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SOBRE COREOGRAFIA EM ROTEIRO

About Choreography in Script

Juliana M. R. de Moraes
Centro Universitário Belas Artes - São Paulo

Resumo: Se, tradicionalmente, coreografia define movimentos de corpos humanos organizados


no tempo-espaço, recentemente o conceito passou por atualizações: como um sistema de
relações ainda calcado no movimento, mas não necessariamente humano, englobando
comportamentos sociais, fluxos de informações, dinâmicas migratórias etc.; como um sistema
de regras que organizam elementos compositivos, dentre os quais inclui-se o movimento de
forma não hierárquica. Este artigo reflete sobre as implicações dos conceitos de coreografia na
criação da peça inédita Roteiro, aproximando-se de regras mais do que de formas de se mover.
Palavras-chave: Coreografia; Movimento; Regras.

Abstract: If, traditionally, choreography defines organised movements of human bodies in


space-time, recently the concept has undergone updates: as a system of relations foregrounding
motion, but not necessarily human, encompassing migratory social behaviour, information
flows, migrational dynamics etc.; as a system of rules that organize compositional elements,
among which movement but in a non-hierarchical manner. This article reflects on the
implications of the concepts of choreography in creating the piece Script, understanding it as
rules rather than ways of moving.
Keywords: Choreography; Movement; Rules.

João Pessoa, V. 6 N. 2 jul-dez/2015


Juliana M. R. de Moraes

Durante o ano de 2013, a coreografia — toma ao longo da


Companhia Perdida mergulhou em novo história. Já textos e falas de artistas são,
processo criativo dirigido por mim, que geralmente, mais diretos, e deles
deu origem ao trabalho ainda inédito podemos muitas vezes depreender como
Roteiro. Apresentado em dois dias de elaboram seus processos criativos, a
ensaios abertos, em dezembro do maneira como pensam a dança, seus
mesmo ano, a peça foge do formato questionamentos artísticos e pessoais,
tradicional de dança por não se compor os contextos nos quais se inserem, as
de seqüências predeterminadas de lutas diárias e a particularidade das
movimentos, nem por jogos de escolhas que derivam em estilos
improvisação. Ao longo deste texto, próprios. São vozes diferentes, mas
tentarei argumentar que o processo que igualmente importantes, pois se o artista
culminou em Roteiro pensa coreografia fala de dentro, muitas vezes elementos
como um sistema tridimensional de de suas criações só se tornam visíveis
relações, e que essa peça se alicerça quando olhados de fora. Citarei palavras
sobre regras simples derivadas dos de Jonathan Burrows, David Hinton,
dispositivos de dependência e Peter Brook, Ruth Amarante, Karen
constrição, além de uma tensão Pearlman, Ana Sanchéz-Coldberg,
constante entre o coletivo e o Bojana Cvejic e Susan Leigh Foster —
individual. Através do diálogo com trazendo-as para o contexto do estudo
artistas e teóricos que admiro, refletirei de caso de Roteiro.
sobre o processo e os caminhos Em seu livro Choreographig
percorridos. Empathy, a coreógrafa e teórica
Acadêmicos e críticos que americana Susan Leigh Foster escreve:
escrevem sobre coreografia geralmente
articulam pensamentos nos contextos O termo “coreografia” atualmente é
usado amplamente como referente à
social, político, estético, cultural,
estruturação de movimento, não
econômico etc., além de refletirem
necessariamente movimentos de seres
sobre as ideologias de base em humanos. Coreografia pode estipular
diferentes épocas e as diversas tanto os tipos de ações feitas quanto
conotações que a mesma palavra — sua seqüência ou progressão. Não
necessariamente criado por um único

