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INTRODUÇÃO

Dentro do âmbito do ensino público, os alunos de ensino médio enfrentam


inúmeras adversidades, muitas dessas sofridas indiretamente através de cortes
orçamentários, formação descontinuada de professores e também sucateamento
generalizado da educação no Brasil. Não deixando de lado os aspectos pessoais de
uma fase tão formadora quanto a adolescência, deve se levar em conta todo o
contexto socio-econômico-familiar dos indivíduos.
É dentro da escola que as maiores possibilidades de incentivo ao
crescimento cognitivo e intelectual são aplicadas e captadas. As matérias, como são
aplicadas e por quem são aplicadas sintetizam a relação da educação e aluno. Essa
troca de saberes é o alicerce que pode ser bem aproveitado ou não.
Com a atual conjuntura dos fatos acerca da legislação educacional, Artes
perde sua obrigatoriedade conquistada em 2016, levantando novamente
preocupações sobre a educação no Brasil. Quais as perdas e consequências dessa
decisão que caminha num sentido oposto ao da construção de uma melhor
qualidade do aprendizado nas escolas? Uma difícil questão que envolveria estudos
e análises a longo prazo, mas os benefícios de uma escola que desenvolva a Arte
dentro de sala de aula são notórios.
Mesmo que a fase da adolescência seja caracterizada por uma maior
abstração e reflexões sobre o mundo que os cerca, os jovens tendem a buscar isso
por si, tendo a escola como carro chefe dos conhecimentos que visam apenas suprir
o cobrado em vestibulares e Enem. Contextos interdisciplinares são a chave para o
desenvolvimento dentro da formação escolar de um estudante de ensino médio. (Ver
Piaget: 1999[1964], pp. 57-65; ver também capítulo 2, adiante).
Ainda com as disciplinas sendo tratadas de forma única e sem conexões
com outras áreas do conhecimento, o simples contato com as formas artísticas e
seus fazeres propiciam significativas elevações de elucubração não apenas dentro
do âmbito das artes, mas também nas outras áreas.

Artes desenvolvem até a inteligência medida pelo teste QI que é apenas uma
parte da inteligência, a inteligência racional. [...] o estudo de Desenho
aumenta a qualidade de organização da escrita; raciocinar sobre Arte
desenvolve a capacidade de raciocinar sobre imagens científicas; a análise
de imagens da Arte propicia a capacidade de leitura mais sofisticada,
interpretação de textos e inter-relacionamento de diferentes textos.
(BARBOSA, 2015, p. 7).

A forma com a qual se analisa o mundo ao redor e suas linguagens é


diferente entre pessoas que têm contato com práticas e conhecimentos artísticos do
que as que não possuem tais. Ao invés de induzir algum tipo de superioridade às
aulas de Artes, devemos tomá-las como grandes auxiliadoras de um maior resultado
que é o crescimento pessoal, afetivo e intelectual dos estudantes das escolas
públicas.
Talvez com as propagações de conhecimentos artísticos, deixaríamos de
encarar a Arte e seus praticantes como elites sociais. A Arte não deve restringir-se
aos salões de concertos ou aos museus e teatros, mas sim nas calçadas e praças.

O trabalho com a Arte no Ensino Médio deve promover o cruzamento de


culturas e saberes, possibilitando aos estudantes o acesso e a interação com
as distintas manifestações culturais populares presentes na sua comunidade.
O mesmo deve ocorrer com outras manifestações presentes nos centros
culturais, museus e outros espaços, de modo a garantir o exercício da crítica,
da apreciação e da fruição de exposições, concertos, apresentações
musicais e de dança, filmes, peças de teatro, poemas e obras literárias, entre
outros. (BNCC - Ensino Médio, 2017, p. 474)

Embora sejam apenas diretrizes curriculares, a Base Nacional Comum tenta


promover uma maior qualidade no ensino e nas abordagens socio-culturais.
Restringir o ensino e aprendizagem aos perímetros das escolas é tolher infindas
possibilidades de conexões com a Arte e a cultura local. As práticas e feituras
artísticas promovem elos semânticos que as clássicas linguagens escritas, que
povoam a maior parte das fontes de conhecimento dentro das escolas, dificilmente
poderiam prover (a não ser em casos raros em que a proposta do autor seja voltada
a objetivos que promovam a interdisciplinaridade). Aliado ao que é proposto em
nossas leis e diretrizes, o mentor ou professor deve estar preparado para tais
possibilidades e também incentivar suas realizações. Tornar o conhecimento
acessível através de atividades e vivências que vão além dos livros é fundamental,
não deixando de lado as bases e fundamentos teóricos.
A importância dessas ideias e propostas é reconhecida pelo Ministério da
Educação, mas o que acontece dentro de sala, no diálogo entre professores e
alunos, raramente coincide com as ações e objetivos sugeridos. Possíveis causas
dessa quebra de unidade entre diretrizes e ensino podem se encontrar no contexto
econômico do estado ou município. Baixos investimentos e incentivos acarretam em
um regresso educacional.
O conteúdo dos livros didáticos e o que é passado em sala de aula é de
suma importância para a formação do jovem, mas muito mais pode ser feito para
auxiliar o aprendizado dos mesmos conteúdos, não excluindo ou restringindo, mas
sim associando conteúdos de diferentes matérias, fortalecendo assim a
aprendizagem do aluno.
Com os estudos analisados por James Catterall, podemos ter uma ideia da
forma que as Artes podem desenvolver os estudos em diferentes áreas do
conhecimento.
Um exemplo atemporal de potencial instrucional de uma conversa
envolvendo arte é o uso de pinturas de época em estudos sociais e livros de
história. [...] É de se esperar que questionamentos de forma reflexiva, assim
como diálogos interpessoais promovidos pela Guernica de Picasso,
promovam entendimentos, iluminações e conjecturas sobre a pintura e seus
vários contextos. (CATTERALL, 2005, p. 4).

