Você está na página 1de 44

a origem do

karate-do
DE OKINAWA ATÉ O JAPÃO

BY RILTON RODRIGUES
"Este livro é uma obra dedicada a todos os karatecas e espero que sirva como um
bom material de estudo para elevar a arte do karatê. OSS !
Coautor meu aluno Victor guerra
Rilton Rodrigues
Rilton Rodrigues, Autor, Professor, Seminarista e
Empreendedor no cenário Marcial.

Estuda a arte do karatê a 32 anos, treinando com


diferentes senseis, não só no Brasil mas também na
Europa.

Na sua jornada, tornou-se especialista na arte do


Kyusho-Jutsu, sendo o principal pioneiro a trazer a arte
para o Brasil, tornando-se presidente da Kyusho Jutsu
Brazil, no qual seus instrutores passaram a ensinar
seus conhecimentos para grandes entidades como
B.O.P.E; Exercito Brasileiro; Grupo de operações
especiais de Pernambuco, entre outros.

Hoje expande seu conhecimento na arte do karatê no


seu website www.riltonkarate.com.br
Introdução
O karatê-do é hoje uma das principais artes marciais
estudada em todo o mundo.

Segundo o Facebook são aproximadamente 32,7


Milhões de pessoas conectadas a rede social que
gostam do karatê.

Sem contar com o grande numero de pessoas que


ainda hoje não possui contas no facebook ou sequer
acesso a internet.

Este livro tem o intuito de divulgar um pouco mais sobre


os primórdios da nossa arte, que teve como berço uma
pequena ilha chamada Okinawa.

Assim, poderemos refletir um pouco mais sobre as


nossas tradições e resgatar alguns conceitos
esquecidos pelo tempo.

Todo o livro foi desenvolvido a partir de estudos de


grandes artistas e historiadores que pesquisaram a
origem do karatê e criaram verdadeiras obras primas
em formato de livros, artigos e videos.

Desde já aconselho após a leitura deste livro, pesquisar


mais sobre a Bibliografia descrita ao final.
Em vários períodos da minha vivencia no karatê, fui
convidado a estudar um pouco sobre a origem desta
arte, onde sempre me entregavam apostilas com textos
referentes a historia do karatê.

Sempre me deparava com as mesmas historias, onde


resumidamente falando, O 28º Patriarca do
budismo, Bodhi Dharma, ensinou aos monges shaolin
uma arte oriunda da índia e posteriormente após o
ataque chines ao templo shaolin, vários estilos de
gungfu (kung-fu) foram desenvolvidos pelos monges
sobreviventes.

Alguns destes estilos teriam chegado a Ryukyu (antigo


reino que deu origem a Okinawa) em suas três cidades
Naha, Tomari e Shuri.

Cada uma destas cidades desenvolveram seus próprios


métodos que ficou conhecido como "Naha-te, Tomari-te
e Shuri-te".

E a partir dos discípulos destas artes, o karatê teve sua


origem, chegando ao japão e posteriormente ao mundo.

Como falei este é um resumo do que foi me passado


durante um bom período e de fato esta versão não está
totalmente equivocada, porém, drasticamente
encurtada.
Após alguns anos, passei a estudar e pesquisar mais a
fundo esta história, principalmente ao que ocorreu em
Okinawa e confesso que os relatos que descobri e que
você também saberá ao ler este livro, me fez questionar
sobre o karatê-do e me aprofundar no Karatê-jutsu (O
karatê antes da sua expansão para o japão e para o
mundo).

Não me leve a mal, eu amo o Karatê-do, mas você verá


aqui que seu karatê atual pode ser muito mais valioso e
eficaz ao também entender os princípios do karatê-
jutsu.

Ressalvo que este livro irá se ater apenas aos aspectos


históricos do desenvolvimento do karatê em Okinawa,
sendo excluído assim a historia Pre-Okinawa e Pós-
Okinawa, onde irei apenas falar rapidamente sobre a
entrada do karatê no japão.

Então convido a você, Leitor, entrar comigo em um


conhecimento mais profundo da origem do karatê-do.
Parte 1- Okinawa
Antes de entrarmos no aspecto mais profundo da
origem do Karatê-do é essencial entender sobre
Okinawa onde iremos analisar rapidamente os
aspectos culturais e geográficos e posteriormente uma
breve narrativa sobre o Karate na ilha.

O Karate-Dō é oriundo de um complexo multicutural,


derivando de varias influências dos mais diversos
locais.

O surgimento das artes marciais em geral é devido ao


monge indiano conhecido como Bodhi Dharma, que
introduziu técnicas de arte marcial e respiração, aos
monges do mosteiro Shaolin, devido a necessidade de
se defender de saqueadores e da falta de preparo
físico dos monges, isto por volta de 520
da Era Cristã.

Entretanto a origem do Karate provém de Okinawa.

Okinawa é a prefeitura que se localiza mais ao sul do


Japão . Consistindo em 169 ilhas que constituem o
arquipélago Ryukyu , numa cadeia de ilhas que
corresponde a 1000 quilômetros de comprimento, que
se estende de sudoeste, de Kyushu até Taiwan.
Okinawa anteriormente era dividida em feudos, com
diversos pequenos reinos do século XIV, Ryūkyū (o
arquipélago ao sul do Japão e a leste da China, da qual
Okinawa era a Ilha principal),sendo um estado vassalo
ao Império Chinês, desde o século XIII ou XIV.

Neste período o sistema de castas imperava no reino


de Ryūkyū, (no qual Okinawa fazia parte), semelhantes
a outros países próximas a essa região como China,
Índia e Japão. A divisão eram feitas nas seguintes
classes: Nobres, cleros, militares e camponeses,
possuindo inclusive subdivisões entre algumas dessas
classes.

Os Heimin (O termo japonês que se refere aos


camponeses) do Ryūkyū, viviam explorados e
ameaçados, tendo que pagar os tributos reais,
contribuindo muitas vezes com quase toda a colheita
produzida, exigida pela aristocracia, afetando muitas
vezes sua própria subsistência.

