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Vice-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa

UNIVERSIDADE PAULISTA

VICE-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA

RELATÓRIO FINAL DE PESQUISA

BULLYING E A VIOLÊNCIA ESCOLAR:


AS FERIDAS INVISÍVEIS

Autora Melissa Pomaro


Profª Orientadora Dra Renata Capeli Silva

2018
10º semestre
São Paulo - SP

Pesquisa Financiada pela Vice-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa


da UNIP, no Programa “Iniciação Científica”.
É proibida a reprodução total ou parcial.
BULLYING E A VIOLÊNCIA ESCOLAR:
AS FERIDAS INVISÍVEIS

Autora Melissa Pomaro

UNIVERSIDADE PAULISTA – UNIP

Resumo: Bullying é um fenômeno de violência escolar repetitiva,


presente em instituições públicas e privadas. Esse projeto de pesquisa
tem como objetivo investigar as feridas invisíveis da experiência do
bullying existente em jovens, acima de 18 anos estudantes do Ensino
Médio de escolas públicas, na região central da cidade de São Paulo.
Compreender as consequências da violência sobre os processos de
escolarização dos alunos e discutir as Políticas Públicas de prevenção
da violência no espaço escolar. O gênero diferencia o tipo de agressão,
em meninas geralmente são agressões verbais e em meninos destacam
as agressões físicas. Os efeitos nocivos do bullying desenvolvem feridas
psicológicas invisíveis na autoestima e afeta todos os envolvidos: a
vítima, os pais e a instituição escolar. A violência escolar não pode ser
vista como simplista e confundida com brincadeira de adolescentes. A
violência familiar tem associação direta com o bullying. O perfil dos
agressores é variado, por isso não há “fórmulas prontas” de intervenção
anti-bullying. As vítimas de bullying apresentam mais problemas de
saúde e uma tendência ao suicídio quatro vezes maior em comparação
aos outros estudantes.

Palavras-chaves: ​bullying; violência escolar; psicologia escolar.

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Abstract: ​Bullying is a phenomenon of repetitive school violence,
present in public and private institutions. This research project aims to
investigate the invisible wounds of the experience of bullying that exists
in young people, above 18 years old who are attending or leaving High
School of public schools in the North region of the city of São Paulo. To
analyze the dialogue that the school establishes with the family of
students in relation to the theme of school violence and to understand
the consequences of violence on students' schooling processes and
discuss Public Policies to prevent violence in school. The sexual gender
differentiates the type of aggression. In girls they are usually verbal and
in boys physical aggressions are emphasized. The harmful effects of
bullying develop invisible psychological wounds in self-esteem and affect
everyone involved: the victim, parents and school institution. School
violence can not be seen as simplistic and confused with teenage play.
Family violence has a direct association with bullying. The profile of the
aggressors may vary, so there are no "ready-made formulas" of
anti-bullying intervention. Bullying victims have more health problems
and a suicide tendency four times higher than other students.

Key-words: ​bullying; violence in school; school psychology.

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SUMÁRIO

1​. ​INTRODUÇÃO …………………………………………………. 04


1.1 Apresentação …………………………………………………. 04
1.2 Tema / Levantamento bibliográfico …………………………. 04
1.3 Objetivo Geral …………………………………………………. 10
1.4 Objetivos Específicos …………………………………………. 10
1.5 Justificativa …………………………………………………. 11

2​. ​MÉTODO …………………………………………………. 12


2.1 Sujeitos …………………………………………………. 12
2.2 Instrumentos …………………………………………………. 12
2.3 Aparatos de Pesquisa …………………………………………. 13
2.4 Procedimentos para coleta de dados …………………. 13
2.5 Procedimentos para análise de dados …………………. 13
2.6 Ressalvas éticas …………………………………………. 14

3​. ​RESULTADOS …………………………………………………. 16


3.1 Entendimento e percepção sobre o bullying …………. 16
3.2 A violência dentro da escola …………………………………. 16
3.3 O policiamento dentro da escola …………………………. 17
3.4 As escolas estão preparadas para combater o bullying …. 17
3.5 A melhor estratégia para combater o bullying …………. 18

4. DISCUSSÃO …………………………………………………. 19

5. CONCLUSÕES …………………………………………………. 24

6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS …………………………………. 25

7​. ​ANEXOS …………………………………………………. 27


Roteiro de questões
Termo De Consentimento Livre E Esclarecido

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INICIAÇÃO CIENTÍFICA

Relatório FINAL de Pesquisa

1 - INTRODUÇÃO

1.1 - Apresentação

Melissa Pomaro aluna do 10º semestre de Psicologia da UNIP – Universidade


Paulista, aluna participante do GECOMP (Grupo de Estudos e Pesquisas em
Escolas, Comunidades e Políticas Públicas – UNIP-CNPq), ligado à Vice-Reitoria de
Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Paulista.

1.2 - Tema/ Levantamento Bibliográfico

"Cada criança é única, com seus próprios sonhos, ritmos e interesses. A


escola não pode destruir essa criança para amoldá-la a uma forma". Rubem Alves

O que é mesmo educação ?


Segundo Fernandes (2007), a educação é, antes de tudo, um fenômeno
essencial da existência humana. Como isso não cabe uma definição única.

