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Órgão do Conselho Nadonal de Estatística

e da Associação Brasileira de Municípios, editado trimestralmente


pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

DIRETOR RESPONS.(VEL: RAFAEL XAVIER


Redator-Secretário: LOURIVAL CÂMARA
Redação: Av. Franklin Roosevclt, 166- Telefone 42-5294
Oficinas: Rua Cordovil, 328 -- Telefone 30-4747

ASSINATURA ANUAL: Cr$ 80,00

RIO DE JANEIRO- BRASIL

- '

ASSOCIAÇAO BRASILEIRA DE MUNICIPIOS


,

OBJETIVOS
a) estudar, permanentemente, a organização; o funcio-
namento, as condições e métodos de trabalho dos Municípios
brasileiros, visando ao seu melhor rendimento;
b) promover o maior intercâmbio possível entre os
Municípios e com êles colaborar no planejamento, orientação,
assistência técnica e implantação de quaisquer modificações ou
reformas administrativas;
c) receber, estudar e difundir sugestões sôbre' assuntos
de administração municipal, promovendo, para tal fim, em
colaboração com os órgãos federais e estaduais - por meio de
palestras, documentário, congressos, publicações, etc . - ampla
difusão de ensinamentos sôbre os princípios, os problemas e a
técnica de administração municipal;
d) pre~tar aos Municípios completa e efetiva assistência;
e) realizar os objetivos de cooperação expostos nos Esta-
tutos da Comissão Pau-Americana de Cooperação Intermuni-
cipal, nas formas recomendadas e ratificadas pelos Congressos
Pan-Americanos de Municípios e pela VI Conferência Interna-
cional Americana.
R~B~rltuM~
Ano I 11 JANEIRO-JUNHO DE 1948 ))N. 08
1·2

APRESENTAÇAO

M
UITO embora não faltassem às gerações brasileiras que antecederam à atual
advertências oportunas e sugestões prudentes, acêrca dos problemas básicos da
organização nacional, a verdade é que se não deu a êsses problemas o encaminhamento
conveniente, no interêsse da valorização do homem e melhor aproveitamento dos recursos
naturais. O sentido costeiro do povoamento conduziu a sociedade brasileira a evidentes
desequilíbrios estruturais e funcionais, impedindo a ocupação integral, em têrmos sócio-
-econômicos, do espaço político, mediante a interiorização de elementos de cultura e a
formação de centros di/usares de progresso, equitativamente distribuídos em tôda a área
territorial.
Sem o suporte adequado de sólida organização rural, a urbanização litortinea retardou,
de certa maneira, a evolução econômica do País, provocando desajustamentos sociais da
maior profundidade, cujos efeitos já se fazem sentir nas próprias cidades, à medida que
a densidade permitida por seus recursos é ultrapassada pelas massas humanas deslocadas
do Interior.
Antes de refletir, como supõem alguns, mera contingência de nossa formação étnica,
o nomadismo e o centripetismo das populações brasileiras talvez encontrem explicação
lógica nas condições em que, na maioria dos casos, se exercem, no País, as atividades de
produção e circulação, a exigirem não apenas esfôrço exaustivo, mas sacrifícios de tôda
a ordem.
Dentro dêsse quadro de circunsttincias, o Municipalismo brasileiro teria de ressentir-se,
necessàriamente, do depauperamento econômico e cultural do Interior, com prejuízo evidente
para os ideais de construção política que animaram a pregação republicana.
No regime federativo, com efeito, o Município é a base, o sustentáculo, a infra-estru-
tura, por assim dizer, do organismo nacional, cuja existência, estabilidade e segurança
passam a depender, diretamente, do fortalecimento de suas "células vivas''. Verifica~se,
porém, na evolução política do País, a inversão dessa premissa, ora mediante excessiva
centralização administrativa - federal ou estadual - , ora pela absorção máxima, por
parte da União e dos Estados, das rendas municipais.
Enfraquecidos em seu poder financeiro, sem possibilidades locais e sem auxílio ade-
quado das duas outras esferas do govêrno, os Municípios brasileiros não puderam alcançar a
pleno efeito, tirante algumas significativas exceções, que circunsttincias regionais justificam,
a expansão econômica e o desenvolvimento cultural correspondentes ao esfôrço continuado
e tenaz de suas laboriosas populações.
Em sÍntese admirável, advertia RUI BARBOSA que "não se pode imaginar existência
de Nação, existência de povo constituído, existência de Estado, sem vida municipal".
Representa, portanto, um dos mais saudáveis sintomas de nossa maturidade política a
tendência, que hoje se assinala tão fortemente no Brasil, de assegurar ao Município a
função básica que lhe cabe, de direito e de fato, na entrosagem das instituições republicanas.
Reconhecendo a necessidade do restabelecimento da autonomia municipal, bem assim a da
atribuição, às administrações locais, de maior largueza de recursos, a Constituição de 18
de setembro de 1946 possibilitou a revitalização dos Municípios e o fortalecimento, nas
diferentes camadas da opinião, daquela consciência municipalista indispensável ao equilíbrio
da vida brasileira e imprescindível ao esfôrço de organização nacional.
Órgão preposto à caracterização objetiva das realidades nacionais, através da Estatística
e da Geografia, o I. B. G. E. preocupou-se, desde o início de sua atuação, em promover o
revigoramento dêlfle espírito municipalista, recolocando o Município na posição que lhe
2 REVISTA BRASILEIRA DOS MuNicÍPIOS

pertenceu, nas etapas iniciais de nossa evolução histórica. Sua atuação, dentro dessa ordem
de objetivos, pode ser assinalada através de iniciativas do maior alcance e cuja repercussão
se fêz sentir, de maneira altamente honrosa para o Brasil, em importantes assembléias
internacionais. Não se ficou, apenàs, no conhecimento objetivo do quadro municipal, quer
sob o ponto de vista de sua próptia estruturação, quer no traçado de sua configuração e
conformação geográficas, quer, ainda, nos seus aspectos econ6micos e sociais. Paralelamente
ao estudo do Município, do ponto de vista geográfico e estatístico, procurou o Instituto
estimular, no âmbito municipal, empreendimentos culturais de inegável significação para
a vida local, demonstrando, ao mesmo tempo, mercê de sugestões adequadas, a necessidade
da racionalização dos respectivos serviços administrativos, mediante a adoção de modernas
técnicas de trabalho. Aí estão, por exemplo, as providências encaminhadas ou os alvitres
formulados pelo Instituto, quanto à sistematização do quadro territorial do País - adminis-
trativo e judiciário; ao levantamento dos mapas municipais e plantas das cidades e vilas, bem
como do cadastro predial e domiciliar urbano e do cadastro rural; à criação de vários
"registros" - o industrial, o da produção de carne, o escolar e o hospitalar,· à elaboração
de monografias históricas e estatístico-descritivas; à organização do Anuário Municipal de
Legislação e Administração; à divulgação das Sinopses Estatísticas dos Municípios; à ctiação
ou à reorganização das bibliotecas, arquivos e museus municipais, etc.
A contribuição do l.B.G E., em favor do progresso dos Municípios brasileiros, veio ad-
quirir, ainda, maior significado graças aos Convênios Nacionais de Estatística Municipal,
que, transferindo à responsabilidade do Instituto a administração dos serviços estatísticos
municipais, tornou possível a existência, em cada Município, sem exceção de um só, de uma
Agência de Estatística modelarmente organizada, capaz de proceder, com a necessária efi-
ciência, às investigações previstas nas suas atribuições específicas e exercer, ainda, profunda
atuação em favor do progresso cultural das comunidades a que serve.
Como foi acentuado noutra oportunidade, "o mecanismo e o alcance dos Convênios ofere-
cem singular e sugestivo exemplo da prática da mais ampla solidariedade nacional, em real
proveito do interêsse comum. As populações das capitais e dos demais centros urbanos de
maior importância e mais alto nível de conf6rto, estão contribuindo para que os mais
modestos Municípios do interior do País tenham um Órgão de estatística proporcionalmente
tão bem equipado, de pessoal e material, quanto o de quaisquer outros onde os recursos
locais e um eventual aprêço à natureza do serviço permitissem mantê-lo em condições real-
mente satisfatórias. Não somente cada Município dispõe, sem 6nus para os seus cofres,
geralmente minguados, daquele serviço eficaz e modelar, apto a colaborar em t6das as
iniciativas de interêsse local, mas ainda ficou assegurado, por essa forma, à estatística
geral do País, o lastro imprescindível à sua exatidão e veracidade, em todo o respectivo
campo de compreensão".
Na atual fase da vida brasileira, a obra do Instituto, na esfera municipal, estava a
exigir, porém, novo instrumento de ação, capaz de contribuir, ainda mais vigorosamente,
para o êxito do patriótico movimento municipalista que, tendo influenciádo a reestrutura-
ção de nossas instituições constitucionais, com a solidariedade unânime das várias corren-
tes de opinião, encontra, agora, no Presidente EURICO DUTRA um dos seus mais entusiastas
animadores. Assim o reconheceu, aliás, a Assembléia-Geral do Conselho Nacional de Es-
tatística, quando, sob a inspiração e por iniciativa de M. A. TEIXEIRA DE FREITAS, disp6s
s6bre o lançamento da REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS, dedicada à divulgação
e ao estudo dos assuntos e problemas de interêsse municipal.
É essa a iniciativa que ora se concretiza, sob os melhores ausp1c10s. Editada sob a
responsabilidade do Instituto e da Associação Brasileira de Municípios, esta publicação
tem como objetivo essencial a difusão e valorização da política municipalista; assim sendo,
contribuirá, por tôdas as formas possíveis, para o desenvolvimento econômico e o aper-
feiçoamento cultural dos Municípios brasileiros.
Seu programa visa a informar e educar, assegurando às Municipalidades a mais ampla
colaboração técnica, a elucidação oportuna e o esclarecimento adequado, no trato e exame
dos problemas administrativos de interêsse imediato para os governos locais. Trata-se, pois,
de mais uma iniciativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, inspirada, como
tôdas as demais que já se inscreveram em seu acervo de realizações, no pensamento de
servir ao Brasil, contribuindo, na medida das possibilidades, para o encaminhamento, em
têrmos decisivos, dos problemas de organização nacional.
.••
INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA JURÍDICA
DO MUNICÍPIO BRASILEIRO
OCÉLlO DE MEDEIROS
(Da Associação Brasileira Je Municípios)

SUMARIO:" I - Con~idcra.gõc.~ iniciai~. II - A anterioridade bistóTica do Município


Brmúleiro .-:m EstD.do. 111 · - A fi{,urtl do pwiomunicípio brasil~iro. IV - Etapas dtl
evoluçi1o municipal no B1·a.sil. V - O proarcsso ccon8mico como fair:;r de criação da vida
municipal. Vl - O Município corno pmlJicm6! a,o:!rAlio dc~:do a sua origem.

I - CONSIDERAÇÕES INICIAIS

DESPEITO de evocar a palavra lVIunicípio sua origem no obsoleto


A Direito Romano, cujas instituições municipais tanto exaltam nos olhos
do mundo moderno o gênio político da antiguidade, deve-se admitir, desde
logo, que os subsídios existentes nas antigas leges que nos foram legadas não
possuem nenhum valor prático para o estudo do primitivo Município por~
tuguês, principalmente em correlação com a organização transplantada para
o Brasil, através das ordenações do Reino.
lVIesmo considerando o período de dominação romana ela península ibé~
rica, quando velhas povoações se submeteram ao esplendor da o~ganização
do velho Império, aquêles subsídios possuiriam apenas valor histórico.
É que a invasão dos bárbaros, na península, apesar de favorecer o revi·
gofamento da vida municipal em virtude da preferência dêsses povos para
o campo, quase fora das cidades, determinou profunda modificação nas ins-
tituições romanas e até mesmo favoreceu a criação de um novo sistema.
Dêsse modo, o direito das ordenações 1 que interessa 1nais particularmente
ao estudo da evolução do Município luso-colonial, já se consolidou sob a
influência do gênio jurídico de Portugal, apesar de suas raízes romanas.
Assim é que a tese da origem romano-visigótica do Município europeu,
especialmente na Península, já encontrou muitos cont:raclitores, havendo mesmo
os que admitem a antiga orgF_mizução portuguêsa como produto do próprio
meio lusitano.
Quanto às palavras que evocam origens do Direito Romano e dos povos
bárbaros, valem as mf::!smas apenas como heranças lingüísticas, visto que adquiw
riram novo sentido, sob influência do progresso da civilização portuguêsa.
Na verdade, trata-se de uma contestação aceitável, pois o Direito acom-
panha a evolução dos povos e, por isso mesmo, pareceria impossível conceber
um estado de civilização sempre em progresso, regido por um sistema está~
tico de organização jurídica obsoleta.
4 REviSTA BRASILEIRA oos MuNicÍPIOS

Com efeito, os romanos denominavam de mumc1pmm a uma classe de


cidades conquistadas, quando Roma, na Idade Antiga, estendeu seu domínio
sôbre o mundo.
Constituíam comunidades políticas, subordinadas à autoridade de Roma,
mas conservando certa autonomia administrativa. Representavam, dêsse modo,
certa classe de cidades, conforme acima se disse, pois havia também outras
classes.
Sob o sistema municipia-fcederata, por exemplo, as cidades conservavam
plenamente a cidadania romana e integralmente sua primitiva organização,
com o caráter de administração local. Outras, porém, possuíam estas caracte-
rísticas, mas eram privadas da cidadania romana, em tôda a sua plenitude.
Reconheciam-lhes, apenas, os direitos jus connuhium e commercium, ou
somente êste ( municipia cerita) . Havia ainda outras que tinham êsses direitos,
mas perdiam sua antiga organização e não eram autônomas.
Na realidade, os municipia possuíam graus de cidadania romana, maior
ou menor. Só se concedia a plenitude dêsse privilégio às cidades que se su-
bordinassem integralmente ao Direito Romano da época, isto é, às leis e
decretos emanados do povo e do Senado romanos.
Na organização do antigo Município romano, a população se dividia em
cidadãos ( cives municipes ), com todos os direitos, e habitantes originários
(incolre ). Os magistrados eram eleitos pela assembléia do povo, formada de
todos os cidadãos, os quais eram distribuídos em curias ou em tribos. Um
colégio de quatro membros eleitos, que encabeçavam os magistrados, adminis-
trava o Município: dois, com poderes judiciários ( dueviri jure dicundo) e os
outros dois com poderes de polícia e de administração ( dueviri cediles) .
O Conselho Comunal, que correspondia ao Senado Romano, constituía a ordem
dos decuriões (curia ardo decuriomzm) e se compunha habitualmente de cem
membros ( decuriones, curiales), eleitos pelos viri quinquenales.
A organização, aqui esboçada em suas linhas gerais, assegurou aos Muni-
cípios uma autonomia administrativa que se restringiu à medida que se pro-
cessou a centralização. A lei ]ulia de Civitate, do ano 90, outorgou a todos
os cives e incolre os direitos da cidadania romana. Daí se processou uma
verdadeira transformação, que chegou ao auge quando um édito de CARACALLA
transformou todos os súditos do Império em cidadãos romanos.
A centralização operada pelo Império Romano deu lugar ao aniquila-
mento da autonomia dos Municípios. Desapareceram as assembléias dos vizi-
nhos. Suas atribuições eleitorais e legislativas passaram às curias, cujos mem-
bros constituíam uma espécie de nobreza municipal (honestieres), que se
opunham aos homiZiares ou plebeii.
Quando da dominação romana, povoações como Lisboa, Leiria e Braga
(Ver A. HERCULANO, História de Portugal, Vol. VII) regiam-se por leis
próprias, à semelhança dos Municípios romanos. Tratando-se de regiões do-
minadas, gozavam das concessões que os romanos outorgavam, em matéria
de cidadania, aos habitantes que ficavam sob seu domínio. Tais direitos foram,
primeiramente, conforme o exposto acima, o jus suffragii e o jus connubium.
Com a Lex Salia Municipalis, na época do Império, locali~ades chamadas
.•
.•
INTRODUÇÃO À SociOLOGIA JuRÍDICA no MuNICÍPIO BnASILEmo 5

Fora e Conciabula eng1ram-se em cidades independentes, com a denominação


antiga de Forum. Dos direitos de cidadania concedidos decorriam, paralela-
mente, os de regular administração. Por causa da cidadania, os habitantes
( municipes) contribuíam para os encargos das cidades e vilas ( municipia ).
Essa contribuição chamava-se monera.
O sistema de Conselhos, que remonta do Seculo XII ao XVI, foi pro-
fundamente estudado por aquêle historiador português, desde a dominação
romana até AFONSO IV. Há, porém, quem considere os primitivos Conselhos,
não como heranças dos romanos e godos, mas como criações do próprio muni-
cipalismo português, conforme as pesquisas de AFONSO PERES.

Na verdade, com a invasão dos bárbaros, que destruiu o Império Romano


e conseqüentemente substituiu a sua dominação na península ibérica, os pri-
mitivos Conselhos sofreram os efeitos dessa invasão. Tais efeitos, mais tarde,
com a dominação dos árabes, se exprimem nos próprios vocábulos: alcaides,
alvazis, almotacés.
É preciso reconhecer, porém, que, na Idade Média, os lVíunicípios con-
servaram muito da organização anterior do Império destruído. E, dentre as
importantes modificações introduzidas pelos bárbaros nas instituições do Mu-
nicípio europeu, merece registro especial a de caráter germânico, conventu-'3
publicus vicinorum, que era a assembléia de todos os homens livres de cada
população ou distrito rural. 1

Ora, quando da colonização do Brasil, os antigos Conselhos portuguêses


já haviam perdido muito de suas características romanas. A luta contra o
feudalismo, que ganhava terreno à medida que desapareciam as cidades livres
e os Conselhos perdiam o seu prestígio, refletia-se em Portugal e nas Colônias,
criando o centralismo que começou a triunfar no século XVI. A extinção
prática das Capitanias, pela sua sujeição ao Govêrno Central instituído, repre-
senta a vitória, na Colônia, daquele centralismo que unificou o poder do Rei.
Dêsse modo, apesar de a primitiva organização municipal do Brasil Co-
lônia conter vestígios dos Conselhos romanos, os Municípios instituídos, de
tipo manuelino, apresentavam características eminentemente portuguêsas.
Além do mais, os Conselhos evoluíram para as Câmaras, na época que coincidiu
com a colonização. Magistratura jurisdicional exercida pelos duumviros ou
quatuorviros e distinção dos chefes de família em decuriões e privados, ele-
mentos característicos dos primitivos Conselhos, subsistiram em essência nas
Câmaras. E estas Câmaras, com características portuguêsas, foram transplan-
tadas para o Brasil. Haviam adquirido configuração legal nas Ordenações
Afonsinas, nas quais os Conselhos subsistiram como partes das Câmaras.
Conclui-se daí que, com a instituição, na Colônia, na primitiva São Vicente
que o mar destruiu, do primeiro Município de tipo manuelino, pouco havia do

1
Sôbre a organizaç2.o municipal portuguêsa, baseada no primitivo Conselho, veja-se o
excelente ensaio do municipalista mineiro ORLANDO M. DE CARVALHO, Política do Município
- A g i r - 1946 -Rio de Janeiro - Págs. 11/19. Êste trabalho já estava composto quando
surgiu o ensaio el\1 aprêço Apesar disso, colhemos no mesmo alguns subsídios.

\
6 REVISTA BRASILEIRA DOS MuNicÍPIOS

antigo concilium romano. O que havia era um tipo de organização municipal,


de características eminentemente portuguêsas, e que, sob a influência de novos
usos e costumes, sofreu novas alterações.

li - A ANTERIORIDADE HISTÓRICA DO MUNICÍPIO BRASILEIRO AO ESTADO

Em virtude de tais considerações iniciais, deve-se levar em conta que o


estudo da evolução municipal do Brasil, desde sua transplantação legislativa,
já não comporta referência às velhas fontes do Direito Romano, a não ser
por questão de método histórico ou por mero princípio de erudição. Na ver-
dade, em trabalho dessa natureza, pode-se até silenciar sôbre as regras contidas
nas Ordenações do Reino. É que, conforme o exposto, o próprio Município
português, de origem romana, tão discutida, perdeu, com a invasão dos bár-
baros e com o tempo, as suas características primitivas, podendo ser mesmo
explicado como um produto da própria formação histórica de Portugal. E,
quando Portugal se espraiou com as conquistas de além-mar e estendeu os ten-
táculos de sua organização aos núcleos coloniais que se foram formando em
seus domínios, as instituições do Reino já haviam sofrido os efeitos evolutivos
das transformações sociais e históricas que imprimiram aos fatos características
peculiares .
Dêsse modo, se fôsse necessano remontar às origens históricas para ex-
plicar a evolução municipal do Brasil, bastariam apenas refet ências ao con-
teúdo das Ordenações. É preciso considerar, porém, que, nos primeiros tempos
coloniais, quando vigoraram as Ordenações, principalmente Manuelinas e Fi-
lipinas ( 1603 ), cujas origens remontam ao código visigótico, não havia pro-
priamente a idéia do Município brasileiro, mas sim a organização lusitana
aplicada nas terras de além-mar. É que à história do Município, no Brasil,
se liga a idéia de Nação, e, por isso, traduz tôdas as lutas de emancipação e
independência, sob os efeitos de imperiosas causas sociais e históricas. Além
de mais, as Ordenações ofereceriam, apenas, um subsídio legislativo, dizendo
respeito à organização administrativa aplicada, conforme o L. 1.0 , T. 66
das Ordenações Filipinas. Sôbre êsse tempo, em ligeiras referências às Câ-
maras coloniais, escreveu sucintamente JosÉ DE CASTRO NUNES:

" ... tinham a administração dos bens do Conselho, faziam obras,


estabeleciam posturas, marcavam taxas, impunham fintas. Em vir-
tude de outras ordenações e leis posteriores, nomeavam os juízes
almotacés, os recebedores da siza, os depositários públicos, os ava-
liadores dos bens penhorados, os alcaides, quadrilheiros, capitães-
mores de ordenanças, sargentos-mores, capitães-mores de estradas
e assaltos, também chamados capitães do mato; os juízes de vintena
e os tesoureiros-mores. Intervinham nos julgamentos das injúrias
verbais e arrogavam-se outras atribuições, além das mencionadas
na lei. Assim é que promoviam a guerra e a paz com os gentios,
decretavam a criação de arraiais, convocavam juntas do povo para
discutir e deliberar sôbre interêsses da capitani!i., exigiam que

I
INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA JURÍDICA DO MUNICÍPIO BRASILEIRO 7

os governadores comparecessem aos seus paços, para tratarem


com elas negócios públicos e, mais de uma vez, os suspende-
ram, dando-lhes substitutos até que a metrópole providenciasse a
respeito."

Aí está um esbôço dinâmico da organização municipal portuguêsa, apli-


cada na Colônia e exercendo funções meramente locais, como que preparando
o advento do Município brasileiro pela crescente interferência das Câmaras
nos negócios da terra. Em virtude dessa interferência e da ambientação dos
primeiros grupos coloniais, que pouco a pouco adquiriram características locais,
pelos interêsses próprios que constituíram, a organização municipal portuguêsa
no Brasil foi aos poucos perdendo também as suas características originárias,
até o momento em que, com a Independência, sofreu completa transformação
legal. E, a êsse respeito, convém invocar ainda a autoridade de CASTRO
NuNES:

"Com a Constituição do Império ( 1824) e a Lei regulamentar


de 1.0 de outubro de 1828, começou a fase verdadeiramente brasilei-
ra da história municipal do Brasil. Até então o que havia entre nós
era o Município português, transplantado para cá. Era instituição
importada da Metrópole e regida pelas leis desta, em cujos negÓ·
cios não tiveram ingerência apreciável as nossas Câmaras, embora
lhes fôsse dado enviar às Côrtes de Lisboa procuradores para, pe-
rante elas, capitular as queixas e necessidades da Capitania. Apesar
disso, porém, o surto espontâneo da instituição assinalou-se por
vêzes em vários pontos do País, constituindo-se à revelia das auto-
ridades centrais, como fizeram Campos e Parati (Estado do Rio),
então pequenos núcleos de população, que levantaram pelourinho
- "monumento que simbolizava a independência municipal" - ,
fazendo em seguida as devidas comunicações à Metrópole, que
ratificou a iniciativa popular. " 2

É nas fontes da História Colonial, através de cujas páginas se poderá


explicar a evolução política do País como resultante da luta pela autonomia
municipal, que se encontram os fundamentos sociais, políticos e econômicos
de tôda a nossa sociologia jurídica, embora a organização política viesse de
cima, ditada pelas instituições criadas por civilizações de elevado estado
cultural. 3
Um ligeiro bosquejo da história, relacionada com o desenvolvimento eco-
nômico do País, mostraria, a êsse respeito, uma seriação de fatos de significativa

2
CASTRO NUNES - Do Estado Federado e sua organização municipal - Editôres Leite
Ribeiro & Maurilo-,---- Rio de Janeiro- 1920- Págs. 40/43.
3
A respeito consuhem-se as obras de CAPISTRANO DE ABREU - Capítulos da História
Colonial e Descobrimento do Brasil e seu desenvolvimento no século XVI; de VARNHAGEN -
Notícia do Brasil; bem como os trabalhos orientados por MALHEIROS DIAs sôbre a História
da Colonização Portuguêsa no Btasil.
Veja-se ainda: ÜCÉLIO DE MEDEIROS, Administração Tenitorial- Imprensa Nacional -
Rio de Janeiro- i946- Págs. 76/84 .

\
8 REviSTA BRASILEIRA DOS MuNICÍPios

importância na evolução municipal, como, por exemplo: a fundação das


feitorias de Santa Cruz, Rio de Janeiro, Cabo Frio, Tamaracá, etc., com os
seus processos administrativos baseados na autocracia despótica dos prepostos
metropolitanos; a experiência das Capitanias, com doze donatários e quinze
quinhões, cujo desenvolvimento independente foi criar mais tarde o sério pro-
blema da unificação; 4 os regimentos do govêrno geral como necessidade de
unificar as Capitanias, sob uma autoridade de coordenação; a cisão da admi-
nistração em duas e, logo depois, a volta aos governos gerais; a criação do
Estado independente do Maranhão, determinada pelos imperativos da descen-
tralização; a transferência do Govêrno Geral, com a Justiça entregue aos tri-
bunais de relação e aos juízes singulares; os capitães-mores na presidência
das Juntas de Fazenda, etc. A êsses fatos, juntam-se as revoluções dos Em-
boabas (1708); dos Mascates (1710); de BECKMAN (1784); a conspiração
mineira (1789); a revolução pernambucana (1817).
Desde o início da colonização até o século XVII, vigorou, no País, o sis-
tema feudal, caracterizado politicamente pela quase independência das Capi-
tanias, que a instituição do govêrno geral não conseguiu destruir. Tal sistema
permaneceu até o século XVIII, quando triunfou o sistema de centralização
sôbre o espírito independente das Capitanias, as quais foram passando ao
domínio da Coroa .
Os primeiros núcleos coloniais, compulsàriamente formados, exprimem
os primeiros defeitos do sistema colonial: "Os judeus, os degredados, forneciam
o primeiro núcleo de população. Do reino iam carregamentos de mulheres,
mais ou menos perdidas. O Brasil era, além disso, asilo, couto e homizio
garantido a todos os criminosos que quisessem ir morar, com exceção única
dos réus de heresia, traição, sodomia e moeda-falsa." 5 A êsse tempo, as feitorias
fundadas pelas expedições anteriores já apresentavam certo grau de desen-
volvimento, favorecendo o plano para estabelecimento de uma colônia regular,
com MARTIN AFONSO DE SousA. Mas, foi com ToMÉ DE SousA que se esbo-
çaram "os lineamentos da futura nação. Erguiam-se, ao longo da costa, desde
Pernambuco até São Vicente, os focos de colonização ulterior. Já se viam
rudimentos de cidades", com fisionomia européia. 0
Os primeiros núcleos, porém, representavam organismos meramente trans-
plantados, de radicação forçada. A luta pela conquista de braços é que lhes
imprimiu uma função menos vegetativa, justificando mais tarde o plano de
aldeamentos para catequese, que criou os primeiros conflitos contra os colo-
nos, principalmente com a vinda de ANCHIETA, portador da constituição que
"erigia o Brasil em Província Independente". 7

4
" . • • que se podia dizer que Portugal reconhecia a independência do Brasil antes de
êle colonizar-se ... "
5
J. P OLIVEIRA :MARTINS - O Btasil e as colônias portuguêsas - z.a edição
Lisboa- 1881- Pág. 9.
0
OLIVEIRA LIMA - op cit. - Pág. 14.
7
Veja-se J. F. DE ALMEIDA PRADO - Primeiros povoadores do Brasil- 1500-1530 --
Editôra Nacional - 1935 - Págs. 61/126. •

I
INTRODuçÃo À SociOLOGIA JunÍDICA DO MuNiciPio BnASILEmo 9

III - A FIGURA DO PROTOMUNICÍPIO BRASILEIRO

Mas, o estudo do Município brasileiro, de sua sociologia jurídica e de


sua evolução constitucional, não parte, apenas, das Ordenações reinóis, mesmo
que se tentasse explicar a organização municipal do País como simples processo
de transplantação legislativa. 8
Com efeito, as primitivas feitorias portuguêsas, apesar de seu caráter
rudimentar, podem ser consideradas, em última análise, no processo evolutivo
da vida local, como uma espécie de monera, digamos assim, do Município
luso-brasileiro.
Representam, nesse transformismo biológico que se mede por etapas, o
protomunicípio, organismo unicelular transmigrado pelas caravelas de Sagres
e que foi vicejando, na terra nova, ao longo da orla litorânea.
Dos mirantes das "casas-fortes" e atrás das "caiçaras", viviam os colonos
e soldados, sob a suprema autoridade dos "capitães de vigia da costa", à espreita
das naus que singravam as rotas da Índia ou cruzavam o oceano, na visão de
um reduto de conquista, enquanto ao redor, nas proximidades dos mananciais
de "aguada", vicejavam os grãos da agricultura empírica que os próprios
autóctones ajudavam a organizar.
Com efeito, descoberto o Brasil, não houve, da parte de D. MANUEL,
o Venturoso, nenhum plano sistemático de colonização, devido ao interêsse que
ainda ofereciam as Índias, desde que VASCO DA GAMA aportou a Calicut.
Por isso mesmo, o décimo quarto rei de Portugal limitou-se a env1ar ex-
pedições, apenas de penetração, de reconhecimento e fiscalização contra os
aventureiros, principalmente os franceses.
Ao senhor de Guiné, para quem o Brasil, no momento, só oferecia o in-
terêsse de proporcionar "aguada" e "refresco", tais expedições possuíam o valor
de fundar bases estratégicas, apesar dos colonos e "degredados" que traziam:
ANDRÉ GONÇALVES e GoNÇALO CoELHO, com AMÉRICO VESPUCCI, rondaram
São Roque, Cananéia, Bahia para o sul, Cabo Frio, Rio de Janeiro, em duas
expedições; FERNANDO DE NORONHA; DoN NUNO MANUEL; AFONSO RIBEI-
RO, etc.
Tais expedições, porém, armadas para dar combate aos franceses (a
começar por PAULMIER DE GONNEVILLE), não se limitaram a um policiamento

8
Veja-se, a êsse respeito, o prefácio do autor à conferência de RAFAEL XAVIER - A
Organização Nacional e o Jl.1unicípio (Servico Gráfico do I.B G.E - Rio de Janeiro-
1946) : "Ainda não se procurou explicar, co~ argumentos hauridos num período obscuro da
história pátria, a primeira experiência das feitorias como representando, apesar de sua feição
nitidamente econômico-militar, uma espécie de protomunicípio luso-brasileiro, no processo de
nossa evolução estatal. Pelo contrário, muitos dos que se têm dedicado a pesquisas de socio-
logia municipal brasileira, argumentando mais com o texto das Ordenações que com a realidade
da história, repetem amiúde que o Município brasileiro veio de importação. Daí o próprio
PoNTES DE MIRANDA dizer: "A verdade histórica é que a estrutura administrativa européia,
firmada no Direito Costumeiro Português dos Conselhos, foi a que mais depressa e mais
afincadamente pegou, de galho, no Brasil" .
Se se estabelecer, porém, um sistema de gradação, desde aquêles organismos unicelu-
lares dos pródromos da História Colonial até o advento da Independência, poder-se-á admitir
que o Município brasileiro, que evoluiu sob a inspiração nativista de um sentimento de
rebeldia e do desejo de autogovêrno com que fomentou as primeiras lutas pela emancipação,
não provém apenas de uma transplantação legislativa, p<>la qual se impôs um tipo de

\
10 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

de ronda, tanto assim que foram deixando, ao longo da faixa litorânea, ele-
mentos que constituíram os primeiros germes da vida municipal; a partir de
1501, alguns criminosos, entre os quais o bacharel DuARTE PERES, que se
fixou em Cananéia; FRANCISCO CHAVES e ALEIXO FARIA, também na costa de
Cananéia; DroGo ÁLVARES, náufrago de Itaparica; JoÃo RAMALHO, em Pira-
tininga; ANTÔNIO RoDRIGUES, no litoral paulista; ALEIXO GARCIA, etc.
A Feitoria da Bahia de Todos os Santos, cuja fundação é atribuída a
CRISTÓVÃO JACQUES, parece ter sido, dentre tôdas, inclusive as francesas e ho-
landesas, a de melhor organização e importância. Apresenta-se, assim, na his-
tória municipal do Brasil, como o organismo primitivo mais digno de nota.
As Expedições, no mar, e as Feitorias, em terra, possuíam, de certo modo,
a mesma natureza militar, as mesmas funções de vigilância. A diferença está
no caráter nômade das primeiras, sempre a rondar o litoral, e na natureza
fixa, tendente à sedentariedade, das segundas, comparáveis às caravelas eter-
namente ancoradas, mas conservando a mesma organização: autocracia dos
capitães-vigias; obediência irrestrita dos subalternos, organização militar tipi-
camente defensiva, contra os contrabandistas e os selvagens que não se queriam
submeter.
Estações de arribada, com soldados, degredados e colonos, as Feitorias
possuíam, entretanto, funções coloniais, além das meramente militares, motivo
por que pouco a pouco se adaptaram a uma organização administrativa de
estágio mais elevado. Entrepostos das caravelas, que aí se refrescavam, pouco
a pouco criaram relações de troca entre os produtos da terra, as especiarias
das índias e as manufaturas do Reino . Bases de radicação dos degredados,
colonos e soldados, serviram de berço à agricultura, com o plantio de espécies
econômicas e exóticas, e à pecuária, com a criação do gado que mais tarde
foi mugir ao redor das casas-grandes. Elementos de atração política do íncola,
aos poucos venceram a curiosidade, a desconfiança e o espírito das tribos selva-
gens, que espreitavam além das paliçadas, até que as mesmas, principalmente
pelas mulheres (a exemplo de DroGO ÁLVARES e JoÃo RAMALHO), se foram
incorporando à vida da "feitoria", na formação de um estágio imediatamente
superior, de organização local, isto é, o "aldeamento", fundamentado nas rela-
ções de mesclagem, troca e auxílio mútuo. Eis aí, nas ''Feitorias do Reino''
a primeira explicação da sociologia municipal do Brasil. (Veja-se: Capítulos
de História Colonial- 1500-1800- J. CAPISTRANO DE ABREU- F. Briguiet
& Cia.- Rio- 1934- págs. 22-50).

organização político-administrativa, mas, principalmente, da formação, do desenvolvimento


e da sedimentação de uma consciência localista, ou melhor, de uma mentalidade munici-
palista, digamos assim.
Em todo caso, é preciso considerar: o País, em sua infância, não poderia deixar de se
reger por leis alienígenas, tanto assim que houve uma transplantação do sistema de organi-
zação. Mas, o que se transplantou foi a legislação de organização municipal. Não foi o
Município, porque êste é uma instituição mais política, mais humana, mais social e econômica
que legislativa. Não é apenas uma delimitação de área geográfica ou uma consubstanciação
de dispositivos legais. É um produto da terra e do meio. É uma espécie de mato brabo,
que não pegou de galho, mas que cresceu à toa na terra virgem, com as suas características
próprias, os seus sentimentos e as suas reações. Jamais poderemos negá-lo. E foi o
Município que fêz a nossa cultura, a nossa economia e a nossa história dentro de um
sentimento nativista que explodiu até mesmo nos períodos coloniais, .com os primeiros
escritores e poetas."

I
INTRODUÇÃO À SociOLOGIA JuRÍDICA DO MuNICÍPIO BRASILEIRO 11

Nos primitivos métodos de colonização compulsória, com soldados e de-


gredados, há a considerar, também, as vantagens com que o Reino procurava
intensificar a transumância voluntária dos aventureiros portuguêses, conceden-
do-lhes extraordinários direitos de senhorios, autoridade absoluta através das
"Cartas de Capitania". 9 Entre a pena de morte, conforme as "Ordenações
Manuelinas", e uma concessão no Brasil, esta não poderia deixar de ser pre-
ferida pelo condenado, embora significassem a mesma coisa. Além do privi-
legiado donatário, havia três classes: fidalgos, peões e gentios.
Capitães de Vigias, soldados, colonos, degredados e índios, já não ergue-
ram apenas a Cruz, como quando da investidura da Ilha, mas, também as
"Casas Fortes", as "Caiçaras" e as "Casas de Taipa", para alojamentos e arma-
zenamentos, na formação de um organismo econômico-militar administrativo
que, sofrendo as influências das leis de adaptação ao meio, pode ser classi-
ficado como o protomunicípio da América Portuguêsa.
É fácil imaginar, antes mesmo de serem as "Feitorias" transformadas em
"Povoados", o desenvolvimento gradativo dêsses organismos unicelulares, fin-
cados nos pontos mais estratégicos da orla litorânea; o núcleo militar, com
poderes absolutistas, distribuindo tarefas aos colonos, índios e degredados,
ou inquirindo os aventureiros franceses que, ao lhes caírem às mãos, se descul-
pavam com naufrágios; a chegada e a partida das caravelas, incentivando as
primeiras trocas comerciais; a brutificação e a resignação dos portuguêses,
adaptando-se à vida das tribos, às quais transmitiam novos processos de tra-
balho, no cultivo da terra; os métodos de autocracia administrativa com que
se pretendia submeter os selvagens à suserania lusitana; o progresso das
primeiras culturas, a contrastar com a flora nativa, etc.
Tudo isso - mistura das vestes exóticas dos intrusos com as côres ber-
rantes das tangas e cocares dos autóctones - pode proporcionar a imagem
dêsse protoplasma social, regido pela violência e pela cobiça, no sentido de,
paradoxalmente, impor-se à cooperação indígena. Aí as "casas fortes" de taipa
e as "ocas" circulares se associaram para a formação do "aldeamento" ou "povoa-
do", onde mais tarde se erigiram duas instituições gêmeas: o "pelourinho"
e a "igreja". É o advento da Vila.
No estudo da sociologia jurídico-administrativa do Município no Brasil,
os "povoados" e as "vilas" do regime colonial, com suas funções menos mili-
tares, ao contrário das "Feitorias do Reino", representam a segunda etapa
da organização municipal, numa forma mais desenvolvida, em virtude de sua

"Tinha o donatário o poder de criar vilas (Municípios) cuja sede será o Conselho,
com o seu senado ou câmara de dois vereadores, dois juízes ordinários e dois funcionários,
um dos quais, o almotacé, ao mesmo tempo, era encarregado do asseio e iluminação das
ruas, preço dos gênems, e aferidor de pesos e medidas" - TABAJARA PEDROSO - História
das Fundações Coloniais - São Paulo - 1922 - Pág. 11. Ao donatário da terra, com-
petia perpetuamente, entre outros privilégios, "o criar vilas, dando-lhes insígnias e liberdades,
e, por conseguinte, foros especiais, e nomeando para governá-las, em nome dêle, donatário,
e de seu sucessor, os ouvidores, meirinhos e mais oficiais de justiça; prover, em seus nomes,
as capitanias de tabeliães do público e judicial, recebendo de cada um quinhentos réis de
pensão por ano; delegar a alcaideria ou govêrno militar das vilas nos indivíduos que esco-
lhessem, tomando-lhes a devida mensagem ou juramento de fidelidade" etc. (VISCONDE DE
PORTO SEGURO - História Geral do Brasil - Tomo I - 4.a edição - Comp. Melhora-
mentos - São Paulo - Págs. 181/182).

\
12 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

estrutura menos rudimentar, de sua natureza político-social e de sua organi-


zação administrativa.

IV - ETAPAS DA EVOLUÇÃO MUNICIPAL NO BRASIL

Os primitivos núcleos, já radicados na orla litorânea e até mesmo nos


pontos mais afastados do interior, foram criando relações de troca e atraindo
a cooperação indígena, mais tarde quase totalmente substituída pelo trabalho
escravo do negro.
As Casas Fortes, as Caiçaras.e as Casas de Taipa, sôbre as quais se afir-
mava a autoridade despótica dos Capitães de Vigia da Costa, passaram a está-
gios superiores: aldeamentos, povoados, vilas. Nosso mais importante núcleo
administrativo colonial obedeceu em tudo ao regime das vilas da Coroa e
do Mestrado de Cristo. 10 MARTIM AFONSO DE SouzA, investido de poderes
que lhe eram outorgados por três cartas régias, demarcou e arruou o terreno,
distribuiu lotes aos sesmeiros, construiu o Forte, a Casa da Câmara, a Cadeia,
a Igreja, a Alfândega; nomeou os oficiais e convocou os homens bons, ato
que precedeu à eleição dos vereadores, pelos Burgueses, únicos que tinham
o direito de votar. Fundou-se, assim, São Vicente. Não havia propriamente
Município. O que havia era a terra "dividida em senhorios, dentro do senho-
rio do Estado", na conformidade do direito civil recopilado nas Ordenações
Manuelinas e nos Regimentos Especiais.
A terra também pertencia à Ordem de Cristo. Por isto, mesmo, só vilas
puderam ser criadas, pois, para a criação de cidades, impunha-se a emanci-
pação da terra, como feudo a serviço da Fé.
As cidades representam a etapa mais evoluída da organização municipal
nos tempos coloniais. Não consentindo o Papa que bispos residissem em Vilas,
mas em cidades, era necessário que o Rei, na qualidade de Grão Mestre da
Ordem de Cristo, emancipasse a terra e elevasse à categoria de cidades as vilas
destinadas às sedes episcopais. Por isto é que, com a chegada do primeiro Go-
vernador, em 1549, e com a criação do Primeiro Bispado, por Bula de 25 de
fevereiro de 1551, se lançaram os fundamentos da primeira cidade regular
no Brasil, pelos arredores de Vila Velha, na Bahia.U

10
" A jurisdição primana, em cada terra, era exercida pelos juízes ordinádos,
mudados anualmente, e eleitos de entre os homens bons ou pessoas mais gradas do conselho.
Nas cidades e vilas, eram geralmente dois, e se denominavam de vara vermelha, por ser
desta côr o distintivo que tinham obrigação de levar sempre consigo. OS MESMOS JUÍZES
JUNTOS, PELO MENOS, A DOIS VEREADORES E A UM PROCURADOR DO
CONSELHO, CONSTITUÍAM A CÂMARA OU SENADO, QUE EXERCIA O GOVÊRNO
MUNICIPAL E ECONÔMICO DO MESMO CONSELHO. O procurador servia, nas po-
voações menores, de tesoureiro. Aos vereadores competia o organizarem as postw as e verea-
ções. Havia mais, em cada conselho, um escrivão e um almotacé". . . Mais adiante: ". . . em
cada conselho havia um alcaide pequeno, que respondia pelo sossêgo, e fazia as prisões e
citações. Era escolhido pela Câmara entre os propostos pelo senhor da terra". (VISCONDE DE
PORTO SEGURO- op. cit., págs. 186/187) Os grifos são do autor do artigo.
11
" . • • mandou cercá-Ia de muros de taipa, não podendo, com a brevidade que era
precisa, fabricá-los de outra maneira. Da mesma forma fêz levantar a Igreja Matriz, o
Palácio dos Governadores, a Casa da Câmara e a Cadeia, nos próprios lugares em que

I
INTRODuçÃo À SociOLOGIA JuRÍDICA DO MuNicÍPIO BRASILEIRO 13

Até 1521, regularam o sistema administrativo no Brasil as Ordenações


Manuelinas e as Afonsinas, segundo as quais o povo, dentro dos métodos de
legislação foraleira, poderia participar diretamente nos negócios dos Municí-
pios. Em 1603, foram promulgadas as Ordenações Filipinas. O livro I, títulos
66 e 71, dessas Ordenações, modificou profundamente a administração colonial.
Na realidade, o Código Afonsino, em que se consolidaram os primeiros
dispositivos do Direito Lusitano, pouca ou nenhuma aplicação teve no Brasil.
Por êle, os vereadores, que substituíram as antigas assembléias dos homens
bons, participavam do govêrno do antigo Município português, na qualidade
de delegados do povo. Julgavam também as Causas de Competência dos Con-
selhos presididos pelos juízes burgueses. Os Títulos 26 e 29, do Livro I, regu-
lamentavam a composição da Câmara. Os alvazis ou alcaides foram substituí-
dos pelos juízes ordinários, eleitos anualmente pelos homens bons e confirma-
dos pelos donatários ou pelos reis. As Câmaras compunham-se dos juízes ordi-
nários, como seus presidentes, e dos vereadores, eleitos pelos homens bons.
As Ordenações Manuelinas, mandadas estabelecer dentro de um critério
de revisão das Ordenações Afonsinas, em nada alteraram, nesse aspecto, o
referido Código. As Ordenações Filipinas, instituídas com o fim de reformar
as ordenações anteriores, também poucas alterações trouxeram. Dêsse modo,
a organização do Município colonial lusitano conservou sempre, apesar das
alterações, o espírito do Código Afonsino.
No período que medeia entre a promulgação das Ordenações Filipinas,
publicadas em 1603 e confirmadas em 1643, e a lei de 1.0 de outubro de 1828,
começa a esboçar-se certo espírito de inovação legislativa, no sentido de dar
novas bases à organização administrativa dos Municípios, no Brasil.
Despidas, pouco a pouco, de funções judiciárias, reduzidas ao julgamento,
com o juiz presidente, das ações de injúrias verbais, pequenos furtos e causas
de almotaceria, depois de previamente processadas pelo mesmo juiz com o
tabelião do judicial - as Câmaras passaram lentamente a ter funções mais
administrativas e políticas. Compunham-nas os oficiais da Câmara: juiz ordi-
nário ou de terra, que possuía como insígnia do cargo uma vara vermelha,
como presidente; juiz de fora, nos lugares em que o havia, e que usava uma
vara branca, como insígnia de mais poderes; três ou quatro vereadores, um
procurador, dois almotacés e um escrivão. O alcaide possuía funções de dele-
gado. Certas Câmaras se davam ao luxo de possuir um síndico, antigo vozeiro,
e um tesoureiro. O Conselho de Vereança, que em função deliberativa se
compunha apenas de juiz e dos vereadores, mais tarde passou a ser designado
apenas por Câmara.

depois se fabticariam com suntuosidade. Deu forma às praças, às ruas e a tudo que conduzia
à fundação da República" .. - SEBASTIÃO DA RocHA PITTA - História da América Por-
tuguêsa - Coleção de obras mandadas imprimir pleo BARÃO HoMEM DE MELO - Bahia
-Imprensa Nacional-1878- Pág. 100. Veja-se, também, a êsse respeito: GABRIEL SOARES
DE SOUSA - Notícia do Brasil - 1. 0 Tomo - Livraria Martins Editôra - São Paulo -
Págs. 247/248; Coronel INÁCIO ACIOLI DE CERQUEIRA SILVA - Memórias Históricas e
Políticas da Província da Bahia - 1925 - 2 vols.

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14 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

V - O PROGRESSO ECONÔMICO COMO FATOR DE CRIAÇÃO


DA VIDA MUNICIPAL

A noção de Município não se liga, apenas, a uma dada extensão territorial


ou a um conjunto artificial de regras jurídicas. Por isso, não comporta nenhuma
interpretação meramente geográfica ou uma concepção exclusivamente legal.
Diz respeito tanto a um adensamento humano, com características peculiares,
quanto a um sistema de tradições, de interêsses e de aspirações, constituindo
organismos típicos devidamente integrados na estrutura social e política do
Estado.
Dêsse modo, conquanto a legislação portuguêsa houvesse regulado a orde-
nação jurídica dos grupos sociais da colônia e ainda houvesse dividido a terra
em áreas administrativas, não havia propriamente Município nessa época
recuada, mas tão somente um esbôço jurídico da organização social e
uma mentalidade tipicamente feudalista, representando uma espécie de "pro-
longamento europeu" em que os interêsses dos súditos desapareciam ante a
prepotência das autoridades metropolitanas. As divisões administrativas, pon-
tilhadas primitivamente de feitorias e mais tarde de povoados, constituíam,
apenas, vazios no mapa, meras convenções geográficas.
À medida, porém, que os foreiros passaram a se constituir em proprie-
tários da terra, e que a mesclagem foi, por assim dizer, "nacionalizando" as
famílias dos colonos, novos interêsses se foram criando e, com isso, processou-
se lentamente a individualização dos núcleos primitivos, que secularmente foram
adquirindo personalidade própria, moldada na fisionomia do meio social e
geográfico .
Aquêles organismos primários, de caráter tipicamente feudal, foram ad-
quirindo, assim, separados por longas distâncias, características peculiares, e,
com o progresso social e demográfico que iam alcançando, pouco a pouco se
tornavam centros de interêsse capazes de sobreviver e progredir . 12
Vivendo sob regime de exploração colonial agrícola, dentro de um siste-
ma social baseado no feudalismo, caracterizado por doações e senhorios, o
País só apresentou vida municipal, com características próprias, quando o
progresso econômico se generalizou .
Ê que, com o desenvolvimento dêsse progresso, se multiplicaram os
núcleos sociais, com vida administrativa própria, mercê do crescimento das
indústrias locais.
Nas colônias litorâneas, dominadas por Pernambuco e Bahia, êsse progres-
so já se refletia na própria vida da metrópole, cuja exportação anual de gêne-
ros computava cêrca de 160 contos. Cêrca de 45 navios aportavam, por ano,
em Pernambuco. Dos 120 engenhos de açúcar, produzindo 70 000 caixas ou
40 000 toneladas, só Olinda contava com 50, com 1200 colonos e 5 000 negros,

12
" Com a grande providência de 1534 para a colonização do Brasil, podemos
resumir tudo nas seguintes linhas: sete capitanias se achavam fundadas, mas dessas, somente
três, Pôrto Seguro, São Vicente e Pernambuco, apresentavam eficiente progresso e até certo
ponto se achavam em condicões de subsistência própria".. . (História do Brasil - HENRI-
QUE HANDELMANN- Trad: do I.H.G.B. - 1931 - Págs. 88/89). Êsse autor calculava
o progresso do Brasil, depois de 50 anos de tomada de posse e 20 de colonização, em 1550,
em 5 000 almas, entre europeus e africanos.

,
lNTHODUÇÃO À SociOLOGIA JunÍDICA DO MuNICÍPIO BnASILEIHO 15

montando sua produção a 200 000 arrôbas. A renda do pau brasil, cuja ex-
ploração determinou os primeiros movimentos coloniais, representava apenas
quatro contos .
Em 1607, as colônias brasileiras rendiam menos que a África, dando esta
a Portugal um lucro de 68 093:044$000. Confrontando-se êsse lucro com o
do Brasil, no valor de 23 648: 133$000, verifica-se a diferença de ........ .
44 444:911$000, o que, embora constituindo quase que o dôbro do saldo
líquido no Brasil, não deixava de exprimir notável progresso dêste, conside-
rando-se que a metrópole sempre dispensou maiores interêsses às colônias
africanas, exploradas há mais tempo.
Na verdade, o interêsse português pelo maior desenvolvimento do Brasil
só se acentuou quando o continente africano começou a perder a sua expressão
na balança comercial dos portuguêses .
Um século após o descobrimento, a colônia pouco pesava nos orçamentos
metropolitanos, conforme se poderá verificar através do seguinte orçamento
colonial:
Receita
Renda do pau brasil . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24. 000: 000
Renda dos dízimos, contratos por seis anos . . . . . . . . . . . . . . 42.000:000 66.000:000

Despesa
Oficiais de fazenda, justiça e donatários .............. . 11.090:397
Cleresia .......................................... . 8.057:230
Guerra . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23.204:240 42.351:867

SALDO 21.748:133

Cada núcleo social, cada engenho, cada estabelecimento, separados nos


latifúndios das capitanias por enormes distâncias, já não começaram a tornar-se
autárquicos, mas sim autônomos, a despeito de viverem sob o império das leis
centrais. Essa autonomia econômica, criando centros de interêsses indepen-
dentes, concorreu fundamentalmente para o desenvolvimento municipal do
País, gerando o espírito da autonomia política.

VI - O MUNICÍPIO COMO PROBLEMA AGRÁRIO DESDE A SUA ORIGEM

Vê-se, por aí, que o problema do Município, no Brasil, não consiste, apenas,
em atribuí-lo, por processos de concessão legislativa, maior ou menor grau de
autonomia. Não é eletivo, nem tampouco doutrinário. É problema que re-
monta às origens coloniais, às fontes históricas do poder político, aos retró-
grados sistemas de economia, enfim, aos métodos feudais de exploração e
propriedade da terra. É problema tipicamente agrário, de melhor distribuição
de populações, de exploração racional de riquezas, regularização de consumo,
revisão do velho direito de propriedade. 13

13
" Tôda a estrutura de nossa sociedade colonial teve sua base fora das cidades" ...
". . . Durante os primeiros anos de colônia, tôda a vida do País concentrava-se decididamente
no domínio rural: a cidade era virtualmente, senão de fato, urna simples dependência dêste.
Com algum exagêro, poderíamos dizer que essa situação não mudou até o penúltimo decênio
do século passado". . . (SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA - Raízes do Brasil - José Olímpio
Edit. - Rio de Janeiro - 1936 - Págs. 43/44) .

'
16 REVISTA BRASILEIRA DOS MuNICÍPIOS

No atual sistema econômico, em que predomina o regime latifundiário


e seus processos econômicos decorrentes, paralelamente à ignorância dos mu-
nícipes e à miséria das massas, a autonomia política, de caráter meramente
constitucional, servirá, apenas, para prolongar os males coloniais: a entroni-
zação, no poder, dos representantes da elite rural, expressões legítimas dos
grandes proprietários de terras e incondicionais defensores dêsse clima de
desigualdade favorável aos seus interêsses; monopólio, nas mãos da casta re-
manescente do período escravocrata, das culturas que pesam nos mercados
consumidores de matérias primas e das indústrias incipientes, principalmente
a pastoril, enfim, continuidade da entrega das estradas aos carros de boi que
simbolizam a morosidade, o atraso manual e a estagnação do povo numa idade
que não conheceu o poder reformador dos fios elétricos.
Convoque-se o eleitorado rural, elejam-se os prefeitos e os vereadores,
atribuam-se às câmaras municipais o exercício da mais ampla competência,
em matéria de funções municipais, dentro dos minguados recursos das comunas,
ou se assegurem aos munícipes os mais liberais direitos políticos - nada
disso solucionará o problema municipal brasileiro. O estudo aqui feito sôbre
a evolução do Município brasileiro, nos períodos mais recuados da vida do
País, justifica plenamente essas deduções.

I
"""'
A ADMINISTRAÇAO MUNICIPAL
E O RURALISMO PEDAGÓGICO
J. ROBERTO MOREIRA

S questões relativas à educação rural, já debatidas extensamente por edu-


A cadores brasileiros, devem ser compreendidas e atacadas de um ponto
de vista mais amplo que o das simples considerações de ordem pedagó-
gica e didática. Com isto não pretendemos enunciar qualquer novidade.
Apenas é nosso propósito demonstrar a interdependência de vários problemas
político-administrativos e sua relação com o dinamismo funcional de certos
organismos sociais .
Para tal fim, repetiremos, de início, algumas çonclusões universalmente
aceitas, das modernas ciências biológicas e sociais, sua relação com os proble-
mas educacionais e com outros problemas de política e administração, para,
enfim, tratar do assunto principal dêste artigo. Naturalmente somos obrigados
à síntese e a aceitar várias hipóteses e teorias como bastante conhecidas por
quem nos ler, já que falta espaço e tempo para fazer a sua exposição.
2 . "Reduzida a seus elementos, a comunidade humana pode ser consi-
derada como sendo ecolàgicamente o produto de cinco fatôres interatuantes:
uma população ( 1) que vive numa área, ( 2) possuindo artefatos (cultura
tecnológica) e (3) costumes e crenças (cultura não material), uns e outros
determinando ( 4) o uso de recursos naturais e ( 5) as funções executadas na
divisão do trabalho. Na comunidade humana êstes fatôres agem ( 1) em sua
distribuição espacial, ( 2) na organização funcional e ( 3) em sua posição em
uma constelação de comunidades, e ( 4) nas mudanças, dentro da comunidade,
quer ecológicas, quer sociais". 1
Considerados êstes cinco fatôres e suas quatro conseqüências principais,
de acôrdo com a síntese acima, compreende-se fàcilmente que, num país como
o Brasil, onde os fatôres 1, 2, 4 e 5 diferem extraordinàriamente de região
para região e, dentro destas, configurando-se em campo por graus diversos de
intensidade dinâmica, o Município se apresenta, ecolàgicamente, como a uni-
dade por excelência. É sobretudo pela consideração do arranjo espacial da
população, da economia e das instituições nessa unidade, que se considera como
uma comunidade local, que poderemos compreendê-la, depois, na constelação
de comunidades que constituem o campo regional e, finalmente, o nacional.
No gráfico n. 0 1, anexo, pode-se ver como considerar, topolàgicamente,
um Município em sua relação com uma zona estadual, um Estado, uma região
nacional, o país e um fato econômico universal. Por êle demonstra-se que
uma hipótese associacionista, por justaposição molecular, é falsa na conside-
ração do Município como unidade e comunidade local.
Embora se apresente como esquema incompleto, o gráfico sugere as
razões e os imperativos que levam à compreensão dos aspectos dinâmicos ou
funcionais das relações espaciais e das mudanças temporais, considerados os
diversos campos geográfico-sociais do Brasil. Assim, o que temos em vista, é

1
A B. HOLLINGSHEAD - An Outline oi the Principies oi Sociology, PARK REUTER
et ai. - New York, 1939.

R B.M. - 2

'
18 REVISTA BnASILEIRA DOS MuNICÍPIOS

uma construção topológica em que, passando de regwes menos amplas a


outras que as abrangem, tendo em vista barreiras físicas e sociais, possamos
compreender a comunidade local dentro da constelação de que faz parte,
e esta dentro do Brasil. 2

3. Conforme, portanto, a área, a cultura tecnológica, a cultura moral,


a conseqüente possibilidade do uso dos recursos naturais e as funções deter-
minadas pela divisão do trabalho, no Município, tàis serão sua organização
funcional, sua posição entre os demais Municípios da região e as possíveis
mudanças nas suas relações de simbiose e nas suas instituições sociais.
Conseqüentemente, os municipalistas brasileiros têm razão no pregar a
importância da administração municipal, que exige técnicos dos mais capazes,
cujo trabalho deverá partir justamente do estudo da ecologia local para o
planejamento administrativo, naturalmente sem perder de vista as relações
entre as comunidades loct;tis da constelação regional, e das regiões entre si.
Ora, se é assim, por certo que a educação, como instituição social que é,
deve ser considerada também do ponto de vista municipal. Não que se deva
traçar uma política educacional a partir apenas da consideração do Muni-
cípio. Já vimos que a ecologia, estudada genotipicamente, não permite hipó-
teses associacionistas. O que se deve fazer é a adoção de uma política educacio-
nal que permita a consideração do Município como uma comunidade que tem
seus aspectos ecológicos próprios, uma vez que a estabilidade relativa ou a
contínua mudança das modalidades de divisão do trabalho local, bem como
da distribuição de população pode exigir, ou não, um processo contínuo de
ajustamento institucional.

4. O que se deduz desde logo destas premissas é que, em face da rea-


lidade municipal, a administração do ensino não pode ser realizada segundo
princípios de rígida centralização nacional, nem tampouco de absoluta des-
centralização.
Se temos razões para suspeitar que uma autonomia completa de iniciativa
regional e privada, nos problemas educacionais, pode ser perigosa, quando
se têm em vista certos conceitos nacionalistas, seria mais perigoso ainda partir
daí para um centralismo a qualquer preço.
Conforme estabelece I. L. KANDEL," pelo exame da educação pública
nos Estados Unidos, na Alemanha, na Inglaterra, na França e na Rússia, o
progresso educacional tende a ser lento nos sistemas centralizados; as escolas
elementares na França e na Alemanha permaneceram imutáveis no seu currí-
culo por trinta a quarenta anos. Nos Estados Unidos, onde a iniciativa privada
é ampla, a escola se adapta às solicitações do meio, porque depende intimamente
de associações locais, que a fiscalizam, fazendo-lhe exigências e criticando-a.
Na Inglaterra, tende-se hoje à realização de uma política educacional centra-
lizada, embora não se procure cortar a autonomia das entidades municipais e
privadas. Na Rússia, a política de educação é de âmbito nacional, enquanto
se concede liberdade às instituições locais e aos professôres de organizar pro-
gramas e ensaiar métodos progressivos de ensino.
Seja como fôr, porém, o balanço destas experiências, realizadas em
outros países, é contrário à centralização rígida, à uniformidade escolar, à iden-
tidade dos currículos, etc .

" Veja-se sôbre êste í'Ssunto, para melhor compreensão das questões ecológicas: The
City, R. E. PARK et al. (Chicago, 1925); Príncipes de Géographie Humaine, VIDAL DE LA
BLACHE (Paris, 1922); The Hwnan Habitat, HUNTINGTON, ELLISWORTH (New York, 1927).
3
Veja-se Encyclopaedia oi Social Science, vol V, art. "Public Education", I L
KANDEL.

,
T apologia Municipal
(Esbôço topológico do campo econômico e social)

8
p
GJ)/
.

0/
' /-',.,
/A PB
F'J\,.
~I

Fig IV - Zona de Pesca

P =:::: Trabalhadmes do mar; PB:::::. Ptopríetá-


lios de barcos e apetrechos de pesca ; C =
Compzadmes e beneliciadores de peixe, de fota
do Município A linha quebrada representa
a quase inexistência de barreiras entre as
daas classes

Fig

B :=:: Blumenau ; VI== Vale do Ita.jaí;


SC::::::: Sta Catwina; SB ==Sul do Btasi1;
B::::: Brasil; PI ==Produção Industrial

Fig, II - Alto Sertão Fig V - Zona de Colonização

GP == lirrmdes proprietários de terras, apenas C == Industriais, negociantes; TU == Tt aba.lhaq


aproveitadas em pequezws paz tes; I:::::: pseu- dores e m tezãos das vilas e pequenas cidades ;
dopl opriet{u i os, posseiros; T == Capangas e A== Agdcultores; M ==Fronteira mmginal.
trabalhadotes dos grandes latifúndios
As pequenas át eas etn fó1 ma de células rept e-
sentam os &tupos, às vêzes compostos de uma
só família.

Fig III - Zona Rural Comum Fig VI - Zona Industrial

GF == Gtandcs fa.zendeilos; PP ==Pequenos


p1 oprietátios; ST :::::Camponeses sem teaa, C :=Capitalistas ; CM ==Classe média ;
que ttabalham nas gtandes fazendas. P == Pt oleta1 ia. do

'
20 REviSTA BnASILEIRA DOS MuNICÍPIOS
- - - - - --- --- --- - - - - - - -----------------

5. Infelizmente, apesar da autonomia estadual que prevaleceu até 1937,


não se realizou no Brasil a escola regional, adaptada às condições do meio.
Tanto assim é, que uns Estados procuraram imitar os outros, despreocupados
das suas próprias condições e exigências ambientais.
Parece que Santa Catarina e Paraná se limitaram a copiar São Paulo;
da mesma forma o fizeram alguns Estados do N ardeste. A Bahia parece ter
querido seguir Minas Gerais, e assim por diante . E, em todos êles, Estados
líderes ou imitadores, a escola foi uma instituição que se impôs ao Município.
Não surgiu de suas necessidades. Veio planejada e pronta de fora. Quando
muito, certos Municípios, cujas riquezas permitiam um orçamento mais folgado!
instalavam, por sua conta e risco, com professôres improvisados, algumas
escolas isoladas, cujo modêlo lhes era fornecido pelo Estado.
A imitação e a uniformidade iam a tal ponto que, às vêzes, até os livros
de leitura eram os mesmos, no Sul e no Norte . O praieirozinho, de barriga
inchada e faces pálidas, devia ter o mesmo comportamento escolar que o pau-
listinha proletário, talvez não menos doentio, mas certamente com mentalidade
em formação, bem diferente .
"Na praia como no sertão, nos grandes centros urbanos como nas pequenas
cidades, a escola primária é absolutamente a mesma, a despeito das tinturas
teóricas com que, às vêzes, se finge diferenciá-la nos programas. Uniformizadas,
não apenas como deveriam ser em seu espírito fundamental, e dominadas exclu-
sivamente pela sua função alfabetizante, que não conseguem desempenhar,
as nossas escolas primárias não são organizadas no sentido de reagir eficazmente
sôbre o meio em que se instalam e em que podiam exercer poderosa ação
social e de orientação prática e educativa das atividades locais."
"As escolas, localizadas em zonas agrícolas, com campo de experimentação;
na praia, em zonas de pesca, ou em meios francamente industriais, deviam
tôdas, sem perder a sua unidade substancial, organizar-se em conformidade
com o ambiente a que são chamadas a servir. " 4

6. Conhecida a situação econômico-social de um Município, isto é


como postula o Professor FERNANDO DE AZEVEDO na citação anterior - ,
do meio ou do ambiente a que deve servir a educação, poder-se-á, então, deter-
minar o tipo de escola a ser estabelecido ali. Penso, porém, que esta fórmula
é um tanto simplista e encobre certos problemas que merecem ser conside-
rados. Para positivar isto e dar uma idéia de como se diferenciam os Municí-
pios em sua organização dinâmica, oferecemos nas figuras 11, 111, IV, V e VI,
a título de generalização a ser revisada e melhor concordante com os fatos,
algumas construções topológicas, tendo em vista a permeabilidade das fron-
teiras do Município e dos limites dos seus grupamentos humanos, bem como a
maior ou menor intensidade das barreiras entre suas classes sociais. 5 Tomamos
para exemplo cinco tipos possíveis de Municípios, tendo em vista as informa-
ções atuais que possuímos de algumas regiões do Brasil, por observação própria
e por leitura: do alto sertão, da zona rural, da zona urbana industrial, da
zona litorânea e das zonas de colonização estrangeira.

4
Veja-se A Educação Pública em São Paulo, por FERNANDO DE AZEVEDO - Com-
panhia Editôra Nacional, 1937.
5
Sôbre os estudos topológicos podemos indicar: J. F. BROWN, Psychology and
the Social Order (An introduction to the Dynamic Study of Social Fields) - Nova
Iorque, 1936; e P. FRANKLIN - "What is Topology ?", em Philosophy oi Science, 1935, 2.
A ADMINISTHAÇÃO MuNICIPAL E o RuRALISMO PEDAGÓGICO 21

As fronteiras de um Município de alto sertão aparecem em traço forte,


limite externo da figura li, o que é símbolo de pouca permeabilidade; essas
fronteiras são de natureza física: distância, falta de transportes, isolamento
natural, enfim. No alto sertão não há fortes barreiras entre duas classes: a
dos pseudoproprietários de terras, os sertanejos que, sem título de posse ou
aforamento, se instalam em terras devolutas ou em partes não exploradas dos
latifúndios, e os que trabalham para os grandes proprietários. É relativamente
freqüente a passagem de elementos de um para o outro grupo.
A barreira surge entre os grandes proprietários e os outros, sem que, toda-
via, consiga impedir o contacto de uns e outros; contacto afetivo, às vêzes,
mas que não leva à transposição de elementos de uma para a outra classe;
não há mobilidade vertical. Dentro das classes, os limites dos grupamentos
- representados na figura por pequenas áreas - são permeáveis.
Já na zona rural, propriamente dita, a separação entre os ricos e os outros
é maior. O fazendeiro passa grande parte do seu tempo nas cidades. Daí
o menor contacto com os camponeses que trabalham na sua propriedade e
com os pequenos proprietários dos arredores. Nos povoados e pequenas cidades
do interior, êles são vistos como grandes senhores que devem ser respeitados.
Não acontece o mesmo, porém, entre trabalhadores rurais e os pequenos pro-
prietários. O contacto e a mobilidade social de um para o outro grupo é maior.
Nos Municípios praieiros, onde predomina a pesca, há duas classes, sepa-
radas por barreira transponível: os trabalhadores do mar e os proprietários
de barcos e apetrechos de pesca. Embora seja possível apontar casos de
separação e, não raro, de conflito entre ambas, em geral isto não acontece.
Freqüentemente uns cooperam com os outros, nos mesmos trabalhos e, em
vez de os primeiros receberem salário, recebem uma percentagem razoável
do produto da venda do pescado.
A classe capitalista geralmente fica fora do Município; compra e revende
o pescado, ou mantém indústria para o seu beneficiamento. Existem natu-
ralmente Municípios costeiros em que, com a pesca, há outros meios de
produção. Estamos, todavia, apontando apenas certo tipo de comunidade
municipal, como Pôrto Belo e A1 aq•.mri, em S0nta Catarina, onde aquela é que
é a realidade .
Nos Municípios de colonização estrangeira, poderíamos distinguir os das
zonas rurais e os industriais. Em alguns casos, como os Municípios de Joinville,
Jaraguá, Blumenau e Brusque, são ao mesmo tempo industriais e agrícolas.
O operário é ali um pequeno burguês. Trabalha nas fábricas de tecidos, peque-
nas indústrias metalúrgicas, serrarias, cervejarias, etc., e possui casa própria,
às bordas da cidade, com seu quintal, uma ou duas vacas leiteiras, galinhas
e alguns porcos. O meio de condução, por excelência, é a bicicleta. Todavia,
em Joinville e Blumenau já começam a existir os verdadeiros proletários,
homens que nada têm de seu senão os braços para trabalhar e uma família
para alimentar.
Nos Municípios de colonização estrangeira, é manifesto o problema da
nacionalização e da assimilação. Em geral, os agrupamentos nacionais e de
imigrantes conseguem estabelecer zonas comuns, áreas de perímetro entre-
laçado, na figura V. Mas, também se formam zonas marginais, principalmente
na classe média e burguesa, de grupos que resistem à assimilação (barreira
sinuosa m, ao sul da figura V) .
Nos Municípios industriais, figura VI, as barreiras entre as classes são
bem mais acentuadas, e os limites dos grupamentos na burguesia capitalista
e na classe média são pouco permeáveis.
22 REviSTA BRASILEIRA nos MuNICÍPIOs

Com estas figuras, não queremos, de modo algum, dar por completa a
topologia municipal. Apresentamos somente cinco exemplos incompletos, para
mostrar a configuração espacial que pode ter cada Município. E, conforme
seu dinamismo funcional específico, tal deve ser o sistema educacional que aí
esteja em ação, sob pena de aparecer como algo marginal e desligado da
vida da comunidade.

7. Evidentemente, no alto sertão, onde as populações se espalham por


grandes áreas, separadas por grandes distâncias, torna-se difícil organizar e
distribuir os benefícios da administração e, conseqüentemente, também as
escolas. Olhando-se o mapa do Brasil, impresso com a divisão municipal de
1943,6 a gente vê logo o que são tais Municípios, enormes e de escassa
população.
Para se compreender o problema que constitui êste fato, de um ponto
de vista educacional, basta ter em vista estas linhas de LOURENÇO FILHO,
que, assim mesmo, vê, afinal, em tons côr de rosa, o nosso panorama peda-
gógico: "A matrícula média por escola vai gradativamente subindo: é de 51,
em 1907; de 57, em 1920; de 63, em 1930. A matrícula sobe, no período
de 1871 a 1930, de 16 vêzes; o número de escolas apenas de 8. Isto significa
que a expansão escolar atendeu especialmente às localidades de população
adensada, ou seja, às vilas e às cidades. " 7
Um técnico do Serviço de Estatística da Educação e Saúde, segundo
relata ainda o Sr. LOURENÇO FILHO, "supõe a existência de uma população
infantil de mais de um milhão de crianças de 7 a 13 anos, em área não escola-
rizada - isto é, onde não existem escolas atualmente - e também não
escolarizável, ísto é, em que a densidade da população, por muito rarefeita,
não comporta escolas de tipo comum".
Como atender a tais necessidades, a tal problema dos Municípios do
alto sertão ?
LEÔNCIO DE CARVALHO, ainda no Império e tendo em vista o meio rural
em geral, sugeriu a criação de escolas ambulantes. J. ORLANDI, do Departa-
mento de Educação de São Paulo, relembra as idéias de M. B. CassiO, rela-
tivas às missões culturais em Espanha. No Brasil, elas poderiam ter grande
função educativa nos Municípios isolados, do alto sertão. Talvez valesse a pena
estudar as possibilidades de sua prática.
"As Missões Culturais" - escreve o Sr. J. ORLANDI - "procuram criar
nova mentalidade coletiva, infundir características de vida melhor aproveitada;
despertar nos grupos a compreensão de sua fôrça e das possibilidades do
meio onde vivem. Fazem-nos participar de uma civilização melhor sem provocar
o êxodo local. Estabelecem diretrizes de civilização". 8 Eu devo confessar que
a êste respeito tenho minhas dúvidas, como também acho que "uma nova
mentalidade coletiva" não pode ser o produto de Missões Culturais, pois
que essa mudança implica certamente outras mudanças ambientais, anteriores,
ecológicas.
Além disso, no caso das Missões Culturais, devemos considerar o problema
da dificuldade de transporte coletivo no alto sertão e o das enormes distâncias.
A conquista do sertão não se fará apenas pela educação. A marcha para o
Oeste supõe estradas, a navegação intensiva dos grandes rios, o avião acessível
senão a tôdas, pelo menos a quase tôdas as bôlsas.
0
Divisão Municipal do Brasil, mapa organizado pelo I. B. G. E.
7
LOURENÇO FILHO - Tendências Atuais da Educação Brasileira - Edições Melhora-
mentos - s/ data.
Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos - fevereiro de 1945.
A Am.nNrsTRAÇÃo MuNICIPAL E o RuRALISMo PEDAGÓGICO 23

Quem sabe, para o caso em vista, a melhor solução fôsse a de realizar,


nas sedes municipais do alto sertão, cidadezinhas onde as condições de vida
coletiva não são totalmente precárias, a idéia sugerida por M. A. TEIXEIRA
DE FREITAS: a instituição de internatos rurais ou de colônias escolares?
Sentindo o mesmo problema com muito acêrto e cuidado crítico, ALMEIDA
JÚNIOR 9 sintetiza estas três medidas: "1) instituição do transporte escolar;
2) criação de internatos rurais; 3) manutenção de escolas de matrícula redu-
zida . Em outras palavras, será preciso concretizar o aforismo: "onde a criança
não possa ir à escola, que a escola vá à criança". Simples questão orçamentá-
ria. Simples e complexa!"

9. Nos Municípios da zona rural comum, onde já existem povoações,


vilas e cidades de população mais densa e onde as estradas são praticáveis, o
problema não é tanto de estabelecer a escola, mas de torná-la funcional, isto
é, em relação dinâmica com o meio .
O tipo mais comum de escola, nesse ambiente, é o que se denomina de
"isolada". Confiada a um só professor, com três classes reunidas na mesma
e única sala, é escola de matrícula que pode variar de trinta alunos em um só
turno, a mais de cem em dois turnos, com uma freqüência que quase nunca
ultrapassa de 70%. Atualmente, ela tem por função única alfabetizar, o
que realmente é muito pouco. Entretanto, não devemos ir ao extremo de
dizer que isso não vale nada. Um indivíduo que tenha aprendido a ler na
pior escola e pelos piores métodos, sempre tem à sua disposição um poderoso
meio de autolibertação e de progresso.
Mas, só isso não basta à comunidade. "A sociedade atual apoia-se na orga-
nização do trabalho; daí o princípio econômico da escola do trabalho. . . A
escola do trabalho é a escola em que a atividade é aproveitada como um
instrumento ou meio de educação. N aáa se aprende senão fazendo:
trabalhando". 1o
Se é assim, êste trabalho não pode ser estranho ao meio; deve ser sugerido
por êste, ter relação com êle e encaminhado em seu benefício.
Não me quero opor à tese do Professor ALMEIDA JÚNIOR, que para isso
me falta autoridade, em prol do programa mínimo para tôdas as escolas ele-
mentares ou primárias, mas é preciso pôr em relêvo certas considerações
amáveis que o ruralista norte-americano T. LYNN SMITH teceu relativamente
a essa tese: "A educação elementar na cidade e no campo seria constituída
dos mesmos elementos, mas tais elementos seriam selecionados de modo a
retratar os valores reais da civilização em ambos os seus aspectos, rural e
urbano - e não selecionados de forma tal que faça uma grande parte dos estu-
dantes desejar a suposta vida melhor das cidades. " 11 Eu penso que a propo-
sição adversativa do período acima é, pedagogicamente, mais importante que
a principal. Da exata compreensão dos princípios que ela encerra e da sua per-
feita aplicação depende o dinamismo educacional.
Isto, quanto ao ensino primário comum. Mas é evidente que merece con-
sideração e é essencial à vida econômica da comunidade, o ensino profissional
que, nas zonas rurais, seria de grau elementar e em consonância com as ativi-

0
A. ALMEIDA JÚNIOR - "Os objetivos da Escola Primária Rural" - Revista Bra-
sileii a de Estudos Pedagógicos - julho de 1944.
1
° FERNANDO DE AZEVEDO - Novos Caminhos e Novos Fins - Cia Editôra Nacional,
1941
11
Nota em inglês ao artigo de A. ALMEIDA JÚNIOR, citado anteriormente.
24 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS
------

dades produtoras locais. Essas escolas, além do trabalho educativo profissional,


atuariam como agentes de racionalização do trabalho.
É claro que as escolas sozinhas não farão milagres. Como já salientou,
em parte, FERNANDO DE AZEVEDO, a educação no campo deve estar aliada a
uma política de melhoramentos rurais, de assistência e levantamento do padrão
de vida dos camponeses. Nas zonas de miséria, de atraso e de produção escassa,
onde o homem é corroído pelas endemias e o pauperismo, só a educação,
independente de uma política administrativa mais ampla, terá que fracassar.

10. Nos Municípios litorâneos, onde predomina a pesca, a escola tam-


bém não pode continuar como simples instrumento de alfabetização. Sua
função aí pode e deve ser bem maior .
Eu conheço "de visu" a miséria em que vivem os praieiros de São Fran-
cisco, Araquari, ltajaí, Pôrto Belo, Biguaçu, São José e Florianópolis, em Santa
Catarina. Conheci-os igualmente em Paranaguá. Em todos êles, as crianças,
subnutridas, enfermiças e feias, apresentam baixo nível de aproveitamento
escolar. Tristes e meio patetas, elas não brincam, porque não lhes sobram
fôrças para isso .
Nos demais Estados brasileiros de zona praieira, o panorama humano
certamente é o mesmo.
Aí o trabalho da escola tem de associar-se intimamente ao de saúde
pública e higiene. Os filhos de pescadores deverão aprender a alimentar-se,
tanto quanto a ler e a escrever. Aprenderão a fugir das verminoses, pela
aprendizagem de hábitos higiênicos. 12
Naturalmente, não é preciso roubá-los à profissão paterna, pois que ela
é útil e necessária. Mas, isto não impedirá que se tente levar os futuros pes-
cadores a aprender o amanho da terra, na prática da horticultura, da criação
de aves domésticas, etc., o que lhes permitirá enriquecer a alimentação, o
frugal pirão de farinha de mandioca com peixe.
Tudo, porém, implica a mesma política administrativa e econômica já
mencionada, de proteção e elevação do nível de vida rural, cuja aplicação e
adaptação local compete ao Município realizar. Sobretudo, é preciso permitir
ao pescador que ganhe um pouco mais pelo produto do seu árduo e perigoso
trabalho. A horticultura doméstica supõe ferramentas, sementes e disposição
para o trabalho, isto é, saúde. Tais coisas dependem do dinheiro ganho pelo
indivíduo, ao mesmo tempo que de educação e assistência sanitária por parte
da administração pública.

11 . Nas zonas de colonização estrangeira, além do aspecto econômico-


profissional da educação, é preciso considerar o problema da nacionalização
do ensino.
Em geral, os europeus, que bem conhecem a importância da escola, não
passam sem ela. Uma vez estabelecidos em colônia, o seu primeiro cuidado é
fundar uma escola e escolher um professor, com ou sem a assistência do
govêrno. É evidente que tal escola será tão estrangeira quanto aquêles que
a organizaram .