Sofriam ainda violência pela casta militar, que tinha o


papel de cobrar os tributos, sendo o castigo pela
inadimplência, terem suas casas incendiadas e
seus familiares mutilados ou empalados.

Esses fatores, teve por resultado, incentivar os


camponeses a criar formas de se exercitar e se
preparar para confrontar os Peichin
(Casta dos militares).
Outro fator era que o porte de armas, pela população
comum era proibido pelas Reis da Dinastia Shō.

Os camponeses passaram a treinar sistemas de


defesa, que eram treinados juntos. A
estes chamaram genericamente de Te (ou Ti na antiga
pronúncia do dialeto de Okinawa, uchinaguchi ), cujas
formas eram Diferentes em relação ao que viríamos
conhecer por Karate-Do e Kobu-Do.

Okinawa possuia uma posição estratégica, pois se


localizava entre a Indonésia, Polinésia,China, Coréia do
sul e do norte e Japão ,se tornando entreposto
comercial. Isto foi um dos fatores decisivos que
possibilitou as trocas de informações, conhecimentos
nos mais diversos âmbitos, inclusive nas artes
marciais. Estes contatos com as mais variadas culturas
contribuiu para um desenvolvimento de uma cultura
própria, peculiar e particular, possuindo diferenças
significativas, inclusive se comparado com China e
Japão, no qual obtiveram bastante contato.

Do século XVII em diante, os guerreiros de Okinawa, a


casta Peichin, apropriaram-se do Te, passando a
realizar trocar de informações com marinheiros e
militares de toda a Asia oriental. Isto foi possível pois o
arquipélago possuía, uma posição estratégica para as
rotas comerciais e marítimas para embarcações.

O resultado desta troca de conhecimento foi o


aperfeiçoamento constante da arte "Te"
Haviam três grandes centros de treinamentos de Te
que eram Shuri-te , Naha-te e Tomari-te, seus nomes
vinham das próprias cidades onde se originaram (Shuri
, Naha e Tomari). Essas linhas possuíam algumas
características:

O Shuri-te, se destacava pela potência muscular,


velocidade , movimento retilíneos com golpes diretos e
defesas em ângulos, geralmente os golpes ofensivos
visavam um ponto vital, evidenciando os Atemi
Waza.

Já o Naha-Te, suas principais características eram à


força concentrada, a busca pelo combate a curta
distância, as técnicas circulares, chutes baixos, as
posições estáveis e a respiração abdominal (Ibuki).

E o Tomari-te mesclava características do Shuri-te e


do Naha-te.

Apesar destas três variações, era comum a troca de


conhecimentos entre os praticantes do Te, que não se
privavam de treinar apenas uma maneira de combate,
mas visavam elevar seus conhecimentos de defesa
civil e militar sem armas, assim, buscavam outros
mestres e até mesmo viajavam a procura de expandir
seus conhecimentos.

Isto ficará mais claro ao conhecer as 10 teorias do


Bubishi.
Parte 2. Bubishi
Na minha opinião, qualquer relato histórico sobre a
origem do karatê-do que não esteja citando o Patrick
McCarthy ou sua obra "Bubishi: A bíblia do karatê"
deve ser questionada.

O Bubishi é uma grande obra das artes marciais


orientais, principalmente chinesas, um livro que foi
mantido em sigilo e passado de geração em geração de
famílias tradicionais das artes marciais chinesas, onde
nele havia um manual sobre as técnicas de luta militar,
ou civil.

A fonte patriarcal do karate, onde não se sabe o nome


do autor, data de criação, ou local no qual foi escrito.

Patrick McCarthy passou anos estudando pelo mundo,


principalmente em Okinawa e China, a origem do
Bubishi, bem como realizou a tradução da obra para o
inglês, fazendo-o acessível a todo o mundo.

Nele estava contido a antologia do Gungfu chinês,


historia, filosofia, técnicas, aplicações, principalmente
do estilo garça branca da vila Yougchun e Monk Fist
Boxing.

O Bubishi também abordava um vasto conhecimento


sobre ervas medicinais chinesas e estudos do "Toque
da morte" (Dim Mak, Dan Xue ou Kyusho)
Acredita-se que por conta deste estudo o Bubishi
tornou-se um documento obscuro e secreto, já que nele
há demonstrações de como extinguir a vida humana de
maneiras bem específicas.

Irei trazer aqui dez teorias de como o Bubishi chegou a


Okinawa, já que não se sabe ao certo qual destas dez
teorias encontradas pelo Patrick McCarthy são reais ou
qual foi a real e primeira a fazer com que o Bubishi
chegasse na ilha de Okinawa.

Mas independente de qual delas é real ou verdadeira,


iremos encontrar um bom conhecimento histórico sobre
o karatê na ilha de Okinawa, o foco deste livro.

Primeira Teoria

A primeira teoria do Patrick McCarthy surge apos ter


lido o livro do Liu Songshan "Shaolin Bronze Men Book
2" e entrevistando o Xie Wanliang bisneto do Ryuku Ko,
Famoso mestre de gungfu, onde o bubishi teria sido
transmitido pela família de Kyuku ou seus discípulos em
Okinawa.

Segunda Teoria
A segunda teoria leva em conta testemunhos do
sobrevivente mais antigo de Okinawa que estudava o
Te ou Ti (Nome antigo do karatê, significava Mãos).
Também conhecido como Ti’gwa ou Okinawa-te.

Refere-se a Teijunsoku Uekata, morador do distrito de


Nago, ele escreveu:

"Não importa como você possa se destacar na arte de


empreendimento escolástica, nada é mais importante
do que seu comportamento e sua humanidade como
observado na vida diária"

Este texto é muito parecido ao texto escrito no livro


Bubishi:

“Não importa o quanto você possa evoluir na arte do


Te, nem nas suas realizações intelectuais, nada é mais
importante do que o comportamento e humanidade que
demonstra no dia-a-dia.”

