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UMBERTO ECO

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CONSTRUIR
O INIMIGO
2:
e outros escritos ocasionais

TRADUQAO
JORGE VAZ DE CARVALI IO

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Titulo original Costruire il Nemico e altri scritti occasionali _


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© RCS Libri S.p.A. —Mil5o ~

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Bompiani, 2011

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Referéncias iconogréficas

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p. 223, Series of observations of the planet Saturn, 1656. Oxford, Science

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Archive. © 2011. Foto Scala Firenze/Heritage Images


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pp. 296 297, Bougainville, Louis Antoine dc (1729 1811), Déueloppement

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de Ia route faite autour du monde par Ies vaisseaux du my

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La Boudeuse et L’Etoile, © BnF

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Tradugéo Jorge Vaz dc Carvalho I


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Revisio dc texto Rui Augusto


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Capa Armando Lopes (arranjo gréfico)

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Fotocomposigio Gradiva
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Impressio e acabamento Multitipo —Artcs Grzificas, L.“

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Rcscrvados os direitos para Portugal por Gradiva Publicagoes, S. A.
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Rua Almeida e Sousa, 21 —r/¢ ¢sq — 1399 041 Lisboa lntrodugfio ......................................................................... .. 7
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I Telcf. 21393 37 60 —Fax 21 395 34 71 _ _ _ _


Dep_ comercial 1~¢1¢fs_ 21 397 40 67/3 _.paX 21 39714 11 Construrr 0 1n1m1go ........................ ................................ .. 11

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geral@gradiva.mail.pt / www.gradiva.pt

Absoluto e Relativo .......................................................... .. 37

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1 “ edi‘§5° Smmbro de 2011 A chama é bela ................................................................. .. 65


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Depésito legal 333 017/2011 _


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1 ISBN 978 989 616 435 5 Andar em busca dc tesouros ............................................ .. 93

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Delicias fermentadas ......................................................... .. 107

:
Os embrioes fora do paraiso ........................................... .. 119

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:
gradiva O Grupo 63, quarenta anos depois ................................. .. 129

—.

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Editor GUILHERME VALENTE
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<<Hug0, bélas!» A poética do excesso .............................. .. 159

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Veline e silencio ................................................................ .. 193

:

:
Astronomias imaginérias .................................................. .. 203

:

:
Pais onde vais, costumes que encontras .......................... .. 235

en

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Eu sou Edmond Dantés! .................................................. .. 247

:

:
so nos faltava também 0 Ulisses ..................................... .. 265

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c'Visi_iei¥i1o's ha iiiitemct Porquc a ilha nunca e encontrada ................................... .. 275
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' Reflexoes sobre 0 WikiLeaks ........................................... .. 305


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O verdadeiro titulo desta recolha deveria ter sido 0 seu

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subtitulo, ou seja, <<escritos ocasionais». S6 a justa preocupa

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gao do editor, dc que um titulo tao pomposamente modesto

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pudesse nao atrair a atencao do leitor, enquanto o do primei

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ro ensaio apresenta um certo motivo de curiosidade, fez

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propender para a escolha final.

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O que é um escrito ocasional c quais sao as suas virtudes?

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Aquele em que habitualmente 0 autor, na verdade, nao pen

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5' sava ter de se ocupar de um certo assunto, mas ao qual foi

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ii?I compelido pelo convite para uma série dc palestras ou ensaios
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subordinados a um tema. O tema estirnulou o autor e indu

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ziu 0 a reflectir sobre algo que, dc outro modo, teria
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transcurado —— e, frequentemente, um tema recebido por suges

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tao externa resulta mais fecundo do que outro nascido por

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algnm capricho interior.

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Outra virtude do escrito ocasional é que nfio obriga a

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originalidade a todo 0 custo, mas visa sobretudo divertir,

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quer quern escreve, quer quem lé. Em suma, 0 cscrito ocasi0—

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nal é um exercicio retorico barroco, como quando Rossana

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impunha a Cristiano (e, através dele, a Cyrano) desafios do

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tipo <<falai me do amor».

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No final de cada um dos textos (todos da iiltirna década),

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registo as varias datas e as ocasioes, mas, precisamente para

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CONSTRUIR O INIMIGO

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INTRODUCAO

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sublinhar as suas ocasionalidades, recordo que <<Absoluto e Ulisses». No Almanacco del Bibliofilo 2011 surgiu também

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relativo» e <<A chama é bela» foram lidos no ambito dos <<Porque a ilha nunca é encontrada», mas retoma uma comu

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seroes do festival La Milanesiana, que sao exactamente acon nicagao num congresso sobre as ilhas, realizado em Carloforte,

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tecimentos subordinados a um tema, e, se fora uma interes em 2010.

