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Juntos pela Mudança

Marta Pires Baptista, turma 2

São quase duas da tarde. Hoje é quarta-feira, dia dezassete de Maio. O céu está limpo, o sol
brilha e sente-se energia positiva no ar.

O metro da campanha é invadido por jovens voluntários que se preparam para melhorar a vida
de mais uma pessoa, desta vez o senhor Miguel. São todos estudantes universitários, membros
do Just a Change. No “Just”, como lhe chamam, esforçam-se, todos os dias, por proporcionar
condições de vida melhor a pessoas que não tem poder financeiro para recuperar a própria
casa.

O metro é o ponto de encontro destes jovens solidários que querem melhorar o mundo. Vão
agora para a Rua Justino Teixeira, mesmo em frente à estação de Campanha. Esperam que o
senhor Paulo, chefe de obras, acabe de fumar os seus três cigarros, para poderem finalmente
conhecer a casa que vão reconstruir.

14.05 quando finalmente tocam à campainha. Abre-se agora o portão e uma nova realidade.
Uma realidade que nem toda a gente conhece. Pobreza. Degradação. Destruição. Parece um
outro mundo.

A casa do senhor Miguel fica numa ilha. O portão está enferrujado e velho. As paredes escritas
e mal tratadas. “Não fechar o portão”, é o que se lê na parede grande. O chão tem vários
buracos e no ar prevalece o cheiro a esgoto. Caixotes, bicicletas estragadas e cadeiras partidas
estão empilhados cá fora. É um ambiente mal frequentado. O cenário é horrível, mas, em
contrapartida, os voluntários são recebidos com uma simpatia extrema vinda do senhor
Miguel. Encaminha-os para sua casa. Abre a porta
e, de imediato, um vazio enorme invade-lhes o
coração.

A casa, se assim se pode chamar, está em péssimas


condições. Sem água nem electricidade. A casa de
banho é uma divisão inexistente. O quarto, apesar
de ser a maior divisão da casa, é muito pequeno. As
janelas estão partidas. As paredes destruídas. Não
existem portas que façam a ligação das divisões. O
telhado precisa claramente de ser substituído. Os
poucos azulejos da cozinha que não caíram estão
partidos. Tanto as escadas como o chão precisam
de ser renovados. Revistas antigas e cobertores
velhos estão amontoados ao lado da cama. A
sujidade é também uma realidade que faz parte
daquela casa. Um cenário de completa degradação
e pobreza.

Cabe aos voluntários mostrar que ainda à esperança. Antes de começarem a avaliar a casa,
tentam perceber a história do senhor Miguel. Descobrem que aos 3 anos teve meningite, razão
pela qual ficou surdo e mudo. Apresenta-se como uma pessoa crente. Diz que acredita no
monstro das neves (“Big Foot”) e nos aliens. Os voluntários riem-se, e o senhor Miguel fica
com um ar sério. Parece não gostar da conversa.

14.20 quando começam a trabalhar. Primeiro avaliam o estado da casa e ponderam o que
podem aproveitar. Infelizmente, as únicas coisas que parecem estar em condições são uma
cama, um frigorífico e um fogão. Depois, começam a reconstruir.

Alguns partem uma parede para criar uma entrada para a casa de banho que vai se construída.
Até aqui, o senhor Miguel tinha de usar a casa de banho da vizinha para tomar banho, e a casa
de banho comunitária para as restantes necessidades.

Outros voluntários levantam o chão da sala para por um chão novo.

Ao mesmo tempo que trabalham, ouvem música a partir de umas colunas que trouxeram.
Música alegre, claro. O ambiente de degradação é substituído por um ambiente positivo e de
felicidade. Todos dançam e cantam.

O senhor Miguel demonstra-se proactivo, participando sempre nas tarefas. Nunca está
cansado e, a cada minuto que passa, o sorriso fica maior. Nunca pensou que a sua vida
mudasse aos 56 anos.

As horas passam e todos trabalham. O barulho das máquinas é ofuscado pela música. O
ambiente é óptimo.

Ouve-se agora o senhor Paulo, chefe de obras, a explicar como se pinta uma parede. “Se o
curso não resultar, já sabes que tens emprego como trolha” diz, em tom de brincadeira, a um
dos voluntários. Todos o adoram e não é difícil perceber porquê. A energia positiva que tem
contagia qualquer um à sua volta. É extremamente divertido e está sempre pronto a ajudar. É
também o único que percebe tudo o que o senhor Miguel diz.

Cinco da tarde quando fazem uma pausa para descansar e conviver. O som da música é
reduzido. Ouve-se agora pássaros e várias conversas paralelas. A animação e a boa disposição
estão presentes naquele ambiente de solidariedade.
Os voluntários abrem umas cervejas bem frescas para combater o calor que se faz sentir.
Comem batatas fritas e bolachas que trouxeram. Outros aproveitam a pausa para fumar. Os
temas são bastante variados. Falam com alguma nostalgia da queima, ainda que tenha
acabado há uma semana. Os “bootcamps” e os campos de verão do Just a Change são também
temas de conversa. Os coordenadores do Just avisam que as inscrições já estão abertas e que
qualquer um é bem-vindo. Todos partilham ideias e opiniões. Contam histórias que os
marcaram. Recordam a história de um senhor que demorou seis meses a preparar-se
psicologicamente para regressar a casa.

A conversa parece estar boa, mas o tempo passa e ainda há muito para fazer. É hora de
regressar ao trabalho. Antes de irem, ouvem o Simão, coordenador do Just: “No fim da obra,
acreditem que o senhor Miguel vai ser uma pessoa muito mais feliz e realizada” diz-lhes em
tom motivacional.