"As coisas não se educam, as plantas e os animais também


não. O ser humano é que está em jogo, quando se trata de
educação. Onde o ser humano acontece, em seu caminho de
essencialização, ali acontece a educação." (Fernandes, 2007)

O processo educativo diz respeito a todo o ser humano e ao ser humano


como um todo. Não existe lugar nem tempo marcado para a educação. A educação
se dá em todo o tempo e em todo lugar. Por isso a falta da educação só pode ser
sentida como o não cumprimento e o não deslanche da essencialização do humano.
Há diferentes tipos de educação, em diferentes contextos humanos: na
família, educação familiar; na profissão, educação profissional; na política, educação
política; na arte, educação artística; na religião, educação religiosa; e assim por

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diante. A escola é apenas uma instância em que se dá a educação e sua pedagogia
apenas um modo de se realizar o processo educativo.
A liberdade é o princípio decisivo da educação. Toda educação ou é para a
liberdade ou não é educação. A liberdade, não é algo que o homem tem, dado de
modo puro e simples, mas a liberdade é uma convocação que urge a resposta do
ser humano, um apelo para vir a ser propriedade de si mesmo, um chamado para o
seu ser mais próprio, para sua vida mais plena.
Na maioria das vezes, o ser humano já fugiu de sua convocação de ser e,
nesta fuga, alienou-se e bloqueou para si mesmo as possibilidades de uma vida em
plenitude, a educação é sempre uma tarefa de retorno do ser humano para a sua
origem, de saída de sua alienação e de guinada de uma existência imprópria para
uma existência própria. Educação não é outra coisa, pois do que a reconstituição do
humano da impropriedade para a propriedade do ser. A autoconstituição do ser
humano é, portanto, sempre, uma espécie de re-constituição.
A educação se dá, por conseguinte, no caminho do ser humano para si
mesmo, no retorno de sua origem, sua essência. É preciso que, de alguma maneira,
dê-se conta de sua auto-alienação, de sua ignorância, para, então, como que num
despertar, acorde para a necessidade do retorno através da educação.
Educação supõe, portanto, relações. Sua essência principal é aproximar-se
do outro, deixar-se interessar-se por ele, um responder e corresponder. A educação
se funda, portanto, na estrutura da "cura", ou seja do cuidado. Educar é o cuidado de
tomar em consideração o outro no envio de sua possibilidade mais própria. É o
cuidado de aproximar-se-do-outro, de deixar-se-interessar-se-por-ele, em vista do
seu poder-ser, de sua possibilidade mais própria. É ajudar o outro a dar a luz a ser
quem ele já é.
Segundo Fernandes (2007), o ser humano é que está em jogo quando se
trata de educação. Onde o ser humano permite o caminho da essencialização, ali
acontece a educação.

Educação na Instituição Escolar


As escolas tem abordado os comportamentos humanos contemporâneos que
são cotidianos e fazem parte do desenvolvimento humano como assunto médico e

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jurídico. Medicalizando as crianças e punindo os "rebeldes", ambos normatizando os
efeitos dos comportamentos e não a causa.
A escola, seja por motivos indisciplinares ou dificuldade de aprendizagem,
solicita encaminhamento a neuropediatra, ou psiquiatra infantil ou até conselho
tutelar alegando negligência familiar. A escola atualmente é o dispositivo regulador
da inclusão/exclusão da criança no domínio do saber médico-psiquiátrico. A
medicação tornou-se a principal forma de tratamento utilizada pela medicina e está
assegurada pelos dispositivos sociais disciplinares como escola, postos de saúde e
clínicas privadas. Segundo a autora Kamers (2013), houve um deslocamento do
olhar assistencial, psicológico e educativo sobre a criança para o campo da
intervenção médico-psiquiátrica, sendo este o dispositivo regulador do normal e do
patológico sobre a criança na atualidade. No momento em que a criança e sua
família são capturados pela rede que se retroalimenta (escola – social – intervenção
médico psiquiátrica), não conseguem mais sair, reduzindo a criança a uma linhagem
médica alheia, que não contempla seus laços sociais e familiares. Para Guarido
(2007), a psicologização da escola tem cedido lugar a psiquiatrização do discurso
escolar. É a produção dos medicamentos que determinam a fabricação de
diagnósticos. O remédio participa da nomeação do transtorno, um verdadeiro
dispositivo de fabricação da loucura. A aplicação do DSM-IV, informa sobre a
doença e ao “rotular” produz um processo de psicopatologização da infância e
medicalização da criança na atualidade.
Há mais de 17 anos, tramita no plenário a Projeto de Lei 3.688/2000 para
regulamentar a presença dos Psicólogos e Assistentes Sociais nas escolas. Porém
outras leis foram aprovadas permitindo a presença e participação de Agentes de
Segurança (policiais) nas escolas do Estado do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e
Mato Grosso do Sul para verificar os casos de conflito entre os estudantes.
Agentes de segurança não são treinados para lidar com o comportamento
humano, porém são medidas populares que dá a percepção que o governo está
agindo de forma rápida e "justa".
A presença de Psicólogos nas escolas poderia prevenir tragédias como
ocorrido na creche onde vigia depressivo colocou fogo nele e nos alunos na cidade
de Janaúba/MG em 05/10/2017, garoto de 14 anos matou dois colegas com arma de