Não se sabe se o texto do Teijunsoku teve inspiração


no trecho do Bubishi, mas caso ele tenha possuído o
Bubishi, este seria o relato mais antigo do Bubishi em
Okinawa ainda no seculo 17.

Terceira Teoria

A terceira teoria surge a partir de uma cronica escrita


pelo estudioso Tobe Ryoen, sobre um evento onde um
tufão arrastou um navio de comercio de arroz até a
praia de Oshima.
Na cronica o Tobe comenta sobre um evento onde um
chinês de baixa estatura aplicou uma técnica de
Kumiai-jutsu em um agressor neutralizando-o, e todos
ficaram impressionados.

O chines no qual se refere é o Kusankun, popularmente


conhecido como Kusanku ou Kushanku, especialista
em Kenpo ou Kumiai-jutsu.

Este é o relato escrito mais confiável em relação ao


surgimento da luta civil chinesa em Okinawa.

Testemunhas afirmam que Kusankun ensinou sua arte


ao famoso mestre Okinawano Tokugawa Chikudun
Pechin, responsável pelo crescimento das disciplinas
de auto defesa em Shuri e arredores. É possível que
Kusankun tenha trazido o Bubishi a Okinawa.

Quarta Teoria

A quarta teoria vem da publicação de Gichin Funakoshi


em 1922 "Ryukyu Kenpo Karate-Justu" onde descreve
vários mestres que vieram a Okinawa ensinar o Gungfu.

Entre eles o Ason que ensinou a arte Zhao Lingliu


(Shorei-Ryu) para Sakiyama, Gushi, Nagahama e
Tomoyori de Naha.
Wai Xinxian ensinou a arte Zhao Lingliu a Higashionna
Kanyu, Kanryo, Shimabukuro e Kuwae.

Iwah ensinou Shaolin Boxe a Matsumura de Shuri,


Kogusoku (Kojo) e Maesato de Kuninda.

Um homem não identificado vindo de Fuzhou ensinou a


Gusukuma (Shiroma), Kaneshiro, Matsumora,
Yamasato e Nakasato em Tomari.

Muitos acreditam que Higashionna Kanryu é a fonte


mais provável a partir da qual o Bubishi surgiu em
Okinawa.

Quinta Teoria
A quinta teoria afirma que Itosu Anku (1832- 1915) pode
ter sido a fonte do Bubishi em Okinawa. Itosu foi
responsável por disseminar a arte de defesa pessoal
posteriormente conhecida como Shuri-te. Seu mestre
foi o lendário "Bushi" Matsumura Chikudun Pechin
Soken, que estudou Gungfu tanto em Fuzhou quanto
em Pequim.

Mabuni Kenwa, fundador do Shito-Ryu escreveu na sua


versão do Bubishi que havia feito uma cópia do seu
mestre Itosu Anku.
Sexta Teoria
A sexta teoria é que o Bubishi foi levado a Okinawa por
Ueshi Kanbun (1877-1948) fundador do Uechi-Ryu.

Ueshi foi a Fuzhou onde estudou Guangdong Shaolin


Temple Tiger Boxing, com o mestre Zhou Zihe.
O aluno de Ueshi, Tomoyose Ryuku dedicou parte de
sua vida a analisar o Kenpo, Pontos Vitais e Ervas
Medicinais chinesas em seu documento " Kenpo
Karate-Jutsu Hiden" Muitos dos artigos são idênticos
aos encontrados no Bubishi, o que seria difícil negar
que a família de Ueshi já possuísse o Bubishi.

Sétima Teoria
A sétima teoria tem origem na vinda de dois chineses a
Okinawa, o Wu Xiangui especialista em Gungfu garça
branca, onde Uechi Kanbun afirmou que ensinava
Gungfu no norte de Naha, tendo influencia sob Miyagi
Chojun, Mabuni Kenwa, Kyoda Johatsu e Matayoshi
Shinpo.

O segundo chinês foi o Tang, especialista em Gungfu


punho de tigre, fez forte amizade com grandes
entusiastas do Te em Okinawa.

É possível que o Bubishi tenha surgido a partir destes


dois chineses.
Oitava Teoria
A oitava teoria surge com Nakaima Chikudun Pechin
Norisato, fundador da tradição de Karatê Ryuei-ryu.

Filho de uma antiga família nobre de Naha, foi enviado


a Fuzhou onde estudou com Ryuru Ko. Após seis anos
de treinamento voltou a Okinawa com vários livros que
transcreveu, um destes livros pode ter sido o Bubishi.

Nona Teoria
A nona teoria refere-se ao clã Kogusuku ou Kojo,
descendente de Kuninda "Trinta e seis famílias de
Naha" de uma das famílias chinesas conhecidas por
suas tradições nas artes marciais chinesas. Ainda em
contato com a china, Kojo Taitei estudou em Fuzhou,
amigo de Higashionna Kanryo. Hayashi Shingo,
discípulo mais antigo de Kojo-ryu afirma que Kojo
trouxe de Fuzhou um "Texto Secreto" sobre Gungfu,
esse texto pode ter sido o Bubishi.

Decima Teoria

A decima e ultima teoria é a "hipótese do museu".


Durante o reino de RyuKyu, um edifício chamado
Tenson, abrigava objetos históricos e culturais no
distrito de Kuninda em Naha.
A teoria é que o Bubishi é um conjunto de estudos do
Gungfu da comunidade chinesa de Naha. Esta teoria é
a mais descartada entre as dez, mas pode ser real.

Pode ser que uma destas dez teorias seja real, ou até
mesmo mais de uma, já que no seculo XX haviam mais
de um exemplar do Bubishi em Okinawa.

Neste inicio ao analisar o texto do Patrick McCarthy,


podemos ver que o Te ou Karate, teve forte influencia
do Gungfu, onde não apenas um estilo, mas vários
estilos de Gungfu com mestres diferentes passaram por
Okinawa.