12
Se falo aqui, em especial, da educação higiênica e da assistência sanitária, é porque,
nas zonas praieiras que conheço, o problema parece atingir a mais extrema gravidade. Sei,
porém, da validade do truísmo que afirma ser o brasileiro, em geral, um homem que não
sabe alimentar-se, quando pode, e que se alimenta, via de regra, muito menos que o
necessário .
A ADMINISTRAÇÃO l'vluNICIPAL E o RuRALISMO PEDAGÓGICO 25
-------- ----~-------·----

Deve ou não a administração pública efetuar a sua nacionalização ? Eu


tenho dúvidas quanto aos resultados de uma política nacionalizadora que
atue por meios impositivos e autoritários. Se os estrangeiros continuarem a
viver como tais e a considerar-se estrangeiros, pouco poderá a escola . Creio
que o papel desta é de adaptar-se a uma progressiva assimilação dos imigran-
tes, tendo em vista que isto só é possível quando a assimilação é mútua, isto
é, que nós só poderemos conquistar para a nacionalidade os imigrantes, se
nos deixarmos conquistar também por êles, em parte pelo menos.
Será absurdo, por exemplo, tentar impedir que as crianças de Blumenau
aprendam a falar alemão, e as de Caxias, italiano. Como também seria absurdo
não lhes ensinar o vernáculo. A melhor solução é a que harmoniza os impe-
rativos familiares e de grupos, dos imigrantes, com os nossos zelos nacionais:
o bilingüismo. Hoje, nas colônias do Sul, nacionais e descendentes de imigran-
tes geralmente falam duas línguas. Há mesmo jornais que se imprimem etr
português e em alemão, ou, então, em italiano.
Creio que a assimilação pela escola deve ser feita de modo semelhante.
Do contrário forçaremos os estrangeiros à resistência, quando não ativa e
organizada, pelo menos passiva e tendente à criação da marginalidade, situa-
ção prejudicial aos seus descendentes, tanto quanto ao país que os recebeu.
Esta política nacionalizadora, hábil e sensata, deverá ser conduzida prin-
cipalmente pela administração municipal, mais capaz, pela proximidade, de
levá-la a cabo, sem perder de vista as condições e oportunidades locais.

12 . Até aqui apresentamos algumas considerações, baseadas em fatos


e em teorias sociológicas. Com elas pretendemos justificar o planejamento
de uma política de educação rural intimamente conexionada à política de
administração municipal, pela qual se batem os atuais municipalistas bra-
sileiros. Como dissemos de início, não pretendemos dizer novidade. No
Brasil já muito se têm debatido êstes problemas. Como síntese de tais
debates, e em acôrdo com a exposição anterior, julgamos oportuno transcrever
a seguir algumas das conclusões a que chegaram os relatores de teses no
VIII Congresso Brasileiro de Educação/ 3 realizado em Goiânia, em 1942,
ao qual tive a honra de comparecer como delegado do Estado de Santa
Catarina.
Sôbre a educação primária fundamental - objetivos e organização: a)
nas pequenas cidades e vilas do interior; b) na zona rural comum; c) nas zonas
rurais de imigração; d) nas zonas de alto sertão - o Professor RAUL BIT-
TENCOURT sintetizou as seguintes conclusões a que chegaram as teses:
1) necessidade de se organizarem as escolas rurais de acôrdo com os
interêsses sociais da região, particularmente no que respeita à saúde e ao
trabalho rural; 2) preparo especial do professor rural e melhoria de suas
condições de vida; 3) acentuação do caráter nacionalista da educação nos
núcleos de imigração e rigorosa seleção dos professôres para as escolas dessas
regiões; 4) maior contacto do alto sertão com as zonas de civilização sensível,
para possibilitar a penetração até êle do aparelho escolar.
De modo geral, essas conclusões podem ser aceitas, làgicamente, como
universais, estabelecidas por indução, quanto ao que encerram de acêrto.
Apenas temos escrúpulo em aceitar a de número 3, se ela não fôr limitada
pelas considerações apresentadas no tópico n. 0 11 dêste trabalho.

'' Ver Anais do VIII Congresso Brasileiro de Educação - Serviço Gráfico do I.B.G.E.
1944.
26 REVISTA BRASILEIRA DOS MuNICÍPIOS

13. Chegado a êste ponto, resta um problema de solução aparente-


.mente simples, mas efetivamente complexa e difícil: a coordenação dos
esforços e recursos da União, dos Estados, dos Municípios e das instituições
particulares em matéria de educação, principalmente na de nível elementar.
No VIII Congresso Brasileiro de Educação, chegou-se à conclusão de
que "os Estados coordenarão os esforços e recursos dos respectivos Municí-
pios, regulando-lhes a intervenção em matéria de ensino primário, na confor-
midade do convênio celebrado com a União e atendendo às necessidades das
zonas rurais".
Tendo em vista essa conclusão, e adotando como princípio a afirmação
de que o Govêrno Federal, pelos seus órgãos legislativos, administrativos e
técnicos, fixa as linhas mestras da política educacional e seus principais meios
de execução, os Estados as coordenam e fiscalizam, e os Municípios as
aplicam ou põem em execução, creio que é possível resolver o problema eco-
nômico em conexão com os de execução segundo as exigências ambientais.
De que forma fazer isso, é matéria que supõe trabalho prévio de plane-
jamento por técnicos de educação, técnicos de administração e economistas.
O FATOR ESPIRITUAL NA CAMPANHA
MUNICIPALISTA
H.E.ALVIMPESSOA
(Diretor da Divisão de Coordenação e Publicidade do Serviço
Nacional de Recenseamento)

O ano de 1940, quando se realizou o quarto recenseamento geral da

N República, estava esta dividida em 1 574 Municípios, dos quais os


menores abrangiam superfícies inferiores a 50 km 2 e os maiores excediam
a 250 000 km 2 de extensão territorial. Os mais populosos (as capitais do
País e do Estado de São Paulo) caminhavam para o segundo milhão de
habitantes e os menos povoados (umas três dezenas) registravam efetivos
populacionais inferiores a 5 000 almas. No tocante à relação entre as super-
fícies e o número de habitantes, contavam-se por dezenas os Municípios de
mais de 100 habitantes por km 2 e excediam a uma centena os que, na unidade
de superfície, não chegavam a ter um único habitante. Mais de 100 Municí-
pios previam receitas superiores a 1 milhão de cruzeiros, sendo também acima
de 100 o número de Prefeituras com orçamento anual inferior a 50 000
cruzeiros.
Nada é preciso acrescentar para que se forme uma idéia da disparidade
entre as condições características das Municipalidades brasileiras.
A base territorial carece de significação para qualquer tentativa atinente
a distribuí-las em ordem de importância. Os Municípios maiores são, em
geral, os mais pobres por efeito da dispersão demográfica. O Município de
Alto Madeira, em Mato Grosso, podia conter mais de 6 000 vêzes a comuna
baiana de São Felix, em 1940, ano em que a receita prevista para a circuns-
crição latifundiária da bacia amazônica não atingia sequer a décima parte
da que contava arrecadar o industrioso Município do Leste brasileiro.
As condições para que as populações se organizem e pleiteiem as regalias
do "self-government" podem variar em função das exigências legais relativas à
capacidade tributária, à situação e recursos dos núcleos urbanos que lhes hajam
de servir como sede ou a outros quaisquer aspectos relacionados com o progresso
local. Um Distrito que se emancipa, e ingressa na constelação dos Municípios,
reúne, para êsse fim, os requisitos previstos na lei, mas não é pelo domínio
territorial, nem pelo número de habitantes, nem pela soma dos seus réditos
que alcança a paridade com as circunscrições a que o irmana a sua elevação
em categoria nos quadros da divisão administrativa.
A maioridade atingida resulta de um ato de volição, de uma atitude de
confiança na aptidão para dirigir-se a si próprio, de um compromisso que o
dignifica e que terá de honrar, por sua vez, para fazer jus às prerrogativas
inerentes ao direito de autodeterminação. A lei, fixando um mínimo de con-
dições materiais para que se possam formar novos Municípios, admite, como
ponto de partida para a criação dêles, o voto expresso das populações, inicia-
tiva política e que se distingue das formalidades adjetivas pelo seu caráter
eminentemente espiritual.
No processo histórico de formação do nosso sistema municipal é a Im-
dativa referida que nos permite falar do "Município" brasileiro como um
28 HEVISTA BHASILEIRA DOS MUNICÍPIOS
-----~ ~ ----~-~ ~ -~--~ ---- --~------- ~ -----

coletivo em cujo conceito podemos enquadrar tôdas as circunscrições admi-


nistrativas que formam o tecido celular da Federação. Nenhum dos demais
requisitos previstos na lei justificaria que circunscnçoes as mais hete-
rogêneas em sua caracterização objetiva fôssem definidas por um têrmo geral,
significativo de serem elas espécies diferenciadas de um gênero único.
A reivindicação dos foros municipais, por grupos de população convictos
de sua personalidade e capacidade para regerem os interêsses locais, representa
um movimento de inteligências e de vontades e afirma a consciência política
de direitos e das responsabilidades que êstes impõem como justificação de seu
exercício.
É o elemento comum que equipara todos os Municípios à revelia dos
característicos de extensão, forma, população e recursos materiais .
O Município brasileiro, em seu conceito atual, como na tradição histó-
rica que presidiu, desde o Ato Adicional, à sua consagração nas leis orgânicas
da nacionalidade, é, portanto, uma instituição que se funda no princípio ético
do reconhecimento, pelo Estado, das aspirações que representam, por parte
das populações, uma consciência esclarecida de direitos cívicos e de deveres
correlatos.
Constitui êsse princípio o ponto de partida dos desmembramentos que
conformam, cada vez mais, o Município concreto ao padrão ideal configurado
nos estatutos orgânicos da nacionalidade para definir comunidades atentas
aos problemas do bem-estar coletivo e dispostas a resolvê-los, dinâmicamente,
na relatividade dos meios ao seu alcance.
Os problemas referidos podem ser desiguais e subentender dificuldades
diversas, oriundas de condições materiais heterogêneas, mas, da parte dos
dirigentes municipais, o espírito de iniciativa, a confiança na ação adminis·
trativa e a permanente vigilância na defesa dos interêsses locais devem emanar
de uma atitude subjetiva que não comporta graduações.
A rotina na administração, a transigência em face de males superáveis
pela sabedoria do govêrno, a ausência de medidas nas oportunidades de se
promover o progresso local, são vícios incompreensíveis num sistema de que
representam a própria negação.
O municipalismo, para que se possa impor na plenitude de suas virtua-
lidades edificantes, terá de manifestar, a cada momento, a sua vitalidade espi-
ritual, externada em atos e atitudes que acentuem, em cada circunscrição
municipal, a vontade de subsistir e de progredir. A sua beleza e a sua fôrça
expressam-se nessas manifestações que pelo grau de constância e de intensidade
medem a distância que separa o Município real da instituição que a lei con-
ceitua como um paradigma.
A opinião brasileira, pelos seus órgãos mais esclarecidos, vem pleiteando,
nestes últimos tempos, melhores condições de vida para as nossas Municipa-
lidades. A influência do fator espiritual que equipara os Municípios como
fôrças políticas assume decisiva importância quando se consideram as possi-
bilidades dessa campanha cívica que, iniciada sob os melhores auspícios, teve
a sua primeira vitória nas disposições em que a Constituição Federal procurou
atender à necessidade de se ampliarem os recursos facultados aos governos
municipais, habilitando-os a realizar satisfatàriamente a sua finalidade.
O surto recente do movimento municipalista desvenda, sem dúvida, os
mais promissores horizontes à ação daqueles governos.
Não passarão, entretanto, de miragens as possibilidades entrevistas se as
comunidades interessadas não participarem ativamente do movimento, pres-
tigiando-o com a sua colaboração. Essa cooperação poderá ser indireta, consis-
O FATOH EsPIHITUAL NA CAMPANHA MuNrCIPALISTA
----------------
29

tindo na demonstração de que os Municípios não representam, em sua maioria,


realizações deformadas do paradigma teórico de que se devem aproximar,
e a que não corresponderão, se o fator espiritual que aquêle padrão prevê,
como característico da instituição, não revelar a sua influência nos resultados
da administração diligente e eficiente dos interêsses do povo. E tomará a for-
ma direta se se expressar em atos que assegurem à campanha municipalista
o apoio irresistível de mais de um milhar e meio de Municipalidades por igual
empenhadas em lhe propiciar um bom êxito.
O municipalismo não poderá florescer alimentado exclusivamente pela
propaganda externa. Da própria reação das circunscrições municipais, estimu-
ladas pelo movimento aludido, é de esperar que venha a prova de não ser o
Município brasileiro uma simples ficção jurídica e o Brasil um organismo en-
fermiço, constituído de células mortas, condenado ao deperecimento pela au-
sência do "tonus" vital provinda da irremediável exaustão de suas reservas
espirituais.
A DISCRIMINAÇAO DE RENDAS
E OS IMPOSTOS PESSOAIS
-
AFFONSO ALMIRO
(Da Secretaria do Conselho Técnico
de Economia e Finanças)

IMPORTÂNCIA dos assuntos a serem debatidos na próxima Confe-


A rência de Dívida Externa e Legislação Tributária justifica a grande
expectativa e o otimismo com que vem sendo aguardada esta reunião de
técnicos fazendários.
O principal objetivo do conclave é, preliminarmente, conjugar o esfôrço
construtivo e a capacidade técnica de cada uma das administrações financeiras
da União, dos Estados e dos Municípios, em uma tão eficiente quanto indis-
pensável cooperação, visando ao integral cumprimento dos novos rumos tra-
çados pela Constituição de 18 de setembro de 1946.
No que diz respeito à dívida externa, as dificuldades serão pequenas, de
vez que êste problema já encontrou solução sobremodo feliz no acôrdo
realizado com os portadores de títulos e que ficou consubstanciado no Decreto-
-lei n. 0 6 019, de 23 de novembro de 1943. A questão talvez possa resumir-se
no estabelecimento de um "modus vivendi" entre a União, responsável pelos
serviços dos títulos incluídos no plano B, do acôrdo, e os Estados e Municípios.
O problema tributário, porém, embora circunscrito ao seu aspecto cons-
titucional, qual seja o da regulamentação da discriminação de rendas, terá
a sua solução condicionada a dois importantes fatôres que transcendem os
limites fixados na convocação da Conferência: I - completa harmonia e
unidade de vistas entre os três poderes tributantes - União, Estados e Muni-
cípios; II - reforma tributária de âmbito nacional, que venha corrigir a
nossa legislação fiscal, complexa e multiforme, tradicionalmente eivada de
erros, de modo a evitar a constante invasão, pelos três poderes, dos limites de
competência determinado.s para cada um dêles pela Constituição.
Exatamente porque não foram atendidos êstes dois fatôres, as três Cons-
tituições anteriores não foram cumpridas, no que se refere à discriminação
de rendas.
E para que a atual não tenha a mesma sorte, é mister um trabalho de
conjunto, para que não se dispersem esforços. A intenção do Senhor Ministro
da Fazenda, ao convocar esta reunião, por todos os motivos altamente elo-
giável, precisa ser compreendida pelos representantes dos Estados e Municí·
pios, de vez que o êxito da Conferência depende da unanimidade das resoluções.
Ou, em outras palavras, a execução da discriminação de rendas estabelecida
A DISCRIMINAÇÃO DE RENDAS E OS IMPOSTOS PESSOAIS 31

pela Constituição, depende do seu fiel cumprimento por todos os Municípios,


todos os Estados e pela União.
A data marcada para o início da Conferência foi escolhida para que, já
estando empossados os novos Governadores eleitos e instaladas as constituin-
tes estaduais, as suas resoluções, tomadas sempre sob a forma de acordos,
possam, se não influir em sua elaboração, pelo menos evitar que as Constitui-
ções estaduais consagrem as falhas e defeitos das legislações fiscais em vigor .
A agenda da Conferência limita-se, na forma da convocação, "ao início
dos entendimentos e acordos indispensáveis à regulamentação da nova dis-
criminação de rendas, bem como para estabelecer as bases necessárias ao
prosseguimento do programa iniciado com a I Conferência N acionai de Legis-
lação Tributária".
Inclui-se neste enunciado o debate sôbre todos os seguintes artigos da
Constituição, que se referem à tributação:
5.0 - N. 0 XV letra b; 6. 0 ; 15.0 e §§; 16; 17; 19; e §§; 20; 21; 26; § 4. 0 ;
27; 29; 30; 31 n. 0 V e § Único; 32; 65; n. 0 II; 95 n. 0 III; 141 § 34; 169; 198
e §§; 199 § único; 202; 203. E mais os artigos 13 e §§; 27 e § único e 29 do
ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
A Conferência decidirá sôbre a melhor maneira de dar cumprimento a
êstes dispositivos constitucionais, a partir de 1948, quando entrarão em vigor.
A reforma tributária dependerá de nova reunião, sendo que as suas
diretrizes já foram firmadas pela I Conferência Nacional de Legislação Tri-
butária, realizada em 1941, e deverão concretizar-se com a elaboração de um
Código Tributário Nacional, contendo normas gerais para aplicação uniforme
em todo o País .
De acôrdo com o programado, a Conferência de março terá a seu cargo
o estudo de várias questões novas, que exigem solução imediata, surgidas com
a discriminação da Constituição de 1946. Tôdas essas questões só poderão ser
resolvidas por acôrdo, entre os três poderes tributantes.
Destacamos, para exemplificar, alguns dêsses assuntos novos: I - Os
impostos extradiscriminação, que deverão ser extintos no curso de quatro anos.
Êstes tributos, tanto na União, como nos Estados e Municípios, representam
considerável parcela das receitas totais. II - Os novos impostos, que poderão
ser criados pela União e pelos Estados, deverão ser arrecadados por êstes,
que darão 20 % à União e 40 % aos Municípios. Sendo grande a percenta-
gem dos impostos a serem extintos, êste di~positivo assume extraordinária
importância, pois na criação dos novos impostos-substitutos, digamos assim,
estarão diretamente interessados a União, os Estados e os Municípios. III -
A antiga questão da regulamentação das taxas. Torna-se agora urgente a
necessidade de ser enfrentado resolutamente êste tão debatido problema. Sob
a denominação de taxas, são cobrados atualmente grande número de impostos,
em sua maioria de competência diversa. IV - A incorporação do impôsto
de Indústrias e Profissões às receitas municipais. Além da diminuição das recei-
tas estaduais, exigindo talvez a tranferência de encargos, êste impôsto, com
regulamentação diferente em cada Estado, e semelhante ao Impôsto de Licença
32 REVISTA BHASILEIHA DOS i'viUNicÍPIOS
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Local, exige cuidadosos estudos. V - A entrega aos Municípios dos 30 o/o do


excesso da arrecadação estadual, salvo o Impôsto de Exportação, sôbre a
arrecadação total municipal. VI - A regulamentação da contribuição de
melhoria. VII - A entrega dos 10% do Impôsto sôbre a Renda aos
Municípios.
A caracterização e conceituação de cada tributo parece-nos ser outra
questão que, embora antiga, exige também solução imediata, pois cada unidade
tributante se utiliza diferentemente dos impostos discriminados, a ponto de
se tornarem irreconhecíveis em mais de um Estado .
Conhecidas as causas que impedem o completo cumprimento da discri-
minação de rendas, e são as mesmas que desde o Brasil Colônia aí estão a impe-
dir a livre expansão do nosso progresso econômico, sabemos que tudo há de ser
feito para vencer as dificuldades. Patriotismo, espírito público e competência
são atributos já postos à prova, em várias oportunidades, pelos técnicos ~azen­
dários de todo o País .
Dentre os assuntos novos trazidos pela Constituição de 1946, devemos
destacar de modo especial o salutar princípio de política tributária, consubs-
tanciada no Artigo 202. Diz o referido artigo: "Os tributos terão caráter pes-
soal, sempre que possível, e serão graduados conforme a capacidade econômica
do contribuinte."
Pela primeira vez inscrito em nossa Constituição, êste dispositivo representa
nova orientação a ser imprimida à nossa política fiscal e, por isso mesmo, exige
maiores comentários.
De repercussão acentuadamente popular, o artigo visa a subordinar tôda
a legislação tributária aos princípios de justiça social.
Grandes debates foram travados na Assembléia Constituinte em tôrno
do impôsto pessoal e da sua graduação de acôrdo com a capacidade econômica
do contribuinte.
Por um lado, o Senador Luís CARLOS PRESTES afirmava ser o artigo
"demagógico, porque inaplicável", manifestando-se contra de forma origi-
nal: "querem negar a defesa dos interêsses populares através da redação
de um artigo que, na verdade, jamais será aplicável". (Diário da Assembléia
- N. 0 132, de 19 de agôsto de 1946, pág. 4 204 ). Por sua vez, o Senador
FERREIRA DE SouSA defendia o dispositivo, alegando que o mesmo "encerra
norma perfeita de justiça fiscal. Prevê dar o seu a seu dono, estabelece a
possibilidade de se individualizar o impôsto, como no Direito Penal se faz
com a individualização da pena. A lei que regular o assunto encarará a
questão de personalizar a tributação. Essa lei será mais justa que outras,
porque levará em conta as condições locais da propriedade, do contribuinte,
a família, os encargos e até mesmo, quanto possível, as crises naturais".
(Diário da Assembléia, n. 0 132, de 19/8/946, pág. 4205.)
Enquanto o ilustre Deputado MÁRIO MAZAGÃO defendia uma emenda,
assinada por trinta e dois representantes, no sentido da supressão dêste artigo,
argumentando que "uma coisa é a preferência pelos impostos pessoais; outra
é dizer que todos os tributos terão, sempre que possível, caráter pessoal".
A DISCRIMINAÇÃO DE RENDAS E os IMPOSTOS PESSOAIS 33

(Diário da Assembléia, n. 0 148, de 5/9/46, pág. 4 673 ), o Deputado ALIOMAR


BALEEIRO, brilhante relator da discriminação de rendas, interpretava o verda-
deiro sentido do artigo: ". . . sempre que possível, o impôsto deve assumir
caráter pessoal e ser medido pela capacidade econômica do contribuinte. Evi-
dente que tôda vez que determinado impôsto possa ser regulado legalmente,
de modo a imprimir-lhe feição pessoal, êste critério deve ser o preferido.
Existem, de fato, impostos que não se prestam a êsse feitio pessoal" (idem,
idem).
O impôsto pessoal é definido por PAUL HuGON (O lmpôsto) como
sendo "aquêle que grava a matéria tributária levando em linha de conta a
situação subjetiva geral do contribuinte".
Afirmando ser o impôsto pessoal o que permite assegurar a maior unifor-
midade e, portanto, satisfazer de maneira mais completa a justiça fiscal, reco-
nhece PAUL HUGON que a sua aplicação "exige, da parte do Fisco, o conhe-
cimento exato da situação geral do contribuinte". Talvez seja essa a origem
da radical proposta do Deputado GUARACI SILVEIRA:
"Acrescente-se onde convier:

Art. . . Fica o executivo autorizado a levantar o censo eco-


nômico do País no sentido de verificar o montante de ordenados
e retiradas por tôdas as fontes de capital empregado e de rendas
líquidas em tôdas as atividades produtivas.
§ 1.0 - Poderá o legislativo federal, em qualquer tempo, por
dois terços de votos, substituir o sistema adotado de tributação
pelo impôsto direto, recaindo o mesmo sôbre o capital empregado,
sôbre ordenados e retiradas, e sôbre a renda ascendentemente pro-
porcional nos dois últimos casos." (Diário da Assembléia, n. 0 67,
de 17/5/46, pág. 1812).

A idéia da personalização do impôsto, aliás de caráter mais social do


que econômico, vem-se desenvolvendo ultimamente, apesar de não constituir
para nós novidade, pois já em 1891 Rur BARBOSA ensinava: " ... a idéia que
tende a se generalizar sob a civilização contemporânea, cada vez mais imbuída
nos ideais democráticos, é a que alarga a importância dos impostos diretos,
precisamente como elementos civilizadores, isto é, como exigências do prin-
cípio de justiça nas sociedades de mais amplo desenvolvimento moral." (Rela-
tório do Ministro da Fazenda - 1891 - "apud" Relatório da Comissão de
Orçamento de 1942. )
Os impostos pessoais, como se verifica pelas suas características, são
impostos diretos. Os impostos reais são os impostos indiretos, bem como
alguns diretos .
Segundo a definição clássica de STUART MILL, o impôsto é direto quando
a incidência legal coincide com a real, e é indireto quando o ônus fiscal é
transladável.
Numerosas outras definições têm sido apresentadas. Como salienta HARLEY
LEIST LuTz, em seu Public Finance, "existe provàvelmente maior divergência

R B.M. - 3
34 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

na significação dos têrmos "direto" e "indireto" do que em quaisquer outros


da extensa literatura da taxação".
Podemos dizer, mais acertadamente, que os impostos diretos são im-
postos sôbre a receita individual, enquanto os indiretos o são sôbre 9
despesa individual.
No quadro tributário brasileiro, a distribuição dos impostos diretos e
indiretos, pela União, Estados e Municípios, é decorrente da discriminação
constitucional de rendas. Nos Orçamentos para o exercício de 1945, a situação
apresentada era a seguinte:

Impostos indiretos Impostos diretos


ESPECIFICAÇÃO
(%) (%)

União . 60,88 39,12


Estados. 82,79 17,12
Municípios 11,30 88,70

Os Municípios, de acôrdo com a discriminação, só deveriam possuir um


impôsto indireto - o de diversões públicas.
Nos Estados, predominam os tributos indiretos, sendo que a relação exis-
tente deverá acentuar-se grandemente, com a passagem do lmpôsto de Indús-
trias e Profissões, seu principal impôsto direto, para os Municípios.
A União só possui um impôsto direto, que é o de renda.
A rápida ascenção dêste impôsto no conjunto do sistema federal motivo,
a seguinte observação de JosÉ SALDANHA DA GAMA E SILVA (Tributação
sóbre a Renda e Capitalismo) : "Podemos mesmo prever para um futuro não
muito remoto a inversão completa da situação anteriormente criada pelo fisco:
os impostos indiretos, à medida que o impôsto sôbre a renda fôr crescendo,
passarão a ter importância cada vez menos fundamental nos grandes quadros
tributários. E veremos então que tais impostos subsistirão apenas para, como
já pregou Sir JosrAH STAMP, gravar de modo tôscó as pequenas rendas, arre-
dias ao impôsto sôbre a renda."
A evolução do lmpôsto de Renda, desde 1940, foi a seguinte, de acôrdo
com as respectivas previsões, em relação aos demais impostos da União:

Impostos indiretos Impostos diretos


EXERCÍCIOS FINANCEIROS
(%) (%)

1940 86,51 13,49


1941 85,18 14,82
1942 79,41 20,59
1943 67,29 32,71
1944 57,85 42,15
1945 60,88 39,12
1946 66,98 33,02
1947 67,32 32,61!
A DISCIU?-HNAÇÃO DE H.ENDAS E OS IMPOSTOS PESSOAIS 35

Os dados de arrecadação confirmam o rápido crescimento da relação


entre o Impôsto de Renda e os demais, e a sua queda a partir de 1945, em
grande parte motivada pela reforma do Impôsto de Consumo:

Impostos indiretos Impostos diretos


BALANÇOS
1%) (%)

1940 84,90 15,10


1941 82,78 17,22
1942. 70,48 28,62
1943 64,57 35,43
1944. 63,81 36,19
1945 66,78 33,22
1946* 67,26 32,74

* Dados provisório~.

Nos Estados, por várias razões, entre elas as que motivaram o excep-
cional crescimento da arrecadação do Impôsto de Vendas e Consignações, a
tendência é para os impostos indiretos, como podemos verificar pelo seguinte
quadro:

Impostos indiretos Impostos diretos


EXERCÍCIOS FINANCEIROS
(%) (%)

1940 74,55 25,45


1941 75,01 24,99
1942 77,30 22,70
1943. 79,16 20,84
1944 80,55 19,45
1945 82,79 17,21
1946 82,98 17,02

A tendência atualmente observada, na União e nos Estados, para os im-


postos indiretos, é contrária à Constituição?
O Artigo 202 da Constituição de 18 de setembro de forma alguma exclui
os impostos indiretos. Quando muito êle representa, neste particular, uma
1·ecomendação para que a tendência do nosso sistema seja para a predo-
minância dos impostos diretos. Aliás, nos Estados, com os tributos que lhes
foram atribuídos pela mesma Constituição, isto não será possível.
Ê da distribuição harmoniosa, de ambos, diretos e indiretos, que deve
ser constituído o sistema tributário ideal.
"Se, teoricamente" - diz Loms TROTABAS (Précis de Science et Lé-
gislation Financif}res) - "o impôsto direto é preferível, pràticamente, não se
pode, em absoluto, condenar o impôsto indireto".
Manifestando-se neste mesmo sentido, SHIRRAS (Federal Finance in
Peace and W ar) lembra que "Mr. GLADSTONE comparou a tributação direta
e indireta a duas sedutoras irmãs apresentadas à alegre sociedade de Londres.
Ambas dotadas de grande fortuna e nascidas dos mesmos pais, que são a
Necessidade e a Argúcia, diferentes apenas no que possam ser duas irmãs,
36 HEVISTA BnASILEIRA DOS lvluNrCÍPIOS
-------------------------- ------

isto é, uma loira, outra morena, e, quanto ao temperamento, uma franca e


desembaraçada, outra tímida e reservada. "Não posso - disse êle -- com-
preender a existência de qualquer rivalidade menos amistosa entre os admi-
radores dessas duas criaturas; e, seja devido ou não a um senso de obrigação
moral, como Ministro das Finanças, ou como membro desta Casa, sempre
achei um dever e um ato de justiça render minhas homenagens a ambas.
Assim é que me mantenho absolutamente imparcial entre a tributação direta
e indireta".
Certamente, os impostos diretos e indiretos devem coexistir, assim como
os impostos pessoais e reais. A própria Constituição, ao discrim:nar os tributos
para a União, Estados e 1\'l:unicípios, expressamente se referiu a impostos in-
diretos e reais .
O ilustre Deputado ALIOMAR BALEEIRO, em várias oportunidades, no
plenário ou na Comissão Constitucional, manifestou-se sôbre o assunto, como
cque procurando facilitar aos futuros comentadores da Constituição a compre-
ensão do verdadeiro sentido com que deve ser interpretado o assunto: " ... tôda
vez que o impôsto, por sua natureza, não revele repugnância ao caráter pessoal,
êste deve ser o preferido. O Impôsto de Consumo é, realmente, dos que mais
repugnam a essa aplicação pessoal e só em hipóteses excepcionais poderá rece-
ber tal feição". Referindo-se ao ex-Ministro SousA CoSTA, diz que "S. Excia.,
em vários casos, imprimiu caráter pessoal - repito mais uma vez - no sentido
técnico da expressão, a impostos de consumo; ao determinar que os remédios,
os medicamentos consumidos pelas casas de caridade fôssem isentos, impri-
miu cunho pessoal a impôsto tipicamente real." (Diário da Assembléia, n. 0
148, de 5/9/46, pág. 4 673.)
Vemos, assim, que o objetivo do Artigo 202 é vincular os princípios de
justiça social à tributação. A taxação deve ser orientada tendo em vista a capa-
cidade de pagar do contribuinte. Esta a regra a ser observada, sempre que pos-
sível, em todos os impostos.
A nossa legislação fiscal, portanto, deverá ter, "sempre que isto fôr pos-
sível", caráter pessoal, "no sentido técnico da expressão", e a taxação será gra-
duada de acôrdo com a capacidade econômica do contribuinte.
Esta diretriz, adotada pela Constituição de 18 de setembro, deverá ser
estudada pela próxima Conferência, a fim de ser logo executada . E, estamos
certos, encontrará o decidido apoio dos nossos técnicos fazendários, perfei-
tamente integrados nos modernos princípios que, hoje, norteiam a política
fiscal dos mais adiantados países do mundo.
o COOPERATIVISMO E A REVrrALIZAÇAO
DA ECONOMIA MUNICIPAL
-
COSTA PÔRTO
(Deputado Federal por Pernambuco)

C ADA geração brasileira deixa, às que se sucedem, a herança de um brado


pessimista: a de que estamos à beira de um abismo. Velhos Catões
irritadiços, vendo as loucuras dos contemporâneos, despeitados porque
não os chamaram para a cruzada enobrecedora de "salvar o Brasil", não es-
condem o terror angustiado de quem assiste ao sossôbro das instituições, à
decomposição do regime, ao caos da própria nacionalidade. De tão repetida,
a tese da "marcha para o abismo" perde muito de sua gravidade, porque os
espíritos menos impressionáveis acabam indagando se não estamos diante de
uma dessas frases feitas, as dolorosas "frases feitas" que tanto mal têm feito ao
Brasil, ninguém atentando mais no seu sentido, calejada a nossa sensibilidade
pela monotonia do verbalismo ôco, sem conteúdo e sem substância interna.
Como aquêles estribilhos fanhosos de "país essencialmente agrícola", de "o
Brasil espera que cada um cumpra o seu dever", ou "realidade brasileira". E
também aquela história de que ou "o Brasil acaba com a formiga ou a formiga
acaba com o Brasil", descoberta infeliz com que SAINT HILAIRE fêz maior dano
à agricultura do que a própria formiga. Porque todo o mundo passou a decla-
mar o alarma do mestre gaulês, deixando a saúva livre para devastar e destruir.

A CRISE POLÍTICA E AS OUTRAS "CRISES"

Crises, sempre as houve e, sob muitos aspectos, o clamor dos patriotas


desencantados de nossos dias pouco difere do pessimismo das gerações de
outrora, apavoradas, como as de hoje, pelos rumos da vida nacional. Será,
porém, que todo o cassandrismo contemporâneo nada mais signifique do que
a deturpação daltônica da realidade ?
Ou, em verdade, pela primeira vez, estará o Brasil marginando as bordas
do abismo?
Dê-se o natural desconto aos exageros de mentalidades hiperexcitadas,
e ainda assim é fácil concluir que a nossa situação é de extrema delicadeza.
O que avulta, em primeiro plano, é a crise política, possivelmente sem prece-
dentes em tôda a história brasileira e cujos índices mais alarmantes se entre-
mostram na ausência de partidos sàlidamente organizados, de programas reno-
vados, em dia com as necessidades ambientes, de líderes legítimos, com auto-
ridade para orientar o curso da vida política. Mas, crises políticas não são
fatôres que devam impressionar, porque não constituem exclusividade do
Brasil, verificando-se, hoje, nas principais democracias; por outro lado, pela
sua natureza mesma, são efêmeras, transitórias, e, no geral, não deixam sequer
cicatrizes no organismo das nações. O grave é que, na base de tôda esta
crise política, está o germe de crises econômicas e sociais, estas, sim, consti-
tuindo o drama real da angústia brasileira contemporânea.
38 REVISTA BnASILEIRA DOS l\Iu:siiCÍPIOS

GIGANTISMO DISTRÓFICO

Neguem-se os fundamentos do marxismo ortodoxo, cuja rigidez os fatos,


de muito, se encarregaram de esbarrondar. Mas, não se pretenda exagerar
a fragilidade do arcabouço do materialismo histórico, subestimando a influência
do fator econômico na vida dos povos. Esta influência é patente, e triste daquela
nação que fingir ignorá-la.
Há, no Brasil, grave crise econômica e os males que nos afligem traem,
todos êles, o pêso, a inflexibilidade da desordem que, dia a dia, é mais atuante.
A diagnose já foi feita de modo eloqüente e sua síntese, até pouco se
afirmara naquele "gigantismo distrófico", mercê do qual o País crescera desor-
denadamente, concentrando-se o progresso em poucos núcleos, num prodígio
de macrocefalia teratológica: a vida dos Estados convergindo para as capitais
e a vida nacional localizando-se no Rio de Janeiro e São Paulo. Em têrmos
mais precisos: as capitais hipertrofiando os Estados e as duas metrópoles -
Rio e São Paulo - hipertrofiando o País.
E como se fôra pouco, aparece RAFAEL XAVIER, o bruxo dos índices esta-
tísticos, para nos dizer que êste progresso relativo, sôbre representar o maior
perigo para o País, é ainda precário e ilusório. Aquêle adiantamento de certos
centros populosos, que tanta euforia emprestava ao nosso "porquemeufanismo"
caboclo, assentava em bases falsas e, construção arbitrária e artificial, não
estamos longe do dia em que tudo voe pelo ar, desnudando a extrema insta-
bilidade da organização nacional.

A FUNÇÃO BÁSICA DO MUNICÍPIO

Do exame da situação - esta, sim, a autêntica "realidade brasileira"


nasceu a orientação municipalista, tendente a estabelecer novos roteiros no
esfôrço em prol da grandeza do Brasil.
Um ponto doutrinário, revolucionàriamente defendido por ARTUR BER-
NARDES na Constituinte: "A Federação é uma ficção, o que existe é o Muni-
cípio". Se na organização social a base é a família, no organismo político o
Município é o elemento nuclear, a célula do edifício nacional.
Cuidar do ajustamento dos Estados ou da União é tentar obra de
cumieira. Todo trabalho de alicerçamento há de partir tendo em vista o
Município, e no dia em que todos os Municípios estiverem reajustados, a Nação
automàticamente entrará no regime de consolidação e de segurança.
O primeiro passo, a discriminação de rendas, a que corresponderá, como
contra parte, a redistribuição de encargos.
O sistema tributário brasileiro abundava nos erros doutrinários da ori-
entação que "desconhecia" os Municípios, aos quais, na arrecadação, sàmente
cabiam migalhas.
E porque não dispunham de rendas, entregues à sua própria sorte, o
resultado era viverem às expensas do Estado, anulada a vida local sem hori-
zontes e sem perspectivas, o que acarretava o êxodo para as Capitais e o
drama angustiante dos nossos dias: excesso de concentração demográfica nas
grandes cidades, enquanto o interior se despovoava, diminuindo a produção,
insuficiente para atender às necessidades do próprio consumo interno.

REVITALIZAÇÃO DO MUNICÍPIO

A nova orientação que, felizmente, vai dominando as elites dirigentes,


visa, precisamente, à revitalização dos Municípios, tornando-os centro da vida
nacional. Pela ampliação dos seus recursos tributários; pelo fortalecimento
0 COOPERATIVISMO E A REVITALIZAÇÃO DA CCONuNlXA ]'vfUNICIPAL 39

da vida local; pelo aproveitamento do potencial econômico que jaz, inútil;


pelo planejamento das atividades construtoras, que, econômicamente, asse-
gurará o progresso do País e, politicamente, representará o clima para a reali-
zação da democracia, cujo mecanismo íntimo pressupõe a independência dos
cidadãos, dentro daquele "mínimo de bem-estar material" da doutrina de
ToMÁS DE AQUINO.

A SOLUÇÃO COOPERATIVISTA

E é então que aparece uma fôrça capaz de oferecer ao plano mumctpa-


lista o melhor apoio para a consecução dos seus objetivos: o Cooperativismo.
Deixemos de parte o aspecto propriamente doutrinário da questão, aliás
dos mais sugestivos. A análise da história mesma do movimento renovador,
através do qual vinte e oito humildes tecelões inglêses, acossados pela fome e
pela miséria, operavam a maior transformação na história econômica do mundo.
E aspectos outros, diríamos de ordem pragmática, que nos mostrariam como
países de economia precária lograram, pelo Cooperativismo, dominar as crises
que os assoberbaram. A Dinamarca, refazendo-se dos golpes do imperialismo
de BISMARCK, a Holanda, cicatrizando as feridas do colapso do seu imperia-
lismo, o Império Britânico, onde a aventura de "Toad Lane" resultou no mi-
lagre da organização cooperativista contemporânea.
E finalmente, a observação de que, antevisto o término da guerra, dis-
cutiam os técnicos não qual o meio de restaurar o equilíbrio econômico da
Europa, mas como o Cooperativismo deveria ser utilizado na obra de recupe-
ração, tanto estavam certos de que a doutrina da cooperação era o único
sistema capaz de salvar o mundo do descalabro e do caos.

CRÉDITO, MAQUINARIA, DEFESA DA PRODUÇÃO

O que nos interessa, assim, é evidenciar quanto o Cooperativismo pode


servir ao programa de revitalização do Município, fortalecendo-lhe a econo-
mia e ajudando a atividade particular na obra de bem-estar coletivo.
De início, focalizemos um aspecto da economia municipal, em que o Coope-
rativismo pode exercer papel relevante.
Uma verdade que terá acudido a AcÁciO ou LA FALISSE é aquela segundo
a qual o desenvolvimento do Município e, portanto, sua riqueza, seu progresso,
o meio de evitar o êxodo da população, está, primordialmente, no aumento
da produção e, de modo especial, da produção agrícola. A vida, mesmo das
cidades, gira em função da atividade rural, que alimenta o comércio e dá
margem ao espraiamento de outros misteres liberais, ligados à movimentação
monetária resultante do jôgo livre das transações.
Ora, a produção vem caindo assustadoramente e não falta quem se
apresse em condenar o homem do campo, acusado de inércia, mandria e falta
de iniciativa. Mas, ninguém quer ver que muito dêste conformismo e dêste
cruzar de braços resulta da falta de crédito organizado no País. Diremos
melhor, da falta de crédito puro e simples. Quando se estuda a organização
argentina, por exemplo, mais claro reponta o imenso atraso do quadro rural
brasileiro .
Em primeiro lugar, o crédito é uma ilusão, mesmo nos moldes judaicos
a que se habituou a mentalidade onze~:!ria entre nós.
Mesmo êste crédito bancário, comercial, extorsivo, não existe como norma
geral. E quando aparece um "amigo do povo", abrindo os cordões apertados
de suas bôlsas devoradoras, é para empréstimos a curto prazo e juros elevados
40 REVISTA BRASILEIRA DOS MuNICÍPIOS

que, não raro, repugnariam ao próprio SHYLOCK: 5o/o ao mês, quando não
a compra da mercadoria em fôlha .
Porque aos "bem-pensantes" do nosso teoricismo rural soa como literatura
e fantasia o falar-se em financiamento a juros de 2 o/o ao ano, obedecendo
a prazos que oscilem de acôrdo com o ciclo vegetativo da lavoura ...
Suponha-se, porém, para argumentar, que o crédito surgisse, organizado,
mercê de instituições, como as há no País: carteira do Banco do Brasil, Banco
da Borracha, C. C. C., etc.
A solução seria ainda ilusória. Porque o crédito agrícola ou é descen-
tralizado ou deixa de ser crédito. O homem do campo não deixa seu "habitat"
para demandar os grandes centros em busca de financiamento. Mesmo quando
o fizesse, seria inutilmente, dado que, deslocado do seu meio, iria encontrar
ambiente estranho, onde seria um "bárbaro", que fala linguagem diferente e
incompreensível àqueles que o escutam.
O Cooperativismo realiza, então, o milagre da mútua compreensão. Seus
dirigentes são homens recrutados no próprio meio, conhecedores das necessi-
dades do Município e sabendo, através de longo trato, a idoneidade moral dos
mutuantes. As portas da cooperativa, dêste modo, não se fecharão ao reclamo
dos pequenos e humildes e, mercê da ajuda financeira, os fracos se tornarão
fortes e a solidariedade efetuará prodígios, na união de esforços díspares para
o mesmo objetivo comum.
Isto no setor do crédito que, entretanto, não esgota tôda a complexidade
do fenômeno da produção agrícola.
Há, em verdade, que pensar em fatôres subsidiários do crédito agrícola
e aparece, em primeiro plano, o problema de facilitar a aquisição de material
agrário, desde os apetrechos do amanho do campo, até o aprovisionamento de
adubos e inseticidas necessários às atividades da lavoura.
É a segunda fase da ação da cooperativa. Restará, ainda, cuidar de de-
fender a produção.
É evidente que nada adiantará oferecer crédito ao agricultor se se deixa
que a exploração do intermediário tire a parte de leão na venda do material
agrário, ficando com o melhor dos seus possíveis lucros. Nem o crédito será
eficiente se se deixa que as pragas dizimem a lavoura, anulando os suores
do lavrador.
Muito menos se fará obra de ajuda ao agricultor se se permite, nas
colheitas, que o jôgo do comércio provoque a queda dos preços, despojando o
produtor do fruto das suas canseiras.
O fenômeno é assaz conhecido para exigir amplas explanações. Na época
das safras, os mercados se retraem, manipulando estranhas baixas do produto
que só atingirá cotações apreciáveis quando a mercadoria saiu das mãos do
lavrador para os armazenistas, prejudicando, ao mesmo tempo, o produtor
que vendeu barato e o consumidor que comprou caro.
Auxiliar a agricultura sem defender a produção é armadilha desonesta:
antes deixar o homem do campo sem ajuda porque, pelo menos, não despenderá
seu tempo em uma aventura que nenhum proveito prático lhe traz.
E concluído o ciclo do fenômeno da produção - animando-a pelo crédito
e defendendo-a, após obtida - passará o Cooperativismo a olhar para o con-
sumidor, principalmente da cidade, através das cooperativas de consumo, único
meio de evitar a ganância do comércio sem escrúpulos, contra o qual tem sido
impotente a ação dos governos, através dos paliativos dos tabelamentos artifi-
ciais que não colimaram nenhum resultado objetivo.
O CooPERATIVISMO E A REviTALIZAÇÃo DA EcoNOMIA MuNICIPAL 41
------

OUTROS TIPOS DE COOPERATIVAS

Produção e consumo, entretanto, não esgotam a riqueza com que o Co-


operativismo se apresenta como fórmula capaz de solucionar os diversos aspec-
tos da vida municipal.
Busque-se qualquer uma dessas atividades que, no comum, reclamam as
vistas das Municipalidades, e aí o Cooperativismo pode exercer influência
eficaz, coordenando e unificando esforços visando ao bem-estar coletivo.
São as cooperativas de energia elétrica, as de melhoramentos urbanos em
geral, de abastecimento, de transportes, estabelecida a verdade de que não
há setor econômico legítimo em que o Cooperativismo não pcssa trazer seu
concurso.

COMO ORGANIZAR UMA COOPERATIVA

E esta coisa tão estranha, esta vara de condão indicada para resolver
os problemas dos Municípios, nada tem de complicado, pois Cooperativismo
é bom senso, trivialismo, negação de aparato e exterioridades.
Seu mistério é o mistério das coisas simples, singelas como a própria
verdade.
Que é uma cooperativa ? Como organizá-la ?
Corra-se à legislação e à praxe, dispensando-se, mesmo, a lição dos dou-
trinadores. Fenômeno de órbita federal, o Cooperativismo no Brasil é regu-
lado por lei da União, cabendo seu disciplinamento ao Serviço de Economia
Rural do Ministério da Agricultura, órgão supremo de contrôle do movimento.
A legislação específica voltou a ser o Decreto n. 0 28 239, revigorado e modi-
ficado pelo Decreto-lei n. 0 581, depois que o govêrno judiciário revogou a
legislação do govêrno ditatorial, o Decreto-lei n. 0 5 893.
Quando ocorre, nos Estados, a criação de órgãos de assistência - exis-
tentes em muitas Unidades da Federação - é usual que o S. E. R. lhes
delegue poderes de fiscalização, mercê de acordos firmados entre o Ministério
e os governos estaduais.
É, pois, o Decreto n. 0 22 239 que nos fornecerá elementos para organi-
zação de uma cooperativa.
Associação livre, basta que se reunam sete pessoas e obedecidas as exi-
gências legais - de ato constitutivo, estatutos, e escolha dos corpos dirigentes
- ter-se-á organizada a cooperativa, cujos objetivos são os mais amplos, desde
que não defesos por lei.
As sociedades cooperativas apresentam características próprias entre as
quais vale focalizar as seguintes:
Número ilimitado de sócios, respeitado o mínimo legal. Igualdade abso-
luta de todos os sócios, pois, sociedades de pessoas e não de capitais, o voto
independe do número de quotas subscritas, dentro daquele princípio de
HoWARTH: "one man, one vote".
Distribuição de sobras, em fim de exercício, não de acôrdo com o capital,
mas, tendo em vista as operações - ativas ou passivas - realizadas com a
sociedade, dentro da norma rochdaleana de que os resultados devem ser parti-
lhados com os que mais contribuíram para a riqueza da sociedade.
Estabelecendo o princípio do voto pessoal, o Cooperativismo realiza a
perfeita democracia econômica, porque põe todos no mesmo pé de igualdade,
não permitindo, como nas sociedades anônimas, o predomínio daqueles que
detêm maior parte do capital.
Cada sócio, para entrar na cooperativa, deve subscrever, no mínimo, uma
quota parte, cujo valor é fixado nos Estatutos.
42 HEVISTA BRASILEIRA nos MuNICÍPIOS

A legislação brasileira proíbe as cooperativas organizadas em têrmo de


religião ou de nacionalidade, não havendo, assim, entre nós, o tipo de "coope-
rativas confessionais", abrangendo apenas membros de determinada religião
ou seita.
Há, entretanto, a "cooperativa fechada", diríamos em têrmos de "profissão"
ou de limites territoriais, neste sentido em que certos tipos de organizações
só admitem elementos de uma classe e a "área de ação" exclui aquêles que
não se acham nos limites territoriais especificados nos Estatutos.
Assim, uma cooperativa agrícola terá apenas agricultores. Uma de fun-
cionários públicos, terá somente funcionários, e organizada uma cooperativa
cuja área de ação se circunscreva aos limites do Município, dela não pode
fazer parte quem more noutro Município.
A organização de uma cooperativa é, pois, muito simples. Reunidas em
assembléia, sete pessoas, no mínimo, elaboram o ato constitutivo, aprovam
os estatutos sociais, elegem sua diretoria e conselho fiscal e, após o registro
no cartório competente, pleiteiam o registro administrativo no S. E. R.,
funcionando, então, legalmente.
E o trabalho se torna tanto mais cômodo quanto em quase todos os Esta-
dos existem órgãos especializados, cujos técnicos orientam a organização das
cooperativas, aguardando, apenas, a solicitação dos interessados.

CONCLUSÃO

Todos aquêles que quiserem fazer do municipalismo uma realidade viva,


notadamente os prefeitos, autoridades públicas e demais homens de respon-
sabilidade, podem trazer contingente fecundo à obra de revitalização dos
Municípios, propagando, nas respectivas comunas, a semente do Cooperati-
vismo. É a grande solução. Não há outra que se lhe possa equiparar.
Unindo os fracos para torná-los fortes, pode o Cooperativismo realizar
aquêle ideal de fazer que os pobres sejam cada vez menos pobres. A fórmula
da cooperação é a fôrça que dará energias novas ao nosso quadro econômico,
transformando-se na esperança daqueles que sabem "que há um mal social
a corrigir e uma revolução social a evitar".
,
O MUNICIPIO E A IMIGRAÇAO
-
CARLOS DODSWORTH MACHADO

N A ocasião em que se consagra como empreendimento vitorioso a idéia.


da revitalização dos Municípios, como imperativo de progresso na-
cional, cumpre alinhemos algumas considerações sôbre a participação
do Município no problema imigratório brasileiro.
País em que as grandes extensões de território representam formidá-
vel óbice à expansão econômica e à distribuição equitativa da população, im-
põe-se, entre nós, sublinhar a importância das unidades administrativas lo-
cais, únicas capazes de conhecer e sofrer, em tôda a intensidade, as neces-
sidades e influências regionais.
Representam, assim, os Municípios as antenas de uma administração
racional e esclarecida, na sondagem das necessidades do País. Já a voz
autorizada de ALBERTO TÔRRES taxava de superficial o empreendimento
nacional que não se fundamentasse positivamente no conhecimento perfeito
das necessidades locais. E, realmente, tôda atividade do Estado, que não
estender as suas raízes aos mais profundos rincões do território, levando
na devida conta a heterogeneidade do meio, físico e social, está fadada, de an-
temão, a gerar desajustamentos inevitáveis, redundando em fracasso, e o que
é pior, em desperdício de tempo, energias e recursos financeiros.
Os Municípios constituem, pois, excelente instrumento do Estado, não
só para a realização dos seus propósitos de govêrno, como para o contrôle
efetivo de suas providências, permitindo-lhe avaliar com segurança o grau de
benefício realmente causado ao País.
Reconhecida e proclamada tem sido a pobreza demográfica de nossa
terra. O problema se torna ainda mais agudo em face da carência de mão-
de-obra necessária para restabelecer o equilíbrio econômico da Nação.
É uma contingência que não pode ser solucionada sem o apêlo imediato
à mão-de-obra estrangeira, pois qualquer solução contemporizadora, a par de
não obviar a falta de braços no País, viria agravar uma situação que poderia
ser remediada em prazo relativamente curto, pela imigração de pessoal conve-
nientemente selecionado, canalizado para as profissões e misteres onde mais
se faz sentir a carência de mão-de-obra.
Numa época em que o progresso das Ciências Sociais permite um melhor
conhecimento dos mecanismos da sociedade, e em que a organização do Estado
coloca nas mãos do Poder Público meios suficientes para prover o desenvolvi-
mento da riqueza e bem-estar geral, não se pode esperar que a distribuição
da população continue a fazer-se empl.ricamente, subordinada a outros inte-
rêsses que não os de uma decisiva e racional política demográfica .
Nos primórdios de nossa vida republicana dava-se mais atenção ao
problema do que agora, embora, atualmente, se revista êle de muito maior
gravidade. O descaso pela imigração significará mais uma oportunidade per-
dida para revitalizar a economia nacional através de uma sadia importação
de braços cujo trabalho venha aumentar a produção, fazendo baixar os preços
ao nível do poder aquisitivo da população.
Efetivamente, em 1890, procurava o Govêrno Federal, ao mesmo tempo
em que regularizava o serviço de introdução e localização de imigrantes, incen-
44 REvisTA BRASILEIRA DOS MuNICÍPIOS

tivar a vinda de novos elementos de trabalho, pagando-lhes a passagem e esta-


belecendo o prêmio de 100 000 francos às emprêsas de navegação que trans-
portassem 10 000 imigrantes por ano, para o País.
Adotando sábia política descentralizadora, decretos posteriores ao ano
de 1890 transferiram aos Estados os serviços de imigração e colonização,
correndo por conta dêstes as despesas correspondentes. Instituíram-se em Gê-
nova e Lisboa entidades federais especialmente incumbidas de fiscalizar os
contratos de introdução de imigrantes, funcionando em articulação com os
agentes consulares brasileiros.
No ano de 1896, na presidência do Sr. PRUDENTE DE MORAIS, foram
abertos créditos equivalentes a Cr$ 26 096 840,67 para a introdução de
imigrantes .
Nesse mesmo ano, transferiram-se para o Ministério da Indústria, Viação
e Obras Públicas os encargos da antiga Inspetoria Geral de Terras e Colonização,
órgão federal a quem estavam afetos os serviços relacionados com a Imigração
e Colonização, no Brasil.
Em 1907, sob a presidência de AFONSO PENA, ficou estabelecido "que o
povoamento do solo nacional seria promovido pela União mediante acordos
com os governos estaduais, emprêsas de viação férrea ou fluvial, companhias
ou associações outras", imprimindo-se, pois, aos serviços de imigração e coloni-
zação novas diretrizes. Um novo órgão federal, a Diretoria Geral do Serviço
de Povoamento, ficou encarregado de encaminhar e inspecionar os trabalhos
concernentes aos serviços de imigração e colonização. Em 1909, criado o Minis-
tério da Agricultura, Indústria e Comércio, passou a Diretoria Geral do Povoa-
mento do Solo a integrá-lo. Só em 1931 foi êsse órgão transferido para o
Ministério do Trabalho com o nome de Departamento Nacional de
Povoamento.
O interêsse pelo problema imigratório prosseguiu, embora não mantivesse
o mesmo ritmo do govêrno de PRUDENTE DE MoRAIS, promulgando-se em 1911
o novo Regulamento para o Serviço de Povoamento .
Os créditos para as despesas com a imigração e colonização, no Brasil,
eram de ordem de 3 milhões de cruzeiros por ano .
Ainda o orçamento de 1921, no govêrno EPITÁCIO PESSOA, autorizou o
Govêrno a despender aquela quantia com os imigrantes europeus que fôssem
agricultores, devendo os Estados que os recebessem concorrer com a metade
das despesas .
Nesse mesmo ano de 1921, surgiu a primeira tentativa séria para regular,
em lei, a entrada de estrangeiros em território nacional.
Em 1924, o orçamento consignava a importância de 10 milhões de cru-
zeiros para o transporte de imigrantes europeus para o Brasil. Conforme a
orientação que vinha sendo seguida, deveriam os Estados beneficiados com a
sua vinda concorrer com a metade das despesas feitas pelo Govêrno Federal.
Em 1934, as atribuições relacionadas com a introdução de estrangeiros na órbita
federal, repartiam-se no Brasil entre os Ministérios do Trabalho, que ficara
com as atribuições propriamente de imigração, e o da Agricultura, encarregado
da parte de Colonização .
Em 1938, criou-se no Ministério da Justiça uma Comissão Especial para
estudar as leis necessárias para regular a entrada, fixação, naturalização e ex-
pulsão de estrangeiros. Dos trabalhos dessa Comissão resultou o Decreto-lei
n. 0 406, de 4 de maio de 1938, que criou o órgão supremo de imigração no
Brasil, o Conselho de Imigração e Colonização .
O Decreto n. 0 3 010, de 20 de agôsto de 1938, regulamentou a lei anterior,
instituindo um verdadeiro sistema de órgãos incumbidos de atuar no problema
imigratório, disseminados pela administração pública federal.
O MUNicÍPIO E A hucnAÇÃO 45

Como órgãos principais de imigração, passaram a existir: o Conselho de


Imigração e Colonização, incumbido de traçar as diretrizes da política imigra-
tória brasileira; o Departamento N acionai de Imigração, do Ministério do
Trabalho, encarregado de executar as providências requeridas pela introdução
de imigrantes no Brasil, e ainda, de resolver os problemas relacionados com
as migrações internas de trabalhadores nacionais; a Divisão de Terras e Colo-
nização, do Ministério da Agricultura, incumbida das atividades executivas de
colonização do território nacional.
Muitas outras repartições federais, contudo, estão envolvidas no assunto.
Assim, a Divisão de Polícia Marítima, Aérea e de Fronteiras, no Ministério da
Justiça, fiscaliza o desembarque e a situação legal do estrangeiro; a Divisão de
Passaportes, no Ministério das Relações Exteriores, decide sôbre a concessão
de vistos em passaportes de imigrantes; o Serviço de Saúde dos Portos, no
Ministério da Educação e Saúde, trata das condições de saúde dos que preten-
dem desembarcar em território nacional. Embora, teoricamente, o sistema
estivesse bem estruturado, durante os nove anos em que se tentou fazê-lo fun-
cionar, inúmeras dificuldades de ordem prática obstaram e tornaram infrutíferos
todos os esforços para obter dêle um rendimento apreciável. De há muito a
experiência estrangeira se inclinara no sentido inverso, unificando, com bons
resultados, os serviços relacionados com a imigração e a colonização. Os nossos
próprios legisladores reconheceram a excelência da unificação, inscrevendo
entre os sábios dispositivos de nossa Carta Magna essa indispensável unidade.
Para surtir o efeito desejado, entretanto, deve essa providência prever a
articulação, não só dos Estados com o Govêrno Federal, tal como o fizeram
as leis anteriores, mas também dos Municípios, fazendo-os contribuir, na me-
dida de suas possibilidades, para a melhor solução do problema imigratório
na conformidade dos interêsses nacionais.
Uma das formas da participação dos Municípios na imigração traduzir-se-á
nas informações acêrca dos imigrantes que receberam ou vierem a receber.
Outra, igualmente valiosa, será a sua indispensável colaboração na organização
de um rigoroso cadastro das necessidades regionais de mão-de-obra. Será na
base do seu testemunho que poderemos apreciar concretamente o acêrto ou
desacêrto da política imigratória que se adotar.
A importância dos Municípios em face da imigração não tem sido devida-
mente avaliada. A sua ininterrupta intimidade com as populações rurais de
imigrantes será substancial para confirmar, ou não, a qualidade dos imigrantes
importados. O depoimento municipal acêrca da capacidade de trabalho, com-
portamento, aculturação e assimilação dos alienígenas trará novas luzes para
o estudo e realização de uma imigração cada vez melhor.
Cabe, agora, aos responsáveis pelos destinos da Nação incluir nas dire-
trizes que pretendem imprimir à imigração as necessárias providências para
que seja realidade a participação dos Municípios nesse problema nacional, de
vital importância para o soerguimento econômico do Brasil.
IMPÔSTO T'ERRITORIAL
CRESO TEIXEIRA
(Do quadro de técnicos do D A S P.)

I
NCIDINDO sôbre bases fixas e estáveis e ligando intimamente o contri-
bumte ao Fisco, êsse tributo está situado entre os chamados impostos di-
retos e, nessa qualidade, apresenta as vantagens que os caracterizam e
lhes dão a preferência nos sistemas tributários locais, embora não constitua
um dos impostos básicos pelo volume da arrecadação. Recaindo sôbre um
valor intrinseco e socialmente determinado, o impôsto territorial permite fàcil-
mente estabelecer o mínimo de subsistência, pois tem em conta um meio seguro
de avaliar a capacidade tributária do contribuinte, que é a condição de
proprietário .
De arrecadação cômoda e oferecendo pouca margem à evasão, pode, pela
progressividade, preencher uma função social das mais proveitosas, comba-
tendo o latifúndio onde quer que se encontre como um empêço ao desen-
volvimento econômico e à realização da justiça social.
Nos países onde o sistema tributário já atingiu certo grau de adianta-
mento, a tendência é para gravar tão apenas o solo, independentemente das
melhorias que porventura apresente. Procura-se dessa maneira eximir da
incidência os capitais incorporados à terra, que podem ser gravados por outro
tipo de tributo, como o predial ou sôbre a produção. 1
Se há de fato duas bases onde recair a incidência, dois devem, em conse-
qüência, ser os fributos a atingi-las.
Dêsse modo, pelo impôsto territorial não deve ser gravada:

a) a renda bruta ou produto da terra, mas tão só a renda líquida, que


se obtém excluindo daquela os gastos de produção;
b) as melhorias, como edifícios, canais, etc .

Pode-se, nesse caso, considerar a constante valorização que experimenta


a terra, o que nem sempre ocorre com as melhorias que, por vêzes, perdem
o seu valor enquanto a terra aumenta cada vez mais o seu. É o princípio da
isenção de melhoria que, ensejando nova conceituação para o tributo, veio
traçar roteiros definitivos para a sua regulamentação.
A propósito da sua incidência na área urbana, a Conferência Nacional ·de
Legislação Tributária recomendou conclusões que se conformam perfeita-

1
Não se deve em princ1p10 condenar o tributo que incide sôbre a produção, o qual
é perfeitamente suportável onde a ocorrência tributária não entrave a circulação da produção
e pois a formação de riquezas.
lMPÔSTO TERRITORIAL 47
----~ ---~--- --------------- -~-- ----

mente com os pontos de vista que aceitamos e refletem, nas suas linhas gerais,
a boa doutrina sôbre a matéria. Segundo essas conclusões, o impôsto territo-
rial urbano, que deve recair sôbre os terrenos não edificados existentes no
perímetro urbano e suburbano das cidades, vilas e povoações, pode gravar
ainda:

a) os terrenos edificados - quando, a critério da administração muni-


cipal, a área não construída não guardar conveniente proporção com
a área edificada;
b) os terrenos em que houver construção paralisada por mais de seis
meses;
c) os terrenos em que houver edificações em ruínas, interditadas ou
condenadas;
d) os terrenos em que houver edificação inadequada à situação e dimen-
sões respectivas.

Sôbre êsse tributo, que é calculado em regra sôbre o valor venal da


propriedade não edificada, atenta naturalmente a respectiva situação, reco-
mendou a referida Conferência que não excedesse o gravame a taxa de 5 %
dêsse valor. A consideração do princípio da isenção de melhoria implicou a
separação de valores na avaliação para fins tributários do valor total do
imóvel. E o solo, que particularmente interesse no caso, pode ser encontrado,
não apenas recorrendo ao preço de venda, ou à média dêsses preços dos ter-
renos mais próximos, mas conforme um método racional seguro, a que nos
reportaremos no momento oportuno.
Cumpre acentuar que, mesmo de acôrdo com a referida Conferência,
outras contribuições são admitidas segundo a natureza ou ausência de tapumes
e melhoramentos das vias públicas, podendo mesmo o impôsto ser agravado
em virtude de exigências de caráter higiênico ou urbanístico.
O impôsto territorial afeta diretamente o contribuinte e apresenta carac-
terísticas bastante definidas. Para chegar ao ponto defendido pela moderna
doutrina, passou por formas que assinalam os marcos da sua evolução. De
início, era a sua arrecadação baseada na superfície da propriedade e na exten-
são do solo ocupado e o gravame incidia sôbre cada unidade de medida; depois,
segundo um conceito mais racional, que era o dos atributos da sua base, a
arrecadação passou a fundar-se na qualidade da terra e a gravar o valor da
propriedade, firmando assim o conceito da qualidade das terras. Muitos países
cultos, e entre êles o Brasil, adotam êsse critério. 2
A forma por que aparece em seu último estágio, porém, é a que manda
gravar apenas a renda líquida. É um critériO mais justo, pois que deduz da
renda bruta os gastos de produção, que devem ser objeto de outro tributo.
O impôsto territorial diferencia-se, portanto, em nossos dias, do tributo sôbre
a terra, que compreende os lucros agrícolas e a própria renda do trabalho
realizado em seu cultivo, afetando assim também o colono e o trabalhador
rural.

2
Houve também a idéia de gravar todo o produto da terra, ou seja, a sua renda bt uta,
de que se tem um exemplo nos dízimos.
48 REVISTA BBASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

Mesmo independente do esfôrço do homem, a terra tem um valor intrín-


seco que aumenta pela influência de fatôres sociais, configurando dêsse modo
um crescimento espontâneo da riqueza. Precisamente a ocorrência de cir-
cunstâncias como esta tem suscitado dúvidJ' quanto à equidade da imposição
das propriedades que não têm rendas e o p'ossível fim social que envolva, como
estímulo, a colonização das terras que, embora aptas a produzir, estejam
relegadas ao abandono, à espera de um aumen~o de valor que compense o
investimento de capitais. Critica-se desfavoràvelmente a sua incidência sôbre
as propriedades nessas condições, pelo fato de nenhuma renda produzirem.
O Distrito Federal adota um critério de isenção que assume destacada
significação pelos resultados econômicos e sociais que podem produzir, con-
siderando exonerados dos impostos territoriais os terrenos situados na zona
rural que tenham pelo menos metade da respectiva área útil efetivamente
cultivada. Por fôrça do artigo 31, V, alínea a, da Constituição, estão igualmente
isentos do pagamento dêsse tributo os terrenos pertencentes à União, aos
Estados e aos Municípios.
A ADMINIS1'RAÇAO MUNICIPAL -
FUNÇÕES MUNICIPAIS E ELEMENTOS DE ORGANIZAÇAO
SERVIÇOS MUNICIPAIS- DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO
DO MUNICÍPIO - AÇÃO SOCIAL

FUNÇÕES MUNICIPAIS E ELEMENTOS cutado com continuidade por Prefeitos su-


DE ORGANIZAÇÃO cessivos, traz mais benefícios ao Município
do que uma série de programas muito boni-
A administração municipal só poderá tos, mas muito diversos, aos quais a rela-
ser considerada eficiente, quando estiver tiva brevidade dos mandatos dos Prefeitos
orientada no sentido do bem-estar coletivo não permita dar execução. Um dos grandes
e do progresso do Município. males do Brasil tem sido a descontinuidade
A eficiência de administrativa. Não
um Govêrno Muni- raro, no afã de se
cipal é comumente notabilizarem, rele-
avaliada pelos servi- ÃO faz muitos anos, a Associação Braw gam os administra-
ços e obras que têm
ligação direta com
N sileira de Cimento Portland entendeu
que seria útil organizar um manual de
noções essenciais de Administração Municipal,
dores ao abandono
e, às vêzes, até à
o público (funcões a fitn de colocá-lo à disposição dos Prefeitos destruição, as cria-
externas) , dand~-se Municipais, no Brasil A iniciativa teve o ções de seus ante-
pouca atenção aos apoio franco do Cí1 culo de Estudos Munici- cessores. Nada mais
pais, do Rio de 1 aneiro, cabendo ao seu Se-
demais encargos cretário, Engenheiro LUIZ PAULO DO AMARAL mesquinho. É hu-
(funcões internas). PINTO, a elaboração do plano e a redação pri- mano, e até útil, que
Embora muito co- mitiva da obra, que, depois de revista, foi cada administrador
enriquecida com contribuições do corpo técni-
mum, é êsse um co daquela Associação e dos Engenheiros PLÍ-
procure suplantar o
modo inteiramente NIO ANTÔNIO BRANCO (Diretor da Divisão antecessor, mas a
errôneo de julgar de Serviços de Utilidade Pública, da Prefei- maneira digna de o
uma administração, tura de São Paulo) e ANTONIO PONZIO lPPO- fazer nunca será des-
LITO (Diretor de Engenharia do Departamen-
pois o bom anda- to das Municipalidades do Estado de São truir-lhe o trabalho,
mento das funcões Paulo) senão aperfeiçoá-lo
externas depend~ de Assim modificado e valorizado, o traba- e acrescentar-lhe no-
perfeita organizacão lho foi divulgado no órgão oficial da Associa- v as criações.
ção, e representa uma das melhores contri-
das funções de ~o­ buições, em idioma vernáculo, ao estudo dos Se o Prefeito
mando Sem o equi- ptoblemas pertinentes à administração muni- não recebe do ante-
líbrio funcional per- cipal. cessar um programa
Não podendo, agora, ilanscrevê-lo tUl ín-
feito de todos os tegra) como seria do seu agrado, à vista da ex- claramente delinea-
seus Órgãos, não po- tensão dv amanual", mas não querendo privar do, ou se s-e trata do
derá a administracão os seus leitores do conhecimento do precio- primeiro Prefeito de
municipal cumpr{r a so trabalho, a REVISTA BRASILEIRA DOS Município recém-
MUNICiPIOS publica, udata venia", um
sua finalidade de resumo do mesmo, respeitadas rigorosamente criado, cumpre-lhe
manter e acrescer o as idéias dos Autores estabelecer o pro-
bem-estar coletivo. Os Pzeleitos Municipais e os estudiosos grama de ação. Mas,
dos problemas dos Municípios têm, assim, es-
Múltiplas são plêndida oportunidade de apreciar os pensa-
como não pode dei-
as funções de um mentos essenciais do magnífico trabalho. xar de agir logo, de
Prefeito Municipal, uma avaliacão sen-
dependendo o êxito sata, mas " rápida,
da sua gestão: das possibilidades do
a) da organização criteriosa de um Município e das necessidades e anseios da
programa de trabalhos; coletividade, tirará os elementos orientadores
da ação a desenvolver nos primeiros tempos,
b) da execução firme do programa
enquanto se processam os estudos mais por-
adaptado.
menorizados
Com n~lação ao primeiro item, duas hipó- A função do Prefeito, muito mais do
teses podem dar-se. Se o Prefeito encontra um que parece à primeira vista, envolve princi-
programa deixado por seu antecessor, não palmente os seguintes setores:
deve, mesmo que se trate de um adversário a) administrativo,
político, mudá-lo de chôfre, salvo se se b) social,
tratar dum plano evidentemente absurdo c) econômico,
Deve, ao contrário, prossegui-lo, enquanto d) político.
lhe estuda as modificações e acréscimos. É No Setor Administrativo, há-de encarar
que um programa menos perfeito, mas exe- não só as funções internas, ou de administra-

R B M. - 4
5(J REVISTA BRASILEIHA DOS )VlU?-liCÍPIOS

ção pràpriamente dita, compreendendo: expe- gir ao se pretender alcançar os objetivos


diente, finanças, material, pessoal, estatís- visados.
tica e pesquisa, assistência legal e fiscaliza- Pelo Planejamento, que, aliás, está in-
ção; como também as funções externas, ou timamente ligado à Pwvisão, é estabelecida
seja, os serviços cuja realização interesse a norma de ação para um dete1 minado pe-
diretamente ao público, e que são, de modo ríodo.
geral: urbanismo, viação, obras públicas e Pela Organização, que visa a obter o má-
serviços de utilidade pública, segurança, saú- ximo de produção com o mínimo de esfôrÇo,
de pública e educação. grupam-se as atividades, determinam-se a:;
No Setot Social, cumpre-lhe agir no sen- ligações com o plano estrutural concebido,
tido de desenvolver a cooperação entre os estabelece-se a hierarquia funcional, as esfe-
munícipes, procurando criar nêles o espírito ras de a cão e os limites do contrôle.
associativo e de solidariedade, fatôres êsses Pel; Cootdenação, obtém-se o funciona-
de grande fôrça moral e que, conveniente- mento harmônico da organização, orientando,
mente utilizados, serão capazes de realizações incentivando, estimulando os diversos órgão';
de vulto em benefício da coletividade. In- no sentido de obter rendimento melhor, bem
cluem-se nesse plano social a criação e o como resolvendo os imprevistos inevitávei,;
patrocínio de instituicões culturais e recrea- à proporção que se apresentem.
tivas; a exposição d;s planos de trabalho, Pelo Comando, é dirigido o pessoal, que,
para atrair a simpatia e a cooperação do3 por sua vez, é um elemento de alta impm-
munícipes; a criação de revista municipal, tância na execucão das tarefas.
ou de secções permanentes nos jornais locais E, finalmen.te, pelo Contrôle, verifica-se
para uma propaganda administrativa hones- o desenvolvimento da administração, poden-
ta, em linguagem sóbria, que seja realmente do-se sabet, a qualquer momento, se as m-
a propaganda da administração e não o elo- dens dadas estão sendo cumpridas, se os re-
gio demagógico e estulto do administrador sultados parciais estão conformes ao plano
No Setor Econômico, cabe-lhe exercer estabelecido, se os objetivos visados estão
influência progressista no sentido de fa- em vias de ser atendidos, de acôrdo com a
cilitar e enc01ajar a exploração de riquezas Previsão, ou se há necessidade de alterm o
latentes, movimentando-as e fazendo-as cir- plano de ação.
cular, desenvolvendo concomitantemente o Assim, o administtador municiyal não
sistema de transportes, para permitir trocar; pode limitar-se a trabalhos burocráticos ou
compensadoras; lançando mão, enfim, de to- de secretaria, fazer pequenos set viços, a1 ~
dos os elementos que sejam capazes de desen- recadar impostos e taxas e pagar contas,
volver econômicamente a região. cabendo-lhe, ao contrário, além disso, ocu-
No Setor Político, incumbe-lhe não só par-se de uma série de outras questões de
interessar os poderes federais e estaduais no importância primada! para o desenvolvi-
desenvolvimento do Município, como desper- mento do Município
tar o interêsse dos munícipes pelos proble-
mas nacionais e pelos negócios públicos, Não é demais aos administradores mu
promovendo solenidades, visitas, conferência,; nicipais que os podetes federal e estadual,
e comemorações cívicas, colhendo impressões geralmente melhor dotados de recursos, po-
e sugestões, despertando, em suma, o interês- clerão prestar incalculáveis benefícios aos
1\/[unicípíos. Cabe aos Prefeitos despertar a
se pela vida política do Município e da
Uni8.o atenção da União ou do Estado para a exe-
cução de servh;os ou obras de interêsse locnl
Em qualquer dêsses setores, porém, a ou intermunicipal, ou, o que setá mais fácil,
ação do P1efeito, para ser eficiente, deve consegL:ir a colaborasão daqueles poderes
nortear-se por alguns princípios básicos d.~ para a realização de programas de trabalho
organização, que, segundo FAYOL-URWICK de importância para os Municípios em con-
("The Functíon of Administratíon",Papers junto.
on the Science of Adminisbation) são os se-
Por outro lado, o Prefeito tem por obt í-
guintes:
gacão moral para COFI os seus munícipcs,
1. Pesquisa fomentar e procmar obter tôrtas as facilic!a-
2. Previsão des possíveis para as iniciativas fedetais, es-
3 Planejamento taduais, de Municípios vizinhos ou de par-
4 Organização ticulares qee venham ou possam vir a bene-
5. Coordenação fici8r de qualquer modo, em futmo próximo
6. Comando ou longÍnquo, o Município que ndministra.
7. Contrôle.
O êxito de un1a gestão dependerá,
Pela Pesquisa, que compreende vário" pois, não só do ft~ncionarnenio hannônico do~
meios e envolve numerosas atividades, che- diversos setores da administração ml!nicipa1,
ga-se ao couhecin1ento dos problen1as de in- como da habilidade do adminisLrador na es
terêsse e da ordem de prefe1·ência em que colha dos principais problema~; locais a se1em
devem ser atacados, e, betn assim, pelo es- atacados, a par de uma conveniente execuçõ.o,
tudo comparativo ele outras organizações, a sem nunca se esquecer de que a sua inspi-
uma imp;essão real e objetiva dos próprios racão constante e suprema há de ser o engran-
empreendimentos. decimento P. a elevação da Pátria
Pela Previsão, é imaginado o p10vável É oportnno observar aue o andamento
desenvolvimento, notando-se as tendências dos negó~ios públicos depe~de grandementr,
e procurando-se deduzir os fatos que deverão do estado psicológico da coletivida<'!e qu''
interferir e as dificuldades que poderão sur- irá sentir as conseqüências elas atividades da
Am,nxrsTnAçXo E UnBANISMO 51

administração. É assunto assaz importante atitude que granJeia o respeito dos g'lVerna-
para que mereça alguns tópicos. clos, levando-os a meditar mais profunda-
É, em geral, impossível congregar una- mente nas suas razões antes de as externa-
nimidade de opiniões em tôrno de cada pro- rem
pósito governamental. Haverá sempre des- Outra não deverá ser a atitude do pre-
contentes, e em cada descontente uma resis- feito em relacão aos funcionários e auxilia-
tência, cuja importância dependerá da in- res da prefeitura Não basta melh01ar-lhes
fluência que êle possa, pelas suas qualidades o nível e remunerá-los bem, mas é preciso
pessoais ou prestígio social, exercer sôbre ou- convertê-los em verdadeiros colaboradores do
tros elementos da coletividade. É sempre prefeito, encorajando-os, pelo exame atento
possível, no entanto, atenuar ou desarmar de suas sugestões e pela adoção elos alvitreg
muitas dessas resistências psicológicas, e é úteis que porventura apresentem e que con-
importante fazê-lo, uma vez qne elas acabam corram para o aperfeiçoamentó dos proces-
sempre por traduzir-se em resistências con- sos de trabalho. Quem aceita uma boa idéia
cretas. que vetn de mais baixo, não se diminui;
Basta qne o administrador, ao invés de demonstra, ao contrário, superioridade de es-
encarar a coisa pública como propriedade pírito, que conquista a confiança, o respeito
particular, o que, infelizmente, é muito co- e a estima dos subordinados.
tnum, a considere, tal como é, coisa do in-
terêJse de todos, sôbre a qual cada cidadão SERVIÇOS MUNICIPAIS
tem o direito de opinar Basta que o admi- Dentre as principais funções do preiet-
nistrador, ao invés de pensar que o cargo e to, a administrativa ocup:; lugar de destaque,
a autoridade lhe conferem a onisciência e por ser aquela cujos resultados mais de perto
de supor-se o detentor do privilégio do me- interessam ao público, e cujos efeitos são
lhor rumo para cada ptoblema administtativo, por êle mais fàcilmente avalifldos.
aclmita que os demais cidadãos, êste nurn
Como ficou dito, ela pode ser divictid<1
caso, D.quêles ~outrC] po~dem ter i~éi~s mai3
em dois grupos principais:
arertadas. E tsto nao so em :re1acao as pes-
soas ilustradas da loc81idade, cot,.;o também u) funções internas, ou de adn1inistrn-
en1. rela~ão às pessoas de pequena instrução, ção p1 àpriamente dita;
mu1ta5 vêzes capazes, não obstante, de ad- b l funcões exte-rnps, ou serviços de
rniráveis intuições. inierêsse púbÜco
Estimular por todos os meios a mani- Admite-se a seguinte divisão:
festação _,da v;ntade dos m~n!cipe,.s,_ n1osha1-
Funções internas~
-se acessnrel as snas sugestoes, cnttcas e re-
p8ros e tomá-los honestamente em conside- 1. Exp2diente
racão, longe de significar diminuiç8o de au- 2 Finan.cas
toridade, é, ao contrário, a atitude 1nais sábia 3 Material
que possa ter um prefeito Porque essa ati- 4. Pessoal
tude lhe carreará infonnações e elementos 5. Estatística e Pesquisas
mais abundantes vara a elabotação do pro 6. Servicos Jurídicos
gratna adn!inistratívo e para que a soluç2o 7. Fiscalizaç8.o
de cada problema seja delineada con1 uma
visão :nais coi1lnleta dos t:;eus rn.últiplos as-
pectos e conseqiiências; porque ess8 stitnde J. Urhauism0 e Pbno Direlm
e1iminGJ8 011 1 eduzirii sensJveln1ente é1 opo- 2 Viacão. Obras Públicas e Servira-:
si~ão encoberta, sempre pedf;osa; porque da-
de Uti1id8de Pública
rá ao gnvern2nte a onortun1cJaf!e 0e conhe- 3 Segurança
c.er de modo n"~a1s rá~i?o os inteí~~ss~8 "pa;- 4 Sé!Úde Pública
t1cula1 es DOl ven1 urq f~ndos 011. na 11n1nencta
5. Educ8ção
ele o sere1n nc1as tnedidas de 1.u'terGsse geral.
h3billt?.ndo-o a cot1torr!n1· on 1edu7ir ao n1~­ Pnsse!nos. agorn, no estudo po1 me:aoli-
nhno essas lesões, corno é rlo ~eu dever; e a z2do elas diferente3 fnnções.
pronorcio~"'fl' aos pre1~1rlicados as c~nlpensa-
,.. " .
C'Oe:; TAZDRVG!S e pOS81V81S.
" . Funções Inte1'r:EJ.s
P.. . coHl(;t e l~ncan1.par sugeslÕGs úteis, rc- Em qr~_nlC1lJCr estah~1e-citnGl!to, r<?'P~H ti-
tificnr as soluções dos problernas à vista de ção, de1X11·t2rne:;1 o ou l\1unicipalidnde, os scr-
ponrleritçÕes razo{lveis, atender a teclarna- vicos de adrrünistrac:ão intern:J ~:ão nutnero
çõcs jus~tas, rninot n~· ~e cornpe~~s8r nn me~id~ sos. delicados e complc:o:os, emhorn, 8 Pll-
do posstvol cs f'l ejutzo:s pw llculares denv2- meira vis1a, p:J.reç2m lnnilo sir:10!es CJ8:ro
do:; de' 1no:licl8.s de i~lietêsse ge1 al, consii- está q11e, nA-s peqnenas orgenizncõss, toõo.s o~
LEen1 8 r11e1!1ur n1s.:1elra de o governante serviços f!cE-.tn hastnntc rer1n~~idos e nlglP1s
atrair a boa vontude e a coopcta~5o dos n1e3mo des2.narecen1., e1-:1 contrauodrP_o G"
govern2.dos. grandes orp,rlnjzações em nne todos ê1G:~ ~~
E (]ttanlo :;:nnis vêze::; revele essa e1evadn desenvolvem e S1Jbdivide;:;1 ~Lmc-nt8.n0(\
disposição de 2nimo, qun!1io mais a faça conseqilentemente, as ativicicrJcs.
conhecidnJ tanto 1naior se:;:8 a autoridade mo- De aualqpe,· fo, m8, pm·ém, n e~lO,l9n:J.­
4

ral de que se 1 evestinl perante os julisdicio- gctn arhr"!inis1Yntivo-b~~n'c:t:átic8 deve funcio-


nados para rejeitar as sugestões e críiicns 1121' cem obsoln1 2 ~ef.'_~n·nnrtl ..-'\o-is, cf'tsn c\ln-
il1aceit8veis~ ~en1 conve1·te-r cs desatentido~; trÊlrio. c 1rahoJho da repa1·ti-~õ.o será e:-rau~ti­
em inimi~os da administração É, alén1 disso) vo e jneficiente
52 REVISTA BRASILEIRA DOS JvluNICÍPI03