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sante ocasiéio ter de falar do absoluto nos anos em que estava <<Reflex6es sobre o WikiLeaks>> é a reelaboragfio de dois

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a rebentar a polémica acerca do relativismo, a do fogo foi artigos aparecidos, um no Libération (em 2 de Dezembro de

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mesmo uma boa prova, porque eu nunca imaginaria ter de me 2010), e 0 outro no Espresso (em 31 de Dezembro de 2010).

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meter (a quente) naquele assunto. Por fim, para voltar ao primeiro texto da recolha, <<Construir

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<<Os ernbrioes fora do paraiso» corresponde a um relatorio o inimigo», esse tinha sido lido num dos encontros sobre os

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realizado em 2008, em Bolonha, num congresso sobre a ética classicos organizados pela Universidade dc Bolonha, por Ivano

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da investigagao, depois incluido no livro organizado por Dionigi. Agora, estas minhas vinte paginas parecem um pou

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Francesco Galofaro, Erica della ricerca medica e identitd co avaras, depois de Gian Antonio _Stel1a ter desenvolvido

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culturale europea (Bolonha, CLUEB, 2009). <<O Grupo 63, esplendidamente 0 tema em mais de trezentasepaginas no seu

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Negri, froci, gzudei 6“ co. Ueterna guerra contro l’altro (Mi

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quarenta anos depois» abria um congresso, também bolonhés,
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lao, Rizzoli, 2009), mas, paciéncia, tinha pena de as deixar

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cujo tema esta evidenciado pelo meu titulo.
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cair no esquecirnento, visto que se continua a construir inimi

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As reflexoes sobre a poética do excesso em Hugo sinteti— O
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zam trés diferentes intervengoes escritas e orais, enquanto 0 gos sem descanso. W

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divertimento sobre as astronomias imaginérias foi impuden

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temente apresentado, em duas diferentes versoes, a dois dife

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rentes congressos, um de astronomos e outro de geografos.


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<<Andar em busca de tesouros>> condensa varias interven


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<;6es sobre o mesmo assunto, <<Delicias fermentadas» foi pro 1


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nunciado num congresso sobre Piero Camporesi.


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<<Veline e siléncios» foi proferido, quase a forga, no con


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gresso de 2009 da Associagao Italiana de Semiotica.


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Trés escritos sao, em si mesmos, verdadeiros divertimentos,


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surgidos em trés anos diferentes no Almanacco del Bibliofilo,


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e foram inspirados nos trés temas destes almanaques, ou seja,


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<<Em demanda de novas ilhas da utopia» para <<Pais onde


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vais, costumes que encontras», <<Divaga<;6es sentimentais sobre


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leituras dos anos mais verdes» para <<Eu sou Edmond Dantés! »,

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e <<Recens6es em atraso» para <<S6 nos faltava também o


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Ha uns anos, em Nova Iorque, calhou me um taxista com

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um nome de dificil decifracao, e esclareceu me que era

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at paquistanés. Perguntou—me de onde vinha e eu disse lhe que

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de Italia. Perguntou me quantos somos e ficou impressionado

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por sermos téio poucos e por a nossa lingua nao ser o inglés.

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Por fim, perguntou me quem sao os nossos inimigos. Ao

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aW < meu <<desculpe?», esclareceu pacientemente que queria saber

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com que povos estariamos ha séculos em guerra por reivindica

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ras, e por ai fora. Disse lhe que nao estamos em guerra com

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ninguérn. Explicou me pacientemente que queria saber quais

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sfio os nossos adversarios historicos, aqueles que nos matam e

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’ que nos matamos. Repeti lhe que nao os temos, que a ultima

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guerra fizemo la ha mais de meio século e, para além disso,

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1 comegando a com um inimigo e acabando a com um outro.

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N50 ficou satisfeito. Como é possivel que haja um povo que

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niio tem inimigos? Sai, deixando lhe dois dolares de gorjeta para

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o compensar pelo nosso indolente pacifismo, depois veio me a

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cabega o que lhe devia ter respondido, isto é, que nao é verdade

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que os italianos nao tenham inimigos. N50 tém inimigos exter

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nos, e, em todo 0 caso, nunca sao capazes de se por de acordo

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para estabelecer quais sao, porque estao continuamente em guerra
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entre eles: Pisa contra Lucca, Guelfos contra Gibelinos, Nortistas

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CONSTRUIR o INIMIGO


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contra Sulistas, Fascistas contra Partigianos, Mafia contra


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Nas Catilimirias (II, 1 10), Cicero nao tivera necessidade

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Estado, Governo contra Magistratura — e~é uma .pena>que,

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“de desenhar uma imagem do inimigo, porque tinha as provas

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na época, nao se tivesse dado ainda a queda dos dois gover

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da conspiracao de Catilina. Mas constréi o quando, no se

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nos Prodi, senao eu teria podido explicar lhe melhor o que
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gundo discurso, pinta aos senadores a imagem dos amigos de
significa perder uma guerra por culpa do fogo amigo.