A Música, acompanhada de seus estudos e práticas, desenvolve


capacidades de raciocínio matemático e também percepção de espaço-temporal. A
pintura se realiza na tela, a música se realiza no tempo. Sendo ela uma Arte que se
utiliza do tempo em diversos aspectos, a Música direciona a sua análise morfológica
para algo menos concreto que as outras Artes. Claro que podemos transcrever uma
obra musical para o papel, um objeto sólido e com formas visuais, mas a estrutura
do todo de uma peça é “visualizada” não somente pelas partituras, mas pelo
entendimento do praticante e ouvinte, de suas estruturas, formas e arranjos.
Exigindo esse tipo de tratamento, a Música incentiva a análise não do objeto
feito de matéria, mas sim formas de vibrações, como elas se relacionam, suas
fontes, suas durações e pulsos. A proposta de um estudo sobre algo imaterial e que
ocorre não em um espaço, mas no tempo, desencadeia diversos tipos de
pensamentos e abstrações que favorecem o estudo de outras matérias.

“A linguagem presentacional das Artes articula a cognição através da


integração do pensamento racional, afetivo e emocional numa escola a qual
só interessa a linguagem discursiva e científica das evidências.” (BARBOSA,
2017, p. 5).

Segundo o edital do Ministério da Educação que trata da seleção de obras


didáticas para os anos finais do ensino fundamental (2008), o Programa Nacional do
Livro Didático (PNLD) tem o objetivo de prover as escolas das redes federal,
estadual e municipal com obras didáticas de qualidade e é também responsável pela
seleção de livros adequados e que atendam às exigências metodológicas de ensino
e aprendizagem que cada disciplina impõe, constituindo-se em um processo oficial
de avaliação do livro didático que teve início em 1996.
Tendo como base essas diretrizes e exigências, é possível ter uma noção de
como é tratada a relação Arte/Ensino. Dentro das propostas educacionais revisadas
pelo Ministério, é notório o cuidado e pensar posto sobre os currículos escolares,
que são também revistos e analisados por educadores de todo o país. Contrastando
com essa embrionária fase de incentivo do aprendizado, o que ocorre dentro das
salas de aula das escolas públicas do Brasil difere em muito do que deveria ser, de
acordo com as ideias iniciais geridas e fomentadas dentro das instituições
superiores responsáveis por tais.
A importância de diminuir esse abismo entre o que deveria ser e o que é a
educação nas escolas é alta e deve também ser tratada com urgência. Dentro de
diretrizes passadas que tratavam da Música no ensino fundamental haviam tópicos
dedicados ao fazer musical, análise de contextos sociais, história da música no
Brasil, e assim por diante. Muitas dessas “disciplinas” são vistas apenas em centros
de ensino dedicados inteiramente à Música. Escolas Municipais, um curso de
Licenciatura em Música dentro da Universidade e escolas livres de música são os
locais em que se pode encontrar a Arte sendo tratada de maneira próxima ao ideal,
seguindo planos de ensino e focando no aprendizado do aluno. Realidade essa
distante das escolas públicas. A associação da Arte com o ensino raramente ocorre
para a maior parte dos estudantes. O papel do professor de Artes é promover o
ensino e a prática de sua área dentro das escolas, mas a contratação, legislação e
orçamentos da educação forçam a quase inexistência desse profissional. Sem
deixar de notar que o termo “Artes” engloba práticas e disciplinas diferentes entre si.
Artes Plásticas dificilmente serão mestradas por um professor formado em Música e
vice versa. O próprio termo “Professor de Artes” já sobrecarrega o indivíduo, pois
subentende-se que esteja apto a ministrar aulas nas quatro áreas artísticas
aplicadas nas escolas.

No processo de redução do modelo americano para país pobre criou a figura


absurda do professor polivaente que com dois anos de formação deveria
ensinar Música, Artes Plásticas, Artes Cênicas, e Desenho Geométrico a
partir do quinto ano do Primeiro Grau e no que hoje chamamos de Ensino
médio. Claro que não deu certo e as grandes universidades advertiram
imediatamente acerca do absurdo epistemológico de se querer formar
arremedo de Leonardo da Vincis no século XX. (BARBOSA, 2017, p. 1).

