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[Ética II – 2002.

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Cap. IV: ESTRUTURA SUBJETIVA DA VIDA ÉTICA

Introdução/Transição

Até agora foi estudada a estrutura do agir ético, i.e. da ação (decisão) do sujeito
humano enquanto moral, nas suas dimensões subjetiva, intersubjetiva e objetiva.
O estudo filosófico do ethos exige que seja dado um novo passo: da compreensão do
agir ético para a compreensão da vida ética.
Usando uma analogia, podemos distinguir entre agir ético e vida ética como entre o
ponto e a linha ou entre a parte e o todo.
# Com efeito, cada ação é apenas um elemento pontual no conjunto da existência
do sujeito humano. Ela está inserida como o aqui e agora na linha contínua do tempo,
i.e. da vida do indivíduo e da comunidade, da qual recebe sua significação plena.
Considerada isoladamente, cada ação, embora real, é uma abstração em relação à
realidade total da vida.
# A vida ética, por sua vez, é constituída pelo conjunto das ações do sujeito, i.e.
das decisões tomadas por ele. São estas decisões que determinam a orientação que vai
tomando a vida do indivíduo e da comunidade. Por outro lado, cada ação, enquanto
inserida no contexto da vida, é por ela condicionada.

I. Universalidade subjetiva da vida ética: A Razão Prática na vida ética

1. Fundamentação do momento de universalidade da vida ética

1.1. A Razão Prática (RP) como fundamento da universalidade da vida ética

a) Recapitulação

# O ser humano se caracteriza como ser moral, enquanto faz uso da razão como RP,
para guiar suas ações (ou para afastar-se do caminho por ela indicado)
# A Ética filosófica pretende, assim, expor num discurso sistemático a estrutura e o
movimento dialético da RP, enquanto guia a praxis humana e a especifica como racional.
# Ora, a RP no indivíduo, enquanto sujeito de seu movimento dialético (aspecto
subjetivo), não é senão a forma própria de sua participação no ethos ou tradição ética
(costumes, normas) no qual ele está necessariamente inserido (aspecto objetivo).
# Portanto, a Ética filosófica pretende investigar, definir e ordenar os invariantes
conceptuais (categorias) que integram a inteligibilidade:
+ da praxis ética e da existência por ela determinada (aspecto subjetivo)
+ como forma de vida (aspecto objetivo)
+ independentemente das modalidades que essa vida pode assumir na diversidade de
cada ethos histórico (objeto da descrição e da compreensão explicativa próprias das
ciências humanas)

b) Função do momento de universalidade da RP


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# Para fornecer a inteligibilidade da praxis, a Ética filosófica, em cada etapa de seu


discurso, deve necessariamente partir do momento lógico da universalidade.
# Com efeito, é como universal que a RP institui o espaço de inteligibilidade
fundamental do qual o ethos:
+ recebe sua “unidade de significação” (para além da diversidade histórica).
+ e pode tornar-se objeto:
¤ do “saber ético” espontâneo (como saber imanente da praxis humana)
¤ das ciências humanas (p. ex.: estudo comparativo das tradições éticas)
¤ da Ética filosófica, enquanto explicitação da inteligibilidade fundamental,
# Esta inteligibilidade fundamental:
+ Que se constitui no momento de universalidade, transcendendo a particularidade
de cada ethos histórico
+ Exprime a razão de possibilidade da formação histórica do ethos,
¤ conferindo-lhe uma “unidade de significação”
¤ e, como tal, o tornando-o “forma” da praxis e da vida ética

c) Estrutura teleológica da RP como fundamento da inteligibilidade do ethos

# O momento da universalidade manifesta a inteligibilidade fundamental do agir ético


como ordenação intencional constitutiva da RP para o Bem como Fim deste agir.
# Sem esta teleologia imanente à Razão (i.e. numa perspectiva meramente empírica)
torna-se impossível explicar o aparecimento histórico do ethos e a vinculação do agir do
indivíduo à sua tradição ética.
# A alternativa seria submeter a praxis do indivíduo:
+ Ou ao aleatório das convenções sociais
+ Ou ao determinismo da natureza
# Esta alternativa (na sua dupla especificação) é inaceitável,
+ pois retiraria do indivíduo a prerrogativa de receber, interrogar e criticar
(eventualmente) a sua tradição ética pela própria razão
+ o que contradiz o próprio conceito de tradição
# Portanto: Só o horizonte universal do Bem (ou a eudaimonia como auto-realização no
Bem) como referencial último da RP permite pensar a pluralidade histórica do ethos.

