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5ÁA A í I IPPIT

A verdadeira adoração não se origina da necessidade


do homem, mas da dignidade de Deus. Há somente um que se destaca
na história como digno da nossa adoração. Seu nome é Jesus."

C onform e acentua Sammy Tippif, o elemento mais


importante da adoração não é a forma, mas a essência, e esta é
Jesus. A adoração * essencial no andar frutífero com o Senhor" deve
estar arraigada em quem Jesus é.

Este livro analisa aspectos diversos da verdadeira


adoração. Ele oferece ajuda e encorajamento práticos, tanto aos que
buscam um reavivamento pessoal, quanto aos que desejam realmente
saber o que significa adorar em espírito e em verdade.

Sammy Tippit é fundador e presidente de "O Amor de Deus


em Ação", um ministério evangelístico internacional. Seus esforços
têm levado milhares de pessoas a Cristo em várias partes do mundo.
Sammy tem pastoreado igrejas nos Estados Unidos e na Alemanha.
Ele e sua esposa, "Tex", têm dois filhos. Ele é ainda autor de outros
livros, entre eles: Fogo em seu coração: uma chamada à santidade
pessoal e O Fator Oração.

ISBN 0-8297-1691-2
1691-8 Inspirativo
S A A A T T I PP
ISBN-0-8297-1691-2

Categoria: Inspirativo

Traduzido do original em inglês:


Worthy o f Worship

© 1989 por Moody Bible Institute


© 1992 por Editora Vida

Todos os direitos reservados na língua portuguesa


por Editora Vida, Deerfield, Florida 33442-8134 — E.U.A.

Salvo quando outra fonte for indicada, as citações


bíblicas são extraídas da Edição Contemporânea da
tradução de Almeida, da Editora Vida.

Capa: John Coté


Fotografia: Christopher Talbot Frank «3 X
índice

Prefácio .................................................................... 5
1. Chamado à Adoração ........................................9
2. Despertamento Espiritual e A doração . . . 23
3. Digno de Adoração .......................................... 39
4. Falsa Adoração ...................................................55
5. Adoração em Espírito ......................................71
6. Adoração em Verdade ....................................89
7. Sofrim ento e A doração ................................. 103
8. Cântico de Adoração ......................................117
9. Oração e A d o r a ç ã o .......................................... 129
10. Testemunho e Adoração ..............................143
Prefácio

"E n con trei-m e" com Tippit pela prim eira vez
através de seus livros Fire in Your Heart (Fogo em
Seu Coração) e The Prayer Factor (O Fator Oração).
Senti, de im ediato, desejo de conhecê-lo pessoal­
m ente. Conquanto nunca o tivesse encontrado
antes, percebi que seu coração pulsava com o
m eu em questões de santidade de vida, oração,
evangelização, discipulado, e grande com issão.
A gora desejo que você "co n h eça" Sam m y e
sinta por si m esm o seu grande coração dedicado
ao Senhor e à necessidade de adorá-lo de m anei­
ra m ais significativa.
Em bora os cristãos saibam , bem no íntim o,
que devem adorar a Deus, para m uitos, hoje, a
adoração parece prática esquecida, não m ais es­
sencial aos cultos ou às nossas devoções pes­
soais. E m uito fácil orar m ecanicam ente — ou
negligenciar por com pleto a adoração — en­
quanto nossa m ente continua a correr em busca
de outras coisas. G ostam os de bom entreteni­
m ento, até m esm o na igreja. Por isso, em bora
saibam os que devem os direcionar nossa atenção
6 Digno d e Adoração

a D eus e a tu do o que se relacione com Ele, nossa


tendência é negligenciar esses assuntos.
M esm o quando reconhecem a necessidade de
adoração, os cristãos em sua m aioria adm item
que não sabem exatam ente como adorar a D eus
— o que fazer e o que dizer. D everiam os ficar em
pé ou sentados, gritar ou fazer silêncio, expressar
em oção ou perm anecer quietos? Chegam os, às
vezes, até a discutir a form a com o deve ser.
Este livro está voltado para o único O bjeto
verdadeiram ente digno de adoração: Deus! Em
vez de concentrar-nos em nós m esm os ou em
nosso com p anh eiro, podem os concentrar-n os
plenam ente em D eus, porque só ele m erece nossa
ad oração in co n d icio n al. Som ente D eus pode
preencher o profundo anseio hum ano de reco­
nhecer e adorar A lguém dotado de perfeita pu­
reza e santidade.
Digno de Adoração não tenta ensinar passos
específicos ou form as próprias de expressar ado­
ração; antes, salienta a necessidade de adorar a
Deus. O m étodo de adoração, em bora im portan­
te, difere segundo gostos e interesses in divi­
duais.
Sam m y T ippit escreve de m aneira penetrante
a partir de seu coração e de sua experiência com o
evangelista e m inistro internacional. Lendo suas
palavras e sentindo sua em oção, o cristão sente-
se inspirado a adorar mais e m ais o Rei dos reis.
A adoração traz recom pensas, e a m aneira origi­
nal com o Tippit trata do assunto torna-as reais.
Este livro conduz o leitor ao pé do trono de
Prefácio 7

Deus, e de maneira envolvente com unica a alegria


de estar ali. De todo coração recom endo-o aos
cristãos em toda a parte.

Bill Bright
Fundador e Presidente
Cruzada Internacional Estudantil para Cristo
Chamado à Adoração

No verão de 1965 ajoelhei-me diante do púlpito


de um a grande igreja em Baton Rouge, Louisiana.
Naqueles m omentos tranqüilos inclinei-me diante
do Criador e depositei m inha fé e confiança em seu
Filho Jesus. A partir daquela data m inha vida nun­
ca mais foi a mesma.
Porém, m uitos de meus amigos achavam que
eu simplesmente havia tido um a experiência em o­
cional. Eles tinham plena esperança de que eu
estaria de volta às festas do clube estudantil uni­
versitário, do qual eu era membro. Sabiam muito
bem do quanto eu gostava de festas, mulheres e
álcool. Um de meus amigos riu-se de m im após
saber que eu havia recebido Jesus em m inha vida.
Disse-me:
— Tippit, dou-lhe duas semanas para você estar
de volta à velha vidinha de sempre. Esse negócio
de religião sim plesmente não funciona. E tudo
um a questão emocional. Esqueça-se de Jesus. Va­
mos descer à praia no próximo fim de semana.
Vamos embriagar-nos e nos divertir à vontade.
Venha conosco.
10 Digno d e Adoração

— Não posso — respondi-lhe. — Encontrei-m e


com o Filho do Deus vivo. N unca havia conhecido
antes alguém como ele. Quero estar na igreja no
fim de sem ana para adorá-lo. A inda não o entendo
de todo. Tudo quanto sei é que ele me transform ou
por dentro, e eu o amo. Ele é tão maravilhoso!
M eu amigo foi para a praia e embebedou-se
naquele fim de semana junto com outros. N a noite
da segunda-feira seguinte ele me telefonou, per­
guntando:
— Sammy, você pode dar um a chegada à m inha
casa? Preciso falar com você.
Ao chegar lá, foi logo me dizendo:
—Tudo quanto eu pude pensar a respeito deste
fim de sem ana foi o que você m e disse acerca de
Jesus. Preciso de Jesus.
Juntos nos ajoelhamos e oramos. Ele confessou
sua situação pecaminosa e sua necessidade do Sal­
vador. Naquele momento sua vida foi radicalm en­
te transformada. Nós dois havíamos sido transfor­
mados de rebeldes em adoradores do Rei da glória.
Nos meses seguintes teve início a jornada que me
tem levado a viajar durante os últimos vinte e
quatro anos.
Nessa jornada tenho conseguido conhecer na
intimidade o único que é digno de nossa adoração:
Jesus Cristo. D ia após dia tenho aprendido a am á-
lo e reverenciá-lo mais e mais.
Naqueles primeiros dias de m inha fé cristã não
sabia muita coisa a respeito da Bíblia ou da natu­
reza de Deus. Contudo, os cultos da igreja m exiam
comigo. Foi durante esses trabalhos que vim a
Chamado à Adoração 11

conhecer mais acerca do amor do Salvador por


mim.
Meus amigos e eu começamos a nos reunir
num a pequena colina de onde podíamos ver um
lago próximo ao palácio do governo de nosso es­
tado. Líamos a Bíblia, decorávamos trechos dela, e
buscávamos a face de Deus. Aqueles foram alguns
dos mais preciosos momentos de m inha vida, du­
rante os quais com ecei a descobrir quem é Deus.
Nesses momentos aprendi a reverenciá-lo e a ado­
rá-lo.
Cada período de férias dava-me a oportunida­
de de conhecer e entender melhor o Salvador.
Durante meu prim eiro Natal com o evangélico,
juntei-m e a alguns amigos para um a reunião de
oração num a pequena igreja rural. Foi emocionan­
te com preender pela primeira vez o verdadeiro
significado do Natal. O Natal passou a ser época
de adoração ao invés de meramente tem porada
para comprar, vender, dar e receber. Foi deveras
m aravilhoso poder conhecer o Deus que nos amou
ao ponto de dar-nos o seu Filho para que morresse
em nosso lugar.
A vida assum iu rum o inteiramente novo. Eu
havia descoberto por que fui criado; nasci para
conhecer, amar e adorar o Senhor Deus. Comecei
a testemunhar a amigos e colegas — e fazia isto não
com o obrigação da vida cristã, mas com o ato de
adoração. Eu o conhecia e sim plesmente desejava
que outros o conhecessem.
Certo dia, num a classe de oratória na universi­
dade, foi-nos solicitado um discurso informativo.
12 Digno d e Adoração

Devíamos descrever uma pessoa a quem havíamos


encontrado, um livro que havíamos lido, ou um
acontecim ento do qual havíamos participado. Fa­
lei sobre a Pessoa que acabara de conhecer. Falei
de seus atributos e características, mas não contei
quem era ela até chegar ao fim do discurso. Con­
cluí, dizendo: "E le é o Criador do Universo. Seu
nome é Jesus." Recebi nota baixa pelo discurso
porque o professor disse que se tratava mais de um
discurso inspirativo do que informativo. Deixei a
classe regozijando-me porque meu professor ha­
via sido inspirado pela m ajestade do Deus que eu
conhecera.
Foi naqueles dias de formação de m inha vida
cristã que com ecei a entender a alegria, o significa­
do e os princípios da adoração. Comecei a entender
que o chamado que Deus nos faz é um chamado à
adoração. A obra salvífica no coração do hom em
transform a pessoas rebeldes, teimosas e obstina­
das em santos humildes, obedientes e adoradores.
O cham ado à adoração é universal e eterno. É
dirigido a todas as pessoas, em cada geração, nação
e tribo. E o chamado mais elevado que pode ser
feito a um indivíduo. Deus cham a a cada um de
nós, e, com o verdadeiros adoradores, devemos
estar atentos a esse chamado divino.
Se vamos obedecer ao chamado de Deus à ado­
ração, necessitamos entender algumas verdades
fundamentais acerca do assunto. Em prim eiro lu­
gar, devemos entender a base da verdadeira ado­
ração. Ela não se origina da necessidade do ho­
m em , mas da dignidade de Deus. Com m uita
Cham ado à Adoração 13

freqüência afirma-se hoje que realm ente não im ­


porta em que cremos: importante é que creiamos.
Tal filosofia indica que o objeto da adoração não é
significativo, e que importante mesm o é o ato de
adoração.
Este modo de pensar tem sido a tragédia da
história humana. Líderes têm caminhado através
das páginas da história exigindo lealdade e reverên­
cia. Eles têm dito às suas gerações: "Sigam-me. "A l­
guns têm sido bons dirigentes, e outros, tiranos.
Todavia, nenhum líder humano é digno de ado­
ração e lealdade absolutas. Há somente um que se
destaca na história como digno de nossa adoração.
Seu nome é Jesus.
U m velho pastor luterano, alemão, disse-me
certa vez que durante a Segunda Grande Guerra
recusara-se a proferir "H ail H itler", porque so­
m ente Jesus é digno desse tipo de lealdade e reve­
rência. Foi para a cadeia por entender que a verda­
deira adoração está arraigada na dignidade do
único que deve ser adorado. Muitos contem porâ­
neos do pastor achavam que era loucura da parte
deis recusar-se a adorar um dirigente político.
Contudo, o tempo e a história provaram que ele
estava certo. É de extrem a im portância conhecer o
caráter e a essência daquele a quem adoramos.
Tenho viajado por muitas nações ao redor do
mundo, e nos povos de cada cultura tenho desco­
berto esta m esm a necessidade básica de adorar.
Ela está presente em todos os povos, dos mais
obscuros aos mais sofisticados. Há, dentro do ho­
mem, algo que diz: "Q uero conhecer o desconhe­
14 Digno d e Adoração

cido. Deve haver algo maior e mais im portante do


que eu." Conseqüentemente, as pessoas se encon­
tram adorando deuses de m adeira e de pedra,
governos, gurus, ou líderes políticos e sociais. A
necessidade de adorar é um a das maiores necessi­
dades do homem.
A. W. Tozer disse: "O ardente desejo de conhe­
cer o que não pode ser conhecido, de com preender
o incompreensível, de tocar e provar o gosto do
inabordável surge da imagem de Deus na natureza
do homem. Um abismo cham a outro abismo, e
embora poluída e corrom pida pelo poderoso de­
sastre que os teólogos cham am Queda, a alma
sente sua origem e anseia por voltar à sua F o n te."1
Há, contudo, grande problema com um à raça hu­
m ana inteira. A Bíblia diz: "N ão há justo, nem
sequer um; não há quem entenda, não há quem
busque a Deus; todos se extraviaram, à um a se
fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há
nem um sequer" (Romanos 3:10-12).
Que palavras difíceis de engolir! Mas quando
somos realm ente honestos, sabemos que elas são
verdadeiras. O pecado trouxe m aldição sobre a
humanidade. Ele distorceu os padrões de pensa­
mento do homem, suas emoções, e sua capacidade
de conhecer a Deus. H á um abismo entre nossos
pensamentos impuros e Aquele que é a pureza
absoluta. É-nos impossível — a nós que vivem os
nos altos-e-baixos emocionais — compreendê-lo.

1 A. W. Tozer, The Knowledge of the Holy (Nova York: Harper &


Row, 1961), p. 9.
Cham ado à Adoração 15

Somos mutáveis, ele não muda. Somos insuficien­


tes, ele é totalmente suficiente. Muitas vezes tom a­
mos decisões erradas, mas somente ele é santo.
Por conseguinte, nossa natureza m oral inteira
foi atingida pelo pecado. O Bispo J. C. Ryle, pre-
eminente escritor e pregador cristão do século de­
zenove, disse: "O pecado é uma enfermidade que
penetra e corre através de cada parte de nossa
constituição moral e de cada faculdade de nossa
mente. O entendimento, as afeições, os poderes de
raciocínio, a vontade, todos são, de um a maneira
ou de outra, contam inados."2
Devido à natureza decaída do homem, a adora­
ção se tornou distorcida. Ela passou a ser um meio
de acobertar a im pureza na consciência do homem,
ao invés de ser expressão da adoração pura e reve­
rência pelo Criador. O hom em tem arquitetado
sistemas meticulosos de adoração e irá a extremos
tentando remover as manchas do pecado.
Certa vez, quando eu pregava na índia, viajava
de automóvel para a cidade onde deveria pregar
nas reuniões evangelísticas. Havia dezenas de m i­
lhares de pessoas cam inhando nas estradas. Per­
guntei ao meu colega indiano aonde ia toda aquela
gente. Disse que iam a um templo hindu, distante
cerca de cinqüenta quilômetros. Perguntei-lhe por
que todos andavam a pé. Disse-me ele que tenta­
vam m erecer m elhor "karm a" (boas obras) na es­
perança de um a vida futura melhor. Quanto mais

2 J. C. Ryle, Holiness (1879; reimpressão, Grand Rapids, Mich.: Baker,


1979), p. 5.
16 Digno d e Adoração

se sacrificavam caminhando, tanto mais "karm a"


mereceriam.
C ontudo, poderiam os cam inhar um a volta
completa ao redor da terra, e isso não rem overía
de nós a m ancha do pecado. O pecado deixou sua
m arca em cada um de nós. Ele está em nossa
própria natureza, de modo que toda tentativa de
adoração fracassaria miseravelmente.
No m undo ocidental discute-se muito sobre a
expressão da verdadeira adoração. O verdadeiro
adorador levanta as mãos ou permanece silencio­
samente sentado? Deve cantar hinos tradicionais
ou modernos? Receio que nenhuma dessas coisas
constitua por si só a verdadeira adoração. N e­
nhum a dessas atividades pode remover a nódoa
do pecado na alm a humana.
A m ancha do pecado deve ser removida antes
que possamos compreender a natureza da verda­
deira adoração. Deus proveu o modo de nossos
pecados serem removidos. Ele deu-nos seu Filho,
Jesus, que viveu uma vida sem pecado, santa, per­
feita. Ele morreu num a cruz cruel, foi sepultado, e
ressurgiu do túmulo. Subiu ao alto e está à direita
do Pai celestial. E o Cristo histórico e também o
centro da adoração celestial. E seu sangue que
pode remover a nódoa do pecado. E m ediante
Jesus Cristo que podemos experimentar a verda­
deira adoração. E por sua graça que podemos en­
trar na presença de um Deus santo.
Portanto, a verdadeira adoração não se origina
no homem. Sua origem está em Deus. A adoração
é o resultado da graça de Deus aplicada ao coração
Cham ado à Adoração 17

do homem; ela flui do coração que já recebeu a


graça de Deus. O tem a-canção para o verdadeiro
adorador se torna "G raça admirável, quão doce o
som que salvou um infeliz com o eu. Outrora eu
estava perdido, mas agora fui achado." Não tive
de buscar tão longe e tão afastado para que o
encontrasse; não me tornei tão bom para que pu­
desse adorá-lo. Ele me achou e me agraciou. Gra­
tuitam ente me perdoou, e gratuitamente eu o ado­
ro e amo. Não é meu estilo de adoração nem meu
serviço a ele que me fazem um verdadeiro adora­
dor. E sua adm irável graça.
Depois de ver aquela multidão de hindus ca­
minhando para o seu templo, tive oportunidade de
falar a outra grande reunião de hindus. Disse-lhes
que eu tam bém havia feito um a peregrinação na
vida. Eu havia buscado aquele que seria digno de
absoluta lealdade e adoração, e nada havia encon­
trado. Falei do sentim ento de culpa em relação ao
meu pecado que me havia infestado, muito embo­
ra desejasse ser um verdadeiro adorador. Ouviam
atentamente quando eu disse: "M as um dia m inha
peregrinação chegou ao fim. O Único digno achou-
me. Seu nome é Jesus. Ele é Deus que veio em
form a humana. E cheio de graça e de verdade. E
o puro, o Santo que morreu por nossos pecados.
Ressurgiu do túmulo para vencer a m orte, e ele
estende sua graça a você a fim de purificá-lo de
todo pecado. M ediante sua graça, Jesus, o Digno,
pode fazer de você um verdadeiro adorador."
Fiquei surpreso quando os hindus com eçaram
a aplaudir. Para eles era boa nova. E é boa nova
18 Digno d e Adoração

para todos os povos. A verdadeira adoração flui


como um rio caudaloso do coração que recebeu a
graça de Deus. Quando contem plam os o Cordeiro
de Deus que tira os pecados do mundo, tornam o-
nos verdadeiros adoradores.
Esta é a verdade que no decorrer dos séculos
tem despertado a igreja cristã para adoração autên­
tica. O Conde Ludwig von Zinzendorf, o grande
líder m orávio do século dezoito, foi com ovida-
m ente atingido quando reconheceu esta bela ver­
dade. Ele viu um retrato de Cristo com a legenda:
"C risto m orrendo na cruz." Ele olhou para o qua­
dro e leu: "F iz isto por ti; que fazes tu por m im ?"
Pelo restante da vida Ludwig confessaria: "N ão
tenho senão uma única paixão: é ele e som ente
ele."3
Quando nosso coração for lim po pelo am or e
pela graça de Deus, nós também não teremos senão
um a única paixão: o amor e a adoração do am ável
Senhor Jesus. Não muito tempo depois que conheci
o am or de Deus e o perdão em Jesus, ouvia um
cântico que falava da natureza de Jesus. Dizia que
ele, o Filho de Deus, podia ter chamado dez legiões
de anjos para tirá-lo da cruz. Mas em seu m aravi­
lhoso amor, ele morreu por nós. Naquela noite fui
para um lago ali perto e passei o resto da noite em
oração. Enquanto m editava na cruz, a única coisa
que eu fazia era chorar. Pensei no infinito amor que
Deus tem por nós. O amor e adoração a Jesus

3 Martyn Lloyd Jones, The Cross (Westchester, Illinois: Crossway,


1986), p. 61
Cham ado à Adoração 19

com eçaram a fluir do meu coração enquanto eu


reconhecia quão maravilhoso ele é.
Comecei a adorá-lo, mas não porque tivesse
m edo dele. Nem foi por achar que ele m e castigaria
se não o adorasse. Eu o adorei porque só ele é digno
de m inha adoração. E o Digno amou-me muito
tem po antes que eu pensasse em adorá-lo. Quão
bom ele é!
O Cordeiro de Deus é o centro da adoração no
livro do Apocalipse, quando os salvos se reúnem
em torno do trono de Deus. Há um denominador
com um em toda a verdadeira adoração: o Cordeiro
de Deus que tira os pecados do mundo.
Tantas vezes os cristãos se acham divididos por
formas de adoração. Estamos divididos por méto­
dos culturais, raciais, geracionais, nacionais, e de-
nominacionais de adoração. A pesar disso, nossa
unidade com o cristãos jamais será encontrada na
form a exterior de adoração, mas na essência de
nossa adoração. A adoração está arraigada em
quem Jesus é. Estou convencido de que se nos
concentrarmos nele, teremos melhor amor e apre­
ço uns pelos outros.
Viajo com m uita frequência entre diferentes
culturas, nacionalidades, idades, e grupos raciais.
Em todos esses grupos tenho encontrado pessoas
cujas vidas foram transformadas pela m aravilhosa
graça de Deus. Esta graça é que tem feito deles
verdadeiros adoradores. Aprendi am ar e estimar
pessoas de diferentes culturas que adoram de di­
ferentes formas. E o amor que flui do Cordeiro de
Deus que nos congrega e nos faz um só povo.
20 Digno d e Adoração

U m dia todo o povo de Deus — de toda origem


racial e étnica, e de todas as gerações — há de
reunir-se ao redor do trono de Deus. Todos nós
cantaremos a mesma canção: "D igno é o Cordei­
ro ." Será interessante conhecer a obra da graça no
coração de muitos santos através de tantas gera­
ções.
U m de meus passatempos é a leitura de biogra­
fias de homens e mulheres de Deus de gerações
passadas. Servem-me de lembrete de que Deus não
mudou. Ele não somente é o Digno hoje, mas sem ­
pre o foi e sempre o será.
U m homem de Deus do século dezenove desta-
ca-se com o um troféu da graça de Deus. O Salva­
dor encontrou a Billy Bray. Em virtude do amor de
Deus derramado na alma de Billy, ele disse: "N ão
posso deixar de louvar ao Senhor."
Billy era ébrio. Ele costum ava passar as noites
bebendo. Tinha pavor de deitar-se porque tem ia
acordar no inferno. Certa vez um amigo referiu-se
a ele nestes termos: "Ele era o mais selvagem, o
mais atrevido e implacável de todos os homens
implacáveis e atrevidos."4 Depois que Jesus sal­
vou Billy deste tipo de vida, Billy não se desgruda­
va de dois companheiros constantes: A Bíblia e o
hinário. Ele se apaixonou pelo Salvador. Não po­
dia deixar de adorá-lo.
No que concerne à sua salvação, Billy disse:
"N um instante o Senhor me fêz tão feliz que não

4 F. W. Boume, The Life of Billy Bray (Monmouth, Gwent, R . U.:


Bridge, 1987), p. 3.
Cham ado à Adoração 21

consigo expressar o que sinto... Louvei a Deus de


todo o meu coração pelo que ele havia feito a um
pobre pecador com o eu ."5
Certa vez Billy disse a um grupo de cristãos:
"N ão posso deixar de louvar ao Senhor. Quando
caminho pela rua, levanto um pé e ele parece dizer
'G ló r ia !'; lev an to o ou tro e ele p arece dizer
'A m ém '; e assim continuam eles todo o tem po que
ando. "A outro grupo ele leu a prim eira linha de
um hino de Charles Wesley: "M il línguas eu qui­
sera ter para entoar louvor..." e depois acrescen­
tou: "Im aginem só, são 999 línguas mais do que
tenho!"
Billy Bray foi hom em simples que atendeu ao
apelo de Deus. Pela graça de Deus ele foi transfor­
m ado de rebelde em adorador. O cham ado de
Deus não mudou porque o Único digno de nossa
adoração não mudou. Se alguma vez quisermos
descobrir a alegria da adoração que Billy Bray
experimentou, devemos curvar-nos diante de Je­
sus, o Cordeiro de Deus, Ele nos lim pará de nossos
pecados e nos introduzirá na presença de Deus.
Então, humildemente, o adoraremos de todo o
nosso coração, dizendo: "T u és digno!"

Ibid., p. 6
Com nossa perda do sentido de majestade veio a perda
da adoração religiosa e da consciência da Presença divi­
na. Perdemos nosso espírito de adoração e a capacidade
de recolher-nos interiormente para nos encontrarmos
com Deus em silenciosa adoração... É impossível conser­
var sadias as nossas práticas morais sadias e nossas
atitudes interiores enquanto nossa idéia de Deus fo r
errônea e inadequada. Se quisermos trazer de volta o
poder espiritual às nossas vidas, devemos começar a
pensar em Deus mais próximo como de fato ele está.

A. W. Tozer,
The Knowledge ofG od

Então disse eu: Ai de mim! Estou perdido! porque sou


homem de láhios impuros, habito no meio de um povo de
impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor
dos Exércitos!

Isaías 6:5
2
Despertamento Espiritual
e Adoração

A grande necessidade de toda e qualquer gera­


ção é de um verdadeiro conhecimento de Deus.
Sem este conhecimento, o mundo perde seu signi­
ficado e a igreja cai num estado de apatia. Hoje,
grande parte da igreja caiu nesse estado. H á neces­
sidade de um grande reavivamento entre o povo
de Deus. O reavivam ento nos leva de volta, como
povo de Deus, ao nosso objetivo original. Ele leva
o cristão a adorar a Deus em simplicidade e com
devoção oriunda das profundezas do coração. O
filho de Deus é colocado no caminho da santidade
quando prova o gosto da santidade de Deus.
A m edida que a igreja se prepara para entrar no
século XXI, ela necessita de uma áura de reaviva­
mento. Devemos recapturar este objetivo original;
A m ar "o Senhor teu Deus de todo o teu coração,
de toda a tua alma, e de todo o teu entendim ento"
(Mateus 22:37). M uitos cristãos da presente gera­
ção assem elham -se aos efésios, aqueles a quem
Jesus se dirigiu no segundo capítulo do Apocalip­
24 Digno d e Adoração

se. Os efésios haviam suportado circunstâncias


difíceis e perm anecido ortodoxos em sua fé. Je ­
sus, porém , lhes disse que necessitavam arrepen­
der-se por haverem deixado o prim eiro am or.
N ecessitavam de reavivam ento para reacender
no coração a cham a da reverência e da adoração
ao Senhor Jesus.
A situação hoje não é m uito diferente. Há
dem onstrações de que a igreja da presente gera­
ção necessita tam bém de um grande reavivam en­
to. Cinco sinalizadores apontam -nos a necessida­
de desse despertam ento.