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fogo dentro da escola em Goiânia/GO em 20/10/2017, casos repetidos de suicídios
com estudantes de escolas particulares e tradicionais na cidade de São Paulo/SP
em abril/2018, entre outros casos.
A indisciplina é um ato que de desacordo com as regras e normas, ou seja,
uma transgressão ao que está estabelecido, o que infringe a ordem. Já a violência
entendemos que se trata de uma exacerbação da indisciplina, como o que causa
dano físico ou moral aos outros ou a si mesmo.
Quando os atos de violência física ou verbal ocorrem de forma repetitiva e
intencional contra uma ou mais vítimas, este fenômeno se caracteriza pelo nome de
Bullying. Uma expressão americana que traduzida é “valentão”, remetendo aos
líderes de grupos que ofendem os demais grupos. Na década de 1970 o fenômeno
começou a ser estudado na Suécia. No Brasil, iniciou na década de 1990, mas
somente em 2005, que o tema passou a ser objeto de discussão em artigos
científicos (Lopes, 2005). Embora os estudos sejam recentes, o fenômeno é antigo e
preocupante, sobretudo em função de seus efeitos nocivos (Lopes, 2005; Trevisol &
Dresch, 2011). O estudo de Bandeira e Hutz (2010) revelou que o ​bullying ​pode ter
um impacto negativo na autoestima dos alunos. Não há um perfil predominante de
​ stá presente em meninos e meninas, é necessário que os
gênero, o ​bullying e
professores fiquem atentos ao que se passa na sala de aula e na escola como um
todo. Os meninos estão mais ativos no bullying direto (agressões físicas) e as
meninas no bullying indireto (agressões sutis e de forma verbal). O bullying pode ser
sutil e confundido com brincadeiras típicas da idade. Por isso, é preciso que os
profissionais da educação saibam identificar para intervir adequadamente. A ação do
bullying cria um ciclo destrutivo: baixo rendimento escolar, evasão escolar,
indisciplina, conflitos físicos e produção de conflitos psicológicos. O bullying faz
feridas invisíveis na autoestima de crianças e adolescentes e pode refletir na vida
adulta em forma doenças psicossomáticas.
A violência infantil não pode ser analisada de forma simplificada e reduzida,
pois envolve uma complexidade de fatores. Os agressores também são usuários da
escola e vítimas deste sistema que produz violência, não podem ser os únicos
responsáveis pelos seus atos se não há orientação psicológica adequada (Gomes,
2011). Numa perspectiva social, analisar o bullying e a violência como um todo

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implica entendê-lo como consequência de diversos conflitos oriundos das mudanças
que a sociedade vem passando ao longo dos anos (Reis & Costa, 2011).
Analisando que o bullying faz parte do cotidiano escolar é preciso verificar
quais políticas públicas que se preocupam com a segurança precisam ser objeto da
atenção da escola (Carvalho & Silva, 2011; Checa, 2011; Lima, Otani, & Helou,
2011; Vieira, 2009; Russell, 2011). Assim, tendo em vista a relevância da discussão
sobre esse tema tão presente na vida de crianças e adolescentes e que nem sempre
é facilmente identificado, este estudo buscou investigar os artigos científicos sobre
bullying escolar no cenário brasileiro.
Alguns artigos apontam que a violência familiar tem associação direta com o
bullying. Segundo Pinheiro e Williams (2009) através de questionários aplicados em
alunos do ensino fundamental os envolvidos em casos de bullying escolar está
associado a violência intrafamiliar geralmente no papel de alvo ou alvo/agressor.
Para Tortorelli et al. (2010) a percepção da violência familiar e o relato de violência
na escola há correlação, concluiu também através de aplicação de questionários a
alunos do ensino fundamental.
O estudo de Malta et al. (2010), destaca uma pesquisa que envolve um
significativo contingente de alunos, uma vez que a pesquisa foi baseada em dados
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), oriundos de uma pesquisa
em parceria com o Ministério da Saúde, com 60.973 alunos do 9o ano do ensino
fundamental de 1.453 escolas públicas e privadas de todo o território nacional. O
estudo constatou que meninos relatam mais bullying (6,0%) do que meninas (4,8%)
e que não há diferença no índice de ocorrência entre escolas públicas e privadas.
Segundo Calbo et al. (2009), em pesquisa realizada com estudantes de 5ª e
6ª séries, apontaram 26,57% indivíduos que já sofreram situações de bullying, sendo
que meninos apresentam escores mais elevados tanto em comportamentos
agressivos como em vitimização. Para Carvalho et al. (2009) não há fórmulas
prontas para elaboração de programas anti-bullying, após entrevistar adolescentes e
identificar diferentes perfis de agressores, vítimas e espectadores.
O estudo de Cristovam et al. (2010) utilizou questionários com estudantes do
ensino fundamental para identificar a frequência com que ocorrem as situações de
bullying, os resultados revelaram que 78,8% dos alunos participantes estiveram

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envolvidos em atos de bullying e que as vítimas de bullying apresentam mais
problemas de saúde e uma tendência quatro vezes maior para o suicídio em
comparação a outros escolares.
O estudo de Huhn et al. (2011), indicou que o bullying está associado em
número maior ao sexo masculino, sendo que 47,1% das vítimas eram agressores
também. O tipo de intimidação mais frequente são a verbal, seguida da física,
emocional, racial e sexual.
Segundo Zaine, Reis e Padovani (2010) os adolescentes em conflito com a lei
que cumpriam medidas socioeducativas em regime de semiliberdade e liberdade
assistida, apresentam em maior volume como autores do bullying do que como
vítimas. Além disso, os adolescentes em semiliberdade relataram maior frequência
como alvos e autores de bullying do que os de liberdade assistida. Os estudos
apontam para a necessidade de mapear as características associadas ao bullying
para se pensar em estratégias de prevenção e intervenção. Sendo assim, a escola
precisa estar atenta a tais fatores para combater o fenômeno.
O bullying tem implicações na autoestima de adolescentes, segundo Bandeira
e Hutz (2010). Aplicaram a escala de autoestima de Rosenberg, apontaram que
houve diferentes resultados de autoestima no grupo de meninas, meninos,
agressores, vítimas/agressores, vítimas e testemunhas.
A pesquisa de Cavalcanti (2009) analisou 42 laudos de exames de corpo de
delito em crianças e adolescentes vítimas de violência escolar. Os dados revelaram
que 61,9% das vítimas eram meninos, entre 13 e 17 anos, sendo os colegas de sala
de aula os agressores mais frequentes 92,9%. O estudo apontou que é elevada a
existência de injúrias na cavidade bucal em vítimas de agressão no ambiente
escolar.
As repercussões do bullying escolar apontaram para o papel da escola em
oportunizar uma convivência sadia entre os estudantes. Além de repercussões
físicas, o bullying escolar gera sequelas psíquicas, podendo estar associado ao risco
de suicídio.
Educadores revelaram que é preciso engajamento de vários segmentos
sociais na construção de políticas públicas (Lima et al., 2011). Checa (2011) também