1.2. Gênese do ethos a partir da RP

a) Processo de surgimento do ethos

Obs.: Trata-se da explicação:


# não da gênese histórica do ethos objeto de hipóteses da Etnologia e
Antropologia Cultura
# mas da sua gênese segundo a dialética presente em seu núcleo fundamental de
inteligibilidade
(1) Surgimento da cintila inicial da razão, que constitui o ser humano como animal
possuidor de razão (zoon logon echon)
(2) Diferenciação imediata dos usos da razão como:
# Razão do fazer (poiética): enquanto invenção de instrumentos, que possibilitam o
domínio sobre a natureza e assim a sobrevivência da espécie
# Razões do agir (prática): enquanto criação de sistemas simbólicos (crenças,
costumes), em resposta à interrogação sobre o sentido da vida
(3) A razão teórica, voltada para a atividade do conhecimento como valor próprio
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# surge posteriormente, desprendendo-se de seus usos prático e poiético


# torna-se fonte inesgotável de novas formas de racionalidade
(4) Em todos os casos o uso da razão consiste na invenção de regras/normas, que:
# nas circunstâncias mais diversas,
# são compreendidas e obedecidas como diretrizes da razão.
(5) No caso da RP, a estrutura dual do ethos (cf. fenomenologia), como realidade
histórico-social (ethos propriamente dito) e como ato do indivíduo (praxis), articula-
se de tal maneira que o ethos é para o indivíduo como:
# Norma de sua praxis
# Estrutura simbólica que permite à praxis eticamente ordenada ser socialmente
reconhecida e legitimada

b) O ethos como “forma” da vida ética

# Como foi visto, a praxis isolada é uma abstração. A vida ética consiste em uma série
de atos concretos como processo de crescimento que tende para uma plenitude.
# É pela mediação de uma praxis continuada, i.e. pelo hábito (hexis) ético, ou seja, a
virtude (areté), que se dá a integração do ethos na vida do indivíduo.
# Com efeito, o ethos como realidade simbólica não existe em si, como a physis. Ele
existe concretamente na praxis dos membros da comunidade ética como sua norma.
# A vida ética é propriamente a articulação entre ethos (costume), praxis (agir) e hexis
(hábito). Esta articulação ocorre por um duplo movimento de negação:
+ A universalidade do ethos é negada pela particularidade da praxis individual
+ A praxis individual é negada no seu isolamento abstrato pela singularidade da
vida ética, segundo a qual o indivíduo vive:
¤ como indivíduo ético
¤ no seio da comunidade ética
# Portanto, o ser humano como vivente dotado de razão:
+ Existe de acordo com as razões do seu agir (RP),
+ Na medida em que vive concretamente as razões do ethos
# Dá-se assim uma dialética entre:
+ Essência: a praxis/hexis recebe do ethos seu conteúdo essencial, i.e. o sentido
ético da praxis/hexis provém do ethos
+ Existência: o ethos recebe da praxis/hexis sua existência concreta, i.e. sua
permanência é assegurada pela praxis/hexis
# Trata-se da intercausalidade intrínseca do operar racional:
+ O ethos é causa formal do operar da RP
+ A praxis/hexis é causa eficiente que produz a existência do ethos
+ O Bem no indivíduo (eudaimonia) é a causa final do operar da RP
# Esta mesma intercausalidade verifica-se aliás:
+ No operar poiético:
¤ A idéia/modelo na mente do agente é a causa formal ou exemplar do objeto
produzido
¤ O ato de produção/fabricação é a causa eficiente pela qual o modelo vem à
existência
¤ O objeto a ser produzido é a causa final da operação do agente
+ No operar teórico: Interrelação entre:
¤ A idéia
¤ O ato de pensar
¤ A ciência como resultado do ato
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# Trata-se da estrutura ternária constitutiva de toda atividade pensante:


+ Elemento abstrato (p. ex.: sistema de regras/idéia)
+ Ato do sujeito pelo qual o elemento abstrato passa a existir como forma deste ato
+ Permanência desta forma como nova forma de vida
# Conclusão:
+ O ethos constitui a forma da existência humana, enquanto vida ética, libertando
a vida ética do indivíduo
¤ Tanto do simples arbítrio
¤ Como do domínio dos fatores condicionantes do agir seja intrínsecos
(pulsões afetivas), seja extrínsecos (pressões sociais, culturais, etc.)
+ Por isso, a anomia atual resulta em grande parte do obscurecimento das razões
do ethos expressas na teleologia imanente da RP para o Bem:
¤ Como forma primeira do agir ético
¤ Como fonte da obrigação moral
+ Com efeito, os fatores que impelem para a acumulação de bens exteriores
segundo o critério da maior utilidade, prazer e poder, impedem o indivíduo de viver a
conaturalidade com o Bem, forma existencial da teleologia imanente da RP

2. A categoria de virtude como expressão da universalidade da vida ética

# Etimologia do termo:
+ Grego: areté = excelência (física) e, por transposição, = virtude, como esplendor
da idéia do Bem realizado (aspecto estático)
+ Latim: virtus = força (física) e, por transposição, = virtude, como força de
realização do Bem (aspecto dinâmico)

2.1. Visão histórica da idéia de virtude

a) Ética clássica (Platão):

(1) Em geral:
# A categoria de virtude, como expressão universal da vida ética, constitui a
estrutura de sustentação do discurso da ética clássica:
+ seja enquanto idéia (plano teórico)
+ seja na sua prática (plano existencial)
# A idéia de vida ética compreende:
+ A excelência (areté) das modalidades de agir atribuídas a cada parte da psyché
humana:
¤ concupiscível
¤ irascível
¤ racional
+ A excelência da ordem que deve reinar entre as partes da alma
+ A educação ética que as fortalece