Vemos também que a origem da influencia das artes


marciais chinesas em Okinawa pode ter sido antes
mesmo do seculo 17 e que muitos dos praticantes de
Karate estudaram com um ou mais de um mestre, até
mesmo foram a china em busca de mais conhecimento
para trazer a Okinawa.

Muitas pessoas acreditam que as artes de luta civil


apenas chegou a Okinawa a partir do Gungfu, onde o
karatê pode ter sido apenas uma derivação desta arte.

Será que não havia um modelo de combate sem ser a


de influencia chinesa em Okinawa?
Parte 3. A luta em Okinawa
Dizer que estudos marciais, ou lutas cívicas chegou a
Okinawa apenas com a chegada do Gungfu chines
seria no mínimo imprudente.

É e sempre foi natural da especie humana envolver-se


em combates, seja por conta de desavenças ou por
conta de guerras e proteção.

Os reinos de Ryukyu no período feudal necessitavam


de guerreiros que fizessem a proteção da ilha e dos
seus reinos.

Assim, era estudado o uso da espada, da lança, do tiro


com arco, alem de uma forma rudimentar de combate
corpo a corpo desarmado, com golpes de impacto,
projeções, esquivas e chaves para que fossem hábeis
também sem armas.

Militarmente dominados por guerreiros chefes locais (aji


ou anji), os Uchinanchu se envolveram ativamente na
dissensão territorial dos séculos sétimo ao quinze, e
atribuíram muito valor ao conhecimento militar.

Talvez o evento histórico mais profundo para efetuar a


evolução das tradições de luta nativas de Okinawa foi a
chegada de Tame-tomo (1139-70).
O oitavo filho do senhor da guerra feudal, Minamoto
Tameyoshi (1096-1156), enquanto ainda adolescente, é
descrito na Guerra dos Contos da Hogen (Hogen
Monogatari), como um guerreiro feroz, um lutador
poderoso, famoso por sua notável habilidade em tiro
com arco.

Durante um breve confronto militar em 1156, o clã


Minamoto foi derrotado por seus rivais, o Taira e vários
dos principais membros da Minamoto que não foram
executados, foram torturados e exilados para a Ilha de
Oshima sobre comando de Izu.

Entre os exilados estava Minamoto Tame-tomo, que


acabou assumindo o controle de Izu muitos anos depois
e se dirigiu para o sul até o arquipélago de Ryukyu
(Okinawa).

Chegando em Okinawa, em Unten (perto da Ilha de


Yagajijima), ele entrou em contato com Ozato Aji,
senhor do castelo de Urazoe e foi reverenciado pelo
seu poder militar.

Casando com a irmã de Ozato, Tame-tomo tornou-se


senhor de Urazoe e teve um filho, ele chamou de
Shunten.

Em 1186, Shunten derrotou Riyu (o último governante


da dinastia de Tenson) e tornou-se o aji mais poderoso
da ilha.
A dinastia Shunten durou até 1253 e perpetuou as
tradições combativas introduzidas por Tame-tomo e
seus Bushi (guerreiros).

Não obstante, com Okinawa sendo dividido em três


pequenos reinos, a dissensão territorial continuou até
um poderoso aji, Sho Hashi, unificou os três reinos
rivais e formou um governo centralizado em 1429.

Várias dinastias mais tarde, em 1507, no trigésimo ano


de sua administração, Sho Shin-O terminou o
feudalismo no Reino de Ryukyu ao ratificar o "Ato das
Onze Distinções", que incluiu uma proibição de
propriedade privada e armazenamento de armas.

Isso é historicamente significativo para os


pesquisadores, porque explica por que o Uchinanchu
(Okinawanos) começou a cultivar intensamente um
meio desarmado de autodefesa.

Assim, a arte da luta desarmada que era algo não tão


popular devido a arte da espada, passou a chamar
maior atenção dentro do reino Ryukyu.

Vários entusiastas passou a dedicar suas vidas a


estudar a arte da defesa civil desarmada, que deu
origem ao chamado Okinawa-te, que significa mãos ou
punhos de Okinawa.
O interesse na época era o estudo da eficacia da
técnica em situações de ataques, com ou sem armas,
onde pudessem defender-se sem estar armado.

Procurando entender como neutralizar atacantes por


meio de quebra de articulações, inconsciência por
golpes ou projeções e até mesmo era comum o estudo
de como extinguir uma vida humana.

Por conta desta abordagem de necessidade e


sobrevivência, todas as pessoas que tivessem
habilidades com lutas eram procurados para ensinar
seus métodos de luta.

A ilha de Okinawa sempre foi um ponto de apoio muito


forte para comerciantes asiáticos, principalmente vindos
da China, Índia, Camboja, Vietnam, Laos, Sião, Japão
e toda costa marítima asiática.

Acredita-se que comerciantes de toda Asia tenha


passado e ensinado artes marciais que tiveram origem
em suas terras.

Apesar da conturbada fusão dessas artes agrupadas


sob o nome Karatê, Foi identificado por Patrick
McCarthy quatro disciplinas distintas.

Essas artes de combate desarmadas representam a


verdadeira fonte da qual o Karatê teve suas origens.
Tegumi
O Tegumi era originalmente uma forma de luta-livre
datando do período Tame-tomo.

Acredita-se que essa disciplina foi derivada da luta-livre


chinesa Jiao Li da qual vem o Shuai Jiao e evoluiu para
uma forma singular de wrestling antes de se tornar um
esporte regrado chamado de Sumô de Ryukyu.

Torite
Torite é o método derivado do Shaolin de segurar e
conter um oponente, vigorosamente adotado por oficiais
da lei, agentes de segurança e agentes carcerários
durante o período do velho reino Ryukyu.

A reconstituição solo dessa prática pode ser


encontrada nos Kata.