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encontrou resultados que indicaram a elaboração de políticas públicas que envolvam
os professores, pois, conforme o estudo, há uma crise da autoridade docente.
Assim, os estudos apontaram que o bullying é um problema grave e de saúde
pública, de modo que a sociedade precisa investir em prevenção, baseada em
estratégias de identificação da violência escolar e combate a ela. Os professores,
nesse cenário, são considerados agentes importantes, no sentido de trabalhar para
que as relações no contexto escolar sejam saudáveis e promovam o
desenvolvimento.
O bullying é um fenômeno complexo e requer uma análise social. Tal
discussão foi central em quatro artigos. Por meio de revisão bibliográfica, Reis e
Costa (2011) discutiram a relação entre o bullying e a contemporaneidade. Os
resultados evidenciaram o bullying como consequência de diversos conflitos
oriundos das mudanças que a sociedade vem passando ao longo dos anos. Numa
perspectiva semelhante, o estudo de Toro et al. (2010) revelou que o bullying deve
ser visto como um elemento significativo na sociedade contemporânea. Sendo
assim, a forma como as relações estão se constituindo tem relação com o bullying.
No contexto escolar, mais especificamente, relações de poder sustentadas por
autoritarismo, repressão e falta de diálogo podem ter íntima relação com o bullying.

1.3 - Objetivo Geral


Esse projeto de pesquisa teve como objetivo investigar as feridas invisíveis da
experiência do bullying existente em jovens, acima de 18 anos que estejam
cursando o Ensino Médio de escolas públicas, na região central da cidade de São
Paulo.

1.4 - Objetivos Específicos


Investigar a existência das feridas invisíveis, provenientes da violência escolar.
Compreender as consequências da violência sobre os processos de
escolarização dos alunos. Conhecer quais consequências as feridas invisíveis pode
desenvolver na vida dos sujeitos quando não tratada de forma adequada.

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1.5 - Justificativa
Considerando que a escola é um ambiente violento, conflituoso e que
adoecem os alunos e os professores, este estudo permitiu compreender como as
feridas invisíveis se formam. Como elas se desenvolvem e interferem na vida dos
jovens. Qual o papel dos professores neste processo, já que o professor também é
um sujeito possuidor de suas feridas invisíveis desenvolvidas dentro do ambiente
profissional escolar. Feridas não tratadas, tendem a desenvolver proporções de
adoecimento mental e danos à sociedade (agressões, suicídios, tragédias em sala
de aula). Como o governo tem trabalhado para que os Psicólogos estejam presentes
nas escolas mediando e facilitando os conflitos diários, minimizando a violência e
elevando a consciência e desenvolvimento emocional dos jovens? Os resultados
desse estudo poderão ser úteis na construção de procedimentos de mediação de
conflito por meio de palestras aos familiares dos alunos e formação de professores
em relação ao tema. Mobilização pública para que o Projeto de Lei tenha prioridade
na pauta de votação, liberando a entrada dos Psicólogos nas escolas.
O Projeto também se justifica como parte das atividades desenvolvidas desde
2008 no GECOMP (Grupo de Estudos e Pesquisas em Escolas, Comunidades e
Políticas Públicas – UNIP-CNPq), ligado à Vice-Reitoria de Pós-Graduação e
Pesquisa da Universidade Paulista. Os trabalhos têm tratado dos processos no
âmbito dos grupos e instituições sobre os quais recaem as condições de exclusão
social (contextos sociais complexos) comprometendo a legitimação das falas dos
atores sociais e a instalação de projetos coletivos, o que acontece em comunidades
de baixa renda, caracterizadas por alta vulnerabilidade, e em contextos públicos
institucionais nos quais as populações atendidas são sujeitos da exclusão e
sofrimento, como escolas públicas.

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2 - MÉTODO

Número do protocolo CAAE: ​80142117.0.0000.5512

2.1 - Sujeitos:
Jovens acima de 18 anos, cursando o Ensino Médio em escolas públicas da
região central da cidade de São Paulo. As entrevistas reflexivas foram realizadas
com 6 jovens. Os nomes apresentados nos resultados e discussões são fictícios
com o objetivo de zelar a identidade dos participantes. Perfil dos participantes e seus
nomes fictícios:

1 - Caio, 18 anos, negro, homem cis


2 - Carol, 18 anos, branca, mulher cis
3 - Camila, 19 anos, branca, mulher cis
4 - Nat, 42 anos, branca e mulher transsexual
5 - João, 44 anos, branco, homem gay
6 - Lucas, 21 anos, negro, homem cis e imigrante africano

2.2 - Instrumentos:
Entrevista reflexiva, tratar-se de uma metodologia desenvolvida por
Szymanski (2004). Como bem destaca a autora, este formato de entrevista é
marcado pelo diálogo compreensivo entre o entrevistador que acolhe com respeito a
fala do sujeito participante, minimizando assim a hierarquia e as relações de poder
que, porventura, possam vir a existir, durante a situação de entrevista entre
pesquisador e sujeito participante. A entrevista foi semi-estruturada, com tópicos
estabelecidos previamente, baseados nos objetivos específicos, tornando o enfoque
qualitativo. Neste tipo de entrevista, “o informante, seguindo espontaneamente a
linha de seu pensamento e de suas experiências, dentro do foco principal colocado
pelo investigador, começa a participar na elaboração do conteúdo da pesquisa”.
(TRIVIÑOS, 1987, p. 146).