Sinalizador n2 1: Ter uma Visão Imprópria


das Circunstâncias
A igreja de Éfeso havia passado por grandes
provações e circunstâncias difíceis. N ão obstan­
te, ela havia perdido a visão da beleza do Senhor
Jesus no m eio das dificuldades. Se a igreja ali O
tivesse m antido perto naqueles tem pos de pro­
vação, nunca Jesus diria dela: "A bandonaste o
teu prim eiro am or" (A pocalipse 2:4).
N ós, tam bém , deixam os de m anter o Senhor
Jesus perto de nós nos tem pos de tribulação.
Tem os necessidade de atentar para as palavras
de Thom as Kem pis: "Fech a a tua porta sobre ti e
invoca a Jesus, teu am or. Q uando Jesus está per­
to, toda a bondade está tam bém e nada parece
difícil; mas quando ele não se acha por perto,
todas as coisas são difíceis. Se Jesus profere um a
palavra, há grande consolo. Estar sem Jesus é um
inferno angustioso, e estar com Jesus é doce pa­
D espertam ento Espiritual e Adoração 25

raíso. Se Jesus estiver contigo, não há inimigo para


ferir-te."6

Sinalizador ne 2: Permitir que as Circunstâncias


Obscureçam a Glória de Deus
Deus nunca prometeu que os cristãos estariam
isentos das circunstâncias difíceis. Os tempos de difi­
culdades devem ser esperados. As provações vêm a
nós como cristãos. E muito fácil, porém, que o cristão
perca o foco durante os tempos difíceis. E fácil concen­
trar-nos nas circunstâncias e perder a beleza de Cristo.
Começamos, então, a desviar-nos de nosso prim ei­
ro amor. A adoração do Único digno torna-se mun­
dana, e então necessitamos de reavivamento.
V i este princípio exem plificado certo dia na
Alem anha. Eu passava uns dias num a pequena
aldeia em região m ontanhosa onde nevava com
freqüência durante o inverno.
Eu praticava "C oop er" regularmente com um
grupo de rapazes da região. Um dia, quando saí
para nossa corrida diária, o terreno estava coberto
com cerca de trinta centímetros de neve recente. A
prim eira meia hora de nossa corrida foi um a com ­
pleta luta. Tem eroso de tropeçar na neve, eu me
arrastava com dificuldade, m antendo os olhos fi­
xos no chão. Cada passo se tornava mais difícil.
Eu estava quase a exaurir quando olhei para
cima, e não podia crer nos meus olhos. Podia ver a
um a distância de quilômetros. As casas, as m on­
tanhas, as árvores e as estradas estavam im acula­

6 Conforme citado em Warren Wiersbe, Listening to the Giants (Grand


Rapids, Mich.: Baker, 1980), p. 101.
26 Digno d e Adoração

damente brancas. Tudo reluzia refletindo a luz do


sol. A vista era magnífica, e eu estava emocionado.
Resolvi ir mais devagar, andar mesmo, se necessário,
a fim de manter os olhos no esplêndido cenário. Um
exercício penoso transformou-se num imenso delei­
te. A diferença estava simplesmente no ponto onde
eu focalizava meu olhar.
Muitos cristãos hoje suportam provações. Alguns
desses crentes perderam a alegria da vida cristã
porque focalizaram o lugar errado. Eles se têm fixa­
do em suas provações e dificuldades por tanto tem­
po que a vida cristã se tornou penosa. Precisam ir
mais devagar, parar, e contemplar a beleza de Jesus.
Há duas coisas das quais o cristão pode estar abso­
lutamente seguro. Em primeiro lugar, haverá dificul­
dades na vida cristã. Em segundo lugar, Jesus estará,
com ele nessas dificuldades. A beleza e a majestade de
Deus podem ser vistas com o máximo de clareza nos
tempos de tribulação. A unica coisa que o filho de
Deus tem de fazer é erguer os olhos e ver a glória de
Cristo. Não há motivo para que o cristão ignore suas
provações como se elas não existissem. Ele simples­
mente necessita reconhecer a soberania de Deus no
meio de suas dificuldades.
Os mais profundos e os mais puros momentos de
adoração ocorrem, muitas vezes, em meio às prova­
ções e lutas. E nesses tempos que avaliamos os sofri­
mentos de Jesus. Devemos, portanto, aprender a olhar
para Jesus nos momentos difíceis de nossa vida.

Sinalizador na 3: Buscar Experiências


O terceiro sinal da nossa necessidade de reavi-
vam ento espiritual é a busca de uma experiência
D espertam ento Espiritual e Adoração 27

espiritual estética em vez de uma vida santa. Nada


há de errado na experiência de adoração profun­
dam ente emocional. Mas a busca de experiência de
adoração, induzida pelo louvor, de sorte que te­
nham os um "sentim ento" superficial de paz, não
é verdadeira adoração.
Isto não quer dizer que o cristão deixará de
experim entar paz quando adora. Alegria e paz são
subprodutos naturais da adoração. A alegria é fru­
to de entrarm os na presença do Senhor. A paz é
resultado do relacionamento correto do cristão
com Deus. Ficaríamos emocionados ao receber um
convite para uma audiência privada com Sua M a­
jestade a Rainha Elizabeth II. Nós nos prepararía­
m os com todo o cuidado, vestiriamos com esmero,
falaríam os respeitosam ente, e seríamos gratos pe­
lo privilégio desse encontro.
Há, porém, um a emoção e um excitam ento ain­
da m aior quando entram os na presença do Rei dos
reis. Um dia os anjos e todos os remidos exclam a­
rão: "Salve o Rei! Digno é o Cordeiro!" Todo joelho
se dobrará e toda língua confessará que ele é o
Senhor. Essa será um a visão estupenda. Porém,
m esm o agora, esse mesm o Senhor, cheio de m ajes­
tade e esplendor, convida-nos diariamente a um
encontro particular com ele. Somos cham ados à
presença do Rei, Sua M ajestade o Senhor Jesus
Cristo. Experim entam os um sentim ento de temor
e m aravilha quando nos apresentamos diante dele.
Ele é o Criador do Universo e o Senhor da vida.
E apenas "sobrenaturalm ente" natural que o
filho de Deus entre na sua presença com este sen­
28 Digno d e Adoração

tim ento de temor, m aravilha, e emoção. Ele sairá


desse encontro com novo brilho em seus olhos e
novo vigor em seus passos.
Tal encontro produzirá paz e alegria na vida do
cristão. Entretanto, é neste ponto que o filho de
Deus deve ser cuidadoso. Conquanto muitos falem
do poder do louvor e da m aravilha da adoração,
estou convencido de que no louvor não há poder
nem há m aravilha na adoração. O poder e a m ara­
vilha estão no Majestoso. Todo poder, honra e
glória pertencem a Cristo. O poder da adoração
reside no próprio Jesus Cristo, e não no m étodo
que usamos para entrar na sua presença. M uitos
cristãos adoram a Deus de um modo apenas super­
ficial porque não entendem esta diferença. A dis­
tinção não é sim plesmente questão de palavras
empregadas para descrever a adoração, mas refe­
re-se ao sentido da adoração. Se quisermos enten­
der de m odo correto a adoração, é de extrem a
im portância que tenhamos em m ente essa distin­
ção.
Grande parte da igreja, devido a um entendi­
m ento inadequado do louvor e da adoração, tem
apenas tocado a superfície desses temas. Não de­
vemos adorar a "ad oração" ou louvar o "lou vor".
O objetivo da adoração não é produzir sentim ento
de êxtase ou estado pacífico da mente. O objetivo
da adoração não é conseguir algo para nós m es­
mos. Adoramos porque só Deus é digno de adora­
ção.
Esse entendim ento liberta-nos em nossa expe­
riência de adoração e traz reavivamento à nossa
D espertam ento Espiritual e Adoração 29

vida. Não louvamos a Deus só porque nos agrada


louvá-lo. Louvamo-lo porque entramos na presen­
ça da m ajestade divina. Adoramo-lo em virtude do
que ele é e não do que sentimos. Isso liberta o
cristão na adoração, porque Deus não muda. N os­
sos sentimentos mudam. Nossas experiências m u­
dam. Mas Deus permanece o mesmo. Ele sempre
foi e sempre será o grande "Eu sou". Não importa
se acordam os com boa ou m á disposição de espí­
rito, Deus está ali. Sua natureza é a mesma. Ele é a
Rocha que jamais será abalada. Devem os adaptar
nossa experiência à sua natureza em vez de tentar
adaptar o caráter de Deus à nossa experiência.
U m a recente experiência na Rom ênia me fez
com preender esta verdade. Tenho pregado nesse
país há vários anos, e as bênçãos de Deus têm sido
generosas a cada ano. Algumas de m inhas mais
profundas am izades estão na Romênia. Tenho
aprendido muita coisa com os amigos cristãos ali.
Todavia, na m inha últim a viagem a esse país, pas­
sei por grandes dificuldades.
N a noite anterior à m inha partida para a Rom ê­
nia estive envolvido num acidente automobilístico
que destruiu meu carro completamente. Ninguém
ficou gravemente ferido no acidente; sofri peque­
nos cortes e escoriações, mas quando tom ei o avião
que m e levaria à Europa, sentei-me com o coração
pesado. Eu havia deixado minha fam ília sem ne­
nhum meio de transporte. Sentia-me solitário. Sen­
ti tristeza por m im m esmo. Eu sim plesmente não
m e sentia disposto a adorar a Deus. Contudo, o
Espírito Santo continuava trazendo-me à lembrança
30 Digno d e Adoração

as palavras daquele m agnífico antigo hino extraí­


do do livro das Lamentações: "T u és fiel, Senhor.
Tu és fiel, Senhor. Dia após dia com bênçãos sem
par. Tua mercê me sustenta e me guarda. Tu és fiel,
Senhor, fiel a m im ."
No dia seguinte, quando cheguei a Budapeste,
Hungria, eu estava cansado, mas havia paz em
meu coração. Dois amigos cristãos e eu tomamos
o trem que se dirigia à fronteira romena. Separa-
mo-nos no trem apenas para o caso de qualquer de
nós ter problemas na fronteira. Isso im pediría que
os outros também tivessem dificuldades.
O trem chegou à fronteira rom eno-húngara por
volta das 23:00 horas. A m eia-noite soldados rom e­
nos entraram no trem e disseram. "Sr. Tippit, pe­
gue sua bagagem, por favor, e venha conosco."
Perguntei aos soldados o que acontecia, mas
não me deram resposta. Puseram -m e sob guarda e
me m antiveram fora da estação ferroviária. Um
homem que vinha da Polônia tam bém foi mantido
sob guarda. Ele parecia ter sido severamente surra­
do.
Meus dois amigos olhavam-m e pela janela en­
quanto o trem partia à 1:00 hora. Foi um m om ento
triste para mim. As lágrim as vertiam -m e dos
olhos. Levantei a mão e apontei o dedo para o céu.
Com esse gesto eu lhes dizia que eles tinham de
depender de Deus e não deveríam preocupar-se
comigo.
As duas horas seguintes foram horríveis. Eu
havia viajado um dia e um a noite sem dormir.
Sentia-m e cansado, dolorido, e muito solitário.
D espertam ento Espiritual e Adoração 3 1

N em sabia o que me aconteceria. Não sabia tam­


bém o que meus amigos enfrentariam. Não sabia
com o m inha fam ília viveria nos Estados Unidos.
Eu sabia tão-somente que passaria longo tempo
antes que pudesse ver de novo meus amigos rom e­
nos. Comecei a interrogar a Deus nesse momento.
Fazia perguntas a m im mesmo. H avia Deus por­
ventura me abandonado? Estava eu fora da sua
vontade? Senti com paixão de m im mesmo.
O céu estava escuro. A noite, fria. Lá pelas 3:00
da m anhã minhas emoções estavam em franga-
lhos, e m eu corpo doía. Para dizer o mínimo, eu
não sentia disposição de adorar a Deus. Mas o
Espírito Santo com eçou a tocar em m eu coração.
Aquele belo hino com eçou a surgir dentro de mim
e com ecei a cantar: "T u és fiel, Senhor. Tu és fiel,
Senhor. Dia após dia com bênçãos sem par. Tua
m ercê me sustenta e me guarda. Tu és fiel, Senhor,
fiel a m im ."
Os guardas olhavam para mim com o se eu esti­
vesse louco. Estou certo de que eles não podiam
entender por que eu cantava enquanto era cativo
deles. Para mim, também, não fazia sentido. Mas
naquele m omento eu tinha de decidir. Poderia
sentir-m e perturbado e confuso pelas circunstân­
cias em que me encontrava. Poderia cair vítim a da
depressão por causa de minhas emoções e senti­
mentos, ou poderia levantar meus olhos e ver o
grande am or de Deus. Eu poderia vê-lo como Rei
Soberano, cuidadoso. A escolha era minha.
Resolvi concentrar-m e na fidelidade de Deus e
não na instabilidade de meus sentimentos. Resolvi
32 Digno d e Adoração

reverenciar a Deus em vez de duvidar de minhas


circunstâncias. Grandes hinos, um após outro, vi­
nham -m e à mente. Cantei ao Senhor cânticos de
louvor e adoração por seus atributos.
Enquanto eu cantava "Santo, Santo, Santo" e
"Q uão Grande és T u", algo notável ocorreu. Não
demorou muito antes que eu me esquecesse de
meus problemas. Realizei um pequeno e particular
culto de adoração. A m edida que eu desviava a
atenção das circunstâncias em que me encontrava,
tornava-m e seguro em Cristo. Enquanto eu me
aquecia no amor e na bondade de Deus, ele me
permitiu ver a desesperada situação dos guardas
que me detinham.
Então com ecei a cantar para os meus guardas
em romeno. Durante cerca de um a hora preguei o
glorioso evangelho através do cântico. E o Espírito
Santo deu-me tremendo discernimento. Enquanto
pensava nos meus sentimentos, nas minhas cir­
cunstâncias, e na m inha difícil situação, fui derro­
tado. Vitória, paz e alegria pessoais eram o fruto
do conhecim ento de Deus. Eu tinha somente de
adorá-lo. Enquanto eu o adorava, pude testem u­
nhar a outros. Então caminhei em paz.
Tantas vezes invertemos essa ordem. Buscamos
paz a fim de podermos testemunhar a outros. En­
tão o louvam os em virtude de nossa experiência.
Todavia, o vento do reavivam ento nos levará de
volta ao nosso primeiro amor. Nosso primeiro
amor não é paz no coração. Também não é nosso
testemunho ao mundo. Nosso primeiro am or é o
próprio Deus. E para Deus que nos devemos vol-
D espertam ento Espiritual e Adoração 33

tar. Quando voltarmos ao nosso primeiro amor


haverá testemunho ao mundo e caminhada de paz.
Nossa experiência será o fruto de nossa adoração.
Som ente Deus, porém, será o foco de nossa adora­
ção.

Sinalizador n2 4: Ortodoxia Sem Devoção


O quarto sinalizador revela a nossa necessidade
de voltar ao primeiro amor. Ele é o inverso do
anterior. E ortodoxia sem devoção. H á muitas igre­
jas cheias de pessoas que crêem coisas certas a
respeito de Deus, mas perderam a devoção a ele.
Certa vez preguei num a igreja em Londres onde
senti a necessidade de devoção sincera em nossa
adoração. No final do culto, quando cum prim en­
tava as pessoas à saída do templo, uma adolescente
vestindo um casaco coberto de botões passou por
mim. Os botões tinham ditos engraçados. Um de­
les sim plesmente dizia "Enfadonho!"
Pensei com igo mesmo: Tenho visto muitos e mui­
tos cristãos deixarem a igreja sem esse tipo de botão, mas
que traziam a palavra "enfadonho" escrita no coração e
rosto. Grande dano têm causado ao nom e de Cristo
os cristãos indiferentes, mornos, que aparentam
adorar. E o tipo de adoração que levará a igreja a
perder a batalha pelas gerações futuras. É absolu­
tam ente ultrajante ensinarmos os filhos que o lugar
onde adoramos a Jesus Cristo é o lugar onde tira­
mos um a soneca de um a hora durante o tempo de
adoração.
A igreja de Laodicéia é descrita como a igreja
que não era nem quente nem fria. Ela era morna.
Deus disse à ela "Estou a ponto de vom itar-te da
34 Digno d e Adoração

m inha boca" (Apocalipse 3:16). Adoração indife­


rente, morna, parte o coração de Deus porque não
é adoração verdadeira. M uitos alegam crer que
Jesus é o "M aravilhoso Conselheiro, Deus Forte,
Pai da Eternidade, Principe da P az", de que nos
fala o profeta Isaías (9:6), mas apenas com irreve­
rência e indiferença cum prim entam a Jesus uma
hora por semana. Eles revelam talvez a pior form a
de hipocrisia na qual o cristão pode envolver-se.
Um vento de reavivam ento precisa soprar sobre
nós a fim de despertar-nos para a glória do Senhor
Jesus. Se quisermos ser verdadeiros adoradores,
devemos aceitar de todo o coração o fato de que
nossa única esperança é Jesus. Então serem os re­
novados em nossa fé e em nosso andar com Deus.
Os grandes homens do passado foram homens ao
mesm o tempo ortodoxos e profundam ente devo­
tados ao Senhor Jesus. Um deles foi George W hi-
tefield, poderosam ente usado no prim eiro grande
despertam ento ocorrido nos Estados Unidos. Dele
disse o Bispo J. C. Ryle: "E ra homem de amor
ardente a nosso Senhor Jesus C risto."7

Sinalizador ne 5: Falta de Santidade


O últim o sinalizador que indica ao cristão a
necessidade de reavivamento é a falta de santidade
na vida. Homens e mulheres da Bíblia que se tor­
naram autênticos adoradores de Deus descobri­
ram a santidade divina. Quando Moisés se encon­
trou com Deus na montanha, foi-lhe dito: "N ão te

7 J. C. Ryle. Christian Leadeis of the 18th Century (Edimburgo: Banner


o f Tnitk, 1885),p. 57
D espertam ento Espiritual e Adoração 35

chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque


o lugar em que estás é terra santa" (Êxodo 3:5).
Isaías teve uma visão de Deus na qual os anjos
clam avam: "Santo, santo, santo é o Senhor dos
Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória"
(Isaías 6:3). Davi perguntou: "Q uem subirá ao
m onte do Senhor? Quem há de perm anecer no seu
santo lugar?" e ele respondeu: "O que é limpo de
mãos e puro de coração" (Salmo 24:3, 4).
Quando entramos na presença de Deus, entra­
mos na presença da pureza perfeita. Deus é santo.
Quando nos apresentamos diante dele, devemos
fazê-lo com o coração totalmente entregue à santi­
dade de vida. A adoração de Deus provém de um
coração em processo de tornar-se semelhante a
Cristo.
O bispo Ryle definiu assim a santidade: "A
verdadeira santidade, devemos lem brar-nos, não
consiste m eram ente em sensações e impressões
interiores. Ela é m uito mais do que lágrimas, sus­
piros, emoção corporal, pulso acelerado, senti­
mento apaixonado de fidelidade a nossos prega­
dores prediletos e a nosso próprio grupo religioso,
e prontidão para discutir com todo aquele que não
concorda conosco. Ela é algo da imagem de Cristo
que pode ser vista e observada por outros em nossa
vida particular, em nossos hábitos, caráter, e ações.8
Portanto, nossa adoração deve estar envolta nu­
m a vida que se torna semelhante a Cristo. O cristão

8 J. C. Ryle, Holiness (1879, reimpresso, Grand Rapids, Mich.: Baker,


1979), p. X V .
36 Digno d e Adoração

que cresce é o cristão que adora; e o cristão que


adora é o cristão que cresce. N a adoração, o que
conta é o coração. O coração que contem plou a
Jesus e está subm isso a ele é o coração que pode
adorar. Na geração presente fala-se m uito de reno­
vação na adoração. Se quiserm os de fato obter essa
renovação, devemos fixar o coração no Senhor
Jesus. Só ele deve ser o objeto de nossa adoração.
Necessitamos, desesperadamente, de que o vento
do reavivam ento sopre sobre o nosso coração, res­
taurando-nos ao nosso propósito original de amar
a Jesus e de nos assemelharmos a ele.
Jesus não pertence ao grupo dos grandes do mundo.
Fale, se quiser, de Alexandre o Grande, de Carlos o
Grande, e de Napoleão o Grande... Jesus está separado.
Ele não é o Grande; ele é o Único. Ele é simplesmente
Jesus. Nada se pode acrescentar a isso.

Carnegie Sim pson,


em Basic Christianity

E eu chorava muito, porque ninguém fora achado


digno de abrir o livro, nem de o ler, nem de olhar para
ele. Todavia um dos anciãos me disse: Não chores! Olha,
o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, venceu para abrir
o livro e os seus sete selos. E entoavam um novo cântico,
dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus
selos, porque foste morto, e com o teu sangue compraste
para Deus homens de toda tribo, e língua, epovo e nação.

Apocalipse 5:4-5 e 9
3
Digno de Adoração

JESU S é único na história humana. Ele não é


m eram ente um dos deuses. Ele é Deus. Ele não é
apenas homem bom. Ele é o único hom em perfeito
em sua bondade. Ele não é som ente um grande
líder. Ele é o único líder digno de absoluta devoção
e lealdade. Ele não é som ente realeza, mas é o Rei
de reis e Senhor de senhores. Jesus é santo, justo é
eterno. João cham ou-o Filho de Deus, e Lucas cha-
m ou-o Filho do homem. Ele é o Deus-hom em. Ele
está num a classe toda sua.
A grande busca do coração hum ano é descobrir
Um que seja digno de nossa adoração. M argaret
Cleator, em The God Who Answers by Tire (O Deus
que Responde com Fogo), conta a história de um
jovem indiano, Arjun, que fez uma peregrinação.9
Ele com eçou a viagem com o conseqüência de
grande tragédia na família. Havia estado fora de
casa, estudando na universidade. Depois de for­
m ado, ele voltou para casa — e então, enquanto

9 Margaret Cleator, em The G o d Who Answers by F ire Kent, Inglaterra:


ST L B o ok s, 1966), pp. 10, 32-33, 70.
40 Digno d e Adoração

entrava, ouviu a mãe gritando: "E la está morta! Ela


está m orta!" Tara, irmã de Arjun, havia adoecido
e morrera. A morte da irm ã deixou o jovem em
estado de choque e desespero. Resolveu, então,
procurar respostas para as perguntas mais básicas
da vida.
Arjun pôs-se a caminho num a longa viagem em
visita aos grandes templos da índia. Ele desejava
conhecer a Deus e encontrar alguns motivos para
a vida e m orte da irmã. Durante um ano inteiro ele
visitou templo após templo. No primeiro templo
que ele visitou, disse a um iogue:
— Swamiji, tenho uma pergunta a fazer.
O iogue perguntou:
— Você não trouxe nenhum a oferta?
O jovem , desculpando-se, respondeu:
— Não tenho dinheiro.
Com o olhar fito no espaço, o iogue perguntou:
— Você vem à presença de Deus com as mãos
vazias?
Foi então que Arjun percebeu a necessidade de
dar dinheiro aos dirigentes religiosos se quisesse
obter respostas às suas perguntas. Porém, respon­
deu com calma:
— Eu queria perguntar-lhe se você já encontrou
a Deus.
O iogue não respondeu, e o jovem se foi.
Os meses que se seguiram foram deprimentes
para Arjun. Ninguém podia ou queria dizer-lhe
com o encontrar Deus. Ele chegou a encontrar-se
com um sacerdote que havia estudado em Oxford,
na Grã-Bretanha. O sacerdote disse-lhe que só po-
Digno d e Adoração 41

deria encontrar Deus quando "fosse absorvido em


sua essência como a gota de água é absorvida no
oceano". Disse ao jovem que decorasse os milhares
de nomes e títulos de Vishnu, uma divindade hin­
du, e que ficasse no rio Ganges à m eia-noite com a
água até ao pescoço, repetindo aqueles nomes.
Então ele se tornaria um com Deus.
A rjun obedeceu ao sacerdote e descobriu que
indiretam ente lhe fora ordenado que cometesse
suicídio. A correnteza do rio era tão forte que o
jovem quase morreu afogado enquanto gritava os
nomes e títulos de Vishnu. Ele foi salvo por uma
prostituta do tem plo no exato momento em que a
correnteza o arrastaria de vez. A prostituta atirou-
lhe um a corda e o trouxe salvo, à praia.
Depois de readquirir a consciência na praia, o
jo v em continuou sua desesperadora busca de
Deus. Contudo, nenhum dirigente religioso pôde
ajudá-lo nessa busca. Após um ano, ele desistiu e
voltou desanimado para casa.
Enquanto A rjun cam inhava de volta ao lar, um
hom em com um que estava num carro puxado por
bois perguntou-lhe por que parecia tão abatido e
se ele gostaria de dar um passeio. O jovem falou-
lhe de sua busca de Deus e como não conseguira
encontrá-lo. O hom em explicou-lhe que encontra­
ra Deus havia já cinco anos, e disse-lhe que o único
m eio de realmente conhecer a Deus era por inter­
m édio do Deus-hom em, Jesus. Ele falou da pureza
de Jesus e do seu am or a todos os homens. Arjun
soube que Jesus não era como os líderes religiosos
que ele havia conhecido em sua peregrinação.
42 Digno d e Adoração

Aprendeu que Jesus é cheio de graça, e não de


ganância. E que Jesus lhe oferecia vida em vez de
morte. Mas, acima de tudo, ele aprendeu que Deus
é santo. O jovem , que se considerava cheio de
pecado, soube que, como expiação por esses peca­
dos, Jesus havia morrido na cruz.
A rjun passou muito tempo com esse novo am i­
go. Leu a Bíblia e observou a m aneira de viver do
amigo. Então um dia esse jovem inclinou-se diante
de Jesus como o único digno e o recebeu em sua
vida com o Senhor e Salvador. Depois exclamou:
"Encontrei-o! Oh, encontrei-o! Ele me purificou.
Tenho paz, afinal!"
A rjun havia percorrido o país em busca de
D eus, mas não o havia encontrado. Contudo,
quando ele chegou ao fim de seus próprios recur­
sos, Deus o encontrou.
Creio que a busca desse jovem indiano expressa
o desejo do coração de cada pessoa. Em algum
ponto na vida de cada um de nós, temos ansiado
saber se há um Deus e como podemos relacionar-
nos com ele. Tenho-me encontrado com jovens na
Europa Oriental que aprenderam, a vida toda, que
não há Deus. Não obstante, bem no íntim o eles
ainda anseiam conhecer a Deus. Outros têm bus­
cado abertamente a Deus, no mundo ocidental,
mas o resultado tem sido a desilusão com ganan­
ciosos m anipuladores religiosos. A busca dessas
pessoas aponta para a inconseqüência de alguns
ministros cristãos que, à semelhança de Arjun,
desistem da procura.
Há, contudo, Um que é singular na história
Digno d e Adoração 43

humana. Só ele é digno de adoração. Ele não é


com o qualquer dos deuses deste mundo. N em é
com o os que usam seu nome para suas próprias
am bições egoístas. Ele é Jesus, Deus manifesto em
carne humana. O livro de Hebreus descreve a Jesus
com o "o resplendor da glória e a expressão exata
do seu Ser" (Hebreus 1:3). Conhecer, amar e adorar
a Jesus é conhecer, amar e adorar a Deus.
Essa ousada afirmação pode ser feita baseando-
se na distinção clara entre Jesus e todas as demais
pessoas. Em caráter, reivindicações, e confirm a­
ções que acom panham a vida, Jesus é diferente de
todos os demais.