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Catilina, reverberando sobre 0 principal acusado a sua auréola

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Porém, reflectindo melhor sobre este episodio, convenci
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de perversidade moral:
me de que uma das desgracas do nosso pais, nos ultimos 1

sessenta anos, foi precisamente nao ter tido verdadeiros inimi Individuos que acampam nos banquetes, que estao a'garra

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gos. A unidade de Italia fez se gragas a presenca do austriaco dos a mulheres desavergonhadas, que amolecem pelo vinho,

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1! ou, como pretendia Berchet, do <<hirto e enfadonho alemao»; empanturrados de comida, coroados de grinaldas, besuntados

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Mussolini pode gozar do consenso popular incitando nos a de unguentos, debilitados pela copulagao, vomitam nas pala

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vras que é preciso massacrar os cidadaos honestos e incendiar

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. >'+* vingar nos da <<vit6ria mutilada», das humilhagoes sofridas
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a cidade. [...] Vos os tendes diante dos olhosz sem um cabelo

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em Dogali e em Adua e das demo plutocracias judaicas que
fora do sitio, imberbes ou com a barba bem aparada, vestidos

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nos infligiam as iniquas sangoes. Veja se o que aconteceu aos
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5.. com tfinicas até aos tornozelos e com as mangas compridas,
"* Estados Unidos quando desapareceu o Império do Mal e o
envolvidos em véus e néio em togas... Estes <<meninos» tao gra

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grande inimigo soviético se dissolveu. Arriscavam 0 ruir da
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ciosos e delicados aprenderam n50 apenas a amar e a ser ama
,1, sua identidade, até que Bin Laden, grato pelos beneficios

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dos, a dangar e a cantar, mas também a brandir punhais e a

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5*‘ recebidos quando era ajudado contra a Uniao Soviética, esten
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114 1 . administrar venenos.
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deu aos Estados Unidos a sua mao misericordiosa e forneceu
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. a Bush a oportunidade de criar novos inimigos, reforcando o
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O moralismo de Cicero sera, depois, o mesmo de Agosti—

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sentimento de identidade nacional, e o seu poder.
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nho, que querera ferver os pagaos, porquanto, ao contrario

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Ter um inimigo é importante, nao apenas para definir a
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dos cristaos, frequentam circos, teatros, anfiteatros e cele

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nossa identidade, mas também para arranjarmos um obstacu—
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bram festas orgiasticas. Os inimigos sao diferentes de nos e

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lo em relagéio ao qual seja medido o nosso sistema de valores,
comportam—se segundo costumes que nao sao os nossos.

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e para mostrar, no afronta lo, 0 nosso valor. Portanto, quan
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Alguém diferente, por exceléncia, é o estrangeiro. ja nos

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do o inimigo néio existe, ha que construi lo. Veja se a gene
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baixos relevos rornanos os barbaros aparecem como barbu


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rosa flexibilidade com que os naziskins de Verona elegiam
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dos e achatados, e a propria denominagao de barbaros, como

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como inimigo quem quer que nao pertencesse ao seu grupo,
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é sabido, alude a um defeito de linguagem e, portanto, de


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para se reconhecerem como grupo. Eis que, nesta ocasiéio,
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nfio nos interessa tanto o fenémeno quase natural de identi
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ficar um inimigo que nos ameaga, quanto 0 processo de pro
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migos nao tanto os diferentes que nos ameagam directamente

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ducao e demonizacao do inimigo.

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(como seria o caso dos barbaros), mas aqueles que alguém

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tem interesse em representar como ameacadores, ainda que


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é o gregozinho esperto e trapaceiro, descarado, libidinoso,

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nao nos ameacem directamente,,de modo que nao é tanto o

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capaz de levar para a cama a avo de um amigo.

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seu carécter ameagador que faz ressaltar neles a diferenca,

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mas é a sua diferenga que se torna sinal de caracter amea

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entrada <<Negro», da Encyclopaedia Britannica, primeira edi
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gador.

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gao americana, 1798, lia se:

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Veja se 0 que diz Tacito acerca dos hebreus: <<Profano é,

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Na carnagao dos negros encontramos diversas matizes; mas

para eles, tudo aquilo que é sagrado para nos, e 0 que é para

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nos impuro é para eles licito» (e vem a mente 0 repiidio todos se diferenciam, da mesma maneira, dos outros liomens

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em todas as feigoes dos seus rostos. Faces redondas, magis

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anglo—saxao pelos comedores de ras franceses, ou o alemao

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do rosto altas, uma testa ligeiramente elevada, nariz curto,

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pelos italianos que abusam de alho). Os hebreus séio <<estra

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largo e achatado, labios grossos, orelhas pequenas, fealdade e

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irregularidade de forma caracterizam o seu aspecto exterior.