(2) Virtudes cardeais (fortaleza, temperança, sabedoria, justiça):


# Origem da noção de virtudes cardeais (“cardo” [latim] = eixo ou gonzo da porta):
+ Recebidas da tradição do “saber ético” grego
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+ Foram interpretadas por Platão à luz da sua ideonomia e assumidas


sistematicamente por ele como fundamentos da vida ética nas suas diversas
dimensões
# Função das virtudes cardeais: São o fundamento:
+ Da “vida no Bem”
¤ Seja enquanto vivida como operar da RP na realização existencial da
vida ética
¤ Seja enquanto pensada pela Ética como disciplina teórico-prática da
vida ética
+ Da universalidade da noção de virtude:
¤ Como primeira categoria na estrutura lógica do discurso sobre a vida
ética
¤ Como primeiro momento do movimento dialético que estrutura a
ordem do mesmo discurso
# Virtudes cardeais como “forma de vida” que abrange todas as manifestações do
ser humano:
+ Concepção do ser humano como realidade complexa:
¤ Movida pelas pulsões da afetividade (desejo // irascibilidade)
¤ Que deve ser guiada pela razão
+ A vida ética como vida segundo a virtude, consiste na ordenação
permanente desses movimentos elementares da vida concreta segundo a razão
# Função de cada uma das virtudes cardeais:
+ Sabedoria prática (sophia na República // phrónesis nas Leis):
¤ Virtude primeira e universal, cuja prática torna a vida ética sensata, i.e.
racional
¤ Como forma primeira da vida ética, introduz a regra da razão no desejo
e na irascibilidade
+ Temperança // Coragem: Integram na vida ética a complexa estrutura
psíquica (afetividade) sob o signo da RP, i.e. da sabedoria
+ Justiça (dikaiosyne): A mais elevada entre as “virtudes éticas” (classificação
aristotélica), enquanto manifestação da prática constante da ordem da sabedoria
na vida ética do indivíduo e da comunidade.
¤ Tem sua sede no homem interior (psyché socrática) e só assim pode
irradiar para a cidade tornando-a justa
¤ Trata-se, portanto, da forma da comunicação intersubjetiva (vida
comunitária justa) na esfera ética da existência
# Evolução da doutrina das virtudes cardeais: A partir de Aristóteles, as virtudes
cardeais constituem o roteiro da investigação das várias formas do agir ético, que se
diferenciam segundo a multiplicidade de objetos e fins. Em particular:
+ Estoicismo (minucioso catálogo das virtudes)
+ Ética medieval, culminando com a ampla e magistral exposição de Tomás
de Aquino segundo a ordem das virtudes teologais (fé, esperança, caridade) e
cardeais

(3) Conclusão: Virtude como categoria universal da vida ética


# Toda a prática ética na sua continuidade e progresso (vida) consiste no exercício
da virtude
# Trata-se da:
+ ordenação permanente e progressiva do agir ético no horizonte universal do
Bem que é o Fim último,
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+ segundo a diferença qualitativa dos múltiplos fins que se oferecem ao


indivíduo no curso da vida

b) Ética moderna:

# Característica geral: Deformação da noção de virtude decorrente do desaparecimento


progressivo da teleologia do Bem, como conseqüência da inversão antropocêntrica nos
fundamentos da Metafísica (Descartes) e do individualismo ético que se lhe seguiu
(Hobbes, etc.)
# Evolução:
+ Crítica nominalista do conceito aristotélico (Idade Média tardia)
+ Racionalismo e Empirismo modernos
+ Crítica kantiana da RP: O voluntarismo formalista na concepção da virtude (força
moral de um homem no cumprimento do dever) leva à substituição da Ética da virtude
(clássica) pela Ética do dever (moderna)
+ Hegel: Tentativa de restaurar o conceito substancial de virtude, articulando
dialeticamente moralidade e vida ética concreta no Espírito objetivo
+ Max Scheler: Crítica do formalismo kantiano e reabilitação da virtude
+ Corrente atual (A. MacIntyre, etc.), para a qual, ao contrário de outras Éticas
contemporâneas, o tema da virtude voltou a ser central.

2.2. Visão teórica da noção de virtude

a) Em geral: Categoria segundo a qual é pensada a universalidade da RP, operando na vida


ética do sujeito individual e da comunidade

# É próprio do vivente como sistema aberto:


+ Organização, como elemento de continuidade (identidade)
+ Evolução, como elemento de crescimento pela interação com o meio exterior
(diferença)
# Na vida ética como forma superior de vida manifesta-se a dialética mais profunda
entre:
+ interior X exterior
+ identidade e diferença
# A categoria de virtude é a expressão desta dialética fundamental da vida ética na qual
o Bem, ao mesmo tempo:
+ é possuído como forma permanente da vida, i.e. forma da identidade do vivente
ético (aspecto estático como qualidade do sujeito bom)
+ constitui o horizonte universal para o qual se orienta e em direção ao qual deve
avançar no seu agir (aspecto dinâmico como movimento do sujeito bom para um
crescimento contínuo no Bem ainda não alcançado)

b) Unidade da vida ética na diversidade das virtudes (distintas segundo a pluralidade de


seus objetos que se apresentam como fins do agir): Solução aristotélica (adotada):