O Caráter de Cristo
Jesus não é apenas o homem mais puro que já
viveu — ele é pureza. Ele não é apenas outro
hom em santo da história hum ana — ele é santida­
de. Jesus não pode ser arrolado na categoria do
"superstar". Sua vida só pode ser descrita como
sobrenatural.
Há, na Bíblia quatro relatos históricos da vida
de Jesus. Em cada relato descobrimos um raio do
resplendor da glória de Deus revelado no caráter
de Cristo. M ateus, judeu cobrador de impostos,
escreveu sobre a m ajestade de Jesus. Ele reconhe­
ceu realeza na vida e caráter de Cristo. Entendeu
que Jesus era digno de adoração em virtude de sua
natureza real.
Mateus apresenta a Jesus como o Messias pro­
metido, o "U ngid o". Jesus era aquele por quem os
judeus haviam esperado centenas de anos. Jesus
não era Rei dos judeus porque o povo necessitava
44 Digno d e Adoração

de um líder revolucionário que os livrasse de suas


dificuldades sob o governo romano. Ele era Rei dos
judeus porque era o Prometido. Ele era o cumpri­
mento de mil anos de profecias messiânicas.
Jesus era de linhagem real. Mateus refere-se a
Jesus nove vezes como o "filho de D avi". Ele traça
as raízes históricas de Jesus até ao rei Davi. Escre­
veu acerca do nascim ento m iraculoso de Jesus e do
obscuro lugar de seu nascim ento, ambos cum pri­
mentos das profecias sobre o Messias. Jesus era o
Majestoso.
N unca houve rei semelhante ao Rei Jesus. A
realeza deve ser servida. Entretanto, esse Rei não
veio para ser servido, mas para servir. Ele não veio
com grandes necessidades próprias, mas veio para
dar a vida por toda a humanidade. Ele é o Rei que
servia às pessoas.
Marcos, que passou muito tempo com os após­
tolos Pedro e Paulo, escreveu sobre Jesus com o
servo. Ele omite o nascim ento e os primeiros tem­
pos da vida de Jesus em seu relato. Inicia o seu
evangelho apresentando a Jesus por ocasião de seu
batismo. Perm ite que o leitor veja de im ediato a
beleza do Rei Jesus como o servo redentor. Marcos
cita as palavras de Jesus: "Pois o próprio Filho do
hom em não veio para ser servido, mas para servir
e dar a sua vida em resgate por m uitos" (Marcos
10:45).
Muitos reis têm passado pelas páginas da his­
tória humana, mas nenhum semelhante ao Rei
Jesus. Ele é totalmente único em seu caráter. Em­
bora majestoso, é verdadeiramente humilde. Em ­
Digno d e Adoração 45

bora possua toda autoridade no céu e na terra, é


servo dos homens. Em bora Rei dos reis, ele se
despiu de suas vestes reais a fim de dar a vida em
sacrifício pelo pecado da hum anidade rebelde.
Lucas apresenta outro aspecto da natureza de
Deus e da beleza de sua glória que encontramos
em Jesus. Muitas vezes Lucas refere-se a Jesus
com o o Filho do hom em — porém Jesus não é
como nenhum outro hom em que já tenha vivido.
Todos os demais devem confessar "P equ ei"; Jesus,
porém , era o Hom em perfeito. Som ente um ser
hum ano perfeito poderia salvar a hum anidade pe­
caminosa. Jesus disse: "O Filho do homem veio
buscar e salvar o perdido" (Lucas 19:10). John
Stott, erudito inglês e ministro do evangelho, disse
de Jesus: "Todos os demais homens estavam enfer­
mos com a doença do pecado; ele era o médico que
viera para curá-los. Todos os demais estavam m er­
gulhados nas trevas do pecado e da ignorância; ele
era a luz do m undo."1-0
Jesus era perfeito em sua compaixão. Ninguém
amou mais as pessoas com o ele as amou. Ele amou
o solitário, o sofredor, e o aflito. Ele amou tanto o
pobre quanto o poderoso. Ele amou os amigos, que
o abandonaram, e os inimigos, que o crucificaram.
Em seu momento mais sombrio, enquanto pendia
na cruz, orou: "Pai, perdoa-lhes, porque não sa­
bem o que fazem " (Lucas 23:34). Nenhum homem
jam ais amou com o o H om em Cristo Jesus. E não 10

10 John Stott, B asic Christianity (Downers Grove, 111.: Inter Varsity,


1980), p. 37.
46 Digno d e Adoração

amou apenas com grande am or — ele era amor.


Jesus era o Hom em perfeito.
Contudo, Jesus era mais do que perfeito em sua
hum anidade. Ele era, e sempre será divino. Ele é
Deus. Assim, embora Lucas se concentre na beleza
de Jesus com o a do Homem Perfeito, João descreve
a glória de Jesus como a do Deus-hom em. Lucas
fala de Jesus como o Filho do homem; João o
apresenta como o Filho de Deus.
A glória de Deus revela-se em Jesus, o Eterno.
João cita estas palavras de Jesus: "E m verdade, em
verdade eu vos digo: Antes que Abraão existisse,
eu sou" (João 8:58). Abraão viveu centenas de anos
antes de Cristo. Entretanto Jesus reivindicou sua
existência antes do tempo de Abraão. João testifica
que Jesus estava "n o princípio".
João não somente retrata Cristo com o o Eterno,
mas tam bém como o Todo-poderoso. Ele descreve
o poder de Jesus tanto sobre a vida como sobre a
morte. Jesus dirigiu-se ao túmulo de um amigo
recentemente falecido, e fez uma trem enda decla­
ração: "E u sou a ressurreição e a vida. Quem crê
em mim, ainda que esteja morto, viverá" (João
11:25). Depois ele chamou o defunto Lázaro de
volta à vida. E Lázaro recebeu em seu corpo o
fôlego de vida, e foi ressurreto.
Não há ninguém semelhante a Jesus. Ele é cheio
de m ajestade e possui o título de "Reis dos reis".
Mas ele despojou-se de suas vestes reais a fim de
usar a vestim enta de servo. Entretanto, ele é m uito
mais do que o Rei que se fez servo. Ele é o Deus
eterno, Todo-poderoso, que tomou sobre si a carne
Digno d e Adoração A l

humana. Ele era o Homem perfeito. Ele é ímpar


entre todas as pessoas que já passaram por este
planeta, porque ele é o Deus-Hom em e o Rei-Ser-
vo. Quando alguém exam ina os relatos históricos
da vida, caráter, e essência de Jesus, deve prostrar-
se e clamar: "Som ente Tu és digno de adoração."
O Cristianismo difere de outras religiões por­
que ele não é sim plesmente um sistem a de crenças
ou um a visão filosófica da vida. Pode-se tirar Mao-
m é do islamismo e ainda assim continuaria a ser
um a grande religião. O mesmo se verifica com
relação a Buda e com muitas outras grandes reli­
giões do mundo. Contudo, não é isso o que ocorre
com o Cristianismo.
Cristianismo é Cristo. Jesus não e tão-somente
um bom mestre de moral ou um dos grandes pro­
fetas dos séculos; ele é Deus em carne. A essência
da adoração cristã não está em sua forma ou em
seu estilo. Nem é o Cristianismo um sistema de
ensinos filosóficos acerca de boas obras. A essência
da adoração cristã é a pessoa de Jesus Cristo. A
adoração flui de um autêntico entendim ento do
caráter de Jesus. Quando verdadeiram ente com ­
preendemos isto, a adoração fluirá de nós para o
Pai por causa do Filho.

As Reivindicações de Cristo
Jesus é diferente de todos os demais na história
hum ana não só em virtude de sua natureza, mas
tam bém em virtude de suas reivindicações. O ca­
ráter de Cristo é o fundamento dessas reivindica­
ções. Se ele não fosse homem de absoluta pureza
moral, suas pretenções seriam com pletam ente ab­
48 Digno d e Adoração

surdas. M as, ao contrário, em virtude de sua pure­


za e integridade, devemos levá-las a sério. Não
temos escolha.
C. S. Lewis, o grande filósofo e escritor cristão,
assim se referia a tais reivindicações: "U m hom em
que fosse m eramente homem e dissesse o que Jesus
disse, não seria grande m estre moral. Ele seria ou
um lunático da mesm a categoria de um hom em
que dissesse ser um ovo escaldado — ou então
seria o diabo do Inferno. Você deve escolher. Ou
este hom em era, e é, o Filho de Deus, ou então era
um louco ou algo pior. Você pode encerrá-lo num
hospício por estar louco, pode cuspir nele e matá-
lo como a um demônio; ou pode cair aos seus pés
e cham á-lo de Senhor e Deus. Mas não venham
com tolice dizendo que ele é um grande mestre
humano. Ele não deixou aberta essa opção. Não
tencionava tal coisa."1!
Quais foram as reivindicações de Cristo? Quem
ele disse que era? Talvez sejam perguntas difíceis
aos leitores do século vinte. Contudo, não foram
dificeis para os seus íntimos — os que com eram
com ele, andaram com ele, e ouviram os seus ensi­
nos. Ele reivindicou ser divino. Quanto a isso não
havia dúvida na mente dos discípulos. Os que lhe
eram mais íntimos e o amaram e obedeceram,
proclam avam que ele era Deus em carne humana,
mesmo que isso lhes custasse a vida.
Não apenas estes companheiros sabiam que ele
se dizia Deus; seus mais fortes inimigos também 1

11 C .S . Lewis, M ere Christianity (Nova York: MacMillan, 1952), p. 56.


Digno d e Adoração 49

não tinham dúvidas de que essas eram as suas


reivindicações. Caifás, sumo sacerdote judeu, per­
guntou: "És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito?"
Jesus respondeu: Eu sou, e vereis o Filho do ho­
m em assentado à direita do Todo-Poderoso, e vin­
do sobre as nuvens do céu" (Marcos 14:61-62). Não
havia nenhuma dúvida na mente do sumo sacer­
dote quanto ao que Jesus acabava de dizer. Ele
reivindicou ser o Messias. Caifás sentiu-se tão in­
sultado que rasgou as vestes e exclamou: "Por que
necessitamos de mais testemunhas? Vós ouvistes
a blasfêmia. Que vos parece?" (Marcos 14:63-64).
Todos estavam de acordo, de m odo que ele foi
condenado à morte. A reivindicação de Cristo era
clara tanto aos amigos quanto aos inimigos: Ele
reivindicava ser Deus.
Ou Jesus era hom em que se fazia passar por
Deus, ou ele realm ente era Deus que se fez homem.
Essas são as duas únicas opções concernentes a
Cristo que temos à nossa disposição. Jesus era puro
em seu caráter moral, não obstante ele reivindicou
ser Deus. Portanto, devemos negar sua pureza
m oral ou devemos curvar-nos diante dele em re­
verência e adoração.

A Confirmação de Cristo
Um homem no Novo Testam ento tinha grande
propósito na vida: preparar o caminho para o M es­
sias. Esse hom em pregava o arrependimento e
batizava multidões no rio Jordão. Depois ele foi
lançado na prisão. Enquanto estava ali, enviou
dois de seus discípulos a inquirir a respeito de
Jesus. Eles pergutaram diretamente a Jesus: "És tu
50 Digno d e Adoração

aquele que havia de vir, ou devemos esperar ou­


tro? Respondeu-lhes Jesus: Ide, e anunciai a João
as coisas que ouvis e vedes: os cegos vêem, os coxos
andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem,
os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anun­
ciado o evangelho" (Mateus 11:3-5).
A resposta de Jesus foi muito clara. Ele não era
somente pureza moral absoluta. Ele não somente
reivindicava ser Deus. Suas próprias obras confir­
m avam seu caráter e suas reivindicações. Hoje,
como naquele tempo, as obras de Jesus nos desa­
fiam a considerá-lo m uito mais que um dos gran­
des líderes morais do mundo, porque ninguém
jamais fez o que Jesus fez. Com uma só palavra de
seus lábios os ventos cessaram, os m ares foram
acalmados, o coxos andaram, os cegos viram , e os
mortos voltaram à vida. Isto não é obra de um
m aluco nem de um hom em meram ente grande. Só
é possível chegar a uma conclusão. Sua obra era —
e é — a obra do Deus-Homem.
Contudo, as obras de Cristo não são a maior
confirm ação de que ele é digno de nossa adoração.
Ele dizia aos seus discípulos que lhe convinha ir a
Jerusalém e m orrer. Ele disse que ao terceiro dia
ressuscitaria dos mortos. E aconteceu exatam ente
como ele disse que aconteceria. Nisso reside a
m aior das obras confirmadoras de Jesus.
Muitos grandes líderes têm sinceramente am a­
do e servido a seu povo. Mas Jesus era, e é, diferen­
te de todos os demais líderes da história. Em pri­
m eiro lugar, ele não morreu somente pelos amigos
Digno d e Adoração 51

e familiares. Ele morreu pelos amigos, pela família,


e pelos inimigos. Ele amou com amor sobrenatural.
Tive um amigo na faculdade para quem eu
pensava não haver esperança. Um dia ele agia
com o cristão e no dia seguinte blasfem ava contra
Deus. Certa vez ele ajoelhou e desafiou a Deus.
"D eu s", clamou ele, "se há Deus, então que me
m ate." Imediatamente ele veio ao meu dormitório
a fim de convencer-me de que não havia Deus.
Honestamente achei que não havia esperança para
aquele sujeito. Um dia, anos mais tarde, topei com
esse amigo. Ele me disse: "N ao sei com o Jesus pôde
amar e morrer por alguém como eu. Mas sou muito
grato a ele porque assim o fez. Dei-lhe meu cora­
ção, e agora eu o amo e sou seu seguidor."
Todos nós éramos rebeldes quando Jesus nos
amou. Muitos líderes deram a vida por seus ami­
gos. Mas somente Jesus pode amar a todos em
geral. Ele, porém, é o que ama nossas almas quan­
do nelas não há nada que mereça amor. Quando,
por fé, abraçamos a velha rude cruz, nosso coração
se volta da rebelião para a adoração.
H á outro m odo pelo qual Jesus difere de todos
os demais líderes da história: ele foi ressuscitado
dos mortos. Outros grandes líderes têm vivido e
m orrido polo seu povo, mas Jesus venceu a própria
m orte e agora oferece vida a quem quer que nele
creia. Lembro-me de estar numa noite fria na Praça
Verm elha em M oscou, diante do túmulo de Lênin.
M ilhares de pessoas se reuniam ali diariamente
para ver o corpo de Lênin. Diante daquele túmulo,
52 Digno d e Adoração

lem brei-m e das palavras de Jesus: "E u sou a res­


surreição e a vida."
Realizei um culto de adoração particular ali
m esm o na Praça Vermelha. Eu sabia que Jesus não
era tão-som ente outro nome entre os grandes da
história. Ele é o nome que está acim a de todos os
nomes. Ele se destaca na história hum ana com o
Emanuel, Deus conosco. E certamente ele está co­
nosco. Venceu os piores inimigos do homem : a
morte, o inferno e o diabo. Só ele é digno de nossa
adoração.
Quando Tomé, o discípulo que duvidou, creu
que Jesus havia de fato ressurgido dos m ortos,
exclamou: "Senhor meu e Deus m eu." Quando
Saulo, o inimigo dos cristãos, contem plou o Cristo
ressurreto, ele se tornou Paulo, o servo de Jesus.
Quando reconhecemos a Jesus com o o Rei-Servo e
o Deus-hom em, semelhantem ente nos inclinare­
mos em hum ilde subm issão e reverência a ele co­
mo nosso Senhor e nosso Deus.
Dê uma olhada nas coisas deste mundo — cônjuge,
filhos, bens, poder, amigos e honra. Quão amáveis são!
Quão desejáveis aos pensamentos da maioria dos ho­
mens! Mas aquele que obteve uma visão da glória de
Cristo dirá, no meio de tudo isso: "Quem mais tenho eu
no céu? Não há outro em quem eu me compraza na
terra" (Salmo 73:25).

John Owen,
Glory ofChrist

Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há


de aborrecer-se de um, e amar ao outro; ou se devotará
a u m e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e
às riquezas.

Mateus 6:24
4
Falsa Adoração

JESUS é o incomparável Cristo. A verdadeira


adoração sempre será sincera, edificada sobre o úni­
co fundamento; a glória de Cristo. Pessoas e tudo o
mais são muito superficiais e finitos para exigir nossa
lealdade absoluta. E impossível adorarmos a Jesus e
também nos curvarmos aos deuses de nossa cultura.
Que pensaria a esposa acerca do marido que
tivesse dupla lealdade? Estou certo de que ela não
se sentiría feliz se um dia ele voltasse do trabalho e
dissesse: "Querida, eu a amo. Amo-a, realmente.
Am o-a mais do que a qualquer outra pessoa no
mundo. Amo-a tanto que vou viver com você mais
do que vivo com as duas belas mulheres que co­
nhecí no escritório. Viverei com você e serei leal e
inteiramente seu durante cinco dias por semana.
Nos dois dias restantes da semana am arei e serei
leal às outras duas. Como vê, amo-a mais do que às
outras duas juntas."
Não creio que esse comentário do marido trou­
xesse muito consolo à esposa. Ela poderia dizer:"De-
cida-se. Ou eu ou elas. Você não pode continuar
dividido deste m od o."
56 Digno d e Adoração

Era exatam ente isso que Jesus tinha em m ente


ao dizer: "N ão podeis servir a Deus e às riquezas"
(Mateus 6:24). Há muita gente hoje na igreja que
diz: "A m o e adoro a Jesu s." Essas pessoas intelec­
tualm ente reconhecem a beleza e glória de Jesus.
Contudo, reservam parte do coração aos deuses de
sua cultura. Alegam ter no coração um altar de
adoração edificado para Jesus. Entretanto, uma
inspeção rigorosa revela que ao lado daquele altar
existem outros altares.
D upla lealdade e objetos m ultíplices de adora­
ção têm constituído grandes problemas ao povo de
Deus através dos séculos. No Antigo Testam ento,
a nação de Israel lutava continuamente para m an­
ter sua devoção e lealdade ao Senhor. Lá por volta
do ano 650 a.C. eles gozaram por algum tempo de
prosperidade, mas o coração do povo estava criva­
do de pecado e idolatria. Israel havia sido cham ado
e separado como o povo de Deus, mas com eteram
adultério espiritual. Adoraram a outros deuses.
Durante esse tempo Deus levantou um profeta
para cham ar o povo de volta à adoração sincera.
Oséias, cujo nome significa "salvação", foi incum ­
bido dessa tarefa. Sua atribuição era difícil. Deus
exigiu dele que se casasse com um a prostituta e
tivesse filhos com ela. Essa mulher, Gômer, prosti-
tuíra-se com outros homens do mesmo m odo que
os filhos de Israel prostituíram-se com outros deu­
ses. Deus tencionava que o relacionam ento de
Oséias com Gômer ilustrasse a tragédia do povo
de Israel, cujo coração estava dividido em sua
idolatria.
Falsa Adoração 57

A devoção dividida do povo trouxe sobre eles


três conseqüências trágicas. Cristãos, que deixam
espaço no coração para outros deuses, experim en­
tam alguns resultados trágicos em sua própria
vida. Em Oséias 4:1-7 as Escrituras delineiam as
conseqüências da falsa adoração entre o povo de
Deus.

Conseqüências da Falsa Adoração


A prim eira conseqüência da falsa adoração é a
perda do respeito dos outros. Deus falou por inter­
m édio do profeta Oséias, dizendo: "Q uanto mais
estes se multiplicaram , tanto mais contra mim pe­
caram; eu m udarei a sua honra em vergonha"
(Oséias 4:7). Os israelitas haviam experim entado a
prosperidade, mas se haviam esquecido de quem
os fizera prosperar. Haviam crescido em número,
m as não em espiritualidade: eles não glorificaram
e não adoraram a Deus no meio do crescimento
num érico. Antes caíram mais e mais em pecado.
Entre os evangélicos de nossos dias a filosofia
parece ser "grande e m elhor". Parece que possuir
tem plos m aiores e m aior número de pessoas é o
que m ais agrada a Deus. E m aravilhoso ter uma
igreja evangelizadora, crescente. Não deixa de ser
im portante a bênção financeira em nossas igrejas.
E glorioso ver milhares de pessoas am ando a Deus
de todo o coração no templo, aos domingos. Mas
congregação e orçam ento maiores não constituem
verdadeira adoração. Pelo contrário, é por demais
vergonhoso que tantos milhares de pessoas amem
a Jesus dois dias por semana e a outros deuses nos
cinco dias restantes. A glória de uma igreja, de uma
58 Digno d e Adoração

nação ou de um indivíduo pode, a qualquer m o­


mento, tornar-se falsa.
O jovem que adora a Jesus mas tam bém se
inclina diante do deus da "popularidade" pode
perder o respeito dos colegas. O em presário que
louva a Deus no domingo mas com prom ete sua
ética na segunda-feira, provavelm ente não terá o
respeito de amigos. O m inistro que proclam a o
reino de Deus mas edifica o seu próprio im pério,
no fim perderá o respeito de sua congregação. Não
podemos curvar-nos aos deuses da "p rata", do
"sex o ", e da "glória de si m esm o", e adorar a Jesus
ao m esm o tempo.
Conquanto o berço do Cristianismo tenha sido
o Oriente Médio, a partir de determ inado tem po o
ponto central do Cristianismo transferiu-se para o
Ocidente. Foi no Ocidente que a igreja cresceu, e
foi do Ocidente que os missionários saíram por
todo o mundo. Hoje, porém, a igreja do O cidente
perdeu grande parte do respeito que tinha outrora.
As nações do mundo podem ver que os cristãos
ocidentais tentaram abraçar o Cristianism o e o
secularism o ao mesm o tempo. Eles se têm curvado
diante dos deuses da sociedade ocidental ao m es­
mo tempo em que tentaram servir a Cristo. Nós,
no Ocidente, perdemos nossa capacidade de sal­
gar, e nossa luz se enfraqueceu. Perdemos o respei­
to daqueles a quem mais desejamos alcançar com
a mensagem de Cristo.
O Wall Street Journal publicou uma série de
artigos de autoria de James Sterba sobre o surgi­
mento do islam ismo ao redor do m undo. Sterba
Falsa Adoração 59

descreveu o processo que muitos jovens da Indo­


nésia seguiram em sua conversão ao islamismo. O
prim eiro passo é o da desilusão. "E m meio a dro­
gas, contaminação, pornografia, ganância e ilega­
lidade, os jovens indonésios — especialmente os
que estudaram no exterior — encontraram muita
coisa doentia e perturbadora na sociedade ociden­
tal. Ao voltarem do choque cultural de educação
nos Estados Unidos e na Europa, os estudantes
sentiram -se desajustados."12
O segundo passo é de resolução. "Frustrados"
pelo que viram na religião ocidental, os jovens
indonésios "voltaram -se para o islam ism o", diz
Sterba, citando outro jornalista que estudou o fe-
nôm eno.13
M uitos cristãos talvez respondam com certa
dose de presunção a tal artigo, dizendo: "Esses
jovens indonésios rejeitaram nossa sociedade, e
não as igrejas de nossa sociedade." Seria ótimo se
isso fosse totalmente verdade. Seria maravilhoso
se a igreja cristã na Europa Ocidental e nos Estados
Unidos fosse distintamente diferente de suas res­
pectivas sociedades.
N um a conferência internacional em que falei
recentem ente, um jovem paquistanense pedia aos
presentes que orassem pelos cristãos de seu país.
Estes estavam sendo ridicularizados pelos veícu­
los de com unicação por causa dos pecados escan­
dalosos de líderes cristãos nos Estados Unidos. Os123

12 James Sterbe, “Mesquita e Estado", Wall Street Jou rn al, 13 de agosto


de 1987, p. 1.
13 Ibid.,p. 14.
60 Digno d e Adoração

cristãos de nossas igrejas deveriam chorar e arre­


pender-se por causa dos altares que temos cons­
truído aos falsos deuses. Quando nos arrepender­
mos, nossa reputação será restaurada.
A segunda conseqüência da falsa adoração é a
perda dos filhos. Os filhos de Israel perderam mui­
to mais do que o respeito de outros quando passa­
ram a adorar outros deuses de sua sociedade. Per­
deram os filhos. Oséias trouxe uma palavra de
Deus quando disse: "V isto que te esqueceste da lei
do teu Deus, também eu me esquecerei de teus
filhos" (Oséias 4:6). Um coração dividido em sua
lealdade produzirá um lar dividido em sua adora­
ção.
Os pais têm trem enda responsabilidade de
amar a Deus de todo o coração. Uma das forças
mais destrutivas num lar cristão é a incongruência
na vida dos pais. Quando, pela prim eira vez, co­
m ecei a pregar o evangelho de Cristo, eu trabalha­
va com os jovens nas ruas. Muitos deles eram
fugitivos, haviam abandonado a escola, e eram
viciados em drogas. Meu m inistério com eçou no
final da década de 1960 entre os jovens engajados
na contra-cultura, chamados hippies. Esta era a
geração que havia rejeitado os valores tradicionais
de seus pais.
Enquanto eu pregava o glorioso evangelho de
Cristo entre meus contem porâneos, descobri algo
apavorante. M uitos desses jovens vinham de igre­
jas e de famílias sólidas, evangélicas. Encontrei-me
com filhos de diáconos, de pastores, e de presbíte­
ros. Perguntei a muitos deles por que haviam dei­
Falsa Adoração 61

xado os lares e rejeitado o Deus de seus pais. Em


quase 75% dos casos esses jovens falaram das in­
congruências da vida de seus pais. Seus pais eram
fiéis nos domingos, quando cantavam os grandes
hinos de louvor e adoração ao Salvador, mas era
óbvio que haviam edificado altares a outros deuses
também. Em vez de buscarem a Deus, eles gasta­
vam tempo e energia na busca de poder, prestígio
e riqueza. Conseqüentemente, esses pais perde­
ram os filhos.
Em cada ocasião que m inha esposa e eu desco­
bríamos que ela estava grávida, nós realizávamos
um a reunião de oração. Dedicávamos cada um de
nossos filhos ao Senhor. Sabíamos que a vocação
de Deus para nossa vida era adorá-lo e honrá-lo.
Portanto, queríamos honrá-lo com nossos filhos.
N a dedicação de nossos filhos ao Senhor, estáva­
mos em realidade dedicando-nos a nós mesmos a
um a vida de sincera adoração a Deus.
Realmente, a dedicação era a parte fácil da cria­
ção de nossos filhos. A parte difícil tem sido viver
diante deles de tal maneira que eles queiram seguir
o Deus que amamos e adoramos. E tão fácil transi­
gir e abraçar outros deuses. Há muita pressão da
sociedade para amoldar-nos, e há o apelo sutil da
falsa adoração. Nossos filhos sofrem tremenda
pressão para prostituir-se com os deuses de nossa
sociedade. Se, porém, quisermos criar filhos res­
peitosos a Deus e não perdê-los para o mundo, não
devemos curvar-nos diante dos deuses desta gera­
ção. Os filhos devem ver e experimentar a seguran­
62 Digno d e Adoração