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2.2.1 - Realização da pesquisa
As entrevistas aconteceram em dois encontros com três participantes em
cada grupo, totalizando seis entrevistados. Foi aplicado roteiro de questões como
guia para elaboração das perguntas, no sentido de basear a fala da pesquisadora
mantendo os objetivos claros.
A pesquisadora se apresentou aos entrevistados, assegurou o direito ao
anonimato, acesso às gravações e análises. Solicitou autorização para gravação do
áudio e conferiu a idade de cada participante certificando que todos eram maiores de
18 anos.
As questões foram elaboradas, seguindo o roteiro de questões e mantendo o
foco nos objetivos. Os participantes formularam suas respostas em narrativas de
acordo com experiência vivida.
Cada grupo durou em média duas horas, respondendo todas as questões
apontadas no roteiro estabelecido.
Ao final, a pesquisadora agradeceu a participação de cada entrevistado e
reforçou sobre o anonimato e o acesso ao material coletado e analisado.

2.3 - Aparatos de Pesquisa:


Roteiro de questões impresso, caneta, mesa, cadeira, gravador de voz.

2.4 - Procedimentos para Coleta de Dados:


A pesquisadora selecionou os jovens conforme sua faixa etária (acima de 18
anos, cursando o Ensino Médio em escolas públicas da região central da cidade de
São Paulo) e aceitação pelo participante ao projeto de pesquisa. Foram realizados 2
(dois) encontros de 2 (duas) horas. Cada encontro havia 3 (três) jovens
participantes. totalizando 6 (seis) entrevistados. As entrevistas foram gravadas
(áudio), com prévia autorização dos participantes e transcritas.

2.5 - Procedimentos para Análise de Dados:


A pesquisadora analisou as entrevistas nos grupos realizados e os diálogos
promovidos nos encontros. Transcreveu as entrevistas reflexivas, e partir das

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questões levantadas, estabeleceu as categorias de análise a fim de responder os
objetivos propostos.
Segundo Szymanski (2004), o processo de transcrição de entrevista é
também um momento de análise. Ao transcrever, revive a cena da entrevista, e
aspectos da interação são relembrados. A categorização concretiza a imersão nos
dados e a forma de agrupar segundo a compreensão da pesquisadora

2.6 - Ressalvas Éticas:


Os procedimentos éticos deste estudo estão de acordo com a Resolução
número 510, de 07 de abril de 2016 do Conselho Nacional de Saúde, que estabelece
as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos.
Da mesma forma, esse estudo está orientado pela Resolução 016/2000 do Conselho
Federal de Psicologia que dispõe sobre a realização de pesquisa em Psicologia com
seres humanos.
Nesse sentido, este estudo irá garantir, aos sujeitos que dele participarem, os
princípios éticos para a realização de pesquisas envolvendo seres humanos
respondendo aos quatro referenciais básicos da bioética: autonomia, beneficência,
não maleficência e justiça. Todos os participantes terão acesso ao Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE – para a realização da entrevista ou
questionário ou observação. Esses procedimentos somente serão realizados após a
leitura e assinatura do TCLE, garantindo-se assim a compreensão dos participantes
sobre o estudo e a sua autorização na participação do mesmo.
Autonomia: todo o sujeito tem o direito de decidir se quer ou não participar de
uma pesquisa, por isso o pesquisador antes da realização da pesquisa irá solicitar o
consentimento por escrito de cada sujeito que dela participar, por meio da leitura,
esclarecimento em linguagem acessível e assinatura do Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido – TCLE (anexo ao projeto).
Beneficência: a realização dessa pesquisa buscará garantir qualquer tipo de
dano ou situação de risco à integridade física e psicológica dos sujeitos
participantes. A proposta é possibilitar benefícios aos sujeitos bem como garantir
que seus interesses sejam atendidos.

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Maleficência: o pesquisador buscará garantir um ambiente favorável à
realização da pesquisa a fim de garantir que nenhum aspecto possa causar
problemas aos participantes decorrentes da pesquisa. Da mesma forma, buscará
garantir que caso ocorra qualquer desconforto, a pesquisa será interrompida e,
imediatamente, será colocado à disposição dos participantes apoio psicológico e
clínico por meio de uma das clínicas/ambulatórios da Universidade Paulista – UNIP.
Justiça: a todos os participantes serão oferecidas as mesmas condições e
cuidados éticos bem como acesso aos resultados do estudo.

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3 - RESULTADOS
Os resultados a seguir foram separados por ​categorias de análise (temas) a
fim de responder os objetivos propostos​, agrupando as respostas dos entrevistados.

3.1 - Entendimento e percepção sobre o bullying


Para Carol, o bullying é "balela", ela acredita que todo mundo já sofreu
preconceito e todo mundo vai ter que sofrer preconceito, reforça que bullying é
"mimimi".
Caio afirma que todo mundo vai sofrer um pouco, o bullying afeta sim as
pessoas e reforça com clareza não ser uma coisa boa para ninguém.
Camila fala com serenidade que bullying prejudica a vida de algumas
pessoas, tem gente que parar de estudar, parar de frequentar as aulas e em casos
mais graves pode até se matar.
Na opinião de João, bullying é uma forma de criar um "rótulo" na pessoa,
pode gerar um transtorno na criança que ela desenvolve depois na adolescência e
carrega para sua vida adulta, transformando num obstáculo pela vida. Alguns
conseguem ultrapassar este obstáculo, outras pessoas podem retrair acabam
seguindo outros caminhos que não seria da sua potência e que pode acontecer até
suicídio.
Nat relatou que sofreu bullying na infância e adolescência, por sempre ser
diferente do padronizado, por suas questões de gênero e sexualidade, afirma que
ela e a maioria das amigas transgênero sofreram sim bullying, foram afetadas
emocionalmente e tiveram que buscar estratégias para se defender.
Lucas acredita que o bullying só é agressivo quando há um alvo único, um
grupo ofende uma única pessoa.

3.2 - A violência dentro da escola


Sobre a existência de violência dentro da escola, seja física ou emocional,
Camila e Caio afirmam com convicção que existe violência no ambiente escolar sim.
Carol acredita que na escola particular tem mais casos, pois já estudou
alguns anos em escola particular e presenciava cenas de alunos intimidando os
alunos bolsistas e filhos de colaboradores.