# Pressuposto antropológico: Divisão da psyché humana em:


+ Parte que possui a razão (to logon echon)
+ Parte destituída de razão (to álogon)
# Daí a divisão das virtudes:
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+ Virtudes éticas: Modelam o “caráter” (ethos como hábito) do indivíduo,


submetendo à regra da razão (vida no bem) a parte irracional (afetividade) da
psyché (temperança, fortaleza, justiça, e suas subdivisões)
+ Virtudes dianoéticas (diánoia = razão raciocinante) adquiridas pelo exercício
da reflexão, exprimindo a função diretriz que cabe à RP, sobretudo no discernimento
dos meios (phrónesis) e no conhecimento do fim (sophia)
# Conclusão:
+ As virtudes dianoéticas (principais) asseguram a unidade permanente da vida
ética na pluralidade das virtudes (éticas)
+ Com isso se modera realisticamente o rigoroso intelectualismo moral de
Platão, mantendo, porém, a hierarquia entre as virtudes, segundo a natureza racional
do ser humano

c) Natureza ontológica da virtude

(1) Pressuposto: Ontologia da ação humana

# Características gerais da ação humana:


+ Trata-se de levar em conta o agir:
¤ seja enquanto realiza a perfeição do agente (afirmação de sua identidade)
¤ seja enquanto assegura essa identidade pela mudança, i.e. pelo seu
crescimento enquanto ser vivo (diferença)
+ No caso da vida segundo a razão, trata-se de um agir livremente (em razão de si
mesmo), como auto-causalidade e auto-realização, que torna possível o domínio sobre a
própria ação (to ekousion)
¤ elevando-se, assim, sobre a necessidade do instinto
¤ orientando a ação no sentido do maior bem
¤ assegurando pelo crescimento a identidade (na sua forma mais alta) do vivente
no tempo (identidade na diferença)

# Aplicação das noções (aristotélicas) de ato (energeia) e potência ativa (dynamis)


+ Distinção entre “ser em ato” (energeia = ser simplesmente) e “ser em potência”
(dynamis = poder-ser). Trata-se aqui da “potência ativa” (capacidade de agir) = ato que
se atualiza para produzir sua própria perfeição (entelecheia). P. ex. A vista como
capacidade de ver (potência ativa) e o próprio ato de ver, que realiza a finalidade e
perfeição própria da vista.
+ A “potência ativa” é própria do ser vivo (atividade imanente), que tende à própria
conservação e crescimento, i.e. realiza a própria identidade enquanto avança na
realização da própria perfeição pelo exercício continuado de sua “dynamis”
+ A posse desta perfeição (entelecheia) não consiste, portanto, no ato isolado
(abstração), mas resulta da continuidade do exercício da “dynamis”, pela repetição de
seus atos (energeia).

# Aplicação da noção (aristotélica) de hábito (hexis)


+ Distinção entre a substância (essência, ser) e as suas operações (agir), que
implicam uma “potência ativa” (dynamis), o seu ato (energeia) e a perfeição resultante
(entelecheia)
+ A “potência ativa” é classificada (por Aristóteles) na categoria da “qualidade”
(poiotes), entendida como “diferença da substância”. A “potência ativa”, enquanto
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qualidade, pode ser ulteriormente modificada na sua capacidade de agir por duas
espécies de qualidade:
¤ a “disposição” (diáthesis), que pode ser transitória,
¤ o “hábito” (hexis, habitus), que significa posse permanente (echein,
habere = ter, possuir).
+ Portanto, é o hábito como posse permanente que realiza plenamente a qualidade
como diferença, i.e. como traço diferenciador do ser, que revela a sua identidade.
¤ No caso do ser humano, trata-se de uma aquisição intencional do sujeito,
agindo pela mediação da razão (teórica, prática, poiética)
¤ No âmbito da RP, a natureza do hábito como qualidade ontológica do agir
humano permite explicar a essência da virtude nos seus dois aspectos de
perfeição imanente e de dinamismo do agir
+ Esta caracterização filosófica do hábito não se confunde com a sua investigação
experimental (Psicologia Geral, Psicologia da Personalidade, Psicologia Social,
Sociologia), que, apesar de seus méritos (p. ex.: identificação das aparências de virtude,
que ocultam mecanismos psicológicos ou pressões sociais), por sua própria limitação
metodológica, não é capaz de tratar da natureza do hábito e da virtude.