ça que habita num lar onde somente se adora o


Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó.
A terceira conseqüência da adoração dividida é
a perda de poder no m inistério. Oséias disse: "O
meu povo é destruído porque lhe falta o conheci­
mento. Porque tu rejeitaste o conhecimento, tam­
bém eu te rejeitarei como m eu sacerdócio" (Oséias
4:6). Anteriormente ele havia explicado que tipo de
conhecimento eles haviam rejeitado: "N ão há ver­
dade, nem amor, nem conhecimento de Deus na
terra" (Oséias 4:1).
Os israelitas já não tinham o poder de assistir
como sacerdotes porque haviam rejeitado o conhe­
cimento de Deus. Esta é, talvez, a mais trágica de
todas as conseqüências de um coração dividido. O
cristão que se inclina diante dos deuses deste sécu­
lo perde seu poder de servir porque perde seu
conhecimento de Deus. Estou convencido de que
nossas igrejas não precisam encher-se de mais gen­
te, e, sim, de que as pessoas que nelas estão en­
cham-se do conhecimento de Deus. Quando tiver­
mos íntim o conhecimento de Deus, nossas igrejas
não terão espaço para com portar as pessoas que
estarão buscando o Deus que conhecemos.
Durante tempo demasiado temos pensado que
o poder para alcançar o mundo para Cristo está
num a evangelização em sintonia com o estilo de
Hollywood. Devemos saber que o m undo não pro­
cura esse tipo de Cristianismo sensacional. O mun­
do necessita, antes de tudo, de ver realidade em
nosso Cristianismo. Essa realidade provém de pes­
soas que têm conhecimento autêntico de Deus. E é
Falsa Adoração 63

impossível, sem dúvida, adquirir conhecimento


íntimo de Deus adorando deuses mundanos.
Esta geração necessita de homens e mulheres de
caráter, e a raiz do caráter com a im agem de Deus
é o verdadeiro conhecimento de Deus. A m edida
que chegarmos a conhecê-lo, viremos a amá-lo; à
m edida que o amarmos, obedeceremos a ele. A
obediência é sim plesm ente o conhecim ento de
Deus aplicado ao viver diário. O fruto desse co­
nhecim ento é poder no ministério. Ministério é
conseqüência do caráter. Se crescemos no sentido
de nos tornarmos semelhantes a Cristo, teremos
poder no ministério. Se não nos estamos tornando
semelhantes a Cristo, seremos impotentes para
ajudar outros a chegar até ele. Portanto, devemos
tom ar todo cuidado para nunca perdermos esse
conhecimento íntimo de Deus — mas não teremos
essa intimidade com Deus enquanto nos apegar­
mos aos deuses de nossa cultura.

Os Deuses do Século
Cada geração e cultura edifica seus próprios
ídolos, e esta geração em nada é diferente. Há
quatro deuses óbvios em nossos dias. E interessan­
te notar que em muitos escândalos recentes da igreja
cristã, alguns desses "deuses" estão presentes.
O prim eiro é o "deus do prazer". Os dicionários
definem o hedonism o como "doutrina que consi­
dera que o prazer individual e imediato é o único
bem possível, princípio e fim da vida m oral".
Grande parte do m undo m oderno tornou-se hedo­
nista na sua maneira de pensar, e por toda a parte
tem erigido altares ao deus do prazer.
64 Digno d e Adoração

A igreja, de igual modo, tornou-se hedonista em


sua m aneira de adorar. Visto que tenho estado em
várias partes do mundo, meu coração se quebranta
por causa da situação difícil de muitos cristãos. É
demasiado grande o número de cristãos "nascidos
de novo" que pensam haver adorado a Deus, no
domingo, se saírem com sentimentos agradáveis
do culto. O objetivo dessas pessoas é deleitar o ego
em vez de glorificar a Deus. O prazer, e não a
pureza, tornou-se o teste da adoração para elas.
Mas Jesus disse: "Bem -aventurados os puros de
coração, porque eles verão a D eus" (Mateus 5:8).
Certa vez dei m eu testemunho para duas hom os­
sexuais no encerramento de um culto de adoração.
Disseram-me que não mais voltariam à igreja por­
que não se sentiam bem nos cultos. Elas freqüen-
tavam outra igreja onde suas práticas hom osse­
xuais não constituíam problem a. Elas podiam
cantar louvores, adorar, e sentir-se bem durante
esses cultos sem alterar seu estilo de vida.
Em essência, essas duas jovens não adoravam
ao Deus da Bíblia. Adoravam ao deus do prazer:
se lhe parece bem, faça-o. Grande parte da adora­
ção em nossos dias está de acordo com essa filoso­
fia. Ela é pouco mais do que a tentativa de fazer as
pessoas sentir-se bem. Não obstante, nem sempre
nos sentiremos à vontade quando entrarmos na
presença de um Deus santo. Sua presença e glória
trarão à luz nosso pecado. O arrependim ento não
é fácil; é difícil. Muitas vezes Deus nos conduz ao
lugar onde sentim os profundo pesar por causa
de nossos pecados.
Falsa Adoração 65

O segundo deus falso que temos ad orad o é o


"d e u s das p o sse ssõ e s". E q u iv ocad am en te te­
m os chegad o a p ensar que o "fim p rin cip al do
hom em é g lo rificar a D e u s" e acu m u lar o m á­
xim o de coisas p o ssív eis. N a p resen te geração
tem os definid o o su cesso em term os de o rça­
m en tos, e d ifício s, e grandes n eg ó cio s. C h ega­
m os a p ensar que a som a total da vid a resid e
em nossas p osses, e assim caím os dian te dos
altares do m aterialism o.
N ão é p reciso ser rico para ad orar o "d e u s
das p o sse ssõ e s". T enho con h ecid o m u itas p es­
soas de b aixa e m éd ia rend a que, com o as ab as­
tad as, se têm cu rvad o d iante deste deus. N ão
é o d in heiro que é a raiz de todos os m ales. E
o am or ao d in heiro (1 T im óteo 6:10). V ivem os
em um m undo m aterial, m as devem os usar
nossas posses m ateriais para a g ló ria de D eus
e p ara o avanço do seu reino.
O deus das p ossessões pode ser su til em
sed u zir nosso co ração. M u itos cristão s com e­
çaram sua jo rn ad a em C risto com sin cera de­
voção a D eus. D ep ois, nalgum p on to ao lon go
do cam inho, p erd eram a p ersp ectiv a e com eça­
ram a in clin ar-se d iante desse deus falso.
C om o o cristão pode d etectar o engodo do
deus das p ossessões? P ode d etectá-lo qu ando
p ercebe que o qu e está d eterm inan d o sua dig­
n id ad e e valor são suas posses. Esse é o ponto
no qu al ele com eçou a adorar no altar desse
deus fa lso . P o d e d etectar a su til arm ad ilh a
tam b ém qu and o recon h ece que com eçou a atri­
66 Digno d e Adoração

buir im portância a outras pessoas baseando-se no


que elas possuem . Ao com eçar a fazer isso, ele
terá dividido seu coração entre o deus cultural e
o verdadeiro Deus.
Tiago 2:2-4 faz forte advertência a respeito
desta questão: "P o r exem plo: Se na vossa reunião
entrar algum hom em com anel de ouro no dedo,
e com trajes de luxo, e entrar tam bém algum
pobre andrajoso, e atentardes para o que tem os
trajes de luxo, e lhe disserdes: A ssenta-te aqui em
lugar de honra, e disserdes ao pobre: Fica aí em
pé, ou assenta-te abaixo do estrado dos m eus pés,
não fazeis distinção entre vós m esm os, e não vos
tornais juizes m ovidos de m aus pensam entos?"
M uitos, na presente geração, têm caído na
arm adilha de atribuir im portância som ente às
pessoas que possuem riqueza. Tem os definido
erroneam ente o sucesso. O pastor ou o obreiro
cristão b em -su ced id o não é n ecessariam en te
aquele que tem a igreja com m aiores instalações,
o que tem a m aior casa, ou autom óvel mais caro.
O obreiro cristão bem -sucedido é aquele que tem
sido fiel em seu serviço a Deus, e a ele tem dedi­
cado adoração sincera. É a esse tipo de obreiro
que um dia Deus dirá: "B em está, servo bom e
fiel." N ossa dignidade e nosso valor devem ser
encontrados som ente em Deus. N ão devem os
adorar no altar do deus das possessões. N ossa
dignidade só se encontra naquele que é digno de
nossa adoração.
O terceiro deus falso que deve ser rem ovido
de nossa vida é o "d eu s do p restíg io ". D evem os
Falsa Adoração 67

escolher. Ou é "não eu, mas Cristo que vive em


m im ", ou é o " e g o " e n ão C risto qu e re in a em
m in h a vida. N ão pod em os erigir m onu m en tos
e altares a nós m esm os en qu an to alegam os
ad o rar a Jesu s. O v erd ad eiro ad orad or é aq u e­
le que b u sca o rein o de D eus, e não aqu ele que
ed ifica seu p róp rio im p ério. O v erd ad eiro ad o­
rad o r tem fom e do rein o de D eus e sua ju stiça.
Em seu coração não haverá esp aço para um
m onu m en to ao hom em ou para um a atitu d e de
ju s tiç a próp ria.
M u itos p astores p od erosos têm caíd o recen ­
tem en te. Em m u itas ocasiões o liv ro de P ro v ér­
b ios d escreve a cau sa fu n d am en tal da qued a
de um hom em : "A sob erb a do hom em o ab ate­
rá, m as o h u m ild e de esp írito o b terá h o n ra"
(P ro v érb ios 29:23). A sob erb a ou orgu lh o são
co isas p erigo sas. T êm um je ito de in sin u ar-se
no co ração, até m esm o no co ração dos hom ens
m ais esp iritu ais.
Q u a n d o e x p e rim e n ta m o s as b ê n ç ã o s de
D eus, en fren tam os n o ssa m aior ten tação. Os
tem pos m ais p erigo so s de n o ssa vid a cristã
vêm depois das gran d es v itó rias que alcan ça­
m os. Q u and o lu tam os e vencem os, som os te n ­
tados a erigir u m altar ao "d e u s do p re stíg io ".
Q u an d o receb em o s lou vor, estam os no grande
m om en to de d ecisão. N esse m om en to d eve­
m os receb er h u m ild em en te o lou v or d estin ad o
a nós e d e p o sitá-lo aos pés de Jesu s. Jam ais
d evem os crer qu e som os tão im p ortan tes com o
d izem qu e som os.
68 Digno d e Adoração

D evem os reco n h ecer con scien tem en te que


som os o qu e som os so m en te p e la g ra ça de
D eus. Salo m ão escrev eu com sab ed o ria: "O h o ­
m em é p rovad o pelos lou v ores que re c e b e "
(P ro vérb ios 27:21). Deus testará nosso desejo de
adoração perm itindo que sejam os louvados. É
então que poderem os com eçar a erigir um altar
ao deus do prestígio, ou então dedicarem os esse
louvor àquele que é digno.
Por m uitos anos os m idianitas saquearam os
filhos de Israel. Então um dia Deus cham ou um
hom em para livrar os filhos de Israel dessa terrí­
vel sitüação. Deus disse a G ideão que ele era
guerreiro valente e que seria usado com grande
poder. M as duas coisas G ideão deveria fazer an­
tes. U m a era edificar um altar de adoração. Isto
G ideão fêz. Depois de seu encontro com o A njo
do Senhor, G ideão edificou um altar ao qual
denom inou: "O Senhor é P az." A adoração foi o
resultado de seu encontro com Deus.
A segunda coisa era destruir os altares de
Baal. Isto G ideão tam bém fêz. Depois que os
altares dos falsos deuses foram derrubados, o
Espírito de Deus veio sobre Gideão, porque o
hom em a quem Deus unge com seu Espírito é
aquele que adora som ente no altar do Senhor.
Se quiserm os ver a glória de D eus em nossos
dias, devem os destruir os altares que há em nos­
sos corações erigidos aos deuses do século. D eve
haver espaço para adoração som ente ao am ável
Senhor Jesus. A. W. Tozer disse: "P a ra que haja
adoração verdadeira e bendita, algum as coisas
Falsa Adoração 69

em sua vida devem ser destruídas, eliminadas. O


evangelho de Jesus Cristo é, por certo, positivo e
construtivo. Mas deve ser destrutivo em se tratan­
do de certas áreas que devem ser destruídas, pois
possuem elementos que não podem permanecer
num a vida agradável a Deus."1414

14 A. W . Tozer, What Happened to Worship (Camp Hill, Pa.: Christian


Pubns., 1985), p. 125.
Nenhuma adoração é totalmente agradável a Deus
enquanto houver em mim algo desagradável a Deus.

A. W. Tozer,
Whatever Happened to Worship

Quem subirá ao monte do Senhor? Quem estará no


seu lugar santo? Aquele que é limpo de mãos e puro de
coração, que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura
enganosamente.

Salm o 24:3-4
5
Adoração em Espírito

Tenho-m e encontrado com pessoas oriundas


das grandes religiões do mundo. Tem sido inte­
ressante notar a diferença que há nos princípios
da adoração cristã e nos de outros grupos religio­
sos. A prim eira vista a adoração desses grupos
parece até m uito semelhante, mas melhor exame
deixa clara uma grande diferença. O fundamento
da adoração cristã é a graça de Deus. O fundam en­
to da adoração das grandes religiões do mundo é
o trabalho realizado pelo homem. A adoração
cristã com eça com Deus. A das religiões com eça
com o esforço do homem. O Cristianismo é Deus
baixando ao homem . Nas outras religiões é a ten­
tativa do homem de subir a Deus.
"Islam ism o", por exemplo, é palavra árabe cuja
tradução significa "subm issão" ou "rend ição". Pa­
ra um muçulmano, o meio de relacionar-se com
Deus é a rendição à vontade de Deus. Isso parece
m uito bom. Rendição e submissão são palavras
igualm ente apreciadas ao cristão. Há, porém, um
abismo entre a adoração islâmica e a adoração
72 Digno d e Adoração

crstã, tão grande quanto a diferença que há entre a


luz e as trevas.

Contraste entre a Adoração Cristã e as outras


Religiões
A fim de entendermos essa diferença, devemos
entender a natureza humana. Deus criou o hom em
à sua própria imagem. Existem três aspectos da
natureza de Deus, mas só existe um Deus. M esmo
quando aceitamos o Pai, o Filho e o Espírito Santo,
os três são um. A Trindade é um conceito de difícil
compreensão, mas este conceito tem-me ajudado a
reconhecer que o hom em é muito sem elhante a
Deus porque foi criado à im agem de Deus.
Nossa vida apresenta-se em três dim ensões —
a espiritual, a personalidade, e a física. A dimensão
espiritual é a área onde se origina a verdadeira
adoração. Ela está na parte mais íntima de nosso
ser. A dimensão da personalidade inclui a vonta­
de, a mente e as emoções. A dimensão física é a
parte exterior de nossa vida; ela funciona prim or­
dialmente mediante nossos cinco sentidos.
A mais profunda é a dimensão espiritual. Aqui
é o lugar onde comungamos com Deus. Todavia,
o espírito do homem está morto por causa do
pecado. A Escritura diz que "o salário do pecado é
a m orte" (Romanos 6:23). Morte não significa ani­
quilamento; significa separação. W. E. Vines, eru­
dito da língua grega, diz que a m orte é "a separa­
ção entre o homem e Deus. Adão morreu no dia
em que desobedeceu a Deus e daí em diante toda
a hum anidade nasce na m esm a condição espiri­
tual. M orte é o oposto de vida; ela nunca denota
Adoração em Espírito 73

O HOMEM ESTÁ ESPIRITUALMENTE


MORTO

PERSONALIDADE DO HOMEM

1. VO N TA D E
O homem pecou. Ele é escravo do pecado.
Sua vontade está fechada para Deus.
2. IN TELEC TO
Atingido pelo pecado.
3. EM OÇÕES
Atingidas pelo pecado.
74 Digno d e Adoração

não-existência. Assim com o vida espiritual é a


existência consciente em com unhão com Deus, de
igual m odo morte espiritual é a existência cons­
ciente separada de D eu s.'"15
Dessa maneira, o homem está separado de Deus
na parte mais profunda de seu ser. Há, dentro do
homem, um vazio que tem a forma de Deus. O
hom em foi criado para conhecer, amar e adorar a
Deus, mas o pecado criou um abismo entre o ho­
mem e Deus. Permanece a pergunta: "D e que mo­
do, pois, podemos amar e adorar a Deus quando
nos achamos separados dele?"
O diagrama apresentado na página anterior po­
de ajudar-nos a entender o dilema do homem.
O espírito do homem está morto por causa do
efeito do pecado sobre o coração humano: o ho­
mem está separado de Deus. O segredo que restau­
ra nosso relacionamento com Deus é a vontade.
Nós não "caím os no pecado". Escolhemos pecar.
Exceto quanto à pessoa de Jesus, todos, a partir de
Adão, escolheram seguir seu próprio caminho, vi­
ver separados de Deus. Jesus é o único homem cuja
vida inteira podia ser descrita por sua oração:
"N ão se faça a minha vontade, e, sim, a tua" (Lucas
22:42). Jesus é o único homem que viveu com a sua
vontade submedtida com pletam ente à vontade de
Deus.
Os melhores esforços do restante da hum anida­
de, lamentavelmente, não atingem o alvo da santi­

15 W. E. Vine, Vine ’s Expository D ictionary o fN ew Testam ent Words


(McLean, Va.: Mac Donald), p. 278.
Adoração em Espírito 75

dade e pureza de Deus. A vontade de cada ser


hum ano está escravizada. Muitos dos esforços por
fazer o que é certo não visam a glória de Deus, mas
nossos próprios motivos egoístas. Antes de tornar-
m e cristão, eu vivia envolvido em assuntos cívicos
e em tentativas de edificar uma sociedade moral.
Todavia, no centro de todos os meus esforços esta­
va o desejo de reconhecimento. N ão era para a
glória de Deus que eu servia aos outros. Era para
a satisfação do meu próprio ego. E é isto o que
ocorre com todas as pessoas em todos os tempos.
A vontade está em estado de escravidão para sa­
tisfação do ego.
A religião reconhece este problema. Ela diz às
pessoas que elas devem ser submissas a um Deus
santo, sem o que não podem realm ente amá-lo e
adorá-lo. Nesse ponto a religião está parcialm ente
correta — ela tem diagnosticado o problem a da
hum anidade, a necessidade de subm issão a Deus.
Mas a religião é im potente para produzir uma
vontade que se subm eta à vontade de Deus exclu­
sivam ente para o propósito de glorificá-lo.
Pelo contrário, a religião está edificada sobre o
desempenho do homem. Ela tenta fazer com que
as pessoas fiquem bem com Deus externamente;
estabelece um sistem a de obras exteriores destina­
das a levar à verdadeira adoração; diz aos homens
que eles devem observar os rituais exteriores e
executar atos de bondade. Se assim o fizerem , em
últim a instância a m ente e as emoções alcançarão
um estado de tranqüilidade — e desse m odo estão
aptos para adorar a Deus.
76 Digno d e Adoração

Mas o homem não pode viver à altura dos pa­


drões exteriores da religião. A vontade permanece
escrava do pecado, e a dimensão espiritual do
hom em perm anece vazia do Espírito de Deus.
Quando o hom em reconhece sua incapacidade de
atingir os padrões, a religião o deixa frustrado,
vazio e condenado. Não alcançou a realização que
buscava.

O Caráter da Verdadeira Adoração


A verdadeira adoração cristã não se origina do
lado exterior. Ela se origina da parte mais íntima
de nosso ser. A verdadeira adoração brota do co­
ração que foi agraciado por Deus. Para que a ado­
ração seja verdadeira, é m ister que haja um renas­
cimento espiritual na parte mais íntim a de nossa
vida. Jesus disse: "D eus é Espírito, e im porta que
os que o adoram o adorem em espírito e em verda­
de" (João 4:24).
Certa noite, Nicodemos, homem muito religio­
so e mestre entre os judeus, procurou a Jesus.
Exteriormente ele era muito religioso. Ele sabia
haver algo ímpar com relação a Jesus, e veio com
perguntas acerca da verdadeira natureza do Se­
nhor. Nicodemos ficou chocado, porém, quando
Jesus lhe disse que ele tinha de nascer de novo a
fim de entrar no reino de Deus. O reino de Deus é
espiritual, e a adoração no seu reino também deve
ser espiritual. A verdadeira adoração no reino de
Deus não pode realizar-se somente cum prindo-se
a lei religiosa. A verdadeira adoração deve vir de
dentro. Por esse motivo, Jesus disse a Nicodemos:
"O que é nascido da carne, é carne; mas o que é
Adoração em Espirito 77

nascido do Espírito, é espírito. Não te maravilhes


de eu te dizer: Necessário vos é nascer de novo"
(João 3:6-7).
Um a pessoa só pode nascer do Espírito pela
graça de Deus. Não podemos física, psicológica ou
em ocionalm ente abrir nosso cam inho para um
nascim ento espiritual. Devemos nascer de cima. O
nascim ento espiritual ocorre em nosso coração no
m om ento em que o Espírito de Deus nos abre o
coração para a verdade do Filho de Deus. O Espí­
rito concederá circunstâncias e pessoas às nos­
sas vidas a fim de m ostrar-nos o am or do Senhor
Jesus. Q uando respondem os em fé, nascem os de
cim a; nascem os do Espírito de Deus.
Im ediatam ente estam os capacitados para a
verdadeira adoração porque temos a capacidade
de adorar em espírito. Jesus disse: "Q u em crer em
m im , com o diz a Escritura, do seu interior fluirão
rios de água viva." (João 7:38). João continuou a
explicar as palavras de Jesus, escrevendo: "Isto ele
dizia do Espírito que haviam de receber os que
nele cressem. O Espírito Santo ainda não fora
dado, porque Jesus ainda não havia sido glorifica-
d o " (João 7:39).
D epois que Jesus foi crucificado, sepultado e
ressurreto do túm ulo no terceiro dia, ele subiu à
direita do Pai. Foi então que ele foi glorificado.
C ada canto do universo exultou com a glória de
Jesu s. Foi então que Jesus derram ou seu Espírito
sobre os que creram nele. O Espírito de D eus veio
m orar na parte m ais íntim a dos crentes. E a ado­
ração de Jesus fluía de suas vidas com o rios de
78 Digno d e Adoração

ADORAÇÃO RELIGIOSA

■ Origina-se no exterior.
■ Apela aos sentidos físicos

A V O N TA D E ESTÁ FECHADA E
E ESCRAVA DO PECADO
Adoração em Espírito 79

ADORAÇÃO CRISTÃ

■ O homem nasce do Espírito de Deus.


■ A vontade do homem é libertada para obe­
decer Deus.
■ Esta é obra da graça pelo Espírito de Deus.

A ADORAÇÃO ORIGINA-SE NO INTERIOR

PER SO NALID AD E: Está num processo perpé­


tuo de ser renovada à medida que o Espírito de
Deus flui de um coração obediente.

C O R P O : Agora é o templo de Deus. Devemos


apresentar nossos corpos como sacrifício vivo a
Deus (Romanos 12:1-2).
80 Digno d e Adoração

água viva. Eles estavam capacitados para a verda­


deira adoração. Podiam adorar em espírito porque
haviam nascido do Espírito de Deus.

Contraste entre a Adoração Religiosa e a Ado­


ração Cristã
N isto reside a grande diferença entre a adora­
ção religiosa e a verdadeira adoração cristã: A
adoração religiosa tem sua origem na carne, ou
no hom em exterior. A adoração cristã tem sua
origem no Espírito, ou no hom em interior.
A adoração religiosa baseia-se no desempenho
humano. A adoração cristã é obra da graça de Deus
no coração do homem. A adoração religiosa tenta
edificar um relacionamento interior com Deus por
obras exteriores. A adoração cristã resulta do rela­
cionamento interior com Deus, onde o Espírito de
Deus flui livremente para o exterior, produzindo
obras da justiça de Deus. A adoração religiosa
honra ao adorador. A adoração cristã honra ao que
é adorado. A adoração religiosa compara-se à ado­
ração de outros. A adoração cristã vê som ente a
glória de Jesus.
A verdadeira adoração é, pois, o fluxo "sobre­
naturalm ente" natural do Espírito de Deus através
de todo o nosso ser. O Espírito Santo é liberado de
nosso ser interior em virtude da libertação da von­
tade. A vontade do homem agora foi aberta à
vontade de Deus.
A vontade hum ana é, sem dúvida, a área mais
importante de nossa vida em relação ao fluxo da
adoração espiritual gerado em nosso coração. A
vontade do homem está liberta para amar, adorar
Adoração em Espírito 81

e obedecer a Jesus. Há, porém, dois pontos nesta


nova liberdade que vamos considerar. Em prim ei­
ro lugar, ela não nos dá licença para pecar. Muito
ao contrário: significa que recebemos livram ento
do poder e da escravidão do pecado. Em segundo
lugar, não significa que agora somos perfeitos, que
nunca mais escolheremos fazer o que é errado.
Significa que agora temos o poder e a capacidade
de escolher o que é certo, o que glorifica a Deus. Já
não somos escravos dominados e controlados pela
satisfação do ego. Agora podemos livrem ente es­
colher glorificar a Deus. Mas devemos fazer essa
escolha dia após dia e momento após momento.