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Para João, a violência começa dentro da casa, no núcleo familiar e vai para a
escola levada pelo aluno. A escola não tem uma orientação para lidar com isso e é
uma forma de acompanhar a sociedade. A nossa sociedade como está no
momento, violenta.
Na opinião da Nat, a violência faz parte do comportamento humano, desde
criança dentro da família, cada um vai reproduzir o que vivencia e na escola com a
junção de várias famílias a violência também é presente, assim como na sociedade.

3.3 - O policiamento dentro da escola


Para Carol, o policiamento não ajuda, só oprime. Relata que os policiais são
agressivos, autoritários e sem motivo abordam sem respeito.
Caio riu de forma irônica e disse que essa ele não responderia. Depois ele
informa que respeita o trabalho dos policiais mas, os policiais não respeitam os
estudantes nas abordagens, principalmente os negros. Caio complementa que a
presença dos policiais não ajuda no combate a violência e sim intimidam os alunos
que já sofreram violência policial em abordagens anteriores.

3.4 - As escolas estão preparadas para combater o bullying


Camila responde que nenhuma escola está, já estudou em outras escolas
anteriormente e conhece alunos que trocaram de escola pois não viu atuação efetiva
da escola para resolver conflitos de relacionamento entre os alunos.
João, atualmente com 44 anos diz que possui ferramentas emocionais para
se defender mas não aprendeu na escola. Na escola a época mais violenta é antes
do ensino médio, na adolescência onde as descobertas acontecem. Relata que
desenvolveu defesas de devolver as ofensas, mas que a escola não ajudou nessa
atuação e é crítico ao falar que a escola negligencia assistência aos alunos que
sofrem preconceito no ambiente escolar.
Para Nat, mulher trans, a negligência da escola contribuiu para o abandono
dos estudos. Nat retomou seus estudos após 20 anos, através do Programa
Reinserção Social Transcidadania1 que incentiva à conclusão da escolaridade básica

1
​O Programa Transcidadania promove a reintegração social e o resgate da cidadania para travestis, mulheres
transexuais e homens trans em situação de vulnerabilidade Atualmente o programa possui 200 vagas. Utilizando
o desenvolvimento da educação como principal ferramenta, as beneficiárias(os) recebem a oportunidade de
concluir o ensino fundamental e médio, ganham qualificação profissional e desenvolvem a prática da cidadania.
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e preparação profissional oferecendo transferência de renda. Nat relata que a
sociedade no geral julga pela aparência não dá oportunidade de conhecer o
profissional e a pessoa. Nat afirma que não há análise da inteligência e sim da
aparência. Nat reforça a importância da educação de gênero e sexualidade dentro
da escola, como disciplina obrigatória e que se tivesse esse conhecimento para
todos, o preconceito diminuiria.​ ​Os demais entrevistados não se posicionaram.

3.5 - A melhor estratégia para combater ao bullying


Para Caio, a criação de regras diminuiria o bullying nas escolas.
Camila acredita que o respeito e o limite é a melhor estratégia.
Carol informa que o exemplo é a melhor estratégia, iniciando pelos
professores com os alunos, a direção com os professores e apoio aos alunos que
sofrem com profissionais que sabem lidar com o assunto.
Nat reforça a importância do diálogo, conscientização da diversidade humana
e que todas as escolas deveriam ter nas grades disciplinas sobre gênero e
sexualidade, com o conhecimento correto o preconceito diminui.
João concorda com Nat e apoia disciplinas sobre gênero e sexualidade.
Lucas também acredita que a educação é a melhor estratégia para combater
o bullying, e informa sobre trabalhar o relacionamento entre os alunos em forma de
disciplinas que aborde os sentimentos e emoções.

O programa, que já virou destaque mundial por ser inovador, é a transferência de renda, que possibilita a
disponibilidade das beneficiárias em concluírem a carga obrigatória de atividades. Cada beneficiária(o) recebe
acompanhamento psicológico, jurídico, social e pedagógico durante os dois anos de permanência no programa.
O Transcidadania é norteado por três principais eixos de atuação: autonomia, cidadania e oportunidades. Valor
do Auxílio Mensal: R$1001,70 (Um Mil e um real e setenta centavos) ​O Programa Transcidadania, iniciado como
POT – Programa Operação Trabalho LGBT em 2008. Em janeiro de 2015 contava com 100 vagas. No ano de
2017 o Transcidadania foi descentralizado passando a ser realizado nos 4 Centros de Cidadania LGBT, antes
era somente atendido na região central da cidade. Com a descentralização o serviço se tornou mais democrático,
humano e próximo das pessoas.

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4 - DISCUSSÃO
O objetivo deste trabalho foi investigar as feridas invisíveis da experiência do
bullying existente em jovens, acima de 18 anos. Consideramos também como
objetivo investigar a existência das feridas invisíveis, provenientes da violência
escolar, analisar o diálogo que a escola estabelece com a família dos alunos em
relação ao tema da violência escolar. Compreender as consequências da violência
sobre os processos de escolarização dos alunos e conhecer quais consequências as
feridas invisíveis podem desenvolver na vida dos sujeitos quando não tratada de
forma adequada.

Consideramos o ambiente escolar um local de violência latente e levantamos


como hipótese que a escola não atua de forma efetiva, contribuindo para a criação
de feridas invisíveis nos jovens brasileiros.

Para tal investigação, realizamos dois grupos de entrevistas reflexivas com três
estudantes em cada grupo, totalizando seis estudantes de escola pública da região
central da cidade de São Paulo, maiores de 18 anos, cursando Ensino Médio. Com
base na análise do material obtido foi possível levantar algumas linhas de discussão
que apresentamos a seguir.