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As mulheres negras tem costas muito descaidas e nadegas muito

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eles, circuncidam se (atengao), nao porque seja uma norma
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higiénica ou religiosa, mas <<para marcar a sua diferenga»,
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mais conhecidos parecem ser 0 destino desta raga infeliz: diz

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sepultam os mortos e nfio veneram os nossos Césares. Uma
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se que o ocio, a traigao, a vinganca, a crueldade, a impudén

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vez demonstrado quao diferentes sao alguns costumes reais
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cia, o furto, a mentira, 0 turpiloquio, a devassidiio, a mes


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(circuncisao, repouso no sabado), pode sublinhar—se posterior


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quinhez e a intemperanca terao extinguido os principios da lei


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mente a diferenga, inserindo no retrato costumes lendarios

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natural e terao silenciado as censuras da consciéncia. Sao estra
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(consagram a efigie de um burro, desprezam os pais, filhos, nhos a qualquer sentimento de compaixio e constituem um

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irmaos, a patria e os deuses). terrivel exemplo da corrupgao do homem quando abandonado
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Plinio néio encontra pontos de acusagéio significativos para
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a cometer crimes, mas apenas a fazer acgoes virtuosas. Toda
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O negro é feio. O inimigo deve ser feio, porque se identi


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via, manda os matar, porque nao sacrificam ao imperador,


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fica o belo com o bom (kalo/zagathia), e um dos caracteres

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5&1 e esta obstinacao em recusar uma coisa tio obvia e natural
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fundamentais da beleza foi sempre aquele a que a Idade Media

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estabelece a sua diferenca. '
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chamara depois (isto é, o ter tudo quanto é reque

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Nova forma de inimigo sera, depois, com 0 desenvolvi
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rido para ser um representante médio daquela espécie, pelo


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mento dos contactos entre os povos, nao apenas aquele que
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que, entre os humanos, serao feios aqueles a quem faltar um
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esta fora e que exibe a sua estranheza de longe, mas aquele
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membro, um olho, os que tenham uma estatura inferior 51


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que esta dentro, entre nos — diriamos hoje o imigrante extra


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média ou uma cor <<desumana»). Eis, entao, que, desde o


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comunitario, que, de algum modo, se comporta de maneira
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gigante zarolho Polifemo a0 anio Mime, temos imediatamente

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diferente ou fala mal a nossa lingua, e que, na satira de Juvenal,


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à.
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o modelo de identificacao do inimigo. Prisco de Panio, no
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século v d. C., descreve Atila como baixo de estatura, com

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cheirava mal o sarraceno no Evagatorium in Terrae sanctae,

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um térax largo e uma cabega grande, os olhos pequenos,

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Arabiae et Egypti peregrinationem, de Felix Fabri (século XV):

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a barba fina e grisalha, o nariz achatado e (traco fundamen

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tal) a carnagao escura. Mas é curioso como 0 rosto de Atila

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Os sarracenos emitem um certo fedor horrivel, pelo que se

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se assemelha a fisionomia do diabo, tal como o vé, mais de

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dio a continuas ablugoes de diversos tipos; e, uma vez que nos

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cinco séculos depois, Rodolfo, 0 Glabro, de estatura modesta, nao cheiramos mal, aqueles nao importa que nos banhemos em


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pescoco delgado, rosto macilento, olhos muito negros, testa conjunto com eles. Mas nao sao igualmente indulgentes com os

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hebreus, que cheiram ainda pior. [...] Assim, os fedorentos

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bastante enrugada, nariz achatado, boca saliente, labios intu

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sarracenos ficam contentes por se encontrarem na companhia

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mescidos, queixo estreito e afilado, barba caprina, orelhas

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de quem, como nos, néio cheira mal.

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hirsutas e pontiagudas, cabelos em pé e desgrenhados, denta

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dura canina, cranioalongado, peito saliente, costas corcova



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das (Cronicas, V, 2).