Os Cristãos Podem Adorar de Forma Religiosa


ou Espiritual: a Escolha é Pessoal
Muitos cristãos têm saboreado a alegria da ado­
ração espiritual. Não obstante, a partir desse mo­
mento eles têm perdido o frescor de sua adoração.
Grande parte da adoração moderna entre os cris­
tãos tem sido religiosa e não espiritual. O adorador
passa pelas emoções exteriores da adoração, mas
perdeu o livre fluxo do Espírito de Deus através de
sua vida.
Recentem ente, quando minha esposa e eu está­
vamos a caminho da igreja, tivemos um desacordo,
e eu me dirigi a ela em tom áspero. Eu sabia que
bloqueava o fluxo do Espírito de Deus em m inha
vida. Havia, em m eu íntimo, um senso de aflição.
Contudo, eu me m ostrava impenitente. Quando
chegamos à igreja, tentei adorar, mas sentia-me em
situação m iserável. Tive dificuldade de concen­
trar-m e na afabilidade do Senhor Jesus. Toda vez
82 Digno d e Adoração

que eu tentava olhar para Jesus, o Espírito Santo


me convencia de meu pecado.
Restava-m e uma escolha. Eu poderia arrepen-
der-me e restaurar m inha comunhão com Deus e
com m inha esposa, ou poderia fingir adoração. Fiz
esta última. Eu tinha um a reputação a manter. Era
evangelista internacional e escritor cristão. Como
alguém interpretaria m inha posição de ir ao altar
em estado de arrependimento? Cantei todos os
hinos, disse os "am éns", sorri, e cumprimentei
todos os meus amigos cristãos. Contudo, não ado­
rei a Jesus Cristo. Passei pelas emoções exteriores,
sem adorar em espírito. A verdadeira adoração
não me foi restaurada enquanto não acertei os
ponteiros com Deus e com a minha esposa. Só
então é que pude experim entar a alegria da adora­
ção procedente da liberação do Espírito de Deus
em m inha vida.

Resultados de Escolhermos a Adoração Religiosa


Tem o que muitos cristãos experimentem a m es­
ma adoração ritualística que experimentei antes de
arrepender-me. Muitos têm passado anos sem um
revigoram ento em seu amor e adoração a Jesus
Cristo. Quando ocorre esta aridez espiritual, e a
pessoa tenta adorar a despeito de pecado inconfes-
sado em sua vida, normalm ente acontece um a de
três coisas:
Algumas pessoas continuam a ter seus m om en­
tos tranqüilos e a ir à igreja. Cessaram, porém, com
a adoração que flui de rios de água viva. Elas se
colocam em pé e adoram às margens de leitos secos
de rios. Sentem as emoções exteriores religiosa­
Adoração em Espírito 83

m ente e com grande disciplina. Mas não há adora­


ção autêntica, viva, jubilosa de Jesus.
O segundo grupo tenta m anipular sua expe­
riência de adoração. Procuram estimular o intelec­
to ou as emoções pelas exibições exteriores de
adoração. Se pertencem a uma igreja altamente
organizada, lançam -se a grandes tarefas "para o
Senhor". Muitas vezes essas pessoas são as que
experim entam "consum ir-se" na igreja. Ou se es­
tão num a igreja mais espontânea em seu estilo de
adoração, talvez sejam as que mais se com ovem
emocionalmente. Elas têm experiências religiosas
de topo da montanha, continuamente, mas nunca
aprendem a caminhar no vale. A inda não apreen­
deram a verdade das palavras de Jesus: "Bem -
aventurados os puros de coração, porque eles ve­
rão a D eus" (Mateus 5:8).
O terceiro grupo desliga-se com pletam ente.
Não há verdadeira alegria ou paz em sua adoração.
Como conseqüência, com eçam a criticar os outros.
Jogam a culpa sobre todos pela falta de qualidade
da adoração. A pregação é com prida demais, a
m úsica é alta demais, eles estão por demais ocupa­
dos para um a hora tranqüila — a culpa é sempre
de outrem. Finalm ente ele se cansam de sentir-se
infelizes na igreja e param de freqüentá-la. Ou se
tornam esgotados por uma hora tranqüila enfa­
donha, e deixam de passar tempo a sós com Deus.
Esses três grupos constituem m ultidão de cris­
tãos nos cultos de adoração em nossos dias, que
não experimentam a adoração cristã. Eles adoram
de acordo com os princípios da religião, e não de
84 Digno d e Adoração

acordo com os princípios da verdadeira adoração


espiritual. O apóstolo Paulo escreveu aos cristãos
da G alácia enfrentando este mesmo problema.
Paulo perguntou-lhes: "Sois vós tão insensatos
que, tendo com eçado no Espírito, acabeis agora
pela carne?" (Gálatas 3:3). É insensatez pensar que
podemos continuar a crescer em nossa adoração a
Jesus somente por formas, rituais e métodos exte­
riores.

Provando a Espiritualidade da Adoração


Há, na igreja cristã, muitos estilos e formas ex­
teriores de adoração. Muitas vezes tentamos pro­
var a espiritualidade da adoração pela qualidade
de sua form a exterior. Alguns pensam que a ado­
ração espiritual deva ser de natureza espontânea.
Outros acham que ela deveria ser altamente orga­
nizada e muito disciplinada. Segundo alguns, a
a d o ra çã o e sp iritu a l se ca ra c te riz a p or altos
"am éns". Outros pensam que a verdadeira adora­
ção é silenciosa e meditativa. Alguns gostam de
levantar as mãos. Outros acham que isso causa
distração. Contudo, em cada uma dessas catego­
rias tenho encontrado pessoas profundamente es­
pirituais em sua adoração a Jesus Cristo, e outras
que m eram ente desempenham um dever religioso
de adoração.
Não se pode definir a verdadeira adoração co­
mo tradicional ou não tradicional. E até possível
ser tradicional quanto ao nosso não-tradicionalis-
mo. A tradição se relaciona com a repetição de um
m odelo, e não com o caráter essencial desse m ode­
lo. O segredo da verdadeira adoração não está nas
Adoração em Espírito 85

exterioridades; está na pureza de nosso coração. A


adoração a Jesus Cristo jam ais deve tom ar-se tão
m ecânica que sim plesmente experim entem os as
emoções. Jesus é o único que m erece um coração
puro e devoto em nossa adoração.
Durante o reavivam ento das Ilhas Hébridas, na
década de 1950, m uitos crentes apropriaram-se do
Salm o 24, uma expressão da diretriz de Deus para
a adoração. O salm ista começa com a pergunta:
"Q u em subirá ao m onte do Senhor? Quem estará
no seu lugar santo?" (Salmo 24:3). Ele responde à
pergunta dizendo que para ser verdadeiro adora­
dor deve satisfazer-se a três exigências. A primeira
é que a pessoa deve ter mãos limpas.
Nossas m ãos são as partes mais prováveis de
nossos corpos a apanhar doença quando saímos
para o mundo. U m médico romeno serve-me de
intérprete quando prego em seu país. Ao término
dos cultos cum prim entam os as pessoas e aperta­
m os centenas de mãos. Então ele sempre me diz:
"Sam m y, antes que façam os qualquer outra coisa,
precisamos lavar as m ãos."
O mesmo ocorre em nosso andar espiritual no
mundo. O m undo está cheio da enfermidade espi­
ritual cham ada pecado. Antes de nos dirigirmos ao
lugar de adoração, devemos ter m ãos limpas. De­
vem os endireitar as coisas erradas e confessar to­
dos os pecados. Devemos ver a necessidade e a
urgência de estarmos lim pos diante de Deus. Não
devemos esperar até ouvirmos um sermão inspi­
rador. A adoração não ocorre som ente durante o
culto de domingo. A adoração m anifesta-se diaria­
86 Digno d e Adoração

mente. Não devemos, portanto, permitir que nen­


hum a enfermidade espiritual se apegue a nossas
vidas. Se quisermos estar diante do Senhor em
adoração, devemos vir com mãos limpas.
Em segundo lugar, o salm ista diz que devemos
ter coração puro. E neste ponto que o teste da
adoração se torna mais difícil. Não som ente deve­
mos conservar lim pa a nossa vida em nosso rela­
cionamento exterior com o m undo que nos cerca,
mas devemos m anter pura a nossa vida interior.
A pureza de coração aclara a nossa visão de
Deus em sua grandeza e esplendor. Lem bro-m e da
primeira vez que me disseram que eu necessitava
de usar óculos. Vivera mais de trinta anos sem
saber que eu necessitava de óculos. Meu defeito era
de pequena importância, mas quando coloquei os
óculos pela primeira vez, eu não podia acreditar
no que via. Não sabia que o mundo pudesse ser
tão claro. Eu dirigia constantemente meu carro
tirando os óculos e colocando-os de novo. Sorria e
dizia: "Isto é fantástico. O mundo é muito mais
belo do que eu im aginava."
O mesmo se verifica com a atitude de nosso
coração. Muitos cristãos têm abrigado por tantos
anos atitudes no coração que os impedem de ver
a Deus claramente. A amargura e a culpa obscure-
cem nossa visão de Deus. Outras atitudes ímpias
tam bém anuviam nossa visão. Se quisermos ado­
rá-lo em espírito, devemos livrar-nos de todas as
impurezas interiores que há em nossa vida.
Finalm ente, o salmista diz que devemos usar a
língua para glorificar a Deus. A carta de Tiago diz
Adoração em Espirito 87

que a língua pode ser pequena, mas é poderosa.


Ela pode ser instrumento para expressar adoração
a Deus, ou pode ser instrumento para am aldiçoar
as pessoas. Se esperamos que Deus aceite o sacri­
fício de louvor de nossos lábios, devemos tomar
todo o cuidado ao permitir que eles sejam usados
som ente como instrumento de bênção.
Como, pois, podemos permanecer na verdadei­
ra adoração espiritual? Nossa vida toda deve ren-
der-se ao Espírito Santo pela graça de Deus. Davi
disse que aquele que pode verdadeiram ente per­
m anecer no lugar da adoração é "lim po de mãos e
puro de coração, que não entrega a sua alm a à
vaidade, nem jura enganosam ente" (Salmo 24:4).
Essa é a pessoa que pode ir ao lugar de adoração.
O único meio pelo qual nos é possível "alimentar-nos
de Cristo" é mediante a Palavra de Deus. Simplesmente
estudar a Bíblia de um ponto de vista intelectual a fim
de conhecê-la não é alimentar-nos dele; e, mais ainda, tal
estudo não é suficiente. Por outro lado, é impossível
tentarmos conhecer a Cristo e alimentar-nos dele sem a
Bíblia, porque Deus ordenou que ela seja o veículo de sua
comunicação com o homem.

C. Campbell M organ,
This Was His Faith

Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o


adorem em espírito e em verdade.

João 4:24
6
Adoração em Verdade

Através dos séculos, a luz da glória de Deus tem


brilhado no coração de homens e mulheres me­
diante o ministério da Palavra de Deus. Martinho
Lutero leu as Escrituras pela prim eira vez no m os­
teiro agostiniano. Sua vida nunca mais foi a mesma
depois de meditar na verdade encontrada neste
Livro. Ele descobriu a maravilha, a glória, e o
encanto de Jesus. O Livro que Lutero leu produziu
a Reform a de toda uma sociedade.
Em qualquer tempo e em qualquer lugar em
que as pessoas descobriram a verdade das Escritu­
ras, o resultado foi grande despertamento de seu
coração para adorar ao Senhor Jesus. Foi a prega­
ção da Bíblia que me conduziu a um relacionamen­
to pessoal e eterno com Deus. Tem sido o estudo e
a meditação constantes das Escrituras que conser­
varam um frescor em m eu relacionamento amável
com o Salvador. Dia após dia posso descobrir al­
guma jóia de seu caráter através da Palavra de
Deus.
M eu primeiro pastorado foi na Igreja Batista de
Hahn, em Han, na Alemanha. Um idoso e sábio
90 Digno d e Adoração

pastor incentivou-me a pregar de m aneira exposi-


tiva versículo por versículo. Aceitei seu conselho e
com ecei a pregar a partir do livro do Gênesis.
Descobri, no decorrer daqueles anos, quão grande
e tem ível é nosso Deus. Também descobri que a
Bíblia era alimento para a alma do povo. As pes­
soas enchiam o templo. Tivemos de mudar-nos
para a escola secundária local devido à falta de
espaço nas instalações da igreja. Os cultos de ado­
ração passaram a ser emocionantes. As pessoas
vinham com o coração faminto para aprender mais
a respeito do Salvador.
Algo dinâmico acontece quando a Bíblia é aber­
ta. Vidas se transformam. Cristo é exaltado. A
adoração flui do coração do povo de Deus. O m i­
lagre que ali transpira é inexplicável.
Há alguns anos fui convidado para um progra­
ma de palestras num a estação de TV em Chicago,
com outros cinco ministros de várias formações
religiosas. O anfitrião era agnóstico. Quatro dos
ministros não acreditavam que a Bíblia fosse a
infalível e inspirada Palavra de Deus, em bora três
deles viessem de igrejas denominacionais cristãs.
Éramos som ente dois os que aceitávamos a Bíblia
com o a santa, infalível e inspirada com unicação de
Deus com a humanidade. Depois de muito debate
com respeito à inspiração da Escritura, o agnóstico
anfitrião declarou: "M inha tendência é no sentido
de concordar com os cavalheiros que não confiam
inteiramente nas Escrituras. Há, porém, um a coisa
que realmente me incomoda. Por que as igrejas que
pregam a Bíblia vivem lotadas? Por que as pessoas
Adoração em V erdade 91

deixam suas igrejas para unir-se àquelas que fun­


damentalmente ensinam e pregam as Escrituras?"
O fenôm eno que ele havia observado é, da pers­
pectiva puramente lógica, realmente um mistério.
Por que as pessoas do século vinte, tidas como
adiantadas, vivem de acordo com um Livro antigo,
escrito há milhares de anos por numerosos auto­
res? Que é que há nesse Livro que tem conquistado
a lealdade de milhões de pessoas através dos tem ­
pos? Por que esse Livro tem cativado os melhores
intelectos dos séculos? Por que grandes homens
com o Saulo de Tarso, Ambrósio, Agostinho, João
C alvino, M artinho Lutero, George W hitefield,
João W esley, e Jonathan Edwards deram a vida à
pregação desse Livro? Por que homens e mulheres
hoje arriscam seu futuro, suas famílias, e enfren­
tam até prisão para levar esse Livro a sociedades
fechadas?
H á uma resposta simples, porém maravilhosa,
a todas essas perguntas. Esse Livro contem pala­
vras de vida às pessoas de todas as gerações, que
viveram neste mundo. Ele é o testemunho do Deus
que as criou e do Salvador que as redime, e lhes
oferece vida abundante e eterna. Ele é a carta de
am or daquele que é a fonte de nossa existência. Ele
é o testemunho de Jesus.
No século dezoito ocorreu grande avivamento
espiritual na Inglaterra, onde havia numerosos lí­
deres cristãos. O bispo J. C. Ryle disse a respeito
desses líderes "qu e em toda a sua pregação eles
eram sem dúvida homens de um único livro. N es­
se livro eles ancoraram sua fé, e por ele foram
92 Digno d e Adoração

sustentados sentindo nisso grande contentamento.


Esta era uma importante característica da prega­
ção. Eles honravam, amavam, e reverenciavam a
B íb lia ".!6
U m desses líderes era George W hitefield, que
era hom em da Bíblia. Ele estudava, decorava, ama­
va e pregava a Bíblia. M ilhares se reuniam ao ar
livre para ouvi-lo pregar diretamente do Livro.
Houve ocasiões em sua vida que ele pregava de
quarenta a cinqüenta horas por semana, e sempre
com base nesse grande e antigo Livro. Cedo em seu
ministério ele adquiriu amor à Bíblia e intenso
desejo de estudá-la. Arnold Dallimore, na biogra­
fia de W hitefield, descreve a cena de um a m anhã
no início do ministério de seu biografado: "L á está
ele, às cinco horas da manhã, no quarto em cima
da livraria Harris. De joelhos, com sua Bíblia em
inglês, Novo Testam ento em grego e o Com entário
de Henry abertos diante dele. Ele lê um trecho em
inglês, adquire discernimento mais com pleto do
assunto enquanto estuda as palavras e os tempos
dos verbos gregos; depois considera a exposição
que Henry Matthew faz de tudo isso. Finalm ente,
vem a prática singular que ele desenvolveu: a de
'orar sobre cada linha e palavra', tanto do inglês
como do grego, até que o texto em sua m ensagem
essencial se torne verdadeiram ente parte de sua
própria a lm a ."!7167

16 J. C. Ryle, Christian L ead ers o ft h e ISth Cenrnry (Edimburgo: Banner


ofTruth, 1985), p. 26.
17 Arnold Dallimore, G eorg e W hitefield (Westchester, 111.: Comerstone,
1970), 1:82-83.
Adoração em V erdade 93

W h itefield tornou -se pod eroso hom em de


Deus, em sua geração, porque conheceu no íntimo
o caráter de Deus descrito na Bíblia. As Escrituras
não nos dão m eram ente familiaridade efêmera
com Deus. Elas nos levam a um conhecim ento
íntim o de seus atos grandiosos, de seu caráter
m oral e dos princípios básicos pelos quais Ele
governa o U niverso. Portanto, o verdadeiro ado­
rador é aquele que am a a Palavra de Deus e nela
se deleita.
O salm ista escreveu um acróstico que acentua
a im portância da Palavra de Deus na adoração.
Esse acróstico, Salm o 119, fala de sete obras da
graça que a Palavra de Deus produz no coração
daquele que adora de acordo com a verdade da
Palavra: pureza de vida, reavivam ento da alma,
força e consolo aos aflitos, orientação e proteção
para a jornad a da vida, alegria no espírito, enten­
dim ento em nossas m entes, livram ento das ca­
deias do pecado.

Pureza de Vida
"C om o purificará o jovem o seu cam inho?
O bservando-o segundo a tua palavra... Escondi
a tua palavra no m eu coração, para eu não pecar
contra ti" (Salmo 119 :9,11). Pureza de coração é
requisito indispensável para que haja clareza em
nossa visão de Deus. O salm ista pergunta, por­
tanto, com o pode a pessoa ter coração e vida
verdadeiram ente puros. A resposta é m uito sim ­
ples.
A Palavra de Deus em nós e vivida através de
nós gera pureza de vida. Ela tem a capacidade de
94 Digno d e Adoração

purificar-nos de tudo quanto não se assem elha a


Cristo. Jesus disse: "Exam inais as Escrituras, por­
que pensais ter nelas a vida eterna. São estas m es­
mas Escrituras que testificam de m im " (João 5:39).
Elas são o padrão de Deus pelo qual nos medimos.
Do Gênesis ao Apocalipse, elas são o testemunho
de Jesus. Ele é nosso padrão. Quando lemos as
Escrituras, vemos quão diferentes dele somos em
realidade, e isso produz quebrantamento, arrepen­
dimento, e purificação de nossos corações. Então
nos encontramos em posição de ver claram ente a
Deus e adorá-lo.

Reavivamento da Alma
"A m inha alma está pegada ao pó; preserva a
m inha vida segundo a tua palavra" (Salmo 119:25).
Através dos séculos, os grandes reavivam entos da
cristandade têm estado diretamente relacionados
com o ministério da Palavra de Deus. Por m aravi­
lhosa que seja a música de louvor, ela não produ­
zirá grande reavivam ento espiritual e moral.
E agradável ter meios criativos de adoração em
nossas igrejas e em nossa vida pessoal. Contudo,
nada substitui o m inistério das Escrituras. Elas têm
a capacidade de reanimar os fracos e o santo que
se acha enfermo. Elas desviam o foco da derrota do
cristão e apontam-lhe a vitória do Cristo vencedor.
Em muitas ocasiões de meu viver pessoal com
Deus, tenho-me sentido desanimado e derrotado.
Então é preciso que eu me aquiete e m edite nas
Escrituras para descobrir o Único que pode reani­
mar o coração pesado. As Escrituras têm a capaci­
dade de fazer resplandecer a glória de Deus em
Adoração em V erdade 95

lugares onde a sua luz enfraqueceu. A renovação


espiritual vem ao indivíduo, à igreja ou à com uni­
dade que se abre à luz da Palavra de Deus.

Força e Consolo aos Aflitos


"A minha alma consom e-se de tristeza; fortale­
ce-m e segundo a tua palavra... Sirva o teu constan­
te amor para me consolar, segundo a promessa que
deste ao teu servo" (Salmo 119:28,76). João Wesley
era hom em que amava a Bíblia. Certa vez ele disse:
"O h, dai-me esse livro! A qualquer preço dai-me o
livro de Deus... Seja eu um homem de um único
liv ro ."!8
Por que esse livro era de tão grande importância
para W esley? Em primeiro lugar, esse livro dava
grande força e consolo a ele e a muitos de seus
seguidores durante os tempos difíceis. W esley dis­
se também: "N osso povo fez bem! O mundo pode
encontrar erros em nossas opiniões, mas não pode
negar que nosso povo fez b e m ."!9 Em outras pala­
vras, esse Livro não somente deu a W esley a força
para viver na graça de Deus, mas tam bém para
morrer em sua graça. Durante os m omentos mais
profundos de tristeza W esley achava que a Bíblia
o levava à verdadeira fonte de força e consolo.

Orientação e Proteção para a Jornada


"Lâm pada para os meus pés é a tua palavra, e
luz para o meu cam inho" (Salmo 119:105). O cora­
ção hum ano clam a desesperadamente por segu­*19

i s J. C. Ryle, Christian L ead ers o ft h e 18th Century, p. 90.


19 Ibid.,p. 173.
96 Digno d e Adoração

rança. As pessoas tentam construir o futuro sobre


duas coisas que, pensam, podem fazê-las seguras.
Primeiro, buscam segurança em outras pessoas.
O único problem a é que todas as pessoas trazem
consigo um a trágica falha humana: o pecado. O
pecado leva a base de nossa segurança a desinte-
grar-se porque ele gera a morte. Assim, num deter­
m inado dia perderemos aqueles que nos fazem
sentir muitíssimo seguros. Também, o pecado traz
desapontamento. Devido à natureza decaída da
hum anidade, nossos amigos e nossa fam ília tam ­
bém falharão conosco. A segurança absoluta não
pode ser encontrada nas pessoas.
Em segundo lugar, as pessoas tentam encontrar
segurança nas posses materiais. Há a tendência de
supor que casas elegantes, automóveis caros e altos
salários produzem o tipo de segurança de que
necessitamos na vida. Contudo, depois de vários
anos observando pessoas de todas as classes so­
ciais, concluí que não há indústria ou ocupação que
possa garantir segurança.
Por que as pessoas, as posições e as posses não
podem garantir segurança absoluta? E porque coi­
sas m ateriais não podem predizer o futuro. Toda­
via, as Escrituras nos apresentam o Deus eterno.
Ele existia antes de nascermos e continuará a existir
depois de nossa morte. Ele conhece cada parte de
nossa estrutura genética. Ele está plenamente côns-
cio de nossas forças e fraquezas. Ele tem pleno
conhecimento da História e sabe que ela é realm en­
te a sua história. Ele sabe tudo a respeito de todos
os que já viveram. E ele tem o poder de ordenar os
Adoração em V erdade 97

acontecimentos de nossa vida. Ele pode moldar


nosso destino e emendar nosso passado.
A Palavra de Deus guia-nos ao caminho sobre
o qual este Deus eterno, onipotente e onisciente,
deseja que caminhemos. Ela é a luz que nos dirige
através dos tempos sombrios e perigosos da vida.
Ela é o único lugar onde encontramos verdadeira
segurança. O coração que encontrou segurança em
Deus certamente será um coração que adora.

Alegria no Espírito
"A legro-m e nas tuas promessas, como aquele
que acha grandes despojos" (Salmo 119:162). M ui­
tas pessoas pensam que devem ser sobretudo so­
lenes em sua adoração a Deus, que essa adoração
representa apenas o senso de reverência e respeito
pelo Criador. Elas estão parcialmente certas —
solenidade e respeito a Deus são partes da adora­
ção. Mas na adoração deve haver, também, pro­
fundo senso de alegria a fluir do coração que co­
nhece a Deus e o adora.
As Escrituras contêm os tesouros da glória de
Deus. Toda vez que abrirmos as Escrituras com
coração puro descobriremos uma jóia no caráter de
Deus. Essas jóias de seu caráter devem dar-nos
grande deleite em nossa adoração.

Entendimento em Nossas Mentes


"C hegue a ti o meu clamor, ó Senhor; dá-me
entendim ento conform e a tua palavra" (Salmo
119:169). Muitas pessoas, por não entenderem cor­
retam ente a natureza de Deus, são superficiais na
adoração. Outras, por possuírem fundamento in­
98 Digno d e Adoração

correto para a sua fé, se entregam à adoração com ­


pletam ente falsa.
Faz alguns anos aproximou-se de mim, nas ruas
de Amsterdã, um grupo de jovens que davam
testemunho. Diziam às pessoas que elas necessita­
vam aceitar a Cristo no coração. Convidaram-me
a ir a sua "casa cristã do café". Fiquei ansioso por
conhecer melhor esses jovens que pareciam cren­
tes cheios de vida. Contudo, a casa do café nada
mais era do que uma "discoteca cristã" onde eles
"em purravam as pessoas para Jesus".
Discuti com eles, em detalhes, as reivindicações
de Cristo. Disseram-me acreditar que Alá é Deus,
que M aom é é seu profeta, e que Jesus é seu filho.
Obviamente não foi da Bíblia que eles tiraram essas
conclusões. Não obstante, de contínuo citavam
versículos da Bíblia. Perguntei-lhes com o podiam
crer na Bíblia e ao mesm o tempo considerar-se
seguidores de Maomé. Descobri que havia um
"grande profeta" chefiando o grupo. Esse "profe­
ta" era a autoridade final em questões de fé.
Era esse o tipo de adeptos que Jim Jones reuniu
em torno de si. Grande tragédia ocorreu porque
centenas de pessoas deram ouvidos às palavras de
Jim Jones como única autoridade, em lugar de
atentarem para a Palavra de Deus. A revelação
final e autorizada de Deus ao homem não é a Bíblia
e mais um profeta. Nem é a Bíblia e mais algum
outro grande livro relgioso. A revelação final da
pessoa, dos atributos e da natureza de Deus encon­
tra-se tão-somente na Bíblia. Se quisermos com ­
preender de modo correto o caráter moral de Deus,
Adoração em V erdade 99

devemos tornar-nos pessoas de um só grande Li­


vro, a Bíblia. Sem as Escrituras Sagradas pode
ocorrer de adorarmos um deus falso. Jesus disse
que os verdadeiros adoradores não som ente ado­
rarão em espírito, mas também em verdade. A
Palavra de Deus é verdade absoluta.