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indivíduo, coreografia varia de forma a criar, através da montagem,


consideravelmente em termos de quão
uma dança de imagens.
específico e detalhado é o plano de
atividades. Algumas vezes, designando
Acho que fazer filmes de dança são,
aspectos mínimos do movimento, ou
provavelmente, os filmes mais
alternativamente, rascunhando os
interessantes que você poderia fazer.
contornos gerais de ação dentro dos
Em um nível muito fundamental, fazer
quais variações podem ocorrer,
um filme e fazer uma dança são uma
coreografia se constitui como um plano
espécie muito similar de atividade,
ou partitura de acordo com o qual o
ambos tratam de dar estrutura para a
movimento se desenvolve. (…) Prédios
ação. Se você pensar em filme apenas
coreografam o espaço e os movimentos
como uma linguagem formal, e
das pessoas; câmeras coreografam ação
esquecer a atuação e a fala, você pode
cinematográfica; pássaros executam
olhar para qualquer filme como um
coreografias intricadas. (…)
filme de dança. Todos os filmes
Complexos de proteína coreografam
captam imagens em ação e tentam
reparos de DNA; representantes em
colocar essas imagens em conjunto de
call centers executam coreografias
forma rítmica e expressiva. Nesse
improvisadas; famílias fazendo terapia
sentido, filme e dança operam ao longo
participam de coreografia; serviços na
das mesmas linhas.1
web coreografam interfaces; e até a
existência é coreografada. (2011, p. 2)
O entendimento de que a edição

Dentro desse conceito no cinema opera como coreografia

expandido de coreografia, também é defendido pela bailarina e

compreendemos a colocação do diretor videomaker baseada na Austrália, Karen

de videodança inglês, David Hinton, Pearlman: “A coreografia é a arte de

muito conhecido por ter dirigido os manipular os movimentos: reelaborando

filmes Dead Dreams of a Monochrome tempo, espaço e energia em formas e

Men (1990) e Strange Fish (1994), do estruturas afetivas. Em seu trabalho com

grupo inglês DV8 Physical Theatre. ritmo, os editores fazem algo

Hinton concebeu e dirigiu, em 2000, um semelhante” (2012, p. 218).

filme chamado Birds, no qual editou Agora, gostaria de citar frases

vôos e movimentos de pássaros que selecionei de um livro bastante

gravados para documentários da BBC


1
http://www.kinodance.com/russia/films_program2_2006.ht
ml. Acesso em 26.02.2014

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despretensioso, e delicioso de ler, do naquele dia. Agora, vamos às frases


coreógrafo e bailarino inglês Jonathan (juntei-as todas num único parágrafo):
Burrows, intitulado O manual do
coreógrafo. A primeira vez que o vi Coreografia é uma negociação com os
padrões que seu corpo está pensando.
dançar foi em um ensaio, em 1999, no
Coreografia é sobre fazer escolhas,
Jerwood Space, em Londres, quando eu
incluindo a opção de não escolher
cursava o mestrado no Centro Laban. nada. Ou talvez coreografia seja:
Ele dançava uma peça de Rosemary organizar objetos na ordem certa que
Butcher, minha professora na época. torna o todo maior do que a soma das
partes. Ou ainda: O sentido ou lógica
Burrows é bailarino muito famoso,
que se chega quando você coloca as
saído do Royal Ballet, e dançava uma
coisas uma ao lado da outra e esse
peça com três outros bailarinos ingleses, acúmulo faz sentido para o público.
incluindo Lauren Potter (conhecida por Esse algo que se acumula parece
dançar o dueto da parede em Strange inevitável, quase indiscutível. Parece
uma história, mesmo quando não há
Fish, do DV8 Physical Theatre).
história. Esta é uma outra possível
Ficamos sentadas no canto da sala,
definição de coreografia: uma maneira
tentando nos fazer invisíveis para não de manter as coisas acontecendo.
atrapalhar — éramos olhos, algumas Coreografia é uma forma de organizar
anotando coisas, eu mesma num uma performance que toma para si
parte da responsabilidade pelo que
silêncio profundo para captar o máximo
acontece, o suficiente para que o artista
possível de imagens para minha
fique livre para performar.
lembrança futura. E devo dizer que, dos Coreografias de cinco minutos quase
quatro bailarinos, Burrows era o que não precisam de coreografia. Peças de
mais me chamava a atenção. E hoje, dos vinte minutos chegam a uma lógica e
formato próprios. Vinte minutos
quatro corpos, lembro-me com mais
costumava ser a duração mais comum
clareza do dele se movendo. Desde
para peças de dança. Peças de dança
aquele ensaio, Burrows entrou para o são difíceis de assistir e vinte minutos é
arquivo de meus artistas favoritos, e, suficiente algumas vezes. Peças de
quando uma amiga me apresentou seu dança de uma hora são algo diferente.
Todos nós tentamos fazer peças de
livro lê-lo foi como voltar a vê-lo
dança de uma hora e a maioria de nós
falha a maior parte das vezes. Uma

