nas Casas-Grandes, com os filhos do senhor como também aqueles homens livres embora dependentes social, política e economicamente do grande proprietário , eram apadrinhados pelo patriarca. Nesse contexto, o batismo é a dádiva da graça divina concedida pelo padrinho ao afilhado. E por carregar um caráter sagrado, o valor simbólico é imenso e, consequentemente, o vínculo que se cria é muito grande, tendo o padrinho poder e autoridade de um pai em relação ao seu afilhado. Isso explica, em parte, a força e importância que o chefe do potentado rural teve (e ainda tem, se considerarmos as regiões mais rurais do país) sobre seus trabalhadores (LANNA, 1995). Uma das consequências que podemos tirar dessas interações sociais baseadas em relações afetivas é que “diminuíam o poder absoluto e o rigor da autoridade do grande proprietário. Mas, de outro lado, elas reforçavam essa mesma autoridade” (GUALBERTO, 1995. p. 31-

32).

É nesse universo aristocrático, de homens livres, expropriados e dependentes e extensos domínios privados com seus chefes que vemos emergir uma realidade social bastante desigual, um espaço público vivenciado por poucos e as atividades políticas servindo como meio por onde os grandes proprietários defendiam seus interesses particulares e/ou os interesses de seus amigos/familiares. Para os interesses desta investigação, destacamos a perspectiva buarquiana acerca do cordialismo brasileiro, que reforça a importância das relações de pessoalidade fundadas na dádiva. Para tanto, cabe fazer uma distinção entre pessoa e indivíduo, categorias bastante pertinentes para os objetivos desse trabalho.

Indivíduo e pessoa são tidos como contraditórios no que diz respeito ao sentido da ação social que implementam e dos valores que balizam. O indivíduo habitaria um mundo desencantado, marcado pela distinção entre fato e valor. Dilacerado entre

um e outro, oscilaria entre uma ação racional segundo fins fundada no cálculo, tendo como corolário a instrumentalização dos outros indivíduos e o predomínio da relação com os homens e uma ação orientada por valores. Justamente tais condições assegurar-lhe-iam orientar-se idealmente pelos princípios de autonomia, liberdade, igualdade e habitualmente de um mundo burguês propriedade. O lugar da pessoa, ao contrário, seria a sociedade hierárquica, que demandaria sua subordinação à logica relacional e à totalidade por ela representada. Autonomia e independência seriam estranhos ao universo da pessoa, cuja ação tenderia a conformar-se a padrões tradicionais (CHAVES, 1996. p. 1129-130).

Se o indivíduo é aquele que se refugia no espaço privado, ser autônomo e independente que busca revolver seus problemas por si mesmo; a pessoa, ao contrário,

responde a tais problemas na medida em que se relaciona com o outro (ou que delega esse poder ao outro) e/ou por intermédio das relações de caráter intimista que cultiva e mantém.

É salutar afirmar que o sistema de dádivas é um dos principais modelos organizadores da

sociedade, independente dela ser constituída, em sua maioria, por indivíduos (sociedades

democráticas/igualitárias) ou pessoas (sociedades hierárquicas), mas é no segundo tipo societário que a dádiva conquista maior liberdade e importância. Num mundo pautado pela hierarquia, as relações pessoas com figuras políticas assegura àqueles que se situam na base da escala social um tratamento diferenciado,

vantagens que sua própria posição não permitiria e/ou em alguns casos, faz valer direitos que, dentro dessa ordem, não seriam possíveis de serem garantidos. É a pessoalidade das relações adentrando nas mais diversas esferas da sociedade brasileira. Relações entre pessoas em oposição a indivíduos que, ao mesmo tempo que mascara/eufemiza, sustenta

o caráter hierárquico de nossa sociedade. Em outros termos, o dar-receber-retribuir entre

político e eleitor, por exemplo, garante a esse último a conquista de direitos (ou a certeza de

manter relações pessoais com uma autoridade, a esperança/expectativa de receber um benefício), que são percebidos como benefícios, e por isso, dádivas. Levando em consideração as mudanças ocorridas nas modernas sociedades ocidentais, observamos que a superação das “velhas corporações de ofício” pela dinâmica da produção em larga escala consequente da lógica da indústria capitalista foi responsável pela individualização dos homens, pela transformação da pessoa em indivíduo. Segundo Sérgio Buarque de Holanda, foi o “moderno sistema industrial que, separando empregados e empregadores nos processos de manufatura e diferenciando cada vez mais suas funções, suprimiu a atmosfera de intimidade que reinava entre uns e outros e estimulou o antagonismo de classe” (HOLANDA, 2004. p.142). A partir daí, a clara separação entre classe trabalhadora e burguesa, a perda dos vínculos de intimidade que os uniam, a individualização favoreceram o pleno estabelecimento do liberalismo.