Livramento das Cadeias do Pecado


"Chegue a minha súplica perante a tua face;
liv ra -m e se g u n d o a tua p ro m e s s a " (Salm o
119:170). O primeiro cântico de adoração registra­
do na Bíblia encontra-se no capítulo 15 de Êxodo.
A nação de Israel havia vivido sob escravidão no
Egito durante quatrocentos anos. Haviam sido tra­
tados com brutalidade. Então, depois de quatro­
centos anos de escravidão, Deus operou milagres
para livrá-los do cativeiro. A adoração que devo­
taram a Deus deve ter sido esplêndida porque eles
chegaram a adorá-lo como seu Libertador.
Alguns dos mais comoventes m omentos da his­
tória têm sido os tempos nos quais as pessoas
foram libertas de sua escravidão. Deve ter sido
momento estupendo e inspirador quando os ju ­
deus foram libertos dos campos de concentração
no fim da Segunda Guerra Mundial. Entretanto, a
m aior escravidão que a humanidade conhece é a
sua escravidão ao pecado. E uma escravidão tão
velha quanto Adão. As pessoas ainda se escravi­
zam aos desejos imorais, ao ódio, à ganância, ao
abuso de drogas, e à inveja, e lutam por se libertar
exatam ente como vem acontecendo durante m i­
lhares de anos. A vontade do hom em permanece
escravizada às destrutivas exigências do pecado.
100 Digno d e Adoração

Há, porém, boas novas. E essas "boas novas"


encontram-se na Palavra de Deus. A Palavra de
Deus pode libertar-nos de toda prisão espiritual e
moral que nos escraviza o coração. Por que a Pa­
lavra de Deus tem o poder de libertar-nos? Em
primeiro lugar, a Bíblia é a Palavra de Deus em
forma escrita. Jesus é a Palavra viva de Deus. A
Bíblia sim plesmente aponta-nos para Jesus, que é
o verdadeiro Libertador. Jesus disse: "Então co­
nhecereis a verdade e a verdade vos libertará"
(João 8:32). Ele explicou ainda mais, dizendo: "Se,
pois, o Filho vos libertar, verdadeiram ente sereis
livres" (João 8:36). Grande parte do ministério ter­
reno de Jesus foi libertar os cativos. Esse ministério
nunca cessou.
Visto que a Bíblia testifica de Jesus, ela tem
trazido a mensagem de livramento a homens e a
mulheres durante milhares de anos. Houve um
jovem que ouviu a Palavra de Deus na Inglaterra
em meados do século dezenove. Mais tarde ele
descreveu assim sua experiência: "Pessoalm ente,
bendigo a Deus... não por bons livros mas pela
Palavra pregada — Palavra essa pregada a m im
por um hom em pobre, sem instrução, que nunca
havia recebido preparo algum para o ministério.
Durante a sem ana esse homem se ocupava de ne­
gócios humildes, mas que tinha graça suficiente
para dizer no dia do Senhor: 'O lhem para mim e
sejam salvos, todos os confins da terra.' A palavra
revelada despertou-me, mas a Palavra pregada me
salvou; e sempre devo atribuir valor peculiar ao
Adoração em V erdade 101

ouvir falar da verdade, porque por ela recebi a


alegria e a paz em que minha alma se deleita."20
Esse jovem deu sua vida à proclamação da Pa­
lavra de Deus. M ilhares encontraram livram ento e
salvação por meio de sua pregação. Com a idade
de dezenove anos, não havia em Londres edifício
que pudesse acomodar as pessoas que vinham
ouvi-lo pregar diretamente daquele grande e anti­
go Livro. Seu nome era Charles HaddonSpurgeon,
e ele nunca cessou de proclamar a grandeza do
Salvador de acordo com a Palavra de Deus.
Quando uma pessoa é liberta da escravidão do
pecado pela Palavra viva de Deus, conform e reve­
lada na Palavra escrita de Deus, sempre responde
com jubilosa e verdadeira adoração, porque ela foi
posta em liberdade pelo Único que é a Verdade. Se
quisermos adorar em verdade, devemos ter a Bí­
blia com o centro de nossa experiência de adoração.
Do princípio ao fim, a Palavra de Deus apontará
para Jesus, o Único digno de ser adorado.

20 C. H. Sputgeon, A u tobiography (Edimburgo: Bannerof Truth, 1976),


1: 86.
Por ocasião do martírio de Faustines e Jovita, irmãos
e cidadãos de Bréscia, seus tormentos foram tantos, e sua
paciência tão grande, que Calocério, homem pagão, ao
contemplá-los, fo i tocado de admiração e exclamou nu­
ma espécie de êxtase: Grande é o Deus dos cristãos! Por
isso ele foi preso e sofreu destino semelhante.

Fox,
Book o f Martyrs

Mas alegrai-vos no fato de serdes participantes das


aflições de Cristo, para que também na revelação de sua
glória vos regozijeis e alegreis. Se pelo nome de Cristo
sois vituperados, bem-aventurados sois, pois sobre vós
repousa o Espírito da glória e de Deus.

1 Pedro 4:13-14
Sofrimento e Adoração

É muito comum, na presente geração, ouvir


testemunhos brilhantes de cristãos que falam de
um a vida sem dor nem tristeza. Eles falam das
dificuldades que enfrentavam antes de haverem
chegado ao conhecimento de Cristo. Mas depois
que se tornaram cristãos, os problemas desapare­
ceram. A vida tornou-se sim plesmente um "m ar
de rosas".
Chego a duvidar seriamente da sinceridade de
tais testemunhos. Os cristãos, em todas as gera­
ções, têm encontrado maiores dificuldades depois
de sua conversão do que antes de conhecerem a
Cristo. Cristianismo não é ausência de problemas
ou sofrimentos na vida. É a glória e a graça de Deus
no coração do crente sofredor. O cristão não fica
isento das dores da humanidade. M uitas vezes é
no meio do sofrimento que ele aprende a adorar a
Jesus Cristo. Ele aprende a prezá-lo e a adorá-lo à
m edida que adquire m aior compreensão do sofri­
m ento de Cristo. E nas circunstâncias penosas que
se lhe aprofunda a com preensão do amor de Deus.
Pouco tempo depois de nosso casam ento, m i­
104 Digno d e Adoração

nha esposa e eu nos m udam os para um gueto de


Chicago, onde dávamos assistência aos viciados
em drogas, aos fugitivos, e às quadrilhas de rua.
Dávamos testemunho de Cristo e falávamos sobre
ele nas ruas de uma das mais difíceis áreas de
C hicago. Deus abençoou nosso m inistério por
meio do qual muitos jovens chegaram ao conheci­
mento de Jesus. Mantínhamos estudos bíblicos de
acompanhamento para os novos crentes.
Quando percebemos que Chicago poderia sen­
tir um impacto em favor de Cristo, com eçam os a
orar por um poderoso despertamento espiritual na
cidade. Distribuíamos folhetos evangélicos todas
as noites em um bairro onde se localizavam as
boates, e falávamos de Cristo com todos que qui­
sessem ouvir-nos. Eram incríveis os resultados. As
boates normalm ente fechavam as portas às quatro
da madrugada, mas o nosso testemunho nas ruas
com eçou a causar tal impacto que elas tiveram de
fechar por volta da m eia-noite, por falta de fregue­
ses.
Os donos das boates se enfureceram. Fizeram
tudo o que puderam para afastar-nos das ruas.
Ameaçaram-nos, criaram obstáculos, e nos ridicu­
larizaram. Certa noite, quando Lloyd Cole, colabo­
rador nosso, e eu, distribuíamos folhetos, falei com
um hom em que desejava conhecer a Cristo. Ele me
disse: "N ão sei por que procuro estes lugares. M i­
nha vida é um a confusão. Preciso de C risto." Ajoe-
lhamo-nos na calçada e ele convidou Cristo a en­
trar em sua vida. Em vez de ir para a boate, ele foi
para casa.
Sofrimento e Adoração 105

O camelô que atraía os fregueses à boate ficou


irado. Ele puxou de uma faca e ameaçou esfa-
quear-me. Pouco tempo depois, dois policiais ves­
tidos à paisana saíram da boate. Demos-lhe parte
da am eaça do camelô. Quase não podíamos crer
no que ocorreu a seguir. Eles "leram os nossos
direitos" e nos deram voz de prisão. Fomos leva­
dos à cadeia pública e indiciados por conduta
desordeira. As acusações diziam que éramos "três
ou mais pessoas que provocavam distúrbios".
Não podíamos crer! Éramos apenas dois, e es­
távamos tranquilamente compartilhando nossa fé
nas ruas. Não me era possível crer que tal prisão
ocorresse nos Estados Unidos. Foi-nos permitido
fazer uma chamada telefônica. Chamei Tex, minha
esposa, que estava grávida de nosso primeiro filho,
já no nono mês. Lloyd e eu fomos colocados numa
cela, cercados por bêbados e criminosos comuns.
Os oficiais confiscaram nossas Bíblias.
Antes de tornar-me cristão, eu era presidente
dos jovens rotarianos de Baton Rouge, e presidente
do Conselho da juventude da Paróquia de Baton
Rouge do Leste. Eu era o autor de um a proclam a­
ção que criava o "D ia do Patriotism o" em minha
cidade natal, que havia sido aprovada pelo nosso
prefeito. Era um dos trinta estudantes que re­
presentavam meu estado num estudo das Nações
Unidas. Recebi o prêm io de "O rador Principal da
Juventude" na Am érica do Norte. Eu havia con­
quistado o respeito de meus amigos, de minha
com unidade e do governo. E agora estava na ca­
deia. Era tratado com o delinqüente com um por
106 Digno d e Adoração

um único motivo: havia encontrado o am or do


Salvador e sim plesmente desejava que outros o
conhecessem.
Lloyd e eu nos sentamos em nossa cela sem
acreditar no que acontecia. Entretanto, chegamos
a amar e a prezar Jesus naquela noite num grau tal
com o nunca antes havíamos sentido. Duas coisas
aconteceram em meu coração. Primeiro, tive um
vislumbre do amor do Salvador. Reconheci com o
havia sido ele falsamente acusado. Ele não havia
causado mal a ninguém. M esm o assim foi despre­
zado, rejeitado, e crucificado. Porém ele nos amou
em meio ao seu sofrimento. Então, em meu sofri­
mento, com ecei a avaliar o sofrimento de Cristo.
Sendo eu rejeitado, ele me aceitava.
Segundo, Jesus fez que meu coração se enterne­
cesse diante dos que sofrem por amor a ele. Grande
parte do m eu m inistério hoje realiza-se nas regiões
do m undo onde é impopular ser cristão. Viajo
muitas vezes para regiões onde os cristãos sofrem
por sua fé. Naquela noite, na cadeia, Deus colocou
em meu coração um amor especial pelos cristãos
que, por am arem a Jesus, enfrentam grandes difi­
culdades. Naquela cela firm ei uma direção para
minha vida. A li pude conhecer a m ágoa pelo abuso
dos homens e o consolo de Deus em tal situação.
M eu coração foi abrandado para com os que so­
frem por amor ao nome de Jesus.
Mas, acim a de tudo, aprendi a adorar no meio
de dificuldades. Lloyd e eu nos sentimos muito
sozinhos naquele cárcere. Olhávamos um para o
Sofrimento e Adoração 107

outro e nos perguntavamos: "E agora, que vamos


fazer?"
Começamos a orar e depois a cantar. Com eça­
mos a adorar a Deus na cadeia. Nossos corpos
foram mantidos em jaulas como animais, porém
nosso espírito voava livremente pelas alturas. Can­
tamos: "O Graça surpreendente, quão doce o som
que salvou um desgraçado como eu." No princí­
pio, os demais presos gritavam conosco; mas de­
pois um deles perguntou: "Se vocês são cristãos,
por que estão na cadeia?"
Explicamos o que havia ocorrido naquela noite.
Isso nos deu a oportunidade de ouro para pregar
o evangelho. Um homem de um a cela próxima à
nossa, disse: "A punhalei um homem hoje à noite.
H á algum a esperança para mim? Necessito de
D eus." Nós o conduzim os num a oração de arre­
pendimento e fé em Cristo. E como com eçam os a
adorar naquela cela solitária!
M ais tarde, naquela mesma noite, m inha m u­
lher livrou-nos da prisão depois de pagar fiança.
Foi m uito humilhante. Antes de tornar-m e cristão
eu era cidadão preeminente, de m uito respeito.
A gora m inha esposa teve de pagar fiança para
soltar-m e da cadeia porque eu havia falado de
Cristo nas ruas.
Deus transform ou a humilhação num a oportu­
nidade de proclamar a glória de Jesus a milhares
de pessoas. Fiz um a cruz e a coloquei no outro lado
da rua onde ficava o escritório do finado prefeito
Richard J. Daley, por muitos anos prefeito de Chi­
cago. Fiquei ali, orando e jejuando até o dia do meu
108 Digno d e Adoração

julgamento. Todos os principais jornais de Chica­


go relatavam histórias de nossa difícil situação.
Pude falar de Cristo na cidade. As estações de
rádio e televisão me entrevistavam continuam en­
te. Um a importante estação de TV teve um seg­
m ento de trinta minutos destinado inteiram ente a
inform ar o público a respeito de nossa situação.
Isso deu ao povo de Chicago a oportunidade de
fazer-m e qualquer pergunta sobre mim ou sobre
m inha prisão. O programa deu-me m aravilhosa
oportunidade de contar o que Cristo havia feito em
m inha vida.
Muitos cristãos por todo o país nos apoiaram.
Cartas de protesto eram enviadas à cidade de Chi­
cago, vindas de igrejas, de líderes políticos, e de
cristãos in d ivid u alm ente. Foi esm agador. N a
m anhã em que acordei para ir a julgam ento, m inha
mulher entrou em trabalho de parto. Quando a
deixei para dirigir-me ao tribunal, ela foi levada às
pressas para o hospital a fim de dar à luz nosso
primeiro filho. É impossível descrever as emoções
que senti naquele dia. Finalmente, a cidade de
Chicago admitiu falsa prisão e arquivou as acusa­
ções. Lloyd e eu assinamos documentos declaran­
do que não moveriamos processo contra a cidade.
E meu filho, Dave, nasceu no dia em que fui a
julgam ento por falar às pessoas nas ruas acerca de
Jesus.
No m eio de minhas dificuldades com a cidade
de Chicago, Deus me ensinou três importantes
lições sobre adoração e sobre sua relação com o
sofrimento. Os mais belos momentos de adoração
Sofrimento e Adoração 109

m uitas vezes são experimentados durante os dias


mais profundos e sombrios da dificuldade. Portan­
to, é de extrema importância que permitamos ao
sofrimento e à dor em nossa vida transformar a
adoração superficial e vazia em experiências pro­
fundas, significativas, de adoração ao Salvador.
Não entendo o sofrimento; para m im ele é gran­
de mistério. Não entendo plenamente por que os
justos sofrem. Não entendo por que um a cidade
prende dois jovens que ajudavam drogados e al­
coólatras a encontrar nova vida em Cristo. Não
entendo por que meu melhor amigo, no vigor de
sua vida, encontrou morte trágica num acidente
automobilístico. Não entendo por que meu pai
sofreu de uma m oléstia rara durante dez anos e
depois morreu enquanto eu estava na universida­
de. Há muitas coisas concernentes ao sofrimento
que estão além da minha compreensão. Não sei a
resposta ao "por quê". Sei, porém, "o que" o sofri­
m ento tem produzido em minha vida. Ele me tem
levado a olhar no íntimo de minha alm a e pela fé
apoderar-m e da graça de Deus. Ele me tem condu­
zido a um conhecimento mais profundo e mais
íntim o de Deus.

Fruto do Sofrimento
O sofrimento pode produzir experiência mais
profunda da adoração porque ele aprofunda o
caráter daquele que adora. Muitas vezes o sofri­
m ento é o campo de treinamento para o caráter
devoto. Ele expõe o raso e superficial em nossa
vida. O sofrimento com eça a queimar a superficia­
lidade no momento em que a cham a da dificulda­
110 Digno d e Adoração

de é acesa e posta entre as brasas dos acontecim en­


tos em nossa vida.
O segundo fruto do sofrimento é aquele que nos
atinge. Ele não só nos capacita a dar significado à
adoração, com o também alarga nosso m inistério
nessa área. A adoração de Jesus Cristo deve ser
contagiosa. O livro de Êxodo registra como Moisés
adorava. Ele armou sua tenda fora do arraial, longe
das multidões. A li ele se encontrava com Deus e o
adorava. Moisés cham ou-a de "tenda da congrega­
ção". Ele se encontrava com Deus, falava com ele,
e Deus falava com Moisés. E interessante notar o
que acontecia na vida das pessoas quando Moisés
se encontrava com Deus. A Bíblia diz: "T odo o
povo via a coluna de nuvem que se detinha à porta
da tenda; todo o povo se levantava, e cada um à
porta da sua tenda adorava ao Senhor" (Êxodo
33:10). Quando Moisés adorava a Deus, o povo o
imitava.
A verdadeira adoração sempre atrairá um a
multidão. A congregação de cristãos, que apren­
deu a adorar das profundezas do coração, atraía as
pessoas, porque adorar a Deus é uma das mais
básicas necessidades do homem. O indivíduo que
verdadeiramente adora a Deus, tem muitas opor­
tunidades de levar outros a adorar o mesm o Deus.
Isto é verdadeiro especialmente entre os que
têm sofrido. O apóstolo Paulo escreveu: "Bendito
seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o
Pai das m isericórdias e o Deus de toda a consola­
ção, que nos consola em toda a nossa tribulação,
para que tam bém possamos consolar os que esti­
Sofrimento e Adoração 111

verem em alguma tribulação, com a consolação


com que nós mesmos somos consolados por Deus"
(2 Coríntios 1:3-4).
Os cristãos têm sofrido através dos séculos. Mas
o sofrimento tem sido sempre o amigo do crente
— e não seu inimigo. A igreja prim itiva foi perse­
guida. Toda vez que um cristão era morto, parecia
que surgiam dez novos convertidos ao Cristianis­
mo. O sofrimento sempre testa a estrutura da ado­
ração de uma pessoa. Ele revela o que há de pior
ou de melhor no coração dos crentes. Quando há
verdadeira e humilde adoração a Deus no coração,
há beleza interior inexplicável, que atrai outros a
adorar ao Salvador.
Fora a Bíblia, O Peregrino tem sido, talvez, o
livro cristão mais vendido. Seu autor, João Bun-
yan, sofreu grandemente por sua fé. Por meio do
sofrimento ele encontrou a Deus em doce expe­
riência de adoração. E ele veio a ser fonte de inspi­
ração para número incontável de pessoas ao redor
do mundo. Ele escreveu com referência à sua pri­
são por pregar: "A ntes que eu fosse levado perante
o m agistrado, roguei a Deus que fosse feita a sua
vontade; porque eu não havia perdido a esperança
de que minha prisão resultasse num despertamen-
to para os santos do país. Assim, pois, entreguei o
assunto a Deus. E na verdade, ao voltar, encontrei
m eu Deus docemente na prisão."21
Parece haver correlação direta entre sofrimento,

21 F o x e ’s B oo k o f Martyrs (Grand Rapids, Mich.: Zondervan, 1967), p.


328.
112 Digno d e Adoração

adoração e testemunho. O sofrimento aprofunda a


experiência da adoração, e a verdadeira adoração
am plia o testemunho da com unidade cristã. A m i­
gos meus do Ocidente, que têm estado com igo na
Romênia, fizeram observações interessantes. Um
deles disse: "Sem pre ouvi falar de cristãos rom e­
nos que sofrem por sua fé. Acho que o sofrimento
tem produzido qualidade de adoração e testemu­
nho dos quais nós no Ocidente conhecemos muito
pouco. E com o se o cristão que vive com odamente
no Ocidente fosse em realidade aquele que sofre.
Padecem os da m oléstia da superficialidade em
nossa adoração e testemunho."
Um fruto final da adoração é produzido no
indivíduo que sofre. O sofrimento está acom pa­
nhado da glória de Deus, que é o resultado final da
adoração. E maravilhoso ver como o caráter se
fortalece através das lutas e mágoas da vida. Mais
importante ainda é que podemos consolar os ou­
tros m ediante nosso sofrimento. Contudo, o único
e mais im portante alvo da vida do crente deve ser
a glória de Deus, pois só este é digno de toda a
glória e de toda a honra e adoração. Pedro disse:
"Se pelo nome de Cristo sois vituperados, bem-
aventurados sois, pois sobre vós repousa o Espírito
da glória e de D eus" (1 Pedro 4:14).
A m orte é o golpe final do sofrimento. Nada
pode ser pior do que isso. Porém, a morte não pode
derrotar o filho de Deus. Para o crente, a m orte é
sim plesmente o dia de formatura na escola da
adoração. Billy Bray, cuja vida de adoração estu­
damos no primeiro capítulo, enfrentou a prova
Sofrimento e Adoração 113

últim a da vida — a morte. Poucas horas antes de


morrer, um velho amigo perguntou-lhe se ele tinha
medo da morte, ou de estar perdido. Ele respon­
deu: "O quê? Eu, medo da morte? Eu, perdido?
Ora, meu Salvador venceu a morte. Se eu tivesse
de descer ao inferno, eu exclam aria glória, glória
ao m eu bendito Jesus, até ecoar no abism o sem
fundo; então o velho e m iserável Satanás diria:
— Billy, Billy, este não é lugar para você; volte.
Então eu subiria ao céu, gritando glória, glória,
louvai ao Senhor!"22 Logo depois ele passou para
a eternidade. A últim a palavra a sair dos seus
lábios aqui na terra foi:— Glória!"
Desde o tempo de Estêvão, primeiro mártir cris­
tão, até hoje, os cristãos têm adorado a Deus e
contem plado a sua glória na hora difícil da morte.
A Bíblia descreve os momentos que precederam a
m orte de Estêvão: "M as ele, cheio do Espírito San­
to, fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e
Jesus, que estava à direita de Deus, e disse: Olhai!
Eu vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que
está em pé à direita de D eus" (Atos 7:55-56).
Através dos séculos, os santos que adoram vi­
ram a glória de Deus ao se aproximarem da porta
da morte. O grande evangelista norte-americano,
Dw ight L. Moody, disse na tarde de sua morte:
"D eus me está chamando. Não há dor. Não há vale.
Isto é g lo rio so ."23 M ais recentem ente, M artin
Lloyd-Jones, o grande pastor britânico, no dia an­

22 F. W . Boume, The L ife o f Billy Bray (Monmouth, Gwent, Reino


Unido: Bridge, 1987), pp. 85-86.
23 FaithBailey, D. L M o od y (Chicago: Moody, 1959), p. 158.
114 Digno d e Adoração

terior à sua morte, disse à sua família: "N ão orem


pedindo a cura. Não tentem impedir-me de ver a
glória."24 Ele morreu pacificamente enquanto dor­
mia.
O sofrimento pode ser um amigo para aquele
que aprendeu a adorar. Não há dor física, psicoló­
gica, emocional ou espiritual que Deus não enten­
da. Ele nos ama sobremaneira e sofreu grandemen­
te por nós mediante a morte do seu Filho, Jesus.
Quando o verdadeiro adorador sofre, a porta da
glória se abre para ele. Ele entra na com unhão dos
sofrimentos de Cristo. E então que ele pode com ­
preender mais plenamente a altura e a profundi­
dade e a largura e a extensão do amor de Deus. Ele
aprende a adorar o Único que é digno, no m eio do
sofrimento.

24 Ian Barclay, D eath an d L ife to Com e (Londres: Hodder & Stoughton,


1988), p. 66.
O diabo odeia a música porque ele não pode suportar
a alegria... Satanás pode apresentar um sorriso doentio,
mas ele não pode rir; pode zombar, mas não pode cantar.

M artinho Lutero, em
The Stories Behind Great Hymns

Regozijai-vos no Senhor, vós, os justos; aos retos


convém o louvor. Louvai ao Senhor com a harpa; cantai
a ele com o saltório de dez cordas. Cantai-lhe um cântico
novo; tocai bem e com júbilo.