# Essência da virtude como hábito da RP


+ Existe uma correspondência estrita entre ser e agir (einai = prattein // esse =
agere).
¤ A “potência ativa”, enquanto qualidade ordenada à realização existencial
da perfeição da essência do agente, manifesta na sua atuação (agir) a riqueza
ontológica do mesmo sujeito.
¤ Esta perfeição imanente, enquanto coroa o agir da dynamis, é designada
como entelecheia, i.e. o ato que tem em si o seu próprio fim.
+ A relação entre a dynamis como qualidade ativa e seu ato como perfeição
realizada verifica-se prioritariamente nos atos espirituais, especialmente:
¤ na contemplação intelectual (theoria)
¤ no agir virtuoso (areté)
+ A dynamis opera a auto-realização do vivente espiritual por meio de um processo
de crescimento e autodiferenciação, orientado:
¤ no caso da theoria pela teleologia da verdade
¤ no caso da areté pela teleologia do bem (ou do melhor)
+ A dynamis donde procede o agir ético é a RP, como capacidade do operar
sinérgico entre razão e vontade. A RP pode ser definida, nesta perspectiva, como:
¤ qualidade ativa permanente
¤ em processo contínuo e qualitativamente diferenciado (não repetição
mecânica, simplesmente cumulativa) de realização existencial da essência do
sujeito como ser racional e livre
¤ no plano dos seus fins e valores, i.e. como sujeito ético.
+ A noção ontológica de hábito (hexis), presente na concepção de virtude, aqui
exposta, reúne os dois aspectos (estático/dinâmico, identidade na diferença) com que a
vida ética é vivida como obra da RP. O hábito não é senão:
¤ a atuação (energeia) da RP continuada e em progresso, que
¤ na sucessão e na intensidade qualitativa sempre maior dos seus atos,
¤ permanece sempre a mesma na identidade da sua orientação fundamental
para o horizonte do Bem.
+ Virtude, portanto, como uma espécie de hábito, é:
¤ uma posse permanente do sujeito ético (identidade)
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¤ operando de modo a torná-lo sempre outro (diferença),


¤ pela tendência a realizar sempre melhor a perfeição (entelecheia) de sua
orientação para o Bem.
+ Trata-se do esplendor da vida segundo o Bem (areté), forma mais elevada de vida
humana (resposta à exortação de Píndaro: “torna-te o que és”).

II. A RAZÃO PRÁTICA NA VIDA ÉTICA: PARTICULARIDADE SUBJETIVA

1. Caráter fundamental da categoria de “situação”

# Ser-em-situação = particularização da natureza universal do ser humano como


racional e livre
# A categoria de situação corresponde à estrutura relacional do ser humano (cf.
Antropologia Filosófica) nos seus três níveis:
+ Situação metafísica: Resultante da finitude ontológica do ser humano, que implica
uma relação necessária com seu fundamento transcendente
+ Situação cósmica (estar-no-mundo): relação com as coisas
+ Situação histórico-social (estar-com-o-outro): Esta relação aos outros é, do ponto
de vista da vida-em-situação, a forma condicionante da presença do ser humano face ao
mundo e à transcendência

2. Histórico da categoria de “situação”

Trata-se de um dado antropológico fundamental, que sempre esteve presente na


reflexão filosófica sobre o ser humano, sua natureza e destino, embora nem sempre de
maneira explícita e como categoria específica

2.1. Filosofia antiga

a) Formulação explícita:
# Trata-se da categoria de “onde” (pou) ou “lugar” (latim = situs), estudada por
Aristóteles do ponto de vista lógico (na obra “Categorias”) e cosmológico (na “Física”).
Corresponde à localização da substância no espaço.
# Refere-se, portanto, à situação cósmica, envolvendo também o ser humano (tanto a
árvore como Pedro estão no jardim). Esta acepção lógico-espacial do termo não apresenta
um interesse especial do ponto de vista antropológico e ético.

b) Hermenêutica da situação (do ponto de vista da “situação metafísica”)

(1) Visão grega (expressão mais radical no neoplatonismo, especialmente em Plotino)


# A interpretação da situação humana na Antropologia e Ética antigas é distinta e oposta
à interpretação moderna.
+ Está orientada no sentido da transcendência (situação metafisica)
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+ Pretende indicar ao indivíduo o caminho de libertação de sua condição finita


enquanto imerso na obscuridade da matéria e no fluxo do tempo e submetido aos
azares da fortuna.
# A Filosofia como sabedoria implica uma reflexão crítica sobre a situação do ser
humano no mundo, com a necessidade de transcendê-la para viver a vida verdadeira. Trata-
se de elevar-se pela razão (ascensão espiritual a partir do sensível), na sua forma mais alta
(nous, intellectus ou mens) à contemplação (theoria) da totalidade do ser, das razões dos
seres (idea) e de seu Princípio (cf. Alegoria da Caverna)
# Essa forma de hermenêutica da situação não se detém, portanto, em tematizá-la como
condição primeira da vida humana como estar-no-mundo (não há termo técnico para
designar a “situação” no sentido antropológico). Dá primazia ao pensamento do kosmos
como totalidade ordenada e hierárquica da qual o homem faz parte.