No Brasil, ao contrário, segundo Maria Sylvia Franco, a estrutura e divisão de nosso território entre grandes potentados, a lógica da produção mercantil voltada para os mercados externos, baseada na monocultura e no trabalho escravo, deu origem a uma classe

de homens livres, porém, dependentes do proprietário de terras. Esses homens:

não foram plenamente submetidos às pressões econômicas decorrentes dessa

condição, dado que o peso da produção, significativa para o sistema como um todo, não recaia sobre seus ombros. Assim, numa sociedade em que há concentração dos meios de produção, onde vagarosamente, mas progressivamente, aumentam os mercados, paralelamente formam-se um conjunto de homens livres e expropriados que não conhecem os rigores do trabalho forçado e não se proletarizam. Formou-se antes uma ‘ralé’ que cresceu e vagou ao longo de quatro séculos: homens a rigor dispensáveis, desvinculados dos processos essenciais à sociedade. A agricultura mercantil baseada na escravidão simultaneamente abria espaços para sua existência e os deixava sem razão de ser (Franco, 1997:14).

) (

Dessa forma, essa “ralé” contribuiu substancialmente não só para a personalização de nossa esfera pública, para a manutenção do homem cordial já que dependia das relações patriarcais, dos vínculos intimistas com os senhores de terra para se inserirem na vida em sociedade como para a resistência no que tange a introdução do indivíduo na dinâmica econômico-político-social do país. Daí, mesmo após a crise do açúcar

e a ascensão do café, o centro da vida social sendo transferido para as cidades, a

industrialização e o advento da democracia que demandavam outro tipo de homem: o “homem-indivíduo” – o brasileiro continuou a resistir à substituição da pessoa pelo indivíduo ou pelo menos, a priorização deste em detrimento daquele. Entendendo a sociedade brasileira como, ainda, hierárquica e pessoal, é possível compreender a permanência do personalismo hoje, na nossa cultura. É através da pessoa pública, e aqui nos referimos ao político profissional e/ou algum tipo de representante de demandas políticas, que a pessoa consegue se inserir nessa sociedade e garantir seus direitos. É interessante perceber que esses “direitos” carregam dois aspectos: como algo inerente à cidadania, e por isso é responsabilidade do Estado garanti-los a todos de igual maneira; e como “benefícios” – nesse caso, direito confundido com privilégio já que o acesso a eles é exclusivo àqueles que têm vínculos com uma pessoa pública. Muitas vezes o benefício é consentido através de recursos públicos/estatais, mas distribuídos como bens privados, reforçando seu caráter de dádiva.

A dádiva em Barreira (Ceará) Em Barreira, os serviços públicos ainda são precários e isso faz com que a população carente busque, nos representantes do poder público, a satisfação de suas necessidades. Essas necessidades são as mais diversas, às vezes de saúde, estruturais como

pavimentação, água encanada, saneamento básico, ou mesmo particulares como o pagamento de uma conta de energia vencida, a compra de gás de cozinha, etc. A grande questão é que a pessoa política é vista como distribuidor de benefícios, e não como um funcionário público cumprindo uma obrigação de sua função. O que pode ser observado em entrevista com Paulo, quando este, refletindo sobre a realidade de Barreira aponta a ideia do político-profissional como um distribuidor de benefícios, que ajuda seus eleitores-amigos (ou são procurados) quando estes precisam de favores privados:

a maioria do pessoal são pessoas pobres, de zona rural e todas dependem do

serviço público. Às vezes, ajuda pra comprar um remédio, pra pagar uma conta de

luz, uma corrida, uma mudança, então o povo não (

vida própria. Não tem autonomia porque são todos dependentes, alienados ao poder público né?! Quem tem independência não vai nem se prender nisso, mas a maioria do povo que não tem, que depende muito do poder público, não diz nada, não adianta! Porque eles acham que se ofender o prefeito vão perder o direito de andar na ambulância, de fazer uma mudança, de, numa emergência, precisar de um carro e não ter (Paulo, autônomo. Entrevista realizada em 11 de junho de

tem autonomia, não tem

) (

)

2012)

Nesse contexto, por exemplo, se o município não tem ambulâncias suficientes para fazer o deslocamento de um doente e o prefeito concede um carro particular para realizar o transporte, o problema não é visto como sendo carências de serviços públicos de saúde e transporte, mas como um favor, uma dádiva da pessoa política. Isso gera vínculos moral-afetivos entre o prefeito e o beneficiado, e este, em dívida, retribui como pode com o carinho, respeito e fidelidade ao doador da dádiva.