Deve-se, tanto quanto possível, sistema- cilmente encontrado e possa retornar sem
tizar os serviços e padronizar o material . demora ao seu lugar, depois de manuseado.
Isto pôsto, estudemos separadamente À Portaria compete abrir e fechar a re-
cada uma das funções atrás enumeradas. partição nas horas determinadas e velar pelo
asseio e conservacão do edifício e dos mó-
EXPEDIENTE - A racionalização de um veis e objetos nêl~ existentes.
serviço desta natureza exige um contrô!e
À Biblioteca compete a guarda e boa
simples e eficiente.
conservação de livros e obras de real valor,
Importantes são suas atribuições,. pois a bem como o seu registro e catalogação por
vida e a ação de um departamento são sen- títulos e por autores e a organização de fi-
sivelmente influenciadas pela eficiência dos chários que lhes facilitem a consulta. As
serviços abrangidos sob a denominação de regras principais da Biblioteconomia podem
Expediente, e que são os seguintes: ser postas em prática mesmo nas pequenas
a) Gabinete bibliotecas, pois o aprendê-Ias está hoje ao
b) Secretaria alcance de funcionários de mediana instru-
c) Protocolo e Serviço de Comunica- ção. As grandes bibliotecas deverão, ao con-
ções trário, ser confiadas a funcionários que te-
d) Arquivo nham curso completo de Biblioteconomia.
e) Portaria A cargo da Biblioteca poderá ficar o
f) Biblioteca serviço de História do Município, quando
Além das funcões propriamente admi- não na forma de crônica sistemática e conti-
nistrativas, o chefe" do executivo municipal nuada dos principais acontecimentos nêle
tem deveres de ordem política, social, ce- ocorridos, ao menos na forma elementar de
rimonial e de representação legal, que, nos guarda, relacionamento e catalogação de do-
centros de certa importância, só podem ser cumentos (jornais, folhetos, notas biográfi-
convenientemente atendidos se o prefeito dis- cas de munícipes destacados, etc ) , ou refe-
puser de um corpo de funcionários de sua rências a documentos administrativos, que
direta confiança, que o ajudem a desempe- sirvam de roteiro a futuros historiadores.
nhar, não só aquelas funções, como outras É muito comum não se obter pronta res-
de caráter especial. Êsses auxiliares com- posta nas cidades do interior a perguntas
põem o Gabinete do prefeito. sôbre quem fundou a povoação, quando che-
gou a estrada de ferro, quem foi a pessoa
Nas grandes cidades, alguns diretores que deu nome a tal rua, etc ; prova mais
de serviço necessitam, também, de Auxilia- que evidente de lamentável descaso pela his-
res de Gabinete. tória local.
A Secretaria é a dependência onde deve
ficar centralizado o serviço de correspondên- FINANÇAS - O Serviço de Finanças
cia, elaboração de atos de caráter adminis- ocupa, na administração municipal, papel de
trativo-burocrático, mecanografia, taquigra- importância capital.
fia, mimeografia, publicação de atos oficiais, Há necessidades essenciais da popula-
lavratura de contratos, coleta de dados para ção da cidade que devem ser atendidas me-
relatório, registro e índice de leis, decretos diante serviços públicos, que não podem ser
e decisões governamentais, e, bem assim, de suspensos em qualquer ocasião, e claro está
fatos, notícias e endereços que possam in- que nenhum serviço pode ser feito sem des-
teressar à administracão. Deve a Secretaria pesa, que será, no mínimo, o pagamento do
contai, também, com. um serviço de audiên- salário do pessoal que executa o trabalho.
cia e recebimento de reclamações do público. No dizer de LEONARD WHITE, "financa
Ao Protocolo e Serviço de Comunicações e administração são de fato inseparáveis", "e,
compete a recepção, a verificação (para ver para outros, o Servico de Financas é o san-
se preenchem as formalidades legais e regu- gue que alimenta t;dos os de~ais serviços
lamentares), o registro, a numeração, a dis- municipais. ·
tribuição, a movimentação, o contrôle de per- Assim sendo, o administrador municipal
manência nas diversas dependências da pre- consciente não pode deixar de considerar co-
feitura dos papéis encontrados; o registro e mo básico o problema financeiro do Municí-
a expedição da correspondência externa; a pio.
classificação e codificação de assuntos; a
manutencão de um servico de informacões A administração financeira comporta as
ao públi~o sôbre o anda~ento dos papéis e seguintes principais subdivisões:
a estatística do movimento dos papéis en- a) Orçamento
trados e saídos. b) Lançamento de Impostos e Taxas
Os registros devem, de prefe1ência, ser c) Arrecadacão
feitos em fichas, para maior facilidade de d) Tesouraria
organização. e) Contabilidade ou Escrituracão
No Arquivo são guardados e conserva- f) Serviço de Dívidas ·
dos todos os documentos e papéis que tive- g) Compras
ram solução e que devem ser preservados
para futura utilização, bem como mapas e ORÇAMENTO - A elaboracão do orca-
fotografias de interêsse do Município. Na mente nada mais é do que o ~onjunto das
sua organização, deve-se ter sempre em vista estimativas da receita e despesa, refletindo
que cada cousa tem o seu lugar e que tudo, as condições econômico-financeiras do Mu-
a qualquer tempo que se procure, seja fà- nicípio.
ADMINISTHAÇÃO E UnnANIS:I.lO 53

Em grande número de Municípios bra- Por outro lado, dispõe a Codificacão


sileiros, a elaboração e, sobretudo, a execuçã~ que a Despesa tem de se enquadrar nos -se-
orçamentária muito deixaram a desejar. Com guintes títulos: Administração Geral, Exacão
o regime de centralização administrativa dos e Fiscalização Financeira, Serviços de Segu-
últimos anos, os Governos dos Estados pas- rança Pública e Assistência Social, Serviços
saram a traçar normas orçamentárias para de Educação Pública, Serviços de Saúde
os Municípios, cada vez mais precisas e per- Pública, Fomento, Serviços Industriais, Ser-
feitas, até que o Govêrno Federal, pelo De- viços da Dívida Pública, Serviços de Utili-
creto-lei n. 0 2 416, de 17 de julho de 1940, dade Pública e Encargos Diversos.
aprovou a codificação dessas normas, disci-
Importante é que o Orçamento seja
plinando definitivamente a matéria em todo
elaborado com seriedade e critério, a fim
o País. Com o contrôle exercido pelos De-
de refletir a verdadeira situação do Muni-
partamentos das Municipalidades, ou Órgãos cípio.
análogos, a elaboração e a execução dos or-
çamentos municipais e respectiva contabili- Em conclusão, o Orçamento municipal
zação, passaram a ser feitas de forma regu- deve ser uno e ânuo, incorporando-se à Re-
lar e técnica E' êste um dos aspectos bené- ceita tôdas as previsões sôbre tributos, ren-
ficos da centralizacão administrativa dos úl- das e outras operações financeiras e incluin-
timos anos, e é d.; esperar e desejar que os do-se na Despesa tôdas as dotações neces-
Municípios jamais se afastem dos preceitos sárias ao custeio dos serviços públicos já
que já se acostumaram a observar, mesmo existentes e o do programa de ação traçado.
que venham a readquirir a plena autonomia Um orçamento bem elaborado prescinde,
antiga. É oportuno, por conseguinte, relem- salvo casos de fôrça maior, de créditos su-
brar as linhas principais da referida Codi- plementares e extraordinários, prática esta
ficação. que deve ser reduzida ao mínimo e que as
De acôrdo com ela, o orçamento muni- normas daquela Codificação procuram mui
cipal deve ser ânuo e uno. Por unidade or- acertadamente dificultar.
çamentária se entende que o orçamento deve
registrar tôdas as receitas e tôdas as despe- LANÇAMENTO - (Neste tópico, os Au-
sas previsíveis Esta regra não impede, como tores se referiam à Constituição de 1937, à
erradamente interpretam alguns, que o Mu- vista da época em que foi elaborado o tra-
nicípio tenha serviços autárquicos, isto é, ser- balho, quando a Assembléia Constituinte se
viços aos quais se dá, embora continuem a preocupava com a Constituição que viria a
pertencer ao Município, feição muito prÓ- ser promulgada a 18 de setembro de 1946
xima dos moldes das emprêsas privadas, com O aspecto doutrinário, porém, do trabalho,
administração própria dotada de amplos po- permanece inalterado. )
deres executivos e com contabilidade nos Mas, como quer que venha a ser, o pre-
moldes mais adequados às suas atividades feito terá a seu cargo o lançamento de im-
específicas. Sob a forma autárquica, pode o postos e taxas, que lhe fornecerão os meios
Município ter, por exemplo, um servico de para a execução do seu programa de tra-
bondes ou de ônibus, um serviço de águas, balhos.
um instituto de previdência social para os É importante que os tributos sejam equi-
seus funcionários É bastante, então, para tativamente distribuídos e proporcionados r•
que o princípio da unidade orçamentária se- capacidade dos contribuintes. Do contrário,
ja respeitado, que no orcamento geral do a tributação, ao invés de se constituir em
Município figurem, em números globais, as fonte de recursos para o bem da coletividade,
receitas ordinát ias e extraordinárias (opera- se converterá em fonte de injustiças, desâ-
ções de crédito) e as despesas das autarquias nimos e estorvos à produção
administrativas, apensando-se, ainda ao or- Assim sendo, a questão de lançamento
çamento geral, os orçamentos particulares deve ser cuidadosamente estudada, para que
das diversas autarquias O que importa, em o desenvolvimento econômico do Município
suma, é que a Câmara Municipal, ou o Órgão não seja tolhido, nem sejam aniquilarias as
ao qual caiba a votação do orçamento, tome iniciativas que possam fazê-lo progredir
conhecimento da totalidade dos fatos qu9
Acompanhando e completando CORNICK,
digam respeito às financas e economia do
Município · podem-se enumerar as seguintes medidas es-
senciais para um criterioso lançamento:
De acôrdo com a mesma Codificação,
a Receita se classifica em Ordinátia e Extra- a) Coleta de informações básicas
ordinária, subdividindo-se aquela em: Recei-
1. Em relação à propriedade imobi-
ta Tributária, Receita Patrimonial, Receita
liária: Nome do proprietário, for-
Industrial e Receitas Diversas. A 'Receita
ma, dimensões, área, confronta-
Tributária compreende Impostos e Taxas.
ções, finalidade e valor.
A Codificação define Impostos como
sendo os tributos destinados a atender, indis- 2 Em relação às indústrias: Máqui-
tintamente, às necessidades de ordem geral nas operatrizes, aparelhos operado-
da administracão; e Taxas, como sendo os res, fôrça motriz e número de
tributos exigidos como remuneracão de ser- operários.
viços específicos, prestados ao ~ontribuinte 3. Em relacão ao comércio: Área de
ou postos à sua disposição, ou ainda, como lojas e depósitos, número de arti-
sendo contribuição para custear atividades gos armazenados ou expostos, pe~­
especiais provocadas por conveniência de ca- soal a serviço da casa, veículos
ráter geral ou de determinados grupos. entregadores de mercadorias.
54 REVISTA BRASILEIHA DOS l\{UXICÍPIOS

b) Catalogação sistemática dessas infor- sível, a arrecadação feita pelas coletorias ou


mações. postos de recebimento.
c) Análise da informação. Os valores devem, de preferência, ser
depositados em bancos de co~fia~ça, guar-
d) Aplicação justa dos resulta~os. ~essa dando-se no cofre da Tesourana somente as
análise a cada propriedade mdtvtdual
quantias necessárias para os pagamentos pró-
a ser taxada.
ximos.
e) Compilação duma lista de impostos. É óbvio que as entradas e saídas de di-
f) Realização dessa lista. nheiro devem ser imediatamente escritura-
das a fim de se poder saber a qualquer
A coleta de informações deve ser feita
mo~ento qual é a disponibilidade existente.
entre os proprietários, nos cartórios, hastas
públicas, tabeliães, editais de venda, com-
CONTABILIDADE - A Contabilidade é
panhias particulares e outras fontes que me-
tacam fé um dos melhores meios de contrôle de que
_, Recebidas as informações, é necessário dispõe o administrador Pode ser definida
fichá-las e catalogá-las, de forma que possam como sendo o registro do movimento finan-
ceiro, organizado de tal maneira que forneça
ser eficientemente util'lzadas. Após êsse ser-
vico deve ser feita a análise cuidadosa dos aos administradores municipais informações
el~~entos coletados, que fornecerá os di- precisas, que os auxiliem na elaboração de
seus programas de trabalho, assim como ele-
versos valores unitários a serem utilizados
no lancamento. É necessário muita precau- mentos para verificação constante do anda-
mento dêstes .
cão na "escolha do critério de avaliação a ser
~dotado, pois julgar o valor de propriedades Para alcancar tal objetivo, é necessária
é operação bem mais difícil do que geral- uma padronizaÇão de fichas, fórmulas, em-
penhos, balancetes, certificados, etc
mente se imagina.
Resta, a seguir, relacionar os impostos A Codificação aprovada pelo Decreto-
-lei n. 0 2 416, de 17 de julho de 1940, fixa
e notificá-los aos contribuintes
alguns modelos gerais No entanto, só a
experiência poderá determinar os tipos mais
ARRECADACÃO - A arrecadação dos im-
aconselháveis para cada caso
nestas e taxa; deve ser feita à bôca do
A Contabilidade auxilia a administra-
~ofre, nas estações arrecadadoras do Muni- cão no preparo dos dados econômicos e na
cípio.
;ua aplicação prática; para obter resultados
A arrecada cão de tributos fora das 1 e
realmente eficientes, é indispensável que a
partições a que" procedeu exator ambul~n!e,
Contabilidade seja centralizada, embora ha-
só deverá ser adotada em casos espectalts-
ja, subordinados ao órgão central, serviços de
simos
contabilidade em tôdas as repartições arre-
O sistema de arrecadação deve ser o cadadoras, pagadoras, serviços industt iais e
mais rápido e simples possível, procuran- quaisquer outros que administrem dinheiro,
do-se dar ao contribuinte grande comodidade
bens, direitos e obrigações do Município
e facilidade
Sem uma total centralização, e Impos-
A concessão de abatimento para os re-
sível manter informações completas e coe-
colhimentos feitos antes de determinado
1 entes e efetuar uma distribuição eficiente
prazo, dá, geralmente, bons resultados, ante-
dos recursos municipais.
cipando as disponibilidades de caixa.
Três são as espécies de escrituração que
A adocão de um sistema de 1 ecolhi- devem ser feitas para se ter o contrôle das
mento por ;neio de prestações mensais, mes- situacões financeiras, patrimonial e industrial.
mo para os impostos em atraso, é método  Contabilidade Financeila compreende
aconselhável, em virtude das facilidades que o registro da receita e despesa do Município
traz ao contribuinte ( Arts 21 a 30 da Codificação)
É conveniente que se autorize, a con- A Contabilidade Patrimonial (Arts. 39 e
tribuintes em mora involuntária, mediante 38 da Codificacso) compreende o levanta-
têrmos de compromisso por êles assinados, o mento geral do patrimônio, mediante inven-
recolhimento em prestações, de impostos tiirio analítico, e o registro das rendas patri-
atrasados, sustando-se cobranças judiciais moniais.
iminentes. Dessa fm·ma, o contribuinte fal- A Contabilidade lndusttial (Arts. 39 e
toso pode ir aos poucos regularizando sua
40 da Codificação) compreende, além da es-
situacão sem aoravá-la com o acúmulo de
critura cão patrimonial e financeira, um re-
mult;s, ao mes~;o tempo que a dívida ativ_a
gistro ~special para demonstracão do custo e
do Município diminui, aumentando-se cft-
do resultado das operações e de caráter téc-
cazrnente a arrecadac2.o
nico
É, também, imp~rtante repartir a arre-
Dentro das normas gerais dessa Codifi-
cadação pelo ano todo, distribuindo-a por
cação, que, como já se disse, é ~e desejar
pmíodos, a fim de não sobrecarregar detna-
sejam mantidas, há que estudar o tipo de or-
siaàrnnente o pessoal arrecadador em certas
ganização ntais conveniente para cada caso.
épocas, ficando sem o que fazer em outras.
Dessa forma a entrada de recursos para os
cofres muni~ipais se torna, também, mais
SERVICO DE DÍVIDAS - Os administra-
regular e uniforme. dores municipais, em sua grande maioria, têm
freqüentemente de enfrentar o problema de
TESOURARIA - Todo o movimento mon~­ custeai" os servicos existentes e proceder à
tário ·da prefeitura deve ser centralizado na ralizacão de o br;s indispensáveis, tendo sà-
Tesouraria, recolhendo-se diàriamente, se pos- ment.; à sua disposição recursos limitados.
AnMINISTRAÇXO E U RBANISM:O 55

Os empreendimentos de vulto não são cional de Pavimentos", destinada a planejar,


geralmente exeqüíveis com as disponibilida- financiar e executar obras de pavimentacão
des ordinárias, havendo, pois, necessidade de de ruas nas cidades e vilas do país. No Bra-
lançar mão de outros meios sil, alguns Estados têm realizado planos de
O financiamento, feito por instituição financiamento de obras municipais, com bas-
de crédito ou pela venda de obrigações, é 3 tante sucesso. Neste sentido merecem se1
maneira mais comum de custear melhora- citados os excelentes frutos produzidos pelo
rnentos de grande importância, de execução Decreto n. 0 6 377, de 4 de ablil de 1934,
insuscetível de ser levada a efeito sob a de- do Govêrno do Estado de São Paulo, dispon-
pendência das rendas imediatas do Muni- do sôbre o financiamento de obras de águas
cípio. e esgotos para as cidades do Estado, por
As obras de instalacão de um servico cujos dispositivos já foram investidos quase
de águas e esgotos, ou a -construção de u,.;a 100 milhões de cruzeiros em obras dessa es-
grande ponte, nunca poderiam ser realizados pécie.
sob tal dependência. O mais das vêzes, o MATERIAL - Qualquer que seja o siste-
saldo disponível de dois ou três exercícios ma administrativo, não poderá funcionar con-
não seria suficiente para o custeio total das venientemente, se não dispuser de material
obras adequado.
Pretendendo-se levar a efeito um em- A aquisição, em boas condições, de ma-
préstimo para execução de obra pública, é terial de boa qualidade, traz à administra-
indispensável que se proceda inicialmente a ção grande economia .
um cuidadoso estudo do programa de execu- A função do Serviço de Material pod<.
ção da obra, seu custo, necessidade ele fundos ser definida como sendo o fornecimento de>
durante a construção e benefícios que aclvi- material mais conveniente, na ocasião dese--
rão, em conseqüência, para a coletividade. jada e na quantidade exatamente necessária.
A seguir, precisa ser estudada a forma de Assim, a administração do material tem
obtenção do empréstimo, a juros baixos, sendo de atender aos seguintes pontos:
imprescindível haver absoluta possibilidade a) Padronização
de pagamento pontual das obrigações assu- h) Aquisição
midas c) Ensaios
.~
. escolha ele intermediários ou corre- d) Almoxarifado
tores idôneos, quando necessários, é essen- e) Oficina de Reparos
cial, a fim do evitar comissões desarrazoadas, f) Serviço de Transportes
que venham onerar a operação g) Patrimônio
Obras públicas reprodutivas ou de in- Nas pequenas administrações essas fun-
terêsse geral, com planos bem estudados, cões se 1eúnem em uma só seccão ou mesmo
execução conveniente e compromissos salda- ~m uma só pessoa; nas grand~s, há necessi-
dos em dia, üarão progresso ao l\liunicípio, dade de criar divisões, secções, etc., servi ..
ao mesmo tempo que aumentarão a confiança das por pessoal especializado.
e o crédito da administração, possibilitando À Padronização compete fazer minu-
novos meios para a realizacão de outras ob~as cioso estudo das necessidades dos dive1 sos
e melhoramentos. · serviços, cotn relação a rnaterial, estabele-
Para certas obras reprodutivas, tais co- cendo, após, as correspondentes especifica-
mo serviços de água, esgotos, fôrça e luz, ções Tal procedimento redunda em apre-
etc., pode ser interessante negociar emprés- ciável economia, em virtude ela possibilidade
tiJnos com anuidades cresc0nles, dado que de compra de grandes quantidades, ao mesmo
tais serviços produzem, também, lendas cr es- tempo que permite reduzir a variedade dos
centes com o tempo estoques.
Para atender convenientemente aos com- Fixada a qualidade do material, pode
promissos assumidos, há necessidade de se ser feita a Aquisição, que obedecerá, sempre
o1ganizar u1n Serviço de Dívidas que terá que possível (Art. 46 da Codificação do De-
a seu cargo não só o planejamento das ope- creto-lei n. 0 2 116) ao sistema de concor-
rações de crédito como também as providên- rência, ou, em alguns casos, ao de coleta
cias necessárias à obtencão do n11merário in- de preços, só devendo ser utilizada a aquisi-
dispensável à satisfacã~ dos compromissos ção direta e imediata em casos especialíssi-
assumidos, dentro do~ prazos preestabeleci- n1os.
dos. Para maior economia e fiscalização, as
Como exemplo de organizações de finan- acnns1coes devetn ser centralizadas etn um
ciamento, vale a pena citar "Ob1as Sanitárias Út;ico ..órgão, que se encarregará também da
de la Nación", autarquia de caráter federal, seleção de forneceriores, a fim de só operar
que, na República Argentina, projeta, finan- cotn firmas idôneas.
cia e executa obras relativas a serviços de Antes do pagamento do material adqui-
8sua e esgotos em lod_? o país, fic?ndo, t~m­ lido, devem ser realizados Ensaios de veri-
bem, com a exploraçé\o dos se1 v1ços ate o ficação, 1-ecusando-se o n1aterial que não cor-
final recebimento dos empréstimos, e o "Ban- 1 espondet às especificações
co Nacional Hinotecá1·io Urb3no y de Obras Nos grandes centros têm os administra-
Publicas", do l'/féxico, com finalidade mais dores à sua disposição os Institulos de Tec-
a1npla do que a autarquia anterior, pois se nologia, para realização, não só dos ensaios
destina a financiar os se1 vicos de utilidade de recepcão, como também para os estudos
PÚblica municipalizados e a;_,tarquias admi- da paclr:o'nizacão.
D1strativas as n1ais variadas Cogita-se nn J\ceito o~ maier:io.1, deve ser recolhi ::lo ao
A:re,entina da criação da "Administración Na- Ahr.oxmifado, que nada mais é elo que um
56 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNicfPIOS

reservatório de compensação, que permite o O Serviço de Pessoal tem, pois, múlti-


abastecimento fácil e quase imediato de to- plas funções, que podem ser encaradas sob
dos os Órgãos de serviço . os seguintes aspectos:
Um Almoxarifado bem organizado tem a) Organização de Carreiras
que manter uma perfeita escrita de entrada b) Seleção
e saída de material, que permita, com faci- c) Aperfeiçoamento
lidade, saber o estoque geral ou detalhado, d) Estatuto
existente em determinado momento, e bem e) Registro Funcional
assim, o seu valor; além disso, necessita f) Assistência Social
manter uma estatística de consumo, que não g) Previdência Social
só facilite a organização da proposta orça-
mentária, como forneça dados para a conta- A existência de um organismo qualquer
bilidade de custo e financeira dos vários ser- pressupõe uma finalidade a cumprir e é ób-
viços, além de permitir o cálculo dos esto- vio que será sempre possível determinar as
ques mínimos que assegurem a realização dos funções que cabem a cada parte do organis-
serviços com o menor empate de capital pos- mo, bem como o número e espécie de fun-
sível. cionários necessários à perfeita execução do
Há necessidade, também, de estudar os trabalho.
tipos mais convenientes de fichas, talões de Desde que seja atingido um certo volu-
pedido e entrega, requisições, propostas, etc , me de serviço, será conveniente fazer a es-
a fim de se terem escrituracão fácil e mo- pecialização das funções, donde decorre a
vimentação rápida dos mate~iais, a par de Organização de Carreiras.
perfeito contrôle. Convém salientar que a organização de
O local de guarda do material deve me- uma carreira só deve ser levada a efeito, se
recer, também, grande cuidado, tendo em o número de servidores da mesma especiali-
vista a melhor conservação possível. zação permitir a organização de um quadro
Semestral ou anualmente, há necessida- com seriação que estimule os funcionários
de de se proceder ao balanço geral do almo- no cumprimento dos seus deveres.
xarifado, para organização do inventário o Grande número de nossas prefeituras,
verificação do estoque. porém, não comporta a organização de car-
As prefeituras que contam com grande reiras, sendo, em muitos casos, suficiente uma
número de móveis e veículos devem possuir ou duas pessoas em cada função; nesta hi-
Oficina de Repatos, para atender a conser- pótese, devem ser criados cargos isolados.
vação de todo o seu material, prolongando- De uma ou de outra maneira, porém, a es-
lhe, dessa forma, a vida útil. tabilidade nos cargos, só deve ser assegurada
O Servico de Transportes controla todo aos ocupantes que mantenham a continuidade
o movimento> de veículos, de carga ou passa- da administração; os que exercerem outros
geiros, observando e registrando as ocorrên- serviços, ou cargos de confiança, devem ser
cias e movimentacão diária, de modo que se livremente demissíveis, para que o prefeito,
possam organizar fichas onde estejam consig- com maior liberdade de ação, possa melhor
nados, em resumo, todos os elementos que prover as necessidades administrativas.
permitam julgar da vida útil dos veículos e
Convém ter sempre presente que bon>
de suas qualidades e utilidade .
funcionários só se obtêm, na maioria dos ca-
Com referência a automóveis, deve-se sos, com remuneração justa e que lhes permi-
registrar em fichas diárias, mensais e anuais: ta existência condigna. A consagração in te.
o número do auto, marca, tipo, salário do gral ao serviço público só se consegue pa-
motorista e ajudante, horas de serviço, con- gando bem ao pessoal, para evitar que êste
sumo de gasolina, óleo e pneus, distância recorra a trabalhos estranhos à repartição,
percorrida, natureza do transporte, local de que acabam sempre reduzindo sensivelmente
serviço, número de viagens, tempo dispen- a eficiência dos funcionários. Menor número
dido em serviço, etc. de funcionários bem pagos dá melhores re-
Ao Patrimônio compete fazer o levan- sultados que pessoal numeroso mal remune-
tamento geral e manter o registro atualizado rado.
de todos os bens patrimoniais, do qual cons-
A Seleção de funcionários deve ser feita,
tem os edifícios, propriedades, aparelhamento,
de preferência, pela realização de concur-
móveis, utensílios, etc., providenciando para
sos de provas ou títulos, pois, dessa forma,
a oportuna baixa e alienação dos elementos
pode-se reduzir <1e muito, ou eliminar o afi-
que se tornarem imprestáveis ou inúteis à
lhadismo, sempre prejudicial à boa marchn
administração .
dos serviços.
PESSOAL - Uma boa administração de- Antes da efetivacão de um funcionário
pende do perfeito funcionamento de todos os mesmo classificado eiu concurso, é aconse-
seus Órgãos, o que não será possível se não lhável deixá-lo em estágio probatório du-
se dispuser de pessoal capaz. rante certo lapso de tempo, a fim de se
Assim, qualquer que seja o tamanho da conhecerem as qualidades e defeitos, que um
organização, é indispensável que o pessoal, concurso, de qualquer espécie que seja, não
em número estritamente necessário, seja ra- pode revelar inteiramente.
cionalmente escolhido, convenientemente re- As prefeituras que disponham de certos
munerado e conte com vantagens e possibi- recursos, devem, em benefício de seu ser-
lidades futuras que lhe despertem o inte- viço, promover o Aperfeiçoamento de seu~
rêsse pela permanência no serviço e o incen- funcionários, quer pela realização de viagens
tivo no aprimoramento do trabalho. de estudo, quer pela freqüência a determi-
ADMINISTRAÇÃO E URBANISMO 57

nados cursos, mantidos por outras institui- c) distribuir, anualmente, impressa ou


ções ou pela própria Municipalidade. mimeografada, urna breve sinopse da estatís-
E' de todo interêsse para a administração tica municipal com as competentes discrimi-
e para os funcionários a existência de um nações por distritos, ou em relação aos qua-
Estatuto, que lhes defina os direitos e de- dros urbano, suburbano e rural, conforme <1
veres, estabeleça normas gerais sôbre o pro- natureza dos assuntos;
vimento de cargos, promoções, transferên- d) manter um serviço público de in-
cias, substituições, faltas, licenças, férias, dis- formacão sôbre o Município, no que se re-
ponibilidade, aposentadorias, exonerações, pe- lacion~r com as pesquisas do serviço de es-
nalidades e todos os demais atos que possam tatística;
interessar ao senventuário municipal.
e) manter, franqueada ao público, uma
A organização de um Registro Funcional biblioteca especializada de divulgação esta-
é indispensável, para que se possa ter, a tística, ou colaborar na organização de uma
qualquer momento, informações certas e pre- seccão a êsse fim destinada na Biblioteca
cisas sôbre cada funcionário. Tal registro Mu~ücipal, sempre que esta já exista;
permitirá julgar convenientemente os fun-
i) organizar e manter, franqueada ao
cionários, ao mesmo tempo que lhes assegu-
público, uma sala expositiva de elementos
ra os direitos.
apropriados à divulgação das revelações das
Qualquer funcionário, mesmo bom, só estatísticas sôbre a vida do Município, do
poderá produzir convenientemente, se tiver Estado (diga-se - Território, no caso do
a tranqüilidade de espírito indispensável à Acre) e do País, ou colaborar no preparo de
realização do seu trabalho. Pela Assistência urna seccão destinada a êsse fim do Museu
Social conseguiram muitas emprêsas melho- Municip~l, ou organização análoga, quando
rar a produção de seus servidores, o que, no tal instituição já exista;
final de contas, redundou em aumento de
lucros. g) manter um serviço de publicidade
que divulgue, em comunicados periódicos, os
Convém que a Assistência Social se dados estatísticos que sejam de interêsse para
ocupe, sempre que possível, não só do es- as atividades sociais ou econômicas dos Mu-
tado de saúde do funcionário, como de todos nicípios, e revelem as necessidades e as rea-
os de sua família, pondo-lhe ao alcance, lizações da vida municipal;
médico, remédios e alimentos; bem como fa-
cilite, quando viáveis, educação e trabalho h) responder por todos os trabalhos ou
aos membros da família que os necessitem, pesquisas que os órgãos incumbidos da De-
visando sempre à melhoria das condições de fesa Nacional requisitem ao Govêrno Mu-
vida do trabalhador. nicipal;
É um servico caro, de difícil exe,cução, i) promover a colaboração da Agência
mas que deve s~r considerado. Municipal de Estatística com o Diretório
A Previdência Social tem por fim am- Municipaí de Geografia;
parar a família do funcionário, após a sua j) prestar a assistência moral e a co-
morte. Atualmente já é permitido aos fun- laboração que estiver ao seu alcance a todos
cionários mumctpais contribuírem para o os movimentos sociais, econômicos ou cul-
Instituto de Previdência e Assistência do3 turais que visem interêsses coletivos ou o
Servidores do Estado (IPASE), aproveitan- progresso da comunidade municipal;
do-se assim das vantagens que êsse Instituto
1) promover ou auxiliar as campanhas
oferece aos seus contribuintes.
ou movimentos cívicos que se tornarem ne-
EsTATÍSTICA E PESQUISA- Os Autores, cessários para cultivar os sentimentos patrió-
neste capítulo, expendem considerações bri- ticos e estreitar os vínculos da unidade na-
lhantes e judiciosas em tôrno das responsa- cional;
bilidades da Estatística na Administração
Municipal. m) colaborar em tôdas as iniciativae
Nenhuma Prefeitura Municipal, porém, do govêrno local no sentido de melhorar e
racionalizar a administração municipal;
terá maiores preocupações com a organização,
a manutencão e a eficiência dos seus servi- n) conservar provisàriarnente nas fun-
cos estatísÚcos. Nem mesmo no tccante a ções, postos à sua disposição pelo Govêrno
despesas. É que, em virtude dos Convênios Municipal, os funcionários especializados da
Nacionais de Estatística Municipal, as Agên- repartição (agência, serviço, seccão, divisão,
cias Municipais de Estatística passaram a ser diretoria ou departamento) responsável pe-
administradas pelo Instituto Brasileiro de los trabalhos de estatística geral do Muni-
Geografia e Estatística, que, além de outras cípio, desde que a situação atual de tais fun-
obrigações, se comprometeu a: cionários decorra de lei municipal anterim
a) fornecer à adrninistracão local os ao Decreto-lei federal n. 0 4 181, ou de lei
elementos estatísticos de que esta necessitar. estadual publicada até a data dêste Con-
tanto os de ordem local, como os de com- vênio;
preensão regional ou nacional, desde que o) assumir o ônus da remuneração dos
compreendidos no plano de pesquisas fixado funcionários municipais provisàriamente pos-
pelo Conselho Nacional de Estatística; tos à sua disposição para os serviços das A-
b) divulgar, nas publicações que o gências Municipais de Estatística, desde
comportarem, os principais dados da estatís- quando, em cada Município, ficar satisfeita
tica municipal, em cotejos de ordem regio- urna das duas condições previstas na letra
nal ou nacional; h da Clftusula décima-primeira;
58 REVISTA BRASILEIHA DOS 1\!UNICÍPIOS

p) transferir para o seu quadro, em FISCALIZAÇÃO - Nas localidades de


definitivo, sujeitos à competente legislação pequeno movimento e de poucos recursos, a
reguladora, .e com os vencimentos da catego- adocão de um Se1vico de Fiscalizacão cen-
ria em que forem classificados, os atuais fun- trali:Zado dá, geralme,;te, bons resulta,dos,
cionários que, submetidos às necessárias pro- Assim, um único departamento, ou sec-
vas de habilitação, forem aprovados; ção, pode ocupm-se da fiel observância do
q) restituir à administração municipal código de posturas, contrôle de veículos,
os funcionários, que, postos provisOriamente combustíveis, gêneros alimentícios, etc., man-
à sua disposição, não se submeterem às pro- tendo-se, porém, em inteligência e colnbora-
vas de habilitação instituídas, ou não forem ção com tôdas as secções, diretorias, serviços,
aprovados nessas mesmas provas. etc. interessados nesses diversos assuntos.
Tal sistema, porém, não dá resultados
SERVIÇOS JuRÍDICOS - Sem constituir,
satisfatórios nas Municipalidades de grande
pràpriamente, uma atividade independente
desenvolvimento, sendo, para estas, aconse-
dentro de urna Municipalidade, os Serviços
lhável deixar a cargo de cada serviço espe-
]wídicos prestam, no entanto, grande assis-
cializado a Fiscalização da parte que superin-
tência a todos os departamentos e secções e,
tende
conseqüentemente, à coletividade.
As suas principais atividades podem ser Funções externas
grupadas da seguinte maneira:
Passemos a estudá-las separadamente.
a) Assistência Jurídica aos Le[>,isladores URBANISMO E PLANO DIRETOR - Qual-
b) Assistência Legal aos Departamentos quer empreendimento, por mais modesto que
c) Representação em Juízo. seja, deve ser planejado, sem o que se arrisca
A elaboracão das leis é trabalho mais o executor a não atingir o fim em vista.
complexo do que parece à primeira vista, Ninguém, de bom senso, fará uma casa
pois é indispensável que tôdas as leis mu- sem eiabmar o respectivo projeto, nem ad-
nicipais sejam razoáveis nas suas detern1i- minist! ará uma indústria sem estabelecer um
nações, exeqüíveis nas suas aplicações e ela w programa de ação Com mais forte razão,
ras na forma, além de estarem de acôrdo deve ser organizado o plano de desenvolvi-
com as Constituicões Federal e Estadual e mento de uma cidade, pma se tirar o melhor
com a Lei Orgâ;:,ica dos Municípios. Por partido possível das condições locais, apro-
outro lado, é muito impo1 tante que as leis veitando-se tôdas as possibilidades econômi-
sejam a expressão exata de necessidades so- co-financeiras existentes.
ciais, mas apenas das necessidades sociais bem Assim, é indispensável ao prefeito, que
sentidac, uma vez que o excesso de lei res- deseje realmente p1 estar bons serviços, tra-
tl inge inutiimente as liberdades humanas, tar da elaboração de um plano básico de
tornando-se, pelas rebeldias que provoca, um desenvolvimento da cidade, vilas e povoados
fator negativo na educaç'ío da consciência do seu Município, .a fim de poder agir ra
coletiva E tudo isso só é obtido, em geral, cional e orientadamente, nêle enquadrando
quando a administração municipal dispõe d:e tôdas as obras e se1 viços que seja necessário
boa Assistência ]addica. realizar
No desenvolvimento do serviço normal A organização de um tal plano, que co-
de uma prefeitura, freqüentemente se apre- mumente é denominado Plano Diretor, de-
senta a necessidade de interpretação de de pencle de uma série de elementos e compreen·
terminado dispositivo legal ou contratual, de certo número de sei viços, que deverão scí.
ou do estu(lü de determinada questão em fn- atcmdidos segundo determinada seqüência, e
ce de decisões judiciais, ou do estudo de con cuja execução, parcelada e progressista, pos-
tratos a serem assinados com particulares, sa ser levada a efeito sem obrigar a modifi
etc. Tais serviços fazem parte da Assistência cação do que já foi realizado.
Legal, que deve ser prestada a tôdas as de-
Assim podemos dizer que o Plano Dl-
pendências da Municipalidade
reter abrange:
Além dessas atividades, têm freqüento-
mente as Municipalidades de promover co- a) Levantamentos Topográficos
branças executivas, desapropriacões judiciais b) Levantamentos de Informacões
e outros serviços que exigem Rep1esentação c) Elaboracão do Plano ,
em Juízo. d) Legislação
e) Contrôle de Execução do Plano.
Nas l\l!:unicipalidades de pequenos recur-
sos, a pequena freqiiêncin de questões de Assim, qualquer prefeiio, que deseje rea-
natu1 eza elas acimB tnencioP-Bdas pode não lizar melhmamentos nas cidades ou vilas de
justificar a existência de uma Assistência seu Município, tem de ilatar_, prhn~áran1ente,
Jurídica e Legal c! e caráter permanente. dos respectivos Levantamentos Topográficos,
Para elas será mais conveniente contratar que deverão ser os mais completos posslveis,
assistente para cada caso que se fôr apresen- a fim de facilitar o trabalho do projetista
tando. Em contraposição, as de grandes re- Importante é assinalar que a planta to-
cursos exigem, muitas vêzes, un1. corpo espe · pográfica e cadastral de uma cidade é o seu
cializado de juristas e advogados de tiroc!nio. retrato em determinado momento e que a
Um dos bons serviços que os Departa- cidade, como um organismo vivo que é, vai
mentos das Municipalidades vêm prestando paulatinamente soh endo modificações que
é o Se1 viço Jurídico, destinado a atender às devem ser assinalad2:s e apontadas, para man-
necessidades das prefeituras. ter as plantas sempre a1 ualizadas, sem o que,
Am.rr:--~rsTnAçKo E UnnANIS1IO 59

no fim de alguns anos, o custoso trabalho realização, de forma tal que não se anulem
de levantamento topográfico estaria quase ou prejudiquem os serviços e fiquem ante
totalmente perdido e sem outro valor, a não cípadamente estabelecidas as épocas em que
ser histórico, tal como o retrato de uma pe,;- se deverá proceder a novos estudos e levadas
soa tirado na infância não sm ve para iden- a efeito certas obras de ampliação, evitando
tificá-la na maturidade. que a vida da população sofra perturbações
Quanto às condicões técnicas a satisfa- resultantes da sua não realização.
zer, devem ser fixad~s para cada caso par- O ponto de partida na elaboração do
ticular, de acôrdo com a situacão local. plano de remodelação de qualquer cidade
Levantada a planta top;gráfica e ca- deve ser o Zoneamento ( "zoning"). Zonea-
dastral, a segunda etapa a vencer será o mento pode ser definido como sendo o gru-
Levantamento de lnformacões pamento e distribuição racional dos diferen-
Êste compreende a c~leta, coordenação tes organismos de uma coletividade, de fot-
e sistematizacão dos elementos necessários ma que funcionem harmônicamente e sem.
ao estudo da~ condições locais, presentes e prejuízo do desenvolvimento futuro da ci-
passadas, sob vários aspectos - histórico, dade.
artístico, geográfico, finauceiro e social, po- Múltiplas são as vantagens do Zonea-
lítico, econômico, paisagístico, etc. - de for- mento. MoRRIS KNOWLEG as tesume do se-
ma que se possam prever as tendências e, guinte modo:
conseqüentemente, o futuro da coletividade 1. Estimula um desenvolvimento urbano
em estudo
próspero e bem organizado.
De posse de tais resultados, será possí-
vel julgar das condições de realização do 2 Torna possível um programa prático
plano, de seus limites aconselháveis, da for- de tracado e desenvolvimento do sis-
ma de financiamento mais conveniente, ou, tema de vias de comunicação e de to-
me3mo, da sua inexeqüibilidade. dos os serviços coletivos, pot que de-
Parte importante do Levantamento de termina com antecedência o uso e as
Informacões é o seu selecionamento e classi. necessidades dos distritos.
ficar:ão - 3 J mpede a mudança rápida e prema-
No intuito de facilitar a coleta de dados, tura do cat áter dêsses distritos.
bem como o estudo de elementos coligidos, 4. Impede a intromissão de edifícios im-
e de evitar, ao mesmo tempo, a obtenção de próprios naquelas situações em que
elementos inúteis o:1 de pouco valor e inte- seriam prejudiciais
rêsse, é indispensáve1 estabelecer previamen- 5 Estabiliza e protege valores e capi-
te um programa de pesquisa, cuidadosamente tais, determinando de antemão o ca-
organizado. ráter das propriedades.
As fontes de coleta das informacões de-
6 . Simplifica e resolve o problema da cir-
vem ser criteriosmnente escolhidas, a> fim d8
culação, regulando a altura e o volu-
que possam merecer confianca os resultados
me dos edifícios e, portanto, o con-
obtidos De maneira geial,- as bibliotecas,
gestionatnento das ruas.
1nuseus, arquivos púbiicos ou particulares,
etc., podem f01necer elementos de gwnde 7 Assegura, afinal, melhores condições
interêssc, como ta1nbé1n o preenchi1ne~to d0 de higiene e de estética para o bem
questionários por pessoas e entidades co!1he- geral.
cedoras da cidade e da região, pode trazer· Uma vez estabelecido o Zoneamento, é
contribuição de irrestimável vnlor. possível então prever e determinar iodos os
A publicac2o dos resultados de um tra- elementos que integra1n o conjunto urbanís-
balho de tal natureza, e da resnectiva do- tico
cun1entação, é de tôda conveniência, pelo Assim, o Plano Diretor compreende, não
interêsse que encet ra para outros estudos. só o estudo da abertura e pavimentação de
Convenic::nte será, também, manter ai..un- avenidas, ruas e estradas, a construção de
lizadas as informações colhidas, o que pc:>- jardins, parques, campos de esporte e "play-
derá ser feito ~em r;randes dificuldades e -erounds", cctno t3mbé1n a íixação de regras
prestará inestimáveis serviços ao bom admi · de loteamento, a localização dos bairros co-
nisfrador. mercial, industrial e residencial, dos templos,
hospitais, matadouros, cetnitérios, mercados,
Selecionadas, classificadas e 3nalisad8s
aeroportos, estações de ferro e rodoviárias;
BS infonnações colhidas, pode então o urba-
e, ainda mais, os estudos da instalação ou
nista paec'ar 2.0 esturlo da exeoüibilictade d;,
ampliação de serviços de transporte coletivo,
empreendimento e depois à E!ab01aciío do
Pla-no - . de água, luz, gás, esgolos e limpeza pública,
além dos relativos à recuperação de zonas
O Plano Din"tor nada mais é elo <1'J" insalubres que ci1 cundeJn a "urbs" e de ou-
um pr::>grama de Yemodelacão pa18. se1· exe- ti as obras necessárias ao bem-estar da popu-
cutado paulatina e progrcssi·vnmente lacão ou ao desenvolvimento da cidade.
A sna elabora2ão exige o conhecimer~t'] ~ O Plano só poderá ser considerado com-
do passado da cidade, da evolução realizada pleto, se, a par do programa de obt as, fôr
e das tenclências e possibilidades futur.es da bito o indispensável estudo . econômico-fi-
aglotnE:·ração em estudo nanceiro, que garanta a sua realização
O Plano deve abranger t.ôdas as obras De nada valerá um belo e monumental
a serem levadas a efeito no subsolo e na su- projeto, que fique somente no papel, em
perfície da cidade, estabolecencio, igunlmon- vi1 tude da falta de recursos da Mtmicipali-
te, o seu grau de necessidade e ordem d·~ dade
60 REVISTA BRASILEIRA DOS MuNICÍPIOS

Assim, o projeto de remodelação de uma trôle de Execução do Plano a um organismo


cidade só deverá ser aceito, se fôr financei- estranho ao IVlunicípio, que poderá ser, por
ramente exeqüível. exemplo, o Departamento das Municipali-
Organizado o Plano Diretor, deve-se dades, estadual.
cuidar da Legislação, isto é, do conjunto de De qualquer forma, porém, o importan-
leis que se tornarem necessárias à boa exe- te é obter um meio prático de impedir que
cução do programa elaborado. um prefeito mal orientado prejudique, ou
Assim, umas autorizarão a promoção dos mesmo inutilize, um plano de remodelacão da
recursos financeiros; outras fixarão os tra- cidade, que foi cuidadosamente projet~do e
çados e gabaritos das ruas que devam ser em cuja elaboração foram certamente des-
abertas ou alargadas em obediência ao Pla- pendidos não pequenos recursos financeiros,
no básico; outras fixarão a localização das provindos, em última instância, do bôlso dos
zonas comerciais, industriais e residenciais; munícipes.
o gabarito das edificações; as condições a
serem obedecidas pelas construções, de acôr- VIAÇÃO, OBRAS PÚBLICAS E SERVIÇOS DE
do com o fim a que se destinem; as normas UTILIDADE PÚBLICA - A denominação Obras
de cálculo; as exigências mínimas para no- Públicas é uma expressão mais ou menos
vos arruamentos e desmembramentos; as vaga, que geralmente abrange todos os ser-
condições de fiscalização; penalidades; etc. viços de execução e conservação das obras
A tendência atual, entre nós, é reunir que devem ser realizadas pelas administra-
em uma única lei, comumente chamada Có- ções públicas e, bem assim, a manutenção e
digo de Obras, tôdas as questões de zonea- operação de alguns serviços de utilidade pa-
mento, de construções e divisão de terrenos. ra o público em geral.
A legislação a promulgar deve ser sim- O número e a espécie de atividades que
plesmente a necessária e suficiente, elabora- podem ser abrangidos sob tal designação é
da em conjunto ou separadamente, com es- muito variável e depende das particularida-
pírito prático e com pleno conhecimento das des locais. Assim, por exemplo, o serviço de
particularidades locais, de forma que satisfaça iluminação é, em algumas cidades, mantido
plenamente às condições de vida social e diretamente pelo Município, enquanto em
econômica da comunidade. outras o é pelo Govêrno Federal ou Estadual,
Aprovado o Plano Diretor e resolvida ou, o que é mais comum, por emprêsa parti-
a sua execução, é necessário, é indispensável~ cular fiscalizada por uma ou outra dessas
mesmo, que se tomem tôdas as precauções três entidades administrativas. Algumas pre-
possíveis para que o Plano não venha a ser feituras consideram os jardins, parques, mer-
modificado ao sabor de conveniências pes- cados, etc. sob aquela designação; outras, po-
soais ou políticas, pois, desta forma, dentro rém, os consideram serviços distintos dos de
de certo lapso de tempo, poderá estar tão obras.
mutilado, que será preferível abandoná-lo, Para efeito de exposição, unicamente,
perdendo-se, assim, todo o trabalho de plane- fazemos a seguir a enumeração das funções
jamento anteriormente feito, e passando a ser que entre nós podem ser consideradas como
desperdício a despesa efetuada com a sua Obras Públicas.
elaboraçãiJ Dividimo-las em três grupos:
Qualquer modificação só deve ser in- a) Viação e suas Obras
troduzida depois de previstas e estudadas b) Obras propriamente ditas
tôdas as conseqüências que dela poderão de- c) Serviços de Utilidade Pública e
correr e que fique reconhecido, de forma in- suas Obras.
sofismável, não só que a alteracão benefi-
cia o plano inicial, como também que as Sob a primeira denominação grupamos
as atividades que se referem a estudos, pro-
vantagens decorrentes são muito maiores do
jetos, construção e conservação de obras des-
que as possíveis desvantagens.
Daí a necessidade imperiosa de um ór- tinadas ao tráfego de pessoas e causas, a
gão de Contrôle de Execução do Plano da saber:
cidade. 1. Arruamentos e Esgotos Fluviais
Êste Órgão tem de ser criado por lei, 2. Estradas
com funções perfeitamente definidas e com 3. Pavimentação
autoridade para velar pela fiel observância 4. Pontes
do Plano da cidade, e, ao mesmo tempo, Sob a segunda denominação grupamos
promover as campanhas que se tornem ne- as atividades que se referem a estudos, pro-
cessárias para lhe facilitar a execução jetos, construção e conservação das seguin-
Nos centros urbanos mais adiantados, tes obras, públicas ou particulares:
essas funcões têm ficado afetas às chamadas 1 . Edifícios Públicos
Comissõe~ do Plano da Cidade, que são cons- 2. Aprovação de Plantas e Polícia de
tituídas de técnicos e cidadãos de valor e Construcões Particulares
independência moral, e que podem e devem 3. Sistema- Recreativo
ser, na sua maioria, estranhos à administra- 4. Recuperação de Áreas Alagadas
ção municipal 5. Obras Diversas
Os pequenos Municípios, porém, não
comportam, via de regra, tal organização. Sob a terceira denominação recaem as
Em conseqüência, deverá ser estudada, para atividades que subentendem prestacão de
cada caso particular, a solução que mais serviço ao público, a saber: -
convier ao interêsse coletivo. Em muitos 1 . Abastecimento de Água
casos talvez seja preferível atribuir o Con- 2 . Esgotos Sanitários
ADMINISTRAÇÃO E URBANISMO 61

3. Limpeza Pública Plano Diretor da cidade; a locação dos res-


4. Matadouro pectivos alinhamentos; o projeto e a execu-
5. Mercado ção dos "greides" longitudinais, das secções
6. Transportes Urbanos transversais e das concordâncias dos leitos
7. Eletricidade carroçáveis nos cruzamentos; o projeto e a
8. Gás const;ução de meios-fios e sargetas; execução
9. Telefones dos passeios e refúgios para pedestres; o pro-
10. Servico Funerário jeto e a execução das canalizações de drena-
11. Diver;os (banhos, docas, etc.). gem das águas pluviais, com as respectivas
bôcas de lôbo e caixas de areia.
DIREÇÃO TÉCNICA - Antes de examinar Os materiais a empregar variarão de
cada uma dessas atividades de per si, cum- acôrdo com as condicões locais.
pre observar que elas requerem uma Di- Onde houver boa pedra e bons cantei-
reção Técnica capaz de fazer ou analisar ros, os meios fios deverão ser de pedra; caso
todos os estudos, projetos e cálculos das contrário, é preferível fazê-los de concreto,
obras públicas e respectivas especificações premoldados ou moldados no local, sendo
de materiais e normas construtivas; de diri- uma ou outra dessas soluções relativamente
gir ou fiscalizat-lhes a execução; de medir simples. Os meios-fios de tijolos comuns,
e calcular as fôlhas de medicão das obras mesmo revestidos de argamassa de cimento
contratadas; de examinar e opinar sôbre os e areia, são pouco resistentes e, por isso, in-
projetos das obras particulares e fazer-lhes teiramente desaconselháveis .
a: fiscalização; e de manter o arquivo de As bôcas de lôbo e caixas de areia po-
plantas, desenhos, cadernetas de medições, dem ser de alvenaria, de pedra ou de con-
relatórios e dados de interêsse técnico. creto armado; os ralos, de ferro fundido ou
A organização da Direção Técnica va- concreto armado; as sargetas, de concreto
riará, naturalmente, com a importância e pos- ou do material com que fôr pavimentada a
sibilidades dos Municípios. Nos grandes, po- rua; as tubulações no subsolo, de concreto,
derá haver, diretamente subordinadas ao ou barro vidrado, conforme o diâmetro e
prefeito, uma Diretoria de Viação, uma Di- preço do lugar.
retoria de Obras Públicas e uma Diretoria Qualquer material a ser empregado de-
de Serviços de Utilidade Pública, correspon- verá ser previamente examinado, a fim de
dendo aos três grupos de atividades técnicas ser verificada a sua boa qualidade, concor-
acima mencionados; nos Municípios de im- dância com as especificações e perfeito es-
portância um pouco menor, êsses grupos de tado.
atividade poderão constituir Secções Técnicas Essencial é, também, que seja examina-
subordinadas a uma única Diretoria de Via- do com especial cuidado o embasamento das
ção e Obras; nos Municípios ainda de menor tubulacões e caixas, a fim de evitar abati-
importância, o Diretor de Viação e Obras mento;, dos quais decorreria o rompimento
poderá ter tôdas as atividades técnicas sob do sistema, originando vasamentos de con-
sua direção imediata. seqüências sempre prejudiciais. Para cada
A imensa maioria dos pequenos Muni- caso deve ser estudada a solução mais con-
cípios não poderá, porém, manter um enge- veniente
nheiro a seu servico exclusivo, tendo de con-
Na grande maioria das nossas cidades,
tentar-se com a s~a colaboracão em regime
a rêde subterrânea de águas pluviais só é
de tempo parcial, ou de lança~ mão de "prá-
executada quando vai ser feita a pavimen-
ticos" e "mestres de obras", se na localidade
tacão da rua. Aquela pode, no entanto, ser
não houver engenheiro. É uma contingência
feita por ocasião da abertura da rua ou
lamentável, derivada, por um lado, da escas-
avenida, deixando-se para mais tarde o be-
sez de rendas dos Municípios e, por outro,
neficiamento da superfície de rolamento, tal
do número assaz reduzido de engenheiros em
como se faz com as estradas de rodagem.
atividade no Brasil.
Êsse procedimento pode ser utilizado com
É claro que nos Municípios em tais
vantagens pelas Municipalidades de peque-
condições, a tarefa do prefeito se torna ain-
nos recursos, que, assim, poderão ir melho-
da mais grave, pois que lhe cabe, na obri-
rando aos poucos as condições das vias pú-
gação de aproveitar ainda melhor o pouco
blicas
dinheiro disponível, distinguir bem aquilo que
possa ser razoàvelmente realizado com os
prÓprios elementos locais, daquilo que me-
Dos mais importantes para qualquer Mu-
lhor seja contratar com elementos de fora.
nicípio é o Serviço de Estradas. De fato, das
Relembrando que muitos Municípios
boas estradas e caminhos, que ponham as zo-
se arruinaram financeiramente por causa de nas rurais em comunicacão fácil, segura e rá-
contratos de obras mal estudadas e condu-
pida com a cidade e ó's outros sistemas de
zidas, é de desejar que Departamentos das
viacão (férrea, fluvial, marítima, etc.) por-
Municipalidades ou Órgãos similares esta-
ventura existentes no Município, depende a
duais, permaneçam com a função de prestar
prosperidade dos estabelecimentos agrícolas.
assistência técnica aos Municípios, princi-
Sem boas estradas e caminhos, que permitam
palmente aos pequenos.
oos habitantes do campo receber com pres-
VIAÇÃO E SUAS OBRAS - Um dos prin- teza a assistência espiritual e médica de que
pais serviços a atender em uma cidade é o precisem e participar com freqüência das
de Arruamento. Compreende a abertura de diversões que a cidade oferece, a vida no
novas ruas ou a reforma, de uma vez ou campo se torna desinteressante. Sem boas
gradual, de ruas antigas, de acôrdo com o estradas e caminhos, jamais será possível
62 REVlSTA BnAsrLEIHA Dos lviuNicÍPros

resolver o problema do ensino rural. Sem tratar um engenheito ou um técnico, que


boas estradas e caminhos, só alguns produ- lhes cuide das estradas.
tos agrícolas duráveis podem ser aproveita- Finalmente, cumpre não esquecer que
dos, ficando perdida grande quantidade de um dos meios mais eficientes e econômicos cl'3
gêneros fàcilmente deterioráveis. conservacão e construcão de estradas reside
Cada Município deverá, pois, organizar no emprãgo das máqti'inas especiais que há
o seu plano rodoviário, tendo em vista a3 para êsses serviços. Pelo seu alto custo,
suas necessidades econômicas, políticas e so· raros são os Municípios brasileiros que po-
ciais e a sua harmonização com os planos derão tê-las. Mas já aos Estados não será
rodoviários estadual e federal e, bem assim, difícil adquirir e manter vanos conjuntos
a sua articulacão com os outros sistemas de dessas máquinas, com os respectivos opera
viação (férre;; fluvial, marítima, etc.) por- dores, para cessão aos Municípios, mediante
ventura existentes no Município ou nos vi- aluguel. Um serviço nesses moldes, bem or-
zinhos. ganizado e combinado com a assistência téc-
nica, poderia mudar em pouco tempo a fi·
O Servico de Estradas deverá estar apa-
sionomia do problema das estradas muni-
relhado para" executar todos os trabalhos de
cipais, mesmo dentro da atual escassez de
campo, desde a exploração, reconhecimento
recursos financeiros.
e levantamento da faixa necessária, locação
do projeto e das obras de arte, marcação do OBRAS PRàPRIAMENTE DITAS - Os Edi-
"greide", estudo de variantes, contrôle da fícios Públicos, tanto os municipais, como os
construção das estradas e respectivas obras estaduais e federais (paço municipal, cole-
de arte, medições e aceitação de serviços, si torias, escolas, biblioteca, correios e telégra-
nalizacão de ti áfego, arborização e conset- fos, presídio, forutu, centro de saúde, lac-
va<;ão da estrada. tário, nlmoxarifado, etc.) devem set proje-
tados e construídos de modo que constituam
As condições técnicas das estradas (ram-
modelos de boa constt ucão
pas, 1aios de curva, largu1a do leito de ro-
Na maioria das cidades do interior ó
lamento, etc. ) devem ser fixadas de acôrdo
1 elativamente fácil a questão de terrenos paro.
com as suas finalidades (tráfego provável)
tais edifícios De tal forma, mesmo não ha-
e condições locais.
vendo ainda o Plano Diretor da cidade, o
É de boa norma estudar e projetar cada problema de sua conveniente localizacão não
esh ada com boas condições técnicas e, só se apresenta difícil na maioria elos c~sos.
depois de orçado o projeto e verificada a Com relação aos edifícios públicos es-
impossibilidade de sua execução integral ime- taduais e fedetais, é ele boa notma que o
diata, alte1 á-lo quanto necessàrio para tor- I\r'funicípio concorra con1 os terrenos neces~
nar a execucão da estrada viável com os re· smws Representam, em geral, pequena des-
cursos finan~eiros disponíveis. pesa, e a oferta, pelo prefeito, ele terrenos
Elaborado o plano rodoviário municip3l, amplos e bem localizados, influi decisivamen-
abrangendo a remodelação ou substituição do> te para que os projetos das repat tições com-
caminhos antigos e a abertura de novas es- petentes do Govêrno Estadual ou Fedetal
tradas, ot ganizar-se-á um programa de exe- sejam elaborados com maior generosidade e
cução parcelada e progressiva, estendendo-") largueza de vistas, além de pe11nitir soluções
per vários exercícios financeiros> começando, arquitetônicas mais felizes.
naturalmente, pelos trechos julgados de maim· Já maiores são as dificuldades do pre-
urgência feito, quando se trata dos edifícios mumcl·
É forcoso reconhecer aue a escassez de pais, porque esbm ra logo na exigüidade dos
técnicos e~ de 1 ecursos fin~nceiros não pei- recursos finnnceiros do fu1unicípio e, muitas
mite à maim ia dos 1\.IIunicípios brasileiros vêzes, nn àifi.culdade de encontrar um botn
pôr em prática tudo quanto acima se re- a1 qui i eto local que lhes faça os proletos.
comenda. 1\l[as, a êste respeito cabem al- Ao contrário do que se poderia supor,
gumas considerações não deve a plÍrne-ira dificuldade arrastar o
Quanto à pdmehn causa, as coisas ten- prefeito a realizacões 1nesquinhas, traçadas
dem a melhmar. Primeiro, porque, impondo por simples pedreiros on mestres de ob1 a ele
o Decreto-lei n. 0 8 463, de 27 de Dezembro e~cassa competência. Justamente porqne o
de 1945, a assistência técnica à obu1 !odo- d1n:leiro é pouco é que precisa ser aplicado
viár ia dos l\fj unicípios por parte elos Estado~, com o tnáximo renditnento útil
para que êstes possan1 receber as suas cotas Para tanto, a prir:_1eirn concHç8o é que
elo "Fundo Rodoviário Nacional", é ele es- os edifícios públicos municipnis sej2n1 bern
perar que os Estados criem ou ampliem essa estudndos e proietados IJai n necessjr-Iade de
assistência técnica (para o que, aliás, os o p1ef9ito confiar os pt oietos a arquiteto com~
Ivíunicípios muito podem contribuir com a JlGienie, ainda que tenha de ir Pl ocu1 á-lo
pressão à e suas solicl1 ações) . E1n segundo Jonr,e de sua cidade É se1npre hem a!Jli-
lngG.r, porque, ccn1 a próxima inaugurac;:8.n cado o dinheiro gasto en1 bons estnrios e
dos cursos de Eslradas e Pontes nas Escolas p1 o1etos. Í 1: ~ó uln p:d1neh !J passo, r11as un1
Técnic~_s secunr~árias já e!n fl~ncionan:.enh) passn Ecertfldo Con."trpni~nielYH~nte infol·ma-
no P::=rís, é de crer que elas entretn n fcrnece1 do das pos~dh11idoct~;, fi!1s~ceii8s Í1nerliatas
os "Técnicos de Estradas e Pontes", que po- e futuras do MP::!ic'in1o, 0 arqniteto poderá
derão remediar em grande parte a escassez fazer un1. pla~LJ d0 re8.1izações a se esien_det·
de engenheiros. por alp,ns anos, h::::.seado 1111m conjunto c19
Ainda com telação a técnicos, nada im- antenroictos do:J djvers0s edif1cios necessá-
pede. antes tudo aconselha, que mversoc, rios,~ os au;1ls irõo ~endo desenvo1virlos ent
Municípios vizinhos se associem para con~ projetos definitivos à medida qne flS postdbt-
ADCIIINISTRAÇÃO E DHBANISi\fO 53

!idades de realização se forem aproximando. com as respectivas finalidades, e as extgen-


Por esta forma, os próprios honorários do cias mínimas quanto à qualidade de mate-
arquiteto, subdivididos por diversos anos, se rial, conforme o destino da edificacão.
tornarão mais acessíveis à debilidade finan- Êsse Código de Obras, que dev-;,rá estar
ceira do Município. de acôrdo com as diretrizes fixadas pelo Pla-
No tocante à execução dos edifícios mu- no Diretor, quando êste exista, deve ser
nicipais, a regra geral deve ser construir cumprido rigorosamente.
tanto quanto possível, mas sempre bem, isto O contrôle das edificacões novas ou das
é, fazer obra pe1feitamente adequada à res- reformas, iniciado na Dir;ção Técnica pelo
pectiva finalidade, sólida e estética. O pre- exame das respectivas plantas, deve, pois,
feito, que não puder constl uir um edifício prosseguir durante a execução das obras, com
inteiro, construa apenas uma parte dêlt;', mas o fim de se assegurar o cumprimento real
não lhe degrade o caráter, nem lhe ames- das determinações do Código.
quinhe as ptoporções; mas implante uma A utilizacão dos edifícios só deve ser
obra destinada a ficar e ser continuada por permitida apó~ expedição de autorização es-
seus sucessores, e que possa, quando con- pecial, comumente denominada "habite-se",
cluída, honrar a cidade durante um futuro e que só deverá ser expedida depois de pro-
dilatado Nesta matéria é preciso agir com cedida uma vistoria geral, em que se vetifi-
muito crité1io: Nem comprometer a situa- quem as boas condições higiênicas e de se-
ção financeira do Município em realizações gunmça e o perfeito funcionamento de tô-
desproporcionadas para a época, nem fazer das as instalacões.
coisas acanhadas, que as gerações vindouras Providência idêntica deve ser tomada
tenham de destruir pm a recomeçar. A ci- tôdas as vêzes que fôr desocupada a habi-
dade não é obra de uma getação e o que é tação, não devendo ser permitida a sua uti-
preciso é que cada geração deixe alguma lização sem a expedição de novo "habhe-,e"
coisa digna de ser aproveitada e continuada Cada edificacão de uma cidade deverá
pelas seguintes. ter um nÚn1ero, cÍue indique sua posição re-
lativa na rua; nutne1ação que será dada pelél
Com respeito à execucão dos edifícios prefEitura, de acôrdo com o sistema adotado
públicos municipflis, é clar~ que deverá ser ( motragem, lote padrão, etc. )
rigorosamente fiscalizada, quer se trate de
construção por adrninistmção da prefeitura,
quer se trate de empreitada. Os cuidados de
fiscalização devem abranger a verificação das O valor de um Sistema Rec1eativo é
condições das fundar;Ões; da qualidade dos imenso para urna cidade. Primeit o, vem tt a-
materiais; dos traços das argan1ass::1s e con- zer possibilidades de tecreação a seus habi-
cretos; da correta colocação das ferragens tantes; segundo, aumenta o valot• das pro-
nas peças ou elementos das eslruturas de priedades adjacentes aos terrenos, e, tercei-
concteio a11nado; da execução cuidadosa das 10, resguarda a saúde, a eficiência e o bem-
concreta.gens, da~ al venat ias, telhados, insta- -estar das populações.
lações de áeua, luz, esg,otos, gás, pisos, aca- É-, pois, de tôda a conveniência que as
bamentos, etc nossas administrações municipais p1 ocuren1
Além dos edifícios públicos, há outros o1.ganizar, manter e conservar o n1aior nú-
que poderíamos dizet semipúblicos, taic co- mero possível de ele1nentos de 1ecreio, caso
mo templos, hospitai,, bancos, hotéis, eic êles iá n3.o e~;tejan1. previstos no Pla~~lo Di-
Cabe ao ptefeito estimular e encorajar 001 retm
p1 cmotores de tais obras. A simples inter- V rn i o. dos são os ele1nentos que porlern
venção sEa no se!ltido ele facilitar a aquisiç8.o consti luii um Sistema Recreativo São êles
do terreno, ou o comp1 omisso de realizEn 1ne- pequenas praç:J.s, pequenos parques locais,
lho1amentos n2s circunvizinhanças, ou ainda grandes parques rurais, reservas e pa1 ques
uma razoável isencão on reducào de impos- -florestais, Jagos, praias, parques i.níantis
tos dut ante cet to ~eríodo, lev; os interessa- ("play-g1ounds"). can1pos cie atletisrno e
dos naquelas obt~s a lhes ampliatem os gô1fe, piscin2.s públicas, jardins botânicos e
planos, em proveito ela grandeza e beleze. ch zoológicos
ciáade
De modo geral, os parqnes sD.o content-
plativos ou se destinarn, s.o recreio ativo dn
Urn dos Índices ele desenvolvin1en1 o de populac:-D.o da cidade, 0.evendo tirar-se par-
utna cidade é o nÚ1nero de Connt1 ncõr::s on tido das condições topográficas locais.
Edificações que se fazen1 em clc1 e1.1ninado Os par,-,ues infantis deveíão, de plefe-
período de tempo. r&ncia, ser localizados jnn1o às e::>co12s p1 i-
À n1edida que a f:1g,1orüeraç2o cresce, (S Inárins e no centro dos núcleos residenciais
indispensável exe1 cer certo contrôle sôb1 e 0::; l:1gos, praias, plsci.n2s, c2mpos rle
8S condições de moradin de seus habitnn! e J p,Ôlf2 P 8.t1etisn1o flcslinrnn-sc n ltc;.eio ativo
e, ao 1ncsmo tempo, cuidnr r1ns colldiçõe:: de adolescentes e adu11os
de t; abalho nas fábricas e edifícios I\!"o caso particulén das piEcin2,s, hês as-
Vimos antetimmente a necessidade da peclos devetn ser considerados: sua forma
ptornulgação de un1 Código de Obras, que e diinensões; n1eios de n1an1 er pura a água
fh:e, pelo n1enos, normas getais que regqleín e regul<::-u11entação rigorosa de seu uso pelo
2.s condiçÕe3 de insolação, iluminação e ven- público Sem as duas últitnas proviclências,
tilação, deter minetn os pés ·direitos e as di- as piscinas públicas pode1n converter-~e em
mensões 111Ínln1as dos aposentos, de acórdo fontes de prejuízos para a saúde da coleti-
64 REVISTA BHASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

vidade. Com referência a êsses aspectos, as Competirá à Municipalidade, nessa hi-


prefeituras devem solicitar a orientação do pótese, facilitar tudo o que esteja ao seu al-
Departamento de Saúde Pública, Nacional cance.
ou Estadual.
Os jardins botânico e zoológico devem Serviços de Utilidade Pública - Difícil
ser organizados sob orientação didático-cien- é definir com precisão o que sejam Serviços
tífico-recreativa, objetivando preferentemen- de Utilidade Pública. Dentre êles, há al-
guns, como o de eletricidade e abastecimento
te as coleções que representam a flora e a
d'água, que deveriam ser executados de for-
fauna da região .
ma que atendessem a dois ou mais Muni-
Vários são os meios que podem ser uti- cípios, pois assim se tornariam mais econô-
lizados para a obtenção das áreas destinadas micos, especialmente no caso de Municipa-
a instalação de qualquer elemento do Sis- lidades de pequenos recursos financeiros.
t• -na Recreativo, a saber: donativos de in- Infelizmente, entre nós, a vaidade local tem
divíduos dotados de espírito público, ou do levantado obstáculos à realização de proje-
Govêrno Estadual ou Federal; desapropria- tos de Conjunto, que oferecem maior número
ção; obrigatoriedade de reserva de áreas li- de vantagens e podem ser melhor organiza-
vres por parte de grandes proprietários que dos.
retalhem suas terras para venda em lotes,
etc. Os serviços de utilidade pública pode-
rão ser feitos diretamente pelas Prefeituras
Os terrenos destinados a parques deve-
ou por emprêsas privadas às quais seja dada
rão, de preferência, ser escolhidos entre os
a concessão de exploração, neste caso por
impróprios para edificações (ou por serem
meio, sempre, de concorrência pública e não
muito acidentados, ou sujeitos a inundações)
por consulta ou proposta de determinado
e os terrenos marginais aos cursos d'água .
grupo de indivíduos, devendo ser tomado
As reservas florestais existentes nos ar- especial cuidado na fixação das tarifas (ta-
redores da área urbana deverão ser conser- xas) a serem pagas pelo público, a fim de
-vadas e aumentadas, não só para proteger que sejam as menores possíveis. Quando os
o solo contra erosões, como para garantir on serviços forem feitos por concessão, os res-
mananciais aproveitados nos abastecimentos pectivos contratos devem ter cláusulas re-
d'água e, também, para embelezamento e lativas ao prazo da concessão; aprovação das
salubridade da cidade. Obras, tanto de primeiro estabelecimento,
Não são poucos os Municípios que pos- como de desenvolvimento do servico de acôr-
suem, próximo ao centro urbano, grandes do com as necessidades do públi~o; fiscali-
áreas embrejadas ou alagadiças, ou, ainda, zação da construção e operação; regime ta-
sujeitas a inundações periódicas, a lhes per- rifário; tomadas de contas de capital e cus-
turbarem a vida econômica ou a expansão teio; direitos e obrigações da Prefeitura e do
da cidade, ao mesmo tempo que constituem concessionário; sanções por inobservância do
permanente foco de insalubridade. contrato; extinção, renúncia, caducidade ou
Cumpre, em tais casos, estudar cuidado- encampação da concessão; processo de so-
samente o problema, para que possa ser rea- lução de dúvidas entre as partes; fôro, etc.
lizada a Recuperação das Areas Alagadas.
Pode tratar-se de um simples problema O Abastecimento de Agua - é um dos
de limpeza ou talvez de drenagem, em que elementos necessários à saúde das popula-
o abaixamento do plano d'água possa ser ções
conseguido com a retirada da vegetação A quantidade de água a fornecer a uma
aquática e dos entulhos, ou com a abertura cidade, geralmente expressa em litros por
de um bem traçado sistema de valas. habitante-dia, é função de um grande número
Em outros casos, poderá ser uma ques- de fatôres, tais como clima, hábitos, densi-
tão de dragagem, de endicamento ou, ainda, dade de população, natureza das atividades,
de terraplenagem. grau de civilização, etc.
O mais aconselhável em tais casos, para
Os grandes centros industriais exigem
as prefeituras de pequenos recursos, será so-
licitar o auxílio do Departamento Nacional para o seu desenvolvimento água de boa
de Obras de Saneamento (Ministério da Via- qualidade e em abundância.
ção e Obras Públicas) para a solução de tais De modo geral, a água a ser aduzida
problemas, pois são todos êles de execução para um centro urbano pode ser de superfície
custosa e dependente de conhecimentos es- ou de subsolo.
pecializados .
Há, ainda, um grande número de Obras As águas de superfície podem ser cap-
Diversas, tais como aeroportos, túneis, bar- tadas em mananciais situados nas cabecei-
ragens, abrigos antiaéreos, que as adminis- ras dos rios, caso em que dispensam, em
trações municipais podem ter necessidade geral qualquer tratamento, ou podem ser cap-
de enfrentar, embora não sejam muito co- tadas em rios que atravessam a cidade, caso
muns, a não ser nas prefeituras de grandes em que quase sempre requerem tratamen-
recursos e que, por conseguinte, podem dis · to e dispêndio de fôrça para elevação.
por de técnicos especializados .
Nesses casos, é aconselhável que os pe- As águas de subsolo, grandemente uti-
quenos Municípios recorram ao Estado ou lizadas nas regiões sêcas, são geralmente de
à União, despertando-lhes o interêsse pela boa qualidade, sob o aspecto bacteriológico,
realização da obra. o mesmo já não acontecendo sob o aspecto
Am..nNrsTHAÇÃo E UnBANISMO 65

químico, sendo seu tratamento, porém, quase Nesta última hipótese, há necessidade
sempre fácil e pouco oneroso. de obter, além daqueles elementos, mais os
O abastecimento d'água de uma cidade seguintes:
não se resume, porém, na escolha do ma-
a) Planta e detalhes sôbre os sistemas
nancial a ser utilizado e na colocação de
existentes de captação e adução.
canos nas ruas .
b) Planta detalhada de tôda a rêde de
O problema é muito mais complexo do
distribuição com os característicos das
que parece à primeira vista; é indispensável
diferentes linhas e seus estados de
ter em mãos dados topográficos, geológicos,
hidrológicos, estatísticos, cadastrais e econô- conservação.
c) Dados sôbre a situação financeira e
micos, sem o que não será possível fazer
obra apresentável. administrativa do serviço.
d) Dados sôbre o consumo específico.
De maneira geral, o abastecimento d'á-
e) Outros elementos de interêsse.
gua de uma cidade consta de quatro fases
f) Número de casas servidas.
distintas: Captação, Adução, Reservação (!
Distribuição. Somente a posse de todos êsses elemen-
Para serem projetadas a Reservação e tos é que permite organizar os anteprojetos
a Distribuição é indispensável ter em mãos e respectivas estimativas orçamentárias, o
os seguintes elementos: conseqüente estudo econômico das várias so-
luções possíveis e, finalmente, o projeto, or-
a) Planta da cidade, na escala de çamento e o estudo econômico definitivos,
1 : 2 000, com curvas de nível de me- elementos indispensáveis para as demarches
tro em metro, com as frentes das ca- relativas ao levantamento do empréstimo
sas marcadas, e abrangendo uma zona necessário à realização das obras.
em redor para o projeto de expansão
A título indicativo, fornecemos a seguir
da rêde.
a relação da documentação que deve instruir
b) Número de casas e extensão de ruas o pedido de empréstimo:
nas zonas urbanas e suburbanas.
c) Informações sôbre a distribuição de
a) Projetos e orcamentos detalhados das
obras. "
água existente com relação a quanti-
dade, qualidade, sistema e consumo b) Estudo das taxas a serem cobradas
específico. em relacão aos valores locativos dos
prédios."
d) Elementos que permitam determinar
o índice de crescimento da população c) Relação dos prédios, com os valores
e a tendência de evolução do agrupa- locativos, nas zonas a serem bene-
mento (em geral, o crescimento pre- ficiadas pelas novas obras.
dial relacionado com um certo núme- d) Importância e condições do emprés-
ro de habitantes por casa, sendo 6 ou timo (tipo, juros, prazo).
7 uma boa média para tal fim). e) Saldos orçamentários para atender ao
Para o projeto da Adução: serviço de juros e amortização nos
a) Levantamento topográfico da zona 2 primeiros anos (construção) e au-
por onde deverá passar a linha adu- xiliar o mesmo serviço até o 5. 0 ano
tora. (período inicial da administração) .
Para o projeto de Captação são necessá- Do exposto se conclui fàcilmente que a
rios os seguintes elementos: instalação ou a ampliação de um serviço de
águas exige uma série de conhecimentos es-
a) Localização topográfica, referida à ci- pecializados e que, dessa forma, só a enge-
dade, de todos os mananciais que pos- nheiros de reconhecida competência devem
sam ser usados . ser entregues os estudos, projetos e respec-
b) Estudo do regime dos rios que pos- tiva construção.
sam servir. Uma vez terminada a instalacão e ini-
c) Reconhecimento topográfico, geológi- ciada a distribuição da água, é indispensável
co e hidrológico da região dos ma- a organização de bons serviços de conserva-
nanciais. ção, fiscalização, reparos e arrecadação, a
d) Análises químicas e bacteriológicas fim de poder manter em perfeitas condições
das águas de utilização possível. a Captação, a Adução e a Reservação "e a
e) Distribuição e, assim, oferecer aos munícipes
Reconhecimento sôbre a contaminacão
dos mananciais e estudo da possib"ili- um bom serviço.
dade de sua proteção.
Com referência à parte financeira, e In-
dispensável fazer um estudo cuidadoso das
possibilidades orçamentárias, a fim de se Depois do abastecimento d'água, um dos
verificar qual a importância máxima que a serviços de maior importância para as aglo-
prefeitura pode destinar anualmente para o merações urbanas é o de Esgotos Sanitários,
custeio do financiamento das obras destina- em virtude da melhoria que traz às condi-
das aos serviço de águas. ções de salubridade da população, quando
As considerações emitidas atrás tanto bem executado e em perfeito funcionamento.
se aplicam aos Municípios que desejam insta- Como no caso do abastecimento d'água,
lar um serviço de águas como ao que deseja demanda grande técnica de projeto e execu-
ampliar o existente . ção das obras, perfeito conhecimento das