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Cheiravam mal os austriacos de Giusti (recordai <<Vossa

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No encontro com uma civilizagao ainda desconhecida, séio

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Exceléncia, olhais me de través / Por tais poucas gragolas tao
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desprovidos de integritas os bizantinos, vistos por Liutprando
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de Cremona, enviado pelo imperador Otao I a Bizancio, em (_'_)'•


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968 (Relagfio da Embaixada a Constantinopla): Entro e encontro enchente de soldados,

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' desses soldados setentrionais,

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Boémios e Croatas figurados,

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Apresentei me a Nicéforo, um ser monstruoso, um pigmeu
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postos aqui na vinha a paus iguais.
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de cabega enorme, que parece uma toupeira pela pequenez dos

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olhos, é desfeado por uma barba curta, larga, espessa e grisa


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lha, tem o pescogo da altura de um dedo, [...] um etiope pela


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Fiquei p’ra tras, pois que, caido em meio

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cor, <<com 0 qual nao vos quererieis deparar no coragao da
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daquela tal maralha, eu nao o nego

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noite», de ventre obeso, seco de nadegas, com as coxas dema
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siado largas para "a sua pequena estatura, com as pernas curtas, que uma sensagéio de nojo me veio
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que nao provais por graga do emprego.

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os pés chatos, e um traje de camponés demasiado envelhecido,
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fétido e descolorido a forga de o vestir.

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perdoe, Exceléncia, que julguei de sebo,

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naquela bela casa do Senhor,
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Fétido. O inimigo cheira sempre mal, e, assim, Berillon, até as velas do altar mor.
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no inicio da Primeira Guerra Mundial (1915), escrevia um


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La Polychrésie de la Race Allemande, onde demonstrava que


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Nao pode deixar de cheirar mal o cigano, visto que se
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o alemao médio produz mais matéria fecal do que o francés,
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alimenta de cadaveres em putrefacgao, como ensina Lombroso


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e com um odor mais desagradavel. Se o bizantino cheirava mal,
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(L’u0m0 delinquente, 1876, 1, II), e cheira mal, em From

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Russia with Love, a inimiga de James Bond, Rosa Klebb, nio

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o polegar acharado e alongado. (Testamento siriaco di Nostro

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apenas russa e soviética, mas leésbica, ainda por cirna:

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Signore Gesfl Cristo, I, 4, século v)

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Tatiana abriu a porta e, enquanto permanecia de pé e fixava

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O Anticristo nascera do povo dos judeus [...] da uniao de

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o olhar no da mulher que se sentava por tras de uma mesa

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um pai e de uma mée, corno todos os homens, e nio, como se

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redonda, debaixo da luz de uma lampada central, lembrou se

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diz, de uma virgem. [...] No inicio da sua concepgao, o diabo

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de repente onde tinha sentido aquele cheiro..Era 0 cheiro do
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entrara no fitero materno, por virtude do diabo sera alimentado

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metropolitano de Moscovo, numa noite quente, perfume ordi x

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no ventre da mae, e o poder do diabo estara sempre com ele.

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nario, que dissimulava os eflzivios animalescos. Na Rlissia, as

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(Adso de Montier en Der, Epistola ad Gerbergam reginam de

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¢ pessoas ensopam se literalmente em perfume, quer tenham,

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ortu et tempore Antichristi, século X) '

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quer nio tenham tomado banho, mas sobretudo quando nio

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0 tomam [...]. ‘

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Tera dois olhos de fogo, orelhas como as de um burro,

Ci.
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A porta do quarto de dormir abriu—se e <<aquela Klebb» nariz e boca como um. leao, porque enviara aos homens os
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apareceu no limiar [...]. Vestia uma camisa de noite transparente
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actos de loucura do mais criminoso entre os fogos e as pala

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de crepe da China cor de laranja [...] de uma abertura da camisa
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vras mais vergonhosas das contradigoes, fazendo os renegar


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1. ’ emergia um joelho rugoso, semelhante a uma noz de coco ama Deus, expandindo nos seus sentidos 0 fedor mais horrivel,
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".:\' relada, estendido para diante, numa pose cléssica de manequim

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lacerando as instituigoes da Igreja com a mais feroz das

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[...]. Rosa Klebb tinha tirado os oculos e maquilhara 0 rosto cupidezes; escarnecendo com um ricto enorme e mostrando
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com uma espessa camada de creme e de batom [...]. Depois, deu
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horriveis dentes de ferro. (Hildegarda de Bingen, Liber sciz/ias,


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.4 umas palmadinhas ao de leve no sofa, junto de si. <<Apaga a luz

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III, 1, 14, século XII)

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de cima, minha querida. O interruptor esta junto a porta. Depois,
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vem sentar—te ao pé de mim. Temos de nos conhecer melhor.»‘
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Se o Anticristo vem do povo dos judeus, o seu modelo nao

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podera deixar de se reflectir na imagem do hebreu, quer se

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Monstruoso e fedorento sera, pelo menos, desde as origens
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trace de anti semitismo popular, de anti semitismo teologico

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do cristianismo, o Hebreu, visto que o seu modelo é o