Kata

Kata (Hsing / Xing em chinês), apesar de cultivada


localmente durante o período Riukyu de Okinawa, essa
prática solo de rotinas de luta tem sua origem na China
(Fujian) e nos Gungfu chineses (kempo) como o
Yongchun Crane Boxing, Monk Fist and Southern
Praying Mantis e outras escolas.
Usados como formas de exercício e meios de
treinamento pessoal, foram popularizados na China
com o intuito de promover a boa forma,
condicionamento mental e o bem-estar.

Ti'gwa
Ti'gwa era a forma okinawense de impacto percussivo
(atemi), também chamado de "Te," “Ti,” "Di" (⼿ significa
mão/s) ou Okinawa-te e Uchinadi.

Era uma arte baseada principalmente no uso dos


punhos cerrados para golpear um oponente (em
contraste com as mãos abertas preferidas pelas artes
chinesas de acordo com ambos, Kyan Chotoku e Miyagi
Chojun ), com a cabeça, os pés, queixos, cotovelos e
joelhos eram também favorecidos.

Apesar do foco óbvio em golpear, na arte de combate e


no condicionamento físico, Ti’gwa também tinha ênfase
considerável no aspecto de desenvolvimento do
caráter.

Esta é talvez a arte que possui origem mais


interessante e diferente das demais descritas.

Primeiramente para explicar a origem do Ti'gwa,


precisamos entender o significado da palavra.
A língua de Ryukyu (Uchinaguchi) é caracterizada pela
existência tanto de prefixos como de sufixos para os
diminutivos, ou seja, com objetivo de ou resultado de
familiaridade e afeição; Mas também para denotar
trivialidade ou pequenice.

O prefixo é “guma” e o sufixo, “gwa”, Ambos, servem


para criar palavras no diminutivo quando associadas à
uma palavra base. Porém, no caso de antigas práticas
como Kata e Te, o sufixo “gwa” era comumente usado
para indicar familiaridade e afeição, ao invés de
trivialidade e insignificância.

Por conta desta abreviação por muito tempo foi perdido


a origem do Ti'gwa, porém, acredita-se que o Ti'gwa
tenha origem no antigo Boxe Siamês (também
conhecido como Muay Boran).

Muay Boran (lit. boxe arcaico), usa as mesmas


ferramentas do Ti’gwa (punhos fechados, cabeça,
queixos, pés, cotovelos e joelhos) foi muito popular na
Tailândia durante o período do antigo reino do Sião.

Onde navios Ryukyu infestaram as águas entre as duas


culturas, viabilizando o comércio por mais de duzentos
anos durante o período Ryukyu.
O reino do Sião posteriormente virou a Tailândia e o
Muay Boran tornou-se a arte e esporte Muay Thai
(Boxe Tailandês).

Na qual houve uma grande modificação no estudo do


Muay Boran devido as regras impostas nas
competições da época.

Antes de tornar-se um esporte com regras nas lutas de


Muay Boran, os pugilistas conseguiam vantagens
usando rasteiras, cotoveladas, joelhadas e
estrangulamentos. Até coisas consideradas bizarrices
como mordidas e cusparadas não eram raras no
pugilismo, nem bater ou chutar um adversário caído.

Assim acredita-se que a arte patriarcal do Muay Thai, o


Muay Boran tenha sido também a arte patriarcal do
Ti'gwa de Okinawa, compondo uma parte importante
das quatro artes principais que era estudada no Karate-
Jutsu.

O Tegumi, Torite, Kata e Ti'gwa.

Diante deste desenvolvimento de Karate-Jutsu em


Okinawa, vemos que o karatê era na verdade um
conjunto de habilidades marciais tanto desenvolvidas
para proteção dos reinos, mas também, artes militares
e artes provenientes de toda a asia antiga.
O importante na época era entender o que havia de
mais eficaz e importante nas artes marciais que eram
apresentadas e incluir nos seus sistemas de luta, o Te,
ou Karatê.

Assim, dizer que o Karatê é uma arte de origem chinesa


seria imprudência de minha parte e daqueles que fazem
tal afirmação.

O karatê não possui uma "escola" matriz, mas varias


artes que influenciaram seu desenvolvimento, sim, com
forte influencia das artes chinesas.

Então, entendendo que o Karatê, muito além de


técnicas de golpes de impacto também havia um
profundo estudo de projeções, chaves em articulações,
estudos de Kyusho e Tuite, a pergunta que fica é
porque estes estudos foram negligenciados em sua
expansão para o mundo?

Este será o tema da ultima parte deste livro, onde


iremos nos aprofundar na transição do Karate-Jutsu de
Okinawa e sua transformação no Karatê-Dô do Japão.
Parte 4. Transição do Karate-
Jutsu para o Karate-Do
Há pouca dúvida que a tradição japonesa moderna do
Karatê-Dô veio através do seu predecessor
okinawense, o Karate-jutsu ou Te-Jutsu .

A introdução e subsequente popularização da arte de


Okinawa no continente japonês é bem documentada e
requer pouca discussão.

O mesmo pode ser dito pelos instrutores locais de


Okinawa (Motobu Choki, Funakoshi Gichin, Miyagi
Chojun, Mabuni Kenwa, etc), maiores responsáveis
pelo pioneirismo de sua introdução da arte ao mundo.

Porém, nesta introdução do Karatê no japão, houveram


varias mudanças radicais no Karatê, onde muitos
afirmam que o Karatê desenvolvido no japão era
apenas uma pequena parte do que era o Karatê de
Okinawa.

Iremos analisar alguns eventos que foram importantes


para a transição do Karatê para japão:

Em 1868, apos a queda de Tokugawa Shogunate, o


Japão sofreu uma grande mudança politica ao deixar o
sistema feudalismo para tronar-se uma democracia.
Com isso toda classe estrutural dos samurais, pratica
da espada e tudo o que lembrava o período autoritário
do feudalismo, foi dado como encerrado e entrou para a
história.

Porém, toda cultura japonesa teve sua identidade neste


sistema criado pelo feudalismo, por conta disto muito do
Japão moderno é derivado de ajustes no que havia na
cultura do sistema feudal do Japão.