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peça de uma hora precisa de muita frases acima, o que nos leva a pensar
coreografia. O ritmo com o qual você
que coreografia poderia se aplicar a
começa sua peça terá um efeito na sua
infinitas coisas, incluindo imagens
habilidade de fazer com que ela
continue. Se você começa muito rápido
fotográficas, trechos de vídeos, cenas
pode ser difícil, ainda que não teatrais, palavras, objetos, e (por que
impossível, dar continuidade. Se você não?) ao movimento. Entretanto, ao
começa devagar, você vai precisar de
assistirmos às peças de Burrows, vemos
um material forte para manter nossa
o quanto ele se interessa pelo
atenção. O ritmo com o qual você
começa é uma parte importante do movimento — diferentemente de muitos
contrato que você estabelece com a coreógrafos contemporâneos, que optam
platéia nesses momentos iniciais. A pela pausa e complicam a inserção de
sensação de desenvolvimento da peça
suas obras no universo da dança,
será lida pela platéia em relação à
aproximando-se da performance ou da
energia emanada desse ímpeto inicial.
(BURROWS, 2010, p. 105)
live art — , as obras de Burrows podem
ser facilmente caracterizadas de dança
O ponto de vista de Burrows é justamente porque, nelas, ele e seus
diferente dos de Hinton e Pearlman, parceiros se movem, bem, muito, e
citados anteriormente, que entendem geralmente de acordo com sequências
coreografia como organização de pré-determinadas. Mas então por que o
movimentos, mesmo que numa edição movimento não entra na sua concepção
de filme. Aproxima-se mais de algumas de coreografia? Talvez porque para ele
frases que citei de Foster, especialmente coreografia seja mais ligada às formas
quando ela associa coreografia a um de organização, os contratos com o
plano ou uma partitura, entretanto, para público e os ritmos de variação: aquilo
Foster, plano e partitura existem para que segura tudo junto, a trama, a teia, a
que o movimento se desenvolva. sustentação do todo, o que dá
Burrows associa coreografia a continuidade à peça, o que permite
formas de organização do material chegar a uma forma e lógica próprias.
(objetos, coisas) principalmente no Eu gosto desse jeito de pensar,
tempo — e esse material não precisa ser pois amplia o conceito de coreografia
necessariamente movimento. Aliás, a para além da ideia de uma organização
palavra movimento inexiste nas muitas de movimentos. Ademais, o sentido

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deixa de ser narrativo, expressivo ou foram usadas imagens