(2) Visão da tradição teológica e espiritual cristã


# Agostinho (no Ocidente, como Orígenes, Gregório de Nissa, etc. no Oriente):
+ recebe de Plotino o paradigma hermenêutico com que a filosofia antiga
pensara a situação metafísica do ser humano
+ e o transforma profundamente à luz do criacionismo bíblico e da doutrina da
encarnação do Verbo divino
# A dimensão metafísica é suprassumida numa dimensão histórico-salvífica. Trata-se da
libertação da situação mundana:
+ Não apenas como condição natural (limitação corporal, ilusão do sensível)
[visão grega]
+ Mas propriamente como situação histórica de pecado, enquanto “aversio a
Deo et conversio ad creaturas” (Agostinho)
# Contudo, tanto na perspectiva da tradição cristã como na grega a situação metafísica
do ser humano na imediatez do estar no mundo (natural e social) é pensada segundo a
dialética:
+ de um aquém (imanente) vivido como mudança e desordem (tempo)
+ e de um além (transcendente) buscado como permanência e ordem
(eternidade)
# É verdade que o Cristianismo mostra sua originalidade inconfundível com a
afirmação da Encarnação (elemento teológico), i.e. da presença salvífica do além (Absoluto
divino) no próprio coração do aquém, i.e. da situação do ser humano imerso na obscuridade
do mundo e na miséria do pecado

II.2. Filosofia moderna

a) Negativamente: Abandono do paradigma hermenêutico clássico que atribui a primazia à


situação metafísica do sujeito do agir ético em sua condição mundana
# Causa: Interpretação da situação segundo o vetor antropocêntrico que orienta toda
a cultura moderna (imanência natural e histórica). No clima pós-metafísico (pós-
kantiano) perde toda significação a idéia de uma situação metafísica do ser humano.
# Conseqüência: Profunda transformação do ethos da civilização ocidental
(mudança decisiva na concepção da vida ética)

b) Positivamente:
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# Em geral: A situação torna-se uma categoria determinante das condições mundana e


sócio-histórica, que traçam o horizonte último da existência humana. A teleologia do Bem
cede o lugar ao “aqui e agora” da situação. Sua significação ética consiste em oferecer o
fundamento e justificação:
+ da escala de valores a ser estabelecida na vida de cada um
+ das decisões cujas motivações referem-se unicamente às situações vividas pelo
indivíduo
# Em particular:
+ K. Jaspers: Primeiro a utilizar o termo “situação” em sentido técnico
(filosófico), para compreender a condição mundana do ser humano. Entretanto,
através da categoria de “situação-limite” mantém a abertura para a situação
metafísica (transcendência) do ser humano.
+ M. Heidegger: Elimina esta abertura ao pensar a situação como elemento da
“existência autêntica” como “ser-para-a-morte”
+ J.-P. Sartre: Radicaliza esta perspectiva ao conceber o ser humano como
liberdade encerrada nas fronteiras intransponíveis da situação
+ G. Marcel (filósofo católico): A situação é pensada a partir da condição de
corporalidade (ser encarnado) e permite a passagem do regime do ter ao do ser.
Reencontra assim a perspectiva da situação metafísica a partir do limite ontológico
do ser-no-corpo.
+ Ética de situação: Tentativa explícita de superação da ética clássica, a partir do
Existencialismo, difundida entre 1930 e 1950, sobretudo por autores protestantes e
alguns católicos.

3. Abordagem teórica da categoria de situação

3.1. Fundamentação metafísica da categoria de situação

a) Tese: A situação (como momento da particularidade da vida ética do indivíduo) é a


determinação da universalidade da RP, que:
+ orienta teleologicamente o agir ético para o horizonte do Bem
+ torna possível o consentimento do sujeito ao Bem como valor

b) Estrutura teleológica da RP
# A teleologia do Bem corresponde à dimensão teórica da RP, enquanto abertura
intencional do sujeito enquanto racional à universalidade do Ser. Trata-se da estrutura
metafísica da razão humana, enquanto transcende as fronteiras da physis, como
conseqüência da ilimitação tética da afirmação primordial “Eu sou”.
# No domínio da praxis esta intencionalidade apresenta-se como teleologia do Bem
(atributo transcendental do Ser).

c) A particularidade subjetiva da vida ética como suprassunção da situação no dinamismo


da RP
# Em razão de sua finitude, entre o sujeito humano e o Ser/Bem dá-se:
+ uma identidade apenas intencional (o sujeito tende para o Bem como seu Fim)
+ na diferença real (não coincide com o Bem total)
# Daí se segue que o Bem universal é intencionado concretamente pelo sujeito na
multiplicidade dos bens finitos. Esta finitude do sujeito manifesta-se na ordem do agir
como:
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+ estar-no-mundo
+ estar-na história
# Em outras palavras: Em virtude da finitude ontológica do ser humano, a RP não pode
operar senão na particularidade das situações mundana e histórica vividas pelo sujeito.
Portanto, do ponto de vista do movimento dialético da RP, a condição de possibilidade da
particularidade subjetiva da vida ética é a determinação intrínseca (causal), com que sua
ordenação universal ao Bem é vivida nas condições concretas.
# A situação no aqui (que circunscreve o indivíduo no espaço do mundo) e no agora
(que o mergulha no fluxo do tempo) somente alcança significação ética se a estas condições
mundanas e históricas está subjacente a situação metafísica primordial

d) Conclusão:
# O momento da particularidade subjetiva da vida ética consiste:
+ na suprassunção do estar-no-mundo-e-na-história do sujeito ético ao nível da RP,
+ em ordem à singularidade do ato virtuoso como ato da vida no Bem.
# A RP opera esta suprassunção pelos atos:
+ do discernimento/deliberação (boúlesis) a respeito dos bens particulares que se
apresentam no horizonte do Bem
+ da escolha (proaíresis) dos bens que representam para o sujeito um avançar no
dinamismo do melhor (vida no bem)