Considerando as diversas possibilidades de interseções entre o ensino em


Arte e as demais áreas do conhecimento e o quão benéficas são para o aprendizado
e formação do estudante, este trabalho propõe uma série de estudos e atividades
musicais que, voltadas para o 2º e 3º ano do Ensino Médio, promovam a análise,
reflexão, criação musical e interpretação através de trilhas sonoras de filmes
nacionais. Sem tornar a proposta exclusiva, ou seja, não deixando de lado as
demais disciplinas já aplicadas dentro das escolas, o trabalho sugere trocas de
conhecimento que não ficam apenas dentro do âmbito musical, mas também
histórico, linguístico, filosófico, entre outros.
Diversas as formas pelas quais o conhecimento musical pode transitar e
tomar forma. O principal objeto de estudo será tirado de uma pequena parte, mas de
grande importância, de obras que se utilizam de diversas outras áreas para criar
uma narrativa e entregar o produto final que é uma história.
Atentando para essas informações, este trabalho almeja promover o máximo
de conexões possíveis entre o que já conhecemos como disciplinas escolares e o
ensino artístico.
O trabalho a se desenvolver dentro de sala, com as propostas aqui
apresentadas, terá como base a análise e apreciação das trilhas sonoras de três
diferentes filmes, tanto na parte visual, quanto musical. Seus distintos enredos
também enriquecem as possibilidades de conversações, abrangendo assim variadas
temáticas.
A primeira obra cinematográfica a ser proposta é O Ano em que Meus Pais
Saíram de Férias, um drama brasileiro que retrata eventos fictícios passados no
período da ditadura militar. Sob o olhar de uma criança que se depara com a
ausência da mãe e do pai, que fogem da repressão e decidem deixar o filho com o
avô, a obra trata com leveza toda a atmosfera da época.
A copa do mundo de 1970 serve de fundo para o enredo. Tendo que lidar
com alegrias e tristezas, o menino Mauro não deixa de acompanhar as partidas de
futebol.
As formas musicais estão diretamente ligadas ao que acontece com o
personagem central e ajudam o expectador a entender melhor sentimentos que
talvez ficassem menos claros se somente as imagens tentassem explicar.
A interdisciplinaridade abre possibilidades de discussões complexas e
reflexivas. Sendo passado em um ano no qual o Brasil estava sob um regime
ditatorial, questões como tortura, repressão, perseguição política e exílio podem ser
tópicos em rodas de conversa durante as aulas.
Dentro da nossa sociedade atual, é de grande valia a interpretação de texto.
O analfabetismo funcional é combatido diariamente nas escolas e deve ser também
tratado com seriedade pelos profissionais da educação. Autoritarismo é facilitado
pela falta de análise crítica e interpretativa textual e contextual, sendo assim um
importante alvo de esforços educacionais para que não se repita a história.

Analisar criticamente, por meio de apreciação musical, usos e funções da


música em seus contextos de produção e circulação, relacionando as
práticas musicais às diferentes dimensões da vida social, cultural, política,
histórica, econômica, estética e ética. (BNCC, 2017, p. 207).

O próprio tema da obra pode ser uma novidade para muitos adolescentes. É
fácil estar alheio a fatos ocorridos muito antes de seus nascimentos, mas a
importância de saber o que aconteceu e como aconteceu é vital para que no futuro o
mesmo não se repita.
O filme mostra como uma criança teve que lidar com uma situação atípica
que lhe foi imposta. O que levou ao golpe e como aconteceu também deve ser
levado em consideração na hora de elaborar uma possível aula de história, cruzando
conteúdos como os propostos nesse trabalho de conclusão de curso.
A trilha sonora tem seu formato mais típico e corriqueiro. Não é algo que
quebre barreiras e conceitos propostos pela grande maioria das produções
audiovisuais. Mas não é por isso que a sua análise e elucidações devem ser
consideradas de alguma forma inferiores. Requer profunda interpretação tanto de
enredo quanto de contexto, sempre levando em conta preceitos básicos de
percepção musical. Alturas, quantidade de instrumentos, ritmo, quais instrumentos
foram escolhidos para certos trechos da obra, tudo isso é usado de forma pensada a
colaborar com a narrativa visual.
O segundo filme da lista é Malasartes e o Duelo com a Morte, que gira em
torno do personagem Pedro Malasartes, malandro que não perde a oportunidade de
se aproveitar da ingenuidade alheia. Ambientado em uma atmosfera de folclore
nordestino, a cidade ou mesmo o estado não são especificados pelo roteiro do filme.
A figura de Pedro Malasartes é baseada em uma personagem tradicional
portuguesa e brasileira: sujeito de infindas trapaças e astúcias. Invencível cínico
desprovido de remorso.
Os diálogos são recheados de dizeres e expressões provindas do dialeto que
remonta suas origens na cultura nordestina. Pedro, ao mesmo tempo que tenta
reconquistar o amor de Áurea, irmã do impiedoso Próspero - o qual não aprova a
relação dos dois - não perde uma oportunidade de ganhar às custas dos outros. No
meio desse já rico ambiente, Malasartes se encontra com a Morte, que está à
procura de um substituto.
A família do protagonista relata que Pedro tem um padrinho muito rico e de
grande notoriedade e que no dia que seu afilhado completasse 21 anos, ele traria
um grande presente. Calha que este padrinho de Pedro é a Morte e os dois, com
interesses de naturezas distintas, se confrontam em um duelo não físico, mas de
consequências sérias para ambas as partes.
Com esse ar de fantástico e folclore, a trilha sonora da obra faz uso dos já
sedimentados métodos clássicos de composição cinematográfica. Seu diferencial é
o uso de Leitmotif, ou “motivo” musical. Trata-se de um pequeno trecho musical,
uma frase ou tema, que se aplica quando a aparição de uma personagem, objeto ou
mesmo a evocação de uma ideia é recorrida na trama.