Na Barreira já tem pouca ambulância, se não me engano, são três ambulâncias, três ambulância! E se você vê o estado da ambulância! Teve uma vez que uma

pra você ter uma

ideia, essa ambulância, os espelhos eram pregados com fita adesiva. Não sei nem como aquilo ainda roda nessas estradas daqui da Barreira. Aí o que acontece, a pessoa passa mal, consegue um transporte pra ir pro hospital e chega lá o médico manda logo ir pra Fortaleza. Aí a ambulância não tá lá, tá levando outra pessoa ou já tá na Fortaleza. E aí, o que é que faz? Pede pro prefeito, ou pra quem quer que seja, um carro particular. O prefeito, ou um vereador amigo da pessoa vai e arruma um carro, freta um carro de praça e leva o doente pro hospital de Fortaleza. Pronto! A pessoa fica grata pelo resto da vida. Uma colega minha, professora também, aconteceu isso com ela. O pai dela teve um ataque de coração, sei lá o que foi, mandaram pra Fortaleza e não tinha como levar o homem. Foi um vereador amigo dela que pagou o carro. Ele nem era o candidato dela, ela votava em outro, mas no ano seguinte, que era ano de eleição, ela votou nele porque achava que devia muito pra ele. Tudo bem que foi um favorzão que ele prestou pra ela, é claro que ela ia ficar grata, eu também ficaria. Mas a questão aqui é que não tem ambulância no município pra todo mundo. E isso, quem era pra providenciar eram os políticos. Aí como não tem, quem não tem carro, num caso desses, tem que ficar dependendo de boa vontade de prefeito e vereador. Não era pra ser assim (Anita, servidora pública de Barreira. Entrevista realizada em 08 de junho de

2012).

dessas ambulâncias ficaram presas lá na Polícia Rodoviária

No “tempo da política” que a quantidade e qualidade dessas dádivas se intensificam. Os discursos agora são proferidos aos “meus amigos iv ”, se fortalecem os laços

de confiança e amizade. E embora a relação político-eleitor seja uma relação entre pessoas,

e por isso percebida por este último como igualitária, ela esconde seu caráter assimétrico e

hierárquico. Partindo dessas perspectivas que é possível compreender a importância do médico (ou da relação que se mantém com ele) em Barreira. No que se refere a esse profissional de saúde, as dádivas tem forte peso. A cura, a restituição da saúde é um presente de valor simbólico muito grande, por isso a dívida por parte do paciente é entendida como impagável v e o laço social que se estabelece, muito forte. O médico escuta, dá atenção, às vezes remédios (já que a distribuição de medicamentos no posto de saúde é limitada tanto quantitativa quanto qualitativamente), consulta, marca exames em hospitais da capital.

Levando em consideração que nas trocas mercantis não há a obrigação de se relacionar pessoalmente com aqueles com quem se negocia além do fato da relação se findar no momento da troca; o indivíduo é livre para entrar e sair das negociações bem como de romper o comércio no momento em que desejar. Tal princípio, nas sociedades modernas, regula não só a venda de mercadorias como a prestação de serviços. A partir daí, notamos que em Barreira, por mais que o ato de consultar e medicar seja inerente à profissão de médico, o fato de este, para além de suas obrigações, estabelecer relações mais íntimas,

pessoais dão a essa relação um outro aspecto, qual seja: as trocas de dádivas. Nesse caso, o médico não só atende, mas escuta, dá atenção, demonstra familiaridade com o paciente. O que transforma o exercício de sua profissão em trocas de dádivas. Foi o que aconteceu com

o dr. Júnior, por exemplo. Ao serem entrevistados, diferentes barreirenses afirmavam que o

dr. Júnior (trabalhava além do que era remunerado vi ) realizava consultas com muita dedicação, ia a casa dos pacientes que não conseguiam/podiam ir ao seu consultório, fazia amizade com seus pacientes, demonstrava preocupação, inclusive, com os familiares daqueles que consultava. Nos consultórios dos postos de saúde e hospitais de pequenas cidades do interior

é possível ver os pacientes levarem presentes (castanhas de caju assadas, ovos de galinha

caipira, frutas, cajuína, legumes, etc.) para os médicos como forma de retribuir os serviços prestados. E além da dádiva da cura, vale ressaltar o prestígio que os médicos têm, histórica e culturalmente, no Brasil. Considerando as análises tecidas por Sérgio Buarque de Holanda

sobre o bacharelismo brasileiro, que consiste na valorização do trabalho intelectual em detrimento do trabalho manual, entendemos o profissional da medicina como aquele que

representa o conhecimento científico, aquele cujo saber é indiscutível, inquestionável e respeitado. O “doutor-prefeito”, observado nessa pesquisa comporta não só o imaginário daquele que detém o conhecimento (o homem da ciência), que tem o poder da cura (o que já lhe confere um poder e autoridade transcendentes, basta lembrar a grande obra de Marc Bloch, “Reis Taumaturgos”). Mas que detém também o poder político, o poder de decidir sobre os rumos do município e isso o transforma em uma figura quase heroica, um ídolo, um ícone em que as pessoas confiam, respeitam, amam.