O Bugei (Artes marciais) foi uma das ferramentas


utilizadas pelo Japão Moderno para desenvolver o
espirito japonês.

Baseando-se nos costumes ancestrais, ideologias


fortes e profunda convicção espiritual, o moderno Budô
(Caminho Marcial) tornou-se uma recreação cultural.

Onde o Kokutai (politica nacional) introduzia os


princípios do Shushin (Moral), através do Budô, que
passou a ser profundamente virtuoso, com grandes
valores e princípios vindos do Budô feudal,o Bushido.

Dois fatos históricos de âmbito mundial deve ser


inserido nesta pesquisa já que influenciaram
diretamente nas artes marciais bem como no regime
politico em todo o mundo.
O primeiro foi a criação da arma de fogo, durante os
séculos XIX e XX houve grande e crescente indiferença
voltada às artes de combate sem armas, diretamente
relacionada ao colonialismo ocidental e esse
sentimento não era limitado à Okinawa.

A melhoria das armas de fogo e sua disseminação


durante a guerra do ópio, da rebelião dos boxers e a
destruição do templo Shaolin por Chiang Kai-Shek, não
só provocaram a morte de incontáveis guerreiros
chineses treinados nas artes marciais (lutadores,
seguranças, soldados, etc...) mas também acabaram
com o mito de que dominar as artes marciais fazem de
alguém invencível!

Com isso as artes marciais perderam sua significância


no âmbito militar, sendo estudada apenas como ultimo
recurso, no caso da perda da arma de fogo, deixando
de ser um dos principais fatores de um bom exercito
para tornar-se algo secundário.

A segunda analise histórica vem do inicio do socialismo


de Karl Marx e Friedrich Engels, que provocou grandes
polemicas na época ao confrontar o capitalismo e
liberalismo, os principais modelos econômicos da
época, que pouco tempo depois deixou o mundo em
uma grande tenção Pre-Guerra Mundial.
Com isso, seguindo os modelos europeus,
principalmente Francês e Alemão, onde para
desenvolver o bom condicionamento físico dos jovens e
condicionar o espirito de combate, já visando a possível
guerra que estaria por vir, foi imposto dentro da grade
escolar destes países o estudo da Esgrima e do
Wrestling, também em alguns casos o estudo do Boxe
Ocidental.

Acredita-se que seguindo este modelo, o japão também


tenha colocado o Judo (derivado do Ju-Jutsu) e o
Kendo (derivado do Ken-Jutsu) na grade curricular das
escolas japonesas.

Vendo o valor que o Boxe representava, Itosu tomou a


iniciativa de recomendar que o Karatê fosse usado de
forma similar como reforço ao currículo das escolas
públicas de Okinawa.

A propaganda militar glamorizava a prática do Budô


como “a forma de homens comuns desenvolverem
bravura incomum”. Até o fim da segunda guerra
mundial, essas artes serviram para preparar candidatos
à máquina de guerra japonesa.

Modificando a prática dos Kata, Itosu Anko criou uma


versão simplificada da arte de Okinawa para ser usada
exclusivamente em exercícios escolares.
Dessa forma, a prática simplificada dos Kata pode
facilmente ser usada como veículo para aperfeiçoar
tanto a forma física quanto a conformidade social.

Assim ele conseguiu não somente apoiar a política


nacional como trazer grande reconhecimento à
pequena ilha de Okinawa e sua cultura.

Pode-se entender que muito se perdeu quando Itosu


trouxe da obscuridade as práticas e introduziu sua
versão simplificada ao público onde ele ensinava
apenas os Kata.

Foi durante essa época que as páticas de Tegumi, Tori-


te, e Ti’gwa começaram a desaparecer e a arte como
um todo começou a se transformar para sempre.

Apesar de ter sido aceito o treinamento de


condicionamento físico "Te" nas escolas publicas de
Okinawa, nesta época ainda não haviam sido
introduzidas no Japão.

O Itosu Anku ensinava apenas os Kata, de forma


bastante repetitiva, não existia no modelo de Itosu o
Kihon ou Kumite, apenas as repetições das formas do
Kata, onde muitos começaram a questionar sua
eficácia.
Para analisarmos o como o Karatê conseguiu
conquistar seu espaço nas escolas publicas japonesas
teremos que nos aprofundar em um dado histórico Pós-
Guerra.

Em Julho de 1920, a Primeira Guerra Mundial foi


encerrada, todos os países sofreram grandes perdas
desde entes queridos, bem como a economia estava
bastante enfraquecida.

A bolha econômica do Japão estava explodindo.

Para evitar que as pessoas pensem na recessão


iminente do pós-guerra, o governo Japonês decidiu
aumentar o entretenimento público, tentando criar um
clima mais ameno no pós-guerra.

O Cinema havia ganhado muita força nesta época e no


Japão pela primeira vez entrou em cartaz o
campeonato mundial de boxe, entre Jack Dempsey e
Georges Carpentier em 1921.

Os japoneses ficaram impressionados com a atuação


dos lutadores, já que não estavam acostumados a ver
lutas como aquela, onde a troca de golpes era feroz e
destrutiva.

No Japão, eles tradicionalmente usavam armas para


lutar - como a espada longa / curta, arco e flecha, lança
ou faca. Se eles não usassem armas, eles lutariam
usando Wrestling, quedas, chaves e estrangulamento.
Lutar como estes pugilistas ocidentais lutaram foi
incrível e o publico japonês ficou fascinado com aquilo!

As artes marciais japonesas não tinham nada parecido


já que treinavam apenas o Judo e Kendo nas escolas.

Os líderes japoneses notaram a reação das pessoas ao


boxe e viram isso como uma oportunidade para
fortalecer o nacionalismo e o espírito japonês exclusivo
( yamato damashii ) de seus cidadãos.

Pugilistas famosos seriam convidados a promover o


esporte no Japão. Demonstrações públicas seriam
realizadas. Clubes de boxe seriam aberto e
campeonatos de boxe seriam transmitidos em todo o
país.