fotográficas da artista americana
simbólico para se tornar um sentido
Francesca Woodman para
derivado da estrutura (“parece uma
criação de movimentos e
história, mesmo quando não há dramaturgia, em Peças curtas
história”). A estrutura possibilita um para desesquecer (2012) a
sentido. Burrows não é complicado de Companhia voltou-se para as
memórias das próprias
ler, também não é complicado de ver, e
intérpretes como recurso de
sua escrita não se faz cifrada, retórica,
criação, alicerçando-se no que
nem rebuscada. Em suas palavras denominou de sensorimemórias.
simples e despretensiosas, ele limpa o Agora, a Companhia Perdida
conceito de coreografia do movimento deseja explorar mais à fundo
estratégias de composição que
sem, entretanto, higienizar a dança do
vêm se tornando sua marca
movimento2.
coreográfica: repetição, texturas
Agora, uso as frases de movimento, vocabulário
selecionadas de Burrows para me ajudar próprio para cada nova peça,
a pensar sobre Roteiro. O processo de estruturas semiabertas de
composição, escritura
criação teve início, como é de costume
coreográfica a partir de roteiros
atualmente na economia dos editais, em
gerais a serem preenchidos no
um projeto. Ou seja, palavras digitadas tempo presente da cena. Ao
no papel foram as primeiras coisas ou explorar as estratégias de
objetos a existirem: composição acima descritas sem
um tema pré-existente (como
fez até o momento), a
O intuito maior deste projeto é
Companhia Perdida se lança
dar continuidade à pesquisa da
agora a mais um novo desafio.
Companhia, que vem traçando
um percurso coreográfico
consistente através de suas Se, muitas vezes, palavras
criações. Se em (depois de) escritas em projetos soam como cartas
Antes da Queda (2009-2011)
de intenção jogadas à deriva na
2
André Lepecki, em seu livro Exhausting dance: esperança de serem pescadas pelos
performance and the politics of movement, argumenta que a
negação do movimento feita por alguns coreógrafos dos jurados das comissões avaliadoras,
anos 90, como Jérôme Bel, Vera Mantero e Xavier Leroy,
deriva de uma crítica à modernidade. Aprofundo-me nessa
questão no segundo capítulo do meu livro Dança, frente e
olhando para trás, posso dizer que o
verso (2013).

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parágrafo acima prenunciou, um ano literário Oulipo3 que ajudou a iluminar


antes, o que aconteceria em Roteiro: a meus interesses: os escritores desse
Companhia Perdida não criaria mais grupo acreditavam que a liberdade da
com um tema à priori, mas o tema seria escrita seria derivada de regras bastante
a própria coreografia. Por isso, as frases sérias de constrição, como escrever um
de Burrows, que admiro há muitos anos, romance sem a letra “e” ou escrever
se fazem presentes agora e não nos nove versões sobre o mesmo episódio,
muitos textos que já escrevi sobre cada uma em estilo diferente. A
processos de criação anteriores. Assim disciplina derivada da constrição me
como ele separa a coreografia de um pareceu apropriada e, a partir de então,
tema, uma expressão ou uma ao invés de regras que somente
simbologia, minha intenção era separar alimentassem ações, passei a buscar
a criação da Companhia Perdida de tudo regras de constrição, correlação e
que não fossem regras, formas de dependência.
sustentação, aquilo que mantém tudo Em uma das cenas de Roteiro,
junto. um intérprete senta-se numa cadeira,
O início do processo foi penoso. começa a entoar uma canção conhecida
Solicitei que os bailarinos trouxessem e executar movimentos prosaicos. Um
propostas de regras que alimentassem segundo intérprete entra na cena e
ações, e percebemos que essa ideia começa a pressionar, somente com uma
forma a base de muitas brincadeiras das mãos, o corpo do que canta com
infantis (por exemplo, pensar que você diferentes tônus e tempos. A regra
tem que estar sempre à direita do outro consiste no bailarino sentado permitir
faz com que todo mundo, num grupo, se que canto e movimento reproduzam a
mexa o tempo todo). Entretanto, como qualidade do toque com variações de
diretora, logo percebi que essas regras altura, velocidade, intenção, direção,
divertidas não tinham a ver com o que etc. Quanto mais direta a informação,
me interessa poeticamente. Nessa mais clara a cena. É preciso que o
época, Samanta Roque, uma das primeiro intérprete inicie sozinho para
bailarinas da Companhia Perdida, 3
Grupo fundado em 1960 por Raymond Queneau and
François Le Lionnais, do qual fizeram parte integrantes
emprestou-me um livro sobre o grupo ilustres como Georges Perec e Ítalo Calvino. Inclui
escritores, a maioria franceses, e matemáticos, que buscam
novas estruturas e padrões a serem usados principalmente
em literatura.