O volume da música é de novo aumentado. Os voluntários regressam então ao trabalho, com


ainda mais energia e motivação. Estão prontos para mais horas de esforço. Esforço este que é
compensado pela alegria dos beneficiários da casa.

Dois dos voluntários mudam as janelas partidas. Os outros três empenham-se, com a ajuda do
senhor Paulo, na construção de um teto falso no piso de inferior. Todos têm muito cuidado,
para evitar qualquer tipo de acidente.

A fotógrafa anda de uma lado


para o outro à procura dos
melhores ângulos para
conseguir uma boa
reportagem fotográfica. Tira
fotografias ao chão, às janelas,
ao telhado, e às escadas.
Preocupa-se também em
apanhar os melhores ângulos
das pessoas.

Todos se dão lindamente.


Parecem fazer parte de uma
família enorme, ainda que
apenas se tenham conhecido
por causa do voluntariado.

O senhor Miguel tenta, com algum esforço, explicar a importância da obra a um dos jovens
voluntários: o Pedro. Diz que quando a casa estiver pronta, poderá finalmente realizar o sonho
de vida: viver com a sua namorada Lurdes. O Pedro dá-lhe um abraço demorado e sentido.
Logo a seguir, pede-lhe ajuda na construção de uma parede.

18.15. Já é final de tarde. A temperatura é agradável e a luz amena. Ainda que se comece a
sentir o cansaço, as obras continuam.
As janelas já foram todas substituídas. A
luz que entra agora para a casa parece
ser uma luz nova. A casa torna-se mais
ampla e encantadora.

Os jovens voluntários empenham-se na


construção do telhado. Colocam as
telhas de barro em cima da estrutura de
madeira. Esperam conseguir acabar
hoje, mas a luta contra as horas e contra
o cansaço é cada vez mais difícil.

São agora seis e meia da tarde. É a hora


definida para o fim do voluntariado. Ainda ninguém foi embora. O empenho é tanto que
decidem ficar mais tempo. E as horas passam à velocidade da luz, sem que ninguém se
aperceba.

O senhor Miguel parece estar cada vez mais feliz. Faz algum esforço para falar, mas, com
muitos gestos, agradece a todos. Agradece pela vida melhor que lhe estão a proporcionar e
agradece a boa vontade dos voluntários. Retribui com abraços, beijinhos e sorrisos do
tamanho do mundo.

Dois voluntários fazem uma nova pausa. Desta vez só para fumar. Aproveitam o tempo de
descanso para comentar a evolução da obra. “Está a ser um dia bastante produtivo” diz um
deles. O outro, faz um movimento com a cabeça, dando a entender que concorda. Após uns
minutos de conversa, juntam-se aos outros voluntários.

Continuam a construir o telhado. Parece uma tarefa trabalhosa e demorada. Está quase
acabado.

Sete e meia da tarde. A temperatura tornou-se mais fria e o céu está um pouco mais escuro.
Felizmente os dias estão a ficar maiores, o que significa mais tempo para trabalhar.

Começam a ir embora os primeiros voluntários. Mostram-se muito felizes com todo o trabalho
que conseguiram fazer. O esforço acaba sempre por compensar, é o que dão a entender a
quem está de fora.

Na obra permanecem os dois jovens, o chefe de obras, o coordenador e, claro, o senhor


Miguel. Estabeleceram um objectivo para hoje: o de acabar o telhado. São pessoas que não
gostam de desistir e, por isso, continuam.

A fotografa pousa a máquina e junta-se à equipe. Considera que fez uma boa reportagem e
que está apta a ajudar. Pede algumas orientações ao senhor Paulo e, após poucos minutos de
conversa, começa a trabalhar.

Oito e vinte cinco quando finalmente acabam o telhado. Os olhos de todos brilham. Parecem
crianças a olhar para o brinquedo novo na noite de Natal.
Como recompensa de todo o esforço, o Simão (coordenador) oferece-se para pagar uma
cerveja a cada um. A oferta é aceite por quase todos, à excepção de Matilde, que diz não
gostar.

Depois de compradas as cervejas na tasca da esquina, regressam à ilha. Sentam-se lá fora, ao


lado da roupa estendida em cordas velhas. As cervejas sabem ainda melhor agora. Estão
cheios de fome. Comem as batatas fritas e as poucas bolachas que sobraram.

Todos parecem tranquilos e realizados. Falam do dia atarefado que tiveram e planeiam o dia
de amanhã. Adiantaram serviço, mas ainda há muito para fazer. As boleias para casa é
também um dos temas. Discutem quantos carros têm e quantas pessoas precisam de levar.

O senhor Paulo oferece boleia aos dois estudantes universitários. Vivem todos perto da
Boavista.

O Simão tem um carro de dois lugares, por isso só pode levar uma pessoa: a Luísa (fotógrafa).
Vão para Matosinhos e para a Foz, respectivamente.

O senhor Miguel fica na própria casa.

Antes de irem embora, têm de lavar as máscaras que usaram para se protegerem dos tóxicos.
Juntam-nas numa bacia enorme e, depois de lavadas, deixam-nas a secar.

Dia tranquilo por hoje, não ouve incidentes de trabalho.

Está na hora de abandonarem a casa do senhor Miguel. Despedem-se com abraços e beijinhos.
Amanhã é um novo dia de trabalho, ainda que seja com voluntários diferentes.

Regressam agora a casa, orgulhos e satisfeitos com o trabalho cumprido.

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