R.B.M. - 5
66 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNicÍPIOS

condições locais e grande prática de serviços material disponível, terrenos utilizáveis, nú-
dessa natureza. mero de casas e extensão de ruas nas zonas
Na maioria dos casos, é preferível não urbana e suburbana e o aproveitamento even-
ter uma cidade rêde de esgotos a possuí-la tual dos subprodutos.
imperfeita, pois poderá ocasionar conseqüên- Além disso, deve ser estudado qual o
cias funestas à saúde da população . grau de depuração necessário, considerando
O lançamento dos despejos "in natura", as ampliações prováveis e alterações possí-
por exemplo, provoca a poluição das águas veis, em futuro próximo, do tibeirão ou rio
a jusante do ponto de lançamento (a não receptor, a probabilidade de aproveitamen-
ser que haja uma tal diluição que permita to das águas depuradas, bem como das águas
a oxidação rápida da matéria orgânica), pos- do rio, procedendo-se, além disso, a estudos
sibilita a formação de bancos de lôdo, cuja comparativos entre as diversas formas de
fermentação, particularmente no estio, pode tratamento, considerando especialmente as
alterar de maneira considerável as condi- condicões climatéricas e sanitárias, a fim de
ções bioquímicas das águas de jusante, po- se poder escolher qual a forma e o tipo que
dendo também provocar a contaminação das reúne a eficiência indicada com a maior eco-
mesmas águas por bactérias patogênicas, co- nomia possível de aquisição e manutenção.
mo sejam as do grupo tífico, paratífico, disen- Assim, o principal a obter é um des-
térico, bacilo coli e bacilo da febre aftosa. pejo tratado, que não afete as condições
Essa contaminação pode atingir o len- biológicas do rio, não crie perigos à saúde
çol freático alimentador do curso d'água dos moradores ribeirinhos e que, em deter-
em questão e dos seus afluentes, causando minados casos, permita ainda o aproveita·
epidemias nos moradores ribeirinhos e epi- mento da água do rio para estabelecimento
zootias no gado que se utiliza dessas águas industrial ou para abastecimento de água
contaminadas ou de pastos por elas periàdi- potável em centros populosos de jusante.
camente inundados. Assim, a elaboração de um projeto de
Os vários despejos industriais podem, esgotos deve ser precedida de cuidadoso es-
também, provocar sé1 ias intoxicações, tanto tudo, sendo necessária uma série de provi-
em homens como em animais. dências iniciais, que são em resumo:
Outra alteração do estado bioquímica
a) Planta ciidastral da aglomeracão ur-
dos cursos d'água, aos quais se lançam águas
bana e zona circunvizinha, n; escala
de esgotos e as residuais da indústria, sem
de 1 : 2 000 e com curvas de nível
prévio tratamento, é a transformação do as-
de metro em metro.
pecto físico e da paisagem da região, em
vil tude da falta do oxigênio bioquímica, ne- b) Coleta de elementos estatísticos e de-
cessário à vida da flora e da fauna ribei- mográficos.
rinhas, afora a ocorrência de exalações desa- c) Coleta de dados geológicos e hidroló-
gradáveis que, com caráter acentuado e cons- gicos de interêsse.
tante, podem provocar a desvalorização das d) Estudo econômico-social da aglome-
margens fluviais e uma situacão incômoda ração.
ao bem-estar geral da cidade. •
e) Composição provável dos esgotos.
A situação ainda se torna mais precária
f) Natureza e condições dos esgotos in-
quando as águas assim contaminadas devem
dustriais.
servir para o abastecimento de cidades ou
out1os núcleos humanos situados a jusante. g) Grau de poluição das águas de mon-
Neste caso, é diretamente afetada a saúde tante e jusante.
dos moradores e o bem-estar da coletividade. h) Futura utilização ou aproveitamento
Mesmo em pequenas vilas, fazendas e das águas servidas ou das águas a
sítios, a contaminacão dos ribeirões e córre- jusante.
gos pode provocar ~ surto esporádico de tifo. De posse dêsses elementos e outros mais
disenteria bacilar ou amebiana, etc., como que se tornem necessários, poderá ser esco-
não raro acontece no interior do País. lhido o tipo de tratamento mais adequado.
Quando a aglomeração tem núcleos in- A título meramente ilustrativo, faremos
dustriais, é necessário considerar a natureza a seguir uma enumeração dos principais ti-
dos respectivos despejos, pois há indústrias, pos de tratamento usados presentemente,
como, por exemplo, as de lacticínios, char- que podem ser Naturais ou Artificiais.
queadas, usinas de açúcar e álcool, mata-
Os Naturais são:
douros-frigoríficos, etc., cujas águas servidas,
por causa da alta concentracão de matéria a) Diluição dos esgotos em lagos na-
orgânica, poderão requerer tratamento mais turais ou grandes cursos d'água
completo do que o necessário para os esgotos b) Irrigação superficial ou subterânea
domésticos. com os esgotos
Tal como acontece quando se deseja c) Aproveitamento de cachoeiras e cas-
fazer o abastecimento d'água de uma cidade, catas naturais.
é indispensável ao projeto de uma rêde de
d) Aproveitamento de bacias naturais
esgotos, além de uma boa planta cadastral,
para depurar esgotos.
o conhecimento de uma série de elementos,
como sejam: Natureza do terreno, cota do e) Humificação em sulcos ou valas, com
emissário, profundidade da água freática, posterior atêrro .
possibilidade de inundações, caráter e volu- f) Lançamento em tanques de criação
me provável do esgôto, preço e espécie de de peixes.
Am.nNISTRAÇÃO E URBANISMO 67

Os Artificiais podem ser agrupados nos No caso de ampliação da rêde de esgo-


três tipos seguintes: tos, dever-se-á proceder ao levantamento ge-
ral das instalacões e coletores existentes e
a) Os que apenas removem uma parte
estudar com c~idado se os emissários prin-
da matéria sólida em suspensão ( tra-
cipais comportam a carga dos ramais a se-
tamento preliminar) .
rem ligados .
b) Os que são acompanhados por pro-
Quanto à parte financeira do e~~re~n­
cessos biológicos e convertem a maté-
dimento, devem ser tomadas prov1denc1as
ria instável e putrescível em com-
análogas às referidas para o caso de abas-·
postos estáveis pelo processo de di-
tecimento d'água.
gestão (tratamento suplementar) .
c) Os que, além das providências acima
assinaladas, fazem a melhoria do aflu-
ente, seja por processo de desinfeção
*
química, seja por processo de filtra- Tôda comunidade que desejar viver em
ção (tratamento químico) . boas condicões higiênicas necessita organi-
zar um ra~oável serviço de Limpeza Pú-
Quanto aos meios Naturais, a sua ado- blica.
ção depende das possibilidades do ambiente, Esta compreende a limpeza das ruas e
das condições topográficas e climatéricas e praças e a manipulação do lixo domiciliar
da área disponível. Em determinadas con- e das casas comerciais e dos resíduos da in-
dições, sua eficácia é igual ou superior _à dos dústria.
tratamentos artificiais. Em zonas agncolas, O lixo domiciliar e comercial possui ge-
muitas vêzes, merecem preferência, pela eco- ralmente grande quantidade de matéria or-
nomia da manutenção e rendin-,ento comer- gânica· os resíduos industriais variam com a
cial. nature~a da indústria, e o material prove-
Quanto aos meios Artificiais, oferecem, niente da limpeza das ruas é geralmente ve-
na maior ia dos casos, mais vantagem que os getação rasteira, terra e pequenos detritos di-
Naturais, especialmente nos núcleos mais po- versos.
pulosos. Por êles é possível controlar a di- Salvo o caso de certos resíduos indus-
gestão dos lôdos, evitando os incômo::los do triais que devem ter tratamento especial, o
mau cheiro, a proliferação de insetos, sendo, problema do lixo, em geral, pode ser enca-
também, possível o barateamento do cus- rado sob os três aspectos seguintes: Coleta,
teio das instalações pelo aproveitamento de Transporte e Destino
gás pobre e adubo, além de que as insta!n- A Coleta comeca nos domicílios, casa•
cões depuradoras podem ser feitas mais per- comerciais, estabelecimentos industriais e nas
to das cidades, ocupando áreas menores. ruas.
Qualquer que seja o método escolhido,
Os recipientes que recebem o lixo do-
deverá ter flexibilidade suficiente para aten-
miciliar e comercial devem ser fechados. pa-
der a sobtecargas decorrentes do possível de-
ra evitar exalacões e ajuntamento de môscas
senvolvimento local.
e outros inset,;~; os recipientes dos resídt~os
Do exposto se conclui que são necessá-
industriais variam conforme a natureza des-
rios conhecimentos especializados e certo cri-
tes resíduos.
tério na escolha do sistema mais convenien-
O servico de Coleta nas ruas consta
te determinando quando e até que ponto
d~ve ser feito o t;atamen1 o com o mínimo essencialment~ de varredura, capina, limpez3
de ralos, bôcas de lôbo e caixas de areia e,
possível de dispêndio, sem prejuízo, porém,
ainda, raspagem de terra, que é juntada em
das condições sanitát ias
caixas especiais construídas nas esquinas, ou
O projeto de esgotos deverá abranger
em montículos a serem removidos sem de-
as várias áreas de esgotamento em que a ci-
mora.
dade se dividirá de acôrdo com a topografia,
preverá a rêde e o esgotamento das zonas Vários sistemas de recipientes têm sido
futuras de exnansão e dará os detalhes das imaginados e postos à venda, todos éles vi-
obras essenciais (usinas, esL\çÕes elevatórias, sando a impedir a vista e as exalacões elo
coletores, tratamento, etc ) . lixo, mas, ainda por muito temPo, será di-
Assim, só a engenheiros especializados fícil conseguir a adoção. E>ntre nós, de reci-
deve ser entregue o serviço de projeto e exe- pientes de tino tão anerfeicoado.
cução de uma rêde de esgotos. A questão do Trans1Jorte 1JOde ser en-
carada sob os dois aspectos seguintes: es-
De grande importância é a manutenção colha adequada de veículo e critério na de-
e o custeio das instala~ões projetadas Quan- terminacão dos trajetos.
to mais simples o maneio, sem sacrifício da
Os .veículos devem, de modo get·al, sa-
eficiência, tanto mais garantido é o funcio-
tisfazer às seguintes condicões: fácil carva
namento da instalação.
e descarga e menor exposicão nossível do li-
Para a~ instalacões de tr8t'lm€nto ele e~­ xo coletado, a fim de evitar os inconvenientes
gotos domésticos, a. manutenção e o custeio i á apontados. O tipo de tra,ão mais econô-
devem estar E>rn limite compatível com as mico depende, até certo vonto, das distâncias
possibilidades financeiras dos proprietários. que elevem ser percorridas.
Os métodos de contrôle devem ser os Na limoeza das ruas o sistema de t1·ans-
mais simples que fôr possível, sem prejuízo porte nor veanenas carrocinhas empurradas a
da segurança, e o aproveitamento dos sub- mão baldeando-se o lixo, em determinados
produtos deve ser organizado de forma a tor- pontos para ve'culos de maior capacidade,
nar mais econômico o custeio dos serviços que levarão o lixo ao ponto de descarga, é
68 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

método que geralmente dá bons resultados e inconveniente sob os aspectos da higiene


pela comodidade e economia da operação . e da estética .
Quando o local de despejo não está A alimentação de porcos, com lixo, exi-
muito longe do centro, o tempo de carga é ge não só uma cuidadosa triagem prévia,
muito maior que o tempo de transporte. como a vacinação dos suínos para evitar epi-
Nestes casos, a tração animal é mais vanta- zootias . É processo que só deve ser empre-
josa do que a automotora, pois o dispêndio gado em casos especiais .
de combustível se eleva muito com paradas
e partidas freqüentes . *
Os veículos de tração animal são, tam- * *
bém, de custo muito inferior ao do automo- Qualquer núcleo de população que atin-
tor e a sua conservação é, também, conside- ja dete1minado desenvolvimento necessita
ràvelmente menor. da instalação de Matadouro, pois, não só a
No interior, ou nos pequenos centros, a carne é artigo de primeira necessidade na
tração animal oferece, geralmente, maiores alimentação, como, por outro lado, se trata
vantagens. de indústria rendosa.
Nos grandes centros, no entanto, o veí- Sua instalação exige certos cuidados hi-
culo automotor é preferível, não só pelo giênicos, pois é, pela sua natureza, estabele-
tempo que economiza nos transportes, como cimento que manipula um artigo que diz res-
também por ser mais higiênico e de mais peito de perto à saúde da população.
fácil manejo. A carne que vai ser entregue ao consu-
As condições locais determinarão quais mo deve ser inspecionada para garantia de
os tipos de veículos mais convenientes ao Heu bom estado higiênico . Éste serviço só
transporte do lixo . poderá ser eficientemente exercido por pro-
Quanto aos trajetos, devem ser cuidado- fissional diplomado ou por pessoa devidamen-
samente estudados, não só para facilitar a te habilitada por conhecimentos adquiridos
coleta geral, como para diminuir os percursos em grandes matadouros. Os estabelecimentos
com os veículos vazios. de certo volume de produção têm necessida-
O destino a ser dado ao lixo varia mui- de de serviço médico-veterinário e de bom
to com as particularidades locais: topogra- laboratório de análise e pesquisas.
fia, recursos da cidade, etc. Os matadouros devem ficar localizados
Cinco são os principais fins que se po- longe do centro urbano, dispor de água em
dem dar ao lixo: Incineração, Atêrro, Ferti- abundância, ter o chão perfeitamente imper-
lizante, Submersão e Alimentação de Porcos. meabilizado e dispor de bom sistema de es-
A Incineração é, sob o aspecto sanitá- gotos para os seus detritos. Tôdas as salas e
rio, o melhor sistema, sendo aplicável a qual- dependências devem ser bem insoladas e ven-
quer espécie de lixo . Em alguns casos, po- tiladas, assim como os estábulos e currais
derá êste ser aproveitado como combustível anexos.
em caldeiras de produção de vapor, o que, A limpeza e desinfeção devem ser fei-
entretanto, raramente é econômico. tas com cuidado, de forma a garantir as me-
lhores condições higiênicas possíveis.
O empilhamento em Atêrro é processo
Os projetos e a construção de matadou-
deficiente pelo lado higiênico, mesmo quan-
ros das cidades de razoável populacão só de-
do recoberto o lixo por camada de terra;
vem ser executados sob a direção de profis-
mas, em lugares em que haja falta de mate-
sionais competentes no assunto.
rial para terrapleno, poderá ser utilizado com
A instalação de matadouros-frigoríficos
vantagens econômicas, apesar da morosidade
é, geralmente, realização que deve ser deixa-
do processo e da instabilidade do terreno re-
da a cargo da iniciativa particular, pela com-
sultante.
plexidade comercial de sua explor.acão. As
O aproveitamento como Fertilizante ofe- Municipalidades devem, no entanto,· quando
rece duas modalidades: utilizacão "in natu-
se ofereça oportunidade, procurar facilitar a
ra" e fabricação de adubos po; fermentação instalação de tal indústria no Município,
do lixo . O primeiro é pouco higiênico e de quando convenha aos interêsses da coletivi-
medíocres resultados; o segundo é moroso e
dade.
pràticamente inaplicável acima de certo vo-
lume de lixo, pela grande área necessária.
Em lugares, porém, de terras cansadas e
quantidade de despejo não muito grande, A instalação de Mercado nos centros ur-
tal processo oferece muitas vantagens. banos, mesmo os de pequena importância, é
O processo de Submersão, muito usado iniciativa que, em geral, traz vantagens à
em cidades situadas à beira-mar ou à margem comunidade, pela oportunidade que oferece
de rios ou lagos de grande volume d'água, aos produtores e consumidores de negociarem
apresenta sérios inconvenientes, a não ser em sem intermediários e, portanto, em melhores
rios muito caudalosos e com as margens de condições de preço .
jtisante desabitadas. Doutra forma, em vir- A tendência de se estabelecerem nos mer-
tude da putrefação do lixo, haverá poluição cados firmas comerciais deve ser combatida
das águas e, como conseqüência, dissemina- eficazmente, permitindo-se, no entanto, que
ção de moléstias e, em certos casos, até des- estas se localizem nas cercanias.
truição dos peixes, por causa do esgotamento O mercado deve ficar situado em local
do oxigênio contido na água. Por melhor de acesso fácil aos produtores e consumido-
dissolução e oxidação que haja, não será pos- res, quase sempre próximo ao centro comer-
. sível evitar o depósito de detritos nas mar- cial, devendo ter espaço coberto suficiente
gens de jusante, o que é sempre arriscado para a localização dos vendedores, e fora,
AmvnNISTRAÇÃO E URBANISMO 69

lugar para estacionamento dos respectivos vencionem inicialmente tais serviços, com o
veículos e montadas (quando fôr o caso) . fim de despertar a iniciativa particular. Só
Nas cidades a beira-mar ou a beira-rio, deve em casos especiais devem as prefeituras exe-
ser considerada a possibilidade de acesso ma- cutar o serviço por administração.
rítimo ou fluvial.
Os problemas de insolação, ventilação, *
água e limpeza devem ser encarados com cui-
dado especial, a fim de serem garantidas Dentre os serviços de utilidade pública,
boas condições higiênicas. o de Eletricidade ocupa lugar de destaque,
Ao ser projetado um mercado, é con- juntamente com o de águas e o de esgotos.
veniente estudar um plano econômico-finan- Nos tempos progressistas que correm,
ceiro para a sua manutencão e conservação. não se pode admitir que qualquer aglomera-
a fim de se não sobrecar;egar o orçamé'nto ção urbana que atinja certo grau de desen-
municipal; em certos casos poderá até ser volvimento, não disponha de energia elétrica,
fonte de renda. pelo menos para iluminação pública e parti-
Em determinadas circunstâncias, espe- cular, para aquecimento e outros usos domi-
cialmente no interior, o mercado poderá cons- ciliares e como fôrça motriz para a indústria.
tituir um dos elementos de desenvolvimen- Os Municípios que não tiverem possi-
to do núcleo urbano, agindo como centro de bilidade de oferecer, a preço razoável, farta
convergência dos negócios das circunvizi- quantidade de luz e fôrça elétrica, não po-
nhanças. derão ter a pretensão de atingir grande de-
senvolvimento industrial.
Infelizmente, porém, a maioria dos nos-
* * sos Municípios não dispõe de recursos para
À medida que um centro urbano se ex- atacar o problema de forma conveniente, fi.
pande e aumenta o seu movimento industrial
cando na contingência de esperar que o Go-
e comeJ cial, vai-se fazendo sentir a necessi-
vêrno Federal ou Estadual organize e exe-
dade de transporte mais rápido e fácil das cute as grandes centrais elétricas, única so-
massas humanas, que precisam deslocar-se lução para o fornecimento de energia elétrica
de um ponto a outro, no desempenho de suas
em abundância e a baixo preço.
obrigações, ou a passeio
Contudo, na impossibilidade de uma so-
Assin1, aos poucos, vai-se tornando ne~
lução ótima, devem as Municipalidades pro-
cessária a organização dos Transportes Urba-
curar uma solução satisfatória, embora não
nos coletivos
ideal.
Êstes transportes são geralmente execu- Em alguns casos, a energia poderá ser
tados por carros-automóveis (ônibus) ou car- fornecida por companhia particular que já
ros elétricos, podendo êstes ser sôbre trilhos tenha serviço organizado em cídades próxi-
(bondes), ou não ( "trolley-buses"), sendo mas; em outros casos, por usinas menores
que êste Último sistema, que é mais econô- localizadas no Município e exploradas pela
mico do que o de bondes, exige ruas muito própria Municipalidade ou por emprêsa con.
bem navimentadas. cessionária .
Econômicamente falando e a partir de De qualquer forma, porém, três são as
certo volume de transporte, o bonde ou o condições principais para que se tenha um
"trol!ev-bus" é preferível ao ônibus comum, servico satisfatório: continuidade de For-
pois oferece transporte mais barato e não necir;lento, Constância de Voltagem e Preço
depende, geralmente, de combustível impor- Conveniente.
tado para o seu funcionamento.
Quanto ao tipo de usina, poderão ser
A instalacão de um servico de bondes
hidro-elétricas ou têrmo-elétricas. Às primei-
ou de "trollev-bus". é, porém; 1nuito mais
ras deve ser dada pYeferência, sempre que
difícil e complexa do que de um serviço de possível, por serem, em geral, de custeio
ônibus, não só pelo capital necessário, como mais econômico, embora as despesas de ins-
pelo grande corpo de funcionários especiali- talação sejam muito maiores. As segundas
zados que exige para garantia de um bom poderão ser a vapor, motor Diesel ou de gás
funcionamento. pobre. Destas últimas, o tipo mais conve-
Por essas razões, a implantação de um niente varia conforme a região e só um es-
serviço de bondes, ou de "trolley-buses", só se tudo das condições locais poderá decidir
justifica quando as distâncias a serem per- Em alguns casos poderá até ser aproveitado
corridas e o volume de passageiros a trans- o lixo da cidade como combustível auxiliar
portar atingem certos valores. Quando a energia é produzida a distân-
Abaixo dêstes, não se justifica a organi- cia do centro consumidor, a energia elétrica
zação de uma companhia de bondes, devendo é transportada por meio de linhas de trans-
o problema ser resolvido pelos ônibus, embo- missão de alta voltagem, até estações trans-
ra o preço das passagens tenha de ser mais formadoras situadas em pontos conveniente-
caro. mente escolhidos, e, daí, então, distribuída
Num caso ou noutro, porém, a distri- aos consumidores em baixa tensão. Se, po-
buição dos meios de transporte, e o respec- rém, as usinas estiverem muito próximas do
tivo preço, não podem ser deixados a crité- centro, a distribuição poderá ser feita dire-
rio exclusivo das emprêsas, devendo ser, ao tamente em voltagem baixa. Para as indús-
contrário, cuidadosamente coordenados e re- trias o fornecimento é feito, quase sempre,
gulados pela Municipalidade, em defesa do diretamente da rêde primária, fazendo cada
interêsse público. qual a transformacão que mais lhe convém.
Em alguns casos será interessante que Com referência à iluminação pública,
as Municipalidades criem facilidades ou sub- são usados os mais variados tipos de postes,
70 REVISTA BHASILEIIIA DOS MuNICÍPIOS

de madeira, de ferro, ou de concreto, com embora menos cômodos e limpos. Nestes ca-
um ou mais pontos de luz. Os postes de sos, entretanto, a energia elétrica é, muitas
madeira não se recomendam pela pouca du- vêzes, mais conveniente.
rabilidade e pelas despesas de conservação * ::: ...
que originam, além de que já custam caro
O serviço de telefones está no Brasil
em muitos pontos do Brasil; os de ferro têm
entregue, na maioria dos casos, a companhias
contra si o alto preço inicial e a despesa de
particulares bem organizadas, que, possuindo
pinturas periódicas; os de concreto têm a
larga rêde instalada, facilitam as comunica-
seu favor a grande durabilidade, a conserva-
ções interurbanas.
ção pràticamente nula e a relativa facilidade
de fabricação local, sendo ainda de notar-se A não ser em casos muito especiais, não
a exigência, no País, de fábricas especiali- há, geralmente, vantagem em montar serviço
zadas, que produzem postes de concreto ar- telefônico urbano isolado, nas zonas de in-
tísticos e de excelente qualidade. fluência das companhias existentes. Em todo
O tipo de lâmpadas geralmente usado caso, adotada que seja a solução isolada, não
é o incandescente . podem as grandes emprêsas telefônicas re-
Quanto à distribuição dos pontos de luz cusar o tráfego mútuo com as suas linhas
nas ruas, tanto nos bairros residenciais, como para o serviço interurbano.
comerciais e industriais, deve ser feita de A grande maioria das nossas prefeituras
modo que se obtenha uma iluminação uni- uão está em condições de manter um tal ser-
forme o velho método de colocar somente
o viço.
pontos de luz nas esquinas e nos meios dos
quarteirões deve ser abandonado.
A iluminação das praças e jardins pode
ser executada de forma que permita em dias O Servico Funerário compreende em
de festa, sem instalações suplementares, geral três partes:
maior intensidade de iluminação do que a a) Pertences para Velório e Confecção
dos dias comuns. de Caixões
Para os repuxos, chafarizes e estátuas, b) Tranportes de Cadáveres
podem, também, ser estudados sistemas que c) Cemitérios
os embelezem e realcem.
Tal como nos demais servicos de utili- A Confecção de Caixões é geralmente
dade pública, é indispensável organizar bons privilégio de uma instituição de caridade,
serviços de conservação e manutenção, a fim bem assim o aluguel de Pertences para V e-
de poder ser garantido um perfeito forneci- Iório. Há, contudo, localidades pobres que não
mento de energia à cidade e, ao mesmo tem- comportam a organização do serviço por essa
po, oferecer um bom servico de assistência forma, cabendo à Municipalidade mantê-lo.
a todos os consumidores. o
O Transpot te de Cadáveres deve ser fei-
Semelhantemente aos casos da água e de to em carros especiais, que podem ser à tra-
esgotos, é indispensável que os estudos, pro- cão animal ou a motor. Nos centros mais
jetos e a execucão das obras só sejam le- populosos é, geralmente, serviço incluído no
vados a efeito por profissional competente privilégio acima referido; nos menores, po-
e especializado no assunto. rém, compete à Municipalidade provê-lo.
A instalacão do servico de eletricidade À Municipalidade ou à instituição de
tem de ser pr~cedida da ~onfecção da carta caridade concessionária do serviço, cabe as-
cadastral da cidade e da coleta de dados segurar, gratuitamente, o fornecimento de
estatísticos e demográficos, tal como já foi
caixões e o transporte de cadáveres de indi-
mencionado anteriormente, a fim de se po- gentes.
der ajuizar da potência mínima a ser insta- Os Cemitérios, do mesmo modo que os
lada e prever logicamente um certo período
serviços anteriores, devem ser administrados
de crescimento da cidade e, consequêntemen-
pelas Municipalidades ou por associações
te, a data a partir da qual se deverá tratar oias ou de caridade.
da ampliação do fornecimento. - Além do registro e da realização dos
Luz e fôrca são dois serviços perfeita- enterramentos, as administrações dos cemi-
mente financiáveis, sendo, pois, aplicável ao térios têm obrigação de cuidar de uma série
caso o que ficou dito para os serviços de de outros problemas da necrópole, que, na
águas e esgotos. maioria dos casos, são inteiramente deixados
Qualquer ampliação tem de ser prece- de lado
dida de um levantamento completo da rêde
Assim, por exemplo, precisam organizar
existente, sua capacidade máxima e estado. os planos de enterramento, de forma que se
utilize bem a área do cemitério, podendo
obter dos ricos, pelo direito de serem enter-
rados em quadras consideradas nobres, con-
Muito poucas cidades no Brasil, tal co- tribuições que cubram o serviço prestado aos
mo na América do Norte, estão em condi- pobres. Além disso, deverão cuidar da ne-
ções de manter um bom serviço de gás, nem crópole de forma que se mantenha com apa-
o seu fornecimento pode ser considerado co- rência condigna e em boas condições de con-
mo de absoluta necessidade para o público. servação. Os problemas mais comuns a cuidar
Geralmente a sua instalação só é econô- são: Defesa contra a Erosão, Drenagem, Ar-
micamente possível nos centros mais populo- borização, Muros, Caminhos, etc.
sos e adiantados, onde há dificuldade de ob- A localizacão de novos cemitérios deve
tenção de outros combustíveis mais baratos, ser levada em consideração durante a ela-
o
Am.HNISTRAÇÃO E URBANISMO 71

boração do Plano Diretor, devendo-se sem- cio e da Indústria, que se sentiram despro-
pre conservar convenientemente os antigos, tegidos contra os azares do fogo. Funda-
embora não estejam mais em uso; só em ram-se então várias sociedades, que inesti-
casos extremos deverão ser removidos e, em máveis serviços prestaram às respectivas co-
nenhuma hipótese, deixados ao abandono. munidades.
Posteriormente, em virtude das dificul-
dades que tais sociedades tiveram de enfren-
tar, os poderes públicos foram chamando a
si a responsabilidade de tão útil e benemé-
Além dos Servicos de Utilidade Públi-
rito serviço .
ca acima referidos, há outros de menor im-
portância ou que só existem em reduzido As cidades modernas que já atingiram
certo desenvolvimento não devem deixar de
número de localidades, e que, portanto, não
podem ser considerados como gerais, estando manter um corpo de bombeiros, pois, com
tal medida, não só protegem, como fazem
alguns dêles sob o contrôle do Estado ou do
Govêrno Federal, embora tenham importân- baixar as taxas de seguros, o que, em últi-
cia decisiva para o progresso do Município. ma análise, redunda em barateamento das
Neste caso estão, por exemplo, as fon- 1nercadorias .
tes hidro-minerais, as estações balneárias de Para a organização de tal serviço é pru-
cura, as instalações portuárias, centrais ferro- dente recorrer à experiência das corporações
viárias, serviços de parques nacionais, gran- das grandes cidades que tenham vários anos
des centrais hidro-elétricas, etc. de existência e que possam ceder instrutores
Em tais casos, compete às Municipali- habilitados, que formarão o primeiro núcleo
dades cooperar com os demais poderes ad- de pessoal especializado no Município, ao
ministrativos no sentido de facilitar a exe- mesmo tempo que darão tôda a orientacão
cução de melhoramentos ou planos que, de e assistência técnica na aquisição da ap;re-
modo direto ou indireto, possam contribuir lhagem indispensável.
para o progresso do Município, As cidades que não comportarem a ma-
nutenção de um corpo permanente poderão
SEGURANCA - Os servicos de seguranca com habilidade recorrer a uma solucão transi-
de uma cidad~ abrangem, d~ modo geral, ~s tória, que consistirá na aquisição ~de apare-
seguintes setores: lhagem simples e eficiente, que será mane-
a) Polícia. jada, nas ocasiões necessárias, por um grupo
b) Extincão de Incêndios. de voluntários, dirigido por elemento que te-
c) Tráfego. nha estagiado em boa c oi poração.
A instalação de um serviço nesses mol-
PoLÍCIA - No Brasil, o serviço de Polí- des deve ser precedida de uma campanha
cia está afeto geralmente ao poder estadual, bem orientada no sentido de constituir título
tendo poucas cidades (algumas capitais) um honorífico na localidade o pertencer ao grupo
corpo especial, mantido pela Municipalidade, de bombeiros voluntários.
e encarregado da segurança pública da cidade As companhias de seguros e o Instituto
A maioria dos Municípios não dispõe, mes- de Resseguros do Brasil poderão prestar gran-
Jno, de recursos para manter um corpo espe- de auxílio na instalacão do Servico de Ex-
cializado dessa natureza. tinção de Incêndios. > >

As cadeias, reformatórios, penitenciárias, Antes de qualquer iniciativa neste sen-


colônias penais, são estaduais ou federais. tido, é indispensável, porém, que na locali.
EXTINÇÃO DE INCÊNDIOS - Um serviço dade haja, em quantidade suficiente, água
de segurança ainda pouco difundido no Bra- para o fim que se tem em vista.
sil, e que é essencialmente uma atribuição TRÁFEGO - À medida que uma cidade
municipal, é o de Extinção de Incêndios, progride, o seu movimento de pedestres e veí-
executado nas principais cidades pelos cha- culos cresce, surgindo então sérios problemas
mados corpos de bombeiros. de Tráfego, que devem ser solucionados.
À medida que uma aglomeração urbana Só após cuidadoso estudo das condicões
se desenvolve, e o comércio e as indústrias locais, em que seja considerado o volun{e e
se multiplicam, crescem, em conseqüência, direção do tráfego, a possibilidade de cria-
as probabilidades de incêndios. Daí a neces- cão de espaços para estacionamento, os diver-
sidade de proteger-se a comunidade contra sos tipos de meios de transporte e suas quan-
os crescentes azares do fogo, que tem acarre- tidades relativas, a afluência dos pedestres
tado através do tempo grandes perdas de nas ruas, é que poderá ser organizado um
vidas e materiais . plano de tráfego.
Dois processos se empregam para tal Êste terá por fim determinar a direção
fim: o Preventivo e o Abortivo. de circulação dos veículos nas ruas, os luga-
O primeiro consiste em desenvolver uma res de estacionamento permitido ou proibido,
campanha educativa, mostrando as causa~ a sinalização dos cruzamentos, as velocidades
mais comuns de incêndios e as suas tremen- máximas e mínimas de tráfego, os itinerá-
das conseqüências. t ios dos transportes coletivos e respectivos
O segundo importa na organização de um pontos de parada, as travessias de pedestres
grupo de homens especializados e treinados, e vários outros problemas de menor impor-
dispondo de material adequado ao combate tância.
de incêndios. Qualquer espécie de serviço que não
As primeiras iniciativas para orzanização seja fiscalizado, não será eficiente. Assim, é
de corpo de bombeiros partiram do Comér- indispensável que, depois de pôsto em vigor
72 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

o plano de tráfego da cidade, seja a sua exe- carne, vegetais, etc.), como a verificação das
cucão convenientemente fiscalizada, insti- condições higiênicas e de salubridade dos ser-
tui~do-se a imposição de multas aos faltosos. vicos de águas, esgotos, lixo, estabelecimentos
O Servico de Tráfego deverá, também, pti'blicos, etc., e, às vêzes, o contrôle do uso
manter o registro e a matrícula de todos os de certos medicamentos.
veículos existentes no Município, de acôrdo Os servicos de Profilaxia têm por obje-
com a legislação em vigor. tivo o estab~lecimento de medidas de pre-
vencão e a difusão de ensinamentos que evi-
SAÚDE PÚBLICA - O bom estado de tem" ou reduzam a propagação de certas mo-
saúde de uma aglomeração humana reflete-se léstias, especialmente malária, tuberculose,
em geral sôbre tôdas as suas atividades. peste, lepra, doenças venéreas, tifo e tôdas
Nenhum achacado é capaz de realizações as epidemias .
vultosas; será sempre um medíocre, quando Juntamente com os serviços de Profi-
não um vencido . laxia, é de tôda conveniência proceder à Edu-
Conseqüentemente, uma população de cação Sanitária da população, por meio de
doentes não poderá progredir conveniente- jornais, rádio, cartazes, publicações, confe-
mente rências, cinema, etc. A divulgação de conhe-
Importante, pois, para qualquer admi- cimentos dessa natureza prestará à comuni-
nistração, o problema de Saúde Pública. dade inestimáveis serviços, pelas armas que
Os Municípios que julgarem deficiente lhe fornece para combater e se prevenir con-
a ação estadual, e que dispuserem de re- tra as doencas mais freqüentes . Exprimindo
cursos para tanto, poderão manter indepen- os benefício; decorrentes da educação sanitá-
dentemente dos do Estado, ou, o que será ria, um grande médico ~orte-am~ricano as-
melhor, em cooperação, alguns dos serviços sim se expressou: "Se fosse posstvel trans-
de saúde pública julgados mais necessários mitir ao povo os conhecimentos atuais da
ao bem-estar da população. Ciência, a vida dos homens das gerações vin-
Qualquer administração que pretenda douras poderia ser provàvelmente acrescida
instalar um serviço, especialmente se se tra- de dez anos".
tar de saúde da população, precisa ter sem- A fim de manter a comunidade em boas
pre presente que a simples montagem e ins- condicões de saúde e capaz de produzir efi-
talação material pouco ou nada valem, se cient.;mente para o progresso do Município,
não houver verba para pagar a pessoal ca- é indispensável que a população possa dispor
paz e para custear as despesas de manuten- de Serviços Clínicos eficientes, aptos a aten-
ção.
der aos doentes, especialmente os de me-
Aliás, entre nós, há exemplos de pom- nores posses. Quando há recursos financei-
posas instalações, que em pouco tempo se ros suficientes, deve-se cogitar do forneci-
tornam inúteis, pela falta de meios para mento de remédios juntamente com a receita
funcionar. Simples conseqüências, no mais ou, pelo menos, da sua venda a preços aces-
das vêzes, da volúpia de inaugurar novos síveis.
serviços, para fazer merecimento junto às Dentre as atividades sanitárias de maior
autoridades superiores ou para ganhar calcu- importância para o futuro das aglomerações
lado prestígio na opinião pública, visando a humanas, ressalta pelo seu valor a Assistên-
objetivos nem sempre recomendáveis. cia à Maternidade e à Infância. No Brasil,
O fato real é que a manutenção eficien- então, onde o Índice de mortalidade infantil
te de qualquer serviço é, geralmente, um mis- é alarmante, e a escassez da população um
ter ingrato e que não se presta tanto a im- dos mais sérios entraves ao progresso, mais
pressionante propaganda como uma inaugu- necessário se totna tal serviço.
ração qualquer, embora modesta e de vida É indispensável zelar pelas gerações fu-
efêmera.
turas desde a concepcão até a adolescência
O bom administrador, porém, deve ter dos futuros cidadãos. "'Importa à administra-
o desinterêsse e o altruísmo de agir de acôr- cão pública cuidar das mães, ministrando-lhes
do com o real interêsse público e não com ~nsinamentos e cuidados médicos, não só du-
o interêsse próprio, especialmente se se tra- rante a gestação, como no parto, puerpério
tar da saúde do povo. e lactação, e orientá-las nos cuidados com os
Vários e múltiplos são os aspectos sob filhos, suprindo-se as deficiências de alimen-
os quais podem ser encarados os problemas tacão e medicamentos, principalmente quan-
de saúde pública. Os principais, no âmbito do" derivadas da pobreza dos pais.
da administração municipal, são os seguintes: Nenhum país poderá progredir e ser
a) Contrôle Sanitário. forte sem cuidar convenientemente da saúde
b) Profilaxia. de seus filhos.
c) Educacão Sanitária. A instalacão e manutenção de Hospitais
d) Serviç~s Clínicos. nas sedes m~nicipais, sejam êles custeados
e) Assistência à Maternidade e à In- pelo govêrno ou por organizações particula-
fância. res, devem constituÍ! preocupação constante
i) Hospitais. das administrações.
g) Socorros Urgentes. As Municipalidades que não dispuserem
h) Laboratório de Análises. de recursos suficientes devem recorrer às
i) Serviços Odontológicos. autoridades estaduais ou federais, cooperando
j) Registros e Estatística. no que estiver ao seu alcance para facilitar
aquela realização.
O Contrôle Sanitário abrange não só os Sem hospitais, não será possível proce-
serviços de inspeção de alimentos (leite, der com segurança a certas intervenções ci-
ADMINISTRAÇÃO E URBANIS:IdO 73

rúrgicas, nem tratar de determinadas molés- secundário. O ensino superior, salvo nos Mu-
tias, especialmente as contagiosas. Um hos- nicípios das grandes capitais, deve ser dei-
pital em funcionamento representa eficiente xado à competência dos Governos Federal
proteção para tôda a população. Na organi- e Estaduais. Além do ensino propriamente
zação dos serviços hospitalares é preciso não dito, outras iniciativas auxiliares podem tam-
esquecer que as classes menos bafejadas pela bém ser tomadas pela Municipalidade.
fortuna são, em geral, as que têm mais ne- A atividade educacional da prefeitura
cessidade de tal assistência e que os ricos e deve, pois, abranger várias modalidades, co-
remediados, em troca de luxo e confôrto, po- mo sejam a criação de Escolas Públicas, di-
dem contribuir para a manutenção de leitos fusão da Educação Física, a organização de
gratuitos para os indigentes. Jardins Recreativos, ou, ainda, instalação de
Desde que a aglomeração urbana atinja Bibliotecas e Museus.
certo grau de desenvolvimento, a organização O Ensino Primário feito nas Escolas
de um serviço de Socorros Urgentes anexo Públicas municipais, não tem, no Brasil,
ao Hospital será de real utilidade para a orientação uniforme, variando de método e
população, pois esta poderá dispor, a qual- sistema conforme a zona, os recursos dispo-
quer hora do dia ou da noite, e prontamente, níveis ou o preparo e interêsse dos respon-
de médico e recursos. Muitas vidas poderão sáveis.
assim ser salvas Quanto à amplitude que Nas Escolas Públicas, o ensino deveria
tais serviços devam ter, somente as condi- ser ministrado exclusivamente por professô-
cães locais e os recursos disponíveis é que res diplomados. Infelizmente, porém, a maio-
~ determinam. ria dos Municípios não possui situação fi-
Como auxiliar indispensável de todos os nanceira que permita manter razoável corpo
serviços de saúde pública, o Laboratório de de educadores competentes.
Análises tem importante missão a cumprir, Muitas vêzes, os vencimentos oferecidos
não só no estabelecimento de diagnósticos, quase não compensam as despesas de manu-
como na análise de alimentos, remédios, etc , tenção individual, só convindo, excepcional-
e bem assim nas pesquisas de tôda natureza. mente, às normalistas que por acaso já re-
Complementarmente, pode fabricar vacinas, sidam na localidade e que aí tenham outros
soros, antitoxinas, etc. interêsses.
Todavia, um Laboratório de Análises só Assim sendo, o ensino terá de ser entre-
será realmente útil se os seus trabalhos inspi- gue a professôras práticas ou improvisadas.
rarem confian,a, para o que deve dispor de Nesta hipótese, será de tôda conveniência
pessoal habilitado e consciencioso, de apare- manter um serviço de contrôle, orientação
lhamento adequado e do material indispen- e fiscalização do ensino, a fim de que se pos-
sável. sam colhêr resultados satisfatórios.
Concomitantemente com a assistência Os Municípios que de todo não dispu-
médica, e especialmente dedicado às classes serem de recursos, devem apelar para o Es-
pobres, é de tôda a conveniência a manuten- tado, a União, ou, ainda, para as instituições
cão de um Servico Odontológico, pois está particulares.
~omprovado que vários males graves têm sua O ensino deve ser preferencialmente
origem em focos de infecção dentária. orientado no sentido de ministrar conheci-
Não será possível julgar eficientemente mentos que despe! tem o interêsse dos alu-
do estado sanitário de qualquer aglomeraçã'J nos pelo desenvolvimento comuna!, focali-
humana, sem manter um bem organizado ser- zando especialmente as possibilidades reais
viço de Registros e Estatística. de progresso do Município, com a indicação
Ao Estado compete, entre nós, a orga- dos meios de utilizá-Ias.
nização dos registros civis (casamentos, nas- Assim, o ensino primário pode ser mi-
cimentos, mortes, etc.), mas, além dêstes, nistrado, conforme o caso, por simples es-
os vários servicos que têm por finalidade colas primárias, por Escolas Rurais, de Ofí-
zelar pela saúd~ da população não podem cios Manuais, Agropecuárias, Colônias, Patro-
deixar de registrar todos os elementos ne- natos Agrícolas, etc.
cessários à determinacão dos índices sani- A Educação Secundária poderá sê-lo por
tários e à elaboracão" das estatísticas que Escolas Técnicas, Ginásios, Escolas Normais,
possam orientar co~ segurança as autorida- etc.
des encarregadas de tais serviços .
Sempre que possível, será conveniente
Êsses são os pontos principais a serem obrigar os alunos à prática da Educação Fí-
considerados, comportando cada um dêles
sica, podendo-se, muitas vêzes, lançar mão
subdivisões e especializações, cujo desenvol-
desta para despertar-lhes o interêsse pela
vimento depende das condições e necessida-
escola.
des locais, e, bem assim, dos recursos dis-
poníveis. Os "play-grounds" bem dirigidos, por
exemplo, são ótimos centros para desenvol-
EDUCACÃO - A Educação é um dos ele- vimento de cultura física.
mentos bási~os para o progt:esso de qualquer Ê bem fácil despe1 tar o interêsse da
coletividade. mocidade pela prática dos esportes. Esta
No Brasil, as diretrizes gerais da edu- deve, no entanto, ser orientada por pessoa
cação nacional são fixadas pela União. capaz, a fim de prevenir os males decorren-
Ao Município cabe parcela importante tes da prática exagerada ou defeituosa. Um
na alfabetização dos munícipes, cumprindo- simples campo de futebol pode ser, às vêzes,
-lhe difundir empenhadamente o ensino pri- o ponto de partida de futuras praças de es-
mário, e, quando possível, o profissional e a porte, que possuam campos de ginástica, vo-
74 H.EVISTA BRASILEIRA DOS MuNICÍPIOS

leibol, bola ao cêsto, tênis, tiro, piscinas, às vêzes estiola ou faz sucumbir a sinicia-
pistas de atletismo, área de saltos, lança- tivas particulares.
mentos, etc. Qualquer aumento de renda que se ba-
Os Jardins Recreativos são centros de seie em tais meios pode! á ser prejudicial ao
distração que podem servir, não só para di- progresso da comunidade.
vertir, como para instruir. O prefeito consciente deverá, pois, preo-
A organização de Aquários, Jardins Zoo- cupar-se, além dos serviços normais da ad-
lógicos e Botânicos, são empreendimentos ministração, em desenvolver as fôrças eco-
que merecem o apoio das Municipalidades. nômicas do Município, que, em última aná-
De início, podem ser reunidos somente lise, dependem dos recursos existentes na
os espécimens regionais, ampliando-se aos região.
poucos as coleções, de forma que forneçam A primeira providência a tomar será,
elementos de estudo aos interessados, e de então, proceder a um levantamento de to-
instrução ao público em geral. dos os recursos naturais do Município, abran-
Dentre as atividades educacionais auxi- gendo os reinos animal (animais de valor
liares, deve-se destacar especialmente a Bi- comercial, couros, peles, pescado, caça, etc.) ,
blioteca Municipal, pois grande é o concurso vegetal (madeiras, plantas medicinais, se-
que pode prestar à elevação cultural do meio, mentes oleagionosas, vegetais para indústria
além de poder constituir-se em centro cole- extrativa, etc.) e mineral (minas, jazidas,
cionador de documentos especialmente úteis águas medicinais, etc.) , acompanhado de um
a estudos regionais. concomitante estudo do meio físico (topogra-
A Biblioteca não é de difícil organização, fia, clima, solo, energia hidráulica, vias na-
principalmente se ficar a cargo de funcioná- vegáveis, meios de comunicação, etc.).
rio zeloso 6) paciente. Muitos livros podem De posse dêsses elementos, será possí-
ser obtidos por doação. A escolha dos seto- vel julgar das possibilidades de fomentar o
res bibliográficos a desenvolver deve merecer desenvolvimento de indústrias extrativas, da
especial atenção, a fim de manter e ampliar agricultura ou da instalação de indústrias
o interêsse dos consulentes. Um ambiente manufatureiras correlatas.
simples, confortável e silencioso convida à Concomitantemente deve ser considera-
leitura. Para a instalação de Bibliotecas po- do o elemento humano da região, bem como
dem as prefeituras municipais recorrer ao a possibilidade do estabelecimento de cor-
Instituto Nacional do Livro, dependência do rente imigratória conveniente.
Ministério da Educação, que lhes ministra- A seguir, deve ser pormenorizadamente
rá ensinamentos e fornecerá várias obras. estudado o importantíssimo problema da cir-
Outra atividade de muito interêsse são culação das riquezas, que depende de um
os Museus. Podem dedicar-se a coleção e bem elaborado sistema de vias de comuni-
exposição de trabalhos de arte ou objetos de cação, que permita o fácil e econômico es-
valor. coamento da produção para os centros co-
A organização de um Museu é custosa, merciais, de forma que possa ser oferecida a
requer longo tempo para seu desenvolvi" preços compensadores para o produtor e con-
menta e exige a especialização de pessoal. venientes ao consumidor.
Apesar disso, os prefeitos não devem afastar De nada vale desenvolver a produção, se
tal empreendimento de suas cogitações, pois esta não puder ser utilizada. Muito comum
uma boa coleção, seja artística, histórica, ou no Brasil tem sido a política de fomentar de-
científica, é semp1e de grande valor educa- sordenadamente a produção de certo elemen-
cional. to que esteja na moda, não prevendo os
O conceito de "boa colecão" varia de meios de transporte, nem as possibilidades
localidade para localidade e t;mbém com a de mercado. Em conseqüência, o produto se
especialidade escolhida. deteriora nas fazendas ou à margem das es-
Um dos pontos de partida para a orga- tradas, o que traz prejuízos desanimadores,
nização de Museus, pelas nossas prefeituras, quando não funestros, ao produtor, ao mesmo
pode ser a reunião de objetos de uso carac- tempo que vibra mais um golpe desastroso
teristicamente regional ou dos que se refiram na economia regional.
a acontecimentos históricos locais, passados A possibilidade de financiamento deve
e contemporâneos. também ser considerada, a fim de permitir
A direção do museu deve procurar ob- o aproveitamento das riquezas potenciais.
ter o máximo de donativos, fazendo aquisi- Estudadas as possibilidades econômicas
ções só em casos muito especiais e após da região e os meios de aproveitá-las, o ad-
acurado estudo e cuidadosa avaliação. Atin- ministrador terá de elaborar um plano de
gido certo desenvolvimento, será possível aeão equilibrado e prático, promovendo a
pleitear e obter o auxílio do Govêrno Esta- obtenção de capitais, fomentando e auxilian-
dual ou Federal. do as iniciativas particulares e procurando
obter dos Governos Estadual e Federal o
DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO apoio indispensável à sua execucão
DO MUNICÍPIO No caso de indústrias, o problema da
energia não pode deixar, também, de mere-
O fator econômico é geralmente despre- cer carinhoso estudo, pois, sem fôrça motriz
zado pelos nossos administradores, que pre- barata, dificilmente haverá indústria com-
ferem resolver todos os seus problemas fi- pensadora.
nanceiros por meio de empréstimos ou do Para melhor desenvolver certas fontes
aumento de tributos, sistema êste que tem de produção, será, na maioria dos casos, con-
sido funesto, pois não só desestimula, como veniente fomentar e facilitar a criação de
ADMINISTRAÇÃO E URBANISMO 75

sociedades cooperativas, que, quando bem de atender as aspirações da coletividade e


orientadas, defendem melhor os interêsses colhêr elementos para orientação da Pro-
coletivos. paganda, ao mesmo tempo que desperta nos
Sem o capital necessário, sem mão de munícipes o interêsse pelos problemas locais,
obra conveniente, sem energia adequada, sem dando-lhes a impressão de colaboradores da
transportes econômicos e sem mercado con- administração .
sumidor, não será possível aproveitar corn- Um bom serviço de Propaganda deve,
pensadorarnente e desenvolver qualquer fon- pois, visar, sempre, ao desenvolvimento re-
te de riqueza . gional, trabalhando em prol da execução de
Complexo é, pois, o problema do desen- todo e qualquer empreendimento que con-
volvimento econômico de um Município e, corra para a melhoria das condições de vida
na maioria dos casos, não poderá ser con- da comunidade, pela preparação do ambiente
venientemente estudado sem levar em con- indispensável à sua realização.
sideração as possibilidades regionais e, em
alguns casos, mesmo, a orientação econômi-
ca do País.
Além das funções administrativa, técnica
e econômica do prefeito, a que atrás nos
AÇÃO SOCIAL referimos, há outra que nem sempre é levada
em consideração e que, apesar de não ser
Entre outros, pode esta fazer-se sentir
fundamental como aquelas, é, no entanto, de
sob êstes dois aspectos:
grande utilidade, pelas facilidades que pode
a) Propaganda . criar e pelos obstáculos que pode vencer, em
b) Influência social do prefeito. virtude do ambiente favorável decorrente de
Um fator de real importância, para o sua perfeita utilização. É a Função Social.
sucesso de qualquer empreendimento, é a Quanto menor é o Município e mais
Propaganda bem orientada. modestos os seus recursos, tanto mais impor-
Entre nós, é comum entender-se por tante se torna a Função Social do prefeito,
Propaganda o enaltecimento das qualidades não só pela manutenção de relações com as
pessoais do administrador, desvirtuando-se a autoridades federais e estaduais, como pela
finalidade e desmoralizando-se um elemento ação direta que é possível exercer sôbre os
de real valor para o sucesso da administração. rnunícipes, seja despertando o interêsse pelas
A principal e lógica finalidade da Pro- causas da administração, seja promovendo
paganda é mostrar à população as vantagens comemorações cívicas, educativas ou artís-
que lhe advirão da realização de determi- ticas, seja ainda, apaziguando lutas e dissen-
nada obra ou da adocão de determinadas ções locais, prejudiciais ao progresso da co-
medidas de caráter ad~inistrativo, para evi- munidade.
tar ou atenuar prováveis resistências oriun- Nos centros mais populosos, a ação so-
das da natural desconfiança com que são cial torna, em geral, aspecto bem diverso do
recebidos os novos empreendimentos. dos pequenos Municípios, exercendo-se mais
Assim, qualquer obra de vulto ou Ini- no sentido de cultivar relações com pessoas
ciativa que exija a modificação de hábitos que ocupem posições de destaque na socie-
da população, ou o sacrifício, embora pas- dade e na administração, a fim de obter
sageiro, de qualquer comodidade, deve ser facilidade na solução dos problemas muni-
precedida de Propaganda eficiente e bem cipais
orientada, capaz de despertar o interêsse do
É claro que as ligações assim feitas não
público pela sua realização ou mostrar-lhe
devem ser utilizadas em benefício p!Óprio,
as vantagens que poderão advir para a co-
mas, precipuamente, em benefício da admi-
letividade, após a execução do empreendi-
mento. nistração pública.
É de tôda conveniência trazer a popu- Múltiplas e variadas são as formas sob
lacão informada do andamento das obras e as quais é possível agir no setor social As
da"s possíveis dificuldades surgidas durante condicões de vida dos Municípios, especial-
a sua execução ou, ainda, da exata situação ment~ dos pequenos, colocam os responsáveis
dos negócios municipais. pelas administrações locais numa pos1çao
Tanto quanto possível, a Propaganda singular, de vital importância para a vida da
deve ser impessoal, sob pena de se tornar comunidade.
contraproducente. Os seus meios podem ser Uma das primeiras preocupações do pre-
os mais variados - iornais, rádio, cartazes, feito deve ser identificar-se com o meio que
publicações, conferências, cinema, exposições, vai administrar e onde vai viver, a fim de
etc. - devendo, no entanto, quaisquer que bem conhecer e cuidadosamente selecionar
sejam os meios empregados, estar sempre ao os elementos com que poderá contar para
nível da compreensão daqueles a quem se auxiliá-lo em sua árdua tarefa. Dessa escolha
destina dependerá em grande parte o sucesso da
Como auxiliar da Propaganda e como administra cão.
meio, também, de contrôle dos serviços, ou Acons~lhável será, então, solicitar e en-
como termômetro da opinião pública, é de carecer a cooperação leal de tôdas as facções
todo interêsse que a administração mantenha locais, porventura existentes, e, sobrepondo-se
um Servico de Reclarnacões e de Recebi- às dissenções, congregá-las para trabalharem
mento de" Sugestões. P~r meio destas, o harmônicamente e em benefício comum.
administrador poderá corrigir falhas, promo- Obtido êsse apoio, estará o administrador
ver melhoramentos, estudar a possibilidade em condições de trabalhar sem encontrar
76 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

apreciáveis resistências passivas e ativas, res- coordenando elementos do Comércio, da In-


tando-lhe agir com justiça, energia, dedica- dústria e da Agricultura, será possível orga-
ção, acêrto e desprendimento, de forma a nizar associações de beneficência que ampa-
granjear a confiança, a admiração e a sim- rem as classes pobres, não só fornecendo
patia dos seus concidadãos . abrigo aos desvalidos como assistência médica
Dessa ação inicial, diplomática e psi- aos indigentes. Com a contribuição dos par-
cológica, dependerá o sucesso da influência ticulares e o auxílio de subvenções, poderá
social do prefeito sôbre os munícipes. Em ser garantida a manutenção de instituições
alguns casos, é necessário precedê-la de atos dessa natureza. Muitas cidades do Brasil
que concorram para a preparação do meio; possuem já a sua Santa Casa de Misericórdia,
em outros, porém, deverão ser concomitantes. que é o protótipo de tais instituições.
Cada ambiente terá solução peculiar. Além de tôdas essas iniciativas, que,
As condicões locais de vida indicarão, na verdade, quase só aproveitam aos mora-
por sua vez, a; diretrizes a seguir para obten- dores da sede municipal ou das sedes distri-
ção ao desenvolvimento social da comuni- tais, o prefeito pode desenvolver uma ação
dade. muito proveitosa entre os moradores da zona
Assim, por exemplo, promovendo ini- rural, por meio de excursões ou visitas perió-
cialmente a disputa de provas esportivas, dicas.
com a instituição de prêmios, será possível Estas podem ser aproveitadas para levar
conseguir o cultivo dos esportes da prefe- aos fazendeiros informacões ou conselhos
rência local, possibilitando, de futuro, com- úteis à melhoria das condições de vida local,
petições interdistritais ou intermunicipais, seja para a construção de casas e dependên-
que incentivem, entre os munícipes, o desen- cias higiênicas, seja para a adoção de me-
volvimento dêsses e outros esportes, o que, didas de salubridade (fossas séticas, etc.),
além de benefício da recreação, constituirá seja ainda, para o aperfeiçoamento dos mé-
um poderoso fator de coesão. todos de plantio, colheita ou aprimoramento
Êsse poderá ser, às vêzes, o ponto de do rebanho, assistência aos trabalhadores,
partida para organização de uma associação etc.
com fins esportivos, compreendendo, tamqém,
A promocão de solenidades cívicas nas
um centro que proporcionará distração às datas h-istóric;s e de festas regionais e o
famílias dos associados, com a promoção de apoio a comemorações religiosas, aproveitan-
reuniões dançantes, musicais, educativas, li-
do as devoções locais, será um meio para
terárias, etc.
aproximar os munícipes, unindo-os em be-
Em algumas localidades, a aqmstçao, nefício dos interêsses comuns.
pela prefeitura, de um bom aparelho receptor
de rádio, poderá proporcionar aos munícipes No setor da produção, a influência so-
horas agradáveis de reunião, fazendo com cial da autoridade municipal pode, também,
que se sintam mais próximos dos grandes fazer-se sentir pela propaganda e a promoção
centros donde se irradiam a cultura e o dos meios indispensáveis ao estabelecimento
progresso. Nas zonas fronteiricas, especial- de sociedades cooperativas. Tais sociedades
mente, a escolha de program;s adequados facilitam aos produtores, não só o capital
poderá contribuir para o fortalecimento da para o desenvolvimento de suas culturas e
unidade brasileira. indústrias, como os meios de transporte e a
À sombra dessas reuniões podem ser for- melhor coloca<:ão da produção.
necidas informações úteis aos -produtores da O sucesso da Ação Social do prefeito
região, bem como ministrados ensinamentos no Município está, porém, intimamente li-
que concorram para a melhoria das condições gado à sua ação junto às autoridades esta-
de vida das populações urbana e rural duais, federais e religiosas. Dessa forma,
A organização de conjuntos musicais que será imprescindível que o administrador mu-
periodicamente dêem exibições públicas, é, nicipal procure, sem subserviência, formar
também, uma iniciativa que merece ser con- ambiente favorável junto a tôdas as autori-
siderada, pelo concurso que pode prestar às dades que possam ser úteis à execução do
comemorações cívicas e religiosas e ao desen- seu programa de trabalho e ao progresso do
volvimento do espírito associativo da comu- Município.
nidade, a par do interêsse que desperta pelo Êstes são, em síntese, alguns aspectos
cultivo da música. da complexa e multiforme influência social
Na esfera da caridade, grande pode ser que o prefeito pode desenvolver em benefício
também a influência social do prefeito, pois, da sua administração.
Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho
DOMINGOS jOSÉ NOGUEIRA ]AGUARIBE FILHO

UEM se abalance a pesquisar em suas origens a história do municipalismo no Brasil,

Q como sisterna de normas e pdncípios tendentes a assentaz a vida comunal brasileira


em sólidas bases, há de, forçosamente, deilontar-se com essa figura máxima de bata-
lhador incansável das prerrogativas municipais que se chamou DOMINGOS JosÉ NoGUEIRA
]AGUARIBE FILHO, nascido no Estado do Cemá, a 2 de novembro de 1848, filho do
Visconde de ]a[Juaribe, Senador do Impélio e Ministro da Guerra no Gabinete Rio Bnm-
co, e de Dona CLODES SANTIAGO DE ALENCAR JAGUARIBE
Obedecendo aos impulsos naturais do seu espít i to essencialmente humanitário, ma-
tziculou-se na Faculdade de lYledicina do Rio de Janeiro, tendo, em 1874, concluído o
curso médico, no qual obteve nota distinta. A tese de doutoramento que então apresen ..
tou - ({Aclimatamento das raças sob o ponto de vista da colonização do Brasil" -
revelava, já, no jovem médico, aquêles dotes de inteligência que se iriân1 aiizmat, em
extensão e p1 ofundidade, ab avés de tôda a sua existência voltada paz a as mais 110bres
causas São Paulo, onde fixaza 1esidência, após a fornwtura, se1ia a azena propícia para•
os f11émdes embates de sua vida..
Abolicionista ardotoso, fotmou, desde logo, ao lado de JosÉ DO PATROCÍNIO, ANTO-
NIO BENTO e outros que, no Btasil, lideravatn a campanha pela tedenção dos negros, não
sen1 antes, num gesto conseqiiente, haver libe1tado todos os seus esctavos Un1 dos tnaz-
cos salientes de sua atividade em p1 o! do abolicionisn10 foi o livt o Os He1 deiros de Cara-
murn, 1omance histódco que tem como tema cenilal a Iibertaçiio dos escravos, tu~duzido
em Roma, pm a o italiano, pelo j01 na! Fanfulla, à guisa de prêmio aos seus assinantes.
Republicano convicto e desassombrado, conta~se que, encontt ando-se um dia, em Pe-
il Ópolis, cotn o Imperador Pedro II, que acabava de reg1 essar da Europa, foi chamado
po1 Sua Majestade
- Como viio os 1epublicanos em São Paulo? petguntou-lhe o ln1peiad01
- Majestade, êles ct er:cent diàt lamente
- Pois olhe, retJ ucou-lhe D Pedro II, se ett não fôsse Impe1 ador se1 ia republicano
Ao que DOMINGOS ]AGUARIBE tespondeu:
- Isto prova que Vossa J1.1ajestade bnpetial pensa con1 a maio1ia da nação .
Cessado o tnovimento abolicionista, com o ren1ate feliz da Lei de 13 de maio de
1888, aquela inteligência pode1osa se dizige a outto nobtc e amplo objetivo, qual seja.
o da autonomia dos Municípios. Tanto quanto é dado saber, a DOMINGOS ]AGUARIBE
pode ser avoca.da a glózia, enquanto niio se detrwnstre o cont1 á r i o, de te1 sido o pio-
neiro do municipalismo no Brasil, em sua exp1essão ainda atualíssinw da autonomia mu-
nicipal Dedicado, corpo e alrna, à nova campanlw, esct e v eu e publicou numerosos t1 a-
balhos de ptopatJanda em favor dos Municípios; 1ealizou confetências e promoveu, em
companl1ia de ouil os partid!u i os da causa, atos pâblicos de esclarecimento das idéias mu-
nicipalÍstas Pma o con1bt1tc cn1 que se empenhara, tornava-se necessÚ1Ío, entletanto,, utn
veículo expedito, capaz de estabelecei com o grande público uma cor 1 ente recÍp1 oca de
compreensão Foi assim que, vencendo o ceticismo de uns e a indifez ença de ou ti os, lan-
çou, etn 1899, o diário O Município, guia c orientador da campanha autonomista.
A obra de maior vulto de DoMINGOS ]AGUARIBE é O Município e a República, em
três volumes, na qual 1euniu, além de alguns de seus trabalhos já ofe1 ecidos antez iot mente
à publicidade, inclusive o seu inte1 cssantíssimo Catecistno Municipal, wna série de capí-
tulos novos

As idéias que s01vÍlam de lastro à sua ptodigiosa atividade doutrináda podern sm assim
resumidas: O sistetn<J. federativo brasileizo, inauf1wado com a República, tem o seu comple~
n1ento lógico na autonomia tnunicip.1l O Município, base da organização social, é o Estado
em ponto pequeno O nwlhm sisterna eleiiotal se1 á aquêie que tiver como [andamento
o govê11w municipal, fazendo-se uma só eleição de ttês em três anos- a eleição municipal
Os vez e adores setiam os eleitores dos p1 esidentes da República e dos Estados, realizando-se
as eleiçõc.c; das Câmaras um ano antes do têtmo dos mandatos presidenciais Cada Muni-
cípio cle!Jet ia um dos vet eadores dentre os eleitos, o qual set ia o repz esentante do povo
no Congresso do Estado, onde deveria funcionar unw só Câmara Reunidos todos os
eleitos na Capital, escolherian1 detlire si oito, sendo tt ês pm a 1 cp1 esentm em os Estados
e cinco os Municípios ou o povo, nwdificando-se, assim, o Senado e a Câmara da União,
nos quais todos os Estados terian1 1ept esentaçiio igual.

A exaltação que faz da viela municipal tumsbmda, por vêzes, en1 manifestações lídcas
Sàmente ela, a seu ver, poderia clwtnar a si as atividades dispe1sas, as energias perdidas
em ilusórias defesas de princípios O ideal dos revolucionários de 89 - esczevia - não
foi tealizado e os benefícios da Revolução Ftancesa foram sonegados, cumprindo ao povo
alargar a. esfeu1 do govêrno concenttado nas mãos dos déspotas e fazer que a denwcracia
tenha sólidas raízes em todos os Municípios.

A mataria dos problemas postos em foco pelo autm de O Município e a República


revestetn-se da 1náxiina atualidade, pe11nanecendo, tnuitos dêles, na ordem do dia das admi~
nistrações públicas do Brasil, e só em pm te alguns tiveram encaminhada a sua solução
80 REviSTA BRASILEIRA Dos MuNICÍPIOS

Via de regra, as idéias agitadas por DOMINGOS ]AGUARIBE estão estreitamente vinculadas
à autonomia municipal, como, por exemplo, as que dizem respeito ao desenvolvimento das
rendas municipais, reservado ao Município o direito de dispor das mesmas; ao direito que
deve assistir às comunas de elegerem suas próprias autoridades, inclusive os magistrados
e a polícia local; à educação popular; à criação de escolas de agricultura prática; à orga~
nização, nos Municípios, de depósitos de máquinas agrícolas; à abolição do impôsto de
exportação; à criação de jornais agrícolas destinados a fornecer orientação técnica aos
laVradores. Outras, porém, transcendem a própria órbita dos interêsses exclusivamente
municipais, identificando-se com as aspirações gerais de progresso do povo brasileiro.
Gesto que define perfeitamente a personalidade de DOMINGOS JAGUARIBE é o que
se prende à sua passagem pelo Congresso Estadual de São Paulo. Sutpreendido com a
inclusão do seu nome na chapa dos candidatos, conforme declarou em carta dirigida ao
Presidente da Assembléia dos Deputados, p1 ocurou os amigos e tornou pública a renÚnw
cia que fazia à sua candidatura. Tendo sido eleito, apesar dessa declaração, procurou
manter~se à alturà do mandato que lhe conferira o eleitorado, colaborando na elabora~
ção da carta constitucional do Estado.
Instalados os trabalhos da Assembléia Legislativa, fôra DoMINGOS ]AGUARIBE eleito
para compor a comissão especial encarregada de proceder à revisão do ensino superior,
tendo imediatamente apresentado um projeto de escola agrícola e veterinária, destinada
a preencher a sensível lacuna que representava a inexistência de tais estudos no ensino
profissional paulista Incompreensivelmente, foi logo desen~adeada guerra ao projeto,
indo o mesmo para a Comissão de Fazenda sem qualquer discussão. Desgostoso com o
ato de seus colegas de comissão, pediu demissão, negada, aliás, por unanimiadde.
Embota desanimado, voltou a apresentar novo projeto, dessa vez objetivando a cria-
ção de um registro para marcas de gado e a introdução de reprodutores em três zonas
criadoras do Estado, a fim de melhorar a qualidade do rebanho existente Todavia, como
da vez anterior, foi o projeto rejeitado se1n qualquer discussão
Convencido da inutilidade de seus esforços, resignou ao mandato, recolhendo
amarga experiência, que só serviria para fortalecer a sua instintiva má vontade contra
os políticos profissionais.
De sua bibliografia sô!Jre assuntos municipais constam: Catecismo Municipal, propa~
ganda em favor da autonomia dos Municípios, 1.a edição, São Paulo, 1896; O Muni-
cípio e a República, 1898; Propaganda em favor do Município, 1895; Conferências em
prol da autonomia dos Municípios, opúsculo que enfeixa quatro palestras realizadas, res-
pectivamente, na capital do Ceará, em 1897, na capital paulista, em 1899, em Rio Claro
e São José do Rio Pardo, as duas últimas em 1899; La Commune, base de gouvernement,
Paris, 1908; e Ecos da propaganda em prol da autonomia dos Municípios, 1914.
O espírito eclético, universalista de DOMINGOS ]AGUARIBE levava-o freqüentemente a
incursionar com êxito em outros domínios, tendo escrito e publicado, em diferentes épo-
cas, interessantes trabalhos, tais como Reflexões sôbre a colonização do Brasil, editado em
Paris pelos Srs. Garraux & Irmãos; Meios práticos de colonizar, folheto, 1883; Organiza-
ção do trabalho, 1884, folheto que trata dos aspectos sociais da questão do trabalho no
Btasil; Arte de formar homens de bem, editado em São Paulo em 1884 e traduzido para o
francês, em Bruxelas., pelo Dr J. NEAVE; O Sul de São Paulo, coleção de cartas pu-
blicadas em 1886 pelo Correio Paulistano; Homens e Idéias no Brasil, 1889; A canali-
zação do Rio São Francisco para o Ceará, 1887, folheto com planos, projetos e discursos
pronunciados sôbre o assunto; Máximas e Pensamentos, 1897; Revista útil, três volu~
mes, 1892/1894; Mudança da Capital Federal para Campos do Jordão. 1897; Orígens
Republicanas do Brasil, 1895; Influence de l'esclavage et de la liberté, Bruxelas, 1893;
Psychologie de l'alcoolique, 1910; La radiation des effluves humaines, 1907; Le Brésil
Antique, Atlantide, iladuzido e editado pela usocieté Academique" de Palis, com prólogo
do sábio cartógrafo BARÃO DE TEFFÉ, 1913,· Instituto Psico-Fisiológico Brasileiro, 1908;
Cartas de Londres, 1902; Memória apresentada ao 1.° Congresso de Geografia da Ca-
pital Federal; Discursos de abertura e encerramento do 2 ° Congresso de Geografia; Me-
mória apresentada ao Congresso de Lavradores de Amparo; Conferência realizada em
Buenos Aires no 3 ° Congresso Internacional, sôbre a cura dos alcoólicos pelo hipno~
tismo e sugestão; O Veneno Moderno, estudo sôhre o alcoolismo, contendo mais de cin~
qüenta ilusilações; As Bases da Moral, estudo de psicologia fisiológica, dedicado a Dom
JoÃo NERY, Bispo de Campinas,· Crônica do País de Atlantide, dois volumes, São Paulo,
1897; Campos do Jordão, folheto descritivo do clima daquela localidade paulista; Terras
e propriedades do Dr. Jaguaribe, acompanhado de um relatório do Engenheiro TEODORO
SAMPAIO; A Fé, Sexto Sentido; O Império dos Incas no Peru e no México; O plantio da
amoreira no Ceará, como início de sua riqueza industrial e como causa modificadora do
clima, 1918,· e La verité sur 1a valorization du café au Brésil, 1918.
Em 1908, fundou em São Paulo o Instituto Psico-Fisiológico Brasileiro,, sucursal da
instituição do mesmo nome em Paris e da qual era sócio correspondente. Era ainda mem-
bto da URoyal Geographical Society oi London" e da asociety oi Psychical Research"
de Londres
A 14 de novembro de 1926, falecia em S. Vicente, Estado de São Paulo, DOMINGOS
JosÉ NOGUEIRA ]AGUARIBE FILHO, cujo nome ficaria definitivamente associ~1do ao mo~
vimento em prol da autonomia municipal no Brasil.

O PAUPERISMO DOS MUNICÍPIOS
BRASILEIROS
Dois assuntos, os mais importantes, São marcos centenários na história de
procurarei tratar ràpidamente, como convém, São Paulo. De lá partiram as grandes mon-
para não cansar a atenção dos ilustres co- ções, seguindo os bandeirantes que gizavam
legas - o pauperismo dos Municípios e o o mapa do Brasil . Erigida foi minha terra
êxodo das populações rurais. natal em Meca do republicanismo, mercê
Outras e mais autorizadas vozes deve- da gloriosa Convenção de 1873. Todos os
riam ser ouvidas ao .tratar-se de tão magno hinos de louvor já foram entoados para
assunto, como êste que me traz à tribuna glória dessas velhas terras. Suas populações
parlamentar, tal a complexidade e tão gran- disso se orgulham e cultuam com devota-
de se me afigura o problema dos Municípios. mento os brasões que, os tempos idos, ainda
Se me abalan- se viam plantados
cei a expô-lo perante no alto dos solares
a egrégia Assem- das Câmaras Muni-
Campanha Municipalista encontrou no
bléia Constituinte,
eu o fiz tão somente
em obediência aos
A Sr. NovELLI JÚNIOR, hoje Vice-Gover-
nadar do Estado de São Paulo, um dos
cipais
Elas, porém, a
exemplo de outras
compromissos assu- seus mais ardorosos hatalhad01es. muitas Municipali-
midos durante a Quando ainda Deputado Federal, s dades - e acredito
campanha eleitoral Excia. pronunciou, na Assembléia Constituit1.- seja a grande maio-
e, mais ainda, por te, a 8 de abril de 1946, incisivo discurso ria - não podem
ser decididamente a respeito do pauperismo dos Municípios bra- permanecer imutá-
um homem do inte- si/eiras. Procedente e conhecedor de uma das veis no tempo e no
rior, a êle dedicando mais velhas 1egiões de São Paulo (ltu, Pôt- espaço, a ouvir as
todo o meu interêsse to Feliz, Capivari, Indaiatuba, ltapetininga e lôas declamatórias
e por êle me baten- Sorocaba), o ilustre homem público observou dos homens públi-
do em todos os se- ua liberdade teórica na miséria real" em que cos, principalmente
tores vivem as comunas do interior, cada vez mais às vésperas das elei-
Expondo tais pobres, cada vez mais esquecidas Daí, o seu ções, quando se es-
problemas, - e êles discurso no Parlamento, discurso êsse que for- gota todo um rosário
se resumem em dois mula advertências muito sé1 ias e constitui um de adjetivações e de
grandes capítulos: exame muito objetivo dum aspecto sombrio da promessas
miséria e êxodo do realidade nacional Precisam viver.
interior, - ver-me- Mais que isso: ne-
-ei na contingência cessitam do milagre
de descer a análise da ressurreição . E
mais profunda, tentando trazer à superfície clamam, e pedem, e suplicam aos poderes
as razões de ser de tão graves anomalias superiores lhes seja dado um pouco de água
que, de modo acentuado, vêm atingindo as potável, mais leitos para seus doentes, mais
células matrizes da nacionalidade. escolas para seus filhos, mais estradas para
Não pretendo fazer obra de crítica de- escoamento da produção. Numa palavra: o
molidora, nem fixar-me neste ou naquele direito de viver.
período de govêrno, pois o mal é muito
antigo e por sôbre êle passaram várias gera- Falar dêstes Municípios do interior é
ções políticas sem solução satisfatória. atingir o próprio Brasil em tôda sua essência,
Tal declaração preliminar eu a faço no nas suas múltiplas facetas; é tratar do Brasil
propósito de evitar ser classificado entre os esquecido, sofredor e silencioso, conservador
imitadores da mulher de Ló - corno bem e cristão, ignorado e mal interpretado.
salientou um dos nossos ilustres colegas - Mas é êsse Brasil que desejamos forta-
que, de costas voltadas para a realidade lecer e salvar do depauperamento que o vem
presente, mergulham no passado, sem se
corroendo desde a abolição da escravatura
aperceber que o mundo caminha, as revo-
luções se sucedem e os pósteros pedirão Certos vícios de nossa formação municipal
conta dos nossos atos. são mais antigos que a República, mas o
período republicano tem sido, paradoxalmente,
Venho de urna das mais velhas regiões
de São Paulo. A só enumeração de suas infenso ao Município. Digo paradoxalmente,
cidades basta para comprová-lo~ Itu, Pôrto porque a República trazia entre os ideais de
Feliz, Capivari, Indaiatuba, Itapetininga e sua legenda o federalismo, que é, em última
Sorocaba. análise, a organização autônoma das diversas

R.BM.-6
82 REVISTA BRASILEIRA Dos MuNICÍPIOS

regwes do País e de suas células matri- do o Estado. O Município de Salto, distante


zes, os Municípios. cem quilômetros da capital, pequeno núcleo
Entretanto, na prática, o que se viu industrial, apresentou no ano findo um to-
foi para os Municípios a liberdade teórica tal de arrecadacão estadual e federal de
na miséria real, de onde resultou o empo- mais ou menos -oito milhões de cruzeiros,
brecimento alarmante de nossas comunas do em face de uma arrecadação municipal de
interior. apenas trezentos e sessenta mil cruzeiros . ..
E' com esta minguada e irrisória quantia
Valorizar, pois, os Municípios, acudin- que o heróico prefeito terá que fazer face
do aos seus apelos, deve constituir a preo- a despesas inúmeras, num Município recor-
cupação primordial dos homens públicos tado de estradas, com muitas pontes e pon-
que têm sôbre seus ombros a tarefa hon- tilhões, com uma população proletária a
rosa de representar o povo na atual Cons- pedir auxílios, com uma infinidade de gran-
tituinte, para organizar a Nação. des problemas e uma pequena e miserável
Nossa formação social e política é receita anual.
afligida, desde o início, por numerosas A célula do organismo nacional, tão
tendências contrárias, se não negativas. festejada nos tratados do nosso direito pÚ-
Na fase colonial, a política econômica blico e tão solicitada nas horas dúbias dos
se caracterizava pelo estilo explorador e pleitos eleitorais, é, na prática, roída até o
sugador de matérias primas, canalizadas cerne pela concorrência dos poderes fiscais
através de uma rêde primária de transpor- superiores.
tes, ligando apressadamente as cidades prin- Mas, não somente o fisco conserva o
cipais aos velhos portos do litoral, sem a caráter e a feicão anti-ruralista entre nós.
menor preocupação com o mercado interno. O próprio ensi~o, vestido das galas das ca-
Êsse complexo de origem ainda persiste, pitais, não tem, em grande parte, produzido
em grande parte, apesar do surto industrial os frutos desejados, mercê da sua inadap-
iniciado depois da República, notadamente tação ao meio ambiente e ao homem do
depois da primeira grande guerra mundial, interior.
e particularmente em São Paulo. Necessitamos de escolas de tipo regio-
Não há negar que a nossa engrenagem nal, adequadas às necessidades e caracterís-
fiscal, pedagógica, assistencial, militar e as ticas de cada zona a servir. Escolas de
outras manifestaçÕes da atividade organiza- preocupação mineralógica nas terras de mi-
da do Estado pe;manecem, com raras e hon- neração, de finalidade piscicultora nas mar-
rosas exceções, orientadas para o engrande- gens dos grandes rios, de objetivos agrários
cimento e brilho das capitais, em detrimen- ou pecuários, conforme destinadas a campos
to do progresso do interior. de cultivo ou pastoris, de propósitos profis-
sionais, adequadas, sempre e sempre, à na-
Seria necessário, a exemplo do magní-
tureza das atividades mais destacadas em
fico ALBERTo TôRRES, inventariarmos nova-
cada região .
mente as errôneas e alarmantes diretivas de Persiste em nossa organização escolar
nossa formação social, melhor diria de nossa o vêso lamentável da escola única alfabeti-
deformação social. zadora, formadora de cultura literária, ao
Talvez encontrássemos solução para os invés de enveredar por um dinâmico pro-
dois magnos problemas do Município por grama de escolas profissionais .
mim anteriormente referidos: a miséria e o O resultado desastroso é que elas, co-
êxodo das populações interiores, e de cujas mo existem, desarraigam os meninos do seu
causas passarei a falar resumidamente para meio, cortando cerc_e a empírica adaptação
não fatigar a atenção dos Srs. Constituintes. que sua família ia conseguindo às condi-
Proclama-se amiudadamente, repetida- ções mesológicas, aumentando a legião dos
mente, o primado do Município como cé- desajustados e a população flutuante que
lula da nacionalidade. Foi êle consagrado desagua na burocracia ou nas atividades
em nossas Constituiçi)es, e é, sem dúvida, mais ou menos parasitárias dos grandes cen-
o grande e atraente tema de escolha dos tros, concorrendo, assim, para o êxodo das
nossos maiores e melhores cultores do Di- populações do interior.
reito. Não raro, êsse divórcio com o ambiente
A verdade, porém, a constrangedora do interior parte dos próprios professôres
verdade é que na tríplice ordem de cap- em virtude da falta das escolas normais
tação dos impostos, as nossas comunas têm rurais.
vivido sempre numa inferioridade gritante, Quem quer que conheça um pouco a
revoltante, relativamente à proteção desfru- lei psicológica da formação dos hábitos pes-
tada pelos serviços estaduais e federais. soais não ignora o fatal bovarysmo, tão
Pode-se mesmo afirmar que a quase bem lembrado e batizado por OLIVEIRA VIA-
totalidade das possibilidades fiscais do in- NA, que há de atacar estudantes acostuma-
terior se escoa para os cofres do Estado e dos na fase preparatória a certos confortos
' da Federação, ficando apenas, em regra ge- e tentações do asfalto, quando hajam de
ral, 8% para os Municípios. Que gênio exercer o seu magistério no interior.
administrativo poderá fazer algo com êsses Vão considerar-se exilados e contagiar
exíguos 8%? Da minha velha região de São com o seu desinterêsse, se não hostilidade ao
Paulo desejo citar, entre outros, um exem- meio, os corpos discentes cujos olhos lhes
plo elucidativo, e que se repete com maio- cumpria, precisamente, abrir para as possi-
res ou menores inflexões em todos os Mu- bilidades, vantagens, recursos, belezas e re-
nicípios da vizinhança, e certamente de to- formas necessárias da vida sertaneja .
Ü MUNICÍPIO NO pARLAMENTO 83

No que respeita aos serviços de assis- ao contacto do campo, e vai engrossar a


tência não é menos alarmante a situação legião dos arraizados ao asfalto.
das comunas do interior. Salvo honrosas São elementos perdidos para a lavoura,
exceções, e estas quase sempre vivendo da já tão desfalcada de braços, pelo surto avas-
caridade particular, periclitando entre um salador de nosso parque industrial, de tudo
"deficit" permanente e um donativo fortuito, resultando a desastrosa queda na produção
o interior vive na perene angústia de falta brasileira de gêneros alimentícios, que é um
de leitos para os seus doentes. Não raro dos aspectos já trágicos da economia nacio-
deparamos, em nossa vida de médico da nal.
roça, infelizes coestaduanos que caminha- Sou inteiramente favorável aos Tiros de
vam algumas léguas em busca de um teto Guerra sediados, pelo menos, nas cidades
onde pudessem morrer como cristãos, já que chaves de cada região, mas dentro de seu
os poderes públicos municipais não tinham âmbito sócio-físico, em pontos de concen-
podido, pelas suas deficientes rendas, aten- tracão similares às zonas originárias do ser-
dê-los como brasileiros dignos de melhor tão- e favorecendo, de preferência, os ho-
sorte. mens do campo.
Há necessidade urgente de hospitais Tenho a impressão de que os Tiros fo-
regionais, modestos mas vastos, servindo às ram suprimidos totalmente; apenas subsis-
populações doentes e tristes e, ao mesmo tem para aquêles candidatos, se não me fa-
tempo, servindo de fontes de pesquisa e es- lha a memória, classificados nas Categorias
tudo das endemias características de cada B e C da nova lei militar, que, doravante,
zona do País . convoca todo cidadão brasileiro, sem sor-
Há necessidade urgente de dar a essas teio.
cidades do interior uma rêde de água e es- Tenho a impressão de que o foram;
gotos, a fim de evitar, pela contaminação porque, há pouco tempo, recebi, de Casa
dos poços, seja a população um esplêndido Branca, Estado de São Paulo, um apêlo
caldo de cultura para a p10pagação do tifo, aflitivo, para o restabelecimento do Tiro de
do paratifo, das disenterias e de todos os Guerra naquela cidade, onde não há corpo
outros males que afligem essa pobre gente de tropa.
tão decantada na sua legenda de bravura, Acresce que havia uma falha, pmque
mas abandonada quase dos poderes públicos os convocados da cidade de Itu, minha ter-
municipais, acorrentados à miséria dos or- ra natal, onde está sediado o 4. 0 Regimento
çamentos. de Artilharia Montada, eram enviados, qua-
Há necessidade urgente de centros de se todos, para Mato Grosso, deslocando-se
puericultura, onde se prepare o Brasil de os homens de um lugar onde existe corpo
amanhã, colônias de férias, centros de saú- de tropa, para outra região .
de, trabalhos intensos de saneamento rural. Devo declarar à egrégia Assembléia
Há necessidade urgente de vias de Constituinte que, em recente boletim do
transportes, artérias vitais para a circulação Exército, o S\'. Ministro da Guerra manda-
das riquezas. No Município de Capivari, va licenciar, com seis meses de caserna, os
em São 'Paulo, um dos grandes centros pro- convocados da zona rural, pelas razões que
dutores de açúcar, há para trezentos qui- venho de expôr, dando-nos, assim, a im-
lômetros de estradas municipais a verba pressão confortadora de que o problema,
incrível de quarenta e um mil cruzeiros. sob êste aspecto, caminha para definitiva
O inte1 ior paulista vê-se às vésperas de solução.
uma das maiores colheitas de cereais de Por muito tempo se tem feito a crítica
que já houve notícia. Surgiu o clamor dos da incapacidade das administrações munici-
prefeitos ante o péssimo estado das estra- pais para gerir os interêsses das comunas. Di-
das municipais. O poder público estadual zia-se que os Prefeitos e as Câmaras Munici-
correu em socorro, distribuindo verbas es- pais, dominados pela feroz politicagem do
cassas, procurando sanar de algum modo interior, não mereciam crédito para deter-
essas deficiências inevitáveis. Transforma- minar o emprêgo das dotações orçamentárias.
se, assim, o Prefeito em pobre pedinte a Não participo, de todo em todo, dessa
perambular pelos palácios, estendendo, sú- acusação. Não é possível formar uma equi-
plice, a mão, suportando tudo e todos, por- pe de administradores municipais sem lhes
que a opinião pública de sua terra tem darmos os recursos, como não é possível
olhos para ver as melhorias, sem se aperce- a marcha para o Oeste, arrancando-se tôdas
ber da tragédia dos orçamentos miseráveis as rendas do sertão.
Quanto à instrução militar, penso que Os Departamentos das Municipalidades
devemos estudar meios de ela fazer-se sem podem prestar, e já vêm prestando, rele-
arrancar a mocidade de seu ambiente nativo vantes serviços, mau grado a rigidez buro-
O êxodo das populações rurais também crática e o vício inicial da malfadada dis-
se acentua pela chamada dos 1·apazes ao tribuicão da6 rendas, que reputo um dos
cumprimento do dever militar nas capitais mais -urgentes problemas da organização
e nas grandes cidades. Bem avalio o alcance nacional.
patriótico dêsse serviço, sua benemerência, Em futuro próximo, quando por sôbre
seu caráter sagrado, sua necessidade inadiá- todo o País pairar a sombra augusta dos prin-
vel para a defesa nacional. cípios constitucionais e a Carta Magna lhe
Mas também os habitua aos estilos de ditar as verdadeiras diretrizes democráticas,
vida das capitais, mostrando a experiência já então, orientados, apenas orientados, pe-
que a maioria dos moços não mais regressf! los Departamentos das Municipalidades, os
84 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

Municípios poderão jogar de si a pecha in- brasileiro. Procure-se evitar a evasão das
famante de incapacidade política e adminis- rendas por uma melhor aparelhagem fiscal.
trativa, evitando, para todo o sempre, seja Faça-se uma revisão de impostos. Do que
ela um dos pretextos para novas investidas há necessidade, e essa é inadiável, é de
no terreno de sua autonomia. melhor e mais equitativa distribuição das
Exposto, assim, em largas pinceladas rendas públicas. Procuremos aproximar-nos
o quadro aflitivo dos Municípios do interior, dos métodos aplicados nos Estados Unidos
devo confessar que o fiz constrangido, sem da América do Norte e na própria Inglaterra,
pessimismo, certo de encontrar uma solu- onde os Municípios gozam de muito maior
ção definitiva, e com a preocupação única proteção. E chegaremos à conclusão de que
de bem cumprir meu mandato, deputado nunca menos de 30°/o da arrecadação total
eleito que fui por uma das mais velhas zo- da Nação deveriam ser destinados aos Muni-
nas da Sorocabana, esperançoso de encon- cípios.
trar eco entre os ilustrados colegas que, Cessaria óe vez essa humilhante pere-
melhor e mais aprofundadamente, conhecem grinação, a que já aludi, dos homens do
o palpitante problema. interior e dos seus dedicados Prefeitos, sa-
Há que encontrar corretivo para tan- cola à mão, subindo as escadarias dos pa-
tos males. Somente uma nova discriminação lácios, pedindo aos poderosos o direito de
de rendas, a meu ver, sanaria os erros que se sobreviver.
vêm acumulando.
Entrego à meditação dos meus ilustres
Porque todos êsses problemas partem
companheiros da Assembléia Constituinte, e
da premissa: a miséria dos Municípios. Cor-
mais de perto, aos designados na feitura do
rigida esta, tôda a seqüência dos males esta-
anteprojeto para o capítulo referente a tão
ria, senão corrigida, certamente muito me-
magno assunto, estas impressões de um ho-
lhorada.
mem do interior, e que do interior traz êste
Já ouvi alhures ser criticado alguém apêlo de misericórdia .
que, desta tribuna, debateu tão angustiante
problema, apresentando idêntica solução. Os Municípios do interior do Brasil
Alcunharam-no homem de boa fé . Não im- precisam fugir da penúria. Confiam em que
porta. Será, talvez, necessário apelar para os eleitos do povo, à legenda de autonomia,
um novo Sermão da Montanha, em que o tão decantada e tão necessária, acrescentem
Mestre qualifique de bemaventurados os outra também ambicionada: a de sua relativa
homens de boa fé. Eu me bendigo, s:e independência econômica, que somente se
entre êstes fôr incluído, por tentar solucio- alcançará por uma distribuição mais equi-
nar uma questão das mais urgentes e gra- tativa das rendas públicas em que sejam
ves para a Nacão. êles - os Municípios - contemplados na
Não reput~ a solução utópica. Modi- proporção das suas legítimas necessidades e
fique-se, se necessário, o sistema tributário aspirações .
O PROBLEMA DO MUNICÍPIO
NO BRASIL ATUAL
SUMARIO : I - Como o problema se apresenta li - Os têrrnos do ptoblema.
III - A equação do problema. IV A solução do ptoblema. V Conclusão.