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que o público apreenda a informação entoa uma nota, os outros devem


sobre a qual a cena se desenvolve. Além caminhar até ele e levá-lo ao chão. O
disso, uma canção conhecida permite tempo da reação coletiva é determinado
que as variações pelo toque sejam pelo tempo do canto do indivíduo.
claramente notadas. O espectador Novamente, a cena só funciona se os
compreende a regra nos primeiros intérpretes compuserem de dentro e
minutos, e a seguir é papel dos lutarem contra a previsibilidade. Os
intérpretes compor de dentro da cena, ensaios consistem em afinar a escuta
para que esta não caia em um uso coletiva para que um indivíduo não
previsível do tempo. Nesse caso, a sobreponha seu desejo ao grupo, ao
coreografia se dá pela clareza da regra e mesmo tempo em que a participação
pelo sucesso da interpretação, que individual se faz imprescindível. Assim
ocorre, no caso do bailarino sentado, como na cena da cadeira, o espectador
pela rapidez com a qual o corpo escuta e compreende as regras nos primeiros
reage e, no caso do segundo bailarino, minutos, e a sustentação da cena se dá
pela variação rítmica e de qualidade que pelo ritmo de variação.
ele imprime pelo toque. Em Roteiro, a individualidade é
Em workshop realizado em dependente de um senso de
fevereiro de 2014, um dos alunos responsabilidade coletiva — como
comentou que essa cena sintetiza uma partes que, quando organizadas, dão
série de regras claras, e que encontrar forma a um organismo. O sujeito que
essa síntese era como achar a agulha no age somente pela reação a eventos de
palheiro. Ou seja, o desafio fora gera uma sensação de angústia,
coreográfico de Roteiro estaria na como se a individualidade fosse sempre
escolha certa dos elementos e na suprimida pelo coletivo. Como
habilidade de fazer com que a contraponto, há momentos nos quais
linguagem derivada da estrutura seja duplas agem de mãos dadas, movendo-
lida pelo espectador. se em sincronia em pulso transmitido
Uma outra cena consiste no pelo aperto das mãos ou pela escuta do
grupo caminhar pelo espaço, cada um ritmo vindo de fones de ouvidos.
por si, e, quando um dos bailarinos Durante os ensaios, comecei a chamar

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esses momentos de frestas de Nesse sentido, mostrar o


humanidade, pequenos vislumbres nos trabalho ainda em processo, em ensaios
quais desejos individuais jorram como abertos, pode ser produtivo, e, no caso
fontes d’água em meio a ambiente de Roteiro, os espectadores foram
rochoso. bastante receptivos às cenas
A escolha de quais regras apresentadas, confirmando que minhas
organizam uma nova coreografia é um intenções faziam algum sentido.
processo delicado, pois define os Comparativamente, nos ensaios abertos
contratos de relação com o público, de nosso processo de criação anterior,
entre os intérpretes, entre estes e a Peças curtas para desesquecer, o
direção, o figurino, a trilha, a relação material era tão embrionário e pessoal
com o espaço e o tempo, etc. É um que grande parcela dos espectadores
processo inicialmente intuitivo, que questionou o porque de estarem
começa com maior abertura a assistindo àquilo (o que me fez trabalhar
proposições diversas mas que, uma vez muito com o grupo de criadores-
definido o caminho, fica claro o que intérpretes para conseguir organizar o
pertence ou não à geografia espaço- material e retirá-lo do estado indulgente
temporal gestada. Infelizmente, em que se encontrava). Já em Roteiro,
justamente por serem intuitivas, muitas como o material surge da disciplina e da
vezes, não consigo justificar, em clareza das regras, os espectadores se
palavras, minhas escolhas como envolveram com o trabalho mesmo nos
diretora, e dependo da confiança de ensaios abertos, pois a estruturação da
quem trabalha comigo — posição de linguagem da peça se dá à vista, passo a
enorme responsabilidade, pois posso passo, como um roteiro que se vai
indicar para onde navegar, mas não seguindo.
posso garantir que haverá terra à frente. Impressionou-me a diversidade
Peter Brook, no seu livro de memorias, de interpretações, tanto leituras mais
Fios do Tempo, chama de intuição abstratas quanto mais figurativas.
amorfa esse começo de trabalho, e cita Houve aqueles que se interessaram
como papel do diretor definir um senso especialmente pela capacidade da
de direção. respiração e da voz, aliadas a regras
claras de composição e gestualidade, de