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ou de anti semitismo burgués dos séculos XIX e xx. Comece


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Antrcnsto, 0 arqui inimigo, 0 inimigo niio apenas nosso, rnas
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mos com o rosto:

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de Deus:
Em geral, tém 0 rosto livido, o nariz adunco, os olhos

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Estes sao os seus tragos: a cabega é como chama ardente,
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encovados, 0 queixo saliente e os mfisculos constritores da boca


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o olho direito injectado de sangue, o esquerdo de um verde
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fortemente pronunciados. [...] Além disso, os hebreus estéio


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felrno, e tem duas pupilas, as suas palpebras sio brancas, o
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sujeitos a doengas que indicam corrupgao do sangue, como


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lablo rnferror e grande, 0 fémur direito é fraco, os pés grossos,
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outrora a lepra e, hoje, o escorbuto, que dela é afim, as


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escrofuloses, os fluxos de sangue [...]. Diz se que os hebreus
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‘ Ian Fleming, From Russia with Love.
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exalam sempre um mau cheiro [...]. Outros atribuem estes efeitos


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ao uso frequente de legumes decheiro penetrante, como cebola

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menos para a do canto, que parece ter lhes sido negada pela

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e alho. [...] Outros ainda dizem que é a carne de ganso, de que

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propria naturezaz.

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eles gostam muito, que os torna lividos e atrabiliarios, dado

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que nesta comida abundam os agucares grosseiros e viScosos_
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Hitler procede com maior graga, quase nos limites da inveja:

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(Baptiste Henri Grégoire, Essai sur la régénération physique,

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morale et politique des juifs, 1788)

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Nos jovens, o vestuario deve ser posto ao servico da educa

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cao. [...] Se hoje a perfeigao corporea nao fosse remetida para

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Mais tarde, Wagner complicara o retrato com aspectos

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segundo plano pela nossa moda transcurada, nao seria possivel

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fonéticos e mimicos: que centenas de milhares de raparigas fossem seduzidas por

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repugnantes bastardos hebreus de pernas tortas3.

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No aspecto exterior do hebreu encontra se qualquer coisa de
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estrangeiro que repugna, acima de qualquer outra coisa, a esta
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Do rosto aos trajes, eis o inimigo hebreu, que mata as

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nacionalidade; com urn homem que tem um aspecto como aquele
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nao se quer ter nada em comum [...]. E nos impossivel irnaginar criangas e se abebera com o seu sangue. Isto aparece muito

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D
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que uma personagem da antiguidade ou dos tempos modernos, cedo, por exemplo, nos Contos da Cantuziria, de Chaucer,

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heroi ou amoroso, seja representada por um hebreu sem nos onde se relata a historia de um menino, muito parecido com

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»< sentirmos involuntariamente atingidos por quanto ha nisso de o santo Simonino de Trento, que, enquanto passa pelo bairro

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inconveniente, até mesmo de ridiculo, numa representagio do

CL
cr
hebraico cantando O alma Redemptoris Mater, é raptado,
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, r’, género [...]. Mas o que mais repugna é o sotaque que caracte cortam lhe a garganta e é atirado para dentro de um pogo.

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O- CD
-t

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3. riza o falar dos hebreus [...]. Os nossos ouvidos sao particular O hebreu que mata as criangas e se abebera com o seu san
V- 0

O-r)

o
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> '1
1 mente irritados pelos sons agudos, sibilantes, estridentes deste gue tem uma genealogia muito complexa, porque o mesmo
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idioma. Os hebreus usam as palavras e constroem as frases de
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modelo preexistia no cristianismo na construcéio do inimigo
CD

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maneira contraria ao espirito da nossa lingua nacional [...].
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1 interno, o herético. Fiquemo nos por um so texto:

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Escutando os, nos, sem querer, prestamos mais atengao ao seu
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modo de falar do que aquilo que dizem. Este ponto é da maior


o

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De noite, quando se acendem as luzes e, entre nos, se celebra

o.
O

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9O-CDr,

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irnportancia para explicar a impressfio produzida, sobretudo,


;- 0CD'- O-

mal
a paixao, conduzem a uma certa casa as raparigas que introdu
)

ti

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ri'

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O
,0D)

ri)
OQQ)

CDriOOCD
Dd)fl
.

q)ri,
pelas obras musicais dos hebreus. Escutando o hebreu que fala, §
O-

ziram nos seus ritos secretos, apagam as lampadas, porque nao


r)

(1)
)i,)CD

ri)
nos somos, contra a nossa propria vontade, irritados pelo facro
(DQs

querern a luz como testemunha das indecéncias que acontecerao,


"

11

D)

CD

ri)
P'°
de acharmos o seu discurso privado de qualquer expressio e desafogam a propria devassidio em quem calha, ainda que

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O


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verdadeiramente humana [...]. E natural que a congénita aridez


t71'

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O-

O-
sejam irma ou filha. Estao, de facto, convencidos de que praticam

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ri,

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CD
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da indole hebraica, que nos é tao antipatica, encontre a sua


)

CD

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)

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maxima expressao no canto, que é a mais vivaz, a mais autén


Cfl
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tica manifestagio do sentimento individual. Ao hebreu poder

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Z Richard Wagner, Das ]udentum in der Musik (O judaismo na Miisica)

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se ia reconhecer atitude artistica para qualquer outra arte, [1s50].