Como o problema A evolução da humani- Mas a longa, dolorosa e sublime tragé-


se apresenta dade, desde os mais re- dia humana vai-se desenvolvendo através
motos tempos que a his- das eras. O sôpro divino está nela e tôda
tória alcança, tem esta característica essen- a história não é mais do que a lenta mas
cial - a socialização crescente do homem, progressiva transformação da convtvencia
cada vez mais e melhor integrando-o no social, invertendo-lhe os valores, o signifi-
serviço da coletividade e condicionando a cado, os processos e os fins.
vida social à livre Os milênios de
e mais perfeita ex- luta, de experiên-
pansão da persona- cias, de sacrifícios,
lidade humana sob M outubro de 1934, na cidade de Ponte não passaram em
a influência dos sen-
timentos de justiça,
E Nova, Minas Gerais, por ocasião da: Se-
mana Ruralista Brasileira, promovida pe-
vão. Na família, a
vitória do altruísmo
altruísmo e coope- la Sociedade dos Amigos de Alberto Tôrres, o já se pode conside-
ração. Sr. M A. TEIXEIRA DE FREITAS pronunciou, rar quase completa.
No alvorecer da acêrca do tema uo problema do Município no A sociedade familial
civilização, o homem Brasil atual", uma confet ência que, como aque~ não é mais um mero
era o inimigo do las advertências de ALBERTO TôRRES, a res .. patrimônio do chefe.
homem homo peito da in01 ganização nacional, para loAo se O mútuo amparo, o
hominis lupus. Ne- incluiria entre os estudos mais incisivos e mais bem-estar, a har-
nhuma cooperação profundos da realidade brasileira. moniosa convivência
livremente consenti- Nada obstante os 14 anos decorridos, a.'!l dos seus membros
da: ou o estado de em fácil e protegida
afirmações, os conceitos e as conclusões da con-
guerra, de antago- expansão das perso-
ferência permanecem atuais, atualíssimos, ao
nismo radical, ou, n'alidades, é o ideal
menos essencialmente: ao problema do Mu ..
de um lado, o do- hodierno da vida
nicípio, eis, pois_, o problema por e:Jl.celência,
mínio absoluto e, do doméstica, e ao che-
o mai01 problema do Brasil, o problema-sín-
outro, a subordina- fe incumbe prover
tese de todos os nossos problemas". a plena realização
ção servil. De qual-
quer forma, a nega- Incluindo êsse trabalho em seu primeiro dêsse ideal, esque-
ção dos sentimentos número, a REVISTA BRASILEIRA DOS MU· cido de si, todo ao
NICiPIOS o faz para reencaminhá-lo ao exa~ serviço de cada um
de altruísmo e ver-
dadeira fraternida- me dos estudiosos, e sob a inspiração duma e de todos no pe-
de. Para quase to- política municipalista sadia, construtiva, ade- queno grupo que di-
dos, a submissão quada às necessidades do orgl':lnismo nacional rige. Há natural-
forçada; para alguns, mente exceções, re-
a prepotência sem sultantes das contin-
freios. gentes imperfeições
Mesmo no seio da família - um é o da natureza do homem. Mas aquêle alto
chefe, o senhor, o tirano; todos os mais, seus tipo de solidariedade humana tem hoje exis-
servos, sua propriedade. E desde que a fa- tência normal. E a imperfeição que lhe é
mília deixa de ser a única forma de organi- ainda inerente resulta, em regra, da impos-
zação da vida social, quando surgem distintos sibilidade de a família bastar-se a si própria
na sua vida íntima, mantendo ainda vestígios
dela os agrupamentos econômico-políticos,
das velhas injustiças sociais na distinção,
que mais tarde, por sua vez, dão lugar a dois muitas vêzes ainda inatenuada pelo espírito
planos diferentes de atividades sociais, ainda cristão, entre os que são servidos e os que
aí perdura aquela situação. Emprêsas e Es- servem, sem reciprocidade.
tados, agrupamentos econômicos e agrupa- No plano econômico, a evolução está
mentos políticos, têm um chefe, um senhor, ainda a meio caminho. Apesar das expe-
que tudo delibera, só ouvindo seu arbítrio, riências e dos esforços, mais ou menos cons-
trutivos, mais ou menos tranqüilos, que se
seus interêsses, seus apetites, suas paixões,
vão processando no mundo inteiro; apesar
e que dispõe soberanamente da liberdade e das serenas e inspiradas palavras dos últi-
até da vida dos que se lhe subordinam. mos chefes da Igreja Católica, - os di-
86 REVISTA BRASILEIRA DOS MuNICÍPIOS

rigentes de emprêsas, por si ou pelos seus às gradações e cambiantes do absolutismo


prepostos, ainda são os donos, os árbitros real.
quase supremos de tôdas as atividades que Os centros urbanísticos tendem em
lhes estão subordinadas. Êles são servidos todo o mundo a formas tentaculares de
e não servem. Enriquecem-se a si e empo- vampirismo das coletividades que as contin-
brecem quanto podem aos que se lhes su- gências sociais, econômicas ou políticas os
bordinam, não mais pela violência ou pelo chamaram a liderar. As capitais e as sedes
direito de propriedade, mas por não menos de governos regionais e locais substituem-se
imperiosas contingências de dependência às comunidades a que deveriam servir, fa-
econômica. zendo-se servir por estas. Tôdas as ativi-
Entretanto, a humanização das relações dades dos corpos sociais ficam sujeitas às
entre patrões e operários, entre o capital e impostçoes dos núcleos centrais, condicio-
o trabalho, é um problema que já entrou nadas por estas sob todos os pontos de vista,
no campo de consciência de quase todos não ao sabor dos interêsses gerais, mas para
os povos. E o seu progressivo solucionamen- o fim quase exclusivo de interêsses parti-
to é um imperativo categórico da época em cularistas . E mesmo nesses centros, tudo
é movimentado e conduzido não ainda para
que vivemos . Cada dia se lhe assinala, se
o bem-estar da generalidade dos cidadãos
não uma conquista definitiva, uma expe-
riência proveitosa. E, tão grande é a fôrça que os formam, mas para manter o predo-
dos sentimentos generosos que inspiram es- mínio, e satisfazer as exigências de confôr-
to, da insignificante minoria que forma
sas conquistas, sem embargo dos erros e das
violências com que em regra hesitantemen- as elites dirigentes, na política, na adminis-
tração, na indústria, no comércio, na arte,
te se processam, que já vemos muitos che-
fes, dirigentes ou capitalistas, irem espon · etc. Elites que tudo orientam sob a inspira-
cão de um epicurismo egoísta e estreito,
tâneamente além delas, dando às suas ati-
vidades o caráter social, tanto em sentido ~orno se lhes coubesse a livre disposição
amplo, nos preços e características dos pro- das possibilidades e dos destinos da comu-
dutos e serviços que exploram, como em nidade.
sentido restrito, pela aplicação dos benefí- Foi assim em todos os tempos. E as-
cios dessa exploração em proveito de quan- sim ainda é, contemporâneamente, em todo
tos com êles colaboram. o mundo. E as exceções, bem poucas infe-
lizmente, que a civilização hodierna nos ofe-
Como quer que seja, no entanto, muito rece, servem apenas para dar maior relêvo
longe ainda estamos, embora já tenhamos ao quadro escuro que a êsse aspecto se ob-
caminhado bastante, daquele estágio final serva em tôda parte e fazer sentir melhor
em que a personalidade humana, usando a o trabalho formidável que a verdadeira ci-
propriedade, só sinta atingida a plenitude vilização terá ainda de executar, para inver-
do seu destino na valorização dessa pro- ter êsse jôgo de valores sociais, essa relati-
priedade pelo coeficiente dos seus predica- vidade de situações, de forma que as po-
dos individuais ao servico da comunidade derosas metrópoles se tt ansformem em gran-
social e como meio de beneficiar ao grupo des usinas de servicos racionalizados em be-
maior ou menor de associados que a sua nefício da coletividade, deixando de ser os
habilidade de chefe consiga co-vincular. centros monstruosos de parasitismo, de com-
Mas, no terreno político, se num certo pressão, de desigualdades sociais, de revol-
sentido se pode considerar quase vitoriosa tante espoliação das massas, como têm sido
também a concepção social das funções de até agora em virtude da ausência do espí-
mando, que não mais exprimem a posse de rito de fratetnidade, de cooperação, de ser-
um patrimônio "sui generis" abrangendo tudo viço e até de sacrifício, com que tôdas as
e todos na coletividade dirigida, em outro funções sociais devem ser cristãmente exer-
sentido ensaia a humanidade apenas os pri- cidas.
meiros passos. Com efeito, está pràtica- Mas se o quadro que a sociedade in-
mente desaparecida a figura do soberano ternacional nos apresenta ainda é neste par-
que dispõe a seu talante dos bens, da liber- ticular nada auspicioso, que diremos do que
dade e da vida dos súditos. Os povos não acontece no Brasil?
têm mais um senhor. O chefe, rei, presi- Entre nós, êsse aspecto negativo da ci-
dente, ou que outro nome tenha, não é um vilização carrega-se de côres verdadeira-
proprietário da coisa pública, o dono do mente sombrias.
SEU POVO, mas apenas o principal agente,
o principal servidor da comunidade política. O País é uma vasta feitoria que a sua
Por outro lado, porém, depara-se-nos, aindo, metrópole explora pelos processos coloniais
o predomínio da velha concepção sob uma os mais retrógrados. Se a despesa federal
forma mascarada, é certo, atenuada se qui- já em 1932 era de 2 859 669 contos de
serem, mas eivada do tnesmo êrro das pri- réis, empregavam-se na Capital e quase ex-
mitivas sociedades e fecunda de malefícios clusivamente para a Capital, 2 465 728
Não temos mais, é fato, um soberano, uma contos, ou 86,22%. E os 393 941 contos
família, uma casta proprietária e domina- restantes, ou 13,22%, gastos fora da Capi-
dora da coletividade, manobrando-a ao sabor tal, não eram mais a bem dizer que despe-
exclusivo do seu arbítrio e dos seus interês- sas de ocupação e de exploração.
ses. Mas temos em substituição o absolutis- Bem prevejo que me contradigam, ale-
mo urbanista mancomunado com o absolu- gando que estas despesas são as absoluta-
tismo classista, nas suas variadas cambiantes mente indispensáveis despesas da naciona-
e gradações, bem paralelas, bem análogas lidade, despesas para manter a integridade
DocuMENTos HisTÓRicos 87

da Pátria e fomentar o seu desenvolvimento. afinal, na realidade, ela quase que só dá


Mas não é rigorosamente exato. ao País a segurança militar e a representa-
Que faz o Govêrno Federal em benefí- ção internacional, é evidentemente excessi-
cio da comunhão nacional? vo - e resulta certamente da inversão de
Presta-<lhe assistência médico-social? valores políticos a que temos aludido - o
Não. As despesas com essa espécie de assis- quinhão leonino que ela retira da economia
tência orçam por 107 765 contos, ou ape- coletiva. Ê a conclusão que se impõe ao
nas 3,75% das despesas totais, e dêsse dis- considerar-se que os dispêndios públicos
pêndio nada menos de 92,60% beneficiam brasileiros subiram em 1932 a 4 659 773
exclusivamente a Capital Federal. contos, dos quais, como já vimos, 2 859 669
Faz alguma coisa o Govêrno Central contos, ou 61,37%, cabem à União, e ape-
pelo desenvolvimento da economia nacio- nas 1 235 971 (orçamento)', ou 26,52%,
nal? Pràticamente, coisa alguma. A despesa aos Estados, e 564 133 contos, ou 12,11%,
federal com o fomento da produção - fo- aos Municípios.
mento, aliás de eficácia duvidosa, porque Mas o grande mal de nossa organização
de natureza predominantemente burocrática política e de nossa mentalidade social não
e urbanística - montou em 1932 a 36 535 tem esta única manifestação. Ao lado do
contos apenas, ou pouco mais de um cen- polvo gigante, outros men01es existem, e
tésimo, isto é, 1,28% dos gastos totais. em dois planos diferentes. Porque o que se
Desenvolve a União uma larga políti- verifica en1 larga escala no plano federal,
ca de educação popular? De maneira nenhu- vamos encontrar em escala menor, mas com
ma. Dos seus dispêndios de finalidade cul- igual intensidade, no plano estadual e no
tural, que sobem a 61 079 contos, e são de plano municipal.
benefício muito discutivelmente popular, Na capital de cada Estado e na cidade
somente a pequena quota de 38,57% en- ou vila que encabeça cada Município não
contra emprêgo fora da Capital da Repú- se encontra, em regra, o centro que com-
blica. plete a organização social e política da res-
Todavia, - dir-me-ão - o Govêrno pectiva circunscrição, mas um agi upamento
Federal desenvolve a navegação, mantém que se substitui pràticamente à coletividade
e alarga uma dispendiosa rêde ferroviária, a cujo serviço devera estar, concentrando
custeia um extenso e oneroso serviço pos- etn si todos os poderes, todos os recursos,
tal-telegráfico. Tais serviços, porém, não se todos os valores para os empregar segundo
fazem com um sentido de justiça social, em a própria conveniência, na sua quase tota-
razão da necessidade dêles para a incorpo- lidade em servicos ou simulacros de servi-
ração, à comunhão nacional, das infelizes ços de caráter local, e, na pequena parte
populações que lhe vivem quase inteira- destinada ao corpo social, não objetivando
mente estranhas, no mais doloroso dos aban- essencialmente o benefício dêste, mas o
donos. Êles se desenvolvem, primeiro, como simples estabelecimento das condições in-
recurso necessário para manter o colonia- dispensáveis a que o tenha na situação de
lismo do Brasil em relacão ao centro do Go- dependência, de vassalagem, que melhor
vêrno, e, depois, em ra'zão tão somente do permita a sua exploração sob todos os pon-
grau de influência econômica e política das tos de vista - o social, o econômico e o
1 egiões beneficiadas, o que quer dizer, em político.
1 azão dos fatôres, precisamente, que podem E assim o quadro político brasileiro,
pesar na conservacão do atual estado de considerado em seu conjunto, apresenta-nos
coisas. Logo, essa" obra de política econô- êste desolador panorama . As metrópoles -
mica não tem essencialmente um caráter e aqui compreendidas tôdas as sedes de go-
nacional espontâneo, não é uma obra de vêrno - em vez de estarem ao servico da
assistência social informada por princípios comunhão social, em vez de integrarem: har-
de justiça ou de eqüidade, mas obedece mônicamente os sistemas de fôrças de pro-
ainda aos imperativos do predomínio e da pulsão do corpo político, em vez de irra-
exploração que a metrópole exerce sôbre diarem as energias poderosas, que a soli-
o País. dariedade política permite nelas criar, em
E eis aí como as chamadas despesas benefício de tôda a coletividade, assegu-
nacionais só são nacionais porque se fazem rando-lhe o bem-estar, o progresso e a fe-
com o fruto do mais ingrato e mais duro licidade sob a inspiração dos mais altos pa-
labor de 40 milhões de cidadãos, nada ou drões de cultura, de justiça e de razão; as
quase nada representando como auxílio para metrópoles, dizia, são, ao inverso, centros
a sua comunidade social, mas servindo ape- de absorção insaciável e cada vez maior
nas ao desenvolvimento faustoso e parasitá- das energias, dos valores, dos recursos es-
rio de uma grande metrópole, cujos interês- pontâneos da comunidade. Êsse centripe-
ses e cuja vontade predominam incontras- tismo, resultante fatal do grande êrro me-
tàvelmente sôbre a vontade e os interêsses dular da estrutura política do País, perturba
dos dezenove restantes vigésimos do co1 po assim e vicia fundamentalmente todo o me-
social. tabolismo, tôdas as condições funcionais do
Outra réplica talvez se levante: a organismo nacional. O corpo social, em vez
União não presta tal assistência porque, da composição orgânica que devera ter, em
num Estado Federado como o é o Brasil, vez das equilibradas correntes de fôrças vi-
não é isso da sua competência, pois que a tais que lhe deviam assegurar a normalida-
tarefa cabe aos Estados. de, a euforia e as condições de florescimen-
Mas se à União cabe tão pouco dos to e ascensão na escala dos verdadeiros va-
ônus que incumbem ao Estado moderno, se lores de civilização, é, ao (:ontrário, um
88 REVISTA BRASILEIHA DOS MUNicÍPIOS

conglomerado anômalo - social, econômica infelicita a nacionalidade. E se volvemos as


e pollticamente falando. vistas em sentido inverso, depararemos a
Não se desenvolvendo as metrópoles diferenciação cada vez mais profunda entre
como conseqüência natural e harmoniosa de os que dominam e os que são dominados,
uma plena-vida da coletividade, e não lhe entre os que usufruem e os que produzem,
constituindo as grandes usinas das energias entre os espoliadores e os espoliados, e nessa
sociais, econômicas e políticas que o estado diferenciação, por isso que acompanhada da
de saúde do corpo social exige, mas forma- seleção que assinalamos, acentuando-se pe-
ções artificiais, teratológicas e parasitárias, rigosíssimos focos de antagonismo e luta,
a reservar para si tôda a seiva da coletivi- de compressão de um lado e de reação do
dade que exploram, resulta daí que somente outro.
nelas se oferecem possibilidades de bem- Essa migração, que teria um alto valor
estar, de civilização, de êxito pessoal. E de civilização se as metrópoles se organi-
assim, nas zonas rurais abandonadas e atô- zassem sob padrões racionalizados e cons-
nicas, espoliadas pelo fisco mais exigente, tituindo os grandes dínamos de fôrça pro-
desmandado e vesgo, das três máquinas go- pulsora a ser distribuída eqüitativamente
vernamentais metropolitanas, todos os ele- por todo o corpo social, mas que, pelas suas
mentos sociais que se sentirem constritos na causas e pelos seus processos e conseqüên-
expansão das suas possibilidades, ou desvia- cias, se transforma no exaurimento funesto
dos na normalidade social, mas tiverem um do potencial humano positivo na vida rural
quase nada de iniciativa, coragem, ou ambi- para a elevação do potencial negativo na
ção, só alimentam um ideal - ganhar a vida urbanizada do País, tal migração que
cidade. Donde a dupla corrente de perma- é, assim, um mal sem compensação, ou
nente drenagem de elementos humanos do melhor, somado a outro maior, tem ainda
campo para a cidade, - uma no nível su- uma contrapartida que, longe de atenuar-
perior, outra no nível inferior, pelas quais -lhe os perniciosos efeitos, os agrava vio-
vão confluindo nas metrópoles a espuma e lentamente . É a migração da riqueza. Um
a vasa da mal organizada sociedade rural. movimento contínuo vai deslocando a ri-
Os elementos da primeira corrente, mais in- queza do País para as metrópoles, através
teligentes, com capacidade de auto-forma- de uma canalização elevatória semelhante
ção, incorporam-se às classes dominantes. à que assinalamos no afluxo e na filtragem
Os outro,;;, os desadaptados sociais, conti- do elemento humano. Desloca-se a riqueza,
nuam como tal, com a situação talvez agra- acompanhando os egressos da vida agrária;
vada, assimilados pelas classes dominadas. desloca-se, ainda, quando, dificultosamente
Mas se os primeiros, por êsse deslocamento, formada na labuta agrícola, vai à procura
não enriquecem a coletividade, por isso que de mais segura e mais fácil colocação, in-
o meio mal orgànizado não lhes oferece vertendo-se em imóveis e emprêsas urbanas,
possibilidade de triunfar com proveito co- ou seja em forma que só interessa às ci-
letivo através de úteis realizações, obrigan- dades e nenhum reflexo útil exerce sôbre
do-os a se incorporar simplesmente à gran- a vida rural; desloca-se, mais, no caudal
de massa parasitária na burocracia, na ati- inexorável do fisco tríplice, cujas rendas
vidade artificial ou desvirtuada da indús- vão sustentar as obras suntuárias, o parasi-
tria, do comércio, do ensino, etc , tão pouco tismo, os apetites crescentes das metrópo-
os segundos, que não encontram meios de les incontentáveis.
reajustamento e redenção da mísera situa- E por isso mesmo que é assim, cada
ção originária. Quer dizer: os melhores va- vez mais se depaupera, se anemia, se imo-
lores positivos deslocam-se, trocando de si- biliza na rotina e na passividade, a econo-
nal, e os mais perigosos elementos negati- mia rural da Nação. E porque assim acon-
vos, urbanizam-se, mantendo ou agravando tece, cada vez mais se deslocam os valores
o seu potencial de negatividade social. humanos que a vida rural não pode ajustar
Mas uma nova filtragem, nesse mesmo e prender ao seu misérrimo ambiente. E
duplo sentido, e com as mesmas caracterÍs· em consequencia, os centros urbanos des-
ticas, estabelece-se a seguir, carreando para tarte artificialmente hipertrofiados, sem a
as capitais estaduais os que, na vida local, função social normal que a civilização lhes
permanecem insatisfeitos ou repelidos e, su- atribui, empregam improdutivamente ho-
ficientemente audazes e ambiciosos, aventu- mens e riquezas que absorvem, sentem cada
ram, afinal, em nível mais alto, o ajusta- vez mais forte a fome dos recursos que não
mento social, que lhes escapa, das suas des- podem produzir, e vão buscar êsses recur-
bitoladas personalidades. Vão assim as me- sos, pois que não lhes resta outro meio, não
trópoles estaduais recebendo por sua vez estimulando as fontes de produção, mas
afluxos constantes, e também de dupla sig- exaurindo-lhes as parcas reservas e agra-
nificação, das metrópoles municipais. E de- vando-lhes a penúria e a inópia, que por
las, numa terceira filtragem, originam-se no- sua vez motivam novo êxodo de homens
vas correntes que vão ter à metrópole e de riqueza.
federal. Triste, desolador, apavorante círculo
Vê-se por aí que, à medida que pene- vicioso êste .
tramos em profundidade na organização so- A economia federal, expressão suprema
cial brasileira, vamos encontrando um am- e a mais fiel dêsse gravíssimo estado pa-
biente socialmente mais rarefeito, mais tológico, já revela êste quadro. A sua arre-
apático, mais apagado, mais estagnado, cadação geral, na importância de 1 695 555
menos capaz de qualquer iniciativa ou contos, esgota-se no custeio da segurança
reação salvadora da profunda diátese que pública e do serviço das dívidas, que lhe
DocuMENTOS HisTómcos 89
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absorve 94,90%. Só se essa arrecadação equilíbrio, já vai fazendo ouvir ameaçadora-


fôsse mais de duas vêzes o que é, sobraria mente.
alguma coisa para, não deixando de atender Mas, senhores, ou a Nação desperta pa-
a todo o atual orçamento das despesas fe- ra a plena consciência desta tremenda diátese
derais e sem sacar sôbre o futuro nem que lhe mina surdamente as fontes de vida
sacrificar reservas já bem mesquinhas, fa- e lhe destroi aos poucos os liames de sua
zer-se alguma coisa em amparo à coletivi- unidade, ou os momentos calamitosos não
dade nas formas de assistência à saúde, à tardarão a chegar. Quem semeia ventos co-
economia e à educação. Vivemos, assim, lhe tempestades. . O mal-estar vai ganhan-
numa teimosia e inconsciência de loucos, a do tôdas as camadas sociais. Mesmo que
gastar não reprodutivamente quase o dôb1o não se saiba o que se deve co1rigir, vai-se
do que arrecadamos, onerando cada vez implantando em todos os espíritos a convic-
mais as debilitadas fontes da receita, cujos ção de que é preciso um grande abalo, uma
recursos anuais, só em dez anos ( 1923-1932) radical mudança de rumo na vida nacional.
foram elevados de 1 200 000 contos a qua- Uma tentativa fizemos, cautelosa, prudente,
se 1 700 000 ou de 41%, na sua expressão conservadora, e nada se conseguiu. E todos
total, e de 876 000 para 1 252 000, ou de vão concluir que tudo continuou tão mal
43%, n_o que diz respeito sàmente à renda quanto antes, porque a medicina não foi bas-
dos impostos. Majorou-se ainda a dívida pú- tante enérgica. Mas então essa terapêutica
blica a tal ponto que, naquele mesmo perío- de choque há de tender a direções novas .
do, passou, em sua expressão flutuante, de Além do que, pela sua violência, romperá o
cêrca de meio milhão de contos para mais estado de equilíbrio em que social e politi-
de um milhão, e, quanto aos compromissos camente nos mantivemos até agora, e fará
consolidados, subiu, internamente, de dois surdir de improviso as fôrças ocultas que os
para três milhões de contos, e externamen- nossos euos estão inconscientemente acumu-
te, se teve uma pequena redução na parte lando. E um impulso de dissociação insopi-
expressa em francos e libras, na parte em tável nos surpreenderá, visando a afastar a
dólares passou de quase setenta milhões a ordem atual, procurando os antípodas da es-
cento e quarenta e cinco milhões. Enquanto truturação vigente, na simplista preocupação
isso, como reverso da medalha, e conseqüen- das tentativas empíricas. Se a ordem atual
temente à desorganização da economia na- está fundada, politicamente, na grande uni-
cional, a importação passou de quase 51 dade brasileira e, socialmente, na organização
milhões e meio de esterlinos em 1923 a capitalista, mais provável será que a subver-
pouco mais de 28 milhões em 1932, isto é, são se oriente na destruicão das duas condi-
quase a m~tade, e a exportação desceu de cionantes fundamentais d~ organização vigen-
73 milhões e fração, naquele ano, para um te. E quem poderá prever o caos que daí
pouco menos de 36 milhões, ou abaixo da resultará? Quem poderá avaliar, numa solu-
metade, dez anos depois. E se assim se ção brusca de continuidade, até onde che-
passam as coisas na economia federal, re- gará o entrechoque das fôrças elementares
fletindo bem o que vai pela economia nacio- desencadeadas de todos os quadrantes sociais,
nal considerada em globo, um juízo mais no seio de uma comunidade já tão combalida
preciso poderemos formar quanto à situação nas suas energias vitais?
desta se atentarmos em que as receitas pÚ- Esta prefiguração é de fazer tremer.
blicas (da União, Estados e Municípios), É de causar horror.
no decênio de 1923-32, montaram a 321/z Mas então, brasileiros, que nos cumpre
milhÕes de contos, representando quase 40% fazer? Cruzar os braços, aceitando, como
do valor de tôda a circulacão comercial do fatalidade, o que os nossos erros prepararam?
País expressa nas correntes -internas e exter- Ganhar tempo com paliativos? Ou ir corajo-
nas de importação e exportação, as quais samente ao encontro das conseqüências da-
subiram apenas, naquele período, a 87% queles erros e oferecer desde já drenas
milhões de contos; não obstante o que, to- apropriados às fôrças de reação que se con-
davia, as ditas receitas foram excedidas em densam e nos ameaçam?
cêrca de 41!2 milhões de contos, ou precisa- Esta última, evidentemente, a atitude
mente 14%, pelas despesas públicas. que se impõe. Mas por infelicidade nossa,
Essas coisas passam-se sob os olhos de a consciência do perigo ainda não está bas-
todos, e a ninguém mais comovem. Como tante generalizada, nem bastante clara na
a parte sacrificada da nacionalidade não mentalidade das nossas elites dirigentes, para
tem quase consciência da sua desgraça e que possamos obter delas todo o conjunto
muito menos das suas causas; e como nem das medidas essenciais para o novo nortea-
sequer, se consciente fôra, teria meio de ex- mento da vida nacional. Prova disso a falta
primir o seu clamor e de exibir a sua des- de ambiente para que a Revolução de 30
graça; e como, aumentando embora essa si- pudesse tentar o reajustamento mais essen-
lenciosa desgraça, ainda temos podido ir cial na estrutura política da Federação, a sa-
contornando as nossas dificuldades imediatas, ber, o da redistiÍbuição do território pelas
as dificuldades da vida metropolitana inde- unidades políticas, firmando a União federa-
bitamente identificada com a vida nacional, tiva na equivalência de possibilidades e no
olhamos para tudo com otimismo impertur- sentimento de iustira
bável, damos a cidadania brasileira à divin- Em conseqüência, eis que, como único
dade e pouco se nos dá dos prenúncios da recurso ainda possível para que se faça tran-
catástrofe que se aproxima, nem nos intimi- qüilamente pela evolução o que mui perigo-
damos com os surdos 1umores que o arca- samente a revolução se prepara para tentar,
bouço da nacionalidade, violentado em seu se nos depara o de procurarmos estabelecer
90 REVISTA BRASILEIHA DOS MUNICÍPIOS

fundamentalmente, como ponto de partida penetrar a intimidade do tecido social no seu


para tôda a reconstrução que imperativos ine- metabolismo celular, valerá sempre por ex-
lutáveis nos impõem, a inversão da mentali- citações passageiras, a motivar hipertrofias
dade que até agora inspirou tôda a vida na- deformadoras e outros distúrbios, sem nunca
cional. trazer a expansão harmoniosa do conjunto,
O Brasil rural não é um feudo do Bra- o seu pleno estado de euforia. Ao passo que,
sil urbano. Não lhe é tampouco uma espécie normalizada a vida cecular, restaurada a
de colônia, de possessão, a ser amparada e saúde dos tecidos e dos órgãos elementares,
administrada o quantum satis para que a sua tudo mais sofrerá o influxo salutar, e o or-
exploração seja possível mais fàcilmente. ganismo caminhará seguramente para o nor-
Brasil urbano e Brasil rural devem integrar- mal estado de higidez.
-se, estrutural e orgânicamente, numa sim- Portanto, senhores, em última análise,
biose ou, melhor, monobiose perfeita, em que a complexa morbidez do corpo brasileiro, os
as funções respectivas se diferenciem har- apavorantes desequilíbrios patológicos que
mônicamente, mas em dependência recípro- êle nos apresenta, as crises, os colapsos que
ca, para formar o grande e verdadeiro orga- o intranqüilizam constantemente e o desvi-
nismo nacional. Êste não se poderá restringir talizam em alarmante escala, têm a sua ra-
a uma congérie de urbanizações insuladas zão de ser primordial na doença, na atrofia,
(urbes), mas há de consistir na harmoniosa na atonia, no depauperamento do Município.
estruturação dos Municípios-cidades ( civita- O problema do Município, eis, pois, o pro-
tes), no sentido sociológico do têrmo, supe- blema por excelência, o maior problema do
rior solidarização político-social dos dois pla- Brasil, o problema-síntese de todos os nossos
nos - o urbanístico e o rural, que polarizam problemas.
necessàriamente a comunhão pátria - a CI- E está feito o diagnóstico da grande
VITAS MAGNA da República. diátese brasileira, que não é somente uma
As metrópoles não são, não devem ser, conseqüência da grande crise mundial, mas
não podem ser monstros insaciáveis a devo- sim e sobretudo um distúrbio funcional da
rar a nacionalidade . São, sim, os centros de maior gravidade. Entretanto, se o mal está
pensamento, de coordenação e de propulsão caracterizado de um modo essencial, e conve-
da vida coletiva, a cujo serviço, portanto, nientemente localizado, cumpre ver os seus
estão, como as usinas das fôrcas sociais de sintomas locais, e determinar-lhe as causas
que aquêle precisa dispor, m,as só podem imediatas, a fim de que, removendo-as
surgir nas concentrações urbanas. E o que hàbilmente, se chegue mais depressa e mais
deve ligar o Brasil-indústria ao Brasil-lavou- eficientemente à eliminação da causa pri-
ra, o Brasil-urbanístico ao Brasil-agrário, o mária que procuramos deixar nitidamente
Brasil-metrópole ao Brasil-fazEmda, o Bra- fixada
sil-govêrno ao Brasil-povo, não há de ser um Os têt•mos A autonomia municipal em
sistema de tentáculos constritores, aneste- do problema cuja prática madrugamos, não
siantes e sugadores, mas a irradiação de um correspondeu nunca aos seus
sistema de comunicações e colaboração orgâ- fins. Nem podia corresponder. No seio da
nicas - nervos, músculos, vasos e Órgãos velha civilização em que surgiu, floresceu e
diversos, com o concurso dos quais se esta- definitivamente se implantou, foi o comuna-
beleca a unidade de vida, a solidariedade de lismo o fruto amadurecido de uma longa
interêsse e o câmbio dos diferenciados ele- evolução social e política. Em condições
mentos e impulsos orgânicos que a cada um radicalmente diferentes êle se implantou en-
compete elaborar ou veicular em proveito tre nós. E a dispersão demográfica, a in-
próprio e comum, em reciprocidade harmo- cultura popular, as dificuldades de comuni-
niosa. cações, o rudimentarismo da organização po-
Portanto, a bandeira, o lema, que aquelR lítica e o regime social em que vivíamos,
nova mentalidade deve invocar há de ser deturparam fundamentalmente a instituição,
êste - que alguém já levantou: - "rumo tornando-a imprópria a assegurar o bem-es-
a oeste". O que vale dizer, ao Brasil interior, tar e o progresso das coletividades comunais
ao Brasil esquecido, ao Brasil combalido, e transformando-a as mais das vêzes em ins-
ao Brasil espoliado, numa palavra, ao "Bra- trumento de prepotência, de compressão, de
sil-Município". Quer isto significar que um desonestidades e de espoliação do povo.
pensamento, um sentido, um propósito cen- Em primeiro lugar, em virtude da men-
tral deve inspirar e orientar tôda a ação go- talidade que já assinalamos como fonte pri-
vernamental brasileira - o da interiorização mária da permanente crise brasileira, oriun-
das fôrças de progresso, o da incorporação da do fato de o Brasil se ter limitado, em
ao Brasil-nuclear, ao Brasil-atlântico, ao comêço, aos pequenos agrupamentos que fo-
Brasil-intramuros, do Brasil-difuso, do Bra- ram as feitorias, vilas e cidades do alvorecer
sil-sertanejo, do Brasil-extramuros; mas par- da sua história, a comuna sempre foi apenas
tindo-se exatamente dos fundamentos estru- a sede municipal. Os recursos da comuni-
turais do corpo social, do seu tecido celular, dade comuna! se destinavam todos ou quase
da organizacão elementar em que começou todos ao benefício da sede, nunca se pen-
a fatal diss~ciação que é a grande diátese sando nos interêsses e necessidades da zona
da vida nacional, - do Município enfim. rural. E daí o contínuo movimento migra-
Porque tudo que se queira fazer pelo pro- tório a que já aludimos, retirando ao inte-
gresso do Brasil objetivando primàriamente, rior as suas fôrças vivas .
e simplesmente, as superestruturas do seu A esta primeira condição desfavorável
sistema orgânico, os Estados e a União, - segue-se a falta de técnica administrativa.
sem cogitar-se do arcabouço interno, sem Entregue o Govêrno Municipal, em condi-
DocuMENTOS HisTÓRicos 91

ções a que os vícios conhecidos da nossa or- bre as finanças do seu Município não soube
ganização social e política sempre deram dizer mais do que isto: que arrecadava e
cunho de franco absolutismo, embora com gastava "uns trinta contos". Numa outra Mu-
exceções mais ou menos numerosas, a vida nicipalidade, prêsa a oneroso contrato com
municipal brasileira teve como mentores e uma emprêsa de eletricidade a que fazia
árbitros dos seus destinos homens que não vultosos pagamentos mensalmente, não foi
podiam, na generalidade dos casos, organizar encontrado vestígio do respectivo instrumen-
e dirigir eficientemente uma verdadeira ad- to jurídico. Municípios em que não há ar-
ministração. Indo obviamente ter às mãos quivo, são inúmeros. E não têm conta os
dos espíritos mais alertados, de mais larga que não conservam sequer a sua coleção de
visão, alimentando por isso mesmo aspira- leis.
ções mais altas, só em casos bem raros de Mas se por êsses fatôres negativos a ad-
invulgar devotamento à causa pública e es-
ministração local em boa parte do quadro
pírito de sacrifício, conseguem ter os nossos
Municípios como administradores um CAN- comuna! brasileiro não passa de pura apa-
TÍDIO DRUMMOND. Porque se as aspirações e rência, quase inerte, quando não é uma
ambições dos chefes chamados à direção mu- organização funesta sob todos os pontos de
nicipal eram limitadas à vida local, êsses ho- vista, por uma outra circunstância tem ela
mens, para vencer em tão acanhado meio, de ser inteiramente inepta a qualquer atua-
sendo êles honestos, tinham que' se dedicar ção eficiente em benefício da coletividade.
com tôdas as energias às suas atividades pro- É a inópia de recursos . Mesmo não se le-
fissionais - comércio, lavoura, medicina, vando em conta a freqüente desonestidade
etc., não podendo fatalmente entregar-se à dos agentes administrativos, em regra livres
função de govêrno com o devotamento e de qualquer contrôle ou peia, dadas a igno-
o exclusivismo com que, somente, se podem
rância do meio, a licença do regime de ar-
contrabalancar as desfavoráveis condicões do
bítrio que impera, e a falta de qualquer coi-
meio municipal; e, não lhes sobrand~· escrú-
pulos, claro é que só podiam fazer do go- sa que se pareça com opinião pública, nas
vêrno o instrumento de espoliação da co- regiões mais atrasadas - nada de eficiente,
munidade em proveito próprio, de seus fa- concluir-se-á ainda assim, pode tentar um
miliares e de suas clientelas . govêrno local em matéria de verdadeira ad-
Junte-se a isto a freqüente inexperiên- ministração comuna!, tal a deficiência de
cia dos homens chamados à governança da recursos. Não incluídos os relativamente pou-
comuna. A administração tem a sua técnica, cos centros que possuímos com uma economia
tem os seus problemas. Não se improvisa um razoável, os Municípios brasileiros dispõem
administrador, nem muito menos uma boa de rendas ridículas, que só podem servir e só
máquina administrativa. Donde o predomí- servem para manter o simulacro de aparêlho
nio do empirismo, da rotina, da desordem, administrativo, mais uma forma do parasi-
do arbítrio, na administração da grande maio- tismo que infesta e dessora o organismo na-
ria das comunas brasileiras. Na mais dolo- cional. Em 1912, dentre 986 Municípios
rosa experiência, tenho encontrado em tôda informantes, arrecadaram importâncias que
parte do Brasil, Municípios sem a mais leve não ultrapassavam dois contos de réis, nada
organização administrativa e onde os ser- menos de 46, a começar de um Município
ventuários municipais são de uma ignorân- do Ceará, cuja receita foi precisamente de
cia e de um atraso que raiam pelo inacredi- 242$110. Não foram além de 20 contos as
tável. Os homens do meio local mais inteli- arrecadações de 538 comunas. E receitas
gentes, quando não emigram, procuram na- excedentes de 200 contos anuais, ou seja, um
turalmente meios de vida mais rendosos do mínimo, aliás bastante baixo, para se custear
que os modestíssimos cargos de uma inten- uma administração comuna! por mais mo-
dência ou prefeitura municipal. De modo desta que ela seja, só conseguiram coletá-las
que os corpos de funcionários que organizam 88 das circunscrições abrangidas pela esta-
e fazem funcionar a máquina administrativa tística. E hoje? Sem embargo da moeda des-
municipal são em regra, ainda que com bas- valorizada que temos, estavam abaixo
tantes exceções, compostos de pessoas incul- do modestíssimo limite de 100 contos anuais,
tas, sem qualquer noção de administração, nada menos de 784 dos 1 365 Municípios
contabilidade, etc., que apenas mantêm e existentes em 1932, dos quais 125 ainda ar-
não podem mesmo senão manter um simu- recadavam menos de 20 contos. E esta si-
lacro de aparêlho dirigente, onde domina o tuação de penúria vai-se agravando cada dia,
abandono, o arbítrio, a desordem, o espírito com o constante desdobramento do quadro
rotineiro, enfim, tôdas as condições nega- municipal.
tivas da eficiência. Temos, portanto, um grande número de
Municípios tenho encontrado sem vestí- Municípios, quando não de área insignifi-
gios de uma escrita qualquer. De um Pre- cante, de população muito reduzida, e, con-
feito Municipal, a quem um agente de esta- seqüentemente, de economia debilitada e
tística pedia os dados das financas muni- rendas ridículas, que coisa alguma, absolu-
cipais ou ao menos que o deixasse.. examinar tamente nada podem fazer em favor do bem-
o livro-caixa das arrecadações do Município, -estar e da defesa dos interêsses das respec-
foi ouvido como resposta, acompanhada de tivas populações, parasitados apenas por um
um sorriso de bonhomia, que a caixa do Mu- enxame de sinecuristas - humílimos, é ver-
nicípio eram "os bolsos das suas calças" e dade, mas nefastos - com o rótulo de fun-
que sendo êle um homem honesto não pre- cionalismo municipal, preço que pagam pelo
cisava de "complicações". Êsse prefeito, sô- luxo do "self-government". "Noblesse oblige."
92 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

E, pois, fora de uma pequena limpeza -social no Distrito Federal e à polícia sani-
de ruas - quando não são os gericos que tária dos portos. A colaboração do Govêrno
a fazem. . ; de uns poucos lampiões de ilu- Federal com os Estados para lançar o ser-
minação pública, que se apagam por econo- viço de profilaxia rural, mal instituída e
mia nas noites de luar; da conservação de mal regulada, tornou-se de tal forma inefi-
algumas pontes e caminhos, da abertura de ciente que foi suprimida.
um ou outro poço, ou da instalação de uma E no tocante ao fomento econômico, te-
pequena e rudimentar rêde de abastecimen- mos querido fazê-lo à distância, por uma vas-
to d'água, e pouco mais, muito pouco mais, ta burocracia pretendidamente agrária mas
nenhum benefício outro recebem as popu- essencialmente urbanística. E assim, se ex-
lações municipais, em grande parte do Bra- cetuarmos a atuação, em limitada escala, de
sil, dos respectivos e autônom.os governos alguns poucos centros de trabalho e fomento
E as parcas rendas de que êstes podem dis- agrícola (fazendas-modêlo, campos de de-
por, das sobras que a desonestidade deixa, monstração e de cooperação, postos de mon-
são poucas naturalmente para o custeio do ta, etc.), a lavom·a e a pecuária têm sido
"serviço eleitoral" - a coisa mais importan- favorecidas pela União apenas com uma re-
te da vida municipal, porque por meio dêle duzida distribuição - mas de tão compli-
é que se obtêm as boas graças dos poderes cada e demorada, pràticamente inútil - de
superiores, i,sto é, algumas sinecuras para a sementes, mudas, adubos, inseticidas e al-
clientela e as nomeações camarárias para os guns artigos mais. O auxílio direto, sem
cargos estaduais de natureza local, cujos entravantes formalidades burocráticas, tanto
titulares se transformam assim em susten- em serviços técnicos, de estímulo, de defesa
táculos das situações municipais. ou de demonstração, como no fornecimento
E essa triste vida é que vai vivendo de materiais e na criação de facilidades de
em nossos esquecidos sertões o municipalis- tôda espécie à produção e à exportação dos
mo brasileiro. A ignorância, os abusos, os produtos, êste nunca foi prestado à lavoura.
erros, a improbidade, a falta de iniciativa,
E os Estados? A atuação estadual não é
o desprêzo do interêsse público, que o de-
essencialmente diferente da do Govêrno Fe-
turpam e inutilizam, não têm, não podem
deral. Um pouco mais próxima, um pouco
ter corretivos . A opinião pública inexiste .
mais desdobrada, mas insignificante, pràtica-
Todo o aparêlho do govêrno estadual no
mente inexistente em grande maioria das
Município, quando não submisso - e mui co- Unidades da União, no que respeita ao fo-
mumente desservindo à causa pública - às mento agrícola e à assistência médico-social,
situações municipais, deixa-se ficar alheio aos para só ter apreciável significação, em todos
verdadeiros interêsses da comunidade. O go- êles, quanto à ação educativa. Mas esta
vêrno estadual, empenhado em manter as
mesma, tanto em extensão e em profundi-
situações locais que lhe são politicamente
dade, quanto em qualidade, não é ainda um
fiéis, acastela-se no respeito à autonomia mu-
centésimo do que devera ser, e não tem a
nicipal para permanecer surdo ao clamor
capacidade necessária para tirar o País da
público quando êste se levanta. Mas não
humilhante situação em que se achou até
hesita em mudar uma situação municipal
hoje entre as nações mais incultas do mun-
que lhe seja infensa, por maior que seja a
do. Além do que, essa restrita e insuficiente
arbitrariedade, ou por melhor que seja o go-
ação educativa ainda se ressente da profunda
vêmo adversário. E com isto ttido, só se
injustiça social que informa, como vimos,
vêem fatôres negativos naquele aspecto da
tôda a ação do Poder Público no Brasil, pois
vida nacional em qu~ lhe deveriam residir que se dirige principalmente às populações
as fontes de energia sadia e renovadora. urbanas e, ainda aí, é incapaz de suprir as
Onde cumpriria estar o fulcro da nacionali ·
deficiências de alimentação, de vestuário e
dade, o rijo cerne da nossa organização social,
de saúde que impossibilitam as classes so-
econômica e política, a fonte primária da
ciais mais modestas de tirar todo o proveito
saúde coletiva, encontra-se um conglomerado
da assistência escolar oferecida, por isso que
amorfo sem consistência nem vitalidade, ou
essa assistência está organizada em moldes
um foco de perigosa infecção, a preparar
alheios às necessidades e realidades do meio
surdamente um estado septicêmico generali-
brasileiro .
zado.
A assistência social - em matéria de De modo geral, a maior parte da po-
educação, de saúde, de fomento às atividades pulação das grandes metrópoles brasileiras
produtoras, assistência que devia ser o obje- (capitais da União e dos Estados) e a quase
tivo precípuo dos governos locais, e não res- totalidade da chamada população interior,
tritamente às populações urbanas, mas a nesta compreendida tôda a população rural,
tôda a coletividade, essa assistência fica re- estão inteiramente desamoaradas dos bene-
legada às cogitações dos demais planos go- fícios da civilização, e até mesmo urivadas
vernamentais. Fazem-na êstes? Vejamos. de uma rudimentar organização social, per-
Em matéria de educação popular prà- manecendo duplamente esmagadas, pela mi-
uriamente dita, nada pràticamente realiza a séria física e duras condições de vida em um
União. A sua única atuação, que tem algum meio ingrato sem a defesa da inteligência
significado neste particular, consiste no sub- esclarecida, e pela inexorável, crescente e
vencionamento de umas tantas escolas de insaciável exploração de uma máquina gover-
nacionalização de filhos de imigrantes nas namental organizada em antagonismo com
zonas coloniais dos três Estados meridionais. os mais elementares princípios de solidarie-
Pelo que diz respeito à saúde pública, dade, justiça social e, até mesmo, humani-
a ação federal limita-se à assistência médico- dade.
DocuMENTOS HrsTÓmcos 93
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As gambiarras da nossa falsa civilização duras provas das incertezas e violências de


nos ocultam aos olhos a intimidade do uma tremenda subversão social e política.
quadro de miséria, de sofrimento e de re- Mas eu confio, devemos todos confiar
volta, que, mesmo em nossas capitais, essa no gênio construtivo da nossa raça e nas suas
situação mantém e agrava . E na vida inte- qualidades de inteligência e, sobretudo, de
rior, êsse doloroso espetáculo de milhões de sentimento. Se o Brasil coletivamente quiser
criaturas embrutecidas, vergadas ao pêso de fazer um ato de consciência, procurando ver
morbidezas incontáveis, sem um amparo, claro, no báratro em que se desorientam nes-
sem um confôrto, vivendo em pocilgas se- ta hora os seus destinos; se êle quiser fazer
gundo o mais baixo teor de vida imaginável, um ato de contrição, reconhecendo os erros
e trabalhando de sol a sol para colhêr um que as contingências do seu passado o fize-
mísero salário que mal lhes mata a fome, ram cometer até hoje; se êle quiser fazer,
tal a inferioridade do alimento utilizado, finalmente, um ato de propósito, empregan-
êsse espetáculo já não nos fere a sensibili- do tôda sua vontade a redimir a nacionali-
dade embotada, porque nisso tudo vemos o dade da funesta servidão em que jaz entor-
quadro normal da vida campesina no Brasil, pecida, - êle encontrará certamente o seu
algo como que uma fatalidade cósmica con- norte, a sua luminosa estrêla, sem imergir
tra a qual nada há que fazer, nada vale ten- nas sombras e nas rudes provas do desmem-
tar. Êsse é o fadário dos homens do campo bramento ou da guerra social.
- gado para o trabalho, para a exploração E, mercê de Deus, não é difícil tracar
e para o sofrimento. Se assim sempre foi, o rumo por onde essa caminhada de red;n-
que assim continui sempre a ser, pois que ção se terá de iniciar. O que deixamos visto
tudo isto de tão velho e de tão imutável na para trás nos dá clara intuição do roteiro
ordem natural das coisas, parece estar tam- que se impõe: que se inverta a mentalidade
bém na ordem providencial, que nos deu que nos dominou até o presente, e passemos
complacente e amiga essa infindável teoria a ser, os homens da cidade, não os déspotas,
de servos da gleba para sustentar os "brasi- os espolíadores implacáveis dos homens do
leiros", os homens privilegiados das metrópo- campo, mas os seus servidores diligentes,
les, os que fazemos a "civilização" do leais e altruístas; e que todos os esforços
Brasil . . E continuemos a tratar as coi- que nesse novo estado de ânimo e a essa
sas e a gente da "roça" com a supe- nova luz pudermos e quisermos empregar
rior indiferença que a sua distância e o em benefício do Brasil interior, do Brasil
seu atraso nos mereceram até hoje. E rural, do Brasil que os homens até hoje es-
como o pedirem as nossas imediatas e queceram, se encaminhem, se dirijam, con-
tão exigentes necessidades, pouco se nos virjam para a instituição do municipalismo
dando, por exemplo, que a lavoura cafeeira que nos convém, o qual, êle, só, é capaz de
produza penosamente ao pêso de exorbitantes realizar a generosa renovação que se impõe.
impostos e mantendo em exploração sob o Mas como?
engôdo dos preços artificialmente elevados, Claro que, se se trata de realizar pela
velhas plantações em zonas que vantajosa- evolução o que a revolução não nos deu nem
mente se poderiam dedicar a outras culturas, no-lo daria sem extremados riscos e doloro-
nem tão pouco que essa produção haja sido sas provações, não poderíamos pensar, em
tôda ela beneficiada e transportada, e que nosso generoso propósito, na substituição
afinal se tenha tornado preciso destruí-Ia na brusca e radical da ordem vigente. Esta tem
quantidade assombrosa de 30 000 000 de que ser, não substituída "ex-abrupto", mas
sacas, sem atender ao doloroso prejuízo da renovada e transformada por um trabalho
economia mundial, e em detrimento, afinal, prudente e esclarecido de sucessivas adapta-
da própria economia brasileira como prêmio ções e transigências .
e estímulo aos países cafeicultores nosso5 De tudo que ficou dito, quais as falhas
concorrentes .. mestras a corrigir? Como corrigi-Ias? Ou me-
lhor, como encaminhar as coisas para que se
Pungente irrisão!
corrijam aos poucos, sem antagonismos vio-
Mas será possível, brasileiros que me lentos com os hábitos e os preconceitos ar-
ouvis, homens de inteligência e coração que raigados em nossa mentalidade social e po-
sois, dizei-me, será possível que isto conti- lítica?
nue, que tal monstruosidade, que essa defei- Tentemos colocar em equação êsse pro-
tuosa organização social e econômica se pro- blema à luz da experiência brasileira, à luz
longue e permaneça indefinidamente? das realidades nossas.
Não; bem vêdes que isto não pode, não
deve, não há de continuar. Bem sentis que A equação As falhas mestras a que alu-
isto não continuará, ainda quando o queiram do problema dimos assim se podem resu-
todos os que tudo têm ganho com tal estado mir: I - o meio comunal
de coisas . Primeiro, porque tôda essa misé- não oferece condições nem para formar ad-
ria que a realidade brasileira encobre há de ministradores municipais, nem mesmo para
ser afinal compreendida pelas nossas classes conseguir que os homens mais inteligentes
dirigentes, e do seio delas mesmas há de e mais ativos dirijam, com a necessária de-
sair a espontânea reação salvadora. E segun- dicação e sem sacrifício da causa pública, o
do, porque se essa reação construtiva não govêrno e a administração do Município;
vier, virá forçosamente a reação destrutiva, li - dada a ignorância, o atraso e a
a das fôrças sopitadas, comprimidas, que ex- pobreza dos meios rurais, os negócios pú-
plodirão um dia, para renovar, para mudar, blicos municipais em tais meios correm sem
seja como fôr, ainda sem fins precisos, nas a vigilância de uma opinião pública, que,
94 REVISTA BRASILEIRA DOS MuNicÍPIOS

entretanto, em nosso regime de autonomia Terá êle solução? Que digam a êsse
municipal, devera fornecer o untco contrôle respeito a última palavra os sociólogos, os
possível da boa ordem do govêrno e admi- juristas e os estadistas. Mas não consideraria
nistração locais; cumprida a minha missão nesta tribuna sem
tentar uma demonstração de que pelo menos
III - essas mesmas condições reduzem
uma solução constitucional, evolutiva, nor-
os Municípios à maior penúria de recursos
e lhes tiram a possibilidade de dispor de um mal se nos depara .
eficiente corpo de servidores, donde a con- Procuremos estabelecer a equação.
tingência de não possuírem em regra senão Tem sido alvitrado que as chefias das
uma aparência de administração, com defi- administracões mumctpais sejam exercidas
ciências inacreditáveis, e de não poderem por prefeitos de nomeaçãú dos governos es-
realizar nenhum programa de significação taduais. Poderia, assim, ser formado um cor-
em matéria de assistência social e econômi- po de administradores municipais de carrei-
ca às respectivas populações, nem mesmo ra, devidamente especializados. Mas, embo-
qualquer empreendimento ou melhoramento ra com a brilhante contradita de acatados
de certo vulto; juristas, temos sustentado que semelhante
IV - pela influência perniciosa dos go- recurso contraria o princípio constitucional
vernos centrais, dada a defeituosa organiza- da autonomia municipal, do "self-government"
ção vigente, são ainda os escassos recursos Iocalista.
municipais desviados em grande parte para Logo, se se quiser, como tudo demonstra
fins eleitorais, porque a organização e o se- ser indispensável, que as administrações lo-
guro manejo do eleitorado são o único meio cais sejam chefiadas por administradores es-
de que dispõem os chefes municipais para pecializados, precisa-se encontrar um meio
se recomendar às promoções políticas, e cons- de assegurar essa providência sem ferir os
tituem o único ponto de apoio de que se melindres dessa autonomia, que hoje, como
podem utilizar os Municípios para pleitear quer que seja, já representa entre nós, de
alguns dos poucos benefícios que a adminis- fato, uma tradição respeitável.
tração estadual lhes pode dar;
Na impossibilidade de criar em cada
V - os insignificantes recursos que o Município uma opinião pública alerta e es-
Município, a União e o Estado podem re- clarecida a acompanhar de perto a vida ad-
servar para a obra de assistência às popu- ministrativa e governamental da comuna, e
lações de cada circunscrição comuna!, por nenhuma influência podendo ter a opinião
isso que empregados dispersivamente e sem pública das metrópoles estaduais sôbre a
unidade de acão nem de critérios, não pres- vida íntima das Municipalidades, a não ser
tam sequer o; pequenos benefícios que o séu em casos muito raros e muito graves, já se
vulto permitiria se fôssem utilizados solidá- tem pensado em controlar a administração
ria e racionalizadamente; municipal pela intervenção de Tribunais de
VI - pelo reduzido prestígio social, eco- Contas Estaduais. Mas essa providência,
nômico e político dos Municípios, e pelo iso- além de chocar também o princípio autono-
lamento em que vivem, nenhuma influência mista, teria significação restrita e resultaria
podem êles ter sôbre os planos superiores de inócua pela impossibilidade de uma fiscali-
govêrno, que se orientam exclusivamente pela zação eficaz, a qual só poderia resultar de
mentalidade das grandes metrópoles, sem uma acão mais direta sôbre a intimidade da
nenhum influxo dos interêsses e aspirações admini;tracão comuna! e que decorresse ao
da vida municipal, a qual permanece, assim, mesmo te~po da própria vontade da comu-
à margem da vida da nacionalidade, dela nidade local, isto é, do princípio de autono-
excluída a bem dizer; mia do Município.
VII - dada a extensão do País, o limi- À inaptidão dos corpos governativos
tado número das organizações políticas su- municipais para uma boa prática administra-
periores - as Unidades Federativas, e a tiva e sobretudo para os trabalhos técnicos
grande distância ou as difíceis comunicações que exigem as obras e serviços municipais
entre os centros diretores da administração - água, luz, esgotos, cadastros, estradas, etc.
federal e estadual e os seus órgãos de ação - tem-se procurado opor o corretivo das re-
local, ficam todos aquêles serviços da União partições estaduais de administração muni-
e dos Estados que poderiam beneficiar a cipal, ao tipo da que o Estado de São Paulo
vida comuna!, mal dirigidos, ineficientes ou delineou e em boa hora realizou. A medida
com reduzido rendimento, contribuindo para foi imitada em várias unidades da União e
a estagnação daquêle plano da vida nacional tem apresentado resultados magníficos. Te-
e o amesquinhamento do já tão reduzido nho para mim, porém, que o êxito dessa ten·
amparo dos governos centrais às populações tativa resultou em grande parte da depen-
do interior. dência estreita dos governos centrais em que
Contornar essas dificuldades dentro da os governos municipais ficaram durante o
nossa vigente estrutura política, sem ferir os período revolucionário. Restabelecido o re-
seus princípios e sem provocar choques pre- gime de plena autonomia comuna! vai ser
judiciais, para inverter as condições atuais difícil que se mantenha a eficiência das
da vida municipal e dar-lhes o dinamismo, o atuais repartições regionais que estão pràti-
impulso e a verdadeira finalidade social, camente orientando e controlando as admi-
econômica e política, eis, pois, em tôda a sua nistrações locais em tôdas as suas atividades.
impressionante nitidez, o "problema do Mu- E se, de fato, convém manter essa conquista
nicípio" neste angustiante momento da vida da organização nacional, cumpre adaptá-la à
nacional. nova ordem política, conservando a sua fina-
DocuMENTOS HISTÓRicos 95

!idade e desdobrando cada vez mais a sua so, precisa ser resolvido com profunda sabe-
ação, mas de modo que fique a instituição doria política.
informada pelo próprio princípio da autono- À primeira vista o problema é inabor-
mia localista . dável, porque duas dificuldades fundamen-
O desvio dos dinheiros municipais para tais se nos deparam .
fins políticos resulta, como vimos, do fato Não bastaria evidentemente um acôrdo
de serem catgos políticos os da direção da entre as entidades governamentais em pre-
administração comuna! e da circunstância, sença no intuito de repartirem entre si os
ainda, de êsses postos constituírem escala para setores de assistência. Esta divisão seria di-
a carreira política dos chefes locais. O mal fícil de fazer, e a ação a pôr em prática
assume proporções assombrosas, que bem se se desnivelaria, redundando tudo em desar-
deixam avaliar por êste fato. Pude verificar ticulação e desigualdades vitandas. Tampou-
em certo Município que cêrca de vinte esco- co se poderia recorrer a uma distribuição
las para cujo custeio se destinavam recursos geográfica, como um ilustre educacionista
orçamentários, só existiam na lei da despesa, já pensou que se pudesse praticar no terre-
sendo a respectiva verba aplicada na manu- no da educação, atribuindo-se a esferas go-
tenção de outros tantos cabos eleitorais com vernamentais distintas, por exemplo, a obra
o rótulo de "professôres". Ora, se pràtica- de assistência urbana, a distrital e a rural.
mente os cargos de prefeito não dão nenhu- Difícil a distinção a estabelecer e pràtica-
ma vantagem aos políticos que os exercem, mente impossível a unidade e organicidade da
a não ser a do prestígio pessoal, ou, mais atuação a ser exercida. Não seria praticável
exatamente, a da possibilidade de preparar também a abstenção de duas das entidades
e encaminhar a conquista dos postos da po- governamentais em presença, exoneradas dos
lítica estadual nas lutas em que a posse de seus deveres de assistência social pela sim-
um eleitorado é o elemento decisivo, ne- ples subvenção à terceira delas, que então
nhuma forma haverá de coibir o abuso en- tomaria a si tôda a responsabilidade da as-
quanto aquela investidura tiver caráter ele- sistência a ser realizada. Pam essa atividade
tivo. Pois que, no regime atual, só a con- exclusivista não estariam indicados nem a
quistam os que possuem eleitorado, e êstes, União nem os Estados, cuja ação se teria de
tendo-a conquistado, dela se servem princi- exercer muito à distância, em condições di-
palmente para recompensar o seu eleitorado, fíceis e de nenhuma ou problemática eficiên-
para ampliá-lo e bem manobrá-lo. Mas qual- cia. E os Municípios, que a poderiam exer-
quer mudança nesse sentido só será viável citar com maior percepção das exigências do
se encontrada uma fórmula que se concilie meio e através de uma ação mais direta, não
também com a autonomia municipal. dispõem de elementos técnicos e administra-
A dispersão dos pouquíssimos esforços e tivos nem para criar nem para manter ser-
recursos que a União, os Estados e os Mu- viços da envergadura dos que são necessá-
nicípios destinam à obra de assistência social rios. Além do que, entregue tal obra ao ar-
das populações do interior, é uma conse- bítrio e às iniciativas dos Municípios, ela
qüência da diferenciacão dos planos governa. ultrapassaria o adequado ajustamento às
mentais da nossa estr~tura política. Enquan- condicionantes locais, para perder progressi-
to tal dispersão perdurar, serão insolúveis os vamente todo o seu sentido nacional e a sua
problemas daquela assistência, porque, da- articulação com os planos superiores da polí-
das as fontes de renda e as responsabilida- tica de amparo social, ou bioeconômico-
des financeiras atribuídas a cada uma das -cultural, que não pode ficar nunca circuns-
nossas esferas políticas, nenhuma delas, por crita ao âmbito localista, devendo necessà-
mais que o quisesse, poderia praticar aquela riamente prender-se às demais esferas gover-
desdobrada e multifotme assistência em têr- nativas.
mos de atender aos reclamos da situação bra- Se é preciso, portanto, que haja unida-
sileira e aos imperativos de humanidade e de de orgânica no aparêlho executor das ativi-
justiça social. Mas com os mesmos recursos dades governamentais de assistência educa-
que a êsse fim já se reservam atualmente, ou tiva, econômica e sanitária; se é preciso que
com um reduzido acréscimo dêles, se a men- êsse aparêlho exerça uma atividade a mais
talidade brasileira inverter a sua polaridade penetrante e a mais extensa possível, inte-
segundo a fórmula fundamental que deixa- riorizando-se ao máximo em todo o territó-
mos assinalada e que deve caracterizar a fase rio nacional; se é preciso que essa atuação,
reconstrutiva a que os destinos nacionais em seus desdobramentos primários e mais
nos chamam, já poderá o País realizar obra elementares, se ajuste às exigências de cada
notável, ela só capaz de transmudar, em âmbito municipal, mas sem perder o con-
poucos anos, o desolador panorama que a vi- tacto, a articulação e a unidade de fins em
da da nacionalidade nos oferece neste mo- relação aos seus desdobramentos de níveis
mento, nas mais radiosas pet·spectivas de mais altos e objetivos mais complexos e
prosperidade e felicidade social. E com tan- mais compreensivos; se é preciso que essa
to maior êxito e melhor rendimento quanto atuação utilize, conglobando-os, todos os
mais feliz a fórmula pela qual aquêles es- recursos de que a nacionalidade, pelos seus
forços e aquêles recursos forem enfeixados três planos de ação governamental, puder
e repartidos, solidarizando-se e interpene- dispor; se é assim, concluiremos então que a
trando-se não só as atividades provenientes obra de assistência sanitária, econômica e
das distintas esferas governamentais em pre- educativa deve ser exercida por um vasto
sença, mas ainda as que visarem os diferen- e complexo sistema de Órgãos, diferenciada-
tes setores da assistência social. Se o obje- mente instituídos e distribuídos, que se pos-
tivo é sedutor, entretanto, além de imperio- sam revestir de todos aquêles característicos
96 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

verificados indispensáveis, e sejam mantidos uma decisiva influência nos concílios do go-
conjugadamente pela União, Estados e Mu- vêrno dos Estados e da República, levan-
nicípios, com unidade de esquema estrutu- do-lhes o influxo das aspirações e dos inte-
ral e unidade de direção, sem embargo de rêsses da vida comuna!, que é o plano pri-
colaborarem adequadamente nessa direção as mário, sim, mas o plano mais essencial, mais
três ordens governamentais co-interessadas. profundo, mais genuíno, da vida nacional.
Essa conclusão, todavia, não resolve De que resulta a fraqueza da vida mu-
tôda a questão, porque outra dificuldade nicipal em relação à vida estadual, e conse-
se apresenta. Não é fato que a nova Carta qüentemente, em face da vida nacional, se
Política obriga a União e os Municípios a em verdade ela é tão extensa, afinal, e
gastarem das suas "receitas de impostos" tão compreensiva do corpo social, quanto as
10% e os Estados 20%, somente com a ins- duas outras? Eis a resposta. Primeiro, da
trução? Não é fato também que todos os ra- sua exagerada divisão e do isolamento
mos de govêrno estão onerados com incríveis entre os respectivos centros; segundo, da
compromissos financeiros de que não se po- sua pobreza econômica e cultural; e ter-
derão libertar tão cedo, sejam quais forem ceiro, da escassez de ponderáveis valores re-
os seus esforços? Como então poderiam êsses presentativos, escassez essa decorrente como
governos, em tais condições, cumprir, além vimos, de complexos fatôres sociais, 'econô-
daqueles, a nova obrigação constitucional de micos e políticos. Favorece êste estado de
que muitos estão ainda tão distantes, e a coisas o fato de constituir a autonomia mu-
mais disso, reservar recursos para estabele- nicipal a conquista máxima da vida localista
cer ou desenvolver convenientemente as ou- e o pórtico do prestígio político e social para
tras duas modalidades de assistência - a os chefes de cada vilarejo. Mas se os des-
de fomento econômico e a médico-social? membramentos dos Municípios ficaram sen-
Uma solução prática parece à primeira do a constante ambição dos elementos ligados
vista impossível. Mas não o será, desde que aos distritos mais prósperos em cada circuns-
utilizada uma feliz circunstância. A assistên- crição comuna!, por outro lado constituíram
cia educacional está intimamente ligada às também um recurso dos governos centrais,
outras duas modalidades referidas. A obra ora para premiar ou para punir atitudes e
de educação, hoje, tende cada vez mais a in- campanhas, ora ainda para acomodar dissí-
tegrar o ser humano sob todos os pontos de dios e lutas entre dois grupos do mesmo Mu-
vista, preparando-o para a vida com o con- nicípio quando ambos ligados à situacão es-
veniente desenvolvimento do espírito e do tadual. E êste movimento de cissip~ridade
sentimento, com a consolidação da saúde e contínua no quadro municipal, sem nenhuma
com o treinamento e enriquecimento de tô- dependência dos fatôres sociais e econômicos
das as suas aptidões realizadoras em função que deveriam ser os únicos a influir no des~
de seu meio e de seu destino social. Isto quer dobramento comuna!, criou e agrava dia a
dizer - uma obra educativa bem planejada, dia, como já vimos, essa situação de penú-
sem exorbitar da sua legítima finalidade, e ria, apagada e apática, da vida municipal.
talvez apenas restritamente enriquecida de E essa situação não a poderiam hoje modi-
certos elementos mais especializados, já exe- ficar os próprios Municípios entregues a si
cutará concomitantemente em larga escala o mesmos, pois que não teriam mais fôrca e
programa das duas outras modalidades de prestígio para isso. Tanto menos qu~nto
assistência. Por outro lado, quase todos os essa estreita vida local é, as mais das vêzes
serviços de fomento econômico e de assis- eriçada de rivalidades entre as circunscri~
tência médico-sanitária, nos seus desenvolvi- ções vizinhas, que assim não podem experi-
mentos primários em relação direta com as mentar, espontâneamente, sequer a fôrça das
massas populares, já têm, ou podem e de- coligações regionais. Nem tentariam modifi-
vem ter uma concomitante finalidade edu- ?á-la, tampouco, os governos estaduais, por
cativa, de forma que poderão no todo ou em Isso que nessa fragmentariedade, nessa fra-
parte ser custeados pelos recursos reservados queza e nessa falta de solidariedade encon-
pela Carta Política para a educação. E, as- tram o "optimum" de facilidades ao absoluto
sim, se um vasto plano coordenador - e domínio da organização municipal.
neste restrito sentido, unificador - das ati- E a conclusão de tais fatos é que o úni-
vidades do poder público que visarem à trí- co corretivo a tão grande defeito da nossa
plice assistência às populações, viesse a ser organização, que alheia da grande vida na-
estabelecido, tais atividades, além de conse- cional uma das fôrças a lhe deverem cons-
guirem um rendimento maior pela sua inter- tituir o ternário básico, só poderá provir de
penetracão e mútuo concurso, se barateariam dispositivos das novas Constituicões esta-
sensivelmente e poderiam ser custeadas glo- duais, que determinem a articulação, a soli-
balmente pelas contribuições já previstas darização de grupos de Municípios, tomando
para a educação, com um pequeno acréscimo por base suas afinidades geográficas e eco-
digamos de uma quota correspondente, para nômicas, - e segundo um critério geral de
cada ramo do govêrno, a 5°/o das respectivas área, que é fácil de fixar e garante a equiva-
rendas de imoostos. lência de possibilidades, - em superorga-
Assim v~rificadas as diretivas segundo nismos localistas, capazes de dar expressão
as quais se removeriam as dificuldades da ]Jolítica superior e eficaz à vida comuna! do
auarta grande falha essencial da atual orga- País.
nizacão municipal, cumpre-nos ver como tam- Finalmente, quanto à sétima das falhas
bém se poderia sanar a quinta. Esta é a da retro enumeradas, resultante do deficiente
impotência dos Municípios para exercer, co- contrôle e estímulo sob que funcionam os
mo lhes cumpre na ordem normal do regime, Órgãos federais e estaduais de ação executiva
DocuMENTos HisTómcos 97

nos Municípios, percebemos, fàcilmente, que ção propriamente municipal. E estabelecido


o remédio estará na regionalização ou sub- assim, no departamento, o círculo fundamen-
-regionalização sistemática da administração tal, equilibrado, estável e cheio de vitalidade,
federal e estadual, estabelecendo centros in- da autonomia localista, pouco importaria
termediários, de coordenação, contrôle e dis- que as unidades comunais se reduzissem em
tribuição, entre as repartições-chefes de cada extensão e em recursos pela divisão, pois que
serviço e os Órgãos locais afetos à sua exe- para lhes suprir a fraqueza teriam ao seu
cução. serviço a fôrça do consórcio departamental.
A soln~ão O que quer dizer que a tendência à frag-
Os resultados dessa análise e
do problema mentação, no quadro municipal, em vez ele
as conclusões a que temos ser um mal, a anulação do municipalismo, o
chegado não nos bastam ain-
apagamento da influência que ao espírito lo-
da. Percebemos já que o nosso problema
calista compete exercer na vida nacional,
tem solução e apreendemos com bastante ni-
passaria a ser um bem, por isso que contri-
tidez as realizações que carecemos de levar
buiria para difundir, para interiorizar, para
a efeito. Mas precisamos agora ir um pouco
ruralizar, cada vez mais penetrantemente,
além; articulando as soluções parciais obti-
as fôrças de civilização cujos impulsos, sem-
das, num esquema geral de medidas que
pre de alto potencial, partissem das sedes
consubstancie o plano fundamental da ação
renovadora que se impõe ao País para dina- departamentais, ou nelas se apoiassem, mul-
mizar e reerguer as populações rurais. Tanto tiplicando utilmente os centros de ação ad-
vale dizer para socializar integralmente a ministrativa direta e de formacão cívica da
comunidade, através da constituição e elo
comunidade nacional. Socialização que só se
funcionamento dos novos conselhos munici-
poderá realizar através de um municipalismo
pais.
saneado, condicionado aos seus fins e às exi-
gências da vida brasileira. II - Formar-se-iam nos departamentos,
Mas aquí uma grata surpresa se nos com elementos selecionados nos Municípios,
depara. Como tôdas as soluções racionais na escala de funções dos vários serviços ad-
evolutivas, com raízes na história e na ex- ministrativos e técnicos, os funcionários es-
periência, a que procuramos apresenta-se de pecializados que devessem servir à testa das
extrema simplicidade. Quando talvez vos administrações municipais.
preparáveis para examinar um plano con- III - O Govêrno departamental, como
substanciado em grande número de itens, eu principal expressão da autonomia municipal,
vos coloco sob os olhos simplesmente isto: e tanto no seu Órgão executivo, digamos o
a renovação de que o Brasil carece há de Prefeito Departamental, quanto no Órgão le-
conseguir-se essencialmente por duas únicas gislativo, o Conselho Departamental, teria
medidas: - o agrupamento das comunas origem no voto dos Conselhos Municipais,
para constituírem os departamentos, como cabendo ainda a estes, numa segunda mani-
entidades intermediárias entre a organização festacão de autonomia localista, fiscalizar as
estadual e a municipal, e o estabelecimento atividades dos Intendentes, ou administrado-
por meio de uma ou várias Convencões Inte- res municipais, delegados do Govêrno De-
radministrativas, entre a União, o; Estados partamental, aprovar a sua nomeação, pedir
e os Municípios, dos grandes sistemas nacio- a sua retirada, propor medidas ao Conselho
nais que, respeitado o princípio fundamental Departamental, fiscalizar, colaborando com
da recíproca autonomia, instituam, com base os órgãos de direção respectivos, os serviços
na colaboracão harmônica e contratualmente - mantidos coletivamente pela União, Es-
firmada, a ~ecessária unidade, virtualidade e tados e Departamentos - que nos Municí-
compreensividade dos serviços públicos de pios prestassem a tríplice assistência - edu-
assistência educativa, econômica e médico- cativa, econômica e médico-social - às res-
-social à comunhão pátria . pectivas populações .
Ides ver como neste binário se contém IV - Enfeixados na economia do Go-
tôda a solução do problema que nos propu- vêrno do Departamento recursos apreciáveis
semos. da economia das respectivas circunscricões
Pela criação dos departamentos, super- municipais, mas não retirados elas rendas des-
-organismos municipais, informados essen- tas e sim do atual campo tributário do Es-
cialmente pelo princípio do "self-govern- tado, o financiamento elas obras de vulto, a
ment", isto é, da autonomia localista, esta- serem distribuídas equitativamente pelos Mu-
riam conseguidos os seguintes fins: nicípios associados, ficaria tanto mais facili-
I - Os Municípios se solidarizariam tado quanto o crédito da nova entidade es-
numa espécie de associação, ou federação taria na razão das fôtças daquela economia
primária, a que transfeririam uma pequena e tenderia a crescer em função dêsses mes-
parcela da sua atual autonomia, e isto cons- mos melhoramentos, em virtude elo conse-
tituiria nada menos que uma manifestação qüente enriquecimento da coletividade de-·
dessa mesma autonomia, estabelecendo as- partamental.
sim um aparêlho governamental destinado V - A influência departamental, alicei·-
a centralizar, racionalizar, padronizar, inten- çada em sólidos fundamentos sociais, econô-
sificar e financiar os serviços estritamente micos e políticos, far-se-ia sentir sensivel-
municipais, ficando tudo que fôsse prepara- mente no meneio da vida nacional, cujo ter-
ção, direção superior, abastecimento de re- nário de fôrças promotivas ficaria assim in-
cursos, realizações novas, a cargo dos órgãos tegrado, na mais completa realização da for-
técnicos departamentais, e tudo que consis- ma federativo-republicana que o Brasil ado-
tisse em conservação, a cargo ela administra- tou para a sua organização política.