3.2. Tópica da vida ética

a) Em geral:
# Tópica da vida ética (topos = situs = lugar ou situação): É uma designação da forma
da passagem:
+ da ordenação abstrata (universal) da RP ao Bem
+ à efetivação concreta dessa ordenação no aqui e agora da vida.
# Esta passagem consiste estruturalmente na articulação:
+ dos atos da RP (deliberação e escolha)
+ com as particularidades da situação (mundana e histórica)
# Portanto: A tópica da vida ética consiste na integração:
+ das situações condicionantes da vida do indivíduo
+ na ordem causal da RP,
+ enquanto seu estar-no-mundo-e-na-história é penetrado (de acordo com as
perspectivas sob as quais o Bem se apresenta no horizonte da RP):
¤ pelo dinamismo do Fim (aspecto teleológico)
¤ pelo discernimento do Valor (aspecto axiológico)
¤ pela regra da Razão reta (aspecto normativo)

b) Em concreto (sugestões históricas)


# A deliberação e a escolha
+ se exercem na situação concreta e complexa do sujeito
+ e devem levar em conta estas condições do agir ético
# A história da Ética oferece análises minuciosas das circunstâncias da ação:
+ Aristóteles: Descrição da psicologia do ato livre
+ Retórica (Cícero, etc.): Elenco clássico das circunstâncias:
¤ Quis (quem): Sujeito ético como núcleo ativo envolvido pelas circunstâncias e
que nelas exerce sua RP em ordem ao agir singular (juízo de decisão)
¤ Quid (o quê): Fim perseguido no agir
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¤ Cur (por que): Motivação


¤ Quibus auxiliis (com que meios): Condições, especialmente estrutura
biopsíquica (pulsões afetivas) do indivíduo (no caso da estrutura subjetiva da vida
ética)
¤ Quomodo (de que modo)
¤ Quando (em que tempo)

III. A RAZÃO PRÁTICA NA VIDA ÉTICA: SINGULARIDADE SUBJETIVA

1. Significado do momento da singularidade subjetiva da vida ética: o existir ético como


realização concreta da virtude

# O ato de decisão (termo do movimento dialético da praxis) se insere concretamente


numa sucessão de atos que tecem a vida ética do indivíduo
# A singularidade da vida ética manifesta-se neste vir-a-ser (seqüência de atos) por meio
do qual o indivíduo se realiza eticamente.
# O discurso sobre a virtude como universal da vida ética mostrou que este vir-a-ser não
procede linearmente, mas cumulativamente, i.e. como crescimento, no qual se cumpre a
ordenação do ser humano para o Fim que é o Bem.
# O termo do movimento dialético da RP (passagem da universalidade à singularidade
mediante o momento de particularidade), realizando concretamente o seu princípio (adesão
ao Bem como tal), significa justamente que a causalidade da RP emerge sobre a rede
complexa das condições e profere o juízo de decisão, como ato do sujeito racional e livre na
sua especificidade ética.
# O momento da singularidade da vida ética deve ser entendido, portanto, como termo
do processo lógico-dialético pelo qual é pensada a forma superior de vida do indivíduo
racional que é a vida ética.
# Nesta compreensão da vida ética
+ Não se tem em vista prioritariamente a vida ética no seu acontecer empírico e
nas suas variações culturais
+ Mas as invariantes conceptuais (estrutura categorial) constitutivas da
inteligibilidade essencial da vida ética, que definem a sua identidade na diferença
das manifestações históricas
# Esta estrutura categorial implica três momentos: virtude – situação – existir ético. A
situação é o momento mediador da passagem:
+ da virtude na universalidade abstrata (como hábito)
+ para a virtude como forma concreta do existir ético do sujeito

2. Aspectos constitutivos do existir ético

2.1. Passagem permanente do livre-arbítrio à liberdade (moral)

a) Abordagem histórica da questão da liberdade e livre-arbítrio: Trata-se da primazia da


liberdade e de sua distinção em relação ao livre-arbítrio.

(1) Antiguidade
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# Doutrina socrática da virtude-ciência: Nela está implícita a primazia da liberdade,


enquanto a virtude no sábio consiste em subordinar a capacidade de escolha (livre-arbítrio)
à adesão constante ao Bem (liberdade)
# Éticas helenísticas (especialmente Plotino): Elevação do livre-arbítrio à liberdade
como exigência da posse da eudaimonia.
(2) Cristianismo
# Agostinho: Aprofunda a tradição cristã anterior:
+ ao inserir o caminho da liberdade na dialética do usar-fruir (uti-frui)
+ ao transfundir a sabedoria no amor, concebendo a virtude como ordo amoris
# S. Tomás: Na Idade Média, a partir de S. Anselmo, a questão da liberdade e livre-
arbítrio torna-se relevante. S. Tomás (inspirando-se na psicologia de Aristóteles) esclarece
definitivamente a relação, distinguindo na unidade da vontade como potência ativa
(analogamente à distinção entre intellectus e ratio):
+ a “voluntas”como adesão imediata ao bem desejado como fim (realização da
liberdade)
+ o “liberum arbitrium” como escolha dos meios
(3) Filosofia moderna
# O problema da liberdade X livre-arbítrio é focalizado no pressuposto da primazia do
sujeito (inversão antropocêntrica do paradigma clássico).
# Daí a exaltação da liberdade (autônoma) como prerrogativa suprema do sujeito, de
modo que a Filosofia moderna pode ser chamada (de Descartes a Hegel) de “Metafísica da
liberdade”