O ritmo, melodia, harmonia, e instrumentação da música podem afetar


fortemente as reações emocionais do expectador. E ainda, a melodia ou
frase musical pode ser associada a um personagem em particular, cenário,
situação ou ideia. (BORDWELL, 2009, p.522).

Se Pedro começa a ter ambições que o caracterizam como malandro, um


pequeno assobio ao fundo indica tal. Se outra personagem entra em cena ou lhe é
citado o nome, a trilha usa o “tema” desta personagem.
Dentro da paisagem, repertório e vocabulário de Malasartes e o Duelo com a
Morte, atividades de Língua Portuguesa podem valer-se da riqueza das inúmeras
formas de expressões linguísticas encontradas nos vários estados da região. O
contato e aproximação com diferentes culturas é terreno fértil para discussões e
buscas de conexões com histórias de outros povos.
O Brasil é um dos maiores países em extensão territorial e não é de se
espantar que haja grandes diferenças no modo de falar de uma região para outra e
até mesmo de um estado para outro. Reconhecer isso e entender os vários
contextos sociais pode ser um caminho para uma melhora pessoal e de respeito às
diferenças.

Dentro de narrativas e relações que complementam contextos sociais, o


terceiro filme escolhido para as propostas de apreciação é O Som ao Redor, o qual
ilustra uma rua que faz alusão aos abismos sociais e também a fenômenos que
tiveram forte impacto na população nos anos de governo Lula: a euforia econômica
e especulação imobiliária. Prédios e condomínios se erguendo ainda em
fundamentos de antigas desigualdades.
“Que ruídos assombram uma classe média amedrontada pela violência?” -
questiona Fabíula Nascimento, no prólogo da entrevista ao Kleber Mendonça Filho,
diretor do filme que com sutileza revela formas concretas e abstratas dessas
questões. Descrito inicialmente como uma crônica pelo diretor, a obra transita entre
perspectivas de pessoas com diferentes origens e contextos.
A relação do visual com o som nesse filme é atípica, ambientando a cena
com “ruídos” que fazem parte do repertório social em que essas personagens estão
inseridas. Ao contrário do que se possa pensar, a ausência de uma trilha sonora
“musical” mais convencional não deixa a sensação de vazio ou de vácuo. Pelo
contrário, por alguns momentos a ambientação sonora diz muito sobre a cena ou
sobre a personagem. Podendo também significar construções de tensão, entre
personagens ou dentro da mente de uma delas.
O próprio título da obra nos induz a analisar com mais atenção essa
abordagem mais voltada aos pensamentos de Murray Schafer:

A música é, sobretudo, nada mais do que uma coleção dos mais excitantes
sons concebidos e produzidos pelas sucessivas operações de pessoas que
têm bons ouvidos. O constrangedor mundo de sons à nossa volta, tem sido
investigado e incorporado à música produzida pelos compositores de hoje.
(SCHAFER, 1986, p. 187).
A princípio a trama não indica uma linearidade que é mais comum nos filmes
de uma forma geral. Começamos acompanhando o início da relação do casal João e
Sofia, que se encontram no apartamento dele, neto do dono da maioria das
propriedades da rua. A rotina é quebrada com a chegada de uma empresa ou
companhia de vigias que começam a trabalhar no local. Paralelamente também é
retratada a rotina da personagem Bia, mãe de família e que tem como maior inimigo
de sua tranquilidade o cachorro vizinho que late dia e noite sem descanso.
Com poucas expectativas, o público do filme é envolvido no cotidiano dessas
personagens e por boa parte do filme não fica claro o que está acontecendo de fato.
Dentro dessas relações pessoais, a trilha sonora usa dos recursos que temos
diariamente em nossas vidas: os sons ao redor. Um carrinho de som vendendo algo,
uma construção em que ferramentas estejam operando, latidos ao fundo, carros
passando, tudo o que nos cerca diariamente. A própria quantidade de “ruídos” que
uma personagem presencia pode estar relacionada com seu status social. O silêncio
só se encontra nos muros fechados e nos mais altos andares de um condomínio.