Salm o 33:1-3
8
Cântico de Adoração

Faz alguns anos eu me encontrava num a igreja


rom ena nas proximidades da fronteira soviética.
De acordo com o programa, eu devia pregar im e­
diatamente após a apresentação musical por uma
orquestra da mocidade. Os jovens haviam organi­
zado uma orquestra de cordas constituída, antes
de tudo, por violinos, violões e bandolins. Com e­
çaram a tocar alguns dos antigos hinos da fé cristã.
M eu coração se emocionava enquanto eles toca­
vam e cantavam a respeito dos grandes atributos
de nosso Deus. Im agino que o céu deve ser sem e­
lhante àquela experiência de adoração. Eu queria
gritar, chorar. Em vez disso, permaneci sentado em
silêncio, adorando o Salvador.
Desde aquela ocasião tenho viajado muitas ve­
zes pela Romênia. Mas havia algo acerca daquela
orquestra que sempre me deixava perplexo: a ele­
vada porcentagem de jovens que tocavam instru­
m entos musicais. Descobri, em algumas congrega­
ções, que cem por cento dos jovens tocavam algum
instrum ento. Por toda a parte aonde tenho ido na
Rom ênia, tenho encontrado orquestras e coros de
118 Digno d e Adoração

jovens que adoram a Deus por intermédio de sua


música.
Perguntei a um amigo se todos os jovens eram
obrigados pelas escolas a aprender a tocar algum
instrumento musical. Ele respondeu: "O h , não.
Este fenôm eno é resultado do novo reavivam ento
protestante-evangélico que se verifica no país. On­
de o Espírito de Deus opera e traz pessoas a Cris­
to", prosseguiu ele, "o s jovens aprendem habilida­
des musicais e cantam novo cântico ao Senhor".
Enquanto eu pensava a esse respeito, reconheci
que isso tem ocorrido durante séculos. A verdade
é esta: quando a pessoa encontra a Deus, do seu
coração brota uma m elodia que se expressa exte­
riormente. A verdadeira adoração exige meio de se
expressar o amor e a adoração a Deus por sua
bondade e grandeza. Quando Deus livrou os filhos
de Israel de centenas de anos de escravidão, a
adoração e o louvor fluíam do coração deles em
form a de cântico. Mais tarde, Davi louvou ao Se­
nhor com cânticos diante de suas grandes m aravi­
lhas e surpreendentes atributos. No Novo Testa­
mento, Paulo disse aos cristãos, cujas vidas eram
controladas pelo Espírito Santo: "Falando entre
vós com salmos, e hinos, e cânticos espirituais,
cantando e salmodiando ao Senhor no vosso cora­
ção", (Efésios 5:19).
Homens e mulheres escreveram grandes hinos
em virtude de haverem encontrado o nosso grande
Deus. A m úsica era simplesmente o veículo que
levava ao céu o que ia no coração dos fiéis. Eles
Cântico d e Adoração 119

criaram música com alegria e ações de graça pela


bondade de Deus.
Um desses grandes poetas e compositores de
hinos foi W illiam Cowper, que viveu de 1731 a
1800. Quando ele tinha apenas seis anos de idade,
seu coração foi m achucado pela morte da mãe.
Então viveu num internato onde mais sofrimento
lhe foi acrescentado pela crueldade de outros m e­
ninos. Cowper sofria de depressão devido à sua
grande falta de auto-estima. Tentou o suicídio di­
versas vezes, teve dois infelizes casos de amor, e
vivia sempre com um com plexo de inferioridade.
Durante breve período de tempo ele foi coloca­
do num asilo. Foi então que ele se encontrou com
Deus. Um parente o visitou e citou-lhe o texto
biblico: "D eus o propôs para propiciação pela fé
no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela
rem issão dos pecados dantes cometidos sob a to­
lerância de D eus", (Romanos 3:25). Esse parente
falou-lhe do evangelho de Jesus Cristo. Ele reagiu
com fé e mais tarde testificou: "Fo i a prim eira vez
que vi um raio de esperança... Brilhou sobre mim
a realidade plena da suficiência da expiação que
Cristo fez, meu perdão em seu sangue, a plenitude
e perfeição de m inha justificação. Num momento
cri e recebi o evangelho."25
Foi nesse asilo que ele escreveu o grandioso
hino: "H á uma fonte carm esim que meu Jesus
abriu, no dia em que na Cruz por m im morreu e

25 James McClelland, The Stories B ehin d G reat Hymns (Belfast:


Ambassador, 1985), pp. 122-23.
120 Digno d e Adoração

me rem iu" (Hinário Evangélico, nQ448). Cow per


era sim plesmente um pecador que necessitava de
um Salvador. Quando Jesus o encontrou, a m elo­
dia substituiu da miséria, e a m úsica transportou
sua adoração até o trono de Deus. Sua depressão
transform ou-se em dignidade pessoal pela graça
do Ú nico digno de adoração.
Quando cheguei a conhecer a Cristo, ainda ca­
louro na universidade, ocorreram em m inha vida
duas mudanças muito interessantes. Apaixonei-
me de im ediato pelos livros. Antes de conhecer a
Cristo, lia muito pouco. A leitura era um fardo
para mim: eu lia somente o que meus professores
designavam na classe. Mas depois do m eu encon­
tro com Cristo, com ecei a devorar a Bíblia. Ela era
pão do céu para o meu coração. Eu não lia a fim de
obter boa nota na escola. A Bíblia era carta de amor
celestial que só podia ser entendida pelo coração
fechado por anos. Quando conheci a Cristo, meu
coração abriu-se para o seu amor, e a Bíblia tornou-
se emocionante. Também com ecei a ler as biogra­
fias dos grandes líderes cristãos de séculos passa­
dos. A literatura cristã assumiu papel importante
em minha vida.
A segunda transformação operada em meu co­
ração foi o am or pelo novo tipo de música. Visto
que eu tinha conhecido a Jesus, o amado da m inha
alma, eu queria cantar novo cântico para ele. Tal­
vez eu esteja entre os piores cantores do mundo, e
minha m úsica distraia apenas os que me cercam ,
pois nunca fui dotado de talento musical. Porém,
a música é som doce ao coração do Pai celeste.
Cântico d e Adoração 121

Quando Jesus entrou em minha vida, novo cântico


explodiu dentro de mim. Um cântico de reverência
e adoração.

Características da Música na Adoração


H á três características principais da m úsica no
que tange à adoração. A primeira é que ela permite
ao cristão responder à revelação bíblica de Deus.
U m estudo completo dos grandes hinos da fé cristã
nos guiará a homens e mulheres que vislum bra­
ram o caráter de Deus. Fanny Crosby, a com posi­
tora de hinos cega desde pequena, entendeu a
grandeza de Deus e escreveu: "A Deus seja a gló­
ria! Grandes coisas ele fez!" Edward Perronet che­
gou a Cristo por intermédio do m inistério de João
W esley. Ele cresceu na fé e viu a Jesus como o Rei
do Universo. Ele reagiu, escrevendo: "Saudai o
nome de Jesus! Arcanjos, adorai! Ao rei que se
hum ilhou na cruz, com glória coroai!" (Hinário
Evangélico, ne 130).
A Reform a de M artinho Lutero enfrentou seve­
ra oposição. Durante aqueles dias, Lutero muitas
vezes meditou no Salm o 46:1: "D eus é o nosso
refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angús­
tia." Deste conhecimento de Deus como refúgio ele
escreveu "C astelo Forte é nosso Deus". Era o cân­
tico do homem com um do período da Reform a e
inspiração para os m ártires de Cristo.
John Newton quase perdeu a vida num a terrí­
vel tempestade perto da costa noroeste da Irlanda.
Ele clamou a Deus por m isericórdia, e Deus o
salvou. Ele veio a conhecer Deus com o o Deus da
graça e da m isericórdia. Ele escreveu: "G raça sur­
122 Digno d e Adoração

preendente! Quão doce o som que salvou um des­


graçado com o eu! Outrora eu estava perdido, mas
agora fui achado; era cego, mas agora vejo!" E o
bispo Reginald Heber, clérigo anglicano, foi des­
pertado para a pureza absoluta de Deus, e escre­
veu: "Santo! Santo! Santo! Deus onipotente! Can­
tam de m anhã nossas vozes com ardor. Santo!
Santo! Santo! Bom e verdadeiro! És Deus triuno,
excelso Criador!" (Hinário Evangélico, nQ104).
A m úsica, porém, é muito mais do que resposta
à revelação dos atributos de Deus. Ela é, também,
expressão de adoração e ações de graça pela vida
transformada mediante um encontro com Deus.
Ela representa um testemunho das obras de Deus
no coração do homem. O nascim ento m iraculoso,
a vida perfeita, a morte cruel, e a gloriosa ressurrei­
ção de Jesus aplicados ao pecador que sofre pro­
duzem m úsica maravilhosa: "Povos cantai!" tor-
nar-se-á em alegria no coração. Ele não conseguirá
deter o fluxo da música em seu coração enquanto
canta: "E le vive, Ele vive! Você me pergunta com o
sei que ele vive. Ele vive dentro do meu coração".
A graça sobrenatural de Deus dentro do coração
do pecador sempre produzirá maravilhoso cântico
nos lábios de quem é santificado.
A terceira característica da música de adoração
é que por meio dela reconhecemos os caminhos de
Deus. Muitas vezes descobrimos o caráter de Deus
no drama da tristeza e da dor humana. Os cam i­
nhos de Deus estão muito além do domínio do
homem. Entretanto, muitas vezes seus caminhos
se tornam conhecidos através das dores da vida. A
Cântico d e Adoração 123

adoração se torna m iraculosa quando a m iséria se


transform a em m úsica no teatro da experiência
humana.
A penas com seis sem anas de vida, Fanny
Crosby apanhou um resfriado que resultou em sua
cegueira. Aquilo que parecia tragédia tornou-se
triunfo divino. Deus deu a Fanny Crosby olhos
espirituais para contemplar a glória de Deus. Ela
escreveu mais de oito mil cânticos e hinos sacros.
U m dos mais conhecidos de seus hinos, "Q ue se­
gurança", expressa o triunfo de Deus em meio à
tragédia de uma cega. Ela escreveu: "Q ue seguran­
ça! Tenho em Jesus, pois nele gozo paz, vida e luz!
Com Cristo herdeiro, Deus me aceitou mediante o
Filho, que me salvou." (Hinário Evangélico, n£
341). Fanny Crosby veio a conhecer os caminhos
de Deus. Sua m úsica tornou-se instrumento para
adorar a Deus por meio destes caminhos às vezes
m isteriosos, mas sempre maravilhosos.

Precauções Quanto à Adoração


Mediante a Música
A m úsica é veículo. Em si mesma ela não é
adoração. E, antes, m eio pelo qual o crente trans­
porta os sentimentos mais profundos do seu cora­
ção ao coração de Deus. É m étodo de expressão de
nosso amor a Deus. O método, contudo, nunca
deve substituir a essência da adoração.
É preciso que tenhamos sempre em mente qua­
tro precauções básicas a respeito da música de
adoração. A primeira é que devemos guardar-nos
contra a fam iliaridade da música. E fácil demais
reunir-nos com outros cristãos e cantar os grandes
124 Digno d e Adoração

cânticos da fé. Com freqüência os cultos de cânti­


cos de um a igreja são apenas tradição e ritual, em
vez de adoração e louvor. Percebe-se isso não só
entre cristãos mais tradicionais, mas também entre
cristãos que se consideram não tradicionais. M ui­
tas vezes os tradicionais se acham sim plesmente
declamando palavras em vez de louvar a Deus da
profundeza do coração. O mesmo se pode dizer
dos que cantam músicas mais modernas, não tra­
dicionais. Muitas vezes eles se tornam m uito "tra ­
dicionais" com relação aos seus cânticos não tradi­
cionais. Cantam músicas bíblicas familiares a eles,
mas esses cânticos perderam a essência da adora­
ção sincera. Devemos precaver-nos contra a fami­
liaridade da música.
A segunda, é que a verdadeira adoração está
arraigada na graça de Deus e não no desempenho
do homem. Portanto, devemos tomar todo o cui­
dado para jamais permitirmos que a música seja
sim plesmente vitrina de nosso talento. O objetivo
da verdadeira adoração é a glória de Deus — ja­
mais a grandeza de nossos dons. A música é arte
que deveria ser bem harm onizada a fim de expres­
sar a beleza e a majestade de Deus.
O apóstolo Paulo era um artista. Seus escritos e
ensinos são os de um mestre. Suas cartas estão
entre algum as das grandes peças da literatura
mundial. Grandes eruditos da igreja, como Calvi-
no e Lutero, foram profundamente atingidos por
elas. Grandes oradores, como Spurgeon, as estuda­
ram. Dirigentes mundiais ainda as citam. Não obs­
tante, Paulo disse: "A minha palavra, e a minha
Cântico d e Adoração 125

pregação, não consistiram em palavras persuasi-


vas de sabedoria humana, mas em demonstração
do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se
apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de
D eus", (1 Coríntios 2:4-5). Em outras palavras, a
capacidade artística de Paulo não visava a sua pes­
soa. Ela devia trazer homens e mulheres a um co­
nhecimento pessoal do poder e da glória de Deus.
A m úsica que produz adoração será participa­
tiva por natureza. A verdadeira adoração não tem
espaço para um coração espectador; o âmago da
adoração está no coração que participa. A adoração
não pode sentar-se nas tribunas de honra da igreja
observando o desempenho dos mais talentosos. A
verdadeira adoração flui do coração agraciado por
Deus, e clama: "Devo cantar a ti porque meu coração
está cheio. Tu, ó Deus, me encheste do conhecimento
do teu amor. E a ti somente devo adorar." A verda­
deira adoração não se dirige a outros. Ela expressa
somente a graça e o amor de Deus.
A terceira precaução com referência à música
relaciona-se com a com preensão cultural errônea.
A única fonte de unidade cristã deveria ser a ado­
ração de Jesus Cristo. Não obstante, m uitas vezes
a m úsica em nossa adoração passa a ser elemento
de contenda e divisão entre os cristãos. Pelo fato
de eu ter viajado por esse mundo, devo ajustar-m e
a novas formas culturais de adoração. Às vezes
isso pode ser difícil.
Penso que m eu lugar favorito de adoração é a
nação romena. M inha personalidade e m inha for­
m ação cultural parecem ajustar-se ali. Gosto das
126 Digno d e Adoração

leituras poéticas, das orquestras, e do cântico congre-


gacional dos grandes hinos entre os cristãos rom e­
nos. Lem bro-m e, porém, da m inha primeira via­
gem à índia. A adoração cristã ali era muito menos
emocional. Tomou-me bom tempo conhecê-la a gos­
tar dela, porque eu não estava acostumado a esse tipo
de música passiva e ao método mais relaxante de
adorar a Deus. Não obstante, a adoração era tão
autêntica como aquela da Romênia.
M ais tarde, fui para os sertões da Á frica. A
form a de adoração é com pletam ente diferente
entre essas pessoas. H avia abundância de em o­
ção — m uito m ais da que eu estava acostum ado
a experim entar. Entretanto, as pessoas adoravam
a Deus em espírito e em verdade em todos esses
três lugares. Elas tinham três expressões m usi­
cais com pletam ente diferentes, mas a essência da
adoração era a m esma. A única diferença estava
nas personalidades culturais.
Tenho verificado que os cristãos do mundo Oci­
dental muitas vezes se dividem mais quanto ao méto­
do de adoração do que quanto à essência da adoração.
E importante que reconheçamos as diferenças
culturais e de personalidade. Podem os sentir-nos
mais à vontade adorando com os que cantam so­
mente hinos. Ou podemos preferir adorar pelo
cântico de coros da Bíblia. Alguns participam mais
plenamente num a expressão emocional da música.
Outros adoram verdadeiram ente com espírito cal­
mo, subjugado. Nunca devemos esquecer-nos, po­
rém, de que o objetivo da verdadeira adoração
não é o m étodo. O alvo da verdadeira adoração
Cântico d e Adoração 127

é a glória de Jesus. Portanto, cada um de nós o


adore segundo o m étodo que se ajuste à sua perso­
nalidade cultural. Não permitamos, porém, que a
personalidade dividaum a com unidade evangéli­
ca que se apega à glória de Jesus e à autoridade das
Escrituras.
Finalmente, a música nunca deve tomar a priori­
dade das Escrituras na adoração. Hoje, em muitas
comunidades evangélicas a adoração se renova.
Muitos cristãos redescobrem a beleza da música na
adoração, e este é um trem endo desenvolvimento.
Devem os ser cuidadosos, porém , em lem -
brar-nos que a m úsica veicula um a resposta à
revelação de Deus no coração. Ela leva essa res­
posta ao trono do céu. N ão pode haver resposta
sem a revelação de Deus. Budistas, m uçulm anos,
hindus e anim istas, todos têm seus cantochões e
dançam . Mas o C ristianism o não é apenas outra
grande religião m undial. Ele é a realidade de
D eus m ediante a pessoa de Jesus, que é o "res-
plendor da sua glória e a expressa im agem da sua
pessoa", (Hebreus 1:3).
Portanto, a pregação da Palavra de Deus nun­
ca deve ser substituída pelo cântico dos santos.
N a verdade, m uitos dos grandes hinos foram
escritos por pregadores com o Lutero, W esley,
H eber, e Perronet. A m úsica desses pregadores
era resposta ao D eus revelado a eles nas Escritu­
ras. Em nossa adoração deve haver equilíbrio
entre a revelação de Deus e a resposta do coração
a essa revelação. Tal adoração não som ente será
m úsica no coração, mas também m úsica no céu.
Se eu me inclinar diante de Deus em meu altar inte­
rior, então estarei em contato com o eterno e imutável
poder de Deus... Oh! quem dera dedicássemos tempo
para reunirmo-nos com Ele neste íntimo altar, de sorte
que pudéssemos experimentar em plena realidade a pre­
sença deste Jesus Todo-poderoso! Que bem-abenturança
teríamos mediante a fé! Uma comunhão não interrom­
pida com o Senhor Onipresente e Todo-poderoso.

Andrew M urray
The Prayer Life

Gloriai-vos no seu santo nome; alegre-se o coração


daqueles que buscam ao Senhor. Buscai ao Senhor, e a
sua força; buscai a sua face continuamente.

Salmo 105:3-4
9
Oração e Adoração

Um a das maiores mentiras impingidas à igreja


hoje é a de que só se pode adorar durante um a ou
duas horas no domingo. Grande parte da igreja
parece pensar que a verdadeira adoração só ocorre
dentro de templos. Contudo, a beleza da adoração
bíblica é que ela ignora por completo limitações de
tem po e espaço. O lugar em que adoramos a Jesus
está tão perto quanto o altar íntimo do coração.
O altar de oração é capaz de conduzir o crente
diretam ente ao trono de Deus. O cristão pode en­
contrar-se adorando a Jesus num belo santuário ou
num solitário quarto de hospital. Ele pode adorar
num m oderno com plexo de escritórios ou na sim ­
plicidade de seu próprio lar. A adoração tem a
distância de uma oração.
Muito do que se tem discutido neste livro será
praticam ente executado na vida de oração do cren­
te. O primeiro lugar onde aprendi a adorar foi na
escola da oração. Todo o propósito da oração é
levar o povo de Deus à adoração de Jesus Cristo.
Quando Jesus ensinou os discípulos a orar, ele
abriu e fechou a porta da oração com Deus com o
130 Digno d e Adoração

ponto central. Abriu a porta com a petição: "P ai


nosso que estás nos céus, santificado seja o teu
nom e", (Mateus 6:9). Depois ele a fechou com a
atribuição: "Porque teu é o reino e o poder, e a
glória, para sempre. Amém." (Mateus 6:13). O alvo
todo da oração, segundo Jesus, é o reconhecim ento
de que todo o reino, todo o poder, e toda a glória
pertencem somente a Deus. O verdadeiro alvo da
oração é a adoração.
Jesus não só ensinou os discípulos a reconhecer
a glória de Deus na oração, como deu seu próprio
testemunho de vida de oração e de busca da glória
do Pai. O mais importante registro bíblico da vida
de oração intercessora de Jesus é sua oração sacer­
dotal. No capítulo 17 do Evangelho de João ele ora
pelos discípulos e pelos que viriam a conhecer a
Deus por intermédio do testemunho deles.
Uma palavra parece absorver os pensamentos
de Jesus enquanto ele ora. E a palavra glória. No
versciculo 5, Jesus ora pela glorificação de Deus,
clamando: "E agora, Pai, glorifica-me em tua pre­
sença com a glória que tinha contigo antes que o
mundo existisse". Logo adiante ele ora pelas ne­
cessidades específicas dos discípulos. Mas ele pede
ao Pai que satisfaça todas aquelas necessidades
visando a um propósito: "P ara que todos sejam
um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti. Que
eles também sejam um em nós, para que o mundo
creia que tu me enviaste." (v. 21). Ao iniciar a
conclusão da prece, Jesus expressa seu desejo de
que "on de eu estiver, estejam também com igo
aqueles que me deste, para que vejam a m inha
Oração e Adoração 131

glória, a glória que me deste, porque me amaste


antes da criação do m undo" (v. 24).
M inha vida toda de oração foi transformada
radicalm ente pela compreensão e prática deste
princípio. O mais profundo homem de oração que
conheci é um médico da Romênia. Tornamo-nos
ótimos amigos. Grande parte da am izade foi gera­
da pelas orações que fazíamos juntos. Nada há que
produza comunhão mais profunda de amigos do
que a verdadeira adoração de Jesus Cristo.
Quando pela prim eira encontrei-me com este
amigo, ele me servia de intérprete em cruzadas de
evangelização. Enquanto viajávamos juntos pela
Romênia, orávamos. A maior parte deste tempo de
oração era passada em adoração. E quando ele
orava a favor da cruzada ou de indivíduos, fazia-o
essencialmente para a glória de Deus. Nunca em
toda a m inha vida fui tão desafiado a respeito da
verdadeira natureza da oração. Deixei de orar para
que as multidões viessem a Cristo de m aneira que
eu pudesse sentir que realizávamos parte da tarefa
de evangelização do mundo. Comecei, então, a
orar para que as pessoas viessem a Cristo exclusi­
vam ente para a glória de Deus. Por fim, cheguei ao
conhecim ento de que a finalidade suprem a da
evangelização do m undo repousa inteiramente na
glória de Deus.
Desde que com ecei a orar dessa m aneira, todo
o meu m inistério se transformou. Temos visto
m aior número de pessoas vindo a Cristo do que
jam ais vimos antes. Mais importante que tudo,
porém, é que m inha motivação foi mudada. Come-
132 Digno d e Adoração

cei a entender que o objetivo da oração é levar-


me a um a com preensão autêntica de que o reino,
o poder, e a glória pertencem som ente a Deus.
Q uando realm ente com preendi esse princípio,
m e encontrei adorando a Jesus.
M uitas vezes, depois de dirigir um sem inário
sobre a oração, alguns obreiros se aproxim am de
m im e expressam frustração acerca da sua vida
de oração. Falam de aridez na oração ou de "s im ­
plesm ente passar às propostas" de oração. A per­
gunta que mais me fazem é: "C om o posso conhe­
c e r o g o z o da o r a ç ã o ? " A re s p o s ta a e ssa
pergunta é sim plesm ente: "O gozo na oração é o
fruto da adoração a Jesus C risto."
M uitos cristãos são com o o boxeador norte-
am ericano que treinou durante anos para fazer
parte da equipe olím pica. Ele trabalhou, suou, e
sofreu, tudo isso por um alvo — a glória da
O lim píada. Não obstante, depois de chegar à
cidade onde se realizaria a O lim píada, ele per­
deu o ônibus que o levaria ao ringue. Ele estava
tão próxim o de experim entar a glória olím pica,
mas saiu de mãos vazias sem nem m esm o ter
chegado perto dela.
M uitos de nós sabem os que há uma batalha a
ser travada na mente e coração de hom ens e de
m ulheres. Sabem os que a arena da batalha é o
lugar da oração. E nesse lugar que habita a glória
de Deus. Todavia, alguns de nós nunca tom am os
o ônibus. N egligenciam os a vida de oração e,
conseqüentem ente, perdem os a glória de Deus.
O utros tom am o ônibus errado e term inam em
Oração e Adoração 133

lugar errado. Term inam os num a rua cham ada


"glória de si m esm o". Contudo, o endereço da
verdadeira oração é "adoração e glória a Jesus
Cristo".

A Natureza da Oração que Conduz à Adoração


A oração que resulta na verdadeira adoração a
Jesus contém três características fundamentais:
Prim eira, deve haver total abandono da vida do
ego. Quando Jesus cham ou os discípulos, ele exi­
giu que abandonassem duas coisas que poderíam
impedi-los de um verdadeiro conhecimento de sua
própria pessoa. Ele disse que cada discípulo deve­
ria "negar-se a si m esm o" e "perder a sua vida". E
a vida do ego que nos impede de conhecer a glória
da vida de Cristo. Portanto, devemos aprender a
m orrer para a vida do ego.
A oração que se origina no ego e por este é
m otivada, só satisfará às necessidades do ego e
nunca glorificará a Jesus. O ego sempre clama:
"Q uero... Penso... Desejo. Mas a vida de Cristo em
nós ora: "N ão se faça a minha, mas a tua vontade."
Este tipo de oração tem poder. Seu objetivo princi­
pal é glorificar e adorar a Deus.
U m dos homens de m aior poder na oração foi
George Müeller. Ele abrigou, vestiu e alimentou
m ilhares de órfãos exclusivamente m ediante a ora­
ção. Ele proveu sustento financeiro para o m inis­
tério de Hudson Taylor por meio da oração. M üe­
ller declarou certa vez que Deus lhe havia dado
m ais de trinta mil almas em resposta à oração. Os
princípios de oração de M üeller eram muito espe­
cíficos. Ele escreveu:
134 Digno d e Adoração

"H á cinco condições [na oração] que


sempre me esforço por preencher, e quando
as cum pro tenho a certeza da resposta à
oração:
1. Não tenho a mínima dúvida porque estou
certo que é a vontade do Senhor salvá-los,
porque ele deseja que todos os homens
sejam salvos e cheguem ao pleno
conhecimento da verdade (1 Timóteo 2:4)
2. Nunca pleiteei a salvação deles em meu
próprio nome, mas no bendito nome de
meu precioso Senhor Jesus, e nos seus
méritos somente (João 1:14).
3. Sempre acreditei firmem ente na boa
vontade de Deus em ouvir minhas orações
(Marcos 11:24).
4. Não estou consciente de haver cedido a
nenhum pecado, porque se eu no coração
contem plara o pecado e a vaidade, o Senhor
não me teria ouvido (Salmo 66:18).
5. Tenho perseverado orando por mais de
cinqüenta e dois anos a favor de alguém, e
continuarei até que a resposta venha. Não
fará Deus justiça aos seus escolhidos, que
clam am a ele de dia e de noite, ainda que os
faça esperar? (Lucas 18:7)." 26
O segredo da vida de oração de M üeller res­
plandece com o um raio dourado do sol. Ele orava
a partir do coração de Jesus para a glória de Jesus.
Sua oração, do princípio ao fim, arraigava-se na

26 Andrew Murray, The P rayer Life (Chicago: M oody), pp. 123-24.


Oração e Adoração 135

vida de Cristo. Seus princípios da oração eficaz não


estavam fundamentados em m otivação ou glória
próprias. Ele firmava sua vida de oração som ente
em Cristo.
A segunda característica da oração que produz
adoração é a rendição total do coração a Deus. O
coração que encontra sua suprem a satisfação em
Deus experimenta as profundezas do amor de Je­
sus Cristo. U m coração não dividido em sua leal­
dade torna-se um coração que adora. Deve haver
sinceridade em nossa vida de oração se verdadei­
ram ente quisermos adorar a Deus. Devem os dese­
jar som ente m aior conhecim ento dele. Thomas
G oodw in disse: "T enho conhecido homens que
vieram a Deus por nada mais do que simplesmente
vir a ele, tal era o amor que lhe votavam. Não havia
outro motivo a não ser estar a sós com ele e em sua
presença."27
Quando temos sede do conhecim ento de Deus,
nós o encontramos. O dia todo ansiamos por mo­
m entos especiais de estarmos a sós. E é nesses
momentos preciosos que entramos na presença de
Deus. Nosso coração pertence a ele. Queremos
estar com ele, amá-lo e adorá-lo. Haverá frescor em
nosso amor quando nosso coração por completo
pertencer a Jesus.
Finalmente, teremos os altos louvores a Deus
em nossos lábios quando entrarmos no altar inte­
rior da oração. E o louvor se traduzirá em adora­

27 J. Oswald Chambers, P ray er P ow er Unlimited, edição da Cruzada


Billy Graham (Chicago: Moody, 1977), p. 7.
136 Digno d e Adoração

ção. Algo m aravilhoso ocorre quando louvam os a


Deus. O louvor é o reconhecim ento dos atributos
morais e espirituais de Deus. Quando com eçam os
a reconhecer a ele pelo que ele é, ele passa a habitar
nesses louvores. Pense nisso. O Deus eterno e oni­
potente realm ente vive no coração que reconhece
a ele e reconhece também a natureza da sua glória.
Quando no seu íntimo a pessoa contem pla a
Deus, a adoração irrompe no coração exatam ente
como o sol m atutino traz a glória de um novo dia.
Às vezes o esplendor de Deus tornar-se-á tão belo
que ficaremos esmagados por sua majestade. En­
tão entenderemos porque Charles W esley escre­
veu: "A h! se eu tivesse mil vozes para entoar a
glória do meu R ei." A beleza e m ajestade desses
altos louvores são de tal porte que é impossível a
uma língua m ortal expressá-los. Esses louvores
estão m uito além da nossa mais alta com preensão
e ao mesmo tempo mais perto do que nosso amigo
mais querido. Quando nos vestimos de Deus, des­
cobrimos que nossas vestes de louvor se tornam
um vestuário de adoração.