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3 Adolf Hitler, Mein Kampf, capitulo 2, 1934.

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~ todos respeitam; faz pouco até de Robetti, aquele da segunda, que

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bem o conubio com quem tem o mesmo sangue. Terminado o rito,

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anda de muletas por ter salvado uma crianca. Provoca todos os

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regressam a casa e esperam que tenham passado os nove meses: 1

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mais fracos do que ele e, quando anda ao murro, enfurece se e

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chegado o rnomento ern que deveriam nascer os impios de uma a

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bate para magoar. Tem qualquer coisa que causa aversao naquela

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impia semente, congregam se de novo no mesmo local. Trés dias

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\. testa baixa, naqueles olhos toldados, que traz quase escondidos

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4 depois do parto, arrancam os miseros filhos as suas macs, perfu
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debaixo da pala do seu bonezinho de encerado. Nao tem medo de

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ram com uma lamina afiada "os seus tenros mernbros, recolhem J»

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nada, ri na cara do professor, rouba quanto pode, nega corn uma
em tagas o sangue que deles jorra, queimam os recém nascidos

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é cara antipatica, esta sempre em litigio com alguém, leva para a

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enquanto ainda respiram e lancam nos numa fogueira. Depois, 3%
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cn escola alfinetes de chapéu para picar os vizinhos, arranca os botoes

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misturam nas tagas sangue e cinzas, obtendo uma horrivel mixor ,
do seu casaco, e arranca os aos outros, e joga com eles, e tem

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dia, corn que conspurcam comidas e bebidas, as escondidas, como 2
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pasta, cadernos, livros, tudo amarfanhado, rasgado, sujo, a régua

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quem deite veneno no hidromel. E assim a comunhao deles‘. ,

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dentelada, a caneta mordida, as unhas roidas, os trajes cheios de

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nodoas de gordura e de rasgoes que faz nas brigas [...]. O professor

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finge, por vezes, que naolvé as suas maroteiras, e ele faz pior. Ten

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Por vezes, o inimigo é percebido como diferente e feio
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tou leva lo a bem, e ele ainda fez troga. Disse lhe palavras terri

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porque é de classe inferior. Na Iliada, Tersites (<<de pernas
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veis, e ele cobriu o rosto com as maos, como se chorasse, e ria.

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tortas, coxo de um pé; as costas curvadas e dobradas sobre o
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peito; a cabeca pontiaguda coberta por uma rala penugem»,
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i Iliada, II) é socialmente inferior a Agamémnon ou a Aquiles 0

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Entre os portadores de fealdade devida a sua posigao social

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e, portanto, invejoso deles. Entre Tersites e o Franti de De estao, obviamente, 0 _delin‘q uente nato e a pro~§__ti,__tL1_ta. Mas

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Amicis ha pouca diferenga, ambos feios: Ulisses espanca até com a prostituta entramos num outro universo, o da inimiza
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sangrar o primeiro e a sociedade condenara Franti 51 prisao

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de ou do racismo sexual. Para o macho que governa e escreve,


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perpétua (Edoardo de Amicis, Cuore, 25 de Outubro): ou escrevendo governa, desde o principio que a mulher foi

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representada como inimigo. Nao nos deixemos enganar pelas

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E tem a seu lado um rosto insolente e triste, um que se chama
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mulheres angelicais, pelo contrario; precisamente porque a

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Franti, que foi ja expulso de uma outra secgao [...]. Um unico


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literatura maior é dominada por criaturas belas e dulcissimas,
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podia rir, enquanto Derossi falava dos funerais do Rei, e Franti
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o mundo da satira — que é, alias, o do imaginario popular —

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riu se. Eu detesto o. E malvado. Quando vem um pai a escola dar
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demoniza continuamente a fémea, desde a Antiguidade, ao

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uma repreensao ao filho, ele goza; quando alguém chora, ele ri.
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longo da Idade Média e até aos tempos modernos. Para a

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Treme diante de Garrone, e bate no pedreirinho porque é pequeno;
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Antiguidade, limito me a Marcial (Epigramas, 94):

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atormenta Crossi porque tem o brago morto; troga de Precossi, que v$.IV1’‘!Lw['.>a~¢uI\lvn9z".r_¢"1¥vE.a‘~; lI4'Q\i€

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Tu viveste sob o governo de trezentos consules, Vestutilla;

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4 Miguel Psellos, De operatione daemonum (Sobre a Accao dos Deménios), restam te trés cabelos e quatro dentes, e tens 0 peito de uma
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capitulo IV (século XI).