ADOLESCÊNCIA

Este trabalho apresenta propostas que são direcionadas aos estudantes de


ensino médio, os quais estão passando pela fase mais turbulenta e construtiva que é
a adolescência. Não deixando de lado a individualidade, uma análise mais
aprofundada desse período da vida humana é fundamental para que se possa
entender e assim obter maiores chances de diálogos e troca de saberes.
Sendo precedida pela infância, a fase dos 12 aos 18 anos é o hiato entre a
infância e a fase adulta. Não ser mais tratado ou reconhecido como criança e não ter
também os privilégios e obrigações da fase adulta torna difícil para o indivíduo
reconhecer seu espaço dentro da sociedade. A busca por identidade, as
demonstrações exacerbadas de seus gostos e a contraposição ao “regime” dos pais
definem grande parte do que a maioria dos adolescentes encaram.
No sentido mais voltado à cognição, a infância é marcada pelo empirismo e
as relações com o mundo material. O conhecimento adquirido nessa fase é
diretamente ligado às experiências práticas e suas mecânicas que envolvem objetos
tangíveis. Durante a próxima fase de crescimento, o indivíduo começa a ter contato
com as formas mais abstratas de conhecimento e formulações de teorias. Esse
desenvolvimento de capacidades envolvendo o raciocínio ocorre quando há uma
significativa interação do sujeito com as práticas e experimentos direcionadas ao
conhecimento do objeto. Somente interagir ou experimentar o meio não configura
suficientes condições para o desenvolver da cognição, necessitando ainda de um
exercício do raciocínio ou processo interno de reflexão.
Tomando proveito dessas construções de estruturas de pensamento mais
formais do que as da infância, as atividades aqui propostas se valem da maior
capacidade intelectual dessa fase do indivíduo. Por mais tumultuosa e tempestiva
que essa fase seja, cercando o adolescente com mais questões do que respostas,
as propostas de apreciação musical encaixam-se com esse estágio da vida. O lado
mais material das experiências e seus resultados práticos que a infância trouxe são
deixados para trás e a dedução e hipótese tornam-se ferramentas dentro do
repertório cognitivo do sujeito.
A recente aquisição do poder de elaboração de teorias e reflexões do
adolescente é o que fundamenta a escolha do público alvo deste trabalho.
Objetivando uma análise e apreciação de ferramentas que não habitam o plano
material, as aulas e atividades a se desenvolverem requerem principalmente
abstração e descolamento de ideias do plano material. Segundo os estudos de Jean
Piaget:

[...] o que surpreende no adolescente é o seu interesse por problemas


inatuais, sem relação com as realidades vividas no dia-a-dia, ou por aqueles
que antecipam, com uma ingenuidade desconcertante, as situações futuras
do mundo, muitas vezes quiméricas. O que mais espanta, sobretudo, é sua
facilidade de elaborar teorias abstratas. Existem alguns que escrevem, que
criam uma filosofia, uma política, uma estética ou outra coisa. Outros não
escrevem, mas falam.(Piaget, 1999 [1964], p. 58)

MÚSICA E TRILHA SONORA

Dentro das obras que servirão de alicerce para nossas atividades e


propostas de apreciação, o som e a música desempenham papel fundamental na
elaboração de uma narrativa com maior poder estético e lírico. A maioria dos filmes
traz em sua essência uma história que é retratada visualmente e sonoramente. Com
intuito de cativar a atenção e envolver o espectador, diretores e produtores tentam
organizar as infinitas possibilidades de ambas áreas visuais e sonoras em um
produto final que consiga materializar a melhor dessas combinações dentro do
repertório que o enredo propicia.
Sem tratar uma dar Artes de forma exclusiva e sem diálogo com outras, o
trabalho de um compositor de trilhas sonoras é, ao contrário do que se pensa, não
colocar a música a serviço da imagem, mas sim ajudar de uma forma geral o
fortalecimento de uma narrativa única e fazer com que o que seja assistido e ouvido
necessite de apenas um momento de percepção.

The meshing of image and sound appeals to something quite deep in human
consciousness. Babies spontaneously connect sounds with what they see.
The most basic condition involves timing: if a sound and image occur at the
same moment, they are perceived as one event, not two. (Bordwell, 2010, p.
509)