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alterar o estado do corpo dos minha orientadora, Ana Sánchez-


intérpretes, levando cada cena a uma Colberg, cuja pesquisa consistia em
direção diferente, porém, sempre dentro analisar o trabalho de Pina Bausch. A
de certa unidade da qual se vislumbra partir de estudos semióticos de
um todo conceitual e poético coerente. diferentes peças de Bausch, Sánchez
Outros interessaram-se pelo fato das listou os dispositivos coreográficos
regras serem tematizadas dentro do (choreographic devices) mais usados
próprio trabalho, que se estabelece a pela artista: repetição, simetria,
partir de roteiros claros a serem deslocamento, transposição,
seguidos pelos intérpretes, ou seja, o desenvolvimento, aumento, diminuição,
título não decorre somente de uma variação, adição, subtração,
licença poética, mas da própria estrutura substituição, reiteração, fragmentação,
da obra. Houve também os que leram o expansão, alongamento, desintegração,
trabalho de forma muito aproximada ao aceleração e desaceleração (1992, p.
que me toca particularmente dentro 53). Ainda que bastante gerais, esses
dele: as pequenas frestas de humanidade termos me foram úteis para começar a
vislumbradas em apertos de mão, pensar quais estratégias coreográficas
aconchegos de corpos, respirações seriam de meu interesse, e, no início de
sincronizadas, tentativas frustradas de minha carreira, aprofundei-me no uso
se fazer escutar, sempre em meio ao da repetição.
poder da regra, do que deve ser seguido, Ao escrever sobre as peças En
das organizações comportamentais que Atendant e Cesena, de Anne Teresa de
pressionam a vida e muitas vezes a Keersmaeker, a teórica e performer
abafam. sérvia Bojana Cvejic diz que a artista
A primeira vez que me “se mantém fiel a seu entendimento
aprofundei na ideia de que coreografia subliminar de que uma estrutura
se ligava a um sistema de relações (e coreográfica múltipla pode ser
não a movimentos colocados em construída camada por camada” (2013,
sequência) foi durante meus estudos de p. 10). Ou seja, coreografia seria o
mestrado no Laban Centre de Londres. resultado de uma sobreposição de
Ajudou-me ler a tese de doutorado de relações construídas aos poucos, ao

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longo de um processo criativo. Tive a peneira ainda mais; e no final, bem no