Isso aumentaria o espírito samurai do Japão.

Havia apenas um pequeno dilema:

Nem todas as pessoas gostaram da ideia de trazer


mais influências estrangeiras.

Na verdade havia uma forte cultura contra os


estrangeiros no japão, o próprio o Sensei Ueshiba
Morihei, fundador do Aikido, escreveu na primeira
pagina do seu livro "Proibido para não japonês"
Em 1921, uma revista de Tóquio publicou um artigo de
Sasaki Gogai, que dizia ao público japonês que eles
não deveriam procurar no Ocidente por especialistas
estrangeiros de tradições marcial, já que eles próprios
possuíam tais habilidades em um reino insular ao sul,
Okinawa.

No mesmo ano, o príncipe herdeiro Hirohito visitou


Okinawa a caminho da Europa. Durante a visita de
Hirohito, uma demonstração foi dada em sua
homenagem por um grupo de artistas locais.

O show cultural incluiu dança, canto, música ao vivo e o


chamado “Te”.

A demonstração envolveu uma variedade de golpes,


chutes, bloqueios e socos contra oponentes, bem como
lutar sem adversários - bastante parecido com o que
havia visto no Boxe.

Esta arte, da pequena ilha de Okinawa, poderia de fato


se tornar a resposta para o boxe que os japoneses
estavam procurando.

Assim o governo japonês começou a estudar a


possibilidade de implementar o "Te" no japão e apos
pesquisas escolheram a pessoa que iria disseminar
esta arte em todo território nacional.
Ele trabalhou como professor de escola, foi educado,
falava bem japonês e tinha praticado Te desde jovem

Seu nome era Gichin Funakoshi [1868-1957].

Em maio de 1922, Gichin Funakoshi foi convidado para


a 1ª Exposição Nacional de Atletismo, realizada no
distrito de Ochanomizu, em Tóquio, para promover
"Te".

A população aceitou com entusiasmo as técnicas


demonstradas por Funakoshi e convenceu-o de que
suas habilidades eram muito necessárias em tempos
como aqueles.

Ele agora poderia completar a missão de seu professor


Itosu Anko, que anos antes havia liderado uma
campanha para popularizar "Te" em Okinawa através
do sistema escolar.

Funakoshi poderia tirar "Te" de seu berço, torná-lo uma


arte marcial japonesa oficial e honrar o legado de seu
mestre ao mesmo tempo.

Jigoro Kano,o fundador do judô, se propôs a ajudar


Funakoshi. Ele próprio passou por um processo similar
de modernização (o Judo foi criado a partir de Ju-Jutsu)
e sabia que sua orientação seria necessária para a
modernização do "Te" de Funakoshi.
Os alunos de Funakoshi relataram mais tarde que o
Sensei freqüentemente tirava o chapéu e se curvava na
rua fora do Kodokan, a sede do judô, para mostrar sua
eterna gratidão pela inestimável ajuda de Jigoro Kano.

Como o Japão era uma cultura de conformidade, o "Te"


teve que passar por uma série de mudanças radicais
para ser aceita como uma arte marcial oficial e se
encaixar com as outras artes marciais japonesas da
época; como Judô, Aikido, Kendo, Iaido etc.

Por exemplo, o nome teve que ser alterado.

Os japoneses tinha repressão contra tudo com


conexões com a China. Praticar uma arte marcial
chamada "Mão chinesa" estava politicamente fora de
questão.

Em 1933, o nome foi oficialmente mudado para


"Karatê-Dô".

"O Caminho da Mão Vazia."

Tudo ficou sistematizado, codificado e formalizado.

Os atos ritualizados e a terminologia japonesa foram


introduzidos, juntamente com um sistema de faixas,
termos de kyu / dan, uniformes, novas técnicas,
padrões de movimento simplificados, regras de
torneios, novos nomes de Kata, regulamentos de
segurança e muito mais.
O Karatê (assim como Itosu havia ensinado nas
escolas publicas de Okinawa) deixou de ser uma arte
de combate civil, de defesa pessoal, para tornar-se
uma maneira de desenvolver o condicionamento físico
e de caráter/ disciplina.

Alguns leitores podem se surpreender ao saber que o


Karatê que foi introduzido no Japão em 1922 diferia
muito pouco da prática altamente repetitiva, dominada
pelos Kata que Itosu popularizou no sistema educativo
público de Okinawa.

Além do mais, não havia sparring/kumitê ou formas de


aplicação através das quais os alunos pudesses testar
a veracidade das suas técnicas nem medir o seu
espírito de luta.

Todos os praticantes de "Te" de Okinawa que vieram


para o Japão, incluindo pioneiros como Miyagi Chojun,
Mabuni Kenwa, Motobu Choki, Kanken Toyama, Taira
Shinken, Uechi Kanbun etc., tinham que se conformar
com essas novas regras.

Durante esse período, o conceito de “estilos” também


foi inventado.

Já que cada mestre tinha seu modo de treinar o Karate


, eles não poderiam ser chamados da mesma coisa,
portanto, todo Sensei teve que registrar um nome para
seu “estilo” com o Dai Nippon Butokukai (Sociedade de
Virtudes Marciais do Grande Japão).
A razão pela qual os primeiros praticantes japoneses
começaram a experimentar as rotinas de luta na
Universidade de Tókio e nas academias foi o tédio
pelas incontáveis repetições de Kata e a ausência de
rotinas de combate aplicado. Quando Funakoshi
chegou à Tókio em 1922, ele só ensinava Kata
dizendo: “Kata é Karate e Karate é Kata.”

Durante a era embriônica no continente japonês, a


única exceção à regra foi o Motobu Choki.