Dentro do que ocorre dentro de uma obra cinematográfica, o som e seu


tratamento tem o poder de intensificar e reforçar o que é passado apenas com
imagens ou texto. A definição de trilha sonora é por muitas vezes substituída pela
ideia de inserção de músicas com início, meio e fim, assim como em uma novela.
Discos são vendidos com essas músicas, propagando assim tal definição.
Alcançando definições mais assertivas e coesas com os estudos e bibliografias a
respeito do tema, trilha sonora é tudo o que é sonoro na obra cinematográfica,
desde a execução de uma música de fundo no rádio de um carro, sonoplastia, a
escolha dos sons que vão definir o ambiente em que se passa a cena, até os
aspectos sonoros das falas dos personagens, como um sussurro ou um grito.
Com suas características básicas, o som pode denotar distância através da
baixa intensidade na produção daquele determinado som. O barulho de passos se
aproximando em um piso de madeira. Este fazendo uso da alteração de intensidade
do som e do timbre de sapatos andando em madeira. Várias as possibilidades e
poderes que a trilha sonora detém.
Várias são as escolhas que um compositor ou diretor têm que fazer.
Relacionar os timbres, volumes, quantidades, instrumentos, formas sonoras e tudo o
que tange produções sonoras é o que determina o trabalho de um compositor de
trilhas. Se o filme se passa em uma área rural, pouco sentido há em usar músicas
techno para ambientar o espectador. Seria uma quebra, um rompimento entre o que
é visual e o que é áudio.
Em um aspecto mais isolado, os sons usados em um filme têm o mesmo
poder narrativo e também a mesma expliciticidade das palavras usadas nos
diálogos. O timbre da voz de um personagem chave da trama é ouvido ao longe e a
plateia reconhece de imediato a sua presença no cenário. O som da sirene de uma
viatura policial nos diz precisamente o que está acontecendo: chegaram os policiais.
Várias são as formas em que o simples uso de um som pode dar várias informações
para o espectador. O silêncio também é uma ferramenta que pode trazer significado
e profundidade ao que está sendo retratado em cena. No filme Babel, há uma
personagem que possui nenhuma audição. Em um determinado momento ela entra
em uma boate e a câmera a acompanha. Os sons da boate de repente de esvaem e
o ponto de vista é agora da personagem surda. Silêncio absoluto, nenhum traço de
som qualquer. Até com sua ausência, o som pode imputar significado e ajudar a
narrativa a ter mais conteúdo e assim mais camadas de interpretação.
As escolhas sonoras e musicais influenciam diretamente a experiência do
expectador e podem tornar a narrativa mais repleta de significados categóricos,
imputar pontos de vista que apenas a personagem retratado poderia ter ou mesmo
localizar geograficamente e temporalmente a cena em questão.
Até mesmo dentro de um trailer, as escolhas sonoras causam grande
impacto quando as mesmas revelam o retorno inesperado de uma personagem tida
como morta dentro da série de filmes. Guerra nas Estrelas, uma série de nove filmes
com tramas e revelações grandiosas e que trata de uma linha temporal única, com
heróis e vilões, linhagens e aprendizes, revelou em seu primeiro trailer do nono filme
o suposto retorno de um grande vilão, que cronologicamente esteve presente no
início dos eventos retratados, através da inserção de sua característica risada ao
final do teaser, sem acompanhamento da imagem do mesmo. Seu timbre e o modo
como ri nos filmes determinou o imediato reconhecimento por parte dos fãs.
Dentro ainda do design sonoro da saga, o grande embate acontece entre as
forças rebeldes ou resistência contra a opressão e soberania do império e suas
variadas formas. O som produzido pelas naves espaciais das duas alianças é
também alvo de imenso estudo e reforça algo que as imagens também reproduzem:
o poderio imperial traz consigo grandes avanços tecnológicos e a aliança rebelde
vive de sucatas e restos. O próprio teor vilanesco que o imperialismo carrega é
levado em consideração durante as escolhas sonoras. Ben Burtt, editor de som de
Guerra nas Estrelas, diz:
The Empire spaceship sounded a certain way as compared to the Imperial
fleet; that was a deliberate style change. Everybody in the Empire had
shrieking, howling, ghostlike, frightening sounds.... You hear it - you jump with
fear. Whereas the rebel forces had more junky-sounding planes and
spaceships. They weren’t quite as powerful; they tended to pop and sputter
more. (Bordwell, 2010, p. 514-515).

A narrativa sonora toma proveito de contextos sonoros presentes no


cotidiano comum à maioria dos expectadores. Saber como é o som de uma “lata-
velha” ou como seria o som de algo fantasmagórico é algo adquirido tanto em
vivências diárias quanto em obras audiovisuais que tratem da temática. Usar esses
sons sem a sua carga de significado para o público talvez seja uma opção mais
voltada à apresentação de uma história fantasiosa, mundos novos onde nossa
realidade não se aplica e tampouco seus ruídos. A importância desse contexto e sua
análise é tratada nos textos de Murray Schafer. Sua visão, suas análises e propostas
são de grande valia para este trabalho, por se tratar de algo que envolve em grande
escala a percepção e apreciação de ambientações sonoras, inclusive possibilitando
a análise dentro de apresentações audiovisuais.
Fazendo um paralelo ao que conhecemos como música e suas definições
clássicas, Schafer trás em seus estudos a proposta de análise e estudo dos sons ao
nosso redor:

Tais são portanto os enfáticos leitmotifs da sinfonia musical: tráfego aéreo,


guitarras amplificadas, os sons de tempo de guerra e maquinário elétrico.
Esses sãos os grandes blocos sonoros, a linha contínua do som, as armas
letais que agora dominam a composição. Eles demonstram a crueza da sua
orquestração.
Em seguida, os leitmotifs menores: os onipresentes aparelhos de rádio e
televisão, os sons de trânsito nas ruas, o telefone (que Lawrence Durrell
descreveu em Justine como um som pequeno como agulha), o som de
encanamento, de fornalhas, de ar-condicionado. Esses são os sons --
algaravia.
E aqui, no centro de tudo, como uma viola no final de um allegro para
trompete e tambor, estão os sons de nossas próprias vozes. Não faz muito
tempo, cantávamos nas ruas da cidade. Mesmo falar é frequentemente um
esforço violento. O que deveria ser o mais vital som da existência humana
está pouco a pouco sendo pulverizado sob sons que podemos chamar, muito
acuradamente, de “não humanos”. (Schafer, 1992[1986], p. 99)