R.B.M - 7
98 REVISTA BRASILEIRA DOS MuNICÍPIOS

VI - A regionalização dos serviços es- programa, asseguraria ela os seguintes re-


taduais e federais já então fortemente suge- sultados.
rida e mesmo solicitada, pela divisão depar- Em primeiro lugar. Pela forma conven-
tamental, integraria e racionalizaria nas se- cional estabelecer-se-ia o único meio pelo
des departamentais as condições de vida qual, respeitadas as autonomias em presen-
capazes de transformá-las nos verdadeiros ça, e precisamente em decorrência delas, os
núcleos urbanísticos de que o Brasil precisa três planos governamentais se poderiam inte-
e sem cuja proximidade, ou melhor, sem gralmente solidarizar para uma obra comum,
cuja existência no seu interior, em rêde de em convergência orgânica e efetiva de dire-
malhas uniformes e apertadas, a vida rural trizes e de atividades executivas. De fato,
brasileira não se pode organizar e sanear por êste adequado regime, instituído por li-
convenientemente, articulando-se orgânica- vre vinculacão contratual, é que unicamente
mente às demais formas da vida coletiva da se poderia~ diferenciar racionalmente os
nacionalidade. campos de competência da União, Estados
VII - Melhorada e impulsionada, em e Municípios, segundo as "funções" mais
todos os sentidos, a vida dos Municípios in- próprias a cada qual, na economia do sistema
tegrados no sistema departamental, já agora instituendo, postas de lado as artificiais e
em contacto próximo com um centro de civi- inoperantes diferenciações que visam ao pa-
lização, mas não por êle explorada e dessan- ralelismo e à interindependência, seja em
grada, mas melhorada e amparada fortemen- têrmos das modalidades ou grau da assistên-
te, o êxodo rural se atenuaria logo, por isso cia, seja sob critérios territoriais. Vale isto
que o ambiente agrário começaria a oferecer dizer que à União se reservaria, quer a insti-
em escala crescente as mais brilhantes pos- tuição das condições nacionais mais propícias
sibilidades de êxito às inteligências e aos às atividades do sistema, quer a criação das
temperamentos capazes de uma atividade facilidades - e são inúmeras - ao seu al-
mais esclarecida, mais larga, mais audaciosa. cance, para a atuação dos diferentes Órgãos
VIII - Os adiantados centros culturais executivos; quer a criação e manutenção da-
e econômicos, em que ràpidamente se trans- queles grandes aparelhos, institutos ou servi-
formariam as sedes departamentais, teriam ços oficiais de grande custo exigidos pelo
meios de formar e reter, com brilhantes pers- plano a executar, e que devessem ser capazes
pectivas de êxito social e econômico, os va- de servir aos fins nacionais de tôda a obra
lores humanos capazes de criar a adiantada projetada; quer, ainda, a aquisição em larga
civilização interior de que tanto carecemos escala e a distribuição regional dos materiais
e sem a qual, ou o Brasil desaparecerá, ou padronizados de tôda espécie, que os ser-
vegetará sempre caudatário entre os povos viços reclamassem; quer, finalmente, o con-
guieiros da humanidade, êle, nação indubi- trôle superior, por adequada ordenação na-
tàvelmente predestinada para os mais desta- cional, do sistema pôsto a funcionar. Aos
cados postos de vanguarda . Estados, por sua vez, poderiam atribuir-se
IX - A existência dos ditos centros a administração dos subsistemas regionais
atrairia também a interiorizacão das unida- e a instituição, custeio e fiscalização admi-
des do Exército, provocando "com isso uma nistrativa das agências e Órgãos executivos
distribuição mais equitativa da vultosa cir- sistemàticamente distribuídos por todos os
culação de riqueza que elas provocam e pos- Municípios, e em medida e condições ca-
sibilitando ao próprio Exército o desempe- pazes de satisfazer integralmente às necessi-
nho da sua missão educativa, quiçá em co- dades dos respectivos corpos sociais. E, aos
laboração íntima com os sistemas gerais que Municípios, por fim, ficaria, pelos órgãos da
concomitantemente se instituíssem para o sua autonomia, além da criação das vanta-
ataque frontal aos três grandes males da or- gens e do concurso ao alcance da sua órbita
ganização brasileira: a incultura, o rudimen- governamental, o contrôle social das ativida-
tarismo da economia rural e a doença. des do sistema, fazendo-lhe ressaltar as fa-
X - O escoamento das rendas locais lhas, deficiências e irregularidades quaisquer,
para fins eleitorais teria um freio poderoso, em representação aos competentes centros
primeiro na separação entre a política e a de direção. De maneira que, sob as vistas e
administracão na vida municipal e, depois, as exigências dos agentes mais diretos da
no mútuo ~ontrôle que Municípios e depar- própria vontade e sentimento popular, as
tamentos exerceriam, já não falando da in- atividades do sistema estariam permanen-
fluência da opinião pública que se iria or- temente ajustadas aos seus fins, ou seja, às
ganizando rápidamente nas sedes departa- necessidades de tôda a comunhão social. Mas
mentais. Ao que se pode juntar a elevação além dessa organicidade do sistema assisten-
da mentalidade das populações pelo intenso cial a instituir, ocorreria ainda a possibili-
trabalho das fôrcas de civilizacão que sôbre dade, que de nenhuma outra forma se con-
elas, convergent; e simultânea~ente, viriam seguiria, de dar à obra a realizar alcance
exercer-se, em grau ainda nunca atingido verdadeiramente nacional. Não somente pela
mesmo nos pontos mais adiantados do País. unidade a informar a sua complexidade e di-
Isto quanto à organização departamental ferenciação inevitáveis, mas ainda e, sobre-
Pelo que toca à solidarização convencio- tudo, pelo fato de instituir a comunhão dos
nal das três esferas governamentais para o recursos financeiros e permitir a sua distri-
fim da assistência social de que as popula- buição equitativa, em função das reais ne-
ções brasileiras têm estado até agora quase cessidades dó corpo social considerado como
totalmente privadas, vemos que, completan- um grande todo. O que quer dizer, não mais
do harmônicamente os objetivos a alcançar em condições de manter e agravar os desni-
pelo primeiro têrmo do binário do nosso velamentos e as desigualdades entre regiões
DocuMENTOS HisTÓRicos 99

ou classes, mas de contrabater e corngtr rà- e, portanto, o recurso urgentíssimo, para exe-
pidamente todos êsses fatôres de deforma- cutar-se a verdadeira estruturação da nacio-
cão da nacionalidade nalidade. Porque, social e politicamente, é
" Em segundo lugar. Se já ficou eviden- êsse, ainda, o recurso salvador. Tão defeituo-
ciado que os consórcios convencionais são o samente diferenciada está a massa demográ-
único meio para se conseguir a solução dese- fica brasileira, que ela não tem nem pode ter
jada, tanto sob o ponto de vista jurídico a consciência da sua unidade social e po-
como sob o ponto de vista técnico, para in- lítica. Socialmente, predominam o espírito
tegrar-se a vida nacional pela interiori- e sentimento de classe, quando não o de
zação, pela municipalização, pela ruralização grupo, o de clientela ou mesmo apenas o de
dos serviços de assistência educativa, econô- família. E politicamente, prevalecem os
mica e sanitária, fôrça 'é concluir também particularismos regionalistas ou localistas .
que somente segundo tal diretiva se poderá Num e noutro caso, uma dissociação profun-
conseguir o financiamento da obra formidá- da, antagonismos radicais, impercepção das
vel a executar. Esta não requer somente, possibilidades excelsas, e mesmo premente
para atingir o potencial de eficiência que se necessidade, da gravitação harmoniosa de
faz mister, a multiplicação das atuais agên- todos os agrupamentos sociais e políticos em
cias daquelas modalidades de assistência. círculos concêntricos, tendente à formação das
Preciso é também que tais agências sejam grandes pátrias conscientes dos seus destinos
remodeladas, vitalizadas, equipadas, para que~ nacionais e humanos. Conjugados, no en-
se corrijam suas extensas e profundas defi- tanto, por um adequado sistema de víncu-
ciências atuais. Preciso é ainda que a sua los contratuais, os três grandes aparelhos
ação seja suplementada por inúmeras formas governamentais, para realizar, sob a inspi-
de atuação assistencial, exigindo centros e ração dos mais altos e generosos ideais de
meios de ação de novos tipos. Ê preciso solidariedade humana, a grande obra de res-
ainda que se organizem grandes institutos gate dos velhos erros que infelicitam e a-
que observem, investiguem e elaborem os mesquinham a nossa gente, ter-se-ia então
métodos e a técnica, e padronizem, adquiram êste maravilhoso resultado - a comunhão
ou preparem e distribuam os materiais que nacional integrada na plenitude da sua cons-
melhor convenha ao Brasil aplicar na obra ciência cívica. Primeiro, pela rápida ascen-
de valorização social que deve empreender, são dos seus valores, mentais e morais; se-
tendo em vista a racionalizacão e a eficiên- gundo, pela percepção das possibilidades e
cia dos esforcas a empregar- e as condicio- belezas da solidariedade social; e terceiro,
nantes inelutáveis do meio telúrico e huma- pela compreensão da interdependência e da
no. Ora, isso nunca poderiam fazer isolad<:l- cooperação efetiva das três ordens governa-
mente as anêmicas financas das nossas três tivas, que deixariam de constituir, como até
ordens governamentais. Mas a cooperação, agora, uma humilhante escala de subordina-
a solidariedade, a união, enfim, faz das três ção, compressão e espoliação, para aparece-
fraquezas uma grande fôrça . As quotas de rem na plenitude dos seus destinos políti-
que a Federação, os Estados e os Municípios cos, como as fôrcas necessárias, eficazes, har-
poderiam dispor para a obra social que te- mônicamente colaboradoras e conjuntamen-
mos em vista, digamos, em relacão às suas te promotoras do bem público. E se atra-
"rendas de impostoR". 15% para a União vés dêsse: objetivo panorama da unidade
e os Municípios e 25% para os Estados, ou nacional o povo chegaria ràpidamente, por
seia, aproximadamente. cousa de uns 500 sem dúvida, à consciência dos seus destinos
mil contos, já permitiriam que se lanrasse sociais e políticos, por outro lado, a prática
a fundo. em direcão a todos os seus obieti- da cooperação e a aproximacão, nos supre-
vos essenciais e com a característica de ge- mos concílios da nacionalidade, das três or-
neralidade aue a iustica soei"!! exige. a trí- dens de govêrno, dariam a estas o senti-
nlice assistência às pooulR('Ões bt"P~llAira~ mento mais vivo dos seus deveres, a cons-
Tanto mais quanto o concurso da iniciati- ctencia da sua mútua mas harmônica auto-
va particular e da filantronia, mercê de nomia, da sua igual dignidade, ao mesmo
Deus, não no-Jo faltaria. E tanto mais tempo que a mais exata e mais perfeita
quanto, ainda, a unidade de plano - de apreensão das necessidades do corpo social,
plano, que não de atuacão - acrescida à das suas aspirações e dos imperativos dos des-
padronizacão, deve acarr~tar um custo sensi- tinos nacionais
velmente baixo. Ocorrendo, mais, a melhoria Conclusão Senhores, vamos concluir. O
de rendimentos e, por conseguinte, novo ba- quadro da realidade brasilei-
rateamento daquelas atividades inteligente- ra, que procuramos fixar, é sem dúvida som-
mente orientadas para múltiplo efeito, gra- brio. O panorama que contemplamos do
ças à convergência e à solidariedade das três ponto de observação a que subimos, nos ofe-
fundamentais modalidades que as devem rece perspectivas penosas. Nêle podem vis-
constituir. E mercê, ainda, do concurso de lumbrar-se, é verdade, clareiras inundadas
outras fôrças sociais, como, por exemplo, o de luz, oasis fecundos, alguns vales risonhos.
das classes armadas, que pode chegar a ter, Mas como tivemos o intuito apenas de acen-
se esclarecida e patrioticamente estabelecido, tuar as linhas gerais, não era nossa preocu-
um alcance deveras inestimável. pação deter o olhar sôbre êsses sítios de
Em terceiro lugar, finalmente. Não é exceção. Bem sabemos o que a civilização
só jurídica e tecnicamente, não é só finan- brasileira tem conquistado. Aqui e ali, rea-
ceiramente, que a solidarização convencional lizações admiráveis, na esfera federal, no
das três ordens governamentais constitui u plano estadual, no círculo municipal. Os as-
recurso necessário, o único recurso possível, pectos sombrios oferecem, mercê de Deus,
100 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS
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algumas soluções de continuidade. Mas to- obstante qualquer êrro parcial de visão,
mado o Brasil em seu conjunto, o quadro que nossas conclusões estarão essencialmente
procuramos ver sem vidros de aumento não exatas.
inspira otimismo. E, se não justifica desânimo, E se assim é, valha-me esta oportuni-
sacode o nosso patriotismo. dade única na minha vida, em que me sinto
Sentimos bem que o Brasil é de fato no mais íntimo contacto com as fôrcas de
o "país a organizar" de que nos falou FIDÉLIS reconstrução do Brasil, com a sua r~nova­
REIS, sob inspiração evidente de ALBERTO dora mentalidade ruralista, com a sua vida
TÔRRES. E organizar o Brasil é a tarefa ur- comuna!, para dirigir, a vós, que me dais a
gente, áspera, difícil, a que intimoratamente, honra de ouvir, e a todos os brasileiros a
resolutamente, d!:modadamente, com tôdas as que possa chegar a minha voz, graças à res-
energias da inteligência e do coração, todos sonância maravilhosa dêste ambiente, um
os brasileiros nos devemos dedicar. Eis vibrante, veemente e desesperado apêlo.
porque, ao grande esfôrço nesse sentido, que Concidadãos! Façamos o Brasil de ~ma­
são as patrióticas jornadas ruralistas da So- nhã, o Brasil feliz de todos os brasileiros,
ciedade dos Amigos de Alberto Tôrres, jul- um Brasil orgulho da América, diadema da
guei que se poderia juntar a mais modesta humanidade. Não nos falta a matéria prima
das contribuições - êste mal ataviado es- -- riquezas naturais e riquezas humanas. O
tudo. A minha fraca visada, por me faltar que nos falta apenas é "organização". Orga-
a envergadura de sociólogo, jurista e esta- nização social, organização econômica, orga··
dista, que o tema assoberbante exigia, não nização política. Mas sobretudo organização
lhe pôde assinalar seguramente tôdas as do Brasil-Município, do Brasil-rural.
características. É possível mesmo que me Trabalhemos sem desfalecimentos, lute-
tenha eu equivocado em mais de um ponto mos sem tréguas para conquistar essa orga-
Mas, por seguro, não estarão essencialmente nização. Façamos, Brasileiros,· façamos o
erradas as conclusões a que chegamos. O nosso Brasil, antes que seja tarde. . . antes
quadro é tão objetivo, tão nítido que, não que o Brasil se desfaça
EST'ADO DE ALAGOAS
DIVISÃO administrativa atual dos Es- O Estado de Alagoas teve três pontos

A tados do Brasil resulta da fragmenta-


ção, ou do desmembramento a que, no
decurso dos séculos, ou mesmo dos anos,
iniciais, todos de 1636: Marechal Deodoro
(Ex-Alagoas), Pôrto Calvo e Penedo, que se
mantiveram territorialmente Íntegros duran-
foram submetidas as unidades municipais ori- te 128 anos. Somente em 1764 se verificaria
ginárias. o primeiro parcelamento, com a criação do
Município de Atalaia, saído, por cissipari-
Os focos tmctats de povoamento, ou de
dade, do de Alagoas. Entre 1801 e 1850,
colonização, em grande maioria situados na criaram-se 10 Municípios; de 1851 a 1900,
faixa atlântica, deram margem, em virtude outros 17; de 1901 a 1947, os cinco restantes.
do seu adensamento demográfico, à criação Do Município de Marechal Deodoro,
e desenvolvimento de povoações satélites, sairiam 17; do de Pôrto Calvo, 5; do do
que, por sua vez, e pela mesma razão, ad~ Penedo, 11.
quiriram autonomia e se tornaram centro on O esquema seguinte evidencia a evolu-
sol de localidades perifét icas. ção municipal do Estado.

EVOLUç,\o ~JUNJr!PAL DE ALAGOAS


( ~luriei (I H/2
União dos Palmares (1831) l
(Ex-União) \ São José da Lago (1876)

Assembléia (!S:ll) QueLrangulo (1872)


Atalaia (1764) (Ex-Viçosa)

Palmeira dos Índios ( 1835 l

Conceição do Paraíba (1882)


(Ex-Capela)

Marechal Deodoro (1G3G) Anadia (1801) Limoeiro de Anadia (1882)


f A1a1liraca (192ül

(Ex-Alagoas) (Ex-Linwei1o)
;vraeeió (1815)
l Junqu('iln (1047)*
Hio Largo (18301
São l\ligucl dos CanJpos
(1832)
~faugualm (1857)
(IGx-Pihnl
('oruripc nsnn)
Pôrto uas Pedras (1815) Passo de Camarag;ibc (l.S5;2J S<lo Luís do QuiLundc
1la~agogi (1875)
P&rto Calvo (1G3G)
Colônia-I~eopold.ina
(1001) (l';x-Leo]>Oldiua)
J l'ão de Açúcar (1854) 1Imcchal F'lmiano
7\lata Graudc (1Kl7) (1887) (Bx-PiranhaN)
l Água Btauca
I
(11175)
Traipu (18351 Santana do Jpanema (1875)
Belo illonte (1047)"
Penedo (lü30) J São B~az (1D47)'"
Pôrto llcal do Colégio

l (1876)
l'iassalmssu (1882)
Igreja Nova (1800)

* Ctiado :Mtmicívio em Hl03, foi sucessivalllcnk suprimido em lfl32, restaurado em 1\135. supriruido em 1038 c rc'::ltaurado pela
Constituição Estadual ele 1U47.

**Criado Município em 1886, foi succssivamcuto suprimido em 18\13, 1cstaurado em 1895, Sllllfilllido P!H J\J32, scmlo o Iespcelivo
território anexado ao Município de Püo de Açúcar; restaurado em 1935, SUinimido e111 1038. mJcxando-.:w-lhc o território a TraiDII, e
restaurado pcl.a Constituição Estadual de 194.7

*** Ctiado :Município em 1889, com território desmembrado do de Pôrto Real do Colégio, foi sucessivamente suprintido em
1932, restaurado em 1935 o suprimido em l 038, sendo o território anexado ao :Município de Arapiraca c depois ao de Trai pu, do flUal
foi desmembrado, como idunieípio, Jlela Coustituição Estadual de 1947
-
~
A CONSTITUIÇAO FEDERAL E O :t\1UNICIPIO
ção de tais impostos e, à medida que ela se efe~

T ÉCNICOS e políticos patrícios vêm-se,


de há muito, empenhando no sentido
de imprimir novas e seguras diretrizes
à política municipalista brasileira, de maneira
tuar, entregarãv vinte por cento aos Municípios
onde se tiver realizado a cobrança."
De referência, ainda, à cobrança de im-
a possibilitar o revigoramento dos organismos postos, estabelece a Constituição, em seu
comunais e propulsionar o seu desenvolvi- Artigo 29:
mento Graças a êsses esforços, as providên-
o
"Além da renda que lhes é atribuída por
fôrça dos parágrafos 2. 0 e 4. 0 do art. 15, e dos 1.mw
cias tendentes a promover e estimular a postos que, no todo ou em parte, lhes forem trans-
recuperação das células municipais brasilei- feridos pelo Estado, pertencem aos Municípios os
ras, enfraquecidas pela política de exauri- impostos:
mento, longamente praticada pela União e - predial e territorial urbano;
pelos Estados, da maior parte dos recursos II - de licença;
III - de indústria e profissões;
que àquelas deviam pertencer, vão-se suce- IV - sôbre diversões públicas;
dendo aos poucos, à medida que mais com- V - sôbre atos de sua economia -ou assuntos
preendidos se tornam os objetivos, do mais de sua competência."
alto interêsse nacional, do programa de pro- A Constituicão Federal dispõe, também,
teção ao Município o em seu Artigo 3o, sôbre a competência do
A Constituição Federal, promulgada a Município para cobrar:
18 de setembro de 1946, já atribui maiores "I - contribuição de melhoria, quande se
recursos aos Municípios Conforme estabe-
o
verificar valorização do hnóvel, em conseqüência
de obras públicas;
lece em seu Artigo 15, item III, compete à II - taxas;
União decretar impostos sôbre "produção, III - quaisquer outras rendas que possam
comércio, distribuição e consumo, e bem as- provir do exercício de suas atribuições e da utiliza-
sim importação e exportação de lubrifican- ção de seus bens e serviços.
tes e de combustíveis líquidos ou gasosos de "Parágrafo único - A contribuição de melho-
ria não poderá ser exigida em limites superiores
qualquer origem ou natureza, estendendo-se à despesa realizada, nem ao acréscimo de valor
êsse regime, no que fôr aplicável, aos mi- que da obra decorrer para o imóvel beneficiado "
nerais do País e à energia elétrica" Entre-
o
Visando ainda à proteção aos Municí-
tanto, da renda resultante dessa tributação, pios, a Carta brasileira estabelece, em seu
que terá a forma de impôsto único, a incidir Artigo 23, o seguinte:
sôbre cada espécie de produto, "sessenta por
"Os Estados não intervirão nos Municípios se-
cento no mínimo serão entregues aos Esta- não para lhes regularizar as finanças, quando:
dos, ao Distrito Federal e aos JIA:unicípios, I - se verificar impontualidade no serviço de
proporcionalmente à sua superfície, popula- empréstimo garantido pelo Estado;
ção, consumo e produção, nos têrmos e para II - deixarem de pagar, por dois anos conse-
cutivos, a sua dívida fundadan.
os fins estabelecidos em lei federal" (Ar-
tigo 15, parágrafo 2o0 ) o O Artigo 24 da Constituição Brasileira
diz:
No mesmo Artigo, parágrafo 4o 0 , dispõe
"É permitido ao Estado a criação do órgão de
a Constituição: assistência técnica aos Municpios. "
"A União entregará aos Municípios, excluídos
os das capitais, dez por cento do total que arre- Dispondo sôbre a autonomia dos Muni-
cadar do impôsto de que trata o n ° IV, feita a
distribuição em partes iguais e aplicando-se. pelo cípios, estabelece, em seu Artigo 28:
menos, metade da in1portância en1 benefício de "A autonomia dos Municípios será assegurada:
ordem rural " I - pela eleição do prefeito e dos vereadores;
II - pela administração própria, no que con~
Deve-se esclarecer que o impôsto de que cerne ao seu peculiar interêsse e, especialmente,
trata o item IV do artigo referido é o de a) - à decretação e arrecadação dos tribu-
renda e proventos de qualquer natureza o tos de sua competência e à aplicação das suas ren-
das;
O Artigo 20 determina: b) - à organização dos serviços públicos lo-
"Quando a arrecadação estadual de in1postos, cais
salvo a do impôsto de exportação, exceder, em § 1. -
0 Poderão se e nomeados pelos gover-
Município que não seja o da capita1, o total das nadores dos Estados ou dos Territórios os pre-
rendas locais de qualquer natureza, o Estado dar- feitos das capitais, bem como os dos Municípios
lhe-á anualmente trinta por cento do excesso arre- onde houver estâncias hidt ominerais naturais, quan-
cadado" do beneficiadas pelo Estado ou pela União
§ 2. 0 - Serão nomeados pelos governadores
O Artigo 21 dispõe: dos Estados ou dos Territórios os prefeitos dos
"A União e os Estados poderão decretar ou~ Municípios que a lei federal, mediante parecer do
tros tributos além dos que lhes são atribuídos por Conselho de Segurança Nacional, declarar bases
esta Constituição, mas o impôsto federal excluirá ou portos militares de excepcional importância para
o estadual idêntico. Os Estados farão a arrecada- a defesa externa do País "

O INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA
E ESTATÍS1~ICA E O MUNICÍPIO
acompanhem acidentes geográficos fàcilmente iden-

E M face da sua estruturação orgânica que


resulta da cooperação harmoniosa das
três órbitas políticas da Federação, si-
tuadas em condições de paridade, incumbiria
tificáveis e fiquem também evitadas as linhas até
agora usadas segundo variáveis divisas de terras
de determinados proprietários;
c) sistematização da nomenclatura de ma-
ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatís- neira a ficarem definitivamente suprimidas tanto a
identidade de designação entre circunscrições da
tica promover, de maneira intensiva e efe- mesma categoria, quanto a diversidade de toponi-
tiva, a reabilitação e a valorização do mu- mia entre as circunscrições administrativas e judi-
nicipalismo construtivo e consciente, sôbre o ciárias e as respectivas sedes;
qual se há de consolidar, e expandir, com d) superposição sistemática da divisão judi-
sentido perfeitamente definido, o nosso or- ciária à divisão administrativa, de forma que, por
um lado, haja u1na só divisão distrital para fins
ganismo social. tanto administrativos como judiciários e, por outro
Predeterminado, assim, o objetivo ib- lado, os têrmos e comarcas tenham sempre por se-
de a sede municipal que lhes der o nome, e com-
geano, seria mister investigar a realidade preendam integralmente, respeitados os respectivos
municipal, não só em relacão à sua fisiono- lhnites, um ou mais Municípios;
mia geográfica, como no ;oncernente à sua e) atribuição da categoria e foros de cidade
dinâmica, com a mensuração das fôrças de- e vila segundo critérios especificas claramente fixa-
mográficas, sociais, econômicas, culturais, ad- dos em lei;
ministrativas e políticas que atuam na área f) unificação dos âmbitos territoriais das uni-
comuna!. dades administrativas e judiciárias, de modo que a
área de cada uma delas seja um todo, ficando as-
Pôsto seja bastante vulgarizado e sobre- sim suprimidos os casos de extraterritorialidade de-
maneira fértil o documentário nacional espe- correntes das chamadas Hfazendas encravadas" e
os casos anômalos de circunscrições formadas de
cífico, vale registrar, ainda aqui, a existên- duas inferiores não contíguas;
cia das exdruxulidades da divisão territo- g) definição exata da constituição territorial
rial brasileira, anteriormente à atividade de das novas entidades administrativas criadas ( dis-
sistematização, de racionalidade, exercida pe- tritos e Municípios), indicando-se sempre as cir-
cunscrições distritais preexistentes que lhes houve~
lo Instituto, graças à qual "desapareceram rem cedido território, e descrevendo-se os respecti-
as anomalias, as incoerências, as aberrações, vos limites de forma a ficarem nitidamente desta-
os casos teratológicos do parcelamento terri- cados os trechos correspondentes a cada um dos
torial da República, no que interessa à di- distritos confrontantes
visão judiciária e administrativa. Não mais
limites imprecisos ou indefinidos, conforma- Fixadas, dessarte, as bases de sistema-
ções absurdas, toponímias confusas, catego- tização e de racionalidade dos quadros ter-
rias sem expressão ou de significação va- titoriais do País, trataram os Órgãos delibe-
riável, nem circunscricões acéfalas ou sedes rativos do Instituto, em oportunidades múl-
fora de suas circun;crições. Acabaram-se, tiplas, e com evidente persistência, da prá-
também, os casos de Município envolvido tica daqueles princípios informadores da
por outro, bem assim, de modo geral, as política de divisão territorial.
ocorrências de unidades formadas por dois O Decreto-lei n. 0 311, de 2 de marco de
ou mais trechos de território não contí- 1938, conseqüente à sugestão da Resolução
guo" n. 0 26, de 15 de dezembro de 1937, da
A Convenção Nacional de Estatística, Junta Executiva Central do Conselho Na-
em 1936, inscreveu o compromisso dos Go- cional de Estatística, e consubstanciando dis-
vernos Federados, de encaminharem, com a posições orgânicas da mais profunda signi-
assistência do Instituto, as providências le- ficação, assinalou "a discriminação racional
gislativas, ou administrativas, que tivessem do território; limites verificáveis e verifica-
por fim racionalizar a divisão dos respectivos dos; categorias definidas e hierárquicas;
territórios, tendendo a conseguir, além de identidade de nomes entre as circunscricões
outros objetivos, que os entendimentos a e suas sedes; delimitação expressa e, segun-
êsse respeito estabelecessem como necessá- do critério uniforme, das áreas urbanas e
rios ou vantajosos, os seguintes, considerados suburbanas das cidades e vilas; correspon-
essenciais: dência e articulação entre os quadros admi-
a) uniformidade de data para a revisão do nistrativos e judiciários; univocidade de no-
quadro territorial, em todo o País, de modo que menclatura entre as várias icategorias de
tenha ela lugar, para fins da sua boa fundamenta~ circunscrições territoriais; e simplificação e
ção e regular periodicidade, logo após a divulga- espírito de sistema nas designações toponí.
ção dos resultados dos recenseamentos gerais ou
regionais, ou seja nos anos de milésimo dois e sete; micas": eis as principais realidades alcan-
b) precisão e racionalidade dos limites cir- çadas, segundo as palavras do Embaixador
cunscricionais a estabelecer, de 1nodo que êstes JOSÉ CARLOS DE MACEDO SOARES, Presidente
104 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS
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do Instituto Brasileiro de Geografia e Esta- colmeias produtivas, no seio da federação


tística. ibgeana, mas, essencialmente, órgãos respon-
Determinada a inalterabilidade da divi- sáveis, em grande parte, pelo desenvolvimen-
são territorial do País, no qüinqüênio 1939/ to cultural dos Municípios.
/1943, permitiu êsse período se estabeleces- Os Convênios Nacionais de Estatística
sem necessários ajustamentos, bem assim se Municipal permitem ao Instituto intensifi-
estudassem interpretações e se apurassem car o seu programa de assistência direta e
elementos capazes de imprimir sistemática constante às Agências Municipais, que serão
melhor e racionalidade maior ao quadro ter- condignamente instaladas e conduzidas por
ritorial que haveria de vigorar no qüinqüênio funcionários selecionados, bem remunerados,
1944/1948, tratado já, com cuidados espe- e com encargos, paralelamente aos requeri-
ciais, o aspecto toponímico, observada a dos pelas campanhas estatísticas, que nem
eliminação das duplicatas de nomes, a re- sempre poderiam ser levados avante somen-
dução de nomes extensos, a eliminação (sem- te com recursos municipais, como, por exem-
pre que possível, mas resguardados impe- plo, a instalação de bibliotecas públicas, de
rativos de tradição e da vontade popular, arquivos, de museus, de exposições de pro-
assim como homenagens legítimas) de no- dutos locais, além da publicidade pertinente
mes estrangeiros e de pessoas vivas, e a às possibilidades e às realidades do Muni-
preferência a nomes indígenas, na substitui- cípio.
ção dos preexistentes necessàriamente mo- É de mister medir bem o alcance dessa
dificáveis. empreitada, com o sentir a existência, em
Graças, dessarte, aos esforços do Insti- cada Município brasileiro, de Agências as-
tuto Brasileiro de Geografia e Estatística, sim dotadas materialmente e com os obje-
isto é, do Conselho Nacional de Geografia tivos expostos! Em Municípios, e muitos.
e do Conselho Nacional de Estatística, o em que êntram, pela primeira vez, a máqui-
Brasil, pela primeira vez em sua história, e na de escrever ou de somar, o mimeógrafo,
após a experiência do qüinqüênio 1939/1943, os arquivos de aço, etc.!
poderia exibir, no período seguinte, um qua- A vida municipal, nos seus aspectos
dro territorial bem delimitado, se não tecni- físicos, demográficos, econômicos, soctats,
camente perfeito, pelo menos nitidamente culturais, administrativos e políticos, consti-
verificado e verificável, com os seus 1 669 tui, desde a fundação do Instituto, objeto de
mapas mumctpais elaborados conforme a centenas de renovadas pesquisas, ora agru-
diretivas prudentes de padronização . padas nos cadernos A, B, C e D, ora atra-
Já então se solenizava, por proposta do vés de inquéritos especiais. Mercê dos re-
Instituto, em meio a expressivo ritual, o sultados dessas investigações, tem sido pos-
"Dia do Município" (instituído pelo De- sível ao Instituto exercer ampliada publici-
creto-lei n. 0 846, de 9 de novembro de dade em tôrno de aspectos dos Municípios
1938), a 1. 0 de janeiro do ano em que se brasileiros, bem assim formular ponde-
inicia a vigência do novo quadro territo- rações, ou sugestões, ou indicações, a res-
rial (anos de milésimo 4 e 9) . peito de problemas básicos da nacionalidade.
Como complemento a essas investiga-
ções, cuja periodicidade varia do mês ao
ano, o Instituto prescreveu a elaboração de
Não se circunscreveu, entretanto, ao monografias estatístico-descritivas de cada
estudo e à fixação dos quadros territoriais, Município, muitas das quais, já impressas e
muito embora o vulto dessa obra, a contri- fartamente divulgadas no País e no estran-
buição do Instituto à reabilitação, ao revi- geiro, põem de manifesto a evolução muni-
goramento, à expansão do movimento mu- cipal, fazendo-o com riqueza de documen-
nicipalista. Sua atividade, noutros setores, tação e de pormenorização .
vem sendo, também, expressiva. Bem se
Ainda sob êsse aspecto, vem sendo inin-
poderá afirmar que o Instituto marcha com
terrupta e desvelada a atenção do Instituto
o pensamento voltado para a grandeza do
referentemente ao movimento municipalista.
Município, que é, aliás, considerado uni-
dade, ou base, nas investigações estatísticas.
Preocupado, largo tempo, com os ser-
viços municipais de Estatística, cuja eficiên-
cia se impõe, como fundamento mesmo de Vale assinalar, ao menos com intenção
tôda a Estatística Nacional, coube ao Ins- simplesmente informativa, as principais Re-
tituto, em amiudadas emergências, a promo- soluções aprovadas pelo Instituto, através
ção ou execução de medidas referentes à de seus Órgãos deliberativos, e referentes ao
melhoria das condições de trabalho dessas Município, excluídas naturalmente as de
repartições, de sorte a torná-las não apenas cunho estrito de levantamentos estatísticos:
INQUÉRITOS E REPORTAGENS 10.5

1 - DO CONSELHO NACIONAL DE ESTATÍSTICA


a) Assembléia-Geral

RESOLUÇÃO
EMENTA
No I Data

1- 29-XJH31l Estabelece o plano do registro regular da divisão territorial e o da orgauização do Atlas Uorográfieo Muni(:ipal
do Brasil

13 30-XIH3G Regula a atuaçito do Instituto, no sentido do obter a llllhlicação regular, pelos Esbdo.s c Território tio Acre,
do" Anuário Municipal de Legislação e Administração"

19 30-XII-936 Regula a filiação, ao Instituto, dos serviços de instituições priva<las c dos mantidos pelos Goveruos Municipais.

22 30-XIH31l Prescrevo aos Órgãos do Instituto esforços 1lc propaganda em vrol da criação, em cada Município, da biblio-
teca, museu e arquivo municipais
43 14-VII-937 Aprova urn padrão para as leis de úriação das Agências 1vfunicipais de Estatística
57 17-VII-937 Provê à imediata elaboração, segundo o plano que estabelece, de monografias est<ttístico-descritivas mmlicipais
59 17-VIH:l7 Sugere aos Governos Regionais a conveniência do cumprimento imediato das Cláusulas XIV e XV da Con-
venção Nacional de Estatística, com a uniformização, desde logo, do critério para a concessão dos foros de
"cidade" o "vila" aos aglomerados urbanos dos respectivos territórios
98 10-VII-938 Provê à orgauiímção técnica das Agências Municipais de Estatística
108 19-VII-938 Sugêrc um padrão para os Decretos-leis regionais, assentando normas preliminares à nova divisão territorial
llO 19-VII-938 Consigna pronunciamentos diversos, fazendo ponderações c sugestões aos Governos 1-funicipais.
144 22-VII-939 Sugere aos Governos Federados a expedição de Decreto-lei que regule a criação das Agências Municipais de
Estatística, por parte das Prefeituras que ainda o não fizeram
149 22-VIl-939 Estabelece novas disposições sôbre a atuação do Instituto, no sentido àc obter-se a publicação do'' Anuário 11 u-
nicipal de Legislação e Administração".
155 22-VII-939 .Manifesta o intcrêsse do Instituto pelo projeto relativo ao cadastro dos bens patrimoniais da União, dos Estados
e dos ~vluuicípios '-
163 5 -VII-941 Louva as campanhas empreendidas pelo Conselho Nacional de Geografia c põe em rclêvo sua significação, evi-
dcnciamlo particularidades municipais.
185 19-VII-941 Aplaude a convocação das Conferências Nacionais de EJucação e Haúdc, formub um voto sôbre o regime de
cooperação intcradministrativa, e faz ponderações c sugestões quanto à assistência educacional e l!Uanto ú
atlsistência médico-social nos Municípios
1U5 1
22-Vll-941 Apresenta congratulações ao Instituto Nacional do Livro, })('la Campanha das Bibliotecas 1\funicitJ<Üs, c asse~
gura-lhe a solidariedade do Conselho Nacional de Estatística
197 23-VII-941 Enrarece a atcnçãu dos Agentes Municipais de Estatística para certos aspectos da situação de suas tegiões, IP-
eomcndando-lhrs a elaboração de resenhas informativas nwnsais
207 24-\'II-941 .Manif('sta o aphuso do Conselho às sugestões formuladas pela reuni<to rlos P1efcitus 11unieipais do Eshulo do
Espírito Santo
217 24-Vll 941 Recmuenlla aos órg<los filiados ao Instituto a mais ampla colaboração rom as administrações muJJÍcipais
238 4-Vfl-942 Exprime os agradecimentos do Cousrlho ao II Congresso Intcramcri<:ano de Municípios
2·10 4-Vll--942 Exprime o louvor da Assembléia-Geral ao Conselho Nacional ele Geografia, rcs~alta a illlJ)OrUlucia de algumaf;
de suas atividades e formula sugestões sôbrc a revisão do quadro territorial da Hepública
257 8-\'ll -0•12 Consigna UJH Jlronuneiamcuto sôbre as Secvõcs rle Estatíslil·a 11ilitar c os C:ouvênios ~acionais d11 Estatística
Municipal
2G4 9-Vll-942 Her:omcnda o forneeimeuto, aos Ptdcitos Municipais, de inforrua~:õcs estatísticas para os seus relatótios

280 19-VIl-045 Consigna o apoio do Instituto a mcUirlas em prol d:t cdmuçJ:o uacional, c d[t outr,ls pnwirlêmia':l
283 23 -VII- 045 Expressa os agradecimentos do Conselho aos servidores Hlllllicipais de F.statístiea
2\J'i' 23-VII-945 Adota. a divisão regional do Brasil, estabelecida IdO Conselho Nacional llC ncografia, c tlá outras providôucias.
314 17-Vll-946 Recomenda providêtwias para a elahoraçfio das mouog::afias estatístico-desr:ritivas previstas ua Resolução 11 ° 57.
3Hl 18-Vll-941l Sugere a elaboração, pelos órglíos regionais, do ementário de legisb.yüo acêtca da vida judiciária, administra-
tiva. c ccle~üástica de cada 1\.funicípin brasileiro
324 20-VII-9·16 Dispõe sôbrc u apoio do Conselho ao movimento lllUHicipJ.list1, c <lú. outras providêndas
334 25-VJH41l PrPst.a homenagem à Assembléia Nacional Constituinte, e formula votos c ponderações
338 25-Vll-04G Hccomenda sejam lançadas as "Sinopses Municipais", e autoriza a publicação da ~'Revisb B1asileira do-; ~fu-
llicípios''
339 25-VII-946 Recomenda a orgauizaçüo imediata do "Anu{uio Municipal de Legislaç:w c Adwinistração"
343 21l-VIH46 Resume as sugestões da observação estatística sôbrc a multiplicação e interiorização dos centros metropolitanos
348 26-VII-94() Formula sugestões acêrca das atividades das Associações Rurais, criadas pelo Decreto-lei n ° 7 449, de 9 de
abril do 1945
106 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

1 -DO CONSELHO NACIONAL DE ESTATíSTICA

b) ]unta Executiva Central

RESOLUÇÃO
EMENTA
N.o Data
-- -~---

26 15-XII-937 Sugere ao Govêrno Federal a decretação de disposições orgânicas relativas à divisão administrativa e judiciária
do território nacional.

36 14-III-938 Aprova o modêlo para a publicação das nominatas das circunscrições administrativas e judiciárias, previstas
no Artigo 18 do Decreto-lei no 311, de 2 de março corrente, e sugere um padrão para os Decretos regionais a
que alude a mesma disposição legal.
47 8-VI-938 Propõe a prorrogação, até 31 de dezembro, do prazo fixado no Artigo 16, § 1°, do Decreto-lei no 311;
de 2 de março de 1938
109 20-III-941 Formula um pronunciamento sôbre a monografia "O Município de Niterói"
130 24-IV-942 Formula instruções para a execução dos Convênios Nacionais de Estatística lviunicipal
131 15-V-942 Dispõe sôbre a participação do Instituto nos Convênios Nacionais de Estatística Municipal
186 3-VIII-944 Aprova o regulamento da arrecadação das contribuições para a Caixa Nacional de Estatística Municipal, c dá
outras providências

190 18-VJIT-944 Dispõe sôbre a execução dos Convênios Nacionais de Estatística :Municipal
196 18-VIII-944 Cria as Inspetorias Regionais das Agências Municipais de Estatística, e dá-lhes regimeuto
216 7-VI-945 Ratifica instruções da Secretaria-Geral do Instituto, para a execução dos Convênios Nacionais de Estatística
Municipal.
243 29-V-946 Cria, na Secretaria-Geral do Instituto, o Quadro das Agências Municipais de Estatística, e dá outras provi-
dências
254 17-X-946 Dispõe sôbre o pessoal das Agências Municipais de Estatístira

2 ~ DO CONSELHO NACIONAL DE GEOGRAFIA


a) Assembléia-Ge1·al

RESOLUÇÃO
EMENTA
No I Data
- ~~--- --------~---------

15-VII-937 Hegub a constituição e o funcionamento do Corpo de Informantes Niunicipais

14 17-VII-937 Prescreve, como empreendimento fundamental do Conselho Nacional de Geogwfia, a atualização da Carta
Geográfica do Brasil

29 20-VII-938 Recomenda aos Governos Rcgiouais promovam cooperação direta entre as administrações municipais e a regional
para a exe~ução dos mapas nmnidpais e das plantas das S{';dcs muni~i:pais e distritais, determinada pelo De~
ereto-lei no 311, de 2 de março de 1938

39 20-VII-938 Dispõe sôhrc a execução dos trabalhos de caráter geográfico, preparatórios do Recenseamento Geral da Repú-
blica, em 1940, fixados pelo Decreto-lei n. 0 237, de 2 de fevereiro de 1938.

41 6-VII-939 Exprimo congratulações aos Chefes dos Governos da União e das Unidades Federadas, pC'la assinatura das leis
gerais fixaudo a divisão territorial do País e pela comemoração nacional do "Dia do Município", a 1 o de ja-
neiro do ano eorrP;nte.

57 21-VII-939 Dispõe sôbrc o estudo de um plano de elaboração de monografias corográficas municipais

58 21-VII-939 Dispõe sôhre a realização de inc;uéritos junto aos Diretórios Municipais, destinados a coleta de elementos para
a elaboração do Dicionário Geográfico e Toponímico c da Coletânea do Efcmérides Brasileiras

60 22-VII-939 Estabelece normas para o recebimento, aprovação e exposição dos mapas municipais que as Prefeituras apre-
sentarão até 31 de dezembro do corrente ano, em obediência ao Decreto-lei u o 311.

77 17-VII-941 Estabelece as normas a que deverá obedecer & divisão regional das Unidades Federadas Brasileiras, para fins
práticos, 11ropõc um <!Uadt o básico de divisão c dá outras providências.

79 18-VII-9H Provê ao preparo !le um guia de observação geográfica para a distribuiçiio aos Diretórios Municipais de Oco~
grafia.

88 21-VII-941 Institui o concurso anual rlc monografias referentes a aspectos da geografia municipal, como uma contribuição
do Conselho aos Congressos Brasileiros de Geografia

104 26-VII-941 Atribui ao Diretório Central a realização de estudos sôbre a divisão de ovos 11unicípios e sôbre os penmctros
urbanos das vilas e cidades dentro da faixa de fronteira
l!O 3-VII-942 Baixa as instruções para a realização, em 1943, do concnrso anual de monografias de aspectos geográficos mu-
nicipais
llR I 6-VII-942 Baixa instruções e recomendações acêrca da revisão dos quadros municipais c distritais, a processar-se em 1943.
INQUÉRITOS E REPORTAGENS 107

2 - DO CONSELHO NACIONAL DE GEOGRAFIA

a) Assembléia-Geral

RESOLUÇÃO
EMENTA
N. 0 Data
1 - - - - - ----------- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
128 10-VII-942 Formula congratulações ao Conselho Nacional de Estatística pela unificação dos Serviços Municipais de Esta-
tística, e apresenta sugestões
143 13-VII-945 Estabelece a divisão regional do País, mediante agrupamento dos Municípios brasileiros, e dá providências para
a generalização do seu uso.
147 17-VII-945 Baixa as instruções para o concurso de monografias de aspectos municipais, relativo a 1946.
179 10-VII-946 Provê à publicação de esquemas informativos sôbrc os Municípios brasileiros
182 12-VII-946 Baixa disposições sôbre o concurso anual de informações sôbrc aspectos geográficos municipais, de 1947.
200 24-VII-946 Dispõe sôbre o 1cvantamento das plantas das cidades e vilas brasileiras, como contribuição cartográfica ao censo
de 1950

h) Diretório Central

RESOLUÇÃO

Estabelece, nos tênnos do Decreto-lei no 311, os re~1uisitos mínimos a que os mapas municipais devem satis~
fazer, c as instruções gerais para a fixação das zonas urbanas e suburbanas das sedes municipais e distritais.

Assenta o padrão previsto na Resoluyão no 108, do Conselho Nacional de Estatística, para as leis regionms exe-
cutórias do Deerctu-lci 11 o 311

18 23-XII-938 Dispõe sôbre a colaboração do Conselho na realização dos festejos do "Dia do Município", na Capital Federal.

22 3-I-939 Dispõe sôbre o empreendimento da campanha de levantamento das coordenadas geográficas das sedes municipais

24 18-I-939 Promove a prorrogação do prazo estipulado pelo Artigo 13 do Decreto-lei no 311, para a apresentação dos ma-
pas municrpms

50 3-X-939 Baixa as instruções técnicas c admi11istrativas para a rampauha de levantamento mtensrvo das coordenadas
geográficas das SC'dcs municipais

12U 4-I-943 Altera os prazos do concurso de monografias de aspectos lllUnicipais, de HJ43

129 3-V 943 Promove medidas rcfcrcntN; à revisão qüinqüenal-territorial


141 10-lX-943 Fixa normas para a revisão adlllinistrativa e judiciária do País
144 18-X-943 Baixa instruções para os trabalhos de fixação da nova divisão territorial do Brasil, a entrar em vigor a 1 o de
janeiro de 1044
168 18-X-944 Promove a IH or rogação do prazo para a entrega dos novos mapas municipais
179 18-I-945 Promove a prorrogaç.ã? d?s prazos para a revisão dos nomes das estações ferroviárias c para a apresentação dos
novos mapas mumcrpa1s
184 26-lJI-945 Baixa a classificação, em julgamento final, das monografias Jc aspectos municipais do concurso de 1943
190 18-V-945 Fixa as normas de recebimento c aprovaç:to dos m1pas municip::tis que as Prefeitutas C3bío obrigadas a apre-
sentar no eoncnte ano

considerando que, em obediência a uma decisão


da VI Conferência Internacional Americana, foi
cdada, por ocasião elo Primeiro Congresso de Muni-
cípios, a Comissão Pan-Americana de Municípios;
O apoio do Conselho Nacional de Esta-
tística ao movimento municipalista constituiu considerando que, graças não só a un1 impulso
objeto de Resolução especial da Assembléia- idealista de estudiosos devotados aos problemas de
govêrno local no Brasil, como também à política
-Geral: Resolução n. 0 324, de 20 de julho de boa vizinhança que ora caracteriza as relações
de 1946, nos seguintes têrmos: entre os povos americanos, foi fundada, nesta ca-
pital, a Associação Brasileira de Municípios, órgão
"A Assembléia-Geral do Conselho Nacional de
daquela Cmnissão;
Estatística, usando das suas atribuições, e
considerando o profundo e patriótico interêsse considerando que, pelos seus elevados objeti-
que o Conselho tem dispensado ao reerguimento vos e suas afinidades com os ideais preconizados
e ao progresso da vida do Município brasileiro; pelo Instituto, no sentido da valorização econômica
108 REVISTA BRASILEIRA DOS J\1 UNICÍPIOS
-------------------------------- ------ -----

e social dos núcleos demográficos no interior, me- estatísticos, além do que são prontamente atendi~
rece a A. B M o efetivo apoio do sistema esta- dos os pedidos relativos a discriminações municipais,
tístico; formulados por pessoas físicas ou jurídicas inte-
considerando que, ao instalar-se a Comissão ressadas no estudo dos problemas do Município;
N acionai Organizadora da Associação Brasileira de considerando, todavia, que essa divulgação, pc~
Municípios, pronunciou o seu Presidente, Senhor la importância de que se reveste, deve ser feita
RAFAEL XAVIER, notável conferência sôbre o tema através de um órgão que se dedique inteiran1ente
"A Organização Nacional e o Município"; à publicação de estudos e estatísticas com discri-
considerando que essa conferência é um subs- tninações municipais, quer para melhor atendimento
tancioso estudo sôbre o desajustamento orgânico res- da obrigação assumida, quer pela necessidade de
ponsável pela hipertrofia dos centros metropolita- facilitar ao público o conhecimento dos diversos
nos e pelo deperecimento econômico e cultural do aspectos da vida municipal, revelados pelas elabora~
interior, constituindo, também, excelente afirmação ções estatísticas,
da amplitude e superior valia dos elementos esta-
tísticos disponíveis; RESOLVE:
considerando que êsse estudo, peta sua objeti~ Art. 1 o - Fica recomendado à Secretaria-Ge~
vidade e segurança na configuração dos problemas ral do Instituto promova o lançamento, com a bre-
expostos, alcançou a mais larga repercussão; vidade possível, das Sinopses de Estatística Mu~
considerando que o autor de "A Organização nicipal, observado o disposto no Decreto-lei n. 0
Nacional e o Município", expressiva figura de técni- 4 181, de 16 de março de 1942, e na cláusula
co em estatística e administração, está ligado ao nona dos Convênios Nacionais de Estatística
Instituto por altos e relevantes serviços e é credor Art 2.o - O Conselho, em face de se tor-
da admiração e reconhecimento do Conselho, nar necessária maior divulgação dos assuntos mu-
nicipais, autoriza a Secretaria-Geral a adotar as
RESOLVE: providências que couberem, no sentido de ser publi-
cada uma "Revista dos Municípios", de periodici~
Art. 1. 0 - Fica expressamente consignado o dade a ser fixada.
interêsse do Instituto pelo movimento municipalista, § 1 o - A publicação a que se refere o pre-
assim compreendido o conjunto de esforços que vi- sente Artigo será planejada de modo que se esta-
sem ao reerguimento e ao progresso da vida do beleça a divulgação, em suas páginas, de estudos,
Município brasileiro, em todos os seus aspectos. ensaios, monografias, etc sôbre Municípios brasi~
Art. 2.o - A Assembléia manifesta o regozijo leiros ou aspectos da vida municipal, além de uma
do Conselho N acionai de Estatística por motivo secção permanente etn que figurem quadros, tabe-
da fundação da Associação Brasileira de Municípios, las e gráficos referentes aos resultados numéricos
com os melhores votos pela realização dos altos dos levantan1entos a que procedam os Órgãos es-
objetivos que a animam. tatísticos
§ 2° - Nesse plano serão também previstas
Art. 3. 0 - O Conselho recomenda à Presi-
dência do Instituto e a todos os órgãos deliberativos secções subsidiárias destinadas à educação e cul~
e executivos do sistema estatístico nacional que tura popular
dispensem à Associação Brasileira de Municípios o Art 3 o - Para a divulgação da "Revista
dos Municípios", a Secretaria-Geral do Instituto
apoio e a cooperação compatíveis com as finalidades
técnicas e culturais da entidade, no sentido de entrará em entendimentos com a Associação Bra-
sileira dos Municípios, de n1aneira a ser estabele~
revitalizar as células municipais.
cida a mais íntitna colaboração dessa entidade para
Art. 4.o - A Assembléia rende efusiva home- o "desideratum" previsto."
nagem ao Senhor RAFAEL XAVIER pela realização,
com fundamento nos dados estatísticos fornecidos
pelo sistema do Instituto, de amplo e penetrante Merece transcrita, também, a Resolucão
estudo dos problemas do País, na conferência sob n. 0 334, da Assembléia-Geral, a respeito" de
o título "A Organização N acionai e o Município", ponderações formuladas à Assembléia Na-
que é anexada à presente Resolução "
cional Constituinte:
Através de sua Resolução n. 0 338, de "A Assen1bléia-Geral do Conselho Nacional de
25 de julho de 1946, a Assembléia-Geral Estatística, usando das suas atribuições, e
considerando que está reunida presenten1ente
do Conselho Nacional de Estatística reco- a Assembléia Nacional Constituinte, convocada, me~
mendou o lancamento das Sinopses Munici- diante livre escolha do eleitorado, a 2 de dezen1bro
pais e autoriz~u a publicação da REVISTA de 1945, para dar ao Brasil uma nova Carta Cons-
titucional;
BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS. É o se- considerando que a Assen1bléia Constituinte es-
guinte o texto da referida Resolução: tá finnada no propósito de assegurar à Nação Bra-
sileira un1a Carta Política que atenda às aspirações
"A Assembléia-Geral do Conselho Nacional de do povo e corresponda aos interêsses de nossa evo-
Estatística, usando das suas atribuições, e lução social;
considerando que, pelo disposto no Artigo 11 considerando que a missão confiada à Assem-
do Decreto-lei no 4 181, de 16 de 1narço de 1942, hléia Nacional Constituinte tnerece o respeito, o
ficou incluída, entre as obrigações a serem. assu- apoio e a colaboração de todos os brasileiros;
midas pelo Instituto, a de publicar anualmente uma considerando que, entre as emendas apresenta-
Sinopse de Estatística Municipal, o que, em face das ao Projeto elaborado pela Comissão de Consti~
dos Convênios Nacionais de Estatística Municipal, tuição, figuratn algumas que tratam de temas coin~
posteriormente celebrados, passou a constituir ex- cidentes com os objetivos de reorganização nacio-
presso compromisso da entidade, nos têrmos da nal que tên1 sido focalizados em Resoluções dêste
alínea c do item I, da cláusula nona; Conselho;
considerando que êsse compromisso ainda não considerando que essas emendas se referem,
foi satisfeito, convindo, porém, apressar o seu cum- particularmente, ao princípio de cooperação inter-
primento, inclusive porque estão sendo observadas governan1ental, ao agrupamento de Municípios, e à
tôdas as de1nais obrigações assumidas pelos pactuan- sistematização dos quadros territoriais - adtninis-
tes dos Convênios; trativos e judiciários - do País,
considerando ainda que, por fôrça do mesmo RESOLVE:
Decreto-lei n. 0 4 181, e de comprmnisso igualmente
assumido nos Convênios, ficou o Instituto com a Art. 1. 0 - O Conselho N aciona! de Estatís-
obrigação de manter um serviço público de infm- tica expressa as suas mais altas homenagens de
mações sôbre o Município; respeito e aprêço à Assembléia Nacional Consti-
considerando que, en1 parte, esta obrigação tuinte, ora reunida, e formula votos por que se
vem sendo atendida pela ampla divulgação que corôe de completo êxito a tarefa, que lhe está
têm tido, nas páginas da Revista Brasileira de Es~ cometida, de assegurar ao Brasil uma Constituição
tatística e em comunicados distribuídos à imprensa baseada em princípios democráticos e que propicie
pela Secretaria-Geral do Instituto, todos os assun~ à Na cão Brasileira diretrizes consentâneas com os
tos referentes à vida municipal, cmn base nos re- fundaffientos de sua formação histórica e os ·inte~
sultados numéricos oferecidos pelos levantamentos rêsses de seu progresso social e cultural.
lNQUÉIIITOS E REPORTAGENS 109

Art. 2. 0 - O Conselho exprime o voto por técnico-administrativo, superintendi-


que possam merecer especial interêsse dos repre~ do pelo respectivo Presidente.
sentantes da Nação os princípios que se fixarem § 3. 0 - À Superintendência Inter-
em emendas ao projeto constitucional, nos seguin- municipal competirá a coordenação
tes têrmos: das administrações municipais, ca-
bendo-lhe, ainda, na forma das re-
I - Quanto aos "sistemas nacionais" de coo- soluções do Conselho, quer a exe-
peração intergovernamental, originálios cução dos serviços de interêsse co-
de convenções políticas: mum dos Municípios associados,
quer a realização ou implantação
Emenda n. 0 2 161 (Para incluir-se técnica dos novos serviços ou em-
nas "Disposições Diversas" do Pro- prêsas".
jeto).
"O princípio de cooperação intergo- III - Quanto à sistematização dos quadros
vernamental é fundamento hábil territoriais - ad1ninistrativos e judi-
para instituir sistemas nacionais de ciários:
atividades ou serviços comuns às Emenda n. 0 3 617 (Para incluir-
diferentes órbitas do Poder Públi- se nas "Disposições Diversas" do
co Os sistemas já instituídos, ou Projeto).
que se instituírem, baseados nesse "Nos atos de divisão territorial -
princípio, reger-se-ão pelo respecti- administrativa e judiciária - pre-
vo estatuto orgânico estabelecido em valecerão, sem prejuízo da compe-
forma convencional". tência privativa de que decorram,
II - Quanto à divisão regional dos Estados as normas orgânicas, de sistematiza-
e criação das Uniões Municipais: ção nacional, previstas em lei fe-
Emenda n. 0 2 830 (Para acresceu~ deral".
ta r-se ao Artigo 125 do Projeto).
"§ 1. o - Por dispositivo das Cons- Art. 3.o - O Conselho considera ainda que,
tituições Estaduais, o regime muni- à luz das observações estatísticas sôbre as condi-
pai poderá admitir o agrupamento ções fundamentais da vida nacional, é digna de
ou consórcio dos Municípios, sob a atenção de todos os brasileiros, e, especialmente,
forma de divisão regional dos superiores Poderes da República, a possibili-
§ 2.o - O Govêrno Intermunici- dade de ser autorizada a interiorização da Capital
pal será exercido pelo Conselho de do País, de modo que as fôrças do progresso se
Prefeitos, cujas resoluções terão por irradiem equitativamente em benefício de tôda a
órgão executivo um departan1ento Nação"

BELO 1-IORIZONTE EM CINQÜENTA


ANOS DE PROGRESSO
Comemorou-se, com grandes solenidades, Várias localidades haviam sido apontadas,
em dezembro do ano findo, a passagem ao longo dos anos, como as que melhor se
do cinqüentenário da fundação de Belo Ho- prestariam à transformação em sede do Go-
rizonte. vêrno Regional, entre as quais Várzea do
Inaugurada como cidade a 12 de de- Marçal, Barra de Jequitibá, Juiz de Fora
zembro de 1897, a capital do Estado mon- e Barbacena.
tanhês, através dêsses cinqü:enta anos de Os adeptos da transferência da capital
vida, teve incomum desenvolvimento. Cons- encontravam sempre, como era natural, forte
truída especialmente, segundo o plano tra- resistência de parte dos ouropretanos que,
çado por engenheiros de visão, para ser a com razão, não queriam ver a sua cidade
sede do govêmo de Minas Gerais, Belo Ho- perder os privilégios de que gozava como
rizonte, com o seu crescimento acelerado nos centro político-administrativo do Estado.
últimos anos, passou a figurar entre as mais Somente no início do período republicano
importantes cidades brasileiras . a corrente favorável à mudança conseguiu
fortalecer-se e agitar, com resultados positi-
As primeiras idéias de mudança da vos, a questão da transferência da capital
capital Até essa época, todavia, ainda não se pen-
A idéia de mudança da capital do Es- sara em construir nova capital, mas apenas
tado, para local previamente escolhido, que em tnudar-se a sede do Govêrno para uma
melhor atendesse ao interêsse da coletivi- cidade, já existente, que se situasse mais
dade mineira, parece ter sido aventada, pela próxima do centro de gravidade geográfico
primeira vez, pelos Inconfidentes Mineiros, do Estado. Foi a 25 de maio de 1890 que
em 1789. essa idéia surgiu, veiculada pelo Coueio
Durante o Império, em várias ocasiões, do Povo, que noticiou a existência de um
a idéia voltou a ser agitada pelo presidente p10jeto de edificação da nova capital nas
Marechal ANDRÉA, pelo deputado Padre margens do Rio das Velhas. Muitas loca-
AGOSTINHO PARAÍSo, na Assembléia Provin- lidades, então, surgiram como credenciadas
cial Mineira, e por muitas outras ilustres à escolha, aí incluído o arraial de Belo Ho-
figuras da política mineira. Não era o sítio rizonte.
de Belo Horizonte, no entanto, lembrado Entre os mais ardorosos adeptos da mu-
para nêle vir a ter sede a Capital de Minas. dança da capital para o sítio de Belo Ho-
110 REVISTA BRASILEIRA Dos MuNICÍPIOS

rizonte, estava AUGUSTO DE LIMA, que, meras "bandeiras", grandes e pequenas em-
nomeado Governador Provisório do Estado, brenharam-se, por êsse tempo, nos s~rtões
pelo General DEODORO DA FONSECA, assinou mineiros, entre as quais a do paulista JoÃo
decreto transferindo a sede do Govêrno Es- LEITE DA SILVA 0RTIZ, que descobriu as
tadual para aquêle arraial, onde se consti- terras onde se encontra, no momento, a ca-
tuiria uma cidade, mas pouco depois, anulou pital do Estado montanhês.
o decreto, que ainda não havia sido publicado, ORTIZ, partindo de São Paulo, em 1701,
encaminhando a solução do caso ao Congres- veio acampar no vale do Ribeirão Grande
so Constituinte, prestes a reunir-se. ao pé da Serra de Congonhas (hoje Serr~
A 7 de julho de 1891, o Congresso do Curral), estabelecendo-se aí com a fa-
Constituinte (Câmara e Senado reunidos) zenda a que denominou de Cercado, em
aprovou um substitutivo, do Deputado ADAL- cujas terras fêz roças, plantações e cuidou
BERTO FERRAZ, ao Artigo 121 da Constitui- da criação de gado .
ção que se elaborava e relativo à mudança Em 1711, ORTIZ obteve, em seu favor
da capital. O substitutivo, aprovado por Carta de Sesmaria das terras limitadas pela~
trinta e cinco contra trinta e quatro votos, e Serras do Curral, do Jaborema, do Jatobá
também em terceira discussão, na sessão se- do Jos~-Vieira, do Pangareis, do Taquaril:
guinte, estabelecia: a) a mudança da capital; do Navw, do Rola-Moça e da Mutuca. Nessa
b) a reunião das duas Câmaras, após o en- época, começou a formar-se o arraial de
cerramento da primeira sessão ordinária, pa- Curral del-Rei, assim chamado porque aí se
ra a escolha dos locais a serem estudados por encurralava, depois de contado à margem
uma comissão a nomear-se; c) a designação, do riacho Contagem, para pagar tributos ré-
pelas duas Câmaras reunidas em Congresso, gios em Sabará, o gado procedente dos ser-
na segunda sessão ordinária, do local para a tões do São Francisco e da Bahia . ORTIZ
construção da nova capital, tendo em vista os logo mandou construir uma capela na po-
estudos efetuados, fazendo essa lei parte da voação que nascia - a capela da Boa Via-
Constituição; d) a regulamentacão do modo gem. Em 1718, Curral del-Rei foi elevado
de ser efetuada a construção, ~om a subse- à categoria de freguesia. Nesse mesmo ano,
qüente votação dos meios para a mudança, casava-se o seu fundador, na capitania de
em quatro anos improrrogáveis. O substituti- São Paulo, com D. ISABEL BUENO, filha de
vo do Deputado ADALBERTO FERRAZ consti · BARTOLOMEU BUENO DA SILVA, uma das
tuiu o Artigo 13 das Disposições Transitórias grandes figuras da história do bandeirismo.
da Constituição do Estado, promulgada a 15 O fundador de Curral del-Rei vendeu as pro-
de junho de 1891. priedades em 1722, para ir descobrir lavras
auríferas em Goiás, vindo a falecer no Re-
A 13 de dezembro de 1893, sob o go-
cife, pouco tempo depois, a 9 de dezembro
vêrno de AFONSO PENA, após longas e acalo-
radas discussões parlamentares, o sítio de Be- de 1730.
lo Horizonte foi definitivamente escolhido Desenvolvia-se a povoação aos poucos.
para Mme aa nova cap1ta!. Pela Lei n. 0 3, Em 1808, fazia-se em Curral del-Rei a pri-
promulgada a 17 de dezembro de 1893, adi- meira tentativa industrial, com o estabeleci-
cional à Constituição, ficou estabelecido que mento de uma fundição de ferro e bronze; e,
a cidade a ser construída se denominaria em 1814, criava-se a sua primeira escola pú-
Minas, devendo a mudança da sede do Go- blica. A sede da freguesia, por êsse tempo,
vêrno estadual realizar-se dentro de quatro contava com 231 fogos e 1 801 habitantes.
anos, improrrogàvelmente. Com as capelas filiais de Sete Lagoas, Con-
tagem, Santa Quitéria, Buritis, Capela Nova
Origens históricas de Belo Horizonte do Betim, Piedade do Paraopeba, Brumado,
À sedução do ouro e da riqueza deve Itatiaiaçu, Mateus Leme, Neves, Aranha e Rio
o Brasil a sua atual extensão territorial. Não Manso, perfazia a população de oito mil
fôssem os bandeirantes, que se embrenharam almas. Em conseqüência, entretanto, de cons-
pelo sertão indevassado, dilatando as nossas tantes desmembramentos, a população da fre-
fronteiras para muito além da linha esta- guesia de Curral del-Rei foi decrescendo. Em
belecida pelo tratado de Tordesilhas, o Bra- 1877, contava com a metade de sua antiga
sil talvez fôsse, hoje, apenas a faixa litorânea população e, em 1883, com, apenas, 2 650
dominada pela colonização portuguêsa. Aos habitantes. Apesar disso, a povoação pros-
bandeirantes paulistas, em suas arrancadas perava. Uma fábrica de tecidos de algodão,
pelo sertão, deve-se a criação de grande nú- com 36 fusos e 6 teares, já estava funcio-
mero das atuais cidades mineiras, em vir- nando. Outra fundição de ferro e bronze
tude de, quando em busca dos campos ge- foi fundada no lugar denominado Cardoso
rais, irem plantando pequenas povoações à e o Serviço Postal continuava suas ativida~
passagem das "bandeiras". Desde 1669, as des, iniciadas que foram em 1881.
notícias correntes sôbre fabulosas riquezas Em 1889, logo após a proclamação da
existentes nas Minas atraíram grande número República, o Clube Republicano, então fun-
de aventureiros para as terras hoje perten- dado, cogitou da mudança do nome do ar-
centes ao Estado de Minas Gerais. MANUEL raial. Várias denominações foram propostas,
BORBA GATO descobriu; nessa segunda me- entre as quais a de Belo Horizonte, apresen-
tade do século XVII, as riquíssimas minas tada pelo capitão JosÉ CARLOS VAZ DE
de ouro de Sabarabuçu. Espalhando-se, rà- MELO. 'Por decreto de 12 de abril de 1890,
pidamente, a notíc~ do descobrimento, ve- o lugarejo passou a denominar-se Belo Hori-
rificou-se a invasão do território mineiro por zonte. Contava a povoação, nessa época, com
grupos de aventureiros de diferentes espécies, cêrca de quatro mil habitantes, 172 casas,
que o percorreram em tôdas as direções. Inú- duas escolas públicas, dezesseis estabeleci-
INQUÉRITOS E REPORTAGENS lll

mentos comerciais, oito ruas, dois largos, o Orfanato Santo Antônio, para servir de
duas capelas e uma igreja, trinta e uma fa- cemitério provisório, sendo nêle feitos se-
zendas de cultura e criação, oito olarias, duas pultamentos até 1897.
caieiras, quarenta fábricas de farinha de Com o início dos trabalhos de edifica-
mandioca, oito curtumes de barbatimão, de- cão da nova capital, os belo-horizontinos, se,
zesseis engenhos de açúcar e várias pedreiras por um lado, se achavam contentes porque
de granito e calcáreo. Possuía grandes cul- viam realizar-se antigo sonho, começaram,
turas de mandioca e de cana de açúcar, de outro, a inquietar-se, temendo pela sorte
pequenas plantações de cafeeiros e videiras, de suas propriedades, pois, para a consecu-
bons pomares e criação de gado. Sua rua ção do grande empreendirri":nto da constru-
principal era a Marechal Deodoro, antiga Ção da Capital, era necessário fôsse desapro-
rua do Saco. priada tôda a área destinada a receber a
Era êsse o aspecto geral de Belo Hori- sede do Govêrno Regional, isto é, todos os
zonte, quando para lá se dirigiram os técni- terrenos, prédios e benfeito:das do distrito
cos encarregados de determinar o melhor lu- de Belo Horizonte.
gar para a construção da nova capital mi-
neira. Por Decreto baixado a 5 de junho de
1895, pelo Presidente do Estado, sob o nú-
mero 716, a povoação, que pertencia ao Mu-
A construção da nova cidade nicípio de Sabará, foi desligada, tornando-se
independente e administrada pelo Enge-
Promulgada a Lei n. 0 3, adicional à nheiro-Chefe da Comissão Construtora. Por
Constituição do Estado, a qual determinava outro Decreto, 776, assinado a 30 de agôsto,
fôsse construída em Belo Horizonte, dentro autorizava-se a desapropriação, amigável ou
de quatro anos improrrogáveis, a nova sede judicial, de tôda a área constante da planta
do Govêrno Regional de Minas Gerais, o n. 0 2 do Relatório da Comissão de Estudos
Presidente AFONSO PENA, pouco depois, das localidades indicadas para sede da ca-
criou a respectiva Comissão Construtora, no- pital do Estado, que já havia sido aprovada
meando para chefiá-la o Engenheiro AARÃO pelo govêrno, pelo Decreto n. 0 712, de 14
REIS. Êste, depois de escolher os seus auxi- de maio dêsse ano. Esperava-se grande re-
liares, se dirigiu para Belo Horizonte, ali sistência dos belo-horizontinos às desapro-
instalando os trabalhos de construção da nova priações. A área desligada do Município de
capital a 1.0 de março de 1894, em meio a Sabará era de 19 200 000 metros quadrados
grande regozijo popular . A população cres- A habilidade do Sr. AARÃO REIS soube con-
cia ràpidamente com a afluência de operá- tornar tôdas as dificuldades e, assim, sem
rios que para ali se dirigiam, a fim de tornai muitos embaraços, desapropriaram-se as 430
parte nos trabalhos de edificação da nova propriedades existentes no arraial. Os pro-
cidade, e de comerciantes e profissionais de prietários receberam indenizações em dinhei-
várias atividades. O quadro do pessoal da ro e em lotes na cidade que se construía.
Comissão Construtora, segundo o Decreto 680, As desapropriações custaram ao Estado Cr$
era composto de 194 funcionários, e, com 841 666 36 variando as indenizações pagas
êle, o Engenheiro AARÃO REIS iniciou os
trabalhos preliminares de construção, sendo
entre C;S J5 000,00 (fazenda do Barreiro)
e Cr$ 25 00 (cada uma das casinhas do Ca-
batida, a 5 de março, à margem do Ribeirão pim e Lagoinha) . Houve, então, o êxodo
dos Arrudas, antigo Ribeirão Grande, a pri- da população para outras terras e ~ara as
meira estaca de exploração do ramal Férreo adjacências do distrito de Belo Honzonte.
O arraial, por êsse tempo, era bastante E os trabalhos de construção se aceleraram.
pobre. Havia, somente, um hotel, de pro-
O plano de edificação da nova capital
priedade do Sr. ANTÔNIO JoAQUIM DA SIL-
compreendia a construção de vários templos,
VEIRA, onde se hospedavam os funcionários
para substituir os existentes, que seriam de-
da Comissão Construtora. Todavia, a partir
molidos. Entretanto, para que não se demo-
da instalacão dos trabalhos de edificação da
lisse a Matriz da Boa Viagem, - templo
nova capital, começaram a surgir novos ho-
tradicional da povoação, - fizeram-se modi-
téis e estabelecimentos comerciais melhor
ficacões na planta da cidade, de maneira que
abastecidos. O traçado do ramal férreo, pela
aqu~la igreja ficasse ocupando o centro de
margem esquerda do Arrudas, .iá havia sido
uma praça.
aprovado pelo govêrno. Em agôsto de 1894,
a Comissão Construtora firmava contrato A 19 de agôsto de 1894, estando para
com à Estrada de Ferro Central do Brasil, terminar o govêrno do Conselheiro AFONSO
com referência ao entroncamento do Ramal PENA e já eleito o seu sucessor, o Sr. CRIS-
no sítio dos Arrudas. A estação que estava PIM JACQUES BIAS FORTES, os dois presi-
sendo construída pela firma "Edwards, Ca- dentes - o ainda em exercício e o eleito -
marate & Soucasseaux", seria denominada fizeram uma visita às obras de construção
General Carneiro, lancando-se a pedra funda- da nova capital mineira. Chegaram na tarde
mental no primeiro dia de fevereiro do ano de 19 de agôsto, ficando na localidade até
seguinte, data em que se inaugurava o ser- o dia 21. Nesse dia, o Engenheiro-Chefe ofe-
viço telegráfico do arraial receu-lhes um almôço de despedida, durante
Belo Horizonte, por essa época, não o qual usaram da palavra o chefe da Comis-
tinha ainda um cemitério, realizando-se os são Construtora, e os dois presidentes, que
sepultamentos no terreno em frente à capela expressaram satisfação pelo bom andamento
da Boa Viagem. O chefe da Comissão Cons- dos trabalhos de construção da cidade.
trutora mandou, então, reservar e fechar uma Alguns dias depois, a 27 do mesmo mês,
área de terreno, no local onde hoje se situa membros da Comissão Construtora funda-
112 HEVISTA BRASILEIRA DOS MuNICÍPIOS

ram a biblioteca denominada "Sociedade Li- Foi um dia festivo para a florescente po-
terária Belo Horizonte", hoje Biblioteca Mu- voação.
nicipal, e o "Museu Paula Oliveira". Por -O abastecimento de água do arraial era
êsse tempo, foi impresso o 1. 0 fascículo da deficiente e, para atender às necessidades
Revista Geral dos Trabalhos da Comissão da população que aumentava cont1nuamente,
Construtora, destinada a registrar os acon- a Comissão mandou instalar uma rêde de
tecimentos e os documentos históricos de distribuição provisória, com 29 torneiras e
Belo Horizonte. 15 chafarizes públicos. Por êsse tempo, foi
Terminado o período administrativo do designado subdelegado de Polícia de Belo
Conselheiro AFONSO PENA, assumiu a Presi- Horizonte o Capitão ANTÔNIO LOPES DE
dência do Estado, a 7 de setembro de 1894, OLIVEIRA, removido de Sabará e com 10
o Sr. CRISPIM ]ACQUES BIAS FoRTES, que praças às suas ordens. Também nessa época
escolheu para Secretário da Agricultura, Co- apareceram os primeiros jornais de Belo
mércio e Obras Públicas do seu govêrno o Horizonte, todos .de vida relativamente efê-
Sr. FRANCISCO SÁ. mera. O primeiro a surgir foi o Bélo Hori-
A planta geral da cidade, desenhada sob zonte, semanário fundado pelo Padre FRAN-
CISCO MARTINS DIAS, publicado a 7 de se-
a orientação dos Srs. AARÃO REIS e AMÉRI-
ca MACEDO, ficou concluída a 23 de março tembro de 1895. Quatro outros jornais cir-
de 1895 e foi aprovada pelo Decreto 817, cularam no arraial durante o período de
de 19 de abril do mesmo ano. Pelo Decreto construcão da nova cidade.
818, do mesmo dia, ficou determinada a At~ o ano de 1895, o arraial não con-
construção de casas para os funcionários pú- tava com nenhuma casa de diversões. Nesse
blicos. ano, porém, foi construído um barracão à
rua de Sabará, nêle se instalando o "Teatro
Mercê de divergências surgidas entre o Provisório", no qual se apresentaram várias
Engenheiro-Chefe e o Secretário da Agri- companhias. No ano seguinte, fêz grande
cultura, Comércio e Obras Públicas, o Sr. êxito na localidade o primeiro fonógrafo
AARÃO REIS exonerou-se, a 20 de maio, da aparecido em Belo Horizonte .
chefia da Comissão Construtora, sendo no- 0 Sr. FRANCISCO BICALHO, procurando
meado para substituí-lo o Sr. FRANCISCO DE resolver o problema dos transportes dentro
PAULA BICALHO, que se empossou a 22 do da área da futura cidade, autorizado pelo
mesmo mês. govêrno, mandou construir uma rêde de
Durante o primeiro período de edifi- viação urbana de 26 937 metros de extensão,
cação da nova capital, nenhuma casa, rua para servir à pedreira do "Calcáreo", no
ou avenida estava definitivamente construí- Acaba-Mundo, passando pela rua Espírito
da, pois não se passou dos trabalhos de cál- Santo e pela praça da Liberdade; as pedrei-
culos e projetos. ras da "Viação" e "Lagoinha", no bairro dêsse
O novo Engenheiro-Chefe, logo depois nome, passando pela Avenida Afonso Pena;
da posse, reorganizou a Comissão Constru- a pedreira do "Morro das Pedras", passando
tora e deu outra distribuição ao pessoal con- pelo Barro Preto; e pedreira do "Carapuça",
tratado. no Cardoso; o Quartel do 1.0 Batalhão, pas-
O Ramal Férreo, iniciado na adminis- sando pela Avenida Afonso Pena; e os lu-
tração do Sr. AARÃO REIS, já estava quase gares denominados Caracará e Reservatório.
concluído, e a 25 de julho de 1895 a Co- Nesse ramal férreo urbano, trafegaram seis
missão firmou contrato com a diretoria da locomotivas do Estado e uma particular, de
Estrada de Ferro Central do Brasil, pelo propriedade do CONDE DE SANTA MARINHA.
qual esta se comprometeu a fornecer-lhe três No início das obras de edificação da
locomotivas, quinze vagões, vinte vagões- nova capital mineira, o arraial de Belo Ho-
-gôndolas e quinze plataformas, devendo o rizonte possuía duas escolas públicas, uma
material, que passaria a ser propriedade da para o sexo masculino e outra para o femi-
referida ferrovia, ser usado no transporte de nino. A 1. 0 de outubro de 1896, foi ali fun-
cargas para Belo Horizonte, deduzidos dos dado o primeiro colégio particular - O "Co-
fretes cobrados pela Estrada 20% em favor légio Cassão", pelas Senhorinhas LEOPOLDI-
da Comissão Construtora, para indenização NA e ROMUALDA CASSÃO. Pouco depois, ins-
do preço do citado material, que foi enco- talou-se o "Colégio Progresso", dirigido pelas
mendado na Europa. A 26 de julho chegava ProfessÔras D. JÚLIA VIEIRA DA FONSECA
à povoação, pela primeira vez, a locomotiva e Srta. MARGARIDA FONSECA. No ano se-
"Belo Horizonte". A inauguração solene do guinte, a 1. 0 de fevereiro, o Padre FRANCIS-
ramal realizou-se a 7 de setembro daquele co MARTINS DIAS fundava o "Colégio da
ano, quando se festejava o primeito aniver- Imaculada", dirigido pela Professôra D. MA-
sário de administração do Presidente BIAS RIA OLIVIERI. Anexa a êste, dois anos depois,
FORTES. Nesse mesmo dia, foram lançadas funcionou uma Escola Normal.
as pedras fundamentais dos edifícios públi- As primeiras práticas desportivas foram
cos da capital em construção. Dois trens es- iniciadas no arraial pelo "Clube 17 de De-
peciais, vindos de Ouro Preto e do Rio de zembro", - fundado por moços da Comissão
Janeiro, chegaram ao arraial, conduzindo o Construtora - que realizou alguns exercí-
Presidente BIAS FoRTES, Secretários, Minis- cios de tm f e em pista improvisada. Apare-
tros, parlamentares, magistrados e convida- ceu, também, por êsse tempo, a primeira
dos. Houve missa campal e banquete no fu- bicicleta em Belo Horizonte, sendo o seu
turo parque da cidade e, à noite, concêrto proprietário o Sr. FERNANDO ESQUERDO, nas-
no Escritório Central da Comissão, fazendo- cendo, daí, o gôsto pelo ciclismo, ràpidamen-
-se ouvir vários musicistas de Ouro Preto. te desenvolvido na capital em construção
lNQUÉRlTOS E REPORTAGENS 113