b) Abordagem teórica

# O existir ético sob este aspecto consiste no crescimento na liberdade, i.e. na adesão
livre ao Bem.
# Este crescimento consiste na passagem progressiva:
+ da identificação intencional abstrata do sujeito ético com o Bem (identidade
estática, própria do momento da universalidade, expressa na homologia ou
correlação: RP = Bem)
+ para a identificação intencional concreta com o Bem, como existir plenamente
livre do sujeito no Bem (identidade dinâmica, própria do momento da singularidade,
expressa na tendência: RP  Bem)
# Esta identificação dinâmica realiza-se progressivamente na sucessão dos atos de livre-
arbítrio, cujo objetos são os bens particulares:
+ circunscritos na situação do sujeito
+ como meios/condições do exercício da RP
# Portanto: a vida ética (na sua singularidade) consiste na liberdade realizada na
constância e progresso de uma vida virtuosa.

2.2. Constituição da personalidade moral

a) Abordagem teórica: Personalidade moral como forma da vida ética


# A vida ética mostra-se, sob este segundo aspecto, como processo permanente de
constituição da personalidade moral. Trata-se da passagem (progressiva):
+ da simples identidade ética, constituída pelo ato da consciência moral (CM)
+ para a ipseidade ética, enquanto intensidade reflexiva sempre maior da CM
como ato da pessoa
# A categoria de “pessoa” (moral) pode ser considerada:
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+ como categoria totalizante de todos os momentos do discurso da Ética filosófica


(como se verá no término do processo dialético de tal discurso). Nela o sistema da Ética
se apresenta como sistema aberto numa síntese dinâmica de:
¤ essência: agir ético em si
¤ existência: vida ética no mundo e na história
+ ou (a esta altura) no movimento de sua realização existencial na vida do
indivíduo, i.e. no processo de formação da personalidade moral. O ser humano é
essencialmente pessoa (cf. Antropologia filosófica) e como pessoa é um ser ético. O
processo de formação da personalidade moral consiste para o ser humano em:
¤ tornar-se existencialmente
¤ o que já é por essência (cf.: “Torna-te o que és”)
# A realização existencial da pessoa (formação de sua personalidade moral):
+ em meio a condições favoráveis ou adversas (tradição, educação, situação)
+ constitui o desafio mais radical da vida do indivíduo
# Esta formação da personalidade desdobra-se em várias dimensões: psicológica, social,
cultural, cívica, religiosa, ética.
# Entretanto a personalidade moral (dimensão ética):
+ assume todas as outras dimensões no seu estágio de desenvolvimento e no seu
dinamismo
+ imprime sua marca autenticamente humana em cada uma delas
# Portanto:
+ a personalidade moral constitui a forma da vida ética enquanto vida virtuosa
+ a CM constitui o núcleo constitutivo e dinâmico da personalidade moral

b) Abordagem histórica: Pessoa e CM

# A idéia de CM precede historicamente outras acepções do termo “consciência”


(psicológica, etc.)
# A idéia de “personalidade moral” está implícita na máxima de Sócrates: “Conhece-te
a ti mesmo”
# A idéia de pessoa (embora ainda não tematizada) corresponde ao “filósofo” platônico,
ao “varão prudente” aristotélico, ao “virtuoso” estóico.
# A idéia de pessoa é tematizada pelo Cristianismo (influxo da teologia trinitária e
cristológica). A personalidade moral, como constitutivo específico do ser humano, é
sublimada na idéia do “santo”.
# Tomás de Aquino:
+ Dá um passo decisivo na definição da singularidade da vida ética pelo progresso
da CM como núcleo dinâmico da formação da personalidade moral ao explicá-la como
ato, i.e. como reflexão judicativa imanente ao próprio ato moral de decisão.
+ Nesta concepção da CM como ato de reflexão judicativa, a vida ética se revela:
¤ como identidade/permanência do sujeito assegurada pela reflexão sobre si
mesmo
¤ como diferença de si mesmo, assegurada pelo juízo da consciência que se
pronuncia sobre o estágio alcançado pelo sujeito na formação de sua personalidade
moral

c) Conclusão:

# Unindo os dois aspectos do existir ético, pode-se dizer que a CM é um índice infalível
do progresso da personalidade moral no caminho:
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+ de uma vida oscilante na indeterminação do livre-arbítrio


+ a uma vida firmada na liberdade do consentimento ao Bem
# Transição:
+ Do ponto de vista da estrutura relacional do ser humano, a vida ética vivida por
um indivíduo isolado é uma abstração
+ É na comunidade ética como estrutura intersubjetiva que a vida ética é vivida na
sua concretude histórica