Sua abordagem no ensino da arte Okinawense foi


contrária à repetição dos Kata usada no sistema de
ensino e muito mais indicativa dos “velhos tempos”. Ele
foi um opositor declarado do que chamava de "Karatê
bonito de se ver" que não tinha nenhuma substância
real e que comparava ao Shamisen: Uma guitarra
okinawense de três cordas que é bonita por fora, mas
vazia por dentro!

Ele criticava constantemente todo e qualquer método


incongruente de treinamento usado por seu
compatriota Funakoshi e ria abertamente da
propaganda voltada a fazer aprendizes acreditarem
que o entendimento do significado dos Kata iria, ou
poderia ser evidente pela simples repetição de sua
prática.

Em meio à cultura conformista japonesa, era esperado


de Motobu Choki que sacrificasse suas diferenças
pessoais em prol da tranquilidade comunal.
Nos padrões japoneses, se você se destaca da massa,
será criticado. Motobu Choki se destacava.

Infelizmente, ele foi hostilizado por sua franqueza e


durante essa época, seu "Te" tradicional foi largamente
ignorado pelo público geral.

A transição se fez completa quando o Karate


estabeleceu um formato de competição. Descrito como
Ippon Shobu ( combate de um ponto) baseado
largamente no conceito de “matar com um único golpe”
(ikken hisatsu) prevalente no Kendo e no Judo , os
entusiastas do Karatê puderam, finalmente, testar suas
habilidades físicas e técnicas e medir seu espírito de
luta diante de um combate altamente restrito a
marcação de pontos.

Enfatizando as práticas solo de Kihon recentemente


desenvolvidas, a repetição incessante de Kata
estilizados e Kumite (sparring) com regras, formou-se o
padrão “Karate 3K” que iria encontrar seu rumo aos
quatro cantos do mundo.
Conclusão
Diante desta pesquisa podemos entender um pouco
mais sobre o nosso atual Karate-do, e do Okinawa-Te
ou Karate-Jutsu.

Vimos aqui três grandes partes principais da historia do


Karate em Okinawa, As teorias do surgimento do
Bubishi, um documento que deu origem a estudos
profundos da arte da defesa pessoal, principalmente no
que se diz respeito ao Dim Mak ou Kyusho Jutsu, A
origem dos sistema de luta em Okinawa, que originou-
se de uma série de fatores desde o sistema militar,
acontecimentos históricos, e diversas artes que
passaram por Okinawa formando o Karatê, e por fim, a
analise da transição do Karatê-Jutsu, uma arte com
foco na neutralização do agressor, defesa pessoal e
cívica, até transformar-se no Karatê-Dô uma arte com
foco no condicionamento físico e de caráter.

Hoje apesar de apreciar o Karatê-Dô, confesso que


estou mais inclinado a resgatar os antigos conceitos e
princípios do Karatê-Jutsu, juntamente com o estudo
mais profundo do Ti'gwa, Tegumi, Torite alem do Kata.

Por sorte nossa, os Katas deixados por grandes


mestres nos dão boas pistas de por onde começar este
estudo.
Treinando e pensando constantemente em como seria
suas aplicações em situações reais de luta (Bunkai),
sem a bondade das regras e visando a autoproteção e
a proteção de terceiros.

Nós, amantes do karatê, deveríamos resgatar estes


conceitos mais profundos, passar a estudar nossas
origens com mais afeto e resgatar o espirito de
compartilhamento das artes marciais em Okinawa.

É de se perceber que em Okinawa não havia um


"estilo" de karatê, no qual deveria ser seguido a risca,
mas ao contrario, os principais estudantes de karatê
constantemente buscavam se aperfeiçoar com novos
mestres que ensinavam formas de lutas diferentes.

Assim é a real evolução do Karate-Jutsu.

Fico triste ao ver tantas pessoas que acreditam que o


seu estilo é o melhor, verdadeiro ou tradicional,
esquecendo-se que cada um dos estilos possuem
elementos fantásticos que poderiam ser estudados
juntamente com o seu estilo pessoal.

Este espirito de compartilhamento e aperfeiçoamento é


o que me faz pesquisar alem do meu estilo base o
"Shotokan" e procurar novas informações tanto em
outros estilos, como também em outras artes.
Finalizo esta conclusão e livro com um pequeno texto
do Sensei Patrick McCarthy:

"Tradição não é seguir cegamente os passos de


nossos velhos mestres, ou preservar suas cinzas
numa caixa mas, ao invés disso, manter a chama de
seu espírito vivo, ao buscar continuamente,
entender e aprimorar àquilo que buscavam.

Tenho certeza que esse pensamento é muito mais


alinhado com a abordagem original, intenções e
ensinamentos dos pioneiros, do que a mentalidade
conformista em que essa arte caiu dormente.

Associar a arte do Karate a um caminho e,


parafraseando a sabedoria do grande mestre Zen,
Basho, “depende de quanto alguém tem que viajar
até perceber que o destino não é o objetivo, mas
sim, a jornada”.
Bibliografia
Patrick McCarthy:
Livro:
"Bubishi, The classic manual of combat"

Artigo:
http://www.koryu-uchinadi.com

Artigo original postado em 11 de Janeiro de 2011 por


Patrick McCarthy

The original source of Okinawa-te [Ti'gwa/[⼿⼩]?

Jesse Enkamp:
Livro:
"The Matsuyama Theory "

Artigo:
http://www.karatebyjesse.com/why-karate-is-broken/

Artigo original postado em 2018.

Why Modern Karate Is Broken (& How You Can Fix It)
Rilton Karatê
Rilton Karatê é uma plataforma virtual, na qual o sensei
Rilton Rodrigues passa seus conhecimentos através de
videos aulas, artigos, livros e cursos.

Nosso intuito é levar o mais alto nível de conhecimento


sobre a arte do Karate para o maior numero de pessoas,
onde o objetivo principal é elevar o nível do Karate do
Brasil.

Todos os seus conhecimentos, antes só ensinados em


seus seminários nacionais e internacionais, estarão
disponíveis na nossa plataforma.

Seja bem vindo ao Karate de alto nível

www.riltonkarate.com.br