As coisas que saem da boca de um médico são sagradas. Se um médico chega numa comunidade e diz, por exemplo, alguma coisa de outra, então aquilo ali é sagrado para aquelas pessoas não informadas, aquilo é uma verdade absoluta (Verônica, servidora pública de Barreira. Entrevista realizada em 08 de junho de

2012).

Conclusão Se a lógica que organiza essa sociedade [aqui nos referimos à Barreira] é o sistema de dádivas, com as dádivas criando e recriando/reforçando os laços sociais e as relações pessoais entre os entes envolvidos, ou seja, regendo nossos modelos de vinculação societária. Daí a continuidade, nos nossos dias, do homem cordial, esse homem que é motor das relações de dádivas. Por isso a permanência de relações paternalistas, personalistas, clientelistas, ora vistas como práticas arcaicas, no sentido pejorativo do termo, ora como práticas comuns, normais ao cotidiano das pessoas. Nesse sentido, a fala de dona Rita, ao ser questionada sobre o papel e as obrigações de um político profissional, atesta tal fenômeno:

Para a senhora, qual a função de um político?

fazer as coisas pro povo, dar atenção pro povo, dar atenção para os eleitores, ajudar o povo, fazer o que prometeu pra melhorar a vida do povo.

Ajudar o povo como?

Ajudar

até uma conversa é uma ajuda. Às vezes as

pessoas [es]tão desorientadas, a pessoa chega e conversa e diz “fulano é assim e assim”, isso aí já é uma ajuda que ele [es]tá dando (dona Rita, aposentada. Entrevista realizada em 10 de abril de 2012)

num tem só a ajuda de dinheiro, (

a pessoa precisando de uma coisa ele pudendo ajudar ele ajudar. E

(

)

)

i Marcel Mauss, sobrinho de Èmile Durkheim, foi o maior e mais importante herdeiro da sociologia durkheimiana. ii O sistema de dádivas é constituído pela obrigação de dar, de receber e de retribuir. Mas ao retribuir, a pessoa deve ser mais generosa que o primeiro doador (MAUSS, 2007). E é nesse “retribuir mais do que recebeu” que se garante a perpetuação do vínculo, tendo em vista que na dádiva se está sempre gerando uma nova dívida. iii Lembrando que esses bens imateriais são os mais diversos, podendo ser identificados como amabilidades, cortesia, hospedagem, atenção, carinho, sorrisos, etc. Por isso, afirmamos que nas

interações interpessoais entre senhor e escravo havia também, além da exploração do trabalho do segundo, a possibilidade de relações baseadas no sistema de prestações totais. iv Durante a realização da pesquisa empírica, tivemos a oportunidade de estar na inauguração da pavimentação de uma rua em Barreira, realizada pela gestão do atual prefeito, Antônio Peixoto, e percebemos que as falas de todas as figuras políticas presentes no palanque, dentre elas o ex-prefeito e sua esposa, dr. Valderlan e dra. Auxiliadora, foram iniciadas pela expressão “meus amigos de Barreira”.

E muitos deles falaram o nome de alguns desses amigos presentes, demostrando a familiaridade com eles.

Isso reflete o quanto é pessoal a relação político-eleitor. v Se ao receber um dom, o donatário fica em dívida com seu doador, podemos arriscar a dizer que fica, igualmente em situação de dependência, enquanto não restituir o presente recebido. No caso dos médicos,

a cura, por exemplo, é um dom que, na acepção do donatário, não pode ser retribuído, gerando, a partir de

nosso entendimento, uma permanente dívida moral e dependência por parte do paciente (donatário). vi Dona Iolanda, em entrevista, lembra que em um determinado período da história de Barreira, não havia escola de ensino fundamental para seus filhos estudarem. Então, dr Júnior convocou os pais dos alunos prejudicados e propôs que se fizesse uma espécie de fundo para financiar os estudos das crianças. Os pais contribuiriam com uma taxa, fixada em reunião e de igual valor para todos, para pagar o salário dos professores que ministrariam as aulas. Isso demostra que atuava em Barreira para além de suas atribuições como médico.

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