Princípios Práticos de Adoração


O alvo de toda oração é a verdadeira adoração
a Jesus Cristo. Portanto, devemos ser muito cuida­
dosos quando nos aproximamos dos nossos m o­
mentos de oração. A adoração é a maior jornada
que podemos empreender na vida. D evem os estar
certos de que estamos plenamente preparados pa­
ra a mais grandiosa aventura de nossa vida. Nada
que venhamos a fazer é mais significativo do que
a adoração. Fomos criados com a capacidade de
Oração e Adoração 137

conhecer, amar e adorar a Jesus. E a ordem que


recebemos é que devemos amá-lo de todo o nosso
coração. A adoração não é empreendim ento insig­
nificante. Ela é tão grande que abrange o próprio
significado e propósito de nossa vida.
Tenho sido cuidadoso no declarar que a essên­
cia da adoração não reside em nossos métodos.
Mas a esta altura acho importante reforçar alguns
princípios que im pedem que as distrações inter­
rom pam nossa adoração. Em si mesm os, esses
princípios não produzirão, necessariamente, um
coração que adora. Mas eles auxiliarão a um cora­
ção que já adora no sentido de ter regularidade e
consistência na adoração.
Princípio n - 1: Solitude. Necessitamos de tempo
e lugar onde nos encontrarmos a sds com Deus.
O amor autêntico rompe as barreiras da superfi­
cialidade. O amor é profundo. Minha esposa e eu
temos crescido em nosso relacionamento de amor
no decurso dos últimos vinte e um anos. Logo
depois de nosso casamento pensei que eu hou­
vesse atingido o ponto máximo de minha capaci­
dade de amar. Mas descobri que isso não era
verdade. Amo minha esposa mais agora do que
antes.
Tenho observado outros cujos relacionamentos
de am or se desmoronaram. Tenho-m e perguntado
qual a diferença que há entre os dois tipos de
relacionamentos de am or — os que duram e os que
se desmoronam. Cheguei a um a im portante con­
clusão: O amor entre m im e m inha esposa tem
crescido porque nos temos entregado a momentos
138 Digno d e Adoração

de com unicação íntima. Cada semana planejamos


tempo para estarmos a sós e com partilharmos nos­
sos mais profundos sentimentos. Tomamos tempo
especial para estarmos um com o outro a fim de
descobrirmos quais são os nossos sonhos e alvos.
O mesm o princípio aplica-se ao nosso relacio­
namento com Deus. Devemos planejar estarmos a
sós com ele e aprendermos o que está no seu cora­
ção. Devemos falar-lhe das coisas profundas do
nosso coração. Nosso relacionam ento de am or
com Deus jam ais deve tornar-se superficial. Deve­
mos programar tempo de solitude com ele.
Princípio na 2: Meditação. A solitude nos leva ao
lugar de adoração, mas a meditação nos introduz
à Pessoa que adoramos. A meditação está no âma­
go da adoração cristã. Ela é muito mais do que
uma espécie de aproximação mística de Deus. Ela
coloca nosso foco na pessoa de Cristo e permite
que seus atributos divinos e seu caráter moral
transformem nosso ser interior. Davi era homem
segundo o coração de Deus, e ele não vivia como
monge, alienado da sociedade. Sua vida era pro­
dutiva e útil. Não obstante, ele fala de meditar na
lei de Deus de dia e de noite. Ele sabia como ficar
em silêncio e reconhecer a Deus como Deus.
O term o meditação causa m edo a muitos cristãos
ocidentais por causa de seu emprego entre as reli­
giões orientais. Contudo, a m editação bíblica dife­
re inteiramente do misticismo oriental. Para o cris­
tão, a meditação não é esvaziar a mente de todo o
seu pensamento. E exatam ente o contrário. É en­
Oração e Adoração 139

cher a mente com Aquele que é inteiramente am á­


vel, puro e digno.
A meditação cristã concentra-se na Palavra de
Deus. Do Gênesis ao Apocalipse, as Escrituras
apontam-nos para Jesus. Nelas, podemos ver a
natureza maravilhosa de Jesus. No Gênesis ele está
no princípio, mas no Apocalipse ele é o princípio
e o fim — o A lfa e o Omega. No livro de Daniel ele
é o Ancião de Dias, e na carta aos Colossenses ele
é o primogênito de toda a criação. No Evangelho
de João ele é o unigênito Filho de Deus, e na carta
aos Hebreus ele é o resplendor da glória de Deus,
a expressão exata de seu Ser. Grande parte de sua
glória e muitos de seus atributos acham-se descri­
tos na Bíblia. Todos os dias deveriamos encontrar-
nos em algum ponto solitário numa hora específica
com nossa Bíblia aberta e nosso coração tranqüilo.
Então adquiriremos verdadeiro apreço pelo Salva­
dor.
Princípio nü 3: Adoração. A reação natural ao
novo discernimento da natureza e do caráter de
Cristo que adquirimos será a adoração. A medida
que nossa mente e nosso coração se concentram
em Jesus, profundo amor começará a fluir da
parte mais íntima de nossa vida. Adoraremos a
Jesus Cristo. É para este objetivo que toda a ado­
ração deve dirigir-se. Muitos cristãos não experi­
mentaram a alegria da oração porque nunca real­
mente entenderam o seu objetivo supremo.
O "p ed ir", "bu scar" e "b ater" da oração não são
um a forma de auto-indulgência. Pedimos porque
somos filhos necessitados. Buscamos porque ele é
140 Digno d e Adoração

tudo o que necessitamos. Batemos porque deseja­


mos entrar num a doce com unhão e andar diaria­
m ente com ele. Por meio desse tipo de oração
chegamos a conhecer a Deus como o Pai perfeito
em sua bondade. O verdadeiro objetivo da oração
é a adoração de Deus por intermédio de seu Filho,
Jesus. Procure regularmente um lugar tranqüilo e
abra o Livro. Contemple o Cordeiro de Deus. Incli­
ne-se sobre seu rosto e O adore.
Acima de tudo, permaneça muito tempo na presença
de Deus. Jamais veja o rosto de um homem sem que antes
tenha visto a face de Deus, que é nossa vida — nosso
tudo.

Robert M urray M 'Cheyne,


em The Life o f Robert Murray M'C heyne

Perseverando unânimes todos os dias no templo, e


partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e
singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça
de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à
igreja aqueles que iam sendo salvos.

Atos 2:46-47
10
Testemunho e Adoração

A vida terrenal de Jesus tinha grande propósito


— a redenção da humanidade. Todas as suas ações
destinavam-se a trazer homens e mulheres a um
relacionam ento adequado com o Pai. Contudo, ele
sabia que a humanidade, se quisesse entrar em tal
relacionamento, deveria experimentar o perdão.
Conseqüentente, ele sabia que devia morrer. Al­
guém teria de aceitar o castigo pelos pecados do
m undo, e para esse propósito Jesus havia sido
enviado.
Ele dizia constantemente aos discípulos que
havia um motivo para a sua vida: ele nascera para
morrer. Ele teria de ir a Jerusalém e sofrer numa
cruel cruz romana. Ele era o Cordeiro de Deus que
tiraria o pecado do mundo. Ofereceu a própria
vida como sacrifício pelos pecados de todas as
pessoas de todos os tempos.
Finalmente, chegou o dia em que ele cum priu o
propósito supremo de sua vida. Pendendo da cruz,
ele exclamou: "E stá consum ado." Jesus havia re­
alizado a tarefa para a qual havia sido chamado.
Todavia, o Pai do céu não permitiu que o Filho
144 Digno d e Adoração

fosse derrotado pelas forças malignas do Universo.


Ele ressuscitou seu Filho dentre os mortos e o
exaltou acim a de tudo quanto existe. O Pai deu-lhe
um nom e que está acima de todos os nomes.
Antes de Jesus subir e sentar-se à direita do Pai,
ele apareceu aos discípulos. Incumbiu-os de ir por
todo o mundo e pregar esta boa-nova: toda e qual­
quer pessoa, não importa quão pecadora seja, pode
agora reconciliar-se com seu Criador, santo e puro,
em virtude do sangue derramado naquela cruz
rom ana fora da cidade de Jerusalém. Os discípulos
deviam proclamá-lo. Jesus era a boa-nova. Deviam
ensinar homens e mulheres a obedecer a tudo
quanto ele lhes havia ensinado. Deviam proclam ar
sua vida sem pecado, sua m orte redentora, e o
poder de sua ressurreição.
Antes, porém, que os discípulos dessem início
à sua missão, Jesus ordenou-lhes que ficassem em
Jerusalém. Por que Jesus mandou que esperassem?
O mundo estava cheio de necessidades. Por que,
pois, ele não queria que eles se entregassem imedia­
tamente à tarefa de evangelização do mundo?
A resposta é simples. Era preciso que eles "do
alto fossem revestidos de poder" (Lucas 24:49).
Conseqüentemente, a igreja do Novo Testam ento
não teve início com o foco voltado para o exterior,
mas com o coração dos crentes voltado para cima.
A Igreja do Novo Testam ento com eçou num a reu­
nião de oração. Jesus lançou o fundam ento da
igreja voltando o coração dos discípulos para o
céu. E interessante notar o padrão que se desenvol­
ve por todo o livro de Atos. A igreja ora, e a seguir
Testem unho e Adoração 145

proclam a as boas novas da salvação que Deus


oferece ao homem.
E na oração que a igreja encontra seu poder para
proclam ar o perdão oferecido por Jesus. A finali­
dade da oração é adorar a Jesus Cristo. Na expe­
riência da adoração encontramos o poder para
testemunhar do amor de Cristo e de seu poder para
salvar os que nele crêem. O propósito suprem o da
evangelização do mundo é encher a terra toda com
a glória de Cristo. A testemunha efetiva de Jesus é
aquela que tem a glória de Deus escrita na tábua
do seu coração.
O objetivo de contar aos outros a respeito de
Jesus é, antes de tudo, para a glória de Deus. M ui­
tos se desanim aram e cessaram de dar testemunho
em virtude de um entendimento inadequado do
propósito de testemunhar. Se eu perguntasse à
m aioria dos evangélicos por que deveriam anun­
ciar aos outros o evangelho, talvez recebesse varie­
dade de respostas. Alguns diriam: "A s pessoas
estão morrendo e indo para o inferno. Elas neces­
sitam ser salvas." A resposta é verdadeira, mas
inadequada por três motivos fundamentais.
Primeiro, ela enfoca a salvação nas necessida­
des do homem. Segundo, coloca pesado fardo so­
bre o que dá testemunho de Cristo em lugar de
fazer com que o peso descanse sobre o Espírito
Santo. A obra da salvação é obra da graça de Deus,
produzida pelo Espírito Santo. Cabe ao cristão a
responsabilidade de ser obediente na com unica­
ção de sua fé. A responsabilidade do Espírito Santo
é atrair as pessoas ao Salvador. Terceiro, escapar
146 Digno d e Adoração

do inferno é benefício secundário da salvação. O


benefício primordial é que homens e m ulheres
sejam levados a um relacionamento apropriado
com Deus, relacionamento esse que traz glória a
Deus.
Quando cheguei a esta compreensão, toda a
m inha perspectiva sobre dar testemunho transfor­
mou-se. Acabei com essa história de falar de Cristo
aos outros em virtude de um sentimento de culpa.
Eu queria que os outros o conhecessem pela sua
grandeza e majestade. M eu testemunho com eçou
a resultar de um transbordamento de m inha ado­
ração.
Os grandes heróis da fé foram homens e m ulhe­
res que se consumiram com a glória de Deus. Cada
ação que praticavam era motivada pela m ajestade
e glória de Deus. Esta m otivação tem inspirado
grandes pregadores de todas as gerações. Ela acen­
deu as cham as dos movimentos m issionários e da
evangelização do mundo.
Os que causaram m aior impacto sobre m inha
vida e sobre m inha filosofia de ministério não
foram, necessariamente, os cristãos de m aior reno­
me. Foram os que deram a vida à adoração do
Salvador e m ostraram às pessoas o quanto Ele é
digno. E provável que nunca venham a ser co­
nhecidos da com unidade cristã, mas a sua adora­
ção é muito bem conhecida no céu.
Enquanto eu servia na índia, conheci um jovem
indiano que dava assistência aos povos tribais do
estado de Gujarat. Talvez ele nunca fale em gran­
des conferências. Seu nome, acredito, nunca será
Testem unho e Adoração 147

conhecido na com unidade cristã. Esse jovem vive


entre os povos tribais com risco de contrair enfer­
midades mortais. Centenas de pessoas m orreram
recentemente vítimas de epidemia de cólera. Ele
trabalha para a Igreja Metodista de Gujarat, patro­
cinando clínicas médicas para pessoas necessita­
das, e ajudando na lavoura. Coopera no terreno da
educação e no ensino da Bíblia; e ele tem conduzi­
do muitas dessas pessoas a Jesus.
Que é que tem m otivado um jovem crente in­
diano a correr o risco de rejeição e de enfermidade
mortal, preferindo viver longe de seus companhei­
ros? Seu salário é baixo. Seu trabalho não lhe traz
fama; vive sem conforto. Ele é m otivado por aquilo
m esm o que m otivou a Judson, Carey, e Brainard.
Eles viram a glória do Salvador de m odo tal que
dedicaram a vida inteiramente a proclam ar o no­
m e de Cristo. Não falaram de Cristo a fim de
edificar seus próprios ministérios ou reinos. O cla­
m or de seus corações tem sido: "Porque teu é o
reino e o poder, e a glória, para sempre. Amém.
(Mateus 6:13).

A Adoração Produz Pureza e Poder


H á duas grandes necessidades na vida do cris­
tão que deseja ser testemunha eficaz de Cristo:
pureza de caráter e poder. A plataform a da qual a
pessoa partilha Cristo com os outros é a pureza de
caráter. Não é a dinâmica de nossos dons e capaci­
dades que leva as pessoas a dar ouvido ao que
falamos. E o que realm ente somos no íntimo.
A igreja enfrenta grande crise de caráter na
presente geração. Estou convencido de que a causa
148 Digno d e Adoração

da crise é nossa falha na adoração verdadeira a


Jesus Cristo. Tem os feito da adoração um assunto
de forma e método, em vez de realmente dar a
Jesus a glória devida ao seu nome. Faz alguns anos
Deus me deu uma perspectiva sobre a tentação.
Antes desta revelação, a form a que enfrentava a
tentação era simples. Havia certos pecados que
eram tabu para um m inistro cristão, por isso eu
nunca faria nenhum a dessas coisas. Outros, com o
imoralidade, destruiríam m inha família. Portanto,
eu me esforçaria por ficar longe de tais situações.
Havia tam bém pecados que me causariam dano ao
corpo. Por conseguinte, eu me refreava de praticar
tais coisas. Basicamente, eu gostava de m im m es­
mo, e queria viver tanto tempo quanto possível.
Havia, porém, um problema fundamental com
esta perspectiva da tentação. Eu via a vitória sobre
o pecado de um ponto de vista negativo, que,
conseqüentemente, produzia legalismo. O legalis-
mo pode ajudar alguém a m anter as form as exte­
riores da lei de Deus, mas nada faz para edificar o
caráter íntimo. O mundo descrente precisa ver no
cristão muito mais do que abstinência de fumar,
beber e envolver-se em casos imorais. O m undo
necessita ver tam bém a beleza interior do caráter
do cristão.
Quando Deus começou a trabalhar no m eu co­
ração no que tange a este assunto, passei por tre­
mendas m udanças cie atitude e de caráter. M inha
atitude com relação ao pecado passou a ser aquela
edificada sobre um relacionamento positivo com
Cristo, e não um m edo negativo do que pudesse
Testem unho e Adoração 149

ocorrer ao meu m inistério, à m inha família, ou a


m im mesmo.
Não me refiro ao "poder do pensam ento posi­
tivo". Falo do poder de adorar o am ável Cordeiro
de Deus. Quando o vejo em toda a sua glória, nada
desejo fazer que lhe traga descrédito. Fujo da imo­
ralidade, não apenas para meu benefício, mas por
am or do seu-nome. Refreio-me de certas atividades
não só porque elas me causarão dano, mas antes
de tudo porque desejo glorificar a Deus por meio
do meu corpo. Ele é digno de ser glorificado em
m inha família, meu ministério, e m inha vida pes­
soal.
O ardente desejo pela glória de Deus produz
um tipo de Cristianismo positivo. Produz no cren­
te um tipo de caráter que o capacita a falar de Cristo
num mundo destroçado pelo pecado. Sem o cará­
ter semelhante ao de Cristo, nossas palavras cairão
em ouvidos surdos, e produzirão resultados nega­
tivos.
Adorar a Jesus Cristo não só produz caráter
interior na vida do crente; dá-lhe tam bém poder
para com partilhar a fé. H á certa som a de confiança
em nosso testemunho que vem pela coerência de
nossos atos e palavras. Há, porém, m aior poder
proveniente da adoração de Jesus Cristo.
Dois dos apóstolos, Pedro e João, m ostraram
extraordinário poder de falar de Cristo durante os
prim eiros dias da igreja. Era como se por toda a
parte aonde iam e tudo quanto tocavam se trans­
form asse em oportunidade de testificar de Jesus.
Eles se dirigiam a um a reunião de oração e acaba­
150 Digno d e Adoração

ram sacudindo a cidade de Jerusalém para a glória


de Deus. Eles realizaram mais para Cristo aciden­
talmente do que a maioria dos cristãos realiza hoje
intencionalmente.
Nos primeiros capítulos do livro de Atos encon­
tramos Pedro falando com grande intrepidez a
respeito de Cristo. Milhares se converteram. Um
homem coxo é curado. Pedro e João são presos e
ameaçados. Então se faz um a observação interes­
sante com relação a eles: "Então eles, vendo a
ousadia de Pedro e João, e informados de que eram
homens sem letras e indoutos, se maravilharam , e
tinham conhecimento de que eles haviam estado
com Jesu s", (Atos 4:13). O segredo do poder desses
apóstolos e a intrepidez para proclam ar a Cristo
não residia no grau de instrução nem em grandes
habilidades oratórias. Eles haviam estado com Je ­
sus! O segredo da grande coragem e ousadia dos
apóstolos era simplesmente o fato de adorarem a
Jesus Cristo.

Vencendo Obstáculos para Testemunhar


Vivemos num a geração m uito mais inform ada
acerca de como dar testemunho do que talvez
qualquer outra geração desde o tempo de Cristo.
Temos o inverso de Pedro e João. Parece haver
muitos instruídos e treinados para serem teste­
munhas de Cristo, mas poucos que têm o poder e
a coragem de falar dele a outros. Três principais
obstáculos na vida dos cristãos dificultam sua ca­
pacidade de falar a outros a respeito de Jesus. O
adorar a Jesus Cristo capacita o crente a vencer
esses obstáculos.
Testem unho e Adoração 151

Obstáculo n- 1: Um espírito tímido. O maior


obstáculo ao testemunho é o medo. Temos medo
do que os outros pensarão. Temos medo do fra­
casso. Temos medo de que nos façam de bobos.
Temos medo da rejeição. Todos esses medos
criam poderosa força que nos impede de falar aos
outros a respeito de Jesus. Tenho falado de Jesus
Cristo a ateus, hindus, muçulmanos, comunistas,
animistas, humanistas, e cristãos nominais. Te­
nho enfrentado quase todas as ideologias imagi­
náveis. Não obstante, o maior obstáculo ao meu
testemunho não tem sido as ideologias contrá­
rias. A maior barreira tem sido meu próprio me­
do. Devo confessar que sinto medo quase toda
vez que partilho Cristo com outros.
A antítese do m edo é o amor. O m edo aponta
para o eu, ao passo que o amor aponta para os
outros. O medo é negativo, mas o am or é positivo.
O m edo nos faz inseguros, mas o amor firm a nossa
vida em Rocha firme. "N o amor não há medo.
Antes o perfeito am or lança fora o m edo" (1 João
4:18).
O perfeito amor encontra-se no trono de Deus.
Quando chegamos diante do seu trono, encontra­
m os aquele que é amor. Pedro e João se fizeram
corajosos para Cristo porque o haviam adorado, a
ele, seu Salvador. Anos mais tarde João escreveu:
"D eu s é am or" (1 João 4:8).
Som ente quando adoramos a Jesus subm ergi­
m os em seu amor. Quando nos enchemos do seu
amor, parece que lançam os fora o medo. Nossa
segurança está em Cristo. Quando encontramos
152 Digno d e Adoração

nele nossa aceitação, todo o m edo deve fugir. O


m edo não pode habitar no coração daquele que
adora a Jesus Cristo. O coração cheio de medo
transform a-se num coração cheio de coragem.
Obstáculo «e 2: Espírito frustrado. M uitas oportu­
nidades de com partilhar o evangelho se perdem
p or causa de conflitos não resolvidos dentro do
coração do crente. Jesu s disse aos discípulos que
não tem essem nem se perturbassem . Ele adver­
tiu-os sobre d ificuldades que teriam de enfrentar
no m undo.
Um a realidade da vida é que todo cristão en­
frentará situações difíceis. Contudo, se quisermos
ser testem unhas de Cristo, devem os prim eiro
aprender com o enfrentar as dificuldades no Espí­
rito de Cristo. Muitas vezes são os pequenos pro­
blemas que devoram a paz em nosso coração. A
frustração faz-nos perder muitas oportunidades
de testemunhar.
O remédio para a frustração é a paz. Jesus disse:
"D eixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não vo-la
dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso
coração, nem se atem orize" (João 14:27). A paz de
Jesus é única. Ela não é controlada por circunstân­
cias exteriores. Ela vai além dos problem inhas e
das grandes tribulações. Ela percorre todo o ca­
m inho e vai às profundezas do coração humano.
A paz enche o coração daquele cujos olhos estão
fitos em Jesus. E o coração adorador que experi­
m enta a "p az de Deus, que excede todo o entendi­
m ento" (Filipenses 4:7).
Muitas vezes a porta da dificuldade leva à rua
Testem unho e Adoração 153

da oportunidade. É nessa rua que descobrimos as


chances de falar de Cristo. Todavia, a "p orta da
dificuldade" só pode ser aberta com um a chave
cham ada "p az". Essa chave encontra-se na sala do
trono de Deus. A m edida que adoram os a Jesus
Cristo, nosso coração é inundado da bela paz.
Faz alguns anos falei num a universidade cristã
sobre a necessidade de despertamento espiritual
na presente geração. Tive muitas oportunidades
preciosas de adorar durante a semana. Quanto
mais eu adorava a Jesus Cristo, maior era a respon­
sabilidade que eu sentia de falar a outros a respeito
dele. Pedi então a Deus a oportunidade de falar a
alguém sobre seu grande amor.
Ao tomar o avião de volta para casa, sentei-me
perto de uma senhora que carregava um bebê que
chorava a plenos pulmões. Quando o avião deco­
lou, o bebê chorava mais alto ainda. A m edida que
o bebê chorava, a m ãe sentia-se inquieta. A tensão
com eçou a apossar-se de mim. Pensei: "E ssa não.
Vou ter de ouvir este bebê gritando a viagem
inteira!"
Enquanto pensava no que acontecia, a paz fu-
giu-me do coração. Logo, porém, o Espírito Santo
entrou em ação, convencendo-me de minha atitu­
de errada. O Espírito me levou de volta a Jesus.
Comecei a adorá-lo em silêncio. O Espírito de Deus
trouxe-me à lem brança que Jesus é o Rei que se
tornou Servo. Eu m e via em face desta pergunta:
Que faria Jesus se estivesse em meu lugar?
Reconhecí que Jesus se colocaria à disposição
daquela m ulher. Im ediatam ente perguntei-lhe se
154 Digno d e Adoração

eu podia brincar com o bebê, ao que ela respondeu


de pronto: "C laro, por favor." Fiz caretas, agi com o
tolo, e usei linguagem tatibitate. Ri-m e enquanto
pensava com igo mesmo: "Será que isto significa
ser cheio do Espírito Santo?"
Finalmente o bebê se acalmou e dormiu. A se­
nhora agradeceu-me a ajuda e começou a fazer-me
perguntas. Falei-lhe de Cristo, e enquanto o fazia ela
começou a chorar. Seu marido era médico, mas tanto
ela como ele não eram cristãos. Sua sogra havia-se
convertido a Cristo poucas semanas antes de nosso
encontro. Ela conversou com o filho e com a nora a
respeito de Jesus, mas pelo fato de ser ela cristã
recém-convertida, não sabia o que falar, mas prome­
teu: "Vou pedir que Deus lhes envie alguém que
explique melhor o plano da salvação."
Ali estava eu sentado naquela aeronave com o
resposta à oraçãò daquela mãe. Não obstante, eu
poderia ter deixado passar a oportunidade. Cabia
a mim a escolha. Eu poderia ter suportado a via­
gem ao lado de um bebê a gritar. Ou poderia
adorar a Jesus e abrir a porta da dificuldade com a
chave da paz.
Cada um de nós enfrenta a m esm a escolha to­
dos os dias. Estou convencido de que devemos
aprender a adorar a Jesus se quisermos ganhar
para Cristo um mundo cheio de tribulação.
Obstáculo na 3: Espírito negativo. Quem não sabe
enfrentar frustrações acaba desenvolvendo um
panorama negativo da vida. Infelizmente, muitos
cristãos pertencem a esta categoria.
O evangelho é boa-nova. Quando conhecem os,
Testem unho e Adoração 155

amamos e adoramos ao Salvador, toda a nossa


perspectiva da vida se altera. Criamos espírito e
atitude positivos. Há alegria quando Jesus impera
no coração do homem. Essa alegria é o transbordar
do coração que adora a Jesus. E na adoração que
descobrimos o propósito de Deus. É intenção de
Deus que a terra toda se encha da sua glória. Há
justiça, paz e alegria onde habita a glória de Deus.
O coração que adora a Jesus se entrega de corpo
e alm a à evangelização do mundo. Ele não é so­
m ente digno de nossa adoração; ele é digno da
adoração de homens e mulheres de toda tribo, raça
e nação.
E emocionante viver em nosso tempo. O mundo
foi corrompido pela natureza rebelde do homem,
e por isso há grande sofrimento em cada continen­
te. Mas no meio de guerras, fome, poluição e ex­
plosão populacional está o Salvador. Só ele pode
trazer paz ao coração ferido, retidão e justiça às
nações. A porta da dificuldade pode ser aberta com
a chave da paz. Há enormes oportunidades de
conduzirmos nosso m undo a Jesus.
Contudo, devemos em primeiro lugar ir à sala
do trono. Devemos adorar aquele que é digno. A
chave para evangelização do mundo encontra-se
aos pés de Jesus Cristo. Prostremo-nos a seus pés.
Se assim fizermos, logo nos dirigiremos ao mundo
que sofre e proclamaremos o poder e o amor da­
quele que é digno de ser adorado por toda a sua
criação.

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