Com essa estratégia de análise e percepção, Murray assim amplia as


possibilidades de criações musicais e sonoras para os menos versados
musicalmente. A proposta dele é que a todo momento estamos compondo em
conjunto a grande sinfonia que forma por exemplo o som de um parque de
diversões, o som de uma feira domingo de manhã ou até mesmo o silêncio de uma
rua. Esse conceito constrói uma ponte muito eficaz e de baixo custo entre o
indivíduo e suas capacidades de produção, que nesse caso é sonora.
Aproximar o indivíduo de suas próprias produções e criações sonoras é o
que norteia este trabalho. Tendo a criação sonora tão inerente à existência humana,
aproximar o criador de sua criação é essencial para uma maior e mais acurada
análise de aspectos que também são fundamentais para os mais conservatoriais
musicólogos.
Tornar o estudo e ensino de Música algo desligado dos privilégios das elites
é flexibilizar as didáticas e associar as diversas formas e meios em que a Música se
propaga com os fundamentos teóricos acadêmicos. Não são os contextos sociais,
geográficos ou demográficos que vão impedir o indivíduo de ser musicalizado. Com
simples atividades e dinâmicas, turmas de ensino médio que nunca tiveram contato
com o ensino em Música podem sim manipular e conjecturar sobre o uso e
aplicabilidade da Música e sons relacionados à imagens.
Pequenas explanações sobre timbre, altura, duração e intensidade já
carregam imensa carga cognitiva, induzindo o aluno a análises mais elaboradas do
que simplesmente dizer se uma Música ou um som são apropriados ao momento em
cena. Apresentar diferentes formas musicais ou diferentes formas de produção
sonora é também importante para o amadurecimento e encontro com diferentes
contextos musicais e até sociais.
Essas premissas e propostas vão fundamentar as atividades aqui propostas,
com intuito de apresentar novas ferramentas interpretativas e que possibilitem assim
maior autonomia no campo hipotético-dedutivo, usando as trilhas sonoras
selecionadas.

PROPOSTAS DE ATIVIDADES

Dentro do que o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD)