Uma primeira discussão diz respeito ao entendimento e percepção sobre o


bullying. ​Todos os entrevistados apresentaram ciência que a palavra bullying,
trata-se de ofensas psicológicas ou físicas à outra pessoa, seja um alvo único ou
generalizado. O bullying pode ser sutil e confundido com brincadeiras típicas da
idade. A entrevistada Carol acredita que bullying é "balela", "mimimi", e que todo
mundo vai sofrer algum preconceito. O discurso de Carol normatizando o bullying,
fortalece o preconceito e a inércia da escola para criar ações de intervenções
eficazes.

Segundo Guareschi (1998), dominação é uma relação onde alguém ou um


grupo, a pretexto de o outro possuir determinadas qualidades ou características, se
apropria de seus poderes (capacidades) e passa a tratá-lo de maneira desigual.
Dominação, portanto, é uma relação assimétrica, desigual, injusta. O bullying é uma
relação de dominação, é a expropriação da capacidade do vítima, afetando sua
autoestima e autoconfiança.

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É preciso que os profissionais da educação saibam identificar o bullying para
intervir adequadamente. João e Nat, ambos sofreram bullying na adolescência
acreditam que o bullying pode gerar consequências na vida adulta, ocasionando
obstáculos emocionais que poderiam ser evitados com um trabalho efetivo dentro da
escola. A ação do bullying cria um ciclo destrutivo: baixo rendimento escolar, evasão
escolar, indisciplina, conflitos físicos e produção de conflitos psicológicos. O bullying
faz feridas invisíveis na autoestima de crianças e adolescentes e pode refletir na vida
adulta em forma doenças psicossomáticas.

Nat, mulher trans, parou seus estudos e só voltou após duas décadas. Nat
relata que teve que se prostituir para sobreviver e vê que tudo isso poderia ser
evitado se dentro das escolas houvesse educação sobre sexualidade e gênero.

As entrevistas com os jovens também nos mostraram que há uma discussão


importante a ser feita sobre ​a violência dentro da escola​. Entendemos que na
opinião dos entrevistados, afirmam com convicção que existe violência no ambiente
escolar sim. João acredita que a escola é um retrato da sociedade, que a aluno leva
para a escola o que aprende em seu núcleo familiar e que a violência inicia dentro
de casa. Na opinião da Nat, a violência faz parte do comportamento humano, e na
escola com a junção de várias famílias a violência também é presente, assim como
na sociedade.

Segundo Pinheiro e Williams (2009) através de questionários aplicados em


alunos do ensino fundamental os envolvidos em casos de bullying escolar está
associado a violência intrafamiliar geralmente no papel de alvo ou alvo/agressor.
Para Tortorelli et al. (2010) a percepção da violência familiar e o relato de violência
na escola há correlação, concluiu também através de aplicação de questionários a
alunos do ensino fundamental. A violência familiar tem associação direta com o
bullying.
Discutir o cenário da violência escolar e o bullying também nos leva a
considerar o tema sobre ​o policiamento dentro da escola​. Tal categoria de análise
se torna importante nessa discussão, todos os entrevistados foram unânimes em
avaliar que o policiamento não ajuda, só oprime. Relatam ainda que os policiais são
agressivos, autoritários e sem motivo abordam sem respeito os estudantes.

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Os policiais exercem o conceito de relação de dominação de Guareschi
(1998) expropriando a capacidade e identidade dos jovens alunos, quando os
aborda de forma opressora e desrespeitosa, não ajudando na construção de
autoconfiança.
Caio informa que os policiais não respeitam os estudantes nas abordagens,
principalmente os negros. Caio complementa que a presença dos policiais não ajuda
no combate a violência e sim intimidam os alunos que já sofreram violência policial
em abordagens anteriores.
As escolas tem abordado os comportamentos humanos contemporâneos que
são cotidianos e fazem parte do desenvolvimento humano como assunto médico e
jurídico. Medicalizando as crianças e punindo os "rebeldes", ambos normatizando os
efeitos dos comportamentos e não a causa.
Agentes de segurança não são treinados para lidar com o comportamento
humano, porém são medidas populares que dá a percepção que o governo está
agindo de forma rápida e "justa".
A presença de Psicólogos nas escolas poderia prever tragédias recentes
como a creche (vigia depressivo colocou fogo nele e na escola), garoto de 14 anos
atirou contra os colegas em Goiânia, casos de suicídios com estudantes menores de
idade na cidade de São Paulo. Há mais de 17 anos tramita no plenário a Projeto de
Lei 3.688/2000 para regulamentar a presença dos Psicólogos e Assistentes Sociais
nas escolas.
Um fator muito relevante que os entrevistados apontaram e que também
merece ser discutido com mais profundidade é ​se as escolas estão preparadas
para combater o bullying​. O material coletado nos demonstrou que a diversidade
da constituição familiar, é fator importante a ser considerado, quando estudamos sua
relação com o bullying. Três entrevistados não se posicionaram, os outros três
concordaram que as escolas não estão preparadas para combater o bullying. Camila
já estudou em várias escolas e nunca vivenciou nenhuma atuação nas escolas onde
estudou e que presenciou evasão e desistência de alunos que sofriam bullying. Para
João, que sofreu bullying por ser gay, a escola não o ajudou e ele com apoio familiar
desenvolveu estratégias de se defender emocionalmente. Para Nat, mulher trans, a

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escola negligenciou apoio emocional e colaborou para sua desistência escolar em
sua adolescência.