finalzinho, ela diz: ‘tente juntar isso
oportunidade de assistir às duas peças
com isso, isso com aquilo, tente fazer
citadas no SESC Pinheiros, a primeira
com outra pessoa’. Aí ela começa a
em 2011 e a segunda em 2013. É sabido fazer um dominozinho; neste ponto o
que ambas foram concebidas para o trabalho é só dela, o trabalho final, de
grande anfiteatro ao ar livre do Festival composição. (In FERNANDES, 2000,
p. 162)
de Avignon, En Atendant, para o
anoitecer, e Cesena, para o amanhecer,
Como dito anteriormente, no
a primeira tendo estreado em 2010 e a
início dos ensaios, solicitei que os
segunda em 2011 — e que as peças
bailarinos trouxessem propostas de
devem ser compreendidas como um
regras para ação coletiva. Uma das
díptico. É inegável que a coreógrafa cria
regras trazidas consistia em: todos
uma geografia espaço-temporal
deveriam se deslocar pelo chão e,
profundamente coerente, um sistema do
quando um indivíduo emitisse som
qual diversos elementos fazem parte,
agudo, todo o grupo deveria se
convergindo uns nos outros em
aproximar dele; se alguém emitisse som
complexa imbricação. Ela leva para o
grave, todos deveriam se afastar. Ao
palco diversas linguagens (canto,
testarmos a ideia, percebemos que o
música, dança) e as conecta de forma
deslocamento no nível baixo exigia
que o todo se torna maior do que a soma
esforço físico demasiado, o que
das partes; “parece uma história, mesmo
dificultava a reação ao som. Além disso,
quando não há uma história”
parecia haver muitas regras contidas na
(BURROWS, 2010, p.40).
mesma proposta. Percebemos,
Em Roteiro, o processo de
empiricamente, que deveríamos
lapidar as regras de relação que
simplificar a ideia mantendo, todavia, o
sustentam as cenas me fez lembrar da
conceito de que o som emitido por um
fala da bailarina brasileira Ruth
indivíduo causava uma mesma reação
Amarante sobre o trabalho com Pina
coletiva. Simplificamos para que
Bausch:
qualquer som emitido causasse atração

Nós passamos um bom tempo do grupo (não importando se agudo ou


repetindo improvisações, e destas ela grave), e passamos a nos deslocar no

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nível alto. Essas mudanças afinaram a compaixão na persistência do toque, na


insistência da respiração e no
cena, deram clareza para a relação de
movimento que continua apesar do
dependência estabelecida e, a partir daí,
cansaço.
pudemos criar desdobramentos. Ruth
Amarante nos conta que Pina Bausch
A partir de agora, quando
não levava diretamente para o palco
dermos continuidade à Roteiro, para que
aquilo que o bailarino trazia para os
a peça suba ao palco, provavelmente
ensaios, ela peneirava, editava, burilava,
teremos que assumir essas ideias, que
afinava, desmembrava e desenvolvia o
vieram de um longo processo de
material para que, somente depois, ele
pesquisa. Ao invés de iniciar com um
fosse levado à cena. Fizemos a mesma
tema pré-estabelecido, começamos sem
coisa com as propostas de regras
nada e a pesquisa acabou por nos levar a
trazidas para os ensaios.
tematizar a própria questão da restrição
Se a intenção desse processo
pela regra como mote de criação em
criativo foi criar sem tema pré-
coreografia, no quanto os corpos
estabelecido, ao longo dos ensaios, as
seguem e reagem às diferentes formas
cenas derivadas das regras e suas
de constrição, correlação e dependência
manipulações começaram a imprimir
que estruturam o todo, e no quanto esses
impressões e motivos, que foram
mesmos corpos encontram frestas para
ganhando espaço e sendo aprofundados.
resistir a comportamentos maçantes e
Para a divulgação do workshop
embrutecedores.
oferecido em fevereiro de 2014,
veiculamos o seguinte parágrafo:
Recebido em: 23/07/2014
Aceito em:10/02/2015
Pesquisa-se a ação individual e coletiva
a partir de roteiros rigidamente pré-
estabelecidos, que tensionam a relação Referências Bibliográficas
entre liberdade e condicionamento,
entre criação e interpretação. Busca-se BROOK, Peter. O ponto de mudança.
o movimento maçante e repetitivo que
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
estremece afetos, represa a fala e
1987.
desafina o canto. Em meio a isso,
avistam-se frestas de humanidade e

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BURROWS, Jonathan. A
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DE KEERSMAEKER, Anne Teresa;
CVEJIC, Bojana. En Atendant &
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FERNANDES, Ciane. Pina Bausch e o
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