oferece em seu catálogo de obras selecionadas com intuito de promover uma
qualidade na educação, o Cinema é tido como marco importante e de grande
relevância histórica para a sociedade brasileira.
O Brasil, por ser um dos maiores países do mundo em termos geográficos,
contém diversas culturas e influências que vão além das fronteiras. Reconhecer e
perceber essas diferenças e com elas promover um significativo crescimento
humanístico dentro das escolas é também parte do objetivo maior deste trabalho e
suas propostas.
Dentro do PNLD, a temática e discussão sobre Cinema são indicados como
adequados aos anos finais do Ensino Médio. Voltando aos estudos de Piaget,
tomaremos a evolução hipotético-dedutiva como centro dessa escolha do público
alvo. O jovem que acaba de sair da escola e entra na faculdade tem pela frente o
desbrave e a construção de um novo modus operandi que não o que lhe era de
costume quando adolescente e assim podemos ver da mesma forma, resguardadas
as devidas proporções, a transição do Ensino Fundamental para o Médio. O primeiro
ano desta última citada pode ser encarado então como um ano em que o jovem ou
adolescente está sujeito às turbulências de grandes mudanças sociais de seu meio.
Evitando isso e também aproveitando o maior amadurecimento das mais avançadas
idades, o público alvo dessas propostas é formado pelas turmas de 2º e 3º ano do
Ensino Médio.
Levando em conta a temática e contextos das narrativas, os filmes
escolhidos abrangem um considerável alcance, desde algo mais folclórico,
fantasioso e maniqueísta indo até enredos que tratam de discussões de um passado
não tão distante na história nacional e também conflitos cotidianos. A complexidade
desses temas e suas implicações na vida do brasileiro sugerem que o mais oportuno
seja propor essas conversações, apreciações e análises para um público que tenha
já as ferramentas que o torna hábil a receber essas informações, processá-las no
campo hipotético e assim produzir reflexões e até mesmo produtos audiovisuais da
mesma natureza.
O projeto de atividades visa prover um cerne do que é a proposta como um
todo. Podendo assim o educador ou a escola estender e acrescentar conteúdos e
novos objetos de pesquisa e atividades, conforme o tamanho da carga horária que
esteja disponível para a execução do trabalho. Com essa dependência de horários
que variam de escola para escola, adaptar o conteúdo de 5 aulas para um bimestre
se torna uma possibilidade.
Tomando como parâmetro de tempo os 50 minutos que normalmente
compõem o horário reservado para uma disciplina dada ao Ensino Médio, 6
encontros presenciais são necessários para uma satisfatória execução do objetivo
do trabalho e também para o retorno desse conhecimento por parte dos alunos. A
maleabilidade das escolhas referentes à frequência das aulas ou o intervalo de
tempo entre elas é competência do educador, tendo como base a disponibilidade de
horários da escola e da turma.
Dentro do que pode ser um componente de avaliação, cada um dos
encontros é acompanhado de uma sugestão de atividade extra-classe. Algo que
envolva o conteúdo apresentado e que incentive o desenvolvimento da percepção e
análise das mais diversas formas e meios em que a Música transita. Caso a
mediação do conteúdo aqui presente difira das orientações relativas ao tempo das
aulas ou da esporadicidade, as tarefas de casa podem também, assim como todo o
material, serem distribuídas em um mais esparso tempo.
O conteúdo prioritário e introdutório do primeiro encontro se baseia na
comparação de vídeos gravados em diferentes locais. O conceito que deve guiar
essa diferença é o social. Uma vídeo feito na famosa Praça do Baú, no centro da
cidade de Porto Velho, em um horário de pico como o de meio-dia contrasta de
forma significativa com outra gravação feita em um condomínio de classe média-alta
no mesmo horário e dia da semana. Quais as implicações e razões para tais
diferenças notadas? Também sugerir aos alunos que reflitam sobre o contexto do
local e que apontem as disparidades notórias e que apresentem também seus
pontos de vista sobre o que está por trás das diferenças. Essa primeira fase pode
ser chamada de “sons e sociedade”, pois nela serão abordados exemplos e
discussões que permeiam principalmente o social, sem deixar de lado como
obtemos essas referências sonoras através dos parâmetros básicos do som (timbre,
altura, intensidade e duração).
Para enriquecer ainda mais o propósito das apreciações que já carregam
significativas formas de incentivo à análise e ao debate do que é apresentado a nós
a todo instante dentro das paisagens sonoras, antes da apresentação dos trechos
de obras de ficção, é de grande valia criar uma ponte entre o cotidiano e o cinema. E
para desempenhar esse papel nada melhor que um poeta da cidade recitando uma
de suas mais notórias criações no meio da avenida mais movimentada da capital. O
documentário intitulado Vozes da Memória, realizado pela cineasta Raissa Dourado,
traz a marca cultural, que por muitos moradores é desconhecida, da cidade de Porto
Velho. Além do aspecto artístico implícito nas palavras do poeta Elizeu Braga, o
cenário e o ambiente sonoro que o acompanham são praticamente um retrato de
grande importância, tanto para identificação regional quanto para o contato com uma
arte que por muitos é negligenciada. Expor tal trecho do documentário é também
uma forma de propiciar, aos que não tiveram ainda, o contato com esse contexto do
centro da cidade juntamente com o olhar e interpretação de um artista que carrega
consigo grandes questionamentos e também conhece muito bem a história de Porto
Velho e suas atualidades. Ponte essa apresentada ainda no primeiro encontro,
iniciando a transição do som na sociedade para o som nas obras audiovisuais. Ao
final da aula é interessante incentivar os estudantes a apreciar e ouvir com bastante
atenção o que compõe a paisagem sonora de seu caminho de volta para a casa,
depois na própria casa e também na ida para a escola. Notar também que diferentes
horários do dia alteram, muitas vezes de forma drástica, a composição sonora do
local.
Visando uma maior condensação dos conteúdos e sem perder a essência do
projeto, a segunda fase das aulas seria já no segundo encontro. Com maior vastidão
de possibilidades, a relação som e visual naturalmente deve ocupar maior espaço na
grade já reduzida dos horários a se ofertarem para a execução destas aulas. Nunca
deixando de lincar o que é apresentado em sala de aula com o que pode ser
observado e experienciado em casa, ao final de cada aula uma sugestão ou tarefa é
importante para que se dê uma noção de continuidade assim como a de nossas
composições sonoras diárias, solistas e em conjunto, dentro da sociedade.
A segunda fase, que podemos chamar de “som e cinema” (mesmo que
algumas das cenas e obras apresentadas não façam parte propriamente do cinema,
mas que aproveitemos a ideia que o termo “cinema” nos dá: obras audiovisuais) nos
leva ao primeiro filme a ser apresentado. O Som ao Redor é uma boa forma de
suavizar a transição entre a análise do cotidiano sonoro dos alunos e uma análise
voltada agora à uma obra de cinema. Entender que os sons que estão em nosso
contexto social podem fazer parte de uma narrativa significativa e que deve ser
tratada da mesma forma que uma orquestração clássica que comumente
observamos na maioria dos filmes. Dependendo da disponibilidade de horários, o
filme pode ser apresentado em sua íntegra ou em trechos chave que são
substanciais e pertinentes ao trabalho em desenvolvimento. Em seguida uma roda
de conversa sobre o filme, e também sobre assuntos que tenham algum tipo de
ligação com o que foi apresentado, é fundamental para que a interpretação e troca
de saberes sejam assim vistas como uma possibilidade dentro de uma escola
pública de Ensino Médio.
Como complemento à essa segunda aula, uma sugestão que pode ser de
grande valia e até mesmo mais interessante para o público jovem, é uma cena
extraída de uma série de televisão chamada Chernobyl, do ano de 2019 e produzida
pelo canal HBO. Envolvendo todo o contexto histórico do maior acidente radioativo
do planeta, a cena mostra um grupo de voluntários em uma missão suicida dentro
da usina, momentos depois da explosão. O perigo é invisível e só podemos ver suas
consequências. Em uma forma de materializar sonoramente o “inimigo”, a cena
recorre a um instrumento de medição de radiação, o contador Geiger. Quando
detectada radiação pelo instrumento, pequenos estalos ou ruídos são emitidos pelo
aparelho. Quanto maior for a radiação, maior a quantidade de ruídos e estalos que
serão produzidos pelo aparelho. Isso torna o inimigo, ora invisível e intangível, em
algo que pode ser percebido, sem a exibição de suas posteriores consequências.
Essa cena em específico retrata a caminhada desse grupo de voluntários em busca
de uma sala de controle da água. Conforme avança em direção ao seu objetivo, o
grupo se aterroriza com a resposta do contador Geiger, que aumenta
exponencialmente a emissão de estalos, significando um grande aumento de
radiação. Todo o contexto histórico da época pode ser propício para uma aula que
aborde conflitos da Guerra Fria e a influência que a União Soviética tinha para com
seus aliados e/ou subordinados.
Ao final desse segundo encontro novamente uma proposta para casa. Dessa
vez perceber e analisar o uso do som como narrativa em diferentes obras
audiovisuais. Solicitar também que tragam para a próxima aula os exemplos e, se
possível, que sejam apresentados em sala e discutidos no início do terceiro
encontro.