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cigarra, as pernas e a cor de uma formiga. Andas por at corn

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uma testa que tem mais pregasdo que a tuasestola e seios

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como podemos entao desejar apertar nos nossos bragos um

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parecidos corn teias de aranha [...]. A tua vista é igual a das

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simples saco de excrementos‘!

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corujas pela manha e cheiras mal como os bodes; 0 teu traseiro

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é como o de uma pata ressequida [...]. Nessa vagina so pode

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penetrar 0 facho ftinebre. Da rnisoginia a que chamaremos <<normal», chega se a cons

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@ trugao da bruxa, obra prima da civilizagao moderna. A bruxa
era certarnente conhecida também na Antiguidade Classica, e

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limitar me ei a recordar Horacio (<<Eu proprio vi Ca'hidia,

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at cingida de uma veste negra, os pés nus e a cabeleira solta,

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A mulher é animal imperfeito, enamorada por mil paixoes

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e as ulular com Sagana maior. A palidez tinha as tornado ambas

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larnentaveis e abominaveis até de se recordar, quanto mais

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de horrivel aspecto.» Sermones, 8), ou as bruxas de O Asno

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de pensar nelas [...]. Nenhum outro animal é menos limpo do

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de Ouro, de Apuleio. Mas, na Antiguidade, como na Idade

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que ela: nem o porco, quando chafurda mais na lama, chega

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a imundicie delas; e se acaso alguém quiser negar isto, que Média, falava se de bruxas e de feiticeiros, acima de tudo, em

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1:
observe entao as partes delas, procure os lugares secretos referéncia a crencas populares, corno factos de possessao,
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onde estas, daquelas se envergonhando, escondem os horriveis o- ao fim e ao cabo, episodicos. Roma, nos tempos de Horacio,

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instrumentos que usam para extrair 0s seus humores super nao se sentia ameacada pelas bruxas, e, na Idade Média,
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pensava se ainda, no fundo, que a bruxaria era um feno

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meno de auto sugestao, isto é, que a bruxa era aquela que se

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Se podia pensar assim Giovanni Boccaccio (Corbaccio), acreditava uma bruxa, como dizia, no século IX, o Canon
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lai co e devasso, imaginai vos 0 que haveria de pensar e escre
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ver um moralista medieval para reforgar o principio paulino CD


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Certas mulheres depravadas, voltadas para Satanas e desen

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de que, se alguma vez fosse possivel sem se consumir, o me
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caminhadas pelas suas ilusoes e sedugoes, créem e afirmarn que


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lhor seria nao conhecer nunca os prazeres da carne. |\f1%\aA
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cavalgam certas bestas, a coberto da noite, na companhia de

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Odao de Cluny, no século X, recordava que:
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uma multidao de mulheres, no séquito de Diana [...]. Os sacer


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dotes tem constantemente de pregar ao povo de Deus que estas

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A beleza do corpo esta toda na pele. Com efeito, se os ho
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coisas sao totalmente falsas e que tais fantasias nao sao evocadas

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mens vissem aquilo que esta debaixo da pele, dotados como os
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nas mentes dos fiéis pelo espirito divino, mas por aquelelmal

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linces da Beocia da penetragao visiva interna, a vista das mu
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vado. Satanas, de facto, transforma se ern anjo da luz e toma

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lheres bastaria para se tornar nauseabunda: esta graga feminina .
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posse da mente destas mulherzinhas e dornina as por causa da

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nao é senao saburra, sangue, humor, fel. Considerai aquilo que
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sua pouca fé e descrenga.

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se esconde nas narinas, na garganta, no ventre: por toda a
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parte, imundicies [...]. E nos, a quem causa repugnancia o tocar,


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mesmo so com a ponta dos dedos, o vomito ou 0 estrume,


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5 Collationum Libri Tres, PL, 133, coll. 556 e 648.


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Pelo contrario, é no alvorecer do mundo moderno que a

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deviam ser mantidas segregadas até ao parto e ao desmamar

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dos filhos e, depois, queimadas.»

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sos contra os individuos suspeitos de propagar a peste. Mas

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gueira. Nao sera este o lugar ern que afrontaremos o proble

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o outro aspecto da perseguigao citada de Ginzburg é que,

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