Várias sociedades beneficentes começaram - na antiga e na nova capital. Na primei-


a aparecer, entre as quais as que congrega- ra, erguia-se para os céus o triste côro das
vam os elementos das colônias italiana e es- lamentações. Na segunda, o ruído alviça-
panhola existentes no arraial. reiro das vésperas de festas .
A 8 de fevereiro de 1896, foi inaugura-
da a primeira casa particular, construída O custo de construção da cidade
dentro dos planos de edificação da capital, Quando o Congresso Mineiro votou a
na Avenida Amazonas, entre a rua Tupinam- Lei n. 0 3, adicional à Constituição do Estado,
bás e a Avenida Afonso Pena, de proprie- que determinou a construção, no arraial de
dade do Sr. CARLOS MONTE VERDE. SurgÍ- Belo Horizonte, de uma cidade para servir
ram depois muitas outras casas, nas zonas de sede do Govêrno Regional, dentro de qua-
urbana e suburbana, e apareceram as pri- tro anos improrrogáveis, muitos não acredi-
meiras bandas musicais, farmácias, cerveja- tavam na exeqüibilidade do empreendimento
rias, casas de ferragens, carpintarias e mar- em prazo tão curto. Entretanto, enfrentan-
cenarias e os primeiros carros de praça e do as maiores dificuldades, lutando contra
carrocinhas para distribuição de pães. obstáculos de tôda a espécie, puderam os en-
O palácio presidencial, construído na genheiros da Comissão Construtora, à custa
Praça da Liberdade, foi iniciado a 25 de de ingentes esforços e de muito sacrifício,
novembro de 1895, e ainda não estava con- concluir a edificação da nova capital alguns
cluído quando se realizou a inauguraçãq da dias antes de se esgotar o prazo estabelecido
cidade. As várias Secretarias também fo- pela Carta Política do Estado.
ram construídas na Fraca da Liberdade . A O arraial era bastante pobre e não dis-
construção do prédio do Ginásio Mineiro punha dos menores recursos. Tudo ainda
foi iniciada em março de 1897 e concluída estava por fazer em Belo Horizonte. A pri-
em 1898 Ao invés do ginásio, foi nêle ins- meira fase de construção da cidade, que se
talado o Fôro. Reformado mais tarde, prolongou de março de 1894 a maio de 1895,
passou a ser a sede da Escola Normal, hoje foi quase exclusivamente dedicada ao pla-
Instituto de Educação. nejamento das obras a serem realizadas.
A construção das casas para funcionários Até maio de 1897, haviam sido votados
públicos, prevista na planta geral da cidade, três créditos, no valor total de Cr$ ....
foi iniciada em meiados de 1895. Em junho 25 000 000,00, para as obras de construção
de 1897 estavam concluídas as obras para o da cidade. Tinham sido gastos, dêsses cré-
abastecimento de água da capital. O servi- ditos, até essa ocasião, Cr$ 17 515 873,70,
ço de canalização e esgotos ficou concluído havendo, portanto, o saldo de Cr$ ..... .
pouco antes da inauguração da nova cidade. 7 484 126,40. Em princípios de 1897, o Es-
A povoação ainda não contava com ilu- tado contraiu um empréstimo com o Banco
minação de qualquer espécie. Aproveitando de Paris e Países Baixos, que deixou o re-
uma queda d'água do Arrudas, com capaci- sultado líquido de Cr$ 27 515 019,30, gas-
dade para 150 cavalos-vapor, o Engenheiro- tos na terminação das obras da capital e em
-Chefe da Comissão Construtora contratou auxílios à viação férrea, de acôrdo com o
com a Companhia Mineira de Eletricidade disposto pela Lei n. 0 187.
de Juiz de Fora as instalações elétricas ne- Desde o início dos trabalhos de cons-
cessárias, pelo sistema Westinghouse, e man- trução, até a inauguração da cidade, o Te-
dou construir a reprêsa do Freitas. A 11 de souro do Estado despendeu, nesse empreen-
dezembro de 1897, um dia antes da insta- dimento, cêrca de 33 milhões de cruzeiros
lação da nova capital, foi inaugurada a ilu- Até 15 de maio de 1899, o custo da capital
minação da cidade entre grandes festejos po- m::mtava em Cr$ 36 301 940,10. Dessa épo-
pulares. ca até o ano de 1926, o Tesouro do Estado
gastou mais alguns milhões de cruzeiros e111
Belo Horizonte, então, já era comarca. obras e serviços realizados posteriormente à
Pela Lei mineira n. 0 223, promulgada em se-
inauguração da cidade. Computando-se os
tembro de 1897, ficava criada na cidade de gastos efetuados pela União, em edificios e
Minas uma comarca de 4.a entrância, com obras federais, e o que despenderam os par-
a denominação de "Belo Horizonte", insta-
ticulares na construção de prédios e monta-
lada a 21 de março de 1898, no edifício
gem de fábricas, o custo da nova capital,
construído para ser sede do Ginásio Mineiro.
até aquêle ano, se eleva a cêrca de 250 mi-
A primeira repartição pública instalada lhões de cruzeiros .
em a nova cidade foi a Coletoria Estadual,
A mudança da capital, que se iniciou
conjuntamente com a Caixa Econômica, lo-
a 10 de agôsto de 1897, com a instalação
calizada provisoriamente no prédio da Co-
da Coletoria Estadual e da Caixa Econômi-
missão Construtora, no dia 10 de agôsto de
ca no prédio que servia de sede à Comissão
1897. E o primeiro dos Poderes Públicos
Construtora, e se intensificou no período
que se transferiu para a cidade de Minas foi
compreendido entre os meses de setembro
o Judiciário, representado pelo Tribunal de
e dezembro dêsse ano, custou ao Tesouro
Relação, que se instalou a 1 ° de setembro,
Mineiro a importância de Cr$ 34 937,40.
em uma sala da Secretaria do Interior. Tô-
da a mudança da capital se foi fazendo de
Inauguração oficial da nova capital
setembro a dezembro daquele ano, só per-
manecendo em Ouro Preto a Imprensa Ofi- Às vésperas da instalação solene da ca-
cial, cujo prédio, na nova sede do govêrno, pital, em sua nova sede, Belo Horizonte
ainda não se achava concluído. Foi êsse um apresentava movimento e animação jamais
período de intensa agitação nas duas cidades verificados anteriormente . Grande entusias-

R :P M.- 8
114 REVISTA BRASILEIRA DOS MuNICÍPIOS

mo reinava entre os seus habitantes e a po- ao pavilhão central, assinou o Decreto n.o
pulação crescia diàriamente, de forma im- 1 085, que inaugurou oricialmente a nova
prevista, com as levas de pessoas que che- sede do Govêrno Mineiro . Depois de refe-
gavam para se incorporar, desde os primeiros rendado pelos Secretários do Estado, 0 De-
momentos, à vida da nova capital. Os hotéis creto foi lido, em voz alta, para o povo, pelo
da cidade tornaram-se, de repente, insufi- Sr. EsTÊVÃO LOBO, oficial de Gabinete da
cientes para abrigar os inúmeros forasteiros, Presidência. Foi dada, nesse momento, uma
seduzidos talvez pelas possibilidades que ofe- salva de 21 tiros, e três bandas de música
recia a nova sede do Govêrno do Estado . executaram o hino nacional. A multidão
A Comissão encarregada dos festejos aclamava delirantemente os três Poderes do
inaugurais, constituída de elementos de tô- Govêrno, o Conselheiro AFONSO PENA e as
das as classes da sociedade belo-horizontina, principais figuras que haviam concorrido
cuidava, entusiàsticamente, da ornamentação para a construção da nova capital. Nesse
da cidade e de todos os preparativos para as momento, uma chuva de pétalas de flôres
solenidades do grande dia que se aproximava. caiu sôbre a cabeça do Presidente BIAS
Belo Horizonte, nessa ocasião, contava FORTES. Vários oradores discursaram, enal-
já com cêrca de dez mil almas. tecendo o acontecimento e os seus realizado-
Dois grandes arcos triunfais foram ar- res. Em seguida, realizou-se o "Te-Deum",
mados, um na Praça da Liberdade e outro fazendo-se ouvir uma orquestra de Ouro
na Praça da Estação. As casas das ruas prin- Preto.
cipais apresentavam-se enfeitadas de flôre~ Fatigado pela viagem e pela caminhada
e folhagens a pé pelas ruas da cidade, o Presidente BIAS
A 11 de dezembro, à tarde, inaugurou-se FORTES e sua família recolheram-se ao Pa-
a luz elétrica da cidade Com enorme ansie- lácio Presidencial, terminando assim a so-
dade e forte expectativa, a população se re- lenidade inaugural da cidade de Minas O
colheu para aguardar o dia seguinte . povo, porém, continuou pelas ruas até altas
Ao alvorecer do dia 12 de dezembro de horas da noite, festejando o acontecimento.
1897, os habitantes de Belo Horizonte foram Os festejos inaugurais ainda prosseguiram
despertados por uma salva de 21 tiros, pelos no dia seguinte, com manifestações de aprêço
sons vibrantes do hino nacional e das mar- ao Presidente BIAS FORTES e à Comissão
chas triunfais tocadas por duas bandas de Construtora .
música. 0 Engenheiro FRANCISCO BICALHO apre-
Às 5 horas da madrugada, partiram de sentou, nesse dia, o seu pedido de exonera-
Barbacena, com destino à nova capital, o ção da chefia da Comissão Construtora, no
Presidente BIAS FoRTES e sua grande comi- que foi seguido pelos seus auxiliares ime-
tiva. Um trem especial partiu de Belo Ho- diatos. Sàmente pelo Decreto 1 099, de 3
rizonte às 11 horas, levando numerosa cara- de janeiro de 1898, foi extinta a Comissão,
vana ao encontro do Presidente do Estado passando os serviços a ela atinen{es à Se-
e dos seus auxiliares e convidados. cretaria de Agricultura, Comércio e Obras
Ao meio dia chegou à estação de Gene- Públicas.
ral Carneiro o comboio presidencial, recebi- Várias homenagens receberam ainda o
do ao som do hino nacional e entre ruidosas Sr. FRANCISCO BICALHO e seus auxiliares no
aclamações populares. As locomotivas "Be- decorrer dos meses de dezembro e janeiro
lo Horizonte" e "Ouro Preto" conduziram do ano seguinte A 2 de janeiro, o Presidente
a grande composição de treze carros que BIAS FORTES ofereceu, no Palácio Presiden-
partira de General Carneiro às 13,15 horas. cial, um grande banquete aos membros da
Às 14 horas, chegavam a Belo Horizonte o Comissão Construtora, durante o qual dis-
Presidente CRISPIM }ACQUES BIAS FORTES cursaram diversos oradores, exaltando a o-
e sua comitiva e os membros da Comiss;;o bra realizada.
que se dirigiram ao encontro do trem presi- A criação da Prefeitura Municipal
dencial O povo delirou de contentamento e
entusiasmo. Cêrca de oito mil pessoas. aglo- A Prefeitura Municipal da cidade de
meradas na Estacão de Minas e adiacências. Minas foi criada poucos dias depois da inau-
prorromperam e~ aclamacões ao Presirlent<o> gurarão da nova sede do Govê~no Mineiro,
do Estado, aos membros da Comissão Cons- isto é, a 26 de dezembro de 1897, pelo De-
trutora, aos Secretários do Govêrno e a tôdas creto n. 0 1 088 Nesse mesmo rlia. era
as pessoas ele destaque que haviam contri- nomeado seu primeiro Prefeito o Sr ADI\L-
buído para a mudança da capit31 Na Praça BERTO DIAS FERRAZ DA Luz, antigo Chefe
da Estação, formou-se o grande cortejo, que da Divisão dos Serviços Municipais da ex-
seguiu a pé pela Avenida Amazonas, rua <inta Comissão Construtora A instala~ão da
Espírito Santo, Avenida Afonso Pena, rua Prefeitura realizou-se a 3 rle ianeiro de, 1893,
da Bahia, rua Gua.iaiaras e Avenida da Li- no roeRmo dia em QPe foi "ssinado n decreto
berdade, e chegou à Praça da Liberdade. de extinção da Comissão Construtora da ci-
Em frente ao Palácio Presidencial esta- dade
vam armados o pavilhão central, em forma Os primeiros atos da administracão do
de zimbório, destinado à assinatura do decre- Prefeito de Minas visaram à organizacão dos
to inaugural e os pavilhões construídos para servico' municipais e o fornecimento' de ta-
os convidados e para as bandas de música belas ele pesos e medidas às casas comerciais
O Presidente BrAS FORTES, de posse da ca- No dia 4, o Sr. ADALBERTO DlAS FERRAZ D<\
neta de ouro e do tinteiro de prata ofere- Luz determinou fôsse iniciarlo o reP"istro de
cidos pela população, especialmente para óbitos no cemitério definitivo. mais tarde
aquela solenidade, pouco depois de chegar denominado cemitério de Bonfim Pelo De-
lNQUÉHITOS E REPOHT AGENS 115

ereto n. 0 1 113, de 16 de março daquele Pangaréis, do Taquaril, do Navio, do Rola-


ano, foi aprovado o regulamento do impôsto -1V1oça e da Mutuca. A área do Município
de indústrias e profissões. O Prefeito, então, é, atualmente, de 194 milhões de metros
ordenou fôsse feito o primeiro lançamento quadrados.
de impostos do Município. A cidade de Mi- Belo Horizonte limita-se a oeste com
nas contava, por ocasião da inauguração ofi- os Municípios de Betim e Pedro Leopoldo,
cial da nova sede do Govêrno do Estado, começando na serra do Curral, no ponto de-
com 500 casas residenciais, comerciais e in- nominado serra da Piedade, no entronca-
dustriais, além dos prédios em que se insta- mento com a serra do Jatobá, junto à Var-
laram as Secretarias e os serviços públicos. gem da Caveira; segue pela cumiada da serra
Impulsionada pela iniciativa particular do J atobá e pelo espigão divisor dos ribei-
e oficial, a cidade crescia ràpidamente nos rões Jatobá e Ibirité, passando pelo Tunel
seus primeiros tempos de vida. Autorizadas de J atobá, até atingir o Alto da Lagoa Sê-
pelo Govêrno, várias firmas particulares de- ca; continua pelo divisor entre o ribeirão de
ram início à construção de vilas populares, Jatobá e o córrego da Ferrugem, passando
constituídas de grupos de pequénas casas pelos morros Vermelho e Grande até o ponto
para alugueres a baixo preço A primeira a fronteiro à cabeceira do afluente do ribeirão
surgir foi a Vila Bressane, construída nas dos Arrudas, que tem sua foz nas proximida-
ruas Grão Mogol e Alfenas. des do quilômetro 624 da Estrada de Ferro
Em 1898, foi elaborado e decretado o Central do Brasil; desce por êste afluente
primeiro orçamento da receita e despesa dB até o ribeirão do J atobá, pelo qual segue
Prefeitura de Minas, para o ano seguinte, até a foz do córrego do Barreiro; sobe por
no montante de Cr$ 500 500,00. O orça- êste até a linha férrea da Central do Brasil;
mento para 1947, ano do cinqüentenário da continua por esta linha até o ribeirão dos
cidade, atingiu a importância de Cr$ Arrudas, pelo qual sobe até a foz do cór-
70 293 000,00. rego da Ferrugem; sobe por êste córrego
Os primeiros calçamentos a paralelepí- até o ponto mais próximo do quilômetro 889
pedos da cidade foram iniciados em 1899. da linha férrea da Rêde Mineira de Viacão·
Durante a administracão do Prefeito FLÁVIO segue em reta até êste ponto; continua peh~
DOS SANTOS, iniciara'm-se os trabalhos de via férrea até o córrego dos Carneims, descen-
pavimentação das vias públicas a macadame do por êste até o córreço da Água Branca, pe-
betuminoso e asfalto. lo qual segue até a grota do Desbarrancado;
0 ~refeito 0TACÍLIO NEGRÃO DE LIMA, sobe pelo Desbarrancado e pelo espigão en-
que, no momento atual, ocupa pela segunda tre os córregos dos Carneiros e do Sebastião
vez a Prefeitura da cidade, durante o pe- até o alto fronteiro ao córrego das Taiobas;
ríodo de sua primeira administração, que se continua por espigões, contorna as cabecei-
extendeu de 8 de abril de 1935 a 18 de ras do córrego dos Coqueiros e segue pelo
abril de 1938, pavimentou grande parte da Alto de João Gomes, divisor de águas dos cór-
cidade e dos subúrbios, sendo sua obr.,; com- regos da Ressaca e João Gomes, até defrontar
pletada, alguns anos mais tarde, pelo Sr. a cabeceira do córrego da Luzia; continua pe-
JUSCELINO KUBITSCHECK DE OLIVEIRA. lo divisor da vertente da margem direita do
Em 1901, o Congresso Mineiro restabe- córrego da Luzia até atingir êste córrego,
leceu como nome da cidade a antiga deno- na confluência do seu afluente da margem
minação de Belo Horizonte, que fôra dada esquerda, que vem da Barroca, junto ao Açu-
ao arraial em 1890, em substituição ao de de dos Campos; desce pelo córrego da Luzia
Curral del-Rei. Até essa época, a capital mi- até sua foz, no ribeirão do Cabral; atraves-
neira, em obediência à Lei n. 0 3, de dezem- sando êste ribeirão, sobe o espigão fronteiro
bro de 1893, denominava-se Minas, apesar de e continua pelos contrafortes do morro do
muito poucos se referirem a ela sob essa Confisco, até o ponto fronteiro à cabeceira
denominação. do córrego que passa no sítio do Tenente
Em setembro de 1902, inaugurava-se no Castorino; desce por êste córrego até a sEn
Município da capital o serviço de bondes foz, no córrego de Muniz ou Braúnas; atra-
elétricos, com quatro carros, sendo aprovei- vessando êste último, sobe os espigões fron-
tadas para isso as linhas do extinto ramal teiros e continua pelo divisor da vertente da
férreo urbano do tempo da construção da margem esquerda do córrego da Água Funda
cidade ou Cangorra até o Alto da Mamoneira, al-
Com o desenvolvimento crescente da ca- cancando o alto do Siqueira, defronte à c~J­
pital, apareceram os primeiros teatros, cine- beceira do córrego Olhos Dágua; aí termi-
mas, hosuitais e jornais de vida mais dura- nam os limites com o Município de Betim
doura Entre êstes, o Minas Gerais, que e começam os com o de Pedro Leopoldo;
foi publicado na cidade de Minas em junho da cabeceira do córrego Olhos Dágua, no
de 1898, e que continua circulando presen- divisor de águas dos ribeirões da Pamoulha
temente como órgão oficial do Estado. e das Areias, segue a linha divisora ~té t1
entroncamento com o divisor de águas do
Situação física da capital mineira córrego do Izidoro e ribeirão da Pampulha,
defronte à cabeceira do córrego que passa
O Município de Belo Horizonte está si-
no moinho de José Alfredo.
tuado a 19°55'57" de latitude sul e a Limita-se ao norte com o de Santa Lu-
43°56'32" de longitude oeste do meridiano 7ia, começando no entroncamento do divisor
de Greenwich, num vale de altitude média rle ágvas -dos ribeirões da Pampulha e das
de 836 metros, entre as serras do Curral, do Areias. no seu entroncamento com o divisor
Jaborema, do Jatobá, do José Vieira, do de águas do córrego do Izidoro e ribeirão
116 REVISTA BRASILEIRA nos MuNICÍPIOS

da Pampulha; segue pelo divisor da vertente O recenseamento geral de 1900 atri-


da margem esquerda do ribeirão Bitácula buiu-lhe 13 472 habitantes. Em 1907, a
ou Pampulha, até o ponto fronteiro à ponte nova capital do Estado montanhês já con-
da Pampulha, na rodovia Belo Horizonte - tava com 20 913 habitantes. Em 1910, a
Venda Nova; atinge o ribeirão da Pampu- população havia ascendido a 35 000 indiví-
lha nessa ponte, e desce por êle até a foz duos, em 1912, já atingia a 40 256 habi-
de seu afluente da margem direita, junto à tantes, e, em 1920, 55 563 almas. Cinco
ponte da rodovia entre Matadouro e Onça, anos depois, em 1925, a população foi esti-
subindo êste córrego até sua cabeceira; daí mada em 81 596 indivíduos. Em 1928, atin-
segue pelos espigões, contornando as cabe- gia 101 283 habitantes. Em relação aos
ceiras do córrego do Barreiro, até o alto pró- dez mil habitantes que possuía a cidade,
ximo do Portão de Pedra . quando da sua inauguração, o crescimento
Os limites municipais de Belo Horizon- populacional, de 1897 a 1928, foi de
te, a leste, com o Município de Sabará, co- 912,83%. Em 1931, foi estimada para Belo
meçam no alto próximo do Portão de Pedra, Horizonte a população de 125 720 habitan-
fronteiro às cabeceiras do córrego do Bar- tes. Em 1935, ascendera a 167 712 almas.
reiro; a linha segue por espigões, contornan- O recenseamento geral de 1940 atingiu,
do as cabeceiras do córrego do Malheiro, na capital do grande Estado mediterrâneo,
passando pelo espigão das cabeceiras do cór- a 211 377 habitantes. Em relação ao recen-
rego do Açude e alcançando as cabeceiras seamento de 1900, o crescimento de popu-
Ido córrego que passa no Cachorro Magro, lação verificado foi de 1 469%. A densi-
~pelo qual desce até a sua foz, no ribeirão dade demográfica do Município de Belo Ho-
<dos Arrudas; desce por êste córrego até a rizonte, segundo êsse recenseamento, era de
foz do córrego do Olaria, pelo qual sobe 952 habitantes por quilômetro quadrado.
até a sua nascente, próximo ao quilômetro Em 1944, a população da capital mi-
11 da rodovia de Belo Horizonte a Sabará neira, segundo estimativa feita em 31 de
e Nova Lima; dêste ponto alcança a cumiada dezembro dêsse ano, era de 230 668 indiví-
da serra do Curral, no trecho em que se deno- duos. Finalmente, por ocasião dos festejo&
mina serra do Taquaril; e segue pela cumia- comemorativos do cinqüentenário de sua
da desta serra até o marco "CT". fundação, Belo Horizonte estava com uma
Ao sul, Belo Horizonte limita-se com os população estimada em 293 420 habitantes.
Municípios de Nova Lima e Brumadinho.
A situação cultural da capital mineira
Com o primeiro, a linha limítrofe, partindo
do marco "CT" da serra do Taquaril, se- É bastante expressivo o desenvolvimento
gue pela cumiada da serra do Curral, pas- alcançado pela capital mineira no setor do
sando pelos trechos denominados Taquaril, ensino. A instrução primária foi iniciada na
Pico, Serra, Ponta, Rabelo, Água Quente, cidade pelos Colégios "Cassão", "Progresso",
Mutuca, José Vieira, até o entroncamento e da "Imaculada Conceição" e por duas es-
com a serra da Moeda, no "Marco 17", no colas públicas existentes à época da inaugu-
lugar denominado "Varginha"; com o segun- ração da capital. A instrução secundária teve
do, partindo da extremidade da serra da início com o Externato do Ginásio Mineiro,
Moeda, ao norte, no ponto denominado "Var- transferido de Ouro Prêto para a nova cidade
ginha", no entroncamento com a serra do em 1899. Um ano antes, em 1898, inicia-
Curral, em frente às cabeceiras dos ribeirões va-se o ensino normal em Belo Horizonte
da Mutuca e Barreiro, segue pelo espigão através da Escola Normal Livre, fundada
daquela serra, na distância de mil e quinhen- pelo Padre FRANCISCO MARTINS DIAS.
tos metros. até o ponto em que se denomina O ensino profissional surgiu na cidade
serra da Piedade, no entroncamento com a logo após a inauguração da nova capital,
serra do Jatobá, junto à Vargem da Caveira. ministrado pela Escola Operária, fundada
O clima de Belo Horizonte é dos mais pelo Coronel JÚLIO CESAR PINTO COELHO.
saudávPis, sendo mesmo considerado superior Somente em 1911 tiveram início os cur-
ao de Campos de J ordão. Sna temperatura sos de Comércio e de Estudos Econômicos
média é de 16,8° C (62,2° F), no seu mês em B<~lo Horizonte, com a fundação do Ins-
mais frio, Olle é iulho, e ne 22.3° C (72.1° tituto Comercial João Pinheiro. O ensino
F) no ~Pn mês mais quente, ane é fevoreiro. de música iniciara-se anos antes, em 1901,
P"mmente a temperatura de•ce além rle através da Escola Livre de Música, fundada
fi° C, P'> inv<erno. e sobe a mflis rle 30° C, pelo Professor FRANCISCO JOSÉ FLÔRES,
nn verão ne clima temnerarlo e sflt'n. a Pouco tempo depois de inaugurada a
Cl'l,-,ihl mineira é constantemente ventilarla nova capital do Estado montanhês, em 1898,
por Cl"'\rrPPtP'! alíseas que sopram, em geral, foi para aí transferida a Faculdade Livre
na direcão NE. de Direito, que funcionava em Ouro Prêto,
tendo, assim, início o ensino superior em
O crescimento da pooulação belo-horizontina Belo Horizonte.
Atualmente a capital mineira possui
A popularão da cauital mineira teve grande número de escolas de nível primário,
crescimento bastante rápido, mercê das con- secundário, superior, técnico e profissional
dirões de seu clima e das suas prÓprias po~­ Em 1945, contava o Município com 131 es·
sibilidades de crescimento e progresso. Por tabelecimentos de ensino primário geral, nos
ocasião de sua instalação oficial, em 12 de quais a matrícula geral era de 37 364 alu
dezembro de 1897, Belo Horizonte contava nos e a efetiva de 30 617; concluíram curso,
com uma população de oito a dez mil habi- nesses estabelecimentos, no ano em referên-
tantes. cia, 4 948 alunos. Nesse mesmo ano, era
NoTiCIAS E CoMENTÁRios 117

de trinta e nove o número de estabeleci- que em 1939 era de 161,81, baixou para
mentos de ensino secundário, com matrícula 99,89 em 1947.
geral de 8 210 alunos e efetiva de 7 742.
O ensino superior contava, no referido ano, Belo Horizonte como Município produtor
com vinte e cinco cmsos, nos quais se acha-
O Município de Belo Horizonte, quanto
vam matriculados 1 786 alunos; concluíram
curso, nesse ano, 369 alunos. à produção agrícola, pecuária e industrial,
No setor do ensino pedagógico, existiam vem acusando contínuo crescimento nos últi-
em Belo Horizonte, em 1945, onze estabe- mos anos.
lecimentos de ensino, com o corpo discente O volume da produção agrícola da ca-
de 993 alunos. Os ensinos comercial e artís- pital do Estado montanhês, segundo os prin-
tico contavam, cada qual, com dezenove es- cipais produtos, inclui alho, batatinha, mi-
tabelecimentos, nos quais estavam matricu- lho, algodão em caroço, feijão, cana de açú-
lados 2 259 e 234 alunos, respectivamente. car, mandioca, cebola, batata doce, arroz
O ensino profissional era ministrado por treze (em casca), amendoim, tomate e uva, dentre
estabelecimentos, a 727 alunos. Nesse ano, os produtos principais.
existia somente um estabelecimento de en- A produção de couros e peles, no Mu-
sino doméstico na capital mineira, sendo seu nicípio, no ano em aprêço, foi de 942 619
corpo discente de 153 alunos. quilogramas, no valor de Cr$ 2 546 616,00.
Podemos assinalar ainda, no mesmo ano, Foram abatidas, nesse ano, nos matadouros
a existência, em Belo Horizonte, de seis de Belo Horizonte, 78 426 cabeças de gado,
cursos não especificados de ensino, nos quais sendo 58 540 de bovinos, 17 652 de suínos,
se achavam matriculados 49 836 alunos. 971 de ovinos e 1 263 de caprinos, que
Os vinte e cinco cursos de ensino supe- corresponderam a 12 992 667 quilogramas
rior existentes na capital mineira fazem par- de carne, no valor de Cr$ 59 920 773,00.
te da Universidade de Minas Gerais. A produção da indústria extrativa mi-
Em 1944, existiam na capital mineira neral de Belo Horizonte, em 1945, segundo
cinqüenta e duas bibliotecas públicas, semi- os principais produtos, foi de 67 799 tone-
públicas ou particulares ladas de areia e pedras para construção, no
A imprensa belo-horizontina contava, valor de Cr$ 2 303 389,00; 109 quilogra-
nesse ano, com trinta e dois periódicos mas de estanho, no valor de Cr$ 3 705,00;
Além disso, pode-se assinalar ainda, em Be- 3 384 345 quilogramas de gusa, no valor de
lo Horizonte, a existência de várias estações CrS 4 399 649,00; 12 121 toneladas de mi-
de radiodifusão e de diversas ínstituicões nério de ferro, que montaram em Cr$
culturais, entre elas o Instituto Históric;, a 245 754,00; 80 979 unidades de manilhas,
Academia de Ciências e a Academia de Le- "tees", junções, cruzetas, etc., no valor de
tras CrS 449 246,00; 2 000 milheiros de telhas,
A assistência médico-sanitária no valor de Cr$ 1 994 063,00; 14 861 mi-
lheiros de tijolos comuns, que importaram
No setor da assistência médico-sanitá- em Cr$ 3 996 869,00; 6 milheiros de tijolos
ria, Belo Horizonte apresenta desenvolvi- refratários, no valor de CrS 12 000,00; velas
mento realmente significativo Em 1945, a para filtros no valor de Cr$ 48 520,00; ou-
capital mineira possuía cinqüenta e quatro tros artefatos de barro que montaram em
estabelecimentos de assistência, compreen- Cr$ 127 910,00; e 500 296 quilogramas de
dendo hospitais, clínicas, ambulatórios e ou- óleo de caroço de algodão, no valor de Cr$
tros de caráter oficial. 2 775 533,00.
Nos seus vinte e um hospitais, existiam
3 023 leitos, sendo 1 003 em hospitais ge-
rais, 83 nas maternidades, 67 nos hospitais Uma das mais belas cidades do Brasil
para crianças, 534 nos para doentes mentais
e nervosos, 833 nos para tuberculosos e 200 Na passagem do cinqüentenário da fun-
em hospitais sem especificação. dação de Belo Horizonte, essa cidade, tra-
Nas clínicas gerais de Belo Horizonte, çada e construída segundo plano preestabe-
existiam quatorze leitos, nas de otorrinola- lecido para servir de sede ao govêrno do
ringologia, dezessete e em outras, sem espe- grande Estado montanhês, apresenta todos
cificação, vinte e três. os elementos de progresso e de confôrto so-
Em 1946, os hospitais belo-horizontinos cial necessários a uma grande capital.
admitiram 25 957 doentes. Os seus ambu- Através dêsses cinqüenta anos de cres-
latórios, nesse mesmo ano, atenderam a 271 cimento ininterrupto, durante os quais os
mil doentes Isso sem contar, por falta de belo-horizontinos tudo fizeram para o en-
dados exatos, os doentes admitidos em três grandecimento de sua terra, a capital mi-
de seus hospitais. neira, do antigo e insignificante povoado de
Segundo dados fornecidos pela Divisão Curral del-Rei, sem água, sem esgotos, sem
de Demografia e Educacão Sanitária do De- iluminação de qualquer natureza, povoado
partamento Estadual de Saúde de Minas Ge- apenas por alguns mil habitantes, transfor-
rais, cresce atualmente o índice vital em mou-se numa das mais belas e civilizadas
Belo Horizonte, diminuindo, por outro lado, cidades do Brasil, - centro de cêrca de
a mortalidade infantil. 300 mil almas, de alto nível cultural, que
O Índice vital, na capital mineira, que atua como poderoso foco irradiador de pro-
era de 146 em 1938, subiu para 212 no ano gresso sôbre tôda a grande área circunvizi-
passado. O índice de mortalidade infantil, nha.

OS MUNICÍPIOS E A MENSAGEM
PRESIDENCIAL
O abrir-se a sessão legislativa de 1948, Para a sua elaboração ponderada e ser~na,

A a 15 de março, o General EuRICO GAS·


PAR DUTRA, Presidente da República,
enviou Mensagem ao Congresso Nacional sô-
encontraiS ambientes políticos em que se fazem
sentir os primeiros efeitos do entendimento inter-
partidário, que teve cotno seu propósito primacial,
precisamente, o propiciar-vos, e ao Govêrno, a tran-
bre a situação do País e as atividades do qüilidade imprescindível para o prosseguimento de
uma obra inadiável de recuperação política e eco-
Govêrno Federal, no decurso do ano anterior. nômica.
Nesse longo trabalho de exposição da Certo da dedicação com que vos empenhais
situação brasileira e das providências toma- nas vossas tarefas, congratulo-me convosco, pelo
das pelo Govêrno da União, o Chefe do início de mais uma etapa legislativa, cujos frutos
a opinião nacional aguarda com expectativa conw
Executivo fêz ponderações relativas à polí- fiante
tica econômico-financeira a ser observada Tanto no âmbao político, quanto no econômi-
durante o ano em curso, conclamando os par- co-financeiro, foi sensível o terreno conquistado no
lamentares de todos os partidos a um es- transcurso dêste ano de trabalho
fôrço conjunto que possibilite a solução dos
Saldo orçamentário
grandes problemas nacionais
Em certo trecho da Mensagem, o Pre- De acôrdo com as conte1s que, em detalhe, vos
sidente da República assinala a importância serão oportunamente remetid !ls, a execução orça-
do revigoramento dos Municípios para o en- mentária, no exercício passado, encerrou-se com um
saldo de 460 milhões de cruzeiros O esfôrço de-
grandecimento do País, focalizando as novas mandado, para que se chegasse a êsse resultado,
diretrizes da política municipalista, determi- pode ser avaliado, atentando-se à circunstância de
nadas pelo refôrço às finanças dêsses orga- que a absorção do últin10 aumento de vencimentos,
nismos básicos da estrutura nacional, decor- concedido aos servidores federais, determinara, ape-
nas no ano anterior, "deficit" sem precedentes de
rente de dispositivo constitucional que lhes 2 bilhões e 600 milhões de cruzeiros Se aproxi-
atribui parte do impôsto de renda arrecada- mo essas duas cifras, é mais com o propósito de
do pela União. Acentua, também, os be- prevenir-vos contra qualquer tendência a um oti-
mismo que não se justifica. Precisamos, ainda, con-
nefícios que advirão para o País em função solidar o que já foi obtido, indubitàvelmente com
da revitalização dos Municípios e do estí- o sacrifício de muitas iniciativas e atividades, pro-
mulo que será dado às populações rurais bra- veitosas para o País, mas que nos vimos na contin-
sileiras com a aplicacão de metade dêsse re- gência de reduzir ou suprimir Os recursos do erá-
rio federal crescem em proporções muito menores
fôrço, segundo ainda o que estabelece a do que as suas necessidades, excluída qualquer som-
Constituição da República, em iniciativas em bra de largueza ou veleidade suntuáda na apre-
favor do homem dos campos. A fim de que ciação que delas se faça
seja fielmente cumprido êsse mandamento
Paralisação das emissões
constitucional, lembra a possibilidade de
serem utilizadas, para fiscalizar a sua exe- Essa execução orçamentária estrita nos permi-
cucão, e sem desvirtuamento de suas atri- tiu estancar o fluxo emissionista, de que o País pa-
buições normais, as delegacões do Trihunal decia há muitos anos Com exceção de 100 mi-
lhões de cruzeiros, emitidos em dezembro passa-
de Contas, junto às Delegacias Fiscais do do, para atender sobretudo às necessidades de nu-
Tesouro Nacional, e o sistema do Instituto merário que se acentuam nessa época do ano, nada
Brasileiro de Geografia e Estatística. foi lançado à circulação nos outros onze meses Em
31 de dezembro, o montante em circulação era
É o seguinte o texto da introdução à mesmo inferior ao de um ano antes Concorreu
Mensagem presidencial enviada ao Congresso para êsse resultado o alívio da pressão exercida,
no sentido inflacionista, pelo constante excesso das
Nacional por ocasião da abertura dos traba- exportações sôbre as importações. Ainda aí, no en-
lhos legislativos de 1948: tanto, uma palavra de cautela: não desapareceu,
de todo, a necessidade do financiamento da nossa
uPela segunda vez e em cumprimento a pre- produção exportável Como acentuei em discurso
ceito constitucional, venho dar-vos conta da situa- pronunciado no último dia do ano, a venda em moe-
ção do País e solicitar as providências julgadas da arbitrável de tudo o que exportamos só pode-
convenientes à boa marcha dos negócios públicos rá ser obtida através de medidas de ordem inter-
Desejo expressar a esperança, compartilhada nacional, escapando, em boa parte, à nossa alçada.
pela Nação, de que a sessão legislativa de 1948, Por outro lado, não podemos nos ausentar de mer-
ora iniciada, será de grande proveito para o bom cados que se recompõem, e sempre mantiveran1,
ordenamento da nossa vida legal e para a adminis- com o Brasil, intercâmbio grande e mUtuamente
tração federal proveitoso É de esperar que a reconstrução dos
Tendes em mãos grande cópia de projetos, países talados pela guerra e o seu restabelecimento
indo de leis complementares da Constituição a prow econômico e político façam sentir, progressivamente,
vidências de caráter administrativo, todos de rele- os seus benéficos efeitos
vante significância para a completa estruturação do
regime e para o trato das questões que importam Poupança de recursos
à vida nacional, tanto as de interêsse imediato
quanto as que equacionam, a longo prazo, os nos- Contudo, conheceis os obstáculos deliberada
sos problemas fundamentais e artificialmente opostos a êsse processo de recupe-
NoTÍCIAs E CoMENTÁRios 119

ração, para os quais contingência infeliz de pendentes, também os quer harmônicos; nem por
que também não estamos imunes ~ concorreu a terem definidas a sua jurisdição territorial e com..
cumplicidade de nacionais de cada um dos países petência administrativa, deixam a solidariedade e a
interessados É êste apenas um aspecto da disputa cooperação entre as unidades de govêrno de ser
que se trava entre os que desejam a normalidade inerentes à Federação e condição da própria exis~
e visam à paz, para todos os povos e com tôdas tência nacional.
as nações, e os que, com apoio em um movimento
aparentemente internacional, se propõem a estabe- Ação moderadora do Govêrno federal
lecer a supremacia e o domínio incontrastável de
uma delas, Não poderemos, ainda que o queiramos, Todavia, nenhum estatuto político será mais
fugir às vicissitudes de uma vida internacional que sábio nas suas disposições, do que o faça a sabe~
se caracteriza pelo abuso e pela incerteza Elas nos daria da coletividade que por êle se rege e, do
atingem na nossa economia e nos ameaçam pelo mesmo passo, lhe infunde vida e vigor. Na pers ...
simples fato da nossa posição geográfica Temos, pectiva dos meses transcorridos, pode dizer-se que
pois, o dever de colocar no primeiro plano das a experiência dessas relações, entre governos e en~
nossas cogitações a preservação do nosso País, tal tre poderes, depõe a favor da maturidade política
como o recebemos dos que vieram antes de nós: da Nação As exceções havidas, longe de infirmar)
uno e senhor dos seus destinos, disposto à colabo- vêm dar apoio a essa assertiva, pois os desajusta~
ração, no plano internacional, e até a aceitar as mentes ocorridos acabam por se resolver, sem
restrições daí decorrentes, mas reservando-se agora, necessidade do recurso aos meios facultados pela
como sempre o fêz, a apreciação e deliberação no Constituição, para assegurar a primazia dos seUs
que concerne aos seus interêsses. princípios e a do interêsse nacional Graças à pre~
Peço considereis estas palavras como uma ad- sença e à atuação suasória de representantes do
vertência, para nosso próprio uso: devemos pou- Govêrno federal, puderam ser removidas as difi~
par severamente os nossos recursos - orçamentários culdades que se manifestaram em Alagoas, entre
e oriundos do comércio exterior - para aplicá-los, o Poder Judiciário e o Executivo, e entre êste e o
preferentemente, no que concorra para fortalecer o Legislativo, no Piauí Os bons ofícios assim inter~
Brasil - econômica, política e militarmente - , postos, por duas vêzes no último Estado, foram
incluindo-se nesse conceito tudo o que sirva para bem recebidos e reconhecidas a imparcialidade e a
aumentar o bem-estar do seu povo e estreitar, en- correção com que se houveram aquêles enviados
tre nós, os lian1es da solidariedade social Mais recentemente, foi deliberada a ida de um ob . .
servador a Goiás, o que se fêz, não só com o assen-.
Colaboração interpartidária timento, mas por solicitação dos interessados É
em virtude da eqüidistância sempre mantida, com
Foi para servir a êsse intento que me empe- respeito ao objeto mesmo das diferenças surgidas,
nhei, no ano findo, com a mesma sinceridade e ou em relação às parcialidades políticas nelas em~
pertinácia com que o faço desde que a Nação me penhadas, que tem podido o Govêrno federal exer~
concedeu a honra insigne da sua escolha - em cer tal ação moderadora Reveste-a de autoridade
alcançar uma base para a colaboração dos partidos moral a certeza - que já deve ter penetrado todos
democráticos e nacionais, em tôrno do superior ob- os espíritos - de que a move o propósito umco
jetivo da preservação nacional e do encaminhamento de conciliar todos os brasileiros e de que a guia,
dos problemas que dizem de perto com a vida do invariàvelrnente, o respeito à lei
nosso povo. Logrando obtê-la, graças à compreen-
são e ao espírito patriótico dos líderes dos maiores Preeminência da Constituição Federal
partidos, desejo exprimir a convicção de que ao
povo brasileiro caberá a colheita dos seus frutos E foi êsse mesmo respeito, aliado ao dever de
Não me moveram, quando busquei êsse entendi- assegurar a preeminência da Constituição Federal,
mento, propósitos egoísticos: convém, mesmo, que que ditou as palavras que proferi em Pôrto Alegre,
se mantenha vivaz a crítica aos atos do Govêrno maio passado, quando parecia ganhar corpo, em al-
É ela necessária para que melhor se aperceba das guns Estados, a tendência de estruturar os poderes,
necessidades do País e das reações da opinião pú- nas respectivas Constituições, em bases diversas das
blica, podendo assim retificar o seu curso, sempre prescritas pelo Estatuto da União Era um as~
se haja êle desviado do objetivo constante do maior pecto extremo daquele problema de relações entre
bem para o maior número Tinha em vista, a par os poderes, pois se olvidava que o delicado equi-.
dos maiores riscos que advêm, hoje em dia, da líbrio e as interrelações, da essência do regime,
convivência internacional, a circunstância, de geral consagrados e resguardados na Constituição Fede-
assentimento, de estar o Brasil atravessando período ral, não podem, nem devem ser alterados ao sa-.
de transição: econômicamente, para atingir a nível bar de conveniências ocasionais. As tentativas fei ..
de maior produtividade e diferenciação nas suas tas nesse sentido podiam ainda acarretar, potencial-
atividades; politicamente, para reatar e aprimorar mente, a revisão, à sua revelia, do pronunciamen-.
uma tradição secular de govêrno constitucional to do eleitorado 1 por ocasião do pleito para a es . .
colha dos governadores - a que nenhum candidato
Relações entre Governos e entre Poderes concorreu, nem o povo o escolheu, com outra pre~
sunção que não fôsse a de se indicar o concidadão
Êsse reatamento, ademais, faz-se em bases bem que, por prazo predeterminado, deveria efetivamen~
diversas e mais amplas do que as anteriormente te ficar à frente do Govêrno
vigorantes, quando, se não havia o partido único
- pois as oposições foram uma constante da vida Missão histórica do Supren1o Tribunal Federal
republicana - , poderia afirmar-se, sem fazer vio-
lência à realidade, a existência do "govêrno único", Trazida a controvérsia ao julgamento do Egré~
tal o complexo de interêsses recíprocos que se for- gio Supremo Tribunal Federal, restabeleceu êle,
mara entre os detentores dos postos de mando, pela unanimidade dos votos dos seus juízes, a su-
nos vários níveis de govêrno. Dai ter procurado, premacia da Constituição Federal e a unidade do
na primeira Mensagem que vos dirigi, despertar a regime, em todo o País Não se poderiam superes..
atenção do País para a experiência, inédita entre timar os benefícios causados à estabilidade da or..
nós, da coexistência de governos de diversa pro- dem jurídica e os conflitos evitados por essa de-
cedência partidária, na União, nos Estados e nos cisão, em que aquela Côrte exerceu a sua elevada
Municípios Criava-se, assim, um problema de re- função de arbitramento constitucional Nesse, co-
lações entre os governos das diversas unidades que, mo em outros casos da mesma natureza, não foi
em todos os graus, compõem a fisionomia política preciso levar às últimas conseqüências o processo,
da Nação Essa diversidade podia atingir ainda previsto na Constituição, para assegurar a obser-
- questão que abordarei, mais adiante, sob outro vância dos princípios constitucionais da União. O
prisma - os poderes eletivos da mesma unidade geral acatamento aos arestos proferidos constituiu~se,
de govêrno, dando surgimento a segundo aspecto, da parte de todos, em demonstrações de cultura
comum na origem, daquele problema de relações, política, que colocam em elevado plano os pro-
desta vez entre poderes constitucionais Nessas cessos de govêrno em nosso País ;
condições novas, o acôrdo interpartidário pode e Não foi diverso o proceder do Govêrno Fede~
deve ter utn efeito: o de educar para a convivência ral, quando lhe foi diretamente submetida, pelo
e para a colaboração, no sentido em que as im- então Interventor em Pernambuco, hipótese ver-
põem o bem comum, os mandamentos constitucio- sando dispositivos da Constituição Estadual, em vés ..
nais e a natureza mesma do regime democrático peras de ser promulgada Tratava-se da passagem
e federativo Êste, se estrutura os poderes inde- do govêmo, por êsse seu delegado, ao Presidente da
120 REVISTA BRASILEIRA nos MuNICÍPIOS

Assembléia Legislativa, na qualidade de substituto pamentos instáveis", o que sucede, por não terem,
do Governador e enquanto êste não era diplomado freqüentemente, os chamados partidos majoritários
Deferindo o seu conhecimento à mais alta autori- maioria própria, que lhes permita governar. Bem
dade judiciária do País, comuniquei ao Interventor se pode imaginar como isso se converte, sobretudo
que, após o seu pronunciamento, deveria "transmi- nas comunidades de opinião menos esclarecida ou
tir o Govêrno a quem ( fôr) por ela reconhecido n1enos vigilante, em motivo de corrupção política,
com os atributos legais para assumi-lo" E assim custeada, em última análise, pelos contribuintes
se fêz, funcionando normalmente o mecanismo do Pedindo a atenção do País e dos seus homens pú-
regime. blicos para os males da pulverização partidária e
para a necessidade de organização da vida polí-
Legislação eleitoral tica, quero acentuar que não venho formulando jul-
gamentos pessoais, mas simplesmente recordando
Requer êle, no entanto, ajustamentos que lhe lições de uma experiência de validade universal,
permitam, em certos casos, mais expedito e eficaz monótona na regularidade dos seus desastrosos re-
funcionamento. O ensejo parece o apropriado, por sultados.
exemplo, para uma completa revisão da legislação
eleitoral, expurgando-a dos senões que possibilitam Municipalismo
a fraude e favorecem a chicana É forçoso elimi-
nar do cenário nacional o espetáculo pouco edifi- Nenhum aspecto da obra de organização na-
cante do inconformismo eleitoral tentando a revisão cional sobreleva, no entanto, ao revigoramento neM
judiciária dos pleitos ou a procrastinação dos seus cessário do municipalismo. Estimaram-no, com sa-
resultados A repressão dos crimes eleitorais, por bedoria, os Constituintes de 1946, quando faculta-
outro lado, vem sendo obstada, desde a promul- ratn ao Município recursos mais amplos para o
gação da Constituição, pela falta de lei que re- desempenho das suas tarefas de unidade de govêrno,
gule o seu processo, bem como indique os órgãos a mais próxima do povo, assegurando, ao mesmo
que, dentro da Justiça Eleitoral, dêles devam co- tempo, a sua autonomia. Já no corrente ano e
nhecer (Constituição, Art. 119, n. 0 VII). Enca- na sua integridade, a partir de 1949, ser-lhes-á en~
reço ao Congresso a sua urgente votação para que tregue a parte do impôsto de renda que lhes foi
a Lei não continue a ser desmoralizada pela falta atribuída pela Constituição. Metade da impor-
de punição aos que a transgridem Contamos já tância recebida deverá ser aplicada, por fôrça do
com a experiência de três eleições sucessivas e só próprio mandamento constitucional, em benefícios
em 1950 haverá novo chamamento generalizado às de ordem rutal, cláusula cujo sentido cumpre seja
urnas Amortecidas as paixões dos últimos pleitos fixado na lei completnentar, ora em elaboracão Es-
e enquanto não se iniciam as campanhas para o se- tabelecida, como foi, uma restrição - d~ ordem
guinte, pode o legislador dedicar-se, com o auxilio constitucional - à livre disposição do que fôr en-
dos entendidos e natural apêlo à experiência da tregue pela União a c~da Município, - parece-me
Justiça Eleitoral, à tarefa de dotar o País de um ter o Congresso autoridade para fazer fiscalizar o
sistema eleitoral sensível à vontade popular e ca· seu cumprimento Para êsse fim, lembro a possi-
paz de apurá-la com rapidez e exatidão. Também bilidade de serem utilizados, sem desvirtuamento das
neste caso, é de tôda conveniência a sua elaboração suas atribuições normais, as delegações do Tribunal
no mais breve prazo, pois nas eleições isoladas, de Contas, junto às Delegacias Fiscais do Tesouro
acaso a realizar antes de 1950, poderiam os seus N acionai, e o sistema do Instituto Brasileiro de
dispositivos sofrer a prova da experiência Geografia e Estatística.

Partidos políticos Reforma da vida municipal

Não se limitam, porém, à matéria eleitoral as O refôrço trazido pela Constituição às finanH
necessidades de organização da vida pública brasi- ças municipais corresponde à mesma ordem de
leira. É preciso conquistar para os partidos o preocupações que determinaram a reserva constiM
mesmo conteúdo democrático que pelo voto secre- tucional de percentagens da renda da União, para
to se infundiu ao processo eleitoral Já na mi- a valorização econômica de determinadas áreas do
nha primeira Mensagem ânua, assinalei mister aca- território brasileiro. Representa um esfôrço pela
bar com o monopólio do uso das legendas partidá- organização nacional, causa, como nenhuma outra,
rias, a impedir a renovação de quadros e a inccm- digna de inspirar o entusiasmo das novas gerações
tivar o renitente personalismo que se manifesta Que elas comecem dedicando-se à reforma da vida
em agrupamentos políticos. Êsse personalismo, pe- municipal, tirando-lhe o estéril e mesquinho cará-
lo testemunho uniforme dos fatos, faz-se respon- ter de disputas facciosas. Concitem-se os homens
sável pe'las divisões e subdivisões dos partidos e ditos prestigiosos a medir a sua influência pelos
pela sua proliferação. Há legendas a que dificil- serviços prestados à coletividade e não pelo grau de
mente se poderia emprestar outro caráter, e cujo impunidade que cerque os seus abusos. Ajam as
valor, poB.ticamente, é da mesma natureza do que autoridades municipais na persuasão de que todos
se atribui, na vida comercial, a rr.arcas e nomes os seus Municípios têm o mesmo direito aos seus
nela utilizados. Cabe à lei reprimir formações ar- cuidados Seja assegurada a igualdade dos con-
tificiais e coibir-lhes o surgimento, n1as, do mesmo tribuintes perante o fisco, tanto para pagar o devi-
passo, assegurar expressão às correntes dentro dos do, como para não lhes ser exigido o indevido
partidos, sujeitos todos à regra da maioria Justifi- Tenham as autoridades policiais como seu primeiro
cam-se tais medidas, não só pelo papel legalmente dever garantir o exercício dos poderes municipais
desempenhado pelos partidos, mas ainda pelas con- - sen1 considerações de partido - bem como a
seqüências advindas da demasia de legendas dispu- segurança, a liberdade e a propriedade dos seus
tando a preferência pública e concorrendo para a jurisdicionados, não importando se "correligionários"
confusão do eleitorado. ou "adversários".
Tendo em mente o problema, antes versado, No dia em que êsses objetivos estiverem atin-
das relações entre os poderes, foi que recentemente gidos, as energias libertadas para a iniciativa, a
pleiteei, em Curitiba, uma lei eleitoral, um estatuto atividade criadora e o trabalho - em todo o Bra-
de partidos, que pusessem o povo brasileiro "a sil - constituirão, só por si, a melhor garantia do
salvo dos sobressaltos oriundos da fragmentação das nosso progresso. Convoco os homens públicos dês-
representações nos corpos legislativos, e do para- te País, sobretudo os at"uais administradores esta-
doxo de as mesmas eleições originarem Executivos duais, para que nos empenhemos todos na obra da
e Legislativos de diferentes parcia'lidades, encon- reforma da vida municipal, ponto de partida para
trando-se governos locais na dependência de agru- a organização nacional".
NoTiCIAs E CoMENTÁRios 121

-
ASSOCIAÇAO BRASILEIRA DE MUNICIPIOS
~

A necessidade de despertar a consciência Em Assembléia geral realizada a 15 de


municipalista brasileira estava a exigir a maio de 1946, foram aprovados os seguintes
criação de um Órgão que, colocado acima Estatutos Provisórios da A . B . M. :
de interêsses políticos ou mesmo de obje-
tivos imediatistas, pudesse polarizar a boa CAPíTULO I
vontade de quantos, entre nós, embora sen-
DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE MUNICí-
tindo o drama da vida municipal, ainda não
PIOS E SEUS FINS
haviam encontrado o instrumento adequado
ao estudo e ao encaminhamento de sugestões Art. 1. 0 - A Associação Brasileira de Muni-
e medidas práticas destinadas a revitalizar ctp10S é uma sociedade civil, de âmbito nacional,
as células fundamentais da comunidade na- destinada ao estudo e elaboração de soluções para
os problemas municipais, operando num regime de
cional. estreita articulação e íntima cooperação com as Mu ..
nicipalidades e quaisquer entidades federais ou es-
Êsse órgão é, precisamente, a Associa- taduais.
ção Brasileira de Municípios, instalada há
pouco mais de dois anos, em obediência à Art 2 ° - São objetivos específicos da Asso-
ciação Brasileira de Municípios:
Resolução n. 0 7 da Comissão Pan-Americana
a) estudar, permanentemente, a organização,
de Cooperação Intermunicipal, criada pelo o funcionamento, as condições e métodos de traba-
1.° Congresso Pan-Americano de Municípios, lho dos Municípios brasilehos, visando ao seu me-
conforme Recomendação Especial da VI lhor rendimento;
b) promover o maior intercâmbio possível
Conferência Internacional Americana, con- entre os Municípios e com ê'les colaborar no plane-
venções às quais o Brasil aderiu. jamento, orientação, assistência técnica e implan-
tação de quaisquer modificações ou refonnas admi-
Entidade eminentemente técnica, com nistrativas;
objetivos superiormente orientados, conta a c) receber, estudar e difundir sugestões sô-
A . B . M . , em seus corpos dirigentes provi- bre assuntos de administração municipal, promo-
vendo, para tal fim, em colaboração com os Órgãos
sórios, expressivas figuras da intelectualidade federais e estaduais - por meio de palestras, do-
patrícia. Integram o seu Conselho Diretor cumentário, congressos, publicações, etc. - am-
os Srs. NOVELLI JÚNIOR, FERNANDES TÁVO- pla difusão de ensinamentos sôbre os princípios, os
RA e ARAUJO CAVALCANTI, presidente, vi-
problemas e a técnica de administração 1nunicipal;
d) prestar aos Municípios completa e efetiva
ce-presidente e secretário-geral, respectiva- assistência;
mente, e, na qualidade de membros, os Srs. e) realizar os objetivos de cooperação expos-
General JUAREZ TÁVORA, NovAIS FILHO, tos nos Estatutos da Comissão Pan-Americana de
Cooperação Intermunicipal, nas formas recomenda-
TEIXEIRA LEITE, JoÃO CLEOFAS, GOFFREDO das e ratificadas pelos Congressos Pan-Americanos de
TELLES, JOSÉ JOFFILY, COSTA PÔRTO, SA- Municípios e pela VI Conferência Internacional
TURNINO DE BRITO, CELESTINO BASÍLIO, Americana.
JUNQUEIRA AYRES, GASTÃO GLICÉRIO DE
GOUVEIA REIS, LUÍS PAULO DO AMARAL CAPíTULO II
PINTO, TOMAZ POMPEU DE ACIOLY BORGES, DA ORGANIZAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO BRASI-
AFONSO ALMIRO DA COSTA JÚNIOR, EDUAR- LEIRA DE MUNICíPIOS
DO DUVIVIER, TEMÍSTOCLES CAVALCANTI, CA-
FÉ FILHO, ALCEDO COUTINHO, LUÍS VIANA, a) Dos memb1os ou sócios.
LUÍS CAMILO DE OLIVEIRA, GERCINO MALA- Art 3. o - São n1embros ou sócios naturais da
Associação Brasileira de Municípios quaisquer Muni-
GUETA PONTES, FRANCISCO PEREIRA DA SIL- cípios que solicitem, por escrito, a sua inscrição nos
VA e WELLINGTON BRANDÃO. quadros da Associação.
Formam a Comissão Executiva da A Art. 4. 0 - Além dos membros ou sócios na-
B. M os Srs. HoRÁCIO LAFER, presidente; turais a que se refere o artigo anterior, a Associação
será composta de sócios coletivos, sócios individuais
ALIOMAR BALEEIRO, vice-presidente; M. A e entidades associadas
TEIXEIRA DE FREITAS, 2. 0 vice-presidente; § único - São consideradas associadas as en-
PAULO SARAZATE, 1.0 secretário; ENEDINO tidades ou organizações oficiais que adiram à
DE CARVALHO, 2. 0 secretário; OSÓRIO NU- A B.M.
NES, secretário-executivo; e RAFAEL XAVIER, Art. 5. 0 - Poderão ser sócios coletivos da
tesoureiro . A. B. M as associações técnicas, institutos de en-
sino ou pesquisas, órgãos de publicações técnicas
A Comissão de Propaganda e Organiza- ou quaisquer sociedades civis ou cotnerciais que
desejem colaborar na consecução dos objetivos co-
ção das Associações Regionais de Municí- limados pela A. B M.
pios é integrada pelos Srs. LAURO MONTE-
NEGRO, presidente; AGOSTINHO MONTEIRO, Art 6. 0 Poderão ser sócios individuais da
A.B.M.:
vice-presidente; JoÃO DE MESQUITA LARA, Técnicos de administração, economistas libe-
1 ° secretário; RAFAEL XAVIER, secretário- rais, professôres, servidores públicos, industriais
executivo, e na qualidade de membros, pelos comerciantes e fazendeiros ou quaisquer pessoas in-
Srs. 0CÉLIO DE MEDEIROS, JosÉ LINS DO RÊGO, teressadas no assunto cujo estudo e solução cons-
tituem objetivo da A.B.M.
JOAQUIM EMILIANO DE ARAUJO PEREIRA,
MÁRIO GOMES, DJACIR MENEZES, ARISTEU Art. 7. 0 - A admissão de sócios, quer cole-
tivos quer individuais, far-se-á mediante proposta
GONÇALVES LEITE, MANUEL DIÉGUES JÚ- de sócio da A. B. M , devidamente aprovada pelo
NIOR, RUBENS DO AMARAL SOARES, ALICE Conselho Diretor.
TIBIRIÇÁ, SEBASTIÃO VEIGA, EPAMINONDAS § único - A A B M. poderá ter, outrossim,
MAJ?'I'INS. IVES DE OLIVEIRA, JoSÉ AUGUSTO sócios honorários e correspondentes no estrangeiro,
conforme proposta do Conselho Diretor.
DE MEDEIROS, JoSÉ VICENTE MARTINS, b) Do Conselho Diretor e da Comissão Exe-
PAULO BELACHE e ÁLVARO BASTOS. cutiva.
122 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

Art 8 ° - A A B. M será dirigida por um socws a fim de que os mesmos conheçam, discu~
Conselho Diretor e pe'la Comissão Executiva tam, aprovem ou rejeitem os atos baixados pelo
Conselho Diretor e por uma Comissão Executiva
Art. 9. 0 - O Conselho Diretor será composto
de sócios, em número de 2 7, eleitos em escrutínio § 1. 0 - As reuniões gerais da A. B. M. terão
secreto pela Assembléia Geral da A. B M e terá lugar em data e local prêviamen te escolhidos pela
o mandato de um ano, sob a direção de um presi~ Comissão Executiva.
dente, dois vice-ditos e um secretário~geral. § 2. 0 - As eleições para o Conselho Diretor
far-se-ão nessas reuniões, que constituem assembléias
Art 10 - Compete ao Conselho Diretor: gerais da Associação.
a) a aprovação do orçamento anual e do
plano de trabalho elaborado pela Comissão Exe- § 3. 0 - As decisões serão tomadas pela maio~
cutiva; ria dos sócios que se encontrem em situação regu-
b) julgar o relatório anual de seu presidente;
lar. Caso não haja número será convocada nova
c) ju1gar as contas anuais apresentadas pelo com parecer .
tesoureiro; reunião que deliberará com o número de sócios que
d) julgar o relatório anual apresentado pelo
secretário-executivo; Art 22 - Cabe ao Conselho Diretor, em co-
laboração com a Secretaria-Geral e a Comissão
e) eleger e empassar a Comissão Executiva; Executiva, a preparação e a organização dessas
f) aprovar o regimento interno da Secretaria
Executiva Pernamente, assim como o das Comissões reuniões
Especiais.
Art. 23 - Além de suas reuniões gerais a
Art. 11 - A Con1issão Executiva será eleita A B. M. promoverá convenções ou congressos
pelo Conselho Diretor dentre os membros da anuais de administração 1ocal; sessões especiai5\ de
A.B M. estudosj conferências, debates, cursos especiais no
§ único - Compor-se-á a Comissão Executiva Brasil e no estrangeiro, mesas redondas, etc. Não
de um presidente, dois vice-ditos, dois secretários, só na sede, corno em quaisquer outros locsis, na
um secretário-executivo e um tesoureiro Capital do País e nos Municípios
Art. 12 - Os cargos de secretário-executivo CAPíTULO IV
e tesoureiro são remunerados e serão de livre esco-
lha e confiança da Comissão Executiva DAS PUBLICAÇÕES DA ASSOCIAÇÃO BRASI-
Art 13 - Cabe ao presidente da Comissão LEIRA DE MUNICíPIOS
Executiva:
a) a direção executiva da A. B M. ; Art 24 - A A B M publicará:
b) a sua representação em juízo e fora dêste; a) estudos, conferências, ensaios, plaquetas,
c) a autorização de quaisquer despesas orça- livros e folhetos de interêsse para as Mu nicipali-
mentárias e eventuais; dades;
d) a nomeação e deslocação dos funcionários b) os anais das reuniões;
necessários aos serviços da A B M , 1nediante pro-
posta do secretário-executivo c) uma Revista Brasileira de Administração
§ único - Os membros da Comissão Executiva Municipal
terão as atribuições correspondentes à designação
de seus cargos
CAPíTULO V
Art 14 - Quer os membros do Conselho Di-
retor, quer os da Comissão Executiva, poderão ser DOS RECURSOS FINANCEIROS
reeleitos
Art 25 Os recursos financeiros fi~rão consM
Art 15 - O Conselho Diretor reunir-se-á, or
dinàriamente, pelo menos uma vez por mês e, ex- tituídos por:
traordinàriamente, sempre que seja convocado por a) quotas especiais anuais dos Municípios
seu presidente ou pelo menos por um têrço de
seus membros. associados;
b) contribuições dos sócios coletivos:
.t\rt 16 - A Comissão Executiva reunir-se-á,
ordinàriamente, uma vez por semana e, extraordi- c) contribuição dos sócios individuP.is;
nàriamente, sempre que convocada por seu presi- d) subvenções e auxílios de qualqu~r espécie;
dente e) doações;
c) Da Secretaria Executiva.
f) juros do capital formado;
Art. 17 - Integrando a Comissão Executiva, g) renda proveniente das p:..il-licações da
terá a A. B. M. uma Secretaria Executiva Per- Associação.
manente.
Art 18 - À Secretaria Executiva Perma.. § 1. 0 - As quotas a que se refere a alínea a)
nente compete todo o serviço de correspondência; serão atribuídas pe'los Municípios membros à A.
de organização de fichário; de estatística; de pub1i- B M. na seguinte base:
cidade; de coordenação de estudos e resultados; de Municípios de renda anual a.té cem mil cru-
preparo e distribuição das publicações da Associa- zeiros - quinhentos cruzeiros;
ção; de biblioteca especializada da A. B M , assim Municípios de renda anual de cem mil a du-
como de todos os demais serviços de administração zentos mil cruzeiros - mil cruzeiros;
geral da entidade. Municípios de renda anual de duzentos mil a
quinhentos mil cruzeiros - dois mil cruzeiros;
Art. 19 - O Secretário-Executivo terá para Municípios de renda anual de quinhentos mil
auxiliá-lo os funcionários e os técnicos que forem a um milhão de cruzeiros - três mil cruz&iros;
necessários Municípios de renda anual de um milhão a dez
d) Das Comissões Especiais. mi'lhões de cruzeiros - cinco mil cruzeiros;
Municípios de renda anual de dez milhões a
Art. 20 - O Presidente do Conselho Dire- cem milhões de cruzeiros - vinte mil cruzeiros;
tor, mediante proposta do mesmo Conselho, designa- Municípios de renda anual acima de cem mi~
rá as Comissões Especiais necessárias à concretiza- lhões de cruzeiros - cinqüenta mil cruzeiros.
ção das finalidades visadas pela Associação.
§ único - As decisões a serem tomadas pelas § 2. 0 - Das quotas a que se refere a alínea a)
Comissões Especiais sê-lo-ão na base da maioria de será deduzida a parte que se destina à Comissão
votos dos presentes em cada sessão Pau-Americana de Cooperação Intermunicipal.
CAPíTULO III Art. 26 - Os sócios coletivos pagarão uma
anuidade de Cr$ 1 200,00 (mil e duzentos c~u­
DAS REUNiõES GERAIS DA ASSOCIAÇÃO zeiros).
BRASILEIRA DE MUNICíPIOS
Art 2 7 - Os sócios individuais pagarão uma
Art. 21 - A Associação Brasileira de Muni .. anuidade de Cr$ 120,00 (cento e vinte cruzeiros),
cípios promoverá reuniões gerais de todos os seus divisível por trimestre ou semestre.
NoTÍcrAs E Col\IENTÁmos 12.3

CAPíTULO VI Art. 30 - Os soctos não respondem, nem


particular nem soHdàriamente, pelos atos pratica-
Art 28 - A Associação Brasileira de Municí- dos pela Diretoria .
pios terá a sua sede no Rio de Janeiro e funcionará Art 31 - As disposições dêstes Estatutos
vigorarão até à realização do Primeiro Congresso
em íntima articulação com as Associações Regio- Nacional de Municípios, que os reformará.
nais de Munidpios e com as entidades congêneres Art 32 - Em caso de dissolução da Asso-
dos países americanos. ciação Brasileira de Municípios - que sOmente se
poderá verificar por votação de dois têrços de só-
Art. 29 - As Associações Regionais de Mu- cios quites, em assembléia-geral - o patrimônio
nicípios manterão representantes seus, devidamente da sociedade será entregue ao Instituto Brasileiro
credenciados, junto ao Conselho Diretor da A B M de Geografia e Estatística"

PRIMEIRA REUNIAO SEMESTRAL


DE PREFEITOS FLUMINENSES
-
Convocada por iniciativa da Secretaria dade de expor os modernos processos e as
de Agricultura, Indústria e Comércio do Es- vantagens decorrentes da inseminação arti-
tado do Rio de Janeiro, realizou-se, em Ni- ficial para o apuramento dos rebanhos.
terói, na segunda quinzena de fevereiro do Presidida pelo Sr. Ministro da Agricul-
ano em cu""so, a I Reunião Semestral de Pre- tura, realizou-se uma sessão no auditório da
feitos Fluminenses, à qual compareceram os Universidade. Manifestou S. Excia. a satis-
chefes dos Executivos Municipais, autorida- fação em receber no auditório da Universi-
des estaduais e federais, além de destacados dade Rural os Prefeitos fluminenses. Fala-
elementos do mundo social e político do Es- ram ainda o Reitor da Universidade, Pro-
tado fessor ARTUR TÔRRES FILHO, e o Secretário
Sob a presidência do Secretário da Agri- da Agricultura do Estado do Rio, Sr. ED-
cultura, Sr. EDGARD TEIXEIRA LEITE, foram GARD TEIXEIRA LEITE.
abertos os trabalhos da I Reunião, tendo Prosseguindo nas vis i tas, os congressis-
aquêle auxiliar do Govêrno fluminense pro- tas percorreram diversos departamentos, en-
nunciado importante discurso. tre os quais o de Química, Biologia e Ser-
Após a primeira sessão plenária e em viço Médico, Fitopatologia, Ecologia e Ex-
cumprimento ao programa elaborado pela perimentação Agrícolas, onde foram feitas
Secretaria de Agricultura, realizaram os CO!l- demonstrações sôbre os problemas dos solos
gressistas uma visita à Universidade Rural. da Baixada Fluminense. Em tôdas as de-
no quilômetro 4 7 da Estrada Rio - São pendências visitadas, os professôres da E.N.A.
Paulo, sendo, ali, recebidos pelos Srs V AL- e E. N. V fizeram explanações, esclarecen-
DEMAR RAYTHE DE QUEIROZ E SILVA, Diretor do os visitantes sôbre os trabalhos ali rea-
do Centro Nacional de Estudos e Pesquisas Iízados. Em nome dos congressistas, falou
Agronômicas; ARTUR TÔRRES FILHO, Reitor o Sr. JosÉ MARIA DE BRITO, Prefeito de Ita-
da Universidade Rural; HONÓRIO MONTEIRO guaí, Município em que está localizada a
FILHO, Diretor da Escola Nacional de Agro- Universidade Rural, agradecendo ao Diretor
nomia; SINEAS GUIMARÃES, Diretor dos Cur- do C N E P A. e serviços dependentes a
sos de Especializacão e Extensão; BARCELO;~ oportunidade de entrar em contacto com seu
FAGUNDES. do Ser,_;ico Nacional de 'Pesquisas aparelhamento, a serviço da agricultura na-
Agronômicas, além -de outros professôres e cional.
alunos, entre os quais o representante do
Centro Acadêmico da Escola Nacional de
Agronomia A seguir, foram os visitantes
convidados a percorrer os campos experi- Na primeira sessão plenária, realizada
mentais da Escola, tendo ensejo de presen- no dia 19, sob a presidência do Sr. Secre-
ciar interessantes demonstracões com equi- tário da Agricultura, e contando ainda com
pamento motorizado da Escola de Agrono- a presença dos Deuutados HIPÓLITO PÔRTO
mia Técnicos ria E~cola " da Secretaria de e VASCONCELLOS TÔRRES, foram aprovadas as
Agricultura do Estado do Rio prestaram ao> seguintes moções a serem apresentadas ao
congressistas tôdas as informações solicita- Sr. Pre"idente da República e ao Congresso
das. Nacional:
Terminara esta primeira parte da vi- "1 a ~ Encampação da Leopoldina com a uti-
sita, quando chegou à sede da Escola o Sr lização de parte dos créditos brasileiros congelados
DANIEL DE CARVALHO, Ministro da Agricul- na Inglaterra.
tura, acompanhado de seu gabinete e do Sr. 2 ,a - Reversão para o Estflrlo das quotas do
rcwanescente do Departamento Nacional do Café,
Ministro ARGEU GUIMARÃES, chefe do cere- a fim de serem aplicadas em benefício da lavoura
monial do Itamarati, representando o Sr. cafeeira
RAUL FERNANDES. 3 a - Indicação no sentido de aue o Govêrno
Federal faça funcionar as usinas de álcool de man-
Reunidos aos recém-chegados, saíram os dioca de São Fidélis, Macaé, Itaperuna e Pôrto
congressistas a percorrer as dependências da das Caixas, em Itaboraí
Escola de Veterinária, visitando o Pôsto de 4.a - Caso da Tipiti (usina de álcool e ami-
do de mandioca em São João da Barra)
Inseminação Artificial, cujo diretor, Profes- s.n - Prolon~amento do ramal ferroviário de
sor JOÃO FERREIRA BARRETO, teve oportuni- Bom Jesus do ltabapoana ao pôrto de São João
124 REVISTA BRASILEIRA Dos MuNicÍPIOS

da Barra (trecho de 60 km entre Santo Eduardo A Comissão de Crédito Agrícola levou


e Barra do Itabapoana). ainda ao plenário a seguinte resolução, apro-
6.• - Ligação férrea de S. Pedro d'Aideia a
Rio Dourado (ramal de 50 km, Estrada de Ferro vada por aclamação:
Maricá).
7n - Ligação rodoviária direta entre Teresó- "A Comissão de Crédito Agrícdla recomenda à
polis e o Distrito Federal, via Magé. t.n Reunião dos Prefeitos do Estado do Rio que se
8 a - Ligação da Rio-Bahia com a União e oficie à Comissão de Agricultura da Assembléia
Indústria e Rio-São Paulo, estabelecida com a Legislativa a inclusão, na reforma judiciária em es-
construção de pequeno trecho, dentro do Município tudo, de um dispositivo que obrigue os serventuá-
de Tt es Rios, em Bem posta rios de justiça ao fornecimento gratuito de certidões
9.a - Reversão para o Estado das Usinas do para prova na Carteira Agrícola de qualquer banco,
Departamento Nacional de Café. bem como a dispensa de selos e taxas ou quais-
10.• - Entrega de 10% da taxa de energia quer emolumentos aos lavradores proprietários de
elétrica, arrecadada pelo Govêrno Federal, aos Mu- sítios cujas áreas totais não ultrapassem de dez
nicípios (proposição apresentada pelo Prefeito de alqueires".
Carmo, onde está localizada a uSina de Pombos)
11. a - Conclusão das obras da Baixada Flu- O ato de encerramento dos trabalhos da
minense, notadamente de Saquarema.
12.a - Criação de laboratórios para fabrica- I Reunião Semestral de Prefeitos Fluminen-
ção de vacinas contra as viroses, no Município de ses realizou-se no salão de conferências da
Campos. (Utilização de parte da verba de 12 mi- Secretaria de Agricultura, presentes todos os
lhões de cruzeiros para o combate à peste suína ) congressistas e numerosas autoridades. Com-
13.a - Reforma da ponte pêncil que liga o
Estado do Rio ao de Minas, em Sapucaia, por onde puseram a mesa o Sr. Coronel EDMUNDO
é escoada a produção de vasta zona. MACEDO SOARES E SILVA, Governador do
14 a - Crédito Agrícola, por intermédio da Estado do Rio, e o Sr. JoÃo GUIMARÃES,
criação do Banco Central Rural, Bancos Regionais
e Cooperativas de Crédito, além da distribuição Vice-Governador; todo o secretariado do Go-
do crédito pelas Cooperativas de Produção". vêrno Fluminense, Desembargadores AGENOR
RABELO, presidente do Tribunal de Justiça,
Nessa mesma sessão, a Comissão de Cré- e o Sr. FERREIRA PINTO, do Tribunal Regio-
dito Agrícola, constituída pelos Srs. CELSO nal Eleitoral; Senador SÁ TINOCO, Deputa-
PEÇANHA, que a ela presidiu; JoÃo DE Sou- do Federal SÍLVIO BASTOS TAVARES e De-
ZA FARIA, representando o Prefeito de Cam- putados Estaduais HÉLIO DE MACEDO SoA-
buci; MILNE RIBEIRO, JoÃo DE DEUS AN- RES E SILVA, MÁRIO GUIMARÃES, ALBERTO
DRADE e MANOEL FERREIRA PAES, Prefeitos TÔRRES, TOGO DE BARROS, HIPÓLITO PÔRTO
de Macaé, ltaboraí e Campos, respectiva- e o Prefeito de Niterói, Comandante CELSO
mente, apresentou a seguinte resolução, como APRÍGIO GUIMARÃES.
resultado dos trabalhos por êstes realizados:
Nessa última reunião plenátia, foram
"Comissão de Crédito Agrícola - Problema votadas as resolucões das Comissões de En-
amplo e que demanda solução imediata, somos de sino Rural, Contabilidade Agrícola, Fomento
parecer que sua solução estará no seguinte:
e Defesa da Produção Animal e de Meca-
1 ° - Criação do Banco Rural Central;
nização da Lavoura, sendo aprovadas as se-
2. 0 - Nos Estados, criação de Bancos Regio-
nais de Auxílio à Lavoura; guintes:
3 ° - Fundação de Cooperativas de Crédito e 1 - Ensino Rural - Aprovadas as conclu-
criação de Secções de Crédito nas Cooperativas de sões para entrega, à Divisão especializada, do con-
Produção. trôle do ensino rural, e que as esco1as situadas na
O Banco Central funcionará como elemento de zona rural sejam adaptadas para o ensino das ati-
suprimento dos Bancos Regionais, sem interferir em vidades agrícolas Foi ainda aprovada a conclusão
sua estrutura, organização e funcionamento. sôbre a criação de turmas de ensino ambulante:
Os Bancos Regionais suprirão de crédito as devidamente equipadas e mais a fundação de "cen-
Cooperativas de Crédito e Secção de Crédito das tros sociais", por iniciativa da Secretaria de Agri-
Cooperativa& de Produção, sem que interfiram na cultura
vida econômica-administrativa dessas sociedades
Objetiva-se estabelecer que, embora agindo in- 2 - Contabilidade Ag1íco!a - Foram apro-
terdependentemente, tais organizações se conduzirão vadas as seguintes conclusões: a - Adoção de dois
dentro dos diplomas legais que regem suas vidas tipos de Contabilidade, atendendo à capacidade dos
Os saldos da liquidação das autm·quias e órgãos agricultores e fazendeiros; b - Expansão da Con-
paraestatais serão distribuídos pelos Bancos Regio- tabilidade por intern1édio de Serviço Especializado
nais de Crédito, considerada a distribuição, em da Secretaria de Agricultura e co1n a colaboração
proporção à contribuição de cada Estado, para tais efetiva das Prefeituras, que forneciam um auxiliar,
Órgãos. para a assistência técnica "in loco"
Os juros máximos serão de 5%, na base do 3 - Fomento e Defesa da Produção Animal
prazo de safras Quando se tratar de instalações - Aprovadas unânimemente as conclusões do item
de montagens para produção, o prazo mínimo será III do Temário, onde são indicadas medidas do
de 5 anos, aos juros de 4o/0 ao ano Para aquisi- maior alcance para a defesa do rebanho do Es-
ção de pequenas e médias propriedade, o prazo de tado, inclusive redução de 50% no custo dos pro-
empréstimo será de 10 anos, com juros de 6%. àut<R. biológicos, criação de serviços e postos de
inseminação artificial, pôsto de tnonta, instalação de
O Banco Rura1 Central será uma organização laboratórios para soros, vacinas e imunigenos. Cam-
especial para empréstimo rápido, fugindo completa- panha contra a tuberculose e pela sanidade, com
mente aos moldes dos existentes, que se destinam exames prévios dos produtos e subprodutos de ori-
tão sOmente ao fomento da produção agropecuária gem animal.
e da industrialização dos produtos agrícolas
4 - Comissão de Mecanização da Lavoura
Entre as sugestões levadas ontem ao plenário Foram aprovadas conclusões do maior alcance no
pela Comissão de Crédito Agrícola, na sessão rea~ sentido de intensificar o uso da máquina nas la-
lizada com a presença do representante do Sr voutas, não sendo desprezada a tração animal, para
Presidente da República, tôdas aprovadas, destaca- os pontos onde se recomenda"
se a relativa ao seguro agropecuário, que está
assim redigida: I - Tôdas as operações de cré-
dito agrícola, para culturas permanentes ou adven- Em nome dos Prefeitos Fluminenses,
tícias, serão seguidas do competente seguro. II - discursou o Sr. JOSÉ DE CARVALHO JANNOTTI,
Nas operações para a pecuária será seguido o mes- chefe do executivo de Teresópolis, o qual
mo critério 111 - A lei estabelecerá as bases para
a proposição em aprêço e a forma de serem feitos dirigiu uma saudação ao Sr. Governador
os seguros" . EDMUNDO MACEDO SOARES E SILVA.
NoTÍCIAS E CoMENTÁRios 125

Logo após, o Sr. EDGARD TEIXEIRA mental que a política relativa a essa distri-
LEITE deu a palavra ao Sr. Coronel EDMUN- buição seja completamente modificada. Re-
DO MACEDO SOARES E SILVA, que proferiu fere, a propósito, que o Sr. RAFAEL XAVIER,
substancioso discurso no qual focalizou os ao estudar o problema da redistribuição das
mais importantes problemas com que se de- rendas municipais, demonstrou que apenas
fronta a administração fluminense. 11,75% dessas rendas cabem aos Municípios,
Finalmente, discursou o Sr. EDGARD absorvendo os Estados e a União os 88,25%
TEIXEIRA LEITE, congratulando-se com os restantes. Excluído o Distrito Federal, cêrca
congressistas pelo êxito dos trabalhos da I da metade da arrecadação municipal pro-
Reunião Semestral de Prefeitos Fluminenses. vém das capitais. Isso significa que 1 552
Municípios do interior têm, para o trato de
Sob os auspícios da Federação do Co-
seus problemas, pouco mais da metade do
mércio Varejista do Estado do Rio, reali-
que dispõem as capitais das vinte e uma
zou-se, na sede dessa agremiação de classe,
Unidades Federadas. Em outros têrmos:
em Niterói, uma sessão solene em home-
excluídos os Municípios das capitais, sobra,
nagem aos prefeitos municipais participan-
para os restantes, no conjunto das arrecada-
tes da Reunião. Presidiu aos trabalhos o
ções nacionais, a insignificante parcela de
Governador EDMUNDO MACEDO SOARES E
SILVA, tendo constituído a mesa os Srs. 6,9%.
JoÃO DAUDT DE OLIVEIRA, presidente da Prosseguindo nesta ordem de idéias,
Confederação Nacional de Comércio, da As- acentuou que inútil, porque fictícia, será tôda
sociação Comercial do Rio de Janeiro e da autonomia política que se quiser dar ao Mu-
Federação de Comércio Atacadista do Rio nicípio, se, ao lado dos dispositivos consti-
de Janeiro; ADELINO CÂMARA PINTO, presi- tucionais que asseguram essa autonomia, não
dente da Associação Comercial; JuvENAL DE se alinharem medidas que propiciem o desen-
QUEIROZ VIEIRA, Secretário das Finanças; volvimf"nto de suas fontes de riquezas e que
V ASCO BARCELOS, Secretário de Educação permitam uma forte estruturação da vida
e Saúde; Desembargador FERREIRA PINTO, comuna!.
presidente do Tribunal Eleitoral; EDGARD
Discursou, finalmente, o Sr. JUVENAL
TEIXEIRA LEITE, secretário da Agricultura;
DE QUEIROZ, Secretário das Finanças, o qual
e NEWTON GUERRA, presidente da Câmara
discorreu sôbre a situação geral do País, a
Municipal de Niterói.
situação financeira do Estado do Rio de Ja-
Dada a palavra ao Sr. EDUARDO LUÍS neiro e a política financeira do govêrno.
GoMES, presidente da Federacão do Comér-
cio Varejista do Estado do Rio, teve êste Encerrando a sessão, o Governador ED-
oportunidade de esclarecer ao plenário o sen- MUNDO MACEDO SOARES E SILVA declarou
tido daquela sessão. Falou, a seguir, o Sr. ser da mais alta importância o apoio das
JoÃO DAUDT DE OLIVEIRA, que, depois de classes conservadoras a uma reunião como
uma série de considerações sôbre o signifi- a que acabava de congregar os prefeitos flu-
cado da mesa redonda que reuniu, na ca- minenses para a discussão dos problemas
pital fluminense, os administradores muni- que dizem respeito às administrações munici-
cipais, aludiu ao "grave problema da distri- pais, prometendo, ao mesmo tempo, tudo
buição das rendas arrecadadas no território fazer para que a terra fluminense volte às
nacional". Declarou ser imperioso e funda- culminâncias em que já estêve no passado.