Educadores revelaram que é preciso engajamento de vários segmentos


sociais na construção de políticas públicas (Lima et al., 2011). Checa (2011) também
encontrou resultados que indicaram a elaboração de políticas públicas que envolvam
os professores, pois, conforme o estudo, há uma crise da autoridade docente.
Assim, os estudos apontaram que o bullying é um problema grave e de saúde
pública, de modo que a sociedade precisa investir em prevenção, baseada em
estratégias de identificação da violência escolar e combate a ela. Os professores,
nesse cenário, são considerados agentes importantes, no sentido de trabalhar para
que as relações no contexto escolar sejam saudáveis e promovam o
desenvolvimento.
Investimento na formação dos educadores, treinamentos constantes para o
corpo docente. Política pública para cuidar da saúde emocional do educador,
diminuindo assim a fadiga, exoneração por Síndrome de Burnout. A ferramenta
dentro da escola é o professor, para que haja um trabalho consistente dentro da
escola, é preciso investir e cuidar do professor.
E, para finalizar, gostaríamos de discutir aqui, ​a melhor estratégia para
combater ao bullying de acordo com os dados levantados. Para Caio, a criação de
regras diminuiria o bullying nas escolas. Camila acredita que o respeito e o limite é a
melhor estratégia. Carol informa que o exemplo é a melhor estratégia, iniciando
pelos professores com os alunos, a direção com os professores e apoio aos alunos
que sofrem com profissionais que sabem lidar com o assunto. Nat reforça a
importância do diálogo, conscientização da diversidade humana e que todas as
escolas deveriam ter nas grades disciplinas sobre gênero e sexualidade, com o
conhecimento correto o preconceito diminui. João concorda com Nat e apoia
disciplinas sobre gênero e sexualidade. Lucas também acredita que a educação é a
melhor estratégia para combater o bullying, e informa sobre trabalhar o
relacionamento entre os alunos em forma de disciplinas que aborde os sentimentos
e emoções.

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Relações de poder sustentadas por autoritarismo, repressão e falta de diálogo
podem ter íntima relação com o bullying, observamos que o contexto escolar ainda
utiliza deste modelo, adoecendo professores que não foram instruídos ao diálogo e
facilitação de conflitos nas relações.
Segundo Fernandes (2007) o processo educativo diz respeito a todo o ser
humano e ao ser humano como um todo. Não existe lugar nem tempo marcado para
a educação. A educação se dá em todo o tempo e em todo lugar. Por isso a falta da
educação só pode ser sentida como o não cumprimento e o não deslanche da
essencialização do humano. É preciso abrir o diálogo dentro da escola sobre a
diversidade racial, de gênero e sexualidade, através do conhecimento elimina o
preconceito e fortalecem as relações humanas.

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5 - CONCLUSÕES

Considerando o poder de manipulação da mídia nacional, as famílias


reproduzem um discurso moralista de padrões esteriotipado (negros, LGBT,
mulheres submissas). A escola é um caminho para quebrar os paradigmas e
construir novas possibilidades através da educação trabalhando a diversidade.
O oposto a violência é a paz, a tolerância e compreensão. Aferimos que a
violência inicia no ambiente familiar e se aflora no ambiente escolar com a junção de
diversas famílias, crenças, valores e costumes.
O policiamento dentro da escola, através de Agentes de Segurança só
estimula a opressão, o medo e a punição. São medidas imediatistas que não
contribuem na melhora do ambiente escolar de forma consistente. A presença dos
agentes de segurança, só pioram o clima remetendo a mais violência.
É prioritário que conteúdos sobre diversidade humana sejam lecionados nas
escolas em todos os níveis escolares, adaptando a linguagem conforme fase do
desenvolvimento. Uma sociedade aberta ao diálogo para o combate ao preconceito
racial, de gênero, sexual e transtornos mentais.
Concluímos que é possível através da educação, erradicar o preconceito e
eliminar assim o bullying. Para isso é preciso formar os professores, engajar o corpo
docente, sobre a importância de tratar sobre assuntos que o bullying aborda:
diversidade racial, gênero, sexual e transtornos mentais.
Acreditamos que uma escola fortalecida, com os professores sendo cuidados
emocionalmente e constantemente treinados podem fazer o trabalho de educar a
família toda, erradicando os preconceitos sobre a diversidade humana. Abrindo as
portas da escola para discutir as questões com as famílias, formando rodas de
conversa e atendimentos para que o conhecimento seja multiplicado. O aluno será o
porta-voz dentro da sua casa mas, a escola será o suporte e poderá dar assistência
para toda a família, o que hoje é negligenciado.

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6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Guareschi, P. A. Relações comunitárias: relações de dominação. In: CAMPOS,


Regina Helena de F. (Org.) Psicologia social comunitária: da solidariedade à
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Tortorelli, M. F. P., Carreiro, L. R. R., & Araujo, M. V. (2010). Correlações entre a


percepção da violência familiar e o relato de violência na escola entre alunos da
cidade de São Paulo. Psicologia: Teoria e Prática, 12(1), 32-42.

Zaine, I., Reis, M. J. D., & Padovani, R. C. (2010). Comportamentos de bullying e


conflito com a lei. Estudos de Psicologia, 27(3), 375-382.

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7 - ANEXOS

Roteiro de Questões para as Entrevistas Reflexivas (temas)

1) O que você entende sobre o Bullying?

2) O que você entende sobre Violência Escolar ?

3) Você acha que ter policiamento ajuda a combater a violência ?

4) Você acha que hoje em dia as escolas estão preparadas para combater o Bullying
/ violência ?

5) Você já presenciou casos de Bullying na sua escola (ou na escola em que


estudava)? Onde foi e como.

6) O que você acha que as pessoas que já sofreram Bullying sentem hoje?

7) Em geral podemos evitar o Bullying? Como?

8) Você acha que podemos acabar com o Bullying? Como?

9) Se você fosse o responsável por combater o Bullying na escola e multiplicar suas


ações em outras escolas. O que você faria?

10) Como você acha que os pais podem contribuir com a escola sobre esse tema?

11) Você acha que o Psicólogo pode contribuir de que forma dentro da escola?

12) O que faltei te perguntar sobre o Bullying que possa contribuir para esta
pesquisa?

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