O RESTABELECIMENTO
DO MUNICIPALISMO
Realizou-se, a 27 de março, na cidade do Chefe do Executivo pela vida municipal
fluminense de Sapucaia, a solenidade de brasileira. Referiu-se o orador ao apêlo feito
inauguração do busto do Presidente EURICO pelo Presidente da República aos homens
GASPAR DUTRA, mandado erigir pelo povo e públicos do País, em Mensagem dirigida ao
pela Câmara Municipal daquela comuna em Congresso Nacional, para que o ajudassem
homenagem ao primeiro magistrado da Nação. no "restabelecimento do municipalismo, no
que êle tem de emulacão direta e fecunda
Representando o Presidente da Repú- no servico da coletivid.ade" e enalteceu as
blica, discursou, na ocasião, o Sr. CARLOS Ro- iniciativ,;'s do Govêrno Federal em favor do
BERTO DE AGUIAR MOREIRA, que agradeceu, revigoramento do interior e da valorizacão
em seu nome, a sinceridade e espontaneidade do trabalho rural em funcão da assistên~ia
daquela homenagem, e acentuou o aprêço eficaz às células comunais ~brasileiras.
126 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS
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A IMPORTÂNCIA DOS HORTOS


FLORESTAIS
O Engenheiro-Agrônomo GERALDO Gou- caminhamento dos problemas agrícolas refe-
LART DA SILVEIRA, professor da Escola de rentes à fruticultura, horticultura, jardina-
Horticultura Venceslau Belo, desta Capital, gem, etc., e da orientação adequada do agri-
mantida pela Sociedade Nacional de Agri- cultor sôbre os cuidados do plantio, aprovei-
cultura, apresentou à Primeira Reunião Se- tamento racional do solo, enfim, sôbre tôdas
mestral dos Prefeitos Fluminenses, realizada as questões rurais que careçam de esclare-
em Niterói na segunda quinzena de fevereiro cimento.
dêste ano, interessante trabalho relativo às Aos Hortos Municipais, ainda, com-
finalidades e à importância dos Hortos Muni- petiria ministrar cursos práticos e rápidos
cipais para o fomento à produção agrícola das sôbre os vários assuntos e atividades agríco-
comunas do Estado do Rio de Janeiro. Acen- las, bem como promover campanhas que
tua o referido técnico as vantagens que ad- visem ao reerguimento da economia rural,
viriam, para a lavoura, da criação de grande tais como as de reflorestamento, exploração
número de Hortos Municipais, incumbidos racional das florestas, formação e restaura-
não apenas do fomento ao reflorestamento e ção de pomares, combate à erosão, recupera-
da distribuição, aos lavradores, de mudas e ção da fertilidade do solo, instalacão de hor-
sementes selecionadas, mas, também, do en- tas, combate à saúve, etc. -

MANIFESTO DA ASSOCIAÇAO BRASILEIRA


DE MUNICÍPIOS
-
Aos Deputados das Câmaras Estaduais, .5. Na realidade, nunca os problemas
a Associacão Brasileira de Municípios enviou municipais do Brasil foram tão bem debati-
o seguint~ Manifesto: dos como na Assembléia Constituinte de
"A A. B. M., por seus representantes 1946, através da palavra autorizada de ilus-
abaixo assinados, dirige a V. Excia. o presente tres constituintes, alguns dos quais funda-
Manifesto, esperando congregar todos os mu- dores e membros da A B M.
nicipalistas do Brasil, independentemente de 6. Tais debates, inspirados sempre nos
credos e ideologias políticas, a serviço de interêsses dos Municípios, culminaram na
uma cruzada de revitalizacão das entidades promulgação da mais municipalista das Cons-
comunais em todos os Est;dos e Territórios. tituições até agora vigorantes no Brasil, ten-
2. No primeiro Congresso de Municí- do em vista as seguintes bases:
pios, realizado na capital de Cuba em 1938, a) restabelecimento e ampliação da autono-
foi criada, conforme acôrdo da VI Conferên- mia dos Municípios;
cia Internacional Americana, a Comissão b) revigoramento das finanças municipais,
Pan-Americana de Cooperação Intermunici- pela revisão da competência tributária e melhor
política da redistribuição de rendas;
pal, a que hoje se filia a A. B M. c) participação efetiva dos Municípios na re-
democratização do País:
3. Trata-se, portanto, de um Órgão de-
d) reaparelhamento dos Municípios para mais
vidamente integrado no sistema da boa-vi- eficiente desempenho do papel que lhes incumbe
zinhança continental, apoiado pelo Govêrno na formação nacional, como centros de riqueza, pro-
da República e por grande número de Pre- gresso e cultura.
feituras do País, e que tem em vista enca-
beçar um sistema nacional de associações de 7. Mas, a despeito das conquistas ob-
defesa e estudos dos interêsses e problemas tidas no texto da Constituição de 18 de se-
das comunas brasileiras. tembro de 1946, a tarefa máxima da revi-
talização dos Municípios brasileiros depende
4. Instituída em momento decisivo da ainda de uma histórica obra de complemen-
vida política do País, quando os constituin-
tação, a ser levada a efeito, em primeiro lu-
tes brasileiros se reuniam para a histórica
gar, pelas Assembléias Constituintes dos Es-
tarefa da elaboração de nossa carta constitu-
cional, a A B M-. chamou a si a responsa- tados, e, em segundo lugar, pelas Câmaras
bilidade de colaborar com os representantes de Vereadores.
do povo, à margem dos partidos, no debate 8. Sem dúvida, compete aos nobres le-
dos problemas comunais, começando por de- gisladores estaduais a missão de dispor tec-
fender, entre outras reivindicações locais, a nicamente, nas Constituições e nas leis or-
tese da revisão da competência tributária, no gânicas que vão elaborar, sôbre a melhor apli-
sentido de revigorar as finanças dos Muni- cação dos princípios já con,sagrados na Carta
cípios. Magna da República.
INQUÉRITOS E REPORTAGENS 127

9. Assim é que a A.B.M. dirige a V. sistema de descentralização, capaz de fixar


Excia. o presente Manifesto, num veemente as populações do interior no meio que lhes
apêlo ao patriotismo, ao espírito público e convém e, desenvolvendo ao máximo a cons-
ao devotamento dos Srs. Deputados às Cons- ciência municipalista que hoje renasce, eri-
tituintes Estaduais, para que todos os esfor- gi-las em colunas mestras da nossa economia,
cas, independentemente de partidos, se con- da nossa cultura e da nossa civilização, em
juguem unissonamente, na defesa dos inte- caráter permanente e evolutivo.
rêsses dos Municípios do Brasil, onde de fa- 13. Na certeza de que V. Excia. com-
to residem as soluções de todos os nossos preenderá, como municipalista convicto, o
problemas de base. significado dêste Manifesto, rogamos aceitar
10. Proporcionados maiores recursos fi- a colaboração da A. B. M., para cujo pro-
nanceiros ao Município, principalmente ao grama encarecemos a necessidade do apoio
âmbito rural, resta agora uma sábia política de todos os que têm hoje a tarefa histórica
estadual de definição de encargos, visando da reconstitucionalização e redemocratização
ao alargamento de ação dos executivos locais dos Estados e dos Municípios.
e à prestação de maiores serviços às popula-
HORACIO LAFER, Presidente da Comis-
ções do interior, sempre vítimas de um sis-
são Executiva; NOVELLI JÚNIOR, Presidente
tema de centralização que tanto enfraqueceu
do Conselho Diretor; LAURO MONTENEGRO,
e anquilosou a vida municipal do Brasil.
Presidente da Comissão de Propaganda e Or-
11 Mais recursos e, conseqüentemen- ganização; ALIOMAR BALEEIRO, THEMISTO-
te, mais encargos constituem, por isto mes- CLES CAVALCANTI, M. A. TEIXEIRA DE FREI-
mo, seguros fatôres da transformação dos TAS, 0SORIO NUNES, JUAREZ TÁVORA, ED-
Municípios em organizações operantes e não GARD TEIXEIRA LEITE, ARAUJO CAVALCAN-
apenas células políticas de exclusivo valor TI, SATURNINO DE BRITO, AFONSO ALMIRO
eleitoral. DA C. JUNIOR, AGOSTINHO MONTEIRO, CE-
12. Com isso, Senhor Deputado, será LESTINO BASILEO, JoÃo DE MESQUITA LARA,
possível implantar, no Brasil, um adequado 0CÉLIO DE MEDEIROS, RAFAEL XAVillR

-
ASSOCIAÇAO PERNAMBUCANA
DE MUNICÍPIOS
A Associacão Pernambucana de Muni- criação de uma Biblioteca especializada, no
cípios, fundad; em 11 de junho de 1946, Recife, sôbre assuntos de municipalismo;
apresentou, em fevereiro dêste ano, o seu criação de um Órgão (revista ou boletim)
primeiro relatório à Associação Brasileira de para propaganda das finalidades da Associa-
Municípios, à qual é filiada. ção e publicação do material de expediente,
Trata-se de trabalho sucinto, "destinado e criação de bibliotecas municipais nas ci-
mais a acertar normas de trabalho e a su- dades do interior, a fim de estear, nesses
gerir conselhos", como assinala o presidente núcleos urbanos, as futuras associações dos
da organização. Na da obstante, pode-se veri- Amigos do Município
ficar, por sua leitura, que muito já realizou A parte financeira da Associação tam-
a A . P . M nesse pouco mais de um semes- bém não foi descurada, já estando em prá-
tre de existência. Através do rádio e da tica o plano elaborado, que prevê, entre ou-
imprensa, levou a efeito vasta propaganda tras coisas, a instituição de duas categorias
dos fins da Associação, estabeleceu intenso de sócios, a expedição de diplomas aos mes-
intercâmbio com as diversas Prefeituras do mos, e a instalação de Delegacia da Associa-
Estado e intercedeu, junto aos representan- ção em cada Município
tes pe1nambucanos na Assembléia Nacional,
Até fevereiro do corrente ano, data do
em prol da revitalização do Município, no
Relatório, já se encontravam em funciona-
que alcançou pleno êxito
mento a Delegacia de Moreno, e criadas as
A criação de Órgãos comunais, com os
dos Municípios de Vitória e Timbaúba.
mesmos fins da Associação, em cada Muni-
cípio pernambucano, sob a denominação de A respeito, merece referência a resolu-
Associação dos Amigos do Município, foi cão da A. P. M no sentido de a escolha do
outro objetivo que logo procurou concretizar. Secretário das Delegacias recair sempre nos
Outras deliberacões de vulto tomou ain- Agentes Municipais de Estatística.
da a Associação, coffi:o sejam o estudo do pro- A A P M já contava, à época do rela-
blema financeiro dos Municípios em face da tório em questão, o expressivo número de
reforma introduzida pela nova Constituição; 45 sócios
e V«<.a Ru'Ui,L

VIVEIROS FLORESTAIS PERMANENTES


NOS MUNICÍPIOS
W. DUARTE DE BARROS
(Engenheiro-Agrônomo do Serviço Florestal)

A sólidos indícios de que toma base meros. Alguns dêles, de amplitude generali-

H no País um movimento municipalista.


Procuram alguns elementos de elite
da intelectualidade brasileira - em grande
zada às Municipalidades do Brasil, citam-se
com prioridade graças ao caráter nacional:
- vias de comunicação, alimentação, saúde
maioria oriundos do interior, do sertão do e higiene, educação das populações 1·urais,
Brasil - demonstrar as impropriedades da produção agrícola, exploração do solo e con-
política econômica, administrativa, financei- servação das fontes de bens da natureza.
ra e social, até agora entre nós produzida. Como de particularidade essencial, des-
Independentemente da atividade dêsses in- taco, pela importância, o problema da manu-
telectuais, grupados na Associação Brasileira tenção dos recursos naturais em geral. A
de Municípios, todos nós sentimos, princi- caça, a pesca, as nascentes d'água, as flores-
palmente os que habitam no interior, mais tas, o solo e o subsolo, constituem precio-
diretamente vinculados à gleba - no senti- sos capitais, de alta importância para a vida.
do amplo e forte de porção e "habitat'' rural Sua conservação forma tema da mais elevada
- que o progresso do País deve ter alicer- política moderna em todos os países cultos
ces na organização do Município e no tra- ou civilizados do mundo. Temos que consi-
balho definitivo que a sociedade nêle rea- derá-los, apoiando-nos no exemplo de outras
liza. nações e situando-os como problema basilar
Em todos os momentos da vida brasi- de nossa terra.
leira, tivemos autênticos municipalistas que Independentemente, como fonte de ri-
procuraram, como fórmula de progresso, in- queza, ou, socialmente, no papel de fator-
dicar à Nação a importância da vida muni- -equilíbrio da natureza, a floresta tem que ser
cipal para a forma estrutural da política que considerada como o mais precioso dos bens
mais conviria ao Brasil realizar. Com efeito, naturais, pois de sua existência, de sua ex-
a Municipalidade deveria, de há muito, cons- ploração e da forma de sua reorganização
tituir o fundo de crédito do Estado e o nú- dependem não só a água, o solo, o clima,
cleo inconfundível do trabalho de aprovei- como, acentuadamente, a vida humana. A
tamento dos bens da terra, de melhoria cres- exploração de madeiras, o intenso extrati-
cente das condições de vida do homem rural, vismo a que se têm submetido diferentes
de positiva unidade social, uma vez que dela terras e a maneira deficiente de trabalhar
tudo provém e é ela quem assegura a estabi- as matas, determinam em todo o mundo
lidade nacional. gravíssima questão de economia pública.
Somente afastando o País das influên- A exploração dos produtos e dos sub-
cias de princípios a nós alheios e livrando-se produtos florestais, o plantio e o replantio
os nossos homens públicos do irremediável de conjuntos florestais homogêneos, interes-
e fatal transplante - sem exame, sem adap- sam profundamente ao Município. Melhor
tação e, portanto, com diminuta possibili- que os Estados, aproximados com maior ri-
dade, tais as injunções do meio - de novas gor da região, no que concerne à maneira
e adventícias normas, será possível conceder de interpretar as necessidades do interior,
ao Município brasileiro progressiva autono- as Municipalidades aparelhadas concorrerão
mia, facultando-lhe o fator de necessário para a solução de problemas complexos, co-
trabalho. mo a questão das matas e do reflorestamen-
Assegurada à comuna efetiva personali- to. Elas poderão, com maior segurança, ga-
dade, grande parte dos problemas gerais, mal rantir a existência do mínimo florestal esta-
percebidos na administração estadual e ra- belecido em Lei e fixar o método mais ade-
rl.ssimamente auscultados na órbita do Govêr- quado de reorganização do patrimônio des-
no federal, atingirá posição relevante. Caberá truído, reformando-o racionalmente em fun-
ao Govêrno municipal enfrentá-los, dando- ção das utilidades atuais e futuras.
lhes soluções de fundamentos práticos, cujos Encarado assim tão fundamental pro-
resultados satisfaçam aos anseios do povo, blema da Nação, sente-se a necessidade da
descrente de fórmulas que circunstâncias di- existência de um núcleo municipal que rea-
versas apresentaram através de prolongado lize, como órgão coordenador, a tarefa de
período de espera. Êsses problemas são inú- fomento florestal. Centro basilar de incre-
HEVISTA BnASILElHA nos 1\luNrCÍPIOS 129

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H B M -9
130 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

mentação de plantios e exploração de matas, getais de porte arbóreo (tratando-se de


pode vir a ser o que chamamos propriamente floresta) e terras perdidas pela intensidade
viveiro florestal permanente no Município. do trabalho rural. Essas terras, que o lavra-
Instituído em modêlo único, variável dor empobreceu ou inutilizou, podem ser
apenas quanto à área, a localização, quali- recuperadas, e um dos processos de recon-
dade e quantidade da produção - fatôres quista de tais solos é o florestamento ou o
que precisam ser considerados em relação à reflorestamento, conforme seja o caso.
superfície e às disponibilidades orçamentá- De modo geral, porém, o lavrador não
rias municipais, ao lado do maior ou do me- está em condição de, econômicamente, rea-
nor grau de desmatamento sofrido, - o tipo lizar êsse serviço. É obra de tempo, que
de viveiro sugerido terá como finalidade tem de ser feita à luz de árduo trabalho
precípua a produção e a distribuição de mu- planejado e apoiado em conhecimentos de
das. Fará essencialmente fomento florestal diversos ramos técnicos, como engenharia,
intenso no Município, apoiando seu trabalho agronomia e silvicultura. Pela importância
nos dados que a técnica silvícola indicar do capital empregado, ou a empregar, na
pelos experimentos e observações que os emprêsa, só o poder público pode intervir
Hortos Florestais federais ou estaduais e executar o serviço de reconquista de solos
apontarem. De instalação singela, devem re- inutilizados em áreas consideráveis, sendo
fletir a melhor organização, de tal forma tal trabalho chamado obra de salvação pÚ-
que influam poderosamente na mentalidade blica. Convém acentuar que há solos menos
do lavrador, sobretudo demonstrando o ren- férteis, cuja lavourização não mais se torna
dimento da floresta. aconselhável, que podem e devem ser cober-
A instalação do viveiro florestal per- tos por florestas. Tirar-se-ão dois proveitos
manente tem que ser bem cuidada. Prefe- reflorestando-os: a floresta com suas utilida-
rentemente, será feita por Engenheiro-Agrô- des, e o enriquecimento da terra, pela re-
nomo, ou por Silvicultor. Levar-se-ão em serva de umidade e de material orgânico
conta, como indispensável na escolha do que aquela lhe proporcionará.
local: a) acesso fácil; b) proximidade direta A interferência dos governos em obras
de vias públicas ferroviária ou rodoviária; de salvação pública é solicitada quando a
c) abundância de água (se possível um pe- extensão do serviço se torna tão grande que
queno curso fluvial); d) topografia mista só a administração pública pode intervir para
de morros e várzeas, sendo estas em propor- resguardar ou recuperar áreas cujo estado
ção de 2 partes e aquela de 1 parte; e) ter- afeta a vida das coletividades. Do ponto de
renos de boa constituição (tanto quanto pos- vista de efeito do trabalho agrícola sôbre
sível gordos, frescos, de consistência media- nossas terras, não tivemos no Brasil casos
'lla, profundos, não úmidos) . daquela natureza, mas estamos na iminência
Todos os fatôres apontados concorrem de tê-los, de tal maneira se tem acentuado
seguramente para o êxito dêsse trabalho. A o desapreço pela nossa reserva natural, nota·
topografia acidentada, mista, conforme suge- damente quanto a solo e floresta.
rimos, dará meio para que se demonstre a A área neeessária aos serviços do Vi-
utilidade da terra agrária em função da to- veiro Florestal Permanente do Município
pografia, pois os terrenos com mais de 3o/o deve estar em função da superfície dêste. Não
de aclive reclamam cuidados específicos para será porém inferior a 72 600,00 m2 ou 7,26
aproveitamento. Certas lavouras como o al- hectares (um alqueire e meio de 48 400
godão e milho - precisam ser feitas com m2), pois esta superfície é suficiente para
aprofundada atenção, quando realizadas em uma produção de 250 000 mudas envivei-
grandes áreas que apresentem desníveis de radas, e 1 000 000 de mudas acondiciona-
0,5%. A proximidade de via pública dispen- das em caixas para remessa a agricultores.
sa justificativa, bem como a necessidade de O terreno do viveiro tem que ser totalmente
água em abundância. Quanto à qualidade da cercado e dividido de acôrdo com o que
terra é questão também importante. Muita deve nêle ser produzido. Esclmeço melhor
propaganda sôbre o reflorestamento diz que a questão, apresentando uma sugestão grá-
o lavrador deve reflorestar suas terras más, fica para uma dessas unidades de reflores-
empobrecidas e até mesmo consideradas per- tamento.
didas, incutindo-lhes princípio falho, profun- Em pequeno trabalho que escrevi para
damente errôneo. Isso pode provocar o des- o Boletim do Ministério da Agricultura (de-
crédito dos órgãos oficiais interessados em zembro de 1943), focalizando a questão da
serviços florestais, como conseqüência do criação de Parques Florestais municipais,
fracasso que o reflorestamento feito à base tive ocasião de demonstrar a necessidade da
de capital pequeno e fraco, sôbre terrenos formação dessas reservas. Assevero, agora,
em alto grau de danificação, tem que deter- que o viveiro florestal permanente, será,
minar. Como todos os demais empreendi- preferencialmente, estabelecido em área con-
mentos agrários, o plantio das florestas re- tígua ao terreno do Parque, com isso melhor
clama bons solos; há espécies florestais que se atendendo às suas finalidades, em relação
requerem para viver, como condição funda- com os recursos orçamentários municipais e
mental, a existência de determinados fatôres dando-se uma só direção aos dois Órgãos da
físicos, químicos, climáticos e biológicos, sem comuna de objetivos próximos.
os quais não prosperam. A função essencial do viveiro perma-
Os terrenos ruins podem ser de duas nente é incentivar o trabalho de refloresta-
origens: terrenos de constituição geológica mento, produzindo e distribuindo tanto se-
naturalmente imprópria para a vida ele ve- mentes como mudas por sistema de venda
VmA RuRAL 131

PDOJ<ETO D<E umA p(EQGOLA

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132 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

à base do custo de produção. Outras atri- antigas construções coloniais do interior do


buições paralelas poderão ser dadas ao vi- País. O pequeno edifício onde funcionará a
veiro permanente: a) esclarecimento do pú- administração do viveiro florestal poderá ser
blico quanto à utilidade da floresta; b) fis- coberto de telha-canal feita a mão, tendo as
calização municipal das leis de caça e flo- paredes de tijolo, sendo assoalhado, forrado
resta; c) manutenção de estatística florestal e dotado das instalações necessárias de luz,
municipal; d) colaboração nos plantios siste- água, esgôto e telefone - se possível.
máticos de florestas de rendimento quanto O galpão será construído com a mesma
a sementes, mudas, tipos de plantios; e) fo- linha da pequena sede de serviço, tendo
mento florestal; f) coleta e remessa de ma- como dependências fechadas: o depósito de
terial para estudo de plantas municipais a material e a garagem. Êstes dois compar-
Institutos interessados; g) incentivo à jardi- timentos devem, preferentemente, ter o piso
nagem e à arboricultura ornamental; h) com- cimentado. A outra parte do galpão pode e
bate às formigas; i) manutenção de museu deve ser aberta, com piso de chão comum,

PPOJ~TO D(E um (ESTUFim

tESCALA 1: 2 5'

P<tP .SPtECTIVA

COPTIE
TRAn..SVER5QL

municipal florestal; j) demonstrações práti- pois nela deverá ser realizado o serviço de
cas de atividades florestais; I) emprêgo de ve- repicagem e embalagem das mudas. Tratan-
getais do Município no plantio florestal. do-se de um galpão, e para baratear o seu
custo, sugerimos o emprêgo de telhas tipo
O viveiro florestal permanente deve
Eternit, que dispensam caibros, ripas, e
possuir: a) pequena sede de serviços, com
prego, sendo sua colocação de mão de obra
sala de escritório, sala para museu, cozinha
insignificante.
e WC.; b) galpão para depósito de ferra-
mentas, com garagem e sala de repicagem A sementeira deve ser construída por
anexas; c) ripados, estufins, canteiros, tan- tantos canteiros quantos forem necessários
ques para irrigação; d) sementeira, viveiros, para o serviço de produção de mudas, que
talhões para demonstração de .cultura e ren- está em relação com a área do viveiro e com
dimento florestais. a procura de plantas. Os canteiros preferen-
temente serão construídos de tijolos com
As construções serão feitas tôdas com junta tomada de massa de cimento. A me-
muita singeleza e tanto quanto possível lhor dimensão é de 3,00m x 0,90 m (largura
guardarão as linhas, no tocante à sede, das incluídos os tijolos), tendo um espaçamento
VIDA RunAL 133

PPOJCETO DE un
TAnOU<E
pç::jpA IPPI<GAÇRO

CORT~
LonGJTUDJnRL

de O,SOm entre cada um e de 1,50m nas ruas. poenta e com profundidade média de 1 a 2
A mais conveniente direcão é Leste-Oeste. metros. A água deve ser abundante para as
A terra existente na áre; destinada a cada regas.
canteiro tem que ser removida e substituída
No terreno do viveiro, as plantas têm
por terra própria, especialmente preparada
que ser dispostas em linhas igualmente dis-
pelo viveirista; uma boa mistura para se-
tantes umas das outras (de O, 7 5 a 1,00 m) .
menteira pode ser obtida de uma combina-
ção de terra vegetal gorda, areia e terra Se o terreno tiver aclive superior a 0,5%,
será melhor fazer a plantação em sentido
comum, na razão de 2 : 1 : 1, em quanti-
transversal à inclinação, em pequenas ban-
dade suficiente para encher o vazio de
quetas. Isto evitará qualquer surto de erosão,
0,30m do canteiro. Ao preparar a cava será
contribuindo para melhor retenção d'água e
indispensável observar que ela não esteja
para que os amanhos façam reduzidíssimas as
praguejada com pequenos vegetais como a
tiririca ou margaridinha de flor amarela. perdas de soío
Costuma-se tratar a terra da sementeira, a Entre as plantas, nas filas, a distância
fim de livrá-Ia de pragas ou de doenças, de pé a pé será tal que se considere: 1)
submetendo-a a temperatura elevada em desenvolvimento mais ou menos rápido da
chapa de ferro colocada sôbre o fogo. planta; 2) feitio e crescimento do sistema
Os vivehos - Cada espécie vegetal, radicular; 3) porte da planta em relação
depois de germinada na sementeira, reclama com o tempo que terá de vida no viveiro.
tratamento específico. Há, todavia, provi- Éstes são 9s fatôres reguladores da distância
dências gerais que podem ser desde já men- que é necessário existir entre plantas, notan-
cionadas como indispensáveis em qualquer do-se que nunca menos de 0,40 m se dará
viveiro. nesse espaçamento.
Depois que a semente ge1 mina, há ne- Estufins e ripado - Os estufins -
cessidade de ser repicada, transplantada a como indica o nome - são pequenas estu-
~evem planta. Ela deve ser mudada para fas, cujas paredes ficam a pouca altura do
caixa, cestinho ou viveiro, conforme seja o chão (O,SOm), dotados de cobertura de vi-
caso melhor aconselhado. Há espécies flo- draca móvel e nos quais haja condição para
restais - notadamente as de sementes cu!Úvos de plantas mais exigentes na pri-
grandes, que hão de ser plantadas no local meira fase da vida. Embora de utilidade
onde viverão em definitivo. limitada, são os estufins indispensáveis no
O viveiro é a área destinada a receber viveiro florestal permanente, principalmente
certas espécies vegetais que, transplantadas se nêle pudermos produzir mudas de plantas
da sementeira, encontrarão nêle condições ornamentais de constituição delicada. Con-
propícias para bom desenvolvimento. É área forme a natureza da espécie vegetal que nê-
para estágio onde as plantas aguardam o les deverá viver, o fundo dos estufins poderá
momento melhor para serem retiradas e ser de terriço ou de areia com pedregulho
plantadas em terreno definitivamente a elas Geralmente, os vegetais, em estágio nos es-
destinado. A terra portanto deve ser nêle tufins, são plantados em vasos que ficam
boa, fresca sem ser úmida, solta sem ser semi-enterrados.
134 REVISTA BRASILEIRA DOS MuNICÍPIOS

Os ripados, cujo tamanho varia com as tais, - desde o custo da semente, lavra,
necessidades do viveiro, são de todo preci- preparo e cuidado com o solo, desbaste,
sos nos trabalhos que naquele se realizam. derrama, corte, plantio e replantio, combate
Certas semeaduras em caixas, repicagem, a pragas e doenças - levadas a efeito nos
embalagens para plantio e expedição, a aco- talhões, o viveiro balanceará, como do-
modação dos vegetais recém-saídos para cai- cumento demonstrativo, o custo e o lucro
xas ou cestos, necessitam da existência do que a cultura florestal proporciona.
ripado, onde se encontram condições ate- Dessa pequena reserva econômica po-
nuadas de luz, vento e temperatura. Sua cons- derá retirar renda considerável. O Govêrno
trução é facílima, podendo ser feita com municipal obterá do plantio de rendimento
colunas de pedra, de tijolo ou de madeira, do viveiro florestal, materiais para muitos
ou uma combinação artística de dois ou três dos seus serviços: postes, caibros, moirões,
dêsses materiais. Usa-se cobri-los com ripas vigas, pranchões, ripas, indispensáveis às
de madeira de lei ou com bambus (de dura- pequenas e inúmeras obras que tôdas as
ção curta) separados de 5 a 8 centímetros. comunas realizam. Peças para escoramento
As colunas de alvenaria, de pedra ou mesmo de obras de concreto, cruzetas para linhas
de certas madeiras incorruptíveis, têm vaa- de telefone e de luz, cabos para ferramentas,
tagem de maior durabilidade e embora se- tudo poderá ser retirado da cultura florestal
jam de custo inicial mais elevado tornam-se que o viveiro permanente necessita possuir.
baratíssimas com o tempo. Posteriormente, com o produto da venda da
Com a finalidade principal de oferecer lenha conseguida da operação da derrama-
às plantas condições artificializadas de cli- gem, ou de qualquer produto, mais tarde,
ma, êstes ripados são em muitos lugares quando o maciço apresentar-se em condições
recobertos por plantas trepadeiras que não de ser operado, o viveiro terá renda para se
obstruem de todo a penetração da luz solar, manter sem onerar o orçamento da Muni-
refrescando suficientemente o interior do cipalidade. Os plantios que se farão nos
ripado que, também, às vêzes, têm suas talhões deverão obedecer às prescrições que
partes laterais guarnecidas com ripas. Os a Silvicultura determina, podendo os Órgãos
ripados deverão ser colocados entre as se- florestais federais ou estaduais elucidar no
menteiras e os viveiros, em postçao que momento a direção do viveiro sôbre o rumo
favoreça quanto ao sol violento e aos ventos da plantação.
fortes ou frios.
Museu - Com o objetivo de ilustrar,
Talhões - Para atenderem integral- puramente com caráter educativo, existirá
mente às suas finalidades, os viveiros flo- junto ao viveiro, como parte de sua organi-
restais pemanentes nos Municípios deverão zação, um museu de elementos da natureza
dispor de uma área complementar de 1 ou 2 preferentemente interessado na parte flores-
alqueires nos quais façam, com o caráter tal. Nêle serão reunidos f0tografias, gráficos,
duplo de demonstração e de renda, plantios desenhos, partes de árvores ou de plantas
de maciços florestais para exploração eco- úteis do Município. Fôlhas, cascas, raízes,
nômica ou industrial. Com elementos incon- frutos, pedaço de lenho, anomalias curiosas,
testáveis, fornecidos pelas operações flores- pragas encontradas nas matas do Município,

DPOJ€TO D€ um OIDADO
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Decção R Secç.:io B

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VmA RuRAL 135

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CESCALA 1:'100

tudo deve aí ser reunido para documentário base do trabalho que mais urgência e prio-
e ilustração do público. Servit á também o ridade em execução requer no País - o
museu como atrativo do povo, a quem pode plantio de maciços florestais em todo o in-
a administração do viveiro, aproveitando o terior. Funcionando como órgão fomentador,
interêsse da visita, acorrer indicando a uti- êsses viveiros terão função esclarecedora e
lidade do campo florestal do Município e orientadora junto ao meio lavourista interes-
demonstrando a finalidade, a vantagem e o sado em plantio florestal. Poderão indicar
lucro que oferecem as florestas de rendi- que a floresta plantada é tão importante e
mento. tão valiosa para a economia ela propriedade
rural de cada um como o é para o País todo,
Além de sua direta utilidade, como
sendo tarefa de elevado valor plantar matas
órgão de fomento no Iviunicípio, o viveiro
homogêneas para expio! ação econômica. Não
florestal permanente pode concorrer para o
só pelo que proporciona em renda, como
embelezamento de ruas, praças, alamedas e
estradas, podendo êle próprio ser um recanto pelas melhorias das condições ela natureza,
tão apreciável como a mais remunerativa
aprazível do Município, cujas cercanias des-
das tarefas rurais, o plantio florestal neces-
pidas de florestas tenham perdido a graça
que todos nós tanto apreciamos. sita ser cogitado e incentivado. Esta será,
precipuamente, a base do trabalho que de-
Os viveiros florestais permanentes nos vem as Municipalidades atribuir aos viveiros
Municípios constituem, pois, a meu ver, a florestais permanentes.
O JUUNICíPIO (Sua conceituação histórica e tervenção e da centralização levada ao mais
jurídico-constitucional) - Ivo d' Aquino - alto grau.
Imprensa Oficial do F:stado -
polis.
Flot·iauó-
*
Concorrendo à cadeira de Direito Pú-
blico e Constitucional da Faculdade de
No povoar ou colonizar a tetra brasi-
Santa Catarina, o Sr. Ivo D' AQUINO se apre-
leira, Portugal a considerou, simplesmente,
sentou a julgamento com a tese "O Muni-
sob o aspecto de um prolongamento naturai
ctpto: sua conceituação histórica e jurídi-
do reino, donde o transfundir-lhe, sem quais-
co-constitucional".
quer restrições, ou modificativas, nada obs-
tante às discrepâncias evidentes de natu- Servido por aprofundada cultura de
reza e espaço, a mesma estrutura e o mesmo Direito Constitucional e por uma inteligên-
sentido da civilização portuguêsa, com as cia lúcida e brilhante, o A., socorrido tam-
suas singularidades sociais, as suas peculia- bém por preciosa bibliografia, realizou obra
ridades políticas e os singelos objetivos da original e de mérito indiscutível, que se
sua dinâmica econômica. credencia a posição de relêvo na literaturã
brasileira que trata da matéria.
Por isso mesmo, o municipalismo bra-
sileiro é, da sua instituição até alguns anos Iniciando seu trabalho com o estudo
depois da Independência, o municipalismo minucioso do Município romano, examina
português, resultante do conceito romano, o medieval, o anglo-saxão, o modetno, o
alterado, na configuração e no conteúdo pela português e o brasileiro, demorando-se em
influência visigótica, bem assim bárbara e expor e interpretar as diferentes Constitui-
sarracena. cães do 'País no referente ao assunto
" Analisando os limites de "descentrali-
As ordenações Manuelinas e Filipinas,
zacão" e "autonomia'', expende conceito
sucessivamente, não permitiram o abrasilei-
do~trinário de alta relevância.
ramento do Município no Brasil, fenômeno
Obra, sem dúvida, indispensável aos
que sàmente seria possibilitado pela Cons-
estudiosos do municipalismo.
tituição do Império e pela Lei de 1.0 de
outubro dP 1824 Daí para cá, até aos RJWRGANIZAÇAO JIIUNICII' AL - Océlio <le
nossos dias, o municipalismo indígena evo- l\Iedeit·os - Irmãos Pongetti - Rio de
lui de maneira original, ora em derrota à Janeit·o, 1946.
autonomia ampla, ora remando à centrali-
zação, parcial ou integral, conforme à época É paradoxal, não há dúvida, que tendo
e à mentalidade política dirigente do País. ido à guerra contra ideologias que negavam,
A Constituinte de 1891, movida pela pràticamente, todos os princípios da econo-
idéia federativa, tornaria questão fechada mia liberal, inclusive o da livre competi-
a autonomia municipal, não raras as indi- ção, estejam os governos democráticos, pre-
cações no sentido duma amplitude dilatada midos por uma herança tão calamitosa -
de poderes, de soberania O verbo de Rur a crise em que a humanidade ora se deba-
agitaria: "Não há Estado sem Municipali- te - , na contingência de interferir aberta-
dades. Não pode existir matéria vivente sem mente na ordem econômica, evitando, pelo
vida orgânica Não se pode imaginar exis- equilíbrio das reivindicações, um desajusta-
tência de povo constituído, existência de mento social ainda maior e de conseqüên-
Estado, sem vida municipal. Vida que não cias talvez imprevisíveis. Sem prejuízo de
é própria, vida que seja de empréstimo, sua filosofia política, vai o Estado moderno,
vida que não fôr livre, não é vida. Viver sob a influência dos acontecimentos, abando-
do alheio, viver por outrem, viver sujeito nando a sua posição de mero vigilante, a
à ação estranha, não se chama viver, senão que havia sido relegado por teorias econô-
fermentar e apodrecer." micas hoje passíveis de restrições.
A Constituicão de 1934, considerando Exultam simpatizantes e remanescen-
preceito fundarn"ental, "princípio constitu- tes do credo vencido, que não percebem,
cional", a autonomia do Município, daria nessa mudança de atitude, senão o fascismo
margem a controvérsias calorosas de inter- renascente de suas próprias cinzas, mais
pretação entre os constitucionalistas. A Cat- revigorado em suas doutrinas absorventes e
ta em referência "rompeu a clausura, em expansionistas. Por outro lado, rejubilam
que estava encerrado o Município, dentro os extremistas da esquerda, para quem essa
do Estado, para pô-lo em contacto com tôda nova orientacão política, já defendida, no
a Nação, socializando-o no organismo na- entanto, por .homens e partidos tradicional-
cional e reclamando-lhe a colaboração, a mente conservadores, representa um passo
par da União e do Estado, para a solução na direção do socialismo integral.
de problemas sociais".
No âmbito dos chamados serviços pú-
Já a Constituição de 1937 transforma- blicos, aliás, há muito se observa a interfe-
ria radicalmente o organismo político do rência do Estado, que a princípio se re-
Brasil, especialmente com a prática da in- servou o monopólio de alguns, corno, entre
BIBLIOGRAFIA 137

nós, o dos correios e telégrafos, admitin- pelo A. ao Chefe do Executivo dessa Uni-
do-se que o mesmo venha a ocorrer com as dade Federada e um estudo intitulado "A,;
estradas de ferro, serviços de águas e esgo- três fases da vida municipal", pub'licado
tos, etc. À velha praxe das concessões, mui- anteriormente na imprensa de Fortaleza.
tos especialistas do direito administrativo No memorial, o Sr. J. COLOMBO DE
já preferem o sistema da nacionalização, SOUSA, utilizando linguagem objetiva, faz
estatitização ou municipalização, cujas van- apoiar em cifras de forte eloqüência a pre-
tagens são evidentes, antes de tudo porque cariedade da posição dos Municípios, quan-
defende a economia nacional contra a in- to à distribuição das rendas, até o advento
filtração de poderosos trustes internacio- da atual Constituição do Estado que, acom-
nais. panhando as linhas essenciais da Cm ta F e
Reintegrado o País num regime consti- dera! de 1946, veio ao encontro dos inte·
tucional de caráter mais ou menos estáveL rêsses dos Municípios, proporcionando-lhes
seria natural que êste e outros problemas meios materiais de atender às prementes ne-
voltassem à atencão de alguns espílitos es- cessidades locais. Nesse documento, o Sr.
clarecidos, de pa; com a discutida questão J. COLOMBO DE SOUSA apresenta o p10jeto
da autonomia municipal. Ao Sr. OCÉLIO DE de organização, no Estado, de um Departa-
MEDEIROS sobram razões para afirmar que mento de Assistência Municipal, destinado
esta carecerá de conteúdo se não coincidir a assegurar aos Municípios a assistência
com um novo surto municipalista, caracte- técnica imprescindível à racional aplicação
rizado por uma partilha tributária mais e- das rendas acrescidas pelos dispositivos
quitativa, pela municipalização dos serviços constitucionais.
públicos de interêsse local, por reformas A monografia se encontra enriquecida
completas nas emperradas administrações de oportunos dados sôbre o vulto das arre-
comunais, etc. - assuntos que tiveram aco- cadações de todos os Municípios do inte-
lhida em seu livro intitulado Reorganização rior do Ceará, com a respectiva discrimi-
Municipal, de atualidade indiscutível. O A. nação
porém, vai mais longe: preconiza a forma-
POLíTICA DO l\IUNICíPIO - Orlando M.
ção de administradores municipais e a ins-
Carvalho - Livraria Agir Editôra - Rio
tituição de cursos especiais, cujos progra-
de Janeiro, 1946.
mas teve o cuidado de elaborar, valendo-se,
para isso, de sua experiência no Departa- Em conhecido volume da Coleção Bra-
mento Administrativo do Servico Público. siliana, que tem o título Problemas Funda-
No último capítulo, aprecia~ a situação mentais do Município, o Professor 0RLAN·
do Município no Direito Novo, confronta DO M. CARVALHO já teve o ensejo de ven-
os dispositivos constitucionais referentes aos tilar quase todos os problemas das nossas
Municípios, critica o regime municipal na administracões comunais, cuja complexida-
vigência do Estado de fato, estuda o pro- de atual é o resultado de lenta evolucão
blema da reparticão de competências e tece histórica, que o A. expõe agora neste volu-
uma série de co~siderações quanto à posi- me, remontando às origens lusitana, espa-
ção do Município Brasileiro em face da re- nhola e até às instituições de Roma antiga.
democratizacão do País. O ensaio Política do Município foi ela-
Não ap.enas pelos problemas que expõe borado com base, principalmente, na for-
e analisa, mas em parte pelas soluções que macão das Municipalidades mineiras - o
sugere, esta obra do Sr. OcÉLIO DE MEDEI- qu~ não impede possa o leitor conhecer, de
ROS merece o aprêço da nova geração de modo geral, os rumos da política municipa ·
municipalistas brasileiros lista brasileira sob os diversos regimes o
cartas constitucionais - e compreende os
REARIJ,ITAÇiiO I~ l'ROSPKRIDADI~ DOS
seguintes capítulos: o Conselho português,
l\IUNICli"PIOS J. Colombo de Sousa as Câmaras Coloniais, a experiência holan-
Imp1•ensa Oficial - Fot"taleza, 1947.
desa, as Câmaras Municipais no Império,
Professor da Escola Preparatória de a solução da Primeira República, a centra-
Fortaleza, da Faculdade Católica de Filo- lizacão ditatorial de 1930 a 1934, o "inter-
sofia e da Faculdade de Ciências Econômi- mezzo" constitucional de 1934 a 1937, a
ressurreição da tutela, a ditadura econômica
cas do Ceará, o Sr. J. CoLOMBO DE SousA,
nada obstante sua atividade intensa, como e política dos prefeitos municipais e o in-
terêsse político atual do Município do in-
se vê, no magistério, é um estudioso e ar-
guto observador das realidades nacionais, no terior
plano da vida municipal. Antigo funcioná- O RIO DE JANl~IRO liUPlnUAL - Adolfo
rio do Departamento Municipal do seu Es- l\lorales de los Rios T•'ilho - Editôm A
tado, havendo igualmente exercido, duran- Noite - Rio de Janeiro, 1946.
te algum tempo, os cargos de Prefeito dos
Municípios do Crato e de Quixadá, teve Ao proceder a pesquisas com o fim de
ensejo o Sr. CoLOMBO DE SousA de reco- coletar elementos que serviriam ao seu li-
lher, nessas opo1 tunidades, ampla experiên- vro Grandiean de Montigny e a Evolução
cia acêrca das limitações e óbices que tanto da Arte Brasi!Pha, o Sr. ADOLFO MORALES
vêm contribuindo para tornar tanto, quanto DE LOS Rros FILHO viu-se necessàriamente
não inteiramente nulo, o desenvolvimento obligado a estudar o ambiente social, eco-
e o progresso de nossas zonas rurais. nômico, uolítico, administrativo e urbanís-
O trabalho em epígrafe, que diz res- tico do Rio de .T aneiro, no período compre-
peito à situação dos Municípios do interior endido entre 1808 e 1850 Continuando os
do Ceará, inclui um Memorial apresentado estudos, as pesquisas, posteriormente à pu
138 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

blicação daquela notável obra, o A. decidiu, calor de um momento, que desperta recor-
face à excelência da documentação reunida, dações, umas sentimentais, bucólicas, outras
organizar novo trabalho, também de fôlego prazenteiras, alegres; algumas tristes, dolo-
e, como o primeiro, cheio de atrativos e de rosas como o suplício dos prisioneiros de
méritos indiscutíveis. Surgiu, daí, O Rio de 1840; e até entusiastas, como êsse sonho da
janeiro Imperial, que é a história do "Mu- República dos Pastos Bons".
nicípio Neutro, ou da Côrte". Em apêndice, o trabalho inclui quatro
O simples fato da referência à "his- peças de raro valor histórico: o capítulo do
tória" dum Município, ainda que êsse Mu- Dicionário Histórico e Geográfico, de CE-
nicípio seja a Capital Federal, poderá mo- SAR MARQUES, referente ao Município de
tivar reservas, ou, quando pouco, sugerir Pastos Bons; o capítulo de O Estado do
seja acolhida, de jeito menos caloroso, ou lVlaranhão em 1866, do Professor RIBEIRO
menos cordial, a obra evidenciada. DO AMARAL; o Parecer da Comissão de
É que vige ainda a idéia de que "his- Constituição da Câmara dos Deputados, li-
tória" sinonimiza, sem variantes, sucessão do na sessão de 29 de maio de 1829, no
rígida e monótona de datas e pessoas e lu- qual se alude a uma proclamação de caráter
gares . Se, em verdade, a história não pode republicano, lançada em Pastos Bons, no
prescindir do material humano, das con- ano anterior; e a Descrição do Território de
dições mesológicas e do fator tempo, ca- Pastos Bons, nos Sertões do Maranhão, es-
be-lhe, por outro lado, expor e interpretar crita em 1819, por FRANCISCO DE PAULA
as inter-relações respectivas, donde a dinâ- RIBEIRO.
mica da sociedade. "Sem que se estabele- POVOADOS - Departamento Estadual de
ça a correlacão entre os acontecimentos e se Estatística - Bahia - 1Hi7.
forme a seqüência nas apreciações, não é
possível escrever história que, além de cro- Interessante monografia sôbre os po-
nológica, sejà filosófica, social, econômica voados da Bahia foi publicada, no ano pas-
e política": é êsse o pensamento do A. e sado, pelo Departamento Estadual de Es-
sua diretriz na elaboracão da obra ora co- tatística baiano Nesse trabalho, que foi
mentada, que, sem co~prometer a unidade elaborado pela Divisão de Estatística Fi-
de conjunto, se desdobra em capítulos es- siográfica e Social daquele Órgão regional
pecializados: a cidade, o complemento ur- do sistema estatístico nacional, os 1 419 po-
bano, toponímia, trabalho, a sociedade, a voados do Estado são caracterizados, de acôr-
instrução, a divulgação do saber e das idéias, do com as condições estipuladas pelo Institu-
cultos e crencas . to Brasileiro de Geografia e Estatística, como
O A., c~m habilidade que metece re- grupos mínimos de dez moradias, relativamen-
levada, intercala, de onde em onde, e a te próximas, contando, cada um, pelo me-
fim de quebrar a inevitável aridez de cer- nos, um estabelecimento comercial. Os po-
tas exposições, episódios curiosos: os tipos voados se acham relacionados em ordem al-
populares dantanho, a linguagem saborosa fabética, segundo os Distritos e Municípios
das flores e das ervas e raizes, os "gargare- a que pertencem. Também em ordem alfa-
jos" an1orosos, os espirros, os anúncios es- bética e nor zonas fisiográficas, figuram os
drúxulos. Daí, sem dúvida, o interêsse cres- Município-s baianos com sua população es-
cente com que se lê tôda a obra, que é útil, timada em 1946 e com os seus respectivos
amena e extraordinàriamente preciosa na números de Distritos e povoados.
sua documentação. Os povoados baianos são relacionados
ainda segundo o número de moradias, po-
1\IUNICíPIOS 1\IARANUENSES: PASTOS BONS pulacão aproximada, número de escolas e
Clodoahlo Cardoso - Servi~:o Gráfico distância em quilômetros das respectivas se-
do I R G E. - Rio, 1947. des distrital e municiual.
Inspirado na Resolução n. 0 57, da As- A população total dos 1 419 povoados
sembléia Geral do Conselho Nacional de era, em 1946, de 353 833 habitantes, ele-
Estatística, o Departamento Estadual de vando-se o número de moradias a 80 632,
Estatística, do Maranhão, vem promovendo e o de escolas a 776.
a elaboração e a divulgação de monogra- JUUNICíPIO DE SÃO SEBASTIÃO DO PA-
fias estatístico-descritivas municipais, tanto RAíSO - Nntícia Uistórico-Corográfica e
quanto possível circunstanciadas. Recente- Estatística - José B1•az l'Tavcs - Scrvi~o
mente, fêz publicar a de Pastos Bons, de Gráfico do I B G.E Rio, 1947
autoria do Sr. CLODOALDO CARDOSO, Secre-
tário do Diretório Regional de Geografia. O conhecimento, por parte dos nossos
Pastos Bons, com seus dois séculos de governantes, das verdadeiras condições exis-
existência, nascido de uma das 120 fazendas tenciais dos Munic;ípios brasileiro~, é da
de gado que, em 17 40, se disseminaram no maior importância para a revelação dos
sul do Maranhão, tem expressão ponderável problemas e das possibilidades nacionais
na história regional: em 1828, seu povo ali- Sàmente tendo diante de si um perfeito
mentava o sonho de tornar-se independente levantamento dos elementos reais que equa-
do resto do Império, proclamando-se então cionam a vida dos Municípios, que são as
a República dos Pastos Bons. Viveu, de- células da Nação, podem os técnicos do
pois, momentos de importância por ocasião Govêrno encaminhar o solucionamento dos
da "Balaiada". E foi a sede do govêrno civil problemas de âmbito nacional. Para êsse
de todo o sul do Maranhão . · conhecimento contribuem, sem dúvida, efi-
Hoje, nas palavras do Sr. CLODOALDO cazmente, as monografias municipais, que,
CARDOSO, "existe quase esquecido. Tem o de tempos para cá, vêm sendo publicadas
BIBLIOGRAFIA 139

em maior número, e que focalizam com de julho de 1931, em evidência expressiva


objetividade os aspectos vitais dos Muni- de prosperidade. Colonizada por alemães
cípios brasileiros. ( 40%) e italianos (30%), principalmente
Uma dessas monografias, de grande in- seguidos de poloneses (10%) e nacionais
terêsse para quantos se preocupam com as ( 20%), Santa Rosa tem na agricultura o
questões que afetam a vida nacional e bus- seu fundamento econômico: milho, feijão,
cam, na exatidão dos números, a imagem fumo e linho, notadamente. E, também, a
sem retoques da realidade brasileira, é a que suinocultura, pois, como afirma . com muito
escreveu o Sr. JosÉ BRAZ NAVES, Agente Mu- sabor o caboclo, "quem planta milho, plan-
nicipal de Estatística em São Sebastião do ta banha".
Paraíso, sôbre êsse JIA:unicípio do sudoeste O A. examina, em capítulo interessan-
de Minas. te, o problema dos quistos raciais em Santa
O trabalho, além de trazer sucinta no- Rosa, onde, da mesma forma que noutros
tícia histórica sôbre o Município, focaliza pontos do Rio Grande e de Santa Catarina,
os aspectos mais importantes da atividade colonos alemães tentm·am resistir à amalga-
municipal, esclarecendo-os através de inú- mação etna-social. A certa altura, afirma:
meros quadros comparativos. " verificou-se sempre uma grande e
Fixando os volumes e valores da pro- séria reação contra as escolas nacionais ins-
dução da indústria extrativa, agrícola, pe- taladas depois. E pode-se dizer que, até há
cuária e manufatureira, os meios de trans- bem pouco, êsse fato se verificava contra
portes e comunicações, o movimento de ar- a criação de escolas e manutenção de pro-
recadação de impostos municipais, os salá- fessôres por todos os pontos de colonização,
rios profissionais e os preços dos gêneros no Estado".
alimentícios, o número de logradouros pú- Diz o A., afinal, que "o presente tra-
blicos dos distritos e da cidade, o número balho é resultante de um aproveitamento,
de unidades escolares e de alunos matricu- mas constitui ensaio para outro, mais nm-
lados, o de nascimentos e mortes, e outros plo e com diferente distribuição de ma-
elementos da dinâmica do Município, êsses téria".
quadros representam, objetivamente, as ati-
vidades de São Sebastião do Paraíso em l{EVIS'.I'A DE lHRRI'l'O l\HJNICIPAL, Vol.
todos os setores, revelando-nos as suas fôr- II, Ano I - Salvador, Bahia, 1946.
ças propulsoras de progresso, as suas pos-
sibilidades e as suas deficiências. Em notável discurso, ao ter início c
A excelente monografia do Sr. JosÉ ano letivo de 1945, na cidade do Salvador,
BRAZ NAVES traz ainda grande número de apontou ilustre professor de direito, apoia-
fotografias dos aspectos mais interessan- do na linguagem insofismável das estatís-
tes da cidade, da sua atividade agrícola ticas, a situação de penúria a que chegaram
e pecuana, e um gráfico da curva de cres- os Municípios baianos, devida, como se sa-
cimento da arrecadação municipal em con- be, à desigual partilha das rendas tributá-
fronto com a diminuição da dívida passiva lias:
do Município "Entre nós, aqui na Bahia, em 1939,
dos nossos 151 Municípios 83 não arreca-
1\IUNICíPIO DE SANTA ROSA - Vicente daram receita superior a cem contos, dezesseis
Cardoso - Oficinas Gráficas da Liv1•aria não chegaram a quarenta contos e, dêstes
do Globo - Pô1·to Aleg1'e, 1947. dezesseis, uns ficaram em vinte contos e
outros não atingiram quinze contos, - isto
No plano do Recenseamento Geral de
1940, ficou prevista a elaboracão de mono- é - , tiveram receita inferior à de qualquer
grafias histórico-corográficas d~s Municípios homem de modesta capacidade produtiva".
brasileiros, segundo elementos obtidos atra- Com êsse quadro tão alarmante, aquêle
vés de circunstanciado questionário, cujo Estado teria mesmo, aos primeiros acenos
preenchimento foi confiado, de maneira ge- de uma nova ordem constitucional, de for-
ral, pelas Prefeituras Municipais, a pessoas mar na vanguarda do movimento que pro-
conhecedoras da evolução comuna!, ou a es- cura assegurar às nossas comunidades lo-
pecialistas, ou a técnicos. cais melhores condições de vida e progresso.
Não raros Municípios adotaram a polí- À luta pela autonomia municipal, vitoriosa,
tica de ampliar a idéia originária, isto é, o por fim, no texto da constituição vigente,
simples 1esponder ao questionário, para pro- deverá seguir-se, por certo, a discussão dos
moverem, com a cooperação de intelectuais problemas que representam aspirações le-
credenciados, a feitura de monografias com- gítimas dos Municípios rurais brasileiros e
pletas, algumas das quais vêm sendo publi- cuia solução vem a ser o complemento na-
cadas tmal claquela importante prerrogativa po-
Inclui-se entre os segundos o Município lítica
de Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, cuja Ante os horizontes que se descortinam,
monografia, elaboradn pelo Senhor VICENTE os temas de urbanismo, saúde pública, edu-
CARDOSO, é, agora, dada à publicidade, de- cação, administração, etc , tendem a empol-
pois de haver sido tratada com vagar, dan- gar · mais os nossos técnicos e especialistas,
do lugar a desdobramentos e atualizacão. pelas maiores possibilidades de aplicação
Gràficamente muito bem apresent~do, prática e objetiva. Aumenta, assim, o nú-
e ilustrado com plantas e mapas, o traba- nlero de estudiosos dessas questões, ao
lho estuda com muita segurança a evolução mesmo tempo que surgem órgãos publici-
da colônia de Santa Rosa, que, criada em tários para a defesa dos abandonados interês-
1915, se transformaria em Município a 1.0 ses regionais .
140 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

Do próprio Estado da Bahia nos chega intitulada La Barraca, teria apresentado o


o Vol. li, Ano I, da Revista de Direito lavrador valenciano como sanguinário e her-
Municipal, cuja matéria, distribuída por deiro da paixão moura pelas armas de fogo,
cinco secções - Doutrina, Administração, um pesquisador espanhol contemporâneo, o
Urbanismo, Jurisprudência e Legislação - , Sr. J. MANUEL CASAS TORRES, em recente
compreende o seguinte: Importância do Po- monografia sôbre as habitações e os núcleos
der Municipal e sua função democrática, do de população rural da região de Valença,
mencionado professor de direito, Dr. LA- explicou o fato à luz da geografia humana,
FAIETE 'PONDÉ; Considerações sôbre um pla- assinalando a escassez dos materiais de cons-
no de combate às sêcas, pelo Engenheiro trução e a conseqüente fragilidade das mo-
AMÉRICO FURTADO DE SIMAS FILHO; Insta- radias, que uma notável dispersão, dado o
lação da Associação dos Municípios da Ba- regime de pequenos latifúndios, torna ain-
hia; Divisão regional do Estado da Bahia, da mais vulnerável à sanha dos salteadores
pelo Arquiteto JosÉ N. ALLIONI; Município noturnos.
de Itabuna (histórico, finanças, economia, Assim como a vida local ou regional
indústrias, escolas, serviços públicos, etc.); apresenta matizes próprios, a administração
Instruções para elaboração das propostas or- das comunas deve revestir-se de certas pe-
çamentárias pelas prefeituras do interior do culiaridades, que não se 'enquadram nas
Estado; Município de Paripiranga - inau- grandes sínteses estatísticas ou descritivas
guração da luz elétrica; Geografia Urbana de um país. Daí o alcance de uma publica-
- palestra do Professor FÁBIO DE MACEDO ção no gênero desta que nos manda o "Ins-
SOARES. I tituto de Estudios de Administración Local".
Seguem-se pareceres, sentenças, decre- Estudios y Estadisticas de la Vida Lo-
tos-leis, a Constituição Federal de 1946, etc. cal de Espaiia abrange questões territoriais,
Dirige a Revista de Direito Municipal comércio, ensino, educação, saúde pública,
o Sr. IVES DE OLIVEIRA. transportes, comunicações, etc.

ESTUDIOS Y ESTADISTICAS DE LA VIDA REVISTA Dlc lNFORlliACióN llnJNICIPAJ,


J,OCAL DE ESPANA, tomos I, 11, IH e - H. Conscjo Deliberante de Ia Ciudad
IV - lnipi'e-nta y Litog1·afia Juan Bravo de Buenos Aires - Buenos Aires, Argen-
- l\Iadi·id, 1946. tina, 1947.

Nas confederacões ou federações de Dedicada ao estudo dos problemas re-


antigas cidades liv;es, que se uniam por lacionados à capital argentina, a Revista
interêsses políticos e economicos, aliados, de Información Municipal inclui num só
quase sempre, às afinidades raciais, de lín- volume os números 75 a 78, corresponden-
gua e de crença religiosa, teve início a for- tes ao ano de 1947, divulgando, além de
mação das nacionalidades e, simultâneamen- variada matéria, o plano qüinqüenal do go-
te, a decadência do poder municipal, com vêrno de Buenos Aires (1947-1951).
a transferência de alguns problemas de go- Êsse plano, que será custeado através
vêrno para âmbito mais geral e complexo. dum empréstimo de trezentos milhões de pe-
Nem por isso deixaria a vida local de sos, compreende obras de grande expressão, de
apresentar seus matizes próprios, porque o urbanismo, abastecimento, saúde pública,
Município, e de modo especial a cidade, é higiene, cultura e assistência social, diversas
o resultado da lenta identificacão de um No setor urbanista, há fortes preocupações
aglomerado humano com deter~inado am- relativamente à formação de "espaços ver-
biente geográfico, não desprezada a in- des", pois Buenos Aires possui apenas 3o/0
fluência dos imperativos históricos, que se de sua área destinada a esta finalidade, e
manifestam, muitas vêzes, na localização da à organização de praças subterrâneas para
sede municipal, por motivos de ordem po- estacionamento de veículos
lítica ou estratégica. As realizacões projetadas no setor de
Se, de um lado, o homem altera a pai- abastecimento dizem respeito à construção
sagem confinante, utilizando, para sua adap- de mercados, enquanto as de saúde pública,
tação, todos os recursos da técnica, por ou- à construção do Sanatório Municipal, de
tro lado o clima, a natureza do solo, o re- hospitais e de institutos odontológicos. No
lêvo, o sistema hidrográfico, a posição, etc., setor de higiene, contam-se remodelacões de
imprimem à comunidade local característi- usinas e de cemitérios E, no setor de cul-
cas diferenciais bem definidas, que ela man- tura e assistência social, sobrelevam a cons-
tém a despeito de uma tendência mundial trução e reconstrução de colônias de férias,
para a estandartização dos hábitos, costumes ampliacão do Teatro Colon e construcão do
e tipos de edificacão. asilo le mendigos. ,
A região, qu.;' imortalizou tantas obras Não se limita a Revista, porém, a di-
literárias, pela fidelidade e colorido com vulgar o "plan dei Gobierno edilicio", mas
que a retrataram alguns escritores, é tema insere, ainda, estudos de política urbanista
sobremodo empolgante para as modernas e informações concernentes à comunidade
investigações geográficas e sociológicas. E portenha.
literatos, geógrafos e sociólogos como que V ale referência especial o magnífico
se completam na fixação dos seus aspectos trabalho acêrca da história das ruas de
mais originais . Buenos Aires, elaborado por determinação
Reportando-se, por exemplo, ao famoso da Comissão Revisora de Nomenclatura Ur-
escritor BLASCO IBAí'IEZ, que, em sua novela bana.
A REFORMA MUNICIPAL
.NA CONS1'ITUIÇAO DE 1946 -
I - Influência das causas da reconstitucio- a entrega do Poder ao Judiciário, realizando
nalização do País na restauração municipal uma obra de readaptaçáo das instituições, e
poupando, assim, aos legisladores, outros
ASSEMBLÉIA Nacional Constituinte maiores esforços.

A de 1946 se reuniu, após oito anos de


suspensão de direitos representativos,
num momento em que a política internacio-
É evidente que essa orientação da As-
sembléia, inspirada num clima de recuperação
de direitos e restauração de liberdades, não
nal se orientava pelos influxos do Direito poderia deixar de se refletir, bàsicamente,
Novo, que é o direito dos vencedores, No na reorganização municipal, não só para pre-
caso particular do Brasil, onde a situação venir vícios históricos, como, também, para
interna se tumultuava pelas competições par- favorecer o revigoramento do interior e, con-
tidárias e pela desorganização econômica, seqüentemente, fixar redutos de ideal demo-
que já atingia fontes vitais, como o comércio crático nas instituições básicas da organização
cafeeiro, aquêles influxos possuíam caráter nacional.
nitidamente anglo-saxão, favorecendo, por No Título I - Da organização Federal,
isto mesmo, na luta contra o poder pessoal, Capítulo I, das Disposições Preliminares -
a restauração dos princípios democráticos, a Nação readquiriu a sua feição federativa,
principalmente o direito de reunião e repre- dispondo o Artigo 1. 0 que "Os Estados Unidos
sentação, Por outro lado, após tão longo do Brasil mantêm, sob o regime representa-
período de suspensão de atividades parlamen- tivo, a Federação e a República". Isto é,
tares, os constituintes tiveram presente no Estados Federados - cada um a se reger
espírito a lição do golpe de Estado de 10 de "pela Constituição e leis que adotar", obser-
novembro de 1937 e, por isto, seus trabalhos vados, porém, os princípios estabelecidos
só voderiarn orientar-se num sentido de pre- (Artigo 18) - constituem a Federação e a
venir o Legislativo contra futuras eventua- República, numa União que compreende ain-
lidades de igual natureza. da o Distrito Federal e os Territórios (Artigo
Ora, entre a necessidade de conciliar 1.0, § 1,0) .
essa orientação com a imperiosidade de um Se os Estados recuperaram, dêsse modo,
Executivo dentro do espírito da época, os a sua antiga importância, conforme aconteceu
meios mais aconselháveis seriam o de favo- quando as Províncias do Império se elevaram
recer o desenvolvimento das idéias democrá- a Estados co-soberanos na República (Dec.
ticas, em todo o País, pela reimposição de n. 0 1, de 15-11-89, Arts. 2 e 3), seria acon-
um sistema político-administrativo capaz de selhável consultar a experiência anterior, com
destruir os resíduos da organização anterior. os fatos que determinaram a revisão do
A êsse respeito, em "Reorganização Muni- federalismo.
cipal", já havia sido apresentada uma fórmu- Na realidade, nesses períodos de revisão,
la: "Na realidade, do unitarismo para a os Municípios passaram a viver sob a pressão
descentralização, por menos obtusa que seja dos Estados, possuindo uma simples autono-
esta, o processo implica: a) desconcentração mia política sem conteúdo. Haveria, dêsse
do poder político; h) descentralização do modo, regressão aos sistemas anteriores, se os
sistema administrativo; c) retração do Exe- constituintes não houvessem previsto os meios
cutivo às justas proporções, dentro de um capazes de prevenir essas nocivas influências.
sistema de harmonia de poderes coordenados; Tais meios podem ser assim definidos:
d) recupemção, por parte dos Estados, de
sua legítima competência, pela constituição a) fortalecimento do legislativo ( Cap.
de seus poderes legais". II, Seção IV, Art. 65 e seus itens; Art 66 e
seus itens; etc.) sem prejuízo do Executivo
Aí estão configurados, realmente, dentro (Cap. III, Seção II, Art. 87 e seus itens;
de um critério apartidário, os princípios fun- Secão III, etc. ) , funcionando independente e
damentais que inspiraram a histórica tarefa ha;mônicamente;
de testauracão dos constituintes de 1946, na h) revigoração dos Estados, pelo resta-
elaboração "de um diploma em que muitos belecimento integral de sua competência de
dispositivos, já consagrados pelas constitui- autogovêrno, ou melhor, de suas "prenoga-
ções anteriores, inclusive a de 10 de no- tivas", mas com enfraquecimento tributário
vembro, passaram a ter realidade de fato. em favor dos Municípios, sôbre os quais não
Enquanto a Assembléia discutia o novo poderão exercer seu antigo poder de contrôle.
Estatuto, o Executivo, ainda favorecido pela O Govêrno Federal poderá intervir nos Es-
bculdade de emitir decretos-leis, foi, desde tados para assegurar a observância do ptin-
142 REVISTA BRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS

cípio da autonomia municipal (Título I, Cap. V - a União entregará aos Municípios


I, Art. 7. 0 , VII, e); do interior, isto é, excluídos os das capitais,
c) restabelecimento integral da autono- 10% do total que arrecadar do impôsto de
mia dos Municípios e seu fortalecimento eco- renda ou provento de qualquer natureza (Art.
nômico, pela revisão do sistema tributário, 15, IV), feita a distribuição em partes iguais
com prejuízo para os Estados. e aplicando-se, pelo menos, metade da im-
portância em benefícios de ordem rural. Na
A Constituição de 1946, dêsse modo,
tributação da renda ou proventos de qualquer
voltou ao federalismo de portas amplas, mas
natureza, de que trata o Art. 15, IV, não se
procurou imunizar a União contra o restabe-
compreendem os atos jurídicos ou os seus
lecimento dos erros de funcionamento que daí
instrumentos, quando forem partes a União,
podem decorrer. É a mais municipalista das
os Estados e os Municípios ou quando incluí-
nossas Constituições, até agora promulgadas
dos na competência tributária estabelecida
ou outorgadas, e, nesse sentido, instituiu um
nos Artigos 19 a 29 (Art. 15, VI, § 5. 0 );
sistema capaz éle transformar os Municípios
VI- os Estados darão anualmente 30%,
no que nunca puderam ser no Brasil, isto é,
aos Municípios do interior, do excesso da
centros não apenas políticos, mas também
arrecadação estadual de impostos, salvo a do
econômicos, fortalecidos pelo seu novo poder
impôsto de exportação, quando aquela arre-
tributário. É o que se verificará, a seguir,
cadação exceder, "em Municípios que não
ressaltando-se, no texto, os dispositivos que
seja o da capital", o total das rendas locais
dizem respeito mais de perto aos Municípios.
de qualquer natureza (Art. 20);
VII - outros tributos, além dos que
li - Os dispositivos de maior inte:rêsse para
forem atribuídos à União e aos Estados, po-
os Municípios, conforme a análise da Cons-
derão ser pelos mesmos decretados, observan-
tituição
do-se, porém, que o impôsto federal excluirá
o estadual idêntico. Os Estados farão a ar-
Se bem que êsse estudo não possa ser
recadação e, à medida que esta se fôr efe-
feito isoladamente, senão a par com disposi-
tuando, deverão entregar 20% do produto à
tivos referentes à estrutura do próprio Estado,
União e 40% aos Municípios onde se realizar
isto é, da própria Federação, o agrupamento
a cobrança (Art. 21);
aqui feito tem o intuito de melhor documen-
tar as considerações anteriores sôbre o espírito VIII - os Estados e Municípios legisla-
municipalista da Constituição vigente. rão sôbre o processo de fiscalização de sua
administração financeira, principalmente no
Veja-se, por exemplo, o Título I, Da
que diz respeito à execução orçamentária, na
Organização Federal, onde a matéria referente
forma estabelecida pelas Constituições esta-
aos Municípios poderia constituir uma Secção
duais (Art. 22);
especial do texto, no qual se fundiriam os
dispositivos esparsos. IX - os Municípios só sofrerão inter-
Pelo Título I, Da Organização Federal, venção estadual para regularização de suas
Capítulo I, Disposições preliminares, observa- finanças (Art. 23);
se inicialmente: X - a intervenção estadual nos Muni-
I - o Govêrno Federal intervirá nos cípios se verificará q~ando houver impontua-
Estados para proibir a reeleição de Governa- lidade no serviço de empréstimo garantido
dores e Prefeitos para o período imediato pelo Estado (Art. 23, I) ou quando os
(Art. 7. 0 , VII, d); Municípios deixarem de pagar, por dois anos
consecutivos, a sua dívida fundada (Art.
I! - intervirá também pata assegurar a 23, II);
observância do princípio da autonomia muni- XI - os Estados poderão criar órgãos
cipal (Artigo 7.0 , VII, e); de assistência técnica aos Municípios
III - a União entregará aos Estados, (Art. 24);
ao Distrito Federal e aos Municípios - pro- XII - à União, aos Estados, ao Distrito
porcionalmente à sua superfície, população, Federal e aos Municípios é vedado estabele-
consumo e produção, nos têrmos e para os cer limitações ao tráfego de qualquer natu-
fins estabelecidos em lei federal - a per- reza, por meio de tributos interestaduais ou
centagem de 60% da renda dos impostos, intermunicipais, ressalvada a cobrança de
que lhe compete decretar, sôbre "produção, taxas, inclusive pedágio, destinadas exclusi-
comércio, distribuição e consumo, e bem as- vamente à indenização das despesas de cons-
sim importação e exportação de lubrificantes trução, conservação e melhoramento de es-
e de combustíveis líquidos ou gasosos de tradas (Art. 27);
qualquer origem ou natureza, estendendo-se XIII- a.autonomia cos Municípios será
êsse regime, no que fôr aplicável, aos mine- assegurada ( A1 t. 28) pela eleição dos Prefei-
rais do País e à energia elétrica" (Art. 15, VI, tos e vereadores (Art. 28, I); pela adnünis-
§ 2. 0 ); a tributação terá a forma de impôsto tração própria, no que concerne ao seu pe-
único, que incidirá sôbre cada espécie de culiar interêsse (Art. 28, II) e especialmente
produto; à decretacão e arrecadacão dos tributos de
IV - a União poderá tributar a renda sua comp~tência e à apli~ação de suas rendas
das obrigações da dívida pública estadual ou (Art. 28, II, a); e à organização dos serviços
municipal, bem como os agentes dos Estados locais (Art. 28, II, b);
e dos Municípios, mas não em limites supe- XIV - os Governadores dos Estados e
riores aos que fixar para as suas obrigações Territórios poderão nomear os Prefeitos das
e proventos de seus agentes (Art. 15, VI, capitais, bem como os dos Municípios onde
§ 3.0); houver estâncias hidrominerais naturais, quan-
ATRAVÉS DAS REVISTAS 143

do benefiçiadas pelo Estado ou pela União XXIII - os Municípios aplicarão nunca


(Art. 28, § 1. 0 ) ; menos de 20% da renda resultante de im-
XV - os Governadores dos Estados e postos na manutencão e desenvolvimento do
Municípios nomearão os Prefeitos dos Muni- ensino, do mesmo ~odo que os Estados e o
CÍpios que a lei federal julgar de especial Distrito Federal, enquanto a União aplicará
interêsse da defesa nacional, conforme pare- 10% (Título VI, da Família, da Educacão e
cer do Conselho de Segurança Nacional (Art. da Cultura, Capítulo 11, Da Educação -e da
28, § 2. 0 ) ; Cultura, Art. 169);
XVI - além dos impostos que, no todo XXIV - os Municípios, do mesmo modo
ou em parte, foram transferidos pelo Estado que os Estados, podem ter símbolos próprios
aos Municípios (Art. 29), pertencem a êstes (Título IX, Disposições Gerais, Art. 195).
o predial e territorial urbano (Art. 29, I);
Vê-se, por aí, numa ligeira síntese, a
de licença (Art. 29, II); de indústrias e pro-
constituição do Direito Municipal Brasileiro,
fissões (Art. 29, III); sôbre diversões públicas
dentro das linhas gerais da Carta Magna em
(Art. 29, IV); sôbre atos de sua economia
vigor, na qual sobressaem, com certo sentido
ou assuntos de sua competência (Art. 29, V);
revolucionário, os dispositivos que visam a
XVII - aos lViunicípios, do mesmo
fortalecer a economia dos Municípios do inte-
modo que à União, aos Estados e ao Distrito
rior, pelo alargamento de sua competência
Federal, compete cobrar contribuicão de me-
tributária.
lhoria, quando se verificar valo~izacão do
imóvel em conseqüência de obras pt'iblicas;
taxas; quaisquer outras rendas que possam III - A autonomia dos Municípios pela
provir do exercício de suas atribuicões e da administração própria no que concerne ao
utilização de seus bens e serviços (Art. 30, I, seu peculiar interêsse e organização dos ser-
li, 111) . Não poderá ser exigida a contri- viços públicos locais.
buição de melhoria em limites superiores à
despesa realizada, nem ao acréscimo de valor O Direito Público moderno, mesmo nos
que da obra decorrer para o imóvel bene- Estados Federais de organização mais elás-
ficiado (Art. 30, Parágrafo único); tica, reviu a doutrina dos lVIunicípios Con-
seqüentemente, daquelas velhas instituições
XVIII - aos Municípios, do mesmo romanas e medievais, que tanto inspiraram a
modo que aos Estados, ao Distrito Federal retórica dos legisladores e publicistas român-
e à União, é vedado criar distincões entre ticos, restam apenas as tradições. As cidades-
brasileiros ou preferências em fav~r de uns estado não comportam mais lugar no tempo.
contra outros Estados ou Municípios; esta-
belecer ou subvencionar cultos religiosos ou Não se pode compreender, assim, o Mu-
embaraçar-ihes os exercícios; ter relação do ntctplO Moderno - mesmo admitindo-se
aliança ou dependência com qualquer culto a sua anterioridade ao Estado - dentro de
ou igreja, se::n prejuízo da colaboração recí- um ponto de vista exclusivamente jusnatura-
proca em prol do interêsse coletivo, recusar lista, pelo qual se lhes atribuiriam direitos
fé aos documentos públicos; lançar impostos naturais, inatos. Essa anterioridade, que se
sôbre bens, rendas e serviços públicos con- comprova na evolução municipal do Brasil,
cedidos; ainda sôbre templos de qualquer foi aqui admitida, nas páginas da formacão
culto, bens e serviços de partidos políticos, colonial, apenas em seu significado hi~tórfco.
instituições de educacão e de assistência so- Realmente, aceitar o Município com diteitos
cial, desde que suas -rendas sejam aplicadas subjetivos próprios, não como Órgãos estatais,
integralmente no País para os respectivos fins; mas como sêres independentes, seria tão fora
finalmente, sôbre papel destinado exclusiva- de época auanto admitir a abstração do indi-
mente à impressão de jornais, periódicos e víduo humano fora da sociedade, conforme a
livros (Art. 31, de I a V, a, b, c. Veja-se o teoria do direito natural individualista.
Parágrafo Único sôbre os serviços públicos e Dentro da doutrina jusnaturalista, os
a isenção tributária); Município:J possuiriam limites absolutos e
XIX - os Municípios, do mesmo modo sagrados, não oodendo o Estado aventurar-se
que os Estados e o Distrito Federal, não a invadir-lhes -os raios de ação próprios, do
poderão estabelecer diferenca tributária em mesmo modo que não poderia chegar aos sa-
razão da procedência, entre bens de qualquer grados direitos naturais do homem isolado.
natureza (Art. 32); Na estrutura jurídica do Estado, o Mu-
XX - aos Municípios, do mesmo modo nicípio Moderno obedece a uma ordem de
que aos Estados, é defeso contrair empréstimo comportamento e ação, ajustando-se, no todo,
externo sem prévia autorizacão do Senado como uma esfera de poder, uma órbita de
Federal (Art. 33); - competência, mas não como entidade co-
XXI - os litígios entre Estados estran- -soberana, um Estado no Estado. É certo
geiros e a União, os Estados, o Distrito Fe- que resulta de condições naturais, de adensa-
deral e os Municípios serão processados e mentos humanos, com problemas peculiares e
julgados originàriamente pelo Supremo Tri- características próprias. Mas, também é certo
bunal Federal (Cap. IV, Do Poder Judiciá- que a sua criação é um problema de técnica,
rio, Seccão II, Art. 1 O1); uma emanação vertical do Direito Positivo.
XXII - a autoridade municipal admi- Entretanto, a negação do jusnaturalismo
nistrará os cemitérios, que terão caráter se- não implica a adoção sistemática de uma
cular (Título IV, Da Declaração dos Direitos, doutrina capaz de levar a compreensão da
Cap. II, Dos direitos e garantias individuais, existência municipal a extremos de técnica,
Art. 141, § lO. o); para admitir os Municípios apenas como pe-
144 P.EVISTA BRASILEIRA DOS MuNICÍPIOS

ças do organismo estatal, sem nenhum direito, Resulta, daí, uma ampla competência le-